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deJesusCristo

dasEscrituras

MartynLioydJones

nam airaan Birninina uirnninA fflffil deJesusCristo dasEscrituras MartynLioydJones

AUTORIDADE

Dr. Martyn

Lloyd - Jones

Tradução de: Daniel e Eunice Machado

NÚCLEO — Centro de Publicações Cristãs, Lda. *

Apartado 1

QUELUZ

Originalmente publicado em inglês, em

Í95X,

com o titulo AlfTHORITY por Inter-Varsity Pre$$> Inter-Varsity Feltowship, Londres. ©Inter-Varsity Cbristian FeUowship Traduzido em português com permissão da Inter- Varsity. Press.

Este livro contém a substância de très prelecções apresentadas pelo Dr, D, Martyn Lloyd-Jones numa conferência da Co­ missão Gera! da União Internacional de Estudantes Evangé­

Orchard, Ontário, em Setembro

de 1975.

licos,

realizada

em

Glen

AUTORIDADE

Poderá conhecer-se a verdade f Haverá uma autoridade absolutaf

A AUTORIDADE DE JESUS CRISTO

Poderá definir-se a verdade?

A AUTORIDADE DAS ESCRITURAS

Qual é a fonte da autoridade? A AUTORIDADE DO ESPÍRITO SANTO

ÍNDICE

INTRODUÇÃO

 

9

I. AUTORIDADE DE JESUS CRISTO

A

1 5

II. A

AUTORIDADE

DAS ESCRITURAS

3 9

III. A

AUTORIDADE

DO ESPÍRITO SANTO

7 9

9

INTRODUÇÃO

Se eu entendo correctamente a situação religiosa moderna, toda esta questão da autoridade é um dos problemas mais importantes com que nos defron­ tamos. Como tal, requer o nosso estudo cuidadoso. Nao há dúvida de que, hoje em dia, as coisas estão como estão na Igreja Cristã, em todo o mundo, por termos perdido a nossa autoridade. Deparamos com o facto de que as grandes massas estão fora da Igreja. E estão lá, acho eu, porque duma maneira ou doutra a Igreja perdeu a sua autoridade. Como resultado, as pessoas deixaram de ouvir ou de prestar qualquer atenção à sua mensagem./Uma grande busca do que se tem perdido caracteriza muitas das actividades da Igreja, presentemente. Creio que este facto é verda­ deiro no que diz respeito a todas as secções da Igreja, incluindo a secção evangélica, a qual, como procurarei mostrar mais tarde, em comum com outras tem estado a tentar produzir um substituto espúrio e artificial. (Outra razão para considerar este assunto é que vários e bem sucedidos movimentos modernos devem o seu êxito, creio eu, à sua ênfase na autoridade. Sem dúvida que o segredo do poder da Igreja Católica

10 Autoridade

Romana está neste facto, em que ela afirma ter auto­ ridade; e as pessoas estão prontas a acreditar que a

tem! Isto é verdade, não apenas no que se refere aos pobres e iletrados, mas também em relação às pessoas intelectuais e sofisticadas que têm lutado com todo o problema da vida e da existência e não têm conse­ guido encontrar satisfação. No fim, estão prontas a capitular e a dizer:. “ Aqui está uma grande Igreja que afirma ter autoridade. Esta Igreja tem subsistido atra­ vés dos séculos. Eu não posso entender tudo o que ela diz; algumas coisas parecem difíceis. Mas no fim de contas, ela fala com a autoridade dos séculos. Aqui está esta grande tradição. Quem sou eu para me opôr

a ela?” E assim capitulam e estão dispostas a crer em tudo o que é proclamado por aquela Igreja./ Pensando no extremo oposto, creio que o sucesso do Pentecostalismo, tomado genericamente, deve ser atribuído à mesma causa. Pois dentro desse movi­

mento parece haver uma nota de certeza e segurança — uma nota de autoridade. Verifica-se o mesmo em muitas seitas cujo êxito se explica também, em grande medida, pela sua pretençào de possuírem autoridade, numa ou noutra forma. Além disso, toda esta questão da natureza da auto- toridade está sendo levantada, penso eu, com muita acuidade nos nossos dias, por movimentos tais como

o Conselho Mundial das Igrejas e a Federação Mun­

dial de Estudantes Cristãos. Por toda a parte está sendo feita esta pergunta: “ Haverá uma autoridade absoluta? Haverá qualquer fonte objectiva desta auto­

Introd u i^o /I I

ridade?” Uma pergunta semelhante é: “ Poderá conhe­ cer-se a verdade? Poderá definir-se a verdade? Poderá ela ser apresentada num certo número de propo­ sições?” Ora, parece-me que por detrás destas questões está a ideia de que a verdade é tão grande e tão maravi­ lhosa que não pode ser definida, e, por conseguinte, não se pode dizer peremptoriamente que este ponto de vista está certo e aquele errado. O resultado é que o homem em geral sente que não existe tal coisa como “ autoridade objectiva” . Um certo autor, escrevendo acerca de um ano, fez a seguinte afirmação: “ O verda­ deiro problema, hoje, está entre a verdade e o funda- mentalismo” . Repara na maneira como ele pôs a questão. O Fundamentalismo, de acordo com esse escritor, não pode estar certo porque afirma que a verdade se pode reduzir a um número de proposições. Um outro erudito, pertencente à mesma escola de pensamento, escreveu um livro no qual resolveu con­ siderar os fundamentos da fé cristã e toda a fonte da nossa posição. No fim, rejeitando toda a ideia de que se possa estabelecer ou definir a verdade em Credos ou Confissões de Fé, ele disse que a situação é mais ou menos esta: Um homem é informado de que, se simplesmente trepar ao cume duma certa montanha, desfrutará uma vista deslumbrante. Lá, estendendo-se diante dele, estará um admirável e maravilhoso pano rama. Muito bem, o homem fica ansioso por apreciar isso. Começa então a escalada. Continua sempre. O sol derrama os seus raios brilhantes sobre ele. Pros­

12/Autoridade

segue na subida, debaixo de calor escaldante e a

despeito do mesmo. Eventualmente, a subida torna-se tão íngreme, que ele terá de se arrastar. À medida que escala certos precipícios tem de se agarrar a pequenas moitas. Mas vale a pena. Vai continuando a subir, com as mãos e joelhos já a sangrar, mas a busca mantém-no em marcha. Finalmente, chega ao cume e eis diante de si o extraordinário panorama. O que é que ele fará então? Tentará reduzir essa vista como que a proposições e apresentá-la em teoremas? É impossível! A coisa é demasiado grande e mais do que magnificente. Ele fica simplesmente de olhos arrega­ lados e boca muito aberta, profundamente maravi­ lhado e extasiado. Não pode descer de novo e des­ crever tudo o que viu e sentiu. Certamente não poderá defini-lo. Isso é impossível. Como não podes analisar

o aroma duma rosa, também não conseguirás reduzir

esta grande e gloriosa verdade a um certo número de afirmações e proposições. Por outras palavras, é algo que só pode ser experimentado, alguma coisa que podes sentir. Poderás dançar por causa dela. Poderás cantar a seu respeito. Mas não a podes apresentar em proposições. Não a podes definir à forma dum credo.

Ora, eu penso que, como evangélicos, é essa a posição mais importante que temos de enfrentar neste tempo presente. Houve uma altura em que tínhamos de nos defrontar com negações absolutas. Não é essa

a posição actual. Em vez disso, afirmam-nos que a

verdade é tão maravilhosa que se não pode definir. Uma pessoa pode dizer isto e outra aquilo. Pedem-nos

Introduçno/1.3

que acreditemos que ambas provavelmente estão cer­ tas. Toda a gente tem razão. Há muitas maneiras de atingir este cume. Portanto, temos de receber bem todos os pontos de vista, e não devemos dizer que um homem não está na posse da verdade por não ter chegado a ela da mesma maneira que nós. Tal escola de pensamento afirma que estas são questões que, por causa da natureza da própria verdade, não podem ser definidas. Por consequência, não podemos falar de certo e errado com segurança. Outra razão que eu aduziria para o estudo do problema da autoridade nos nosso dias está ligada com o desejo dum reavivamento religioso. Qualquer estudo da história da Igreja e, particularmente, dos grandes períodos de reavivamentos ou despèrtamentos demonstra, acima de tudo o mais, este facto: que durante tais períodos, a Igreja Cristã falou sempre com autoridade. A grande característica de todos os avivamentos tem sido a autoridade do pregador. Parecia haver alguma coisa de novo, extra e irresistível no que ele declarava da parte de Deus. A razão final que eu te sugiro é que este assunto da autpridade é, de facto, o grande tema da própria Bíblia. A Bíblia apresenta-se-nos como um livro de autoridade. Então, com estes pensamentos nas nossas mentes, consideremos este assunto. Nos capítulos que se seguem, iremos apreciá-lo sob os três tópicos da Auto­ ridade de Jesus Cristo, das Escrituras e do Espírito Santo.

15

CAPÍTULO I

A AUTORIDADE DE JESUS CRISTO

O homem é uma criatura insatisfeita e infeliz. Está num mundo que não pode compreender, um mundo tão vasto, que o confunde. Ele tem os seus problemas — problemas pessoais e problemas sociais ainda maiores. O mundo inteiro encontra-se num estado de confusão e desordem. Além disso, o homem tem dentro de si um senso de Deus, quer tente negá-lo ou libertar-se dele, quer não. Tem a sensação de que as coisas não são como deviam ser, que ele próprio está destinado a alguma coisa maior. Sente que existe algo mais, Alguém mais. O grande problema do homem através dos séculos tem sido o facto de ele ter vindo a procurar chegar a um conhecimento da ver­ dade última, um conhecimento da realidade final. Ele tem sempre a sensação de que haverá uma solução algures. Por isso, o homem tem estado constantemente a fazer perguntas: “ Se há um Deus, poderá conhecer-se? Se há uma verdade última, e deve haver, como é que poderei chegar até ela?” Ele tem tentado encontrá-la

H>/Autoridade

de várias maneiras. Alguns dizem que é algo de ins­

tintivo, que o processo de o homem encontrar Deus e

a verdade é debruçar-se sobre si mesmo. Esta é a

doutrina da “ Luz Interior” , ou seja, o caminho dos

místicos. “ Nao raciocines, não tentes compreender”,

fundamento de Deus está, por assim

dizer, dentro de ti mesmo. Portanto, mergulha na contemplação do teu próprio ser e encontrarás Deus” . Ora, este tipo de pesquisa reveste-se de muitas formas modernas e populares que não precisamos de referir aqui. Mas têm isto em comum — todas andam em busca desta certeza, todas procuram Deus.

dizem eles, “ O

No outro extremo, encontram-se os que afirmam que é tudo uma questão de razão pura, ou de sabedoria. Por conseguinte, deves observar cientifi­ camente. Tens de sair e observar a natureza, notar

a sua ordem e o seu desígnio, e assim por diante.

Depois, precisas de elaborar os teus argumentos. Ou então, terás de examinar mais de perto a história, onde verás uma linha, um plano, um propósito. Sem dúvida que tem de haver uma mente atrás de tudo isso. É assim que a filosofia e a razão encaram o problema. Mas isto conduz, inevitavelmente e sempre, ao fracasso. Encontramos esta situação perfeitamente descrita no livro de Edesiastes. Ali lemos as conclu­ sões a que chegou um homem sábio que tentou tudo isso. Tratava-se dum homem culto. Tinha a melhor educação e vantagens do seu tempo. Ele experimentou a sabedoria, como também experimentou riquezas e prazer, e havia seguido vários outros processos de

A Autoridade

de Jesus

Cristo/17

resolver o problema. Mas regressou sempre ao mesmo ponto: “Vaidade de vaidades, tudo é vaidade” . Talvez

tu penses que um tal homem teria atingido o cume;

mas subitamente, ele descobre que foi apanhado num

círculo e que começa a voltar para trás e para baixo,

de novo. “Tudo” , diz ele, “ vai girando em círculos!”

Pelos teus próprios esforços, nunca chegarás a este conhecimento absoluto. O apóstolo Paulo resume isto

na sua própria maneira cortante, afirmando duma vez

para sempre: “ O mundo pela sabedoria não conheceu

a Deus” . E o mundo pela sabedoria ainda não

conhece a Deus. Tente o que tentar, não conseguirá chegar lá. E isto é inevitável, por duas razões. Pri­ meira, porque Deus é Deus. Ele é eterno e infinito em majestade e poder. Acima de tudo, Ele é santo. E o homem não é só finito, é também pecador. Por defi­ nição, o homem nunca pode chegar a uma plena compreensão de Deus. Isso é completamente impos­ sível. O que se deve fazer então? O homem tem de chegar ao ponto de reconhecer o seu fracasso e o facto de que não é mais que uma criança. Que poderá ele fazer? Não lhe resta qualquer esperança, a não ser que Deus, na sua bondade, graça e amor, decida revelar-se a Si mesmo. Ora, a posição absoluta que nós defendemos c que Deus já fez definitiva e exactamente isso, e, a menos que o indagador chegue a esse ponto, não há real­ mente, nenhuma base para discussão. Deixa-me defi­ nir isto com palavras de Blaise Pascal, esse grande

18 Autoridade

matemático e dentista francês: “ A suprema conquista da razão é levar-nos a ver que há um limite para a razão” . Quanto a mim, está aí o ponto de partida. Usa a tua razão, usa o teu intelecto; faz isso hones­ tamente e chegarás a concluir que há um limite para a razão. Então, espera. E nessa altura, que Deus, na Sua infinita graça e bondade, nos encontra na revelação.

O FACTO CENTRAL DE CRISTO

Ora, logo que nós, como cristãos evangélicos abor­ damos este grande tema da revelação, chegamos imediatamente ao facto grandioso e central do Senhor Jesus Cristo. Deus tem-Se revelado doutras maneiras. Tem-Se revelado a Si mesmo na natureza, e o apóstolo Paulo argumenta em Romanos (ver. 19 e seg.) que nós não temos desculpa se não O virmos lá. Todavia, nós não vemos Deus na natureza como Ele real mente é, por causa do nosso pecado. A revelação está lá, mas nós não a descobrimos. Deus tem-Se revelado também na história. Além disso, revelou-Se a Si mesmo, de várias maneiras, aos pais, no Velho Testamento. Mas, como cristãos evangélicos, nós começamos com o facto grandioso e central do Senhor Jesus Cristo. Toda a Bíblia é, na realidade, acerca d'Ele. O Velho Testamento olha para Ele no futuro. Diz-nos que Alguém está para chegar. A promessa parece vaga, nebulosa e indefinida em alguns pontos, mais clara e mais específica noutros. Mas está lá. Deus vai fazer alguma coisa, e Alguém está para vir. Finalmente, a

A

Autoridade

de

Jesus

C'nsro/19

Voz será ouvida. Irá falar uma Autoridade. A atitude do Velho Testamento é a de quem, por assim dizer, espera em bicos de pés. Então, claro, logo que chegamos ao Novo Testamento verificamos que este

se encontra cheio d’Ele. Nesta altura, e com vista a tomar tudo isso prático,

desejo pôr em evidência esse facto. Quando o após­ tolo Paulo (o nosso grande exemplo neste assunto de

pregação, ensino e evangelização) foi a Corinto, tomou uma certa decisão. Quaisquer que fossem as razões, Paulo determinou solenemente em Corinto:

“ nada me propus saber entre eles, senão a Jesus Cristo, e este crucificado” . Esta foi uma decisão deli­ berada, reforçada por uma forte determinação da sua parte.Por outras palavras, Paulo resolveu que não iria gastar o seu tempo argumentando com eles acerca de pressuposições. Não iria começar com um argumento filosófico preliminar, para depois os guiar gradual­ mente até à verdade. Não! Ele começa por proclamar com toda a autoridade o Senhor Jesus Cristo. E em Gálatas 3:1 usa mesmo um termo mais forte, pois recorda aos gálatas que “ representa” Cristo crucifi­ cado diante deles. Paulo era como um cartaz ambu­ lante, um homem levando um cartaz. Lá também começou com Jesus Cristo. Sinto cada vez mais que temos de voltar a isso. Pergunto a mim mesmo se a apologética não terá sido

a maldição do cristianismo evangélico durante os

últimos vinte ou trinta anos. Não estou a dizer que a

apologética não seja necessária, mas tenho a impres­ são de que temos defrontado o mundo na base da

20/Aururidadc

apologética, com um certo tipo de sabedoria mun­ dana, em vez de (como o apóstolo Paulo) determi­ narmos nada saber “ senão a Cristo crucificado” . Temos de nos tornar loucos por amor de Cristo, diz Paulo. “ Se alguém de entre vós se tem por sábio neste mundo, faça-se louco para ser sábio” (I Cor. 3:18). Nós afirmamo-lO, proclamamo-lO, começamos com Ele, porque Ele é a autoridade suprema e final. Par­ timos do facto de Jesus Cristo, porque Ele está realmente no centro de toda a nossa posição, e todo o nosso argumento assenta n’Ele,/ Acho interessante e bastante estranho que nós próprios, como evangélicos, pareçamos esquecer sem­ pre isto. Suponho que uma das razões poderá ser a nossa familiaridade com as Escrituras. Somos cul­ pados de “ não vermos o bosque por causa das árvo­ res” . Estou convencido de que a maior parte dos nossos problemas hoje em dia são devidos ao facto de que temos ficado tão imersos em detalhes secundários, que perdemos a visão do conjunto. Deixamos de ver o todo, por causa do nosso interesse em certas partes/ Se ao menos pudéssemos voltar atrás e olhar simples­ mente para o Novo Testamento e para toda a Bíblia com olhos novos, creio que ficaríamos bastante admi­ rados com o facto de que a afirmação verdadei­ ramente grande, feita em todo o Novo Testamento, é a da suprema autoridade do Senhor Jesus Cristo. Se o que eles dizem a respeito de Jesus Cristo não é verdade, então, na realidade, não têm muito para nos oferecerem.

A Aiiroriítade

de Jesus

Cristo/21

O TESTEMUNHO DOS EVANGELHOS

Deixa que te recorde, em poucas palavras, o caso que é apresentado no Novo Testamento para esta afir­ mação da autoridade final e suprema do Senhor Jesus Cristo. E interessante notar como o Novo Testamento afirma o facto, logó no princípio de todas as suas declarações. Faz isso exactamente no início dos evan­ gelhos. Repara em Mateus 1:23. Lemos a í— Isto vai acontecer, a fim de que se possa cumprir a promessa que diz, “ Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e chamá-lo-ão pelo nome de Emanuel, que tra­ duzido é: Deuâ connosco” . Está ali, logo no início, na própria introdução ao Evangelho. Da mesma maneira, quando o anjo aparece a Maria na anunciação, faz esta impressionante declaração acerca dessa “ coisa santa”, a criança que ela havia de dar à luz: “ E o seu reino não tefá fim” . — o Senhor universal e eterno. Depois, como certamente te recordas, o anjo, falando aos pastores, disse: “ Na cidade de David vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo o Senhor” . Ora, é este tipo de • asserção que é feita logo no princípio. Que tragédia, que tantas vezes na nossa pura familiaridade com as Escrituras não nos aperce­ bamos de coisas tais como esta. Estes Evangelhos foram escritos tendo em vista um objectivo definido e deliberado. Nao foram escritos simplesmente como relatos ou meras colecções de factos. Não, não há dúvida absolutamente nenhuma de que eles tinham um ponto de vista especial a comunicar. Todos apre­

22

' Antoridiiík*

sentam o Senhor Jesus Cristo como o Senhor, como esta autoridade suprema.

A mensagem de João Baptista foi essencial mente a

mesma. Ei-lO de pé, sozinho, depois de pregar e de baptizar as pessoas no Jordão, quando se apercebe do murmúrio do povo. Eles falam uns com os outros e dizem: “ Sem dúvida que este tem de ser o Cristo. Nunca antes ouvimos pregar desta maneira. Ao olhardes para o seu rosto, não sentistes a sua autoridade? Este tem de ser o Messias pelo qual temos esperado” . Mas

João volta-se para eles com desdém, dizendo: “ Eu não sou o Cristo” . “ Eu, na verdade, baptizo - vos com água; mas eis que vem aquele que é mais pode­ roso do que eu, a quem eu não sou digno de desatar

a correia das alparcas; esse vos baptizará com o

Espírito Santo e com fogo: ele tem a pá na sua mão;

e limpará a sua eira, e ajuntará o trigo no seu

celeiro, mas queimará a palha com fogo que nunca se apagará (Lucas 3:16-17). Repara na asserção:

“ Eu não sou o Cristo, eu não sou o que tem auto­ ridade. Sou a preparação. Sou o precursor, o arauto. Ele é a autoridade. Ele ainda está para vir” . De novo, toda a ênfase está em afirmar a autoridade do nosso Senhor. Quão cuidadosos são estes Evangelhos em porem em evidência, repetidamente, esta prerrogativa! Depois, há algo mais que eles enfatizam, alguma coisa que é da própria essência de toda esta questão da autoridade. E o relato do que aconteceu no baptismo do nosso Senhor. Ali, Jesus submete-Se ao baptismo administrado por João. Parece ser um ho­

A Autoridade

de Jesus

Crisro/23

mem como tôdos os outros, um pecador, afinal dc contas, pois precisa de ser baptizado exactamente como eles. Mas ei-lO que vem saindo da água. quando o Epírito Santo desce sobre Ele como uma pomba. Ainda mais importante é aquela voz, a voz da autenticação que veio do céu, dizendo: “Este é o meu Filho amado, em que me comprazo” (Mateus 3:17). Lá está de novo a ênfase importante sobre a Sua autoridade. No Monte da Transfiguração usa-se lin­ guagem semelhante, mas há uma adição muitíssimo significativa e importante. Mais uma vez, a Voz veio da excelente glória e disse: “ Este é o meu amado Filho, em quem me comprazo: escutai-o” (Mat. 17:5). Por outras palavras, “ Este é aquele que deveis ouvir. Estais à espera duma palavra; aguardais uma resposta para as vossas questões. Andais à procura duma solução para os vossos problemas; tendes estado a consultar os filósofos, tendes andado a escutar, e tendes perguntado: “ Onde poderemos encontrar a autoridade final? “Aqui está a resposta do céu, de Deus: “ Escutai-o” . De novo, como vês, destacando-O, erguendo-O diante de nós como a última Palavra, a Autoridade suprema, Aquele a Quem nos devemos submeter, a Quem devemos escutar. Ora, eu escolhi estes incidentes, porque eles cons­ tituem alguns acontecimentos mais cruciais registados nos Evangelhos. Não devemos considerá-los mera­ mente como eventos na vida terrena do nosso bendito Senhor. São-no realmente, mas estão registados de tal forma, que este ponto importante deve sobressair— a

24 Autoridade

Sua autoridade única e final. Tudo no Evangelho parece estar a isolá-IO e a focar a atenção sobre Ele, incluindo mesmo a Voz do próprio céu.

AS DECLARAÇÕES PRÓPRIAS DO NOSSO SENHOR

Chegando-te ainda mais directamente ao próprio Senhor, encontrarás algumas outras características importantes. Repara, por exemplo, no Seu ensino. Que cuidado Ele teve em dizer sempre “ meu Pai e vosso Pai” . Nao diz, “nosso Pai” , diz “ meu Pai” . Ensina os Seus discípulos a dizerem “ Pai nosso” mas nunca Se inclui a Si mesmo com eles. Jesus empenha- -Se sempre em salientar esta diferença — que Ele é o Filho do homem. É homem e, todavia, não é só homem. Também em Mateus 11:27, temos essa

grande afirmação tão definida e específica, onde Ele diz: “ Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem

o Filho O quiser revelar” . Esta é uma reivindicação

muitíssimo exclusiva e deveras importante a termos sempre em mente. Jesus diz também: “Eu sou o caminho e a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai,

senão por mim” (João 14:16). “Eu sou a luz do mundo” , Ele fez frequentes declarações e afirmações dessa natureza. Depois, nota, particularmente no Sermão da Montanha, a maneira pela qual Ele deli beradamente Se apresenta como o Mestre autorizado.

“ Ouvistes que foi dito aos antigos

Eu porém vos

A

Autoridade

de Jesus

Crisro/25

frequentou as

escolas, que não era fariseu. O povo dizia: “ Como

Ele não

hesita. De pé, declara com autoridade — “ Eu” . \ Precisamos de nos lembrar que é esta ênfase carac terística e pessoal que O distingue totalmente dos profetas. Esses profetas do Velho Testamento foram homens poderosos. Foram grandes personalidades, independentemente de serem usados por Deus e ungi­ dos pelo Espírito Santo. Mas não há um único de entre eles que alguma vez tenha usado este “ Eu” . Todos declararam: “ Assim diz o Senhor” . Mas o Senhor Jesus Cristo não fala dessa maneira. Afirma:

digo” . Eis aqui

uma

Pessoa

que não

sabe este

letras,

não as

tendo aprendido?”

“ Eu vos digo” . Imediatamente estabelece uma dife­

rença entre Ele próprio e todos os outros. Parece estar

a dizer que “ chegou o tempo da autoridade final”.

Jesus salienta constantemente este facto no Sermão da Montanha. Não contrasta apenas o Seu ensino com as

tradições dos pais, os ensinos abalizados dos fariseus

e dos doutores da lei. Ele nem mesmo hesita em

interpretar a Lei de Deus dada através de Moisés ao

povo de Israel, de uma maneira peremptória. Vai

“ olho por olho e

dente por dente” , cpmo tinha sido ordenado naquela altura. Agora ó: “Amai os vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem” . Quando conclui esse grande ser­ mão, fá-lo proferindo uma das coisas mais impres­ sionantes e espantosas que jamais havia dito: “ Aquele pois que escuta estas minhas palavras e as pratica, assemelhá-lo-ei ao homem prudente que edificou a sua

mesmo para além disso. Já não é

26/Autoridadc

Aquele que ouve estas minhas

palavras e as não cumpre, compará-lo-ei ao homem insensato que edificou a sua casa sobre a areia” . “ Repara que, aí, toda a Sua ênfase está sobre “estas minhas palavras” . Aí está a Sua afirmação de que Ele

casa

sobre a rocha

é a autoridade final. E se é possível acrescentar algo a

uma tal declaração, Ele fê-lo quando disse: “ Os céus e

a terra passarão, mas as minhas palavras não hão-de passar” . Nada mais há para além disso.

ACÇÕES E ASSERÇÕES DIRECTAS DO NOSSO SENHOR

Continuando, apreciemos as Suas palavras. Exami­ nemos os milagres. O que é que eles visavam conse­

guir? Claro que eram actos de bondade, mas esse não

era o seu objectivo primordial. João,

gelho, salienta constantemente que eramjinais. Cons­

tituíam sinais deliberados, efectuados por Jesus com o propósito de afirmar e atestar a Sua própria Pessoa e

no seu Evan­

a

Sua própria autoridade. Destinavam-se a autenticar

o

facto de que Ele era o Messias prometido. Uma vez

que existe tanto ensino frouxo e sentimental acerca deste assunto nos nossos dias, nunca esqueçamos que

o principal objectivo dos milagres era simplesmente

atestar a Pessoa do nosso Senhor, afirmar a Sua auto­ ridade e estabelecer que Ele era realmente o Filho de

Deus.

Depois,

Ele

próprio declara

noutro

isso em muitas

bastante

ocasiões.

notável.

repara

incidente

A Autoridade

de Jesus

Cristo/27

Certo dia, Jesus vai caminhando e vê um homem chamado Mateus, assentado na alfândega. Nao hesita em enfrentar esse homem durante a hora de serviço em lhe dizer: “ Segue-me” . E Mateus levantou-se, deixou tudo e seguiu a Jesus. Noutra altura, vai ter com os filhos de Zebedeu e diz a mesma coisa. Também estes deixam os barcos, as redes, o pai, e tudo mais. Aqui está Um que não hesita em falar de um modo totalitário, ao ordenar-lhes: “ Segui-Me” . E eles foram e seguiram-nO. Isso é o Evangelho em acção. Isso é evangelização, É assim que a Igreja nasce. É desse modo que o trabalho de Deus é levado por diante. Mas Jesus foi mesmo além disso! Não hesita em afirmar que tem poder para perdoar pecados. E en­ frentou muitos problemas por declarar tal coisa. “ Quem pode perdoar pecados, senão Deus?” — di­ ziam as pessoas. Mas Ele perdoa realmente os peca­ dos. Afirma que possui a autoridade e o poder e vai prová-lo. Por isso, diz ao homem: “Toma a tua cama

e anda” ,

perdoar pecados. Tudo isto é simplesmente uma ques­ tão de autoridade. Tantas vezes, quando nós, minis­ tros, pregamos através dos Evangelhos, pegamos nes­

tas coisas e transformamo-las em parábolas, acom­ panhadas de pequenas mensagens agradáveis e repou­ santes. Mas de facto, não estamos a ver o ponto. Devíamos estar a pregar o Senhor Jesus Cristo e a afirmar Sua autoridade. O que muitos tendem a fazer hoje em dia, é isto:

como sinal de que também tem poder para

28/ Autond.uk1

Dizem assim: “ Aceita o cristianismo. Ele compensa. Sou testemunha disso” . Portanto, apresenta-se uma breve mensagem e depois chamam-se as pessoas a dar testemunho. Por que é que se há-de esperar que elas queiram aceitar o cristianismo? Porque dá resultado. Consegue-se isto ou aquilo. Promete-te felicidade. Dá-te paz e alegria. Eu acho que isto é falsa evange- lização. (A nossa única responsabilidade é pregar o Senhor Jesus Cristo, a Autoridade final. A ordem que temos é de declará-lO e de mostrar que os homens e as mulheres terão de O enfrentar.,' As seitas podem apresentar-te “ resultados” . A Ciência Cristã pode dizer-te que se fizeres isto ou aquilo irás dormir bem toda a noite, deixarás de te preocupar, sentir-te-ás mais saudável e as dores e o mal-estar desaparecerão. Todas as seitas podem fazer coisas desse gênero. Nós não devemos fazer isso. Devemos declará-/0 e levar as pessoas a ficarem face a face com Ele. Era esse o Seu próprio método. Selecionei estes casos para te mostrar que todo o Novo Testamento visa claramente convencer-nos da autoridade de Jesus Cristo. E evidente que se Ele não

é quem afirma ser, não há qualquer necessidade de O

escutar. Se é, então temos a obrigação de O ouvir e de

fazer seja o que for que Ele nos mande. Não é a

minha própria felicidade que serve de critério. Se Ele permite que eu continue doente ou com problemas, mesmo assim — diga Ele o que disser, eu responderei, “ Sim, Senhor” . Farei isso porque Ele é o Senhor. Ele é

a Autoridade.

A Autoridade

de Jesus

Cristo/29

A ATITUDE DE OUTROS PARA COM JESUS CRISTO

Além disso, os Evangelhos mostram muito clara­

mente que este facto foi apreciado pelos Seus contem­ porâneos. O povo que O escutava fez este interessan­ tíssimo comentário no final do Sermão da Montanha:

“ Este homem fala com autoridade, não como os

fariseus e escribas”

Ele não passou o tempo a dizer, ‘Ora bem, Hillel ensinou isto, mas por outro lado Gamaliel sugere aquilo’.” Jesus não citou uma porção de autoridades explicando as suas posições e terminando por deduzir alguma coisa por Ele mesmo. De modo nenhum. Simplesmente falou sem rodeios, com autoridade.

“ Reparastes” , disseram eles, “ que

Lembras-te dos soldados que em certa ocasião foram enviados para O prenderem? Regressaram sem o prisioneiro, e os seus chefes olharam para eles e

perguntaram: “ O que é que isto significa? — onde está o preso? A única resposta que conseguiram dar, foi: “ Nunca homem algum falou como este homem”

Havia algo na Sua própria maneira de

pronunciar, no Seu tom de voz, no Seu modo autori­ tário que os impediu de lhe porem as mãos.

(João

7:46).

Nota também como os Evangelhos salientam cons­

tantemente que o

era causar admiração. O relato diz: “Glorificavam a Deus” . O povo afirmava: “ Hoje vimos coisas extraor­

efeito principal dos Seus milagres

dinárias” . Não se detinham meramente no milagre e nos seus efeitos benéficos. Não! Estavam conscientes

?0 Autoridade

da presença e acção de Deus. Algumas vezes os pró­ prios discípulos reagiram a um milagre, ficando cheios de medo. Isto é completamente diferente do tipo de coisas que em alguns países se podem ver na televisão, hoje em dia, quando se opera um suposto milagre e as pessoas batem palmas, gritam e riem mesmo. Não! Os discípulos “ encheram-se de temor” . Porquê? Tinham percebido o poder e a presença de Deus. “ Glorifi­ cavam a Deus” . Um sentimento de temor envolvia as pessoas. Isto era verdade no que respeita às pessoas em geral. Mas lemos que mesmo os demônios O reco­ nheciam. Quando O viram aproximar-Se, disseram:

“ Por que vieste atormentar-nos antes do tempo?”

“ Sabemos quem és, o Santo de Deus” ./Conheciam-nO

e tinham medo d’Ele e da Sua autoridade. Pensa nos demônios que atormentavam o homem da região dos gadarenos. “ Não nos lances fora deste país” , supli­ caram eles. Reconheceram-nO imediatamente. Procla- maram-nO e, em certo sentido, tremeram perante a Sua autoridade. Estas coisas não estão registadas acidentalmente. Não são meros detalhes incluídos para fazer um quadro perfeito. Há sempre um pro­ pósito, c esse é fazer sobressair a Sua autoridade. De facto, mesmo os Seus inimigos reconheceram isso claramente. Notaram que Ele afirmava ser Deus. Repara, por exemplo, em João 10:33. Todos pareciam reconhecer o facto, e os Seus próprios discípulos, vacilantes e desajeitados, o confessaram algumas ve­ zes. Pedro fez a grande declaração em Cesareia de

A Autoridade

de Jesus

Cristo/31

Filipo, “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” . (Mateus 16:16). Numa outra ocasião, o nosso Senhor, depois de ver as pessoas a retirarem-se, voltou-Se para os discípulos e perguntou: “ Quereis vós também reti­ rar-vos?” Pedro respondeu de novo, talvez nem sa­ bendo plenamente o que dizia: “ Para quem iremos nós?” “ Quem mais tem autoridade?” “Tu tens as palavras da vida eterna. E nós temos crido e reconhe­ cido que tu és o Cristo, o Filho de Deus” (João 6:66- -69). Por outras palavras, os apóstolos reconheceram, “ Não há mais ninguém. Tu és a Autoridade última e suprema” .

SUA MORTE, RESSURREIÇÃO E ASCENSÃO

isto,

aparente fraqueza, morreu e foi sepultado num tú­ mulo. É neste ponto que a Sua autoridade resplandece mais gloriosa e ousadamente. Jesus venceu a própria morte, e o facto de se erguer da sepultura é a prova máxima da Sua autoridade. E assim temos o incidente vital e importante que diz respeito a Tomé. O incré­ dulo Tomé é informado de que Ele ressuscitou, mas não consegue acreditar nisso. Parece-lhe incrível, e, todavia, quando O vê e é desafiado a pôr a mão e o dedo nas feridas, Tomé cai a Seus pés e diz: “ Senhor meu e Deus meu” (João 20:24-28).

Contudo, temos de ir mesmo além da ressurreição, porque vemos que estes discípulos, depois de O terem

A

despeito

de

tudo

Ele

foi

crucificado

cm

M /Autoridade

ouvido, viram-nO subir para o céu. Lemos: “ E, ado­ rando-o eles, tornaram com grande júbilo, para Jeru­ salém” . Há uma tendência por parte dos evangélicos para menosprezar a ascensão. Mas ela encontra-se nas Escrituras e é posta em evidência não só nos Evange­ lhos, mas também nos Actos dos Apóstolos. A ascen­ são é uma parte vital do testemunho sobre a auto­ ridade de Cristo.

O TESTEMUNHO DE OUTROS ESCRITORES DO NOVO TESTAMENTO

Em primeiro lugar, apreciemos o livro de Actos. Creio que todos nós devíamos dar mais atenção às introduções dos livros do Novo Testamento, pois muitas vezes elas definem a razão do livro. Repara, por exemplo, na introdução a Actos: “ Fiz o primeiro tratado, ó Teófilo, acerca de tudo que Jesus começou, não só a fazer, mas a ensinar” . “ Aquilo sobre que eu vou escrever agora” , diz com efeito o escritor, “ é o que Ele continuou a fazer” . Ora, há os que dizem que este livro devia ser chamado Actos do Espírito Santo. Eu creio que o primeiro versículo deita por terra essa sugestão, por mais interessante que ela possa ser. “ O que Jesus começou, não só a fazer, mas a ensinar” , e as obras que Jesus continuou a fazer. É esse o tema deste grande livro. Aqui deparamos com a história do crescimento da Igreja Cristã. Quem é que o está a realizar? A resposta registada em Actos diz-nos que o

A

Autoridade

de Jesus

Cristo/.H

Senhor Jesus é Quem está a fazer isso. Lembra-te do que Ele disse a Pedro, em Cesareia de Filipo, “Eu edificarei a minha igreja” . Nunca esqueçamos que o Senhor Jesus ainda é o construtor. É Ele que está a edificar a Igreja. Em segundo lugar, precisamos de considerar aquele significativo acontecimento que teve lugar no Dia de Pentecostes, registado no segundo capítulo do Livro de Actos. A descida do Espírito Santo sobre a [greja no Dia de Pentecostes é, penso eu, a asserção decisiva da suprema autoridade do Senhor Jesus Cristo. Em João 16:8-11, Ele diz: “ E quando ele (o Espírito) vier, convencerá o mundo do pecado e da justiça e do juízo. Do pecado porque não crêem em mim; da justiça porque vou para meu Pai, e náo me vereis mais; e do juízo porque já o príncipe deste mundo está julgado” . Muitas vezes interpretamos estes versí­ culos como significando que Ele estava simplesmente a dizer que na dispensação da graça o Espírito Santo convencería os indivíduos do pecado, da justiça e do juízo. Sem dúvida que isso é verdade. Mas cada vez estou mais convencido de que existe muito mais do que isso no sentido das palavras do nosso Senhor. Estou inteiramente de acordo com os que afirmam que o que Ele está a dizer, realmente, é isto: “ A vinda do Espírito Santo é a prova decisiva de que Eu sou o Filho de Deus” . “ Do pecado porque não crêem em mim” . Eles não dariam ouvidos à Sua palavra. Não prestariam atenção às Suas obras. Nem mesmo acre­ ditariam no testemunho a respeito da ressurreição.

34/Aurondadc

Mas havia sido profetizado que Ele enviaria o Espírito Santo. Ele mesmo tinha também prometido fazê-lo. Daí que, se não tivesse enviado o Espírito Santo, as Suas declarações teriam caído por terra. Ele teria falhado. A vinda do Espírito Santo, o dom do Espírito Santo é a prova concludente de que Ele é o Senhor da Glória. Havia realizado o trabalho que fora enviado a fazer. Tinha vencido todos os inimigos. Recebera o Dom do Pai e agora enviava-O. É esse o argumento do Dia de Pentecostes. Por conseguinte, temos de pensar sempre nesse dia como sendo o último na grande série de actos pelos quais Jesus substancia a Sua declaração de que é o Senhor da Glória. É tam­ bém a prova de que a Sua justiça é aceite por Deus, e de que o “ príncipe deste mundo” já está julgado. O diabo, o usurpador, que tem estado a controlar os homens, já perdeu essa posição. Nunca esqueçamos isso. Ele foi expulso. Presentemente, é o Senhor Jesus que reina e governa. Prossigamos então para vermos o desenrolar de tudo isto no Livro de Actos. Pedro e João vão ao templo à hora da oração e vêm um homem inválido sentado junto à porta Formosa do templo. Que acon­ tece? Lembras-te da sua fórmula? “ Em nome de Jesus Cristo o Nazareno, levanta-te anda” . Ele levantou-se, e as pessoas aproximaram-se e ficaram maravilhadas e atônitas. Começaram a louvar os apóstolos, mas Pedro disse: “ Nao olheis para nós. Não foi pelas nossas próprias palavras ou poder que pusemos a

A

Autoridade

de Jesus

Cristo/35

andar este inválido. O Seu nome, pela fé no Seu nome, deu a este homem esta perfeita saúde, na presença de todos vós” (Ver Actos 3:1-16). De novo, em Actos 4, quando os discípulos são levados perante as autoridades e proibidos de pregar mais neste nome, só há uma resposta a dar: “ Debaixo do céu, nenhum outro nome há dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos. “ Este é o único nome. A tradução devia ser “ Nao há segundo” . Jesus Cristo não é uma nova série, não representa uma autoridade entre um determinado número de autoridades. Ele ergue-Se só. No Novo Testamento Ele é a única Autoridade. E assim continua ao longo de todo o livro. Ao pregar a Cornélio e à sua casa, Pedro diz uma vez mais: “Jesus Cristo é o Senhor de todos” (Ver Actos 10:36). O mesmo ressalta do ministério de Paulo que, sendo apanhado na sua corrida de violenta oposição e perseguição à Igreja Cristã na estrada de Damasco, e descobrindo com espanto que o Jesus que ele tanto havia desprezado e odiado não é outro senão o Senhor da Glória, clama, perguntando: “ Senhor, que queres que eu faça?” O testemunho das Epístolas é o mesmo por toda a parte. Paulo diz aos Romanos que é “ servo de Jesus Cristo” e “ separado para o evangelho de Deus” . A sua pregação é “ acerca de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor, que nasceu da descendência de David segundo a carne, declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos” . Pedro é igualmente peremptório quando diz: “ Porque

36/Âuroridade

não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas; mas nós mesmos vimos a sua majestade.

Porquanto ele recebeu de Deus Pai honra e glória, quando da magnífica glória lhe foi dirigida a seguinte voz: Este é o meu Filho amado em quem me tenho comprazido” (II Pedro 1:16-17). E João afirma do mesmo modo: “ O que era desde o princípio, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contem­ plado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida, (Porque a vida foi manifestada, e nós a vimos, e testi­ ficámos dela, e vos anunciámos a vida eterna, que estava com o Pai, e nos foi manifestada)” (I de João 1:1-2). O termo característico usado para Jesus Cristo nas epístolas do Novo Testamento, é “o Senhor” . Isto, como J. G. Machen disse certa vez,

é “ a designação

da divindade” , e o consenso geral

é que ele apresenta no Novo Testamento todo o signi­ ficado do termo “Jeová” no Velho Testamento. Há inúmeras declarações que de modo explícito afir­ mam a divindade e supremacia de nosso Senhor Jesus Cristo. Talvez nenhuma seja mais forte de que a de Colossenses 2:9, onde o apóstolo declara: “ Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divin­ dade” , ou a de I Coríntios 2:8, onde o apóstolo se refere a Ele como “ Senhor da Glória” . Depois há aquela famosa afirmação em Filipenses 2:9-11, na qual o autor declara em termos ousados e impressio­ nantes que Aquele que percorreu esta terra como Jesus de Nazaré e foi crucificado na cruz, tinha anterior-

A Autoridade

de Jesus

Cristo/37

e “ não teve por apóstolo termina

dizendo que, tendo em vista tudo o que Ele fez, “ também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão no céu e na terra e debaixo da terra, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor para glória de Deus Pai” . Todavia, nenhuma é mais importante do que a afirmação inicial da Epístola aos Hebreus, onde le­ mos: “ Havendo Deus antigamente falado, muitas vezes e de muitas maneiras aos Pais pelos profetas, a

nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho, a quem constitui herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo. O qual, sendo o resplendor da sua glória e a expressa imagem da sua pessoa, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação, assentou-se à dextra da majes­ tade nas alturas” . Assim também o último livro da Bíblia, que nos diz que a sua verdadeira essência é a “ Revelação de Jesus Cristo” . E Ele que domina o livro inteiro. Só Ele é suficientemente forte para desatar os selos do livro da história. Ele é aquele que, finalmentc, triunfa sobre todos os inimigos de Deus e reina em glória. Vemos assim, que todo o Novo Testamento, desde os Actos até ao Apocalipse, não é senão a confir­ mação e a aplicação das Suas declarações, “ Eu ediíi- carei a minha igreja” c “ todo o poder me foi dado no céu e na terra. Portanto ide, ensinai todas as nações.

mente sido “ em forma de Deus” usurpação ser igual a Deus” . O

38/Auroridadc

baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espí­ rito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos” . (Ma­ teus 28:18-20). Ele tem exercido e está exercendo

toda a autoridade e poder. “ Ele tem de reinar até

todos os seus inimigos sejam postos por escabelo dos

seus pés” . “ Cristianismo

uma filosofia; de

facto, nem mesmo é uma religião. É a boa nova de que “ Deus visitou e remiu o seu povo” , e que Ele fez isso enviando o Seu unigénito Filho a este mundo para viver, morrer e ressuscitar. O nosso Senhor Jesus Cristo é “ o Alfa e o Omega, o primeiro e o derra­ deiro” . Por outras palavras, Ele é a única Autoridade.

que

é Cristo” . Nao

é

39

CAPÍTULO I]

A AUTORIDADE DAS ESCRITURAS

Ao prosseguirmos no estudo do problema crucial da autoridade na situação contemporânea, a nossa posi­ ção é muitíssimo semelhante à dos membros da Igreja primitiva. Como procurei indicar na introdução a este livro, o nosso interesse é de ordem prática. Estamos preocupados com o assunto, porque ele envolve toda a questão da evangelização.

O CONTEXTO DA MENSAGEM DO NOVO TESTAMENTO

Nos primórdios da Igreja, os apóstolos foram por toda a parte pregando a ressurreição, Jesus como Salvador do mundo, e Jesus como Senhor. Procla­ maram que Ele era o Filho de Deus. Declararam que “ nenhum outro nome há dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” (Actos 4:12). Por outras palavras, proclamaram Jesus como o Filho de Deus, a Autoridade final e suprema. Era essa a sua mensagem,

40/A ii t<>r idade

mas, claro, não a pregavam isoladamente. Passagens do Novo Testamento, tais como Actos 17:1-4 e í Coríntios 15:1-4, tornam isso perfeiramente claro. Proclamavam Jesus como Filho de Deus e Salvador do mundo, no contexto da mensagem das Escrituras do Velho Testamento. F'm certo sentido, o primeiro sermão oficial jamais proferido sob os auspícios da Igreja Cristã, tal como nós a conhecemos e reconhecemos, foi pregado pelo apóstolo Pedro, em Jerusalém, no dia do Pentecostes. Poderás observar no relato do mesmo, que ele apre­ senta Jesus de Nazaré como Filho de Deus e o Sal­ vador do mundo, de um modo muito amplo, expondo textos das Escrituras do Velho Testamento. E vital c muito importante que entendamos esse facto. Jesus, tenho de repetir, não foi pregado isoladamente, mas no contexto do que tinha vindo antes. Deus não havia começado a actuar em Belém. Nunca devemos con­ ceber a revelação como existindo só em Jesus Cristo, ou começando com a Sua vinda ao mumdo. Deus tinha-se revelado em tempos passados, como Hebreus 1:1-3 nos recorda. Tinha falado “'muitas vezes e de muitas maneiras” e, portanto, a vinda do Senhor Jesus Cristo tem de ser sempre considerada neste contexto e neste conjunto. O Livro de Actos mostra muito clara­ mente que os apóstolos reconheciam o facto de que se não reconciliassem a sua mensagem com todo o en­ sino das Escrituras do Velho Testamento, as suas afirmações falhariam. Por isso, estavam constante- menre empenhados em mostrar e provar isso mesmo.

A Autoridade das

Fscríturas/41

Assim está expresso em Actos 17:3: “ Expondo (isto é, das Escrituras do Velho Testamento) e demonstrando que convinha que o Cristo padecesse” . Paulo “ discutia” com os judeus na sinagoga, acerca das Escrituras. Constituía uma parte essencial da pregação apostólica provar que o Senhor Jesus era o cumprimento das promessas do Velho Testamento, e que o Deus que havia começado a actuar no Jardim do Edem e que, de várias maneiras, continuara a agir através dos séculos, tinha agora trazido tudo isso a um grande e sublime clímax. O que os apéxstolos afirmavam era que Jesus é o cumprimento do Velho Testamento e de todas as suas promessas. Encon­ tramos uma outra ilustraçáo disto mesmo numa de­ claração feita pelo apóstolo Pedro: “Temos mui firme a palavra dos profetas, à qua! bem fazeis em estar atentos” (2 Pedro 1:19). O que Pedro está a dizer podia expressar-se melhor, assim: “Temos também uma palavra de profecia que se tornou mais firme” . Aí está, diz com efeito o apóstolo Pedro, a tua evidência. Aí está a autoridade. “ Não seguimos fá­ bulas artificialmente compostas” . Dá então o seu tes­ temunho pessoal sobre o que ele e os outros dois discípulos tinham visto no Monte da Transfiguração. Mas continua, dizendo: “ Não precisais de vos apoiar unicamente na nossa palavra, testemunho e evidencia. Há algo que é ainda mais forte do que isso. Podeis voltar a ler as profecias do vosso Velho Testamento, e ver então como todas elas foram cumpridas até ao mínimo detalhe na Pessoa, vida e obra do Senhor

42 /Autoridade

Jesus Cristo” . tens um argumento poderoso que foi usado pelos apóstolos, e é absolutamente essencial que o entendamos. Não podes separar o Senhor Jesus Cristo do fundo histórico e do contexto das Escrituras do Velho Testamento. Sem dúvida que o nosso Senhor usou, Ele próprio, raciocínios muito semelhantes, quando falava aos ju­ deus do seu tempo. Não só Se referia constantemente ao Velho Testamento, mas usava-o também como um argumento. Repara, por exemplo, em João 5:39:

“ Examinai as Escrituras (ou se preferes, “ Examinais as Escrituras” ), porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” . Ele mostra

e prova muitas vezes, quer por asserções directas, quer por perguntas feitas com o propósito de confundir c desconcertar os adversários, que Ele próprio é o cumprimento do que fora predito na Escritura do Velho Testamento.

Por conseguinte, eu digo que por todas estas razoes,

e podíamos facilmente desenvolver cada uma delas, é essencial que O apreciemos neste contexto e em termos deste fundo histórico. Em qualquer conside­ ração da autoridade final e em qualquer consideração da autoridade final do próprio Senhor Jesus Cristo

(da qual já tratámos), somos forçados a ter em conta

a autoridade das Escrituras. Há aqui uma sequência

lógica definida. A grande mensagem que proclamamos

é a que diz respeito ao próprio Senhor Jesus Cristo, Sua Pessoa e Sua obra. Mas eu insisto em que não

A Autoridade

das

Escrituras/43

podes fazer isso, aparte do seu enquadramento no contexto total da Bíblia.

RECENTES ATAQUES À AUTORIDADE DA ESCRITURA

Em face disto, não surpreende que, de tempos a tempos, a autoridade das Escrituras tenha sido as­ sunto de controvérsia e debate. Contudo, é importante lembrar que até ao século dezoito era mais ou menos aceite universalmente por toda a Igreja. É verdade que houve uma grande controvérsia na altura da Reforma concernente à relação entre a autoridade da Igreja e a autoridade das Escrituras. Alguns representaram mal esse debate, dando a entender que a Igreja de Roma negava a autoridade das Escrituras. Ela nunca fez isso. Todavia, sem dúvida, ela vai além e declara que para saberes o que a Bíblia diz, precisas ter a interpretação autorizada da Igreja, a qual ela coloca lado a lado com as Escrituras. Afirma que recebeu revelação além da que encontra registada nas Escrituras. Contudo, ainda declara a autoridade do Canon das Sagradas Escrituras, e sempre o tem feito. Esta autoridade foi mais ou menos universalmente aceite até que se chegou aos meados do século dezoito, quando começou o movimento conhecido pelo nome de “ Alta Crítica” . Iniciou-se em termos de várias outras pressuposições, pressuposições naturalis­ tas concernentes à razão, conhecimento e ciência do

4 4 /Autoridade

homem. O ataque à autoridade das Escrituras come­ çou nessa altura. Ora, não dispomos de espaço aqui para entrarmos na história pormenorizada de tudo o que sucedeu e do modo como o movimento pros­ seguiu durante o último século. A fim de tornarmos o nosso estudo mais prático e relevante, temos de pro­ curar concentrar a nossa atenção sobre a posição actual. Hoje em dia pretende-se afirmar que a situação agora é diferente. De um modo geral concorda-se em que o velho liberalismo, o velho modernismo, o velho “ racionalismo” — chames-lhe tu o que lhe chamares — é mais ou menos rejeitado. Ouvimos muito pouco acerca dele.Mas é interessante observar a maneira em que mesmo isso se põe! Dizem-nos que, embora não devamos passar o nosso tempo debatendo e argu­ mentando com respeito à validade da alta crítica como as pessoas tendiam a fazer há quarenta ou cinquenta anos, temos, no entanto, de tomar o tra­ balho da “ crítica” como um facto. Encontramo-nos no que denominam de “situação post-crítica” .Afirmam- -nos que realmente nada interessa, excepto a nossa clareza acerca da mensagem e ensino da Bíblia. Assim, deparamos com frases tão familiares como esta: “ a Bíblia não é a Palavra de Deus, mas contém a Palavra de Deus” . A Bíblia, dizem eles, é em parte Palavra de Deus, e em parte palavra de homens. Em parte tem esta grande e divina autoridade, e em parte não. Declaram-nos ainda que temos de aceitar e crer na mensagem, mas que podemos ser muito livres quanto aos factos. Deparei com um exemplo disto noutro dia,

A Autoridade

das

Escrituras/45

num jornal canadiano. Num artigo que focava uma história do Livro de Daniel, o escritor comentava:

“ Não achamos que tenha muita importância que esta história seja literalmente verdadeira, ou uma esplên­ dida parábola para todas as gerações dos homens” . Isso é típico de toda esta atitude. Na realidade, os factos não interessam muito. O que conta é a men­ sagem espiritual, o ensino. Assim, defrontamo-nos com esta perspectiva moderna que já não argumenta acerca de secções e porções de versículos e que não está exclusivamente interessada no seu próprio aparelho crítico. Aceita tudo isso como certo, e prossegue en­ tão, declarando: “ Aqui deparamos com um livro em que há muita coisa de grande valor, mas onde há também erro definido e totalmente destituído de signi­ ficado” . Muitas vezes se afirma que esta é uma posição essencialmente nova. Mas, sem dúvida, se te detiveres a analisar o que eles dizem, terás de chegar à con­ clusão de que, basicamente, é ainda a mesma velha posição. Pois as questões que imediatamente se levan­ tam, são estas: Quem decide sobre o que é verda­ deiro? Quem decide sobre o que é de valor? Como é que podes distinguir entre os grandes factos que são verdadeiros, e os que sáo falsos? Como é que podes estabelecer a diferença entre os factos e o ensino? Como é que podes separar esta mensagem essencial da Bíblia, do fundo histórico em que ela se apresenta? E não apenas isso, mas sem dúvida que não há tal divisão ou distinção reconhecida nas próprias Escri­

46 Autoridade

turas. A Bíblia inteira vem até nós e oferece-se-nos exactamente da mesma maneira e como um todo. Não há o menor indício ou suspeita de uma sugestão de que algumas das suas partes são importantes e outras não, Tudo nos surge da mesma forma. Por outras palavras, a posição moderna resume-se nisto, que é a razão do homem que decide. Tu e eu vamos à Bíblia e temos de fazer as nossas decisões na base de certos padrões que estão obviamente nas nossas próprias mentes. Concluímos que uma porção está conforme com a mensagem em que cremos, e outra não. A despeito de tudo o que se tem dito a respeito de uma nova posição hoje em dia, somos ainda deixados naquela em que o conhecimento e entendimento do homem são os árbitros finais e o último tribunal de apelação. Era essa precisamente a posição do velho liberalismo. Todavia, alguns poriam o caso de um modo um pouco diferente. Diriam que tens de reconhecer como Palavra de Deus aquilo que te diz algo. Quando alguma coisa da Bíblia fala à tua condição, isso é Palavra de Deus, mas quando tal não acontece, não é Palavra de Deus. Isso, claro, é tão somente colocares- -te a ti mesmo numa posição totalmente subjectiva. Continua-se a manter o homem em posição de con­ trolo; o homem é ainda a autoridade que decide sobre o que é verdade ira mente a Palavra de Deus, e o que não é. Uma outra forma que a atitude moderna por vezes assume é a sugestão de que aqueles de nós que são

A

Autoridade das Escrituras/47

evangélicos conservadores são “ Bibliólatras” , isto é, põem as Escrituras no lugar do Senhor. A sua própria autoridade, dizem-nos os críticos, não são as Escri­ turas, mas o Senhor mesmo. Bem, à primeira vista, isso parece muito impressionante e muito justo, como

se eles não estivessem senão a afirmar aquilo por que

nós próprios nos batemos. Soa como se fosse uma posição altamente espiritual, até ao momento em que, repito, começamos a examiná-la cuidadosamente. As

questões óbvias a pôr àqueles que fazem tais afir­ mações são estas: “ Como é que conheces o Senhor?

O que é que conheces acerca d’Ele, aparte das Escri­

turas? Onde é que O encontras? Como é que sabes que aquilo que pareces ter experimentado a respeito d’EIe não é invenção da tua própria imaginação, nem o produto de algum estado psicológico anormal, nem,

porventura, o trabalho de algum poder oculto ou espírito mau” ? Parece tudo muito impressivo e con­ vincente, quando dizem: “ Eu vou directamente ao

próprio Senhor” .

vital concernente à base do nosso conhecimento do Senhor, a nossa certeza com respeito mesmo à Sua autoridade e como é que entramos na posse prática da mesma.

Mas temos de enfrentar a questão

A ATITUDE CORRECTA

Em face da posição com que nos defrontamos hoje em dia, como deveremos tratar desta questão da auto­ ridade das Escrituras? No espaço de que disponho não

4S'Autoridade

posso fazer mais do que delinear o esboço daquilo que creio ser o caminho. O meu objectivo aqui é chamar a atenção para certos princípios gerais que temos de manter sempre em primeiro plano nas nossas mentes, ao considerarmos este assunto.

a. A Escritura deve ser vista como um todo

É de vital importância que sempre abordemos este problema como um todo e não comecemos imedia­ tamente com pormenores. Assim, em minha opinião, muitos estão confusos porque se agarram a esta ou aquela dificuldade em particular, ou a algum outro ponto em pormenor. Como resultado, e porque come­ çam com detalhes, ficam de tal modo imersos que não vêem o ponto principal. Ora, eu sei que há partes de um todo, mas esse todo não é meramente a soma das partes. Nao há nada mais importante, se realmente estamos interessados na autoridade das Escrituras, do que começar primeiro com a Bíblia toda e considerar os pormenores à luz do conjunto e não na ordem in­ versa. Deixa-me usar uma ilustração simples. Em muitos âmbitos da vida este mesmo princípio prova ser verdadeiro. Repara, por exemplo, no modo pela qual a Comunidade Britânica conseguiu adicionar o Canadá. Este foi tomado à França numa batalha, a Batalha de Quebeque, em 1759. Embora o resultado dessa batalha fosse crucial, levou muitos e longos anos e, de facto, muitas escaramuças locais, para ocupar

A Autoridade

das

Hscriruras/49

todo o território. É isso que eu significo com a dis­ tinção entre possuir o todo e prosseguir então para a posse das partes. Ao abeirarmo-nos das Escrituras, temos de adoptar um procedimento semelhante. Há pontos, há assuntos especiais que, na verdade, cons­ tituem para nós dificuldades e problemas autênticos. Iremos então rejeitar o todo por causa de uma difi­ culdade em particular? Deverá rejeitar-se uma teoria científica, só porque num dado ponto não chega a explicar certos detalhes que, em comparação, não têm importância? Deverei eu descrer da existência e do valor do sol por haver manchas sobre ele? Não, isso constitui um raciocínio muito falso. Seria introduzir a confusão. A Bíblia é um todo e a sua autoridade é completa. Mas, havendo-a aceitado toda, eu ainda encontro certas dificuldades, problemas e questões latentes. De facto, é realmente uma tragédia que um homem comece por um pormenor e, só porque não foi bem sucedido com ele, venha a dizer: “ Nao posso de maneira nenhuma reconhecer a autoridade das Escrituras” . Apresentarei mais tarde outras razões para mostrar que tal atitude é errônea.

b. Um assunto para a fé

O nosso segundo princípio é o reconhecimento de que, em última análise, esta questão da autoridade das Escrituras é um problema de fé e não de argumen­ tação. Há muitas razões relevantes. Eu próprio apre­ sentarei algumas mais tarde. E, sem dúvida, muitas

50 Autoridade

destas razões têm grande valor. Há argumentos cientí­ ficos, argumentos históricos, argumentos arqueoló­ gicos, e argumentos racionais, os quais têm sido refe­ ridos em apoio da autoridade das Escrituras. Mas o ponto que eu quero destacar, é que depois de os teres citado todos, poderás convencer intelectualmente um homem sobre o que estás a dizer, mas mesmo assim ele não irá necessariamente acreditar ou aceitar a autoridade das Escrituras. Do mesmo modo que uma pessoa pode ter uma concepção intelectual da verdade acerca de Cristo e aceitá-la no seu intelecto, sem na realidade O receber, e se tomar cristão, assim também pode fazer exactamente o mesmo em relação às Escrituras. Eu saliento isto, em primeiro lugar, porque receio que nós, como evangélicos conservadores, tenhamos por vezes sido levados a cair nesta armadilha. Temos condescendido com uma forma de racionalismo que não está realmente de acordo com a nossa posição. Há valor autêntico nestes argumentos, mas ao fim e ao cabo (como os próprios Pais protestantes ensi­ naram) ninguém pode realmente crer e submeter-se à autoridade das Escrituras, senão como resultado do “testimonium Spiritus internum". É só como resultado da obra e ilumingção do Espírito Santo dentro de nós que finalmente podemos ter esta certeza acerca da autoridade das Escrituras. Isto é simplesmente dizer por outras palavras o que o apóstolo Paulo afirma tão claramente em I Coríntios 2:14, “ O homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque

A Autoridade das

Fscrituras/51

lhe parecem loucura, e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” . Nao há qualquer dúvida sobre este assunto. Po­ demos apresentá-lo sem rodeios, desta forma. Uma

pessoa que não é cristã não pode crer na autoridade das Escrituras. Não devemos esperar que o faça. Perdemos tempo se argumentamos com ela sobre isso.

É

derno e dizermos-lhe: “ Primeiro de tudo, temos de concordar a respeito da Bíblia. Acreditas na Palavra de Deus? Aceitas a sua autoridade, ou não? Se não acei­ tas, não estamos em posição de discutir contigo” . Tal raciocínio é inteiramente falso. Coloca o carro à frente dos bois. Se ele não é um cristão, não tem possibi­ lidade de aceitar a autoridade das Escrituras. Só o cristão o pode fazer.

Mas eu saliento isto por uma segunda razão. Se lidamos com este problema seguindo esta linha de argumen­ tação, existe principalmente o gravíssimo perigo de que possamos comprometer bastante a nossa posição. Creio que alguns dos nossos avós fizeram precisa­ mente isso no século passado. Ficaram estarrecidos com os “ conhecimentos modernos” que surgiram com

o avanço da ciência. Sentiram-se profundamente an­

siosos em relação às afirmações da biologia e da geologia. Portanto, muitos deles empenharam-se dura­ mente em reconciliar a Bíblia com esta “ nova erudi­ ção” . Houve uma suposição tácita de que essa “ nova erudição” era necessariamente correcta. Receio poder detectar uma tendência entre certos evangélicos con­

inútil encararmos o racionalista ou incrédulo mo­

52/Autoridnde

servadores para fazerem o mesmo hoje. Há um cerro temor daquilo que é chamado “ Ciência” . A ciência tem-se tornado a autoridade suprema; e num espírito temeroso os homens estão prontos a fazer concessões que, em minha opinião, não deviam ser feitas de modo nenhum. Depois de estudares a história da ciência, terás muito menos respeito pela sua suposta autoridade suprema, do que tinhas quando começaste. Nao é senão um simples facto da história dizer-se que há cem anos, e até menos, os cientistas ensinavam dogmaticamente e com extrema confiança que a tiroide, a pituitária e outras glândulas eram meros restos de vestígios. Afirmavam que elas não tinham qualquer valor, nem desempenhavam qualquer função. Ora, isto não é teoria. E um facto. Declaravam dogmaticamente que se tratava de restos inúteis. Mas hoje, sabemos que estas glândulas são essenciais à vida. Sem argumentar em detalhe sobre assuntos científicos, afirmo que não é somente ter falta de fé e desconsiderar a Escritura, mas também ignorância, reconhecer à “ Ciência” , “ conhecimento moderno” ou “ Erudição” uma autoridade que, na realidade, não possuem. Sejamos cientificamente cépticos com res­ peito às asserções da “ Ciência” . Lembremo-nos de que tantas das suas afirmações são meras suposições e teorias que não se podem provar e que podem muito bem ser refutadas, como tantas têm sido durante os últimos cem anos.

Repito,

portanto,

que

temos

de

reconhecer

que,

A

Autoridade

das

Escrituras/53

fundamentalmente, isto não é matéria de argumen­

tação; é matéria de fé, e o valor dos argumentos vem

cm

confirmação

da

e

num

sentido

apologético.

c.

Uma verdade a ser afirmada

 

Isto leva-nos ao meu terceiro princípio: A autoridade

das Escrituras não é tanto uma verdade a ser defen­

dida, como a ser afirmada. Dirijo esta observação particularmente aos evangélicos conservadores. Lem­ bro-me do que o grande Charles Haddon Spurgeon disse uma vez em relação com isto: “ Não há neces­ sidade de defender um leão que está a ser atacado. Tudo o que tens a fazer é abrir o portão e deixá-lo sair” . Temos de recordar frequentemente a nós mes­ mos que é a pregação e a exposição da Bíblia que

realmente estabelecem a sua verdade e autoridade. Creio que isto é mais verdadeiro hoje do que nunca

— certamente, mais verdadeiro hoje do que o tem sido

nos últimos dois séculos. O que eu quero dizer é isto:

Não há nada que explique toda a situação mundial, tal como ela se apresenta hoje, a não ser a Bíblia. Considera mesmo a questão da origem do mundo e a verdadeira natureza e carácter do próprio mundo. Sabemos que tem havido certos cientistas neste pre­ sente século que têm sido suficientemente honestos para nos dizerem que, como resultado do seu próprio e apurado trabalho e investigação científica, foram forçados a chegar à conclusão de que deve haver uma grande Mente, um grande Arquitecto por detrás do

54/Autorid.ulc

universo. Ora, esta é uma admissão tremenda! A Bíblia sempre afirmou isso, mas finalmente alguns destes homens vão chegando a admiti-lo. Todavia, quando considerares o estado e a condição do mundo, este ponto especial tonar-se-á ainda mais evidente. Quando olhares para o homem em geral tal como ele é hoje, a despeito de todo o progresso do saber, da cultura e do conhecimento, quando olhares para o homem comum descrito nos relatos dos jor­

nais, que irás dizer? Quando te defrontas com o facto de duas grandes guerras mundiais neste mesmo século,

se és realmente um ser pensante terás de tentar chegar

a alguma explicação. Ora, eu afirmo que a única

explicação adequada é a que é apresentada pela Bíblia: a doutrina bíblica do pecado. De facto, nada mais dá uma explicação adequada. Por outras pala­ vras, a única visão correcta do mundo tal como ele é hoje, tem de se encontrar na visão bíblica da queda e do pecado. E só à luz deste ensino que poderás entender todo o processo da história. Ora, é de grande interesse e de real significado observar que os próprios críticos começam agora a dizer isto. Costumavam negá-lo. Geralmente negam as doutrinas bíblicas do homem, da queda e do pecado. Eles aborreciam toda a noção do pecado. O homem estava a desenvolver-se e a aperfeiçoar-se. Estava a tornar-se cada vez melhor. Mas agora, têm sido forçados a admitir a verdade do ensino bíblico e estão a voltar para ele, ou a coisa é muito parecida. Mas, por que é que eles estão a voltar? Para nós

A

Autoridade das

Escrituras/55

este é o ponto crucial. O que os levou a crer naquela doutrina foi a tremenda destruição produzida por duas guerras mundiais, e não o ensino das Escrituras. Consideremos, por exemplo, o caso do falecido Dr. C. E. M. Joad que afirmou ter chegado à convicção da existência do mal, por meio da guerra, pelas acções de Hitler e pelas coisas que aconteceram antes e durante a guerra. Afirmou que, dessa maneira, ficou con­ vencido do facto do mal e do pecado, e que, por seu turno, isso touxe-o de novo a uma crença em Deus. Mas, repara no modo como ele chegou a esse ponto. Acreditou, não por causa do ensino das Escrituras, mas por causa do ensino dos próprios factos da vida. Todavia, recusou, e todos os que estão nessa posição ainda recusam, curvar-se à autoridade da Escritura, que sempre tem ensinado tais coisas a respeito do homem e do mundo. Contudo, temos de pôr em evidência a importância de nos firmarmos na auto­ ridade das Escrituras e de crermos nestas doutrinas porque a Escritura as ensina em vez de constante­ mente mudarmos a nossa posição à medida que o mundo e a condição superficial do homem parecem mudar. De qualquer maneira, esta tendência moderna da parte de muitos para dizerem que acreditam nas doutrinas bíblicas, mas que rejeitam o seu enqua­ dramento, o seu pano de fundo e as associações históricas, não indica um autêntico regresso à Bíblia, ou uma mudança teológica radical. Ou consideremo-lo desta maneira. Tais pensadores dizem-nos constantemente que não podem voltar à

56 Autoridade

posição pré-crítica, porque a alta crítica da Bíblia

nos tem dado uma nova e maravilhosa compreensão do ensino das Escrituras. Mas perguntemos-lhes: “ Qual é essa nova compreensão?” E a resposta que irás receber deixará claro que a nova compreensão por eles desco­ berta não é senão a velha mensagem que os evangélicos conservadores sempre têm pregado. Assim, achamo-nos nesta posição, que esse suposto novo entendimento que o grande aparato da crítica trouxe à luz, leva-nos simplesmente de volta, no que toca a doutrina, ao ponto de onde partiu o desvio para o erro. Asseguro, portanto, que não temos que defender. Temos de afirmar. Compete-nos a nós, como cristãos evangé­ licos, hoje, enfrentar o mundo com este desafio e provar aos críticos que eles estão simplesmente a

voltar às coisas “ que uma vez

aos santos” e nas quais os evangélicos têm crido

através dos séculos.

por todas foram dadas

d. Toda a Bíblia é a Palavra de Deus

Chegamos agora ao meu quarto princípio. Nós temos de declarar que a Bíblia inteira — as Escrituras canônicas do Velho e do Novo Testamentos — é a Palavra de Deus. Também, quando falamos da auto­ ridade da Escritura, significamos “ essa propriedade pela qual ela requer fé e obediência a todas as suas declarações” . Tenho de procurar justificar esta asserção. Por que é que havemos de insistir tanto na Bíblia como um

A Autoridade das

Escrituras/57

todo, na inteireza da Escritura e não apenas em certas porções da mesma? A minha primeira razão é uma que já mencionei, nomeadamente que não aparece tal divisão e distinção traçada na própria Bíblia. A Bíblia vem a nós como um todo. Em segundo lugar, a revelação surge muitas vezes na Escritura em termos

de história e através da história. Não se podem separar estas coisas. Deus tem feito afirmações directas. Tem- -Se revelado também através das acções dos homens e doutras maneiras. A história de outras nações que contactaram com Israel faz também parte dela. Como

é que se pode determinar o que é relevante e o que é

irrelevante? Em terceiro lugar, e o que é ainda mais importante, certas doutrinas bíblicas que são abso­ lutamente vitais a toda a questão da salvação de­ pendem de factos históricos. Tomemos como exemplo deste último ponto, uma passagem crucial que, duma forma aguda, levanta todo o problema da relação entre as Escrituras e a ciência moderna, o argumento do apóstolo Paulo em Romanos 5:12-21. Nestes versículos, ele vai expondo

a gloriosa doutrina da nossa união com Cristo. Mas

hás-de notar que a desenvolve em termos da nossa

anterior união com Adão. “ Como em Adão

também em Cristo” . Não podes de modo algum crer

na doutrina da expiação e redenção em Cristo no

Novo Testamento, a não ser que aceites o seu ensino

a respeito da queda e a respeito do pecado. E muito fácil dizer que podes acreditar nestas dou­ trinas positivas do Novo Testamento, mas que te é

assim

.SS/AuroridiuIc

impossível aceitar os primeiros capítulos de Gênesis e que não acreditas na doutrina da queda. Levantam-se imediatamente certas questões fundamentais: “ Porque

é que o homem precisa de salvação? Como é que ele

chegou à condição em que se encontra? Será que o homem abandonou Deus, ou estará a erguer-se lenta­ mente em direcção a Ele? Veio Cristo livrar-nos das consequências da queda? Ou veio simplesmente dar um certo estímulo ao nosso avanço e evolução? Qual destes está correcto? Qual é a natureza da obra de Cristo por nós, sobre a cruz? Qual é a natureza essencial da expiação?” A minha afirmação c que, de acordo com o ensino bíblico, não se pode separar a doutrina da expiação das doutrinas da queda e do pecado.E isto coloca-te directamente face a face com a questão da história. O homem, ou foi criado perfeito

e depois caiu, como diz o Gênesis; ou tem vindo a

evoluir lentamente de um animal e nunca foi real­ mente perfeito. Ou uma coisa, ou outra. Nao há qualquer problema no que diz respeito ao ensino do Novo Testamento sobre este assunto. Assim, podes ver o perigo de começar a separar e a dizer que, rejeitando os primeiros capítulos de Gênesis estás

simplesmente a pôr de lado o que o teu conhecimento “ científico” torna impossível. Mas não estás mera­ mente a fazer isso. Estás a rejeitar uma parte essencial da doutrina da expiação. O mesmo argumento é apresentado pelo apóstolo em I aos Coríntios 15.

E a pressuposição essencial, no caso do Novo Testa­

mento, para a doutrina da reconciliação.

A

Autoridade

das

Hscrituras/59

Na verdade, eu podia tornar o argumento ainda mais forte, salientando que o ensino do nosso Senhor mesmo está envolvido aqui, exactamente da mesma maneira.Ele acreditava no ensino bíblico acerca da origem do homem. Aceitava o ensino do Velho Tes­ tamento sobre os sacrifícios. Acreditava que todos estes não eram mais do que tipos e sombras que apontavam para Si mesmo. Diz Ele: “ Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas. Não vim abrogar,

que podes

mas cumprir” . Por conseguinte, como c

rejeitar estes factos históricos? Como é que podes afirmar que Ele era simplesmente um homem do Seu tempo, que usava as formas de pensamento da Sua própria época e aceitava como factos coisas que não eram cientificamente verdadeiras como nós agora sabemos? Como é que podes dizer tudo isso e ainda

acreditar na autoridade do Senhor? Imediatamente ficas envolvido em tremendas contradições.

Deixa-me

ilustrar

isto

um

pouco

mais.

Respon­

dendo à questão dos fariseus sobre o divórcio, o nosso Senhor perguntou-lhes: “ Não tendes lido que aquele que os fez no princípio, macho e fêmea os fez” ? (Mateus 19:4). Aceitas isso? Também em João 5:46 encontramos um exemplo exactamente desta mesma atitude. Nas inúmeras citações que faz do Velho Testa­ mento, o Nosso Senhor fala claramente como quem aceita todos estes textos das Escrituras. Isto tem sido demonstrado em vários livros e monografias escritos recentemente sobre esta questão em particularDeixa-me acrescentar uma outra citação que me parece ser mais do

60/Autoridade

que suficiente com respeito a este assunto. Em Lucas 24:44, o nosso Senhor está a falar aos discípulos depois da ressurreição, e diz: “São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: que convinha que se cum­ prisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés e nos Profetas e nos Salmos” . Ele está-Se a referir a todo o Velho Testamento. O nosso Senhor Jesus Cristo aceita-o todo. Afirma que tudo aponta em direcção a Ele. Portanto, se condescendermos nesta distinção artificial que nos está sendo proposta, entra­ remos imediatamente em choque com a autoridade do Senhor Jesus Cristo. Como uma nota prática e como um assunto de relevância imediata para a nossa presente posição, gostaria de salientar o perigo de basearmos a nossa convicção em argumentos sobre teorias não funda­ mentadas. Aqueles que lêem literatura teológica devem ter notado com grande interesse que durante os últimos dez ou quinze anos temos deparado muito poucas vezes com a frase: “ resultados seguros” . Essa era uma expressão importante há alguns anos atrás. “ Os resultados seguros da crítica” . “ Os resultados seguros do conhecimento moderno” . Não consigo lembrar-me da ocasião em que vi essas duas expres­ sões pela última vez. Desapareceram da literatura actual. E não nos surpreende. Afirmavam-nos dogma­ ticamente, sem a menor competência, que estas coisas

* Ver, por exemplo, J. W. Wenham, C h rist a n d the B ible (Cristo e a Bíblia)., (Tyndale Press, 1972).

A Autoridade

das

Escrituras/61

eram certas. Mas tais negações da verdade do relato bíblico têm vindo a ser retiradas uma após outra. Descobertas recentes no âmbito da arqueologia, bem como o trabalho de investigação moderna ao longo de outras linhas, têm estabelecido claramente que certos factos afirmados na Bíblia, e que anteriormente eram refutados pelos críticos, são verdadeiros. Limitar-me-ei a uma ilustração. Lembras-te certamente como se costumava asseverar que nunca existira tal pessoa como Belshasar. Os críticos estavam absolutamente seguros disso. Mas hoje reconhece-se que o relato bíblico está correcto. Ora esta é uma questão de ciência e de facto. Assim, estamos continuamente a descobrir que o que se afirmava tão abrupta e dogma­ ticamente no passado é simplesmente incorrecto. Não há nada mais precário do que baseares a tua posição a respeito da Escritura e das suas afirmações sobre qualquer assunto, em algo que pareça estar estabele­ cido pelo “ conhecimento moderno” ou pela “ ciência moderna” .

A SINGULARIDADE DA ESCRITURA

Passemos agora do âmbito do geral para o parti­ cular e consideremos alguns argumentos em porme­ nor. Era costume dos Pais protestantes, e dos grandes dogmáticos do século dezassete que os seguiam, citar uma grande quantidade de argumentos poderosos e convincentes da própria Escritura, para estabelecer a autoridade da mesma. Deixa-me indicar alguns deles.

62/Autoridade

(Estes são de grande interesse e, na verdade, impor­ tantes, não numa posição prioritária, mas num lugar secundário com vista ao fortalecimento da fé. Possuem também um certo valor apologético limitado). Eles estavam convencidos de que se pode encontrar um argumento por si só suficiente para apoiar a autori­ dade da Escritura, no seguinte: Primeiro, chamavam a atenção para “ a majestade de Deus que fala de Si mesmo na Escritura” . Afirmavam que o homem é incapaz de produzir qualquer coisa do gênero. Não se pode ler a Escritura sem se ser confrontado pela majes­ tade de Deus que Se manifesta e revela a Si pró­ prio. Em segundo lugar, punham em evidência “ a autenticidade da Escritura, a sua honestidade, a sua veracidade, o modo pelo qual os seus factos são constantemente confirmados no seu próprio conteúdo

e na história secular” . Acrescentavam então como

terceiro argumento “ a sublimidade dos mistérios reve­ lados na Escritura” . Não se pode ler a Escritura sem se ficar impressionado com aquilo a que Thomas Carlyle se referiu uma vez como as suas “ infinidades e imensidades” . Temos consciência de que nos defron­ tamos com mistérios finais e eternos. Temos de confessar que em face disto, as filosofias dos homens e mesmo os mais elevados conceitos dos mais “ inspi­ rados” poetas se reduzem à sua insignificância. A

glória transcendente dos mistérios de Deus atesta o verdadeiro valor da Escritura. Em quarto lugar, eles referiam “ a perfeição dos ensinos e preceitos” — especialmente quando estas

A

Autoridade das

Fscrituras/63

coisas são postas no seu pano de fundo e no seu lugar. Aqui estão ensinos que se destacam como grandes Himalaias no meio duma moralidade dege­ nerada. Aqui estão ensinos e preceitos morais e éticos perfeitos. Depois, em quinto lugar, apontavam para

“ a maneira de falar da Bíblia, profunda, simples, clara

e breve” . Não temos todos nós ficado admirados com

isto? No melhor dos casos, todos somos prolixos; alguns mais que outros! O que impressiona a respeito das Escrituras é ver como apresentam uma cena ou transmitem uma grande doutrina em tão pouco espaço. Está lá tudo. Isto não é uma capacidade humana. Em sexto lugar., punham em destaque “ o poder das Escrituras para mover os corações dos pecadores” . Ora, há muita informação histórica e biográfica a respeito disto. Quantas vezes não tem esta Palavra, ao cair nas mãos dos homens, (não raro sem qualquer instrução ou cultura), actuado podero­ samente e mudado as suas vidas, trazendo-os ao conhecimento de Deus em Cristo! A Bíblia tem um poder tremendo! É “ o poder de Deus para a salva­ ção” . Em sétimo lugar, está “ a capacidade que ela tem para manter a sua autenticidade, face ao tempo e à oposição” . Aqui está um Livro que tem sido atacado e que, todavia, continua. Mantém a sua autenticidade. Isto, lembro mais uma vez, é algo que precisamos afirmar hoje em dia. Não desejo agarrar-me dema­ siado às descobertas arqueológicas, mas todos têm de admitir que o principal resultado até ao presente é confirmar cada vez mais as Escrituras. A Bíblia

64/ Autoridade

mantém-se firme, frente ao tempo e a toda a oposição que se possa conceber. Finalmente, punham em relevo “ a admirável har­ monia entre o Velho e o Novo Testamentos e o acordo perfeito e definitivo entre todos os seus li­ vros” . Na Bíblia há sessenta e seis livros, escritos num período superior a mil e seiscentos anos, por mais de quarenta escritores e, contudo, virtualmente, todos dizem a mesma coisa. Como disse Agostinho: “ O Novo Testamento está lactente no Velho, e o Velho Testamento está patente no Novo” . Há um entrosa- mento perfeito entre os temas do Velho e do Novo. Encontra-se a mesma mensagem desde uma ponta à outra. A unidade das Escrituras e, sem dúvida, só por si suficiente, ainda que não tivéssemos qualquer outra razão, para concedermos às mesmas Escrituras autori­ dade suprema e final. E algo que simplesmente não se pode explicar satisfatoriamente, a não ser nestes termos:

que as Escrituras são a Palavra de Deus do princípio ao fim, com tudo incluído e na sua inteireza.

AS AFIRMAÇÕES DA PRÓPRIA ESCRITURA

Mas há mais. Podemos ir além daqueles argumentos gerais de que os Pais tanto gostavam. O argumento mais importante de todos é que devemos crer na autoridade das Escrituras porque elas próprias afir­ mam possuir essa autoridade. Vem até nós como sendo a Palavra de Deus. Se por um momento olhar­

A Autoridade das

hscritui\is/<v5

mos para o Velho e para o Novo Testamento sepa­

radamente, esta asserção apresenta-se particularmcnte verdadeira no caso do Velho. Não é possível ler

o Velho Testamento sem sentir que por toda a parte

se declara que ele é a Palavra de Deus. As frases “ disse o Senhor” , “ falou o Senhor” , “ veio a Palavra do Senhor” são de facto usadas 3.808 vezes no Velho Testamento. Esses homens mostram-nos claramente que não se trata duma ideia sua. Não escrevem como resultado da sua própria compreensão, meditações ou cogitações. Não! Afirmam constantemente “ Veio a palavra do Senhor” , “ o peso do Senhor” , “ Deus revelou” e “ disse o Senhor” . E essa a sua constante asserção por toda a parte. É todo o pano de fundo.

É uma parte essencial da sua mensagem.

E não só o próprio Livro declara isso, mas os judeus sempre o aceitaram desse modo e o consi­ deraram assim. Na verdade, eles partiam do princípio de que as suas Escrituras eram a Palavra de Deus. Deixa que o apóstolo Paulo fale por eles, em Roma­ nos 3:1-2. Tendo mostrado que os judeus e os gentios eram igualmente culpados diante de Deus, levanta uma das suas grandes questões rectóricas: “ Qual é logo a vantagem do judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão?” E responde:” Muita em roda a maneira, porque primeiramente as palavras de Deus lhe foram confiadas” . Todo o judeu aceitava isso. Estabelecia uma diferença entre esta literatura e todas as outras. Aceitava o facto de que estes livros eram oráculos do Deus Vivo.

66

Autoridnde

O ENSINO DO NOSSO SENHOR

Como já te recordei, o nosso Senhor mesmo aceitava plenamente essa posição. Quantas vezes Ele diz: “Está escrito” ! E encaminha os homens para isso como sendo a autoridade final. Ele enfrenta o ataque de Satanás citando as Escrituras. Aí mostra mais uma vez o valor que estas têm para Si. E como já indiquei, num quase sem número de citações que faz, Ele está constantemente a salientar e a repetir este ponto específico. Escuta algumas delas: Em Marcos 12:26 e 27, lemos: “ E acerca dos mortos que houverem de ressuscitar, não tendes lido o livro de Moisés como Deus lhe falou na sarça, dizendo (Como vês, Ele acredita nesse incidente como sendo um facto. Moisés não estava simplesmente começando a “ver coisas” , a imaginar, ou a pôr a sua experiência em forma de ilustração. Ele aceita a história), “ Eu sou o Deus de Abraão e o Deus de Isaque e o Deus de Jacó?” Ora Deus não é de mortos, mas sim Deus de vivos. Por isso vós errais muito” . No relato de Mateus sobre o mesmo incidente, há um acréscimo significativo: “ não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus” . O nosso Senhor considera tudo isto como autorizado e definitivo. Mas há uma afirmação particularmente interessante em João 10:34,2.5 “ Respondeu-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei, Eu disse: sois deuses? Pois se a lei chamou deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi ”

dirigida (e a Escritura não pode ser anulada)

E então

A

Autoridade das Fscriturjs/67

continua com o Seu argumento. Mas lá está a frase crucial, “ a Escritura não pode ser anulada” . Seria realmente muito fácil continuar em grande escala a dar-te mais citações, mesmo do nosso Senhor. Com efeito, Ele diz constantemente: “ Examina-Me a Mim e àquilo que digo. Confere-Me pelas Escrituras do Velho Testamento. Consulta-as, investiga-as. Analisa- -as todas” . Além disso, Ele próprio as usa, ilustra o Seu ensino e mostra a verdade concernente a Si pró­ prio por meio delas. A totalidade do Seu ensino é colocada de encontro ao pano de fundo e no contexto das Escrituras do Velho Testamento. Aqui está. pois, esta tremenda asserção da autoridade do Velho Tes­ tamento.

COMO

O

NOVO

TESTAMENTO

VÊ O

VELHO

Todos os livros do Novo Testamento adoptam os mesmos métodos. Encontram-se citações do Velho em todos os livros do Novo Testamento, usadas com o fim de estabelecer as suas prerrogativas e ensino. Temos de chamar a atenção particularmente para a mais central e crucial destas afirmações. A primeira é a declaração bem conhecida, em 2 Timóteo 3:16:

“ Toda a Escritura é divinamente inspirada e provei­ tosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça” . Ora, aqui está uma afirmação específica e explícita no Novo Testamento, no que respeita ao caracter das Escrituras do Velho Testa­

68 Autoridade

mento. Não precisamos senão de chamar a atenção para uma coisa. Lembras-te certamente como a “ En- glish Revised Vçrsion (Versão Revista Inglesa) se desviou no tocante a isto, no interesse das suas pró­ prias pressuposições. O versículo aparece traduzido assim: “Toda a Escritura inspirada por Deus é tam­ bém proveitosa” . Qualquer que seja a nossa opinião da Revised Standard Version (Versão Padrão Revista), a verdade é que a tradução aqui é fiel. Voltou à versão correcta. Não é a “ toda a Escritura inspirada por Deus é também proveitosa” . Não se conhecem tais tautologias na Escritura. Uma vez mais, pois,

devemos notar essa afirmação categórica: “ Toda a Escritura é inspirada por Deus” . Ele introduziu o Seu fôlego nos homens que escreveram: daí a Escritura, e daí a sua autoridade.

Em

II Pedro

1:20,21, temos uma afirmação seme­

lhante. Pedro, referindo-se aos profetas, como eu já te

havia recordado, diz: “ Sabendo primeiramente isto,

que

nenhuma

profecia

âa

Escritura

é de particular

interpretação, forque a profecia nunca foi proàuziàa por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” . O que é que ele quer dizer? Tem havido muita incom­ preensão no que respeita à frase “ nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação” . Muitos pensam que “ de particular interpretação” significa que

nenhum indivíduo pode interpretar devidamente, por si próprio, a profecia na Escritura. Mas Pedro não está a dizer isso, nem sequer por um momento. O que

A

Autoridade das

l;.scrituras/6‘>

afirma é isto: “ Não acredites somente em mim e

no meu testemunho. Volta atrás e lê as profecias do Velho Testamento. Observa-as cumpridas e compro­ vadas em Cristo” . Como vês, a profecia não era algo extraído das mentes e intelectos dos profetas. Estes homens não eram videntes, no sentido comum, que estivessem tentando antecipar o porvir e ver as coisas futuras. Assim, com efeito, Pedro diz: “ A profecia não é de particular interpretação. Não é a interpretação que um homem dá à história, a factos e a eventos. Não se trata de qualquer coisa inadequada e produ­ zida pelo homem. O que é então? Bem, a profecia não veio de modo algum pela vontade do homem. Não foi iniciada por homens, pelo contrário, homens santos de Deus falaram à medida que eram movidos, condu­ zidos, transportados pelo Espírito Santo. Tudo veio de Deus. Essa é a razão porque a tua fé está assente num alicerce tão firme. E essa a substância da tua auto­ ridade” . Quão importante é que nós reconheçamos isso!

ele

Uma

outra

afirmação

do

Novo

Testamento

de

grande significado encontra-se e I Pedro 1:10-12 “ Da qual salvação inquiriram e trataram diligente­ mente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada, indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava,

anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir. Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos

70 Autoridade

foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar” . Com efeito, Pedro está a dizer que, na realidade, os profetas não compreendiam plenamente o que escreviam. Era- -lhes transmitido e eles redigiam. Investigavam e tentavam mas não conseguiam compreender total­ mente. Viam o cumprimento à distância. Eram orien­ tados, controlados e guiados. Eram exactos, eram infalíveis. Mas isso não era o resultado da sua própria compreensão. Era a direcção e a actuação do Espírito. Sem dúvida que há muitos outro argumentos que poderiamos usar. No Novo Testamento os escritos do Velho são constantemente referidos de modo especí­ fico, não em termos dos homens que escreveram, mas do Espírito Santo que lhes deu a mensagem e os habilitou a escrever. Como exemplo disto, repara em Actos 28:25 “ E como ficaram entre si discordes, se despediram, dizendo Paulo estas palavras: Bem falou

o Espírito Santo a nossos pais pelo profeta Isaías” . De

facto, uma das coisas mais interessantes e fascinantes a respeito do Novo Testamento é a maneira como, por vezes, os escritores pegam numa afirmação ou

frase do Velho e lhe dão um novo significado. Consi­ dera, por exemplo, Romanos 1:17, onde Paulo, ci­ tando Habacuque, diz: “ O justo viverá da fé” . Em certo sentido, ele não está a usar esta frase exacta- mente como Habacuque a usou. E, todavia, é verdade. Há alguma contradição? De maneira nenhuma. Am­ bas são correctas. O mesmo Espírito Santo que falou

A Autoridade das

Escrituras/71

através de Habacuque é Quem está a falar por meio de Paulo. Uma aplica-se a uma época e outra tem aplicação noutra época. Há muitos exemplos e ilus­ trações disto, mostrando que é o mesmo Espírito que sempre preside, dirige e controla.

A AUTORIDADE DOS APÓSTOLOS

“ Tudo o

que o senhor tem feito é levantar a questão da auto­ ridade do Novo Testamento. Tem estado a basear os seus argumentos sobre afirmações do Novo Testa­ mento. Mas, que diz a respeito do livro propriamente dito? A mim parece-me que a resposta a esta questão é uma resposta muito simples, mas que muitas vezes negligenciamos. Neste ponto ficamos face a face com a autoridade dos apóstolos. Todavia, jamais poderemos reconhecer com demasiada clareza o significado desta. O princípio dominante no Novo Testamento é esta autoridade apostólica. De facto, como certamente te recordas, o que determinou a canonicidade dos vários livros que compõem o Novo Testamento foi o teste da aposto- licidade. O Espírito Santo guiou a Igreja primitiva neste assunto. Certos Evangelhos apócrifos estavam a ser postos em evidência. Certas epístolas tinham sido escritas por homens bons e excelentes, nas quais eles tinham dito coisas maravilhosas. Mas nem todas fo­ ram registadas e incluídas no Canon. Por que não?

Todavia, nesta altura alguém poderá dizer:

72 An'ii-uLule

Porque reprovaram ao passar pelo teste da apostoli- cidade. As únicas coisas incluídas foram as que ha­ viam sido escritas pelos próprios apóstolos, pelos seus discípulos ou por aqueles que foram influenciados por eles. Este é um princípio verdadeira mente vital e es­ sencial. Será que reconhecemos sempre como devíamos que os apóstolos reivindicavam para si mesmos uma auto­ ridade única? Eles afirmavam-na constantemente. Te­ mos de voltar atrás a fim de reconsiderarmos o ensino do Novo Testamento acerca dos apóstolos. Lembras- -te de que o Senhor os enviou nos dias da Sua carne e lhes deu autoridade para pregarem e expulsarem demônios. Nada poderíam ter feito sem essa autori­ dade. Não era a sua própria autoridade: era a autoridade que derivava d’EIe e que d’Ele haviam rece­ bido. Mas isto aplica-se igualmente ao que escreve­ ram. Os seus escritos são o cumprimento do que o nosso Senhor disse, conforme está relatado em João 16:12-14: “ Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora. Mas quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há-de vir. Ele me glorificará, porque há-de receber do que é meu, e vo-lo há de anunciar” . Ora, os apóstolos sempre afirmaram que tudo o que diziam e escreviam era a comprovação e verificação dessa promessa. Não falaram como ho­ mens comuns; falaram como apóstolos. Repara como eles se apresentaram a si mesmos nas

A

Autoridade

das

Kscrituras/73

epístolas. O apóstolo Paulo põe constantemente em evidência o facto de que possui uma autoridade espe­ cial: “ Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser um apóstolo” , o que de facto significa um “ apóstolo chamado” . É essa a base fundamental da sua argu­ mentação e ensino. É essa a base fundamental da sua argumentação e ensino. É por isso que ele argumenta do modo como o faz com os membros da igreja de Corinto. Havia pessoas que andavam pelas igrejas a questionar o direito de Paulo a ser apóstolo. Diziam elas: “ Este homem não é um apóstolo. Ele não andou na companhia do Senhor, não esteve com Ele. Entrou depois e é um intruso. Está a promover-se a si mesmo

e ao seu ensino” . Portanto, Paulo é sempre cuidadoso

em asseverar que é um apóstolo. Fornece mesmo certas e definitivas provas desse facto. A suprema prova era que tinha visto o Senhor ressuscitado. (I Coríntios 9:1). Ninguém podia ser apóstolo a não ser que tivesse visto o Senhor ressuscitado e, portanto, pudesse ser uma testemunha da ressurreição. Um ho­ mem podia ter sido muito bom, verdadeiramente con­ vertido e de grande discernimento espiritual; podia ter sido um pregador excelente, mas se não era capaz de falar da ressurreição como testemunha ocular que tinha de facto visto o Senhor ressuscitado, então não podia ser apóstolo. Daí, o ponto do argumento de Paulo nos capítulos 9 e 15 de I aos Coríntios.

Ser apóstolo, todavia, era ser alguém que não só tinha visto o Senhor ressuscitado mas que tinha de ser capaz de afirmar, fundamentando a sua afirmação,

74/Autorid;ulc

que havia sido chamado e designado de modo espe­ cial, directamente pelo próprio Senhor, para ser após­ tolo. Paulo, Pedro e João reivindicavam isso mesmo, e toda a base da sua autoridade assenta nesse facto. De modo que, quando eles falavam, não falavam apenas como homens. Ouve o que diz Paulo, em 1 aos Tes-

“ Pelo que também damos sem

cessar graças a Deus, pois havendo recebido de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo é na verdade) como palavra de Deus, a qual também opera em vós os que crestes” . E essa a reivindicação. Eles falavam como homens enviados por Deus, com uma autoridade só dada aos apóstolos. Por vezes, o apóstolo Paulo apre­ senta isto realmente com muita ênfase, como em Gaia­ tas 1:8 — “ Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo

do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema” . Não podes achar nada mais enfático do que aquilo. Ouve de novo o que ele diz nos versículos que se seguem: “ Mas faço­ - o s saber, irmãos, que o evangelho que por mim foi anunciado não é segundo os homens. Porque não o recebi nem aprendi de homem algum, mas pela revela­ ção de Jesus Cristo” . “ Eu não estou a pregar” , diz com efeito, Paulo, “ aquilo que me foi dito ou ensi­ nado por outros apóstolos. Prego de acordo com o seu ensino, mas eu nem mesmo o recebi deles. Recebi-

-o de Jesus Cristo” . “ Porque primeiramente vos entre- ”

nhor. A sua autoridade é directa. Isso é autoridade

guei o que também recebi

salonicenses 2:13 —

— e recebeu-o do Se­

À Autoridade

das

Escrituras/75

apostólica, é o que eles reivindicavam, tanto na sua pregação como nos seus escritos. O resultado foi que uma pessoa como o apóstolo Paulo, que era essencialmente um homem humilde, não hesita em dizer isto aos Filipenses 3:17 — “ Sede também meus imitadores, irmãos” Ora, isso seria re­ finado egoísmo, se não estivesse a falar como após­ tolo. Todos eles escreveram com autoridade. Repre­ enderam, censuraram, ordenaram e pediram às pessoas para os seguirem, concordarem com eles e andarem “ como” eles andavam. É essa a posição assumida pelos apóstolos. Além disso, é interessante observar que se trata duma prerrogativa que os outros reconhe­ ciam e aceitavam. Repara na maneira notável pela qual o apóstolo Pedro reconhece esse facto em relação ao apóstolo Paulo. Referindo-se à segunda vinda e ao fim do mundo, diz: como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada; falando disto, como em todas as suas epístolas, entre as quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição” . {2 Pedro 3:15-16). Ele reconhece aos escritos de Paulo a categoria de Escrituras. Os apóstolos reconheciam uns nos outros a autoridade que lhes fora conferida divi­ namente. Ainda mais interessante é que todos os cristãos primitivos a reconheciam. Submetiam-se a ela. Acei­ tavam a palavra dos apóstolos. Aceitavam as suas decisões. Era algo universalmente aceite.

76, Autoridade

De facto, podemos ir mesmo mais além. Já te recordei que a Igreja primitiva também a aceitava.É por isso que o teste da canonicidade era o teste da apostolicidade. Por outras palavras, a afirmação que se faz por toda a parte é que a Igreja está edificada e estabelecida “ sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas” {Efésios 2:20 e seg.). Não temos qualquer outra autoridade. O que é que sabemos acerca do Senhor Jesus Cristo, aparte do testemunho destes homens e do seu ensino? A autoridade dos apóstolos envolve e serve de base à autoridade dos Evangelhos, das Epístolas, do Livro dos Actos, de facto, de todo o Novo Testamento. E nós, ou a aceitamos, ou nào.

E a única autoridade; é a autoridade final.

Nada se lhe pode acrescentar. Não pode ser aumen­

tada, porque não há quaisquer sucessores para os apóstolos. Por definição eles não podem ter suces­ sores. Afirmamos isto contra o catolicismo romano e

o anglo-catolicismo, e contra todos os que ensinam

a doutrina espúria da “ sucessão apostólica” . Se

apóstolo é um homem que precisa de ter visto o Senhor ressuscitado e que; portanto, pode testemunhar do facto da ressurreição, não pode haver sucessores. Os que foram original mente escolhidos não tiveram

sucessores. Jamais houve quaisquer outros que tives­ sem sido especialmente chamados, dotados e inspi­ rados directamente pelo próprio Senhor ressuscitado para falarem e ensinarem com autoridade. Isso é im­ possível. Nao tem que haver uma nova revelação. Não

o

A Autoridade

das

Fscriruras/77

há qualquer necessidade dela. Foi dada, e dada defini­ tivamente aos apóstolos (Ver Judas 3). A Igreja está edificada sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas. Temos portanto de rejeitar toda a suposta nova revelação, todo o acréscimo à doutrina. Precisamos de asseverar que todo o ensino, toda a verdade e toda a doutrina têm de ser testados à luz das Escrituras. Nelas se encontra a revelação que Deus faz de Si mesmo, dada em partes e porções no Velho Testamento, com uma clareza crescente e uma finalidade culminante, chegando eventualmente, “ na plenitude dos tempos” , à revelação perfeita, absoluta e final, em Deus o Filho. Por sua vez, Ele ilumina e revela a Sua Vontade e ensino a estes apóstolos, reveste-os duma autoridade singular, enche-os da necessária capacidade e poder, e dá-lhes o ensino que é essencial ao bem estar da Igreja e do povo de Deus. Só podemos edificar sobre esta autoridade que é única. Para nós, hoje, a escolha é realmente tão simples como o foi para aqueles primeiros cristãos da Igreja primitiva. Ou aceitamos esta autoridade, ou então aceitamos a autoridade do “ conhecimento moderno” , da ciência moderna, do entendimento humano e da capacidade humana. Ou uma, ou outra. Nao nos deixemos confundir pelo argumento moderno acerca duma mudança de posição. Ainda nos encontramos onde os crentes sempre se têm encontrado. Ainda é, “ Cristo ou os críticos” . Para nós, pelas razões que tenho tentado dar, não

78 /Autoridade

há realmente outra alternativa. Por um lado, con­ fiando na capacidade e entendimento humanos, tudo é fluxo e mudança, incerto e inseguro, sempre sujeito ao colapso. Por outro lado, não é somente a “ Rocha inexpugnável da Escritura Sagrada” ; mas há ainda a Luz do mundo, a Palavra de Deus, a própria Verdade.

“ Senhor a Tua Palavra permanece E os nossos passos guia; Quem na sua verdade crê Recebe luz e alegria” .

O Senhor da Igreja declarou: “ Os céus e a terra passaráo, mas as minhas palavras não hão-de passar” . E uma palavra que permanece no tempo; é uma palavra que permanece na morte; é uma palavra que nos confrontará na eternidade. Porque o próprio Filho de Deus disse: “ Eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo. Quem me rejeitar a mim e não receber as minhas palavras, já tem quem o julgue; a palavra que tenho pregado, essa o há-de julgar no último dia” (João 12:47,48).

79

CAPÍTULO III

A AUTORIDADE DO ESPÍRITO SANTO

Antes de mais nada, gostaria de recordar que do ponto de vista prático, esta terceira divisão do nosso estudo sobre a autoridade é a mais importante de todas. Repara que eu digo do ponto de vista prático. Isto porque tudo o que temos vindo a considerar até agora não terá qualquer valor para nós, a não ser que conheçamos e experimentemos a autoridade do Espírito Santo. Podemos estudar a autoridade do Senhor e das Escrituras de um modo puramente intelectual. Pode­ mos ter convicções intelectuais. Mas elas não afectam necessariamente as nossas vidas e trabalho. Só quando a autoridade do Espírito Santo nos chega a afectar é que todas estas coisas se tornam reais, vivas e pode­ rosas para nós. Mais do que isso, tudo o que cremos acerca das Escrituras e do próprio Senhor só pode ser aplicado no nosso ministério, e tornar-se assim rele­ vante para o mundo e para a sua situação, na medida em que estivermos sob a autoridade e poder do Espírito Santo. Portanto, do ponto de vista prático não restam dúvidas de que este é o assunto mais importante.

80 Autorkl.ulc

Em segundo lugar, há muitas vezes nas mentes das

pessoas um conflito entre a autoridade das Escrituras

e a autoridade do Espírito Santo. Como é que isto

acontece, eis um aspecto que em si mesmo merece tratamento cuidadoso e prolongado. Mas não pode­ mos dedicar-nos a isso, porque a nossa preocupação no momento é tratar de outro assunto. Gostaria de te recordar, de passagem, que no século dezassete este conflito tomou-se agudo entre os Puritanos e dividiu- -os em dois grupos principais. Aqueles que asseve­ raram que nada importava, a não ser a autoridade do Espírito, tomaram-se conhecidos como a Sociedade de Amigos (ou “ Quáqueros” ). Diziam qut nada interes­ sava senão a “ Luz Interior” , o testemunho íntimo, a experiência íntima e um poder íntimo. Tendiam tam­ bém a depreciar as Escrituras, chegando alguns deles ao ponto de dizerem que as Escrituras nem sequer

eram necessárias. Essa atitude provocou, naturalmen­ te, uma reacção no outro lado, que foi levado talvez a depreciar de algum modo o lugar, a influência e a autoridade do Espírito, e a dar ênfase exclusivamente

à autoridade das Escrituras.

Ora isto é, sem dúvida, uma antítese absolutamente artificial e falsa. Crendo como cremos, e como já temos visto, que foi o próprio Espírito Santo que inspirou e guiou homens a escrever as Escrituras, deve ser-nos evidente que é claramente Sua intenção que as Escrituras sejam usadas. Mas, mais do que isso, as Escrituras exortam-nos a investigar, a examinar e a “ provar os espíritos” . Infelizmente, além do Espírito

A Autoridade

do

Kspírito

Santo/81

Santo há também espíritos maus no mundo. Outros sim, estes maus espíritos estão sempre a atacar-nos e a tentar influenciar-nos. “ Não temos de lutar contra a carne e o sangue” , diz o apóstolo, “ mas contra os principados, contra as potestades, contra os princípes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade nos lugares celestiais” (Ef. 6:12). Estes espí­ ritos querem iludir-nos e induzir-nos em erro. Desse modo, a única maneira de podermos examinar e pro­ var os espíritos, e também a nós próprios, pela Pala­ vra. A Bíblia mostra, portanto, que o Espírito Santo nos fala normalmente através da Palavra. Ele toma a Sua própria Palavra, ilumina-a, toma as nossas mentes e alumia-as, e assim somos tornados receptivos à Palavra. Através de tal processo podemos conferir todas as experiências que possamos ter, de modo a ficarmos certos de que não estamos a ser desviados ou enganados. Portanto, não é correcto falar do Espírito ou da Palavra, mas sim do Espírito e da Palavra, e especialmente do Espírito através da Palavra. Esta antítese que tende a perpetuar-se em alguns meios, mesmo hoje, constitui algo que temos de nos recusar a admitir. Uma terceira consideração que salienta a importân­ cia do nosso assunto é que de todos os aspectos desta questão sobre autoridade não há nenhum que seja tão negligenciado hoje em dia, como a autoridade do Espírito. Dá-se bastante atenção à Pessoa do nosso Senhor e à Sua autoridade. Há, sem dúvida, grande interesse nas Escrituras e na sua autoridade. Mas, em

82 Autoridade

comparação, quanto é que nós ouvimos sobre o Espí­ rito Santo e a Sua autoridade? Se eu tivesse de arriscar uma opinião, diria que nenhum aspecto da fé cristã tem sido tão tragicamente negligenciado e, talvez, mal compreendido. Por que é que isso acontece? É impor­ tante que façamos esta pergunta, porque ao respondê- -la seremos forçados a examinar-nos a nós mesmos. Estou de facto convencido de que é aqui que depa­ ramos com a principal fonte de fraqueza no mundo evangélico dos nossos dias. Quais são então as razões desta negligência? Acho que uma delas é a respeitabilidade e a nossa grande preocupação com a “ dignidade” . É essa a palavra fatal que, segundo me parece, entrou aí pelos meados do século dezanove. Os pais dessa geração tinham nascido numa atmosfera de grandes despertamentos e avivamentos religiosos. Eram homens sensíveis aos movimentos do Espírito. Não estavam muito preocu­ pados consigo mesmos, com a sua dignidade ou posi­ ção. Mas pelos meados do século passado introduziu- -se esta outra ideia e as pessoas começaram a falar acerca da necessidade dum culto “ solene” . Assim, começaram a pôr a sua ênfase mais sobre a capaci­ dade intelectual e o preparo do ministro, do que sobre

a sua conversão, o facto de ser ele cheio do Espírito e

seu consequente discernimento espiritual e autoridade. Isto foi feito com vista a podermos ter uma forma

“ solene ou dignificada” de culto. Um dos resultados foi que a Igreja começou a dar cada vez mais atenção

a formas e cerimônias.

A Autoridade

do

Espírito

Santo/83

Ao mesmo tempo, começou a introduzir-se um tipo de orgulho de erudição e de conhecimentos. À medida que se espalhava a educação popular, as pessoas di­ ziam que a Igreja precisava dum ministério mais ins­ truído. Argumentava-se que aqueles que frequen­ tavam as escolas primárias, secundárias e as univer­ sidades já não se satisfariam com o velho tipo de pregação. Tudo isto vem sob o título geral de “ respei­ tabilidade” e teve indubitavelmente o efeito de “ ex- tinguir o Espírito” . Claro que o desejo de ter um ministério culto e educado é correcto, mas não simplesmente como um fim em si mesmo, e nunca à custa do elemento espiritual. Essa é uma explicação da negligência deste assunto. Outra que está intimamente relacionada com ela é o nosso medo do “ entusiasmo” . Tem havido um horror aos excessos. Ouvimos de várias seitas e denomina­ ções que dão muita ênfase ao trabalho e ao ministério do Espírito, mas acrescentamos imediatamente: “ Re­ para nos seus excessos. Repara no que eles fazem. Olha para a sua falta de controlo” . Muitos têm ficado horrorizados com o pensamento de excessos e têm-se deixado levar tão longe para o outro extremo, que são indubitavelmente culpados de extinguir e entristecer o Espírito. Todavia, essa acusação de entusiasmo tem sido sempre feita contra os que amam a evangelização. Foi fejta contra George Whitefield, John Wesley e seus coadjutores, há dois séculos. Eles eram continua­ mente acusados pelos bispos e outros de serem

K4 Autoridade

“ entusiastas” . Contudo, isso não preocupou aqueles homens, nem os atemorizou. Mas o cristão moderno, o moderno evangélico, parece amedrontado e ater­ rorizado com esta crítica, como se houvesse algo de inerentemente errado em um cristão ser na realidade arrebatado e, por vezes, quase que ficar fora de si e do seu próprio controlo. Longe de mim tentar defender excessos ou fanatismo, mas estou certo de que o nosso perigo, hoje, é termos tanto medo dessas coisas, ao ponto de chegarmos a ser culpados de extinguir o Espírito. Claro que, em última análise, tudo isto volta ao problema do orgulho. Estamos tão preocupados a respeito de nós mesmos e da nossa própria importância, que quase receamos que o Espí­ rito Santo assuma o controlo, no caso de nos acharmos a fazer e a dizer algo, ou mesmo a aparecer duma forma que não se harmonize plenamente com as nossas idéias sobre o que convém ao educado e sofis­ ticado indivíduo moderno.

OS ESFORÇOS DA IGREJA PARA RECUPERAR A AUTORIDADE

Não há dúvida absolutamente nenhuma de que a maior necessidade da Igreja no presente é um estudo deste assunto. Contudo, hoje em dia, a Igreja, como tem sido, com frequência, inclinada a fazer em épocas anteriores, parece estar a negligenciar isto e a procurar a sua fonte de autoridade, em todo o lado menos

À Autoridade

do

Espírito

Santo/85

aqui. Está consciente do facto de que é mais ou menos impotente, de que não está a causar no mundo o impacto que devia. Está consciente do que o que lhe falta é verdadeira autoridade. No entanto, na sua busca dessa autoridade, parece fazer tudo excepto voltar-se para a autoridade do Espírito Santo.

Procedendo assim, a igreja dos nossos dias está a repetir quase exactamente as suas experiências em séculos anteriores. Se te debruçares sobre a história da Igreja no fim do século dezassete e princípios do dezoito, verificarás que as pessoas tinham tomado consciência do facto que o cristianismo estava a perder a sua influência. Os racionalistas dos fins do século dezassete e os deístas do início do século dezoito iam dando as suas prelecções e escrevendo os seus livros. A Igreja parecia estar muito desamparada. Por esse motivo, um certo número de cristãos reu­ niram-se e perguntaram uns aos outros: “ Que pode­ remos fazer para reafirmar a autoridade da Igreja e da verdade?” Chegaram à conclusão de que o melhor plano seria fundar uma nova série de prelecções. Esta­ beleceram, por conseguinte, aquilo que é denominado por Prelecções Boyle, que ainda são feitas anualmente.

Qual era o objectivo destas conferências? Era, simplesmente, defender a fé cristã e produzir um sistema de argumentos e apologética em defesa da fé. Então, durante o mesmo período, esse homem emi­ nente, de grande intelecto — o Bispo Butler — de acordo com as mesmas directrizes e de harmonia com

86'Autoridade

esta posição, escreveu a sua famosa Analogia da Religião. O que é que toda esta actividade visava fazer? Eles estavam a esforçar-se por restaurar a autoridade da

Bíblia e do evangelho, e estabelecer racionalmente a fé cristã. “Temos de fazer alguma coisa para readiquirir

a velha autoridade” , disseram eles. E assim, fizeram-

-no daquela maneira. Produziram a apologética do seu tempo. No entanto, cómo sabemos perfeitamente bem, agora, não foram as prelecções Boyle ou as obras do Bispo Butler que restabeleceram a posição da Igreja e restauraram a sua antiga autoridade. O que é que foi? Foi Deus, actuando através do Espírito Santo nas vidas de George Whitefield e John Wesley, na Ingla­ terra, e de outros como Jonathan Edwards e os Tennents, na América. Foi o poderoso avivamento

evangélico do século dezoito. Aquilo que as excelentes Prelecções Boyle e as obras do Bispo Butler não conseguiram de modo algum fazer, foi realizado pelo próprio Deus, da maneira que Lhe é peculiar. No início do século dezanove, a Igreja sentiu mais uma vez a perda de poder. A influência do aviva­ mento evangélico tinha mais ou menos começado a desvanecer-se. Outros e novos factores haviam surgido

e

a Igreja pouco contava. Parecia ter perdido de novo

a

sua autoridade, não tinha qualquer influência sobre

o

povo em geral. “ O que é que se pode fazer”

perguntou a Igreja — “ para restaurar a autoridade

cristã?” Alguns homens muito capazes e cultos, tais como Keble, Newman e Pusey, reuniram-se em Ox-

A Autoridade

do

Kspírito Santo/87

fbrd e concluiram que tinham de conferir mais auto­ ridade ao pregador. Como é que poderiam fazer isso? Acharam que a única maneira era afastar mais o pregador das pessoas. Sentiam que ele tinha perma­ necido demasiado perto do membro de Igreja em geral, e que precisavam de o investir duma nova aura de autoridade. Foi esse o raciocínio que esteve por detrás da origem do anglo-catolicismo e de todos os outros avivamentos de catolicismo que não chegaram a atingir o estricto catolicismo romano. Eles sugeriram que o pregador se vestisse de maneira diferente. Por isso, vestiram-no dum modo especial. Afastaram-no mais da presença física das pessoas, puxaram-no para trás, digamos assim, para dentro do santuário e para mais próximo do que denominaram de “ altar” . Ele­ varam o próprio altar e tentaram investir essa parte do edifício da Igreja com uma nova dignidade. Argu­ mentavam que, como resultado, as pessoas viriam e escutariam com temor e tremor, e com maior pron­ tidão para responderem. Era essa ideia que estava por detrás de tudo. Tudo fazia parte dessa busca de autoridade e, como sabes, houve muitos que realmente foram para a Igreja de Roma, porque acharam que só ela podia na verdade garantir esta espécie de auto­ ridade. Ao mesmo tempo, como já notámos, havia aqueles que acreditavam que a erudição e o conhecimento, uma melhor preparação e um acesso à Bíblia pela via da crítica literária, histórica e científica restaurariam de novo à Igreja a autoridade perdida. Mas todos

88/Aucoridaüc

estamos familiarizados com os factos. O que de facto deu à Igreja nova autoridade no século dezanove não foi nenhuma destas coisas. Ela veio eventualmente através daquele avivamento que eclodiu na América em 1857, e no Ulster, País de Gales e outras partes do mundo em 1858 e 1859. Este foi um avivamento espiritual, uma grande renovação evangélica, mais uma vez. Foi Deus novamente agindo e intervindo no poder do Espírito, que, na verdade, restaurou a auto­ ridade, e não as tentativas dos homens.

Quando consideramos a situação actual, desco­ brimos que a Igreja em geral está a repetir o com­ portamento dos dois séculos anteriores e a introduzir de novo os expedientes que tantas vezes têm sido adoptados através da sua longa história. Hoje em dia, toda a gente está preocupada com este problema da autoridade. As perguntas que se fazem, são: “ Por que é que nós não podemos atingir as massas que estão lá fora? Como é que conseguiremos que nos ouçam? Que poderemos fazer para dar à Igreja autoridade na sua pregação e nos seus pronunciamentos?” Mas observa a maneira pela qual muitos estão a tentar resolver a situação. Dizem assim: “ Claro que o maior problema está em que a Igreja não se tem mantido a par dos tempos, Não tem feito de si mesma a publicidade que devia. Os grandes negócios progridem por meio de propaganda”. Por conseguinte, as maiores denominações têm organizado departamentos de pu­ blicidade. Dispõem de escritórios para esse fim, e estão atentos para que parágrafos apropriados sejam

A Autoridade

do

Espírito

Santo/89

regularmente colocados nos jornais. “ PÕe-no diante do povo, e o povo começará a ouvir” , é o slogan. Apoiam-se na autoridade da voz potente e do grande anúncio.

Outros dizem: “ Não, não é dessa maneira. O que precisamos é ter uma preocupação social. Afinal de contas, as pessoas estão interessadas em coisas mate­ riais e em problemas sociais. A Igreja, portanto, tem de descer à terra e mostrar que está realmente inte­ ressada em tais assuntos, e tem de falar muito mais sobre questões políticas e sociais. Então o povo prin­ cipiará a dar atenção e a ouvir a nossa mensagem”. Outros advogam que a única maneira de reconquistar a autoridade é fazer muito mais uso da rádio e da televisão. “ Aqui está um grande instrumento e uma grande fonte de poder” , dizem eles. “ A Igreja deve adquiri-la. Dêem dinheiro para esse fim. Façamos uso deste grande meio de publicidade e propaganda” . Outros ainda põem a sua fé na produção de livros

e de literatura. Unida a tudo isto, claro, está toda a ideia de erudição e conhecimento. Muitos pensam que se tão somente mostrarmos que o cristão moderno sabe tudo

a respeito da ciência, que não é simplesmente um tolo

e um entusiasta, mas que é, na verdade, muito razoável, intelectual e científico, então o mundo estará

mais pronto a ouvi-lo. É esse geralmente o motivo por detrás de muitos livros que pretendem reconciliar a ciência com a religião. São esse os argumentos bá­ sicos. Mas, claro, inspirando-os a todos, e mais

90/Aiitori(l;ulc

importante, dizem, do que todos os outros juntos, está

a necessidade de unidade e duma grande organização

da Igreja Mundial. O grande problema, informam-nos eles constantemente, é que as forças do Cristianismo

estão divididas. O mundo incrédulo é um, e a Igreja está dividida numa série de fragmentos. Como é que poderemos falar com autoridade numa tal situação? Afirmam que há só uma coisa a fazer. “ Precisamos de ter uma grande Igreja mundial. Se tão somente nos pudéssemos tornar um e enfrentar o mundo juntos, então ele teria de nos ouvir. Esse é o segredo da autoridade” . Ao dizer tudo isto, não estou a descrever apenas aquelas secções da Igreja que não são evangélicas. Infelizmente estou também a falar dos verdadeiros evangélicos. Parece-me que nós próprios temos caído

no mesmo erro. Citamos muitas vezes: “Nao por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor” e, todavia, na prática, parece que descan­ samos no “ poderoso dólar” , no “ poder da imprensa”

e na publicidade. Dá a impressão de que pensamos

que a nossa influência dependerá da nossa técnica e do programa que pudermos apresentar, que serão os números, a extensão e a grandeza que darão resul­ tado. Parece havermos esquecido que Deus tem reali­ zado a maior parte dos Seus feitos na Igreja, ao longo

da sua história, através de “ remanescentes” . Parece que esquecemos, por exemplo, a grande história de Gideão e como Deus insistiu em reduzir os trinta e dois mil homens para trezentos, antes que fizesse uso

A Autoridade

do

Fspírito

Santo/91

deles. Temos ficado fascinados com a ideia de gran­ deza e estamos absolutamente convencidos de que se tão somente formos capazes de “ encenar” (sim, é esse

o termo!) algo de realmente grande perante o mundo,

iremos abalá-lo e produziremos um poderoso desper- tamento religioso. Parece ser essa a moderna con­

cepção de autoridade. Tudo isso, penso eu, não é senão o velho erro em

que a Igreja tem caído tantas vezes. Porque a máxima de Hegel acerca da história é tão verdadeira a respeito da Igreja como do mundo: “ A história ensina-nos que

a história não nos ensina coisa nenhuma” . Parecemos

determinados a continuar repetindo deste modo os mesmos erros e a cair nas mesmas armadilhas, como os nossos antepassados sempre fizeram. Tudo isso nos traz de volta a este ponto que a Bíblia ensina nítida e

claramente, que o próprio método de Deus é sempre através do Espírito e da Sua autoridade e poder. Portanto, o que precisamos de fazer acima de tudo o mais, é estudar este assunto — a autoridade do Espí­ rito Santo.

A AUTORIDADE DO ESPÍRITO NA VIDA DO NOSSO SENHOR

Como é que se manifesta esta autoridade? Já vimos uma das maneiras no nosso estudo da autoridade das Escrituras. Mas agora temos de chegar ao ponto em que vemos a autoridade do Espírito Santo demons­

92/Autoridade

trada na vida e ministério terreno do Senhor Jesus Cristo. Este é, sem dúvida, um aspecto deveras im­ portante no nosso tema. Lembramo-nos de como Ele foi baptizado logo no início do Seu ministério, com trinta anos de idade. Foi ter com João Baptista e pediu-lhe que O baptizasse. João argumentou e sali­ entou que ele, João, é que devia ser baptizado por Cristo, mas o nosso Senhor respondeu: Deixa por agora, porque assim nos convém cumprir toda a jus­ tiça” . Foi neste ponto da Sua vida, quando foi bapti­ zado por João, que o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma de uma pomba, e a voz do céu declarou:

“ Este é o meu amado Filho em quem me comprazo” .

Ora isto é alguma coisa única. O nosso Senhor estava a receber a plenitude do Espírito Santo, a fim de poder exercer o Seu ministério como Messias. Notemos como isto aparece em João 3:34: “ Pois não lhe dá Deus o Espírito por medida” . Deus deu-Lhe o Espírito em absoluta plenitude para a Sua tarefa. Isto é um mistério, mas parece claro que mesmo o Filho de Deus (para os propósitos da Sua obra mediadora na terra) não podia ter feito o trabalho que Lhe havia sido destinado, a não ser que o Pai Lhe tivesse dado assim o Espírito Santo. Jesus Cristo continuava a ser a segunda Pessoa eterna na bendita e santa Trindade, mas havia posto de lado as insígnias da Sua glória. Tinha-Se humilhado a Si mesmo e tinha vindo à terra para viver como um homem. Essa é a razão por que Ele tinha de orar e por que era essencial que recebesse

A Autoridade

do

Fspíriro

Santo/^3

desse modo a plenitude do Espírito. O Espírito não Lhe foi dado “ por medida” . Ele próprio salientou este mesmo ponto. Os líderes

dos judeus estavam a argumentar com Ele sobre a Sua autoridade e poder. Estavam bastante impressionados por Ele ter alimentado cinco mil pessoas por meio de um milagre, mas entenderam mal o que isso signi­ ficava. O nosso Senhor disse-lhes: “ Trabalhai não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou” . (João 6:27). Isto é uma referência ao que acontecera lá, no Seu baptismo. “ Selar” é sempre “ com o Espírito Santo” .

O Senhor Jesus Cristo estava,com efeito, a dizer: “ Eis

aqui a minha autoridade. O Meu Pai autenticou-Me quando mandou o Espírito sobre Mim e a voz falou. Fui selado pelo Pai. Por que é que ainda estais em dúvida a meu respeito? O que me autentica não são tanto os milagres como o selo do Espírito” . Foi uma proclamação pública do facto de que Ele é o Messias. Foi isto o que acompanhou significativamente o Seu baptismo. Então, depois do baptismo, Ele foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo durante quarenta dias e quarenta noites. No fim desse período, voltou para a Sua terra, a cidade de Nazaré, e lá, como era Seu costume, entrou na sinagoga no dia de sábado e começou a ler o livro do Profeta Isaías:

“ E quando abriu o livro, achou o lugar em que estava escrito: O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que

94/Aurorúhulc

me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me a curar os quebrantados do coração, a apregoar liber­ dade aos cativos, e a dar vista aos cegos; a pôr em liberdade os oprimidos; a anunciar o ano aceitável do Senhor. E cerrando o livro e tornando-o a dar ao ministro, assentou-se; e os olhos de todos na sinagoga estavam fitos nele. Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta escritura em vossos ouvidos” (Lucas 4:17 e seg.). O que é que Ele está a dizer? “ O Espírito do Senhor é sobre Mim. Ele ungiu-Me” . Notemos de novo que Ele foi ungido na ocasião do baptismo, lá no Jordão. Recebeu aquela unção especial e a auto­ ridade do Espírito para a Sua tarefa. Como Deus- -Homem, o Filho do Homem, recebeu o Espírito Santo na Sua plenitude, a fim de poder continuar a pregar e a realizar a Sua obra de redenção. Uma vez mais, a conclusão a que temos de chegar é que mesmo o Filho de Deus não poderia ter feito o Seu trabalho, se não tivesse recebido assim a autoridade, a unção, unção esta que só o Espírito Santo pode dar (ver também Actos 10:38).

A AUTORIDADE DO ESPÍRITO NA VIDA DO CRENTE

a. A obra do Espírito na conversão

Este é um assunto importante que podia ocupar a

nossa

mente algumas

atenção

por muito

sugestões.

tempo.

Vou

dar

simples­

Primeiro, vemos a autori­

A Autoridade

do

Rspírito Santo/95

dade do Espírito Santo mesmo na questão inicial de chegar à crença no Evangelho. Quantas vezes isto é claramente descrito nas Escrituras. O nosso Senhor salienta-o na Sua entrevista com Nicodemos que obviamente tomou a posição de que se tratava de uma mera questão de entendimento. Ele é um mestre de Israel, mas aqui é confrontado por Alguém que, sem dúvida, tem mais do que ele próprio. E então pensa consigo mesmo: “ Trata-se só dum estágio mais avan­ çado do que aquele que eu já atingi” . Assim, foi ter realmente com o nosso Senhor para Lhe perguntar:

“ O que é que tenho de fazer além daquilo que já faço? O que é que eu preciso além do que já tenho, de que modo a tornar-me como tu? Evidentemente, tu és um mestre enviado de Deus, pois nenhum homem pode realizar estes milagres que tu fazes, se Deus não for com ele” . Nicodemos está a ponto de dizer: “ O que é que eu necessito mais?" E o nosso Senhor volta- -Se para ele e diz-lhe: “ Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver

o reino de Deus” . “Estás completamente errado” ,

disse com efeito o nosso Senhor a Nicodemos, “ pre­ cisas de nascer da água e do Espírito. Há coisas que pertencem à carne. Há coisas que pertencem ao Espí­ rito. Aquele que é nascido da carne é carne; e aquele que é nascido do Espírito é Espírito. Não te maravi­ lhes (Não tentes compreender). O vento sopra onde quer e ouves o seu ruído, mas não podes dizer de onde vem nem para onde vai. Assim é todo aquele que é nascido do Espírito. Precisas da iluminação e do

9<v'Auroridade

poder do Espírito. Não podes lazer isto sozinho” . O nosso Senhor declarou com ênfase, e duma vez para sempre, este princípio. Vemos a mesma coisa em prática nos Actos dos Apóstolos.O primeiro cristão convertido no continente da Europa foi, de acordo com o relato, uma mulher chamada Lídia, vendedora de púrpura, da cidade de Tiatira. Como é que ela se converteu? Teria sido arrastada pela personalidade do apóstolo Paulo? Teria ele “ posto em destaque essa sua grande personali­ dade?” Recordas-te de como ele começou a sua cam­ panha na Europa. Foi apenas a uma pequena reunião de oração de mulheres, fora dos muros da cidade, num domingo à tarde, Foi o começo menos auspicioso e menos anunciado que se pode imaginar. Ali, na pequena reunião de oração, simplesmente se sentou e lhes falou da Palavra do Senhor.

“ Mesmo assim” , poderá alguém dizer, “ deve ter sido a personalidade de Paulo. Deve ter sido a sua erudição e eloquência” . Não é isso que o texto diz.

Em Actos 16:14, lemos: “

coração para que estivesse atenta ao que Paulo dizia” . Nem mesmo Paulo, homem poderoso como era, podia salvar uma alma. Só o Senhor, o Espírito Santo, pode

abrir o coração e habilitar-nos a receber a verdade. Uma afirmação específica deste facto, em 1 Coríntios 12:3, deve resolver o assunto. “ Portanto vos quero fazer compreender que ninguém que fala pelo Espírito de Deus diz: Jesus é anátema, e ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo” . Se

e o Senhor lhe abriu o

A Autoridade

do

Kspirito

Santo/97

precisas de algo mais, só tens de ir a Efésios 2, e lá encontrarás que há só uma esperança para aqueles que estão “ mortos em delitos e pecados” , aqueles que são “ os filhos da ira” e que andam “ segundo o príncipe das potestades do ar, o Espírito que agora opera nos filhos da desobediência” e que são escravos da concupiscência e paixões da mente, assim como da carne e do corpo. Só há uma esperança para eles. “Vos vivifícou” . “ Somos feitura sua” . Sem a obra, a autoridade e o poder do Espírito Santo, nunca exis­ tiría um único crente no Senhor e Salvador Jesus Cristo.

b. A obra do Espírito na certeza

Mas a autoridade do Espírito não termina aí, É só o Espírito Santo que nos pode dar uma certeza inaba­ lável da salvação. Ora este assunto da certeza da salvação é muito importante e, parece-me que c com muita frequência mal entendido. Há três maneiras principais pelas quais experimentamos segurança, mas infelizmente, nos dias que correm, muitas vezes só a primeira é acentuada. A primeira é aquilo que deve ser obtido crendo e aplicando a nós próprios a simples palavra da Escritura, como Palavra autorizada de Deus. Diz-nos que “ aquele que nele crê não é con­ denado” . Há a Palavra de Deus, cremos nela e des­ cansamos sobre ela. Contudo, essa é só uma das maneiras de obtermos segurança. De facto, essa sozinha pode algumas vezes

98 /Auton<J.uK‘

ser perigosa. Pode ser um tipo dc “ credulidade” . Um homem pode dizer isso por amor da sua própria paz e dos seus propósitos. Aceitamo-la, mas por si só não é suficiente. Precisamos de algo mais, o que constitui a segunda base da segurança. A primeira Epístola de João fornece-nos certos criténos. João afirma que existem certos testes para a vida espiritual. (1) “ Sabe­ mos que passámos da morte para a vida, porque amamos os irmãos” . (2) Sabemos também que pas­ sámos da morte para a vida, porque já não achamos os mandamentos do Senhor opressivos. São um deleite para nós. E há outros testes. (3) Cremos no Senhor Jesus Cristo. (4) Temos consciência de que o Espírito opera em nós. (5) Examinamo-nos a nós próprios para ver se algum dos frutos do Espírito se está a manifestar em nós. Se acharmos estas coisas, podemos ter a certeza de que nascemos de novo. A vida no seio da árvore produz maçãs, peras ou pêssegos. A vida é forçada a revelar-se, e se encontras quaisquer sinais ou evidências dela, isso é garantia de que estás em pre­ sença de vida. Esta é uma forma de segurança muito mais digna de confiança do que a primeira, que era totalmente objectiva. Esta é também subjectiva. Todavia, há ainda outra forma de segurança. E a mais elevada e a mais certa de todas. O apóstolo Paulo expressa-se em Rom. 8:15-17: “ Pois não rece­ beste o espírito da escravidão, para outra vez estardes em temor, mas recebestes o espírito de adopção de filhos, pelo qual clamamos: Abba, Pai. O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos

A Autoridade

do

Kspírito Santo/99

filhos de Deus. E se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus e coherdeiros de Cristo” . Esta não é uma forma de segurança que eu possa deduzir das Escrituras ou de evidências que encontro em mim próprio. Trata-se dum testemunho directo do Espírito; O próprio Espírito dá testemunho com o meu espírito. E possível termos as duas primeiras bases de segurança, sem possuirmos esta terceira. Aqui está algo que só o próprio Espírito nos pode dar. E só Ele que pode falar com uma autoridade definitiva que me dá certeza quanto a eu ser um filho de Deus, uma certeza tão grande, ou na realidade maior, como a minha certeza em relação a qualquer outra coisa na vida. Tal facto é constantemente asseverado pelos santos, ao longo dos séculos. Eles declaram que o Espírito Santo tornou-os tão certos da realidade e presença do Senhor Jesus Cristo e do Seu amor por eles, que ficaram mais seguros disso, do que de qual­ quer outro facto. A mesma verdade é apresentada noutras formas, em outros lugares. Em 2 Cor. 1:2, encontramo-la assim:

“ O qual também nos selou e deu o penhor do Espírito em nosso coração” . Em Efésios 1:13-14, expressa-se

e tendo nele também crido, fostes

deste modo: “

selados com o Espírito Santo da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão de Deus” . Irás notar que se usa a mesma palavra que foi aplicada a respeito do nosso Senhor, aquando do Seu baptismo. — “ selados” . Aqui, pois, está a segu­

100/Autorkladc

rança decisiva da salvação, e só a autoridade do Espírito Santo no-la pode dar.

c. A obra do Espírito dando entendimento

Também é só o Espírito Santo que nos pode dar verdadeiro entendimento espiritual das Escrituras, entendimento da doutrina. João apresenta isto clara­ mente (1 João 2:20). Ele está a tratar dos “ anti- -cristos” , aqueles que tinham estado na igreja, mas que se haviam afastado, porque não eram dela. Tinham-se convencido de que eram convertidos e haviam sido aceites como tais. Mas agora tinham-se retirado. Nunca haviam sido, de facto, verdadeiros crentes. Eram temporários, cren­ tes falsos. Levanta-se a questão de como poderemos diferenciá-los. Como é que poderíam estes primeiros cristãos, ignorantes, a maioria dos quais era consti­ tuída de escravos, ter o discernimento necessário nestas matérias? João afirma: “ Mas vós tendes a unção do Santo e sabeis tudo” . Repete-o no versículo 27: “ E a unção que vós recebestes dele fica em vós e não tendes necessidade de que alguém vos ensine” . Há uma unção e um revestimento dados pelo Espírito Santo que nos conferem entendimento. E assim tem acontecido muitas vezes na longa história da Igreja, que certas pessoas ignorantes, mais ou menos jletra­ das, têm sido capazes de discernir entre a verdade e o erro, muito melhor do que grandes doutores da Igreja. Foram suficientemente simples para confiarem na “ un-

 Autoridade

do

Espírito

Santo/101

ção” e, desse modo, foram capazes de distinguir entre coisas que diferem entre si. O piedoso Samuel Ruther- ford, esse poderoso homem de Deus que viveu há trezentos anos, na Escócia, comentou um dia: “ Se desejares tornar-te um teólogo profundo, recomendo- -te santificação” . Em última análise, o caminho para compreenderes as Escrituras e toda a teologia é tornares-te santo. É estares sob a autoridade do Espí­ rito. É seres guiado pelo Espírito.

d. A obra do Espírito na defe^r. da verdade

Uma quarta maneira de o Espírito Santo mostrar a Sua autoridade ao indivíduo crente é na defesa da verdade. Ora isto é algo sobre que nos preocupamos muito nos nossos dias, e com razão. Em Judas 3, lemos que devemos “batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” . Mas como é que vamos fazer isso? A nossa tendência é fazê-lo em termos de apologética. Uma vez mais desejo dizer que não estou a denunciar ou a repudiar a apologética. Creio que ela tem o seu lugar próprio, mas estou certo de que lhe estamos a atribuir demasiada importância, e um número exces­ sivo dos nossos livros defende a fé desta maneira. Estamos a tentar argumentar, mostrar o nosso conhe­ cimento e fazer ajustamentos, mas não parece valer de muito. Nao parece que estejamos a causar grande impressão nos nossos oponentes Como é que então se deverá defender a verdade?

102 Autoridade

Em Acros 6 encontramos Estêvão nesta mesma po­ sição. E eis o que lemos nos versos 9 e 10: “ E levan­ taram-se alguns que eram da sinagoga chamada dos libertinos, e dos cireneus e dos alexandrinos, e dos que eram da Cilícia e da Ásia e disputavam com Estêvão. E não podiam resistir à sabedoria e ao espí­ rito com que falava” . O segredo de Estêvão foi estar cheio de sabedoria, fé e poder, porque estava cheio do Espírito Santo. Por esse motivo, pôde defrontar esses argumentadores de tal maneira, que eles não foram capazes de resistir à sabedoria e ao Espírito com que falava. E esse o caminho para defender a fé e assumir uma posição a favor da verdade. Consideremos alguns outros exemplos deste mesmo método. O apóstolo Paulo tinha muitos adversários em Corinto, e estes andavam a dizer coisas desagra­ dáveis a seu respeito. Procuravam ridicularizá-lo. Diziam eles: “ A sua presença é fraca e a palavra desprezível” . Receio que o apóstolo Paulo não pudesse ser um evangelista moderno popular. Parece que não tinha grande aparência. Dizem-nos que era um ho­ mem baixo, calvo e com o nariz adunco; que tinha uma horrível inflamação nos olhos, uma oftalmia que lhe dava um aspecto absolutamente repulsivo. Era esse

o

como segue: “ Mas em breve irei ter convosco, se o Senhor quiser, e então conhecerei, não as palavras dos

que andam inchados, mas a virtude. Porque o reino de Deus não consiste em palavras, mas em virtude” (1 Cor. 4:19-20). O que importa, diz ele, não é compre­

gênero

de

coisas

que

diziam

dele.

E

o

apóstolo

A

Autoridade

do

Espírito

Santo/10*

ensão ou mero discurso; é a autoridade, o poder do Espírito Santo.

O apóstolo diz precisamente isso a essa mesma igreja, em 2 Cor. 10:3-5, onde afirma o seguinte:

“ Porque andando na carne, não miiitamos segundo a carne. Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas sim poderosas em Deus, para destruição das fortalezas; destruindo os conselhos, e toda a alti­ vez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo” . É esse o seu método. Está na carne, anda na carne, mas não milita “ segundo a carne” . Tem outra autoridade, outro poder. E o poder e a autoridade do

Espírito Santo que estava nele. Está pronto a enfrentar

o mundo inteiro e pode derrubar todas as autoridades,

fortalezas e domínios.

É sem dúvida importante, reconhecermos que ainda

é aqui que temos a única autoridade. Podemos erguer

as nossas próprias e pequenas autoridades, e o mundo ergue também as suas. Trata-se simplesmente duma autoridade contra outra. Gastamos o nosso tempo a citar “ autoridades” e a descobrir este pormenor e aquele. Às vezes lemos no jornal que uma pessoa ou outra se tornou agora crente. E podemos pensar que isto fará uma grande impressão no público. Mas a situação essencial permanece sem ser afectada. A úni­ ca autoridade que nos poderá valer de alguma coisa no que respeita a tudo isto, é a autoridade do Espírito Santo.

104 'Àutorií.Litk*

e. A obra do Espírito na evangelização

Isto leva-me à questão mais prática de todas, a autoridade do Espírito Santo na evangelização e no testemunho. Aqui consideramos a tarefa de levar a verdade ao mundo, ao meio daqueles que não são crentes. Lembro-me de uma vez ler uma frase num artigo escrito por um senhor, acerca duma reunião na qual ele havia escutado dois oradores. Tratava-se duma reunião política, não religiosa, mas o que ele disse acerca daqueles dois homens veio até mim como uma convicção do Espírito Santo. Esse senhor dizia que ao ouvir os dois cavalheiros sentiu que a principal diferença entre eles era esta: o primeiro falara bri­ lhantemente como um advogado; o segundo falara como uma testemunha. E eu perguntei a mim mesmo:

o que sou eu? Serei um advogado destas coisas, ou sou uma testemunha? Podes ser um advogado do cristianismo, sem seres um cristão. Podes ser um advogado destas coisas, sem as experimentares. Se possuis inteligência e se foste correctamente instruído, podes entender as Escrituras em certo sentido e podes apresentá-las diante dos outros. Serás capaz de apre­ sentar todos os argumentos, de defender a causa esquadrada num tipo de filosofia cristã. Isto pode soar maravilhosamente bem. Mas é possível manteres-te fora da verdadeira experiência durante todo esse tempo. Podes estar a falar de algo que não conheces, de Alguém que jamais encontraste. És um advogado, talvez mesmo um advogado brilhante, mas repara no

A Autoridade

do

Hspírito Samo/105

que o Senhor disse aos apóstolos: “ Ser-me-eis tes­ temunhas” . Consideremos, pois, este assunto juntos. O que o Espírito Santo faz com a Sua autoridade é tornar-nos testemunhas. Já mostrei como mesmo o nosso Senhor precisou desta autoridade antes de poder pregar, rea­ lizar as Suas obras poderosas e exercer o Seu minis­ tério. O mesmo é verdade com respeito aos Seus discípulos. Após a ressurreição, exactamente antes da ascensão, o nosso Senhor veio ter com estes homens que haviam estado com Ele durante três anos, e disse:

“ Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há- -de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria, e até aos confins da terra” (Actos 1:8). Estaremos conscientes do pleno significado disso? Aqui estavam homens que tinham vivido com Ele durante três anos. Conheciam- -nO intimamente, tinham ouvido os seus sermões, visto os Seus milagres. Haviam estado lá e tinham olhado para Ele enquanto morria na cruz. Tinham-nO visto sepultar na tumba. Sabiam que ressurgira dos mortos. Ele havia-lhes falado e comido com eles o peixe assado e o mel. Haviam contactado com Ele durante os quarenta dias, e Ele ensinara-os e instruira- -os acerca de Si mesmo (Ver Lucas 24). Se alguma vez houve homens que estiveram numa posição de testi­ ficar da ressurreição e de todos os factos a respeito do Senhor, eram estes discípulos. E contudo, o que o Senhor lhes disse é que eles seriam completamente incapazes de o fazerem antes de serem baptizados no

I06/Autoriii;idc

Espírito Santo. Nem mesmo poderíam testemunhar d’EIe e das Suas obras, de quem era Ele e do que fizera, antes de terem recebido o poder. Conhecimento dos factos não basta. Antes de se poder testemunhar efectivamente, tem de haver este poder do Espírito Santo. Os discípulos receberam esse poder no dia de Pen- tecostes. Claro, o resultado foi que Pedro começou a pregar imediatamente com ousadia, autoridade e po­ der, e três mil pessoas se converteram. Lemos em Actos 4 que as autoridades não podiam disputar a ousadia com que Pedro e João davam testemunho da ressurreição e diziam estas coisas. Não era senão a manifestação do Espírito Santo. O mesmo Pedro que tinha ficado tão nervoso e tão apreensivo (que na verdade chegou a ser tão cobarde por medo de perder a sua vida, que negou o seu próprio Senhor, o seu maior Amigo e Benfeitor), levanta-se agora corajo­ samente, pronto a enfrentar o mundo inteiro e todos

os diabos do inferno, e proclama esse Jesus que havia

recentemente

lhe pertenço” .O que é isto? E a autoridade do Espírito

negado, dizendo: “ Não o conheço. Nao

Santo, o Espírito Santo manifestando a Sua autoridade dum modo extraordinário. Lemos mais tarde que, depois destes homens have­ rem sido presos e de novo postos em liberdade, juntaram-se e fizeram uma reunião de oração (Actos 4:23-33). “ E tendo orado, moveu-se o lugar em que estavam reunidos: e todos foram cheios do Espírito Santo, e anunciavam com ousadia a Palavra de Deus” .

A Autoridade

do

Espírito

Santo/107

É essa a Sua autoridade. Quando Ele cai sobre uma

reunião, não se apodera somente dos homens: pode mesmo abalar paredes e edifícios. De novo, em Actos 4:33, encontramos que “ os apóstolos davam com grande poder testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça. Qual era o segredo do seu poder? Que eram capazes de argumentar cientificamente que a ressurreição é pos­ sível? Que conseguiam reconciliar o miraculoso com o científico? Não! Era a autoridade e o poder do Espí­ rito Santo transformando estes homens em testemu­ nhas vivas, que eram irresistíveis, e “em todos eles havia abundante graça” . Continuando a ler em Actos dos Apóstolos, verifi­ carás que acontece exactamente a mesma coisa no poderoso ministério do apóstolo Paulo. Numa oca­

sião, enquanto Paulo pregava, resistia-lhe um homem chamado Elimas, o encantador. Que aconteceu? “To­

cheio do Espírito Santo, fixando os

olhos nele (Elimas), disse: Ó filho do diabo, cheio de todo o engano e de toda a malícia, inimigo de toda a justiça, não cessarás de perturbar os rectos caminhos do Senhor? Eis aí, pois, agora contra ti a mão do Senhor, e ficarás cego, sem ver o sol por algum tempo. E no mesmo instante a escuridão e as trevas cairam sobre ele, e, andando à roda, buscava a quem

o guiasse pela mão” (Ver Actos 13:9 e seg.). Tal é a

autoridade dada pelo Espírito Santo ao servo de Deus. Há certas afirmações específicas nas Escrituras que

definem isto muito claramente. Repara, por exemplo,

davia

Paulo

108 Autoridade

em 1 Cor. 2. Eu sou de opinião que para os evan­ gélicos dos nossos dias este capítulo é, em muitos aspectos, o capítulo que em si mesmo é o mais importante de toda a Bíblia. Olha para este colosso de homem, Paulo, que possuia uma das maiores mentes que o mundo alguma vez conheceu. Nao há dúvidas acerca disso, julgado de qualquer ângulo. E todavia, Paulo diz-nos que quando foi a Corinto estava “ em fraqueza e em temor e em muito tremor” . Não saltou para um estrado irradiando auto-confiança, segurança própria e autoridade. Não contou algumas anedotas para estabelecer contacto com a congregação. Não se sentiu perfeitamente à vontade, um “dominador de assembléias” . “ Fraqueza, temor e muito tremor” . Porquê? Porque Paulo conhecia as suas próprias limitações. Sabia o que não podia fazer, e ficou aterrorizado, na verdade tremeu, com receio que, de algum modo, ele ou a sua personalidade pudesse colocar-se entre aquelas almas e esta tremenda men­ sagem que lhe havia sido entregue. Não apresentou coisas que, sabia, poderíam apelar às pessoas. Fez exactamente o contrário. Determinou “ nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado” . Além disso, afirma: “ A minha palavra e a minha pregação não consistiu em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder: para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria de homens, mas no poder de Deus” . Tanto no que respeita ao seu assunto como ao método, ele não iria contemporizar com o gosto popular. E o

A

Autoridade

do

lispirito

Samo/ [OS*

resultado foi que quando falou, embora alguns pu­ dessem ter dito que “ a sua palavra era desprezível” , houve poder, e homens e mulheres reconheceram os seus pecados, converteram-se, tomaram-se cristãos e foram integrados na Igreja. Qual foi o segredo? Foi “ a demonstração do Espírito e de poder” . Foi esta auto­ ridade do Espírito Santo. Em 1 Tess. 1:5, o apóstolo expressa-se assim:

“ Porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder e no Espírito Santo e em muita certeza” . Eu creio que a certeza se fez sentir tanto no apóstolo como nas pessoas que creram. Nao era simples palavra do homem. Eles não estavam a ouvir uma mera exposição humana. Paulo não apresentou qualquer filosofia nova e estranha. Foi a Palavra de Deus que veio “ em poder, e no Espírito Santo e em muita certeza” . O apóstolo Pedro diz exactamente a mesma coisa. Em 1 de Pedro fala acerca das “coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar” . É “ pelo Espírito Santo enviado do céu” que o evangelho é pregado com certeza e convicção, com autoridade e poder.

Sem dúvida, é esta a maior necessidade no tempo presente. Volta atrás e lê a história dos grandes avivamentos na Igreja. Verificarás que este poder do Espírito Santo e esta autoridade estão sempre pre­

110

/A tiro ri d;uk*

sentes. Há duzentos anos, experimentou-se um grande despertamento evangélico na Inglaterra, na América, na Escócia e no País de Gales. Um dos líderes no País de Gales foi um homem chamado Howell Harris. Lendo as suas publicações descobrirás que ele vai continuando a dizer alguma coisa parecida com isto:

“ Cheguei a tal e tal lugar; preguei. Senti a antiga autoridade” . Depois, numa outra vez em que pregou em certo lugar, diz: “ Nenhuma autoridade” . Isso entristeceu-o e tornou-o infeliz. Prostou-se diante de Deus, analisou o seu coração, confessou o seu pecado e buscou de novo “ a autoridade” . Nunca se sentia feliz, senão quando tinha consciência da autoridade. Era sempre a mesma mensagem, mas isso sem auto­ ridade não bastava. Ele sabia que, em certo sentido, a pregação era vã, se não tivesse “ autoridade” . Não se podem ler os diários de Whitefield e Wesley sem deparar exactamente com a mesma coisa. Lem­ bro-me de ter lido nos diários de Whitefield uma afirmação que ele faz sobre o que aconteceu, en­ quanto pregava em Cheltenham. Eis como ele se expressa: “ O Senhor veio ao nosso meio” . A auto­ ridade! “ Ouviu-se o brado do Rei entre nós” , disse ele noutra ocasião. E John Wesley expressa constante­ mente o mesmo pensamento. Foi essa a essência da sua experiência na reunião em Aldersgate, Londres, quando sentiu o coração “ estranhamente aquecido” . Foi a partir desse momento que teve esta autoridade, com o resultado de que o seu ministério se trans­ formou por completo. Jonathan Edwards experimen­

A Autoridade

do

Kspirito

Santo/111

tou precisamente a mesma coisa. Dwight L. Moody é também um exemplo desta questão. Foi após aquela experiência, enquanto descia pela Wall Street, na cidade de Nova Iorque, quando o Espírito Santo desceu sobre ele, que Moody recebeu a Sua autori­ dade. Pregava os sermões que havia pregado antes, mas as pessoas eram transformadas. Porquê? Agora, ele tinha a autoridade do Espírito. E indiscutível. Lembro-me também de ter lido no Diário de Whitefield a respeito da sua primeira visita a Northampton, Massachussets, quando se encontrou pela primeira vez com o piedoso Jonathan Edwards. Whitefield comenta que jamais poderia esquecer que, enquanto tinha o privilégio de estar em pé e a pregar no púlpito, notou que Edwards o ouvia com lágrimas nos olhos e um sorriso verdadeiramente celestial no rosto. Porquê? Não era simplesmente a pregação de Whitefield, embora ele fosse um orador incomparável. Jonathan Edwards estava a experimentar a autoridade do Espírito Santo. Ele próprio a tinha sentido e podia vê-la no seu irmão, naquele que era com ele um servo de Deus, e rejubilava com o facto. É uma coisa maravilhosa quando um pregador pode apreciar tanto a pregação doutro, quanto a sua própria. Nada, a não ser o Espírito Santo, pode fazer isso. Deixa que termine esta secção com mais uma his­ tória. Há cerca de cento e cinquenta anos, havia no País de Gales um velho pregador que foi convidado para uma série de reuniões evangelísticas, numa pe­ quena cidade. As pessoas já estavam reunidas, mas o

1 12/Autoridadc

pregador ainda não tinha chegado, Então, o ministro local e outros líders enviaram uma criada à casa onde ele ficara alojado, para lhe dizer que o aguardavam e que estava tudo pronto. A jovem foi, e quando regressou, disse: “ Não o quis perturbar. Ele estava a falar com alguém” . “ Oh” , disseram eles, “ isso é bastante estranho, porque estão todos aqui. Volta lá e diz-lhe que já passa da hora e que tem de vir” . A moça foi de novo a casa, e quando voltou, disse: “ Ele está a falar com alguém” . “ Como é que sabes?” , perguntaram eles. E ela respondeu: “ Ouvi-o dizer a essa pessoa com quem falava, “ Não irei pregar àquela congregação, se não vieres comigo” . “ Oh, está bem” , responderam os ministros, “ é melhor esperarmos” . O velho pregador sabia que não adiantava muito a sua ida para pregar, a menos que tivesse a certeza de que o Espírito Santo ia com ele, dando-lhe autoridade e poder. Era bastante sábio e possuía suficiente dis­ cernimento, para se recusar a pregar, até estar certo de ter a Sua autoridade e de que o Espírito Santo o acompanharia e falaria por ele. Tu e eu, contudo, pregamos muitas vezes sem Ele, e toda a nossa inte­ ligência e erudição, toda a nossa ciência e apologética não conduzem a coisa alguma, porque nos falta a autoridade do Espírito Santo.

A AUTORIDADE DO ESPÍRITO NA IGREJA

Finalmente, consideremos a autoridade do Espírito

A Autoridade

do

Espírito

Santo/113

Santo na Igreja. Uma vez mais é óbvio que deparamos com um assunto vasto. Só posso dar idéias sobre as considerações mais importantes. Ele dá dons à Igreja. Le 1 Cor. 12 e verificarás que o faz de modo sobe­ rano. Fá-lo de acordo com a Sua própria vontade e entendimento. Nao lhe podes ditar nada. Portanto, não deves dizer: “Já é tempo de a Igreja começar a reivindicar o dom de curar, de milagres ou de qual­ quer outra coisa” . Nós não exigimos; Ele dá. Dis­ pensa segundo a Sua própria vontade soberana. Já nos referimos no capítulo anterior à formação do canon,e vimos que nisso houve claramente a direcção do Espírito. Quero agora considerar em especial a auto­ ridade do Espírito Santo na Igreja, tal como se tem manifestado e revelado em avivamentos religiosos. Precisamos de ter muito cuidado ao tratarmos do assunto, mas parece-me ser muito lamentável que esse maravilhoso homem de Deus que foi Charles G. Fin- ney, ele próprio tão poderosamente usado, tivesse introduzido a noção de que os homens podem arran­ jar e organizar um avivamento. Quanto a mim, é um ponto muito deplorável, porque acho que introduz um elemento de confusão, e leva muitos a falar de

campanhas evangelístícas como de “ avivamentos” , e a falar acerca da realização de avivamentos. Não se

que se vai “ fazer” um avivamento. E

pura confusão de linguagem e muito susceptível de induzir em erro. Creio que é mesmo capaz de extin- guir o Espírito. Avivamento é algo que nunca pode ser

arranjado e organizado por homens. Um avivamento é

pode anunciar

1 14'Aiiroridade

o resultado da acção directa do Espírito Santo em autoridade e poder. Um avivamento não significa simplesmente pregar o evangelho, com o resultado de que um certo número de pessoas se converte. Um avivamento significa a descida do Espírito Santo sobre a Igreja, numa comunidade ou numa zona rural, em poder e em força, de um modo inconfundível, que- brantando os homens, e talvez mesmo arremessando- -os fisicamente ao chão. Leva a agonias de arrepen­ dimento e a anelos por Cristo, paz e salvação. É isso o que significa um avivamento. Como já disse, houve um genuíno avivamento há duzentos anos. Foi um avivamento autêntico, que se manifestou em Northampton, Massachussets. Jonathan Edwards estava em pé no púlpito, com o seu manus­ crito na mão. Enquanto lia o sermão, as pessoas cairam literalmente no chão, sob uma terrível convicção de pecado e do seu estado de perdição. Gritavam, Em tempos de avivamento, podem-se ver pessoas, por travessas, ruas e estradas dum distrito, alta madru­ gada, clamando por paz com Deus. Baterão à porta

do ministro, perguntado: “ Não me pode dar

Encontram-se sob a convicção do pecado, e vêem-se como pecadores diante dum Deus santo e poderoso. Estão alarmadas com os terrores do inferno. Esses são sempre traços característicos dum avivamento. Muitas vezes, em avivamentos, as pessoas convertem-se antes mesmo de chegarem às reuniões. Ao irem a caminho dum culto, o Espírito desce sobre elas. Homens

trabalhando nos campos são de repente compelidos a

alívio?”

A Autoridade

do

Hspírito

Santo/115

cair de joelhos e a clamar a Deus por misericórdia. Isso é avivamento. O Espírito de Deus é derramado abundantemente, e vem do céu em autoridade e poder.

Não há nada que tanto mostre a autoridade do Espírito Santo, como tais acontecimentos. A longa história da Igreja pode ser posta sob a forma dum gráfico. Começa lá no Pentecostes, no que se pode descrever como um poderoso avivamento. Depois dum certo tempo, recordas-te, o poder parecia ter desapa­ recido e a Igreja entrou numa depressão. O diabo e o mundo atacavam, e tudo parecia estar perdido. A Igreja não tinha autoridade nem poder. As pessoas ficaram desesperadas. Subitamente, Deus derrama de novo o Seu Espírito. Há um poderoso avivamente e a Igreja é erguida uma vez mais até à própria crista da onda. E assim que a história da Igreja se tem proces­ sado. Não tem mantido um nível constante. Pode­ riamos desejar que assim fosse, mas nunca tem sido. Sempre foi aos altos e baixos, sendo os altos os avivamentos, o derramamento do Espírito. É esse o termo usado no segundo capítulo de Actos e em todos os demais lugares. Sob tão poderosos derramamentos, pessoas têm testificado que aprenderam mais de Deus e do Senhor Jesus Cristo numa hora duma reunião durante um avivamento, do que haviam aprendido numa vida inteira de estudo bíblico, e lendo teologia. Ao mesmo tempo, homens e mulheres que até aí haviam pertencido ao mundo, e que nunca tinham

116/Autoridade

ouvido o evangelho antes, pareciam atingir imedia­ tamente essa mesma posição.

Há algo de verdadeiramente maravilhoso a respeito disto. Há nos Salmos esta afirmação: “ O que habita nos céus se rirá” . E eu creio que, por vezes, Deus Se ri da Igreja. Ele vê-nos prontos a estender as mãos para segurar a arca. Pensamos que só nós podemos fazer isso. Preocupamo-nos muito. Realizamos as nossas conferências e apresentamos as nossas propostas. Mas elas não resultam. Então, quando já estamos comple- tamente exaustos, depois de rodas as nossas grandes campanhas e conferências, e da nossa brilhante orga­ nização, e depois de termos gasto todo o nosso dinheiro e de vermos que as coisas foram de mal a pior, Deus, inesperadamente — precisamente no lugar onde tu nunca imaginarias que o fizesse, e por meio da pessoa que menos própria acharias — derrama de súbito o Espírito, Então a Igreja ergue-se para um novo período de glória, de poder e de influência. Homens e mulheres convertem-se em massa, e o poder da verdade está de novo sobre eles. O Espírito Santo manifesta a Sua autoridade na Igreja, em avivamentos.

A que conclusão chegamos, como resultado de tudo isto? Prossigamos com os nossos esforços práticos e avancemos com o nosso estudo, mas que Deus não permita que nos apoiemos neles. Preparemo-nos o melhor possível. Jamais seremos tão aptos e eruditos como o apóstolo Paulo, Santo Agostinho, Lutero ou Calvino. Eles eram homens de grande erudição e

A Autoridade

do

Espírito

Santo/117

gigantes no intelecto. É esse o tipo de homens que Deus parece usar quando realiza os Seus maiores feitos na história da Igreja. Prossigamos contudo, e busquemos conhecimentos, preparando-nos o mais perfeitamente possível. Mas em nome de Deus, náo paremos aí. Reconheçamos que mesmo isso, sem a autoridade e o poder do Espírito, não tem o menor valor. “ Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos e não tivesse amor (um produto do trabalho do Espírito), seria como o metal que soa ou como o sino que tine” (1 Cor. 13:1). Não importa o que sou nem o que posso fazer: não me adiantará nada. É só a autoridade do Espírito que tem valor. Ora é isto que me entristece. Muito raramente ouço qualquer cristão, hoje, mesmo evangélico, a orar por um avivamento. Quais os motivos das suas orações? Oram pelos seus próprios esforços organizados, quer no seu país, quer em vários outros, Eis o que acontece numa reunião de oração típica: “ Primeiro de tudo, ouçamos os relatórios” , diz o dirigente. Depois de os ouvir, acrescenta: “ Oremos sobre este assunto. Já ouvistes os factos; oremos por eles” . Só rogamos a bênção sobre os nossos esforços quer se trate duma grande campanha evangelística, ou de trabalho no campo estrangeiro. Isso está perfeitamente certo e devemos fazê-lo. Mas o problema é que começamos sempre connosco e com os nossos esforços, e pedimos a Deus que os abençoe. Quando é que foi a última vez que ouviste alguém orar por um avivamento, rogando que Deus abra as janelas do céu e derrame o Seu

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Espírito? Quando é que foi a última vez que tu próprio oraste por este assunto? Penso muito seria­ mente que estamos a negligenciá-lo quase por com­ pleto. Somos culpados de nos esquecermos da auto­ ridade do Espírito Santo. Estamos tão interessados em nós próprios e nas nossas próprias actividades, que temos deixado de lado a única coisa que nos torna eficientes. Sem dúvida, devemos continuar a orar pelos esforços particulares, pelo pastor e suas pregações todos os domingos, por todas as organizações essen­ ciais, e pelas campanhas evangelísticas, se nos sen­ timos levados a fazê-las. Mas antes de tudo isso, e depois de tudo isso, oremos e supliquemos por um avivamento. Quando Deus envia um avivamento, pode fazer mais num só dia, do que em cinquenta anos de toda a nossa organização. É esse o veredicto de toda a história que emerge claramente da longa caminhada da Igreja. Presentemente, é esta a maior necessidade, e é, de facto, a única esperança. Decidamo-nos, pois, a, dia após dia e muitas vezes durante ao dia, passarmos tempo na presença de Deus, suplicando por um aviva­ mento. Mas, loucos como somos, jamais faremos isso, sem primeiro nos esgotarmos a nós mesmos e aos nossos próprios recursos. Só o faremos, quando tudo o mais tiver falhado, quando tivermos reconhecido o nosso completo fracasso e impotência, e tivermos chegado a constatar que o nosso Senhor disse a pura verdade, ao afirmar: “ Sem mim nada podeis fazer” (João 15:5).

A

Autoridade

do

Espírito

Santo/11^

Recordemos a nós mesmos que o Deus que, no passado, desceu por diversas vezes súbita e inespe- radamente sobre a Igreja moribunda, e a ergueu para novos períodos de vida e vitória, pode fazer ainda o mesmo, pois o Seu braço não está encolhido, nem o Seu poder de modo algum diminuído. Esperemos n’Ele

e supliquemos, aprendamos a agonizar em oração, e que a nossa única prece seja:

Aviva, ó Deus, a Tua obra, Teu forte braço nos revela; Fala co’a voz que acorda os mortos, E que Teu povo atente nela.

aviva, ó

Senhor, a tua obra no meio dos anos, no meio dos anos

a notifica; na ira lembra-te da misericórdia” cuque 3:2).

“ Ouvi, Senhor, a tua palavra, e temi;

(Haba-

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■iiTnmnanr Poderá a verdade ser conhecida e defin Ja? Ou só poderá ser sentida e experimentada?

Poderá a verdade ser conhecida e defin Ja? Ou só poderá ser sentida e experimentada? -Iaverá alguma base definitiva para a *é, ou leveremos acolher todos os caminhos e cri érios? vieste livro, o Dr. Martyn Lloyd-Jones tra a este problema crucial de um modo positivo, exami­ nando a autoridade de Jesus Cristo, a autoridade das Escrituras e a autoridade do Espírito