Você está na página 1de 269

Série Família Reid

02 – Domada pelo Demônio


Johanna Lindsey 
 
(Titulo original espanhol Jaque Al Corazon e inglês The Devil Who Tamed Her) 
 

Disponibilização: Soryu 

Tradução e Pré­Revisão: Penelope Charmosa 

Equipe de Revisão: Cris Sujong, Yasmim, Silvia Helena e Hecate. 

Revisão Final: Silvia Helena 
 
Formatação: Cris S. 
Informação da série
01 – O Herdeiro – Em revisão
02 – Domada pelo Demônio – Distribuído
03 – Uma dama inocente – Em tradução
 
 
 
 
Argumento
   
 
 
Raphael “Rafe” Locke, belo herdeiro de um ducado, é perseguido  por todas 
as  jovens  da  Inglaterra,  mas  prefere  caçar  a  ser  caçado.  Detesta  Ophelia  Reid, 
embora  apenas  a  conheça,  porque  a  formosa  jovem  lhe  parece  uma  oportunista. 
Até  que  a  encontra  chorando  e  se  sente  impulsionado  a  consolá‐la.  Enquanto  a 
estreita entre seus braços pensa que talvez não seja tão má.  
Quando uma amiga declara que Ophelia nunca chegará a ser mais que uma 
megera  bonita,  mas  megera  ao  fim,  Rafe  se  compromete  a  tentar  convertê‐la  em 
uma dama como é devido, e que um dia encontrará um homem adequado e sentará 
a cabeça.  
Romântico, apaixonado e com deliciosos toques de humor, o novo romance 
de Johanna Lindsey foi recebido com elogios pelas leitoras e a crítica especializada.  
 

 
 
  
 
 
 
 
 
 
Comentário da Revisora­  Penelope Charmosa 

 
 
 
Ao saber que a protagonista desse livro seria a antagonista  a  “vilã” do 1º 
livro da série não levei muita fé na historia. Mas como sempre Johanna Lindsey é 
ótima  em  criar  perfis  psicológicos  variados  sem  sair  da  realidade  e  mostrar  que 
nem todo personagem é bom ou ruim, que são pessoas com defeitos humanos. Só 
por isso já é um bom motivo para ler esse livro, mas como é um livro de Johanna 
Lindsey  temos  variadas  emoções  durante  a  historia,  raiva,  ciúmes,  desconfiança, 
amor, paixão, ódio, sentimentos humanos. 
Raphael fez uma aposta com seu amigo Duncan, que poderia transformar a 
megera Ophelia em uma boa pessoa, mas ao conhecê‐la descobriu que ela não era 
tão megera assim e de quebra acabou perdendo o seu coração. 
Espero  que  vocês  adorem  essa  historia  tanto  como  eu  adorei  traduzi‐la  e 
revisar. Os personagens são fortes e apaixonantes. 
  

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 1
 
  
Fazia toda diferença ser a debutante mais formosa e desejável do mercado 
matrimonial  do  século  e  ao  mesmo  tempo  a  mulher  mais  odiada  da  Inglaterra. 
Curiosamente,  Ophelia  Reid  se  esforçou  para  ganhar  ambas  as  prerrogativas.  Era 
sua  perdição  ser  tão  bela,  porque  as  pessoas  que  a  rodeavam  se  comportavam 
como consumados idiotas. 
Os reunidos em Summers Glade, o imóvel rural do marquês de Birmingdale, 
não eram diferentes. Ophelia parou no alto da grande escada. Esperava encontrar o 
vestíbulo vazio, mas não teve sorte. Parecia que muitos dos foram assistir ao seu 
casamento  com  o  herdeiro  do  marquês  estavam  reunidos  ali  e  alguns,  que  pelo 
visto  já  sabiam  que  o  casamento  foi  cancelado,  dispunham‐se  a  partir.  Outros 
pareciam  confusos  e  conversavam  animadamente.  Entretanto,  no  instante  que 
Ophelia  apareceu  todos  os  olhares  se  voltaram  para  ela  e,  como  de  costume, 
começaram os murmúrios. 
    Provavelmente  as  pessoas  ali  abaixo  tivessem  a  impressão  de  que  ela  se 
dispunha a fazer sua grande entrada. Gostava de fazê‐lo e tinha muita prática nisso. 
Mas  desta  vez  não.  Tratava‐se,  mas  bem  de  uma  grande  saída,  embora  não  por 
decisão própria. Preferia passar inadvertida. 
    ‐Quando  me  contará  o  que  aconteceu?  ‐perguntou  sua  donzela,  Sadie  O 
‘Donald, parada a seu lado. 
    ‐Nunca ‐ respondeu Ophelia com rigidez. 
    ‐Mas se casariam hoje. 
    Como se Ophelia pudesse esquecer esse fato espantoso. Esse, não obstante, 
não era o momento apropriado para falar sobre o tema. Disse: 
    ‐Cale‐se, temos público, caso não tenha percebido. 
    Sadie não disse nada mais e seguiu a Ophelia escada abaixo. O murmúrio se 
intensificou. Ophelia chegou a ouvir os pedaços de algumas conversas. 
    ‐Primeiro ficam noivos, logo já não, depois voltam a ficarem noivos e agora 
parece  que  mudaram  que  opinião  outra  vez.  Ela  é  muito  inconsequente,  se  quer 
saber minha opinião. 
    ‐O noivo disse que cancelaram o casamento de mútuo acordo. 
    ‐Duvido;  ela  é  muito  exigente,  embora  eu  também  o  fosse  se  tivesse  seu 
aspecto. 
    ‐Estou de acordo. É um pecado ser tão bela. 
    ‐Cuidado, querida, nota‐se o ciúme. 
    ‐... Uma malcriada se quer saber. 
    ‐Silêncio, vai ouvir! Já sabe que tem uma língua viperina. Não é conveniente 
que fale mal de ti. 
    ‐Santo Deus, que linda é. Um anjo, um... 
    ‐...  de  volta  à  lista  de  casadoiras.  Não  me  importa  admitir  que  estou 
encantado. Isto me dá uma segunda oportunidade. 
    ‐Acho que te rejeitou antes de começar a temporada... 
    ‐A  mim  e  a  um  sem‐fim  de  outros  pretendentes,  mas  não  sabíamos  que  já 
estava comprometida com MacTavish. 
    ‐Não  perca  seu  tempo.  Seu  título  não  é  muito  importante  para  ela. 
Conseguiria casar‐se com um rei, se quiser. 
    E mais vozes, sem rosto: 
    ‐Surpreende‐me  que  seus  pais  não  apontassem  tão  alto.  São  uns 
oportunistas espantosos, sabe? 
    ‐E ela não? 
    ‐Acaba de rejeitar o herdeiro de um marquês. O que te sugere isto? 
    ‐Que seus pais estarão furiosos com ela, como estiveram quando... 
    ‐Embora  Locke  poderia  ter  uma  oportunidade,  como  futuro  duque  de 
Norford. Surpreende‐me vê‐lo de volta à Inglaterra. 
    ‐Não  lhe  interessa  o  matrimônio.  Ou  não  sabia  que  se  foi  da  Inglaterra  só 
para escapar das casadoiras...? 
    Ophelia  fingia  não  ouvir  nenhum  daqueles  cochichos,  mas  a  menção  do 
nome  de  Raphael  Locke,  visconde  de  Lynnfield,  impulsionou‐a  a  buscá‐lo  com  o 
olhar.  Já  sabia  que  se  encontrava  ali,  no  vestíbulo,  despedindo‐se  de  alguns 
conhecidos ou provavelmente, dispondo‐se a partir ele também. Foi o primeiro que 
viu  ao alcançar a escada.  Evidentemente,  um  homem  tão  bonito  como  o  herdeiro 
de Norford atraiu sua atenção desde o primeiro momento ao conhecê‐lo. 
    Até tinha considerado brevemente a possibilidade de se casar com ele antes 
de  voltar  a  comprometer‐se  com  Duncan  MacTavish.  Locke,  entretanto,  passou 
com  rapidez  para  o  campo  inimigo,  o  campo  dos  que  a  tinham  em  muito  baixa 
estima.  Como  a  havia  chamado?  "Uma  fofoqueira  maliciosa."  Inclusive  ameaçou 
arruiná‐la se contasse a alguém que pensava ter um caso com Sabrina Lambert. 
    O  certo  é  que  pensava.  Se  não,  porque  prestava  tanta  atenção  à  tola  da 
Sabrina? Embora pudesse, simplesmente, lhe dizer que se equivocava em lugar de 
insultá‐la. E queria que fosse qualquer outro menos ele quem a tivesse encontrado 
chorando no andar superior. 
    ‐Como  iremos  para  casa?  ‐sussurrou  Sadie  quando  alcançaram  o  último 
degrau. 
    ‐Em minha carruagem, é obvio ‐ respondeu Ophelia. 
    ‐Sua carruagem não tem chofer. Esse condenado ainda não voltou. 
    Ophelia tinha se esquecido. O chofer, empregado de seu pai, desde o começo 
não queria levá‐la a Yorkshire e, uma vez ali, depois de muita  persuasão da parte 
dela,  disse  que  perderia  seu  emprego  se  não  retornasse  a  Londres  no  ato  para 
informar seus pais sobre seu paradeiro. Como se ela não pensasse lhes enviar uma 
nota. Tudo a seu devido tempo, entretanto. Quando passasse à raiva pela bofetada 
que  lhe  tinha  dado  seu  pai  quando  Duncan  rompeu  o  primeiro  compromisso  e 
mandaram todos embora de Summers Glade. 
    ‐Suponho  que  teremos  que  pedir  emprestado  um  dos  empregados  do 
marquês.  Pode  ser  este  que  está  descendo  minha  bagagem.  Pode  dizer‐lhe 
enquanto espero no salão ‐ disse Ophelia. 
    Preferia  esperar  lá  fora,  longe  do  resto  dos  convidados  do  marquês,  mas, 
embora  já  tivesse  vestido  seu  casaco  de  viagem,  a  peça  estava  desenhada  para 
realçar sua silhueta e não para lhe proporcionar calor e, estando em pleno inverno, 
simplesmente fazia muito frio para ficar ao ar livre, por breve que fosse a espera. 
Não  obstante,  posto  que  parecesse  que  a  maioria  dos  convidados  aguardava  a 
chegada de sua própria carruagem no vestíbulo, Ophelia confiava em que o salão 
estivesse vazio. 
    Entrou  na  sala.  Não  estava  vazia.  A  ocupante  era  Mavis  Newbolt,  a  única 
pessoa que desejaria não voltar a ver jamais, a que antes era sua melhor amiga e 
agora  sua  pior  inimizade.  E  era  muito  tarde  para  procurar  outro  lugar  onde 
esperar. Mavis já a tinha visto. 
    ‐Foge com o rabo entre as pernas? ‐zombou Mavis. 
    Ai,  Deus,  outra  vez  não.  Não  havia  dito  já  bastante  sua  ex‐amiga  quando 
chegou  para  impedir  um  matrimônio  que  todos  os  implicados  consideravam  um 
trágico engano? Parecia que não. 
    ‐Claro que não ‐ respondeu Ophelia, mantendo o controle de suas emoções. 
Sua  velha  amiga  não  conseguiria  fazê‐la  chorar  outra  vez.  ‐  Deve  ter  sido 
mortificante  me  fazer  esse  favor  hoje  para  que  não  tivesse  que  me  casar  com  o 
escocês. 
    ‐Já  te  disse  que  não  o  fiz  por  você.  É  a  última  pessoa  a  quem  ajudaria  ‐ 
esclareceu Mavis. 
    ‐Já  sei,  transformou‐se  em  uma  heroína  exclusivamente  por  Duncan. 
Mesmo  assim,  salvou‐me  de  ter  que  me  casar  com  ele.  Suponho  que  devo  lhe 
agradecer por isso. 
    ‐Não  o  faça!  ‐grunhiu  Mavis  agitando  os  cachos  de  seu  cabelo.  ‐  Deixe  de 
fingir, Ophelia. Você e eu nos odiamos... 
    ‐Chega! ‐Ophelia a interrompeu antes que reabrisse a ferida‐. Aqui não tem 
o seu público para me rebaixar a seus olhos, de modo que digamos a verdade. É a 
única amiga verdadeira que tive e sabe. Gostava de você! Se não gostasse, não teria 
tentado te proteger de Lawrence te mostrando a verdade a respeito dele. Você, em 
troca,  preferiu  me  culpar.  O  que  foi  que  disse?  Que  a  única  razão  pela  qual 
continuava  tolerando  minha  presença  era  porque  esperava  ser  testemunha  de 
minha queda? E me chamou maliciosa? 
    ‐Disse  que  quase  não  me  reconheço  ‐  respondeu  Mavis  na  defensiva‐.  Mas 
isso  é  sua  culpa.  Deixou‐me  tão  ressentida  que  nem  sequer  eu  gosto  de  mim 
mesma. 
    ‐Não,  não  fui  eu,  foi  ele.  Seu  precioso  Lawrence,  que  te  usou  para  se 
aproximar de  mim.  Aí está,  por  fim  disse. Também  tentei te  poupar  de tudo  isso. 
Suplicou para que me casasse com ele enquanto lhe cortejava, mas já não pretendo 
te proteger da verdade, Mavis. 
    ‐Que  mentirosa  é  você!  E  chamou  a  mim  de  mentirosa  diante  de  suas 
amigas. 
    ‐Ah,  assim  que  voltarem  a  ser  "amigas"  essas  duas  sanguessugas?  Quando 
hoje  mesmo  declarou  que  Jane  e  Edith  não  são  amigas  minhas?  Como  se  não 
soubesse. E no dia que te chamei mentirosa você me provocou. Sabe bem que foi 
assim.  Quanto  tempo  pensava  que  suportaria  seus  comentários  maliciosos  e 
sarcásticos  sem  tomar  represálias?  Sabe  melhor  que  ninguém  que  tenho  pouca 
paciência.  Embora  tentasse  tê‐la  contigo.  Certamente,  não  tenho  nenhuma  com 
Jane e Edith e ambas sabemos que me rondam porque está na moda  serem vistas 
comigo.  Embora  se  esquecesse  de  mencioná‐lo  hoje,  não  é  verdade?  Quando  me 
injuriava  por  todos  meus  defeitos.  Alegou  que  eu  as  usava  ‐  disse  Ophelia  ‐  Sabe 
muito bem que acontece justamente o contrário, que cada uma de minhas supostas 
amigas usa a mim e a minha popularidade para conseguir seus próprios fins. Por 
Deus, você mesma dizia isso quando ainda era minha amiga. 
    ‐Sabia que encontraria desculpas ‐ disse Mavis, graciosa. 
    ‐A verdade não é uma desculpa ‐ respondeu Ophelia‐. Conheço  todos meus 
defeitos,  e  meu  mau  gênio  é  o  pior  deles.  Mas  quem  está  acostumado  a  disparar 
meu mau gênio? 
    ‐O que tem isso a ver com seu gênio? ‐perguntou Mavis. 
    ‐Você  tocou  no  assunto,  Mavis.  Disse  que  Jane  e  Edith  estavam  sempre 
comigo para tentar me aplacar, para que não voltasse meu mau gênio contra elas. 
Toda  uma  alegação.  Importaria  discuti‐la  agora  que  não  há  um  público  a  que 
impressionar com sua maldade? 
    Mavis a olhou boquiaberta. 
    ‐Não  sou  eu  a  malvada,  Ophelia,  é  você.  Eu  só  disse  a  verdade.  Voltou‐se 
contra elas no passado embora hoje tivesse a ousadia de tentar negá‐lo. 
    ‐Porque  você  tenta  levar  as  coisas  fora  de  proporção.  Claro  que  perdi  a 
paciência  com  elas,  muitas  vezes,  mas  não  mencionou  que  aconteceu  porque  são 
umas  aduladoras.  Todas  minhas  supostas  amigas  o  são.  São,  precisamente,  suas 
lisonjas  e  seus  elogios  hipócritas  os  que  fazem  disparar  meu  mau  gênio  em 
primeiro lugar. 
    Mavis balançou a cabeça. 
‐Não  sei  por  que  tentei  sequer  mostrar  seu  caráter  malicioso.  Nunca 
mudará. Sempre estará dependente de si mesma e fará infeliz a outros. 
    ‐Oh, vamos ‐ disse Ophelia‐, ambas sabemos exatamente por que disse tudo 
o que disse hoje. Até reconheceu que só continuava fingindo ser minha amiga para 
poder  presenciar  minha  queda.  E  bem,  querida,  parece  que  caí?  Eu  não  acredito. 
Voltarei para Londres e me casarei com um desses idiotas que declaram me amar, 
mas o que fará você? Sente‐se feliz agora que derramou toda sua amargura a meus 
pés?  Mas  espere,  não  conseguiu  precisamente  a  vingança  que  desejava,  não  é 
verdade?  Simplesmente,  salvei‐me  de  um  matrimônio  desastroso...,  graças  a  ti. 
Muitíssimo obrigada. Digo isso de coração. 
    ‐Vá para o inferno! ‐ gritou Mavis e saiu graciosa do salão. 
    Ophelia  fechou  os  olhos  e  tentou  conter  as  lágrimas.  Deveria  ter  saído  do 
salão assim que viu que Mavis estava ali. Não deveria ter revivido a horrível cena 
que com sua ex‐amiga. 
    ‐Devo aplaudir? E eu que acreditava que sua representação tinha terminado 
há tempo. 
    Ophelia  se  enrijeceu.  Era  ele.  Deus,  não  podia  acreditar  que  tinha  chorado 
sobre  seu  ombro  naquele  mesmo  dia.  Embora  já  se  sobrepusesse  à  horrorosa 
debilidade e tinha recuperado o controle. 
    Voltou‐se e arqueou uma sobrancelha. 
    ‐Não  se  pode  falar  de  uma  representação  quando  acreditávamos  estar 
sozinhas. Escutando indiscretamente, lorde Locke? Que estupidez tão vergonhosa 
de sua parte. 
    Ele sorriu sem arrependimento e disse: 
    ‐Não  pude  evitar,  ante  esta  fascinante  transformação.  Quão  efêmera  foi  a 
donzela  em  apuros.  Vejo  que  a  imperiosa  rainha  de  gelo  volta  a  estar  em  plena 
forma. 
    ‐Vá  para  o  inferno!  ‐respondeu  ela  tomando  emprestada  a  frase  de 
despedida de Mavis. E, como fez sua ex‐amiga, saiu também graciosa do salão. 
Capítulo 2
 
 
   ‐A que se referia? ‐perguntou uma voz. 
    ‐Por que me sinto ofendida? 
    ‐Deve ter ouvido quando falava dela. Disse para não falar tão alto. 
    ‐Eu não fofoco ‐ disse a voz feminina com desdém. 
    ‐É justo o que fazia. Mas não se preocupe. Uma moça tão formosa como ela 
sempre suscitará fofocas. 
    Raphael  ria  entre  dentes  enquanto  escutava  os  cochichos  indignados  no 
vestíbulo. Rainha de gelo, o apelido que ele mesmo tinha dado a Ophelia Reid, a ex‐
noiva  de  seu  amigo,  não  só  tinha  saído  irada  do  salão  para  mostrar  seu 
aborrecimento com os comentários que ele fizera sobre ela. Também havia dito ao 
grande grupo que esperava no vestíbulo: "Não se preocupem comigo, só estou de 
passagem. Poderão continuar fofocando em seguida", antes de desaparecer escada 
acima. 
    As  línguas  trabalharam  em  excesso  de  novo,  com  mais  volume  desta  vez, 
agora  que  sabiam  que  Ophelia  não  estava  na  sala  contigua.  Que  criatura  tão 
fascinante,  muito  mais  complexa  do  que  pensou  a  princípio,  quando  o  único  que 
conhecia dela era sua capacidade de iniciar e propagar rumores maliciosos. 
    Raphael  não  esperava  fazer  amigos  novos  neste  pequeno  recanto  de 
Yorkshire.  Sendo  o  primogênito  do  duque  de  Norford  e  o  principal  herdeiro  do 
título,  nunca  lhe  tinham  faltado  amigos,  verdadeiros  ou  não,  embora  tivesse 
perdido  o  contato  com  a  maioria  de  seus  companheiros  quando  partiu  para  o 
estrangeiro  há  alguns  anos.  Surpreendia‐lhe  que  Duncan  MacTavish  lhe  tivesse 
caído  tão  bem  rapidamente,  provavelmente  porque  o  escocês  estava  tão  irritado 
quando  se  conheceram  que  lhe  parecia  muito  fácil  tira‐lo  do  serio,  coisa  que  a 
Raphael divertia muito. 
    Tinham idades próximas, Raphael rondava os vinte e cinco e Duncan era um 
pouco  mais  jovem.  Ambos  os  homens  eram  altos  e  vigorosos,  de  constituição 
atlética e muito bonita embora, em todo o resto não se pareciam em nada. O cabelo 
de  Duncan  era  de  uma  cor  vermelha  escura  que  estava  muito  pouco  na  moda  e 
seus olhos, de um azul profundo, enquanto que Raphael tinha sido abençoado com 
cachos  loiros  e  olhos  azuis  de  um  tom  mais  claro.  Também  suas  posições  eram 
idênticas, já que ambos se encontravam no mais alto das listas  dos solteiros mais 
cobiçados da temporada e ambos iriam herdar títulos apreciados. 
    Raphael, não obstante, não procurava uma esposa nem pensava fazê‐lo em 
muitos  anos.  Duncan,  por  sua  parte,  tinha  dois  avôs  que  coincidiam  que  não  era 
muito  cedo  para  que  lhes  dar  o  próximo  herdeiro,  razão  pela  qual  tinham 
convidado  a  tantas  debutantes  jovens  a  Summers  Glade,  as  quais  para  variar, 
Raphael  não  era  o  objetivo  de  sua  perseguição.  Todas  sabiam  que  Duncan 
procurava esposa e Raphael, não. 
    Curiosamente,  a  moça  que  mais  interessava  a  Duncan  não  tinha  sido 
convidada à festa. Sabrina Lambert, sua encantadora vizinha. Uma garota adorável, 
nenhuma  beleza,  mas  igualmente  encantadora  com  seu  maravilhoso  senso  de 
humor, capaz de alegrar até o ânimo mais funesto. Raphael só brincava quando lhe 
pediu que se casasse com ele! Logo, entretanto, fez amizade com Sabrina (e porque 
que não) e até deu seus primeiros passos como casamenteiro, algo que nunca tinha 
feito antes, para conseguir que Duncan e ela percebessem que se pareciam um com 
o outro. 
    ‐O  que  é  todo  este  barulho?  ‐perguntou  Duncan  ao  reunir‐se  com  Raphael 
no vestíbulo da entrada. 
    ‐De  verdade  precisa  perguntar?  ‐respondeu Raphael  com  uma  careta  e fez 
um gesto para que entrassem no salão, onde ninguém poderia ouvi‐los. ‐ Ophelia 
pegou  seus  convidados  fofocando  sobre  ela  e  inclusive  fez  um  comentário  a 
respeito. 
    ‐Ainda não se foi? 
    ‐Acredito que está esperando sua carruagem. Mas jamais adivinhará o que 
aconteceu  quando  Newbolt  desprezou  Ophelia.  Eu  mesmo  continuo  um  pouco 
aturdido por isso. 
    Raphael  escutou  quase  todas  as  alegações  anteriores  de  Mavis,  quando 
chegou para salvar o dia e derramou tal quantidade de raiva, que explicava por que 
era  inimiga  de  Ophelia.  Alguns  daqueles  comentários  voltou  a  ouvir  há  pouco 
tempo no salão, embora Mavis não se mostrasse tão venenosa quando pensava que 
Ophelia  e  ela  estavam  sozinhas.  De  fato,  pareceu  ficar  um  tanto  na  defensiva, 
atitude que induziu Raphael a se perguntar se alguém conhecia toda a história. 
    Antes,  entretanto,  tinha‐lhe  parecido  que  Ophelia  não  estava  muito 
arrependida  de  todos  os  problemas  que  tinha  causado  e  se  propôs  castigá‐la  um 
pouco. Certamente, não esperava o que aconteceu quando a encontrou sozinha no 
andar superior. 
    Não manteve Duncan na incerteza por mais tempo. 
    ‐Ophelia Reid estava chorando desconsoladamente entre meus braços. Foi 
a mais assombrosa das experiências! 
    Duncan não se surpreendeu, de fato, emitiu um grunhido bastante audível. 
    ‐De modo que não sabe distinguir entre as lágrimas falsas e as verdadeiras? 
    ‐Justamente  o  contrário  ‐  esclareceu  Raphael‐,  eram  muito  verdadeiras. 
Olhe meu ombro. Minha jaqueta ainda está um pouco úmida. 
    ‐Uma pequena manha de criança, sem dúvida ‐ mofou Duncan, sem sequer 
olhar a jaqueta de Raphael. 
    Este  riu,  porque  Duncan  não  tinha  presenciado  a  cena  para  ver  correr  as 
lágrimas pelas bochechas de Ophelia. 
    ‐Por  Deus  que  eram  de  verdade!  ‐disse  a  Ophelia  quando  a  separou  de  si 
depois de colidir no corredor superior. Até roçou sua bochecha úmida com o dedo 
antes  de  acrescentar:‐  E  não  pensava  compartilha‐las  com  ninguém?  Estou 
impressionado. 
    ‐Me deixe... em paz ‐ conseguiu balbuciar ela com dificuldade. 
    Não a deixou. Com certa estupidez, e absolutamente assombrado com seu 
próprio  impulso,  atraiu‐a  de  novo  para  si  e lhe  permitiu  utilizar  seu  ombro.  Uma 
debilidade  espantosa  a  sua,  deixar‐se  comover  por  umas  lágrimas  que  eram 
verdadeiras, certamente; mas aí estava ele e, neste caso, não duvidava de que o iria 
lamentar. 
    Suspirou para si mesmo, mas não cabia esperar ajuda. O corpo esbelto de 
Ophelia  tremia  de  emoção,  e  parecia  incrível  a  quantidade  de  lágrimas  que 
derramava sobre seu ombro. Não é  que pensasse que derreteria o  gelo que tinha 
em  seu  interior.  É  obvio  que  não.  Jamais  pensaria  isso.  Os  Locke  não  criavam 
idiotas. 
    Agora, no entanto, disse a Duncan: 
    ‐É um grande cético, velho amigo, mas sei distinguir a diferença. As lágrimas 
falsas não fazem nenhum efeito, nenhum absolutamente, mas as autênticas chegam 
às vísceras, nunca falha. São minhas vísceras as que me dizem o que é verdadeiro e 
o  que  não  é.  Por  exemplo,  às  lágrimas  de  minha  irmã,  minhas  vísceras  me dizem 
que sempre são falsas. 
    ‐As  lágrimas  de  Ophelia  indicariam  que  a  feriu  o  ataque  verbal  de  Mavis, 
mas eu tenho provas do contrário ‐ disse Duncan. 
    ‐Que provas? 
    ‐Quando  ainda  pensava  que  teria  que  casar  com  ela,  temia  que  fosse 
impossível  fazê‐la  mudar,  que  estava  muito  absorta  em  si  mesma.  Estava 
convencido de que se tratava de uma causa  perdida ‐ afirmou Duncan‐. De modo 
que a enfrentei. Disse‐lhe que eu não gostava de suas maneiras, que eu não gostava 
de sua malícia nem de sua maneira de tratar às pessoas, como se ela fosse à única 
que importava. Mas estava desesperado e lhe disse que só poderíamos conviver em 
paz se ela mudasse. Acha que aceitou tentar mudar? 
    ‐Se  realmente  lhe  disse  tudo  isso,  o  mais  provável  é  que  ficasse  na 
defensiva ‐ sugeriu Raphael.  
    Duncan negou com a cabeça. 
    ‐Não,  simplesmente  declarou  o  que  pensa  de  verdade.  Disse  que  suas 
maneiras  não  têm  nada  de  mau,  até  pôs  ênfase  na  palavra  "nada".  Aí  está  sua 
prova. A bela megera nunca mudará sua conduta. Apostaria minha vida nisso. 
    ‐Eu não jogo, embora tampouco rejeitasse uma aposta amistosa. Cinquenta 
libras como está errado ‐ arriscou Raphael‐. Todos nós somos capazes de mudar, 
inclusive ela. 
    Duncan riu entre dentes. 
    ‐Que  sejam  cem  libras.  Eu  adoro  as  apostas  arriscadas.  Embora  agora  ela 
volte para Londres, para causar estragos ali, e espero não voltar a vê‐la em minha 
vida. Como resolveremos à aposta? 
    ‐Eu também voltarei para Londres..., humm... 
    Ocorreu‐lhe  uma  ideia  tão  surpreendente  que  até  ele  mesmo  se 
escandalizou e, certamente, não pensava formulá‐la em voz alta. Precisava analisá‐
la e estuda‐la com atenção e considerar as possíveis consequências. 
    ‐O que? ‐perguntou Duncan impaciente. 
    Raphael encolheu os ombros com indiferença para despistar seu amigo. 
    ‐Só tive uma ideia que preciso pensar melhor, meu amigo. 
    ‐Bom,  me  salvei  de  um  destino  pior  que  a  morte,  não  terei  que  casar  com 
essa megera! Basta‐me saber que já não a verei tão frequentemente. Agora pedirei 
em matrimônio à mulher que me convém, à mulher que amo. 
    Raphael  sabia  que  seu  amigo  se  referia  a  Sabrina  Lambert  e  deu  por  feito 
que  a  resposta  seria  afirmativa.  Julgando  pelo  sorriso  de  Duncan,  ele  também 
imaginava  que  sim.  Embora  Sabrina  tivesse  declarado  que  só  eram  amigos,  era 
evidente que estava apaixonada por Duncan. 
    ‐Ainda não sei  onde  vou  alojar‐me,  assim  mande  um  convite  para Norford 
Hall. Eles saberão onde me localizar. 
    Duncan assentiu e partiu em busca de seus avós para lhes dar a boa notícia. 
A sós no salão, Raphael pensou na ideia insólita que tinha lhe ocorrido. Unicamente 
dispunha  de  poucos  minutos  para  decidir  se  atuaria  em  consequência  ou  a 
descartaria como ridícula. A carruagem de Ophelia logo apareceu diante da casa e 
não  tinha  tempo  para  deliberar  exaustivamente.  Tinha  que  atuar  imediatamente 
ou deixar passar. 
Capítulo 3
  
    Ophelia  contemplava  a  rude  paisagem  invernal  pela  janela  da  carruagem 
enquanto,  com  Sadie,  viajavam  para  o  sul,  atravessando  Yorkshire  a  caminho  de 
Londres.  A  erva  estava  seca  e  as  árvores,  quase  completamente  nuas  embora 
alguns  folhas  acastanhadas  ainda  se  agarravam  a  ela.  Era  uma  paisagem  tão 
desolada como seus pensamentos. 
    Realmente  tinha  pensado  que  sua  estreia  na  sociedade  poderia  ser 
diferente?  Que  os  homens  que  conhecia  não  ficariam  deslumbrados  com  apenas 
vê‐la? Que não haveria cem propostas mais que acrescentar a quão inumeráveis já 
tinha recebido antes de alcançar sequer a idade de casar‐se? E  por que o faziam? 
Acaso algum deles a amava? Claro que não. Nem sequer a conheciam! 
    Suas  supostas  amigas  não  eram  diferentes,  umas  embusteiras,  todas  elas. 
Deus,  quanto  desprezava  a  essas  sanguessugas.  Nenhuma  tinha  sido  amiga 
verdadeira, em nenhum momento. Só se aproximavam devido a sua popularidade, 
que unicamente obedecia a sua beleza. Idiotas! De verdade pensavam que ela não 
sabia por que se chamavam suas melhores amigas? Claro que sabia. Sempre soube. 
Se  não  fosse  por  sua  beleza,  não  voltariam  uma  e  outra  vez  para  receber  as 
chicotadas de sua amargura. 
    Não gostava de seu aspecto e, ao mesmo tempo, dava por feito que nenhuma 
mulher  poderia  se  comparar  com  ela  e  adorava  isso.  Os  sentimentos 
contraditórios, entretanto, nunca lhe sentavam bem, dividiam‐na em duas e faziam 
com que se sentisse incômoda. 
    Os  espelhos  eram  seus  inimigos.  Amava‐os  e  os  odiava,  porque  lhe 
mostravam  o  que  todos  viam  quando  a  olhavam.  Cabelo  loiro  claro,  sem  mechas 
escuras  que  apagassem  sua  perfeição;  pele  de  marfim  sem  mácula;  sobrancelhas 
arqueadas  que,  tirando  um  pouco,  pareciam  perfeitas;  olhos  azuis  que  não  se 
destacariam  se  não  formassem  parte  de  um  rosto  de  feições  delicadas.  Todos  os 
traços de seu rosto, o nariz reto e fino, as maçãs do rosto altas, os lábios, que não 
eram  muito  carnudos  nem  muito  finos,  o  pequeno  queixo  firme  que  só  se 
sobressaía com tenacidade quando se obstinava... De acordo, isso acontecia quase 
sempre,  mas,  mesmo  assim,  completava  este  conjunto  que  deslumbrava  todas  as 
pessoas  que  tinha  conhecido,  com  a  exceção  de  dois,  embora  já  não  fosse  pensar 
neles. 
    Ophelia  olhou  sua  donzela,  sentada  no  assento  da  frente.  Viajava  em  sua 
carruagem particular, não tão grande como a de seu pai, na qual brilhava o brasão 
do conde de Durwich nas portas, mas sim bem grande para levar no telhado dois 
baús grandes com sua roupa além da mala de Sadie, e para acolher comodamente a 
quatro passageiros em seu interior. Prestava‐lhe um bom serviço, com os assentos 
e almofadas de veludo (tinha enrolado seu pai para que os pusesse) e um braseiro 
para esquentar o interior. Sadie cobria o colo com uma manta de viagem, porque 
não  usava  tantas  anáguas  como  Ophelia  e  no  exterior  fazia  frio,  estando  como 
estavam em pleno inverno. 
    ‐Vai me contar o que aconteceu na casa? ‐perguntou Sadie. 
    ‐Não ‐ respondeu Ophelia com dureza. 
    Sadie estalou a língua e disse sabiamente: 
    ‐Claro que sim, querida, sempre o faz. 
    Que rabugice! Embora Ophelia não o dissesse em voz alta. Até suas donzelas 
caíam sob o feitiço de sua beleza, temiam tocar seu delicioso cabelo loiro, temiam 
lhe preparar um banho se por acaso não fosse de seu agrado, temiam dispor  sua 
roupa se por acaso a enrugavam, temiam inclusive lhe dirigir a  palavra! Tinha‐as 
despedido  todas  umas  atrás  da  outra.  A  conta  subia  a  uma  dúzia  quando  Sadie 
solicitou o posto. 
    Sadie  O’  Donald  não  temia  Ophelia  nem  se  sentia  intimidada  por  ela. 
Mofava‐se  das  reprimendas,  ria  dos  olhares  severos.  Tinha  criado  seis  filhas 
próprias e não se deixava impressionar pela histeria, como chamava à maioria das 
grosserias de Ophelia. Roliça e de media idade, com o cabelo negro e os olhos de 
cor castanhos escuros, Sadie era uma mulher sincera, às vezes ferozmente sincera. 
Na  realidade,  não  era  irlandesa,  como  sugeria  seu  sobrenome.  Em  certa  ocasião 
tinha confessado que seu avô tomou o nome emprestado quando quis mudar o seu 
próprio. 
    Por  uma  vez  Ophelia  não  reagiu  ao  silêncio  de  Sadie  como  fazia  sempre, 
contando‐lhe  tudo.  A  maioria  das  pessoas  que  a  conhecia sabia que iria ao ponto 
assim  que  deixassem  de  fazer  perguntas.  Ophelia  detestava  essa  espantosa 
debilidade dela como, em realidade, detestava todas suas debilidades. 
    Ante  a  ausência  de  uma  resposta,  a  curiosidade  se  sobrepôs  a  Sadie.  No 
final, supunha‐se que essa manhã tinha que celebrar um casamento, o casamento 
de  Ophelia;  em  troca,  esta  tinha  procurado  Sadie  para  lhe  dizer  que  fizesse  as 
malas  e  estivesse  pronta  para  abandonar  Summers  Glade  em  menos  de  cinco 
minutos, porque retornavam a sua casa de Londres imediatamente. Sadie demorou 
vinte  minutos  para  arrumar  a  bagagem,  mas,  mesmo  assim,  foi  provavelmente  a 
ocasião em que menos demorou para colocar a roupa nos baús. 
    ‐Abandonou‐o no altar, pois? ‐insistiu Sadie. 
    ‐Não  ‐  respondeu  Ophelia  com  rigidez‐.  E  realmente  não  quero  conversar 
sobre isso. 
    ‐Mas disse que tinha que se casar com o escocês, que não tinha como evitar 
depois que Mavis os pegou sozinhos em seu quarto. Sei que você gostou que aquilo 
acontecesse, já que queria recuperá‐lo, embora só fosse para pôr fim aos rumores 
que  correram  quando  ele  pôs  fim  a  seu  primeiro  compromisso.  Logo  mudou  de 
opinião e não queria ter nada a ver com ele... 
    ‐Já sabe por que! ‐interpôs Ophelia secamente‐. Ele e seu avô se propunham 
me converter em uma obtusa de províncias. Olha só a ideia...! Nem diversões nem 
reuniões sociais. Só trabalho, trabalho e mais trabalho! Eu! 
    ‐Tinha se resignado à ideia, querida. O que...? 
    Ophelia voltou a interrompê‐la bruscamente. 
    ‐Que  alternativa  tinha,  quando  Mavis  ameaçou  me  arruinar  se  não  me 
casasse com esse bárbaro bruto? 
    ‐Acreditava  que  tinha  aceitado  que  na  realidade,  não  era  um  bárbaro  ‐ 
indicou Sadie‐. Foi você quem fez correr o rumor, antes de conhecê‐lo sequer, para 
que  chegasse  aos  ouvidos  de  seus  pais  e  estes  cancelassem  o  compromisso  por 
você. 
    Ophelia lançou a sua donzela um olhar ameaçador. 
    ‐O  que  tem  isso  a  ver?  Isso  foi  antes,  não  agora.  E  nem  sequer  funcionou! 
Arrastaram‐me até Summers Glade para que o conhecesse, apesar de tudo. E olhe o 
que aconteceu. Um pequeno comentário sem pensar de minha parte e ele se sente 
tão ofendido que vai e rompe o compromisso. Mas eu não pretendia ofendê‐lo. Não 
foi minha culpa se me escandalizou quando entrou em um recinto vestido com um 
kilt.  Nem  que  fosse  a  primeira  vez  que  via  um  homem  em  kilt  ‐  concluiu  Ophelia 
com desdém. 
    ‐Haveria  dito  exatamente  o  mesmo  se  tivesse  pensado  sobre  isso  ‐  repôs 
Sadie, que a conhecia muito bem. 
    A Ophelia quase lhe escapou um sorriso e disse: 
    ‐Pois,  provavelmente  sim.  Embora  só  porque  já  estava  desesperada. 
Disseram que tinha vivido toda sua vida nas Terras Altas. Sabe que temia que fosse 
realmente um bárbaro ou jamais teria me ocorrido pontuar sobre isso nos círculos 
de fofoca. 
    ‐Ao final, entretanto, reconheceu que seria um bom marido. 
    ‐Com sinceridade, Sadie, normalmente não é tão obtusa ‐ disse Ophelia com 
um suspiro‐. Sim, convinha‐me bastante até que seu avô recortou a lista de deveres 
que esperavam que eu cumprisse. O único que desejo na vida é ser uma matriarca 
social e dar as festas mais grandiosas que conheceu Londres. Meus bailes seriam os 
únicos aos que valeria a pena assistir. Isso é o que espero de um matrimônio, não 
me converter em uma caipira, como planejava Neville Thackeray. 
    ‐De modo que está fugindo ‐ concluiu Sadie finalmente. 
    Ophelia levantou os olhos para o teto. Também teria levantado às mãos em 
um  gesto  de  repugnância,  se  não  estivessem  tão  abrigadas  dentro  de  seu 
manguito1 de pele branca. 
    Para fazer Sadie se calar, disse: 
    ‐Se  quer  saber,  Mavis  chegou  para  me  salvar  desse  horrível  matrimônio, 
assim voltamos para casa. 
    Não falou mais, nem sequer queria pensar já no assunto, mas, por desgraça, 
Sadie sabia muito bem que Mavis não lhe faria nenhum favor, pois antigamente a 
melhor amiga de Ophelia agora a odiava. A donzela conhecia muito bem todas as 
amigas de Ophelia, devido às inumeráveis vezes em que se reuniram em sua casa. 
Não as julgava. Em qualquer caso, ela era, com toda probabilidade, a única pessoa 
que compreendia realmente Ophelia e a aceitava com todos seus defeitos. 
    Ophelia,  entretanto,  realmente  não  queria  falar  sobre  isso,  de  modo  que 
tentou mudar de assunto. 

                                                            
1
 Manguito ‐ pele em rolo que trazia as mãos das senhoras para esquentar. 
    ‐Volto para Londres encantada, embora suponha que meu pai não se sentirá 
muito contente ao saber que, pela segunda vez, não terá um marquês como genro. 
    ‐Isso  quer  dizer  pouco,  querida.  Era  o  homem  mais  feliz  da  Inglaterra 
quando lorde Thackeray entrou em contato com ele para o noivado. Sua arrogância 
deve dar a volta pelo quarteirão. 
    Ophelia  não  surpreendeu  com  o  tom  de  brincadeira  daquele  comentário. 
Sadie  não  sentia  muita  simpatia  pelo  conde.  Claro  que  Ophelia  tampouco.  Não 
obstante, fez uma careta ao recordar a fúria de seu pai quando as tinham mandado 
embora de Summers Glade depois da ruptura definitiva do primeiro noivado, que 
tão feliz lhe tinha feito. Seu pai tinha chegado a lhe dar uma  bofetada, culpando‐a 
de tudo. 
    ‐Se  tivesse  me  escutado  desde  o  começo,  ou  se  tivesse  feito  caso  aos 
rumores que eu fiz correr e me tivesse liberado do compromisso, teríamos evitado 
aquele  episódio  tão  desagradável.  Não  precisava  aceitar  a  primeira  proposta  que 
lhe  convinha.  Eu  mesma  teria  encontrado  um  genro  eminente  para  ele,  um  de 
minha escolha, mas jamais me deu a oportunidade. 
    ‐  Odeio  dizer  isto,  querida,  mas  já  sabe  por  que  estava  tão  convencido  de 
que jamais escolheria um marido. 
    ‐Sim  ‐  reconheceu  Ophelia  com  amargura‐.  Porque  durante  três  anos  fez 
desfilar  ante  mim  homens  jovens  e  velhos,  me  exibindo  como  o  brinquedo  que 
pensa  que  sou.  Por  Deus,  eu  ainda  estudava,  era  muito  jovem  para  pensar  em 
matrimônio,  mas  ele  queria  que  mostrasse  minhas  preferências  por  homens  que 
não me interessavam absolutamente. 
    ‐Acredito que a impaciência é hereditária em sua família. 
    Ophelia olhou Sadie inexpressivamente por um momento e logo riu. 
    ‐De verdade pensa que a herdei dele? 
    ‐Pois,  certamente  não  foi  de  sua  mãe  ‐  esclareceu  Sadie‐.  Lady  Mary,  que 
Deus  a  abençoe,  demoraria  um  ano  para  tomar  qualquer  decisão  se  ninguém  a 
apressasse a fazê‐lo. 
    Ophelia  suspirou.  Gostava  de  sua  mãe  embora  Mary  nunca  tivesse  podido 
opor‐se ao conde em nada, e menos em assuntos relacionados com sua única filha. 
Devia saber que de nada adiantaria falar com seus pais, especialmente com seu pai. 
Para ele não era mais que um ornamento, uma ferramenta útil para melhorar sua 
posição social. Seus sentimentos não lhe importavam. 
    ‐Provavelmente,  nem  sequer  sabe  ainda  que  fiquei  noiva  de  Duncan 
novamente ‐ aventurou Ophelia‐. Esse seu covarde chofer voltou para casa para lhe 
dizer que eu estava em Yorkshire visitando os Lambert, como era o caso antes que 
me convidassem de novo a Summers Glade. 
    ‐Você não o comunicou, mas, sem dúvida, lorde Thackeray sim. 
    ‐Sim, embora duvido tenha aberto uma carta do marquês, tão furioso como 
estava por ter sido expulso de Summers Glade ‐ explicou Ophelia. 
    ‐Acredita que desta vez à volta para casa será tranquila, sem tantos gritos? 
    ‐Ao menos, até que meu pai saiba... De fato, acredito que eu mesma direi se 
já não souber. 
    ‐Por quê? 
    ‐Porque se tivesse me ouvido para começar, nada disso teria acontecido. 
    ‐Eu  não  me  arriscaria  a  receber  outra  bofetada  só  por  lhe  dizer  "eu  lhe 
disse". 
    ‐Eu  sim  ‐  opinou  Sadie.  Girou  a  cabeça  e  olhou  pela  janela  o  último  sol  da 
tarde, que aparecia entre um amontoado de nuvens escuras. 
    Ophelia,  convencida  de  ter  evitado  com  êxito  o  assunto  que  não  desejava 
discutir, se esparramou no assento resolvida a deixar para trás cada detalhe de sua 
desastrosa experiência em Summers Glade. Devia saber que não conseguiria. Sadie 
era muito tenaz. 
    Como se não acabassem de falar de outra coisa, a donzela comentou: 
    ‐Mavis não teria a generosidade de te ajudar. Adverti‐te há muito tempo que 
não  permitisse  suas  visitas.  Está  muito  amargurada  ultimamente,  sobre  tudo, 
depois que a descobriu como embusteira. 
    ‐Ela  mesma  o  provocou  ‐  respondeu  Ophelia  com  voz  baixa‐.  Nunca  teria 
mencionado se seus sarcasmos não tivessem me enfurecido aquele dia. 
    ‐Não precisa me explicar isso, querida. Conheço‐a muito bem. Fui eu quem 
te  disse  que  os  sentimentos  negativos  que  guardava  dentro  de  ti  um  dia 
transbordariam  e  lhe  fariam  mal.  Já  suportou  sua  raiva  muito  tempo,  só  pela 
amizade que uma vez lhes uniu. 
    A emoção afogou Ophelia e suavizou sua voz ainda mais quando disse: 
    ‐Ela  foi  a  única  amiga  verdadeira  e  sincera  que  jamais  tive.  Realmente 
esperava que um dia me perdoasse pelo mal que pensou que eu tinha lhe causado 
quando, na realidade, só tentava protegê‐la. 
    ‐Sei  ‐  disse  Sadie  e  se  inclinou  para  frente  para  dar  uns  tapinhas  ao 
manguito  de  pele  que  cobria  as  mãos  de  Ophelia‐.  O  homem  que  gostava  era  um 
libertino irresponsável, o pior dos descarados, que a utilizou só para aproximar‐se 
de  ti.  Tentou  adverti‐la  repetidas  vezes.  Não  quis  te  escutar.  Dadas  às 
circunstâncias, provavelmente, eu teria feito exatamente o mesmo que você. Tinha 
que ver as provas com seus próprios olhos. Você as ofereceu. 
    ‐E perdi sua amizade por isso. 
    ‐Mas hoje recuperou o bom senso? Por isso te salvou? 
    ‐Ah, não ‐ respondeu Ophelia com voz amarga‐. Só o fez para ajudar Duncan, 
embora  não  antes  de  me  desprezar  diante  dele,  de  Sabrina  e  de  Raphael  Locke. 
Disse que sob meu aspecto bonito não há mais que gelo, gelo frio e desalmado. 
    Sadie  ficou  boquiaberta,  como  a  própria  Ophelia  quando  ouviu  aquelas 
palavras. 
    ‐E  isso  nem  sequer  foi  o  pior  ‐  prosseguiu  Ophelia  e  descreveu  a  sua 
donzela  a  maioria  dos  detalhes  daquele  horrível  encontro,  a  lembrança  dolorosa 
ainda muito recente em sua mente. 
    Quando  Mavis  terminou  de  atacar  Ophelia  e  de  lhe  assegurar  de  que  não 
tinha  uma  só  amiga  no  mundo,  como  se  não  soubesse  já,  Ophelia  se  retirou 
discretamente, incapaz de conter suas emoções por mais tempo. Agora, depois de 
repetir quase tudo a Sadie, sentiu que a autocompaixão se inflamava em seu peito e 
a golpeava sem piedade. Tinha chorado. Que espantoso, permitir  que esse tipo de 
emoções  se  apoderasse  dela.  Nunca  tinha  acontecido  antes,  bom,  não  desde  que 
era  menina,  embora  não  iria  recordar  aquilo.  Toda  a  vida  tinha  lutado  por 
assegurar‐se de que não voltariam a lhe fazer mal e o tinha conseguido..., até hoje. 
    Embora Sadie, sua querida Sadie, compreendesse muito bem. Escutou‐a sem 
interromper e se limitou a lhe abrir os braços. E esse gesto voltou a abrir o dique. 
Capítulo 4
  
    Raphael fez estalar as rédeas para que corressem um pouco mais os cavalos 
que conduziam à luxuosa carruagem. Desfrutava daquela experiência, que era nova 
para  ele.  Estava  muito  acostumado  a  conduzir  carruagens,  em  boas  condições 
climáticas  e  pela  cidade,  mas  nunca  antes  tinha  tentado  levar  uma  carruagem 
grande.  Estava  acostumado  a  viajar  comodamente  sentado  e  quente  em  seu 
interior. 
    Fazia frio. O vento lhe açoitava os ombros e o rosto com seu cabelo loiro, lhe 
recordando que necessitava um corte de cabelo. Ali aonde ia, não o conseguiria. 
    Não  estava  seguro  de  ter  concebido  um  plano  brilhante  para  ganhar  sua 
aposta  com  Duncan  ou  a  ideia  mais  estúpida  que  tinha  imaginado,  mas  tinha  se 
atirado a ela, apesar de tudo, e agora apenas tinha que esperar não se arrepender 
disso.  Ainda  tinha  tempo  de  mudar  de  opinião.  Ophelia  estava  tão  consumida  na 
autocompaixão que nem sequer percebeu que não se dirigiam a Londres nem que 
ele  conduzia  a  carruagem.  Embora  a  verdade  fosse  que  não  queria  mudar  de 
opinião. 
    Tinha‐lhe  intrigado  a  reação  da  jovem  em  sua  estreia  na  sociedade  em 
Summers  Glade.  As  lágrimas  da  rainha  de  gelo  desmentiam  seu  apelido.  Tinha‐a 
ferido  as  palavras?  E,  se  sim,  por  quê?  Ou  suas  lágrimas  não  eram  mais  que uma 
expressão  da  lástima  que  sentia  de  si  mesma?  E  logo,  aquela  assombrosa 
transformação  enquanto  falava  com  Mavis  no  salão,  quando  voltou  a  mostrar‐se 
auto‐suficiente e altiva, em nada parecida com a mulher que tinha chorado entre 
seus  braços.  Ele  tinha  formado  a  pior  opinião  sobre  Ophelia.  Como  todos. 
Entretanto,  o  que  tinha  ouvido  nessa  segunda  conversa  sugeria  que  havia  mais 
coisas do que as quais imaginava. Não gostava de equivocar‐se e queria averiguar 
as respostas por si mesmo. 
    Embora esta fosse só uma das muitas razões que o tinham impulsionado a 
pôr  em  prática  sua  ideia.  Se  seu  plano  tivesse  êxito,  obteria  mais  vantagens  que 
ganhar a aposta com Duncan. Fazendo um milagre e convertendo Ophelia Reid em 
uma  mulher  simpática,  faria  um  favor  a  todos  os  que  a  conheciam.  Gostava  da 
ideia. Interpretaria o papel de um herói. 
    Mas  tampouco  era  essa  sua  única  motivação.  Se  acreditasse  em  tudo  que 
disse  Mavis,  sua  ex‐amiga  não  tinha  razões  para  não  lhe  acreditar,  apesar  de  sua 
beleza, Ophelia parecia antipática a todo mundo, além dos idiotas exímios que, na 
realidade,  não  a  conheciam  e  cuja  opinião  não  contava.  Curiosamente,  isso  a 
convertia  em  uma  vítima.  E  não  seria  a  primeira  vez  que  Raphael  ajudava  uma 
vítima. 
    É  obvio,  também  influía  seu  desejo  de  ganhar  a  aposta,  e  Duncan  tinha 
razão,  em  Londres  Raphael  não  conseguiria  convencer  Ophelia  de  que  mudasse 
suas maneiras. Poderia segui‐la a todas as festas, mas com que propósito? Ophelia 
sabia  que  não  gostava  dela.  Tinha  deixado  claro  em  repetidas  ocasiões.  De  modo 
que  agora  não  podia  fingir  interessar‐se  por  ela.  Não  acreditaria.  Tampouco  ele 
seria convincente, não era capaz de tal hipocrisia. Além disso, bastava‐lhe olhar à 
mesma  mulher  duas  vezes  para  que  os  fofoqueiros  londrinos  anunciassem  seu 
compromisso. Foi por culpa disso que não pôde desfrutar de sua primeira incursão 
no torvelinho social de Londres. De fato, foi por isso que partiu para o estrangeiro. 
Assim mais lhe valia não ser "visto" com Ophelia. 
    Já tinha muitas razões claras. Para bem ou para mau, faria o maior esforço 
para ajudar Ophelia a compreender o equivocado que eram seus modos e a mudar 
para  melhor,  então  inclusive  ela  poderia  encontrar  um  bom  marido  e,  com  o 
tempo, alcançar a felicidade. Um grande desafio, mas Raphael gostava de desafios. 
E, se tivesse êxito, todos seriam felizes, inclusive ela. 
    Era  tarde,  o  sol  já  saia.  A  carruagem  não  era  feita  para  viajar  de  noite,  ao 
menos,  não  pelos  caminhos  rurais  onde  não  havia  luzes.  Raphael  considerou 
arriscar‐se  e  procurar  uma  estalagem  para  passar  a  noite  ou  prosseguir  viagem 
com a esperança de encontrar Alder's Nest na escuridão. 
    Era uma das muitas propriedades que tinha herdado de seu avô, tão remota, 
que  só  a  tinha  visitado  poucas  vezes  ao  longo  dos  anos.  Um  retiro  chamava  seu 
avô;  enquanto  que  o  pai  de  Raphael  dizia  com  ironia  que  uma  simples  casa  de 
campo teria servido estupendamente como "retiro" e que seu pai não necessitava 
uma maldita mansão no meio de um nada. O velho duque se limitou a rir e disse: 
"Uma casa? Eu? É ridículo!”. 
    Assim  mandou  construir  seu  grande  retiro  nos  desertos  mouros  de 
Northumberland  e  ali  tinha  desfrutado  frequentemente  de  sua  solidão.  Outro 
Locke  não,  nenhum  deles.  A  família  estava  de  acordo  em  que  Alder's  Nest  estava 
muito  longe  de  tudo.  O  imóvel  ainda  se  encontrava  a  horas  de  distância.  E  as 
ocupantes da carruagem que conduzia Raphael estariam, sem dúvida, tão famintas 
como  ele  próprio.  Nem  sequer  tinham  chegado  ainda  ao  condado  de 
Northumberland;  Raphael  estava  seguro  de  que  ainda  viajavam  por  Durham.  As 
pousadas eram escassas, entretanto, as separavam grandes distancias inclusive em 
Durham, e quanto mais ao norte, menos alojamentos encontrariam. 
    A  última  vez  que  tinha  passado  por  ali  se  alojou  na  casa  de  sua  tia 
Esmeralda,  que  era  a  mais  velha  de  muitas  irmãs  de  seu  pai.  Casou‐se  com  um 
escocês,  mas  insistiu  em  viver  na  Inglaterra.  Seu  marido  aceitou,  sempre  que 
estivessem muito perto da Escócia. De fato, quis instalar‐se justo na fronteira! Ao 
final se estabeleceram em Durham, um condado mais ao sul, embora muito longe 
de  Londres.  Esmeralda  pôde  aproximar‐se  do  resto  da  família  quando  enviuvou, 
mas  já  tinha  vivido  muito  tempo  em  Durham  e  amava  o  lugar.  E  Raphael  era  um 
tolo por não ter pensado nela antes. 
    Se  não  se  equivocava,  a  casa  de  sua  tia  se  encontrava  a  poucas  milhas  de 
distância  ou,  quando  menos,  o  caminho  secundário  que  conduzia  a  ela.  Se  não 
tivesse já passado. Se sim voltaria teria que voltar. Ali ninguém diria a Ophelia que 
estavam  em  Durham,  ao  norte  de  Yorkshire,  ao  invés  de  no  meio  do  caminho  a 
Londres, para o sul, como ela supunha. Pensando bem, sua tia seria muito melhor 
acompanhante para Ophelia que sua donzela, e não tinha dúvidas de que gostaria 
da  ideia  de  passar  um  tempo  com  eles  em  Alder's  Nest.  Além  disso,  tinha  que  se 
assegurar  de  que  não  explodiria  nenhum  escândalo  como  resultado  de  seu  plano 
impulsivo. 
    Felizmente, já tinha se ocupado do único obstáculo que pôde prever. Os pais 
de Ophelia. Uma vez tomada à decisão, escreveu‐lhes uma pequena nota e a levou 
ao empregado encarregado de conduzi‐las a casa, lhe confiando à entrega urgente 
da  missiva.  Assim  tinha  matado  dois  pássaros  com  um  tiro,  já  que  assegurou  ao 
homem que ele mesmo encontraria outro condutor para Ophelia. 
    Os seus pais se impressionavam muito com os títulos mais altos do que os 
seus próprios. Demonstrava‐o fato de ter consertado o matrimônio de Ophelia com 
o herdeiro do marquês contra os desejos da jovem. Por isso, não lhe cabia a menor 
duvida  de  que  dariam  sua  total  aprovação  à  estadia  de  Ophelia  com  sua  família. 
Raphael sugeria que a tinha tomado sob seu amparo. Se chegassem à conclusão de 
que estava interessado nela, não poderiam culpá‐lo de seu equívoco. 
    Faltavam  cinco  milhas  de  viagem  pelo  caminho  principal  e  outros  trinta 
minutos  pelo  caminho  secundário  para  chegar  à  casa  de  sua  tia  Esme.  Quando 
chegaram era já noite fechada, mas a luz que saía das altas janelas do salão alagava 
o espaço diante da casa, tanto que Ophelia compreendeu que não se detinham para 
passar a noite em uma estalagem. 
    Raphael se dispôs a sofrer uma desagradável cena quando abriu a porta da 
carruagem  e  ofereceu  sua  mão  para  que  a  dama  descesse  da  carruagem.  Ela  a 
segurou  sem  olhá‐lo  sequer.  Um  empregado,  como  ela  supunha,  não  merecia  sua 
atenção. 
    Ele,  entretanto,  observou‐a  fixamente  enquanto  descia  e  suspirava  para  si 
mesma. Até sacudida pela viagem e sonolenta, conforme parecia,  ou com os olhos 
inchados  de  derramar  tantas  lágrimas,  sua  deliciosa  beleza  lhe  tirava  o  fôlego. 
Ficou  desconcertado  a  primeira  vez  que  a  viu  em  Summers  Glade.  Por  sorte, 
encontrava‐se no extremo oposto da sala e, quando ela se aproximou de Sabrina e 
a  ele  para  ser  apresentada  (“intrometeu­se”  seria  o  termo  mais  adequado)  ele  já 
tinha seu assombro sob controle. 
    Ophelia se voltou para falar com sua donzela e conteve o fôlego quando seu 
olhar passou por Raphael e retornou bruscamente a ele. 
    ‐Que demônios faz você aqui? ‐exigiu‐. Vai para Londres? 
    ‐Absolutamente.  Deu  por  feito  que  um  dos  empregados  do  marquês  te 
conduziria  até  Londres,  mas  o  certo  é  que  só  as  teriam  levado  até  Oxbow,  onde 
teriam  que  mudar  de  chofer.  Não  lhes  pagam  para  se  ausentarem  de  Summers 
Glade durante dias inteiros, salvo que seja o próprio marquês quem os envia. Estou 
te fazendo um favor, querida moça, posto que vamos à mesma direção. 
    ‐Conduz‐nos você? 
    ‐Assombroso, não é verdade? 
    Ela soprou com desdém, provavelmente devido à careta de Raphael. 
    ‐Não espere que lhe agradeça, posto que não lhe pedi isso. 
    Ele  não  estava  acostumado  a  mentir.  Não  suportava  os  mentirosos.  Mas  a 
alternativa  seria  lhe  confessar  que  a  tinha  sequestrado  e  isso  não  lhe  sentaria 
muito bem, estava convencido. Ainda não suspeitava que não se dirigiam a Londres 
e ele preferia chegar a seu destino final no dia seguinte antes que o descobrisse. 
  Ophelia pôs‐se a andar graciosa para a entrada principal, mas desacelerou 
o passo e, ao final, parou completamente quando percebeu que se encontrava em 
uma residência particular e não em um hotel, como tinha suposto ao princípio. 
    Olhou por cima do ombro. 
    ‐Onde estamos? ‐Agora o tom de sua voz só indicava curiosidade. 
    Antes  de  dirigir‐se  para  a  casa,  Raphael  ajudou  a  donzela  a  descer  da 
carruagem e, deixando atrás Ophelia, bateu na porta. Não era sua intenção deixá‐la 
esperando  uma  resposta.  Ainda  não  conhecia  sua  impaciência.  De  momento,  o 
único  que  queria  era  medir  cada  uma  de  suas  palavras.  Por  isso,  quando  deu  a 
volta lhe surpreendeu ao descobrir que ela o olhava com aborrecimento. Demorou 
um momento para reagir e recuperar seu habitual ar gracioso. 
    ‐Pois,  tenho  uma  grande  família  espalhada  por  toda  Inglaterra.  Parece‐me 
muito  conveniente  quando  estou  de  viagem.  Aqui  vive  minha  tia  Esmeralda. 
Prefere que a chamem Esmem. Passaremos aqui a noite. As camas são muito mais 
macias do que em qualquer estalagem, asseguro‐lhe. 
    A  porta  se  abriu  antes  que  terminasse  a  frase.  Ali  estava  o  velho  William, 
olhando‐os  com  olhos  estreitos  por  trás  de  seus  óculos  estreitos.  Tão  cego  como 
surda estava Esmeralda, William era o mordomo que sua tia tinha roubado de seu 
pai quando deixou a casa paterna para casar‐se, há muitos anos. Ao menos, assim 
contava o anterior duque. 
    ‐Quem é? ‐perguntou William. 
    Era  evidente  que  os  óculos  já  não  serviam  muito  ao  velho  mordomo. 
Conhecia bem Raphael. Talvez o tivesse reconhecido à luz do dia. Ou talvez não. A 
própria  Esmeralda  estava  ficando  velha  e  William,  muito  mais  velho  do  que  ela, 
devia se aproximar dos oitenta. 
    ‐Sou Rafe, velho amigo. Só procuramos um pouco de hospitalidade antes de 
prosseguir  viagem  pela  manhã.  Necessitamos  três  quartos  e  um  jantar  tampouco 
nos viria mau. Minha tia está acordada ou se retirou já para a noite? 
    ‐Está no salão tentando incendiar a casa, com todos esses troncos que tem 
ardendo na lareira. 
    Raphael  sorriu  ao  ouvir  a  queixa.  Esmeralda  se  esfriava  facilmente  no 
inverno. Como sua avó. Quase toda a família evitava visitar Agatha Locke por culpa 
do  calor  que  fazia  em  sua  suíte  de  Norford  Hall.  William,  entretanto,  jamais 
admitiria  que,  a  sua  idade,  necessitava  o  calor  adicional  tanto  como  a  própria 
Esmeralda. 
    ‐Diga  que  estou...  ‐começou  a  dizer  Raphael  antes  de  ser  interrompido 
bruscamente. 
    ‐Queria  que  me  conduzissem  a  meu  quarto,  obrigada  ‐  declarou  Ophelia  e 
entrou graciosa no saguão‐. Jantarei ali. 
  ‐É  obvio  milady‐respondeu  William  em  seguida,  impulsionado  pelo 
costume.  Sua  má  visão  não  lhe  permitia  ver  a  elegância  de  sua  roupa  para  saber 
que era uma lady, embora o tom imperioso da voz deveria ser prova suficiente de 
sua origem aristocrática. 
  Raphael  balançou  a  cabeça  enquanto  observava  Ophelia  subir  a  escada. 
Dava por feito que William a seguiria para lhe mostrar seu quarto. A sua idade não 
era muito provável que o fizesse; de fato, o mordomo se afastou a toda pressa em 
busca  da  governanta.  Conforme  parecia,  Ophelia  tinha  afastado  Raphael  de  sua 
mente  e  não  pensava  lhe  dirigir  uma  só  palavra  mais.  Mas  ele  não  estava 
acostumado a que lhe ignorassem. Apesar do desdém da jovem lhe  convir, já que 
evitava  ter  que  mentir  de  novo  se  lhe  perguntasse  quanto  faltava  para  chegar  a 
Londres, sua total indiferença lhe incomodava. 
    ‐Conforme  parece  te  verei  pela  manhã  ‐  disse  Raphael  dirigindo‐se  às 
costas de Ophelia. 
    ‐Cedo ‐ replicou ela sem voltar‐se para olhá‐lo‐. Não quero passar outro dia 
inteiro viajando. 
    Ele desapareceu no salão antes que terminasse a frase. Desejava que ela se 
virasse para vê‐lo embora, provavelmente, não o faria. Maldita fedelha presunçosa. 
Capítulo 5
  
    ‐O  que  quer  dizer  com  que  a  sequestrou?  Explique‐se,  jovem,  devo  ter 
ouvido mal. 
    Raphael  deu  a  sua  tia  uns  tapinhas  na  mão.  Não  pensava  gritar.  Não 
precisava,  porque  tinha  se  sentado  perto  dela,  no  lado  esquerdo,  e  seu  ouvido 
esquerdo  ainda  funcionava  muito  bem.  Embora  nesses  momentos  tivesse  o 
pescoço  e  os  ouvidos  envoltos  com  um  cachecol.  Um  xale  grosso  lhe  cobria  os 
ombros. Surpreendia‐lhe que não usasse luvas. 
    Santo  Deus,  sim  que  fazia  calor  no  salão.  Raphael  afrouxou  o  pescoço  da 
camisa. Estava quase congelado depois de conduzir a carruagem todo o dia, mas, 
depois de dois minutos no recinto, já tinha que tirar o casaco. 
    ‐Não ouviu mal. Mas não é o que pensa. Dentro de uns dias contarei com a 
aprovação de seus pais para que fique todo o tempo que quiser. 
    ‐Vão vendê‐la a você? ‐perguntou a tia. 
    ‐Não,  não,  nada  disso.  Pensarão  que  estou  considerando  matrimônio,  e  é 
verdade, embora não o meu. A garota é uma megera, grosseira e malvada em todos 
os  aspectos.  Propaga  mentiras  sem  se  importar  absolutamente  em  fazer  mal  a 
alguém. 
    ‐Como metade de Londres ‐ disse Esmeralda com um bufo. 
    Raphael riu. 
    ‐Ao menos, eles pensam que propagam a verdade quando deixam  circular 
um rumor. Ophelia sabe muito bem que os rumores que inicia são mentiras. 
    ‐Então, que demônios vai fazer com ela? 
    ‐Me  proponho  mudá‐la.  Sua  beleza  não  tem  igual‐reconheceu  Raphael‐. 
Imagino que por dentro seja também formosa. 
    ‐Então seria boa para você? 
    ‐Não  me  meta  em  seus  planos  de  casamenteira,  tia  Esme.  Quando  a 
conhecer a senhora não gostará nada dela, asseguro‐lhe. 
    ‐Mas  você  vai  mudá‐la,  assim  passarei  por  cima  de  minhas  primeiras 
impressões. 
    Raphael balançou a cabeça. 
    ‐Por que será que as mulheres sempre veem o lado bom das coisas? 
    ‐Porque os homens são uns pessimistas e não o veem nunca. Bom, admito 
que  você  possa  ser  uma  exceção,  já  que  acredita  ser  capaz  de  mudar  essa  garota 
para melhor. 
    ‐É  uma  esperança,  certamente,  não  uma  certeza  a  priori.  Se  conseguir, 
entretanto,  eu  mesmo  serei  seu  mentor  em  Londres,  para  me  assegurar  de  que 
encontre um bom marido. Que não serei eu, por certo ‐ esclareceu Raphael‐. Ainda 
tenho  muitos  anos  de  libertinagem  desenfreada  para  desfrutar  antes  de  pensar 
sequer em sentar a cabeça. 
    ‐Por que faz isto, então? 
    ‐Se  quer  saber,  é  uma  aposta.  Meu  amigo  está  convencido  de  que  Ophelia 
Reid é uma causa perdida. Eu não estou tão seguro. Assim apostamos. 
    ‐Deveria supor ‐ respondeu Esmeralda em tom de desaprovação‐. É este um 
mal  habito  moço,  de  aceitar  os  desafios  tão  facilmente.  E  parece  que,  neste  caso, 
propõe‐te fazer armadilhas? 
    ‐Eu?  ‐Raphael  sorriu‐.  De  maneira  nenhuma.  Trata‐se  de  uma  pequena 
vantagem. Embora alguém tivesse que recolher a luva. A garota não renunciará a 
seus  maus  hábitos  sem  ajuda,  não  quando  pensa  que  não  tem  maus  hábitos.  A 
propósito, quero que dê tudo certo. O que acha de vir conosco a Alder's Nest? Seria 
uma acompanhante esplêndida para ela. 
    ‐Por que não ficam aqui? 
    Raphael considerou a possibilidade por um momento, mas logo negou com 
a cabeça. 
    ‐Sua casa não está muito isolada. Há vizinhos muito perto. 
    ‐E? 
    ‐Não  pretendo  trancá‐la  com  chave  ‐  advertiu  ele‐,  mas  sim  quero  me 
assegurar  de  que  não  abandonará  sua  pequena  estadia  no  campo.  Não  poderei 
ajudá‐la se escapar, como compreende. 
    ‐Como quiser ‐ disse ela encolhendo os ombros. Logo admitiu: ‐ Sempre me 
despertou curiosidade a loucura de meu pai como o chamava minhas irmãs e eu. 
Nunca  estive  em  Alder's  Nest.  Ele  nunca  convidava  a  família  quando  ia  ali  para 
fugir de nosso alvoroço em Norford Hall. 
    ‐Jamais o teria imaginado. A senhora? Uma menina bagunceira? 
    ‐Eu  não  disse  isso  ‐  respondeu  ela  com  desdém  embora  seus  olhos 
castanhos  cintilassem‐.  Eram  sempre  minhas  irmãs,  Julie  e  Corinthia,  as  que 
gritavam...,  ao  menos  as  que  gritavam  mais  forte.  Embora  deva  saber  que  o 
instigador  era  seu  pai.  Não  passava  um  só  dia  sem  que  se  metesse  conosco, 
perseguisse‐nos  por  toda  a  casa  ou  nos  fizesse  brincadeiras  pesadas.  Ao  menos, 
acabou por superar aquelas espantosas inclinações. 
    Raphael  se  perguntou  se  ele  conseguiria  superar  suas  próprias.  Um  dos 
costumes que tinha herdado de seu pai, e que ainda adorava, era brincar com sua 
irmã,  Amanda.  Embora  a  jovem  fosse  tão  influenciável  que,  simplesmente,  não 
podia resistir. 
    ‐Sairemos  à  primeira  hora  da  manhã  ‐  disse  Raphael  que  se  abanava  e 
passava  a  mão  na  testa‐.  E  não  diga  a  Ophelia  aonde  vamos.  Ainda  acredita  que 
viajamos de volta a Londres. ‐Afinal, não pôde evitar perguntar enquanto olhava o 
fogo que rugia na lareira‐: Realmente sente tanto frio, tia Esme? 
    ‐Não, só quero que William se sinta útil ‐ reconheceu ela com um sussurro, 
se por acaso o velho mordomo estivesse escutando‐. Esteve falando de aposentar‐
se.  Não  gostaria  que  o  fizesse.  Aqui  vem  muito  poucas  pessoas  nos  visitar  e  não 
tem que atender a porta como antes. Mas sim que amontoa a lenha para mim. 
    Raphael riu. 
    ‐Importaria se abrir uma janela por uns minutos? 
    Sorriu‐lhe. 
    ‐Por favor. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 6
  
    De noite tinha nevado, embora não tanto como para cobrir o chão com um 
manto duradouro. Por um momento, não obstante, seria precioso. Ophelia opinava 
o  contrário  também  nisso.  Adorava  a  neve,  mas  não  podia  tolerar  suas 
consequências,  quando  começava  a  derreter  e  se  sujava.  E  obvio,  só  estava 
acostumada a ver a neve de Londres depois que o pesado tráfico  de carruagens a 
transformava  em  lodo.  Normalmente,  o  Hyde  Park  ficava  muito  bonito  depois  de 
uma  nevada,  embora  tampouco  ali  a  neve  durasse  muito,  com  tanta  fuligem  na 
cidade. Ao menos, essa manhã desfrutaria da neve antes que começasse a derreter‐
se. 
    Seu  chofer  (divertia‐lhe  pensar  no  herdeiro  dos  Locke  nestes  termos) 
estava esperando‐a no vestíbulo. Ophelia usava seu mais formoso traje de viagem 
só para ele, o mesmo que usou para Duncan MacTavish quando tentou remediar a 
relação com ele naquela hospedaria de Oxbow. Com o cabelo loiro emoldurado em 
um gorro de pele branca e o longo casaco de veludo azul claro com uma capa curta 
coberta com a mesma pele branca, sabia que seu aspecto era insuperável. O havia 
dito o espelho do quarto. 
    Havia  deslumbrado  Duncan  com  esse  traje,  embora  não  o  suficiente  para 
abrandar  seu  coração.  Parecia  que  o  insulto  de  chamá‐lo  bárbaro  tinha 
impregnado  muito  fundo.  Uma  situação  muito  difícil  aquela,  e  uma  de  suas 
melhores atuações, embora não estava bem que o dissesse ela. Desejava que ele a 
perdoasse para que pudessem comprometer‐se de novo e pôr fim às fofocas, e logo 
cancelar  o  compromisso  de  forma  amistosa,  como  deveriam  ter  feito  com  o 
noivado  inicial.  Por  uma  vez,  entretanto,  queria  se  assegurar  de  que  ele  não 
mudaria  muito  a  opinião  que  tinha  dela  e  não  se  acreditaria  apaixonado,  como 
todos os homens que a conheciam. Isso não lhe convinha absolutamente. 
    Tinha  conseguido  o  equilíbrio  perfeito  entre  o  arrependimento  e  a  má 
opinião que Duncan tinha dela, e lhe tinha devotado à solução perfeita: sua própria 
vaidade.  Suas  últimas  palavras  foram:  "Nunca  pensei  que  teria  que  competir  com 
minha esposa para ganhar sua atenção.”. 
    Naquele  momento  o  comentário  lhe  tinha  incomodado  embora  agora  lhe 
parecesse  bastante  divertido,  posto  que  tinha  se  livrado  daquele  enlace 
horripilante  e  outra  vez  era  capaz  de  divertir‐se.  Por  exemplo,  parecia  divertido 
que  o  bonito  e  rico  lorde  Locke  atuasse  como  seu  chofer.  Não  deixava  de  ser  um 
detalhe  por  sua  parte,  pensava,  ou  ao  menos  isso  lhe  tinha  parecido  por  um 
momento. Depois de refletir sobre o tema ontem à noite, entretanto, perguntava‐se 
por  que  esse  homem  assumiria  uma  tarefa  tão  árdua,  especialmente  tendo  em 
conta que a achava antipática. 
    O  tinha  deixado  muito  claro  nas  poucas  conversas  que  mantiveram  em 
Summers  Glade.  Quanto  a  ser  seu  chofer,  finalmente,  chegou  à  conclusão  de  que 
Raphael  deve  ter  ficado  encontrando  encalhado  no  imóvel  depois  que  sua  irmã 
retornou para Londres sem ele. Provavelmente não lhe fazia nenhum favor, como 
quis insinuar. E isso estava bem. Decididamente, não desejava sentir‐se em dívida 
com ele. 
    Por  outra  parte,  não  lhe  importaria  que  as  pessoas  associassem  seus 
nomes,  como  aconteceria  se  todos  seus  conhecidos  o  vissem  conduzir  sua 
carruagem  quando  chegassem  a  Londres.  E  as  pessoas  que  conhecia  estariam 
esperando  ver  passar  sua  carruagem...,  ao  menos,  os  homens.  Isso  só  podia 
beneficiá‐la, sendo a família dele tão bem considerada. Porque era certo que ainda 
precisava encontrar um marido, preferivelmente antes do fim da temporada. 
    Sem a ameaça de um matrimônio arrajando e não desejado pendente sobre 
sua cabeça, poderia dedicar sua atenção à busca do homem mais apropriado para 
ela.  Seus  critérios  não  careciam  de  realismo.  Simplesmente  queria,  necessitava 
conhecer um homem que não adorasse sua beleza imediatamente; um homem que 
se  esforçasse  em  conhecê‐la  tal  como  era  na  realidade,  um  homem  que  não 
declarasse seu amor eterno até as náuseas quando era impossível que a amasse..., 
ainda. Bem simples, pensou com amargura. 
    ‐Aqui  está  ‐  disse  Raphael  ao  pé  das  escadas  e  em  seguida  acrescentou‐: 
Juraria que disse "cedo". 
    Ophelia  bateu  os  dentes.  Lá  se  oram  seus  esforços  para  deslumbrá‐lo  e 
conseguir que se arrependesse de tê‐la tratado com brutalidade. Raphael apenas a 
olhou enquanto colocava o casaco sobre os longos ombros! 
    Na  realidade  tinha  se  levantado  há  horas,  depois  de  deitar‐se  tão  cedo  na 
noite  anterior.  Tinha  atrasado  sua  aparição  unicamente  para  que  os  outros 
pudessem  dormir  um  pouco  mais  antes  de  outra  longa  jornada  de  viagem.  A 
próxima vez reservaria sua consideração para alguém que soubesse valoriza‐la. 
    ‐Ontem à noite estava esgotada ‐ limitou‐se a dizer‐, por isso não desci para 
saudar sua tia. Terei esse prazer antes de nossa partida? 
    ‐Ah,  certamente;  de  fato,  ela  nos  acompanhará.  Pensei  que  não  se 
importaria compartilhar sua carruagem. 
    ‐Tem medo de que nos vejam juntos sem acompanhantes? ‐zombou Ophelia 
ao alcançar o degrau inferior. 
    ‐Sabia  que  compreenderia.  Ninguém  gosta  que  seus  favores  lhe  explodam 
na cara. 
    ‐Se  realmente  está  fazendo  um  favor.  Neste  caso,  duvido  ‐  respondeu  ela 
secamente‐. Por que não confessa que sua irmã te abandonou em Summers Glade, 
de modo que, em essência, quem está te fazendo um favor sou eu... 
    ‐O  favor  de  permitir  que  viaje  no  calor  de  sua  bonita  carruagem?  ‐
interrompeu‐a ele arqueando uma sobrancelha. 
    Ophelia sentiu que ruborizava. Que demônios...? Ela jamais ficava vermelha. 
A  cor  rosa  parecia  uma  erupção  de  manchas  em  suas  bochechas  de  marfim.  Não 
ficava bem absolutamente. 
    Havia  deixado‐a  desconcertada,  Raphael,  ao  menos,  não  esperava  uma 
resposta e prosseguiu: 
    ‐Por que não convimos em tolerar mutuamente nossa companhia enquanto 
dure a viagem e logo nos esquecer do tema? 
    ‐Bem ‐ respondeu ela‐. Dado que a viagem não durará muito, suponho que 
poderei suportá‐lo. 
    Nesse momento uma dama mais velha saiu do salão e se reuniu  com eles, 
seguida  por  sua  donzela,  ambas  vestidas  para  a  viagem.  Ophelia  supôs  que  se 
tratava da tia de Raphael. Envolta não só em um casaco, mas também em uma capa 
pesada  e  com  grossos  lenços  de  lã  na  cabeça,  era  difícil  distinguir  seu  rosto  de 
querubim sob tanta roupa. 
  ‐A  senhora  deve  ser  lady  Esmeralda  ‐  disse  Ophelia  com  um  sorriso  e 
estendeu a mão para saudá‐la‐. Sou Ophelia Reid. É um prazer conhecer... 
    ‐Fale mais alto, moça ‐ respondeu Esmeralda com irritação‐. Estou e surda. 
    ‐Disse que é...! 
    ‐Não precisa gritar ‐ interrompeu‐a Esmeralda‐. Ainda não estou tão surda. 
    Ophelia sorriu. 
    ‐Ajudo‐a até a carruagem? 
    ‐Meus pés funcionam muito bem, jovenzinha. 
    Ophelia não se sentiu ofendida pelas ariscas respostas da dama. Parecia se 
divertir. 
    ‐Muito  bem.  Minha  donzela  saiu  mais  cedo  para  acender  o  braseiro.  Se 
sentirá cômoda e quente. 
    ‐Excelente.  Agradeço  ‐  disse  Esmeralda,  e  acrescentou  dirigindo‐se  ao 
mordomo  que  esperava  de  pé  ‐:  Cuide  do  forte,  William.  Pressinto  que  não 
demorarei para voltar. 
    ‐É obvio milady ‐ respondeu o mordomo enquanto Esmeralda saía da casa. 
    Ophelia fixou‐se na careta que fez Raphael ante os comentários de sua tia. 
Se  não  o  detestasse,  teria  lhe  assegurado  que  os  ataques  nessa  idade  deixavam 
algumas desagradáveis. Ao parecer, entretanto, estava equivocada com respeito à 
causa de seu desconforto, porque lhe impediu que seguisse Esmeralda agarrando‐a 
pelo braço com firmeza. Aquele não era o homem de ar gracioso, inclusive em seus 
momentos mais sarcásticos. Aquele era o Locke sério, o demônio que já tinha visto 
em duas ocasiões anteriores, quando a ira tinha eliminado todo  traço de cortesia 
de suas maneiras. 
    ‐Que  diabos  significa  isto?  ‐exigiu  saber  e  acrescentou  sem  tomar  fôlego‐: 
Nem  pense  que  poderá  utilizar  minha  tia  para  suas  maquinações.  Não  penso 
tolerá‐lo. 
    Ophelia piscou, mas logo compreendeu. Realmente, Raphael pensava o pior 
dela. A amabilidade com que tinha tratado sua tia deve ter o escandalizá‐lo, pensou 
com ironia. 
    ‐Que ideia tão divertida. Odeio ter que te corrigir, lorde Locke, de verdade 
que sim, mas a verdade é que gosto das pessoas mais velhas. São os únicos que não 
tentam competir comigo ou aproveitar‐se de algum jeito de nossa relação. Sua tia e 
eu  nos  daremos  muito  bem,  asseguro‐lhe.  Não  se  preocupe,  não  soltarei  minha 
língua viperina contra ela. Você, em troca... 
    ‐Entendi,  não  é  necessário  me  dar  mais  explicações  ‐  interrompeu  ele  em 
tom  muito  mais  suave‐.  Suba  à  carruagem.  Quanto  antes  terminarmos  com  isto, 
melhor para mim. 
    ‐Que estranho, estamos completamente de acordo ‐ respondeu ela enquanto 
se dirigia à porta. 
Capítulo 7
  
    Ophelia tinha o incomodo costume de ter que dizer sempre a última palavra. 
É obvio, ele também, por isso lhe desagradava tanto o hábito dela. 
    Raphael  começava  a  ter  suas  reservas.  Certamente  tinha  muitas,  mas,  que 
diabos, ver como a jovem tratava sua tia tinha sido uma grande surpresa. Quando 
Ophelia  se  comportava  bem  desmentia  tudo  o  que  sabia  dela.  E  sua  tia  também 
tinha notado e até aludiu ao tema quando disse a William que estava convencida de 
que não demoraria em voltar. 
    A  explicação  de  Ophelia  parecia  razoável,  muito  razoável.  Tinha‐lhe 
despertado  dúvidas  que  não  deveria  ter  sabendo  que  era  uma  grande 
maquinadora.  Simplesmente,  não  a  conhecia  muito  bem  para  saber  quando  era 
sincera  e  quando  mentia.  Pensando  bem,  tinha  que  ser  uma  embusteira  muito 
perita  ou  não  teria  podido  evitar  o  castigo  da  metade  das  transgressões  que  lhe 
atribuíam. 
    Na  noite  passada  tinha  enviado  uma  carta  a  Sabrina,  com  a  permissão  de 
sua tia de enviar a um de seus empregados com a missiva e receber a resposta pelo 
mesmo  meio.  Sabrina  conhecia  Ophelia  muito  melhor  que  ele,  já  que  foi  sua 
hospede na residência dos Reid quando foi a Londres para sua própria estréia em 
sociedade. Alguém tinha mencionado que a tia de Sabrina e a mãe de Ophelia eram 
amigas de infância. Em qualquer caso, Sabrina devia ter uma lista muito mais longa 
das  maldades  de  Ophelia  e  ele  queria  conhecer  todas  antes  de  iniciar  sua 
campanha  de  reconversão.  Esperava  que  a  resposta  de  Sabrina  não  demorasse 
muito a chegar. 
    Passaram  outro  longo  dia  no  caminho,  atravessaram  Durham  e  entraram 
em Northumberland, para a mansão de retiro de seu avô. A época do ano era ruim 
para viajar tão ao norte. De fato, a época do ano era ruim para que se dedicasse a 
conduzir carruagens. 
    Tinha  pedido  a  Esmeralda  que  preparasse  uma  cesta  de  comida  para  as 
damas,  assim  não  teriam  que  parar  para  o  almoço.  Também  lhe  tinha  dado  algo 
para  comer,  embora  lhe  parecesse  difícil  fazê‐lo  com  as  luvas.  Talvez  deveria  ter 
parado na última hospedaria a qual tinham passado no meio da amanhã, embora 
só  fosse  para  se  aquecer  um  pouco.  Quanto  mais  avançavam  para  o  norte,  mais 
neve encontrava no caminho e mais gelado era o vento. 
    Não  havia  mais  estalagens.  Sabia  que  não  havia.  Nest  se  encontrava 
realmente em  uma  parte  isolada  das  Terras Altas,  muito  longe  de qualquer  lugar 
habitado.  Finalmente  chegaram  à  última  hora  da  tarde  e  a  fumaça  que  saía  ao 
menos de uma lareira lhe assegurava de que o guarda estava em casa e que logo 
disporia  de  um  bom  fogo  para  esquentar  seus  ossos  rígidos.  Antes  de  alcançar  o 
calor, entretanto, teria que enfrentar‐se à indignação de Ophelia que, pela primeira 
vez, seria justificada. 
    Preparou‐se  para  uma  confrontação  desagradável  e  abriu  a  porta  da 
carruagem. 
    ‐Será melhor que entrem correndo na casa, senhoras ‐ acautelou‐lhes‐. Aqui 
fora faz muito frio. 
    ‐Fazia  muito  calor  na  carruagem  ‐  queixou‐se  Ophelia‐.  Deu‐me  sono  e 
dormi apesar de não estar cansada absolutamente. 
    Ophelia foi primeira a descer da carruagem, com a ajuda de Raphael. Não se 
afastou a toda pressa, como ele desejou. Olhou a grande mansão que tinha diante e 
perguntou em tom de exigência: 
    ‐E onde estamos agora? Na casa de outra tia? 
    ‐Não, esta é de minha propriedade. 
    ‐Mas por que paramos aqui? Sem dúvida, estamos já tão perto  de Londres 
que poderá nos conduzir até ali antes da noite. 
    ‐Estamos muito longe de Londres, querida. Bem‐vinda a Alder's Nest. 
    Enquanto Ophelia assimilava as palavras de Raphael com o cenho franzido 
em  sinal  de  confusão,  sua  desaprovação  se  intensificou  ao  olhar  mais  à  frente  da 
carruagem,  aos  desertos  mouros  que  se  estendiam  até  onde  alcançava  os  olhos. 
Quando Raphael esteve ali na primavera a paisagem era magnífica, com os brejos 
cheios de flores. Nesse momento, o cenário era desolador. 
    ‐Espero  que  tenha  empregados  aqui  ‐  disse  Esmeralda  enquanto  ele  a 
ajudava a descer da carruagem e, ato seguido, advertiu‐lhe‐: Eu não cozinho. 
    ‐Fique tranquila, tia Esme. Há um empregado que cuida da casa há muitos 
anos e que, anteriormente, foi empregado de meu pai. Sua mulher faz às vezes de 
governanta  e  de  cozinheira  quando  estou  aqui.  Acredito  que  também  tem  filhas. 
Estou seguro de que disporemos de um bom serviço esta noite ou amanhã, a mais 
demorar. 
    Esmeralda  assentiu  e  se  aproximou  apressada  da  porta  que  Bartholomew 
Grimshod,  o  empregado  de  meia  idade,  sustentava  aberta.  Seguiu‐a  sua  bonita  e 
jovem donzela, que lançou a Raphael um olhar de admiração ao passar diante dele. 
Raphael  apenas  percebeu,  estava  muito  ocupado  olhando  para  Ophelia  nesse 
momento. 
    A beleza londrina se mantinha firme, embora parecesse muito incrédula. 
    ‐Por  que  tenho  a  impressão  de  que  nossa  estadia  aqui  será  longa?  ‐quis 
saber. 
    ‐Porque será. 
  ‐É um canalha. Exijo que me leve a Londres, como disse que faria. 
  ‐Pode exigir tudo o que quiser. Eu fico aqui. E jamais disse que conduzia a 
Londres, só que íamos à mesma direção, coisa que é verdade. E a direção era esta. 
    Raphael ajudou Sadie a descer da carruagem. A donzela esfregava os olhos 
sonolentos  e  lhes  lançava  olhares  confusos,  tendo  ouvido  parte  do  que  diziam. 
Ophelia a agarrou pelo braço. 
    ‐Não entre na casa. Vamos. 
    Raphael  passou  por  cima  do  anúncio  de  Ophelia  e  se  afastou.  Certamente 
não  estava  acostumada  a  que  os  homens  lhe  dessem  as  costas  e  ele  ouviu  como 
continha  o  fôlego,  indignada.  Mesmo  assim,  não  pensava  ficar  na  fria  intempérie 
para responder suas perguntas. 
    ‐Lorde  Locke  –  chamou  a  jovem  e  acrescentou  com  um  tom  mais  alto‐: 
Raphael! ‐E ainda mais forte‐: Maldição Rafe, pare imediatamente! 
    Raphael  não  parou  embora  sim  se  entretivesse  na  porta  o  suficiente  para 
saudar Bartholomew e lhe dizer: 
    ‐Deixe  as  bagagens aqui  fora e  se  ocupe  dos  cavalos.  De  momento  leve  os 
animais a sua casa. Ajudarei a subir os baús quando me aquecer um pouco. 
    ‐Certamente, milorde ‐ disse o homem‐. Quanto tempo pensam ficar? 
    ‐Para ser sincero, não tenho a menor ideia embora necessite do pessoal de 
serviço  enquanto  estejamos  aqui.  Olhe  o  que  pode  fazer  a  respeito.  Ah,  e  a  dama 
que faz tanto ruído ali atrás... é uma situação complicada mas a ignore... 
    ‐Eu ouvi ‐ espetou Ophelia ao chegar junto a ele‐. E não penso tolerá‐lo! 
  O  empregado  se  afastou  apressado  para  cumprir  as  ordens.  Ophelia  se 
voltou em seguida e ordenou a sua donzela: 
  ‐Que não desenganche os cavalos. 
    A própria donzela parecia já indignada e, com um  brusco assentimento da 
cabeça,  partiu  atrás  de  Bartholomew  com  um  olhar  de  determinação  nos  olhos. 
Raphael sabia que de nada lhe serviria, mas não iria ficar no frio e esperar a que a 
mulher o descobrisse. 
    Com  um  suspiro,  estendeu  o  braço  e  indicou  a  Ophelia  que  o  seguisse  ao 
interior da casa. 
    ‐Se  ficar  calma  lhe  explicarei  tudo,  Ophelia,  prometo,  assim  que  tenhamos 
um momento a sós. Não permitirei que incomode a minha tia com a cena que fará, 
sem  dúvida.  Tenha  um  pouco  de  paciência,  rogo‐lhe,  porque  primeiro  quero  me 
aquecer. Enquanto você fez a viagem comodamente no calor eu, certamente, não. 
    Entrou no salão, onde estava convencido de que encontraria sua tia. Deteve‐
o um assobio de Ophelia: 
    ‐Não se atreva a me dar as costas de novo! 
    Ele se voltou para olhá‐la. 
    ‐ Mencionei a palavra "paciência”? ‐perguntou secamente‐. Juraria que sim. 
    ‐O  que  te  faz  pensar  que  a  tenho?  Pois  não  é  assim.  Nenhuma 
absolutamente. 
    ‐Pois suponho que este é outro tema que devemos tratar, podemos começar 
agora mesmo. Preste atenção, Ophelia. Entrará no salão, se sentará e permanecerá 
calada até que abram a casa e todo mundo esteja instalado. 
    ‐E se não o fizer? 
    ‐Então, talvez me cale sobre as razões pelas quais está aqui. Pensando bem, 
as explicações não são necessárias... 
    ‐Isto  é  ridículo  ‐  interrompeu  Ophelia‐.  Pode  ficar  com  suas  malditas 
explicações. Eu vou para casa! 
    Deu  a  volta  para  partir  e  quase  colidiu  com  sua  donzela,  que  retornava 
murmurando: 
    ‐O guarda me ignorou. Só obedece as ordens de seu senhor. 
    Raphael ouviu o grunhido gutural que emitiu Ophelia ao receber a notícia. 
Sorriu sardonicamente. 
    ‐Qual  das  duas  conduziria  a  carruagem  se  meu  homem  desobedecesse 
minhas ordens? 
    Ophelia voltou rapidamente e o transpassou com o olhar. 
    ‐Você... 
    Ele se encolheu de ombros e acrescentou: 
  ‐Se deseja uma explicação, e há uma perfeitamente válida, sugiro que faça o 
que te disse por que, realmente, não tenho por que explicar nada para conseguir o 
que  me  propus.  Certamente,  isso  te  deixaria  na  ignorância,  cega,  embora  esteja 
seguro de que sairia adiante. 
    ‐Não pode falar sério! ‐exclamou ela. 
  ‐A  paciência  é  uma  virtude.  Já  que  não  possui...,  nem  paciência  nem 
nenhuma outra. Deixaremos que esta seja sua primeira lição. Pratique querida, já 
pode começar. 
Capítulo 8
  
    Ophelia  continuava  soltando  faíscas.  O  visconde  tinha  perdido  o  juízo!  Por 
que não tinha comunicado ninguém anteriormente? 
    Atravessou  com  o  olhar  as  costas  de  Raphael,  que  se  encontrava  de  pé 
diante da lareira, esquentando as mãos. Mostrava‐se tão indiferente a sua presença 
como se ela não estivesse no recinto. Parecia‐lhe que já levava uma hora sentada 
ali no salão, praticando a paciência e sem dirigir uma só palavra a ninguém. 
    Esmeralda  tinha  sido  conduzida  a  seu  quarto,  no  andar  superior  da  casa, 
assim que se aqueceu. Antes de subir não fez mais que um leve comentário sobre o 
silêncio enfurecido de Ophelia. 
    ‐Não  fique  de  cara  feia,  moça,  não  fica  bem  em  você.  Se  jogar  bem  suas 
cartas, sairá vencedora nisto. 
    O  que  queria  dizer?  Não  perguntou,  porque  Raphael  estava  no  salão. 
Averiguaria  mais  tarde,  quando  pudesse  falar  a  sós  com  a  mulher  que, 
evidentemente, estava a par do que acontecia. Aprovava a tia de Raphael a conduta 
de seu sobrinho? Isso parecia, embora Ophelia esperasse que não. Conviria ter do 
seu  lado  alguém  além  de  Sadie.  Até  que  Raphael  lhe  desse  a  explicação  que 
prometida, entretanto, guardaria silêncio embora a frustração a enfurecesse. 
    Às  duas  donzelas  foram  conduzidas  aos  quartos  dos  empregados.  Sadie 
voltou para lhe anunciar que seu quarto estava preparado, mas Ophelia se limitou 
a  despedi‐la  com  um  gesto.  Não  iria  a  nenhuma  parte  até  que  Raphael  se 
explicasse, e esse maldito demônio a faria esperar, deliberadamente, sem dúvida, 
muito mais do necessário. 
    Estava  sobre  brasas,  bufando  de  cólera.  Nunca  antes  se  zangou  tanto. 
Tramava planos para lhe fazer pagar o ultraje. E tentava averiguar por si mesma, 
sem ter que lhe perguntar a ele, o que estava fazendo ali. Nem  sequer sabia onde 
estavam! 
    Essa  manhã,  enquanto  olhava  pela  janela  da  carruagem,  perguntou‐se 
vagamente por que atravessavam uma paisagem tão desolada. Não havia mais que 
casas  dispersas  de  tanto  em  tanto,  nem  sequer  umas  poucas,  mas,  antes  de 
adormecer,  tinha  suposto  que,  simplesmente,  Raphael  conhecia  caminhos 
secundários que evitavam o tráfico pesado da entrada a Londres. Mas, a julgar pelo 
que tinha visto no exterior, quer dizer, um horizonte vazio, esta casa era a única em 
muitas milhas pela redondeza e não conseguia adivinhar onde se encontrava. 
    Descobriria  onde  estavam  e  o  que  acreditava  que  fazia  esse  homem 
levando‐a  ali  em  lugar  da  sua  casa.  Estava  tão  convencido  de  sua  grande 
importância que pensava que podia... o que? Qual era sua motivação? 
    O  único  motivo  que  lhe  ocorria  era  o  mesmo  que  estava  acostumada  a 
confrontar, que a desejava por sua beleza, como todos outros homens, e que, dado 
o prestígio de sua família, encontrava‐se em posição de sequestrá‐la convencido de 
não  ter  que  sofrer  consequências.  Para  colocá‐la  em  uma  situação 
comprometedora? Para convencê‐la de que a queria, coisa que era impossível? 
    ‐Aprendemos a paciência hoje? ‐perguntou Raphael. 
    O gélido olhar azul de Ophelia se dirigiu de novo às costas de Raphael. Tinha 
usado um tom de grande superioridade. Sabia que tinha de ganhar. E nem sequer 
se virou para dizer‐lhe no rosto! 
    Rigidamente,  expressando  cada  matiz  da  fúria  que  a  possuía,  Ophelia 
grunhiu: 
    ‐Não..., em..., absoluto! 
    ‐Pois, muito mal. ‐ Raphael foi a rumo à porta. 
    Incrédula, ela o observou por um momento. Realmente iria partir! 
    Ficou em pé de um salto, com a intenção de interpor‐se entre ele e a porta. 
Mas,  quando  há  um  momento  levaram  uma  bandeja  de  comida,  tinham 
aproximado a mesinha do sofá onde estava sentada. Não tinha comido, mas agora 
seus joelhos se chocaram com a mesinha e fizeram cair no chão uma xícara e um 
pires de chá, sobressaltando‐a. 
  Raphael parou. 
    ‐Está bem? ‐perguntou em tom de autêntica preocupação. 
  ‐Sim..., não, não estou. 
  Referia‐se a sua ira, não ao pequeno golpe nos joelhos, mas ele respondeu 
com um suspiro: 
  ‐Sente‐se. Suponho que poderemos praticar a paciência outro dia. 
  Ela  não  ia  corrigir  essa  interpretação  equivocada  de  sua  resposta,  não 
quando parecia que Raphael mudava de opinião sobre lhe negar uma explicação do 
que faziam nesse lugar. Ele se sentou no mesmo sofá que ocupava Ophelia, embora 
no  outro  extremo.  Não  obstante,  voltou‐se  para  olhá‐la  quando  ela  se  sentou  de 
novo. 
    ‐ Me dirá agora por que estou aqui em vez de Londres?            
    ‐Certamente. Você e eu vamos... 
    ‐Sabia! ‐ disse ela incisivamente‐. Pensa me comprometer para me obrigar a 
casar contigo. Pois, não o vou fazer...! 
    Interrompeu  sua  fala  quando  ele  começou  a  rir.  Parecia  realmente 
divertido.  Se  não  estivesse  tão  zangada,  se  envergonharia  de  estar  tão 
inquestionavelmente equivocada. Ele não demorou em confirmar. 
    ‐Santo Deus! De onde tirou esta espantosa ideia? 
    Já menos acalorada, Ophelia perguntou: 
    ‐Que outra razão pode ter para me trazer aqui? 
  ‐Iria  lhe  explicar  isso  quando  me  interrompeu.  Já  que  mencionou, 
entretanto, me permita que te assegure que a presença de minha  tia garante que 
não  haverá  nenhum  escândalo  como  resultado  de  sua  estadia  aqui.  Não  se  verá 
comprometida absolutamente, dou minha palavra. 
    ‐Até que meu pai saiba desse ultraje ‐ predisse ela. 
    ‐A que ultraje se refere querida? Ao que a família Locke tenha te convidado 
para nos fazer uma visita? Ao que me interessei pessoalmente em sua estréia nesta 
temporada? Seu pai já estará informado, a estas alturas. Enviei‐lhe uma nota antes 
de partir de Summers Glade. 
    ‐Uma visita? Sem pedir. 
    ‐Teria declinado o convite? 
    Não  parecia  esperar  mais  que  uma  resposta.  Ela  se  alegrou  em  lhe  dar 
outra: 
    ‐Sim, a teria declinado. 
    ‐E seu pai? 
    ‐Não, ele teria me tirado da casa a empurrões ‐ respondeu Ophelia, incapaz 
de dissimular a amargura de sua voz. 
    Em seguida desejou ter calado o comentário quando Raphael disse em tom 
de suficiência: 
    ‐O que pensava. 
    Recordou‐lhe carrancuda: 
    ‐É minha permissão o que necessita, no entanto. 
    Isso  não  dissipou  absolutamente  seu  ar  de  suficiência;  inclusive  sorriu  ao 
corrigi‐la: 
  ‐Não,  na  realidade,  como  descobriu  recentemente  como  resultado  de  seu 
primeiro  compromisso  com  meu  amigo  Duncan,  só  é  necessário  a  permissão  de 
seus pais. Terrivelmente injusto, pensará, sem dúvida, mas certo, apesar de tudo. 
  Voltava a mostrar‐se gracioso e sardônico. E ela pensou que esse maldito 
homem adorava insistir no pouco controle que ela tinha sobre sua própria vida. 
    ‐Esta  não  é,  precisamente,  sua  "residência  familiar"  ‐  assinalou‐.  E  onde 
demônios estamos, exatamente? 
    ‐Em Northumberland. 
    ‐Isso está quase na Escócia! 
  ‐Mais  que  a  um  tiro  de  pedra.  O  condado  é  grande.  Embora,  sim  faz 
fronteira com a Escócia. 
    ‐De  modo  que  mentia  na  nota  que  enviou  ao  meu  pai?  ‐disse  Ophelia  em 
tom triunfal‐. Sua família não vive aqui. Quando lhe contar a verdade... 
    ‐Nem sequer ouviu ainda a verdade, Ophelia ‐ interpôs Raphael, mostrando‐
se ao fim um tanto incomodo com ela‐. Embora, para quando voltar a ver seu pai, 
podemos esperar que sua visão das coisas seja mais positiva. 
    ‐Você pode esperar ‐ respondeu ela, fazendo alarde de sua própria altivez. 
    ‐Não ‐ respondeu ele, pensativo‐. Acredito que já formulei bem..., posto que 
não sairá daqui até que tenha um aspecto mais positivo. 
    Ophelia ficou boquiaberta ante as implicações dessas palavras. 
    ‐Não pode me manter prisioneira aqui. 
    ‐E por que não? 
    Sua  resposta  era  tão  diferente  do  que  ela  esperava  que  ficou  de  pé 
bruscamente para lhe gritar: 
    ‐Por que não tem nenhum direito! 
  ‐Suas reações são sempre tão extremas? 
    ‐Está me provocando além dos limites de minha tolerância! 
  Raphael estalou a língua, indiferente a sua raiva. 
    ‐Absolutamente.  E  seguiremos  a  conversa  sem  histerismo,  se  não  se 
importa, de modo que se sente e se comporte, e então provavelmente descobrirá 
que há uma muito boa razão para que esteja aqui. 
    ‐Qual? 
    ‐Sua  própria  felicidade  ‐  disse  ele  simplesmente‐.  Ou  vai  me  dizer  que  já 
tem toda a feliz que se pode esperar? 
    Não era feliz absolutamente, mas esse não era seu maldito assunto. 
    ‐Eu me ocuparei de minha felicidade, muitíssimo obrigada. 
  ‐Como tem feito até agora? Arruinando a vida de outras pessoas? Isso te faz 
feliz? Ou fazer a outros desgraçados? Ah, não, espera, deve ser iniciar rumores que 
não contém nenhum pingo de verdade. Com certeza isso te leva ao êxtase. 
    Ophelia  sentiu  que  um  rubor  aparecia  em  suas  bochechas.  Ficou  na 
defensiva: 
    ‐Não sabe nada disso, somente o que ouviu dos outros. Embora o que tem a 
ver isso com minha felicidade? E por que se preocupa com o tema? É mais: como 
poderia me fazer feliz você, a quem tanto desprezo? 
  ‐De verdade me despreza? 
  Ophelia o olhou incrédula. 
  ‐Não  sabia?  Tinha  dúvidas?  Depois  das  coisas  horríveis  que  me  disse  em 
Summers Glade? 
    Ele encolheu os ombros. 
    ‐Não foi horrível te advertir que não iniciasse um rumor sobre Sabrina e eu. 
    ‐Deu  por  feito  que  faria  correr  um  rumor  quando  não  pensava  fazê‐lo. 
Simplesmente,  pretendia  ajudá‐la  para  que  não  saísse  ferida.  Acreditava  de 
verdade que se deitava com ela devido a toda a atenção que lhe prestava. E, se eu 
cheguei  a  essa  conclusão,  outros,  também.  Mas,  em  lugar  de  me  dizer, 
simplesmente,  que  estava  equivocada,  ameaçou  me  arruinar  se  voltasse  a 
mencioná‐lo! 
    ‐Com  boas  razões,  tendo  em  conta  sua  famosa  predileção  por  iniciar 
rumores. 
    ‐Ainda  não  fechou  o  círculo  de  coisas  que  não  conhece  de  primeira  mão, 
verdade? ‐replicou ela com certa secura‐. Entretanto, ficou claro que você não pode 
contribuir para minha felicidade. De modo que amanhã me levará para casa. 
  Raphael lhe ignorou. 
  ‐Não,  acredito  que  não.  E  nunca  disse  que  te  faria  feliz.  Não  obstante,  te 
ajudarei  a  encontrar  sua  própria  felicidade,  a  estar  em  paz  consigo  mesma,  por 
assim dizer. 
  ‐Já estou em paz! ‐gritou Ophelia. 
    ‐Sim, é evidente, de verdade que sim ‐ respondeu ele e ficou de pé. 
    ‐Aonde vai? ‐exigiu saber ela. 
  ‐A  procurar  meu  jantar  e  a  dormir  bem  toda  a  noite.  Intuo  que  amanhã 
será um dia exaustivo. 
  ‐Não terminou sua explicação! 
  Raphael arqueou uma sobrancelha. 
  ‐Ah, não? Pois, aqui a tem em poucas palavras, querida. Vamos converter‐
te  em  uma  mulher  amável  e  considerada,  cuja  companhia  será  apreciada  pelas 
pessoas. O prazer de estar contigo nada terá a ver com  sua assombrosa beleza, a 
não ser com seu caráter maravilhosamente doce e agradável. Quando conseguir me 
convencer de que conseguimos, te levarei para casa. 
Capítulo 9
  
  O  encontro  com  a  Ophelia  tinha  sido  muito  melhor  do  que  esperava, 
pensou Raphael quando se deitou na cama de carvalho esculpido da suíte principal. 
Obrigar  Ophelia  Reid  a  se  calar  não  resolvia  o  problema,  mas,  certamente,  tinha 
sido  um  prazer.  Quanto  menos,  tinha‐lhe  permitido  escapar  de  sua  companhia 
durante o resto da noite. 
    Ophelia já tinha se deitado. Raphael se assegurou de que assim fosse antes 
de  retirar‐se  também.  Realmente,  ela  poderia  ter  fugido  no  frio  da  noite,  por 
estúpido  que  fosse  isso,  só  para  demonstrar  algo.  Entretanto,  Raphael  não 
conseguia dormir tão bem como desejava. 
    Não devia permitir que a indignação da jovem lhe pusesse tanto à defensiva 
que  não  conseguisse  lhe  tirar  uma  boa  vantagem.  Não  pretendia  manter  em 
segredo  sua  aposta  com  Duncan.  Mas  de  verdade  era  necessário  que  Ophelia 
soubesse que a campanha pela melhoria de seu caráter tinha começado com uma 
aposta?  Não,  não  era.  O  que  já  tinha  lhe  contado  deveria  ser  suficiente  para  que 
trabalhassem juntos. Quando passasse o aborrecimento. Quando reconhecesse que 
seu  comportamento  era  reprovável  por  todos...,  menos  por  ela  mesma,  claro. 
Duncan  tinha  razão.  Evidentemente,  parecia  que  não  tinha  nada  do  que 
envergonhar‐se, que sua conduta era impecável. Embora também pode que jamais 
tivesse tomado a distância necessária para considerar a fundo seus próprios atos e 
como  os  percebiam  outros.  Santo  Deus!  Acaso  lhe  buscava  desculpas?  Essas 
malditas dúvidas voltavam a irromper em seu pensamento. 
    Não  tinha  contado  com  a  grande  dificuldade  de  passar  por  cima  de  sua 
incrível  beleza.  Preferiria  admirá‐la  que  encontrá‐la  antipática.  Preferiria  fazê‐la 
calar  com  um  beijo  que...  De  onde  diabos  tinha  surgido  essa  ideia?  Embora  já 
soubesse.  Teve  que  reunir  toda  sua  força  de  vontade essa  noite  para  que  ela  não 
soubesse o muito que lhe atraía. Não obstante, tratava‐se de um efeito visual, disso 
estava  convencido.  Agora  que  era  consciente  do  que  alimentava  suas  dúvidas 
poderia  tomar  medidas  para...,  sim,  isso  seria  parecido,  pensou  secamente.  Não 
olhá‐la absolutamente. Assim avançariam muito. 
    Deu  a  volta  e  golpeou  o  travesseiro  com  o  punho,  indignado  com  os 
pensamentos que lhe mantinham acordado. 
    ‐Por que faz isto? 
  Raphael não parou em seu caminho para a mesa da sala de jantar nem olhou para 
Ophelia,  que  estava  sentada  sozinha  à  mesa.  Afastou  os  olhos  no  momento  que 
entrar  no  recinto.  Perguntou‐se  quanto  tempo  estava  esperando‐o.  Em  seu  prato 
só estavam uns miolos de torrada. 
  ‐Importa‐se de tomar café da manhã antes de começar? 
  ‐Sim me importaria. 
    ‐Então,  é  um  momento  excelente  para  praticar  a  lição  de  ontem,  não  te 
parece? 
    Ao ouvir a voz de Raphael, Nan entrou na sala de jantar com  uma bandeja 
de pratos diferentes para que escolhesse. Ela e sua mãe, Beth,  tinham chegado na 
noite  passada  a  tempo  para  lhes  servir  um  jantar  frio.  Eram  boas  pessoas  do 
campo, felizes em ajudar. 
    ‐A variedade é escassa, milorde ‐ disse Nan enquanto depositava a bandeja 
diante dele‐. Meu pai foi ao mercado para encher a despensa, mas não acredito que 
volte até tarde da noite ou, inclusive, amanhã. Aqui guardava provisões suficientes 
para uns dias embora nada extraordinário. 
    ‐Não precisa se desculpar ‐ disse‐lhe Raphael com um sorriso‐. Sei que não 
esperavam nossa visita. 
    A  moça  assentiu  e  se  apressou  em  voltar  para  a  cozinha.  Ophelia 
tamborilava com os dedos sobre a mesa. Olhava‐os fixamente. 
    ‐Eu não chamaria a isto paciência ‐ comentou Raphael a sua convidada. 
    ‐Já  te  adverti  que  não  tenho.  É  um  de  meus  defeitos,  não  me  importa 
reconhecê‐lo. Nem um pingo de paciência. 
    Ao menos, o tom de sua voz era moderado..., no momento. 
  ‐Admite que é um defeito. Você não gostaria de se desfazer dele? 
  ‐Claro que eu gostaria, mas não necessito sua ajuda para isso – replicou ela. 
  Raphael  passou  manteiga  em  um  pedaço  de  pão  recém‐assado  e  bem 
torrado. 
    ‐Quantos  anos  têm?  Dezoito?  Dezenove?  E  ainda  não  aprendeu  a  ser 
paciente? Claro que necessita ajuda. Não me importa ser seu professor. 
    ‐Jogar a ser demônio, quer dizer. 
    Olhou‐a com uma risada reprimida. 
    ‐De coisas piores já me chamaram e, sim, com certeza você também formará 
uma  opinião  pior  de  mim  antes  disso  acabar.  Enquanto  isso,  entretanto,  aceitará 
minha ajuda com cortesia. ‐Ophelia soprou. Raphael riu sem disfarces‐. Muito bem, 
pois, sem cortesia. 
  Agora  foi  ela  quem  o  transpassou  com  o  olhar.  Raphael  encolheu  os 
ombros e voltou para sua indiferença ou, pelo menos, tentou. Ao menos, o café da 
manhã lhe oferecia a possibilidade de olhar outra coisa. Maldição, estava radiante 
esta manhã com seu vestido matinal de tule rosa com um cordão lilás, o cabelo com 
o  penteado  desmanchado  e  estirado  que  lhe  gostava,  uns  cachos  sobre  a  testa  e 
vários cachos de cabelo nas têmporas. Perguntou‐se se havia ocasião em que não 
estivesse magnífica. Efetivamente, a ira não diminuía sua beleza. 
    Depois de vários minutos tamborilando os dedos Ophelia perguntou: 
    ‐Onde está sua tia? 
    ‐Suponho que fugindo de sua azeda disposição. 
  ‐É necessário que me insulte com cada palavra que diz? ‐ respondeu ela. 
    ‐É o que faço? Pergunto‐me por que. 
  Viu  o  ligeiro  rubor  que  apareceu  nas  bochechas  da  jovem.  Ficava  muito 
bem. Perguntou‐se por que não usava maquiagem para conseguir esse efeito..., não, 
mais valia que não o fizesse. Essa mulher já era muito formosa. 
    Cedeu o suficiente para responder: 
    ‐Tem  por  costume  não  aparecer  antes  do  meio‐dia.  Está  acordada,  disso 
estou  seguro.  Simplesmente,  gosta  de  passar  às  manhãs  sozinha  em  seu  quarto, 
fazendo  ponto.  E  é  uma  ávida  leitora.  Para  isso  prefere  a  solidão.  Não  tenho 
dúvidas de que um de seus baús está cheio de livros. 
    ‐Não necessitava tanta informação, obrigada. 
    ‐Não  está  habituada  a  conversar,  simplesmente,  sem  ser  o  centro  da 
conversa? 
    Seu  rubor  aumentou  sensivelmente.  Sim!  Por  fim,  algo  que  eliminava  o 
resplendor etéreo que a envolvia, algo que a fazia parecer mais normal. Era esse o 
motivo pelo qual não usava maquiagem: o rubor excessivo aparecia como manchas 
em suas pálidas bochechas. 
    Para afastar o pensamento de seu aspecto, disse: 
    ‐Esperava  atraí‐la  para  seu  lado?  Não  se  incomode.  Está  firmemente  de 
minha parte. 
    Ophelia não negou. 
    ‐É impossível que aprove o que faz. 
  ‐Não tem que aprová‐lo. Sabe que contarei com as bênçãos de seus pais, e 
isso lhe basta. Deveria bastar a ti também. 
  ‐Benções  que  obtive  fraudulentamente,  se  aproveitando  da  avaliação 
ridiculamente grande que tem meu pai pelos títulos que superam o dele. 
    Raphael  advertiu  a  amargura  de  sua  voz  e  não  era  a  primeira  vez  que  a 
percebia quando falava de seu pai. Conforme parecia, seu progenitor não lhe caía 
muito bem. Embora tampouco o conde de Durwich pudesse querê‐la muito, tendo 
tentado lhe impor um matrimônio que, indubitavelmente, ela não desejava. 
    Ophelia  não  esperava  uma  resposta,  embora  permanecesse  calada  uns 
minutos. Inclusive deixou de tamborilar os dedos. Olhava‐o fixamente, entretanto, 
coisa  que  o  fazia  se  sentir  muito  incômodo.  Em  Summers  Glade,  antes  de 
comprometer‐se  de  novo  com  Duncan,  tinha  flertado  descaradamente  com 
Raphael. Em seu momento, quis lhe advertir que em sua família eram os homens 
que  tomavam  a  iniciativa  e  que  não  toleravam  ser  perseguidos  por  mulheres 
ávidas  pelo  matrimônio.  Entretanto,  devia  sentir‐se  um  pouco  atraída  por  ele  ou 
não  teria  se  aproximado.  Embora  aquilo  tivesse  acontecido  antes  da  repulsa, 
quando o tinha enfurecido com as insinuações de que dormia com Sabrina. 
    Tinha‐lhe  falado  com  muita  dureza  e,  depois,  se  comportou  como  um 
antipático.  Tampouco  lhe  caía  bem,  e  sua  antipatia  mútua  faria  esta  campanha 
muito  mais  difícil  para  ambos.  Embora  não  pensasse  tentar  ganhar  de  novo  sua 
aprovação  só  para  facilitar  a  tarefa.  Demônios,  claro  que  não.  Já  lhe  custava 
bastante passar por cima sua beleza sem que ela batesse suas longas pestanas para 
seduzi‐lo. 
    ‐Se  terminou  de  tomar  o  café  da  manhã  ‐  disse  Ophelia  finalmente‐,  eu 
gostaria de obter uma resposta a minha primeira pergunta. 
    Só  tinha  tomado  o  café  da  manhã  pela  metade,  mas  ela  tinha  feito  tantas 
perguntas que ele não tinha respondido, que disse apesar de tudo: 
    ‐Qual foi? 
    ‐Por que faz isto? 
    ‐Ah, isso outra vez. Por uma série de razões. 
  ‐Me dê uma. 
    ‐Parecia  antipática  a  todo  mundo  menos  a  um  cortejo  aparentemente 
interminável de homens, que ainda não descobriu que é uma megera. 
    ‐Não sou uma megera. Embora isto nada tenha a ver contigo, assim me dê 
outra razão. 
  ‐Muito bem, Parecia‐me bastante estranho que alguém tão formosa como 
você fosse tão evidentemente infeliz. Propus‐me emendar essa situação, minha boa 
ação  do  ano,  poderíamos  chamá‐la.  E  devo  manifestar  meu  desacordo  com  sua 
resposta a minha primeira razão. Sinto‐me inclinado a proteger  aos necessitados, 
sempre foi assim, e a ajudá‐los quando está ao meu alcance. Em seu caso, está. 
    ‐Sua disposição a favor dos necessitados é bem conhecida ‐ admitiu ela‐. Eu 
mesma  ouvi  falar  dela.  Mas  não  sou  uma  necessitada!  E  sua  insinuação  de  que  o 
seja... 
    ‐Claro  que  é,  querida  ‐  interrompeu‐a  ele  tranquilamente‐.  Nomeie  a  uma 
só pessoa que se dá bem com você, além de seus pais e desse cortejo de idiotas que 
já mencionamos. 
    ‐Minha  donzela  ‐  replicou  Ophelia  em  tom  triunfante,  contente  de  ter 
encontrado uma resposta. 
  Raphael levantou os olhos para o teto. 
  ‐As donzelas não contam. 
    ‐Vá para o inferno ‐ respondeu ela e abandonou a mesa, surpreendendo‐o. 
  ‐Aonde vai? 
  ‐Voltarei  para  casa  andando  ‐  informou‐lhe  sem  voltar‐se  para  olhá‐lo.  ‐
Raphael  começou  a  rir.  Isso  a  deteve  antes  que  alcançasse  a  porta‐.  Falo  sério  ‐ 
disse  se  virando  bruscamente,  para  o  caso  dele  duvidar‐.  Já  encontrarei  alguém 
para me ajudar a retornar a Londres. 
    ‐Com certeza que sim embora, provavelmente, não será antes de anoitecer. 
E  o  que  fará  então?  Além  de  ficar  gelada  ou  se  perder  sem  remédio,  além  de 
congelar. 
    Ophelia permaneceu imóvel, congestionada de fúria. Raphael teve piedade 
dela e disse: 
  ‐Vamos, sente‐se e te explicarei por que não é uma boa ideia. Coma outra 
torrada  ‐  acrescentou  enquanto  ela  passava  junto  a  ele  para  voltar  para  o  outro 
lado da mesa. 
  Ophelia  ignorou  seu  oferecimento.  Levantou  a  cadeira  que  tinha  deixado 
vazia,  estampou‐a  contra  o  chão  para  mostrar  sua  fúria,  se  por  acaso  ele  não 
percebesse, e, terminada sua atuação, voltou a sentar‐se recatadamente. 
    ‐Estou escutando ‐ grunhiu. 
    O  impulso  de  rir  de  Raphael  era  quase  irreprimível.  Conseguiu  contê‐lo 
embora não sem ter que morder a torrada que ainda sustentava na mão. Seu gesto, 
claro estava, obrigou‐a a esperar a resposta, e já tinha ficado claro que não lhe dava 
bem esperar. Seus histerismos, entretanto, pareciam verdadeiramente divertidos, 
porque  eram  sinceros  e  não  fingidos.  Raphael  intuía  que  estava  acostumada  a 
conseguir o que desejava dessa maneira. Teria que acrescentar "menina malcriada" 
a sua longa lista de defeitos. 
    ‐E bem? ‐espetou ela com um olhar ainda mais gélido. 
    Raphael desceu o olhar para seu prato antes de responder: 
    ‐Acaso me esqueci de mencionar quão afastado está Alder's Nest? Meu avô 
comprou  esta  enorme  extensão  de  terra  aqui  acima,  em  meio  dos  mouros  de 
Northumberland,  precisamente  porque  está  muito  afastada  de  qualquer  lugar 
habitado.  E  ainda  por  cima,  mandou  construir  a  casa  no  centro  mesmo  da 
propriedade. 
  ‐Por quê? ‐inquiriu ela com sincera curiosidade. 
  ‐Excelente  pergunta,  que  também  minha  família  se  fez  em  mais  de  uma 
ocasião.  Meu  avô  pretendia  ter  um  retiro  íntimo  onde  a  família  não  pensaria  em 
visitá‐lo sem pensar duas vezes. Não lhe importava reconhecer. Naquela época sua 
casa estava cheia de meninos muito bagunceiros. 
    ‐Não precisava fazer algo tão grandioso só para encontrar intimidade. 
    ‐Claro  que  não,  mas,  bom,  ao  fim  e  ao  cabo, era  um  duque  ‐  disse Raphael 
com uma piscada‐. Uma residência modesta, simplesmente, não seria apropriada. 
    ‐Aqui mantinha sua amante, não é verdade? ‐perguntou Ophelia com ironia. 
    Menos  mal  que  Raphael  já  tinha  engolido  o  pedaço  da  torrada  ou  teria  se 
engasgado. 
    ‐Santo Deus, não consigo compreender como funciona seu cérebro. Não, ele 
adorava  a  sua  mulher  e  seus  filhos.  Nunca  permanecia  longe  deles  por  muito 
tempo. Simplesmente, precisava ficar completamente sozinho e tranquilo durante 
algumas semanas ao ano. 
    Ophelia encolheu os ombros com indiferença, como se não tivesse insultado 
a ele e a sua família com suas especulações sem fundamento. 
  ‐Só foi uma hipótese. 
  ‐Não, foi uma demonstração de primeira mão de sua célebre malícia. 
    Ophelia conteve o fôlego. 
  ‐Absolutamente! 
    ‐Não  conhecendo  minha  família  e,  certamente,  não  tendo  visto  sequer  a 
meu  avô,  o  que  chama  "hipótese"  é  uma  calúnia  mesquinha  e  maliciosa.  A 
propósito,  quando  um  homem  tem  uma  amante  não  a  instala  em  um  lugar  tão 
inacessível que precise viajar mais de um dia para ir vê‐la. 
    ‐Fala por experiência, suponho. 
    Estava fazendo de novo. Não percebia? Formavam a baixeza e a malignidade 
parte tão substancial dela que não sabia ser de outra maneira? 
    Ophelia adivinhou acertadamente seus pensamentos. 
    ‐Ah,  vamos,  não  espera  que  seja  cortês  contigo,  verdade?  Nem  sequer 
comecei a te insultar. Dê‐me tempo, estou quase esquentado. 
    Raphael  teve  que  morder  o  lábio  para  reprimir  a  gargalhada.  Santo  Deus, 
não tinha contado com sua inteligência. 
    ‐Certamente,  não  espero  que  seja  cortês...,  ainda.  É  o  que  pretendo 
conseguir,  lembra‐se?  Embora,  sim,  falava  por  experiência.  Ao  fim  e  ao  cabo,  sou 
um famoso libertino. Ou não sabia? 
    ‐Sabia. Simplesmente, não acreditava nisso. 
    ‐Por que não? 
    ‐Porque  será  o  próximo  duque  de  Norford  ‐  respondeu  ela  séria‐.  E  isso 
significa  que  deveria  ser  sensato  o  bastante  para  não  assumir  o  título  com 
escândalos pendurados. 
    ‐Ah,  já  entendi.  Considera  escandaloso  que  um  homem  solteiro  tenha  uma 
amante? 
    Ophelia franziu o sobrecenho. 
    ‐Pois, não, suponho que pensava em um homem casado. 
  ‐Não  importa  querida.  Pode  admitir  que,  simplesmente,  não  pensava 
absolutamente. E está acostumada a fazê‐lo sabe? Falar sem pensar. 
    Ali  estava  de  novo  esse  rubor  que  tanto  a  favorecia.  Deveria  esforçar‐se 
mais em exasperá‐la, para fazer aflorar as manchas que a deixava feia. 
    Ophelia vaiou: 
    ‐Se tiver terminado de me arrastar pelo lodo, voltemos para o tema que nos 
ocupava. 
    ‐A razão pela qual não seria uma boa ideia fugir a pé daqui? 
  ‐Pois, isso também. Não espera que acredite que esta casa está tão isolada 
que não poderia encontrar ajuda na vizinhança? 
    Raphael riu baixo. 
  ‐Não há nenhuma vizinhança. Embora possa perguntar aos criados. Dirão 
que  a  casa  de  Bartholomew,  construída  para  o  guarda,  é  a  única  em  cinquenta 
milhas na redondeza e que o mercado mais próximo está muito mais longe. Ou não 
ouviu o que Nan disse quando sobre seu pai não voltar antes da noite porque foi ao 
mercado? 
    ‐Isto é intolerável! 
    ‐Bom,  é  a  razão  pelo  qual  te  trouxe  aqui  em  vez  de  minhas  outras 
propriedades ‐ explicou Raphael‐. Aqui, ao menos, é livre para explorar a casa e o 
terreno. 
    ‐Em lugar de ficar trancada? 
    ‐Exatamente! 
    Ophelia piscou. 
    ‐Não falo sério. 
  ‐Sei,  mas  eu  sim.  Muito  sério.  E  quanto  antes  compreenda  minha 
determinação em te ajudar, antes poderemos ir daqui. 
  ‐E como se propõe me ajudar, exatamente? ‐A voz de Ophelia condensava 
sarcasmo‐. Pensa abrir uma escola de simpatia? E abduzir os alunos? 
    ‐Não seja ridícula. 
  ‐Seu  plano  é  absurdo  do  principio  ao  fim,  mas,  se  não  tiver  uma  sala‐de‐
aula onde me apresentar, que programa devo seguir? 
    ‐Nunca  antes  tinha  tentado  algo tão  desalentador,  por que  não  avançamos 
passo a passo e ver como vai ser 
    Para Ophelia a palavra "desalentador" doeu. 
    ‐Já  que  é  óbvio  que  me  considera  uma  causa  perdida,  por  que  não  admite 
que cometeu um engano e me leva para casa? 
    ‐Se te considerasse uma causa perdida não estaríamos aqui. E te levar para 
casa não é uma opção..., ainda. 
    Ophelia bateu os dentes. 
    ‐Ainda não respondeu de  forma  satisfatória por  que  decidiu  intrometer‐se 
em minha vida. Ocorreu, sequer, que posso estar encantada em ser como sou? Que 
talvez não queira ser de outra maneira? 
    ‐Tolices. Sente‐se desgraçada e, por culpa disso, procura fazer desgraçados 
a todos os que lhe rodeiam. Parece tão condenadamente evidente, Ophelia, que até 
um menino poderia vê‐lo. Ah, Por Deus, nem se atreva a chorar! 
    Ophelia  saiu  correndo  da  sala  de  jantar,  conseguindo  ocultar  as  lágrimas 
que tinham aparecido em seus olhos. Ele não tentou detê‐la. Malditas lágrimas! As 
lágrimas femininas sinceras eram sua perdição e não queria que ela descobrisse e 
usasse  contra  ele.  Não  suspeitava  poder  acertar  tanto  em  sua  interpretação  da 
conduta da jovem. Agora a pergunta era: o que a tinha feito assim? 
Capítulo 10
  
    ‐Vamos, deixa de chorar ‐ disse Sadie em seu severo tom maternal quando 
entrou no quarto de Ophelia‐. Os olhos ficarão vermelhos. 
    Ophelia se incorporou na cama, onde estava chorando. Não estava segura de 
onde  provinham  aquelas  lágrimas,  mas  se  sentia  melhor  depois  de  tê‐las 
derramado. 
    ‐O vermelho fica bem com este vestido ‐ disse para descontrair. 
    ‐O  vermelho  não  fica  bem  em  nenhuma  circunstância.  Não  é  sua  cor, 
querida. E o que provocou seu pranto, posso perguntar? Ontem à  noite estava tão 
zangada que não queria conversar e agora volta a chorar. 
    ‐Não é um homem agradável. Não posso acreditar que o considerasse como 
marido, embora só fosse por pouco tempo. 
    ‐Herdará um grande título ‐ propôs Sadie como desculpa. 
    ‐Como  se  isso  me  importasse.  O  título  só  era  para  meu  pai.  Não  aprovará 
nenhum marido sem um título superior ao dele. 
  ‐Sabe?  Até  eu  ouvi  as  fofocas  quando  ele  voltou  para  Londres,  sobre  os 
corações que partiu com sua viagem, além dos corações das mães! Não foi só pelo 
título e a fortuna, mas sim porque é todo um galã. 
    Ophelia soprou. 
    ‐Não o é quando está comigo. 
    ‐Então deve se sentir atraída pelo rosto bonito do visconde ‐ apontou Sadie‐. 
Não está nada mal. 
    Ophelia gostaria de poder negar, mas não podia. Pelo contrário, enfurecia‐a 
ainda mais que um homem tão bonito fosse um canalha altivo. 
    ‐Teve sorte? 
    Tinha enviado Sadie para averiguar onde estava sua carruagem. Não porque 
alguma das duas pudesse conduzi‐la, mas sim porque os cavalos eram uma opção 
ou,  ao  menos,  tinha  parecido  até  que  descobrisse  quão  longe  as  tinha  levado 
Raphael. 
    ‐A carruagem está no estábulo ‐ respondeu Sadie‐. Mas os cavalos, não. E os 
criados foram advertidos a não falar conosco sobre a possibilidade de partir. 
    ‐Isso não me surpreende ‐ suspirou Ophelia‐. Estamos realmente presas. 
    ‐Já supunha. Embora, por quanto tempo? 
    ‐Até que reconheça que transgrediu todos os limites me trazendo aqui. 
    ‐Ou seja, que não te trouxe aqui para te comprometer. 
    Ophelia sentiu que lhe voltava o aborrecimento. 
    ‐É  o  que  pensava,  mas  não  podia  estar  mais  equivocada.  Nem  sequer  me 
acha simpática! Não tem nenhum sentido que queira me ajudar. 
    ‐Te  ajudar?  ‐Sadie  franziu  o  cenho‐.  Como  se  supõe  que  vai  ajudar  te 
sequestrando? Eu gostaria de saber. 
    ‐Pretende  me  fazer  ver  que  sou  uma  pessoa  malvada  e  horrível  ‐  disse 
Ophelia com sarcasmo‐. E parece que não estará satisfeito até que mude e derrame 
doçura pelo seu chão de mármore. 
    Sadie soltou uma gargalhada. 
    ‐Isso te disse, querida? Que brincadeira tão... 
    ‐Falava sério. 
    ‐Então, lhe mostre quão doce pode ser. 
    ‐Não penso fazê‐lo! ‐teimou Ophelia. 
    ‐Está  muito  agitada  para  fazê‐lo,  entendo,  mas  se  tiver  que  nos  permitir 
voltar para casa... Bom, não importa. De todos os modos, não acredito. Seguro que 
não está secretamente apaixonado por ti e te trouxe aqui para te cortejar e ganhar 
seus favores? Isso me parece muito mais provável. Vocês dois começaram com o pé 
ruim. 
    ‐E,  após,  fomos  costa  abaixo.  Ele  mesmo  reconhece  que  não  lhe  caio  bem, 
Sadie. 
    A donzela não estava convencida e disse: 
    ‐Não é mais que uma estratégia. Um truque muito velho. 
    ‐Que truque? 
    ‐Te fazer acreditar que não pode tê‐lo ‐ respondeu Sadie sabiamente‐. Em 
alguns casos funciona e se deseja a pessoa inalcançável ainda mais. 
    Ophelia soprou. 
    ‐Isso não funcionaria comigo. 
    ‐Mas ele não sabe..., ainda. 
    Ophelia  franziu  o  cenho.  Provavelmente  deveria  considerar  essa 
possibilidade...,  não,  era  uma  noção  estúpida.  Embora  a  explicação  de  Raphael 
fosse  ainda  mais  tola.  Queria  mudá‐la?  Quando  não  sabia  nada  dela  nem  de  suas 
motivações? 
    Balançou a cabeça olhando sua donzela. 
    ‐Eu sei muito bem quando um homem guarda afetos secretos, acredite. Este 
me insulta com cada palavra que lhe sai da boca. Adora me dizer que não gosto de 
ninguém. Chamou‐me malvada e rancorosa. É tão mau como Mavis. Chegou a me 
chamar "megera"! 
    ‐Já sabe que pode sê‐lo, às vezes. 
    ‐E  com  razão!  Estou  farta  de  tanta  hipocrisia,  que  piorou  muito  quando 
começou a temporada ‐ indicou Ophelia‐. Houve tanta que já não posso confiar em 
ninguém, além de ti e minha mãe. Além disso, já sabe que a metade das coisas que 
faço e digo são deliberadas. Às vezes, não posso controlar minha amargura. 
    ‐Sei. ‐Sadie se sentou junto à Ophelia e a rodeou com o braço. 
    ‐Isso dói. 
    ‐Eu  sei  ‐  disse  Sadie  em  tom  consolador  e  acrescentou  antes  que 
começassem a cair novas lágrimas‐: Já te disse que está nevando? É o que vim te 
dizer. 
    ‐De verdade? 
    Normalmente, a Ophelia teria encantado essa notícia. Gostava de muito ver 
cair  à  neve.  Nesse  momento,  entretanto,  estava  muito  chocada  para  desfrutar  de 
um  de  seus  velhos  prazeres.  Embora  olhasse  às  janelas,  as  quatro  cobertas  de 
cortinas  de  cetim  branco,  que  deixavam  passar  a  luz  para  o  quarto.  Desejou  ter 
permitido  que  Sadie  fechasse  as  cortinas  essa  manhã,  em  lugar  de  lhe  dizer  que 
não se incomodasse, já que não havia nada para ver lá fora. 
    A  Ophelia  tinham  atribuído  um  quarto  que  fazia  esquina  e  tinha  muitas 
janelas,  que  davam  ao  campo  deserto.  Era  um  quarto  prático  embora  não 
precisamente  desenhada  para  uma  mulher.  Se  Raphael  era  sincero  quando  disse 
que seu avô só ia à Alder's Nest em busca de solidão, todos os quartos seriam como 
este.  Não  havia  decorações  frívolas,  mas  sim  uma  preciosa  escrivaninha  de 
madeira de cerejeira, com adornos ornamentais nas bordas e ao longo das pernas, 
e uma cadeira de luxuoso veludo com uma boa almofada para sentar‐se a escrever. 
Entre as janelas de uma das paredes havia uma grande poltrona fofa para ler. Uma 
longa  estante  percorria  outra  das  paredes,  junto  a  um  armário  roupeiro  alto  e 
provido de espelho no interior da porta. Os abajures das duas mesinhas a ambos os 
lados  da  cama  de  casal  eram  singelos,  mas  emitiam  uma  boa  quantidade  de  luz 
quando as acendiam pela tarde. 
    Um tapete cobria completamente o chão, seus desenhos tecidos em tons de 
marrom  e  púrpura.  Isso,  combinado  com  a  lareira  com  suporte  de  mármore, 
permitia  mover‐se  descalça  pelo  quarto.  Havia  quadros  em  todas  as  paredes, 
representando  cenas  tão  variadas  como  uns  meninos  que  brincavam  no  campo, 
uma ocupada rua urbana, uma mulher de aspecto um pouco triste e um vaso com 
uma única flor, entre outras. Certamente, alegravam o quarto. 
    Mobiliar  uma  casa  dessas  dimensões  parecia  bastante  extravagante,  e  a 
casa  era  muito  grande  só  para  um  homem  que  desejava  desfrutar  dela  umas 
poucas semanas ao ano. Tinha ouvido dizer que os Locke eram muito ricos. Devia 
ser certo. Não que lhe importasse. Pelo que dizia respeito a ela, o herdeiro forçoso 
podia afogar‐se no dinheiro de sua família. 
    Resistiu tudo o que pôde a olhar ao exterior. Aproximou‐se da janela mais 
próxima, abriu uma das cortinas e olhou a neve que caía. Os flocos eram bastante 
grandes. Quando olhou para baixo viu que o solo estava quase coberto de branco. 
    ‐Que bonito... ‐disse. 
    Sadie se aproximou para desfrutar da mesma vista. 
    ‐Pensei que o diria. 
    ‐Ao menos é o bastante espessa para ocultar o fato de que não há nada para 
ver debaixo dela. 
    ‐A  cozinheira  disse  que  este  lugar  é  precioso  em  determinadas  épocas  do 
ano, quando florescem os brejos. Imagina não ver mais que brejos até onde alcança 
a vista? 
    ‐Suponho  que  tem  que  ser  bonito  ‐  reconheceu  Ophelia,  embora  as  flores 
não lhe interessassem tanto como a neve. 
    ‐Se  continuar  assim,  amanhã  poderia  haver  um  manto  branco  ali  fora  ‐ 
predisse Sadie. 
  Isso sim interessava a Ophelia. 
    ‐Acha que sim? ‐perguntou alvoroçada. 
    ‐Estamos tão ao norte que até poderia durar vários dias. Está nevando tanto 
que  não  estranharia  que  continuasse  por  toda  a  noite.  Tirou  de  sua  bagagem 
algumas roupas quentes? 
    Sadie a conhecia bem. Ophelia adorava caminhar pela neve recém‐caída, se 
era o bastante espessa para que seus rastros não deixassem descoberto o chão. 
    ‐Já pode tirar toda a roupa ‐ respondeu com um suspiro. 
    A  noite  anterior  não  tinha  permitido  que  Sadie  desfizesse  a  bagagem, 
insistindo em que não ficariam ali. 
  ‐Não  acredito  que  possamos  partir...  ao  menos,  não  por  uns  dias  ‐
acrescentou  e  se  voltou  para  o  Sadie  com  os  olhos  muito  abertos,  para  que  a 
donzela pudesse examiná‐los‐: Meus olhos não estão vermelhos, verdade? 
    ‐Pensa voltar para combate? ‐aventurou Sadie. 
    Ophelia  não  negou  que  pensava  procurar  de  novo  Raphael,  agora  que 
voltava a dominar suas emoções. 
    ‐Só me diz se está. 
    A donzela estalou a língua e apontou: 
  ‐Pode vê‐lo você mesma. Ali mesmo há um espelho, que não é seu inimigo. 
    ‐Sadie ‐ disse Ophelia em tom de advertência. 
    ‐Não estão vermelhos absolutamente, por desgraça. Ao senhor não iria mal 
saber que te magoa. Um pouquinho de culpa faz milagres nos homens. 
    ‐Já  sabe  ‐  respondeu  Ophelia  com  voz  contrariada‐.  Mas,  para  sentir‐se 
culpado,  o  homem  tem  que  ter  consciência.  Os  demônios  não  têm,  estou 
convencida disso. 

 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 11
  
    A princípio Ophelia não se fixou na presença de Raphael no salão, embora o 
procurava,  ele  estava  sentado  ali  mesmo  no  sofá.  As  cortinas  da  longa  fileira  das 
janelas que davam à parte dianteira da casa estavam abertas. Ophelia sorriu ao ver 
que continuava nevando copiosamente. 
    ‐Está melhor? ‐perguntou Raphael. 
    Viu‐o  no  sofá.  O  sorriso  se  apagou  de  seu  rosto.  Raphael  deixou  de  lado  o 
livro que tinha estado lendo. Tirou a jaqueta, certamente, porque o fogo crepitava 
na  lareira.  Ali  estava  também  Esmeralda,  sentada  em  outro  sofá.  O  aposento  era 
amplo,  continha  três  sofás  e  várias  poltronas  cômodas.  A  dama  mais  velha  olhou 
por cima da borda de seu livro e saudou a Ophelia com um assentimento de cabeça. 
    ‐Bonita  manhã,  jovem.  Pergunto‐me  se  ainda  é  de  manhã.  Deve  ser  mais 
tarde, porque já estou ficando com fome. Eu nunca tomo o café da manhã. Embora 
isso signifique que não posso esperar muito até o almoço. 
    O sorriso de Ophelia reapareceu em honra à tia de Raphael. 
    ‐Há  muita  agitação  na  cozinha,  não  deve  faltar  muito  para  o  almoço,  lady 
Esme. 
    ‐O que? ‐perguntou Esmeralda, que não a tinha ouvido muito bem‐. Pois vou 
apressá‐los e esperarei na sala de jantar. Acompanha‐me? 
    ‐Dentro  de  um  momento  –  Disse  Ophelia  um  pouco  mais  alto,  procurando 
não gritar‐. Antes queria falar um pouco com seu sobrinho. 
    ‐Por que isto soou como uma ameaça? ‐perguntou Raphael assim que sua tia 
saiu do salão. 
    ‐Brinca  lorde  Locke,  quando  nesta  situação  não  há  nada  remotamente 
divertido. 
    ‐Não brinco absolutamente, já que desde que chegamos não tem feito mais 
que gritar protestos e se queixar. 
    ‐Tenho minhas boas razões. Ou pensava que te agradeceria por me manter 
prisioneira? 
    Ele emitiu um prolongado suspiro de sofrimento, completamente fingido, a 
Ophelia não cabia dúvida disso. 
    ‐Venha se sentar. E me chame Rafe, por favor. Todos meus amigos o fazem. 
‐Ela o olhou severamente, lhe fazendo rir e acrescentar‐: Também meus inimigos. 
De verdade que sim. E eu te chamarei..., Pheli, se não se importar. Um pouco menos 
de formalidade entre nós... 
    ‐Sim me importa. 
    ‐Uma  pena.  Como  dizia  antes  que  me  interrompesse  tão  grosseiramente, 
um pouco menos... 
    ‐De verdade que me importa ‐ voltou a interrompê‐lo Ophelia. Embora lhe 
preocupasse  bem  pouco  havê‐lo  incomodado,  não  pensava  ceder  terreno  neste 
assunto,  de  modo  que  decidiu  explicar‐se‐:  Meus  amigos  usavam  um  apelido 
quando  era  menina.  Enquanto  acreditava  que  eram  meus  amigos  não  me 
importava absolutamente, mas descobri que não eram. Associo os apelidos com as 
mentiras e os enganos, e cada vez que ouço um me lembro das traições. 
    Não  esperava  comovê‐lo  e  fazer  com  que  se  calasse,  mas  ele  não  soube  o 
que  responder  e  seu  olhar  denotava  uma  mescla  de  confusão  e...,  pena?  Mais  lhe 
valia não ter pena dela. Não iria tolerar. 
    Raphael se repôs o suficiente para perguntar: 
    ‐Sua infância foi, realmente, tão..., incomum? 
    ‐Deixe este assunto ‐ acautelou‐o ela‐. Falo sério. 
    Ele encolheu os ombros. 
  ‐Bom  isto  não  conduz  a  nada.  O  nome  "Ophelia"  é  muito  longo  e,  como 
disse,  duas  vezes,  caso  se  lembre,  avançaremos  muito  mais  e  mais  rápido  se 
prescindirmos  das  formalidades.  O  que  te  parece  Phelia?  Não,  já  sei!  Phil.  Um 
pouco varonil, mas... 
    ‐Esta bem! ‐espetou ela‐. Phelia servirá. 
    ‐Parecia‐me isso. ‐Raphael sorriu. 
    Ela  o  olhou  com  olhos  estreitos.  Devolveu‐lhe  um  olhar  de  inocência.  Suas 
táticas  eram  deploráveis,  mas,  ao  menos,  pareciam  óbvias.  Não  pretendia 
realmente ganhar sua cumplicidade, só fazia alarde de sua graciosa afetação. 
    Raphael ficou de pé, já que ela não aceitou sentar‐se e perguntou: 
    ‐Queria falar de algo em concreto, como disse a minha tia? 
    ‐Sim,  mas...  Podemos  sair  do  vestíbulo?  Não  sei  como  pode  tolerar  este 
calor. 
    ‐Porque eu gosto da companhia de minha tia. Ela necessita um pouco mais 
de calor que nós. 
    ‐Sei.  Por  isso  alimentei  o  braseiro  na  carruagem.  Mas,  bom,  não  importa. 
Suponho que acabarei me acostumando. 
    ‐De  modo  que  é  capaz  de  fazer  concessões?  ‐disse  Raphael  com  surpresa 
exagerada‐. Estou impressionado. 
    ‐Não  o  esteja.  Já  te  disse  que  eu  gosto  das  pessoas  mais  velhas.  Mas  me 
escute,  Rafe.  Se  for  sincero,  coisa  da  que  duvido  ainda,  que  saiba,  mas,  se  for 
realmente sincero em querer tratar comigo para um propósito determinado, faria 
bem em deixar de me enfurecer com seus insultos cada vez que conversamos. 
    Ele levou um dedo aos lábios e refletiu brevemente. 
    ‐Não parece estar furiosa ‐ concluiu. 
    ‐Me dê um momento. 
    Raphael riu. 
    ‐Terá  que  deixar  de  ser  tão  engenhosa,  Phelia.  Não  te  conhecem  por  esta 
qualidade. 
    ‐Claro  que  não.  Embora  agora  não  me  encontro  entre  amigos,  onde  tenha 
que cuidar de cada uma de minhas palavras. 
    ‐Estou  de  acordo  em  que  não  somos  amigos  embora  me  pareça  que 
entendeu ao contrário. Quando está entre amigos não precisa tomar precauções. 
    ‐Não, já disse bem. 
    ‐Ah, entendo ‐ aventurou ele‐. "Amigos" não quer dizer amigos verdadeiros. 
  ‐Que perspicaz de sua parte. Agora sou eu quem está impressionada. 
    Ele  riu  de  novo,  desta  vez  mais  alto.  Que  diabos,  não  pretendia  diverti‐lo. 
Ophelia se voltou para olhar pela janela, gesto que lhe recordou o que lhe advertir. 
Tinha vontades de sair um momento à neve e queria se assegurar  de que ele não 
estragaria detendo‐a por temor de que quisesse escapar. 
    ‐Se a neve continuar, amanhã sairei para dar um passeio. É o que queria te 
dizer. 
    Deu  a  volta  para  ver  sua  reação.  Cabia  a  remota  possibilidade  de  que 
tentasse lhe impedir que saísse da casa, por isso lhe comunicava que pensava fazê‐
lo. Ele, entretanto, só parecia curioso. 
    ‐Por  que  quer  fazer  isso?  Supunha  que  a  maioria  das  mulheres  é  como 
minha irmã, que se nega a pisar na rua quando neva. Jura que se derreteria. 
    ‐Não  sairei  se  continuar  nevando  ‐  esclareceu  Ophelia‐.  Esperarei  até  que 
pare.  Simplesmente,  não  queria  que  pensasse  que  pretendia  ir  a  qualquer  parte 
mais que dar um passeio. 
    ‐ Você gosta da neve recém‐caída? Não pensava que alguém pudesse gostar 
tanto como eu. Acontece que também eu pensava sair a dar um passeio. 
    ‐Não, não a pise até que... 
    ‐Você gosta? ‐interrompeu‐a Raphael. 
    Ela sorriu. Não pôde evitá‐lo. 
    ‐Sim ‐ respondeu sem perceber que ruborizava. 

  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 12
  
    Almoçar com Ophelia e sua tia parecia ser surpreendentemente agradável. 
Raphael conseguiu relaxar e por  um momento, não pensar na tarefa monumental 
que se propôs a realizar. E tampouco fez falta que se esforçasse tentando manter 
uma conversa fluída. Durante a maior parte do tempo se viu excluído dela. 
    Claro  que  Ophelia  se  encontrava  em  seu  elemento,  falando  de  Londres. 
Assim que descobriu que Esmeralda só tinha estado na cidade duas vezes em sua 
vida,  uma  para  seu  debute  na  sociedade  e  outra  para  visitar  o  advogado  de  seu 
irmão quando morreu seu marido,  Ophelia se propôs oferecer à dama mais velha 
um percurso verbal de Londres que melhor conhecia. A Bond Street! Santo Deus, 
quando duas mulheres começam a falar de compras, a presença dos homens passa 
despercebida.  Embora  a  jovem  também  descrevesse  os  parques  da  cidade,  os 
eventos sociais da temporada, os teatros, até o palácio, que Ophelia tinha visitado 
quando era menina. 
    Chegados às sobremesas, Raphael percebeu que a conversa não tinha girado 
nem um só momento em torno de Ophelia. Não tinha sido esta uma das alegações 
de  Mavis,  que  a  beleza  não  estava  se  satisfazia  se  não  fosse  o  centro  da  atenção, 
que  sempre  se  assegurava  de  que  tudo  girasse  em  torno  dela?  E,  entretanto, 
Ophelia  não  tinha  falado  de  si  mesma  absolutamente,  unicamente  tinha  se 
esforçado em entreter a sua tia conversando sobre coisas que lhe eram familiares. 
    Até  riu  e  conseguiu  que  sua  tia  explodisse  em  gargalhadas  umas  quantas 
vezes. Uma das histórias que contou tinha a ver com sua mãe. 
    ‐Levou‐me  para  comprar  chapéus  que  combinasse  com  o  novo  guarda‐
roupa que acabou de encomendar para esta temporada. Levávamos amostras das 
malhas e uma das chapelarias tinha uma boa coleção de chapéus já confeccionados 
onde  escolher.  O  dono  estava  seguro  de  ter  no  estoque  exatamente  o  chapéu  de 
veludo  azul  que  necessitava,  e  nos  convidou  a  segui‐lo.  Mas  a  loja  era  velha.  As 
portas não eram muito largas. E minha mãe ficou entalada na porta! 
    ‐Está tirando sarro, moça ‐ disse Esmeralda em tom dúbio‐. Admita! 
    ‐Não, é a verdade. Gosta muito de doces e ao longo dos anos foi satisfazendo 
seu  apetite,  até  o  ponto  de  alcançar  um  tamanho  bastante  amplo.  Embora  nunca 
antes  entalasse  em  uma  porta,  já  que  procura  cruzar  de  lado,  já  sabe,  para  estar 
mais  segura.  Aquele  dia,  entretanto,  estava  distraída  e  não  fazia  mais  que  me 
seguir.  Por  desgraça,  quando  se  encontrou  presa  na  soleira,  pensou  que  poderia 
forçar o passo. 
    ‐Conseguindo entalar‐se por completo? 
    ‐Exato! ‐Ophelia riu baixo‐. O pobre lojista entrou em pânico. Aquela era a 
única saída da loja. 
    Ao ouvir isso, Esmeralda ria a mandíbula batendo. 
   ‐Como puderam solucionar o problema? 
    ‐Pois,  como  não  aparecia  ninguém  que  pudesse  nos  ajudar  o  dono  e  eu 
unimos esforços para empurrar a minha mãe para trás, de onde tinha vindo. 
    ‐E funcionou? 
    ‐Parecia que não ‐ contou Ophelia. 
    ‐O que fizeram? 
  ‐Ao final, minha mãe arrotou. 
  ‐Ai,  meu  Deus  ‐  disse  Esmeralda  enxugando‐as  lágrimas  dos  olhos‐.  Tão 
cheia que estava de ar quente? 
    Ophelia riu de novo. 
    ‐É  que  tínhamos  ido  comer  antes  de  ir  à  chapelaria.  Não  teve  tempo 
suficiente para fazer a digestão! 
    Que experiência tão impressionante, ouvir Ophelia rir! Um brilho aparecia 
em seus olhos e toda sua dureza desaparecia. Com a risada se soltou um cacho de 
seu  cabelo  loiro  claro.  Raphael  tivesse  esperado  que  corresse  ao  espelho  mais 
próximo para recolhê‐lo, mas ela se limitou a apartá‐lo com os dedos e não pareceu 
pensar duas vezes nisso. 
    Estava chocado, embora ela não percebesse, porque quase tinha esquecido 
sua presença na sala de jantar. Ele, não obstante, descobriu que nunca antes a tinha 
visto divertir‐se como se divertia esse dia em sua sala de jantar. Embora, pensando 
bem,  tampouco  antes  teve  a  oportunidade  de  ver  rir  à  rainha  do  gelo  com  tão 
autêntico prazer. Não, depois disto já não poderia chamá‐la assim. 
    As  malditas  dúvidas  surgiram  de  novo.  Tinha  a  impressão  de  ser 
testemunha  de  uma  faceta  de  Ophelia  que  ninguém  mais  conhecia.  O  mesmo  lhe 
tinha  parecido  no  salão,  quando  a  jovem  o  fez  rir.  E  quando  reconheceu  que 
desfrutava  de  um  dos  pequenos  prazeres  da  vida  ,  deixar  rastros  na  neve  recém 
caída,  quase  o  tinha  atirado  de  costas  com  seu  tímido  sorriso.  Por  que  mantinha 
oculta à mulher vivaz e divertida, para que ninguém pudesse apreciá‐la? 
    Menos mal que, na última hora da tarde, chegou o empregado de Esmeralda 
com  uma  carta  de  Sabrina.  A  jovem  já  devia  estar  ocupadíssima  preparando  seu 
casamento com Duncan e, entretanto, incomodou‐se em lhe responder. E essa carta 
eliminava definitivamente as incomodas dúvidas que tinha guardado. 
    Esperou até depois do jantar. Provavelmente, não devia fazê‐lo. Sua atitude 
sombria  obscureceu  o  jantar,  que  parecia  muito  diferente  à  comida  alegre  que 
compartilharam ao meio dia. 
    Esmeralda  subiu  a  seu  quarto  assim  que  pôde,  porque  o  silêncio  a  fazia 
sentir ‐se incômoda. Ophelia quis fazer o mesmo, mas Raphael não pensava deixá‐
la escapar. 
    ‐Acompanha‐me a tomar uma última taça no salão? ‐propôs quando a moça 
se levantou da mesa com a intenção de seguir sua tia fora da sala de jantar. 
    ‐Preferiria não fazê‐lo ‐ respondeu ela‐. Foi um dia longo. 
    ‐Absolutamente. Acompanhe‐me de todos os modos. Já teve tempo para se 
acomodar. Agora chegou o momento de começar a... 
    ‐A que? ‐cortou‐o ela em tom repentinamente defensivo‐. A me dissecar? 
    ‐Prefiro  considerá‐lo  um  exame  de  motivações.  ‐Raphael  estendeu  o  braço 
para a porta‐. Você na frente. 
    Ophelia se adiantou ao caminho do salão, as costas rígidas.  Tomou assento 
com  a  mesma  rigidez  no  primeiro  sofá  que  encontrou.  Raphael  se  aproximou  da 
escrivaninha  de  tampa  corrediça  onde  tinha  guardado  umas  garrafas  de  licor  em 
sua anterior visita. Serviu duas taças de brandy e se sentou no sofá junto à Ophelia 
antes de lhe oferecer uma. Ela a rejeitou com um gesto. 
    ‐Melhor  assim  ‐  disse  ele  encolhendo  os  ombros  e  apurou  uma  das  taças‐. 
Pressinto que o necessitarei mais que você. 
    ‐Humm. 
    ‐Sabe? ‐disse ele pensativo‐, se adotar esta atitude defensiva, não iremos a 
nenhuma parte. Supunha que desejava retornar a Londres o antes possível. 
    ‐E  assim  é.  Embora  esta  charada  seja  tua  ideia,  não  minha,  de  modo  que 
termine já. 
    ‐Muito bem. Tenho uma lista de suas transgressões, Phelia. Não vou colocá‐
las sobre a mesa de uma vez porque nos levaria toda a noite, embora sim vamos 
analisá‐las  uma  por  uma.  Esta  noite  começaremos  com  uma  das  acusações  mais 
importantes contra ti, como vejo eu e a maioria das pessoas, sua propensão a fazer 
correr rumores daninhos. 
    ‐Ah, sim, sou uma grande difamadora ‐ disse ela secamente‐ Já mencionou 
mais  de  uma  vez.  Em  realidade,  entretanto,  só  propaguei  um  único  rumor  em 
minha vida. 
    ‐Três ‐ corrigiu‐a ele. 
    Olhou‐o boquiaberta. 
    ‐Três? A que outros rumores acredita que propaguei? 
    ‐Paciência,  querida.  Lembra‐se?  Esta  noite  trataremos  somente  do  rumor 
que admite ter iniciado que é, imagino sua difamação de Duncan. 
    ‐A quem prejudicou o rumor de que é um bárbaro? ‐exigiu saber Ophelia‐. A 
ele, certamente, não. 
    ‐Não foi graças a ti ‐ disse Raphael. 
  ‐Tolices.  Bastava  as  pessoas  o  conhecerem  para  ver  que  só  eram 
especulações, que de bárbaro não tem nada. 
    ‐Isso te dava o direito de manchar seu nome? 
    ‐Como  fiz  isso?  Chamando‐o  bárbaro?  É  das  Terras  Altas!  Todo  mundo, 
exceto  meu  pai,  suponho  eu,  sabe  que,  as  pessoas  das  terras  altas  são  apenas 
civilizado.  ‐Raphael  a  olhava  fixamente,  mas  não  respondeu.  Passados  alguns 
momentos, ela suspirou‐. Muito bem, só é um mito. É evidente que as pessoas das 
Terras  Altas  podem  ser  bastante  civilizadas.  Admito  que,  se  não  tivesse  tão 
desesperada e sem saber o que fazer, jamais haveria dito isso. 
    ‐Por  que  estava  desesperada?  ‐Ela  balbuciou  algo  em  voz  tão  baixa  que 
Raphael não a pôde ouvir e teve que perguntar‐: O que disse? 
    ‐Digo que temia que se comportasse de verdade como um bárbaro. Não era 
a única que acreditava no mito das Terras Altas, sabe? 
    ‐Assim que sua desculpa é o medo? O medo quase se pode entender. 
    ‐Não. 
  Raphael a olhou incrédulo. Acabava de lhe dar uma razão quase aceitável 
de seu comportamento e agora a negava? 
    ‐Não? 
    ‐Não foi só por medo. Também estava furiosa. Não propaguei o rumor para 
prejudicar Duncan. Fiz por meu pai. Não queria me casar com um homem a quem 
não  tinha  visto  em  minha  vida.  Tinha  medo  de  quem  era,  mas,  além  disso,  nem 
sequer  me  perguntaram  se  queria  me  comprometer  com  ele!  Estava  furiosa  com 
meu pai porque ele não estava em conformidade com as razões. Queria que ouvisse 
os rumores e me tirasse desse miserável noivado. 
    ‐Coisa  que  não  aconteceu.  Imagino  que  em  nenhum  momento  ouviu  o 
rumor? 
    ‐Ah, estou segura de que o ouviu, mas não se importou ‐ respondeu ela em 
voz baixa. 
    ‐Em algum momento te ocorreu falar com Duncan sobre seus sentimentos, 
para que rompesse seu compromisso em lugar de tomar medidas sobre o assunto e 
insultá‐lo? 
    Ophelia riu com amargura. 
    ‐Duncan  também  me  fez  a  mesma  pergunta,  mas  eu  temia  que,  depois  de 
me ver, jamais me desfaria dele. 
    ‐Por sua beleza? Odeio dizer isto, querida, mas alguns homens valorizam a 
bondade e a honestidade mais que um rosto bonito. 
    Ela levantou o olhar para o teto. 
    ‐Já  vejo  por  que  Duncan  e  você  são  bons  amigos.  Pensam  da  mesma 
maneira. 
    ‐Como? 
    ‐Ele  disse  quase  o  mesmo,  só  que  falou  das  qualidades  excelentes  que 
preferem os homens. Mas te direi o que lhe respondi. Recebi centenas de proposta 
de matrimônio, feito que demonstra o que é o que prefere a maioria dos homens. 
Muitas  dessas  propostas  vinham  de  homens  que  apenas  me  conheciam.  Como  os 
chamou? Um cortejo de idiotas? Estou de acordo. 
    Raphael não pôde reprimir um sorriso. 
    ‐Em defesa dos homens em geral, sugiro que a maioria estão apaixonados 
por você e, é obvio, compartilho suas razões. Devido a sua popularidade, sentem‐se 
obrigados a se apressarem para adiantar‐se a seus competidores. Acredito que por 
isso lhe propõem matrimônio antes de ter a oportunidade de te conhecer bem. 
    ‐Ah,  claro,  e  segundo  seu  raciocínio,  depois  de  me  conhecerem  me 
desprezariam,  como  Duncan  e  você.  Embora  Duncan  reconhecesse  que  teria 
tentado  ganhar  meu  favor  se  não  o  tivesse  insultado  quando  nos  conhecemos. 
Estava encantado de ser meu noivo quando me viu. É o único homem que conheço 
que não se apaixonou por mim a primeira vista. 
    Pareceu  surpresa  com  suas  próprias  palavras.  Até  lhe  dirigiu  um  olhar 
pensativo, que fez com que Raphael se sentisse bastante incômodo. 
    ‐Não  terá  que  perder‐se  em  especulações  ‐  advertiu‐lhe  Raphael‐. 
Simplesmente, não tenho intenção de me casar neste século. 
    ‐Nunca, então? 
    ‐Não exagere ‐ respondeu ele com um suspiro‐. Embora não o farei durante, 
ao  menos,  os  próximos  dez  anos.  Meu  pai  se  mostra  muito  compreensivo  nisto, 
provavelmente,  porque  ele  tampouco  se  casou  jovem.  Por  isso  não  me  apressa  a 
entrar no mercado matrimonial ainda. 
    ‐Foi, realmente, por esta razão que você deixou a Inglaterra? Porque todas 
as mães de Londres lhe tinham como alvo para suas filhas? 
    ‐Faz  parecer  pior  do  que  foi,  mas  sim,  perseguiam‐me  muito  para  meu 
gosto.  Não  podia  nem  dar  uma  volta  sem  que  pusessem  a  uma  jovem  casadoira 
diante de mim. Ao final, cansei‐me. E ainda não tinha feito uma grande viagem, de 
modo que decidi que seria um bom momento para escapar. Voltemos, entretanto, 
ao tema que nos ocupava. 
    ‐Certamente  ‐  respondeu  ela  com  aspereza‐.  Eu  adoro  passar  pelo  fogo. 
Voltemos para isso. 
    Raphael franziu o cenho. 
    ‐Não o está levando a sério, Phelia. 
    ‐Ah, não? Provavelmente porque não vejo a razão de insistir no tema depois 
de  reconhecer  que  jamais  teria  iniciado  esse  rumor  se  não  fosse  pela  mistura  de 
medo  e  raiva  que  me  dominava  naquele  momento.  Embora  tenha  que  te  fazer 
outra  confissão.  Meu  defeito  número  dois  é  meu  temperamento.  Não  posso 
remediá‐lo e em algumas ocasiões sou incapaz de controlá‐lo quando se inflama. 
    ‐Isso  não  me  surpreende  querida  ‐  respondeu  ele  secamente‐.  Já  tinha 
percebido, de verdade que sim. 
    ‐Sério?  Então,  fez  o  impossível  para  provocar  meu  mau  gênio 
deliberadamente? 
    ‐Absolutamente. Mas é muito suscetível no que se refere a seus defeitos. 
    ‐Porque os odeio, todos e cada um deles! 
    Dito isto em um impulso de paixão, ambos ficaram olhando‐se por um longo 
momento até que ele perguntou com voz tranquila: 
    ‐Por que, então, resiste com unhas e dentes a meus esforços para te ajudar 
a superá‐los? 
    ‐Acaso me neguei a falar contigo? Mandei‐te ao inferno..., ultimamente? 
    Raphael soltou uma gargalhada. 
    ‐Não, ultimamente não. Está me dizendo que vai cooperar? Quando menos, 
em seu próprio benefício? 
    ‐Não é em meu benefício. É para sair daqui quanto antes. 
    Raphael suspirou. 
    ‐Não é, exatamente, a atitude que desejava, mas é melhor que não cooperar 
absolutamente.  Deixa  que  te  faça  uma  pergunta.  Se  tivesse  que  fazê‐lo  de  novo, 
resolveria de outra maneira a ruptura de seu compromisso com Duncan? 
    ‐Por  que  não  me  pergunta  se  tinha  alternativa?  Porque  não  a  tinha.  Que 
parte de "desesperada" não entendeu? 
    ‐Quer dizer, não se arrepende de nada. 
    ‐Claro que sim. Não atuei impulsionada pelo rancor nem pela malícia, como 
pensa.  Não  pretendia  feri‐lo,  só  me  desfazer  dele!  Até  me  ocorreu  que  ele  sairia 
beneficiado. Seu título, ao menos, teria encantado a meu pai. 
    ‐Mas não a ti. 
    ‐Só  há  uma  coisa  que  desejo  de  um  marido,  e  não,  não  é  um  título.  Este 
critério de busca de genro é de meu pai, não meu. 
    ‐Qual é essa coisa? 
    ‐Acredito que esta informação não te concerne. Não te parece? 
    ‐Não, mas despertou minha curiosidade ‐ admitiu Raphael. 
    ‐Que pena ‐ respondeu Ophelia com um pequeno sorriso afetado. 

 
 
 
Capítulo 13
  
    ‐Mais anáguas? ‐sugeriu Sadie‐. Apareci com o nariz na porta esta manhã e 
lá fora faz mais frio do que pensava. 
    ‐Esteve alguma vez tão ao norte? Eu não, mas, evidentemente, é por isso que 
notamos  que  faz  muito  mais  frio  do  que  estamos  acostumadas.  E  já  uso  três 
anáguas! ‐protestou Ophelia. 
    ‐Encontrou as meias três ‐ quartos de lã que tinha deixado? 
    ‐Sim, deixa já de preocupar‐se. 
    ‐Talvez  deveríamos  ter  trazido  suas  botas  de  montar  ‐  disse  Sadie‐. 
Protegeriam suas panturrilhas melhor que estas botas de cano longo de viagem. 
    Ophelia riu, ao fim. 
    ‐Não cabiam na bagagem. Deixará de preocupar‐se de uma vez? Estou bem 
com este vestido de veludo grosso e o casaco. Só vou dar um pequeno passeio. Se 
sentir muito frio, voltarei para a casa em seguida, prometo‐lhe. 
    Alguns minutos mais tarde descia apressada a escada, o gorro com pele na 
cabeça,  o  casaco  de  cor  azul  clara  abotoado  até  o  pescoço,  o  manguito  de  pele 
pendurando  em  um  cordão  no  pulso,  para  não  perdê‐lo.  Esperava  desfrutar  do 
passeio que tanto desejava antes de encontrar‐se com seu inimigo. 
    A última hora da tarde seria um bom momento para prosseguir com a longa 
lista de transgressões que tinha mencionado Raphael. O da noite anterior já tinha 
resultado bastante doloroso. Não  gostava que lhe recordassem seus pesares. Não 
tinha muitos, mas os que tinha a entristeciam, e detestava sentir‐se triste. Era isso 
o  que  esperava  conseguir  Raphael?  Que  se  sentisse  triste  e  desconsolada  e  voila!  
Se converteria em uma mulher nova? Soprou para si. 
    Embora a primeira incursão em suas supostas maldades não tinha sido tão 
ruim  como  ela  temia.  Tinha  decidido  ser  sincera.  Não  sempre  o  era.  Não  o 
considerava um defeito a não ser uma conveniência, já que a verdade poucas vezes 
a  beneficiava.  As  mentiras,  em  troca,  sempre.  Um  hábito  aprendido  de  suas 
“amigas",  que  nunca  se  mostravam  sinceras  com  ela,  sempre  a  adulavam  e  lhe 
diziam  o  que  acreditavam  que  queria  ouvir.  Além  disso,  se  ela  lhes  dissesse  a 
verdade,  se  sentiriam  tão  ofendidas  que  a  teriam  abandonado  para  sempre,  e  é 
melhor ter amigas falsas que não as ter absolutamente, como tinha descoberto há 
muito tempo. 
    Assombrava‐a,  não  obstante,  sua  decisão  de  ser  sincera  com  Raphael.  Não 
sabia bem  por que, exceto que ele parecia algo mais perspicaz que a maioria das 
pessoas que conhecia e suspeitava que descobrisse as mentiras que lhe contasse. 
Tampouco tinha por que lhe mentir. Tinha seus defeitos. Como todo mundo. Que os 
seus dominassem partes de seu comportamento era algo inevitável. Reconhecia‐os, 
entretanto, e talvez isso fosse suficiente para tirá‐la desse lugar. 
    Assim que saiu e fechou a porta atrás de si descobriu que Sadie tinha razão. 
Embora  não  fosse  o ar  o  que  estivesse  gélido  e  sim  o  leve vento, que  certamente 
não  ressentiria  se  brilhasse  o  sol.  Mas  o  sol  ainda  não  tinha  aparecido  para 
derreter  nada.  Estava  decididamente  oculto  atrás  de  uma  capa  sólida  de  nuvens 
negras, que prediziam mais neve. 
    Olhou carrancuda o caminho espaçoso que conduzia à porta principal e logo 
para  a  direita,  onde  estava  o  estábulo.  Sem  dúvida,  o  guarda  fazia  seu  trabalho. 
Embainhou as mãos no manguito e pôs‐se a andar pela neve que estava sem pisar, 
para o lado esquerdo da casa. Tinha que reconhecer que a vista dali era preciosa. 
    Nesse  lado,  onde  davam  as  janelas  do  salão  e  da  sala  de  jantar,  não  havia 
outros edifícios, só um bosque de árvores nuas, que era muito bonita com os ramos 
cobertos de neve, alguns arbustos e um pequeno pinho, ainda bastante verde, cujos 
ramos se inclinavam até o chão sob o peso da neve. E os rastros de seus pés. 
  Sorriu  enquanto  riscava  largos  círculos  de  pegadas  ao  redor  das  árvores  e  logo 
parou  para  contemplar  as  suaves  colinas  na  distância,  todas  cobertas  de  um 
formoso  manto  branco.  Quase  a  cegavam,  tão  antiga  e  pura  era  a  neve,  tão 
vivificante o ar. 
    Aspirou  profundamente  e  soltou  o  ar  de  repente  quando  sentiu  que  algo 
batia em suas costas. Pensou que fosse um pássaro, embora não tivessem muitos 
nessa época do ano. O pobrezinho poderia estar gelado e incapaz de voar em linha 
reta.  Voltou‐se,  esperando  vê‐lo  no  chão,  junto  a  seus  pés...,  e viu  Raphael,  que  já 
tinha outra bola de neve nas mãos. 
    Olhou‐o boquiaberta. Seu sorriso malicioso era muito eloquente. Como lhe 
ocorria lhe atirar uma bola de neve! Que criancice. 
    ‐Ficou louco? ‐gritou e em seguida chiou quando a seguinte bola passou lhe 
roçando a cabeça. 
    Escondeu‐se atrás de um arbusto, indignada e resolvida a se vingar. Tirou o 
manguito, agarrou um grande punhado de neve e o apertou com firmeza antes de 
incorporar‐se  e  lançá‐lo  contra  ele.  Acertou!  O  branco  golpeou  um  lado  de  seu 
peito  e  salpicou  todo  seu  casaco.  Ophelia  soltou  uma  gargalhada  e  recebeu  outra 
bola de neve na boca. Balbuciou e se agachou de novo. Raphael atirava muito bem, 
embora  ela  já  tivesse  demonstrado  que  tampouco  tinha  má  pontaria  e,  como 
mínimo, estava protegida pelo arbusto. Ele continuava corajosamente de pé lá fora, 
certamente pensando que lhe tinha acertado por acaso. Já lhe ensinaria! 
    Riu de novo ao incorporar‐se para lançar sua segunda bola de neve. Raphael 
estava esperando que aparecesse a cabeça! Seu terceiro projétil lhe tirou o gorro 
de  um  golpe.  Provavelmente  esconder‐se  atrás  de  um  arbusto  não  era  muito  boa 
ideia, já que lhe impedia de ver o que fazia ele. Decidiu que uma tática de guerrilha 
poderia ser mais conveniente. 
    Apareceu  um  pouco  à  cabeça,  esquivou  o  seguinte  projétil  e, 
imediatamente, levantou‐se, lançou o seu e começou a correr. Correu. Escorregou, 
patinou e correu um pouco mais, sem deixar de rir. 
    Sentiu  o  impacto  de  duas  bolas  de  neve  mais  nas  costas  antes  de  ouvi‐lo 
gritar: 
    ‐Covarde! 
    Voltou‐se e lhe lançou um sorriso deslumbrante. 
    ‐Se aproxime..., se atrever‐se! ‐provocou‐o a sua vez. 
    ‐Já que é nesse termo! 
Começou a correr para ela. Ophelia agarrou rapidamente outro punhado de 
neve,  lançou‐o  contra  ele  e  voltou  a  correr,  embora  lhe  desse  tempo  de  ver  o 
salpicar  branco  na  testa  e  as  bochechas  de  Raphael.  Riu  encantada  e  perdeu  um 
momento  para  recolher  outra  bola  de  neve,  mas  chiou  de  novo  ao  descobrir  que 
Raphael tinha diminuído muito a distância entre ambos. Maldição! 
    Fugiu  com  uma  risada,  mas  ele  se  lançou  sobre  ela  e  a  alcançou.  Ambos 
caíram no chão e rolaram pela neve. Ophelia lutou para recuperar o fôlego depois 
de tanto rir. 
    O beijo foi tão inesperado que demorou uns  momentos para perceber que 
eram  os  lábios  dele  os  que  esquentavam  os  seus.  O  choque  deu‐lhe  tempo 
suficiente  para  saborear  o  beijo  plenamente  antes  de  indignar‐se.  Foi  agradável. 
Mais agradável ainda foi o estremecimento que a percorreu com o beijo. Como ter 
mariposas no estômago, nunca antes havia sentido nada parecido. 
    Com  toda  naturalidade,  seus  braços  rodearam  os  ombros  de  Raphael.  Se 
antes tinha frio, agora, certamente, já não, não com o longo corpo de Raphael em 
cima dela. O vapor misturado de seus fôlegos lhe esquentou o rosto e percebeu que 
os lábios dele estavam muito quentes ao roçar sedutoramente os seus. 
      Seus  seios  se  endureceram  com  um  comichão.  Apertou  os  dedos  dos  pés 
dentro  das  botas  de  cano  longo.  O  calor  invadiu  seu  corpo  e  o  sangue  percorreu 
veloz suas extremidades. 
    Isso poderia continuar indefinidamente, se Raphael não tivesse levantado as 
mãos e acariciado seu pescoço com seus dedos gelados. O choque do frio repentino 
fez aflorar sua indignação. Separou‐o de um empurrão, ficou de pé cambaleando e 
tirou a neve que tinha ficado enganchada em seu casaco de veludo. Tinha neve por 
toda  a  roupa,  evidentemente,  embora  isso  fosse  lógico  e  não  era  a  causa  de  seu 
aborrecimento. 
    ‐Sabia que se tratava disto ‐ disse em tom de "te  peguei!"‐. Pode me pedir, 
simplesmente, em matrimônio. Meus pais estariam encantados, não duvido. 
    ‐Mas você não. 
    ‐Não seja ridículo. 
    ‐E  você  poderia  deixar  de  fazer  hipóteses  ainda  mais  ridículas,  quando  o 
único  propósito  que  queria  era  ver  se  seu  sabor  é  tão  azedo  como  seu  caráter  ‐ 
explicou Raphael. 
    Ophelia  o  olhava  fixamente,  estendido  ali,  no  chão,  em  atitude  tão  calma 
como  se  estivesse  estirado  em  um  sofá.  Quis  olhar  severo,  mas,  em  vez  disso, 
levantou uma sobrancelha. 
    ‐E tenho um sabor azedo? 
    ‐Completamente ‐ respondeu ele com uma careta. 
    Santo Deus ele estava brincando com ela! Ninguém se metia com ela nunca. 
Essa  atitude  foi  responsável  pela  solenidade  que  tinha  trabalhado  tão  duro  para 
conseguir. Embora tampouco ninguém lhe tivesse jogado bolas de neve antes. 
    Divertiu‐se muito para deixar que o episódio terminasse tão mal, assim que 
se tomou um momento para refletir em sua resposta e soube que não devia zangar‐
se tanto por um mero beijo que, evidentemente, não significava  nada. Ao fim e ao 
cabo, ele era um libertino confesso e devia estar acostumado a essas coisas. 
    ‐Acertei‐te mais vezes que você a mim ‐ disse com um sorriso, sua forma de 
admitir  que  sua  reação  tinha  sido  exagerada,  uma  desculpa  implícita,  em  certo 
modo. 
    ‐Claro  que  não!  ‐Raphael  riu  e  se  levantou  do  chão‐.  Embora  jogue  muito 
bem. Deve ter praticado muito quando era pequena. 
    Ophelia ficou muito quieta. 
    ‐Não, ninguém nunca queria jogar comigo na neve. 
    A alegria desapareceu das feições de Raphael. 
    ‐Espero que esteja mentindo, Phelia. 
    ‐Claro, claro ‐ disse ela a fim de evitar o assunto. 
    ‐Mas não mente verdade? 
    ‐Adverti‐te que não tocasse neste assunto, assim deixe passar! 
    Afastou‐se dele. Afinal, o episódio tinha terminado mal. 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 14
 
    A  risada  de  Ophelia  ressonava  no  vento.  Raphael  tinha  a  sensação  de  que 
nunca a esqueceria, nem sua experiência nessa manhã. 
    Lançar  a  primeira  bola  de  neve  tinha  sido  um  simples  impulso.  Estava 
terminando  de  tomar  o  café  da  manhã  quando  a  viu  passear  pela  neve  e  decidiu 
sair a reunir‐se com ela. O que veio depois, certamente, não foi premeditado. 
    Apenas a reconhecia hoje. Havia uma diferença assombrosa entre a mulher 
que  lhe  atirava  bolas  de  neve  e  aquela  que  todos  odiavam.  Não  tinha  sido  uma 
atuação. Estava absolutamente convencido de que seu comportamento tinha sido 
totalmente espontâneo. Ophelia não tratava de enganá‐lo lhe fazendo acreditar que 
a tinha "mudado" por milagre. Simplesmente, tinha lhe revelado uma faceta de seu 
caráter que ninguém mais conhecia uma faceta brincalhona que parecia deliciosa. 
    Enquanto  não  se  arrependia  de  seu  primeiro  impulso,  provavelmente,  se 
arrependeria  do  segundo.  Foi  uma  tolice  beijá‐la.  Tinha‐lhe  dado  uma  impressão 
equivocada,  sendo,  simplesmente, uma  reação  natural  por  parte  dele.  Seus  lábios 
estavam pertos, sua risada impregnava o ar e ela era tão condenadamente formosa. 
Não  houve  forma  de  resistir.  Que  queria  averiguar  se  tinha  um  sabor  azedo? 
Mentira! Como mínimo, podia ter ocorrido uma desculpa melhor, e assim teria sido 
se não o tivesse aturdido tanto aquele beijo. 
    Encontrou‐a  sozinha  no  salão,  de  pé  diante  da  janela  que  dava  ao  pátio 
lateral. Tinham removido tudo com sua batalha de neve. Seus rastros estavam por 
toda parte, também a marca profunda de quando escorregaram depois de lançar‐
se sobre a neve... Estaria pensando no muito que se divertiram ou no beijo que se 
deram? De fato, não deixava de ser vaidoso ao imaginar que ela pensava nele. 
    No que pensava quando estava sozinha? Maldição sentia muita curiosidade 
por ela e por coisas que nada tinham a ver com a razão pela qual estavam ali. 
    ‐Pronta  para  passar  pelo  fogo?  ‐perguntou  em  tom  ligeiro  quando  chegou 
ao seu lado. 
    A  presença  de  Raphael  não  a  surpreendeu,  deve  ter  o  ouvido  chegar. 
Tampouco  precisava  perguntar  a  que  se  referia.  A  expressão  "passar  pelo  fogo" 
tinha sido dela. 
    Não obstante, ouviu‐a suspirar e o tom de sua voz era um tanto melancólico 
quando respondeu: 
    ‐Certamente. 
    Culpa! Aflorou e quase o afogou enquanto a observava aproximar‐se do sofá 
com  os  ombros  cansados.  Que  demônios...?  Como  podia  sentir‐se  culpado  por 
querer ajudá‐la? A beneficiária de seus esforços seria ela, não ele..., bom, ganharia a 
aposta com Duncan, mas agora aquilo era insignificante, porque  tinha descoberto 
que, simplesmente, desejava ajudá‐la. Algo a tinha convertido no que era e, talvez, 
Raphael deveria acrescentar a seu programa o dever de averiguar. 
    Sentou‐se no mesmo sofá que Ophelia e notou que a moça se separava dele. 
    ‐Não mordo ‐ disse Raphael com certa indignação. 
    ‐Pois, eu acredito que sim. 
    ‐Diz pelo beijo ou por te fazer passar pelo fogo? 
    ‐Por  ambas  as  coisas.  ‐Ophelia  se  serviu  de  uma  xícara  de  chá  na  bandeja 
que  havia  na  mesinha.  Também  havia  uma  cesta  com  doces,  mas  nem  sequer  a 
olhou. 
    ‐Eu também tomarei uma xícara. 
    ‐Sirva você mesmo ‐ respondeu a jovem. 
    Muito melhor. A Ophelia melancólica era tão perigosa como a que chorava. 
Desarmava‐o. 
    Serviu‐se  uma  xícara de  chá  e,  para  se  assegurar  de  que  não  o  intimidaria 
com novos suspiros, comentou: 
    ‐Deixo os doces para ti. Está muito magra. 
    Ophelia não o tinha olhado ainda, mas agora sim. 
    ‐Não estou! 
    ‐E muito pálida ‐ acrescentou ele para rematar‐. Sua pele não tem cor. 
    ‐Não tem que ter. 
    ‐Supunha que se importava seu aspecto ‐ apontou Raphael. 
    ‐Não conhece nada a meu aspecto. Sou tão bela que dou asco. 
    Caramba. Mais lhe valia retroceder. Tinha‐a ouvido bem? E em um tom tão 
amargo? 
    ‐É obvio ‐ disse Raphael‐. Um asco total. Um asco extraordinário. 
    Ophelia o olhou com os olhos estreitos. 
    ‐Não precisa exagerar. 
    ‐Exagerei? Mil perdões. Falemos, pois, de outro dos rumores que iniciou. 
    Pensava‐se  que  a  pegaria  despreparada  tirando  o  tema  de  forma  tão 
abrupta,  equivocava‐se.  Ophelia  se  recostou  no  sofá  com  expressão  de  simples 
curiosidade. 
    ‐Sim, por favor, adiante, porque não recordo ter iniciado mais rumores. 
    ‐Acredito que você e sua amiga ou, melhor dizendo, você é sua ex‐amiga não 
estariam de acordo. Que rumor disse Mavis que fez correr em torno dela? Que era 
uma embusteira e uma traidora? 
    ‐Não,  foi  ela  quem  me  chamou  traidora.  Eu,  simplesmente,  chamei‐a 
mentirosa  diante  de  Jane  e  Edith,  nossas  amigas  comuns.  Provocou‐me  muitas 
vezes. Perdi os estribos, mas o assunto não foi mais à frente.  Sabia que nem Jane 
nem Edith repetiriam minhas palavras. Mavis lhes parecia simpática. 
    ‐Mas você não. 
    Ophelia afastou o olhar. 
    ‐Sei que ouviu a segunda conversa que tivemos Mavis e eu. Não, Jane e Edith 
nunca foram minhas amigas de verdade. Pretendiam sê‐lo, mas não eram. 
    ‐Isso te incomoda? 
    ‐Absolutamente. Não quero ser apreciada pelas pessoas. Procuro não gostar. 
    Sua  afirmação  parecia  tão  estranha  que  o  deixou  sem  palavras  por  um 
momento.  Certamente,  não  acreditava.  Embora  por  que  dizer  algo  assim?  Como 
desculpa defensiva? 
    Raphael lhe assinalou o evidente: 
    ‐Ninguém procura ser antipático..., deliberadamente. Vai contra a natureza 
humana. 
    Ela se limitou a encolher os ombros e lhe dirigiu de novo o olhar. 
    ‐Se você o diz... 
    Não  ia  defender  sua  causa?  Irritado  com  esta  nova  atitude  de  indiferença, 
Raphael disse: 
    ‐Muito bem. Por que razão lógica queria parecer antipática as suas amigas? 
    ‐Para não ter que perguntar se são sinceras quando sei que não o são. 
    ‐Não confia em ninguém? É o que me está dizendo? 
    ‐Exato. 
    ‐Suponho que isso me inclui. 
    Em realidade, esperava que ela negasse embora sem saber bem por que. 
    ‐Claro que sim. Você também mentiu, como todos. 
    ‐Como um canalha ‐ respondeu ele, indignado‐. Fui completamente... 
    Ophelia o cortou com um suspiro. 
    ‐Disse‐me que conduzia a Londres, não tão explicitamente, mas, certamente, 
é o que deixou a entender. Não foi isso uma mentira? 
    Raphael se ruborizou significativamente, culpado de todos os cargos. 
    ‐Isso  foi  uma  exceção,  só  pretendia  evitar  seu  histerismo  até  que 
chegássemos aqui. 
    ‐Ah,  já  entendi  ‐  disse  Ophelia‐.  O  fato  que  me  impediria  procurar  ajuda 
antes  de  chegar  a  este  lugar  tão  remoto,  onde  não  posso  encontrar  ninguém,  foi 
uma  vantagem  casual?  Embora  seja  uma  exceção  ou  uma  dúzia  delas.  Terminei 
minha alegação por escrito. 
    O rubor de Raphael se intensificou. 
    ‐Minhas  desculpas  por  te  enganar  por  razões  de  simples  conveniência, 
embora não penso me desculpar por querer te ajudar. 
    ‐Tampouco precisa se desculpar por mentir. E, certamente, não por razões 
de conveniência. Eu mesma o faço frequentemente. 
    ‐É este seu defeito número três? ‐perguntou Raphael. 
    ‐Não,  não  sou  uma  embusteira  compulsiva.  Quando  minto,  é  com  toda  a 
intenção. Não posso controlar meus defeitos, a impaciência e o mau gênio, mas sim 
posso controlar minhas mentiras. 
    ‐E isso não te parece um traço negativo? 
    ‐Não seja hipócrita, não me diga que a ti parece. 
    ‐Parecia que sim, embora suponha que aí está a diferença entre você e eu. 
Eu me inclino pela sinceridade, você parece preferir as mentiras. 
    ‐Não as prefiro ‐ replicou Ophelia e admitiu: ‐ Costumava me sentir culpada 
por elas. 
    ‐O que te fez mudar? 
    ‐Que todos os que me rodeiam me mentem. Esta é a razão pela qual Mavis 
era minha única amiga verdadeira. Era a única em cuja sinceridade podia confiar..., 
ao menos, até que feri seus sentimentos. 
    ‐Quer falar sobre isso? ‐perguntou ele com consideração. 
    ‐Não. 
    Não iria dizer nada mais. E agora, depois de ter reconhecido que não tinha 
escrúpulos na hora de mentir, Raphael se perguntou se eram verdade as coisas que 
tinha lhe contado até o momento. A ideia lhe parecia muito incomoda. Se Ophelia 
optava por mentir para conseguir voltar para Londres... 
    ‐Não feri seus sentimentos deliberadamente‐ começou a dizer Ophelia antes 
de explodir: ‐ Meu Deus veja! 
    Ele franziu o cenho. 
    ‐O que tenho que ver? 
    ‐Este é meu terceiro defeito. 
    Deixou‐o totalmente perplexo. 
    ‐Qual? 
    ‐Que não posso manter a boca fechada! É ridículo como reajo ao silêncio! 
    Raphael começou a rir. 
    ‐Considera‐o um defeito? 
    ‐Claro  que  sim  ‐  disse  ela  com  irritação‐.  Como  se  sentiria  você  se  tivesse 
que  contar  uma  bonita  história  e  queria  fazê‐la  durar,  mas,  enfrentado  a  um 
pequeno  silêncio,  fosse  diretamente  ao  ponto?  Estragaria por  completo  o  que,  de 
outra forma, poderia ser uma anedota muita entretida. 
    Agora Raphael ria sem disfarces. 
    ‐Na lista de defeitos, este ocuparia um lugar pequeno, querida. 
    ‐Eu não acredito assim ‐ replicou Ophelia, indignada. 
    ‐Tinha uma história para contar? 
    ‐Não, foi só um exemplo. Também ocorre quando não quero falar de algo. 
    ‐Ah,  já  entendi.  É  bom  saber.  ‐Raphael  sorriu:  ‐  Voltemos  para  tema  de 
Mavis. 
    ‐Não voltaremos. 
    ‐Devo guardar silêncio de novo? 
    Ophelia o transpassou com o olhar. Ele conseguiu controlar um novo acesso 
de risada. Era muito fácil irritar Ophelia, como Amanda, sua irmã. O novo tema que 
queria introduzir, entretanto, convidava à seriedade. 
    ‐Mavis disse que arruinou vidas. Foi uma afirmação exagerada? 
    ‐Absolutamente.  Não  duvido  de  que  muitos  dos  homens  aos  que  rejeitei 
consideram suas vidas arruinadas por minha culpa. Duncan foi o único que pensou 
o  contrário,  que  casar  comigo  seria  um  destino  pior  que  o  inferno.  Eu  pensei  o 
mesmo  quando  seu  avô  descreveu  quão  aborrecido  seria  a  vida  em  Summers 
Glade. 
    Duncan estava disposto a se casar com ela para evitar a ruína de Ophelia se 
Mavis fizesse correr a voz do que tinha visto quando entrou sem avisar no quarto 
de  sua  amiga.  Tratava‐se  de  uma  cena  completamente  inocente,  mas  quem  iria 
acreditar quando começasse a correr o rumor do contrário? Raphael duvidava que 
se mostraria tão nobre, não ao menos se tratando de Ophelia. 
    ‐Não  criou  de  propósito  a  situação  comprometedora  que  viu  Mavis, 
verdade? ‐perguntou. 
    ‐Não,  mas  não  se  equivoque  ‐  advertiu  Ophelia‐.  Naquele  momento  estava 
disposta a me casar com Duncan para acabar de uma vez por todas. Pensei que não 
seria  mal  partido...,  ao  menos,  aos  olhos  de  meu  pai.  E  pensei  equivocadamente 
como  se  demonstrou  depois,  que  também  Duncan  estaria  disposto,  uma  vez 
recuperado  da  ofensa  de  havê‐lo  chamado  "bárbaro".  Se  soubesse  então  que  não 
desejava  se  casar  comigo,  certamente  teria  provocado  uma  situação  embaraçosa 
como aquela. 
    Raphael  se  sentiu  confuso.  Por  que  demônios  o  admitia!  Realmente,  ele  a 
considerava inocente daquele episódio. 
    ‐Então não vê nada mau nisso? ‐inquiriu secamente. 
    ‐Quando  pensava  que,  afinal,  ele  estaria  satisfeito  com  o  enlace?  Não,  não 
vejo nada mau nisso. 
    Raphael balançou a cabeça embora fez certa concessão: 
    ‐Suponho  que  não  se  te  pode  culpar  de  pensar  assim  quando  as  mulheres 
vêm  apanhando  aos  homens  desde  os  primórdios  da  história.  Pessoalmente, 
considero‐a  uma  das  maquinações  da  pior  espécie,  do  ponto  de  vista  masculino, 
claro. 
    ‐É obvio ‐ apontou ela‐. Não esperava que pensasse de outro modo. Mas, já 
que estamos falando disto, também deveria saber que não teria feito nada parecido 
se  soubesse  que  não  existia  a  menor  possibilidade  de  que  Duncan  fosse  feliz 
comigo. 
    Devo  acreditar?  Raphael  imaginava  que  sim,  depois  do  que  já  tinha 
reconhecido. 
‐Deixe‐me lhe fazer uma pergunta‐, continuou Ofélia com um olhar incisivo‐. 
Se  eu  fosse  a  responsável  por  estas  maquinações  da  pior  espécie,  como  você  as 
chama, o que seria diferente do que você faz, me mantendo presa aqui até a minha 
mudança de comportamento... a seu gosto? Você tomou o assunto de uma maneira 
totalmente  arbitrária,  sem  perguntar  se  eu  queria  sua  ajuda  ou  não  queria. 
Responda‐me, Rafe, se você puder. Qual é a diferença?  
   A  expressão  de  Ophelia  era  de  auto‐suficiência,  provavelmente  porque 
pensava que o tinha levado a um ponto de onde não poderia sair. 
    ‐Vejo  as  semelhanças,  mas  está  passando  por  cima  da  situação  em  geral. 
Apanhar de um homem em um matrimônio que nenhum dos dois deseja lhes faria 
infelizes durante o resto de suas vidas. Não há forma de escapar disso sem causar 
um  grave  escândalo.  Realmente  quer  comparar  isso  com  umas  quantas  semanas 
durante  as  quais  ninguém  sai  prejudicado,  ninguém  acaba  desventurado,  e  você 
será capaz de se casar com uma pessoa muito melhor quando terminarmos? 
    ‐Vá para o inferno! 
    Raphael conseguiu reprimir um sorriso. 
    ‐Pode  continuar  tentando  me  enviar  ali,  querida,  embora  este  halo  esteja 
firmemente sujeito a minha cabeça. Não seja má perdedora. 
    ‐Por  que  não?  ‐respondeu  ela  furiosa‐.  O  que  importa  um  defeito  mais  em 
sua  extensa  lista  de  condutas  desprezíveis?  E,  é  obvio,  não  é  nenhum  anjo!  É 
mesmo um demônio e sabe! 
    Ele estalou a língua. 
    ‐Esse mau gênio, Phelia. É uma ocasião excelente para aprender a controlá‐
lo, não te parece? 
    Dedicou‐lhe  um  pequeno  sorriso.  Raphael  não  adivinhava  como  conseguia 
quando seu olhar lhe cravava como uma adaga. 
    O tom de sua voz, entretanto, gotejava sarcasmo quando Ophelia replicou: 
    ‐O  que  disse?  Do  que  estávamos  falando?  Ah,  sim,  das  muitas  vidas  que 
arruinei. Voltemos para isso. ‐levantou‐se como uma flecha do sofá e começou a ir 
e vir pelo recinto, distraindo‐o por completo da conversa. Observava a ondulação 
de sua saia e como se drapejava em torno de sua figura... 
    ‐Quem é? ‐perguntou Ophelia detendo‐se para contemplar o retrato sobre o 
suporte da lareira. 
    Raphael  afastou  com  apatia  os  olhos  das  costas  da  moça  para  seguir  a 
direção de seu olhar. 
    ‐É minha avó Agatha. 
    Ophelia  o  olhou  com  uma  sobrancelha  arqueada  e  perguntou  em  tom 
zombador: 
    ‐A mulher da qual fugia seu avô quando vinha aqui? 
    ‐Não,  a  mulher  a  quem  sempre  voltava  com  desejo.  De  fato,  quando  seus 
filhos ficaram maiores, trazia‐a aqui frequentemente para ficar sozinho com ela. 
    ‐Sinto  muito  ‐  disse  Ophelia,  surpreendendo‐o‐.  Somente  pretendia  me 
aproximar. Suponho que não sou boa. 
    Parecia realmente arrependida e ele quis reconfortá‐la. 
    ‐Este retrato tem uma pequena história. Peguei o artista afogando‐se em um 
rio por onde passava. 
    ‐Nadando, querer dizer. 
    ‐Bom, é o que pensei eu também. Era um dia muito quente. Mas parecia que 
não, tentava afogar‐se, só que não conseguia. Saía uma e outra vez à superfície! Não 
viu  o  tronco  que  flutuava  perto  ele.  Gritei  para  se  acalmar.  Não  me  ouviu.  E  o 
tronco o arrastou sob a água. 
    ‐Mas você o salvou. 
    ‐Para sua grande irritação ‐ respondeu Raphael rindo ‐. Até tentou me bater 
várias vezes depois de cuspir tossindo toda a água que tinha engolido. Em seguida 
começou a chorar suas desgraças e a me explicar por que lhe tinha feito um fraco 
favor salvando‐o. Parecia que estava tão dedicado a sua arte que se negava a fazer 
qualquer outro tipo de trabalho, e morria de fome, porque ninguém comprava suas 
pinturas.  O  muito  tolo  vivia  em  uma  aldeia  pequena  onde  ninguém  podia  se 
permitir comprar sua obra, e nem sequer lhe tinha ocorrido mudar‐se. 
    ‐E você lhe encarregou o retrato de sua avó para ajudá‐lo economicamente? 
    ‐Não,  na  realidade  ele  encontrou  uma  miniatura  de  minha  avó  que  eu 
sempre levava e pintou o retrato para me dar de presente eu me limitei a arrastá‐
los, a ele e a sua arte, até a cidade mais próxima, onde agora tem tanto êxito que se 
vê  obrigado  a  rejeitar  trabalhos.  Porque  é  realmente  muito  bom.  ‐Raphael 
assinalou o quadro‐. Soube no  momento em que vi esta pintura. A miniatura não 
era um retrato fiel de Agatha, mas ele, com seu olho de pintor, soube ver minha avó 
como era de verdade. Segundo meu pai, este retrato é a viva imagem dela quando 
era mais jovem. Eu quis pendurá‐lo em Norford Hall, mas vovó ficava melancólica 
quando o olhava. 
    ‐Por que, se parece tanto? ‐perguntou Ophelia. 
    Raphael encolheu os ombros. 
    ‐A juventude perdida e tudo isso, suponho. Está muito mais velha. 
    ‐Ah... 
    Ophelia  voltou  a  sentar‐se  junto  a  ele  no  sofá,  ao  parecer,  um  pouco  mais 
relaxada. Raphael clareou a garganta para indicar que retomava o tema anterior e 
adivinhou: 
    ‐Vai alegar que não arruinou nenhuma vida, não é verdade? 
    ‐Justamente o contrário. É óbvio que arruinei a vida de Mavis. Devia deixar 
que  se  casasse  com  esse  caipira  que  gostava.  Poderia  ser  muito  feliz  com  um 
marido infiel, certamente, mais feliz do que é agora. 
    ‐Deduzo que contou? 
    ‐Não  houve  necessidade.  Ainda  não  tinha  completado  dezesseis  anos 
quando  ele  me  pediu  em  matrimônio,  muito  antes  de  conhecer  sequer  a  Mavis. 
Converteu‐se em um autêntico chato, sempre tratava de roubar um beijo. Por fim, 
pedi a minha mãe que deixasse de incluí‐lo em sua lista de convidados, coisa que 
fez. Então ele começou a cortejar a minha melhor amiga, sendo assim convidado às 
mesmas festas aonde iam as duas, e admitiu que o fez só para estar perto de mim. 
    ‐Não disse a Mavis? 
    ‐Claro  que  sim,  repetidas  vezes.  Ela  sempre  ria  de  minhas  advertências. 
Estava tão loucamente apaixonada que não queria ouvir uma só palavra contra ele. 
Depois, permiti que me desse um beijo, sabendo que Mavis nos pegaria. Como não 
queria escutar, dei‐lhe a prova que necessitava. 
    ‐Suponho que aquilo pôs fim a sua relação com ela ‐ deduziu Raphael. 
    ‐Assim  foi  por  pouco  tempo.  Mavis  chorou.  Disse‐me  algumas  coisas 
desagradáveis.  Jogou‐me  a  culpa  de  tudo.  Mas  logo  voltou  e  me  disse  que 
compreendia e me perdoava. 
    ‐Obviamente, não o fez. 
    ‐Obviamente não ‐ repetiu Ophelia com voz afogada‐. Nunca voltamos a ser 
como antes. 
    A  tristeza  estava  escrita  em  cada  uma  de  suas  feições,  fazendo  com  que 
Raphael se sentisse como um descarado. Pretendia que ela reconhecesse todas as 
coisas que tinha feito mal, mas, evidentemente, aquela não era uma dessas coisas. 
Tinha tentado ajudar a uma amiga e, como parecia, tinha perdido sua amizade. 
    Nesses  momentos  preferia  enfrentar  sua  ira  e  a  forma  mais  rápida  de 
despertá‐la foi assinalar: 
    ‐Vê? Não foi tão difícil controlar seu mau gênio. 
    Ophelia ficou de pé. 
    ‐Ficando triste com lembranças dolorosas? Se este for o remédio, obrigada, 
mas passo. 
    Saiu da sala com passos decididos. Ele não pensava tentar detê‐la. Acabava 
de  lhe  dar  muito  em  que  pensar,  especialmente,  algumas  desculpas  bastante 
aceitáveis de cada uma das transgressões que ele tinha posto sobre a mesa até esse 
momento. Era obvio, ainda faltava confrontar o pior: seu acordo abominável com 
uma das mulheres mais doces e amáveis que ele tinha conhecido Sabrina Lambert. 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 15
  
    Ophelia subiu até o final da escada e se sentou no último degrau. Não queria 
encontrar‐se  com  Sadie,  que  poderia estar  em  seu  quarto  e  iria  querer  saber por 
que estava tão triste. Não desejava falar com ninguém mais que  com Raphael. De 
fato, esperava que ele a seguisse para desculpar‐se. Oferecia‐lhe a oportunidade de 
fazê‐lo com não afastar‐se muito. Muito ingênuo de sua parte. Ele não a seguiu. 
    ‐Um penny por seus pensamentos, moça. 
    Ophelia  tinha  ouvido  os  passos  que  se  aproximavam  pelo  corredor,  mas 
esperava que fosse uma das criadas. Não houve sorte. 
    Ficou de pé para falar com a tia de Raphael. 
    ‐Não gostaria de conhecê‐los ‐ respondeu. 
    ‐Ou seja, quer doze xelins. 
    Suas palavras arrancaram um sorriso de Ophelia, embora muito breve. 
    ‐Seu  sobrinho  é  intratável,  totalmente  despótico,  odiosamente  obstinado. 
Não atendo a razões. 
    ‐Supunha que te teria conquistado a estas alturas. Dá‐lhe bem encantar as 
damas. 
    Ophelia soprou. 
    ‐Em  outra  vida,  provavelmente.  Parece‐me  tão  encantador  como  um  javali 
furioso.  ‐Esmeralda  riu  baixinho.  A  Ophelia  a  situação  não  parecia  divertida 
absolutamente. Falava totalmente a sério‐. Permita‐me que lhe faça uma pergunta, 
lady  Esme.  Quis  abordar  o  tema  ontem,  mas  Rafe  me  convenceu  de  que  estaria 
perdendo tempo, porque está decididamente do seu lado. Está? Realmente aprova 
que me retenha aqui quando eu desejo retornar a minha casa? 
    ‐Assegurou‐me que seus pais aceitariam encantados sua breve estadia aqui. 
Exagerava? 
    ‐Não,  não  exagerava  ‐  admitiu  Ophelia‐.  Não  me  cabe  dúvida  de  que 
receberam sua nota com entusiasmo. Mas não importa também o que eu penso e 
desejo? 
    Esmeralda a olhou de esguelha. 
    ‐Tem idade para que conte sua opinião neste assunto? Ou se encontra ainda 
sob a tutela de seus pais? Se tiver idade para tomar suas próprias decisões, moça, 
eu mesma te levarei de volta a Londres, se isso é o que quer. 
    Ophelia proferiu um amargo suspiro. 
    ‐Não, não tenho idade. E isto é completamente injusto. Tenho idade para me 
casar,  mas  não  para  decidir  com  quem.  Tenho  idade  para  ter  filhos,  mas  não  a 
sensatez necessária para escolher quem será o pai. 
    ‐Não se surpreenda se não estiver de acordo contigo. Porque já posso dizer 
isto agora, quando todas as decisões que me concernem dependem de mim. Mas te 
compreendo  e  confesso  que  pensava  o  mesmo  quando  era  mais  jovem.  Quando 
conheci o homem com quem queria me casar parecia frustrante não poder fazê‐lo 
sem a permissão de meu pai. Sendo ele escocês, cabia a possibilidade de que meu 
pai dissesse “esqueça­o, busque um bom inglês". Não disse, mas podia fazê‐lo, e eu 
não poderia fazer nada a respeito. 
    ‐Poderia escapar para viver com o homem a quem amava ‐ opinou Ophelia. 
    Esmeralda afogou um risinho. 
    ‐Não sou tão rebelde como você, moça. Não desobedeço às normas nem dou 
língua aos ditados da sociedade. 
    ‐Eu tampouco ‐ protestou Ophelia. 
    ‐Embora você gostaria ‐adivinhou Esmeralda‐. Esta é a diferença. 
    Ophelia não podia negá‐lo. 
    ‐Mesmo assim, isto é..., um ultraje. 
    ‐As  intenções  de  meu  sobrinho  são  boas.  Gosta  de  ajudar  às  pessoas. 
Normalmente,  não  pensa  duas  vezes.  E,  claro,  não  é  a  primeira vez  que  é  preciso 
um  grande esforço  para  consegui‐lo.  Quando partiu  da  Inglaterra  não  fez  a  típica 
viagem  pela  Europa.  Ele  sozinho  resgatou  um  grupo  de  órfãos  dos  abusos  que 
sofriam. Um deles lhe roubou a carteira e logo explicou que o tinha feito para tirar 
sua irmã do horrível orfanato de onde ele mesmo escapou. Demorou um ano, mas 
Rafe  encontrou  um  bom  lar  para  cada  um  daqueles  órfãos.  Também  ajudou  a 
evacuar toda uma cidade alagada na França. Salvou umas quantas  vidas, segundo 
Amanda,  a  quem  Rafe  escreveu  sobre  o  tema.  Estes  são  só  alguns  exemplos  de 
como está acostumado a ajudar quando é necessária uma ajuda. 
    Devia supor‐se que isso justificava o que fazia com ela? 
    ‐Eu não pedi sua ajuda! 
    ‐Não, embora ele afirme que causou muitos problemas nesse encontro em 
Summers Glade onde ambos estiveram. Em seu lugar, eu desejaria  evitar voltar a 
fazer algo parecido. 
    ‐Tenho alguns defeitos ‐ grunhiu Ophelia‐. Não o nego. 
    ‐Todos os temos, moça. 
    ‐Pode que meus sejam um tanto excessivos. 
    Esmeralda riu baixo. 
    ‐Um  tanto,  né?  Então,  provavelmente  lhe  convenham  umas  lições  de 
moderação. Só para limar os exageros. 
    ‐Como  se  pode  controlar  um  temperamento  incontrolável?  ‐Ophelia  sabia 
que sua pergunta não tinha resposta. 
    A  dama  mais  velha,  não  obstante,  deu‐lhe  uma  resposta  nascida  de  sua 
experiência. 
    ‐Mordendo a língua. 
    Ophelia sorriu e disse: 
    ‐A senhora não tem mau temperamento. 
    ‐Tinha e muito mau. 
    ‐De verdade? 
    ‐Não  acreditaria.  A  meu  marido  divertia  muito,  sendo  ele  um  escocês 
totalmente carente de temperamento! 
    Ophelia riu. O som de sua risada tirou Raphael do salão. Vendo‐a no alto da 
escada em companhia de sua tia e, aparentemente, de melhor humor, perguntou: 
    ‐Sente‐se melhor? 
    Ophelia o olhou carrancuda. 
    ‐Absolutamente. 
    Ele elevou os olhos para o teto e voltou a entrar no salão. Esmeralda estalou 
a língua. 
    ‐Realmente ele te dá nos nervos, verdade que sim? 
    ‐Mesmo sem querer ‐ disse Ophelia em voz baixa, no caso de que Raphael 
pudesse ouvi‐la ainda. Em seguida, entretanto, retificou‐: Não, retiro o que disse. O 
certo é que parece realizar um esforço consciente em obter precisamente isso. 
    ‐Uma estratégia, provavelmente? Para te ajudar a confrontar seu mau gênio 
de uma forma mais aceitável. 
    ‐Então,  necessita  outra  lição  sobre  estratégias,  porque  esta  não  funciona  ‐ 
opinou Ophelia. 
    ‐Tenta, sequer, suavizar esse temperamento infame sobre o qual fala? 
    Ophelia suspirou. 
    ‐Na realidade, já o suavizei. Deixei de gritar. 
    Esmeralda sorriu, mas em seguida se tornou pensativa e disse: 
    ‐Deixa que te pergunte uma coisa. Por que não quer estar aqui? Tem a um 
dos  solteiros  mais  cobiçados  da  Inglaterra  saindo‐se  de  seu  caminho  para  te 
ajudar. Imagino que deveria aproveitar a ocasião. 
    ‐Pois não. 
    ‐Mas  por  que  não?  Ele  tentou  me  explicar  que  não  gosta  dele,  mas  não 
entendo como este moço pode não cair bem a alguém. É bom de ver, é engenhoso, é 
agradável e provém de uma das famílias mais prestigiosas do reino, se me permitir 
que o diga. 
    ‐Odeio  dizer  isto,  mas,  na  realidade,  a  senhora  não  tem  uma  opinião 
objetiva. É perfeitamente compreensível, sendo ele seu sobrinho. Embora nada do 
que  acaba  de  dizer  tem  importância  quando  ele  não  tem  direito  a  interferir  em 
minha vida deste modo! 
    Esmeralda franziu o cenho. 
    ‐Quer dizer, não pensa cooperar e tirar benefício de seus esforços? 
    Ophelia proferiu um longo suspiro. 
    ‐Embora não o pareça, já estou cooperando. É o único que me ocorreu para 
terminar com este assunto e poder voltar para casa. 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 16
  
    ‐Amanda! Que demônios faz aqui? 
    A  última  pessoa  a  quem  Raphael  esperava  ver  era  a  sua  irmã  pequena. 
Nunca antes tinha visitado Nest e agora se encontrava na soleira da porta do salão, 
tirando‐se  com  gestos  rápidos  o  resto  de  neve  que  lhe  cobria  o  casaco.  Nevava 
outra  vez  há  uma  hora,  mais  ou  menos,  desde  que  Ophelia  se  foi.  A  Amanda  não 
gostava da neve embora Raphael não acreditasse que fosse por isso que parecia tão 
incomoda. 
    A jovem lhe economizou um olhar feroz. 
    ‐O  que  faço  aqui?  Perco  um  precioso  baile  para  averiguar  o  que  faz  você 
aqui. Supõe‐se que se reuniria comigo em Londres. Por que não foi? 
    ‐Nunca disse... 
    Ela não tinha terminado de interrompê‐lo. 
    ‐Todo  mundo  perguntava  por  ti.  Todas  minhas  amigas  se  desiludiram 
quando viram que não voltava para a cidade comigo 
    ‐Já te adverti que não a acompanharia a mais festas ‐ disse Raphael‐. A que 
celebramos  em  Summers  Glade  foi  à  última.  Em  Londres  vivem  muitas  primas  e 
duas  tias  que  são  acompanhantes  mais  que  suficientes  para  ti,  querida.  Não 
importa quando chegue a Londres, não acha? 
    ‐De acordo, mas é a ti a quem querem ver todos. 
    Raphael arqueou uma sobrancelha. 
    ‐"Todos"  se  referem  ao  amontoado  de  meninas  tolas  às  quais  chama 
amigas? 
    ‐Pois elas lhe adoram. Todas as damas lhe adoram. 
    ‐Não todas ‐ respondeu ele pensando em sua convidada‐. Tire o casaco. Aqui 
dentro faz bastante calor. Ou não pensa em ficar? 
    Amanda  não  advertiu  o  tom  esperançoso  de  sua  voz  e,  com  um  grunhido, 
partiu para a lareira e aproximou as mãos ao calor. 
    ‐ Ainda não tirarei, obrigada. Estou paralisada, não me importa reconhecê‐
lo.  As  brasas  não  duraram  toda  a  viagem.  Apagaram‐se  há  algumas  horas.  Minha 
donzela e eu tivemos que nos cobrir com a mesma manta para manter o calor até 
quase sem resultado. E por que diabos só têm uma manta em sua carruagem? 
    ‐Porque, geralmente, o braseiro esquenta bastante e não necessito mantas. 
Veio em minha carruagem? 
    ‐Pois,  claro  que  sim.  Eu  não  tenho  uma.  Jamais  necessitei  uma.  Papai  tem 
meia  dúzia  nas  garagens  de  Norford  Hall  e  poderia  utilizar  qualquer  delas  se 
tivesse saído dali. Mas venho diretamente de sua residência de Londres. 
    Antes  de  conhecer  Ophelia,  Raphael  poderia  afirmar  com  toda  sinceridade 
que sua irmã era a moça mais formosa que conhecia. Sua opinião  não obedecia a 
um  sentimento  de  lealdade  familiar.  Era  muito  fundamentada.  Com  seu  cabelo 
loiro,  alguns  tons  mais  escuros  que  o  de  Raphael,  uns  olhos  azuis  mais  claros, 
quase azul pálido, e as feições aristocráticas da família, ninguém duvidava de que 
faria  sombra  a  todas  as  demais  debutantes  da  temporada.  Claro  que  ninguém  de 
sua família tinha visto ou ouvido falar de Ophelia Reid antes da festa em Summers 
Glade. E ninguém, incluída Amanda, chegava à sola do sapato de Ophelia quanto à 
beleza. 
    ‐E nos perdemos... ‐resmungou a jovem. 
    ‐Sério? Devia ser interessante. 
    ‐Absolutamente. 
    ‐Perderam‐se  por  culpa  da  neve  que  cobre  os  caminhos?  ‐perguntou 
Raphael. 
    ‐Não,  isso  foi  o  único  que  nos  conduziu  até  aqui.  Afinal,  encontramos 
rastros  de  carruagem  na  neve  e  os  seguimos.  Mas  eu  supunha  que  seu  chofer  já 
tinha  estado  aqui.  Só  depois  de  nos  perder  reconheceu  que  não  estava  muito 
tempo a seu serviço e que nunca esteve tão ao norte em sua vida. O tipo poderia ter 
mencionado antes. 
    ‐A maioria dos meus serventes são novos, Mandy. Não mantive a muitos dos 
antigos quando parti para a Europa. Como soube que estava aqui? 
    ‐Considerei  que  tinha  voltado  para  casa,  em  Norford  Hall.  Enviei  seu 
empregado  para  averiguar  o  que  te  retinha  e  retornou  com  a  notícia  de  que  não 
tinha  ido  para  casa  desde  Summers  Glade,  mas  sim  os  tinha  avisado  de  que  viria 
aqui.  Não  podia  acreditar  isso.  Por  que  vir  aqui,  a  este  lugar  tão  afastado  e  nesta 
época do ano? 
    Raphael encolheu os ombros. 
    ‐Por que não? 
    ‐Está perdendo a temporada! 
    Ele riu entre dentes. 
    ‐A  temporada  não  me  interessa  absolutamente.  É  você  quem  procura  um 
bom partido, não eu. Já encontrou um? 
    Amanda pôs cara de asco. 
    ‐Não.  A  metade  dos  homens  que  me  interessam  não  se  fixa  em  minha 
presença. 
    Raphael riu. 
    ‐ Que exagerada! 
    ‐Agradeço‐te  o  voto  de  confiança,  mas  é  a  verdade.  O  único  que  lhes 
interessa é falar dessa presunçosa da Ophelia Reid e me perguntam se sei por que 
não  voltou  para  Londres  ainda.  A  notícia  de  que  não  se  casou  com  Duncan 
MacTavish não demorou para chegar à cidade. Sabe por que não se casaram? 
    ‐Decidiram  que  não  fariam  um  bom  casamento.  ‐Raphael  não  estava 
disposto a dizer nada mais sobre o tema. 
    ‐Isso parecia muito desalentador. 
    ‐Por quê? 
    ‐Não seja obtuso, Rafe. Obviamente, porque volta a entrar na competição, e 
não há muitos homens perfeitos onde escolher – disse Amanda. 
    Raphael sorriu ante seu raciocínio. 
    ‐Seu marido teria que ser perfeito? 
    ‐Não,  claro  que  não...,  bom,  um  pouquinho.  Embora,  agora  que  ela  volte  a 
procurar marido, eu irei de segunda. 
    ‐Vaidade e ciúmes ao mesmo tempo. Deveria se envergonhar, Mandy. 
    Ela se ruborizou. 
    ‐Não zombe. Estamos falando de meu futuro. 
    ‐Não, estamos falando de sua impaciência. Se relaxasse e desfrutasse de sua 
primeira  temporada  em  Londres,  o  homem  adequado  apareceria  antes  que 
percebesse. 
    ‐E  se  apaixonaria  por  ela,  não  por  mim  ‐  replicou  Amanda  com  um 
murmúrio petulante. 
    ‐Está realmente com ciúmes. 
    A jovem proferiu um longo suspiro. 
    ‐Não posso evitar. Deus é tão formosa que resplandece. Parece que cega! 
    Raphael afogou a risada que lhe suscitou aquele comentário e se limitou a 
dizer: 
    ‐Estou completamente de acordo. 
    Amanda piscou e estreitou os olhos. 
    ‐Não te atreva a me dizer que também você caiu fulminado. 
    ‐Absolutamente. 
    ‐Bem, porque não é uma boa mulher, certamente, não o bastante boa para ti. 
É vaidosa e mordaz e muito orgulhosa para seu próprio bem. 
    ‐São estes os últimos falatórios? ‐perguntou Raphael curioso. 
    ‐Não,  os  últimos  falatórios  são  de  sua  volta  ao  mercado  matrimonial  e  do 
quão encantados estão os homens  com isso. O mesmo observei quando a conheci 
em Summers Glade. Sabe que teve a desfaçatez de me dizer que estava perdendo 
tempo ali? Nem sequer havia reatado seu noivado com MacTavish quando me disse 
isso. Tão segura estava de que a aceitaria. 
    ‐O  certo  é  que  perdia  tempo  ali.  Duncan  já  estava  apaixonado  por  sua 
vizinha, Sabrina. Embora demorasse um pouco a perceber. 
    ‐Pois, melhor para ele. É por isso que Ophelia e ele voltaram a cancelar seu 
compromisso? 
    ‐Em parte. Seu matrimônio não foi ideia deles, mas sim de suas famílias, e 
ambos  se  sentiram  contentes  de  poder  se  livrar  do  noivado.  Agora  tire  o  casaco, 
tome um chá e logo volte para casa. 
    ‐Não  seja  chato,  Rafe.  Esquece  que  me  convidou  para  passar  a  temporada 
contigo? 
    ‐Aqui não. 
    ‐Não, claro que não. 
    ‐Tampouco comigo ‐ corrigiu‐a ele‐. Convidei‐te a utilizar minha residência 
na cidade, já que nosso pai não tem uma casa em Londres. Não disse que passaria a 
temporada ali contigo. 
    ‐Pois, isto sim que é bonito! ‐zangou‐se ela‐. Imaginei que  estaria ali. Senti 
sua falta. Esteve no continente durante quase dois anos. Pensava que você gostaria 
de passar um tempo comigo, agora que voltou. 
    ‐E o farei, quando voltar a Londres. 
    ‐Mas  quando  voltará?  Ainda  não  me  disse  o  que  faz  aqui,  neste  lugar  tão 
estranho. 
    ‐Não te ocorreu que poderia estar aqui com uma convidada? 
    Amanda empalideceu. 
    ‐Santo  Deus,  nunca  pensei!  Sinto‐me  tão  envergonhada.  Irei  em  seguida..., 
assim que me aquecer. 
    ‐Bem. 
    ‐Bem?  Não  tentará  me  convencer  de  que  fique...,  ao  menos  para  passar  a 
noite? 
    ‐Absolutamente.  Está  a  tempo  de  chegar  a  uma  hospedaria  antes  do 
anoitecer. 
    Ela suspirou quando, por fim, tirou o casaco e se sentou junto a ele no sofá. 
Tirou uma pequena pilha de cartas do bolso e as entregou. 
    ‐Trouxe sua correspondência, se por acaso houvesse algo importante. 
    ‐Quer  dizer  se  por  acaso  houvesse  um  convite  a  alguma  festa  que  me 
interessa. ‐Raphael folheou rapidamente as cartas. Só lhe interessava a resposta do 
pai de Ophelia. Abriu‐a e leu depressa exatamente o que esperava ler. 
    ‐Isso também ‐ admitiu Amanda e, ato seguido, voltou para o tema de antes‐
E  não  é  tão  cedo.  A  hospedaria  onde  dormi  ontem  à  noite  está  a  seis  horas  de 
distância. 
    Ele a olhou e assinalou: 
    ‐Perderam‐se, lembra? 
    Amanda suspirou de novo. 
    ‐Muito  bem,  a  quatro  horas  de  distância.  Será  quase  de  noite  quando 
chegarmos. Preferiria sair à primeira hora da manhã. Quem é ela? Conheço‐a? 
    Pronunciou  as  últimas  perguntas  rapidamente,  com  a  esperança,  sem 
dúvida,  de  pega‐lo  despreparado.  Não  deu  resultado.  E  Raphael  só  podia  esperar 
que Ophelia não escolhesse esse preciso momento para fazer sua aparição. 
    ‐Sim, conhece‐a, e não, se esqueça de saber quem é. Isto, querida, não é teu 
assunto. Tampouco é o que imagina. Não se trata de um encontro amoroso. 
    ‐Ah, claro que não ‐ respondeu ela pensativa‐. Vem com uma mulher a um 
lugar  tão  afastado  que  bem  poderia  estar  em  outro  país  e  quer  me  convencer  de 
que é um encontro inocente? 
    ‐Exato. A tia Esme está aqui para demonstrá‐lo. 
    ‐Está aqui? ‐exclamou Amanda encantada‐. Estupendo, faz séculos que não 
a vejo! Agora sim que deve permitir que fique uns dias. 
    ‐Viu‐a faz só dois meses, na festa de aniversário de papai. E não, não pode... 
    Interrompeu‐se  e  ficou  olhando  pela  janela. Estava  lendo  um  livro  quando 
chegou Amanda e não tinha visto chegar sua carruagem, embora agora pudesse ver 
perfeitamente que partia. 
    ‐Me  diga  que  sua  visita  não  é  um  ardil  para  me  obrigar  a  voltar  para 
Londres, Mandy. Mandou a carruagem de volta para casa? 
    Ela se zangou com seu tom acusador. 
    ‐Quando tenho que viajar nela? Claro que não. 
    ‐Maldição ‐ exclamou ele, e se levantou bruscamente do sofá. 
Capítulo 17
  
    Ophelia  estava  tão  nervosa  perguntando  se  tinha  conseguido  escapar  que 
era muito mais tarde quando sentiu o frio que fazia na carruagem. Não se alarmou 
ao  não  encontrar  mais  que  cinzas  frias  no  braseiro,  mas,  depois  de  um  registro 
precipitado  sob  os  assentos  e  até  do  interior  de  um  assento  saliente,  ficou 
absolutamente desconcertada. Nem um pedaço de carvão em todo o veículo. 
    Havia uma manta de viagem. Pobre consolo, mas se envolveu com ela. Seria 
suficiente? Não para que se sentisse cômoda embora tivesse que contentar‐se com 
ela. O chofer passava mais frio ainda, disse a si mesma e ela conseguiria aguentar. 
Não era necessário lhe pedir que corresse mais. Tinha deixado perfeitamente claro 
que a velocidade era imperativa. 
    Ainda  não  podia  acreditar  que  se  encontrava  a  caminho  de  casa!  Embora 
sua imensa sensação de satisfação e triunfo nada tinha a ver com sua volta a casa e 
tudo com o simples feito de ter enganado Raphael! 
    Acabava  de  descer  de  seu  quarto  quando  ouviu  as  vozes  no  salão.  Quase 
tinha  entrado  segura  de  que  era  a  voz  da  irmã  de  Raphael  e  não  de  sua  tia.  Um 
toque  de  sorte  a  fez  esperar  o  suficiente  para  perceber  que  se  a  irmã  estava  ali, 
tinha que ter vindo de carruagem, e que a carruagem poderia estar ainda diante da 
porta, com os cavalos enganchados, lhe proporcionando um meio de fuga. 
    Entretanto, não podia arriscar‐se a passar por diante da porta do salão para 
sair a averiguá‐lo. Tampouco podia partir com um vestido de dia. Correu de volta a 
seu  quarto  para  procurar  seu  casaco  e  sua  bolsa  de  mão,  e  desceu  correndo  a 
escada de serviço, com a esperança de encontrar Sadie na cozinha. Não teve sorte e 
Ophelia  não  sabia  onde  poderia  estar  sua  donzela  a  essa  hora  do  dia.  Todo  um 
dilema! Procurar a Sadie e arriscar‐se a perder a oportunidade de partir ou partir 
sem  a  donzela,  com  a  certeza  razoável  de  que  Raphael  procuraria  enviá‐la  a 
Londres? 
    Realmente não tinha escolha. Era sua única oportunidade de escapar desse 
lugar,  e  nem  sequer  estava  segura  de  conseguir.  Tinha  que  atuar  imediatamente, 
antes que desenganchassem os cavalos e os levasse ao estábulo, como fizeram com 
os outros. 
    Correu para cozinha e saiu pela porta lateral enquanto a cozinheira estava 
ocupada  na  despensa.  Bem  a  tempo!  Já  conduziam  a  carruagem  recém‐chegada 
para o caminho lateral que levava aos estábulos. 
    Não tinha percebido que nevava outra vez, embora ligeiramente. A primeira 
neve  já  se  derretia  antes  de  descer  de  novo  a  temperatura,  de  modo  que  agora 
tinha que vencer também o obstáculo do gelo, que não era muito para dissuadi‐la. 
    ‐Espera! ‐chamou o jovem sentado na boleia. 
    Ele  a  ouviu  e  parou.  Inclusive  saltou  ao  chão  enquanto  ela  se  aproximava 
apressada,  procurando  não  escorregar  no  gelo  apenas  coberto  pela  neve  recém‐
caída.  Certamente  teria  tirado  a  boina  se  levasse  uma,  em  lugar  do  monte  de 
cachecóis de lã que apareciam sob o capuz de seu casaco. Sua expressão era a típica 
da  maioria  dos  homens  que  viam  seu  rosto  pela  primeira  vez,  uma  mescla  de 
deslumbramento e de incredulidade ante o que via. 
    Para fomentar a impressão, Ophelia lhe dirigiu seu sorriso mais brilhante. 
    ‐Necessito que alguém me leve a Londres. Poderia me ajudar? 
    O jovem demorou um minuto inteiro em recuperar‐se de seu encantamento. 
Ela só teve que repetir suas palavras uma vez. 
    Ao final, ele franziu o cenho com gesto triste e disse: 
    ‐Não acredito que possa senhora, não sem a permissão de lorde Locke. Este 
é sua carruagem. 
    ‐Como se chama? 
    ‐Albert, senhora. 
    ‐Vinte libras lhe fariam mudar de opinião, Albert? 
    Ele fez uma careta. 
    ‐É muito dinheiro para alguém como eu, mas com certeza me despedirão ou 
me mandarão ao cárcere se for com esta carruagem. 
    Ophelia  começava  a  perder  a  paciência.  Não  tinha  tempo  para  enrolá‐lo. 
Raphael  poderia  aparecer  a  qualquer  momento,  e  então  já  não  iria  a  nenhuma 
parte. 
    ‐Não lhe prenderiam ‐ assegurou‐lhe‐. Isso lhe prometo. 
    Ele seguia carrancudo e triste. 
    ‐Trouxe a irmã do senhor. Provavelmente voltará para casa dentro de uns 
dias. É uma dama muito agradável. Com certeza permitirá que a acompanhe. 
    ‐Não me serve. Devo partir imediatamente. Cinquenta libras! 
    ‐Eu  não  gosto  muito  deste  trabalho  ‐admitiu  o  chofer‐  Aceitei‐o  no  verão, 
quando não era tão duro. Agora penso que prefiro trabalhar dentro de casa nesta 
época do ano. Embora cinquenta libras não sejam suficientes para que me deixem 
na rua. 
    Claro  que  eram  suficientes.  Era  mais  dinheiro  do  que  poderia  ganhar  em 
dois ou três anos. 
    ‐Cem libras ‐ disse Ophelia, impaciente. 
    ‐Aonde  quer  ir?  ‐perguntou  o  jovem  enquanto  lhe  abria  a  porta  da 
carruagem. 
    ‐A Londres. A toda pressa. E falo a sério, temos que nos apressar muito. 
    ‐Não se preocupe senhora. Iremos à corrida até a estalagem mais próxima e 
um  bom  fogo,  posto  que  não  está  muito  quente  dentro  da  carruagem.  Podemos 
parar em uma estalagem, verdade? 
    ‐Sim, é obvio ‐ disse ela, adivinhando que esse era o motivo pelo qual havia 
custado  tanto  convencê‐lo.  Ele  somente  queria  evitar  o  frio‐.  Não  espero  que 
conduza durante a noite. 
    Menos mal que já lhe havia dito que tinha pressa, pensou Ophelia enquanto 
seus dentes batiam. No interior da carruagem não fazia mais frio que no princípio, 
entretanto,  lhe  parecia  que  sim,  agora  que  estava  a  várias  horas  ali.  A  manta  de 
viagem  não  servia  muito  quando  seu  casaco  era  tão  fino.  Quanto  faltaria  até 
alcançar um povoado e uma estalagem quente? Certamente não mais de uma hora, 
tendo em conta a velocidade temerária com a qual Albert conduzia os cavalos. 
    Ao  menos  Raphael  já  não  podia  pará‐la  antes  de  chegar  à  civilização.  Com 
todos  os  cavalos  no  estábulo,  assegurou‐se  de  que  ninguém,  nem  ele  mesmo, 
pudessem sair de Nest de forma imediata. Ophelia esboçou um sorriso de afetação 
ao  imaginar  a  irritação  de  Raphael  quando  descobrisse  que  escapou.  Se  fosse 
persistente,  poderia  localizá‐la  antes  da  manhã  se  pernoitassem  em  uma 
estalagem. Embora não lhe serviria de nada. A encontraria entre pessoas que não o 
conheciam e não tolerariam que tentasse obrigar uma mulher que berrava a subir 
a uma carruagem e, certamente, ela gritaria. 
    Incomodava ter tido que deixar atrás a Sadie, sua própria carruagem e sua 
roupa.  Embora  Raphael  já  não  tivesse  por  que  ficar  em  Alder's  Nest.  Veria‐se 
obrigado a usar sua carruagem para que ele mesmo e todos outros retornassem a 
seus respectivos lares. Se não tivesse o detalhe de lhe devolver a carruagem, bom, 
já se preocuparia com isso quando estivesse em casa, segura de não ter que tratar 
com esse demônio nunca mais. 
    Foi  a  última  coisa  que  pensou  antes  de  ver‐se  jogada  do  assento  e  cair  no 
chão. Atada com a manta de viagem, ao princípio não percebeu que a carruagem ia 
para um lado. Embora o solo fosse bom enquanto o veículo avançava e se inclinava. 
     Assim que consegui ficar de joelhos quando a porta se abriu bruscamente e 
Albert perguntou com expressão horrorizada: 
    ‐Encontra‐se bem? 
    ‐Sim,  apenas  tenho  uns  machucados  ‐  assegurou‐lhe  Ophelia‐.  Só  me  diga 
que não saímos do caminho. 
    O jovem se ruborizou intensamente. 
    ‐Não  vi  o  buraco,  juro  que  não  vi.  Provavelmente  o  teria  visto  se  não 
conduzisse os  cavalos a  toda velocidade, embora  tenha neve  recente  que  cobre  o 
caminho e é possível que tampouco o visse indo mais devagar. 
    ‐E?   
    ‐Ao  sair  do  buraco,  a  roda  perdeu  sua  tração  e  derrapou.  A  sarjeta  não 
parecia estar tão perto, mas suponho que estava. E então se rompeu. 
    ‐O que se rompeu? 
    ‐A  roda  ‐  respondeu  ele,  envergonhado‐.  Partiu‐se  o  eixo  no  momento  de 
cair na sarjeta. 
    ‐Os cavalos estão bem? 
    ‐Sim, senhora. 
    ‐Então, podem puxar a carruagem até o caminho outra vez. 
    ‐Sim,  embora  não  irá  a  nenhuma  parte  com  a  roda  estragada.  Maldita  má 
sorte! 
    Já  podia  dizê‐lo,  pensou  Ophelia  com  um  suspiro.  Em  retrospectiva,  tinha 
sido estúpido por sua parte lhe pedir que usasse os cavalos com esse tempo. Mas 
sabê‐lo  só  poderia  contribuir  a  evitar  desastres  futuros,  e  absolutamente  não 
ajudava com feitos passados. 
    ‐O que faria normalmente em uma situação como esta?‐perguntou. 
    ‐Mudar a roda. 
    ‐Pois vá procurar outra. 
    ‐Ainda não estamos perto de nenhuma população. Seria de noite antes que 
voltasse. 
    O  primeiro  que  pensou  Ophelia  foi  que  não  desejava  ficar  sozinha  ali,  na 
sarjeta, com esse frio e menos depois de anoitecer. 
     A alternativa, entretanto, seria montar um dos cavalos, a pelo, cair mais de 
uma  vez,  certamente,  passar  mal  e  encontrar‐se  com  dificuldades  ainda  maiores. 
Ou  esperar  que  melhorasse  o  tempo,  gelando‐se  enquanto  isso.  Ou  esperar  que 
aparecesse  Raphael,  deleitando‐se  por  havê‐la  encontrado.  Quer  dizer,  caso 
aparecesse.  Provavelmente  não  se  incomodaria  em  ir  atrás  dela.  Bem  poderia 
pensar que tinha tentado e que não se esforçaria mais em "ajudar" a alguém que, 
obviamente, não desejava sua ajuda. 
    Por isso disse: 
    ‐Pois não perca tempo. 
    Tomara que não estivesse cometendo um novo engano. 
Capítulo 18
  
    Raphael mal podia ver além de alguns metros, tão densa era a neve que caía. 
Poderia  falar  de  uma  tempestade  de  neve  se  o  vento  fosse  mais  forte,  mas,  por 
sorte,  apenas  ventava  o  justo  para  lhe  fazer  sentir  a  intensidade  do  frio...,  e  lhe 
fazer considerar a possibilidade de abandonar. Ao fim e ao cabo, tendo em conta o 
que  tinha  demorado  para  buscar  um  cavalo  na  casa  de  Bartholomew,  selá‐lo  e 
reunir um pouco de carvão, já que sábia que o braseiro da carruagem estava vazio, 
não  esperava  alcançar  Ophelia  antes  que  chegasse  à  cidade  mais  próxima.  Só 
queria encontrá‐la antes que voltasse para Londres, embora isso já pudesse fazê‐lo 
no dia seguinte, quando deixasse de nevar. Se deixasse de nevar. 
    Quase  não  viu  a  carruagem  na  sarjeta.  Coberta  com  um  manto  branco 
confundia‐se  com  a  neve  que  o  rodeava.  Foram  os  cavalos  os  que  atraíram  seu 
olhar. A neve não se aderia a seus corpos quentes e escuros, como não se aderia a 
seus  próprios  arreios.  O  medo  o  invadiu  quando  viu  o  acidente.  Um  medo  mais 
forte que não recordava haver sentido embora, por sorte, muito breve. Assim que 
viu que faltava um dos cavalos e que a carruagem se mantinha intacta, um pouco 
inclinada,  mas  absolutamente  destroçada,  soube  que  ninguém  estava  ferido. 
Evidentemente,  Ophelia  e  o  chofer  tinham  decidido  compartilhar  um  dos  cavalos 
para continuar a viagem. 
    Foi sua única conclusão, de modo que esteve a ponto de não descer à sarjeta 
para  comprová‐lo.  Não  obstante,  sabia  que,  se  não  fizesse,  não  se  perdoaria  e 
nunca  sairia  das  dúvidas,  assim  desmontou  o  tempo  suficiente  para  abrir  a 
portinhola da carruagem e olhar no interior. Ali não havia nada mais que um vulto 
de... "por que demônios têm só uma manta de viagem na carruagem?" Recordou as 
palavras  de  sua  irmã  com  um  sobressalto.  Uma  manta  de  viagem  não  avultava 
tanto. 
    ‐Santo  Deus!  ‐exclamou‐.  Deixou‐te  aqui  para  que  morra  de  frio?  Aonde 
demônios foi? 
    Ophelia apareceu com a cabeça de debaixo da manta, não a cabeça inteira a 
não  ser  o  justo  para  que  ele  pudesse  ver  seus  olhos  e  comprovar  que  não  usava 
chapéu.  Até  seu  habitual  penteado  elegante  tinha  desaparecido.  Soltou  o  cabelo? 
Parecia  um  novelo  tão  pequeno  no  assento  que  a  manta  a  cobria  por  completo, 
cabeça incluída. 
    ‐Foi procurar de outra roda, para trocar a que se rompeu. 
    Raphael se sentou a seu lado e olhou o braseiro apagado. 
    ‐Sabia que te deixava aqui sem calefação? 
    ‐Provavelmente  não  ‐  respondeu  ela  bruscamente‐.  E  feche  essa  maldita 
porta! 
    Ele  alargou  o  braço  para  fechar  a  portinhola.  Não  serviu  de  muito.  A 
respiração formava nuvens de vapor diante do rosto. 
    Agora que estava acompanhada, Ophelia começou a esticar‐se. Voltou a pôr 
os pés no chão e ergueu as costas. A manta de viagem era muito  pequena, tinha a 
largura e comprimento suficiente para cobri‐la do colo até os pés. Ophelia a abriu 
sobre  seu  colo.  Tinha  as  mãos  nuas.  Levava  o  cabelo  solto  e  mais  longo  do  que 
Raphael imaginou. Uma mecha encaracolada descansava em seu colo, junto a suas 
mãos. Os dedos tremiam de frio! Raphael sentiu uma onda de ira  percorre‐lo por 
ela se expor ao perigo desse modo. 
    ‐Onde estão seu chapéu e seu manguito? ‐quis saber. 
    ‐Não estavam com meu casaco. Não tinha tempo para buscá‐los. 
    Disse em tom altivo, conseguindo irritá‐lo ainda mais. 
    ‐Pensava que teria a sensatez de não fazer isso ‐ espetou Raphael enquanto 
tirava as luvas, agarrava as mãos de Ophelia e as esfregava com as suas. 
    Ela não tentou impedir‐lhe e limitou‐se a dizer: 
    ‐O desespero me obriga a cometer coisas estúpidas. Acreditava que já tinha 
ficado claro entre nós. 
    ‐Não  estava  desesperada.  Só  tem  medo  de  enfrentar  à  mulher  que  outros 
veem quando lhe conhecem. E o que aconteceu com seu cabelo? 
    Ela retirou uma mão de entre as suas e empurrou uma mecha errante para 
trás. 
    ‐Necessitava mais calor no pescoço e orelhas. 
    Sentiu  tanto  frio  que  tentou  esquentar‐se  com  seu  próprio  cabelo!  Isso  o 
enfureceu tanto que soprou: 
    ‐Vou matar a esse idiota do Albert por aceitar isto! 
    ‐Não, prometi‐lhe cem libras. 
    ‐Isso não é desculpa. ‐Voltou a lhe agarrar as mãos para esquentá‐las com 
seu fôlego. 
    ‐É, se não tiver visto cem libras em sua vida. 
    Tinha razão, mas ele continuou esquadrinhando‐a com olhos estreitos. 
    ‐Está resolvida a assumir toda a culpa, não é? 
    ‐Claro que sim..., não, não estou. A culpa é sua. 
    A Raphael quase lhe escapou um sorriso. 
    ‐Perguntava‐me quando o diria. 
    ‐Pois,  é  certo.  Se  não  tivesse  insistido  em  me  manter  prisioneira  antes  de 
ter, sequer, a permissão de meus pais, quando só supunha que lhe dariam... 
    ‐Já o tenho. Minha irmã teve a precaução de me trazer a correspondência. 
    Ophelia se afundou no assento. 
    ‐Que conveniente, está exonerado de todos os cargos. 
‐Sim,  muito  conveniente  ‐  admitiu  Raphael‐,  Posto  que  ainda  não 
terminamos de te passar pelo fogo. 
    Tirava  sarro.  Ophelia  percebeu,  que  de  outro  modo,  teria  perdido  as 
estribeiras  ante  o  comentário.  A  menção  do  fogo,  entretanto,  fez  recordar  a 
Raphael que seu cavalo levava um saco de carvão para o braseiro da carruagem. 
    ‐Falando de fogo, trouxe carvão ‐ acrescentou‐. Vou buscá‐lo. 
    Saiu imediatamente e reapareceu em poucos minutos. Tampouco  demorou 
muito  em  acender  o  braseiro.  Percebeu,  entretanto,  que  passaria  um  bom 
momento  antes  que  as  brasas  esquentassem  a  carruagem  e  que  os  dentes  de 
Ophelia  continuavam  batendo  seus  lábios  estavam  quase  lívidos!  Teria  que 
procurar outro meio enquanto isso... 
    ‐Na  realidade  ‐  disse,  como  se  não  tivesse  interrompido  a  conversa‐,  Sim 
que  temos  feito  certos  progressos.  Não  é  tão  mordaz  como  a  princípio  e  eu,  ao 
menos,  não  vi  indícios  de  malícia.  Não  se  alarme,  vou  tentar  outra  maneira  de 
esquentar estas mãos, já que as brasas demoram para se aquecer. 
    Desabotoou  o  casaco,  tirou  a  camisa  de  dentro  da  calça  e  apoiou  as  mãos 
dela em seu peito, debaixo da camisa. Ophelia quis retirar as mãos, mas Raphael as 
reteve com força, apesar de sentir frio. 
    ‐Isto tampouco dará resultado ‐ disse ela‐. Seu corpo não está precisamente 
quente neste momento. 
    ‐Então,  provemos  com  isto.  ‐Colocou  as  mãos  de  Ophelia  debaixo  de  suas 
axilas. 
    ‐Apenas melhor embora não durará. Assim só esfria você também. 
    ‐Já  estava  frio,  querida.  Aí  fora  está  nevando.  Mas  tem  razão.  A  única 
maneira  de  entrar  ambos  em  calor  é  com  um  pouco  de  exercício.  Já  sabe  fazer 
circular o sangue, suar um pouco. Nunca falha. 
    Ela o olhou duvidando. 
    ‐Aqui dentro não há espaço suficiente para exercícios e, não, obrigada, não 
penso sair e começar a correr só para suar um pouco ‐ acrescentou graciosa‐. Além 
disso, eu não suo. As damas nunca suam. 
    Raphael não pensava rir dessa afirmação tão ridícula. Não riria embora lhe 
custasse à vida. Não obstante, demorou alguns momentos para controlar o impulso 
de fazê‐lo. 
    ‐Estava  pensando  em  um  tipo  de  exercício  mais  agradável.  ‐Ophelia  abriu 
os  olhos  desmesuradamente  e  ele  se  apressou  em  acrescentar‐:  Não,  ponho  um 
limite  em  fazer  o  amor  dentro  de  uma  carruagem  em  pleno  inverno...,  bom,  ao 
menos, não sem um braseiro que esquenta com mais força que este. ‐Sorriu para 
lhe demonstrar que só brincava. 
    Não desejava alarmá‐la nem ultrajar suas sensibilidades virginais. Esta, não 
obstante, era uma oportunidade que, simplesmente, não podia deixar escapar. 
    Desde  o  começo  tinha  contido  suas  inclinações  naturais,  porque  suas 
motivações eram puras no que se referia a Ophelia. Tinha‐a levado a Alder's Nest 
para ajudá‐la, não para seduzi‐la. Alguns beijos, entretanto, não lhes fariam mal e 
nesses momentos a ajudariam a esquecer do frio. 
    Tinha  sido  bom.  Muito  bom.  Sinceramente,  não  sabia  como  tinha 
conseguido  manter  a  distância,  sendo  ela  tão  desejável.  Ajudou‐o  a  antipatia  que 
sentia por ela. Quando Ophelia começou a explicar alguns de seus atos, entretanto, 
seus  sentimentos  se  tornaram  neutros.  Não  lhe  caía  precisamente  bem,  ainda 
ficava muito por explicar e muito que mudar em sua maneira de tratar os outros, 
mas  não  tinha  que  gostar  dela  para  que  a  desejasse  e,  certamente,  desejava‐a 
muito. 
Capítulo 19
  
    Ophelia  parecia  um  novelo  e  tentava  esquentar  o  rosto  respirando 
profundamente  sobre  seus  joelhos,  tão  imersa  em  seu  esforço  que  nem  sequer 
percebeu  a  presença  de  Raphael  antes  que  ele  falasse.  Não  tinha  se  deleitado  ao 
encontrá‐la,  como  pensava  ela.  Não  tinha  mostrado  mais  que  preocupação  e 
aborrecimento não com ela, mas sim por ela. 
    Já  começava  a  temer  que  o  chofer  não  voltasse  no  mesmo  dia.  Podia  que 
não o fizesse se não alcançasse a cidade antes do cair da noite. Com a presença de 
Raphael,  entretanto,  todos  seus  temores  se  dissiparam.  Nem  por  um  minuto 
duvidou  que  lhe  devolveria  o  calor  e  a  segurança.  Já  não  lhe  importava  ter 
fracassado em sua tentativa de fugir dele. 
    ‐Simplesmente  vou  te  beijar,  Phelia.  Garanto‐te  que,  dentro  de  uns 
momentos, já não sentirá frio e, passados uns minutos, ficará quente. 
    Ela começou a sentir calor só de pensar no beijo. Calor não exatamente, mas 
a ideia de beijá‐lo já a fazia esquecer o frio. 
    Ali  estava  sentada,  tentando  impedir  o  bater  de  seus  dentes  enquanto 
falavam.  Cada  segundo  tinha  que  reprimir  um  calafrio.  Tomara  a  beijasse  como 
tinha  feito  antes,  em  lugar  de  falar  que  iria  fazê‐lo.  O  anúncio  implicava  que  lhe 
pedia permissão e ela preferia não reconhecer que desejava o beijo. Na realidade, 
desejava‐o e havia se sentido muito decepcionada quando ele não tentou de novo 
depois daquele primeiro beijo na neve. 
    ‐Fala por experiência, sem dúvida ‐ disse. 
    ‐É obvio. A paixão gera seu próprio calor. Tentamos? 
    Realmente lhe pedia permissão. Que pouco libertino por sua parte. Quando 
demônios  pensava  fazer  honra  a  sua  reputação  esse  homem?  Embora  Ophelia 
imaginasse  que  só  se  deitava  com  mulheres  que  gostava,  e  já  fazia  muito  que 
tinham estabelecido que ela não entrava nessa categoria. 
    ‐Certamente  ‐  disse  com  um  suspiro‐.  Tentaria  qualquer  coisa  para  me 
aquecer. 
    ‐Qualquer coisa? ‐perguntou Raphael com uma careta. 
    ‐Quase qualquer coisa. 
    Aproximou‐se sem deixar de sorrir e seus lábios se uniram. Os de Raphael 
não  estavam  frios.  Os  da  Ophelia  certamente  sim,  embora  não  por  muito  tempo. 
Pelo  resto,  entretanto,  ele  não  a  tocou,  como  se  abstivesse  deliberadamente  de 
fazê‐lo.  Talvez,  não  tivesse  verdadeiros  desejos  de  beijá‐la!  Ophelia  sentiu  uma 
excitação inesperada quando seus lábios se juntaram embora esse beijo parecesse 
pouco apaixonado. 
    ‐Não  se  alarme  ‐  advertiu  ele  separando  seus  lábios‐.  Quando  sugeri  nos 
beijar, não pensava em um beijo casto. A chave é o esforço e este surge da paixão. 
    Ophelia se afastou. 
    ‐O que quer dizer? 
    ‐Isto. 
    "Isto" foi um beijo completamente diferente. Raphael a atraiu para si com 
ardor  e  a  rodeou  com  os  braços,  sustentando‐a  com  firmeza.  Beijou‐a  com  força, 
obrigando‐a a entreabrir os lábios com sua língua. Isso a chocou. Já tinha perdido a 
conta dos beijos que distintos homens lhe tinham roubado e que, por regra geral, 
terminavam bruscamente com um bofetão. Ninguém a tinha forçado nunca a uma 
intimidade tão surpreendente que a deixasse sem fôlego e com o coração batendo 
como louco. 
    Raphael  se  recostou  na  lateral  da  carruagem  enquanto  a  levantava  e  a 
colocava  em  seu  colo,  com  o  fim  de  não  ter  que  separar  os  lábios.  Foi  como 
estender‐se em cima dele, sensação que a Ophelia parecia muito excitante. Raphael 
continuou abraçando‐a com força com um braço enquanto deslizava a outra mão 
entre seu cabelo solto e lhe acariciava a cabeça entre as mechas. Ophelia sentiu nas 
costas uns calafrios que nada tinham a ver com a temperatura. 
    ‐Deixou já de sentir frio? ‐perguntou ele lhe cobrindo de beijos as bochechas 
e o queixo. 
    ‐Sim. 
    ‐Você gostaria de sentir minhas mãos? 
    ‐Não se estão frias. 
    ‐Asseguro‐te  que  não  tem  nem  um  centímetro  frio  em  meu  corpo. 
Demonstrarei isso. 
    Beijou seus lábios de novo, lhe cobrindo uma bochecha com a mão. Não só 
estava cálida, mas também ardia enquanto lhe acariciava o pescoço e começava a 
desabotoar os botões de seu casaco. Não o desabotoou muito, só  o suficiente para 
deslizar  a  mão  debaixo  do  tecido  e  cobrir  um  de  seus  seios.  Ophelia  proferiu  um 
som  gutural,  profundo.  Nem  ela  sabia  se  era  um  protesto  ou,  simplesmente,  um 
som  de  prazer  incontido,  porque  era  maravilhosa  a  sensação  de  sua  mão  ali,  tão 
estremecedora e sensual que a impulsionava a abraçá‐lo com mais força ainda. 
    ‐Nem toda você é magra ‐ disse ele. 
    O tom de sua voz só era meio zombeteiro quando fez essa referência a seu 
anterior  comentário  sobre  a  extrema  magreza  de Ophelia.  Pelo  resto,  soou  muito 
satisfeito.  Suas  palavras  a  fizeram  ruborizar  e  a  esquentou  ainda  mais.  Embora 
Raphael  conseguisse  falar,  entretanto,  não  lhe  dava  muitas  oportunidades  para 
responder, porque seus beijos não terminavam somente se detinham um momento 
antes que sua língua voltasse a entrar imperiosa na boca dela. 
    Então introduziu a língua da Ophelia em sua boca e sugou brandamente. Ela 
gemeu e lhe rodeou o pescoço com o braço sem pensar sequer. Dobrou os joelhos e 
os  apoiou  no  peito  de  Raphael.  Emitiu  um  pequeno  som  de  protesto  quando  ele 
deixou  de  lhe  acariciar  o  seio  embora  fosse  muito  breve,  porque  Raphael  não 
retirou a mão, mas sim a movia em uma nova direção, ao longo de sua cintura e até 
suas nádegas, que rodeou para atrai‐la mais firmemente para si. 
    ‐Pense  que  sou  um  travesseiro  ‐  sussurrou  sobre  os  lábios  dela‐.  Pode  se 
aconchegar e se estirar sobre mim. 
    Como sabia que o desejava? Sentia esse impulso assombroso de deslizar‐se 
sobre  ele!  E  aprendia  rápido  essa  nova  forma  de  beijar.  Inclusive  tomou  a 
iniciativa, não pôde evitá‐lo, embora ele a recuperou em seguida. Era um duelo de 
línguas!  Pareciam  lutar  pelo  domínio  ou,  melhor  dizendo,  compartilhavam‐no. 
Agora já ambos desprendiam calor. 
    Raphael  conseguiu  colocar  aquela  mão  indagadora  debaixo  de  sua  saia. 
Ophelia  percebeu  uma  ligeira  corrente  fria  quando  o  fez,  mas  mal  percebeu, 
porque  seus  dedos  mediam  o  caminho  para  o  alto  de  sua  coxa.  Logo  deu 
literalmente  um  salto  em  seu  colo  quando  o  dedo  de  Raphael  roçou  entre  suas 
pernas. Ele a sujeitou com força. Não ia permitir que Ophelia se negasse o imenso 
prazer que era capaz de lhe proporcionar embora ela tampouco pensasse impedir‐
lhe tão imersa estava na novidade das sensações que ele provocava. 
    Tinha  agarrado  uma  mecha  de  seu  cabelo  puxando  sem  saber.  Beijava‐a 
com voracidade, e o prazer se intensificava rapidamente e seu corpo inteiro tremia 
de  desejo,  já  não  de  frio.  O  que  explodiu  nela  de  repente  escapava  a  sua 
compreensão.  Certamente  teria  gritado,  mas  Raphael  apanhou  seu  forte  gemido 
em um beijo no momento em que o orgasmo de Ophelia palpitava contra seu dedo. 
    Completamente esgotada, luxuriosamente completa, quente entre os braços 
de  Raphael,  teria  ficado  ali  toda  a  noite.  Ele  depositava  pequenos  beijos  em  sua 
testa.  Agora  sua  mão  acariciava  docemente  a  carne  externa  de  sua  coxa.  Raphael 
não  tentou  movê‐la,  manteve‐a  em  seu  colo.  Ela  poderia  ter  chorado.  O  teria 
permitido, sabia, e a teria mantido quente com o calor que expelia seu corpo. 
    Raphael, entretanto, deve ter ouvido um movimento lá fora. Ela também o 
ouviu e afastou a cabeça, de seu peito justo antes que ele a depositasse a seu lado 
no  assento.  Nem  se  tocavam  quando  se  abriu  a  portinhola  bruscamente.  Pobre 
Albert,  disposto  a  lhe  assegurar  que  tinha  completado  sua  tarefa  com  êxito,  não 
teve oportunidade de fazê‐lo. O punho de Raphael lhe golpeou no meio do rosto e o 
fez rodar pela neve até o fundo da sarjeta. 
Capítulo 20
  
    ‐Suponho  que  estou  despedido  ‐  disse  Albert  com  cautela  enquanto  se 
levantava do chão. 
    ‐Supõe  bem  ‐  respondeu  Raphael  enquanto  desatava  a  roda  que  estava 
pendurada no cavalo com o qual Albert acabava de retornar‐. Depois de mudar a 
roda e nos conduzir de volta a Alder's Nest. 
    A condição indignou Albert. 
    ‐Por que teria que fazê‐lo, se já não é meu trabalho? 
    ‐Provavelmente porque a alternativa seria ir embora a pé. 
    Albert soprou. 
    ‐Pois caminharei e levarei o dinheiro, que me prometeu a lady. 
    Raphael transpassou Albert com o olhar, e em sua voz apareceu parte da ira 
que tinha sentido a princípio: 
    ‐Acredita  que  vou  permitir  que  se  aproxime  dela  sem  te  matar,  depois  de 
havê‐la abandonado aqui para que morresse de frio? Nem fale do dinheiro quando 
não completou sua tarefa, que deveria ter rejeitado no primeiro momento! 
    Albert  não  conhecia  Raphael  o  suficiente  para  ser  precavido  ou  se  sentia 
muito decepcionado para que lhe importasse. 
    ‐Muito  bem,  pois,  vou  ‐  balbuciou,  mas  só  deu  uns  passos  antes  de  dar  a 
volta e perguntar‐: Não tentará me deter? 
    Raphael quase riu com isso. Em troca, arqueou uma sobrancelha e disse: 
    ‐Por que teria que fazê‐lo? 
    ‐Porque, sem dúvida, morrerei se vou andando! 
    ‐E? 
    Albert  ruborizou  de  fúria  e  foi  a  Raphael  para  agarrar  a  roda,  enquanto 
dizia: 
    ‐Dê‐me  isso  milorde,  eu  a  trocarei.  Estaremos  de  novo  no  caminho  em 
poucos minutos. 
    ‐Sabia  que  entenderia  as  razões.  E  possivelmente  te  convenha  aplicar  um 
pouco de neve a essa bochecha inchada ‐ acrescentou Raphael antes de voltar para 
carruagem. 
    A Raphael não lhe escapou o balbucio "maldição", simplesmente, optou por 
lhe ignorar. 
    Não duvidava que Ophelia tinha ouvido tudo, de fato, a primeira coisa que 
lhe disse quando a ajudou a descer da carruagem foi "não o despeça". 
    ‐Me dê uma boa razão para não fazê‐lo. ‐Atraiu‐a para si para mantê‐la no 
calor enquanto Albert trocava a roda quebrada. 
    ‐Porque utilizei meu mais sedutor sorriso. 
    Não precisava entrar em detalhes. Apenas esperava que nunca empregasse 
esse sorriso com ele, porque imaginava perfeitamente o encantamento de Albert e 
seu desejo de fazer o que lhe pedisse. 
    Raphael disse em tom zombeteiro: 
    ‐Sua vaidade tem que ser uma carga muito pesada. Fora de todo controle. 
    Ophelia se apertou contra ele para entrar em calor. 
    ‐Não  acredita  que  a  considero  um  defeito,  porque  não  é  assim.  Em 
realidade,  eu  não  gosto  do  efeito  que  tenho  nos  homens,  mas  é  um  efeito 
totalmente previsível. Exceto em seu caso, claro. 
    ‐De verdade? Por que sou eu uma exceção? 
    Ophelia levantou os olhos. 
    ‐Não finja que não sabe. Quando me olha, você não vê meu rosto a não ser o 
monstro que pensa que sou. 
    Raphael  riu  entre  dentes.  Aquilo  não  era  certo  absolutamente  embora 
preferisse não contradizê‐la. Só disse:  
‐ Nunca te chamei monstro, querida. 
   ‐Não tão explicitamente. Embora o insinuasse algumas vezes. 
    Não  parecia  desdenhosa  nem  indignada  com  a  lembrança.  Na  verdade, 
mostrava‐se agradavelmente afável desde que liberasse parte de sua paixão. E não 
era só isso. O cabelo solto ondulava a seu redor a fazia aparecer mais doce, mais 
acessível. Não era imaginação de Raphael. Embora provavelmente também isso se 
devesse à paixão liberada. De fato... 
    ‐Acredito que já sei por que custa tanto controlar seu temperamento. É uma 
mulher  muito  apaixonada  e  isso  pode  ser  maravilhoso,  embora  não  tenha  outra 
saída para sua paixão que o mau gênio. 
    Ophelia deslizou a mão debaixo do casaco dele para esquentá‐la sobre seu 
peito. 
    ‐De verdade acredita? 
    ‐Certamente.  Embora  haja  uma  maneira  de  comprová‐lo.  ‐E  acrescentou 
com um grunhido‐: Mas aqui não. 
    Um pouco mais tarde, quando estavam de novo na carruagem a caminho de 
Alder's Nest, ela disse: 
    ‐Agora que me encontro bem e não sinto frio percebo que estou faminta. 
    ‐Eu  também.  ‐Raphael  não  se  referia  à  comida.  Essa  noite  Ophelia  tinha 
despertado  um  dragão  adormecido.  Agora  já  lhe  seria  impossível  não  tocá‐la.  De 
fato, não tinha deixado de acariciá‐la brandamente desde que a jovem se apoiasse 
de  novo  nele‐.  Logo  chegaremos  a  Nest  ‐  acrescentou‐.  E,  provavelmente,  deva  te 
advertir de que já não haverá forma de impedir que minha irmã descubra quem é 
minha convidada. 
    ‐Não disse? 
    ‐Quis evitar ‐ admitiu Raphael. 
    ‐Por quê? Pretendia mantê‐lo em segredo? 
    ‐Não, é porque ela não compreenderia. 
    ‐Que queira ajudar a alguém como eu? 
    ‐Não, que ainda não sejamos amantes. Pensará que perdi a habilidade. 
    Ophelia se reclinou e lhe dirigiu um olhar curioso. Logo riu entre dentes. 
    ‐Isto já se converteu em um mau costume, zombar de mim. 
 ‐Por que acha que estou zombando? ‐Raphael lhe lançou um olhar travesso. 
‐ Mencionei já que conheço a maneira de fazer esquecer da fome? 
    Ophelia explodiu em risadas. 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 21
  
    ‐Aqui  estão  ‐  disse  Esmeralda  alegremente  quando  Raphael  e  Ophelia 
entraram juntos no salão‐. Que estranho, sair de excursão pelo campo nesta época 
do ano. Ao menos, não voltaram muito tarde. Atrasamos o jantar para lhes esperar. 
Vamos? 
    Raphael sorriu a sua tia quando ela se levantou para conduzi‐los à sala de 
jantar.  Muito  amável  de  sua  parte,  tratar  de  apresentar  a  fuga  fracassada  de 
Ophelia  como  uma  excursão  normal  quando  era  algo  menos  isso.  Simplesmente, 
não daria resultado com sua irmã. De fato, Amanda, sentada junto a Esmeralda no 
sofá, não se moveu nem um milímetro e observava Ophelia com incredulidade. 
    Certamente,  Ophelia  estava  muito  acostumada  às  reações  estranhas  das 
pessoas para comentar algo sobre a boca aberta da Amanda. Limitou‐se a dizer: 
    ‐Olá,  Amanda.  Muito  amável  de  sua  parte  abandonar  as  diversões  de 
Londres para nos fazer uma visita no campo. 
    Amanda ainda não tinha se recuperou o suficiente para responder ou para 
perceber, sequer, que estava com a boca aberta. Raphael suspirou para si. 
    ‐Vão vocês duas ‐ disse sua tia‐. Sei que Phelia tem muita fome, não esperem 
mais. Mandy e eu lhes seguiremos dentro de um momento. 
    A saída de Ophelia não tirou sua irmã de seu assombro, continuou olhando 
a  soleira  vazia  da  porta  com  os  olhos  totalmente  abertos.  Raphael  levantou  os 
olhos para o teto e disse: 
    ‐Menos mal que não há moscas na casa nesta época do ano. 
    ‐O que? ‐perguntou Amanda e, ato seguido, ficou de pé de um salto com sua 
habitual  exuberância  e  exclamou‐:  Santo  Deus,  Rafe!  Amo‐te  muito,  mas, 
realmente, não deve chegar a esses extremos para me ajudar. 
    Posto que não foi isso, precisamente, o que ele esperava ouvir, respondeu: 
    ‐Chegaria a qualquer extremo para te ajudar, querida, já sabe..., se precisar 
de ajuda. Mas, posto que não necessite de ajuda a que demônios se refere? 
    Amanda franziu o cenho imediatamente. 
    ‐Embora o fizesse por isso, não é certo? 
    ‐O que fiz? 
    ‐Convidar  a  essa  mulher  aqui.  Fez  por  mim,  para  eliminar  a  concorrência. 
Para que eu pudesse encontrar um marido sem ter que competir com ela. 
    Raphael balançou a cabeça. Às vezes não compreendia absolutamente como 
funcionava a mente feminina. 
    ‐Mandy,  pense  por  um  momento  no  que  acaba  de  dizer.  Afirma  que 
qualquer  homem  que  estivesse  interessado  em  ti  centraria  seu  interesse  em 
Ophelia imediatamente, se ela aparecesse. É este o tipo de homem que busca? 
    ‐Não, claro que não, mas... 
    ‐Não há mas nesta análise. 
    ‐Algumas coisas são capazes de tentar um homem mais à frente do sentido 
comum. Ela é uma dessas coisas ‐ explicou Amanda. 
    Raphael  gostaria  de  rebater  esse  argumento,  mas,  dado  que  ele  mesmo 
experimentava aquela tentação, não podia fazê‐lo. 
    ‐Provavelmente. Mas se um homem tem que ser tão volúvel, é melhor que 
saiba antes de arrastá‐lo até o altar. 
  ‐Arrastá‐lo? ‐começou a balbuciar ela. 
    ‐Sabe  a  que  me  refiro.  Antes  de  receber  uma  proposta.  Antes  de  se 
apaixonar. 
    Amanda lhe lançou um olhar pensativo. 
    ‐Seria uma boa prova, não te parece? 
    Ele voltou a olhar o teto. 
    ‐Já lhe disse isso. Por que não deixa de preocupar‐se em encontrar marido e 
permita que ocorra naturalmente? 
    ‐Porque já estamos à meia temporada. Estou indo contra o tempo! 
    ‐Não  seria  o  fim  do  mundo  se  não  encontrar  um  marido  em  sua  primeira 
temporada. 
    ‐Ficou  louco!  ‐exclamou  Amanda‐.  Claro  que  seria.  Duas  de  minhas 
melhores amigas já estão comprometidas! 
    ‐Mandy, juro que se seguir o rebanho e se conformar com um marido com o 
qual não será feliz só porque suas amigas já estão se casando... 
    ‐Não o faria, não sou tão estúpida. Mas me sentirei desolada se terminar a 
temporada sem ter me comprometido sequer. 
    ‐Não  se  sentirá  desolada,  simplesmente  renovará  seu  vestuário  para  a 
temporada de verão e começará de novo. E agora vamos jantar. Estou... 
    ‐Espere um momento ‐ disse Amanda sem amedrontar‐se‐. Se não convidou 
Ophelia  para  me  ajudar...,  ai,  Meu  Deus,  Rafe,  não  me  diga  que  você  seguiu  o 
rebanho e se apaixonou por ela! 
    ‐Tem mau costume de tirar conclusões precipitadas. Não estou apaixonado 
por ela. Mal a suporto. 
    ‐Mal? Antes não a suportava absolutamente. 
    Raphael encolheu os ombros. 
    ‐Estou descobrindo que não é a prima Donna que eu pensava. 
    ‐O que faz aqui? Apareceu sem convite e não sabe como se desfazer dela? A 
levarei de volta para Londres, se este for o caso. 
    ‐Está fazendo outra vez. Deixe de hipóteses e deixe de tentar me surrupiar 
informações que nada têm a ver contigo. 
    Como se não o tivesse ouvido, Amanda voltou a supor: 
    ‐Está escondida aqui. Pensa que a segunda ruptura com MacTavish causou 
um grande escândalo, como devia acontecer, mas não foi assim. Posso dizer isso. 
    ‐Amanda. 
    Esta vez sua irmã percebeu o tom de advertência e protestou veemente: 
    ‐Não  pode  me  deixar  na  ignorância!  Ela  é  muito  formosa,  muito  famosa  e 
muito sensacional para estar aqui sem uma boa razão! 
    ‐Há  uma  razão  muito  boa  ‐  acessou  a  dizer  Raphael‐.  Estou‐a  ajudando  a 
desenvolver algumas qualidades boas para complementar as poucas que já possui. 
    ‐E eu acredito!‐ soprou sua irmã. 
    Não tentaria convencê‐la de que era verdade. Disse em troca: 
    ‐E  você  não  deve  repeti‐lo  nem  comentar  com  ninguém  que  se  encontra 
aqui.  Não  quero  que  meu  nome  se  relacione  com  o  seu  nem  que  Londres  inteira 
faça as mesmas especulações ridículas que você acaba de fazer. Ficou claro? 
    ‐Pois, me dê uma pista! 
    Raphael suspirou baixo. Desde quando era sua irmã pequena tão obstinada? 
    ‐Darei um jantar e uma cama para passar a noite e, pela manhã, te porei no 
caminho  de  volta  à  caça  de  marido.  Amanda,  seus  pais  sabem  que  está  aqui  e  tia 
Esme  é  uma  acompanhante.  Aqui  não  acontece  absolutamente  nada  fora  do 
normal. Mantenha seu formoso nariz fora do que não te concerne. 
    ‐Muito bem, não me diga nada! ‐disse Amanda e saiu irada do salão. 
Capítulo 22
  
    Não foi difícil deduzir que Amanda Locke estava incomodada com algo, por 
sua forma de entrar enrijecida na sala de jantar, com o olhar furioso. Ophelia tinha 
considerado a possibilidade de pedir sua ajuda para voltar para Londres, apesar da 
advertência de Rafe em sentido contrário. 
    ‐É uma cabeça oca ‐ disse ao chegar a Nest‐. Sem querer acabou causando 
uma confusão em torno de sua presença aqui. Será melhor para todos implicados 
que não saiba que não deseja está‐lo. 
    Não  foi  por  isso  que  convenceu  Ophelia  a  não  dizer  nada.  A  aversão  que 
Amanda  lhe  mostrou  durante  o  jantar  tampouco  influiu  muito  em  sua  decisão. 
Obviamente, a moça estava totalmente antipática. Simples ciúmes? Talvez muitas 
jovens que conhecia reagiam dessa forma ante ela por isso mesmo, Amanda, como 
a  Mavis,  se  alegraria  com  os  problemas  de  Ophelia  em  lugar  de  ajudá‐la  a 
solucioná‐los. Embora não fosse esta a razão pela qual decidiu não solicitar a ajuda 
da moça. 
    Por incrível que parecesse, já não queria ir‐se dali. O que tinha ocorrido na 
carruagem  quando  Rafe  a  encontrou  foi  uma  experiência  tão  assombrosa  que, 
simplesmente, tinha que analisar mais a fundo seus sentimentos e a vivência. E se 
ele tivesse razão? 
    Quando  apareciam  seus  piores  defeitos,  seu  mau  gênio,  seu  ciúmes 
ridículos, não recordava ter sido nunca capaz de impedir que aquelas emoções tão 
horríveis se manifestassem em detrimento de alguém, inclusive de si mesma. Nem 
sequer seu arrependimento conseguia evitar a repetição do mesmo círculo vicioso. 
Seria porque não tinha outra saída para suas paixões? É o que tinha sugerido Rafe 
e lhe parecia tão plausível que não encontrava argumentos contrários. 
    Depois de encontrar uma nova saída, sentia‐se notavelmente tranquila e em 
paz.  Todas  e  cada  uma  de  suas  emoções  venenosas  estavam  adormecidas.  Até  a 
pior  emoção  de  todas  brilhava  por  sua  ausência,  a  amargura  que  a  tinha 
acompanhado desde a infância. 
    Tudo tinha começado com seu pai. Acabavam de lhe tirar as fraldas quando 
ele  começou  a  maquinar  como  tirar  proveito  de  uma  filha  tão  extraordinária. Ela 
não  soube  até  aquele  dia  em  que  descobriu  que  tudo  aquilo  que  acreditava 
verdadeiro  era  completamente  falso.  A  lembrança  ainda  era  tão  dolorosa  que  a 
evitava  por  todos  os  meios.  Nestes  momentos,  entretanto,  sentia‐se  tão  contente, 
tão feliz, se atreveria a afirmar, que inclusive podia confrontar aquela lembrança. 
    Era  o  dia  em  que  fazia  oito  anos.  Mal  podia  conter  seu  entusiasmo.  Um 
aniversário  significava  muitos  presentes  de  suas  amigas.  E  sua  mãe  sempre 
organizava  uma  festa  maravilhosa  para  celebrar  a  ocasião.  Aquela  festa  não  foi 
diferente  ou  teria  sido  se  tivesse  ficado  na  sala  de  jantar  onde  estavam  todos  os 
convidados, desfrutando do almoço preparado para eles. Entretanto, sua mãe havia 
lhe dado um novo pingente para seu aniversário, um precioso relicário. Dirigia‐se 
ao andar superior para buscá‐lo e mostra‐lo a uma das meninas quando as vozes 
altas de seus pais a impulsionaram a aproximar‐se do escritório de seu pai. 
    ‐  Isto  não  pode  continuar  assim  ‐  dizia  sua  mãe‐.  Não  pode  continuar 
comprando as suas amigas. 
    ‐Preferiria  ter  que  lhe  explicar  por  que  não  consegue  encher  uma  lista  de 
convidados para uma simples festa de aniversário? ‐ Perguntou seu pai, irritado. 
    ‐A lista foi sua ‐ recordou‐lhe Mary‐. Repleta de títulos ostentosos. A metade 
dessas  meninas  está  com  ciúmes  de  Ophelia  para  querer  estar  com  ela  e  a  outra 
metade  nunca  esteve  aqui  antes.  Claro  que  não  viriam.  E  a  lista  nova  que  me 
entregou  não  é  diferente.  Ophelia  não  conhece  estas  meninas,  nenhuma.  Devia 
cancelar  a  festa  quando  os  convidados  originais  declinaram  meus  convites  ao 
uníssono. A menina se dará conta de que algo vai mal. 
    ‐Tolices. Esta é uma oportunidade excelente para que ela se destaque. Devia 
pensar  antes.  Não  tem  sentido  convidar  só  a  títulos  menores,  como  fazia  você. 
Nenhum deles é apropriado para minha filha. 
    ‐Mas são suas verdadeiras amigas! 
    ‐Sério? Ou seus pais vêm a nossa casa para agraciar‐se comigo? 
    ‐Nem todos pensam como você. 
    ‐Claro  que  sim  ‐  zombou‐se  o  pai  de  Ophelia‐.  O  que  unicamente  importa 
nesta cidade é a quem conhece e a quem consegue impressionar. E nós temos uma 
jóia  capaz  de  impressionar  a  qualquer  um.  Sua  beleza  não  tem  preço  e  cada  ano 
que passa é mais formosa. Nem eu acredito ainda. Era uma beleza quando me casei 
contigo, mas jamais sonhei que me daria de presente uma filha tão admirável! 
    ‐E  eu  jamais  sonhei  que  não  pensaria  em  outra  coisa  que  em  como  te 
beneficiar dela. Por que não pode, simplesmente, amá‐la, como eu e... 
    ‐Amá‐la?  ‐soprou  o  pai‐.  As  crianças  são  uma  chateação  e  ela  não  é 
diferente.  Se  sua  presença  não  fosse  necessária  para  poder  exibi‐la...,  pode  estar 
segura  de  que  a  teria  enviado  a  algum  internato  antes  de  educá‐la  em  casa  com 
tutores particulares. 
    ‐E mostrá‐la por todas as festas que dou como se fosse sua mascote fazendo 
truques para divertir à concorrência ‐ respondeu sua mãe com amargura. 
    ‐Deixa de lhe dar tanta importância. Você vive para entreter as pessoas. Eu 
vivo para ver como seus convidados olham a nossa filha boquiabertos. ‐Seu pai riu‐
Percebeu  na  nova  lista  que  redigi  para  esta  festa?  Há  um  menino  em  linha  de 
herdar um título de marquês. Ophelia poderia chamar sua atenção. 
    ‐É muito jovem para chamar a atenção de alguém! Pelo amor de Deus, por 
que não pode esperar até que cresça antes de começar para lhe buscar um marido? 
    A  menina  tinha  ouvido  tudo,  mas  estava  muito  chocada  para  chorar.  Não 
subiu  para  procurar  o  pingente.  Aniquilada,  voltou  para  sala  de  jantar  onde  seus 
amigos estavam sentados à longa mesa. Seus amigos? 
    Sabia  que  todas  as  crianças  ali  reunidas  eram  desconhecidas  embora  isso 
fosse normal. Pensava que seus verdadeiros amigos ainda estavam por chegar, que, 
simplesmente,  atrasaram‐se  um  pouco.  Não  lhe  tinha  ocorrido  que  algo  ia  mal. 
Estava muito acostumada a conhecer crianças novas, que iam com  seus pais para 
jantar.  Sua  mãe  organizava  reuniões  sociais  cada  semana.  Inclusive  quando  não 
havia crianças entre os convidados, chamavam‐na ao salão ou à sala de jantar ou 
onde estivessem reunidos todos para apresentá‐la... 
    Parou junto a um menino muito mais velho do que ela, que estava sentado 
na cadeira e não falava com ninguém. 
    ‐Por  que  veio?  ‐perguntou‐lhe  com  toda  sinceridade,  como  fazem  as 
crianças. 
    ‐É  uma  festa.  Normalmente,  eu  gosto  das  festas  ‐  respondeu  ele  com 
petulância. 
    ‐Mas esta não ‐ disse Ophelia assinalando o óbvio. 
    O menino encolheu os ombros e disse com franqueza: 
    ‐Disseram‐me que se vinha e fingia que gostava me dariam de presente um 
cavalo novo. O que tenho já está ficando velho. Meu pai não queria comprar outro, 
mas disse que seu pai me daria de presente se viesse à festa e fingisse me divertir. 
    A Ophelia a emoção fechou a garganta quando respondeu 
    ‐Suponho que não te importa muito o cavalo. 
    ‐Claro que sim! 
    ‐Então deve fingir. 
    O menino a olhou irado. 
    ‐Pois, não tem sentido que eu fique verdade? 
    ‐Nenhum  ‐  admitiu  ela  e  se  voltou  para  outro  menino,  sentado  junto  ao 
primeiro,  que  parecia  ter  uma  idade  mais  próxima  a  de  Ophelia‐.  Você  por  que 
veio? 
    Enquanto o primeiro menino já estava a caminho da porta, este respondeu 
com a mesma ingenuidade: 
    ‐Seu pai deu vinte libras ao meu e me disseram que tinha que vir. Preferiria 
ir ao parque brincar com meu novo navio. 
    ‐Eu  também  preferia  ‐  replicou  Ophelia  com  voz  mais  fina.  Custava‐lhe 
pronunciar as palavras por culpa do nó que tinha na garganta. 
    Os olhos lhe ardiam com as lágrimas contidas. Até o peito lhe doía quando 
olhou à moça carente de atrativos sentada do outro lado da mesa. Era mais velha 
que todos outros, muito grande para assistir à festa de aniversário de uma menina 
de oito anos. 
    ‐E você? ‐perguntou à garota mais velha‐. Por que veio? 
    ‐Senti  curiosidade  ‐  respondeu  ela  com  ar  esnobe‐.  Quis  saber  por  que 
subornar  para  que  viessem.  Agora  entendo.  É  muito  bonita  para  ter  amigas 
verdadeiras. 
    Ophelia não teve que repetir a pergunta a outros. Tampouco podia conter as 
lágrimas  por  mais  tempo.  Antes  que  corressem  por  suas  bochechas, 
envergonhando‐a ainda mais, gritou: 
    ‐Fora, fora todos! 
    Depois  daquele  dia  Ophelia  jamais  tinha  visto  seus  amigos  da  mesma 
maneira. Duvidava de todos eles e os pegava facilmente mentindo para aplacá‐la. E, 
normalmente, suas mentiras provocavam essa mesma reação que outros tratavam 
de  evitar  mentindo.  Com  o  passar  do  tempo  voltou  a  se  encontrar  com  alguns 
daqueles  convidados  no  seu  aniversário.  Todos  tinham  se  desculpado  e  juraram 
que não iriam precisar de um suborno para participar da sua festa se ao menos a 
tivessem conhecido antes. Não acreditava e os desprezava sem exceção. 
    Tampouco  voltou  a  ver  seu  pai  da  mesma  maneira.  Antes  o  adorava. 
Descobrir  que  ele  não  correspondia  a  seu  amor,  que  só  a  considerava  um  meio 
para realizar seus propósitos oportunistas, tinha‐lhe arrancado o coração deixando 
só amargura em seu lugar. 
    Agora, entretanto, todo aquilo se dissipou..., graças a Rafe. Surpreendia‐lhe 
pensar  nele  com  esse  diminutivo  embora,  depois  do  ocorrido  entre  ambos,  seria 
ridículo seguir com as formalidades. E seria fácil pôr a prova sua teoria. Esta era a 
verdadeira razão pela qual não desejava ir embora de Nest ainda. Essa nova saída 
para  suas  paixões  não  só  moderava  suas  emoções,  mas  também  era  muito 
prazerosa para não querer explorá‐la outra vez. 
    Ignorou a Amanda, que ficou de cara feia ao longo do jantar, mas não podia 
não fixar‐se em Rafe. Não deixava de olhá‐lo, falasse ou não, embora ele tratasse de 
dar  um  ar  de  normalidade  ao  jantar  mantendo  uma  conversa  com  sua  tia.  Fez 
várias tentativas de envolver sua irmã, mas ela se limitava a olhá‐la carrancuda e, 
ao  final,  desistiu.  A  Ophelia  não  custou  participar  da  conversa  quando  falou  da 
nova tempestade de neve. 
    ‐Parece  que  terei  que  passear  outra  vez  pela  neve  pela  manhã,  agora  que 
meus rastros anteriores foram totalmente cobertos ‐ disse e acrescentou com um 
sorriso‐: Aceita a outra batalha de neve, Rafe? 
    Ele riu. 
    ‐Perdeu a última. 
    ‐Absolutamente. ‐Ophelia riu também entre dentes‐. Foi um empate e sabe! 
    Parecia que àquela familiaridade entre ambos era muito para Amanda, que 
ficou de pé zangada e advertiu a Ophelia: 
    ‐Não  tente  seduzir  meu  irmão  para  que  se  case  contigo.  Nosso  pai  jamais 
aprovaria uma mulher como você. 
    Ophelia  se  ruborizou.  Não  pretendia  fazer  tal  coisa,  mas  o  ataque  não 
provocado  feriu  seus  aprazíveis  sentimentos.  Rafe,  por  outra  parte,  reagiu 
horrorizado ao comentário de sua irmã. 
    ‐Por Deus, Mandy! Perdeu o juízo? Seu comportamento me envergonha. 
    ‐A mim também, jovem ‐ acrescentou Esmeralda. 
    ‐O  que?  ‐protestou  Amanda  com  voz  chorosa‐.  Embora  sua  beleza  não  te 
atraia nem tenha planos referentes a ela, isso não significa que não te tenha em sua 
mira. Não vê como lhe olha? 
    ‐Não há desculpa possível para sua grosseria e sabe ‐ respondeu Raphael‐. 
Desculpe‐se agora mesmo. 
    ‐Não  penso  fazê‐lo!  ‐negou‐se  Amanda‐.  Não  seja  cego  alguém  tinha  que 
dizê‐lo! 
    ‐E uma idiota. 
    Com as bochechas ruborizadas, Amanda deixou seu guardanapo na mesa. 
    ‐Não  vou  ficar  olhando  como  te  levam  ao  matadouro.  Quando  deixar  de 
perder tempo fazendo o que não quer confiar‐me, saberá onde me  encontrar. Me 
desculparei ante ti quando recuperar o julgamento, embora não vou desculpar‐me 
ante  ela!  E  não  se  atreva  a  apresentar  desculpas  de  minha  parte!  ‐acrescentou 
enquanto saía da sala de jantar. 
    Amanda devia conhecer bem seu irmão, porque foi precisamente o que fez. 
    ‐Sinto muito, Phelia... 
    ‐Não  o  sinta  ‐  interrompeu‐o  ela  com  um  sorriso  débil.  ‐  Estou  tão 
acostumada com o ciúmes que já não me incomoda em nada. 
    ‐Acredita que só se trata disso? 
    ‐Certamente.  São  injustificados,  neste  caso,  mas  o  ciúme  não  necessita  da 
verdade nem de feitos para levantar a cabeça. Acredite, sei melhor que ninguém. 
    ‐Uma  atitude  elogiável,  moça  ‐  interpôs  Esmeralda‐.  Embora  minha 
sobrinha devesse saber que não pode permitir‐se este tipo de arrebatamentos. 
    Ophelia riu baixinho. 
    ‐Não  posso  ter‐lhe  em  conta  quando,  geralmente,  sou  eu  quem  tem 
arrebatamentos.  Acompanharia  ao  meu  quarto,  Rafe?  Preferiria  evitar  outro 
ataque de sua irmã esta noite. 
Capítulo 23
  
    Era um pouco imprudente de sua parte pedir a Rafe que a acompanhasse ao 
seu quarto. Enfim, afinal, era um quarto. Apropriado teria sido pedir a Esmeralda. 
Ophelia,  entretanto,  não  tinha  duvidado.  Não  estava  ali  por  vontade  própria, 
impediam‐lhe  que  partisse  e,  portanto,  no  que  a  ela  se  referia,  as  normas  de 
etiqueta  habituais  ficavam  suspensas  enquanto  durasse  sua  estadia.  E  este  era  o 
único  raciocínio,  a  única  lógica  que  necessitava  para  seguir  o  caminho  de  sua 
perdição, como ficou claro. 
    A  ideia  lhe  divertia,  posto  que  nem  por  um  momento  suspeitou  que  algo 
assim  aconteceria  se  flertasse  um  pouco  com  o  futuro  duque  de  Norford. 
Encontrava‐se  em  um  lugar  muito  afastado.  E  lhe  tinha  procurado  uma 
acompanhante apropriada. Ninguém saberia nunca. 
    Provavelmente  teria  que  contar  a  seu  futuro  marido,  em  caso  de  perder  a 
virgindade,  embora  pudesse  fazê‐lo  sem  mencionar  nomes.  Se  tivesse  a  sorte  de 
encontrar  um  homem  que  a  quisesse  de  verdade  e  não  estivesse  simplesmente 
cativado  com  seu  rosto,  o  assunto  não  teria  muita  importância.  Se  assim  fosse, 
bem, seria sinal de que não a queria de verdade. 
    Que fácil parecia justificar‐se quando realmente desejava algo. Claro que era 
uma garota de Londres, muito mais sofisticada que a maioria das debutantes. Por 
seus ouvidos tinham passados os escândalos que agitaram sua formosa cidade nos 
últimos dez anos. Sabia como começavam, como evitá‐los e como atenuá‐los. 
    Agora  que  estava  a  sós  com  Rafe  abrandou  o  passo  no  alto  a  escada.  A 
excitação que havia sentido quando tomou à decisão de pôr a prova sua teoria que 
era inovadora e ainda persistia. Faria amor com ele. A ideia parecia embriagadora, 
embora não pudesse lançar‐se sobre ele ali, no patamar. Tinha que ser mais sutil. 
    ‐Suponho que, depois das alegações de sua irmã, devo te assegurar de que 
não te tenho em minha mira ‐ começou a dizer. 
    ‐Acredite Phelia, deixou perfeitamente claro desde o primeiro momento. De 
fato...  ‐quis  retificar,  mas  ela  soube  em  seguida  que  recordava  como  o  tinha 
abordado em Summers Glade. 
    ‐Aquilo  foi  antes  de  descobrir  que  não  segue  as  regras  do  jogo  e,  para  ser 
sincera,  nesses  momentos  qualquer  homem  me  teria  servido,  inclusive  você. 
Estava impaciente e foi um dos poucos homens que sabia, sem lugar a dúvidas, que 
meu pai aprovaria. 
    ‐Acredito que deveria me sentir ofendido. 
    Detiveram‐se para falar, de modo que Ophelia viu como sorria. 
    ‐Sim,  certamente,  parece  ofendido  ‐  replicou‐.  Mas  não,  ainda  não  te 
conhecia, e meus pensamentos nada tinham a ver contigo, como pessoa, a não ser 
com  seu  título.  Porque  pensava  em  meu  pai.  Sua  riqueza,  em  troca...  ‐Fez  uma 
pausa  para  rir  entre  dentes‐.  Confesso  que  esse  foi  meu  critério  pessoal.  Tenho 
toda intenção de ser uma matriarca social e de organizar as maiores festas que já 
se  em  viu  Londres,  e  para  isso  faz  falta  muito  dinheiro.  Não  me  casarei  com  um 
pobre,  se  posso  evitá‐lo.  Embora  tenha  muitos  mais  homens  ricos  que  títulos  tão 
apreciados como seu. 
    Raphael fingiu um suspiro de desolação. 
    ‐Se pretendia me reconfortar, querida, temo que fracassou tremendamente. 
    Ela ruborizou um pouco. 
    ‐Acredito  que  não  me  expressei  corretamente.  Queria  dizer  que  há  mais 
homens  que  merecem  minha  aprovação  dos  que  mereceriam  a  aprovação  por 
parte  de  meu  pai,  embora  já  não  me  importe  tanto  ter  em  consideração  suas 
preferências.  E  isto  significa  que  é  o  último  que  incluiria  em  minha  lista,  porque 
acreditei sem lugar a dúvidas, o primeiro na sua. Tem isto mais sentido para ti? 
    ‐Tudo  isto  parece  um  pouco  complicado,  mas  suspeito  que  atue  contra  si 
mesma indo contra seu pai. 
    Ela levantou os olhos para o teto. 
    ‐Claro, tinha que aludir a meu mau gênio. 
    ‐Não o vê assim? ‐perguntou Raphael. 
    ‐Entendo por que você sim. Mas não sabe como é a relação entre meu pai e 
eu. 
    ‐Arriscaria a afirmar que existe uma antipatia declarada entre os dois. 
    ‐Não  é  o  caso  absolutamente  ‐  afirmou  Ophelia‐.  Eu  não  o  odeio, 
simplesmente  deixei  de  amá‐lo  há  muito  tempo.  Toleramo‐nos  mutuamente, 
suponho que é a melhor forma de expressá‐lo. Estou farta de que me utilize para 
satisfazer suas ambições. Se dúvidas disso, basta considerar o que me fez somente 
este ano. Arranjou um noivado com um bárbaro e me jogou aos lobos! 
    ‐Está me chamando lobo? 
    ‐Percebeu? 
    Raphael riu. 
    ‐Acredito que já entendi. 
    ‐Bem,  porque,  se  encontro  meu  homem  ideal,  não  duvidarei  em  me  casar 
com  ele  sem  contar  com  a  permissão  de  meu  pai.  Sei  muito  bem  que  há  lugares 
aonde ir para isso. 
    ‐Isso sim que me reconforta. 
    ‐Supunha. 
    Ophelia  se  separou  dele  e  deu  um  passo  pelo  patamar.  Demorou  um 
momento em reunir a coragem para acrescentar: 
    ‐Dito isto, não te assuste se te comunico que eu gostaria de pôr a prova sua 
teoria de hoje. 
    Olhou para trás e viu que ele estava muito quieto. Sabia exatamente a que se 
referia. 
    ‐Acredito  que...,  talvez...,  deveria  pensar  melhor  ‐  disse  Raphael  e 
acrescentou com um gemido‐: Não posso acreditar que disse isto. 
    ‐Já pensei e devo te dizer que nunca havia sentido tal... tal... 
    ‐Êxtase sublime? ‐o sugeriu com outro gemido. 
    ‐Não,  isso  não  ‐  respondeu  Ophelia  com  certo  rubor‐.  Embora  fosse  muito 
agradável.  Referia‐me  à  serenidade  que  o  seguiu  e  que  sinto  ainda.  Não  sabe  o 
estranho que me parece me sentir assim. 
    ‐Sabe  que  não  falava  totalmente  a  sério  quando  mencionei  outras  saídas 
para suas paixões? 
    ‐Ah,  não?  É  muito  lógico!  Especialmente,  se  tivermos  em  conta  o  efeito 
perdurável  que  teve  em  mim.  Olhe  a  sua  irmã,  por  exemplo.  Não  me  incomodou 
absolutamente  quando,  geralmente,  respondo  a  este  tipo  de  ciúmes  hostis  com 
comentários  mordazes.  Vou  pôr  à  teoria  a  prova,  Rafe,  contigo  ou  com  outro 
homem. Se estiver certo, tenho a esperança de me desfazer de, ao menos, a metade 
de meus defeitos. Não vou renunciar a isso. 
    ‐Com risco de perder esta oportunidade de ouro, considero justo assinalar 
que  se  fizermos  amor  agora,  que  já  está  serena,  não  provará  nada  ‐  argumentou 
Raphael. 
    Ela franziu o cenho e logo exclamou: 
    ‐Não me tinha ocorrido! Tem toda a razão. Provavelmente o que aconteceu 
hoje  terá  um  efeito  permanente?  ‐Ele  negou  com  a  cabeça‐.  Não?  Bom,  suponho 
que terei que averiguar quanto durará. Boa noite. 
    ‐ Phelia. 
    Ela  fingiu  não  ter  ouvido  e  caminhou  apressada  para  seu  quarto.  Que 
embaraçoso. Certamente ele pensaria que estava se insinuando, que já sabia desde 
o  começo  que  sua  sugestão  não  tinha  sentido  nesse  momento.  Maldição.  Por  que 
teve que se mostrar? 
Capítulo 24
  
    De  pé  diante  da  janela  do  salão,  Raphael  observava  Ophelia,  que  dava  um 
passeio. Desta vez não pensava acompanhá‐la. A noite passada lhe tinha azedado o 
ânimo  e  assim  seguia  ainda,  não  tinha  vontade  de  jogar,  como  ela  esperava  que 
saísse à neve. Não obstante, não podia evitar observá‐la. 
    Tinha  saído  o  sol.  A  capa  de  neve  fresca  que  tanto  gostava  Ophelia  já  não 
duraria muito. Bartholomew tinha comentado que, embora ali nevasse bastante no 
inverno,  não  estava  acostumado  a  fazê‐lo  tanto  de  uma  só  vez.  Raphael  estava 
contente com a ocasião. Se não houvesse neve no chão no dia anterior, a carruagem 
de  Ophelia  não  teria  acabado  em  uma  sarjeta  e  ela  bem  poderia  ter  conseguido 
escapar. 
    Amanda  tinha  partido  a  primeira  hora  da  manhã,  muito  zangada  para 
despedir‐se  dele,  sequer.  Raphael  entregou  a  Albert  uma  carta  dirigida  a  seu 
administrador,  que  lhe  pagaria  uma  anuidade  completa  antes  de  aceitar  sua 
“demissão”,  se  conduzisse  Amanda  a  Londres  sã  e  salva.  Não  eram  as  cem  libras 
pelas quais Albert jogou o emprego, mas, em todo caso, era muito mais do  que  o 
jovem merecia. 
    Enquanto  seguia  com  o  olhar  cada  passo  que  dava  Ophelia,  sem  querer, 
levou  os  dedos  à  boca  para  chupá‐los.  A  noite  passada  tinha  dado  um  murro  na 
parede  de  seu  quarto  para  comemorar  sua  estupidez.  Tinha  deixado  escapar  a 
oportunidade de fazer amor com ela! E foi ela quem o propôs! 
    O  ocorrido  ainda  lhe  parecia  impossível  de  acreditar  mas,  depois  de  certa 
consideração,  já  não  o  surpreendia  tanto.  Ophelia  em  modo  algum  se  podia 
comparar  com  as  demais  debutantes,  e  não  só  devido  a  sua  excepcional  beleza. 
Havia  visto  exposta  às  sofisticações  de  Londres  muito  antes  do  devido.  Inclusive 
começou a receber propostas de matrimônio antes de terminar seus estudos. 
    Enquanto  que  isso  era,  sem  dúvida,  culpa  do  pai,  não  obstante,  dotava  a 
Ophelia  de  uma  visão  das  coisas  que  careciam  as  moças  normais  de  sua  idade. 
Raphael  não  duvidava  da  seriedade  de  sua  atitude  na  noite  anterior.  Estava 
convencido,  e  não  queria  se  importar  muito  com  quem  poria  a  prova  sua  teoria. 
Simplesmente, ele estava perto. E esta era a causa principal de seu mau humor essa 
manhã. 
    Não  tinha  intenção  alguma  de  estabelecer  laços  afetivos  com  ela  ou  de 
manter uma relação, por breve que fosse, embora estivesse acostumado a ter que 
rejeitar  às  mulheres  e,  até  o  momento,  sua  experiência  com  Ophelia  apontava 
exatamente  ao  contrário.  Ela  não  desejava  nenhum  tipo  de  contato  com  ele, 
preferiria  estar  o  mais  longe  possível.  As  poucas  tentativas  de  aproximação  que 
Raphael  não  pôde  reprimir  não  tinham  mudado  as  coisas.  Ao  menos,  ela  poderia 
ter  dado  alguma  indicação  de  que  o  desejava  a  ele  pessoalmente,  em  lugar  de 
afirmar que qualquer homem serviria para seu extravagante experimento. 
    ‐Sinto muito ontem à noite ‐ disse ela a suas costas‐. Simplesmente falei sem 
pensar. 
    As  reflexões  de  Raphael  o  tinham  distraído  o  tempo  suficiente  para  não 
perceber que ela voltava para a casa. Deu a volta e a viu tirar o casaco e deixá‐lo em 
uma cadeira antes de aproximar‐se da lareira. 
    ‐Não se preocupe ‐ respondeu ele‐. Tirou a neve das botas? Se encharcarem, 
não poderá esquentar os pés. 
    ‐Sim, eu gosto de chutar o chão. 
    ‐Imagino. 
    Ophelia lhe lançou um olhar, mas deve ter decidido não reagir ao tom seco 
de sua voz. Aproximou as mãos do fogo. Essa manhã usava um vestido que Raphael 
não tinha visto antes. Como a maioria de seus vestidos, com decote baixo e mangas 
curtas  bufantes,  era  mais  apropriado  para  um  clima  de  verão.  Embora  assim 
vestissem  a  maioria  das  jovens  que  ele  conhecia,  porque  as  casas  estavam 
acostumadas ser muito quentes no inverno e as moças saíam pouco. A cor lavanda 
realçava o tom rosa de suas bochechas, sem dúvida, devido ao passeio ao ar livre. O 
vestido  a  favorecia  embora  possivelmente  se  prendesse  muito  ao  peito.  Raphael 
gemeu  baixo.  Pressentia  que  a  partir  de  agora  todos  seus  pensamentos  sobre  a 
Ophelia teriam uma conotação sexual. 
    Foi fechar a porta que a jovem tinha deixado aberta ao entrar. 
    ‐Necessitamos intimidade? ‐perguntou ela. 
    ‐Não, só evitar que o calor escape ao saguão. ‐Entretanto, a intimidade era o 
que procurava, e o fato de que sua tia não desceria em várias horas lhe assegurava 
ter intimidade para momento‐. Parece rígida. 
    ‐Já não, obrigada. ‐Com as mãos já quentes, aproximou‐se do sofá e sentou ‐. 
Não pude me despedir de sua irmã. 
    Raphael atravessou o aposento para sentar‐se a seu lado. 
    ‐Nem  você  nem  ninguém.  Partiu  zangada  e  sem  dizer  adeus.  E  como  está 
hoje sua sublime serenidade? Ainda persiste? 
    Ophelia lhe lançou outro olhar curioso, mas respondeu: 
    ‐É obvio. Começo a suspeitar que está equivocado e que será permanente. 
    Raphael encolheu os ombros. 
    ‐Minhas opiniões não são mais que isso e não pretende ser infalíveis. 
    ‐Que planos temos para hoje? 
    ‐Por que não tentamos passar o dia sem contar mentiras, nenhum dos dois. 
    Suas palavras a fizeram franzir o cenho. 
    ‐Isso significa que esteve mentindo. Sobre o que? 
    ‐Bem  ao  contrário,  querida.  Depois  de  reconhecer  que  não  te  importa 
mentir dei por feito que é o que faz. 
    ‐Equivoca‐se.  Decidi  que  só  conseguiria  sair  daqui  se  contasse  toda  a 
verdade. 
    ‐Mas  verá  inclusive  isso  seria  uma  mentira  ‐  assinalou  Raphael‐.  Como 
distinguir  a  diferença?  Uma  vez  empreendido  o  caminho  das  mentiras  ninguém 
acredita em suas palavras. Não vê? 
    Ophelia se apoiou no respaldo com um sorriso malicioso. 
    ‐O que vejo é que quer me zangar. Boa tentativa, mas não dará resultado. 
    É o que fazia? A ideia era muito boa, não obstante, ele insistiu: 
    ‐O que disse é válido. 
    ‐Sim,  é,  estou  de  acordo.  Mas,  verá,  convivi  com  esta  desconfiança  quase 
toda a vida ‐ disse Ophelia‐. Quando descobre que ninguém é sincero contigo, nem 
sequer  seus  próprios  pais,  já  não  se  importam  que  outros  acreditem  ou  não. 
Simplesmente, não tem importância. Trata‐se de devolver a bola. 
    ‐De verdade pensa que não importa? 
    Ophelia ruborizou. 
    ‐Muito  bem,  suponho  que  às  vezes  sim.  Agora,  por  exemplo.  É  certo  que 
decidi que a sinceridade é a única forma de tratar contigo, mas, para ser sincera, foi 
porque não me ocorria outra maneira de sair daqui. 
    Raphael não pôde reprimir a risada. Às vezes, ela era tão cândida... Ophelia o 
surpreendeu, entretanto, ofendendo‐se com sua risada. 
    ‐Não  é  divertido.  Toda  esta  situação  não  diverte.  E  devo  dizer  que  não 
parece ser tão fácil sendo sincera quando estou acostumada a... 
    ‐Caçar as pessoas com suas mentiras? 
    Ela conteve o fôlego e o olhou com jeito irritado. 
    ‐Realmente  tem  duas  caras,  não  é  certo?  Diverte  e  distrai  com  sua 
jocosidade entretida só para poder se aproximar pelas costas e ir direto na jugular! 
Parece‐me incrível que tenha conseguido que esqueça esta sua característica. 
    ‐Já não está tão serena? 
    ‐Não, maldição! 
    ‐Bem ‐ disse ele e a sentou em seu colo. 
 
Capítulo 25
   
    A ira de Ophelia reapareceu com uma celeridade impressionante. Foi como 
se tivesse escondida atrás de um pano de fundo tecido com suas próprias ilusões, e 
o  pano  de  fundo  se  abriu  bruscamente,  deixando‐a  exposta  a  um  público  que 
continha todas suas emoções amargas e que aplaudia o fato de ela não puder evita‐
las  por  mais  tempo.  Isto  a  enfureceu  e  Ophelia  dirigiu  sua  ira  contra  quem 
correspondia, o instigador que tinha aberto o pano de fundo. 
    Com a mesma celeridade, entretanto, a boca de Rafe se fechou sobre a sua e, 
embora  Ophelia  lhe  golpeasse  o  ombro  com  o  punho  uma  vez  antes  que  a 
abraçasse com muita força para repetir o golpe, logo se encontrou lhe agarrando a 
cabeça  com  ambas  as  mãos  e  lhe  devolvendo  os  beijos  com  paixão  explosiva. 
Maldito! Não lhe cabia dúvida de que a tinha provocado deliberadamente, embora 
nesses momentos não se importasse. 
    Raphael se reclinou no sofá e, sem muita dificuldade, a fez  se estender em 
cima de seu corpo. Nem por um instante interrompeu o beijo que a excitava. Essa 
posição  lhe  oferecia  acesso  total  ao  corpo  dela  e,  posto  que  fosse  óbvio  que  não 
fazia  falta  mantê‐la  aprisionada,  porque  ela  correspondia  plenamente  ao  beijo, 
tinha as mãos livres para lhe acariciar as costas e mais abaixo. E mais abaixo foi. 
Logo  lhe  rodeou  ambas  as  nádegas  com  as  mãos  e  começou  a  esfregá‐la 
brandamente sobre a dura proeminência que se insinuava entre suas pernas. 
    Com este gesto descobriu um ponto incrivelmente sensível..., nela. Cada vez 
que roçava com sua ereção, Ophelia experimentava uma pequena comoção, que a 
impulsionava  a  dar  um  salto  em  cima  dele.  Não  podia  evitar,  não  tinha  nenhum 
controle sobre aquela reação, que elevava sua paixão a novas cotas, tanto que logo 
se encontrou esfregando‐se com força contra o corpo dele. 
    O  calor  que  emanava  entre  ambos  se  intensificou.  Ophelia  desejou  que  no 
salão  estivesse  mais  fresco,  que  ele  não  tivesse  fechado...  a  porta.  Uma  ideia 
sombria que, assim que surgiu, impôs‐se. 
    Detestava  pôr  fim  ao  que  faziam,  mas  o  decoro  tinha  aparecido  em  sua 
cabeça e, finalmente, ela exclamou: 
    ‐Alguém poderia entrar... 
    ‐Fechei com chave. 
    A  ansiedade  que  se  apoderava  dela  por  um  momento  se  dissipou 
imediatamente. Não necessitava mais para apartar o temor de serem descobertos e 
desfrutar plenamente do que Raphael fazia. 
    Lentamente, subia sua saia. Quando, de repente, modificou sua posição não 
havia  tecido  que  lhe  impedisse  de  colocar‐se  entre  as  pernas  dela.  Que  sensação 
tão embriagadora, tê‐lo ali! Remexeu‐se em seu interior e pareceu desenroscar‐se, 
propagando  uma  nova  onda  de  calor,  que  incrementou  a  tensão  sensual  que  a 
embargava. 
    Todos  os  sentidos  de  Ophelia  se  aguçaram  até  alcançar  uma  sensibilidade 
intensa.  Estava  saboreando,  seu  sabor  de  menta  pelo  chá  que  tinha  tomado  essa 
manhã,  estava‐o  cheirando,  aroma  de  almíscar  picante!  O  cabelo  que  ainda 
agarrava  não  era  áspero  absolutamente,  parecia  seda  fina.  Jamais  o  teria 
imaginado. E, cada vez que o ouvia gemer, sentia a imperiosa necessidade de fazer 
o mesmo, tanto a excitava ter nele o mesmo efeito que Raphael tinha nela. Mas o 
que sentiu quando abriu os olhos e viu o intenso calor no olhar dele... Como podia 
excitá‐la tanto o simples descobrimento do muito que a desejava? 
    Cada  respiração  parecia  mais  trabalhosa.  Não  pelo  peso  de  Raphael  sobre 
seu corpo, ah, não, isso a excitava em si mesmo com uma sensação centrada, sobre 
tudo, entre suas pernas. Embora tivesse que conter a respiração, não podia evitá‐
lo, cada vez que Raphael tocava um novo ponto sensível de seu corpo, e encontrava 
tantos...! Os quadris de Raphael não ficaram quietos nem por um momento e suas 
mãos, tampouco. 
    Acariciou a orelha com os dedos, desenhou uma linha brincalhona ao longo 
de  seu  pescoço  com  um  gesto  que  a  fez  estremecer  de  prazer,  e  não  lhe  parecia 
difícil deslizar o decote de seu vestido debaixo de seus seios. A palma de sua mão, 
que se fechou em torno da área macia, que ardia de calor embora aquilo não fosse 
nada  comparado  com  o  calor  de  sua  boca  quando,  de  repente,  deixou  de  beijá‐la 
para lamber um de seus seios. Ophelia se esqueceu de  respirar.  Rodeou a cabeça 
com  ambas  as  mãos  e  seu  corpo  se  arqueou  sobre  o  corpo  dele.  Pareceu‐lhe  que 
explodiria em chamas a qualquer momento! 
    Raphael  lutou  com  a  roupa  que  ainda  se  interpunha  entre  ambos.  Ophelia 
ouviu o ruído de tecido que se rasgava. Seria sua calcinha? Que impaciente! Quase 
começou a rir, mas não pôde porque ele voltou a beijá‐la. Então sentiu uma pressão 
nova entre as pernas que fez aflorar um ronronar em sua garganta, mas que, quase 
no  mesmo  instante,  tornou‐se  dolorosa.  Quis  afastar  a  dor,  mas  a  pontada  que  a 
seguiu aumentou até o ponto de fazê‐la gritar. Com um impulso brusco de Raphael, 
entretanto, a dor parecia que desaparecia deixando em seu lugar uma sensação de 
plenitude apertada que ela ainda não sabia como interpretar. 
    A  magia  havia  se  quebrado  e  ele  se  retirou  ligeiramente  para  estudar  sua 
reação. Compreensivelmente, Ophelia o olhava com ira, com a sensação de ter sido 
traída. 
    ‐Foi...  ‐começou  a  dizer  ele,  mas  retificou  com  um  suspiro‐:  Não  voltará  a 
ocorrer, dou‐te minha palavra. 
    ‐Que não voltará a ocorrer? A dor? 
    ‐Sim ‐ disse Raphael‐. Foi seu corpo, que lutava para segurar sua inocência. 
Não desejava, realmente, retê‐la nesse momento, equivoco‐me? 
    Ophelia compreendeu tudo e disse muito irritada: 
    ‐Não, embora minha mãe deveria ter me dito que haveria dor,  em lugar de 
limitar‐se  a  dizer  que,  se  tivesse  sorte,  desfrutaria  das  relações  matrimoniais  ou, 
mais  exatamente,  de  fazer  amor.  Disse  que  nem  todas  as  mulheres  o  conseguem. 
Suponho que não tive sorte. 
    Soube que Raphael se esforçava para reprimir a risada. Teve o impulso de 
esbofeteá‐lo. Isso não era divertido. Que tanto prazer terminava em uma nota tão 
desagradável... 
    ‐Acabamos? ‐perguntou rigidamente. 
    ‐Por Deus, espero que não. Tenho a impressão de que sua mãe  não entrou 
nos detalhes. Devia te dizer que a sorte nada tem a ver com isto. 
    ‐Então? 
    ‐O  que  conta  é  a  habilidade  de  seu  parceiro  ‐  disse  ele  com  uma  careta‐. 
Demonstro? 
    Moveu‐se  dentro  dela  enquanto  falava.  Os  olhos  de  Ophelia  se  abriram 
desmesuradamente. A sensação que aquela plenitude provocou foi completamente 
prazerosa, de fato, quase muito prazerosa. Sua paixão aflorou no ato e se apoderou 
totalmente dela. O que Raphael fazia superava sua pouca experiência. Acaso com o 
acontecido  no  dia  anterior  na  carruagem  acreditou  ter  descoberto  o  prazer 
supremo? Os deliciosos e lentos impulsos de Raphael roçavam nervos que ela não 
sabia  que  possuía.  Tão  fundo  era  o  prazer  que  a  transpassava,  tão  intenso,  que 
parecia  senti‐lo  por  todo  o  corpo  até  que  a  tensão  aumentou  até  um  ponto 
explosivo  e  explodiu,  palpitando  deliciosamente  dentro  dela,  drenando‐a  até  o 
esgotamento. 
    Mal  percebeu  que  ele  culminou  ao  mesmo  tempo.  Agora  a  invadia  uma 
languidez tão sensual que não tinha desejo de se mover. Experimentou um instante 
de  intensa  ternura  pelo  homem  que  ainda  tinha  entre  seus  braços.  A  estranha 
emoção quase fez aflorar lágrimas em seus olhos embora não fossem de tristeza a 
não  ser  todo  o  contrario  um  sentimento  único  e  sem  precedentes,  jamais  havia 
sentido nada parecido por ninguém. 
    ‐Foi  muito  mau  ‐  disse  quando  recuperou  o  fôlego.  Ainda  lhe  acariciava  o 
cabelo com os dedos. 
    ‐Sim,  fui  ‐  admitiu  com  a  boca  ainda  em  seu  pescoço‐.  Mas  deu  resultado? 
Recuperou a serenidade? 
    ‐Não tenho a menor ideia, sinto muito prazer para pensar em outra coisa. 
    Ele se incorporou para olhá‐la. Estava sorridente. 
    ‐Desfrutou? 
    ‐Sim! Não pode imaginar quanto. 
    ‐Ah, claro que posso ‐ afirmou Raphael‐. Ou acredita que os  homens fazem 
isto para passar o tempo? 
    Ophelia riu. Sentia‐se tão efervescente que sentia saudades de não rir como 
uma tola. Nesse momento, entretanto, lhe ocorreu uma ideia decepcionante. 
    ‐É  bastante  evidente  que  meu  temperamento  continuará  manifestando‐se, 
não é certo? 
    ‐Sim,  embora  me  atrevesse  a  afirmar  que  agora  poderá  controlá‐lo  muito 
melhor.  Disso  se  tratava,  querida.  Não  que  nunca  volte  a  se  zangar,  coisa  muito 
pouco  provável  em  qualquer  caso,  não  só  no  teu,  mas  também  de  que  suas 
emoções  voláteis  não  fossem  canalizadas  para  uma  única  saída,  feito  que  as 
tornava muito cáusticas e negativas. 
    ‐Quer dizer, não precisava pôr a prova..., desta maneira ‐ adivinhou ela. 
    Raphael sorria de novo. 
  ‐Com o risco de pôr fim a um momento precioso... ‐beijou‐a docemente nos 
lábios  para  que  não  pusesse  em  dúvida  suas  palavras‐,  provavelmente  não. 
Entretanto, basta recordar a serenidade que experimentou ontem  para saber que 
fazer  amor  tem  algumas  vantagens  adicionais,  pelo  menos  para  ti.  A  prova  já 
demonstrou  que  te  ajudará  a  dominar  suas  paixões,  ao  menos,  por  um  tempo. 
Conseguiu estupendamente, não acredita? 
    ‐Certamente. Foi incrível. 
    ‐E agora? 
    ‐Volto a me sentir magnificamente serena. 
    Raphael assentiu. 
    ‐Neste  sentido,  pois,  diria  que  uma  nova  prova  era  necessária  e  que  se 
realizou com êxito. E, é obvio, pode contar com minha ajuda sempre que necessitar 
liberar algumas dessas paixões ‐ completou Raphael. 
    ‐Muito generoso de sua parte. 
    ‐Estou de acordo. 
  A  brincadeira  despertou  nela  o  desejo  de  abraçá‐lo.  Em  realidade,  o  desejo 
despontou no instante que viu seu primeiro sorriso. Estava muito satisfeita com ele 
nesses  momentos  e  sentia  uma  intimidade  que  nunca  tinha  experimentado  com 
outros  homens.  Era  uma  amizade  ou...?  Não,  não  pensaria  nisso.  Não  queria 
analisar mais a fundo seus sentimentos por ele, quando sabia que nunca a levariam 
a nada. Devia deixar‐lhe claro. Ele não tinha por que temer que ela tentasse tirar 
partido do que acabava de acontecer entre ambos. 
    Afastou o olhar de Raphael, inclusive sentiu que ruborizava ante o tema que 
estava a ponto de abordar. 
    ‐Sobre o que aconteceu ‐ disse Ophelia‐, Não me vejo comprometida, assim 
não  se  preocupe.  A  verdade  é  que  não  me  casaria  contigo  em  nenhuma 
circunstância. Nego‐me a dar essa satisfação a meu pai. O que aconteceu será nosso 
segredo. Ninguém tem que saber. 
  Lançou‐lhe um estranho olhar. 
    ‐Muito... nobre de sua parte. 
    ‐Absolutamente.  É  muito  vingativo,  embora  a  vingança  não  vá  dirigida 
contra ti. 
    ‐Entendo. ‐Raphael começou a franzir o cenho. 
    Ophelia adivinhou o curso de seus pensamentos. 
    ‐Nem te ocorra falar com meu pai, da falta de relação ou dos sentimentos 
vingativos  resultantes  de  minha  parte.  O  que  há  entre  ele  e  eu  fica  ali,  não  é 
assunto seu. 
    ‐As  mulheres  doces  e  amáveis  não  pensam  assim  ‐  assinalou,  apesar  da 
advertência. 
    ‐As mulheres doces e amáveis não têm pais como o meu. 
    Ele fez uma careta. 
    ‐Tem razão. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 26
  
    Ela  alisou  sua  roupa  sem  dificuldade,  como  se  nada  tivesse  acontecido  de 
impróprio na sala. Rafe a ajudou puxar o corpinho do vestido cobrindo os seios e 
deixou um beijo leve na parte superior, que estava inevitavelmente descoberto por 
causa  do  decote.  Ophelia  com  as  meias  enroladas,  amassadas  em  torno  de  seus 
tornozelos, quase começou a rir quando viu que ainda usava botas. Pensando bem, 
era  surpreendente  que  Rafael  não  as  tivesse  tirado  para  fazer  amor.  Ela  não  deu 
importância ao assunto, mas obviamente ele sim. 
    Antes de abrir a porta, Raphael a atraiu para si e lhe deu um último beijo. 
    ‐Realmente,  acredito  que  deveríamos  fazê‐lo  na  cama  alguma  vez.  ‐Seu 
sorriso era um tanto perturbador‐. Onde possa dedicar o tempo necessário ao seu 
prazer. Precipitar‐me como um colegial inexperiente... 
    Selou os lábios com o dedo. 
    ‐De inexperiente não tem nada, asseguro‐lhe. 
    ‐Muito  amável  de  sua parte,  mas ‐  disse  ele‐,  quando  estou  contigo  parece 
que perco o tato. 
    ‐Buscas mais elogios? 
    ‐Parece que sim? ‐respondeu Raphael com uma gracinha. 
    ‐Em  seu  lugar,  eu  tomaria  cuidado  antes  de  me  chamar  "amável"  ‐brincou 
ela‐. Ou se veria obrigado a me levar a Londres imediatamente, cumprida a missão. 
    Ele tossiu, abriu a porta e a empurrou brandamente para fora. 
    ‐Vá trocar seu vestido antes do almoço. Minha tia descerá logo. 
    ‐Tenho que me desfazer das provas. ‐Ophelia já sorria. 
    ‐Quer que eu faça isso? 
    Ela apertava na mão sua calcinha rasgada, já que o vestido não tinha bolsos 
onde guarda‐las, embora preferisse que não a pegassem com ela na escada. Olhou a 
lareira atrás de Raphael. 
    ‐Importaria  jogá‐la  no  fogo  por  mim?  Não  posso  permitir  que  Sadie  a 
encontre. 
    ‐É obvio. 
    Ophelia a entregou com um ligeiro rubor e correu escada acima. Não seria 
tão  fácil  desfazer‐se  de  suas  anáguas  manchadas.  Não  bastaria  lava‐las  com  água 
para tirar as máculas de sangue virginal e Sadie sabia muito bem que não estava 
nessa  época  do  mês.  No  momento,  decidiu  esconder  as  anáguas  debaixo  do 
colchão. Assim que tivesse a oportunidade às cortaria em partes e jogaria também 
ao fogo. Provas destruídas. Ninguém saberia nunca. 
    Trocou de vestido, no entanto, quando percebeu as rugas que  marcavam o 
de cor lavanda. O fez em uma velocidade assombrosa. Estava de volta ao salão em 
menos  de  quinze  minutos,  para  passar  mais  tempo  com  Rafe.  Com  grande 
decepção descobriu que ele não estava onde o tinha deixado. 
    Aproximou‐se  da  janela  para  esperar  sua  volta.  Incessantemente  lançava 
olhares  para  o  sofá  onde  tinham  feito  amor.  Não  se  acreditava  capaz  de  voltar  a 
sentar‐se ali sem ruborizar. 
    Começava  a  se  acostumar  com  a  ideia.  Já  era  uma  mulher.  Fazia  anos  que 
tinha  a  sofisticação  de  uma  mulher,  mas  agora  se  converteu  em  uma. 
Curiosamente,  não  se  sentia  diferente...  Não,  isso  não  era  verdade.  Sentia‐se 
maravilhosamente  bem.  Mas  não,  na  realidade,  seus  sentimentos  nada  tinham  a 
ver  com  o  fato  de  cruzar  a  linha  da  iniciação  sexual  e  sim  com  quem  a  tinha 
ajudado  a  cruzá‐la.  A  primeira  vez,  agora  percebia,  poderia  ter  sido  uma 
experiência horrível, mas Rafe não tinha permitido que fosse. Tinha procurado que 
ela pudesse recordá‐la com um sorriso. E tinha a impressão de que o sorriso seria 
muito amplo durante muito tempo. 
    Rafe  desceu  ao  salão  acompanhado  por  sua  tia.  Também  tinha  trocado  de 
roupa  e  se  penteado,  as  carícias  de  Ophelia  tinham  lhe  alvoroçado  o  cabelo  por 
completo.  Tomara  que  ninguém  tenha  percebido  antes  que  o  arrumasse.  Este 
homem  nunca  aparecia  desalinhado,  certamente,  não  como  estava  quando  ela  o 
deixou pouco antes. 
    Ante  a  presença  de  Esmeralda  não  tiveram  mais  oportunidade  para 
conversar sobre o que tinham feito, embora Ophelia percebesse o sorriso cúmplice 
que lhe dirigiu, e que devolveu. Seu maravilhoso estado de ânimo perdurou com o 
passar do almoço. Nem sequer se alterou quando depois de comer Raphael sugeriu 
que se reunissem em seu escritório em lugar de no salão. 
    ‐Acredito que nestes momentos não poderia me concentrar ali ‐ admitiu em 
voz baixa enquanto cruzava com ela o vestíbulo. 
    Ophelia o entendeu perfeitamente. Tampouco lhe pareceu que ele planejava 
outro  encontro  íntimo,  que  lástima.  Cada  vez  que  Raphael  sugeria  que  se 
reunissem a sós em outro recinto era para falar de seus pecadinhos passados. Hoje 
não  lhe  importava.  Certamente,  hoje  suportaria  qualquer  tema  que  ele  quisesse 
tratar. 
    ‐Conversaremos  sobre  Sabrina‐  disse  Raphael  quando  ela  ocupava  a 
poltrona de frente a sua escrivaninha. 
    Qualquer tema menos esse. 
    ‐Deixemos passar. 
    O disse com um sorriso. Não queria lhe dar a impressão de pôr dificuldades. 
Suas  impressões  sobre  Sabrina  Lambert  eram  muito  contraditórias,  no  entanto, 
realmente preferiria não as analisar. 
    Rafe não disse nada mais, manteve o olhar fixo no abre cartas que tinha nas 
mãos e que fazia girar entre os dedos. Ophelia sabia o que pretendia fazer, utilizar 
o silêncio contra ela. Desta vez não daria resultado... 
    ‐Cometi  a  estupidez  de  lhe  dar  uma  oportunidade  ‐  acrescentou  Ophelia 
depois de alguns minutos de silêncio. ‐ Pareceu‐me tão doce quando veio a Londres 
com suas tias para passar a temporada em nossa casa... No princípio duvidei dela, 
mas logo pensei que sua doçura não era falsa, porque era uma moça do campo, e 
acabei  transgredindo  minha  própria  regra.  Pensei  que  poderíamos  ser  amigas de 
verdade. 
    Raphael emitiu um prolongado suspiro. 
    ‐Este  é,  pois,  um  daqueles  casos  em  que  apunhalou  a  uma  amiga  pelas 
costas? Devo admitir que esperava ouvir uma desculpa mais convincente. 
    Parecia  tão  decepcionado  com  ela  que  Ophelia  sentiu  o  peito  se  apertar. 
Que demônios...? Nem sequer sabia a que se referia! 
    ‐Explique, por favor. Por que apunhalei pelas costas? 
    ‐Voltou a mencionar o escândalo de sua família, que já estava esquecido, e o 
fez com toda a má intenção. 
    ‐Não seja absurdo ‐ respondeu Ophelia bruscamente‐. Fiz‐lhe um favor. 
    Raphael arqueou uma sobrancelha com ceticismo. 
    ‐Arruinando suas possibilidades de encontrar um bom marido em Londres? 
Eu preferiria renunciar a este tipo de favores. 
    Ophelia se apoiou no respaldo suspirando a sua vez. 
    ‐Muito  bem,  vejo  que  tenho  que  lhe  explicar.  Certamente  não  acreditará, 
mas tentava lhe poupar de sofrimentos maiores no futuro. 
    ‐Sofrimentos? ‐perguntou Raphael. 
    ‐Sim. Não queria vê‐la sofrer apaixonando‐se por alguém com quem depois 
não poderia casar, por culpa do escândalo. Era inevitável que soubessem. Quando 
fosse introduzida nos círculos sociais alguém acabaria se lembrando do nome dos 
Lambert. E foi um escândalo muito tolo. Era absurdo supor que todos os membros 
de sua família, Sabrina inclusive, acabariam tirando a vida só porque o tinham feito 
alguns  de  seus  ancestrais.  Mas  já  sabe  como  são  as  pessoas.  Alguns  acreditam 
nessas  tolices.  Ocorreu‐me  saca‐lo  a  luz  e  demonstrar  a  estupidez  da  colocação. 
Teria  rido  de  qualquer  um  que  desse  crédito  ao  rumor.  Os  falatórios  logo 
cessariam e nunca mais se falaria sobre o tema. 
    ‐Santo Deus! Pretende me dizer que a ajudava? ‐exclamou Raphael. 
    Ophelia apertou os dentes. 
    ‐Não tem que se mostrar tão incrédulo. Essa foi a ideia..., no princípio. 
    ‐Ah ‐ assentiu ele‐. Agora já entramos na parte maliciosa? 
    ‐Não, já vejo que agora tocaremos em meu último defeito. Este e meu mau 
gênio são, provavelmente, os piores. 
    ‐E qual é esse defeito? 
    ‐O ciúme. 
    ‐É  consciente  do  quão  absurda  parece  esta  afirmação?  ‐perguntou  ele 
incrédulo.  ‐  Provavelmente  seja a mulher  mais  bonita  da  Inglaterra.  Cada  mulher 
que conhece sente ciúme de você. Inclusive minha própria irmã! De todas elas, é a 
única que não tem razões lógicas para ter ciúmes de ninguém. 
    ‐Tudo  o  que  disse  é  verdade.  Sei  muito  bem.  Mas  é  completamente 
irrelevante. Saber que não tenho razões para sentir ciúmes não me impede de não 
senti‐lo. Sei que é ridículo. E acontece ante coisas ínfimas. Não obstante, acontece! 
Quando este sentimento aparece aí fica, e não sei como lhe fazer frente. 
    ‐Está me dizendo que sentiu ciúmes de Sabrina? 
    ‐Sim.  Foi  Mavis  quem  despertou  meus  ciúmes  quando  viu  que  três  dos 
meus  admiradores  revoavam  ao  redor  de  Sabrina  em  um  baile.  Por  isso,  embora 
pretendesse mencionar o escândalo Lambert com boas intenções, acabei fazendo‐o 
com  despeito.  Teria  superado  meu  ciúme  e  prosseguido  com  o  plano  inicial,  mas 
Sabrina e suas tias decidiram voltar para casa. E, posto que minha família recebeu 
o  convite  para  Summers  Glade  para  que  conhecesse  Duncan,  fizemos  a  viagem 
juntas.  Para  então  tinha  tanto  medo  de  conhecer  o  "bárbaro"  que  me  esqueci  de 
subtrair  importância  ao  escândalo  de  Sabrina.  Embora  já  não  importe,  como  diz, 
vai se casar com Duncan. 
    ‐Ainda  custo  acreditar  que  sentiu  ciúme  de  Sabrina.  ‐de  repente,  Raphael 
pareceu  refletir  e  acrescentou:  ‐  Não  foi  a  única  vez  que  sentiu  ciúmes,  não  é 
verdade? 
    Ophelia ruborizou. 
    ‐Não, senti novamente quando vi que Duncan a rondava embora  pensasse 
que o fazia para me deixar com ciúme. 
    ‐E? 
    ‐Tudo  bem,  também  quando  a  vi  várias  vezes  contigo.  E  sim,  estava  com 
ciúmes naquele dia quando te disse que pareciam... 
    ‐Não precisa repetir ‐ apontou ele. 
    ‐Muito bem, mas, já que sacou o tema, direi por que não queria falar sobre 
Sabrina. Porque meus sentimentos respeito dela são muito contraditórios. Quando 
não me devora o ciúme, a acho simpática! 
    ‐É compreensível. Todo mundo a acha simpática. 
    Ophelia arqueou uma sobrancelha quando Raphael se calou. 
    ‐Não terminará a frase me recordando que ninguém me acha simpática? 
    Ele sorriu. 
    ‐Na  realidade,  querida,  tal  afirmação  já  não  seria  certa,  de  modo  que,  não, 
não posso dizê‐lo. ‐Ophelia começou a se ruborizar, convencida de que falava de si 
mesmo,  de  que  ele  já  não  a  achava  antipática.  Raphael,  em  troca,  concluiu:  ‐  A 
minha tia gosta de você. 
    Por  alguma  razão  que  não  compreendia,  Ophelia  se  sentiu  ofendida,  mas 
logo afastou a sensação e disse: 
    ‐Não me entendeu. Eu não gosto das outras pessoas de quem senti ciúmes. 
Sabrina é a única que eu gosto. Por isso, cada vez que ficava ciumenta me parecia 
traí‐la,  fazendo  com  que  piorasse  as  coisas.  Assim  que  desaparecia  o  ciúme, 
entretanto,  me  recriminava  por  minha  estupidez  e  voltava  a  achá‐la  simpática. 
Sentimentos muito incomuns em mim. 
    ‐Absolutamente incomuns. 
    ‐Provavelmente  seja  assim  em  outros  casos,  mas  para  mim  era  muito 
incomum ‐ insistiu ela. 
    ‐Talvez esperasse que ambas ainda pudessem ser amigas. 
    ‐O "talvez" é desnecessário. É verdade que ainda pensava que poderíamos 
ser verdadeiras amigas e que ainda desejava ajudá‐la. 
    ‐Quando necessitou ajuda? 
    ‐Quando pareceu que dava muita importância ao interesse de Duncan por 
ela ‐ disse Ophelia. 
    ‐Seu interesse era autêntico. 
    ‐Agora  eu  sei  ‐  respondeu  ela  com  impaciência‐,  mas  como  demônios  iria 
saber,  que  estavam  apaixonando  de  verdade?  Disse‐lhe  que  Duncan  tinha  me 
beijado na estalagem onde nos reunimos para me desculpar. 
    ‐Mentira. 
    ‐Certamente, embora uma mentira de pouca importância, destinada a evitar 
que lhe fizessem mal, não a feri‐la. 
    ‐Pensava me referir a algumas de suas mentiras. Essa era uma delas. 
    Ophelia levantou os olhos para o teto. 
    ‐Por que não me surpreende? E as outras? 
    ‐Só conheço mais uma ‐ comentou Raphael. 
    ‐A lista não é longa? Achei que estaria melhor preparado. 
    ‐Já estamos nos zangando? 
    Ophelia piscou, mas logo sorriu. 
    ‐Absolutamente.  Sinto‐me  um  pouco  incomodada,  mas  agora  que 
menciona... –encolheu os ombros. ‐ Já não. 
    Raphael se reclinou no assento com ar de surpresa. 
    ‐Estou surpreso. É toda uma mudança, Phelia. O que te parece? 
    Ela esboçou um sorriso travesso. 
    ‐Eu  adoro.  Parecia  tão  agradável  não  ser  vítima  de  meu  próprio 
temperamento. Qual é a outra mentira que conhece? 
    ‐Há tantas que não sabe? 
    Ophelia refletiu por um momento e logo disse: 
    ‐Acredito que não. Só recordo uma ocasião em que menti deliberadamente 
para  Sabrina.  Chamou‐me  rancorosa  e  eu  neguei,  embora  aquela  fosse, 
provavelmente,  uma  reação  de  rancor,  por  culpa  do  ciúme.  Sabrina  deu  muita 
importância  ao  momento  em  que  Duncan  e  eu  ficamos  noivos  novamente. 
Incomodava‐me, delatava seu interesse por ele, e lhe disse que Duncan insistiu em 
formalizar  o  noivado  assim  que  ela  abandonou  a  casa.  Na  realidade,  é  a  história 
que  o  avô  do  Duncan  queria  que  contássemos,  de  modo  que  nem  sequer  foi 
mentira! Por alguma razão, entretanto, a informação fez muito mal a Sabrina. Não 
sei por que. Sabe você? 
    ‐Não, isso é algo entre Sabrina e Duncan e não é assunto nosso. Admite ser 
rancorosa, então? 
    Ophelia não se surpreendeu que se prendesse ao tema. 
    ‐Sim. Já está contente? ‐disse Ophelia. 
    ‐Não muito. A questão é muito importante, querida, agora que já não nega 
seus defeitos, aprendeu algo de nossas conversas? Ou voltará para Londres para...? 
    ‐Alto aí ‐ interrompeu ela. ‐ Conforme parece, quem não aprendeu nada de 
nossas conversas foi você. Com meu temperamento, o responsável  por exacerbar 
meu ciúme, sob controle, sob um controle quase total nestes momentos..., e admito 
que devo lhe agradecer, como pode pensar que não mudei? 
    ‐Muito  certo.  Não  vejo  razão,  pois,  para  que  permaneçamos  aqui. 
Partiremos para Londres à primeira hora da manhã. 
Capítulo 27
  
    Ophelia deveria sentir‐se enlevada, deveria dar saltos de alegria por voltar, 
finalmente,  para  casa.  Em  troca,  durante  a  viagem  de  volta  a  Londres  teve  que 
reprimir  as  lágrimas  em  várias  ocasiões  e,  sentia‐se  muito  deprimida.  Não 
conseguia entender a razão, salvo que tinha vivido a experiência mais apaixonante 
de sua vida e que pensava que poderia desfrutá‐la de novo, embora já não tivesse 
mais  oportunidades  uma  vez  em  casa.  Não  podia  sentir‐se  tão  mal  unicamente 
porque chegou a seu fim o tempo em companhia de Raphael Locke. 
    Rafe  não  teve  que  conduzir  a  carruagem  nesta  ocasião.  O  empregado  de 
Esmeralda  estava  com  eles  e  lhe  foi  atribuída  a  tarefa,  de  modo  que  Rafe  pôde 
viajar no interior do veículo com as três mulheres. Chegariam à casa de Esmeralda 
antes do anoitecer. Sua tia mantinha um ritmo de conversa constante e Ophelia se 
esforçava  com  apatia  em  participar,  mas  a  dama  não  estaria  com  eles  durante  o 
resto da viagem. Não é que então Rafe e Ophelia ficariam sozinhos. Sadie parecia 
ser uma acompanhante muito eficaz. 
    Concordaram unanimemente passar a noite na casa de Esmeralda em lugar 
de  procurar  uma  estalagem.  Desfrutaram  de  um  jantar  agradável,  o  último  que 
celebravam juntos, e no final a dama mais velha se emocionou. 
    ‐Não  me  despedirei  de  você  pela  manhã.  Eu  não  gosto  de  despedidas. 
Embora gostaria de voltar a te ver outra vez, moça. Desfrutei de sua companhia, de 
verdade que sim. 
    ‐Eu  também  sentirei  falta  da  senhora  ‐  respondeu  Ophelia.  ‐  Tem  certeza 
que não quer vir conosco a Londres para desfrutar do que resta da temporada? 
  ‐Por  Deus,  não!  A  temporada  é  para  os  jovens.  Irei  a  seu  casamento,  entretanto, 
quando encontrar o homem com quem quer passar o resto de sua vida. 
    Se  esse  dia  chegasse.  Em  sua  volta  a  Londres,  Ophelia  não  se  deixaria 
apanhar em compromissos indesejados nem perderia tempo idealizando maneiras 
de livrar‐se deles, mas sim centraria seus esforços em encontrar um marido. Teria 
candidatos  interessantes  a  essas  alturas  da  temporada.  Embora  isto  não 
importasse. Não teria dificuldades em seduzir qualquer homem... 
    Ophelia  reprimiu  a  ideia  bruscamente,  horrorizada  consigo  mesma. 
Realmente  costumava  pensar  assim?  Poder  observar  suas  atitudes  passadas  de 
uma perspectiva tão diferente dava forma a uma experiência esclarecedora. Tinha 
sido  insensível,  indiferente,  egocêntrica.  Realmente  importava  se  considerava 
justificado seu comportamento? Que tratasse a outros como eles a tratavam ou, ao 
menos, como supunha que a tratavam? 
    Agora teria que reconsiderar todas suas relações, inclusive a que tinha com 
seus pais. Até poderia ser agradável e não ficar eternamente zangada com seu pai. 
Ele seria a prova mais dura. Se conseguisse terminar uma só conversa com ele sem 
mostrar sua amargura... 
    Abandonaram  a  casa  de  Esmeralda  na  primeira  hora  da  manhã  seguinte. 
Como Ophelia já supunha, a viagem foi um tanto incômoda sem a tia de Rafe. Ele 
ficou  imerso  em  seus  pensamentos  durante  quase  toda  a  jornada,  e  depois  de 
tentar começar uma conversa algumas vezes, Ophelia abandonou o esforço. 
    Já estavam parando diante de Summers Glade quando descobriu que aquele 
era  seu  destino.  Sadie  estava  dormindo,  e  quando  despertou  e  viu  onde  estavam 
disse o que Ophelia, muda pela surpresa, não pôde dizer: 
    ‐Que demônios fazemos aqui? 
    Rafe riu entre dentes com a expressão de ambas. 
    ‐Só paramos para que eu desça. Suponho que o casal feliz se  casará logo e 
assim economizo a viagem de volta a Londres. 
    ‐Poderia ter mencionado que era esta sua intenção ‐ disse Ophelia com um 
leve tom de reprimenda. 
    ‐Perdoe‐me,  pensei  ter  dito  ‐  respondeu  ele  encolhendo  os  ombros.  ‐ 
Embora,  pensando  bem,  este  seria  um  bom  momento  para  pôr  a  prova  o  que 
aprendeu não parece? Você gostaria de ficar para o casamento? 
    Ophelia não tinha que pensar. Sua resposta foi imediata: 
    ‐Não,  esses  dois  não  acreditarão  que  mudei.  Não  quero  estragar  o  feliz 
acontecimento. Não me importa voltar para casa sozinha. 
    ‐Muito bem, pois. Verei‐te em Londres, dentro de uns dias, provavelmente. 
    Outra surpresa, esta, muito mais inesperada e muito mais agradável. 
    ‐De verdade? 
    ‐É obvio. Sem dúvida, assistiremos às mesmas festas. 
    Não  era  a  resposta  que  Ophelia  esperava  receber,  mas  conseguiu 
dissimular sua decepção. O tempo compartilhado com Raphael tinha chegado a seu 
fim. Ela tinha ganhado muito mais do que esperado daquele plano desatinado. Um 
êxito para Rafe! 
    Sem  mais  cerimônia,  ele  desceu  da  carruagem  e  fechou  a  portinhola.  Já 
estava. Nem despedidas, nem admoestações, nem... 
    A  portinhola  se  abriu  de  novo  e  Rafe,  com  expressão  irritada,  inclinou‐se 
para o interior da carruagem, agarrou‐a pelos ombros e lhe deu um beijo forte na 
boca.  O  desejo  de  Ophelia  despertou  imediatamente  e  ela  experimentou  uma 
deliciosa  sensação  de  satisfação  ao  ver  o  calor  no  olhar  de  Rafe  quando  ele  se 
retirou. Com a mesma brutalidade se foi outra vez. 
    Sadie a estava olhando com as sobrancelhas mais arqueadas do que Ophelia 
tinha visto jamais. Não ruborizou. Estava muito feliz para sentir o menor pudor. 
    ‐Não  pergunte  ‐  foi  à  única  coisa  que  disse  a  sua  donzela,  como  se  isso 
bastasse. 
    Não bastou. 
    ‐Desde quando toma estas liberdades contigo? 
    Ophelia fez uma última tentativa de subtrair importância ao ocorrido. 
    ‐Não foi nada. Tivemos várias discussões acaloradas, durante as quais eu o 
insultei  repetidas  vezes.  Certamente,  foi  sua  maneira  de  dizer  que  não  guarda 
rancor. 
    Sadie aceitou a resposta com um suspiro. 
    ‐Bastaria dizê‐lo. 
    Mas não seria tão apaixonante, pensou Ophelia sorrindo para si mesma. 
Capítulo 28
  
    Não  parecia  ter  nevado  em  Londres  ultimamente.  As  ruas  não  estavam 
cheias  de  lama,  só  úmidas,  como  era  habitual  nessa  época  do  ano.  O  sol  tinha 
despontado  durante  a  última  etapa  da  viagem,  embora  só  um  pouco,  antes  que 
começasse a garoar outra vez. 
    Ophelia  tinha  decidido  passar  a  última  noite  em  uma  estalagem  perto  da 
cidade,  para  chegar  a  sua  casa  no  dia  seguinte  ao  redor  do  meio‐dia,  quando  era 
pouco  provável  encontrar  seu  pai  em  casa.  Tinha  o  costume  de  comer  com  seus 
amigos  no  clube  e  ela  preferia  ter  a  oportunidade  de  acomodar‐se  antes  de 
enfrentar ele e suas perguntas. 
    Não  teve  nenhuma  notícia  de  seu  pai  e  não  sabia  se  estava  ainda  zangado 
porque não levou Duncan ao altar ou se tinha aplacado o interesse que o herdeiro 
dos Locke tinha mostrado por ela. 
    A residência familiar do conde se encontrava na Rua Berkeley, ao norte de 
Hyde Park. Era uma rua tranquila e não muito longa. Em seu extremo ocidental se 
encontrava a Praça Portman e ao leste, e menor a Praça Manchester. Ophelia nunca 
tinha  brincado  em  nenhum  dos  parques.  Brincar  era  para  crianças  e  nunca  lhe 
tinham  permitido  ser  uma  menina  como  as  demais.  Até  onde  alcançava  sua 
memória,  tinham‐na  tratado  como  se  fosse  uma  adulta,  sobre  tudo,  seu  pai.  Sua 
mãe tinha tentado tratá‐la com normalidade, mas Sherman intervinha sempre com 
seus  ditados.  Educou‐a  para  um  matrimônio  de  elite  desde  o  dia  de  seu 
nascimento. 
    Sua mãe estaria em casa, é obvio. Mary poucas vezes abandonava o lar nessa 
época, porque estivesse muito ocupada organizando suas festas. Os amigos iam vê‐
la,  ela  nunca  os  visitava.  Nem  sequer  tinha  acompanhado  Ophelia  no  começo  da 
temporada.  Sherman  insistiu  em  acompanhá‐la  ele  mesmo.  Não  porque  estivesse 
orgulhoso de sua filha, mas sim porque gostava de animar‐se com seus êxitos. Não 
economizou em gastos para seu vestuário de debutante, embora não o fez por ela, 
mas  sim  para  que  seu  brilho  reportasse  a  ele  elogios  por  ter  uma  filha  tão 
excepcional. 
    A  amargura  esteve  a  ponto  de  embargá‐la,  mas  Ophelia  reconheceu  os 
sintomas e pôde reprimi‐la. Agora tinha um objetivo e, quanto antes o alcançasse, 
melhor. Casar‐se‐ia com um homem rico e se veria livre de seu pai. 
    ‐Desfaço  as  malas  ou  prefere  dormir  um  pouco?  ‐perguntou  Sadie  quando 
entraram na grande residência urbana onde foi criada Ophelia. 
    ‐Não estou cansada, adiante, desfaça a bagagem ‐ respondeu a jovem. 
    Suas vozes chamaram a atenção de Mary Reid, que estava no salão. 
    ‐Voltou! Meu Deus com senti sua falta! 
    Mary  Reid  tinha  debilidade  pelos  doces.  Durante  anos  tinha  cedido  a  seu 
apetite  e  agora  estava  muito  roliça.  Uns  centímetros  menor  que  Ophelia  e  três 
vezes mais larga, era uma mulher bondosa, quase muito bondosa. A única ocasião 
em  que  Ophelia  a  ouviu  elevar  a  voz  foi  aquele  dia  horrendo  há  tantos  anos, 
quando  ela  descobriu  que  não  tinha  amigos  de  verdade  e  que  a  seu  pai  só 
interessava como mediadora para melhorar sua posição social. 
    Ophelia  tinha  herdado  o  cabelo  loiro  e  os  olhos  azuis  de  sua  mãe,  que 
também  foi  uma  beleza  em  seus  tempos.  O  cabelo  e  os  olhos  de  seu  pai  eram 
castanhos. Menos mal que não tinha herdado nada dele. 
    Abraçou sua mãe e a beijou na bochecha. 
    ‐Eu também senti sua falta, mamãe. 
    ‐Foi uma surpresa seu segundo noivado com Duncan. 
    ‐E uma surpresa ainda maior a segunda ruptura? ‐aventurou Ophelia. 
    ‐Pois sim. Mas olhe a quem chamou a atenção! Ao herdeiro dos Locke. Seu 
pai está encantado! 
    Ophelia se encolheu por dentro. 
    ‐Rafe e eu só somos amigos, mamãe. Não espere nada desta relação. 
    ‐De  verdade?  ‐Mary  franziu  ligeiramente  o  cenho,  sua  desilusão  era 
evidente‐ Não considerou a possibilidade de tomá‐lo como marido? 
    ‐Pode que sim, mas ele deixou muito claro que não está preparado para dar 
um  passo  tão  importante.  E  é  muito  agradável  ser  amiga  de  um  homem  que  não 
caiu a meus pés para me adorar. 
    Mary levantou os olhos para o teto. 
    ‐Bom,  não  o  descarte  ainda.  Alguns  homens  demoram  um  pouco  em 
reconhecer o bom embora tropecem com ele. Enquanto isso continuaremos como 
se não tivesse chamado a atenção do solteiro mais cobiçado do reino. ‐Mary sorriu. 
‐  Embora  devesse  nos  avisar  de  sua  volta.  Teria  organizado  uma  festa  em  sua 
honra. 
    Aquela  afirmação  não  era  surpreendente.  Tampouco  a  surpreendia 
descobrir  de  onde  tinha  tirado  a  ideia  de  que  organizar  as  maiores  festas  de 
Londres  a  faria  feliz,  quando  a  vida  inteira  de  sua  mãe  girava  ao  redor  da  vida 
social. Certamente, isto ainda poderia fazê‐la feliz ou, quando menos, a divertiria, 
mas agora tinha um objetivo novo ao que dar prioridade: livrar‐se da tutela de seu 
pai. 
    Para agradar a sua mãe, disse: 
    ‐Ainda pode organizar uma festa. Será um bom meio para que todos saibam 
que voltei para Londres. 
    ‐Precisamente  o  que  eu  pensava.  Embora  também  tenha  uma  pilha  de 
convites que deixei de lado. Provavelmente gostaria de dar uma olhada para ver se 
há algum que vale a pena responder esta semana. 
    ‐Levarei para meu quarto. 
    ‐Bem,  vá  descansar  enquanto  redijo  uma  lista  de  convidados.  Estou 
convencida  de  poder  seduzir  a  algumas  pessoas  para  que  rompam  qualquer 
compromisso prévio para esta noite e venham aqui. 
    Mary  conseguiu  muito  mais  que  isso,  como  descobriu  Ophelia  quando 
desceu  para  jantar.  A  casa  estava  cheia  de  convidados,  sobre  tudo,  cavalheiros 
jovens aos que já conhecia embora também alguns que lhe eram desconhecidos. Ao 
menos, estava vestida esplendorosamente para a ocasião. 
    Que  bom  dispor  de  novo  de  todo  seu  vestuário  em  lugar  das  opções 
limitadas que lhe oferecia seu baú. Sadie tinha escolhido um vestido de noite de cor 
nata  pálido  com  adornos  de  renda  branco.  Brilhavam  com  brincos  de  pérolas  e 
uma diferente corrente oval no pescoço. Usava seu habitual penteado esticado com 
alguns  cachos  sobre  as  têmporas,  embora  Sadie  tivesse  colocados  alguns 
prendedores de pérolas para realçar seu cabelo. 
    Sua  mãe  a  encontrou  no  vestíbulo  olhando  o  salão.  Ophelia  arqueou  uma 
sobrancelha. Mary compreendeu e se limitou a dizer: 
    ‐Não esperava que todos aceitassem o convite, embora deveria imaginar o 
muito que é popular. 
    ‐Virá meu pai? 
    Mary ruborizou. 
    ‐Não o avisei de sua volta. Esperava que viesse para casa para dizer‐lhe, mas 
ele mandou uma nota dizendo que voltará muito tarde. ‐Mary encolheu os ombros‐
Não importa. Não faz falta que esteja aqui para que desfrutemos da noite. 
    Ophelia  quase  começou  a  rir.  Era  fácil  ler  entre  linhas  quando  falava  sua 
mãe. Mary sabia de sobra que Ophelia e seu pai não se davam bem e se zangavam 
facilmente um com o outro. O fato de não comunicar a seu marido que organizou 
uma festa essa noite era por que queria assegurava que Ophelia pudesse relaxar‐se 
em sua primeira noite em casa e desfrutar da festa improvisada. 
    Mary a acompanhou ao salão. Mal tinham cruzado a porta quando Ophelia 
se viu rodeada de seus admiradores, que rivalizavam por atrair sua atenção. 
    ‐É estupendo tê‐la na cidade, lady Ophelia! 
    ‐E livre de compromissos! 
    ‐Sua beleza me deixa sem fôlego, Ophelia, como sempre. 
    ‐Lorde Hatch ‐ disse outro dos cavalheiros‐. Recorda‐me? 
    ‐Encantado, milady, como sempre ‐ disse lorde Cande e lhe beijou a mão. 
    ‐Nos apresente Peter ‐ disse um dos presentes a seu amigo, e quando Peter 
não  o  agradou:  ‐  Não  posso  expressar  minha  impaciência  por  conhecê‐la,  lady 
Ophelia. Artemus Billings, a seu serviço. 
    ‐E  um  prazer  ‐  respondeu  ela  apressada  antes  que  outro  jovem  tentasse 
chamar sua atenção. 
    Artemus  era  muito  bonito  e,  ao  menos,  não  tinha  pronunciado  um  título, 
que costumava significar que o homem dava por sentado que todos o conheciam. 
Tentaria averiguar algumas coisas sobre ele embora devesse esperar até recuperar 
a mão. Cada um dos presentes estava resolvido a beijar‐lhe. 
    Exceto  Hamilton  Smithfield,  visconde  de  Moorly.  Hamilton,  que  tinha 
alcançado a maior idade e o título recentemente, sempre se mostrava muito tímido 
quando  falava  com  ela.  Certamente,  nunca  lhe  pareceu  um  homem  muito 
temperado para afastar da multidão, mas foi o que fez nessa ocasião. 
    Conduziu‐a ao outro extremo do salão, parou e disse rapidamente: 
    ‐Nunca  antes  pude  reunir  a  coragem  para  lhe  dizer  isto.  Quase  começo 
chorar  quando  soube  que  se  comprometeu  com  MacTavish.  Posto  que  esse 
compromisso não durou, não me arrisco a perder esta nova oportunidade. Ophelia 
peço‐lhe que se case comigo. ‐Olhava‐a com adoração. 
    Ela  estava  acostumada  a  pronunciar  negativas  bruscas  e  este  era, 
precisamente, o tipo de proposta que detestava, porque vinha de um homem que 
não  teve  tempo  necessário  para  conhecê‐la  antes.  Suas  rejeições,  entretanto, 
deixavam uma expressão de decepção dolorosa nos rostos de seus pretendentes e, 
nesse momento, não queria enfrenta‐la. 
    Para evitá‐lo, limitou‐se a dizer: 
    ‐Fale com meu pai, visconde Moorly. 
    ‐Sério? 
    Pareceu  arrebatado  interpretando  a  resposta  como  uma  aceitação,  e  ela 
retificou amavelmente: 
    ‐Simplesmente, não depende de mim. 
    Estava convencida de que Sherman se negaria e ela não teria que confrontar 
a decepção do visconde. Muito covarde de sua parte, mas não estava acostumada a 
sentir‐se  culpada  por  rejeitar  propostas  de  matrimônio.  No  passado  era  muito 
egoísta  para  que  isto  a  incomodasse.  Agora  enfrentava  à  morte  das  esperanças 
desses jovens e lhe causava tristeza! 
    Jane  e  Edith  a  resgataram  de  seus  incômodos  sentimentos  quando  se 
equilibraram sobre ela e a arrastaram longe de ali, impaciente para saberem todos 
os detalhes por que não se casou com Duncan MacTavish. Ophelia não se entreteve 
nos  pormenores,  como  teria  feito  em  outro  momento.  Limitou‐se  a  repetir  o  que 
tinha  anunciado  o  avô  do  Duncan,  que  tinham  acordado  amigavelmente  que  não 
formariam um bom casal. 
    Logo perguntou: 
    ‐Não tinham que estar em outra parte esta noite? 
    ‐Nada tão importante que nos impeça de te dar a boas‐vindas  ‐ respondeu 
Jane. 
    Suas palavras quase pareciam sinceras embora Ophelia soubesse a verdade. 
Tanto  Jane  como  Edith  tinha  a  grande  habilidade  de  dizer  exatamente  o  que 
pensavam  que  ela  queria  ouvir.  Por  desgraça,  normalmente,  para  fazê‐lo  tinham 
que  mentir.  Ela  tinha  culpa,  pensou  Ophelia.  Se  não  tivesse  uma  conduta  tão 
espantosa  durante  tantos  anos,  as  jovens  de  seu  círculo  poderiam  haver‐se 
comportado de forma muito diferente com ela. 
    ‐Viemos  para  averiguar  o  que  foi  o  que  atrasou  sua  volta  à  cidade  ‐  disse 
Edith‐. Sua mãe nos disse que foi visitar os Locke. É isso verdade? 
    ‐Não acredita? 
    Edith  ruborizou  um  pouco.  Ambas  as  jovens  eram  muito  bonitas  embora 
não podiam se comparar com a beleza de Ophelia. Ostentando títulos menores, não 
esperavam  encontrar  um  marido  de  primeira  ordem  essa  temporada.  De  fato,  o 
que  esperavam  era  serem  as  primeiras  em  escolher  dentre  os  rejeitados  por 
Ophelia e ambas desejavam que esta se decidisse o quanto antes. 
    ‐Na  realidade,  pensamos  que  a  tinham  informado  mal  ‐  disse  Edith,  com 
rubor. 
    Que forma tão diplomática de sugerir que Mary tinha mentido. 
    ‐Que eu tinha lhe informado mal? ‐perguntou Ophelia. 
    ‐Sim ‐ admitiu Edith, que se apressou em dizer: ‐ Sabíamos que você e Locke 
não  se  davam  muito  bem.  Não  podíamos  imaginar  a  razão,  sendo  ele  tão  bonito, 
mas  vimos  que  soltavam  faíscas  quando  estavam  juntos.  Por  isso  estávamos 
convencidas de que rejeitaria qualquer convite de sua família. Pensamos que disse 
a sua mãe que estaria com eles quando, na realidade, não estava ali absolutamente. 
    Ah, de modo que estavam convencidas de que ela tinha mentido a sua mãe. 
Rafe  tinha  toda  a  razão  nesse  sentido.  Andar  no  caminho  das  mentiras,  sempre 
faria  com  que  duvidasse  de  suas  palavras.  Ambas  as  jovens  sabiam  que  mentia 
muito bem. 
    Curiosamente, no passado teria se gabado do tempo e não da razão, passado 
com Rafe. Agora preferia que não soubessem nada e não queria falar sobre isso. 
    Edith e Jane não estavam acostumadas a insistir. Pensou que  bastaria lhes 
dizer: 
    ‐Passei  momentos  difíceis  em  Summers  Glade  quando  descobri  que  não 
queria  me  casar  com  MacTavish.  Temia  que  não  permitisse  me  retirar.  Mas,  ao 
final,  tivemos  uma  boa  conversa  e  ambos  acordamos  que  seria  melhor  não  nos 
casar.  Eu  só  necessitava  um  pouco  de  tempo  para  me  recuperar  e  considerar 
minhas  opções.  Além  disso,  não  tinha  pressa  em  voltar  para  casa  e  confrontar  a 
fúria de meu pai. Já sabe quanto desejava ele esse matrimônio. 
    Cabia a possibilidade de que, enquanto isso, as moças tivessem conversado 
com Mavis e soubessem a verdade sobre o assunto, mas o "tempo para recuperar­
se"  tinha  sentido  em  qualquer  caso.  Onde  passou  esse  tempo  de  recuperação  era 
irrelevante. 
    Surpreendeu‐a, pois, que Edith perguntasse com mordacidade: 
    ‐De modo que não estava visitando os Locke? 
    Antes que lhe ocorresse a forma de apoiar sua mentira, Jane disse: 
    ‐Bem, isso explica tudo. 
    Ophelia  seguiu  a  direção  de  seu  olhar  e  viu  que  Raphael  Locke  fazia  sua 
entrada no salão. No instante que o viu seu pulso se acelerou.  Não tinha a menor 
ideia do por que estava ali, mas tampouco podia negar que estava encantada de vê‐
lo. Não esperava voltar a encontrar‐se com ele, ao menos, não tão cedo. 
    ‐Por que não queria nos dizer que o conseguiu? ‐perguntou Edith, agitada. 
    ‐Provavelmente  porque  não  estou  segura  de  meus  sentimentos.  ‐Ophelia 
ouviu sua própria resposta e gemeu para si. Justo o que não desejava confessar. 
    ‐Santo Deus, apaixonou‐se! ‐exclamou Jane. 
    ‐Absolutamente,  asseguro‐lhe  ‐  replicou  Ophelia  imediatamente.  Embora 
temesse ter pronunciado uma das maiores mentiras de sua vida. 
Capítulo 29
  
    Mary  mantinha  Rafe  ocupado,  o  fazia  desde  o  momento  de  sua  chegada. 
Ophelia  não  se  surpreendeu  por  sua  mãe  tê‐lo  convidado,  mas  sim  que  ele 
estivesse  em  Londres  para  aceitar  o  convite,  posto  que  o  deixou  em  Summers 
Glade  no  dia  anterior.  Duncan  e  Sabrina  não  podiam  ter  se  casado  já.  Ou  sim  se 
casaram e Rafe perdeu a cerimônia? 
    Não pôde satisfazer sua curiosidade imediatamente. Tinha disposto de uns 
poucos minutos para conversar com suas amigas, mas, em seguida, viu‐se rodeada 
de  novos  admiradores,  de  modo  que  foi  muito  mais  tarde  quando  encontrou  a 
oportunidade de falar com Rafe a sós. 
    Havia  muitos  convidados  no  jantar,  feito  frequente  nas  festas  dos  Reid,  e 
Mary era muito hábil dispondo longas mesas carregadas de aperitivos com pratos 
abundantes para os apetites mais vorazes. 
    Ophelia teve que abandonar o salão para conseguir ficar sozinha, e, quando 
voltou, pôde dirigir‐se diretamente a Rafe. O jovem acabava de  servir um prato e 
olhava  a  seu  redor  em  busca  de  um  assento  vazio.  Não  havia  nenhum.  Todas  as 
cadeiras do salão estavam já ocupadas agora que a maioria dos convidados estava 
jantando. 
    ‐Provavelmente  a  sala  de  jantar  está  vazia  ‐  sugeriu‐lhe  Ophelia  em  um 
sussurro conspirador quando esteve a seu lado. 
    Os  olhos  azuis  pálido  de  Rafe  posaram  nela  e  não  se  afastaram.  Ophelia 
conteve o fôlego. Que bonito era. Ele sempre parecia exercer esse efeito sobre ela e 
essa noite estava especialmente atraente, com sua jaqueta negra de pano fino, que 
tão perfeitamente delineava seus ombros largos, e a gravata branca amarrada com 
folga  ao  pescoço.  Os  cachos  dourados  resplandeciam  a  luz  das  velas.  Sua 
proximidade lhe acelerou o pulso. Deus tomara que não fosse tão evidente o efeito 
que tinha nela. 
    Ele não deve ter notado nada fora do comum, porque perguntou: 
    ‐Ficam cadeiras ali ou foram todas transladadas ao salão? 
    Ophelia conseguiu dominar a respiração. 
    ‐Te surpreenderia a quantidade de cadeiras que minha mãe tem de reserva. 
Considera que suas aptidões diminuiriam se organizasse festas pequenas. 
    Olhou o prato sobrecarregado de Rafe e ele explicou com um sorriso: 
    ‐Hoje não comi. 
    ‐Provamos a sala de jantar? ‐propôs ela. 
    ‐Por que não se serve primeiro? 
    ‐Não tenho fome. 
    Rafe arqueou uma sobrancelha. 
    ‐Alguma vez tratamos o tema de sua magreza, verdade? 
    Estava brincando..., ou não. 
    ‐Realmente acredita que estou muito magra? ‐perguntou Ophelia e se olhou 
a si mesma com gesto de preocupação carrancuda. 
    ‐Não queira saber o que realmente penso de sua figura. 
    Ela  ruborizou  imediatamente,  provavelmente,  porque  levantou  os  olhos  e 
descobriu que o olhar de Rafe brilhava ao percorrer seu corpo dos seios até mais 
abaixo. Com um gesto precipitado, agarrou uma pequena salsicha  envolta em um 
folhado fino de entre as ofertas da mesa e lhe mostrou o caminho à sala de jantar. 
    Estava quase vazio embora não de todo. Dois cavalheiros jantavam em um 
extremo  da  longa  mesa,  uma  vez  que  mantinham  uma  discussão  acalorada.  Um 
deles, Jonathan Canters, tinha‐a pedido em matrimônio há tão somente um quarto 
de  hora.  A  segunda  proposta  da  noite.  E  ia  tão  a  sério  como  o  jovem  Hamilton. 
Jonathan tinha se declarado também no começo da temporada, antes que se fizesse 
público seu compromisso com Duncan. 
    Dirigiu  aos  dois  jovens  um  sorriso  cordial  e  logo  afastou  o  olhar,  para 
indicar que não lhe interessava reunir‐se com eles. Ocupou um assento no extremo 
oposto da mesa e esperou que Rafe se sentasse a seu lado. Assombrava ter podido 
conter a curiosidade tanto momento. 
    ‐O  que  está  fazendo  aqui?  ‐disse  em  um  sussurro‐.  Supunha‐se  que  estava 
em Summers Glade. 
    ‐Duncan e Sabrina não se casarão até dentro de umas semanas. Parece que 
as tias de Sabrina insistiram em uma cerimônia formal, com todos os detalhes que 
leva tanto tempo preparar. Duncan mal consegue conter a impaciência, já que ele 
preferiria não ter que esperar, e pensei que não era o lugar para que eu também 
esperasse, de modo que voltei para Londres. 
    ‐Lástima que não soubesse antes que eu prosseguisse viagem. 
    ‐Certamente.  Essa  é  a  razão  pela  qual  não  comi  hoje  ‐  explicou  Raphael‐. 
Pensava  que  poderia  te  alcançar  esta  manhã,  mas  não  pude  averiguar  em  que 
estalagem pararam. 
    ‐Mesmo assim, surpreende‐me te ver aqui, que tenha aceitado o convite de 
minha mãe. Teria jurado que não deseja seu nome relacionado com o meu de modo 
algum. 
    ‐Minha presença aqui não relaciona nossos nomes, querida. E ainda não fui 
para casa para encontrar o convite de sua mãe. Simplesmente, passei para ver se 
tinha chegado bem em casa. 
    ‐Muito amável de sua parte ‐ disse Ophelia. 
    ‐Tenho meus bons momentos. 
    Tinha mais que bons momentos. Claro que também tinha muitos momentos 
maus,  quando  não  se  mostrava  amável  absolutamente  e  sim  muito  autoritário, 
embora Ophelia já os tivesse perdoado. Tinham terminado em uma  nota positiva, 
possivelmente muito positiva... 
    ‐Além  disso  ‐  acrescentou  ele  enquanto  começava  jantar‐,  agora  me 
interessa  que  encontre  a  felicidade  com  o  homem  adequado.  Era  parte  de  nosso 
acordo, lembre‐se. 
    Ophelia ficou muito quieta. Ele não percebeu. Falava sério? Pensava fazer de 
casamenteiro depois do que tinham vivido juntos? 
    ‐Era? ‐respondeu com certa brutalidade‐. Não me lembro de mencionar isso. 
    ‐Não  me  pareceu  necessário,  tratando‐se  de  algo  que  tem  a  ver  com  sua 
felicidade  ‐  respondeu  Raphael  em  seu  característico  tom  desenvolvido‐.  Ainda 
pensa se casar, não é verdade? 
    ‐É obvio. 
    ‐Então passará o resto de sua vida com esse homem afortunado, quem quer 
que seja, e devemos nos assegurar de que será feliz com ele. 
    ‐Nós devemos? E como vamos estipular antes do tempo que ele poderá me 
fazer feliz? 
    Raphael a olhou surpreso. 
    ‐Não me diga que ainda se contenta com um bolso volumoso. O dinheiro não 
traz felicidade, Phelia, só faz a infelicidade mais suportável. A longo prazo, não te 
fará feliz. 
    Ela mordeu a salsicha que levava na mão e a mastigou deliberadamente. 
    ‐E o que me fará feliz? ‐perguntou ela. 
    ‐O amor, é obvio. 
    ‐Eu nunca teria dito que você era um romântico. 
    ‐Eu  tampouco.  ‐Raphael  sorriu‐.  Só  tento  ver  a  situação  do  ponto  de  vista 
feminino. Apoiando‐me nas opiniões de minha irmã sobre o tema, que não saberia 
te dizer quantas vezes tive que escutar, ela está convencida de que o amor a fará 
em feliz êxtase. Quer dizer, parece que o amor e a felicidade vão de mão. 
    ‐Provavelmente  sim.  Não  tive  essa  experiência.  Mas  também  há  outras 
coisas que lhe podem fazer feliz. 
    Rafe suspirou. Certamente, já tinha percebido a irritação em sua voz. 
    ‐Não  me  diga  que  voltou  aos  maus  hábitos,  que  todos  nossos  esforços  em 
comum... 
    ‐Ah,  basta.  ‐Ophelia  soltou  também  um  suspiro‐.  Simplesmente,  tenho  um 
objetivo  novo,  chegar  a  um  ponto...,  e  logo,  onde  já  não  tenha  que  cumprir  os 
desejos de meu pai. Ele toma decisões pensando em sua própria felicidade, não na 
minha, e já estou farta disso. 
    ‐Isso significa que aceitará a primeira proposta que lhe fizerem. 
    Raphael parecia tão preocupado que ela quis reconfortá‐lo, de modo que riu 
baixinho e disse: 
    ‐Ao menos a metade dos varões que estão aqui já me pediu em matrimônio 
esta  noite,  alguns,  durante  esta  última  hora.  Ainda  não  aceitei  nenhuma  de  suas 
propostas. 
    ‐Há  aqui  algum...  que  te  interessa?  ‐perguntou  ele  dúbio‐.  Provavelmente 
saiba algo deles que você não sabe. 
    Ophelia encolheu os ombros. 
    ‐Na realidade, não. ‐Levou um momento para voltar a sorrir para Jonathan. 
Os  dois  homens  tinham  interrompido  sua  conversa  quando  ela  entrou  na  sala  de 
jantar e, depois, não deixaram de lhe lançar olhares furtivos‐. Não renunciei a meus 
critérios..., ainda. 
    ‐Nunca disse o que é o que procura em um homem, além da riqueza. 
    ‐Eu sei. 
    ‐Continua sendo um segredo? ‐inquiriu Raphael. 
    Ophelia suspirou. 
    ‐Não,  simplesmente  não  queria  falar  do  tema  contigo  quando  me 
perguntou.  Não  confio  muito  nos  homens  que  declaram  seu  amor  por  mim 
imediatamente. E isso é o que todos fazem. ‐Com um gesto da mão abrangeu toda 
Londres‐.  Espero  o  homem  que  dedicará  um  tempo  a  me  conhecer  primeiro..., 
como você. 
    Não ruborizou. Não deveria ter dito isso, mas já lhe tinha advertido que não 
tinha que preocupar‐se por ela querer laçá‐lo. 
    ‐Para ser justo, Phelia, é um objetivo excelente embora, certamente, teria se 
virado contra ti... 
    ‐Tolice  ‐  interpôs  ela,  adivinhando  que  pensava  referir‐se  a  seu 
comportamento  do  passado‐.  Sei  que  você  gostaria  de  receber  todo  o  crédito  de 
meu novo "eu", mas, de fato, a única coisa que fez foi me abrir os olhos a algumas 
realidades e me ajudar a controlar alguns defeitos que passavam da medida. Não 
obstante,  já  antes  tinha  algumas  virtudes  embora  não  as  manifestasse 
publicamente. 
    ‐Sim, percebi ‐ admitiu ele. 
    ‐O que? 
    ‐Que não carecia de virtudes por completo. Sua forma de conquistar minha 
tia é um bom exemplo. 
    ‐Conquistá‐la? ‐ Ophelia sorriu‐. Gostei dela desde o começo e sabe. 
    ‐Sim, suponho que foi assim. E agora deveria voltar para seus convidados. 
Uma  coisa  é  passar  uns  minutos  comigo,  mas  se  nos  excedemos,  desatam‐se  as 
línguas. 
    ‐Eu sei. ‐levantou‐se para ir‐. Obrigada por ver como estou. Muito terno de 
sua parte. 
    Os olhos azuis de Raphael cintilaram. 
    ‐Por Deus, não use nunca esta palavra quando falar sobre mim. Conseguirá 
me dar uma má reputação juro. 
    ‐Prefere que lhe considerem um libertino irremediável? 
    ‐É obvio! 
    Ophelia sabia muito bem que estava brincando e lhe seguiu na brincadeira: 
  ‐Seu segredo está a salvo comigo. 
    Deu a volta para ir embora. Ele a agarrou pelo cotovelo. Ophelia conteve a 
respiração  e  fechou  os  olhos  por  um  momento.  Foi  bem  tranquilo  sentar‐se  ali 
imersa  na  conversa  em  lugar  de  fixar‐se  na  proximidade  dele.  O  contato, 
entretanto,  fez‐lhe  recordar  com  detalhe  o  que  tinham  vivido  juntos  e  quão 
maravilhoso foi..., e as palavras de Jane... 
    ‐Como foi o reencontro com seu pai? ‐perguntou Raphael. A razão pela qual 
a tinha retido lhe afundou o ânimo. 
    Não se voltou para olhá‐lo, temerosa de fazê‐lo nesses momentos. 
    ‐Não está em casa desde minha volta e nem sequer sabe que voltei. 
    ‐Por  que  não  espera  para  ver  como  ficará  antes  de  tomar  decisões 
precipitadas? 
    ‐Eu? Precipitada? ‐Deixou‐o com um suave suspiro e o ouviu rir enquanto se 
afastava. 
Capítulo 30
  
    Distraída depois de seu encontro com Rafe, Ophelia não pôde escolher pior 
momento para passar da sala de jantar ao salão. Nem sequer viu que seu pai estava 
na  porta  principal,  tirando  o  longo  casaco  para  entregar  ao  servente  que 
aguardava. Ele, não obstante, viu‐a em seguida. 
    ‐Ophelia? Quando voltou? 
    Não  havia  sorriso  de  boas‐vindas.  Não  abriu  os  braços  para  lhe  dar  um 
quente abraço. Simplesmente, parecia curioso. 
    Sherman  Reid,  conde  de  Durwich,  mediava  os  quarenta.  Conservava  todo 
seu cabelo escuro e seus olhos castanhos tinham um olhar incisivo. De constituição 
alta  e  estreita,  pareceria  magro  em  comparação  com  sua  mulher.  Não  era  um 
homem feio embora tampouco o pudesse chamar de bonito. Provavelmente fosse 
por isso que se assombrava tanto de ter gerado uma filha tão incomparavelmente 
formosa  e  que  decidisse  tirar  algum  benefício  próprio  daquele  presente  da 
natureza. 
    ‐Voltei esta tarde. Como vê, mamãe organizou uma festa de boas‐vindas e 
convidou muitos de meus admiradores. 
    Seu pai prestou atenção ao barulho que saía do salão. 
    ‐Era necessário? 
    Ophelia se calou. Tinha mencionado os admiradores porque, normalmente, 
a seu pai teria encantado a ideia de exibir sua filha e conseguir ainda mais pedidos 
de  matrimônio...,  bom,  teria  lhe  encantado  antes  de  decidir  que  queria  Duncan 
MacTavish como genro. Além disso, sempre tinha fomentado a inclinação de Mary 
para dar festas. Nisto, marido e mulher estavam completamente de acordo. 
    ‐Não  era  necessário.  Mas  faz  feliz  a  mamãe,  de  modo  que  cumpre  uma 
função. 
    ‐Não me fale nesse tom, jovenzinha. 
    Ela  quase  começou  a  rir.  O  tom  de  sua  voz  não  tinha  mudado 
absolutamente,  pelo  contrário,  era  mais  suave  que  o  que  estava  acostumado  a 
empregar  com  seu  pai.  Obviamente,  entretanto,  ele  esperava  uma  reação  mais 
brusca.  Ao  fim  e  ao  cabo,  desde  que  a  comprometeu  com  Duncan,  entre  eles  só 
havia discussões calorosas. 
    ‐Venha a meu escritório. Quero falar contigo ‐ disse‐lhe. 
    ‐Não pode esperar? Tenho convidados. 
    ‐Não, não pode esperar. 
    Sem dizer nada mais, passou do seu lado e se dirigiu ao outro extremo do 
vestíbulo, onde estava seu escritório. Ophelia respirou profundamente e o seguiu. 
Não  iria  permitir  que  alterasse  sua  paz  de  espírito  recém‐encontrada.  De  algum 
jeito  conseguiria  dominar  seu  mau  gênio.  Nunca  antes  o  tinha  conseguido  na 
presença de seu pai e este seria um bom começo. 
    Ele já estava sentado atrás da escrivaninha quando ela entrou no escritório. 
Odiava  esse  aposento,  onde  tiveram  a  maioria  de  suas  discussões.  Os  verdes  e 
marrons  escuros  do  tapete,  as  cortinas  e  as tapeçarias  poderiam  parecer  de  bom 
gosto  e  muito  apropriados  para  o  escritório  de  um  homem,  mas  a  deprimiam. 
Houve  um  tempo,  há  muitos  anos,  quando  gostava  de  entrar  nesse  recinto  para 
procurar o seu pai... 
    Normalmente  se  sentava  de  frente  à  escrivaninha,  mas  essa  noite  se 
aproximou  da  única  janela  com  vistas  para  esquina  da  rua.  Ainda  não  tinham 
deslocado  as  cortinas  para  a  noite  embora  alguém  já  tivesse  acendido  a  lareira 
atrás da escrivaninha para esquentar o ambiente. Fora já estavam acesas as luzes e 
uma  fileira  de  carruagens  estava  estacionada  ao  longo  da  calçada  diante  da  casa. 
Surpreendentemente,  tinha  começado  a  nevar  outra  vez.  Ainda  não  o  suficiente 
para cobrir a rua, mas já era bonito como caía ao redor das luzes. A visão da neve 
acalmou a tensão que crescia em seu interior. 
    ‐Recebeu já uma proposta de Locke? ‐perguntou Sherman enquanto acendia 
um dos abajures de seu escritório. 
    Ophelia fechou os olhos antes de perguntar: 
    ‐Esta era sua esperança? 
    ‐Minha  esperança  não.  Uma  expectativa.  É  o  único  que  faria  aceitável  a 
ruptura de seu compromisso com MacTavish..., pela segunda vez. 
    Levantou a voz para dar ênfase às últimas palavras. Ophelia ainda não tinha 
se  virado  para  lhe  enfrentar.  Estava  acostumado  a  entrar  neste  escritório 
frequentemente,  em  busca  de  um  pouco  de  atenção.  Jamais  notava  que  poucas 
vezes a recebia. É curioso como as crianças dão certas coisas por feito, buscando 
amor de seus pais. 
    ‐Raphael  Locke  é  um  libertino  ‐  disse  com  voz  lenta.  Isto  deveria  bastar 
para pôr fim a conversa. 
    ‐E? 
  O que pensava? Este dado não o intimidava absolutamente. Se Rafe tivesse 
a pior reputação possível, seu pai ainda aprovaria aquela visita. O título dos Locke 
era o único que lhe importava. 
    ‐E não tem intenção de casar‐se comigo nem com ninguém mais. ‐Por fim se 
voltou para ver a reação de seu pai‐. Acredito que suas palavras foram "não neste 
século". 
    ‐Tolice.  É  capaz  de  fazer  mudar  de  opinião  a  qualquer  homem  nesse 
sentido. 
    Era  um  elogio...,  de  certo  modo.  Tomara  pudesse  aceitá‐lo  como  tal,  em 
lugar de sentir‐se ofendida. 
    Não  pensava  lhe  contar  como  tinha  lutado  com  unhas  e  dentes  contra 
aquele  "convite"  nem  como  a  tinham  sequestrado,  virtualmente,  aos  mouros 
desertos de Northumberland. Nem a seu pai importaria nem ela dava importância 
ao  assunto.  Daquela  viagem  tinha  tirado  muito  mais  do  que  poderia  sonhar.  E  o 
fato de não ter se zangado ainda com esse homem era um magnífico exemplo dos 
benefícios que lhe tinha contribuído a interferência de Raphael em sua vida. 
    ‐Está,  ao  menos,  apaixonado  por  ti,  como  todos  outros?  ‐perguntou 
Sherman. 
    ‐Não, embora de alguma forma sejamos amigos. 
    ‐Está  me  dizendo  que  não  te  comprometeu?  É  um  libertino  famoso  e  nem 
sequer tentou te seduzir? 
    Ophelia ruborizou intensamente e a ira cresceu em seu interior. 
    ‐De modo que sabia que é um libertino? E, mesmo assim, deu sua permissão 
para que fosse visitá‐los? 
    ‐Claro  que  sim.  É  o  melhor  partido  de  toda  a  Inglaterra.  Diga‐me.  Por  que 
não o apanhou? 
    Tentar pô‐lo à defensiva não dava resultado. Para ficar à defensiva tinha que 
haver  certa  culpa,  por  menor  que  fosse.  Ele  não  se  sentia  culpado.  E  Ophelia 
começava a perder o controle de sua ira. 
    ‐Provavelmente porque não queria. 
    ‐Perdeu o juízo? 
    Ophelia  cruzou  o  aposento  a  grandes  passos  e  apoiou  as  mãos  na 
escrivaninha para poder inclinar‐se para frente e transpassá‐lo com o olhar. 
    ‐Não,  acredito  que,  por  fim,  recuperei‐o.  Quer  saber  por  que  ele  não  me 
serve? ‐perguntou Ophelia‐. Sim, é incrivelmente bonito, rico e nobre. É tudo o que 
poderia desejar de um homem. Entretanto, há uma coisa que o faz inaceitável para 
mim. 
    ‐Qual? 
    ‐Você  o  deseja  muito  como  genro!  Depois  de  me  jogar,  a  ninguém  menos 
que  aos  lobos  de  Yorkshire,  não  penso  te  fazer  feliz  com  meu  matrimônio. 
Surpreende‐te? 
    Seu pai ficou de pé e lhe devolveu o olhar iracundo. 
    ‐Que é uma filha obstinada e vingativa? Não me surpreende absolutamente. 
Mas se casará com ele. Importa‐me um nada como consiga levá‐lo ao altar, você vai 
fazê‐lo! Ou tomarei cartas no assunto. 
    Não tinha sentido tentar lhe explicar que falavam da vida de Ophelia, não da 
de seu pai. Sabia por experiência. Furiosa, partiu do escritório. Muito zangada para 
reunir‐se com os convidados no salão, dirigiu‐se à sala de jantar. 
    Raphael ainda estava ali. Acabava de levantar‐se da mesa, seu prato já vazio. 
Os  outros  dois  homens  foram  embora  Ophelia  não  sabia  se  sua  presença  a  teria 
detido, já que não pensou sequer no que iria fazer. Simplesmente, aproximou‐se de 
Rafe e o beijou com força na boca. 
    Ele  conseguiu  dominar  a  surpresa.  De  fato,  devolveu‐lhe  o  beijo  quase 
imediatamente, deixando o prato em cima da mesa para ter ambas as mãos livres 
para  atraí‐la  para  si.  Não  fez  falta  mais  para  que  o  aborrecimento  de  Ophelia 
desaparecesse,  deixando  a  paixão  em  seu  lugar.  E  era  uma  paixão  poderosa. 
Aumentou  quando  lhe  chupou  a  língua,  que  corajosamente  tinha  introduzido  em 
sua  boca.  E  cresceu  ainda  mais  quando  lhe  cobriu  uma  nádega  com  a  mão, 
apertando‐a com firmeza contra sua ereção. 
    Deus, o que esse homem era capaz de lhe fazer sentir! Ira, paixão, ternura, 
prazer, tudo o tinha sentido em suas mãos, e quanta excitação! Era sua ruína e sua 
salvação.  Como  diabos  tinha  permitido  que  se  convertesse  em  alguém  tão 
importante para ela? Estava Jane certa? Apaixonou‐se sem perceber? 
    Raphael  a  beijou  com  avidez,  lhe  acariciando  as  costas  e  fazendo‐a 
estremecer de prazer durante vários minutos mais, até que a Ophelia lhe ocorreu 
que  não  podia  ter  escolhido  um  lugar  pior  para  compartilhar  um  momento  de 
intimidade com ele. A porta estava totalmente aberta. Havia dúzias de pessoas do 
outro lado do vestíbulo. Qualquer um poderia passar e vê‐los unidos em um abraço 
ardoroso. 
    Deu um passo atrás imediatamente, alarmada com a ideia. Mas seu coração 
continuava  desbocado.  Suas  bochechas  estavam  vermelhas.  Até  sentia  os  lábios 
inchados  e,  certamente,  estavam.  Temia  oferecer  o  aspecto  de  alguém  a  quem 
acabavam de beijar. Ele também.  Ophelia o tinha despenteado. Agora lhe alisou o 
cabelo com gesto rápido. Entretanto, não podia fazer nada para apagar o fogo que 
ainda ardia em seus olhos. 
    Raphael aspirou profunda e tremulamente antes de dizer: 
    ‐Foi algo inesperado. 
    Ela demorou um momento para recuperar o fôlego. 
    ‐Aprendi  com  você  ‐  respondeu,  aludindo  ao  beijo  que  lhe  deu  no  dia 
anterior quando voltou de improviso para carruagem. Esboçou meio sorriso para 
tirar importância ao assunto. 
    ‐Discutiu com seu pai? 
    ‐Como adivinhou? ‐perguntou ela secamente. 
    Raphael lhe acariciou a bochecha com o dedo. 
    ‐Quer me deixar aberta a porta traseira esta noite? 
    A ideia quase a deixou paralisada de deliciosa espera. 
    ‐Poderia ‐ disse sem fôlego. 
    Enquanto subia correndo o andar superior, para recuperar a compostura e 
lançar‐se da cabeça a ideia de voltar a fazer amor com Rafe, sabia que essa noite 
deixaria a porta aberta. 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 31
  
  Ophelia  dormiu  até  o  meio‐dia.  Não  tinha  sido  sua  intenção,  apesar  de 
ter  advertido  Sadie  que  não  a  despertasse.  O  fez  porque  pensava  e  desejava  não 
estar  sozinha  na  cama  de  manhã.  Antes  de  retirar‐se  para  a  noite  tinha  dito  ao 
lacaio  que  levasse  o  cavalo  no  meio  da  amanhã,  para  poder  desfrutar  de  um 
passeio  por  Hyde  Park.  Durante  sua  estadia  no  campo  havia  sentido  falta  de 
montar a cavalo, algo que fazia várias vezes por semana. 
  Mas havia dormido. Já era muito tarde para cavalgar nesse dia. Às cinco 
da  madrugada  tinha  olhado  o  relógio  pela  última  vez.  Esperou  toda  a  noite  que 
Rafe entrasse às escondidas na casa para reunir‐se a ela. Até passou uma hora com 
a  orelha  pregada  à  porta,  esperando  ouvir  o  som  de  seus  passos.  Que  tola  tinha 
sido. Ele não apareceu. 
  Certamente,  Rafe  percebeu  que  seria  muito  arriscado.  Ou,  talvez,  não 
levasse  a  sério  quando  disse  que  "poderia"  deixar  a  porta  aberta  para  ele.  Não 
devia  ter  bancado a  tímida.  Embora  também  houvesse  a  possibilidade  de  que  ele 
não  falasse  sério.  Ele  não  poderia  ter  falado  sério  mesmo.  Ele  só  disse  isso  em 
referência  a  raiva  dela  ao  beijá‐lo  na  sala  de  jantar,  que  já  havia  se  acalmado. 
Então, ele provavelmente estava brincando e ela guardou a esperança de que fosse 
sério. 
  Aproximou‐se  da  janela  e  abriu  as  luxuosas  cortinas  cor  de  lavanda. 
Percebeu o aroma das duas rosas recém‐cortadas que tinham deixado em cima de 
sua  escrivaninha,  junto  à  janela.  Sua  mãe  não  tinha  uma  estufa  nem  um  jardim 
protegido  e,  entretanto,  sempre  conseguia  flores  frescas  para  a  casa  durante  os 
meses de inverno. 
  O quarto de Ophelia era bonito. Sua mãe tinha cuidado para que fosse. 
Imperavam  as  tonalidades  rosa,  salmão  e  lavanda,  com  móveis  de  madeira  de 
cerejeira escura. O tapete e as cortinas, o papel pintado, o fofo edredom da cama de 
dossel, até a base da penteadeira ficava oculta atrás de uma cortina de veludo de 
cor rosa. Ophelia tinha um  closet próprio onde guardar seu amplo  vestuário. Seu 
pai nunca tinha controlado o dinheiro para roupa. Ela tinha que ir vestida com todo 
luxo, já que era uma obra para se exibir. 
  A  vista  do  exterior  revelava  que  não  tinha  nevado  muito  na  noite 
passada, ao menos não tinha vestígios de neve. O quarto de Ophelia ficava na frente 
da  casa.  Com  as  janelas  fechadas,  o  tráfico  das  ruas  poucas  vezes  a despertava e, 
certamente, não o tinha fez neste dia. Passou um homem a cavalo, lhe recordando 
que  deveria  assegurar‐se  de  que  sua  égua  estivesse  outra  vez  no  estábulo.  O 
cavaleiro lhe pareceu familiar... Era Rafe! Ele até diminui o trote para olhar a casa. 
  Ophelia o saudou com a mão, mas ele não olhou para as janelas do andar 
superior,  não  a  viu  e  seguiu  seu  caminho.  Ela  se  vestiu  com  uma  pressa 
enlouquecida  e  correu  escada  abaixo,  desejando  que  a  égua  estivesse  ainda 
esperando‐a. Estava, mas também a montaria de seu acompanhante. Mark, o lacaio, 
estava acostumado a montar com ela. Não acabava de passar junto a ele no final da 
escada? 
  O homem se aproximou da porta para dizer: 
  ‐Necessito um minuto para procurar meu casaco, lady Ophelia. 
  ‐Me ajude primeiro ‐ respondeu ela e acrescentou, já na sela‐ Esperarei 
no Portão de Grosvenor de Hyde Park. Não demore. 
  Não parou para escutar sua advertência de não partir sem ele. A mesma 
impaciência que a tinha mantido acordada toda a noite se apoderou dela agora, e 
saiu  a  galope.  Com  um  pouco  de  sorte  alcançaria  Rafe.  Com  muita  sorte,  ele 
proporia um novo encontro e desta vez falaria sério. 
  Não teve sorte. Também examinou as poucas ruas laterais que havia em 
seu caminho, mas Rafe já tinha ido enquanto ela perdia tempo vestindo‐se. E não 
muito bem, conforme descobriu enquanto esperava a chegada de Mark na entrada 
do parque. 
  Não  tinha  perdido  tempo  procurando  um  de  seus  trajes  de  montar  e 
tinha agarrado o primeiro vestido que encontrou um desses finos vestidos de dia 
que nunca ficava fora de casa! O cachecol, que pensou que a protegeria, não servia. 
Era tão magra que nem sequer dissimulava o decote baixo do vestido. E seu casaco 
não  estava onde  deveria,  assim  teve  que  conformar‐se  com  uma  capa.  Tampouco 
tinha prendido o cabelo. Limitou‐se a colocá‐lo debaixo de seu gorro de lã. 
  Ao  menos,  apertando‐se  à  capa  conseguia  evitar  um  pouco  o  frio 
enquanto  refletia  sobre  sua  conduta  precipitada.  Devia  voltar  para  casa 
imediatamente. Qualquer um que se fixasse em seu traje pensaria que estava louca 
por ter saído assim. Ou provavelmente não. O dia não estava tão frio, porque não 
ventava.  Poderia  dizer  que  fazia  bom  dia...  Para  ser  inverno.  De  fato,  teria  sido 
perfeito para sair a cavalgar, mas ela não estava vestida adequadamente.  
  Viu Mark trotando no outro extremo da rua. Não tinha sentido esperar 
que  a  alcançasse  quando  ela  mesma  pensava  voltar  para  sua  casa  pelo  mesmo 
caminho. Quis guiar à égua para dar a volta quando alguém se aproximou por trás. 
  ‐Passeando pelo parque? 
  De  onde  demônios  tinha  saído?  Foi  o  único  que  pôde  pensar  antes  de 
responder: 
  ‐Sim. ‐Girou a égua para enfrentar Rafe. 
  Olhava‐a  com  curiosidade,  possivelmente  porque  sua  mão  sem  luva 
sujeitava  a  capa  para  mantê‐la  fechada.  A  capa,  entretanto,  não  se  fechava  o 
suficiente para ocultar a seda e as rendas de sua saia, que apareciam por baixo. 
  Raphael não fez nenhum comentário a respeito, limitou‐se a dizer: 
  ‐Por  alguma  razão,  nunca  tinha  te  imaginado  a  cavalo,  Phelia.  Devo 
reconhecer que estou muito surpreso. 
  ‐Por quê? Eu gosto de exercício. 
  ‐Sim,  mas...  ‐Fez  uma  pausa  e  riu  entre  dentes‐.  Suponho  que  ainda 
conservo  aquela  imagem  impecável  de  ti,  sempre  composta.  Já  sabe,  nem  um 
cabelo fora do lugar. Nenhuma ruga na roupa, jamais. E Deus nos livre de cheirar a 
cavalo, nunca. 
  Ophelia sorriu também divertida. 
  ‐É uma imagem falsa e bastante  antiga. Vejamos, após me bombardear 
com neve em quantidades respeitáveis. E me enrugou bastante no salão de... Nest. 
  Terminou a frase sem fôlego, tão subitamente acendeu o olhar  de Rafe. 
Muito inapropriado e irrefletido de sua parte lhe recordar o ocorrido entre ambos 
naquele salão. E agora a imagem estava presente em sua própria mente e o cabelo 
de Rafe desordenado por suas apaixonadas carícias, a ardente sensualidade de sua 
expressão..., como agora. 
  Por  Deus,  esse  não  era  o  lugar  onde  despertar  as  paixões. 
Provavelmente um passeio a cavalo fosse, realmente, uma boa ideia. 
  ‐Proponho uma corrida ‐ disse impulsivamente. 
  Mark acabava de chegar. Ouviu suas palavras e quis protestar, mas ela 
entrou  no  parque  a  galope.  Também  tinha  tomado  muita  vantagem  de  Rafe,  que 
continuava pensando naquele salão! Por isso não reagiu rápido. Ophelia lançou um 
olhar  para  trás,  viu  que  começava  a  correr  até  ela  e  riu  de  sua  ampla  vantagem. 
Tinha perdido o gorro na tentativa, o vento o arrancou e o jogou no chão. Não iria 
parar  para  recuperá‐lo.  Uma  corrida  é  uma  corrida,  e  ela  era  muito  competitiva 
para querer ganhá‐la. 
  A capa se abriu quando teve que agarrar as rédeas com ambas as mãos. 
Logo sentiu o roçar do vento no peito, tão rápido corria seu sangue com a excitação 
da corrida. O cachecol começou a desenrolar‐se e um dos lados ondeava no vento. 
Agarrou o outro extremo com o punho, para não perder também o cachecol. Capa, 
cachecol e cabelo se agitavam ao vento. Não lhe importava. Apertou os calcanhares, 
impulsionando à égua a correr mais veloz. 
  Teria  entrado  na  pista  para  cavalos,  mas,  dado  que  o  parque  estava 
virtualmente deserto, cortou bruscamente o caminho para A Serpentina. O caminho 
ao  norte  dava  a  volta  no  parque  e  passava  junto  ao  lago  maior  antes  de  girar  de 
novo para o norte para concluir o circuito. Era um percurso muito mais longo que o 
do caminho ao sul, que ela poucas vezes usava. Rafe estava se aproximando, mas 
lhe  faltava  muito  para  alcançá‐la.  Já  podia  ver  o  cais  ao  longe.  Em  um  dia  de 
inverno tão agradável poderia haver patinadores no lago... 
  Não se machucou muito ao cair no chão. Poderia ter sido pior. Se a égua 
parasse em seco quando a serpente cruzou seu caminho, Ophelia teria sido jogada 
por cima de sua cabeça. Em troca, a égua empinou e a atirou no  chão atrás de si. 
Maldito  cavalo,  era  tão  grande  que  não  devia  assustar‐se  com  uma  pequena 
serpente inofensiva, mas se assustou. 
Ela  simplesmente  ficou  sem  fôlego  e  já  estava  inclinando‐se  sobre  os 
cotovelos  quando  Rafe  saltou  de  seu  cavalo,  ao  lado  dela.  Ele  caiu  de  joelhos  tão 
rápido, que provavelmente derrapou pelo menos um centímetro na grama seca. 
  ‐Santo Deus, me deu um susto de morte! ‐exclamou quase furioso. 
  ‐Não me machuquei ‐ assegurou ela. 
  ‐Pois,  teve  muita  sorte.  Deveriam  enforcar  seu  pai  por  comprar  uma 
montaria assustadiça. 
  ‐Ele  não  escolheu,  fui  eu.  Só  tive  que  insistir  durante  meses  para  que 
aceitasse  o  preço.  É  assim  que  funcionamos,  meu  pai  e  eu.  Eu  chateio  e  ele  cede 
para livrar‐se de mim. Não acredito que tenha visto a égua sequer. 
  ‐Mesmo assim... 
  ‐Estou bem, serio. Se me ajudar a levantar... 
  Rafe a levantou de um puxão e começou a beijá‐la, quente e insistente, 
enquanto  levava  as  mãos  a  suas  nádegas  e  massageava  brandamente  os  pontos 
doloridos por culpa da queda. Ela gemeu de prazer e seu estômago deu um salto 
com  a  sensação  ardente  que  despertaram  nela  suas  carícias  lentas  e  sensuais  e 
seus beijos profundos. De novo lhe faltava o fôlego, mas não lhe passou inadvertido 
a intensidade do olhar de Rafe quando ele se afastou. 
  Soltou‐a  tão  bruscamente  que  ela  quase  perdeu  o  equilíbrio.  Ele  deu  a 
volta para não vê‐la mais enquanto ela começava a sacudir o pó  de sua roupa e a 
envolver‐se de novo com a capa. 
  ‐Espero que tenha o acostume de se vestir assim para montar ‐ zombou 
ele enquanto se afastava para agarrar as rédeas de ambos os cavalos. 
  ‐Não, claro que não. 
  Raphael  já  tinha  recuperado  a  compostura,  o  suficiente  para  voltar  a 
olhá‐la. 
  ‐Por que hoje sim?   
  ‐Pois, estava..., quer dizer... ‐Calou e renunciou a procurar uma desculpa 
para não admitir que corria atrás dele. De modo que, no final, disse‐ Acredito que 
prefiro não dar explicações. 
  ‐Como  quiser.  ‐Raphael  encolheu  os  ombros‐.  Embora  eu  sugira  que 
volte para casa logo. 
  ‐É o que penso fazer. 
  Ajudou  a  montar  de  novo.  Quando  o  fez  desejava  tocá‐la  por  todo  o 
corpo. Conseguiu reprimir o impulso. Limitou‐se a juntar as mãos para lhe oferecer 
um  estribo  onde  apoiar‐se.  Agora  ele  se  comportava  de  forma  impessoal,  muito 
impessoal. Claro que estavam em um parque público. Mas havia poucas pessoas no 
local e a muita distancia. 
  Ophelia  queria  perguntar  por  que  ele  não  tinha  aparecido  na  noite 
passada.  Ele  obviamente  não  ia  dizer  nada  sobre  isso.  Mas  isso  seria  ousado 
demais para ela. Além disso, Mark finalmente os havia alcançado. Tinha ficado tão 
atrasado  ‐  como  quase  sempre‐  que  não  pôde  ver  a  queda.  Em  ocasiões,  Ophelia 
montava  a  passo  tranquilo  para  lhe  fazer  um  favor,  porque  não  era  um  bom 
cavaleiro.  Tampouco  sua  montaria  tinha  possibilidade  de  manter‐se  ao  passo  do 
puro  sangue  dela.  Normalmente,  entretanto,  Ophelia  corria  a  galope  e  logo 
esperava que o lacaio a alcançasse. 
  ‐Obrigada pela corrida ‐ disse a Raphael e acrescentou com uma careta‐ 
Eu gosto de ganhar. 
  ‐Eu também ‐ respondeu ele com um sorriso‐. Algum dia nós poderemos 
fazer isso corretamente e você não terá uma chance no inferno de ganhar de mim 
  ‐Eu não estaria tão segura. Por que acha que demorei dois meses para 
conseguir esta égua? Seu pai é campeão de corridas. Não foi barata! 
  ‐Queria se assegurar de ganhar todas as corridas? ‐perguntou ele. 
  ‐Certamente! 
  ‐Então, talvez eu compre seu progenitor. 
  Por alguma razão, esta conversa a fez sorrir durante todo o caminho de 
volta a casa. 
Capítulo 32
  
  Raphael retornou a sua residência da Rua Grosvenor, ao leste  da praça 
de  mesmo  nome.  Ele  vivia  a  muitos  quarteirões  ao  sul  da  casa  de  Ophelia  e  essa 
manhã não tinha razão alguma para passar em frente a sua casa, exceto por estar 
distraído de sua rotina diária..., por ela. 
  Estava tão imerso em seus pensamentos ao entrar em sua casa que não 
viu  o  visitante  que  esperava  apoiado  na  porta  do  salão.  Não  se  podia  tirar  da 
cabeça as imagens de Ophelia e agora dispunha de novas para ampliar sua coleção. 
Sua risada quando perdeu o gorro no parque. Seu cabelo esparramado a seu redor 
no chão antes que se apoiasse sobre os cotovelos, com tão somente uma expressão 
doída por ter caído do cavalo. O prazer com que tinha reagido a suas carícias nos 
pontos machucados. 
  E, da noite passada, sua expressão sensual depois de beijá‐la na sala de 
jantar... Não, não pensaria nisso nem na grande tentação de entrar na casa depois 
que  apagassem  a  última  luz.  Esteve  de  pé  no  frio  atrás  do  edifício,  avaliando  os 
prós e os contra até convencer‐se de que nem sequer devia comprovar se a porta 
estava aberta. Depois, de volta para casa e já na cama, enfureceu‐se consigo mesmo 
por não ter tentado sequer. 
  Mas, enquanto que nada o agradaria mais que voltar a fazer amor com 
ela, essa simplesmente não era uma boa ideia. Não, agora que tinha voltado para 
casa, Ophelia tinha que procurar um marido. O único propósito de seu esforço por 
domá‐la era que a moça vivesse feliz o resto de seus dias... com outro homem. Foi 
um ponto discutível que o pensamento de que isso acontecesse estava começando 
a irritá‐lo. 
  Alguém  clareou  a  garganta.  Raphael  olhou  para  o  salão  e  exclamou  ao 
ver o homem que esperava ali vestido em um kilt escocês: 
  ‐Duncan!  Por  que  diabos  não  me  disse  que  pensava  em  vir  a  Londres? 
Poderíamos ter feito a viagem juntos. 
  ‐Porque não sabia‐respondeu seu amigo‐. As tias de Sabrina insistiram 
em  vir  para  comprar  uma  renda  especial  para  o  véu  de  noiva,  que  não  se  pode 
encontrar em outra parte. 
  ‐As acompanhou? 
  Duncan soprou. 
  ‐Teria sido o momento perfeito para passar uns dias a sós com a moça, 
mas  não,  as  tias  insistiram  em  que  sua  sobrinha  as  acompanhasse,  e  não  iria 
permitir que Sabrina visitasse esta cidade perversa sem mim. 
  ‐Não acredito que a cidade seja perversa..., bom, ao menos, nem tanto ‐ 
retificou  Raphael  com  um  sorriso‐,  mas  eu  tampouco  teria  permitido  que  minha 
noiva viesse sozinha... se tivesse uma noiva. 
  Duncan arqueou uma sobrancelha. 
  ‐Pensa em ter uma? 
  ‐O que te deu essa ideia? 
  Duncan riu baixo e disse: 
  ‐Provavelmente, porque acaba de dizer... 
  ‐Simplesmente,  dava‐lhe  razão.  E  agora  me  diga  se  não  se  importa.  É 
esta sua primeira visita à grande cidade? 
  ‐A primeira e a última, espero. 
  ‐Quanto tempo ficará? 
  ‐As  senhoras  já  encontraram  o  que  procuravam  e  voltaram  para  hotel. 
Partiremos na primeira hora da manhã. 
  ‐Tão cedo? ‐perguntou Raphael‐. Tem que conhecer Londres um pouco 
antes  de  voltar  correndo  para  o  campo.  Permita‐me  ser  seu  anfitrião  esta  noite. 
Para chorar seus últimos dias de solteiro. 
  Duncan riu. 
  ‐Temos  que  celebrar  homem,  não  lamentar.  Não  acredito  que  tenha 
havido nunca outro homem tão ansioso por levar sua garota ao altar. Obrigam‐me 
a esperar três terríveis semanas! Mas não, não vou sair sem a jovem. 
  Raphael suspirou. 
  ‐Suponho que encontrarei alguma festa, uma diversão menos louca, que 
ela também desfrutará. De fato... ‐Fez uma pausa para chamar o servente que essa 
manhã tinha enviado a farejar na casa dos Reid‐. Simon, já voltou? 
Simon meteu a cabeça para fora de uma porta no final do corredor   
‐Sim, milorde. 
  ‐O que averiguou? 
  ‐Ainda não decidiram o que farão esta noite. 
  ‐Pois, volte e tente de novo. É impossível que ela deixe passar uma noite 
sem assistir a algum evento. 
  ‐Quem é ela? ‐perguntou Duncan. 
  ‐Ophelia...,  e  me  deve  cem  libras  ‐  acrescentou  Raphael  com  um 
dramalhão. 
  ‐É  um  canalha  ‐  replicou  Duncan‐.  Apostamos  se  mudaria  e  sei  muito 
bem que... 
  ‐  Mudou  ‐  respondeu  Raphael‐.  Embora  não  tem  que  aceitar  minha 
palavra por isso. Meu homem averiguará onde estará esta noite e me assegurarei 
de conseguir convites suficientes para incluir também às tias de Sabrina. 
  ‐Fala sério? Por que acreditar que essa megera mudou? 
  ‐Porque estivemos juntos toda a semana passada‐ admitiu Raphael. 
  ‐Não me diga ‐ disse Duncan em tom cético. 
  ‐Não, sério. Quando a conhece melhor, é maravilhosa. 
  Duncan começou a rir. 
  ‐Agora já sei que está tirando o sarro. O que fez? Sequestrou‐a e lhe deu 
uma surra? 
  ‐  Algo  parecido  com  isso  ‐  disse  Raphael  enigmaticamente  com  um 
sorriso  envergonhado.  ‐Mas  você  vai  ser  capaz  de  ver  por  si  mesmo  que  eu  não 
estou  brincando  sobre  isso.  Fale  com  ela  esta  noite,  você  vai  se  surpreender. 
Aposto que ela poderia pedir desculpas a Sabrina, se você a levasse junto. Embora 
Ophelia tenha arrependimentos sobre a forma como a tratou 
   ‐Muito bem, isso tenho que ver. E eu gostaria de saber como realizou o 
milagre sem lhe dar uma surra. 
  ‐Bom,  poderia  lhe  bater,  intimidá‐la  ou,  simplesmente,  lhe  fazer  ver 
como percebem seus atos as demais pessoas. Dois dos três procedimentos deram 
resultado,  e  tudo  partiu  sobre  rodas,  sob  a  supervisão  de  minha  tia  Esme.  Agora 
volte para o hotel e diga às damas que têm tempo para prepararem‐se. Avisarei a 
hora em que passarei para pegá‐los assim que saiba aonde vamos. 
Capítulo 33
  
  Mary bateu na porta de Ophelia, entreabriu‐a e apareceu com a cabeça. 
  ‐ Já se decidiu, querida? 
  Ophelia  estava  sentada  na  sua  pequena  escrivaninha.  Olhava  o  vazio 
imersa em seus pensamentos em lugar de ler a pilha de convites  que sua mãe lhe 
tinha  levado  assim  que  retornou  do  passeio  a  cavalo.  Cinco  convites  tinham 
chegado  nessa  mesma  manhã.  Depois  da  festa  da  noite  passada  tinha  corrido  a 
notícia  de  sua  volta  à  cidade  e  muitas  anfitriãs  queriam  tirar  partido  de  sua 
popularidade. Sua presença costumava garantir o êxito de uma festa. 
  Tinha  lido  alguns  convites  antes  de  distrair‐se  pensando  em  Rafe  e  já 
sabia qual queria aceitar. 
  ‐Parece‐me  que  o  baile  de  lady  Wilcott  será  divertido.  Convidaram‐me 
no último momento. Celebra‐se esta noite. 
  ‐O comunicarei a seu pai. 
  ‐Não, não diga. Prefiro que a senhora me acompanhe. Importaria‐se? 
  ‐Absolutamente,  querida.  Gosto  de  assistir  contigo  a  alguns  desses 
eventos  da  temporada,  mas  seu  pai  me  dissuadiu  até  agora.  Disse  que  minha 
presença o distrairia muito e não poderia te vigiar como deveria. 
  Ophelia reprimiu sua reação de incredulidade. Que "amável" da parte de 
seu pai converter em uma completa rejeição à presença de sua mulher. 
  ‐Acreditava  que,  simplesmente,  não  gostava  de  ir  ‐  disse‐.  Sei  que 
prefere organizar festas em casa. 
  ‐Nunca tive uma boa razão para convencer seu pai de que o acompanhe 
a  uma  festa.  Na  realidade,  não  gosta  das  reuniões  sociais...,  exceto  quando  é  o 
anfitrião. 
  ‐Entendo. Não lhe digamos nada, então. Pode lhe deixar uma nota. 
  Mary riu baixinho. 
  ‐É uma ideia interessante. Certamente não evitaremos que nos  dê uma 
repreensão quando descobrir, mas terá valido a pena sairmos sozinhas. Por Deus 
que gostaria de fazê‐lo! 
  Ophelia sorriu quando sua mãe se foi. Agora também gostava dela. Não 
saía  com  sua  mãe  desde  o  dia  em  que  foi  às  compras  em  Bond  Street  antes  da 
temporada, e tinham passados meses da ocasião anterior, em que assistiram juntas 
ao teatro. 
  Havia  uma  razão  adicional  para  a  efervescência  que  crescia  em  seu 
interior naquela tarde enquanto Sadie a ajudava a vestir‐se para o baile. Não tinha 
nada a ver com seu aspecto, embora parecesse resplandecer com seu vestido azul 
pálido. Era sua cor predileta e com razão: favorecia o loiro claro de seu cabelo, sua 
pele  branca  e  os  olhos  azuis.  Tinha  vários  vestidos  da  mesma  tonalidade  embora 
com adornos distintos. Este estava debruado com cordões de prata dourada. Uma 
fina corrente de prata com pequenas safiras lhe rodeava o pescoço e fazia que seus 
olhos parecessem mais escuros. 
  Seu  olhar  transbordava  uma  excitação  que  mal  podia  conter,  porque 
pressentia  que  Rafe  assistiria  ao  baile  aquela  noite.  Intuição  nada  realista,  já  que 
ele  não  escolheria  um  evento  tão  lotado  para  a  noite.  Rafe  não  procurava  uma 
esposa. E uma noite, enquanto jantavam em Nest, havia dito a sua tia que já não iria 
acompanhar  Amanda  a  outras  festas.  Um  baile  de  gala,  portanto,  seria 
provavelmente  o  último  lugar  onde  poderia  encontrá‐lo.  Apesar  de  tudo,  tinha  o 
pressentimento de que o veria em casa dos Wilcott aquela noite. 
  Devido  a  esse  pressentimento,  não  deixava  de  buscá‐lo  com  o  olhar. 
Quando chegou à residência dos Wilcott, o grande salão de baile ficou em silencio a 
sua  entrada.  Sempre  adorava  esse  efeito.  Aquela  noite  mal  percebeu,  porque  sua 
atenção  estava  em  uma  única  coisa:  descobrir  Rafe  entre  a  multidão.  Sendo  um 
homem  muito  alto,  bastaram‐lhe  uns  momentos  para  saber  que  não  estava  ali... 
ainda. Não obstante, estava convencida de que chegaria. 
  ‐Sinceramente, teria preferido que não retornasse a Londres até depois 
do meu casamento. 
  Ophelia  se  voltou  e  descobriu  que  Amanda  Locke  a  tinha  seguido  pelo 
salão. A irmã de Rafe estava bonita com seu vestido de gala naquela noite, apesar 
de  sua  expressão  desgostosa.  O  colar  de  rubis,  que  tão  bem  combinava  com  seu 
vestido de baile cor de rosa, devia ser herança de família que lhe tinham permitido 
brilhar  em  sua  estréia.  Supunha‐se  que  Ophelia  tinha  visitado  os  Locke,  mas,  de 
fato, preferiria conhecer resto da família de Rafe. 
  ‐Olá, Amanda ‐ disse com um sorriso‐ Seu irmão veio contigo? 
  ‐Não ‐ resmungou Amanda‐. Sei que voltou para casa ontem à noite, mas 
não o vi. Na realidade, ainda não nos falamos. 
  ‐Não se zangue com ele. Os homens gostam de manter alguns assuntos 
em  segredo  ‐  disse  Ophelia‐.  Tenho  certeza  que  você  também  lhe  oculta  algumas 
coisas. 
  ‐Não..., bom, é possível ‐ respondeu Amanda com um ligeiro rubor e em 
seguida grunhiu‐: Sei, muito bem, a que se refere. 
  ‐Estupendo.  E  não  tenha  ciúmes  de  mim,  Amanda.  Se  quiser  me  dizer 
quem é o homem que te interessa, o rejeitarei da forma mais grosseira. 
  ‐Por que faria isso por mim? 
  ‐Por que não? Embora custe acreditar, não desejo que todos os homens 
da cidade caiam rendidos a meus pés. Acaba sendo um problema. Além disso, não 
posso me casar com todos! 
  Amanda lhe lançou um olhar estranho antes de dizer: 
  ‐Fala sério, não é verdade? 
  ‐É obvio ‐ afirmou Ophelia. 
  ‐Não parecia no princípio da temporada, quando se amontoavam todos 
a seus pés. 
  ‐ Eu incentivei isso, mas foi principalmente para o beneficio do meu pai. 
Pretendia lhe demonstrar que era capaz de conseguir qualquer homem e que não 
precisava me comprometer com alguém a quem nem sequer conhecia. 
  Amanda fez uma careta. 
  ‐Não  sei  como  pôde  aguentar,  bom,  antes  de  conhecer  MacTavish  e 
descobrir  que  não  é  um  ogro.  Eu  estaria  furiosa  com  meus  pais...  e  também 
aterrorizada. 
  ‐Obrigada. É bom saber que não só eu tinha esses sentimentos. 
  ‐Na  realidade,  tampouco  se  sentiu  feliz  com  MacTavish  depois  de 
conhecê‐lo. Estou enganada? 
  Ophelia balançou a cabeça. 
  ‐Suponho que algumas pessoas não formam um bom casal em nenhuma 
circunstância. Por sorte, percebemos antes que fosse muito tarde. 
  Era  só  uma  pequena  mentira,  nem  sequer  era  sua  mentira,  e  então 
Ophelia  não  sentiu‐se  mal  por  dizê‐la.  Surpreendentemente,  Amanda  e  ela 
continuaram  conversando  durante  vinte  minutos.  Os  cavalheiros  começaram  a 
interromper  embora  só  para  assinar  seus  carnês  de  baile.  Ao  final,  Amanda 
reconheceu que ainda não tinha posto o olhar em nenhum homem, no entanto, que 
lhe parecia muito difícil tomar uma decisão. 
  ‐Não sei se posso te dar algum conselho ‐ interveio Ophelia‐, exceto que 
espere que o amor resolva seu problema. Rafe disse que está convencida de que o 
amor vai de mão com a felicidade. 
  ‐Sim, certamente o disse mais de uma vez. É o que faz você? Esperar que 
chegue o amor? 
  ‐Temo  que  minha  situação  é  um  pouco  distinta.  Se  não  encontrar  um 
marido logo, meu pai voltará a intervir e escolherá por mim. 
  ‐Isso é tão... antiquado! 
  A  jovem  se  indignava  por  ela  e  Ophelia  não  duvidou  nem  por  um 
momento da sinceridade de suas emoções! Não podia acreditar. Quanto importava 
tratar  às  pessoas  com  bondade  e  receber  amabilidade  em  troca!  Santo  Deus! 
Passou  a  vida  com  ideias  equivocadas,  afastando  deliberadamente  a  pessoas  que 
poderiam ter sido seus amigas? 
  ‐Ah,  que  surpresa  tão  agradável!  ‐exclamou  Amanda  olhando  atrás  da 
Ophelia‐. Sabrina está na cidade. Vamos saudá‐la? 
  Ophelia  se  voltou  e  viu  que  as  Lambert,  tias  e  sobrinha,  faziam  sua 
entrada  no  salão  de  baile.  Quase  não  reconheceu  Sabrina,  tão  bela  estava  àquela 
noite,  e  nem  sequer  usava  um  vestido  de  baile  a  não  ser  um  simples  e  modesto 
vestido  de  noite  de  cor  verde  pálida.  Não  obstante,  resplandecia.  Seu  pequeno 
príncipe  de  Yorkshire  a  tinha  convertido  em  uma  mariposa.  O  amor  era  capaz 
disso? 
  Entretanto,  Ophelia  começou  a  sentir‐se  muito  incômoda  enquanto 
seguia  Amanda  através  do  salão.  Rafe  a  tinha  feito  ver  com  quanta mesquinharia 
tinha  tratado  à  moça.  O  ciúme  não  era  uma  desculpa  válida.  Uma  sensação  de 
arrependimento  lhe  oprimia  o  peito.  Quando  chegaram  junto  à  Sabrina,  Ophelia 
quase chorava! Por Deus, não começaria a chorar no meio do salão de baile! 
  Manteve‐se  afastada  enquanto  Amanda  saudava  as  damas.  Sabrina 
sorria enquanto trocava algumas palavras com a irmã de Raphael, mas seu sorriso 
se quebrou quando viu Ophelia. Mary chegou para saudar as tias  de Sabrina, que 
eram também velhas amigas delas, e distraiu Amanda por um momento. 
  Ophelia agarrou a oportunidade para abraçar a Sabrina e lhe sussurrar 
ao ouvido: 
  ‐Aproveitei‐me  de  sua  amabilidade.  Sinto  muito...  ‐As  lágrimas 
começaram  a  brotar!‐  Lamento  muito.  Mas,  sobre  tudo,  lamento  ter  mentido  a 
respeito  de  Duncan.  Dava  por  certo  muitas  coisas  que  não  eram  certas  e  estava 
com  ciúmes  de  você,  mais  de  uma  vez.  Só  quero  que  saiba  que  me  arrependo  de 
tudo. 
  Não esperou uma resposta. Envergonhada das lágrimas que corriam por 
suas bochechas, saiu do salão antes que alguém percebesse. 
Capítulo 34
  
  ‐O que a preocupa, moça? ‐perguntou Duncan a sua noiva quando, por 
fim, entrou no salão e se aproximou‐. Ainda está zangada porque a fiz vir mesmo 
sem um vestido de baile adequado? 
  Sabrina se inclinou para ele e lhe deu uns tapinhas na bochecha. 
  ‐Não, nunca me zango contigo. É Ophelia. Acaba de desculpar‐se por ter 
mentido a respeito de ti, mas sei que não fala sério. Por que se incomodou? 
  Duncan encolheu seus largos ombros. 
  ‐Provavelmente para que Rafe ganhe a aposta? 
  ‐Ah, é obvio, a aposta! ‐disse Sabrina, mas franziu o cenho ainda mais‐. 
Não, ela nunca se humilharia para ajudar a outro. Ophelia não é assim. 
  ‐Por que dúvida de sua sinceridade, então? ‐perguntou Duncan. 
  ‐Porque disse que tinha ciúmes de mim. 
  ‐ E? 
  ‐Não te parece suficiente? Como poderia ela ter ciúmes de mim? 
  Duncan começou a rir. 
  ‐Facilmente.  Não  sabe  que  é  maravilhosa?  Além  disso,  o  ciúme  não 
necessita  de  razões.  Que  ela  seja  tão  formosa  não  significa  que  não  tenha  suas 
dúvidas e inseguranças. 
  ‐Está defendendo‐a? ‐perguntou Sabrina, incrédula. 
  ‐Não, só me pergunto se Rafe tinha razão e ela virou a página. 
  ‐Pensa que ganhou a aposta? 
  ‐Sim, e vim para comprová‐lo por mim mesmo. Onde está Ophelia? 
  A expressão de Sabrina se tornou pensativa. 
  ‐Parecia  estar  emocionada.  Supus  que  fingia  está‐lo.  Dá‐lhe  bem  fingir. 
Em qualquer caso, suponho que abandonou o salão até recuperar a compostura. 
  Raphael e Duncan se entretiveram no vestíbulo com um velho amigo do 
pai  de  Rafe.  Duncan  pôde  escapulir  antes  para  entrar  no  salão  de  baile,  mas 
Raphael demorou quase dez minutos em encontrar uma forma cordial de pôr fim à 
conversa. Quando, por fim, entrou no salão teve que procurar a seus amigos. Nem 
sequer era consciente de procurar também a uma cabeça loira. 
  O  silêncio  imperou  na  sala.  Esquecia  que  sua  presença  podia  causar 
certa  comoção,  já  que  fazia  vários  anos  que  não  assistia  a  um  baile  londrino.  Em 
seguida  se  viu  rodeado  de  conhecidos,  que  não  o  tinham  visto  desde  sua  volta  a 
Inglaterra  e  que  desejavam  lhe  dar  boas  vindas.  E...,  maldição,  outra  vez  as 
mamães. 
  Quando  viu  que  duas  grandes  damas  se  aproximavam  com  passos 
longos arrastando suas filhas atrás delas, sentiu a tentação de fazer uma retirada 
precipitada até sua própria casa. Não obstante, conseguiu perseverar, fez alarde da 
atitude mais distante da que era capaz e declinou dançar quando tentaram obrigá‐
lo a fazê‐lo. Estava a ponto de mostrar‐se descortês quando foi salvo por sua irmã, 
que o levou sem mais preâmbulos. Só Amanda podia fazer algo assim sem sofrer as 
consequências, tão frívola e exuberante como fingia ser às vezes. 
  Levou‐o arrastado até a mesa de refrescos, coberta de sucessivas fileiras 
de  taças  dispostas  ordenadamente  e  cheias  de  toda  uma  variedade  de  bebidas, 
desde  champanha  até  chá  suave,  onde  um  servente  se  ocupava  de  substituir  as 
taças  já  usadas.  Raphael  tomou  uma  taça  de  champanha.  Amanda  sabia  que  não 
podia  fazer  o  mesmo, ao  menos, não  diante de  seu irmão,  e agarrou  uma  taça  do 
outro extremo da mesa, onde estavam as bebidas que não continham álcool. 
  ‐Poderia  me  dizer  que  viria  ‐  queixou‐se  enquanto  tomava  um  gole  de 
seu  refresco‐.  Assim  não  teria  obrigado  tia  Julie  que  viesse,  porque  não  gosta, 
absolutamente. E antes que me esqueça, estive conversando com Ophelia. Não vai 
acreditar  nisso,  foi  amável  comigo!  Quase  caio  de  costas...  Ah,  bom,  dá  igual, 
esquecia‐me que ainda não nos falamos. 
  Afastou‐se  bruscamente  enquanto  Raphael  ria  entre  dentes.  Quase 
sentia lástima pelo homem que escolhesse sua irmã. Pobre tipo, não teria nem um 
momento de paz. 
  Finalmente, localizou Duncan e Sabrina, que passaram dançando diante 
dele. Não demorou nem um momento em localizar Ophelia quando tentou entrar 
despercebida  no  salão.  Era  como  um  ímã  para  seus  olhos  e,  como  sempre,  sua 
beleza lhe tirou o fôlego. 
  Seu vestido de baile cor azul pálida debruado em prata seria apropriado 
quando  era  a  rainha  de  gelo,  mas  não  havia  nada  frio  em  sua  pessoa  nesses 
momentos. Ophelia estava acostumada a caminhar com altivez inconfundível, que 
também  tinha  abandonado.  Na  realidade,  parecia  ter  perdido  a  confiança  em  si 
mesma. 
  A  ideia  o  aterrou.  O  que  tinha  feito?  Se  a  tinha  convertido  em  uma 
ratinha envergonhada se mataria com um tiro. 
  Em  seguida  começou  a  caminhar  para  ela.  Tinha  que  andar  depressa. 
Com  a  extremidade  do  olho  viu  que  meia  dúzia  de  homens  se  encaminhava  na 
mesma direção. Alcançá‐la converteu‐se em uma maldita corrida! Ganhou por um 
cabelo e, posto que os outros estavam a ponto de amontoar‐se ao redor de Ophelia, 
agarrou‐a pela mão e a levou para a pista de baile. 
  No meio caminho lhe ocorreu perguntar: 
  ‐ Concede‐me essa dança, querida? 
  ‐Encantada  ‐  respondeu  ela‐  Se  nos  interrompem  será  porque  já  o 
prometi a outro. 
  ‐Correrei o risco. ‐Entraram precipitadamente na pista. 
  No  momento  de  abraçá‐la  para  a  valsa,  embargou‐o  uma  estranha 
sensação possessiva. Era ridículo. Embora tivesse a ver com sua mudança, embora 
tivesse domado à fera, Ophelia não era criação dele. Ele havia se limitado a trazer á 
luz as boas qualidades que ela já possuía e que estavam latentes. 
  Há  diferentes  tipos  de  posse,  no  entanto,  Raphael  nem  sequer  queria 
pensar  em  uma  das  mais  comuns,  que  não  tinha  capacidade  em  sua  esfera  de 
emoções.  Embora  não  podia  negar  que  sentia  falta  de  tê‐la  a  seu  dispor  no 
ambiente  depravado  de  Nest.  E  muito.  Nesse  lugar,  como  em  qualquer  evento 
público, não podia passar muito tempo a sós com ela. Uma dança no máximo essa 
noite,  para  que  não  se  desatassem  as  línguas.  Entretanto,  desejava  passar  mais 
tempo com ela, vê‐la rir outra vez, desfrutar de sua engenhosidade natural. 
  Tinha‐a  deixado  partir  embora  não  pudesse  ser  de  outra  maneira.  Em 
todo momento estava pensando em deitar‐se com ela, em lugar de terminar o que 
tinham começado. Menos mal que tinham terminado. Mas, embora já não pudesse 
monopolizar  seu  tempo,  convenceu‐se  de  que  precisava  vigiá‐la  e  agora  queria 
assegurar‐se  de  que  não  tinha  forçado  seu  comportamento  muito  em  direção 
contrária. 
  Ophelia  estava  bem  com  ele  ou,  ao  menos,  isso  parecia.  Era  só  porque 
podia  relaxar  em  sua  presença  depois  de  tudo  o  que  tinham  vivido  juntos? 
Considerava  que  eram  amigos,  de  algum  modo?  Ainda  tinha  que  ver  como  se 
comportava com os outros. E essa expressão temerosa, vergonhosa, que estampava 
quando entrou no salão lhe preocupava. 
  ‐É difícil te tocar sem querer te saborear. ‐Por Deus, havia  dito em voz 
alta? Viu que sim, porque ela ruborizou. Raphael se apressou em acrescentar‐: Não, 
não  ruborize.  É  muito  bonita  quando  o  faz.  ‐O  rubor  ficou  mais  intenso‐.  Muito 
melhor. As manchas lhe favorecem. Pensei nisso mais de uma vez. 
  Ophelia riu. 
  ‐É um brincalhão terrível. 
  ‐Não,  sou  um  bom  brincalhão.  Incomparável,  se  quer  saber.  O  melhor 
brincalhão de Londres. 
  ‐Calado! 
  ‐Está melhor? 
  Ophelia o olhou curiosa e rebateu: 
  ‐Não sabia que estava mau. 
  Ele encolheu os ombros. 
  ‐Não parecia você mesma quando entrou no salão. 
  ‐Ah,  é  por  isso.  Falei  com  Sabrina.  Parecia  um  pouco  incômoda,  isso  é 
tudo. 
  ‐Foi ruim? ‐perguntou Raphael. 
  ‐Não, se quer saber, desculpei‐me. 
  ‐Não por mim, espero. 
  ‐Não,  de  fato,  sinto‐me  muito  bem  depois  de  fazê‐lo  como  se  tivessem 
tirado  um  peso  de  cima  de  mim.  Certamente  me  sentiria  ainda  melhor  se  ela  me 
perdoasse. 
  Raphael franziu o cenho para ouvir estas palavras. 
  ‐Não o fez? Não é próprio dela. 
  ‐Entendeu‐me  mau.  Provavelmente  o  fez,  mas  eu  não  fiquei  para 
averiguar. Parecia um pouco... embaraçoso. 
  ‐Embaraçoso,  hein?  ‐disse  ele  com  olhar  compreensivo  ‐  não  há 
problema em admitir que chorou. 
  ‐Não acha... 
  ‐Não comece a mentir outra vez ‐ disse Raphael em tom frívolo embora 
também de reprimenda. 
  ‐Feche  a  boca.  Se  quiser  dar  ao  pranto  outro  nome,  farei  ou  quer  que 
volte a ruborizar? 
  Raphael afogou a risada. 
  ‐Por favor, chame como quiser. 
Capítulo 35
  
 Encontrava‐se outra vez entre seus braços embora já não fosse o mesmo. 
Não, com dúzias de olhos sobre eles. E a Ophelia parecia difícil fazer malabarismos 
com  suas  emoções  e  suas  atitudes  quando  monopolizava  a  atenção  de  Rafe. 
Deveria  moderar  seu  sorriso,  porque  muitas  pessoas  os  estavam  observando  e 
devia manter o olhar separado de seus olhos ou, pelo menos tentar, porque seria 
muito fácil perder‐se nesses olhos azuis e esquecer onde estavam. 
  Raphael  estava  muito  bonito  com  seu  traje  de  gala.  Certamente,  cada 
mulher no salão estava desejando ocupar o lugar de Ophelia. Embora, por uma vez, 
não pelas razões habituais! Com sua jaqueta de cauda e sua gravata de um branco 
neve, Rafe estava irresistível. 
  E  sedutor!  Deus,  não  podia  acreditar  que  disse  que  queria  saboreá‐la. 
Quase lhe afrouxaram os joelhos!  
Depois de todo o tempo juntos, ele liga o charme sensual agora com essas 
insinuações  sexuais  flagrantes,  quando  não  podiam  fazer  nada  sobre  isso.  Ela 
gostaria  de  pensar  que  ele  simplesmente  não  podia  ajudar  a  si  mesmo,  mas  era 
mais  provável  que  ele  só  se  sentia  seguro  fazê‐lo  agora,  quando  ela  não  podia 
responder como gostaria, e nem podia. 
 A dança terminou muito rápido para seu gosto embora fosse melhor assim. 
Não  era  capaz  de  continuar  tão  perto  de  Rafe  sem  tocá‐lo  mais  intimamente  que 
lhe sustentar a mão para dançar. 
  ‐Sabia  que  viria  ‐  disse  timidamente  Ophelia,  enquanto  ele  a  conduzia 
longe da pista de dança.  
  ‐Pegou meu homem espiando? 
  ‐Que homem? 
  Raphael levantou os olhos para o teto. 
  ‐Não importa. Como sabia? 
  ‐Tinha  uma  forte  premonição.  Provavelmente,  porque  confessou  que 
pretende continuar me ajudando enquanto procuro um marido. 
  Na  realidade,  esperava  que  Rafe  retificasse  a  hipótese,  mas  ele  se 
limitou a dizer: 
  ‐Ah,  então,  já  estamos  dispostos  considerar?  Não  vai  se  precipitar  só 
para se liberar da tutela de seu pai? A propósito, como foi seu reencontro, além de 
revoltante? 
  ‐Exatamente como esperava. Embora, tendo em conta nossas discussões 
a gritos no passado, devo admitir que não me zanguei com ele tanto como antes e, 
neste sentido, o encontro foi bem. 
  Depois  Rafe  tinha  acabado  de  dissipar  seu  aborrecimento  na  sala  de 
jantar, mas Ophelia não mencionou. A lembrança daquele beijo, entretanto, deu um 
pouco mais de cor a suas bochechas. 
  Prosseguiu: 
  ‐Não  acredito,  no  entanto,  que  possa  tomar  meu  tempo  para  procurar 
um marido. Meu pai decidiu resolver o assunto logo e é ele quem move os fios. 
  ‐Provavelmente deveria falar com ele ‐ indicou Raphael. 
  ‐Nem  pense  nisso!  Pensará  que  está  interessado  em  mim  e  se  sentirá 
animado. 
  ‐Maldição, por que tem tanta pressa? 
  ‐Não adivinha? Desde que nasci espera que me case para poder  colher 
os  benefícios  sociais.  Pareceu  consegui‐lo  com  Duncan  e  estava  muito  satisfeito 
com esse noivado. Fracassada nossa relação, está indiscutivelmente insatisfeito. Na 
realidade,  está  furioso  por  encontrar‐se  outra  vez  no  ponto  de  partida.  Não  se 
surpreenda que agora ponha seus olhos em ti. 
  ‐Sinto muito, não é meu tipo. ‐Disse com expressão tão séria que Ophelia 
começou a rir. Mesmo assim, sentiu‐se obrigada a lhe advertir. 
  ‐Pode  rir,  mas  o  assunto  é  sério.  Agora  meu  pai  está  decidido  a  te  ter 
como genro. 
  Raphael fez uma careta. 
  ‐Temo  que  eu  mesmo  possa  ter  fomentado  essa  ideia  com  a  carta  que 
lhe  enviei.  A  insinuação  é  uma  arma  poderosa,  que  se  abre  a  todo  tipo  de 
interpretações. 
  Tinha  aberto  caminho  através  da  concorrência  que  se  amontoava  ao 
redor  da  pista  de  dança  até  dar  com  a  mãe  de  Ophelia,  com  a  qual,  sem  dúvida, 
pensava  deixá‐la.  Por  desgraça,  Mary  continuava  conversando  com  Sabrina  e  sua 
tia Hilary. Duncan estava ali também, atrás de Sabrina, com as  mãos apoiadas em 
seus ombros. 
  Quem  iria  imaginar  que  esses  dois  se  apaixonariam?  Eram  tão 
incompatíveis,  o  bonito  e  musculoso  escocês  e  a  doce  criatura  do  campo,  que  de 
modo  algum  era  uma  beleza.  Certamente,  o  que  seduziu  Duncan  foi  o  dom  de 
Sabrina  de  ver  o  lado  divertido  de  todas  as  situações  e  transmiti‐lo  aos  outros. 
Primeiro  se  tornaram  amigos  e  logo  floresceu  o  amor,  e  queria  Ophelia  o  tivesse 
visto antes de permitir que sua  colossal presunção a convencesse de que Duncan 
só pretendia passar ciúmes a ela. 
  Pensou  que  devia  uma  desculpa  também  a  ele,  por  todas  as  suas 
hipóteses  equivocadas  e  por  havê‐lo  obrigado  a  viver  um  inferno  emocional 
quando  viu  a  si  mesmo  carregando  ela  como  esposa.  Curiosamente,  entretanto, 
aquele  período  infeliz  teria  dado  um  resultado  muito  diferente  se  ela  percebesse 
antes de conhecê‐lo. 
  Até  poderiam  ter  se  apaixonado.  Que  ideia  tão  assombrosa!  Não 
obstante,  poderia  ter  acontecido  se  ela  não  se  mostrasse  tão  egocêntrica  e 
resolvida  a  livrar‐se  daquele  noivado,  e  se  ele  não  chegasse  a  fartar‐se  tanto  de 
seus insultos e desprezos. Desculpar‐se por tê‐lo feito equivaleria, pois, a afirmar 
que  lamentava  que  Duncan  tivesse  encontrado  o  amor  com  Sabrina  em  lugar  de 
com ela. Não, isto, certamente, não seria bem recebido. 
  Desta vez Sabrina lhe sorriu. Contente e aliviada, Ophelia lhe devolveu o 
sorriso. Logo viu o olhar receoso de Duncan e quis reconfortá‐lo. 
  ‐Olá, Duncan ‐ disse quase com acanhamento‐. Surpreende‐me ver a ti e 
Sabrina em Londres quando falta tão pouco tempo para seu casamento. 
  ‐É só uma viagem de compras, porque minhas damas não encontravam 
certas coisas em casa. 
  Hilary  Lambert  resplandeceu  ao  ver‐se  incluída  em  "suas  damas",  mas 
continuou conversando com Mary. As velhas amigas nunca deixavam de recordar 
os dias de sua juventude quando tinham ocasião de se encontrarem. 
  ‐Felicidades  pelo  casamento  iminente  ‐  disse  Ophelia  a  Duncan‐.  Estou 
muito contente por ambos. 
  ‐Que  me  crucifiquem!  ‐respondeu  Duncan  com  certa  incredulidade‐. 
Parece que fala sério. 
  Não era uma pergunta, mas Ophelia respondeu: 
  ‐Pode  que  você  e  eu  fizéssemos  bom  casal  se  não  nos  tivessem 
"obrigado" a nos conhecer, mas não tenho dúvidas de que Sabrina é a mulher ideal 
para você. Será muito melhor esposa do que eu poderia ser. 
  Duncan dirigiu um olhar incrédulo para Rafe. 
  ‐Rendo‐me, amigo. Não preciso ouvir mais para saber que ela mudou, e 
para bem. Não me importa perder esta aposta contigo. 
  Ophelia  franziu  o  cenho  embora  não  compreendesse  rapidamente  as 
palavras de seu ex‐noivo. Até que viu que Raphael se encolhia. 
  ‐Este foi um elogio por seu êxito, Ophelia ‐ quis dizer ele. 
  Ophelia perguntou, como se Rafe não tivesse falado: 
  ‐Uma aposta? Foi tudo por uma aposta? Fez‐me feito passar pelo inferno 
por uma maldita aposta? 
  ‐Não foi assim absolutamente. 
  ‐Ah, não? 
  ‐Não ‐ assegurou‐lhe Raphael‐. Eu sabia que podia mudar, todos somos 
capazes disso. A aposta foi só minha reação ao ceticismo de Duncan. 
  Ophelia olhou para Duncan e viu que ele se encolhia a sua vez. Sabrina 
parecia  envergonhada.  Por  seu  noivo?  Ou  porque  Ophelia  fazia  uma  cena 
levantando  a  voz?  As  pessoas  se  voltavam  para  olhá‐los.  Mary  e  Hilary 
interromperam  sua  conversa  e  perguntaram  quase  ao  uníssono  qual  era  o 
problema. 
  Ophelia não respondeu. Só podia pensar em como devem ter rido dela 
Rafe e Duncan quando fizeram a aposta! Tudo o que ela pensava, tudo o que Rafe 
lhe havia dito... Tudo era mentira? 
  Lançou a Rafe um olhar entre aniquilada e assassina. 
  ‐Disse  que  o  fazia  por  minha  felicidade?  Quando  em  todo  momento 
atuava  porque  tinha  investido  dinheiro  no  resultado...  em  mim!  Deus,  que 
embusteiro é! 
  ‐ Phelia, juro que... 
  Ophelia  não  escutou  o  resto  da  explicação.  Já  saía  correndo  do  salão, 
seguida por sua mãe. 
  ‐O que aconteceu? ‐perguntou Mary sem fôlego pelo esforço de alcançar 
a sua filha. 
  Nem sequer pediram seus casacos e Ophelia tampouco quis esperar que 
lhes trouxessem a carruagem diante da casa. Cruzou a porta correndo e foi buscá‐
la  ela  mesmo.  Como  a  carruagem  estava  estacionada  junto  à  calçada,  não  muito 
longe da casa, já estavam no caminho nos poucos instantes de subir ao veículo. 
  ‐O que aconteceu? ‐perguntou sua mãe de novo. 
  Ophelia não respondeu. Não era capaz de pronunciar palavras por culpa 
do  nó  que  lhe  fechava  a  garganta.  As  lágrimas  que  corriam  por  suas  bochechas, 
entretanto,  eram  resposta  suficiente  para  Mary.  Logo  seu  ombro  absorvia  os 
soluços rasgados de sua filha. 
  De  pé  na  soleira  da  entrada,  Raphael  viu  que  a  carruagem  de  Ophelia 
desaparecia rua abaixo. Tinha seguido‐a com poucos segundos de diferença, já que 
só se entreteve o suficiente para grunhir a Duncan: 
  ‐Muito obrigado, amigo. 
  ‐Ela não sabia da aposta? ‐perguntou Duncan. 
  ‐Diabos,  claro  que  não.  Parece  que  levo  a  palavra  “idiota"  escrita  na 
testa? Não? Dê‐me um momento, sem dúvida aparecerá. 
  ‐O que importa se fizemos uma aposta? ‐disse Duncan‐. Ophelia mudou. 
Já não é uma megera infernal. 
  ‐Ela  mudou  pelas  razões  apropriadas.  Agora  pensará  que  foram 
equivocadas. E isso poderia anular os resultados de todos meus esforços. 
  ‐Pois corra atrás dela e explique tudo!  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 36
  
    Raphael  chegou  à  residência  dos  Reid  na  hora  mais  cedo  que  se  podia 
considerar decente para uma visita. Não foi recebido. As senhoras, mãe e filha, não 
recebiam visitas hoje e o conde não estava em casa. Voltou pela tarde e lhe deram a 
mesma mensagem. Depois da segunda tentativa esperou um momento na rua e viu 
que também rejeitavam outros. Com certo alívio, ao menos, não era o único. 
    Tampouco  Simon,  seu  enviado,  teve  sorte  em  averiguar  o  programa  das 
damas  para  o  dia  e  a  noite.  De  fato,  jogaram‐no  a  pontapés  quando  uma  das 
faxineiras  disse  ao  mordomo  que  não  pertencia  ao  serviço  da  casa.  Simon,  não 
obstante,  já  tinha  suas  ordens  para  tal  contingência.  Esperou  rua  abaixo  em  uma 
carruagem alugada para poder seguir às damas quando saíssem. Não saíram. 
    Raphael  descobriu  que  a  ansiedade  é  um  sentimento  decididamente 
desagradável. Devia ter seguido Ophelia até sua casa na noite passada e, apesar da 
hora, insistido em vê‐la. Assim não teria se deitado com as tripas revoltas, sensação 
que  ainda  não  o  tinha  abandonado.  O  pior  era  pensar  que  a  tinham  ferido  as 
palavras  de  Duncan.  Preferia  seu  aborrecimento  mil  vezes.  Tinha  muita 
experiência em tratar com ele. 
    Foi  quase  um  alívio  quando  chegou  a  carta  de  seu  pai  requerendo  sua 
presença  em  Norford  Hall.  Não  lhe  surpreendeu  a  missiva.  Em  todo  caso, 
surpreendia‐lhe  que  não  tivesse  chegado  antes.  Não  tinha  passado  muito  tempo 
com sua família após seu retorno a Inglaterra. Certamente, seu pai tinha esperado 
pacientemente  que  retornasse  a  Norford  Hall  e  agora  sua  paciência  se  esgotava. 
Embora aquela chamada não lhe parecesse extraordinária, entretanto, tampouco a 
podia ignorar só porque chegava em mau momento.   
  Passou a noite escrevendo uma longa carta a Ophelia, mas, no final, rasgou‐
a.  Uma  explicação  sobre  papel  não  era  suficiente  e  até  poderia  piorar  as  coisas, 
segundo o estado de ânimo da jovem. Suas emoções poderiam ser tão voláteis que 
precisava estar presente para calibrar a resposta a sua explicação. E o que lhe diria, 
na realidade, além de que a aposta foi o que pôs em marcha seu plano, mas que, no 
final, nada teve a ver com o procedimento. 
    Partiu na manhã seguinte para Norford Hall. Depois de passar quase toda a 
noite  escrevendo  aquela  carta  a  Ophelia  estava  muito  cansado  para  perguntar 
sequer  a  Amanda  por  que  tinha  decidido  acompanhá‐lo  na  curta  viagem.  Passou 
quase toda a manhã recuperando o sono perdido. 
    Quando,  por  fim,  despertou  ao  redor  do  meio  dia  e  viu  sua  irmã  sentada 
frente  a  ele,  tentando  ler  um  livro  entre  os  saltos  e  as  sacudidas  da  carruagem, 
disse‐lhe: 
    ‐Veio para me proteger? 
    Amanda o olhou por cima do livro. 
    ‐Me ocorreu que poderia necessitar amparo. 
    Raphael tinha brincado. Ela parecia falar sério. 
    ‐Por quê? Não fiz nada que mereça uma reprimenda. Certamente, nosso pai 
está incomodado porque passou a temporada longe de casa. 
    ‐Ou porque já sabe que se escondeu no campo com Ophelia. Se me permite, 
ainda não me contou porque fez aquilo. 
  Raphael entreabriu os olhos. 
    ‐Não disse você? 
    Amanda assumiu uma expressão ressentida e disse: 
    ‐Realmente acredita que faria algo assim? 
    ‐Lembra que quando tinha dez anos foi correndo a contar a papai que tinha 
feito um novo forte. 
    ‐Destroçou  o  labirinto  com  aquele  forte,  abriu  uma  saída  nova  no 
cruzamento  mais  desconcertante,  quando  eu  acabava  de  descobrir  a  autêntica 
saída.  Estava  muito  orgulhosa,  mas  você  teve  que  dificultar...,  além  disso,  só  era 
uma menina. 
    ‐Ainda é uma menina ‐ disse Raphael. 
    ‐Como se atreve...? 
  Discutiram  amigavelmente  durante  o  resto  da  viagem,  que  não  foi  muito 
longa. A discussão era habitual dada à propensão de Raphael às  brincadeiras. Um 
silêncio  disciplinado  e  precavido  imperou  entre  ambos,  entretanto,  quando  se 
aproximaram  de  Norford  Hall.  A  mansão  ducal  se  expandia  tanto  que  ambos 
podiam divisar uma parte através de suas respectivos janelas. Seu lar. A família, os 
serventes com os quais tinham crescido e que eram como parte da família. A velha 
mansão  estava  associada  com  um  tesouro  de  lembranças,  que  sempre  enchiam 
Raphael com uma cálida sensação de paz e bem‐estar. 
    Ophelia  não  saiu  de  seu  quarto  em  dois  dias.  Temia  começar  a  chorar  se 
alguém a olhasse com desconfiança, mesmo com medo de pegar‐lhe um tiro. Suas 
sensações  oscilavam  entre  uma  muito  estranha  dor  no  peito,  que  dava  lugar  a 
muitas  lágrimas,  e  uma  fúria  tão  grande  que  se  sentia  capaz  de  matar  alguém... 
bom, a qualquer um não..., só a ele. 
    Também  estava  furiosa  consigo  mesma  por  ter  sido  tão  crédula.  Tinha 
acreditado que Rafe desejava realmente ajudá‐la quando o único queria era ganhar 
uma  aposta.  Além  de  ficar  com  ela.  Fingiu  não  desejar  lhe  fazer  amor,  mas, 
certamente,  também  isto  formava  parte  do  plano  desde  o  começo.  Tinha  tanta 
prática  seduzindo  que  ela  nem  sequer  soube  que  a  tinha  seduzido!  E  não  podia 
tirar da cabeça a imagem dos dois amigos rindo dela! 
    Sadie não conseguia fazê‐la falar do tema. Por uma vez, sua  velha tática de 
silêncio não dava resultado com Ophelia. Outro defeito desaparecido para sempre? 
Tampouco  sua  mãe  podia  convencê‐la  a  que  falasse.  Não  queria  que  ninguém 
soubesse que idiota tinha sido. Mary, entretanto, era tenaz. Não ia desistir até que 
Ophelia voltasse a ser ela mesma, de modo que a seguinte vez que chamou a sua 
porta, a jovem fez um esforço por tranquilizá‐la. 
    ‐Já está melhor? ‐perguntou Mary aparecendo à cabeça pela porta. 
    ‐Não passa nada, mamãe, não tem que andar nas pontas dos pés. Já  estou 
bem. 
    Não estava, mas tampouco queria que sua mãe se preocupasse. A expressão 
de insônia não tinha desaparecido do rosto de Mary quando entrou no quarto. 
    ‐Você gostaria de falar sobre isso agora? 
    ‐Prefiro  não  fazê‐lo.  Simplesmente,  dava  por  feitas  algumas  coisas  que 
pareciam não ser certas. 
    ‐Mas o superou? 
    ‐Claro  que  sim.  Só  lhe  dava  muita  importância.  Não  era  para  tanto.  ‐
Esboçou  um  sorriso,  sentiu  que  se  quebrava  e  afastou  o  rosto  rapidamente,  para 
que  Mary  não  percebesse‐.  Surpreende‐me  que  papai  não  tenha  vindo  esmurrar 
minha porta ‐ prosseguiu‐. Perdi duas jornadas de caça marital, deve estar chiando 
os dentes. 
    ‐Na realidade, poucas vezes o vi de tão bom humor. ‐ Mary franziu o cenho 
pensativa‐. Nem sequer me repreendeu por termos saído juntas na outra noite sem 
lhe dizer nada. A última vez que o vi sorrir tanto foi quando dobrou seu dinheiro 
em um bom investimento. Certamente, também agora se trata disso. 
    ‐Não lhe conta quando ocorre algo assim? 
  ‐Por  Deus,  não.  Acredita  que  os  assuntos  de  dinheiro  excedem  minha 
capacidade de compreensão. 
    Ophelia riu. Era a primeira vez que tinha vontades de rir desde a noite do 
baile dos Wilcott. 
    ‐Provavelmente, poderia ensinar‐lhe um monte de coisas... 
    ‐Silêncio. ‐Mary sorriu‐. Prefiro que não saiba. Que siga com suas ilusões e 
seus enganos. 
    O  momento  de  alívio  se  desvaneceu.  Não  era  a  primeira  vez  que  Ophelia 
tinha  que  reprimir  um  comentário  depreciativo  em  relação  a  seu  pai.  Logo  se 
perguntou  por  que  se  dava  o  trabalho  de  reprimir‐se.  Não  é  que  sua  mãe  não 
conhecesse seus sentimentos por ele. 
    Cedeu ao impulso e disse: 
    ‐Sabe, mamãe? Poderia confessar que teve uma relação com outro homem 
antes que eu nascesse e que papai não é meu verdadeiro pai. 
    Mary suspirou. 
    ‐Querida, às vezes, eu também desejaria poder fazer esta confissão, embora 
só por ti. Sei que ele e você não se dão bem e é uma lástima. Mas o amo. É um bom 
homem embora, às vezes, possa ser tão teimoso... ‐concluiu Mary com exasperação. 
    ‐Em todo relacionado comigo ‐ esclareceu Ophelia. 
    ‐Sim. Mas não se preocupe, querida. Algum dia recordará tudo isto com um 
sorriso. Estou convencida disso. 
    Duvido  muito,  pensou  Ophelia,  mas  não  disse  nada.  Aproximou‐se  da 
escrivaninha onde se amontoava uma nova pilha de convites para essa noite. 
    ‐Já  pode  jogá‐los  fora,  mamãe.  Não  tenho  vontade  de  sair  ainda. Mas  pode 
aceitar alguma para amanhã. Escolha. Eu gosto de surpresas. 
    Mary assentiu e se encaminhou para a porta, mas parou. 
    ‐Descerá, ao menos, para jantar esta noite? 
    ‐Acredito  que  não.  Mas  prometo  melhorar.  De  verdade,  estou  bem. 
Ultimamente dormi mal e penso compensá‐lo esta noite. 
  
Capítulo 37
  
    Na casa do duque todos souberam da chegada da Amanda e Raphael, graças 
aos gritos e chiados com que a jovem saudou os presentes e aos  abraços efusivos 
que lhes dispensou. Até a avó saiu de seu quarto, atraída pelo  ruído, e do alto da 
escada chamou: 
    ‐É você, Julie? 
    ‐Sou eu, avó. Mandy. 
    ‐Suba para me dar um abraço, Julie. 
    Amanda  levantou  os  olhos  e  subiu  a  escada  correndo  para  saudar  Agatha 
Locke  e  ajudá‐la  a  voltar  para  seu  quarto.  Fazia  anos  que  Agatha  confundia  os 
membros  da  família  e  de  nada  servia  corrigi‐la.  Pensava  que  brincavam  e  se 
zangava.  Por  isso,  se  te  confundia  com  outra  pessoa,  o  melhor  era  lhe  seguir 
normalmente. 
    ‐Mamãe  me  chama  por  seu  nome  ultimamente  ‐  disse  Preston  Locke,  o 
décimo duque de Norford, enquanto dava a Raphael um abraço de urso, sua forma 
habitual de saudar‐. Espero voltar a ser eu quando nos vir juntos. 
    Raphael sorriu. Seu pai era um homem corpulento. Ambos tinham a mesma 
estatura,  até  a  mesma  cor  de  cabelo  e  de  olhos,  embora  Preston  já  mostrasse 
algumas mechas cinza entre os loiros. Mal notavam, mas se queixou deles durante 
a última visita de Raphael. Com o passar dos anos Preston também se alargou um 
pouco. Era um homem musculoso mas... maior. 
    ‐Não será por isso que me chamou? ‐perguntou Raphael. 
    Não falava sério. Conhecia muito bem a seu pai. E o duque soprou em sinal 
de confirmação. 
    ‐Vamos  ‐  disse  Preston  dirigindo‐se  ao  salão.  Em  seguida,  entretanto, 
mudou  de  direção‐.  Melhor  vamos  a  meu  escritório,  onde  ninguém  nos 
interromperá. 
    Raphael  seguiu  a  seu  pai  através  do  vestíbulo  com  o  cenho  franzido. 
"Ninguém  nos  interromperá"  não  era  um  bom  augúrio,  já  que  ele  associava  o 
escritório do duque com os castigos. Era um velho costume. Amanda e ele sabiam 
que, quando os chamavam ao escritório, tinham problemas. 
    Tratava‐se de um recinto enorme, quase tão grande como o salão, e o salão 
era  desproporcional.  Também  era  um  recinto  peculiar,  em  todos  os  aspectos.  Ao 
longo  dos  anos  a  mãe  de  Raphael  havia  redecorado  quase  toda  a  mansão,  e  com 
muito bom gosto, mas nunca lhe permitiram tocar o escritório. A peculiaridade do 
aposento  provinha  de  suas  paredes  brancas.  Todos  os  demais  aposentos  da  casa 
estavam  recobertas  com  painéis  de  madeira  ou  tinham  sido  colocados  papel  de 
parede.  Esta,  não.  O  fundo  branco  fazia  destacar  mais  os  quadros,  e  havia  dúzias 
deles.  Raphael  gostava  da  luminosidade  do  recinto...,  quando  não  acudia  ali  por 
culpa de alguma travessura. 
    ‐Parece‐me  que  devo  te  felicitar  ‐  disse  Preston  ao  sentar‐se  atrás  da 
escrivaninha. 
    O tom de sua voz, não muito reprovável, pôs Raphael à defensiva. 
    ‐De verdade? Não parece muito satisfeito. 
    ‐Porque teria preferido ser o primeiro a saber em lugar de me inteirar pelos 
falatórios. Sente‐se. Vai me contar tudo. 
    ‐Certamente ‐ disse Raphael‐. Embora fosse mais fácil se soubesse por que 
me felicita. 
    Preston arqueou uma sobrancelha. 
    ‐Fez mais de uma façanha ultimamente? 
    Raphael franziu o cenho. 
    ‐Na  realidade,  a  única  coisa  da  qual  sinto  orgulhoso  não  é  do  domínio 
público. Do que estamos falando, exatamente? 
    ‐De seu compromisso, claro. 
    Raphael,  que  nesse  momento  começava  a  sentar‐se,  voltou  a  ficar  de  pé 
como impulsionado por uma mola. 
    ‐Não... estou... comprometido ‐disse pronunciando cada palavra claramente. 
    ‐Mais vale que o esteja, acredito se tivermos em conta o que se diz por aí. 
    Raphael  fechou  os  olhos.  Santo  Deus,  o  que  tinha  feito  Ophelia?  Nem  por 
um momento lhe ocorreu que seu pai pudesse referir‐se a outra coisa. 
    Preston continuou: 
    ‐Meu  velho  amigo,  John  Forton,  não  podia  esperar  para  me  felicitar,  veio 
aqui a toda pressa a propósito, mas, claro, supunha que o pai do noivo já... 
    ‐Não sou noivo! 
    ‐...  Já  conhecia  a  notícia.  ‐A  expressão  de  Preston  dizia:  "não  volte  a  me 
interromper"‐. Não sabia que cairia de costas ao me inteirar. John, entretanto, dava 
por feito que as outras coisas que tinha que me contar, e se assegurou de ter todos 
os detalhes antes de vir, me deixariam aniquilado. Pode imaginar meu desconcerto. 
    ‐Suponho que isto depende de que detalhe te comunicou. 
    ‐Há muitos? ‐perguntou o pai. 
    ‐Provavelmente.  Ophelia  Reid  é  uma  mulher  muito  controversa.  Porque 
estamos falando de Ophelia, não é verdade? ‐ Preston se limitou a apertar os lábios 
e Raphael prosseguiu‐: Amá‐la ou odiá‐la. Ou, para sermos justos, assim costumava 
ser. Agora mudou muito ou, pelo menos, tinha mudado até uns dias, quando sofreu 
uma  comoção  que,  ou  a  deixou  devastada,  ou  a  pôs  em  pé  de  guerra.  Não  tenho 
nem ideia qual é seu sentimento agora. 
    ‐Sente‐se, Rafe. 
    O jovem se sentou e passou os dedos da mão pelo cabelo em um gesto de 
frustração. 
    ‐Não sei por que me surpreende o giro dos acontecimentos. Afinal, ela era 
perita em propagar rumores. Esta seria sua primeira linha de defesa. 
    Foi à vez de Preston de suspirar exasperado. 
    ‐Deixa de falar sozinho e diga‐me. O que me contaram não parece provir de 
uma dama, salvo que queira arrastar seu nome pelo lodo. 
    ‐O que lhe contaram, exatamente? 
    ‐Viram‐lhe partir de Summers Glade com ela. Isso disparou os rumores, e o 
fato  de  não  serem  vistos,  nenhum  dos  dois,  durante  a  semana  seguinte.  Não  faz 
falta que te diga que tipo de especulações produziu isso. Ao longo daquela semana 
seu  pai  fez  correr  a  voz  de  que  a  havíamos  convidado.  Parece  que  se  inflava  de 
orgulho  como  um  galo,  embora  isto  seja  compreensível.  Normalmente,  não 
convidamos estranhos a Norford Hall. 
    Raphael fez uma careta e começou a explicar: 
    ‐A  culpa  foi  minha.  Disse‐lhe  que  tomava  Ophelia  sob  meu  amparo  e  que 
estaria visitando minha família. 
    ‐Mentiu‐lhe, pois? 
    ‐Não,  simplesmente  não  especifiquei  que  membros  da  família  visitávamos. 
Nossa família está por toda a Inglaterra e, de fato, visitamos  sua irmã, Esmeralda, 
que nos acompanhou a Nest. 
    Preston se levantou bruscamente. 
    ‐Levou  a  uma  debutante  virgem  a  Nest?  Por  Deus,  Rafe,  no  que  estava 
pensando? 
    ‐Pois,  certamente,  em  que  não  se  tornaria  público  e  não  se  fez.  Equivoco‐
me? 
    ‐Não,  graças  a  Deus  ‐  respondeu  Preston‐.  Embora  só  o  feito  de  havê‐la 
convidado a conhecer "à família" não pode conduzir a não ser a uma conclusão. 
    ‐E uma desgraça! 
    ‐Assim  é,  quando  lhe  viram  beijá‐la  em  sua  própria  casa,  com  seus  pais 
presente, no primeiríssimo dia de sua volta a Londres. 
    Raphael se desmoronou no assento. 
    ‐Não foi minha culpa, beijou‐me ela. 
    ‐Acredita que importa quem beijou a quem? 
    Raphael suspirou. 
    ‐Algo mais? 
    ‐Pedir o primeiro baile na festa dos Wilcott em sua segunda noite na cidade. 
    ‐Maldição, foi o primeiro? 
    ‐Isso parece. 
    ‐Quem se fixa nestas coisas? ‐perguntou Raphael. 
    ‐As  velhas  damas  que  não  têm  nada  melhor  que  fazer.  Embora  isto  seja 
irrelevante. Todo mundo está de acordo em que já estão prometidos embora ainda 
não anunciou oficialmente. Sabe o duro, que é desfazer uma opinião quando já está 
formada? 
    ‐Neste caso não. Basta‐me negá‐lo. 
    ‐Parece‐te  tão  fácil?  ‐Preston  ficou  filosófico‐.  Neste  caso  há  um  problema. 
Dado  que  fugiu  com  ela  em  sua  própria  carruagem  sem  acompanhante 
apropriada... 
    ‐Sua donzela estava ali... 
    ‐Sem  acompanhante  apropriada  ‐  repetiu  Preston  entreabrindo  um  pouco 
os  olhos‐.  E  dado  que  a  beijou...,  não,  não  volte  a  me  interromper.  Embora 
começasse ela, você participou. Com estes detalhes do rumor, sabe muito bem que 
sua reputação ficará arruinada se não se comprometem. Assim imagino que minha 
seguinte pergunta tem que ser: Estão noivos... já? 
    Raphael não necessitava que lhe golpeassem a cabeça com um martelo para 
saber que seu pai acabava de lhe dar a ordem de casar‐se. Afundou‐se ainda mais 
no assento. 
    ‐Contou‐te Forton algo da jovem que quer que introduza em nossa família? 
    Preston encolheu os ombros. 
    ‐Como, que é a moça mais formosa que viu em Londres? 
    ‐Bom isso também. 
    ‐E que é um tanto presunçosa por isso ‐ adicionou Preston. 
    ‐Era. 
    ‐E um tanto megera. 
    ‐Já não é. 
    ‐De  verdade?  Estupendo,  já  me  parece  melhor  este  compromisso  não 
desejado. 
    ‐A  mim  não  ‐  alegou  Raphael‐.  Certamente  Ophelia  irá  querer  me  matar 
quando souber que temos que nos casar à força, se já não queria me matar antes. 
De fato, poderia me rejeitar e sofrer as consequências. 
    ‐Tolice. 
    ‐Não sabe quão destrutiva pode ser quando perde os estribos. 
    ‐Não criei um idiota e você, moço, é todo um sedutor quando  se propõe a 
isso. Não tenho dúvidas de que a convencerá. 
Capítulo 38
  
    Raphael passou um dia mais com sua família. Não voltou a surgir o nome de 
Ophelia embora a jovem sempre estivesse em seus pensamentos. Não voltaram a 
mencionar  porque,  depois  da  conversa  inicial,  Rafe  passou  várias  horas  no 
escritório  de  seu  pai  lhe  explicando  tudo  o  que  tinha  feito  por  ela,  e  por  que. 
Preston  não  mudou  sua  opinião  em  relação  à  necessidade  do  casamento,  mas 
Raphael estava convencido de que não o decepcionaria muito se achasse a forma 
de livrar‐se sem repercussões prejudiciais. 
    O único não disse, e esperava não ter que dizer nunca, foi que tinham feito 
amor.  Seu  pai  era  da  velha  escola.  Esta  informação  o  ataria  a  Ophelia  tão 
rapidamente  que  tudo  teria  terminado  antes  que  Raphael  percebesse.  Ao  julgar 
pela informação que seu pai tinha recebido desse amigo, “entretanto" não parecia 
que Ophelia estivesse por trás dos rumores que circulavam aos montes. De fato, se 
ela estava furiosa com ele pela aposta, e aquela noite no baile tinha deixado bem 
claro que estava, os rumores não fariam mais que alimentar sua fúria. 
    Raphael  teria  engolido  o  remédio  e  lhe  teria  proposto  matrimônio  se  ela 
pusesse  o  grito  no  céu  e  insistisse  em  haver‐se  visto  comprometida.  Ele  não 
acostumava  seduzir  as  filhas  virginais  dos  condes,  de  fato,  mantinha‐se  afastado 
das moças virgens e mantinha relações só com mulheres experientes..., até agora. A 
esta virgem em particular a tinha comprometido. Ela, em troca, fazia justamente o 
contrário  lhe  assegurando  que  guardaria  o  segredo  e  que  não  desejava  casar‐se 
com ele. Mostrou‐se firme em sua decisão de não escolher um marido cuja posição 
social agradasse a seu pai. 
    Agora o que?Continuava resolvida a chatear a seu pai rejeitando Raphael ou 
estava  tão  zangada  que  preferia  chatear  a  ele  assegurando  o  matrimônio  entre 
ambos? Não tinha forma de souber nem teria até falar com ela. Se Ophelia aceitasse 
falar com ele. Se não tentasse matá‐lo antes. 
    Retornaria  a  Londres  para  assegurar‐se  de  que  não  ocorreria,  mas,  ao 
mesmo tempo, não podia tirar a ideia da cabeça. Casar‐se com Ophelia. É obvio que 
não podia. Não estava preparado para sentar a cabeça. Ainda lhe faltava desfrutar 
plenamente  de  seu  celibato.  Incompreensivelmente,  entretanto,  o  último  que  lhe 
ocorria era a ideia de estar com outras mulheres. 
    Maldição. Sabia que foi um engano deitar‐se com ela. Era a melhor, a mais 
deliciosa, a mais engenhosa, a mais formosa, a mais apaixonada das mulheres que 
tinha conhecido. Qualquer outra em seu lugar já o teria decepcionado. Afinal, que 
mais se pode esperar depois de ter tido o melhor? 
    Casar‐se com Ophelia. Poderia ser um inferno. Poderia ser o paraíso. 
    ‐Eu  também  pediria  sua  cabeça  ‐  disse  Amanda,  como  se  pudesse  ler  seus 
pensamentos. 
    Voltava  para  Londres  com  ele.  Levavam  mais  de  uma  hora  de  viagem  e 
ainda não lhe tinha dirigido à palavra. Estava tão imerso em seus pensamentos que 
quase tinha esquecido sua presença. Até agora. 
    ‐De  onde  tirou  esta  ideia,  de  ser  tão  amável?  ‐perguntou  Rafe  arqueando 
uma sobrancelha. 
    ‐Da  aposta.  Sim,  escutei  enquanto  falavam  no  escritório.  O  que  esperava, 
quando não quis me dizer o que fazia com Ophelia em Nest? Morria de curiosidade 
de saber. 
    ‐Quanto ouviu? 
    ‐Tudo.  ‐Dirigiu‐lhe  um  sorriso  triunfal‐.  Desci  em  seguida  depois  de 
acompanhar a vovó a seu quarto. O único queria saber era por que lhe tinham feito 
vir  a  casa.  Não  esperava  descobrir  também  seus  segredos.  Não  acreditaria  nos 
olhares  de  recriminação  que  me  lançavam  os  serventes  que  passavam  pelo 
vestíbulo. Estava tão fascinada que nem sequer fingi não escutar. 
    Ele a olhou irado. 
    ‐Nenhuma palavra disso a ninguém, Mandy. 
    Sua irmã lhe devolveu um olhar magoado. 
    ‐Não duvide de minha lealdade. A advertência era desnecessária. 
    ‐Sinto muito. ‐Raphael suspirou‐. Neste momento estou um pouco desfeito. 
    ‐Não  me  surpreende  ‐  admitiu  Amanda‐.  Ter  que  se  casar  quando  nem 
sequer lhe tinha exposto é todo um acontecimento em sua vida. 
    ‐Não vou casar‐me. 
    ‐Mas papai disse... 
    ‐Preste atenção, querida. Em primeiro lugar, é provável que  Phelia não me 
aceite.  Em  segundo  lugar,  sua  primeira  hipótese  é,  provavelmente,  acertada.  Não 
tenho dúvidas de que pedirá minha cabeça. 
    ‐Preferiria  não  estar  certa.  ‐Amanda  suspirou  a  sua  vez‐.  Embora  não  me 
surpreende. Como pôde lhe fazer isso, tratar de lhe mudar a vida por uma estúpida 
aposta? 
    ‐Acreditava que havia dito que ouviu tudo. 
    ‐A vovó voltou a aparecer na escada para ver por que se atrasava. Disse que 
voltaria em seguida. Tive que me esconder uns minutos. Perdi algo importante? 
    ‐A  aposta  com  Duncan  não  fez  mais  que  pôr o  mecanismo  em  marcha.  Foi 
um projeto bastante nobre, se me permite dizer e havia muitas razões para tentar, 
a  felicidade  de  Ophelia  inclusive.  Já  sabe  como  era  ela  antes.  E  viu como  é  agora. 
Não te parece que mudou muito? 
    ‐Certamente. Embora me surpreenda que ela aceitasse a sua tutela..., coisa 
que não fez verdade? Só disse a papai que contava com a permissão de seus pais. 
Meu Deus, Rafe, sequestrou‐a, não é verdade? 
    Ele estalou a língua. 
    ‐Que  palavra  tão  terrível.  Só  vociferou  e  protestou  durante  uns  dias.  Logo 
percebeu  que  minha  intenção  de  ajudá‐la  era  sincera.  E  me  mostrou  um  lado  de 
seu  caráter  que  poucas  pessoas  conhecem,  se  é  que  o  conhece  alguém.  Quando 
deixa  a  amargura  de  lado  é  inteligente  e  encantadora.  E  era  óbvio  que  desejava 
mudar. Cooperou plenamente antes de retornar a Londres. 
    ‐Disse por que fez correr todos aqueles rumores? 
    ‐Falamos de tudo, Mandy. 
    ‐Então  chegou  a  conhecê‐la  muito  bem.  ‐Amanda  lhe  dirigiu  um  olhar 
pensativo‐. Certeza que não quer se casar com ela? 
  Por todos os demônios, não..., não tinha certeza. 
Capítulo 39
  
    ‐Está  ficando  sem  vestidos  de  baile?  ‐perguntou  Mary  do  pé  das  escadas 
quando Ophelia desceu para reunir‐se com ela no vestíbulo. 
    ‐Não de tudo embora, talvez necessite alguns vestidos mais antes do fim da 
temporada ‐ respondeu Ophelia‐. Por quê? 
    ‐Só  usa  um  vestido  de  noite  ‐  disse  Mary,  assinalando  o  óbvio‐.  Muito 
bonito. Esta tonalidade de azul te favorece, sem dúvida. Mas esta noite vamos a um 
baile. Eu não gostaria que se sentisse desarrumada. 
    Ophelia riu baixinho. 
    ‐Não  seria  a  primeira  vez  que  não  me  visto  para  a  ocasião,  nem  sequer 
notavelmente. Embora o baile seja amanhã, mamãe. Hoje vamos à noite musical e o 
jantar de lady Cade. 
    ‐Ai,  então  quem  exagerou  fui  eu.  ‐Mary  tirou  a  capa  para  mostrar  seu 
vestido de baile‐. Temo que aceitamos muitos convites de repente. Terei que fazer 
uma lista para não me equivocar. Dê‐me uns minutos para me arrumar. Sério, não 
demorarei muito. 
    Mary  subiu  a  escada  a  toda  pressa.  Ophelia  sorriu  para  si.  Sua  mãe  não 
estava acostumada a sair de casa nem a aceitar convites durante a temporada. Era 
ela a que convidava os outros! 
    Ophelia entrou no salão para poder sentar‐se enquanto esperava, mas, em 
seguida,  desejou  não  tê‐lo  feito.  Seu  pai  estava  ali,  lendo  um  livro.  Olhou‐a  com 
certo ar de brincadeira. 
    ‐Não teria que esperar se eu te acompanhasse ‐ disse. Evidentemente, tinha 
ouvido as palavras da Mary‐. Foi ridícula a desculpa que encontrou para ir com sua 
mãe e não comigo. 
    ‐Não foi uma desculpa absolutamente. Como espera que me concentre em 
procurar marido se estiver tão furiosa que afugento a todos os pretendentes? 
    Seu pai bateu os dentes e o sorriso zombeteiro desapareceu. 
    ‐Não é necessário que você e eu discutamos. 
    ‐Tampouco  é  necessário  que  controle  minha  vida,  mas  isto  nunca  te 
impediu de fazê‐lo. 
    ‐ Já basta ‐ grunhiu ele‐. Não precisa voltar ao tema. A propósito, esta cor te 
favorece muito. Deveria usá‐lo mais frequentemente. 
    Um elogio? De seu pai? Ocorreu‐lhe beliscar‐se no braço para ver se estava 
acordada. Ocorreu‐lhe dizer que usava frequentemente vestidos de cor azul pálido 
e  tonalidades  afins,  embora  ele  estivesse  muito  ocupado  em  suas  coisas  para 
perceber. 
    Em troca perguntou carrancuda: 
    ‐Perdi algo? Só esta manhã me gritava porque não te dizia quando voltará 
Raphael a Londres. 
    ‐Sim,  sim,  e  você  me  gritava  que  te  importa  se  volta  ou  não  ‐  protestou 
Sherman‐.  Não  é,  precisamente,  a  atitude  mais  correta  quando  se  trata  de  seu 
futuro marido. Ele é o único pretendente que deve preocupar‐se e, posto que meio 
Londres já pensa que estão noivos, não tem mais que... 
    ‐Esses rumores ridículos não correspondem à verdade. 
    ‐Eles  viram  vocês  se  beijando  na  outra  noite.  Não  tenho  palavras  para  te 
dizer quanto me alegro de que, por uma vez, tenha seguido meus conselhos. 
    ‐Beijaram‐me  dúzias  de  vezes.  Significa  isso  que  tenho  outros  tantos 
noivos? ‐apontou Ophelia. 
    ‐Os  beijos  roubados  sem  testemunhas  são  irrelevantes,  os  que  têm 
testemunhas são muito importantes. 
    Ophelia  aspirou  profundamente  e  tentou  acalmar‐se.  Esses  inoportunos 
rumores  eram  de  todo  inesperados.  Estava  convencida  de  que  encontraria  a 
maneira de sossegá‐los embora ainda não lhe tivesse ocorrido como. Não obstante, 
não voltaria a ter a mesma discussão com seu pai. 
    Embora ainda vissem as coisas de forma muito distinta, durante os últimos 
dias que Ophelia tinha passado em casa ele não se mostrou tão tirano. Sem dúvida, 
porque os rumores a respeito dela e Rafe o tinham posto de muito bom humor. Seu 
pai  dava  por  feito  que  os  falatórios  confirmavam  o  iminente  matrimônio  de  sua 
filha  com  o  futuro  duque  de  Norford.  Não  gostava  que  Ophelia  desmentisse  essa 
impressão. 
    ‐É esta sua nova estratégia? ‐perguntou ela, muito mais calma‐. Zangar‐me 
tanto que não queira sair de casa? 
    Foi a vez de seu pai suspirar. Até apoiou a cabeça no espaldar do sofá onde 
estava sentado. 
    ‐Não. Sinceramente, não sei por que você e eu já não podemos manter uma 
conversa normal. 
    Já  não?  E  quando  puderam?  Nesse  momento  reapareceu  sua  mãe  e  a 
Ophelia não pareceu necessário responder a seu pai. O que poderia dizer que não o 
zangasse de novo? 
    ‐Já  estou  pronta  ‐  anunciou  Mary  da  porta‐.  Disse‐te  que  não  demoraria 
muito. 
    Ophelia  se  aproximou  para  colocar  uma  costura  solta  sobre  a  borda  do 
decote de Mary, onde devia estar. 
  ‐Está preciosa, mamãe. Temos que ir já. Não quero chegar tarde ao jantar, 
temos o estômago vazio. 
    Mary respondeu em seu característico tom maternal: 
    ‐Certeza que não quer jantar algo aqui antes de ir? Já sabe  que está muito 
de moda beliscar só um pouco nas reuniões sociais. 
    Era  mais  que  uma  moda.  Devido  a  isso,  algumas  anfitriãs  nem  sequer 
ofereciam  comida  suficiente!  Se  demorassem  mais  a  sair,  Ophelia  mudaria  de 
opinião e já não iria. 
    Ainda  não  se  sentia  capaz  de  manter  conversas  corriqueiras  e  qualquer 
comentário  poderia  fazer  aflorar  as  lágrimas.  Não  chorava  desde  o  dia  anterior, 
entretanto.  O  aborrecimento  substituiu  à  tristeza  quando  soube  dos  rumores.  E 
ainda  tinha  que  encontrar  um  marido.  Tomara  que  Raphael  Locke  continuasse 
longe de Londres até que Ophelia ficasse noiva não só segundo os rumores. 
Capítulo 40
  
    ‐Nenhuma palavra ouviu‐me? ‐vaiou Ophelia a seu companheiro de mesa no 
momento de ocupar seu assento junto a ela. 
    Raphael  chegou  à  residência  dos  Cade  justo  quando  os  convidados  se 
dispunham a sentar‐se para jantar. Encontraram‐se nos extremos opostos da mesa, 
já  que  o  único  assento  vazio  estava  muito  longe  de  Ophelia,  mas  a  anfitriã  fez 
algumas mudanças de último momento para que pudessem sentar‐se juntos. Outra 
vez os tediosos rumores. 
    Na  realidade,  ninguém  tinha  lhes  pedido  que  os  confirmasse.  Seria  seu 
terceiro  compromisso  da  temporada,  um  recorde,  e  alguém  deveria  ter 
perguntado.  Entretanto,  parecia  que  a  hipótese  já  era  sólida  como  uma  rocha  e 
ninguém sentia necessidade de vê‐la confirmada. 
    A  mesa  era  longa,  extremamente  longa,  o  bastante  para  vinte  e  quatro 
convidados,  os  únicos  convidados  à  pequena  reunião.  E  foi  por  isso  que  Ophelia 
não se surpreendeu que Rafe recebesse também um convite. 
    Os rumores. 
    Ao menos, Mary estava sentada do outro lado e Ophelia se voltou para sua 
mãe e lhe disse: 
    ‐Converse  comigo  mamãe.  Diga  algo.  Finjamos  estar  imersas  em  uma 
conversa. 
    ‐Claro querida. Embora não acontecerá se conversar com ele em público. Já 
quase é um membro da família. 
    Ophelia  a  olhou  incrédula.  Sua  mãe  também?  Sem  dúvida,  era  obra  de  seu 
pai. Evidentemente, tinha convencido sua mulher de que o matrimônio de Ophelia 
com o visconde era um fato. 
    Rafe  rodeou  com  o  braço  o  respaldo  da  poltrona  de  Ophelia  e  se  inclinou 
para ela, como se estivessem conversando os três. 
    ‐Não fala precisamente em sussurros, Phelia ‐ disse em tom zombeteiro. 
    Ela se voltou, dedicou‐lhe um sorriso para ficar bem com a concorrência que 
os observava e grunhiu: 
    ‐Pensei ter dito para não me dirigir a palavra. 
    Ele suspirou. 
    ‐Não sei por que está tão zangada..., bom... sim sei, mas se refletir um pouco 
verá  que  meus  esforços  por  te  ajudar  eram  sinceros.  Aquela  estúpida  aposta  só 
serviu de estímulo. Ignorar‐me não nos ajudará a sair desta enrascada. 
    ‐Ignorar  você  é  minha  única  opção  ‐  sussurrou  ela  zangada‐,  salvo  que 
queira  formar  parte  de  uma  cena  da  qual  se  envergonharia  durante  o  resto  do 
século. 
    ‐Passo dos escândalos, obrigado. ‐voltou‐se para o homem sentado do outro 
lado e começou a conversar com ele. 
    Ophelia  ficou  lhe  olhando  a  nuca  com  a  boca  aberta  de  incredulidade. 
Raphael  se  rendia  ante  a  simples  ameaça  de  um  escândalo?  Não  pensava  dizer 
nada mais em sua defesa, não tentaria convencê‐la de que Duncan e ele não riram 
dela? Tinha dado uma guinada a sua vida por uma estúpida aposta e, na realidade, 
não podia dizer nada para fazer‐lhe mais suportável. 
    A  velha  armadura  se  fechou  em  torno  de  seus  ombros.  Tinha‐lhe  servido 
bem  durante  muitos  anos.  Embora  não  pudesse  dissimular  sua  amargura. 
Tampouco  conseguia  conter  seu  aborrecimento.  Nada  conseguiria  nesses 
momentos. 
    Ocorreu‐lhe aceitar a primeira proposta que lhe fizessem, mas em seguida 
soube  que  não  haveria  mais  proposta,  não  enquanto  as  pessoas  da  cidade 
pensassem  que  estava  prometida  com  esse  diabo  sentado  a  seu  lado.  Era 
exasperante!  Nem  sequer  podia  lhe  jogar  no  rosto  que  preferia  a  qualquer  outro 
homem antes que ele. Bem, pois, se casaria com ele e encontraria mil maneiras de 
lhe fazer lamentar haver‐se metido em sua vida. 
    Não era a primeira vez que pensava nisso desde que soube da  aposta com 
Duncan. A ideia permanecia em algum canto de sua mente, apesar dos acessos de 
pranto.  E  nem  sequer  era  a  pior  de  suas  ideias  de  vingança.  Queria  que  Rafe 
pensasse  que  tinha  fracassado  por  completo,  que  não  tinha  ganhado  a  aposta 
absolutamente, que a conversão dela em uma boa pessoa só tinha sido um truque 
para conseguir voltar para Londres. 
    Os  pensamentos,  entretanto,  não  são  ações.  Na  realidade,  não  faria  nada 
disso. A antiga Ophelia, talvez, mas ela... Deus, por que não tentava Rafe aliviar, ao 
menos, a dor e a ira que lhe provocava? 
    Sua mãe lhe deu um empurrãozinho no braço. 
    ‐Faz  cinco  minutos  que  te  espera  seu  jantar.  Juraria  que  disse  que  não 
queria perde‐lo, se encontra bem? 
    ‐Muito bem. ‐Ophelia agarrou o garfo‐. Estava um pouco distraída. 
    ‐Ou planejando minha morte ‐ disse Rafe do outro lado, demonstrando que 
seguia de perto suas palavras. 
    Ela se voltou e o transpassou com o olhar. 
    ‐Como adivinhou? Os obtusos não devem ser tão perspicazes. 
    ‐De maneira que voltamos para os insultos? 
    ‐Quem volta? Não acredita que ganhou de verdade aquela estúpida aposta? 
    Ali  terminou  sua  convicção  de  poder  manter‐se  no  reino  da  fantasia  dos 
acontecimentos dolorosos. Horrorizada consigo mesma pelo que acabava de dizer, 
não obstante, agradou‐a descobrir que tinha dado em nada. Rafe se enrijeceu. Um 
músculo tremeu em seu pescoço. E a expressão de seus olhos deixou de ser cordial. 
    ‐Foi você quem fez correr os rumores a respeito de nós? ‐perguntou em voz 
baixa e ameaçadora. 
    ‐Parece  que  não  é  tão  obtuso  ‐  respondeu  ela  e  até  conseguiu  esboçar  um 
sorriso irônico como cereja do bolo. 
    ‐Com que propósito? Você não deseja se casar comigo ‐ disse Raphael. 
    ‐Para  te  fazer  pagar,  sim,  faria  inclusive  isto.  Escute‐me  bem,  te  tirar  seu 
apreciado celibato será só o princípio. 
    Como  resposta,  Rafe  ficou  de  pé,  agarrou‐a  pela  mão  e  a  arrastou  fora  da 
sala de jantar, deixando atrás um silêncio chocante. Horrorizada com a ideia de que 
ele acabava de provocar a cena com qual o tinha ameaçado, Ophelia ficou sem fala. 
Até  que  Raphael  a  conduziu  ao  escritório  de  lorde  Cade  e  fechou  a  porta  atrás 
deles. 
    Ophelia soltou sua mão de um puxão e se voltou contra ele. 
    ‐Ficou completamente louco? 
    ‐Sim, furiosamente louco. 
    ‐Demente, eu diria‐ completou ela. 
    ‐Não me falta muito. 
    ‐Acaba de alimentar os malditos rumores. Percebeu? 
    ‐Não, acabo de encontrar uma saída. Rixa de amantes, etc., muito zangados 
para reconciliar‐se, etc. 
    ‐Com que pretexto? ‐perguntou Ophelia‐. Porque decidi ir contra a moda e 
comer o jantar que me serviram? 
    Ele a olhou inexpressivo por um momento, quase esboçou um sorriso, mas 
em seguida grunhiu: 
    ‐Maldição, Phelia. Como pôde? 
    ‐Como  pude  o  que?  Enganar‐te  em  pensar  que  tinha  ganhado  a  aposta? 
Muito  fácil.  Devia  ser  atriz.  Não,  sério.  Parece  que  descobri  minha  verdadeira 
vocação. 
  Ele a olhou com dureza. Ophelia quase cedeu, sentiu‐se muito incômoda. Se 
não  estivesse  tão  zangada,  certamente  teria  posto  fim  ao  engano  nesse  mesmo 
momento.  Mas  continuava  zangada  e,  em  lugar  disso,  dirigiu‐lhe  um  sorriso 
miserável. 
    ‐Como  se  sente  ao  ser  ignorado  e  sem  via  de  escape?  Não  é  muito 
agradável, verdade? ‐zombou‐. Foi o que me fez, bastardo! E para que? Para ganhar 
uma estúpida aposta. 
    Alguém  bateu  na  porta,  sua  mãe,  certamente.  Ou,  talvez,  fosse  lorde  Cade, 
que  se  opunha  ao  uso  de  seu  escritório.  Rafe  apoiou  as  costas  na  porta  fechada 
para que ninguém pudesse abri‐la e grunhiu: 
    ‐Um momento! ‐Os golpes cessaram‐. Peço que reflita bem. ‐Conseguiu falar 
com  voz  tranquila‐.  Casar‐se  pelas  razões  equivocadas,  especialmente  por 
despeito, é muito mais prejudicial do que imagina. Sei que é capaz de fazê‐lo. Antes 
não queria se casar comigo por despeito a seu pai agora volta seu aborrecimento 
contra mim, mas considere isto: a vingança é passageira, estamos falando do resto 
de nossas vidas Phelia. 
    ‐Dá‐me igual! 
    ‐Nem sequer pensará nisso? 
  ‐Só pensarei em como te fazer sofrer! ‐admitiu ela ressentidamente. 
    ‐Muito bem, pois, não há por que esperar. 
    Não  lhe  deu  a  oportunidade  de  perguntar  a  que  se  referia.  Agarrou‐a  de 
novo pela mão e a levou a rastros à sala de jantar, onde anunciou aos convidados: 
    ‐Ophelia  e  eu  decidimos  pronunciar  nossos votos  esta noite.  Todos  os  que 
desejem nos acompanhar e ser testemunhas serão bem‐vindos. 
 
Capítulo 41

    Era o tipo de conduta prejudicial que Ophelia se permitiu enquanto crescia. 
Falar sem pensar, ser muito teimosa ou estar muito ressentida para retirar o que 
havia  dito  antes  que  fosse  muito  tarde  e  depois  sofrer  o  arrependimento,  que  já 
nunca  desaparecia.  Desta  vez,  entretanto,  havia  mais  que  arrependimento.  Muito 
mais. 
Casou‐se  com  Raphael  Locke,  visconde  de  Lynnfield,  no  estreito  vestíbulo 
dos  tribunais.  A  permissão  especial  que  lhe  tinha  dispensado  seu  pai  para  que  o 
usasse  a  sua  discrição  fez  a  cerimônia  possível  e  só  lady  Cade  e  Mary  Reid 
assistiram  como  testemunhas.  Outros  convidados  dos  Cade  estavam  muito 
escandalizados para acompanhá‐los, mas lady Cade agarrou a oportunidade. Era a 
cereja do bolo, o evento mais importante da temporada, e ela poderia contar tudo, 
até o último "sim, quero". 
    Certamente,  não  era  assim  que  Ophelia  imaginou  seu  casamento.  Muitas 
vezes  tinha  fantasiado  percorrendo  o  corredor  central  de  uma  grande  igreja, 
usando um magnífico vestido de noiva, os assentos ocupados de damas sorridentes 
que  estavam  encantadas  de  vê‐la  abandonar  o  mercado  matrimonial  e  de 
cavalheiros  carrancudos,  seus  numerosos  admiradores  que  lamentavam  havê‐la 
perdido.  A  realidade  foi  muito  opaca,  uma  cerimônia  civil  precipitada,  sem  glória 
nem grandeza. A mãe do juiz roncava no aposento contiguo! Foi por isso que não 
lhes fizeram passar ao salão para pronunciar os votos. Se é que aquilo se tratava de 
um casamento. 
  Provavelmente  só  ficariam  noivos  e  casariam‐se  em  uma  data  posterior. 
Ophelia  estava  tão  confusa  que  não  podia  pensar  com  claridade  nem  prestar 
atenção ao que se dizia. Se este era o final, entretanto, o único lado positivo que lhe 
ocorria  era  que  seu  pai  não  estava  ali  para  divertir‐se  por  ter  conseguido 
exatamente o que queria. 
    Nervosa  e  confusa,  Mary  conversava  sem  cessar  sobre  coisas  irrelevantes 
enquanto levavam lady Cade de volta a sua casa. Os recém‐casados não trocaram 
nenhuma  só  palavra  embora,  como  se  estivessem  de  caminho  para  um  evento 
trivial,  participaram  da  conversa,  estritamente  para  ficar  bem  com  lady  Cade.  Ao 
menos,  isso  fez  Raphael.  A  Ophelia  tinha  que  dar  cotoveladas  para  que  falasse,  o 
mesmo para pronunciar cada palavra durante a cerimônia. Perdida nas névoas de 
seu  desalento  compreendia  que,  de  algum  modo,  tinha  que  colaborar.  Ofereceu 
uma  boa  representação.  Quando  soubessem  da  notícia  o  dia  seguinte,  lady  Cade 
poderia dizer que a cerimônia foi precipitada, sim, e, certamente, nada apropriada 
para o filho de um duque, mas que romântico que o casal não pôde esperar mais. 
Tão impaciente estavam! 
    O  silêncio  imperou  quando  deixaram  lady  Cade  em  sua  casa.  A  residência 
dos Reid estava a poucos quarteirões de distância. Rafe, entretanto, não só deixou a 
Mary ali. Também fez descer a Ophelia da carruagem. 
    ‐Agora  é  você  quem  tem  que  viver  com  isso  ‐  disse  secamente  antes  de 
fechar a porta de um golpe e dar ordem ao chofer para que se afastasse. 
    Não  havia  neve  nem  gelo  na  calçada,  mas  Ophelia  ficou  gelada.  Uma 
comoção atrás de outra, embora esta última já fosse muita. Por que a devolvia Rafe 
a  seus  pais  depois  de  casar‐se  com  ela?  Realmente  estavam  casados?  Não  tinha 
prestado atenção às palavras do juiz. 
    Mary  lhe  rodeou  a  cintura  com  o  braço  e  ambas  ficaram  olhando  a 
carruagem do visconde que desaparecia na distância. 
    ‐Não entendo o que aconteceu ‐ disse Mary, também aniquilada‐. Se seu pai 
não  tivesse  me  assegurado  que  deveria  casar‐se  com  este  homem,  jamais  teria 
permitido  que  te  levasse  arrastada  aos  tribunais.  No  que  estava  pensando, 
Ophelia? Como pôde aceitar? 
    Aceitar?  É  o  que  tinha  feito?  Tendo  em  conta  que  provocou  Rafe  e  se 
reconheceu  autora  de  uns  rumores  que  não  tinha  iniciado,  sim,  sua  atitude  se 
poderia  considerar  uma  aceitação  implícita.  Quando  lhe  prometeu  que  o  privaria 
de  seu  celibato  para  fazê‐lo  sofrer,  sim,  isso  também  era  um  sinal  evidente  de 
conformidade.  Embora,  certamente,  não  esperava  resultados  tão  imediatos  nem 
essa reação concreta por parte dele. De fato, não tinha pensado mais que em feri‐lo, 
como Rafe tinha ferido a ela. 
    ‐Estou  casada  de  verdade,  mamãe?  ‐perguntou  com  um  fio  de  voz,  sem 
deixar de olhar afligida a rua vazia‐. Ou foi uma espécie de passo preliminar, algo 
que tínhamos que fazer antes de celebrar realmente o casamento? Uma promessa 
formal de nos casar, que precisa de testemunhas e um documento escrito? 
    ‐Nunca ouvi nada parecido ‐ respondeu Mary carrancuda. 
    ‐Provavelmente só se requer dos filhos dos duques...? 
    ‐Saiamos  do  frio.  ‐Mary  dirigiu  Ophelia  para  a  casa‐.  E  não,  nada  do  que 
aconteceu esta noite tinha de preliminar. O único fato estranho é que se casaram 
no mesmo dia em que decidiram contrair matrimônio, embora não me surpreende 
que  os  Locke  tivessem  uma  permissão  especial  para  casos  de  emergência.  Sabe? 
São  estas  pequenas  coisas,  os  privilégios  especiais  das  instâncias  mais  altas  da 
sociedade,  as  que  sempre  irritaram  tanto  seu  pai,  porque  não  tem  os  contatos 
necessários para consegui‐los. 
    ‐Então,  deveria  ter  se  casado  com  uma  mulher  com  titulo  em  lugar  de  me 
empurrar para subir os degraus sociais ‐ balbuciou Ophelia para si. 
    Mary a ouviu e sorriu. 
    ‐Essa era sua intenção, querida..., até que se apaixonou por mim. 
    Ophelia  olhou  a  sua  mãe.  Nunca  antes tinha  ouvido  isso  de  seu  pai. Tinha 
renunciado a suas aspirações para estar com Mary? Muito romântico de sua parte... 
embora, claro, não tinha renunciado a elas, só as tinha passado a sua filha. 
    Mary suspirou enquanto tiravam as capas no vestíbulo. 
    ‐Aí vai o grande casamento que sempre sonhei organizar para você. Quando 
me der conta disso me sentirei muito decepcionada, sei muito bem. 
    A  culpa  por  isso  se  acrescentou  a  todos  outros  sentimentos  de  Ophelia.  O 
papel de anfitriã era o ponto forte de sua mãe, seu único propósito, e o casamento 
de  sua  filha  única  teria  sido  o  maior  acontecimento  de  todos.  Agora  já  não.  Sua 
participação na cerimônia se limitou a sua simples presença. 
    ‐Sinto muito ‐ disse Ophelia. 
    ‐Não o sinta querida. Certamente, não é culpa sua que seu noivo fosse tão 
impaciente. Vi em sua cara que estava tão surpresa como o resto de nós. Se quer 
culpar a alguém, que seja a essa permissão especial. Quando guarda algo assim no 
bolso, pode sentir a tentação de utilizá‐lo. 
    A sensação de culpa se agravou e obrigou Ophelia a falar. 
    ‐Está  equivocada  com  respeito  ao  ocorrido,  mamãe.  Não  teve  nada  de 
romântico. 
    Mary voltou a franzir o cenho. 
    ‐O que quer dizer? 
    Ophelia tomou ar e disse: 
    ‐Ainda não se perguntou por que me deixou aqui, contigo, em  lugar de me 
levar para casa com ele? 
    ‐Claro que sim. Percebi que estava zangado, sentimento que tentava ocultar 
admiravelmente. Entretanto, estou convencida de que há uma boa razão. 
    ‐Ah, sim, uma razão muito boa ‐ admitiu Ophelia‐. É porque ele não queria 
casar‐se  comigo,  como  tampouco  eu  queria  me  casar  com  ele.  Foi  meu 
aborrecimento que o incitou a fazê‐lo, embora isto só não tivesse bastado, não sem 
os rumores que circulam sobre nós. 
    O único que Mary escutou e quis esclarecer foi: 
    ‐É verdade que não queria se casar com ele? 
    ‐Pois, talvez, chegasse a querê‐lo se papai não insistisse tanto e se Rafe e eu 
pudéssemos  encontrar  nossas  razões.  Estivemos  perto  mas...  suponho  que  não 
tinha que ser. 
    ‐O ama, entretanto? ‐perguntou sua mãe. 
    Essa pergunta outra vez, e o único que podia responder era: 
    ‐A  verdade  é  que  não  sei.  Nunca  antes  me  senti  tão  cômoda  com  um 
homem,  não  tenho  que  medir  minhas  palavras  com  ele,  e  nunca  antes  tinha  me 
zangando  tanto  com  ninguém  nem...  despertado  em  mim  sentimentos  muito 
extremos. Com ele vivi experiências maravilhosas que nunca esquecerei. Acordou a 
menina que há em mim, a moça e a mulher. Certamente, mexe com todas minhas 
emoções, todas sem exceção. 
    ‐Ai,  senhor  ‐  foi  o  único  que  disse  Mary,  como  se  Ophelia  lhe  tivesse 
respondido com um "sim" ou um "não" definitivos em lugar de com um complicado 
matagal de reflexões. 
    ‐Por  que  voltou  tão  cedo?  ‐perguntou  Sherman  que  apareceu  no  alto  da 
escada‐. E por que ficam cochichando no vestíbulo? 
    ‐Meu  Deus  ‐  sussurrou  Mary  a  Ophelia‐,  acabo  de  perceber  que  Sherman 
perdeu a cerimônia. Ficará furioso! 
    Era a única nota alegre em um dia desastroso, pensou Ophelia. 
  
 
 
 
Capítulo 42
  
    Raphael apagou o abajur que iluminava a poltrona de leitura de seu quarto e 
ficou  na  penumbra  alaranjada  que  as  últimas  chamas  da  lareira  projetavam  no 
quarto. Junto a sua mão havia uma garrafa de rum. Teria preferido o brandy, mas 
seu escritório estava às escuras quando entrou para procurar algumas garrafas e 
só  tinha  encontrado  duas.  Uma  caiu  no  chão  e  já  não  pôde  encontrá‐la,  a  outra  a 
levou  a  seu  quarto.  Mais  tarde  desceria  com  um  abajur  para  ver  o  que  tinha 
passado  com  outros  licores  de  seu  bar,  sempre  bem  provido.  Essa  noite  não 
bastava uma garrafa, nem sequer duas. 
    Casou‐se  com  Ophelia  Reid.  Santo  Deus,  agora  era  Ophelia  Locke.  Tinha 
perdido o juízo. 
    Poderia  livrar‐se  do  compromisso,  bastava  comunicar  publicamente  a 
existência  de  diferenças  irreconciliáveis  entre  ambos.  Acaso  qualquer  um  que 
conhecesse  Ophelia  duvidaria  disso?  É  obvio  que  não.  No  fundo  de  sua  mente, 
entretanto, persistia a ridícula noção de que casar‐se com Ophelia poderia ser algo 
bom, tão bom que se consideraria o homem mais afortunado do mundo. Uma ideia 
absurda. O que poderia ser não se converteria em realidade. O que era, constituiria 
seu pior pesadelo. 
    Ocorreu‐lhe avisar à governanta que se preparasse para receber à senhora 
da casa, mas optou por tomar outra taça. Nem louco iria colocar essa megera em 
seu lar. Ophelia jamais saberia que ele ainda a desejava. Jamais saberia que tinha 
que  lutar  para  não  lhe  pôr  as  mãos  em  cima.  Se  não  voltasse  a  vê‐la,  poderia 
controlar seus impulsos. E onde estava escrito que tinha que viver com a mulher 
que havia desposado? Se seus pais não a queriam, acharia outro lugar onde deixá‐
la, mas não seria em sua própria casa. 
    Nunca  lhe  tinha  faltado  dinheiro.  O  título  que  tinha  herdado  que 
normalmente  recebem  os  primogênitos  em  idade  precoce  ia  acompanhado  de 
grandes  propriedades  e  numerosas  posses  associadas  que  lhe  contribuíam  uns 
ganhos  estáveis.  O  ensino  adiantado  da  responsabilidade  formava  parte  da 
tradição familiar. Antes de ser homem já era um jovem independente. 
  A  residência  de  Londres  era  uma  dessas  propriedades.  Não  teve  que  comprá‐la 
embora tampouco tivesse regulado em gastos para redecorá‐la a seu gosto. Era a 
residência  de  um  homem,  feita  para  a  comodidade  de  um  solteiro.  Não  era 
apropriada para uma mulher, especialmente para essa mulher que, sem dúvida, a 
estragaria por despeito, como por despeito o fazia tudo. Rafe gostava da casa. Não 
queria que a deteriorassem. Serviu outra taça de rum. 
    Vagamente  percebeu  que  seus  pensamentos  perdiam  coerência.  Esperava 
que o álcool lhe desse um pouco de paz antes de ter que enfrentar a realidade do 
amanhã, mas ainda não dava resultado. Serviu‐se de outra taça mais. 
    Pela manhã seu matrimônio estaria na boca de todos. As notícias deste tipo 
correm  como  a  pólvora.  Não  tinha  a  menor  ideia  de  como  fazer  frente  às 
felicitações..., ou os pêsames, conforme se olhasse. Deveria escrever uma nota a seu 
pai, mas temia que já fosse ininteligível. Amanhã. 
    Entretanto, começou a sentir‐se culpado por ter deixado Ophelia com seus 
pais.  Tanta  malícia  lhe  era  alheia.  Embora  fosse  a  vingança  perfeita.  De  maneira 
que queria obrigá‐lo a casar‐se por despeito! Pois, lhe negaria o único que Ophelia 
desejava  de  verdade,  livrar‐se  da  tutela  de  seu  pai.  Impecável...  embora  muito 
malicioso para ele. 
    Não a obrigaria a ficar ali, não por muito tempo. Mas tampouco a levaria a 
sua  casa.  É  obvio  que  não.  Encontraria  algum  lugar  onde  pudesse  praticar  sua 
malevolência  até  não  poder  mais,  sem  que  ele  soubesse.  Em  nenhum  caso  iriam 
viver sob o mesmo teto quando não podia confiar em uma só palavra de Ophelia. 
    Deus era uma artista do engano. Ele acreditou que realmente tinha mudado, 
autenticamente  arrependida,  sincera  por  uma  vez.  Inclusive  acreditava  que 
Ophelia  chegou  a  controlar  suas  piores  tendências,  mas  era  tudo  mentira.  Não 
tinha como conviver com isso, sem acreditar em nenhuma palavra que saía de sua 
boca. 
    ‐Vim correndo assim que soube. Parabéns! 
    Levantou  os  olhos  e  viu  sua  irmã,  que  sorria  ao  aparecer  à  cabeça  pela 
porta. 
    ‐Não o faça ‐ respondeu Raphael. 
    ‐O que? 
    ‐Me  felicitar.  Pode  chorar  comigo,  se  quiser.  Mas  não  ponha  essa  cara  de 
alegria, obrigado. 
    ‐Está decepcionado. ‐Amanda entrou no aposento. 
    ‐Adivinhou! Dois pontos para a senhorita! 
    ‐Muito decepcionado. Por quê? E onde está ela? ‐Amanda dirigiu um olhar 
deliberado à cama. 
    ‐Não  a  encontrará  aí  ‐  resmungou  Rafe‐.  Mas,  se  acreditava  que  está  aqui, 
por que demônios não chamou antes de entrar em meu quarto? 
    ‐Eu nunca chamo ‐ respondeu ela com desdém. 
    ‐Acaba de fazê‐lo. 
    ‐Claro que não. Chamei muitas vezes, e como não havia resposta supus que 
estariam  dormindo,  mas,  se  por  acaso  não  estivessem,  como  tinha  que  me 
assegurar, para compartilhar minha alegria contigo... com vocês... –Calou‐se porque 
Raphael franzia o cenho‐. Não deveria estar contente? 
  ‐Não, absolutamente. 
    ‐Mas gosto dela ‐ disse Amanda. 
    ‐Costumava não gostar ‐ respondeu ele. 
    ‐Aquilo foi antes de termos uma conversa muito interessante. 
    Raphael soprou. 
    ‐Não acredite em nenhuma palavra, Mandy. É uma embusteira consumada, 
uma farsante perita, uma atriz insuperável. Fará acreditar que brilha o sol quando 
sabe muito bem que não é assim. E como demônio soube tão rápido? 
    ‐Um  tipo  irrompeu  na  sala  da  festa  e  gritou  a  notícia,  sem  mais. 
Bombardearam‐no com perguntas e reconheceu ter estado na casa dos Cade, onde 
você  anunciou  que  partia  imediatamente  para  se  casar  com  Ophelia,  e  que  a 
própria  lady  Cade  lhes  acompanhou  como  testemunha.  Evidentemente,  todos  me 
olharam  com  recriminação,  por  não  ter  lhes  dado  nenhuma  pista  do  que  ia 
acontecer.  Uma  situação  muito  embaraçosa  embora  te  perdôo,  porque  estou 
encantada  de...  muito  bem,  não  estou  encantada  absolutamente.  Aí  o  tem. 
Satisfeito? 
    ‐Pareço satisfeito? 
    Amanda se sentou no braço da poltrona franzindo o cenho e perguntou: 
    ‐O que aconteceu? O que aconteceu para te impedir se casar com ela? 
  ‐Nada‐  respondeu  ele,  enojado  consigo  mesmo‐.  Eu  mesmo  poderia  ter 
impedido se não estivesse tão furioso, mas estava e não o impedi. ‐Sabia que isso 
soava  um  pouco  estranho,  quis  esclarecer  suas  palavras,  perdeu  o  fio  de  seus 
pensamentos  e  desistiu.  Disse  em  troca‐:  Uma  advertência,  querida.  Jamais  tome 
uma decisão de conseqüências monumentais em sua vida quando está furiosa. 
    ‐Pensei  que  você  gostasse  de  Ophelia,  Rafe. Estava entusiasmado  com  seu 
"novo"  eu.  Quando  a  conheci  tive  que  te  dar  razão.  Estava  mais  que  mudada,  era 
uma pessoa completamente nova. 
  ‐Mentiras. A mulher que eu gostava nem sequer existe. Era uma fraude. 
    Amanda arqueou uma sobrancelha. 
    ‐Está  seguro?  Estamos  falando  da  mulher  que  descobriu  a  aposta,  lembra‐
se?  A  que  pediria  sua  cabeça  por  isso.  Não  acaba  de  dizer  que  é  uma  atriz 
insuperável? Provavelmente a fraude seja a mulher maligna. 
  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 43
  
    ‐Não  entende,  Sherman  ‐  disse  Mary‐.  Foi  dormir  chorando.  Não  está  feliz 
absolutamente com este giro dos acontecimentos. 
    ‐E eu sim? ‐encontravam‐se na sala de jantar, tentando terminar um café da 
manhã  ao  que  nenhum  dos  dois  prestava  muita  atenção.  Na  noite  passada  Mary 
tinha explicado o ocorrido a seu marido, ao menos, a parte que ela entendia, e suas 
predições  estavam  acertadas.  Sherman  ficou  furioso  e  seu  humor  não  tinha 
melhorado  muito  essa  manhã.  Geralmente,  ela  não  respondia  a  seus 
aborrecimentos com mau humor, mas, neste caso, estava tão desgostosa como ele, 
embora  por  razões  diferentes‐.  Pôde  celebrar  o  casamento  mais  grandioso  do 
século  ‐  prosseguiu  Sherman‐.  Até  poderia  assistir  a  realeza.  Percebe  as 
oportunidades perdidas...? 
    ‐Por  uma  vez  quer  pensar  em  sua  filha  em  lugar  de  em  suas  malditas 
"oportunidades"? 
    Mary  não  gritava  a  seu  marido  quase  nunca.  A  diferença  de  sua  filha,  não 
estava em sua natureza perder os estribos nem sofrer arrebatamentos de ira. Nas 
estranhas ocasiões em que isto ocorria Sherman tomava nota rapidamente, como 
fez  nesse  momento.  Afundou‐se  no  assento.  A  fúria  se  esfumou  de  suas  feições. 
Olhou a sua esposa com cautela. 
    ‐Leve‐a as compras ‐ balbuciou‐. Isso sempre alegra as mulheres. 
    ‐É um insensível, Sherman. 
  O homem ficou vermelho. 
    ‐Mas dá resultado. Ou não? 
    ‐Quando  os  problemas  são  menores,  talvez  ‐  admitiu  Mary‐,  mas  este 
desastre não se pode considerar menor. E nem sequer é a primeira vez que chora 
esta semana. Não estava doente esses dias que passou em seu quarto. Ouviu algo 
que a deixou desfeita. 
    ‐O que? 
    ‐Não tenho a menor ideia. Não quis comentar comigo, fingiu que não tinha 
importância.  Nunca  a  tinha  visto  tão  zangada  nem  tão  deprimida...  bom,  exceto 
quando a obrigou a comprometer‐se com MacTavish. 
    Sherman ficou vermelho de novo. 
    ‐Por  favor,  querida,  não  demos  mais  voltas  a  esse  tema.  Teria  sido  um 
grande matrimônio, se lhe tivesse dado uma oportunidade. 
    ‐Isso  é  irrelevante.  A  questão  é  que  Ophelia  está  desconsolada  porque  se 
casou com um homem que, evidentemente, não a quer. 
    Seu marido se ergueu no assento, zangado já por sua filha. 
    ‐Nego‐me a acreditar nem por um momento que exista um homem capaz de 
não querer a este anjo. 
    Mary arqueou uma sobrancelha. 
    ‐Tem um aspecto de anjo, certamente, mas sabe muito bem que  a infância 
peculiar que a obrigou a viver não só a fez cáustica e altiva,  mas também incapaz 
de confiar em ninguém. 
    ‐É que tenho a culpa de tudo? ‐perguntou Sherman. 
    ‐De  tudo  o  que  é  culpado  sim.  Adverti  em  ocasiões  inumeráveis  que 
deixasse de tratá‐la como a um brinquedo que tinha que exibir.  Tratava‐a como a 
uma  adulta  quando  ainda  era  uma  menina.  Fez  desfilar  pela  casa  uma  coluna 
interminável de solteiros que a pediram em matrimônio muito antes que Ophelia 
estivesse preparada para eles. 
    ‐Se  quer  saber,  eu  mesmo  me  irritei  com  a  quantidade  exagerada  de 
propostas. 
    ‐Pois, como acha que se sentia ela? Suas discussões a gritos são legendárias. 
O quarteirão inteiro ria delas. 
    Outro rubor. 
    ‐Não estava tão volúvel quando voltou da visita aos Locke. Viu? Quase não a 
reconheci‐ disse ele. 
    Mary levantou os olhos. 
  ‐Porque  você  nunca  tinha  visto  seu  lado  mais  doce,  pela  singela  razão  de 
que  suas  reações  sempre  eram  explosivas  contigo.  Embora  sim,  vi  uma  diferença 
notável  em  Ophelia  quando  voltou  para  casa.  Era  mais  doce.  Como  se  tivesse  se 
liberado das algemas. 
    ‐Acha  que  os  Locke  a  impressionaram  e  a  humilharam  com  sua 
superioridade? ‐perguntou Sherman em voz alta. 
    Mary estalou a língua. 
    ‐Não acredito em nada parecido. Nós nunca os vimos, exceto ao visconde e 
sua irmã. Não dê por feitas coisas que podem estar muito longe da verdade. 
    Ele encolheu os ombros. 
    ‐O  que  pôde  mudá‐la,  então?  Ela  nunca  confia  em  mim,  por  muito  que 
desejasse o contrário. 
    Mary,  entretanto,  até  depois  de  expressar  seus  pensamentos  enfrentou  à 
mesma situação triste, que justificava o pranto. De fato, estava muito compungida 
quando acrescentou: 
    ‐Sua vida não foi feliz, Sherman. percebe? É a filha mais formosa que alguém 
poderia desejar, mas também a mais desventurada. 
    ‐O que posso fazer? 
    ‐Além  de  zangá‐la?  Sinto  muito,  não  devia  ter  dito  isso.  Embora  deva 
admitir que é a única reação que lhe inspira. Não sei se podemos fazer algo para 
remediar esta situação. Curiosamente, acredito que ela o ama. Não disse com estas 
palavras, mas seus olhos brilham quando fala dele. Coisa que não explica por que 
Ophelia  está  aqui  conosco  e  ele  se  foi  por  sua  conta.  Acredito  que  tem  razão,  ele 
não queria casar‐se com ela. Fez só por culpa daqueles ridículos rumores que, se 
me permite dizer, você ajudou a propagar quando disse a todos seus amigos que 
Ophelia visitava os Locke e que esperava que voltasse para casa noiva. 
     O rosto de Sherman alcançou um vermelho mais intenso. 
    ‐Farei uma visita a Locke para saber o que está acontecendo. 
    ‐Não  faça  ‐  acautelou‐o  Mary  em  seguida‐.  Poderia  piorar  as  coisas.  ‐ 
Embora  retificasse  um  tanto  zangada‐:  Não  obstante,  se  não  vir  procurá‐la  nos 
próximos dias, eu mesma te acompanharei para lhe dizer um monte de coisas. Não 
penso permitir que minha filha seja feita a boba de Londres porque não lhe parece 
aceitável. 
  
 
 
 
 
 
 
 

Capítulo 44
  
    ‐Ainda não se levantou? Sadie havia me dito que sim. 
    Ophelia  se  incorporou  bruscamente  na  cama.  Estava  acordada,  sabia  que 
era quase meio‐dia. Simplesmente, não tinha vontade de levantar‐se e confrontar 
um dia que, claramente, seria difícil. E tinha razão. As expressões de Jane e Edith, 
que  mal  podiam  conter  a  emoção  quando  entraram  com  passo  decidido  em  seu 
quarto, delatava que sabiam que Ophelia era já lady Locke. 
    ‐Minha donzela opina que já não deveria estar na cama. Dizer que tinha me 
levantado  foi  sua  maneira  teimosa  de  conseguir  que  o  faça  ‐  explicou  Ophelia, 
quem fingiu também um bocejo para a concorrência. 
    ‐Deve te deitado tarde ‐ disse Jane com uma risada dissimulada. 
  Jane  e  Edith  se  dirigiram  a  seus  assentos  habituais  na  pequena  mesa  de  café  da 
manhã. Sadie tinha deixado ali uma bandeja em sua tentativa de tirar a Ophelia da 
cama. 
    Aquele comentário era muito atrevido para a Jane, uma alusão direta a noite 
de casamento. Ophelia, entretanto, não tinha o que responder. 
    Edith, que já não podia conter a excitação, exclamou: 
    ‐Que sorte tem! 
    E Jane acrescentou: 
    ‐Acabamos de saber que estava noiva dele. Pode acreditar? Ninguém de deu 
ao  trabalho  de  nos  contar  o  que  já  sabíamos.  E  agora  isto!  ‐Embora,  certamente, 
não esperávamos te encontrar aqui ‐ disse Edith‐. Esta manhã fomos te visitar na 
casa  de  Locke.  Seu  mordomo  não  sabia  do  que  lhe  estávamos  falando.  Quando 
dissemos  que  te  tinha  casado  com  lorde  Locke,  quase  nos  chamou  embusteiras. 
Como ainda não sabia, não podia ser verdade. Terá que despedi‐lo. Dá‐me igual a 
que se limitasse a fazer seu trabalho, foi descortês conosco. 
    ‐Por que está aqui em lugar de lá? ‐perguntou Jane a seguir e remarcando as 
palavras.  
Ophelia suspirou para si mesma e mentiu:  
‐ Sua casa ainda não está preparada para me receber. ‐Devia saber que suas 
amigas não se conformariam com isso.  
–De verdade? ‐perguntou Edith franzindo o cenho em um gesto de dúvida‐. 
Sua irmã se aloja ali.  
    ‐A  Amanda  não  importa.  Rafe  acredita  que  a  mim  sim,  e  quer  que  tudo 
esteja  perfeito.  As  primeiras  impressões  e  tudo  isso.  Parece‐me  muito  bem.  Já 
tivemos nossa noite de casamento.  
    O  rubor  foi  imediato  e  não  por  culpa  do  que  disse,  embora  fosse  jovem 
suporiam  que  sim.  Ophelia  ruborizou  porque  não  era  verdade.  Por  que  voltava  a 
recorrer às mentiras? Porque não suportava dar lástima e sabia que isso era o que 
receberia se suas amigas soubessem a verdade? Para mudar de tema disse: 
    ‐Uma de vocês deve ter se levantado muito cedo esta manhã para saber da 
notícia tão rápido. 
    ‐Está de brincadeira ‐ replicou Edith rindo‐. Soubemos ontem à noite. 
    ‐Quase  todos  os  convidados  dos  Cade  foram  correndo  às  demais  festas  da 
cidade  ‐  acrescentou  Jane‐.  Já  sabe  como  é:  todo  mundo  quer  ser  o  primeiro  em 
comunicar as notícias. De fato, ontem à noite soubemos duas vezes. Primeiro nos 
disseram que se casaria. 
    ‐E logo ‐ concluiu Edith‐, quando ainda não tinha passado uma hora, que já 
tinha  se  casado.  Alguns  dos  convidados  dos  Cade  esperaram  até  que  lady  Cade 
retornou e confirmou que sim, que tinha acontecido de verdade, que ela tinha sido 
testemunha. Então correram a dar a notícia. 
    ‐E  não  vai  acreditar  isso  ‐continuou  Jane  com  emoção  crescente‐  mas 
ontem  à  noite  recebi  meu  primeiro  pedido  em  casamento,  justo  depois  de  se 
propagar a notícia de seu matrimônio. Da parte de lorde Even. E não me interessa 
absolutamente, mas é um começo! 
    ‐Dois  de  seus  ex‐admiradores  apresentaram  seus  respeitos  esta  manhã  ‐
disse Edith‐ Imagina minha incredulidade e minha satisfação. Levam bastante bem 
a  decepção,  mas  a  maioria  já  percebeu  que,  agora  que  está  fora  de  seu  alcance, 
precisam casar‐se igualmente. 
    ‐Pode  que  Edith  e  eu  encontremos  maridos  nesta  temporada  embora  não 
tenhamos muito tempo para nos decidir. Agora as oportunidades são ilimitadas. 
    As  escutando,  vendo  seu  entusiasmo  com  as  "migalhas"  que  ela  lhes 
deixava,  Ophelia  se  perguntou  por  que  não  a  odiavam.  Tinha  sido  um  obstáculo 
para elas, não porque o propôs, mas sim por culpa de sua inoportuna beleza. Nem 
sequer  tinham  decidido  de  antemão  com  quem  desejavam  casar‐se.  Em  troca, 
ambas  tinham  aceitado  que  não  teriam  a  menor  oportunidade  até  que  ela  se 
casasse.  Que  triste!  Não  deveria  ser  assim.  E  ela  nada  tinha  feito  para  assegurar 
que não fosse assim, porque não tinha sido uma verdadeira amiga para elas. 
    ‐Posso  lhes  fazer  algumas  recomendações,  se  quiserem  ‐  disse  quase  com 
acanhamento‐.  Embora  não  parece,  observei  com  atenção  à  maioria  dos 
cavalheiros  e  vi  que  alguns  são  mais  apropriados  que  outros,  mais  românticos, 
alguns serão pais exemplares, não tenho dúvidas. E sei que vocês sabem por que 
me fixo nisto em um homem. ‐As jovens riram entre dentes‐. Como já estava noiva, 
não me interessava nenhum deles e não me importou lhes fazer algumas perguntas 
pertinentes para saber mais de suas vidas. 
    ‐Algum reúne as três qualidades? ‐perguntou Jane com interesse. 
    ‐Certamente ‐ respondeu Ophelia‐. Por exemplo, Harry Cragg seria perfeito 
para ti, Jane. Não só adora montar a cavalo, mas também cria cavalos de corridas 
em seu imóvel em Kent. Sei o quanto te frustrou que seus pais não lhe permitissem 
voltar  a  montar  quando  caiu  e  te  rompeu  o  braço.  Para  ser  justa,  acredito  que 
Harry só se interessou por mim porque descobriu que eu gosto dos cavalos. Estou 
convencida  de  que  esse  homem,  quando  se  casar,  esperará  que  sua  esposa  saia 
para montar com ele cada dia. 
    ‐Tem  razão  ‐  disse  Edith‐.  A  única  vez  que  falei  com  Harry,  só  lhe 
interessava o tema dos cavalos. Aborrece‐me, mas, Jane, não recorda que te disse 
que você ficaria encantada? 
    ‐E  também  é  muito  bonito,  não  é  verdade?  ‐disse  Jane,  quem  começava  a 
mostrar pouco interesse‐. Ao menos, me parece. 
    ‐Muito  esportista  para  meu  gosto  ‐  respondeu  Edith  com  uma  careta‐.  Eu 
gosto mais da leitura. 
    ‐Sim,  sabemos  que  prefere  afundar  o  nariz  em  um  livro  a  ir  a  uma  festa  ‐ 
brincou Jane. 
    ‐Pensando  bem,  Edith,  deveria  prestar  um  pouco  mais  de  atenção  a  lorde 
Paisley ‐ comentou Ophelia‐. Não recordo seu nome de batismo, mas se gabava de 
ter uma biblioteca com mais de três mil volumes. Disse que teria que ampliar sua 
residência para ter mais espaço. 
    ‐Brinca? ‐perguntou Edith com os olhos muito abertos. 
    ‐Absolutamente. Tive a impressão de que era capaz de ir ao outro lado do 
mundo em busca de um livro que lhe interessasse. 
    ‐E é o muito pálido para seus gostos ‐ riu Jane. 
    ‐Sabe  Pheli?  ‐começou  a  dizer  Edith  espontaneamente,  sem  pensar  ‐  eu 
nunca haveria...  sinto muito, escapou. 
    ‐Não  importa  ‐  reconfortou  Ophelia‐.  O  velho  diminutivo  já  não  me 
incomoda. 
    ‐Não?  ‐perguntou  Jane  franzindo  o  cenho‐.  Mudou  Pheli,  mudou  muito. 
Sinceramente, nunca havia me sentido tão..., tão... 
    ‐Relaxada ‐ Edith concluiu a frase‐. Sim, eu sinto o mesmo. E, a risco de que 
me  jogue  do  quarto,  devo  dizer  que  a  mudança  eu  adoro.  Quem  tivesse  pensado 
que se esforçaria em nos ajudar a decidir quem são os maridos mais apropriados, 
como uma verdadeira... 
    Edith  não  terminou  a  frase,  mas  sim  ruborizou  intensamente.  A  palavra 
"amiga",  que  não  tinha  sido  pronunciada,  ficou  suspensa  entre  ambas.  Também 
para  a  Ophelia  foi  embaraçoso.  Rafe  tinha  verdadeiramente  acertado.  A  velha 
amargura havia a tornado muito egocêntrica e lhe tinha impedido de aproximar‐se 
destas  duas  jovens.  Elas  sempre  reagiam  às  atitudes  de  Ophelia.  Pensando  bem, 
nas estranhas ocasiões em que ela não atuava por despeito, ambas se mostravam 
muito agradáveis e divertidas. 
    Deus, as coisas que tinha perdido na vida afastando os amigos para que não 
lhe fizessem mal quando, na realidade, era isso mesmo o que mais fazia. 
  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 45
  
    ‐Seu marido veio te ver ‐ anunciou Sadie da porta. 
    As  duas  jovens  estavam  sentadas  escarranchadas  na  cama  de  Ophelia  e 
redigiam  uma  boa  lista  de  possíveis  maridos  para  ambas.  Sua  camaradagem  era 
cálida; sua risada, espontânea. Fazia muito que Ophelia não se divertia tanto. 
    Com  o  anúncio  de  Sadie  as  três  pensaram  que  a  palavra  "marido"  soava 
muito  bem  ou,  ao  menos,  duas  das  três  pensaram.  Ophelia  recordou  que,  em  seu 
caso, "marido" não significava exatamente o que deveria significar e seu ânimo se 
afundou.  Não  obstante,  tentou  melhorar  o  rosto  enquanto  suas  amigas  saíam 
correndo,  porque  não  queriam  intrometer‐se  nos  primeiros  dias  de  sua  vida  de 
casada. 
    Ophelia se vestiu lentamente, por muito que Sadie tentasse lhe apressar. Em 
sua  opinião,  Rafe  podia  esperar.  Podia  esperar  o  dia  inteiro.  Merecia  ficar 
esperando. Deus, com que facilidade voltava a zangar‐se! E não se sentia capaz de 
dominar suas emoções. 
    ‐Menos mal que sua mãe voltou para a cama ‐ disse Sadie enquanto tirava 
Ophelia do quarto a empurrões‐. Ouvi que esteve em pé de guerra esta manhã por 
este giro dos acontecimentos. 
    ‐Que  tolice...  ‐mofou  Ophelia  ao  mesmo  tempo  que  parava  no  alto  da 
escada‐. Minha mãe nunca está em pé de guerra. 
    ‐Pois,desta vez sim, e seu pai cedeu, se pode acreditá‐lo. Jerome escutava do 
outro lado da porta. Jura que é verdade. 
    Ophelia não acreditou. Esse servente era famoso por enfeitar suas histórias 
para  fazê‐las  mais  interessantes.  Não  era  o  momento  de  discutir,  entretanto, 
porque  Raphael  a  estava  esperando  no  salão.  Não  duvidava  de  que  tinha  vindo 
procurá‐la. Estando casados, tinham que viver na mesma casa, quisessem ou não. 
Primeiro  o  obrigaria  a  desculpar‐se  por  havê‐la  abandonado  tão  descortesmente 
na noite anterior. 
Parou  na  soleira  do  salão.  Estava  pronta  para  a  batalha,  usava  um  dos 
muitos  vestidos  azul  pálido  que  realçavam  a  cor  de  seus  olhos  e  levava  o  cabelo 
penteado à perfeição. Seu "marido" esperava de pé junto à janela que dava à rua. 
Não  havia  muito  que  ver  ali  fora.  Ele  parecia  imerso  em  seus  pensamentos  e, 
certamente, não a tinha ouvido chegar. 
    Mas sim. Sem dar a volta sequer, disse: 
    ‐Estou te esperando faz uma hora. Pensava que me cansaria e iria embora? 
    ‐Absolutamente ‐ ronronou ela‐. Só esperava que se cansasse. 
    Rafe  deu  a  volta  a  tempo  de  ver  o  sorriso  irônico  que  lhe  dirigiu  Ophelia 
enquanto se aproximava do sofá. Havia quatro sofás para escolher, todos idênticos 
e estofados com brocado de seda de cor predominantemente dourada, combinado 
com  tonalidades  terra  que  ficavam  bem  com  as  cadeiras  de  cor  marrom  lisas 
colocadas no resto do salão. Os sofás estavam dispostos ao redor de uma mesinha 
com algumas guloseimas e com um dos vasos florais de sua mãe no centro, embora 
a usavam, sobre tudo, para apoiar as bandejas com o chá. 
    Estendeu sua saia por todo o sofá, para que Rafe não pudesse pensar sequer 
em sentar‐se a seu lado. Ele se aproximou e se sentou em cima da extensão de sua 
saia! Ophelia bateu os dentes e puxou o tecido para tirá‐lo de debaixo da coxa dele. 
Rafe não pareceu perceber, voltou‐se para ela e apoiou um braço  no respaldo  do 
sofá.  Talvez  não  se  mostrasse  descortês  deliberadamente  embora  ela  sim,  e  se 
afastou mais dele. 
    Rafe percebeu e disse: 
    ‐ Fique quieta. 
    ‐Vá para o diabo! 
    Ele fez um gesto para tocá‐la, mas mudou de opinião e suspirou. 
    ‐Podemos, ao menos, manter uma conversa normal durante uns minutos? 
    ‐Duvido ‐ disse ela‐. Um minuto é muito tempo para ser cordial contigo. 
    Estava bufando de cólera. Cada palavra que saía de sua boca piorava tudo, 
como se a ira se alimentasse de si mesma. E não tinha outra saída para a ira, que 
cresceria e a envenenaria. A única saída alternativa que Rafe lhe tinha ensinado já 
não era uma opção. Não iria utilizá‐la para descarregar uma fúria pela qual ele era 
o responsável. 
    ‐Me ocorreu a solução ideal para nosso problema. 
    Disse como se lançasse uma pepita, esperando que ela se equilibrasse para 
agarrá‐la e assim deixar de lado o sarcasmo e o rancor por um momento. Não deu 
resultado. 
    ‐Não sabia que necessitávamos uma solução embora suponha que você sim. 
‐O único que lhe ocorria era a anulação de seu matrimônio, mas  não iria deixá‐lo 
escapar  tão  facilmente.  Tinha  suas  opções  preparadas  quando  disse‐:  A  anulação 
não está incluída. 
    ‐Estou  de  acordo  ‐  disse  ele,  surpreendendo‐a‐.  Já  celebramos  nossa  noite 
de casamento embora com antecipação. 
    Se  sua  intenção  era  envergonhá‐la  mencionando  seu  encontro  amoroso, 
equivocava‐se.  De  fato,  fez‐lhe  recordar  sua  grande  ingenuidade,  como  tinha 
acreditado  em  todas  suas  mentiras,  como  pensava  que  ele  desejava  ajudá‐la  de 
verdade  quando,  em  todo  momento,  tinha  sido  objeto  de  brincadeiras  para  ele  e 
para Duncan. Que a tivesse ajudado efetivamente parecia irrelevante, porque suas 
motivações tinham sido interessadas. 
    ‐Decidi  comprar  uma  casa.  Há  uma  a  venda  perto  daqui,  assim  poderá 
visitar seus pais facilmente sempre que quiser. 
    ‐O que acontece com sua casa? 
  ‐Nada. Minha casa é perfeita...  para mim ‐assinalou Raphael‐. Sem dúvida, 
não te surpreenderá que queira que continue sendo. Estou falando de uma casa só 
para você. 
    Não era isso o que Ophelia esperava ouvir, mas, apesar de tudo, conseguiu 
esboçar um apertado sorriso. 
    ‐Pensa, realmente, que destruiria sua casa? 
    ‐A  ideia  me  passou  pela  cabeça.  É  uma  mulher  imprevisível,  Phelia, 
provavelmente a mais imprevisível que conheci. Prefiro não correr riscos com uma 
casa que eu gosto muito. 
    ‐E  sua  brilhante  ideia  é  que  não  só  tenhamos  quartos  separados,  mas 
também casas separadas ‐ apontou ela‐. E se não gosto da sua ideia? 
    ‐Não  o  faço  para  que  você  goste  querida.  Por  mim,  pode  ficar  aqui.  No 
entanto,  isto  poderia  te  colocar  em  uma  situação  comprometedora  que  acabaria 
afetando  a  minha  família.  Lembre‐se,  entretanto,  que  você  forçou  esta  situação 
quando eu poderia ter nos livrado dela facilmente. 
    ‐Eu não forcei nada! Você mesmo o fez quando decidiu apostar com minha 
vida! 
    Ele passou por cima de seu tom acalorado e encolheu significativamente os 
ombros. 
    ‐Em todo caso, aceitará o que te ofereço. Ou ainda não percebeu que sou eu 
quem toma as decisões? 
    Disse em um tom muito seguro de si mesmo. 
    ‐Eu não apostaria nisso ‐ respondeu Ophelia. 
    Rafe  ficou  de  pé  com  a  mesma  expressão  desagradável  que  lhe  mostrou 
quando a repreendeu em Summers Glade. 
    ‐Não me pressione Ophelia. Já fez muito. Posso te manter a raia e o farei se 
for necessário. Preferiria não ter que controlar todos e cada um de seus atos, outra 
vez, mas o farei caso se rebele. 
    Deixou‐a com esta advertência e com a clara insinuação de que a confinaria 
em Alder's Nest, sozinha desta vez, tão prisioneira como na ocasião anterior. A isso 
se referia quando disse "outra vez", mas Ophelia não pensava deixar que se saísse 
com a sua e sabia exatamente o que fazer para impedir‐lhe.   
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 46
  
    ‐Esta não é uma boa ideia ‐ grunhiu Sadie enquanto envolvia melhor o colo 
com  a  manta  de  viagem  e  continuava  olhando  preocupada  pela  janela  da 
carruagem. 
    ‐É uma ideia maravilhosa ‐ respondeu Ophelia. 
    ‐Não  se  invade  sem  mais  a  casa  das  pessoas,  e  menos  dessa  pessoa  em 
concreto. 
    ‐Será um duque ‐ disse Ophelia encolhendo os ombros‐, mas também é meu 
sogro. Realmente acredita que não me dará uma cálida boas‐vindas? 
    ‐Não se trata disso. O que acontecerá se já sabe que se separou de seu filho? 
    ‐Ninguém sabe ainda. Nem sequer o próprio Rafe. Ele acredita que estamos 
separados por decisão sua. 
    ‐Deveria te mudar à casa que te comprou em lugar de invadir a casa de sua 
família ‐ disse Sadie. 
    Ophelia suspirou. No que se referia a queixa, Sadie estava em perfeita forma. 
Ophelia  já  estava  muito  nervosa  por  seu  primeiro  encontro  com  o  duque.  Sua 
donzela não fazia mais que piorar as coisas. 
  ‐Em  primeiro  lugar,  não  invado  ‐  disse‐.  Em  segundo  lugar,  não  tenho 
intenção de me mudar à casa que me comprou. 
    ‐Mas a comprou só para ti. 
    ‐Sim, e estou encantada de que tenha gasto tanto dinheiro ‐  disse Ophelia‐. 
Penso  esbanjar  mais  dinheiro  de  Raphael  quando  retornar  a  Londres.  Irei  às 
compras, gastarei quantidades extravagantes e lhe enviarei todas as faturas. 
    ‐Esvaziar  os  bolsos  de  um  homem  com  quem  não  tem  uma  boa  relação  é 
ainda pior que a visita a Norford Hall ‐ advertiu‐lhe Sadie. 
    ‐Ultimamente tudo te parece má ideia. 
    ‐Porque volta a ser a de antes. Estava me acostumando a seu novo eu e... 
    ‐Não  é  verdade  e  você  sabe  ‐  interrompeu‐a  Ophelia  com  voz  um  pouco 
magoada‐. Só apenas a de antes quando se trata dele. 
    Sadie suspirou e o admitiu. 
    ‐É verdade. Sinto muito. Mas tinha grande esperança em seu matrimônio, a 
possibilidade  de  encontrar,  por  fim,  a  paz  longe  de  seu  pai,  o  amor  de  um  bom 
homem, ter crianças, que eu adoraria... Tem certeza de que não está grávida? 
    Ophelia não tinha certeza, mas disse: 
    ‐Sim, é obvio, mas diga ao chofer que pare, acredito que vou vomitar outra 
vez. 
    ‐Sim que está grávida ‐ afirmou Sadie. 
    ‐De  verdade  que  não,  e  não  importa,  não  é  necessário  parar.  Já  passou.  É 
que o aborrecimento me revolve o estômago e este caminho cheio de buracos não 
facilita as coisas. 
    ‐Não passa nada se estiver grávida. É uma mulher casada. 
    ‐Não vou ter uma criança! ‐encrespou‐se Ophelia. 
    ‐Muito bem. Embora nunca antes o aborrecimento te afetasse o estômago. 
    ‐Nunca antes estive tão zangada. 
    Sadie continuou balbuciando, mas Ophelia deixou de escutá‐la. Não sabia o 
que poderia conseguir com essa visita. Na realidade, não tinha pensado muito. Não 
pretendia  abrir  uma  brecha  entre  Rafe  e  sua  família.  Mas  a  ameaça  que  pendia 
sobre  sua  cabeça  a  deixava  preocupada.  Gostaria  que  algum  membro  da  família 
Locke estivesse do lado dela e raciocinasse com Rafe, se realmente quisesse tirar 
sua liberdade e encerrá‐la em algum lugar como Alder's Nest..., sozinha, era esta a 
ocasião. 
    Demorava menos de um dia para chegar em Norford Hall. Além do palácio 
real,  era,  sem  dúvida,  o  imóvel  maior  que  Ophelia  já  tinha  visto.  Não  só  seu 
tamanho  intimidava,  mas  também  proclamava  de  maneira  desalentadora  que  ali 
vivia  um  duque.  Um  autêntico  duque.  Na  famosa  escada  social  não  havia  mais 
degraus antes da família real. 
    Sadie  se  sentiu  ainda  mais  intimidada  quando  desceram  da  carruagem  e 
ficou olhando a mansão com a boca aberta. Só tinha uma coisa mais que dizer e a 
disse em um sussurro: 
    ‐Espero que saiba o que está fazendo. 
    Ophelia  não  respondeu.  Serventes  de  libré  foram  em  massa  para 
acompanhá‐las  à  mansão,  ocuparam‐se  da  carruagem  e  descarregaram  os  baús. 
Ophelia  tinha  se  vestido  muito  bem  para  a ocasião  e  foi  por  isso,  provavelmente, 
que a receberam sem lhe pedir que se identificasse nem que explicasse a causa de 
sua visita. 
    Evidentemente, mudou de opinião assim que topou com o muro sólido que 
era o mordomo de Norford Hall. Não lhe permitiria seguir adiante sem identificar‐
se. 
    A  Sadie,  entretanto,  lhe  dava  muito  bem  tratar  com  os  empregados,  não  a 
intimidavam  absolutamente  os  membros  do  serviço  que  ostentavam  um  cargo 
maior  que  o  dela  e  evitou  um  interrogatório  prolongado  indo  diretamente  ao 
ponto. 
    ‐Necessitaremos dois quarto ‐ disse ao mordomo‐. Um deles muito amplo, 
nem  lhe  ocorra  oferecer  a  minha  senhora  um  simples  quarto  de  convidados.  É  a 
nova  nora  de  seu  amo,  que  veio  conhecer  a  família  de  seu  marido.  E,  tendo  em 
conta as dimensões desta casa, quero um quarto junto ao seu, obrigada. 
    Sem  mais  dificuldades,  conduziram‐nas  ao  andar  superior.  Se  o  Mordomo 
estivesse  a  seu  serviço,  Ophelia  insistiria  em  que  exigisse  mais  provas  que  ar  de 
suficiência de uma donzela, embora provavelmente as pessoas do campo vivessem 
mais  relaxadas.  E  o  quarto  aonde  a  conduziram  era  tão  grande,  quatro  vezes  o 
tamanho  de  seu  próprio  quarto,  que  se  sentiu  diminuir  quando  entrou.  A 
decoração era bonita, em jade e ouro e tudo muito valioso. Estava acostumada às 
coisas caras e não duvidaria em utilizá‐las. Com quartos desse tamanho, não era de 
admirar que Norford Hall fosse tão grande como um quarteirão inteiro. 
    Depois  de  passar  a  maior  parte  do  dia  viajando  deveria  descansar  um 
pouco,  ao  menos,  até  a  hora  do  jantar,  mas  estava  muito  nervosa  para  sequer 
considerar. Tirando do meio seu primeiro encontro com o duque, caso saísse bem, 
então  poderia  relaxar  e  até  desfrutar  de  sua  estadia.  Por  isso  se  limitou  a  mudar 
seu traje de viagem pelo vestido de dia menos enrugado que encontrou e se dirigiu 
ao andar de baixo para "conhecer" sua nova família. 
Capítulo 47
  
    Era  fácil  perder‐se  em  Norford  Hall,  como  descobriu  Ophelia  enquanto 
vagava  pelo  andar  de  baixo  tentando  orientar‐se.  Não  só  havia  um  vestíbulo 
principal que dava entrada a diferentes aposentos, mas também havia uns quantos 
vestíbulos. Ao final renunciou a descobrir onde estavam os aposentos principais e 
solicitou  uma  audiência  com  o  duque.  Isto,  ao  menos,  foi  fácil,  já  que  havia 
serventes por toda parte. Já tinha visto que tinham mais de um salão. Conduziram‐
na  ao  que  chamavam  salão  azul  e  Ophelia  desejou  que  não  a  fizessem  esperar 
muito. 
    O  salão  azul,  denominado  assim  porque  as  paredes,  os  chãos  e  as  janelas 
eram de cor azul pálida, não estava vazio. Uma mulher de meia idade jazia em um 
dos sofás. Parecia puxar uma sesta e cobria os olhos com uma mão para evitar a luz 
que entrava em torrentes pela longa fila de janelas. Ao som de passos, entretanto, 
incorporou‐se imediatamente, olhou Ophelia e franziu o cenho. 
    ‐Quem é você? Não importa. Isto não pode ser. Parta antes que desça meu 
filho. 
    Certamente,  esse  não  era  um  recebimento  normal.  Ophelia  não  soube  se 
incomodava‐se ou começava a rir. A mãe de Rafe? Juraria que lhe haviam dito que 
sua  mãe  havia  falecido  há  muito  tempo.  Quem,  então?  Era  uma  mulher 
extraordinária, de cabelo loiro e olhos azuis, e se parecia muito com Rafe. Era tão 
brusca  e  autoritária,  entretanto,  seu  comportamento  se  poderia  qualificar  de 
masculino. 
    ‐Perdoe? ‐disse Ophelia. 
    ‐Rupert,  meu  filho  fica  muito  impressionado  com  as  mulheres  bonitas  ‐ 
explicou  a  mulher‐.  Você  é  muito  bonita.  Cairá  babando  a  seus  pés  se  puser  os 
olhos em cima. Deve ir. 
    Ophelia decidiu passar por cima esses comentários e quis começar do zero. 
    ‐É a senhora uma das tias de meu marido? Sou Ophelia. 
    ‐Tanto  faz  quem  seja  moça,  tem  que  desaparecer  e  rápido...,  ah,  não 
importa. Iremos nós. Visitaremos meu irmão em outro momento. 
    Levantou‐se para sair, mas em seguida emitiu um grunhido, porque já era 
muito  tarde.  O  jovem  do  qual  tinha  falado,  seu  filho  entrou  tranquilamente  no 
salão.  Seus  olhos  se  fixaram  em  seguida  em  Ophelia  e  parou  em  seco.  Ficou 
olhando  sem  pestanejar.  Nada  ao  que  ela  não  estivesse  acostumada,  embora  ele 
não ficasse mudo, como outros. 
    ‐Meu Deus ‐ disse‐. Meu Deus. Quando desceu os anjos a terra? 
    Com seu cabelo negro de cachos rebeldes e seus olhos azuis pálidos parecia 
incrivelmente atraente, embora de um modo efeminado. Sua pele era muito suave; 
seu  nariz,  muito  fino.  Usava  rendas  nos  punhos  da  camisa,  uma  quantidade 
excessiva  de  renda  na  gravata  e  um  colete  de  cetim  brilhante  cor  verde  lima. 
Ophelia  surpreendeu‐se  por  não  usar  calças  de  dândi  até  o  joelho.  Tinha  um  ar 
feminino inconfundível, coisa que era um tanto divertida, já que sua mãe era, bem 
masculina. 
    ‐Pode fechar a boca, Rupert ‐ espetou a mulher com desgosto‐. Está casada 
com seu primo Rafe. 
    ‐Ah,  isso  explica.  ‐Não  parecia  muito  decepcionado  por  saber  que  estava 
casada‐. A incomparável Ophelia, sem dúvida. Sei que devia procurá‐la quando me 
falaram  dela  embora,  francamente,  não  acreditei  em  tudo.  Ninguém  pode  ser  tão 
bonita como me diziam que é ela. Maldição, por uma vez eu gostaria não ter atuado 
como  um  sabichão.  Mas  não  importa.  ‐Dirigiu  a  Ophelia  um  sorriso 
verdadeiramente  magnífico‐.  Esqueça‐se  de  meu  primo.  Deve  escapar  comigo. 
Farei‐te feliz até o delírio. 
    ‐Rupert..., criei um idiota ‐ repreendeu‐o sua mãe. 
    Rupert já não prestava a menor atenção a sua mãe. Deu um salto para frente 
e se inclinou para beijar a mão de Ophelia. Negou‐se a soltá‐la, manteve‐a presa a 
sua  boca  sem  afastar  seus  olhos.  Ophelia  temia  que  começasse  a  lhe  chupar  os 
dedos a qualquer momento. 
    Uniu‐se a eles outro homem, um homem de tal estatura, dignidade e porte 
nobre que, até com seu enrugado casaco informal, não oferecia dúvida de que era o 
duque de Norford. Também era, indiscutivelmente, uma versão mais velha de Rafe, 
a mesma estatura, o mesmo cabelo loiro e olhos azuis, só um pouco mais largo de 
cintura. 
    Olhou à mulher carrancuda e disse: 
    ‐Julie, vá para a casa. Excedeste seu tempo de boas‐vindas. 
    ‐Acabo de chegar! 
    ‐Isso mesmo ‐ disse o duque. 
    Não  obstante,  entrou  no  salão  para  abraçá‐la  e  ela  soprou  antes  de  lhe 
devolver o abraço. Tirava sarro? Um duque tirava sarro de sua irmã? 
    A seguir se voltou para Ophelia. 
    ‐Não acredito que deva perguntar quem é. Os rumores de sua beleza não lhe 
fazem justiça. Venha comigo. Procuraremos um lugar onde nos conhecer sem que 
meus sobrinhos babem em cima. 
    ‐Ah, vamos, eu não babo ‐ protestou Rupert com veemência. 
    Mas  o  duque  de  Norford  já  tinha  saído  do  aposento  e  Ophelia  estava 
convencida de que não duvidou nem por um momento de que ela o seguiria. Antes 
tinha  que  liberar  sua  mão  de  Rupert,  que  não  queria  soltá‐la.  Quando  por  fim  o 
conseguiu, saiu correndo do salão. 
    ‐Não  demore  meu  amor.  Esperarei  aqui  mesmo  ‐  disse  Rupert  atrás  dela. 
Logo uivou. Sua mãe deve ter lhe golpeado com algo. 
    Ophelia teve tempo de ver as costas de Preston Locke desaparecer em um 
aposento  ao  outro  extremo  do  vestíbulo.  Recolheu  a  saia  para  correr  atrás  dele, 
escorregou uns centímetros sobre o chão de mármore quando quis  parar e levou 
uns segundos para recuperar a compostura antes de entrar. Não tinha certeza se 
era um escritório ou uma biblioteca. Era uma sala espaçosa. Prateleiras carregadas 
de  livros  cobriam  quase  todas  as  paredes.  Também  havia  uma  escrivaninha,  o 
dobro  de  qualquer  outro  escrivaninha  que  Ophelia  já  tinha  visto,  diante  de  umas 
janelas  de  esquina.  O  aposento  estava  cheio  de  pequenos  grupos  de  assentos  de 
aspecto muito cômodo. 
    ‐Um... escritório muito bonito ‐disse ela enquanto se sentava em um desses 
assentos cômodos, junto ao duque. Alguém tinha deixado uma bandeja de chá na 
mesinha entre ambos. 
    ‐Meu estúdio é utilitário e se encontra a umas portas mais abaixo ‐ corrigiu 
ele‐. Este é o lugar aonde venho para relaxar quando não trato de assuntos sobre a 
propriedade. Importaria de servir o chá? Acabam‐no de trazer. 
    ‐ Claro que sim. 
    O tom de voz do duque não delatava seu estado de ânimo. Ophelia não sabia 
se  estava  contente  por  vê‐la  ou  aborrecido  com  sua  presença  na  casa.  Estava  tão 
nervosa  que  lhe  surpreendeu  que  as  xícaras  não  tremessem  nos  pires  de 
porcelana. Podia sentir o olhar do duque em seu rosto. 
    Finalmente ele disse: 
    ‐Realmente  é  muito  bonita  para  descrevê‐lo  com  palavras.  Sinceramente, 
pensava que as pessoas exageravam como costumam fazer, mas neste caso não. 
    ‐Tomara não fosse assim, Sua Excelência ‐ disse Ophelia. 
    ‐Vamos,  sobram  as  formalidades  entre  família.  Suponho  que  pode  me 
chamar de papai, se desejar. Se isto te incomodar, Preston servirá. É verdade que 
preferiria não ser tão bela? 
    Seus olhares se cruzaram quando Ophelia lhe ofereceu a xícara. 
    ‐É uma bênção e uma desgraça, sobre tudo uma desgraça. 
    ‐Por quê? ‐inquiriu o duque. 
    Ophelia  fez  uma  pausa.  Ninguém  lhe  tinha  feito  esta  pergunta  antes  e  não 
via  razão  para  não  responder  com  toda  sinceridade.  Afinal,  esse  homem  era  seu 
sogro. 
    ‐Basicamente,  porque  impulsionou  meu  pai  a  me  tratar  como  se  fosse  um 
brinquedo de luxo para exibir, atitude que nos inimizou por completo. ‐Ophelia fez 
uma pausa‐. Embora também pela reação das pessoas quando me conhecem. Seu 
sobrinho, por exemplo. 
    O duque riu. 
    ‐Rupert  não  é  um  bom  exemplo,  querida.  O  moço  se  comporta  da  mesma 
maneira com todas as jovens que encontra. Embora compreenda que esses tipos de 
reações sejam um problema para ti. 
    ‐Não  são  somente  os  homens.  Também  me  rodeiam  as  mulheres,  não 
porque lhes pareça simpática mas apenas para relacionarem‐se comigo. Este rosto 
me fez feito muito popular. Também me fez desconfiar das pessoas durante quase 
toda minha vida. Poucas vezes são sinceros quando estão comigo. Enfim, esta é a 
desgraça. 
    O duque a olhou estranhamente por um momento e disse: 
    ‐Diria que qualquer mulher tão incrivelmente bonita como você teria vivido 
uma vida de conto de fadas. É estranho que tenha ocorrido justamente o contrário. 
    Ophelia encolheu os ombros. 
    ‐Já não me sinto tão amargurada por isso, e isso graças a seu filho. Ele me 
ajudou  a  ver  as  coisas  de  outro  ponto  de  vista.  Voltar  a  ser  capaz  de  confiar 
significou  uma  mudança  assombrosa  em  minha  vida,  porque  eu  não  tinha 
confiança. 
    ‐Sim,  ele  mencionou...  que  trabalhou  contigo.  ‐A  pausa  indicou  que  Rafe 
tinha  explicado  a  seu  pai  muito  a  respeito  de  sua  relação.  Inclusive  poderia  ter 
mencionado que eram íntimos. Pai e filho podiam ter a confiança necessária para 
falar destas coisas. Ophelia sentiu que ruborizava quando o duque acrescentou‐: A 
propósito,  onde  está  o  noivo?  Supunha  que  ele  te  acompanharia  nesta  primeira 
visita. 
  Ela vacilou só um instante antes de responder: 
    ‐Ele não sabe que vim. Rafe e eu não nos falamos..., nem vivemos juntos. 
    Suas palavras provocaram imediatamente uma expressão de desaprovação. 
  ‐Nega‐se a viver com ele? 
    ‐Justamente  o  contrário.  Depois  de  nos  casar  ele  me  devolveu  à  casa  de 
meus pais. 
    Preston se levantou como impulsionado por mola, o rosto vermelho. 
    ‐Que me crucifiquem! 
    Não  a  surpreendeu  muito  que  se  ofendesse  por  ela  embora,  talvez,  só  lhe 
desgostava  a  ideia  de  que  seu  filho  fizesse  algo  tão  extravagante.  Curiosamente, 
Ophelia quis defender Rafe. 
  ‐Não queria casar‐se comigo. Está muito zangado, porque se viu obrigado a 
fazê‐lo. 
    O duque necessitou um momento para assimilar a informação e logo voltou 
a sentar‐se com um suspiro. 
    ‐Temo que a culpa é minha. Praticamente lhe ordenei que fizesse o correto 
contigo.  Os rumores,  já  sabe.  Não podia  permitir  que  se descontrolassem.  Seriam 
muito prejudiciais para sua reputação, se não estivesse prometida com o menino. 
Embora, certamente, não esperava que se casassem tão rápido. 
    ‐Ele  tampouco  ‐  explicou  Ophelia‐.  De  fato,  não  esperava  que  acontecesse 
absolutamente. Tinha a intenção de dissipar os rumores e evitar o matrimônio por 
completo. Mas eu me zanguei muito, perdi os estribos e praticamente o obriguei a 
atuar com precipitação, de modo que não, a culpa não foi sua absolutamente. 
    ‐Juraria que Rafe me disse que tinha dominado seu temperamento. 
    Ophelia apertou os lábios. 
    ‐De  verdade?  Pois  sim  ‐  admitiu‐,  é  verdade  em  quase  todos  os  casos.  Até 
posso  terminar  uma  conversa  com  meu  pai  sem  recorrer  aos  gritos.  A  única 
exceção  é  Rafe.  Quando  se  trata  dele  não  posso  controlar  meu  temperamento 
absolutamente. 
    ‐Já entendo ‐ disse o duque com ar pensativo. 
    Tomara ela também o entendesse. 
    ‐Em  qualquer  caso,  prefiro  não  viver  sozinha  na  casa  que  comprou  para 
mim. Estou convencida de que é uma casa preciosa e que em último caso, não me 
importaria viver ali. De momento, entretanto, enquanto meu estado de ânimo siga 
alterado, preferiria viver em companhia de outras pessoas. 
    ‐É  mais  que  bem‐vinda,  se  quiser  viver  aqui  ‐  disse  o  duque  com  toda 
sinceridade, conforme parecia. 
    ‐Agradeço,  mas  não  vim  por  isso.  Minha  donzela  Sadie  acredita  que  estou 
grávida. Eu não...  
    ‐De  verdade?  ‐interrompeu  ele  com  um  sorriso  radiante‐  É  uma  notícia 
estupenda!  De  modo  que  meu  filho  não  te  abandonou  imediatamente  depois  do 
casamento. 
    ‐Ah,  sim.  Embora  o  tempo  que  passamos  juntos  em  Alder´s  Nest  foi... 
produtivo, em mais de um sentido. – Alegrou‐se ao ver na expressão do duque uma 
mescla  de  compreensão  e  desaprovação,  que  não  precisava  dar  mais  detalhes‐. 
Como dizia, eu não estou de acordo com Sadie. É muito cedo para estar segura se 
por  acaso  esteja  certa,  entretanto,  pareceu‐me  que  é  um  bom  momento  para 
conhecer  a  família  de  Rafe.  Francamente,  queria  me  assegurar  de  que  não  são 
todos vocês tão exasperantes como ele. 
    O  duque  de  Norford  não  se  sentiu  ofendido  com  o  comentário.  De  fato, 
começou a rir. 
Capítulo 48
  
    A calma que precede à tempestade deixava louco Raphael. Já esperava que 
sua  "mulher"  fizesse  algo  extravagante  para  em  enfurecê‐lo.  Ela  tinha  prometido 
que  se  vingaria.  Tinha  jurado  que  o  faria  sofrer.  Mantinha‐se  afastado  dela  por 
pura  casualidade,  para  evitar  que  o  obrigasse  a  arruinar  sua  própria  vida  ainda 
mais. 
    Sim  que  a  tinha  procurado  embora  discretamente.  Assistiu  a  várias  festas 
esperando encontrá‐la em alguma ou em todas elas. Mas Ophelia deve ter assistido 
a outras festas ou estava muito ocupada mudando‐se para nova casa. 
    Logo lhe ocorreu que talvez evitasse aparecer em público para não ter que 
responder  às  perguntas  sobre  ambos.  Uma  garota  inteligente.  Seria  muito 
embaraçoso  ter  que  admitir  que  seu  marido  não  queria  ser  seu  marido.  É  obvio, 
não  podia  imaginá‐la  admitindo  isso  em  nenhuma  circunstância.  Não,  era  mais 
provável que inventasse uma história completamente falsa, que deixaria a ele em 
mau lugar. 
    Mas não tinha ouvido rumores neste sentido, nenhum rumor referente ao 
seu matrimônio. Tinham‐no bombardeado com perguntas. Por sorte, lhe dava bem 
oferecer respostas que não revelavam nenhuma informação pertinente. E sua irmã, 
a quem também assediavam em busca de detalhes suculentos, estava de acordo em 
continuar afirmando que estava zangada com ele. 
    Enquanto jantavam juntos na noite passada antes de Amanda ir a um baile, 
a jovem lhe disse: 
    ‐Acreditam  que  ainda  não  nos  falamos.  É  muitíssimo  mais  fácil  que 
responder "não sei". 
    Finalmente,  Raphael  deixou  de  se  perguntar  o  que  estaria  tramando 
Ophelia  e,  na  última  hora  da  tarde,  decidiu  averiguá‐lo  por  si  mesmo.  Já  tinha 
contratado  o  pessoal  para  a  casa  que  lhe  tinha  comprado.  Estava  plenamente 
mobiliada,  com  bom  gosto,  tudo  em  condições  excelentes,  que  foi  o  que  lhe 
convenceu a adquiri‐la. Depois de dizer a Ophelia que lhe comprou uma casa não 
queria que tivesse que esperar a chegada dos móveis para instalar‐se nela. 
    Não  lhe  surpreenderia  que  Ophelia  tivesse  despedido  o  pessoal  escolhido 
por ele para substituí‐lo com serventes contratados por ela, mas ainda não o tinha 
feito. Collins, o mordomo que lhe abriu a porta e o deixou entrar, era o mesmo que 
tinha enviado Raphael. 
    ‐Onde está ela? ‐perguntou ao senhor Collins. 
    ‐A quem se refere milorde? 
    ‐A minha esposa, é obvio ‐ disse Raphael enquanto lhe entregava seu chapéu 
e o casaco. Já recordava a última ocasião em que Ophelia o deixou esperando. Mais 
lhe valia ficar a vontade. 
    ‐Lady  Locke  ainda  não  veio  morar  na  residência  ‐  informou‐lhe  o  senhor 
Collins, aparentemente incômodo de ter que lhe comunicar a notícia. 
    Isso ele não esperava. 
    ‐Faz quase uma semana que lhe disse que a casa estava pronta para recebê‐
la. Enviou, ao menos, seus pertences? 
    ‐Ainda não vimos à senhora. 
    Raphael  não  fez  mais perguntas. Agarrou  seu  casaco,  esqueceu  o  chapéu  e 
em  questão  de  segundos  já  estava  a  caminho  da  residência  dos  Reid.  Ali  lhe 
disseram  onde  estava  Ophelia  e  que  partiu  há  dois  dias!  E  foi  então  quando 
Raphael entrou em pânico. 
    Os problemas que ela poderia causar em sua família seriam eternos... para 
ele. Nem por um minuto pensou que Ophelia fosse a Norford Hall  para pôr a sua 
família contra ele. Levava dois dias fazendo‐o. Voltava a ser a Ophelia que ele tinha 
conhecido  a  qual  não  gostava  a  que  era  capaz  de  propagar  falsos  rumores  e 
respaldá‐los com mentiras, a que não lhe importava nada mais que seus próprios 
fins  egoístas.  Dava‐lhe  igual  quem  sofresse  enquanto  pudesse  conseguir  seu 
propósito, e seu propósito era fazer mal a ele. 
    Chegou a Norford Hall umas horas mais tarde. A essa hora da  noite a casa 
estava tranquila e a maioria das luzes, apagadas. O servente que guardava a porta 
principal  pelas  noites  estava  dormindo  em  uma  cadeira  junto  à  entrada  e  não 
despertou  quando  Raphael  entrou  na  casa  e  subiu  a  seu  quarto  para  dormir  um 
pouco antes de enfrentar Ophelia pela manhã. 
    Ela  dormia  em  sua  cama.  Raphael  não  esperava  que  a  alojassem  em  seu 
quarto. Era de se esperar, afinal, era sua esposa. 
    Devia sair e procurar outro quarto onde passar a noite. A maioria estavam 
vazios  naquela  ala  da  mansão.  Depois  de  viajar  a  toda  velocidade  até  Norford  se 
sentia muito cansado para confrontar Ophelia essa noite. Pela manhã, refrescado e 
com a mente limpa, a obrigaria revelar o que estava tramando. Entretanto, não fez 
movimento algum para voltar sobre seus passos. 
    Ela  dormia  em  sua  cama.  Sua  visão  o  mantinha  paralisado  em  seu  lugar, 
junto à cama, contemplando a figura adormecida. 
    O cabelo, espalhado pelo travesseiro, reluzia esbranquiçado à luz da lua. Ela 
não tinha fechado as cortinas. Era uma noite clara, a lua brilhava, por isso mesmo 
pôde viajar tão velozmente. Era muito tarde. Certamente, Ophelia tinha se deitado 
fazia horas. 
    Dormia  em  sua  cama.  E  era  sua  mulher.  Nem  cem  cavalos  selvagens 
poderiam arrastá‐lo dali. 
    Estava costumava dormir profundamente? Perceberia se entrasse na cama 
com  ela?  Rapidamente  tirou  a  roupa  e  fez  precisamente  isso.  Ophelia  não 
despertou. Não se moveu nem um centímetro. E ele estava cansado. Tinha sido um 
dia  tenso,  cheio  de  surpresas  desagradáveis.  Deveria  dormir  um  pouco.  Sem 
dúvida, ela despertaria assim que o visse pela manhã. Muito cedo para confrontar 
uma megera raivosa. 
    Nesses  momentos,  entretanto,  a  megera  não  estava  ali.  E  não  havia  como 
dormir com seu corpo suave e quente a poucos centímetros do dele. O sexo já tinha 
conseguido  domá‐la  em  outra  ocasião.  Ou  também  isso  fosse  mentira,  fazia  parte 
do  truque  para  lhe  fazer  acreditar  que  tinha  conseguido  muda‐la?  Só  havia  uma 
forma de averiguar... 
Capítulo 49
  
    Ophelia só demorou um instante para descobrir por que se sentia tão bem. 
E  só  demorou  um  instante  mais  para  decidir  que  não  afastaria  Rafe  do  caminho 
que parecia decidido a empreender. Não era estúpida. Não iria se negar ao prazer 
delicioso  que  ele  era  capaz  de  lhe  proporcionar  só  porque  não  se  dissipava  a  ira 
que tinha desatado nela. 
    Instintivamente, entretanto, sabia que fazer amor com ele não aliviaria sua 
fúria. Provavelmente a esqueceria por uns momentos, mas isso seria tudo, porque 
ele  a  tinha traído, talvez  não  no  sentido  típico  da  palavra,  mas  a  sensação  era de 
traição. De ter o coração partido. Sentiu e ainda sentia todos os sintomas, feito que 
mais ou menos respondia a todas as perguntas que ela queria evitar. Apaixonou‐se 
por  esse  homem.  Por  isso  mesmo,  fazer  amor  com  ele  não  curaria  seu  coração 
partido.  Embora,  certamente,  era  tão  gratificante  comprovar  que  ainda  não  lhe 
podia resistir. 
    A  camisola  de  linho  que,  como  sempre,  tinha  subido  por  cima  dos  joelhos 
quando  entrou  entre  os  lençóis,  não  era  nenhum  obstáculo  para  Raphael  e  já  se 
encontrava por cima de seus quadris. Depois de lhe acariciar as coxas, ele deslizou 
um  dedo  dentro  dela,  apenas  o  suficiente  para  excitar  todos  os  nervos  de  seu 
corpo. A parte superior da camisola, solta e cômoda quando ela  se deitou, estava 
agora completamente aberta, lhe oferecendo pleno acesso aos seus seios. Raphael 
chupava um deles, sugando com força e outra vez com ternura. 
    Ophelia não resistia às ardentes sensações sexuais que ele despertava nela, 
justamente  o  contrário.  Desfrutava  de  cada  estremecimento  luxurioso,  lutando 
para  controlar  a  respiração  e  conter  os  suspiros  de  prazer.  Não  fingiu  continuar 
dormir.  Simplesmente,  não  queria  falar  com  ele,  confrontá‐lo  com  as  numerosas 
perguntas furiosas que queria lhe fazer nem... distraí‐lo do que estava fazendo. 
    Observava‐o.  Ver  o  imenso  prazer  que  obtinha  do  simples  feito  de  chupar 
um de seus mamilos a embriagava. Passou brandamente os dedos entre seu cabelo, 
mas parou ao perceber o que tinha feito. Não pretendia lhe dar uma prova tão clara 
de  estar  plenamente  consciente  do  que  acontecia..., e  de  desfrutar disso.  Fez  sem 
pensar. Raphael a olhou diretamente nos olhos. 
    "Não diga nada, nenhuma só palavra", parecia lhe advertir seu olhar. 
    Ela sabia que, se falasse, não diria nada agradável. Se falasse ele, romperia o 
transe sensual em que a tinha introduzido. 
    Raphael incorporou‐se em um cotovelo e continuou olhando‐a. O momento 
pareceu eterno. Também pareceu que ele se debatia entre dizer algo ou não. 
    Ophelia já não pôde guardar silêncio. 
    ‐Evita se deitar comigo deliberadamente. Por que está aqui agora? 
    ‐Esta cama é minha ‐ respondeu ele brandamente‐. Também a mulher que 
jaz nela. A muito sobre o que falar, mas este não é o momento. 
    Beijou‐a.  E  ai,  que  beijo!  Profundo  e  doce  e  destinado...  a  fazer  mudar  de 
opinião. Se tivesse reservas quanto a fazer amor com ele. Não tinha mais nenhuma. 
Se  o  beijo  não  era  suficiente  para  convencê‐la,  havia  a  chamado  de  "sua  mulher" 
puxou  os  fios  de  seu  coração  da  forma  mais  persuasiva.  Ophelia  participou 
plenamente de sua exploração, atraiu a língua dele em sua boca e afundou a sua na 
dele. Rodeou o pescoço com os braços e o abraçou com força, tentando retê‐lo ali..., 
para sempre. 
    Então  percebeu.  O  dedo  de  Raphael  ainda  estava  dentro  dela.  E  já  não 
estava  quieto.  Introduzia‐o  mais  profundamente,  penetrava‐a  sem  cessar  com 
movimentos  sucessivos,  mudava  de  ritmo,  primeiro  esquisitamente  lento,  logo 
umas  penetrações  rápidas,  depois  lento  outra  vez.  Seus  nódulos,  seu  polegar, 
roçavam a pequena flor sensível entre suas pernas. Ophelia conteve o fôlego e seu 
corpo  arqueou  surpreso.  Ele  continuou  acariciando‐a,  uma  e  outra  vez,  enquanto 
ela se retorcia entre os lençóis, gemendo de prazer. Enquanto isso a beijava cada 
vez com mais força. 
    O  quarto  estava  muito  cômodo  com  o  pequeno  fogo  na  lareira, 
suficientemente  fresco  para  que  as  pessoas  desejassem  aconchegar‐se  sob  as 
mantas. Agora fazia muito calor. O tecido da camisola lhe irritava a pele nos poucos 
pontos onde o linho ainda a roçava. Na realidade, seu corpo inteiro estava sensível 
ao menor contato! 
    Era ele. Sabia que era ele e conhecia a reação de seu corpo  a sua cercania. 
Desejava‐o tanto...! Pensava que nunca mais poderia te‐lo entre seus braços desse 
modo. Pensava que jamais voltaria a sentir a beleza de seu amor. Agora que estava 
acontecendo, seu corpo queria lançar‐se para frente, alcançar o clímax e sentir uma 
satisfação  completa  enquanto  ela  queria  avançar  lentamente,  saborear  cada 
minuto  enquanto  podia,  e  esses  dois  impulsos  tão  completamente  diferentes  não 
eram compatíveis. 
    Raphael  tinha  atirado as  mantas no  chão,  ele  também devia  sentir  o  calor. 
Ophelia  lhe  acariciou  os  largos  ombros  e  as  costas;  sua  pele  ardia  ao  contato.  A 
respiração de Raphael se tornou ruidosa. Ela começou a conter a respiração cada 
vez  que  lhe  parecia  aproximar‐se  do  orgasmo,  mas  logo  o  prazer  insuportável 
diminuía e Ophelia voltava a respirar, só para experimentar um  novo incremento 
das sensações. Cada nervo de seu corpo reclamava o orgasmo a gritos. Se tivesse 
força suficiente, obrigaria Rafe a deitar‐se de costas e tomaria as rédeas. 
    A ideia quase a fez rir. Aliviou um pouco a tensão, mas não o suficiente para 
poder relaxar. Então, como se ele pudesse ler seus pensamentos, colocou seu corpo 
entre os quadris dela e a penetrou com um movimento suave e profundo que a fez 
enlouquecer. 
    ‐Deus, isto sim que é voltar para casa ‐ sussurrou Raphael em seu ouvido. 
    Ophelia explodiu de prazer quase imediatamente. Agarrou‐se a ele como se 
fosse sua vida nisso. Quando as névoas de sua mente se dissiparam um pouco os 
ternos  sentimentos  que  guardava  por  ele  retornaram  de  forma  tão  abrupta  que 
quase começou a chorar. 
    Sim, amava‐o. E o odiava. Amanhã seria um bom dia para decidir o que fazer 
a  respeito.  Essa  noite,  nesses  momentos,  Raphael  puxava  cuidadosamente  sua 
camisola para lhe demonstrar de novo o que uma vez lhe disse: como seria estar 
com ele na cama, onde poderia dedicar o tempo necessário a ela e a seu prazer. 
Capítulo 50
  
    Que covarde era! Ophelia não voltou a dormir essa noite e, por desgraça, a 
vigília  a  envolveu  numa  introspecção  profunda  enquanto  jazia  na  cama  junto  a 
Rafe. Verteu algumas lágrimas caladas e, no final, decidiu não  estragar a formosa 
noite com a secura que, sem dúvida, reapareceria pela manhã. Antes da alvorada, 
enquanto seu marido continuava dormindo profundamente, saiu às escondidas do 
quarto  vestida  para  viajar,  despertou  Sadie  e  ordenou  que  lhe  levassem  a 
carruagem à porta da casa, sem despertar a muitos membros do serviço. 
    Deixou uma nota para Preston Locke, lhe agradecendo sua hospitalidade e 
lhe rogando que não repetisse a conversa que mantiveram a seu filho porque, de 
ser certo que estava grávida, preferia ser ela quem o anunciasse. Ainda acreditava 
que não estava grávida. As poucas horas de náuseas que tinha sofrido coincidiam 
com seu grande aborrecimento, razão mais que suficiente para deixa‐la doente. 
    Bastou dizer a Sadie que Rafe tinha chegado para que a donzela não fizesse 
perguntas nem se queixasse de sua partida enquanto ainda era de noite. Depois de 
dar  dois  passos  para  a  carruagem  que  as  esperava,  entretanto,  Ophelia  parou  e 
disse a Sadie: 
    ‐Deixei algo. Só será um momento. ‐E entrou correndo em Norford Hall. 
    Rafe continuava dormindo, e obvio a cabeça meio apoiada no travesseiro e 
o braço estendido sobre o lado da cama dela, como se ainda a estivesse abraçando. 
Ophelia se agachou e lhe deu um beijo na testa. Não podia despertá‐lo. Escaparia 
toda  a  dor,  dor  que  já  corria  por  suas  bochechas.  Embora  tampouco  se  fosse  lhe 
dizer nada. À luz tênue do fogo, escreveu outra nota e a deixou a um servente antes 
de reunir‐se com Sadie na carruagem. 
    Com  a  esperança  de  poder  controlar  melhor  suas  emoções,  recuperou  o 
sono perdido dormindo durante quase toda a viagem de volta. 
    Chegou  a  Londres  justo  antes  do meio‐dia,  a  tempo  para  almoçar  com  sua 
mãe. 
    ‐Foi  uma  viagem  curta  ‐  disse  ela  enquanto  ordenava  ao  pessoal  que 
trouxessem outro prato para Ophelia‐. Não lhe esperávamos tão cedo. Não foi bem? 
    ‐Foi muito bem, mamãe. Os Locke são muito agradáveis. E a avó de Rafe, a 
duquesa  viúva,  é  uma  anciã  encantadora.  Enquanto  estive  ali  me  confundia  com 
sua neta Amanda, a quem adora, assim que nos demos esplendidamente bem. 
    ‐Por que não ficou mais tempo, então? 
    ‐Porque chegou Rafe. 
    Esta  simples  frase  dizia  muito  e  não  precisava  de  mais  explicações,  ao 
menos, não para Mary. 
    ‐Temia que passaria isto. O mordomo me disse que veio te buscar aqui. O 
senhor Nates não sabia que não devia revelar seu paradeiro. 
    Ophelia encolheu os ombros sem ser consciente de seu aspecto decaído. 
    ‐Não  importa.  Conheci  alguns  dos  Locke  em  um  ambiente  muito  cordial 
antes que ele chegasse. Simplesmente, não queria que fossem testemunhas de uma 
de nossas batalhas verbais. Prefiro que não saibam com quanta facilidade perco os 
estribos..., quando estou com ele. 
    Mary sugeriu bruscamente: 
    ‐Amanhã  iremos  às  compras,  depois  que  descansar  da  viagem.  Assim  se 
esquecerá um pouco de todo este assunto desagradável. 
    Ophelia  quis  aceitar.  Estava  aberta  a  qualquer  sugestão  que  pudesse 
apaziguar seus pensamentos, embora fosse brevemente. Então percebeu o aroma 
de  peixe  cozido  e  seu  estômago  se  revolveu.  Gostava  muito  de  peixe!  E  nesse 
momento não estava gostando nada! 
    ‐Vamos esta tarde ‐ disse a sua mãe rapidamente enquanto se  levantava e 
se afastava do prato que acabavam de lhe servir‐. Não estou cansada e não tenho 
fome. Trocarei de roupa enquanto termina de comer. 
    Não  esperou  a  conformidade  de  Mary.  Saiu  correndo  da  sala  de  jantar, 
fugindo o mais longe possível desse aroma que lhe dava náuseas. 
****** 
    Raphael despertou calmo, com o corpo tão descansado, que lhe pareceu não 
ter dormido tão bem em meses. Antes de levantar‐se da cama se inclinou e cheirou 
o  travesseiro  vazio  junto  ao  seu,  sorrindo  ao  perceber  os  restos  do  perfume  de 
Ophelia. Não tinha sido um sonho. Ela não estava no quarto, mas sua roupa estava 
esparramada por toda parte. 
    Não  podia  continuar  zangada  com  ele.  Foi  seu  primeiro  pensamento 
enquanto se levantava da cama. Não podia fazer amor com ele dessa maneira para 
logo revolver‐se a querer lhe fazer mal. Algo deve ter acontecido ali antes de sua 
chegada para extinguir sua ira. 
    Certamente  devia  agradecer  a  seu  pai.  Preston  tinha  uma  influência 
calmante nos amigos e os inimigos. Se dissesse que alguém tinha nascido para ser 
diplomático,  todos  os  dedos  apontariam  a  Preston  Locke.  Não  discutia  para 
defender seus pontos de vista, expô‐los de forma razoável e, se demonstrava que 
estava equivocado, ria e seguia adiante. A única exceção era sua relação com suas 
irmãs. Quando se tratava delas, desfrutava puxando o cabelo. 
    Raphael se vestiu rapidamente e foi em busca de sua mulher e de seu pai, 
por esta ordem. Tendo em conta a hora precoce, olhou primeiro na sala de café da 
manhã. Ophelia não estava ali embora Preston, sim. 
    ‐Ainda  sabe  fazer  milagres  ‐ disse  Raphael  alegremente ao  entrar na  sala‐. 
Apagar as velas. 
    ‐Esta semana não carrego nada de luz e você está muito exuberante para a 
hora que é. Sente‐se e se explique. 
    ‐Estou falando de Ophelia, claro. ‐Raphael agradeceu ao servente que trouxe 
algumas  bandejas  mais  para  que  ele  pudesse  escolher‐.  Como  conseguiu  que 
acalmasse seu aborrecimento? 
    Preston balançou a cabeça. 
    ‐Não estava zangada quando veio e não havia nada para acalmar. 
    ‐Não tentou semear joio enquanto esteve aqui? Não me jogou toda a culpa? 
    ‐  Bem  ao  contrario,  pareceu‐me  encantadora  ‐  disse  Preston‐,  sincera  e 
disposta  a  aceitar  a  responsabilidade  de  seus  próprios  enganos.  Até  reconheceu 
que te obrigou a se casar com ela por despeito, mas minha pergunta é: por que o 
permitiu? Podia anunciar seu compromisso formalmente e celebrar um casamento 
apropriado  em  um  tempo  razoável.  Não  acredita  que  ela  tivesse  preferido  uma 
bonita cerimônia, com a presença de suas amigas e sua família? E com presença de 
todos seus amigos e sua família? 
    Raphael  ruborizou  um  pouco  com  a  alusão  e  o  tom  de  alerta  de  seu  pai. 
Sabia que deveria prestar contas por excluir a sua família inteira do casamento. Se 
tivesse  sido  uma  cerimônia  alegre,  sentiria‐se  realmente  culpado,  mas  não  foi,  e 
esta confusão já era muito desagradável. 
    ‐Serei sincero, pai. Se não fosse assim, não teria acontecido nunca. 
    Preston arqueou uma sobrancelha em sinal de desaprovação. 
    ‐Apesar dos rumores? Está me dizendo que a teria jogado aos lobos? 
    ‐Claro que não ‐ afirmou Raphael‐. Teria dissipado os rumores. Só nos viram 
dando um beijo! 
    ‐Foi  muito  mais  que  isso.  Eles  viram  vocês  partirem  juntos  e  desaparecer 
durante quase uma semana. 
    ‐Visitando  a  família  ‐  corrigiu  Raphael‐.  Você  mesmo  me  disse  em  minha 
visita anterior que seu pai alardeou disso. 
    ‐Sim, alardeou que havia trazido sua filha aqui, a Norford Hall. O que não te 
disse é que durante aquela semana veio algumas visita perguntando por ti e lhes 
dissemos  que  não  estava  aqui.  Não  faz  falta  ser  um  gênio  para  somar  dois  mais 
dois,  Rafe.  E,  posto  que  já  tivemos  esta  mesma  conversa,  me  permita  que  te  faça 
uma pergunta. Se não existissem rumores, teria a colocado de lado para permitir 
que se casasse com outro? Lembre‐se que já a conheço. 
    ‐Esqueça por um momento que é a mulher mais bonita que viu. O que passa 
que é que por dentro é um bloco de gelo, uma mulher maliciosa, vingativa...? 
    ‐Estamos falando da mesma mulher? ‐perguntou Preston. 
    Raphael suspirou. 
    ‐De  acordo,  para  ser  sincero,  tinha  me  arrependido  de  abandoná‐la  em 
Londres.  Cheguei  a  sentir  afeto  por  ela  durante  o  breve  tempo  que  passamos 
juntos, muito afeto, provavelmente. Acreditei que tinha mudado, que a megera se 
foi para sempre. Até poderia ter lhe proposto matrimônio..., se continuasse assim. 
    ‐Não vi amostras de malícia. 
    ‐Porque  sabe  muito  bem  como  controlar  seu  temperamento  e  sua  língua 
viperina  quando  lhe  convém.  Convenceu‐me  totalmente  do  desaparecimento  da 
megera. Acreditei realmente havê‐la ajudado a mudar para melhor. Ela, entretanto, 
admitiu  que  tudo  tinha  sido  um  truque,  uma  mentira  para  que  a  devolvesse  a 
Londres o quanto antes. 
    ‐Está seguro disso? ‐perguntou o duque. 
    ‐O que quer dizer? 
    ‐Provavelmente  não  fosse  mentira  que  mudou.  Provavelmente  a  mentira 
seja o contrário. 
   

 
Capítulo 51
  
    Encantadora?  Sincera?  Disposta  a  aceitar  a responsabilidade  de  seus  atos? 
Esta era a Ophelia nova, não a anterior, com a qual Raphael acreditava tratar desde 
que ela descobriu a inoportuna aposta. Era ele o único que podia ver a megera? 
    Não  pensaria  mais  nisso.  Simplesmente,  a  enfrentaria.  Em  qualquer  caso, 
tinha‐o enganado por completo. Estava farto de ser enganado. Embora, para isso, 
teria que voltar para Londres. 
    Tinha  abandonado  Norford  Hall  antes  que  Raphael  despertasse, 
furtivamente, conforme parecia, já que nem sequer tinha feito às malas. As fazendo 
o teria despertado e, evidentemente, não queria falar do ocorrido na noite passada. 
Ou provavelmente sim... 
    O servente entregou a nota de Ophelia no momento em que se dispunha a 
partir.  Uma  nota  inesperada,  que  avivava  um  pouco  suas  esperanças.  "Ontem  à 
noite  não  foi  uma  reconciliação,  só  uma  trégua.  Se  deseja  uma  verdadeira 
reconciliação, deverá me explicar por que brincou com minha vida por um capricho." 
    É que não tinha escutado nenhuma palavra? Ou estava muito zangada para 
ouvi‐lo  sequer?  Falariam  do  tema,  jurou  Raphael,  deste  tema  e  de  muitos  mais 
assim que chegasse à cidade. 
    De volta a Londres foi diretamente à casa de Ophelia, que tinha saído há tão 
somente trinta minutos. Informaram‐lhe que tinha ido às compras com sua mãe na 
Rua  Bond.  Não,  não  disseram  que  lojas  visitariam.  Deveria  esperar  até  que 
voltassem  para  casa.  Era  altamente  improvável  que  a  encontrasse  na  rua  mais 
concorrida e  ao  meio  dia,  quando  mais  congestionada  estava. Teria  que  procurar 
em todas as lojas! 
***** 
    Ophelia  nunca  se  havia  sentido  tão  distraída.  Não  escutava  nenhuma 
palavra  do  que  sua  mãe  lhe  dizia  enquanto  Mary  a  levava  de  uma  loja  à  outra. 
Quando  chegava  o  momento  de  decidir  se  compraria  algo  conseguia  proferir  um 
"sim" ou um "não" sem ter a menor ideia do que se tratava. 
    Ia ter um bebê. Já não podia negar, não quando um de seus pratos favoritos, 
o peixe cozido, tinha‐lhe dado náuseas enquanto o cheirava. Assim que se afastou 
daquele aroma se voltou a sentir bem! 
    Ia ter um bebê. Uma única vez com um resultado tão milagroso. Um bebê. E 
que estranho que a ideia a enchesse de gozo. Que tola tinha sido tentando negá‐lo. 
E que assombroso sentir‐se tomada por instintos maternais. Criaria seu filho como 
deveria ser. Sabia como não deveria criá‐lo, fazer o correto seria simples. Amaria, 
cuidaria, protegeria. Não aceitaria nenhuma decisão relacionada com a criança que 
não lhe parecesse bem. Queria a sua mãe, mas sabia que Mary tinha cedido muitas 
vezes  à  vontade  de  Sherman.  Ophelia  não  faria  o  mesmo.  Lutaria  com  unhas  e 
dentes. 
    Certamente deveria dizer a Rafe embora não tinha pressa em fazê‐lo. Tudo 
ao seu devido tempo. Antes queria saborear a ideia a sós. Rafe tinha decidido não 
viver com ela, de modo que não tinha direito, ou seja, imediatamente. Se fosse por 
ela,  podia  perder  o  nascimento  de  seu  filho...,  não,  agora  falava  a  ira.  Teria  que 
livrar‐se da ira antes de dar a luz. Nada de gritos perto de seu bebê. 
    ‐Pheli? Pheli está bem? 
    Ophelia  voltou  ao  presente  e  viu  que  sua  mãe  acabava  de  entrar  em  uma 
loja  com  uma  pequena  cristaleira  cheia  de  cilindros  de  renda.  Voltou  para  ver 
quem  tinha  lhe  chamado  e  ficou  completamente  surpresa  ao  descobrir  Mavis 
Newbolt  a  seu  lado,  as  mãos  metidas  em  seu  manguito  de  pele.  Parecia 
preocupada.  Mavis?  Sua  inimizade  por  excelência  preocupada  com  ela?  Não  era 
muito provável. 
    O que havia dito Mavis? Ah, sim. 
    ‐Estou  bem  ‐  respondeu  Ophelia  com  cautela  e  em  tom  neutro.  Não  via 
Mavis  desde  as  festas  em  Summers  Glade  e  a  brigas  entre  elas  não  foi  nada 
agradável. ‐ Por que pergunta? 
    Mavis encolheu os ombros. 
    ‐Parecia estar em outro mundo. 
    ‐Sério? Deixei‐me levar por meus pensamentos. 
    ‐Passava com a carruagem e te vi. Tinha que parar. 
    A  Ophelia  a  invadiu  uma  sensação  instantânea  de  medo.  Acaso  fosse  ter 
outra briga? 
    ‐Por quê? ‐perguntou com voz cortante. 
    Curiosamente, de repente Mavis pareceu incômoda. 
    ‐Faz dias que queria passar por sua casa a te fazer uma visita. Gostaria de 
dar um passeio para poder conversar? Minha carruagem está na outra calçada. 
    ‐Conversar? Que mais podemos nos dizer que não tenhamos dito já? 
    Mavis ficou de lado para deixar passar a um casal que caminhava de braço 
dado.  A  calçada  estava  quase  tão  lotada  de  pedestres  como  o  meio‐fio  de 
carruagens e carros. 
    ‐Queria te felicitar por seu matrimônio ‐ disse Mavis. 
    ‐Obrigada. 
    ‐E se desejar... 
    ‐Não ‐ interpôs Ophelia bruscamente e, imediatamente, lamentou o tom de 
sua  voz.  Rapidamente  controlou  a  ira  que  crescia  nela.  Soube  que  era  capaz  de 
controlá‐la e se sentiu orgulhosa disso. Além de seu pai, Mavis era a única pessoa 
que conseguia tirar o pior de seu caráter, mas Ophelia conseguiu dominar também 
a  amargura.  Terminou  a  frase  em  um  tom  muito  mais  tranquilo‐.  Não  mais 
comentários ferinos. 
    ‐Não ia a... 
    ‐Por favor, Mavis, não quero mais brigas. 
    ‐Eu tampouco, Pheli. 
    Ophelia  olhou  pensativa  a  sua  ex‐amiga.  Não  podia  dar  crédito  a  sua 
afirmação. Mavis não pôde vingar‐se, ao menos, não tanto como desejou. O único 
que tinha conseguido em Summers Glade foi pôr Ophelia em um lugar incômodo, 
ou  isso  pensava.  Mavis  não  sabia  quanto  a  tinha  ferido  nem  que  a  tinha  feito 
chorar. E nunca saberia. 
    ‐Vejo em sua expressão que não acredita e, dadas às circunstâncias, não te 
culpo. ‐Mavis soava e parecia arrependida‐. Odiei‐te muito, com um ódio que não 
merecia.  Pensava  que  mentia  a  respeito  de  Lawrence.  Sabia  que  então  mentia 
sempre. Nunca me incomodou enquanto fomos amigas, porque se tratava de coisas 
sem importância. Simplesmente, passava por cima..., até que quis me convencer de 
que Lawrence era um bastardo que só me usava para chegar até você. Por isso te 
odiei tanto. E tenho me sentido muito infeliz todo este tempo porque, na realidade, 
não queria te odiar, simplesmente não podia evitar. 
    A  voz  de  Mavis  soava  tão  arrependida  que  Ophelia  sentiu  um  nó  em  sua 
própria garganta. 
    ‐Por que voltamos para este tema, Mavis? 
    ‐Vi  Lawrence  recentemente,  Pheli.  A  herdeira  com  quem  se  casou  o 
abandonou. Eu já sabia, mas não o tinha visto em muito tempo. Converteu‐se em 
um  homem  gordo  e  dissoluto  e,  conforme  parece  também  em  um  bêbado.  Ficou 
desconcertado quando nos encontramos. Nem sequer me reconheceu. Quando lhe 
disse quem era, começou a rir. 
    ‐Sinto muito ‐ disse Ophelia, mas sua ex‐amiga não pareceu ouvi‐la. 
    ‐Sabe  o  que  me  disse?  Disse:  "Ah,  a  menina  ingênua  que  pensou  que  me 
casaria com ela. Já acordou, querida?”. 
    Mavis começou a chorar. Ophelia, compungida, estendeu a mão, mas Mavis 
retrocedeu. 
    ‐Você  me  advertiu  e,  em  lugar  de  lhe  agradecer  te  odiei.  Deus,  quanto  o 
sinto!  Só  queria  que  soubesse!  ‐exclamou  Mavis  antes  de  cruzar  a  rua  correndo 
para sua carruagem. 
    Ophelia  tentou  detê‐la,  chamou‐a  por  seu  nome,  mas  Mavis  não  a  ouviu. 
Quis correr atrás dela, mas havia muito tráfego e uma carruagem parecia circular 
fora de controle, aproximando‐se muito a outros veículos. Amanhã iria ver a Mavis 
e  lhe  diria  que  já  não  estava  ressentida...,  exceto  no  que  se  referia  a  seu  marido. 
Provavelmente Mavis e ela pudessem voltar a ser amigas! 
    Continuou observando Mavis para assegurar‐se de que a moça alcançava a 
outra  calçada  sem  problemas.  Sua  amiga  não  prestava  atenção  à  rua,  levava  a 
cabeça encurvada para ocultar as lágrimas. Então Ophelia franziu o cenho. Aquela 
carruagem fora de controle corria diretamente para a Mavis! 
    Lançou‐se  correndo  à  rua  sem  pensar  sequer.  Nunca  tinha  corrido  tão 
rápido. Rodeou uma carruagem que avançava com lentidão, esquivou um homem a 
cavalo. Com um pouco de sorte, alcançaria Mavis e a tiraria do meio. Mas o chofer 
do veículo descontrolado tinha certo domínio de seus cavalos desbocados. Puxava 
enlouquecido das rédeas, gritava às pessoas que se separasse de seu caminho e, de 
fato, ia desacelerando um pouco. No último momento fez girar os cavalos a um lado 
para evitar a Mavis..., e caiu em cima de Ophelia. 
    Teria  tido  sorte  se  o  golpe  a  tivesse  jogado  de  lado,  mas  não  foi  assim.  Os 
cavalos a atropelaram. A dor foi instantânea e generalizada, no peito, no ombro, no 
rosto, tanto dor que em questão de segundos já não sabia de onde provinha. Logo a 
luz se apagou em seus olhos. E depois se extinguiu. 
Capítulo 52
  
    Raphael  se  fixou  vagamente  na  multidão  que  rodeava  uma  grande 
carruagem na rua, indício de um acidente, normalmente. Passou rapidamente. 
    Os  acidentes  eram  muito  frequentes  em  Londres,  e  não  só  em  ruas 
concorridas como esta. Se não houvesse ninguém ali, teria parado para ajudar, mas 
já  havia  muitas  pessoas  e  uma  mais,  certamente,  só  contribuiria  a  aumentar  a 
confusão. 
    Escrutinava as calçadas em busca da familiar cabeça loira, com a esperança 
de  localizar  Ophelia  enquanto  ia  de  uma  loja  a  outra,  sem  entrar  em  nenhum 
estabelecimento.  Vários  conhecidos  o  saudaram  ao  passar.  Raphael  assentia 
distraído e seguia adiante. Um homem era lorde Thistle? Aproximou‐se de cavalo 
em direção oposta e lhe bloqueou o passo por um momento. 
    ‐Pensava  te  fazer  uma  visita,  Locke  ‐  disse  Thistle  enquanto  afastava  seu 
cavalo ‐. Por Deus que me senti muito culpado. Quando te vi beijar lady Ophelia em 
sua  sala  de  jantar  fiquei  tão  surpreso  que  nem  sequer  me  ocorreu  guardar  o 
segredo. Espero que não tenha tido que se casar por culpa de minha língua. Claro 
que não me ocorre nenhum homem que não desejasse ter que fazê‐lo. Mas... 
    ‐Dá  igual.  ‐Raphael  interrompeu  o  homem  preocupado  e  o  reconfortou 
mecanicamente‐. Não dê importância. 
    Prosseguiu seu caminho antes que pudessem voltar a pará‐lo. De modo que 
Ophelia tinha mentido. Seu pai tinha razão. Tudo tinha ocorrido como ele pensou a 
princípio,  não  foi  ela  quem  propagou  os  rumores.  Só  assumiu  a  responsabilidade 
para esbofeteá‐lo? 
    Agora  desejava  encontrá‐la...  ainda  mais.  Chegou  ao  final  da  rua  sem 
resultado, deu a volta e começou a percorrê‐la em direção contrária. Ao aproximar‐
se de novo do lugar do acidente lhe ocorreu que sua mulher poderia estar entre a 
multidão,  tão  curiosa  como  qualquer  outro  para  ver  o  que  tinha  acontecido. 
Conduziu  o  cavalo  a  um  lado  para  não  obstruir  o  tráfego,  que  seguia  fluindo 
lentamente pelo lugar do acidente, e para poder examinar melhor à multidão. 
    Não  viu  Ophelia,  seu  olhar  passou  longe  e  retornou  bruscamente  a  Mavis 
Newbolt que, de pé no meio da aglomeração, chorava desconsoladamente. Franziu 
o cenho e então o assaltou um temor horroroso. Era muita coincidência que Mavis 
estivesse ali chorando, com Ophelia nas proximidades. 
    Saltou  do  cavalo  e  se  abriu  caminho  até  o  centro  da  multidão.  E  ali  viu  a 
cabeça loira que tinha procurado, no chão, ensanguentada. 
    ‐O que aconteceu? ‐gritou a Mavis‐. Empurrou‐a sob a carruagem? 
    A jovem parecia estar chocada. O único que disse foi: 
    ‐Tentou salvar minha vida. 
    Raphael apenas a ouviu. Já estava de joelhos junto à Ophelia. Tinha medo de 
tocá‐la. Parecia tão frágil assim estendida, imóvel, sem respirar. Um dos cascos dos 
cavalos que, conforme parecia tinha um prego solto, tinha rasgado seu casaco e o 
vestido. O sangue empapava o tecido e tingia outras partes da roupa. Raphael não 
sabia  se  provinha  da  ferida  ou  se  havia  mais,  embora  não  cabia  dúvida  de  que 
Ophelia  não  só  tinha  caído,  tinha  sido  atropelada.  Vários  rastros  de  ferraduras 
sujas manchavam seu casaco. 
    Aos  cavalos  causadores  do  acidente  os  tinham  afastado  a  poucos  metros. 
Continuavam  enlouquecidos,  resistiam  em  retroceder,  golpeavam  o  chão  com  os 
cascos.  Um  homem,  provavelmente  o  chofer,  estava  de  pé  diante  dos  animais  e, 
com os braços abertos, tratava de contê‐los. 
    Dizia a todos os que queriam escutá‐lo: 
    ‐Tentei  detê‐los.  Um  menino  atirou  uma  bombinha,  uma  criancice,  mas  os 
cavalos se assustaram. Tentei detê‐los! 
    ‐Não a toque, senhor ‐ disse alguém atrás de Raphael. 
    ‐A ajuda está em caminho, chegarão a qualquer momento. 
    ‐Alguém foi procurar um médico. Disse que conhece um que vive na outra 
rua. 
    ‐Ainda  estou  vendo,  as  duas  garotas  cruzarem  a  rua  correndo  diante  da 
carruagem descontrolada. É uma sorte que não as atropelasse a ambas. 
    ‐Eu também vi. Vi‐a e não podia lhe tirar os olhos de cima. Parecia um anjo. 
E  então  desapareceu  debaixo  dos  cavalos.  Que  os  matem,  digo  eu.  Nunca  pode 
confiar em um cavalo assustadiço. 
    ‐Que lástima, uma moça tão bonita. 
    As  vozes  vinham  de  todas  as  partes,  não  falavam  com  ele,  só  relatavam  o 
que tinham visto. Eram como um rugido em seus ouvidos. Não podia deixá‐la ali, 
na rua. Simplesmente, não podia. 
    Alguém tentou de lhe impedir que a agarrasse nos braços. 
    ‐É  minha  mulher!  ‐rugiu  e  o  deixaram  em  paz.  Raphael  não  sabia  que  as 
lágrimas banhavam suas bochechas. Não sabia que tinha aspecto de louco. 
    ‐Por  Deus,  Phelia,  não  morra!  ‐repetia  uma  e  outra  vez  como  se  fosse  um 
mantra, rezando para que pudesse ouvi‐lo, de algum jeito. 
    ‐Tenho uma carruagem. Tenho uma carruagem! Locke, por favor, não pode 
levá‐la a cavalo! 
    Era Mavis quem lhe gritava e lhe puxava a jaqueta. Ele parou bruscamente 
diante de seu cavalo, percebendo com espanto de que não podia montar e seguir 
levando Ophelia com cuidado. 
    ‐Lorde Locke? 
    Finalmente olhou Mavis. 
    ‐Onde? 
    ‐Me siga. Não está longe. 
    A  multidão  não  se  dispersou.  Detiveram  o  tráfego  para  que  ele  pudesse 
cruzar a rua com Ophelia nos braços. Mavis não subiu à carruagem com ele, dava‐
lhe medo depois de como a tinha olhado. Gritou a direção ao chofer. A residência 
dos Reid. Raphael preferia levá‐la a sua própria casa. 
    ‐Levarei  o  cavalo  e  um  médico!  ‐acreditou  ouvir  Mavis  gritar  enquanto  a 
carruagem se afastava. 
    Foi  o  percurso  mais  longo  de  sua  vida  embora  só  demorasse  uns  minutos 
em  cobri‐lo,  com  o  chofer  conduzindo  o  veículo  rapidamente  e  com  cuidado  ao 
longo das ruas congestionadas. Não podia tirar os olhos da cara ensanguentada de 
Ophelia.  Uma  de  suas  bochechas  estava  terrivelmente  inchada.  Não  podia  ver  o 
corte através do sangue, mas, com tanta hemorragia, deveriam lhe dar pontos que, 
sem  dúvida,  deixariam  uma  cicatriz.  Era  a  menor  de  suas  preocupações.  Nesses 
momentos, nem sequer sabia se sobreviveria. 
Capítulo 53
  
    A  dor  era  insuportável.  Ophelia  parecia  cruzar  seus  limites  flutuando.  Não 
tinha  forma  de  saber  quanto  tempo  tinha  passado.  Tampouco  conseguia  abrir‐se 
caminho até a consciência total. Cada vez que o tentava ouvia vozes, embora não 
estava segura se lhes respondia com palavras coerentes ou se tudo fazia parte do 
pesadelo interminável em que estava presa. 
    ‐Não se atreva render, Ophelia. Nem te ocorra morrer para me evitar. Não 
vou permitir. Acorde, estou‐te falando! 
    Conhecia  bem  essa  voz.  Não  percebia  que  estava  acordada?  Por  que  não 
podia abrir os olhos para vê‐lo? Realmente corria perigo de morrer? 
    As  vozes  entravam  e  saíam  de  sua  cabeça,  mas  lhe  doía  tanto  tentar 
concentrar‐se  que,  ao  final,  desistiu.  Recordaria  quando  despertasse  de  verdade? 
Por que não podia despertar? 
    ‐As feridas curarão, mas as cicatrizes serão permanentes. Lamento. 
    Não  conhecia  aquela  voz.  Por  que  cicatrizes?  E  por  que  chorava  uma 
mulher? O som se desvaneceu. 
    ‐O  médico  aconselhou  que  tentasse  dormir  enquanto  durar  a  dor.  Ajudará 
querida. 
    Conhecia essa voz. Sua mãe. E o sabor do líquido quente que  fluía por sua 
garganta começava a lhe ser familiar. Estavam a medicando? Assim, era lógico que 
não  pudesse  despertar  por  completo  nem  articular  palavras.  Uma  vez  mais  se 
afundou na inconsciência bendita. 
    Doía‐lhe  quando  lhe  trocavam  as  bandagens.  Um  lado  da  cabeça,  a 
bochecha,  o  ombro.  Doía‐lhe  tanto  que  fugia  a  refugiar‐se  nas  trevas  fechadas  de 
um  nada,  nunca  se  mantinha  consciente  o  tempo  necessário  para  saber  quantas 
bandagens  cobriam  seu  corpo.  A  pior  dor  era  a  de  sua  cabeça.  Os  batimentos  do 
coração  não  cessavam  nunca.  Seguiam‐na  em  seus  sonhos,  um  aviso  permanente 
de  que  lhe  acontecia  algo  terrível.  Realmente  queria  despertar  para  averiguar  o 
que era? 
    ‐Deixe de chorar. Maldição. Mary, estas lágrimas não ajudam. O que importa 
um par de cicatrizes. Não é o fim do mundo. 
    Também  conhecia  essa  voz  e  tomara  se  fosse.  Não  a  incomodavam  os 
suaves  soluços  de  sua  mãe.  Na  realidade, era  um  som  reconfortante.  Ophelia  não 
podia chorar. Sua mãe chorava por ela. Mas sim a incomodava a voz áspera de seu 
pai. 
    ‐Vá. 
    Conseguiu dizê‐lo em voz alta ou só o tinha parecido? A que foi ela mesma, 
voltou para um sono bendito que a protegia da dor. 
    A única vez em que conseguiu abrir os olhos viu que estava em seu quarto. 
Seu pai estava sentado em uma cadeira junto à cama. Sustentava uma mão junto a 
sua bochecha. Suas lágrimas lhe molhavam os dedos. 
    ‐Por que chora? ‐perguntou‐. Estou morta? 
    Seu pai a olhou imediatamente, viu que desta vez conseguiu pronunciar as 
palavras. Sua expressão se encheu de gozo. Não recordava ter visto Sherman Reid 
tão feliz no passado. 
    ‐Não, meu anjo, você vai ... 
    Anjo? Seu pai usava palavras carinhosas? 
    ‐Dá  igual  ‐  interrompeu‐o‐.  Devo  estar  sonhando.  ‐E  em  seguida  dormiu 
outra vez. 
    Depois  deste  episódio,  entretanto,  os  breves  lapsos  de  consciência 
começaram  a  prolongar‐se.  E  os  batimentos  do  coração  dolorosos  já  não  eram 
incessantes. Até havia momentos em que não sentia dor..., enquanto não tentasse 
mover‐se. 
    Então despertou uma manhã e se manteve acordada. Sadie andava ocupada 
pelo quarto, como sempre; acrescentava lenha à lareira, tirava o pó das mesas, da 
penteadeira, de... 
    Deus haviam coberto o espelho da penteadeira com um tecido. Tão grotesca 
era a ferida de seu rosto? Temiam que ela a visse? Horrorizada, levou as mãos ao 
rosto,  mas  o  único  que  tocou  foram  às  bandagens  de  tecido.  Pareciam  envolver 
firmemente sua cabeça inteira, as bochechas e o queixo. 
    Deu‐lhe medo arrancar as bandagens, medo de machucar‐se ainda mais se o 
fizesse.  Incapaz  de  ver  por  si  mesma  quis  interrogar  a  Sadie  a  respeito  da 
gravidade  das  feridas,  mas  as  palavras  lhe  afogaram  na  garganta.  A  verdade  lhe 
dava medo. E começaram a aparecer as lágrimas. Fechou os olhos, com a esperança 
de que Sadie percebesse. 
    Que  ironia  tão  incrível.  Toda  a  vida  tinha  odiado  o  rosto  com  que  tinha 
nascido, e agora que estava deformada não podia evitar chorar. 
    E  chorou  durante  horas.  Chorou  até  ficar  seca.  Quando  voltou  Sadie,  ao 
redor  do  meio  dia,  Ophelia  jazia  na  cama  olhando  fixamente  o  teto.  Não  tinha  se 
conformado com sua deformidade, mas sabia que não podia fazer nada a respeito. 
Acostumar‐se‐ia.  De  algum  jeito.  Odiava  a  auto  compaixão,  sobre  tudo,  a  sua 
própria. 
    ‐Graças  a  Deus,  está  acordada  e  já  pode  comer  ‐  disse  Sadie  quando  se 
aproximou  o  suficiente  para  ver  que  os  olhos  de  Ophelia  estavam  abertos‐.  Este 
caldo que lhe metíamos na boca não basta nem para alimentar um coelho! Estava a 
ponto de te consumir por completo! 
    Sadie falou com muita alegria para que suas palavras fossem verdade. 
    ‐Quanto tempo passou? ‐perguntou Ophelia. 
    ‐Quase uma semana. 
    ‐Tanto? Sério? 
    ‐Era evidente que precisava descansar não se preocupe por isso. Como está 
sua cabeça? 
    ‐Que  parte  em  concreto?  ‐perguntou  Ophelia  secamente‐.  Toda  ela  é  uma 
dor. 
    ‐Deram‐lhe  um  golpe  no  lado  da  cabeça.  É  a  ferida  que  mais  sangrava.  O 
médico teve o valor de sugerir que poderia não despertar por culpa dela. Seu pai o 
mandou embora e fez chamar a outro médico. 
    ‐Papai fez isso? 
    ‐Ah, sim. Estava furioso com esse homem. O novo médico foi mais otimista, 
e  com  razão.  Olhe!  Agora  que  despertou,  tudo  irá  bem.  E  eu  devolverei  o  caldo  à 
cozinha para te trazer um pouco mais substancial! 
    ‐Peixe  cozido  ‐  disse  Ophelia  e,  de  repente,  invadiu‐a  o  temor  mais 
espantoso. 
    ‐Peixe cozido será ‐ respondeu Sadie, com a voz alegre‐. Embora tenha que 
ir eu mesma ao mercado para comprar peixe fresco. 
    Sadie  demorou  para  voltar.  Deve  ter  ido  realmente  ao  mercado.  Antes  de 
partir,  entretanto,  correu  a  voz  de  que  Ophelia  estava  consciente.  O  seguinte  a 
visitá‐la foi seu pai, a única pessoa capaz de distraí‐la do temor de ter perdido ao 
bebê. 
    Ophelia já não era seu brinquedo precioso. Era verdade que se despertou do 
pesadelo e o viu chorar? De ser assim, sem dúvida essa era a razão. 
    ‐Já  está  se  recuperando?  ‐perguntou  seu  pai‐.  Tinha  que  vê‐lo  com  meus 
próprios olhos antes de despertar a sua mãe para lhe dar a boa notícia. Passou as 
noites a seu lado e ainda está na cama. 
    ‐Realmente  precisa  de  tantos  curativos  em  minha  cabeça?  ‐perguntou 
Ophelia enquanto ele aproximava uma cadeira à cama e se sentava a seu lado. 
    ‐Pois  sim,  embora  sejam  duplos.  Alguns  serviram  para  sujeitar  as 
compressas  frias  que  sua  mãe  insistiu  em  te  pôr  na  bochecha,  que  estava  muito 
inchada.  A  maioria,  entretanto,  é  para  manter  o  curativo  que  cobre  o  inchaço  de 
sua cabeça. A alternativa seria te raspar a cabeça para dar pontos, e a sua mãe deu 
um  ataque  ao  pensar  que  pudesse  perder  uma  só  mecha  de  cabelo.  Por  isso  lhe 
apertaram  mais  as  bandagens  nessa  parte  e  o  corte  cicatrizou  bastante  bem  sem 
necessidade  de  te  dar  pontos.  Certamente  poderá  tirá‐la  quando  vier  o  médico 
dentro de um momento. 
    ‐Quantos pontos me deram... em outras partes? 
    Preston suspirou. 
    ‐Uns quantos. ‐Era mentira. Seu pai deveria praticar para não ruborizar‐se 
quando  mentia,  pensou  Ophelia.  De  fato,  não  queria  saber  a  verdade.  Acabaria 
averiguando‐o  por  si  mesma...,  quando  reunisse  a  coragem  para  tirar  o  tecido  do 
espelho  de  sua  penteadeira.  Seu  pai  ainda  parecia  incômodo  quando  disse‐:  Nem 
por um momento duvidei que sua recuperação embora... poderia ser muito pior e, 
depois de ter estado a ponto de te perder, vi em mim algumas coisas das quais não 
estou orgulhoso. Não sou um homem expressivo. Sou teimoso, anti‐social, sou... 
    Ela o interrompeu. 
    ‐Não está dizendo nada que não soubesse papai, mas por que o menciona? 
    ‐Me ocorreu que, bom, quer dizer..., maldição ‐ concluiu frustrado. 
    ‐O que acontece? Diga‐o, sem mais. 
    Seu  pai  voltou  a  suspirar.  Agarrou  a  mão  de  Ophelia  entre  as  suas  e  a 
sustentou brandamente, olhando‐a com atenção. 
    ‐Você  e  eu  brigamos  tanto  ao  longo  dos  anos  que  se  converteu  em  um 
costume.  E,  quando  aparecem  os  costumes,  perdemos  outras  coisas  de  vista. 
Ocorreu‐me que provavelmente pensasse que não te amo. Aí está, disse. A verdade 
é que te amo muito. 
    Levantou  os  olhos  para  ver  sua  reação.  Ophelia  o  olhava  incrédula.  Não 
sabia  o  que  dizer  nem  se  seria  capaz  de  dizer  algo  com  esse  nó  que  lhe  fechou  a 
garganta. Era umidade o que aflorou em seus olhos? 
    ‐Vou  dizer‐te  algo  que  sua  mãe  não  sabe  ‐  prosseguiu  ele‐.  Minha  infância 
não  foi  fácil.  Enviaram‐me  aos  melhores  colégios,  onde  estudavam  os  filhos  da 
sociedade mais seleta. Tomara não o tivessem feito. Os meninos podem ser cruéis. 
Jogavam  continuamente  em  minha  cara  que  não  pertencia  a  sua  classe.  Pode 
acreditar nisso? O filho de um conde não era de sua classe. 
    Parecia  ver  o  passado,  imerso  em  velhas  lembranças  desagradáveis. 
Surpreendentemente, Ophelia compreendia, de algum modo, por que o contava. 
    ‐Não estava na rua olhando pelas janelas, papai. Seu título vale tanto como 
qualquer outro. 
    ‐Sei.  Inclusive  cheguei  a  suspeitar  que  tivessem  ciúmes,  porque  minha 
família  era  muito  rica  enquanto  que  as  famílias  de  muitos  meninos  com  títulos 
mais  importantes  não  o  eram.  Isso,  não  obstante,  não  influíam  na  necessidade 
imperiosa  de  demonstrar  que  eu  era  tão  bom  como  eles,  a  necessidade  de 
pertencer, em última instância. E essa urgência nunca me abandonou, embora não 
tinha  meios  para  alcançar  meu  objetivo...,  até  que  nasceu  você,  que  ficava  mais 
bonita a cada ano que passava. Você foi minha demonstração. Por isso te exibia... 
muito. O assombro que produzia as palmadinhas nas costas, as felicitações, nunca 
me  cansava  de  recebê‐las.  Compensavam  todos  aqueles  anos  em  que  me  sentia 
inferior.  Agora  percebo  que  fui  muito  egoísta,  que  te  obriguei  a  viver  situações 
sociais que não estava preparada para confrontar. Porque estava tão orgulhoso de 
ti Ophelia. 
    ‐Não estava orgulhoso de mim, papai ‐ disse ela com um fio de voz‐. Estava 
orgulhoso  de  si  mesmo,  por  ser  meu  senhor.  Não  se  podem  comparar  as  duas 
coisas. 
    Ele agachou à cabeça. 
    ‐Tem razão, Pheli. Tive que chegar ao ponto de te perder para abrir os olhos 
e  ver  quantas  coisas  lamento  no  que  se  refere  a  ti.  Sua  mãe  sempre  me  tentava 
dizer isso. Eram as únicas ocasiões em que discutíamos. Mas eu  nunca fazia caso. 
Estava muito obcecado com meu orgulho mal entendido. Queria poder começar de 
novo. Sei que não é possível. Embora não é muito tarde para corrigir meu último 
engano. 
    ‐A que se refere? 
    ‐Sei que não é feliz neste matrimônio que te impus. 
    ‐Você não me impôs, papai. 
    ‐Claro que sim. Dei‐te a ordem de se casar com Locke. Assegurei‐me de que 
todo mundo esperasse que acontecesse. 
    Dirigiu‐lhe um sorriso triste e disse: 
    ‐Quando  obedeci  a  suas  ordens  sem  tramar  justamente  o  contrário?  Foi 
minha zanga o que impulsionou Rafe a me levar arrastada ao altar. Nada teve a ver 
contigo. 
    Clareou a garganta e arqueou levemente uma sobrancelha. 
    ‐Em qualquer caso, não precisa seguir dentro deste matrimônio. Seu marido 
não  se  comportou  precisamente  como  um  marido,  e  não  acredito  que  tenha 
dificuldades em anular o matrimônio, com minha ajuda. 
    Ophelia ficou assombrada. 
    ‐Renunciaria ao título de duque sem opor resistência? 
    ‐Ophelia, agora sei que só quero que você seja feliz. O título não era só para 
mim. Às vezes, sua mãe e eu falamos de ti sem discutir. Sei que aspirava ser como 
ela embora em um nível superior, que desejava ser a anfitriã mais importante de 
Londres. O título superior teria te ajudado a alcançar seu objetivo. 
    Ophelia suspirou. O que pouca importância tinha isso agora. Agora mesmo o 
único que desejava era que o aroma de peixe cozido lhe produzisse náuseas. 
    Soube que voltavam as lágrimas e lutou para contê‐las. 
    ‐Certamente tem razão. A relação entre Rafe e eu não podia ser. Ele não se 
oporá à anulação. Embora... ‐Quis dizer que não estava segura se a anulação seria já 
possível. Mas assim daria a entender a seu pai que Rafe e ela tinham tido relações 
íntimas e preferia não dizer‐lhe ainda, logo saberia se ainda estava grávida. De fato, 
se  tinha  perdido  o  bebê,  o  médico  já  o  teria  comunicado  a  seus  pais  e  eles  só 
tentavam  protege‐la  da  triste  verdade.  Suspirou  e  acrescentou‐:  Obrigada  por 
oferecer sua ajuda. Eu gostaria de pensar nisso antes de decidir. 
    ‐É  obvio.  Primeiro  tem  que  se  recuperar.  Quando  se  encontrar  em  forma 
será o momento de considerá‐lo. 
    Seu  pai  lhe  deu  um  abraço  antes  de  partir.  Um  autêntico  abraço.  Com 
cuidado, como se temesse rompê‐la, mas, mesmo assim, um autêntico abraço. 
    Ophelia  começou  a  chorar  no  momento  em  que  seu  pai  fechou  a  porta. 
Depois de tantos anos se sentia reconciliada com seu pai, sentia que, por fim, tinha 
um pai, e que ele a queria. Necessitaria muito tempo para acostumar‐se à ideia. 
    Então chegou o peixe cozido e Ophelia chorou muitíssimo mais, porque não 
lhe  deu  náuseas.  Realmente,  já  nada  lhe  impedia  que  afastasse  Rafe  de  sua  vida 
com  uma  anulação.  Ai,  Deus,  as  cicatrizes  com  as  quais  teriam  que  conviver  não 
eram nada comparadas com a perda de seu filho... e de Rafe. 
Capítulo 54
  
    ‐Só  uma  pequena  marca  ‐  disse  o  médico  quando  tirou  as  bandagens  do 
rosto  de  Ophelia  e  lhe  sustentou  o  queixo  para  estudar  seu  rosto.  A  palidez 
instantânea da jovem o obrigou a retificar rapidamente‐: Por Deus, moça, só estava 
brincando. ‐Logo  suspirou‐.  Minha  mulher  sempre  se  queixa  de  minhas  maneiras 
com  os  pacientes.  Deveria  lhe  fazer  caso.  Tudo  irá  bem.  As  cicatrizes  irão  se 
apagando. Antes de te dar conta já nem as verá. 
    Estava sendo amável. Era um bom homem. Deveriam conhecê‐lo antes para 
tê‐lo  como  médico  da  família,  embora  não  estavam  acostumados  a  adoecer 
frequentemente. Depois de inquietá‐la, disse que deveriam esperar uns dias mais 
antes de retirar as bandagens do resto de seu corpo. 
    Mary, de pé no lado oposto junto à cama, reconfortou‐a: 
    ‐O  médico  tem  razão. Estávamos muito  preocupados  com  a  maçã  do  rosto 
quebrado, mas só é uma pequena imperfeição, que apenas se nota. Quando penso 
em quão mal podia ir tudo... Mas que bom, suas covinhas se acentuaram! 
    Sua mãe não a ajudava. As covinhas não se encontravam nas maçãs do rosto. 
    ‐Dá‐te mais caráter, se quer minha opinião ‐ disse Sadie nos pés da cama‐. 
Continua  sendo  a  moça  mais  bonita  que  vi  em  minha  vida,  não  se  preocupe 
querida. 
    Continuavam  tentando  animá‐la.  Nada  poderia  conseguir,  entretanto.  Seu 
rosto perfeito já não era perfeito. 
    Assim  que  Mary  saiu  do  quarto  para  acompanhar  o  médico  Ophelia  se 
levantou da cama para vestir‐se. 
    ‐Não disse que pode se levantar e andar por aí ‐ objetou Sadie. 
    ‐Tampouco disse que não posso. Embora não penso sair do quarto, só desta 
maldita cama. Um roupão bastará. 
     As  feridas  não  lhe  doíam  enquanto  não  esticasse  a  pele  que  as  rodeava. 
Agora  levava  a  dor  em  seu  interior  e  a  única  coisa  que  fazia  na  cama  era  chorar. 
Estava farta disso. 
    Sadie  a  deixou  sozinha  depois  de  lhe  aconselhar  umas  vezes  mais  que 
descansasse. Ophelia esteve muito tempo de pé diante da lareira, contemplando as 
chamas. Na realidade, a cama nada tinha que ver com suas lágrimas. Podia senti‐las 
justo debaixo da superfície, a ponto de transbordar se pensasse nas coisas que lhe 
partiam o coração. Assim tentou não pensar em nada. Tentou de verdade... 
    ‐Cansada de vadiar na cama? 
    Deu  a  volta...  e  fez  uma  careta.  Ainda  não  podia  permitir‐se  movimentos 
bruscos como este. Rafe estava de pé na porta, apoiado no marco com as mãos nos 
bolsos. Ophelia o devorou com o olhar. Deus, que bom era vê‐lo. Então se lembrou 
de seu rosto e se voltou de novo para a lareira. Com outra careta de dor. 
    ‐Quem te deixou passar? 
    ‐Esse  tipo  que  está  acostumado  a  abrir  a  porta.  ‐Rafe  soava  muito  altivo 
para seu estado de ânimo. 
    ‐Por que veio? Já não quero brigar contigo. Vá embora. 
    ‐Não  estamos  brigando.  E  não  vou.  ‐Fechou  a  porta  atrás  de  si, 
ruidosamente, para sublinhar sua afirmação. 
    Ophelia  não  desejava  enfrentá‐lo  ainda.  Sentiu‐se  perto  do  pânico.  Jamais 
perdoaria a si mesma se chorasse diante dele. E não suportava a ideia de que Rafe 
visse seu rosto desfigurado. 
    ‐O que faz aqui? ‐repetiu com voz mais contundente. 
    ‐Onde  poderia  estar  a  não  ser  junto  à  cama  de  minha  esposa  em  seus 
momentos de necessidade? 
    ‐Tolice ‐ comentou Ophelia. 
    ‐Pois não. Vim muito frequentemente. Na realidade, cada dia. Seu pai teve a 
descortesia de não me oferecer um quarto, depois de todo o tempo que passei aqui. 
    Ophelia  não  acreditava  em  nenhuma  palavra.  E  o  pânico  aumentava. 
Manteve o rosto afastado. De perceber o menor indício de piedade... 
    Não  podia  enfrentá‐lo  sem  saber  o  que  veria  ele  quando  a  olhasse. 
Aproximou‐se da penteadeira, arrancou de um puxão o tecido que cobria o espelho 
e ficou olhando, surpresa. O espelho não estava ali, só o marco vazio. Tão feia era a 
marca de seu rosto? Tanto como para retirar o espelho de seu quarto? 
    ‐Estava furioso porque não podia fazer nada para te ajudar ‐ disse Rafe do 
outro extremo do quarto‐. Eu rompi seu espelho. Sinto muito. Não queria que visse 
a  si  mesma  envolta  em  vendagens  como  uma  múmia.  A  visão  me  espantava, 
certamente que te aterrorizaria. ‐Ophelia percebeu o sorriso em sua voz. Brincava 
com  sua  condição?  Muito  cruel  de  sua  parte.  Então  Rafe  disse  docemente  justo 
atrás dela‐: Ainda dói? 
    Deus,  sim,  doía‐lhe;  doía‐lhe  no  fundo  de  sua  alma,  e  o  único  que  queria 
fazer era refugiar‐se entre seus braços e chorar. Não podia fazê‐lo, entretanto. Rafe 
era  seu  marido,  mas  não  lhe  pertencia.  Ela  não  reclamava  uma  parte  de  seu 
coração,  como  fazia  ele.  Embora  nunca  soubesse.  Não  ia  impor‐lhe  uma  esposa 
desfigurada. Seu pai lhe tinha devotado à solução. Deveria lhe  facilitar a aceitação 
com alegria de uma solução tão fácil. Deveria fazê‐lo continuando com sua charada. 
    ‐Estou bem. Certamente pensa que este só é um complemento, a queda da 
rainha  de  gelo.  Não  ache  nem  por  um  momento  que  não  posso  superar  esta 
situação. 
    ‐Do que está falando? ‐disse Raphael. 
    ‐De meu rosto deformado! 
    De  repente  ele  a  agarrou  pelo  braço,  arrastou‐a  fora  do  quarto  e  com  o 
passar do corredor, onde parou para aparecer à cabeça em todos os aposentos até 
que encontrou uma que tinha um espelho. Empurrou‐a diante dele. Ophelia fechou 
os olhos. Não podia suportá‐lo. 
    Mas ele insistiu. 
    ‐Vê? A camada superior da pele foi arrancada na altura do machucado, mas 
esta  camada  se  perdia  igualmente  atrás  algumas  esfoliações.  O  enrijecimento 
desaparecerá dentro de uma semana e a macha roxa, certamente, inclusive antes. E 
tenho a impressão de que a pequena marca permanente não fará mais que realçar 
sua beleza. É única em encontrar recursos para ser ainda mais bonita. 
    O  tom  brincalhão  de  sua  voz...  Ophelia  abriu  os  olhos  e  olhou  seu  rosto. 
Raphael  não  mentia.  Ali  havia  uma  mancha  vermelha  que,  a  primeira  vista, 
alarmou‐a, mas não era o bastante profunda para formar sequer uma crosta. Uma 
macha roxa feia cobria ainda quase toda a bochecha. E debaixo de tudo, no alto da 
maçã do rosto, aparecia uma marca. Inclinou‐se para o espelho para examinar os 
danos.  Era  uma  imperfeição  evidente,  admitiu  para  si  enquanto  reprimia  as 
lágrimas,  embora  não  tão  profunda  como  temia.  As  pessoas  perceberiam,  mas  o 
preço era pequeno por ter saído com vida daquele acidente. 
    ‐Falaram de cicatrizes ‐ disse‐. Onde estão? 
    ‐Não as viu, até sem espelho? 
    ‐Não, não tenho o costume de olhar meu corpo nu. 
    ‐Pois deveria. É absolutamente maravilhoso. 
    Ophelia se voltou para olhá‐lo. 
    ‐Isso não tem graça. 
    Ele apoiou as mãos em suas bochechas. 
    ‐ Phelia, estava aqui quando lhe costuraram. Terá uma pequena cicatriz no 
ombro, outra no flanco e outra no quadril, e todas se irão apagando com o tempo. 
Graças a Deus, não rompeu um só osso, sofreu unicamente graves machucados que 
já  quase  desapareceram.  A  única  ferida  que  nos  preocupava  é  a  de  sua  cabeça  e, 
conforme disse esta também está se curando. 
    Ophelia  demorou  um  momento  para  assimilar  tudo.  Tinha  derramado  a 
metade de suas lágrimas por nada? A outra metade, não, entretanto. 
    Separou‐se de Raphael e se dirigiu a seu quarto. Ele a seguiu. Até fechou a 
porta de novo. Por que não se ia? Deveria lhe falar da anulação. Então sim que se 
iria... feliz. 
    Tentou formular as palavras mentalmente, mas ele a distraía muito. Olhava‐
a com ternura. Ai, Senhor! 
    ‐Não foi a aposta a que aceitei, foi o desafio ‐ começou a dizer Rafe. 
    ‐Não! 
    ‐Vai ouvi‐lo mesmo que tenha que te amarrar. Duncan estava convencido de 
que  jamais  poderia  mudar.  Eu  não  estava  de  acordo.  Todo  mundo  pode  mudar, 
inclusive  você,  essa  foi  minha  posição.  E  mudou.  De  uma  forma  maravilhosa.  E, 
posto  que  não  era  uma  mulher  feliz,  as  mulheres  felizes  não  causam  problemas 
aonde  vão,  também  quis  mudar  isso.  Nunca  cobrei  a  aposta.  Ajudei‐te  porque 
desejava sinceramente te ajudar. 
    ‐Suas motivações eram falsas! 
    ‐Não, não eram, embora não mencionasse o fato que pôs tudo em marcha. 
    ‐Ah,  sim,  te  dá  muito  bem  deixar  de  mencionar  coisas  pensando  que  isso 
não é mentir, verdade? 
    ‐Poderia dizer o mesmo de ti. Ou vai continuar fingindo que iniciou aqueles 
rumores quando sei que não o fez? 
    ‐O teria feito! ‐afirmou ela. 
    Raphael riu. 
    ‐Não,  Phelia,  não  o  teria  feito.  Deixe  já.  Sabe  que  já  não  é  aquela  mulher. 
Deveria  estar  agradecida  com  a  aposta,  não  furiosa  com  ela.  Graças  à  aposta  nos 
conhecemos melhor. 
    Ophelia ficou muito quieta. Pretendia dizer o que lhe parecia? Não podia ser 
embora a expressão de seus olhos, cheio de calidez confirmava‐o. 
    Seu silêncio sem fôlego deu a Raphael a oportunidade de atraí‐la para si. 
    ‐Há outra coisa que não te disse e devia fazê‐lo há muito.  
    Quase lhe dava medo perguntar. 
    ‐O que? 
    ‐Amo você ‐ disse ele com profunda ternura‐. Quero cada parte de ti. Até me 
afeiçoei a seu temperamento, assim não se sinta obrigada a me oculta‐lo sempre. 
Amo seu aspecto. Amo seus sentimentos. Amo sua forma de achar a coragem para 
mudar. 
    Estava lhe dizendo cada palavra que ela desejava ouvir. Deus, ainda estava 
sonhando. Sua mente inventava tudo porque o desejava muitíssimo. 
    ‐Não queria se casar comigo. Obriguei‐te a fazê‐lo com meu maldito gênio. 
    Ele negava com a cabeça. 
    ‐Realmente  acredita  que  poderia  me  obrigar  a  fazer  algo  assim  contra 
minha vontade? ‐indagou Raphael. 
    ‐Então, por que me devolveu a casa de meus pais aquela noite? 
    ‐Porque estava furioso. Sabe muito bem como puxar minhas cordas. 
    Disse sorrindo. Ela ruborizou só um pouco. 
    ‐Por  isso  esbanjou  dinheiro  para  comprar  uma  casa?  Porque  estava 
furioso? 
    ‐E  porque  você  também  estava.  Pareceu‐me  uma  boa  solução  temporária. 
Embora  comprar  propriedades  nunca  é  um  esbanjamento.  Na  realidade,  é  uma 
casa muito grande, mais que a minha. E tem um salão de baile. 
    Recordava seu velho desejo? Muito terno de sua parte, embora esses velhos 
desejos pareciam muito corriqueiros agora que estava cheia de alegria. Bastava‐lhe 
o amor de Raphael para sentir‐se completa. 
  ‐Sobre tudo ‐prosseguiu ele‐ fiz porque sabia quanto desejava se liberar da 
tutela de seu pai e, posto que ainda não estava preparada para viver comigo... 
    ‐Entendi ‐ respondeu ela com doçura. 
    ‐De verdade? É certo que não temos mais motivos para brigar? 
     Ela sorriu. 
    ‐Acredito que não. 
    ‐Então,  vou  te  levar  para  a  casa,  aonde  devia  te  levar  desde  o  começo. 
Minha casa, onde pertence. 
Epílogo
  
    ‐Seu primeiro baile não pode ser muito luxuoso. Se for a anfitriã principal de 
cada temporada, não pode começar de cima porque já não haverá lugar mais alto 
ao que apontar. Não terá margem para melhorar. 
    Ophelia olhou seu marido. 
    Estavam  aconchegados  no  sofá,  Raphael  lhe  rodeava  os  ombros  com  o 
braço, ela se apertava contra ele. Era um homem muito afetuoso. Incapaz de estar 
perto dela sem tocá‐la, beijá‐la ou, simplesmente, abraçá‐la. Ophelia adorava esta 
característica  dele,  esta  e,  bom...,  não  lhe  ocorria  nada  que  não  adorasse  nesse 
homem. 
    ‐Um baile, não? ‐perguntou. 
    ‐Um por temporada. Este é meu limite. 
    ‐Odeio te decepcionar, meu amor, mas acredito que estarei muito ocupada 
criando a nossa filha para pensar sequer em organizar bailes. 
    ‐Dá muito trabalho, verdade? 
    A menina de cabelos dourados estava sentada em cima de uma manta macia 
no chão, examinando os brinquedos que a rodeavam, incapaz de decidir sobre qual 
saltar. Fazia poucas semanas que tinha aprendido a engatinhar e já era uma perita. 
De fato, era bastante assombroso que ficasse quieta embora fosse por uns minutos. 
    Ophelia  não  tinha  perdido  seu  bebê,  como  temia.  Seu  alívio  e  sua  alegria 
foram  tremendos  quando  reapareceram  as  malditas  náuseas  e  duraram  vários 
meses. O trauma do acidente só lhe tinha proporcionado um breve alívio. 
    Rafe  recebeu  a  notícia  encantado.  Não  queria  ter  muitos  filhos.  Só  um 
punhado,  disse!  Ela  estava  completamente  de  acordo.  Depois  de  dar  a  luz  ao 
primeiro, que adorava, estava pronta para ter mais. 
    Instalaram‐se  em  Londres,  na  casa  grande  que  Rafe  tinha  comprado  para 
Ophelia.  Pouco  a  pouco,  ela  foi  redecorando. Organizava  reuniões  sociais  embora 
não  muito  frequentemente.  Celebraram  uma  festa  grande,  entretanto,  para 
celebrar  seu  casamento  embora  fosse  com  atraso.  Foi  ideia  de  Rafe,  e  Ophelia 
pediu  a  sua  mãe  que  a  organizasse.  Inclusive  convidaram  Mavis,  porque  as  duas 
velhas  amigas  não  demoraram  muito  em  ficarem  intimas  de  novo...,  mais  que 
nunca. O ciúme já não tinha lugar na vida de Ophelia. 
    Rafe  lhe  deu  um  beijo  na  testa  e  outro  na  bochecha  imperfeita.  Ophelia 
moveu  um  pouco  a  cabeça  para  que  pudesse  lhe  beijar  os  lábios.  Ele  não 
necessitava mais convite. Foi um beijo terno, cheio do amor que compartilhavam. 
Se estivessem em qualquer outro aposento da casa, esse beijo logo os teria levado a 
outra coisa. Mas não no quarto da menina! 
    O  chiado  atraiu  seus  olhares  para  sua  filha,  que  engatinhava  para  eles 
reclamando  sua  parte  da  atenção  com  um  grande  sorriso  em  seu  rosto  de 
querubim.  Ela  não  seria  a  moça  mais  formosa  para  agraciar  com  sua  presença  a 
temporada  londrina.  Ah,  não.  Ela  seria  a  moça  mais  formosa  do  mundo,  a  jovem 
mais  inteligente,  a  garota  mais  encantadora  de  todas.  Seus  pais  não  tinham  a 
menor duvida. 
 
 

Fim