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10/05/2015 Grande queima de ″arte degenerada″: um mistério de 75 anos | Cultura e Estilo | DW.DE | 20.03.

2014

NOTÍCIAS / CULTURA E ESTILO

C U L TU R A

Grande queima de "arte degenerada": um
mistério de 75 anos
Destruição de 5 mil obras foi decretada pelo regime nazista, mas até hoje não está
esclarecido se de fato ocorreu. Enquanto pesquisas prosseguem, peças marcadas como
incineradas voltam a aparecer.

"Nenhum quadro será poupado", anotava em 13 de janeiro de 1938, em seu diário, o ministro de
Propaganda do Terceiro Reich, Joseph Goebbels. Uma frase terminal, com consequências
avassaladoras: pouco mais de um ano mais tarde, em 20 de março de 1939, mais de 5 mil obras de
"arte degenerada" (Entartete Kunst) seriam queimadas na Alte Feuerwache – então sede do Corpo de
Bombeiros em Berlim.

Até hoje não está inteiramente comprovado se a operação de fato ocorreu. Não existem fotos oficiais
da incineração, a qual – ao contrário da grande queima de livros de 1933 – se realizou sem presença
de público. No diário de Goebbels tampouco há qualquer menção a esse dia.

Ainda assim, Meike Hoffmann e seus colegas do centro de pesquisa Entartete Kunst, da Universidade
Livre de Berlim, partem do princípio que a queima realmente aconteceu. "Os nacional­socialistas eram
grandes burocratas, mas não seriam capazes de encobrir a destruição decretada de mais de 5 mil
obras", avalia a historiadora de arte.

Além disso, não há o menor vestígio do acervo supostamente liberado para incineração. Ao todo, o
regime nazista confiscou quase 20 mil obras de arte moderna.

Dois milhões vão ver 'Arte degenerada'

Em junho de 1937, Goebbels encarregou o presidente da Câmara do Reich de Artes Plásticas, Adolf
Ziegler, de vasculhar todos os museus do país à busca de "arte decadente alemã". "Estavam incluídas
as obras de artistas alemães criadas depois de 1910", explica Hoffmann. "Tudo o que, na época, era
classificado como arte moderna, podia ser confiscado."

Atendendo à ordem, Ziegler constituiu uma comissão que, numa ação­relâmpago, apreendeu várias
centenas de peças, reunindo­as na mostra Entartete Kunst.

"Os senhores veem à nossa volta essas abominações da loucura, da insolência, da inépcia e da

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10/05/2015 Grande queima de ″arte degenerada″: um mistério de 75 anos | Cultura e Estilo | DW.DE | 20.03.2014

degeneração. O que os olhos percebem, nos causa, a nós todos, choque e repulsa." Com essas palavras,
Ziegler abriu a exposição na galeria do parque Hofgarten, em Munique. E Entartete Kunst se revelou
um enorme sucesso de público, reunindo mais de 2 milhões de visitantes.

Jazz também foi classificado como "degenerado" pelos nazistas

Apreensões sem resistência

Com o termo "arte degenerada", a propaganda do regime de Adolf Hitler atacava toda expressão
artística considerada incompatível com o ideal de beleza nacional­socialista. Seu alvo principal eram
obras modernistas alemãs, sobretudo dos expressionistas, quadros de Emil Nolde, desenhos de Käthe
Kollwitz, esculturas de Ernst Barlach. Porém também artistas internacionais, como Vassily Kandinsky,
Marc Chagall e Pablo Picasso, foram atingidos pela campanha de difamação.

A inesperada receptividade da mostra desencadeou uma segunda onda de confiscações. O ministro
Adolf Ziegler recebeu a incumbência de "confiscar os produtos ainda existentes do período da
decadência", e cerca de 19.500 peças foram retiradas dos museus.

"Praticamente não houve resistência", registra a perita em história da arte Anja Tiedemann, da
Universidade de Hamburgo, autora de uma pesquisa sobre o comerciante nazista de arte Karl
Buchholz. "O medo da repressão era grande demais."

Uma grande parte dos quadros ficou no Armazém Viktoria, no porto de Berlim, e num celeiro da rua
Köpenicker Strasse. "As obras consideradas comercializáveis em nível internacional foram levadas para
o Palácio Niederschönhausen, a fim de serem mostradas aos eventuais compradores", diz a
pesquisadora Meike Hoffmann.

Ironia da história: sucesso na América

Quatro marchands – Bernhard Böhmer, Karl Buchholz, Ferdinand Möller e Hildebrand Gurlitt (pai
do atualmente famoso colecionador Cornelius Gurlitt) – foram designados pelo Ministério da
Propaganda para vender as peças embargadas, com o fim de angariar dinheiro para o regime.

Somente uma parte relativamente pequena dessas divisas, contudo, chegou aos cofres militares,
constata Hoffmann. Estima­se que o lucro não tenha dado para comprar muito mais do que um único
tanque de combate.

Porém a venda das obras no exterior teve outro efeito colateral: Karl Buchholz, um dos quatro
comerciantes nazistas, conseguiu vender quase 650 peças a seu sócio judeu, Curt Valentin, que
emigrara para Nova York.

"Desse modo, os emigrantes judeus puderam estabelecer o modernismo alemão na América do Norte",
afirma Anja Tiedemann. Uma virada irônica da história: entre as intenções Hitler seguramente não
estava que essa arte fosse conquistar o outro lado do Oceano Atlântico.

"Lista Harry Fischer": tesouro para pesquisadores

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10/05/2015 Grande queima de ″arte degenerada″: um mistério de 75 anos | Cultura e Estilo | DW.DE | 20.03.2014

Em 1939, reunidas em bem organizadas listas, Goebbels liberou para serem destruídas as obras que
não puderam ser comercialmente exploradas dessa forma. O encarregado do Departamento de Artes
Plásticas, Rolf Hetsch, documentou com exatidão burocrática todos os objetos de "arte degenerada".
"No entanto, a lista só foi preservada fragmentariamente e, em parte, traz erros", ressalva Meike
Hoffmann.

O que restou foi uma cópia, a "lista Harry
Fischer" – nome do marchand em cujo espólio
foi encontrada. Em 1997, ela caiu por acaso nas
mãos do historiógrafo Andreas Hüneke, então
em Londres. Disponibilizada ao público no
início de 2014, trata­se de um verdadeiro
tesouro para pesquisadores de proveniência de
todo o mundo.

Lista Harry Fischer é principal inventário das apreensões
"Essa lista é incomparável para a investigação
nos museus
da 'arte degenerada'", diz Tiedemann com
satisfação. Além de ser a única lista de
inventário preservada na íntegra, afirma a historiadora, ela revela a dimensão dos confiscos nos
museus alemães.

Comerciantes nazistas como "salvadores"

"Neste meio tempo, conseguimos reconstituir relativamente bem o arrestamento das obras", confirma
Hoffmann. Juntamente com sua equipe da Universidade Livre de Berlim, ela organizou o mais
completo banco de dados existente sobre a "arte degenerada", totalizando 21 mil registros.

Isso não impede que continuem ocorrendo surpresas. "No inventário nazista, todas as obras que foram
destruídas estão marcadas com um 'X'. Mesmo assim, conseguimos localizar algumas delas."

Ou seja: comerciantes como Hildebrand Gurlitt "salvaram" essas peças da aniquilação pelo fogo,
comprando­as ou escondendo­as em seus depósitos. Em 2012, fiscais do imposto de renda
apreenderam quase 1.300 obras de arte no apartamento em Munique de Cornelius Gurlitt, filho do
marchand Hildebrand.

Entre elas, cerca de 380 foram identificadas como parte da lista negra dos nazistas, como o guache
Paisagem com cavalos, do expressionista Franz Marc.

"Não espero que jamais encontremos uma coleção dessa ordem de grandeza, pelo menos no que
concerne à 'arte degenerada'", comenta Meike Hoffmann. "Mas não perdemos a esperança de
encontrar outras obras marcadas com um 'X'."

M AIS SOBR E ESTE ASSU N TO

Mostra explora complexa relação do pintor Emil Nolde com o nazismo
Retrospectiva em Frankfurt suscita debate sobre a posição do artista em relação ao nazismo. Embora os fatos
sejam há muito conhecidos, só agora o mito é desmontado. (10.03.2014)  

"Tesouro de Munique" elevou busca por peritos em arte roubada por nazistas
O caso do colecionador Gurlitt, na Alemanha, colocou em evidência os detetives da arte. Apesar de vitórias
esparsas, seu trabalho é complexo e exige tempo, além de esbarrar na ausência de uma legislação vinculativa.
(02.02.2014)  

Museu britânico vai divulgar lista de "arte degenerada" confiscada por nazistas
Na tentativa de trazer mais transparência à busca por obras de arte roubadas pelos nazistas, museu londrino
anuncia que vai publicar na internet lista com obras confiscadas pelo regime de Hitler. (20.01.2014)  

Devolução de arte confiscada por nazistas esbarra em lacunas legais
Leis alemãs e internacionais fornecem parâmetros insatisfatórios para herdeiros e Justiça decidirem casos como o
do "Tesouro de Munique". Nos 6.300 museus da Alemanha, só 60 peritos elucidam questões de procedência.
(23.11.2013)  

Data 20.03.2014

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10/05/2015 Grande queima de ″arte degenerada″: um mistério de 75 anos | Cultura e Estilo | DW.DE | 20.03.2014

Autoria Daniela Späth (av)

Assuntos relacionados Nazismo, Holocausto, Arte Degenerada

Palavras­chave Arte degenerada, nazismo, nacional­socialismo

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atraso: para os sobreviventes, para Alemanha, então sob o regime em relação ao nazismo. Embora os
a evolução da Justiça alemã, para o nazista, até abril de 1937. fatos sejam há muito conhecidos,
próprio réu, opina o jornalista Felix só agora o mito é desmontado.
Steiner, da DW.

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