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Karl Polanyi: “Nossa Obsoleta Mentalidade de Mercado” | https://plataformapoliticasocial.com.

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Karl Polanyi foi um importante cientista social em seu sentido mais amplo, que atuou em diversas áreas e influenciou muito seus
campos de estudo, em especial a antropologia econômica no século XX. O artigo que se segue, “Our Obsolete Market Mentality“,
escrito por ele em 1947, ainda não havia sido traduzido para o português no Brasil.* Encarreguei-me pessoalmente de traduzi-lo, na
esperança de que algumas de suas reflexões sejam retomadas para pensarmos o presente.

Tendo em vista o pensamento crítico, segundo o antropólogo Arensberg, as classificações empíricas de Polanyi foram “a primeira
ruptura com as interpretações a priori, não-empíricas” para o estudo das relações humanas de troca (cit. “Trade and Markets in the
Early Empires”, pág. 99, no capítulo ‘Anthropology as History’, por Conrad M. Arensberg). Polanyi estudou profundamente diversas
sociedades primitivas ao redor do mundo, bem como as organizações do passado da Europa, donde extrai elementos para quebrar
paradigmas sobre como olhamos para o passado e como entendemos o presente.

Estarei colocando notas de rodapé adicionais para explicar termos ou dar referências auxiliares, uma vez que o artigo é na verdade
uma síntese e um avanço ao estudo maior do autor, o livro “A Grande Transformação“, publicado em 1944, assim como bebe de
outros grandes estudos de antropologia de Polanyi (que infelizmente ainda desconheço em detalhe).

Caso alguma parte não fique clara, peço que postem nos comentários ou enviem um questionamento, crítica ou sugestão. Assim
posso ir atualizando o post com mais referências e informações que podem ser úteis para mais pessoas, ou corrigir eventuais erros.

O primeiro século da Era da Máquina está se encerrando num ambiente de medo e agitação.[1] Seu fabuloso sucesso material foi
devido à pronta, na realidade até entusiástica, subordinação do homem às necessidades da máquina.

O capitalismo liberal foi com efeito a resposta inicial do homem ao desafio da Revolução Industrial. De modo a gerarmos o escopo
necessário para o uso de máquinas poderosas e elaboradas, transformamos a economia humana em um sistema auto-regulado de
mercados, e direcionamos nosso pensamentos e valores para os moldes dessa única inovação.

Hoje, começamos a duvidar da verdade de alguns desses pensamentos e da validade de alguns desses valores. Fora dos Estados
Unidos, dificilmente pode-se dizer que o capitalismo liberal ainda existe.[2] Como organizar a vida humana em uma sociedade da
máquina é a questão que nos confronta, recolocada. Por trás do tecido gasto do capitalismo competitivo eleva-se o porte de uma
civilização industrial, com a sua paralisante divisão do trabalho, padronização da vida, supremacia de mecanismo sobre organismo,
e da organização sobre a espontaneidade. A própria ciência é assombrada pela insanidade.[3] Essa é a preocupação duradoura.

Nenhuma mera reversão aos ideais de um século passado pode nos mostrar o caminho. Devemos afrontar o futuro, ainda que isso
possa envolver-nos em uma tentativa de deslocar o lugar da indústria na sociedade, de modo que o fator externo, da máquina,
possa ser absorvido. A busca por uma democracia industrial não é meramente a busca por uma solução dos problemas do
capitalismo, como a maioria das pessoas imagina. É a busca por uma resposta à própria indústria. Aqui jaz o problema concreto da
nossa civilização.

Tal nova ordenação requer uma liberdade interior para qual estamos muito mal preparados. Nós nos encontramos imbecilizados pela
herança de uma economia de mercado que nos legou visões ultra-simplificadas da função e o papel do sistema econômico na
sociedade. Se a crise é para ser superada, devemos recapturar uma visão mais realista do mundo humano e moldar nosso propósito
comum à luz dessa averiguação.

O industrialismo é um rebento precariamente enxertado sobre a duradoura existência da humanidade. O resultado do experimento
ainda está pendendo na balança. Mas o homem não é um ser simples e pode morrer em mais de uma forma. A questão da liberdade
individual, tão apaixonadamente levantada na nossa geração, é apenas um aspecto desse angustiante problema. Na verdade, ela
faz parte de uma necessidade muito mais ampla e profunda – a necessidade de uma nova resposta ao desafio total da máquina.

Nossa condição pode ser descrita nos seguintes termos:

A civilização industrial ainda pode aniquilar o homem. Mas como a ventura de um ambiente progressivamente artificial não pode, não
vai, e, na verdade, não deveria ser voluntariamente descartada, a tarefa de adaptar a vida em tal meio aos requerimentos da
existência humana deve ser resolvida se for para o homem continuar na terra. Ninguém pode antever se tal ajuste é possível, ou se
o homem deve perecer na tentativa. Daí o tom sombrio da questão.

Enquanto isso, a primeira fase da Era da Máquina correu o seu caminho. Ela envolveu uma organização da sociedade que derivou
seu nome da sua instituição central, o mercado. Esse sistema está em decadência. Contudo, nossa filosofia prática foi
esmagadoramente moldada por esse episódio espetacular. Novas noções sobre o homem e a sociedade tornaram-se correntes e
ganharam o estatuto de axiomas. Aqui estão elas:

Quanto ao homem, nós fomos levados a aceitar a heresia que suas motivações podem ser descritas como “materiais” e “ideais”, e
que os incentivos sobre os quais a vida cotidiana está organizada emergem de motivos “materiais”. Tanto o utilitarismo liberal quanto
o marxismo vulgar favoreceram tais visões.

Ao que concerne a sociedade, semelhante doutrina colocada em consideração foi que suas instituições eram “determinadas” pelo
sistema econômico. Essa opinião foi ainda mais popular entre os marxistas do que entre os liberais.

Sob uma economia de mercado ambas as proposições eram, evidentemente, verdadeiras. Mas apenas em tal economia. No que
concerne ao passado, tal visão não era mais que um anacronismo. No que corne ao futuro, ela era um mero preconceito. Porém sob
a influência das atuais escolas de pensamento, reforçadas pela autoridade da ciência e da religião, da política e dos negócios, esses
fenômenos estritamente circunscritos no tempo foram considerados como atemporais, como transcendendo a era do mercado.

Para superar essas doutrinas, que restringem nossas mentes e almas e muito aprimoram a dificuldade do ajustamento necessário
para sobrevivermos, pode requerer nada menos do que uma reforma da nossa consciência.

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