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UNIVERSIDADE NOVE DE JULHO

DA EDUCAÇÃO FÍSICA À UMA


EDUCAÇÃO FÍSICA BRASILEIRA: A
CAPOEIRA COMO CONTEÚDO

SÃO PAULO
AGOSTO DE 2008
UNIVERSIDADE NOVE DE JULHO

DA EDUCAÇÃO FÍSICA À UMA


EDUCAÇÃO FÍSICA BRASILEIRA: A
CAPOEIRA COMO CONTEÚDO
Prof.Ms.André Luis de Oliveira
Referência didática para a disciplina Capoeira do 3º
semestre do curso de Licenciatura em Educação
Física da Universidade Nove de Julho.

SÃO PAULO
AGOSTO DE 2008

SUMÁRIO
SUMÁRIO...............................................................................................................................................................2
INTRODUÇÃO.......................................................................................................................................................4
Objetivo do estudo........................................................................................................................................6
CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS DA CAPOEIRA...............................................................................................7
Capoeira Angola e a Luta Regional Baiana................................................................................................11
A terminologia capoeira..............................................................................................................................14
ATUALIDADE.......................................................................................................................................................15
ASPECTOS CULTURAIS DA CAPOEIRA...........................................................................................................17
CONSIDERAÇÕES FINAIS: A CAPOEIRA NA EDUCAÇÃO FÍSICA COMO ATIVIDADE EDUCATIVA...........23
CONCLUSÃO.......................................................................................................................................................27
A ÉTICA DA MALANDRAGEM............................................................................................................................32
BIBLIOGRAFIA.....................................................................................................................................................33
Dos Autores..........................................................................................................................................................35
INTRODUÇÃO

“Uma educação física escolar que se orienta para uma nova antropologia acentuando a autonomia do ser humano, deverá
reescrever seus currículos sua didática e sua metodologia”... “ Além disso a educação física no Brasil deve se tornar uma
educação física brasileira! Não existe uma justificativa do porquê no currículo das universidades (formação dos novos
professores) e no currículo escolar só ensinar-se o esporte internacional e não a cultura corporal do povo brasileiro. Por que a
Capoeira não entra no currículo, por que não os jogos típicos das diferentes regiões do Brasil, por que não as danças,
famosas no mundo a respeito do ritmo 'brasileiro'? Esta cultura corporal vive ainda no Brasil, vive no povo.”1

A contundência da citação nos parece dura, mas verdadeira e oportuna, ainda que escrita a 23
anos. Assim, o conteúdo da capoeira, ainda que curricular nesta universidade desde a elaboração do projeto
pedagógico do curso de Educação Física em 1999, tem passado por algumas transformações curriculares e
adaptações pedagógicas.
O fato da capoeira não estar incluída na grade curricular da maioria das faculdades e
universidades de Educação Física bem como a sua quase total ausência nas escolas de Ensino Fundamental e
Médio, sejam elas estaduais ou particulares, nos deixa incomodados. Fazendo parte do corpo docente da Uni9 e
ao mesmo tempo praticantes de capoeira, sentimo-nos obrigados a buscar espaço para “fazer a roda” e estudá-la.
Revendo a história da capoeira e da cultura negra em nosso país, nos parece uma volta às origens: o negro e
suas manifestações folclóricas/culturais - samba, candomblé, umbanda, capoeira - buscando seu espaço.
Depois de estudar a origem da capoeira e de sua possível contribuição para a Educação como um
todo e para a Educação Física em particular, percebemos ainda mais a sua importância, ao mesmo tempo em que
sentimos a falta de sua presença como parte integrante do cotidiano do professor de Educação Física,
imaginando como seria importante se os professores conhecessem um pouco sobre a capoeira, assim como
dominam o basquete, o futebol, o vôlei, manifestações importadas, conhecidas mundialmente e enraizadas em
nossa cultura.
Além disso, começamos a refletir a inexistência não só da capoeira, mas também de outras
atividades culturais populares, que no Brasil se diferenciam de região para região. Como podemos contribuir para
que nossos alunos conheçam mais nossa cultura, regionalismos, seu passado histórico, tradições e o povo que
fez essa história, além de ensinarmos as demais atividades físicas e o esporte?
Esse aspecto, muitas vezes ignorado, foi sendo influenciado por imposições que nos levaram a
um esvaziamento cultural e a um domínio de outras atividades nem sempre adequadas à nossa população por
estarem ligadas a origens e costumes paralelos aos nossos. Chega-se ao cúmulo do desconhecimento de nossa
própria cultura se não ao desprezo. Consideramos que vários elementos envolvem a ausência da capoeira nas
escolas, alguns que comentamos no decorrer do trabalho e outros abertos à pesquisas.
A partir dessas inquietações, surgiu-nos a necessidade de buscar novos conhecimentos sobre a
capoeira, bem como a curiosidade em saber como ela vem se situando no contexto educacional e a perspectiva
dos profissionais ligados a ela. Começa então, uma busca, não de respostas ou receitas prontas, mas de uma
preocupação com um trabalho ousado, desafiador e enriquecedor, porém pouco reconhecido: a capoeira como
atividade educativa nas aulas de Educação Física em escolas de 1º e 2º graus.
A educação no Brasil, com efeito, vem passando por crises e há muito tempo se ouve falar em
mudanças. Vários estudos enfatizam esses problemas e possíveis reflexões tentam dar novas perspectivas à
educação. As mudanças vão desde a formação profissional, sua atuação considerando até mais recentemente às
necessidades da criança e ainda à estrutura político-econômico em que a educação está inserida.

1Jürgen DIECKERT, Elementos e princípios da educação física; uma antologia. p.8.


Na Educação Física, bem como na Educação em geral, a discussão sobre o ensino voltado para
a criança, ou seja, vendo-a como o centro do processo ensino e aprendizagem, aumenta a cada dia com variadas
concepções. DIECKERT (1985), FREIRE (1989), MEDINA (1985), OLIVEIRA (1988), entre outros, enfatizam uma
formação profissional centrada nos interesses do aluno, assim como uma educação física que considere aspectos
culturais e sociais fundamentais ao desenvolvimento integral da criança, onde o professor esteja comprometido
com a luta para essas finalidades na Educação Física:
O que deve ficar claro é que uma Educação Física mais genuína e significativa implica uma cultura do corpo e uma cultura
popular igualmente mais genuínas e significativas, desimpedidas de condicionamentos que dificultem a realização de um
projeto de vida mais humano e digno.2

Assim, percebe-se uma preocupação no elo ação e reflexão. Somente a partir de uma ação
refletida é que se percebe a necessidade de mudanças e o porque mudar, como e o que, ajustando a prática às
influências do dia a dia, às necessidades do aluno e do professor.
Esses estudos sugerem-nos uma questão: como poderemos conduzir uma aula de Educação
Física nestas perspectivas, se poucos se comprometem verdadeiramente com a educação e muitos desconhecem
esse complexo e desconhecido “mundo” das crianças? Como interferirmos efetivamente para uma educação
onde a criança deve ser o estimulo para as nossas buscas?
As propostas de mudanças são muitas, mas as efetivas ainda estão isoladas do contexto
educacional. Qual professor de Educação Física graduado até mesmo nas melhores universidades, adquiriu
conhecimentos sobre a cultura popular brasileira? E quantos dos que adquiriram (às vezes fora da universidade)
trabalham efetivamente para levar a criança ao melhor convívio em seu ambiente? Como resgatar os aspectos
culturais, folclóricos, característicos de cada região, de cada cidade, bairro ou comunidade, seus costumes
incentivando o seu interesse em conhecer outras manifestações culturais?
Com isso, muitas interrogações nos foram aparecendo e nos levaram à busca de respostas.
Assim, primeiro foi o gesto: livre de qualquer preocupação de reflexão; a prática pelo simples prazer de se fazer.
No momento em que nos demos conta que não iriamos apenas fazer, mas também ensinar a fazer, começou-nos
a aparecer algumas inquietações. Não era mais possível apenas se fazer ou mostrar à outras pessoas como se
faz, e sim também o porquê, a razão do que se faz.
A idéia de conceber a capoeira como exercício para o corpo, para fazê-lo mais ágil, mais forte,
mais saudável, já estava assimilada. Como uma prática de luta, estava ainda meio sem saber como iríamos
ensinar dando, ao mesmo tempo, um sentido de educar. Pessoas educadas não brigam por aí! Assim, usá-la
como uma forma de esporte, de educação esportiva que se lança do respeito ao adversário como princípio moral
e de ideal olímpico, poderia ser uma saída. E é o que realmente ocorre com a capoeira na sua maior parte,
diríamos ainda, em quase toda ela.
Encontramo-nos aqui, num tempo vivido até então.
As dúvidas e inquietações que possuímos, com relação a capoeira ser usada como esporte e
defesa pessoal, já estavam assumidas, pois fazia parte do nosso mundo cultural, vivendo no Estado de São
Paulo. Assim, avançamos para olhar o jogo e a dança da capoeira.
A capoeira hoje mostra-se como uma prática desportiva, principalmente no Estado de São Paulo.
Como luta, defesa pessoal (defender-se ou atacar), nós conseguimos visualizar parâmetros de limites com o
possível e o imaginável, numa preparação para uma defesa pessoal. Mas seria isso? A dança e o jogo estavam
numa atitude de passividade, assumimos como fazendo parte da capoeira, estavam perfeitamente aceitos, mas
desprezados no contexto de aula. Mais tarde, após trabalharmos com a capoeira é que nos interessamos em
buscá-la no seu sentido educativo e cultural. Acreditamos que ela, além dos benefícios motores, cognitivos e

2João P.S. MEDINA, A Educação Física cuida do corpo...e "mente", p.83


afetivo-sociais, sem separação do homem como um todo, pode ser um caminho para se resgatar a história e a
cultura popular brasileira.
No confronto entre nossa própria prática e a de outros professores é que surgiu a necessidade
desta busca. Conhecemos então, estudos já realizados nesta área, evidenciando vários elementos presentes na
capoeira, confirmando sua importância tanto pelo seu passado histórico, sua origem, seus mestres, sua tradição,
sua cultura, educação, folclore, como pela atuação de professores de Educação Física e outros profissionais
ligados à ela.

Objetivo do estudo
O objetivo deste estudo é: a) a partir de nossa própria experiência de professor de Educação
Física e de capoeira ao utilizá-la como atividade em aulas em academias, faculdades e escolas de 1º e 2º graus,
ressaltar a importância e o potencial educativo e cultural da capoeira; b) inteirar-nos de nossas experiências de
trabalho, além da concepção que temos de capoeira, situando-a no contexto educacional e cultural.
Procuramos ver como esse novo compromisso passa por obstáculos e preconceitos, que vão
sendo postos por aqueles que irão praticá-la. Como se colocam as instituições escolares, pais, outros
professores, colegas dos alunos praticantes, entre outros e como o professor enfrenta essas barreiras, suas
crenças e expectativas.
A percepção dos professores quanto à sua prática com capoeira se faz relevante à medida em
que ela faz parte do processo de transformação buscado pelo ensino e pela educação. Assim sendo, o que há na
capoeira que a diferencia das outras práticas?
CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS DA CAPOEIRA

Trazido pelos navios negreiros, o negro africano trouxe, além da mão-de-obra barata para os
colonizadores, suas tradições, sua linguagem, sua religião, suas danças, sua música. Entre os traços de sua
cultura expressa, chama-nos a atenção os gestos. Alguns autores mostram exemplos disto. ARTHUR RAMOS
escreve que:

“Na crença e no primitivo, a palavra está intimamente ligada à ação, a serviço da fase oral-sádica da libido (riqueza de labiais
das línguas primitivas). Daí o motivo por que, entre as raças atrasadas (sic!), o gesto, a mímica, tão exuberantes, completam
a expressão verbal. São as componentes agressivas da libido oral que se exteriorizam, assim nesta riqueza de
gesticulação.”3 Igualmente CARVALHO: “Consistem as interpolações em uns termos especiais, frases antigas, interjeições
adequadas, gestos e movimentos das diversas partes do corpo. É por meio delas que conseguem obter a ênfase e o exagero
que têm como indispensável para melhor efeito nos seus discursos.”4
Para Nina RODRIGUES:
“É manifesta na loquacidade de nossa população a sobrevivência desta disposição de ânimo. Este valente concurso da
mímica à expressão falada das línguas africanas é de prever tenha exercido decidida influência originária na exuberância da
gesticulação rasgada na mímica descompassada dos oradores, de todas as culturas, em que é feraz e rica a massa popular
brasileira. Mas o que há de certo é que dela procede em grande parte o uso familiaríssimo, na gente do povo, de substituir
pelo gesto a expressão falada, ou pelo menos dele fazê-la constantemente acompanhada.”5

Reprimido de poder exercer sua cultura, em alguns momentos, o negro feito escravo, modelou-a à
cultura do colonizador. Dessa amálgama de culturas, surge uma sub-cultura formada tanto por manifestações
africanas como branco-européias. Daí falar-se em cultura negra e não cultura africana6. Exemplos atuais dessa
junção vamos encontrar o Candomblé, onde seus santos recebem nomes de santos da Religião Católica7. A este
fato particular, dá-se o nome de Sincretismo Religioso. Neste estudo, pensaremos a sub-cultura nacional dos
negros no Brasil através da expressão da Capoeira.
A capoeira tem uma história que tem a idade do país. Enquanto esporte, apenas em 1972 foi
reconhecida pelo Conselho Nacional de Desportos (C.N.D.). Hoje é vista como um modismo, de ginástica para o
corpo, e até mesmo para uso de defesa pessoal, que é apenas o imediato, o que está aí. Mas a sua essência e
seus múltiplos significados percorrem os tempos e se fazem culturalmente e pela educação.
A literatura sobre o folclore africano no Brasil, apesar de escassa, fornece informações de que
esses povos deixaram um acervo cultural muito grande, principalmente em música e dança. Prova disto podemos
encontrar nas manifestações das festas e tradições culturais e religiosas como o Maracatu - dança por ocasião do
Natal - o Candomblé - festa religiosa - o Maculelê - folguedo popular ligado à Novena da Senhora da Purificação, e
que se caracteriza por uma luta com bastões, que dão o ritmo ao movimento dos participantes. Podemos
prosseguir enumerando as contribuições na música e na variedade de instrumentos musicais, muitos deles
criados pelos próprios negros como o agogô, vindo ao Brasil por via africana8, o caxixi, o berimbau (apesar da
origem obscura, alguns estudiosos acreditam na sua origem afro). As cantigas enfocando fatos da vida cotidiana,

3Arthur Ramos A. PEREIRA, O negro brasileiro, op.cit., p.291-292.

4Dias de CARVALHO, Método prático para falar a língua da Lunda, in Nina RODRIGUES, Os africanos no Brasil. op.cit., p.153

5Nina RODRIGUES, op. cit. p.154-155.

6Roger BASTIDE, As américas negras; as civilizações africanas no novo mundo, p.45.

7 Ibid, p.144.

8Waldeloir REGO, Capoeira angola: ensaio sócio-etnográfico, p.87.


usos, costumes, episódios históricos, a vida e a sociedade na época do negro escravo, sua religião, são cantadas
até hoje.
As manifestações espontâneas africanas expressavam o modo de pensar, agir e sentir de um
povo que de negro passou à miscigenação dando origem à outras raças descendentes, mas que mantiveram por
muito tempo seus usos e costumes (ALMEIDA, 1971).
“Será através de um rápido recurso à história cultural que é possível detectar a grande diversidade na compreensão do tempo
entre os povos.Cada palavra corresponde a uma maneira de sentir e viver o tempo, por isto sua tradução torna-se impossível.
É preciso captar sua sonoridade na paisagem de seu habitat.”9
A vinda dos negros ao Brasil é discutida por vários estudiosos. Segundo REGO (1968), desde a
idade média há relatos de tráfico de escravos negros africanos para Portugal. Após o descobrimento do Brasil, as
informações são duvidosas, pois carecem de precisão. O que se sabe é que Rui Barbosa enquanto Ministro da
Fazenda, no governo de Deodoro da Fonseca, mandou queimar todas as documentações referentes à escravidão
negra no Brasil:
“Considerando que a República está obrigada a destruir esses vestígios por honra da Pátria, e em homenagem aos nossos
deveres de fraternidade e solidariedade para com a grande massa de cidadãos que pela abolição do elemento servil entraram
na comunhão brasileira ... serão requisitados ... todos os papéis, livros e documentos existentes ... relativos ao elemento
servil, matrícula de escravos, dos ingênuos, filhos livres de mulher escrava e libertos sexagenários ... que procederá a
queimar ... e destruição imediata deles. Capital Federal, 15 de Dezembro de 1890. Rui Barbosa.”10

Então, tudo o que dizia respeito ao negro foi destruído, numa tentativa de eliminá-lo da memória
de todos, da sua história e luta na sociedade, do seu passado conturbado. Esta era uma maneira de se ignorar a
existência do negro na sociedade, de todos os conflitos que aconteceram, negando a existência de um povo
sofrido, que em condição de escravo, lutou sempre por um espaço social. Eles podem ter acabado com os
documentos existentes, mas não com a contínua presença e manifestação que persistiu entre eles. Este
acontecimento vem reafirmar como a sociedade se comportou em relação ao negro: preconceito e discriminação,
apagando da história a luta e o sofrimento de um povo.
Acredita-se que os negros já vieram na armada de Cabral, segundo o Visconde de Porto
Seguro11.Também há um documento de 29 de Março de 1559, legalizando a importação de escravos para o
Brasil, vindos de São Tomé, que é o alvará de Dom João III. Outra versão é que em 1538, quando Jorge Lopes
Bixorda, arrendatário do pau-brasil, teria traficado para a Bahia, os primeiros africanos12.
O local de origem dos negros também é controvertida. Há um consenso entre os historiadores de
que tenham vindo de Angola os primeiros escravos. Angola era um centro importante que com a Bahia fazia
trocas de miçangas, aguardentes, facas, etc.
Vários autores, de maneira conflitante e confusa, afirmam ser a capoeira uma prática
autenticamente brasileira: o termo caá (mata) + apó (cheio) + uera (que foi e não é mais), do tupi guarani, significa
“mata despojada”, é a mata que primeiro fora cheia, exuberante e que agora não é mais; Gerhard KUBIC,
antropólogo e membro da Associação Mundial de Folclore, conhecedor de assuntos africanos, diz estranhar “que
o brasileiro chame capoeira de Angola, quando ali não existe nada semelhante”; REGO é um outro defensor da
capoeira ter sido criada em nosso país 13; Edison CARNEIRO afirma que o folclore regional está impregnado de
elementos bantos - os cumumbis, o samba, a capoeira, o batuque, os ranchos de boi, - e ao se referir a capoeira

9Silvino SANTIN. Educação Física: uma abordagem filosófica da corporeidade, p.110.

10Waldeloir REGO, op.cit.p.10.

11Ibid, p.10.

12Ibid, p.11.

13Waldeloir REGO, Capoeira angola: ensaio sócio-etnográfico. passim.


dizia ser praticada inicialmente entre os angolas com o caráter de dança religiosa e não como forma de defesa14.
Disto talvez deriva todo o misticismo contido nas rodas de capoeira da Bahia: cânticos, músicas de berimbau,
chocalhos, pandeiros, atabaques, rezas, “pra chamar o Santo”; CÂMARA CASCUDO afirma ter sido a capoeira,
trazida pelos banto-congo-angolenses que de danças litúrgicas ao som de instrumentos de percussão,
transformaram-na em luta aqui no Brasil15.
Em vista destes argumentos e por não se saber no continente Africano e nem em outros países
influenciados pela raça negra, de manifestação parecida com a capoeira, acredita-se ter sido criada em solo
brasileiro pelos negros africanos, necessitando porém de estudos adicionais para afirmações mais conclusivas16.
LIMA17 traça etapas relacionadas com o desenvolvimento histórico da capoeira e alguns marcos
da história brasileira. Segundo ele, mudanças nas estruturas sociais acarretaram mudanças internas na capoeira,
caracterizadas por mudanças no relacionamento entre sociedade e capoeirista. Pode-se detectar em tais etapas
algo em comum: a violência (agressividade física e social) e sua direcionalidade, ou seja: sistema social para
capoeirista, capoeirista para sistema social, capoeirista para capoeirista. No quadro abaixo 18, estão relacionadas
estas etapas e as mudanças ocorridas na capoeira.

ÉPOCAS FORMAS DE AGRESSIVIDADE


R Pré abolicionista Sistema Social capoeirista
E
I
N
A Pós abolicionista capoeirista Sistema Social
D
O

República Sistema Social capoeirista


capoeirista Sistema Social
Pós revolução Nacionalista capoeirista capoeirista
(Getúlio Vargas)
Atualidade capoeirista capoeirista

Na época da pré abolição, segundo LIMA, o negro feito escravo utilizava seu corpo como arma,
criando um sistema de luta (a capoeira) para sua liberdade. A forte perseguição aos negros e a situação sub-
humana a que foram expostos, justificou sua forma de comportamento e de sua disposição para a luta em
retribuição às atrocidades que sofriam. Nesta época, a violência predominou do sistema social para o capoeirista,
sendo assim, não se pode falar em lutas de marginais mas sim, em luta de oprimidos. Com as invasões
holandesas no século XVIII, milhares de escravos fugiram para a Serra da Barriga, em Alagoas. Começa, então, a
formação do Quilombo dos Palmares (barracas construídas às pressas, cobertas por palmeiras que ali
abundavam) e tendo como habitantes vinte mil negros angolas. Entre eles, Zumbi, escolhido como chefe dessa
união, por ser forte e valente19. Estes fugitivos começam a depredar fazendas, num ato de vingança e com armas

14 Edison CARNEIRO, Cadernos de folclore: capoeira, passim.

15 Gladson de O. SILVA, op.cit.p.11.

16BASTIDE, Roger. As américas negras, op.cit. p.166, e Robert F. Thompson in REIS, Letícia V.S., Negros e brancos no jogo da capoeira; a
reinvenção da tradição, p.1 das notas cap.I, falam de duas lutas negras dançadas que lembram a capoeira brasileira: dance de mani ou bombosa
de Cuba e o lagya da ilha de Martinica.

17Luiz Augusto Normanha LIMA,. A agressividade na capoeira. p.8-34.

18Luiz A.N. LIMA, A agressividade na capoeira, op.cit., p.10.

19Gladson de O. SILVA, op.cit. p.14.


primitivas venceram vinte e quatro expedições chefiadas por capitães do mato (homens contratados pelos
senhores ou pelo governo). E lutaram a capoeira dando inicio aos primeiros movimentos.
SODRE20 relata que antes da abolição, as manifestações dos negros eram toleradas, mas
vigiadas. Eram na maioria das vezes, celebrações religiosas que serviam também para que eles pudessem se
reunir. Até que em 1814 começam as repressões às manifestações negras. Após a proibição do tráfico negreiro
em 1850, a situação se complica. A Inglaterra, que tinha a entrada livre de suas mercadorias no Brasil e em
Portugal, começa a perder o poder quando o Brasil toma a atitude de garantir um mercado interno para o produto
nacional, com uma medida protecionista. Em represália, a Inglaterra começa a bombardear e a seqüestrar os
navios negreiros, que passam a recorrer à clandestinidade. O Brasil perde muito com a crise do tráfico, pois o
lucro era substancioso. Em 1864 cresce o número de alforriados e começa a pressão dos abolicionistas, o que
resulta em 1885 na Lei do Ventre Livre e a Lei dos Sexagenários que vai promovendo rupturas no sistema
escravocrata.
Em 1888 os negros estão nas ruas, o ambiente é crítico e caótico. As condições já são favoráveis
à abolição e ao golpe militar que derruba a Monarquia, em 1889. Após a abolição da escravidão em 1888, ex-
escravos capoeiristas e desempregados, não encontrando lugar na sociedade, caem na marginalidade, levando
consigo a capoeira, que passa então a ser proibida por lei. Neto21 faz uma ressalva que esta perseguição ao
capoeirista começa muito antes da abolição e de sua proibição oficial pelo Código Penal de 1890. Inicia-se já em
1809 com a criação da Secretaria de Polícia e a organização da Guarda Real de Polícia, chefiada pelo então
Major Nunes Vidigal, famoso por sua perseguição aos candomblés, as rodas de samba e em especial, aos
capoeiristas. Para LIMA, tal marginalidade e a postura de violência do capoeirista na sociedade da época deve ser
entendida como uma luta de classes, uma questão cultural de opressores e oprimidos.
A República nasce sob a égide do autoritarismo e do militarismo. Este golpe tenta organizar o
caos, disciplinando a população negra, pois o caos era gerado pelos negros fujões, os quilombos na periferia, os
negros que tinham sido libertados e que agora viviam nas ruas. Muitos capoeiristas venderam seus serviços aos
abolicionistas liberais ou conservadores, ou aos monarquistas ou republicanos.
Com a chegada de D.João VI ao Brasil, em 1808, o Major Nunes Vidigal, temido pelos
capoeiristas, comandou várias perseguições contra estes. Major Nunes, inesperadamente aparecia nos
quilombos, nas rodas de samba, candomblé e arrasava com tudo.
Durante o Império muitos outros chefes de polícia comandaram buscas e os conflitos
prosseguiam entre eles e os capoeiristas. Muitos foram levados à cumprir pena em Fernando de Noronha. E
mesmo no início da República a situação não melhorou. Quando havia solenidades patrióticas ou religiosas, lá
estavam os capoeiras, causando temor à população que entrava em pânico ao ver uma rasteira, cabeçada ou
navalhada, levantando a poeira das calçadas do Rio de Janeiro.
Muitos dos homens ilustres e notáveis que faziam parte do parlamento e outros filhos de ilustres
famílias de almirantes, também eram capoeiristas (chamados de “guaíamus” ou “nagoas”), atuando como chefes
temíveis, extrapolavam assim, a fronteira dos pobres e oprimidos negros.
Logo após 15 de Novembro, Marechal Deodoro mandou o Dr. Sampaio Ferraz exterminar os
capoeiristas. Todos eles, sem distinção de raça, classe ou posição social seriam encarcerados e logo levados ao
presídio de Fernando de Noronha. Em seguida as manifestações começaram a surgir em forma de protestos nas
altas regiões políticas, mas nada alterou essa situação conflitiva. Na República, perpetua-se o direcionamento da
violência do capoeirista para o sistema social através de ações marginais. Surge porém um dado novo:
capoeiristas se organizam em grupos e são usados politicamente por monarquistas e republicanos. Guaiamuns,

20Nestor S.P. NETO (Nestor CAPOEIRA), Capoeira; os fundamentos da malícia, p.36.

21Ibidem p.47-59.
ligados aos republicanos e os Nagoas, aos monarquistas, tornaram-se as maltas mais poderosas do Rio de
Janeiro em fins do século passado. Também fica famosa a Guarda Negra: grupos de negros libertos, em grande
parte capoeiristas e delinqüentes, que não mediam esforços em salvar a monarquia e lutar contra os republicanos
em gratidão aos feitos da princesa Isabel. À esses grupos a sociedade manifestava-se de forma opressora. Nota-
se por exemplo que, através de um código penal, Deodoro da Fonseca decretou a proibição total da capoeira, e
as medidas coercivas da polícia passavam a constituir imperativo da ordem pública. Assim, o decreto nº 847 do
Código Penal da República dos Estados Unidos do Brasil de 11 de outubro de 1890, estabelecia no capítulo XIII,
penas de prisão aos “Vadios e Capoeiras” que fossem encontrados fazendo “exercícios de agilidade e destreza
corporal”22.
Em 1930, a partir da revolução Nacionalista, Getúlio Vargas assume o poder. Encontrando o país
em situação difícil de governar, busca o apoio das sociedade através de atitudes populistas. Assim, em 1934,
legaliza o voto feminino, do analfabeto e do soldado, além de extinguir o decreto/lei que proibia as práticas de
cultos afro-brasileiros, incluindo-se a capoeira. Porém, restringe os cultos, como a capoeira, a recintos fechados e
com um alvará de instalação, criando uma forma de controle sobre estas manifestações. Por volta de 1932, no
Engenho Velho de Brotas, mestre Bimba consegue oficializar a capoeira e abre a primeira academia. Em 1937 a
Secretaria da Educação concede-lhe um registro qualificando seu curso de capoeira como curso de Educação
Física. Os que não eram alunos e nem partidários de mestre Bimba, continuam a fazer capoeira como sempre
fizeram (na rua, em festas de largo) ou em academias que começaram a surgir. Depois disso, a capoeira é
introduzida no currículo de ensino da Polícia Militar do Estado de Guanabara. Desta forma, a violência que havia
nos centros urbanos e provocadas por grupos de capoeiristas, passa a acontecer dentro das academias. Segundo
LIMA, a partir de então inicia-se a violência de capoeirista para capoeirista, permanecendo até nossos dias.

Capoeira Angola e a Luta Regional Baiana

Historicamente, o que se considera como tradição marcial da capoeira, surge a partir da


necessidade de um povo oprimido livrar-se de seu opressor. Por não possuir armas artificiais, o negro escravo
utilizou seu próprio corpo como tal. Em Burlamaqui encontramos uma citação que bem ilustra isso:
“O escravo se mostrava evidentemente superior na luta, pela agilidade, coragem, sangue-frio e astúcia, aprendidas ali,
afrontando os bichos, as feras mais perigosas, lutando mesmo com elas, saltando valados, trepando em árvores as mais altas
e desgalhadas, para se acomodar nas suas frondes, pulando de umas às outras como macacos, onde as nuvens batiam. E
tiravam partido disso, tornando-se assim extraordinariamente ágeis e muito comumente um homem desarmava uma escolta,
punha-a em desordem, fazendo-a fugir. Aplicava um jogo estranho de braços, pernas e tronco, com tal agilidade e tanta
violência, capazes de lhe dar uma superioridade estupenda.”23
Desta tradição marcial da capoeira até meados de 1930 na Bahia, “jogava-se” apenas uma forma
de capoeira, que passou a ser conhecida como Capoeira Angola para deslingüí-la da nova forma que surgiria
então (Capoeira Regional). Alguns estudos mais recentes24, falam de outras formas de capoeira feitas no Rio de
Janeiro e em Pernambuco, entre fins do século passado e meados deste, que tinham diferenças quanto à forma
(eram feitas sem o uso de instrumentos musicais e canto), e à sua intencionalidade (usadas essencialmente para
a luta), em relação a capoeira baiana. Para este estudo, baseio-me na tradição da capoeira baiana feita
atualmente em São Paulo.
22SOARES, O. M. Código Penal da República dos Estados Unidos do Brasil. in: Waldeloir REGO, Capoeira Angola; ensaio sócio-etnográfico,
op.cit., p.292.

23A. BURLAMAQUI, Ginástica nacional (capoeiragem) metodizada e regrada, p.14

24Sezefredo dos P. NETO, (Nestor Capoeira), Capoeira; os fundamentos da malícia, op.cit., p.41-56; REIS, Letícia V.de S., Negros e brancos no
jogo da capoeira; a reinvenção da tradição, op.cit., passim; SALVADORI, Mª. Angela B. Capoeiras e malandros; pedaços de uma sonora tradição
popular (1890-1950), op.cit., passim.
Em LIMA25, encontramos uma descrição a partir do discurso dos Mestres de capoeira Angola, do
que ela é. Assim, para alguns Mestres, capoeira Angola é algo que não pode ser expresso em palavras, mas no
gesto e expressão do capoeirista que faz capoeira Angola. Nela, há todo um conjunto de movimentos peculiares
que pertencem à cultura negra e que por isso, gera certo preconceito quanto à sua prática. Neste conjunto de
gestos e expressões, deve-se ir além do cumprimento mecânico do ritual, como o caso de capoeiristas novatos,
na tentativa de jogar a Angola. Para evitar esta descaracterização, no aprendizado os Mestres não seguem uma
seqüência de planos de aula, mas uma percepção do que o aluno necessita. Muniz SODRÉ comenta:
“No ensino da capoeira Angola tem uma coisa efetivamente original com relação à pedagogia ocidental: o ensino
se passa por iniciação, se dá com o mestre assistindo ao aluno aprender. Ele dá as condições, faz a roda, toca o
berimbau e vê o aluno aprender ... o olhar do mais velho vendo você aprender.”26
No jogo de Angola, há toda uma corporificação da capoeira, uma harmonia do ritmo, da
musicalidade, da pessoa com quem se está jogando e das outras presentes; “não há mais um interno e um
externo, mas um contínuo, como no caso do instrumento que o artista toca que torna-se um prolongamento dos
seus braços, ou quando o pintor empresta o corpo ao mundo para pintar” 27. Aliás, no jargão dos capoeiristas não
se fala em “lutar” capoeira mas “jogar”. Capoeira se joga. Pode ser identificada como brincadeira, como vadiagem.
No jogo da capoeira Angola é preciso muito “jogo de cintura”, para saber esconder os movimentos para “pegar o
outro”, “pegar no laço”, uma armadilha que se faz fingindo-se estar distraído para que o adversário pense ser esta
a sua oportunidade de atacar. É aí que pode ser pego, pois ao estar preocupado com a ação de atacar, o
capoeirista fica desatento para se defender. Esta idéia expressa não deve ser confundida como uma retribuição
de violência ou sair-se vencedor, mas de negacear, de se fazer distraído e tapear o parceiro na sua iniciativa de
agressão. Capoeira Angola se joga “com” o outro e não “contra” o outro. O jogo exige a presença do outro.
Ninguém poderá sair-se vencedor em um jogo se não houver uma outra pessoa com quem se esteja jogando. O
jogo ganha características de verdadeira cooperação. Nesta ambigüidade de características do jogo, está contido
uma das lições de vida que permeia a capoeira Angola: não confiar nas aparências e nunca desprezar os outros;
não querer pegar uma pessoa distraída, mas respeitá-la, pois a distração pode ser um grande disfarce.
Os ensinamentos para o jogo da capoeira Angola podem servir para o “jogo” das relações
humanas: agir com prudência, saber “con-viver” com a maldade do mundo. Saber jogar com isto sem sair da
harmonia. Daí os cantos e as músicas: tudo deve ser feito sem sair da cadência do berimbau; é preciso “pegar o
outro” sem quebrar a harmonia do jogo. LIMA28 afirma que este sentido de ligação da capoeira Angola com a vida,
esteve presente num momento histórico, onde existiu uma necessidade do negro conquistar seu lugar na
sociedade. O negro liberto deveria, então, “con-viver” (sic!) com o poder, com a falsidade, com o preconceito para
conseguir um lugar, e isto não poderia ser através da violência e da marginalidade: era preciso aprender a “não
dar murro em ponta de faca”. O negro reunia-se para cantar, tocar e aprender a Capoeira afim de aprender o
“jogo” das relações humanas. Por esse motivo, jogar capoeira Angola sempre requereu e ainda requer muita
experiência, que não pode ser ensinada, mas que pode ser adquirida na vida.
Para “con-viver” (sic!) com a maldade do mundo, o capoeirista recorre, além do jogo propriamente
dito, ao místico e ao mágico passado por esse jogo. A “mandinga” pode surpreender quem não conhece a história
da Capoeira Angola. Não se pode entender Capoeira ou qualquer outra manifestação da cultura negra sem falar
da sua religião, de sua cultura como um todo. Na música, na letra das ladainhas, na percussão dos instrumentos,

25Luiz A.N.LIMA, Capoeira angola; lição de vida na civilização brasileira. passim.

26Muniz Sodré in NETO, N. S.P. Capoeira; os fundamentos da malícia.p.69.

27Luiz A. N. LIMA, Op. cit., p.125

28Ibid 130-131.
perpassa todo o místico da roda de capoeira Angola. O berimbau é o “guia” da roda; o que ele toca, o capoeirista
tem que executar no jogo. Esta forte presença do místico e do religioso na capoeira Angola, é própria de uma
cultura repleta de um simbolismo interminável, muito embora, grande parte dos capoeiristas atuais não mais
acreditem neste místico/religioso, na possibilidade do “corpo fechado”, oração, “patuá” e “mandinga”.
LIMA afirma que a relação da Capoeira com a vida acaba determinando um “portar-se” do
capoeirista jogador de Angola. O capoeirista não é exibicionista, não prova nem mostra o que sabe, tem
consciência de que, por mais que saiba, sempre tem o que aprender, por que a Capoeira é um aprendizado
constante. Daí ser humilde, cheio de mistérios, sempre desconfiado das aparências e mostrando-se sempre
sorridente nas rodas de capoeira. Mestre Pastinha, expressa isto na seguinte frase: “Angola, capoeira, mãe:
mandinga de escravo em ânsia de liberdade; seu princípio não tem método; seu fim é inconcebível ao mais sábio
capoeirista”
Vicente Ferreira Pastinha, o mestre Pastinha, grande capoeirista, pintor e poeta popular, tornou-
se o maior representante e precursor desta forma de jogar capoeira.
Na década de 20, surge uma nova forma de se jogar capoeira. Manuel dos Reis MACHADO
(1900 - 1974), conhecido no mundo da capoeira como Mestre Bimba, incorpora golpes novos, tirados do batuque29
e de outras lutas da região, à tradicional capoeira Angola que, ao seu ver, era pouco eficiente enquanto luta.
Assim, a capoeira de Bimba passa a ser jogada com mais velocidade e objetividade, o ritmo passa também a ser
acelerado. Uma série de costumes e gestos não são mais realizados ou feitos somente no jogo de Angola. Entre
os novos golpes, Bimba cria uma seqüência de projeções a que chamou de “cintura desprezada” e 8 seqüências
de ensino, nas quais, em dupla, realizava-se todos os golpes e contra golpes que compunham seu estilo. Além da
velocidade acelerada, incorpora no ritmo, cadências ou toques no berimbau, cada um com propósitos e formas de
jogar diferentes do jogo de Angola.
Alguns autores30 afirmam que Mestre Bimba copiou golpes de outras lutas (jiu-jitsu, judô, karate,
savate (luta francesa), e luta-livre), para serem incorporados à sua capoeira. Tem-se ouvido de alunos diretos de
Mestre Bimba, hoje consagrados Mestres na Bahia e São Paulo, que isso não é bem verdade. Estes mesmos
alunos, afirmam que Bimba era alguém de personalidade marcante, vivaz e dinâmico. Figura carismática e temido
lutador. Em vários desafios de luta, jamais foi vencido. Por tais características e depoimentos ouvidos, é um
descrédito ao espírito inventivo de Mestre Bimba, afirmar que tenha copiado golpes de outras lutas, além do que,
tais manifestações (Judô, Jiujitsu, Savate, Karatê, luta-livre, etc), não serem tão populares nos anos 20, na cidade
de São Salvador, para serem aprendidos e copiados.
Outra crítica feita ao método de Bimba está na sua aproximação a Getúlio Vargas e sua ideologia
chamada de “Retórica do Corpo”. Com a intenção de acabar com a marginalidade e arruaça feita pelos grupos de
capoeiras dos anos 20-30, até então cerceados por decreto lei, mas sem muito sucesso, Getúlio Vargas resolve
permitir a liberação para poder controlar. Por ter sido Mestre Bimba o primeiro a receber alvará de permissão para
instaurar a também primeira academia de capoeira, alguns pesquisadores aproximam este fato aos propósitos
ideológicos de Vargas. Ainda que óbvio o efeito, é importante lembrar a limitação escolar de Mestre Bimba e daí
sua aparente inocência aos propósitos de Vargas. Por outro lado, é possível que houvesse mais um oportunismo
de Bimba, do que uma manipulação de poderes políticos.

29Forma de dança onde dois indivíduos, no meio de uma roda de samba, tentam desequilibrar um ao outro, arrastando ou batendo contra as
pernas do oponente, sem no entanto, sair do ritmo imposto e sambando. Conhecido no Rio de Janeiro como rodas de pernada.

30Waldeloir do REGO, Capoeira angola; ensaio sócio-etnográfico. op.cit. p.33, e Letícia Vidor de S. REIS, Negros e brancos no jogo da capoeira;
a reinvenção da tradição. passim.
Atualmente fala-se em capoeira “de” angola para distingui-la da capoeira regional, mas estudos
mostram que não há certeza de que em Angola se praticava esse tipo de jogo, ou se eram de Angola os primeiros
negros a jogar a capoeira31.
Os negros de Angola eram “insolentes, loquazes, imaginosos, sem persistência para o trabalho,
mas férteis em recursos e manhas”. E é isso que caracteriza a capoeira angola, a sua maneira maliciosa como é
jogada, cheia de arte, malandragem, criatividade e crença. A atração dos negros por festas, fertilidade de
imaginação e agilidade eram suficientes para usarem e abusarem dos folguedos conhecidos e inventarem muitos
outros. Esses eram os seguidores de mestre Pastinha.
Apesar de existir uma só capoeira com movimentos “padrão” a todos os capoeiristas, ela evoluiu e
se enriqueceu com novas variações e movimentos mais precisos que não interferiram na sua integridade.
A respeito ainda da capoeira Regional de Mestre Bimba, da mesma forma com o que ocorreu com
a Angola, de sua elaboração nos anos 20-30 até hoje, perdeu-se muita coisa e muito foi-se acrescido. Fala-se em
tradições na roda, de indumentária, ritmo, ladainhas, golpes que foram sendo mudados. A originalidade destas
manifestações foram e estão sendo perdidas possivelmente pelo seu maior veículo de aparente perpetuação: a
popularidade.

A terminologia “capoeira”

O termo capoeira é citado pela primeira vez em 1712 por Rafael Bluteau no Vocabulário
Português e Latino. É também mencionado em “Iracema” (1865) de José de Alencar e em “O Gaúcho” em 1870
(REGO, 1968, p17). Na disputa de se definir o termo “capoeira” surgiu:
-caa-apum-era: ilha de mato já cortado (vocábulo tupi);
-co-puera: roça velha;
-caá-puêra: mato, floresta virgem que não existe mais (palavra guarani);
-coó-puêra: mato que se forma numa roça abandonada;
-ave de nome capoeira (Odontophorus capueira) encontrada no Paraguai, sul da Bahia, Rio de Janeiro,
sul de Goiás, Mato Grosso, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Ave pequena que anda em
bandos e no chão voa rasteiro, tem pés curtos e corpo cheio. O macho é ciumento e trava lutas com seu rival.
Também chamada de Uru.
-capoeira: cesta para guardar capões (frangos, galinhas);
-homem que pratica a capoeira.
A definição mais aceita entre os tupinólogos é caá - mato, floresta virgem, mais puêra - que quer
dizer “o que foi, o que não existe mais”, proposto em 1880 por Macedo Soares. O Tupi da Geografia Nacional
propõe Kopuera como roça abandonada, da qual o mato já tomou conta, mato renascido32.
Podemos dizer então, que a Capoeira para alguns pesquisadores teve sua origem em solo
brasileiro por negros africanos, pois há um consenso nesta idéia. Quando eram trazidos para o trabalho escravo
no Brasil, os negros inventaram a Capoeira como diversão e luta. Entretanto, SILVA 33 coloca em dúvida esta tese
quando cita o livro “A arte da gramática da lingua mais usada na costa do Brasil”, do Padre José de Anchieta,
editado em 1595, onde ele já falava que os índios tupi-guaranis divertiam-se jogando a capoeira.
CAMPOS34, relata que vários pesquisadores que estiveram na África, principalmente em Angola,
não viram nada parecido com a capoeira do Brasil.

31Waldeloir do REGO, op.cit. passim.

32Ibidem, p.43.

33Gladson de O. SILVA, op.cit. p.10.


Quanto ao termo “capoeira”, este pode ter sofrido muitas modificações como no caso de outras
palavras do vocabulário brasileiro como “tobatinga” que se transformou em “tabatinga”; ou “caryboca” em
“coriboca” ou “curiboca”, e por que não a antiga “copêra” em “capoeira”? .
35

Atualmente entendemos capoeira como mato ralo que, ou se desenvolve em roças abandonadas
ou substitui a mata virgem que se derrubou, ou ainda matos que cobrem terrenos onde não há vestígios de matas
primitivas.

ATUALIDADE

Atualmente algumas universidades incluem a capoeira em seu currículo, como disciplina optativa
ou como curso de extensão à comunidade e até como disciplina obrigatória no curso de graduação em Educação
Física.
Podemos encontrá-la também em academias, clubes, algumas escolas e na rua, como forma de
apresentação, brincadeira, jogo, luta, dança ou esporte. Quando algumas academias ou grupos de capoeiristas
ensaiam uma seqüência de movimentos pré-estipulados e levam a público, a capoeira se mostra como um
espetáculo, algo elaborado e determinado para uma certa população, então temos uma apresentação, um jogo
ensaiado onde o som, o ritmo, também é previsto com antecedência e onde outras manifestações culturais podem
acontecer como forma de representações históricas de uma passagem importante como por exemplo a formação
dos Quilombos, a morte de Zumbi, a perseguição dos escravos e os primeiros gestos de luta, etc. Também
encontramos a capoeira jogada entre dois meninos de rua em uma praça, ou entre capoeiristas onde o prazer, a
brincadeira, o recrear-se, o lazer, sem preocupação com nada e com ninguém é o objetivo. Às vezes sem som de
instrumento, eles se divertem, derrubam um ao outro sem maldade, param quando estão cansados, recomeçam e
deixam o lúdico tomar conta daquele momento de descontração. A capoeira enquanto jogo se manifesta como
algo mais determinado, os capoeiristas não estão jogando contra, mas com um companheiro e o objetivo não é
acertar um movimento efetivamente mas apenas unir a sua habilidade ao prazer de jogar, ao som imposto pelos
instrumentos como resgate de uma confronto que um dia os negros tiveram que enfrentar. Há todo um respeito no
jogo e uma tradição a ser seguida e ainda observa-se a presença de elementos como a falsidade, a artimanha, a
malícia, a “mandinga”, não em prejuízo do companheiro, mas em satisfação mútua. Na capoeira luta os golpes
são efetivos e caracterizam-se por traumatizantes, desequilibrantes, esquivas e acrobáticos. Dá oportunidade de
testarem-se frente a situações inusitadas de ataque e defesa. Esses movimentos dão um sentido marcial (de
guerra), que hoje perderam sua utilidade, já que não necessitamos de tal confronto. Como dança, a capoeira tem
muito gingado, expressão gestual, inovação de movimentos, emoção pela expressão dos seus movimentos
aliados a melodia, ao ritmo e letra das músicas. É comum percebermos seu lado jogo-dança com o som do
berimbau ritmando os movimentos e fazendo com que as pessoas deixem o corpo falar por elas.
Na capoeira como esporte, organizada em eventos regrados e padronizados, busca-se a
competitividade através do confronto de habilidades e capacidades físicas de atletas, o que vem a ser
preocupação para os órgãos organizadores (Confederação, Federações Estaduais e Federações Universitárias),
na elaboração de uma forma ideal de competição. Podemos perceber a ambigüidade da capoeira manifestando-se
como jogo, luta, dança, esporte, sem assumir nenhuma dessas características isoladamente, mas sendo todas ao
mesmo tempo.”Melhor seria se chamássemos a capoeira de um jogo-de-luta-dançada.” (OLIVEIRA, 1993, p.23).
Há um projeto elaborado pelo Ministério da Educação, que através do SEED/ME liderou um
“Programa Nacional de Capoeira”, que se propunha a incluir a capoeira em escolas de 1º e 2º graus. Mas este

34Luiz A.N. LIMA, Capoeira; um discurso em extinção, p.27.

35Waldeloir do REGO, op.cit. p.30.


não deve ter saído do papel, pois até agora nada se tem notado quanto à esse programa nas escolas.
Praticamente a capoeira nas escolas não existe e são poucos os professores que ousam introduzi-la em suas
aulas de Educação Física ou por desconhecê-la ou por preconceito. Algumas prefeituras também já tiveram
espaço para essa atividade ser difundida como prática educativa como foi o caso do “Projeto Capoeirando” nos
clubes e praças de esporte da Prefeitura de Santo André (de 1989 a 1992) e que, com a mudança de
administração, foi extinto, interrompendo todo um trabalho feito por profissionais que se propuseram em inovar a
Educação Física com a capoeira, ignorando o seu valor cultural e educativo.
Com a transformação que a capoeira vem sofrendo, a preocupação maior é por uma luta mais
eficiente, onde o seu lado cultural se perde, dando espaço somente aos que querem se sobressair com lutas cada
vez mais violentas e despreocupadas com o indivíduo que aprende e que sente, pois não há um respeito pela
pessoa do outro nem com suas necessidades e dificuldades.
LIMA (1990) ressalta a idéia de que a capoeira, enquanto luta, dança e expressão cultural
genuinamente brasileira, cria uma sub-cultura quando assume aspectos particulares e peculiares nas diferentes
regiões. Enquanto sub-cultura deve apresentar regionalismos na forma de expressão. E assim, se a “educação é
uma questão cultural por excelência, deve revelar as formas de fazer as coisas de um povo ou de parte de um
povo”(p.15). De forma semelhante se expressa SILVA36:

Se a capoeira, a arte marcial brasileira, nascida e criada com os mesmos objetivos de outras artes marciais, ultrapassou o
tempo da luta pela liberdade, ultrapassou mais ainda o tempo dos capoeiras assalariados e marginais, frutos da política e da
sociedade de uma época remota, resta-nos atualmente a responsabilidade, a obrigação e o dever de não mais encará-la
como marginalização, um crime. Incriminemos sim todas as pessoas dos vários segmentos da sociedade que dela se utilizam
para fins inconfessáveis, pois são elas que a estragam, enegrecem e encobrem seus verdadeiros objetivos de socialização,
educação e integração... (p.39).

36Gladson de O.SILVA, op.cit. p.39.


ASPECTOS CULTURAIS DA CAPOEIRA

Com certeza podemos afirmar que a capoeira, apesar da sua importância, é ignorada por muitos
educadores que desconhecem o seu valor cultural, os fatos históricos reais que marcaram seu aparecimento, e a
sua contribuição como cultura popular brasileira. Todas as crianças devem tomar conhecimento da cultura dos
povos antepassados, sua origem, luta e perseguições, principalmente do povo negro, que nos deixou ricos
elementos culturais em suas músicas, folguedos populares, festas, crenças, rituais, e que muitos de nós
vivenciamos no dia a dia sem ao menos nos importarmos com sua origem e significado.
POPOVIC define cultura como:
“a maneira de um grupo social organizar sua vida; isso inclui as tradições, os valores, os costumes que são transmitidos às
crianças que fazem parte de um grupo determinado”. 37

Ressalta CUNHA, que há alguns traços culturais impostos pela classe dominante, por meio da escola e
meios de comunicação, às camadas menos favorecidos. Estas com muita sutileza vão se incorporando à
população, seus valores, hábitos, símbolos, etc. RODRIGUES também fala a este respeito:
“A cultura de massas (...) em crescente expansão, graças à ampliação gigantesca dos veículos de comunicação massivos
(...) é anacional, sem nenhuma raiz com o regional. (...) Uma das conseqüências desse admirável mundo novo é a
internacionalização do produto artístico-cultura. Essa internacionalização, evidentemente, quando não fortalecidas as culturas
nacionais, as conduzem para o aniquilamento ou para a subversão, mediante a simbiose com as manifestações alienígenas,
direta ou indiretamente. Quando não é mantida uma relação constante com as formas de expressão popular, quando ela não
é encarada como algo a preservar e estimular, quando vigora uma mentalidade de simples importação de cultura, as culturas
nacionais destinam-se ao desaparecimento e entram em acelerado processo de debilitação”. 38
Atualmente, percebe-se que a preocupação maior dos educadores é a de ensinar o que é importante para
a classe dominante que dita as regras, e não para a criança atendendo à sua realidade e necessidade. Nas
palavras de TINHORÃO: “O que se chama universal, é o regional de alguém imposto para todo o mundo” 39. Por
revelar fatos históricos que marcaram época, a capoeira como Educação Física pode ser considerada como uma
atividade transformadora.
Através da musicalidade, dos movimentos, dos cantos, do diálogo em aula, a capoeira como Educação
Física pode transmitir aspectos marcantes da sociedade brasileira, como as preferências dos negros, seus
romances, trabalho, crenças, amigos e inimigos, costumes, sofrimento, características estas notáveis em suas
cantigas.
A capoeira é um instrumento que propicia condições para que o educando se torne sujeito na construção
de sua história, conscientes das coisas que o cercam, desenvolvendo o seu conhecimento cultural que nada mais
é do que uma verdadeira educação com total liberdade de participação e expressão40.
Na concepção de FERREIRA41, para que haja uma “educação humanista e democrática, torna-se
necessário desenvolver um homem comprometido com a história, crítico do contexto que o cerca, um homem que
reflete e age sobre essa realidade a partir dos elementos que ela mesmo oferece”.
Os professores e mestres que trabalham a capoeira em escolas, não podem deixar de situar o seu “fazer”
num contexto histórico-cultural para que ela não resulte apenas em mais uma das tantas atividades esportivas
dadas, fragmentadas, maçantes e repetitivas. Algumas práticas alternativas também deveriam ser propostas nas

37M. I.da CUNHA, Educação Física, um ato pedagógico, p.203.

38Jaime RODRIGUES in LOPES, Nei. Regionalismo e globalização do esporte. Conferência Brasileira de Esporte Educacional, p.45.

39José R. TINHORÃO, Um festival que nunca vai passar na Globo, in Pasquim, nº 856, semana de 5 a 11 dez 1985.

40Luiz S. SANTOS, Educação; educação física, capoeira, p.27.

41Ibidem, p.29.
escolas para ampliar a opção dos alunos, e atender a parte folclórica e cultural, muitas vezes esquecida nas
escolas e desconhecidas pelos professores.
A capoeira não se extinguiu. Algumas pessoas, preocupadas em preservar e dar continuidade a essa
prática, ensinaram seus descendentes que a mantém até hoje, ainda que tímida. Mestres e seguidores resgatam
sua história, contando “causos” antigos, lembrando com sabedoria a época dos grandes mestres, quando
ensinavam do seu jeito, as “mandingas” e técnica dos golpes. A partir daí, seus alunos tentam recuperar um
pouco dessa época, esquecida por muitos, mas viva de uma maneira ou de outra para outros. Aos praticantes de
capoeira, essa história deve estar presente na sua prática e na sua memória. Resgatar a história de um povo,
transmitindo-a na prática, é a mensagem mais importante que deve ser ressaltada pelos educadores e mestres
que trabalham com capoeira. Olhar um jogo entre dois capoeiristas é, sem dúvida, voltar ao passado, valorizando
seus costumes, rituais e a cultura deixada por eles, apesar das transformações sofridas com o tempo.
TAVARES vai mais longe. Em sua dissertação42 quer mostrar que no corpo do capoeirista de hoje esta
estigmatizada toda a história do negro feito escravo no Brasil.
Segundo VIEIRA43 há muito tempo os intelectuais se preocupam com a questão da necessidade de
importação de padrões de comportamentos estrangeiros o que fragiliza a nossa identidade cultural, imitando
muitas vezes costumes europeus que não se adequam à nossa realidade. Os estudiosos já acreditam na
impossibilidade de pensarmos numa cultura brasileira “pura” ou autêntica, com o envolvimento da nossa cultura
em tantas imagens importadas, apesar da sua importância para o desenvolvimento do país. Os jovens se
preocupam em seguir padrões de comportamento iguais aos de outros jovens sem criticidade e criatividade,
imitam o vestir e o calçar de outros países que a mídia ressalta como a moda atual (como vestir calças de marcas
famosas, tênis de último modelo, etc.), além de se alimentarem todos com sanduíches das mesmas casas
espalhadas pelo mundo todo. Nei LOPES44 se refere a isso ao criticar a globalização da cultura:
“...é a mídia que vai trabalhar para vencer ocasionais resistências à massificação, procurando influenciar comportamentos e
ditar estilos de vida. O resultado desse trabalho é, primordialmente, a hegemonia da língua inglesa e a disseminação de um
jeito de vestir absolutamente globalizado e de conotação esportiva (esporte é bem-estar, é “emoção pra valer”), onde o tênis
(o calçado) é uma espécie de ícone, ao lado dos bonés de beisebol”.
Então, se eles saírem do país e lhes perguntarem o que é que se tem no Brasil, provavelmente eles não
conseguirão se lembrar de algo cultural de seu próprio país e dirão que o que tem aqui, também tem em outros
países. Poucas pessoas sabem da riqueza cultural de cada região brasileira, das festas folclóricas, das danças,
das comidas típicas, do jeito de falar, andar e se expressar ou seja, do regionalismo cultural, característico de seu
país. Os meios de comunicação são muito poderosos e só aquilo que é considerado bonito e moderno é que é
mostrado, é que leva ao sucesso na vida, ao “status” social. Num país capitalista só vence quem vende e ganha
mais, cada vez mais. O preconceito contra a própria cultura pode existir e se agravar quando as classes a
difundem por toda a sociedade através dos meios de comunicação de massa, tornando-a dependente dessa
cultura (como na música, nos programas de televisão). Mas há ainda quem preserve a transmissão das tradições
populares, como as festas, danças e rituais religiosos para seus descendentes, mas que acabam sendo abafadas
pelo enorme poder da mídia nas atividades de massa propostas pela classe dominante.
Imaginemos a situação das escolas, especificamente nas aulas de Educação Física, onde todos ensinam
as mesmas coisas, para milhares de crianças com características as mais variadas possíveis, e que saem da
“forma” (daí o verbo “formar” largamente usado como sinônimo de educar que deve ser repensado) iguaisinhos,
com os mesmos ideais. A infinidade de características culturais de cada região, a particularidade de cada criança,

42Julio C. de S. TAVARES, Dança da guerra; arquivo-arma, passim.

43Luis R. VIEIRA, Criatividade e clichês no jogo de capoeira, p.34.

44Nei LOPES, Regionalismo e globalização do esporte; a importância das raízes in Memórias; conferência brasileira de esporte educacional,
p.44-45.
são simplesmente ignoradas pelos professores, sem contar a má qualidade desse ensino, que deixa a criança
sem capacidade para questionar e criticar as informações que recebe.
Será que podemos concordar com a idéia de que ignorar a subjetividade e a nossa cultura ou que ensinar
o que vem de fora, ao invés de se investir na riqueza que temos em mãos é melhor? Valorizar o estrangeiro, a
cidade grande, o moderno, o popular, o rendoso, é mais significativo para a sociedade? Para qual sociedade?
Para uma população menos privilegiada, que não tem acesso à isso, nada disso teria tanto sentido, já que a
realidade deles seria outra. Talvez eles necessitassem sim de algo que reforçasse e valorizasse os seus próprios
costumes, a cultura local, para que isso não se perdesse com o tempo.
Na valorização do patrimônio cultural, a própria Constituição de 1988 faz referência em seus artigos 215 e
216 que, entre outros postos, estabelece que o “Estado protegerá as manifestações das culturas populares,
indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional”; e definindo o
“patrimônio cultural brasileiro”, a ser preservado, como tudo aquilo que for referencial da identidade, da ação e da
memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira.
Para LOPES45 esta desenfreada perda de identidade se dá, em parte, aos históricos formadores de
opinião pública brasileira (“elites pensantes”) que desde sempre sofreram de uma crônica predisposição à
condição de colonizado. Transgrediram o aspecto jurídico (o Brasil foi colônia somente entre 1500 e 1822), e
mantiveram-se culturalmente fiéis aos padrões das sucessivas metrópoles: primeiramente as “elites pensantes”
formaram-se na Inglaterra, até porque, entre 1808 e 1812, as notícias de Portugal chegavam ao Brasil através dos
jornais de Londres. Com a queda de Napoleão em 1816 e a missão artística francesa, chamada por Dom João VI
para começar a “civilizar”o Brasil, elas foram afrancesadas dos pés à cabeça, legando às gerações seguintes
requintes de gosto que perduram, por incrível que pareça, até hoje (o caso dos menus dos restaurants de luxo, os
ateliers de moda, os abat-jours, as bombonnières e os buffets, que ainda enchem a boca (e a cabeça) de tanta
gente por aí.
Na sucessão, devido à Segunda Guerra Mundial, os “bem pensantes”começam a funcionar com a cabeça
do Tio Sam: fundam em 1937 o IBEU, Instituto Brasil-Estados Unidos, com o objetivo de fazer frente à influência
alemã que grassava entre os círculo do governo e a classe média de então. Instala-se então, e a nosso ver
particular, definitivamente até que se faça algo, o american way of life no Brasil: hamburgers, Coca-cola, o que se
toca na rádios, os filmes que se vê na TV e no cinema e a Internet, maior veículo da Globalização, que por sua
vez, é o maior exemplo do imperialismo americano.
A tecnologia, a modernização, têm provocado avanços, mas para uma parcela da população que está se
adaptando e que já vem trabalhando dentro dessa realidade, o custo da tecnologia é a perda das tradições.
VIEIRA46 atribui o nome de “clichê” à “toda imagem (visual, sonora) estereotipada à qual se atribui um
conjunto de características e uma certa valoração”. São os clichês que consolidam e direcionam, através da
repetição, os modos que a sociedade se comporta, se veste, pensa e age numa cultura de massa indiscutível. A
população reflete uma cultura alienígena, importada, copiada, distanciando a vida da realidade.
Ele ressalta, então, que o problema da capoeira está em que algumas técnicas de movimento, estão
sendo mais valorizadas em detrimento de outras, e estas vão ganhando importância até adquirem um certo
“status” entre os capoeiristas. Isto provoca uma supervalorização em um tipo de movimento, e a criança passa a
se manifestar sem criatividade e a dar menos importância aos outros aspectos do jogo como a música e a
expressão individual.

45Ibidem. p.46.

46Luiz R. VIEIRA, Criatividade e clichês no jogo de capoeira, p.60.


Ressalta ainda que, com a imitação que os jogadores fazem uns dos outros, o seu próprio jogo vai
ficando estereotipado e constroem “sua visão de mundo e suas formas de expressão a partir de categorias pré-
existentes”47.
Podemos observar que cada grupo desenvolve características próprias e sempre uma é mais aceita que
outra, por seus padrões estéticos serem dominantes. É claro que não podemos negar essa ocorrência, mas um
cuidado maior deve ser tomado pelos responsáveis em divulgar essa atividade, para que o jogo enquanto
expressão e manifestação de um grupo social escravizado não seja esquecido. Além disso, os grupos já formados
deveriam criar sua própria maneira de se manifestar, sem dar tanta importância aos movimentos reproduzidos,
valorizando a tradição da capoeira. É preciso que sejamos críticos, não podemos simplesmente “fechar os olhos”
e aceitar tudo o que nos é imposto pela sociedade que domina e impõe as regras. Buscar a espontaneidade dos
movimentos, a criação de expressões próprias, a liberdade de poder escolher a forma de se comunicar com o
mundo e com os outros, a troca de experiências com o outro, sentindo o “jogo” envolvente dos seus gestos
improvisados e imprevisíveis, faz parte dessa harmonia de movimento encontrado na capoeira.
COELHO NETO 48 já reconhecia, há tempos, que os valores da capoeira eram obviamente substituídos
pela função do esporte, na construção da imagem da nação e a disciplina individual do corpo e seu adestramento.
A discriminação e o preconceito são fatores que também provocaram conseqüência marcantes dentro da
comunidade negra, o que acarretou uma negação de sua cultura, distanciando-a cada vez mais de suas raízes.
Mas, sempre na busca de autonomia e liberdade, o negro, considerado preguiçoso e vadio, vem lutando
por seu espaço na sociedade desde a escravidão. Levado à ociosidade, à malandragem, pela sociedade
repressora, ele provavelmente teve que se submeter à vadiagem e à malandragem. Se tivesse liberdade de
expressão talvez não teria sido tão discriminado, já que poderia lutar em igualdade social.
O corpo do capoeirista passou então, a ser sua arma, seu instrumento de trabalho, luta por um espaço,
por aqueles que tinham um só objetivo: a liberdade.
O corpo fazia a mediação do Ser e do mundo. Expressava uma linguagem, a comunicação que eles
encontraram para se relacionar com seu mundo e com os outros. O ponto vital dos capoeiristas era seu corpo.

“O corpo dos capoeiras era, acima de tudo, um dado da personalidade e através dele, aliado ao elemento lúdico, brincava-se
e resistia-se às imposições do cotidiano.”49.
A ginga que o capoeirista utiliza no jogo é muito semelhante ao jeito “malandro” do andar do negro,
movendo-se em vários sentidos e direções. Algumas características marcantes dos capoeiristas são relatados por
SALVADORI . Os encontros dos capoeiristas sempre acabavam em festas e apesar das perseguições, sempre
estavam exibindo suas pernadas, a afinidade com a música, o movimento e a autonomia do corpo que os
identificava pela velocidade e a agilidade, surpreendendo qualquer um que se arriscava a desafiá-lo.
As músicas como acompanhamento do jogo, apesar de antigas, muitas ainda são cantadas ou foram
adaptadas aos nossos dias. As letras, compostas na maioria por mestres e seus “discípulos”, falam de episódios
históricos, costumes, conversas entre “cumpadres”, desafios entre eles, escravidão, sociedade, trabalho, e outros
temas relacionados à realidade deles, naquela época. Nessa riqueza de informação, de fatos passados,
aprendemos muito sobre como viviam, seus hábitos, o jeito do negro, sua maneira de se vestir, os gestos
maliciosos, seus amores, religião e crenças.
Para REGO:

47Ibidem, p.61.

48COELHO NETO in SALVADORI, Maria A. B. Capoeira e malandros, p.58.

49TAVARES, in SALVADORI, op.cit. p.115


“As cantigas de capoeira fornecem valioso elemento para o estudo da vida no Brasil, em suas várias manifestações, as quais
podem ser examinadas sob o ponto de vista lingüístico, folclórico, etnográfico e sócio-histórico” 50.
Acredita-se que o canto apareceu para integrar os capoeiras e também como criação de força para
manter a identidade do povo negro, sendo os instrumentos musicais, muitos deles criados pelos próprios negros.
Estes permitem-nos tomar conhecimento da situação primitiva em que viviam, mas que não os intimidava, ao
contrário, os inspirava em suas horas de lazer. Utilizavam na confecção dos seus instrumentos desde tronco de
árvores, bambú, palha, cabaças, pedras, e qualquer outro elemento que a natureza oferecesse para que criassem
os sons que os acompanhavam em suas manifestações.
O berimbau é o instrumento mais importante na capoeira, e apesar de sua origem incerta, já era muito
utilizado pelos negros em suas festas e danças. Há também o pandeiro, o atabaque, o caxixi, o agogô, a maioria
de origem desconhecida. Esses instrumentos, acompanhados por cantos sempre puxados por um capoeirista e
respondidos em coro pelos demais, davam o ritmo ao jogo, permanecendo assim até hoje.
As vestimentas dos capoeiristas também os diferenciavam da elite, que se vestiam com elegantes roupas
feitas em alfaiatarias seguindo a moda francesa (SALVADORI, 1990).
Já os capoeiristas, segundo alguns relatos, usavam uniforme branco, sendo a calça larga e camisa
branca. Os ternos brancos eram os preferidos pelos negros pois os destacavam nas festas, domingos, feriados e
dias santos. O lenço de seda ao redor do pescoço também não podia faltar, pois segundo as notícias que se tem,
eram utilizados para evitar os golpes com navalha, pois esta não corta seda pura. Todos os negros que
quisessem usar essa roupa, fossem capoeira ou não, poderiam usá-la, pois diziam que o lenço também enfeitava
o colarinho, protegia contra o suor e a poeira. Mas a roupa usual deles era, na hora do trabalho, calça arregaçada
e camisa feita de saco de açúcar ou farinha, e nas folgas aproveitavam para jogar a capoeira. Por usarem roupas
brancas eram chamados de “mosca no leite”, e dificilmente se sujavam quando jogavam habilidosamente a
capoeira.
SALVADORI, destaca os traços marcantes do capoeirista, os detalhes no vestir, a posição do chapéu, o
jeito malandro de andar, o lenço no pescoço, que revelavam uma postura de preocupação e embelezamento em
relação ao corpo, além de serem reconhecidos pela comunidade. Procuravam se vestir com elegância, renegando
a condição de operários que viviam, disfarçando-se e confundindo-se com os demais da população. Eles se
misturavam a ponto de irritar seus proprietários, que ao vê-los vestidos de tal maneira, lembravam dos escravos
libertos.
Essas características também revelavam um sentido específico de identidade e afirmação pessoal,
quando se misturavam com os demais, principalmente nos dias de festas.
Tanto quanto os escravos que se calçavam, os capoeiras negavam uma história que os outorgavam, no corpo e na imagem,
uma condição específica e supostamente imutável51.
Uma das marcas dos capoeiristas era a sua valentia e o respeito as regras de convivência,
obedecidas por todos, mas quando isto não acontecia estabelecia-se o conflito entre os rivais. Os mais corajosos
eram reconhecidos pelo grupo e promovidos a chefes dos grupos ou maltas. Eram respeitados e a comunidade
confiava neles para a defesa de seus interesses e proteção de seus membros.
Os traços de religiosidade também estavam presentes no capoeirista, pois nunca se esqueciam do
“escapulário” sobre o peito (pano bento, com orações escritas) ou o nome de Jesus ou de Maria, e as rezas por
alguma alma.
As mulheres eram tratadas com atitudes machistas e possessivas, mas eram respeitadas, principalmente
se era a mulher do outro, o que gerava brigas constantes quando estas eram tratadas com cavalheirismos. Muitas
mulheres sustentavam seus homens, já que o trabalho não era o forte do capoeirista. Além disso, viviam

50Waldeloir do REGO, op.cit. p.126.

51Maria A.B. SALVADORI, op.cit., p.127.


perseguidos pela polícia e se escondiam atrás de apelidos e nomes falsos, resguardando sua verdadeira
identidade.
Temos então, uma noção da complexidade que a capoeira envolve e que vem de épocas
passadas, mas que estão presentes no cotidiano de algumas pessoas preocupadas em mantê-la viva e difundí-la
cada vez mais no seu aspecto cultural-educativo. Os gestos, o olhar, a expressão, a comunicação, a harmonia, o
envolvimento, a troca, a surpresa, o inesperado, só se evidenciam quando se joga. É no jogo que se aprende, é
aprendendo que se joga, é jogando que se vive aspectos inusitados. A surpresa inverte as regras do jogo da
dominação a favor do capoeira, que brinca surgindo e desaparecendo, entontecendo aqueles que com ele se
assustam e que sobre eles realizam o discurso da moralização através do trabalho. Ao brincar com o próprio
corpo e com o do outro, a seriedade e a eficiência desta tentativa de moralização sucumbem52.

52Maria A.B. SALVADORI, op.cit. p.117.


CONSIDERAÇÕES FINAIS: A CAPOEIRA NA EDUCAÇÃO FÍSICA COMO ATIVIDADE EDUCATIVA

É um desafio ensinar uma atividade que não faz parte do cotidiano escolar. Mesmo conhecendo a
capoeira e tendo uma vivência significativa, acreditamos que incluí-la em aulas num processo educativo, com as
outras atividades, modalidades esportivas ou recreativas, é algo mais complicado pois envolve uma questão social
ampla. Além disso, aspectos iniciais como a receptividade do aluno que é sempre uma situação imprevisível, a
estrutura da aula diferente, a utilização de instrumentos musicais, a parte histórica, base fundamental do trabalho
com capoeira, ou seja, são aspectos que a diferenciam de uma aula convencional de Educação Física, ela chama
atenção dos curiosos que não a conhecem, revela outros valores e provoca um desafio pessoal em quem a
pratica.
É interessante observar que, da nossa parte, sendo praticantes de capoeira desde adolescentes e depois
professor ou estudantes de Educação Física, a iniciativa de se começar a ensinar capoeira na escola parece
acontecer com mais naturalidade pois a capoeira já está incorporada nosso modo de ser, fazendo parte de um
processo de experiência e aprendizagem permanente. No caso de alunos e ou já professores que se interessem e
queiram ensinar capoeira em escolas e que não a conheçam ou só venham a conhecer a capoeira no curso de
graduação em Educação Física ou depois dele, a iniciativa deve demorar um certo tempo, tempo este para que
comecem a querer conhecer mais e a valorizar a capoeira, a criticar o seu trabalho enquanto profissional, a
desafiar esse compromisso em ser professor, a si propor a se realizar profissionalmente e a ensinar algo mais
significativo para as crianças e para si mesmos.
A visão da capoeira, como algo desafiador aos alunos de Educação Física e/ou a professores já
formados, se dá pelo fato dela estar sendo enfocada com aspectos educativos muito fortes, pois em princípio,
deve-se aprender para poder ensinar e só depois de conhecê-la enquanto luta, competição, enfim, com outros
objetivos. Em nosso caso, conhecemos a capoeira quando adolescentes, então a nossa visão para a capoeira
luta, praticada só em academias é mais forte e só agora começamos a percebê-la como uma atividade possível
de se trabalhar em escolas, nas aulas de Educação Física, priorizando seu lado educativo e cultural.
É difícil pensar capoeira na escola, pela falta de trabalhos consistentes, de pessoas para apoiar e orientar
e sem um grupo de profissionais ligados entre si para a troca e o estudo das experiências. Na maioria das vezes a
iniciativa de poucos é isolada e solitária, sem um planejamento prévio e objetivos claros. O começo é sempre uma
descoberta e um aprendizado constante que pode ir se perdendo por não ter essa possibilidade de troca de
experiências, por não se ter mais profissionais envolvidos com a capoeira. Mesmo assim, os caminhos estão
abertos ... O curso de Educação Física amplia os conhecimentos e pode nos preparar para um
trabalho profissional mais adequado, nos leva a concluir que os benefícios para o capoeirista são significativos a
começar pela mudança dos seus discursos, dos seus valores e da sua atuação, dando-lhe a oportunidade de
perceber a capoeira além das quatro paredes de uma academia. Torna-se relevante uma formação acadêmica
para que o indivíduo conheça o universo da pessoa humana com quem ele vai trabalhar e em qualquer atividade
que seja, ela pode ser pensada priorizando a educação da criança e ser muito bem explorada.
Pode se ressaltar o despreparo dos profissionais para o trabalho com capoeira, sendo este um fator
decisivo para a questão da falta de professores de Educação Física trabalhando com capoeira em escolas. Se a
capoeira for introduzida nas escolas, quem estará capacitado para tal função? Mestres de Capoeira ou
professores de Educação Física que a tiveram um ano como disciplina curricular? É importante pensar a
capacitação profissional através dos cursos de graduação em Educação Física para que todos os futuros
professores estejam aptos a ensinar a capoeira, pelo menos como iniciação, o que já dá para fazer um trabalho
muito rico. Algumas Universidades como a Unicastelo (Universidade Camilo Castelo Branco) em São Paulo
(Itaquera), a UNESP (Universidade de São Paulo) estão começando a oferecer a Capoeira como disciplina ou
como conteúdo de uma disciplina como a de Cultura Brasileira, um passo importante para que estes profissionais
possam oferecer mais uma possível atividade e assim se unir aos demais num trabalho em conjunto, com
possibilidade de se fazer encontros, palestras, apresentações, assim, um trabalho integrado, uma experiência
enriquecedora tanto para os professores quanto para os alunos.
Propor a capoeira para as crianças aprenderem é uma coisa, preocupar-se com o envolvimento delas, a
aceitação para aquela atividade é outra, talvez a mais importante num processo educativo, perceber as
mudanças. Não acreditamos na prática pela prática, sem um significado para quem pratica, enquanto houver
imposição, cobrança, rigidez, obrigatoriedade em fazer, o envolvimento será menor e a rejeição aumentará para
aquela atividade. Sabendo disso, o professor pode ir propondo as atividades de acordo com a aceitação deles,
arriscar progredir um pouco mais, verificar a reação deles, adaptar as aulas de acordo com as características e
com as necessidades das crianças. A melhor pré-disposição deles e do professor para a atividade gera uma
motivação e uma assimilação mais significativa para eles. O retorno para o professor é maior e os alunos
começam a se valorizar por aquilo que estão descobrindo serem capazes de fazer.
A capoeira já está tentando ocupar seu espaço nas escolas, alguns pais estão se envolvendo juntamente
com seu filho, incentivando, assistindo, as crianças estão aderindo a ela como jogo ou luta, desafiando o sistema
escolar conservador. Seria ideal se os pais se unissem aos filhos para conhecer a capoeira e para acompanhar o
quanto seus filhos são capazes de melhorar e se sentem importante com isso, mostrando todo o seu esforço.
Quando vão em algum lugar onde a capoeira está presente, as crianças se sentem conhecedoras do assunto,
sabem cantar, sabem o nome dos movimentos e sabem o que acontece durante uma roda. Então, é necessário
que mais profissionais saiam capacitados para tal função, com envolvimento e vontade de romper com os
“modismos” que hoje invadem nossa cultura, não ignorando-os, mas valorizando também o que é nosso e
contribuindo para a sua expansão na sociedade podendo ser uma verdadeira atividade educativa.
Outro ponto a favor da capoeira na escola é a perspectiva de algumas crianças se envolverem com a
capoeira a ponto delas procurarem um espaço melhor para dar continuidade a prática da capoeira. A escola pode
ser o ponto inicial para a sua aprendizagem, mas a interrupção é inevitável por vários motivos. Então, o passo
seguinte é elas procurarem dar continuidade na prática fora das escolas, e isso só é encontrado, na maioria das
vezes, em academias com o mesmo professor da escola ou com outro indicado. Além disso, como mais um
resultado positivo, é citado o fato das crianças começarem a se controlar mais em seu comportamento agressivo
e ainda o envolvimento dos alunos mais introvertidos nas aulas. No conjunto da atividade, onde há a presença da
música, palma, roda, o coro que responde, esses elementos que tornam a prática mais estimulante unem-se à
postura do professor na condução da aula, ao respeito exigido entre os alunos, o retorno deles de acordo com a
orientação do professor, enfim, são vários elementos da aula e da postura do professor diante das mudanças que
vão ocorrendo que podem levar o aluno a um melhor equilíbrio no seu comportamento e à distinção daquilo que é
permitido fazer ou não, como por exemplo perceber que quando eu jogo com uma pessoa menos hábil do que eu,
não devo querer enfrentá-la a ponto de tirar vantagem machucando-a propositalmente. Isso é uma das primeiras
orientações para um possível equilíbrio e controle das capacidades do indivíduo. É nesse momento que a
capoeira pode contribuir para o equilíbrio da agressividade, saber que ele pode machucar quando quiser, mas que
isso desvaloriza o indivíduo como pessoa e a capoeira enquanto prática cultural do negro feito escravo que
buscou a liberdade e que só foi utilizada com violência por necessidade naquela época, mas que hoje isso não é
preciso quando jogam duas pessoas, em uma roda entre colegas do mesmo grupo ou com outros grupos.
O aspecto histórico/social da capoeira é outro ponto que merece destaque. O trabalho com capoeira
sempre aparece ligado com seu passado, sua origem, pois é aí que está contido todo o seu significado, sua
magia, devendo as crianças aprenderem o que há por trás da capoeira que a faz ser tão discriminada mas tão
envolvente, atraente e misteriosa. A capoeira abre espaço para que conheçamos a história do povo negro, da
formação dos Quilombos, dos aspectos culturais e morais do passado, dos hábitos, tradições, os fatos marcantes
da história, o porquê da necessidade dos negros utilizarem seu corpo como defesa, a falta de recursos para se
manifestarem, as improvisações sempre bem elaboradas para o que precisassem, a originalidade nos
movimentos, a necessidade de luta, a miscigenação natural dos povos, etc. Além disso, em todas as
manifestações do nosso folclore a presença do negro é marcante, pois apropriando-se dos fatos reforçavam seu
estilo com graça e sensualidade como na dança, com originalidade no samba, com representações próprias
quando contavam estórias adaptadas ao seu meio de vida, na religião, cultos e adoração aos santos
acompanhados de música e gestos, etc. Assim, sua contribuição pode não ser totalmente original, mas é própria,
traduz o modo de pensar, de sentir e agir deles. Infelizmente todas essas contribuições não são totalmente
confirmadas, pois não há como provar em que o negro teve pura originalidade e em que houve mistura de outros
povos daqui e do lugar de onde vieram, já trazendo hábitos adquiridos. Mas aqui, de muitas coisas se apropriaram
e nos deixaram como herança cultural.
A ligação da capoeira com o ritmo e o movimento é muito forte. São elementos existentes em todas as
manifestações negras e não apenas na capoeira. Concordo com ALMEIDA (1971) quando diz que “os negros
associam o ritmo a todas as manifestações da sua vida. Não é apenas uma estrutura para a melodia, não tem
apenas valor musical, mas biológico, intrínseco e vital na existência do homem e da coletividade” (p.105). Na
capoeira também percebemos a forte dependência da música impondo o ritmo ao movimento, fazendo com que o
movimento se revele e sem o qual não há possibilidade de jogo. A capoeira possibilita um trabalho com o ritmo
muito significativo para o aluno, contribuindo não só para que ele jogue a capoeira, mas para qualquer outra
atividade do seu dia-a-dia.
Finalmente podemos concluir que como contribuições para os alunos, fica claro aos benefícios adquiridos
com a prática da capoeira nos aspectos motor, cognitivo e afetivo-social, para os que crêem nessa dicotomia de
aspectos. No aspecto motor podemos destacar o desenvolvimento das capacidades físicas como força,
flexibilidade, coordenação, ritmo, equilíbrio, agilidade além de possibilitar o trabalho com formas variadas das
habilidades básicas da criança como o andar, saltar, correr, subir, etc. e ainda as habilidades específicas mais
complexas como é o caso da parada de mão, parada de cabeça, o au (estrela ou roda), as reversões, saltos
mortais, etc.
No aspecto cognitivo podemos ressaltar o desenvolvimento da lateralidade, noção espaço-temporal e
tudo o que envolve uma compreensão do que se faz a nível de movimento corporal, começando pela consciência
corporal e a utilização de seu corpo em várias situações.
No aspecto afetivo-social temos o companheirismo, o relacionamento entre eles, a sua integração e
respeito no grupo, o seu auto-conceito em relação aos outros, a percepção de suas capacidades motoras e dos
seus limites, tanto quanto a de seus companheiros para que haja um respeito mútuo. O trabalho em duplas e em
grupo possibilita esse trabalho social, onde cada um é o que é e se comunica com o outro dando dicas daquilo
que é capaz, daquilo que está descobrindo ser num desafio e troca de intenções, mas nem sempre há um
ganhador e sim aquele que melhor aproveita as situações, que se arrisca mais, que consegue compreender,
respeitar e mostrar as suas capacidades sem precisar ferir a integridade do outro, mas jogar com o outro e não
contra o outro, apesar disso acontecer muito, dependendo da situação.
Mas, se observarmos um capoeirista, perceberemos uma qualidade motora muito mais rica. Unindo todos
esses benefícios, que se desenvolvem simultaneamente na criança, num desenvolvimento integral, como conjunto
final teremos uma criança muito mais preparada para enfrentar as situações do dia-a-dia, possibilitando também
que se saiam melhor em outras atividades físicas, por já possuírem uma boa qualidade de movimento.
Acreditamos, então, que a capoeira atinja o indivíduo no seu todo, como ser íntegro, pois quando estamos
ensinando não podemos desvincular um aspecto do outro, a visão de um ser que se desenvolve no seu total deve
direcionar a ação educativa do professor de Educação Física, sendo assim com qualquer atividade que esteja
trabalhando.
Muitas coisas relacionadas à capoeira ainda precisam ser estudadas, principalmente coisas ainda
ignoradas (origens, rituais que se perderam, processos pedagógicos no ensino, vínculo com outras manifestações
semelhantes, etc) sem estudos consistentes e sem prioridade aparente para os mestres e professores de
capoeira sem formação acadêmica, mas de um valor muito grande, se estudados, para o professor de Educação
Física para melhoria e contribuição da sua ação educativa. Dentre esses aspectos temos além da tonicidade
muscular na capoeira, o seu lado místico, aspectos inconscientes que modificam a postura do aluno, o folclore, as
suas tradições, as sensações ao se jogar capoeira, a desconhecida mas protegida “roda”, o prazer, o medo, o
receio de se jogar a capoeira. São tantas as coisas na roda de capoeira que são inexplicáveis ou apenas
esclarecidas com estórias dos antigos mestres que possibilitam seu estudo mais profundo.
A oportunidade da criança se expressar na roda é muito grande, devido a possibilidade de inovação nos
movimentos, da falta de rigidez, da ausência de regras a serem seguidas, o que faz da capoeira uma atividade
que busca a liberdade de expressão, uma das coisas mais importantes hoje em dia para a criança. Se bem
orientada e se estiver consciente da sua condição no meio em que vive, saberá contornar seus problemas com
atitudes coerentes, mesmo diante de um mundo repressor e conservador.
O professor não pode se acomodar em seu espaço. A busca, a pesquisa, a reciclagem das informações,
a reciprocidade profissional, o querer saber e saber fazer devem guiar os ideais profissionais do professor de
Educação Física, que muitas vezes permanece limitado dentro do seu campo profissional. Não há o que não se
possa fazer para mudar um pouco essa realidade. Basta querer.
CONCLUSÃO

A cultura popular brasileira vem se fragilizando com influência de outras culturas e assimilando
rapidamente aquilo que é importado. Assim sendo, percebe-se um “desperdício cultural” que não reconhece e não
valoriza o que temos de mais genuíno: a nossa origem e a nossa história. A educação passa a ser ditada não por
sua importância cultural, sua raiz, mas pelas leis do consumo de um país capitalista, aberto a todas as influências
que venham de fora. Por um lado este fator é de indiscutível importância, pela valiosa contribuição de outras
culturas e valores, mas ao mesmo tempo, nos enfraquece por sermos tão facilmente manipulados por poderosos
meios de comunicação que dia a dia invadem as casas para apresentar novidades do mercado.
A computação vem contribuindo a cada dia para a educação das crianças, para um aprendizado mais
rápido e eficiente e muitas coisas não precisamos “quebrar a cabeça” para descobrir, ele nos ajuda a resolver. E
vários outros aspectos nos evidencia um mundo que vai adequando suas deficiências ao progresso
científico/tecnológico. É necessário lamentar a perda de uma cultura popular por falta de estudos, além dos
escassos registros sobre as manifestações negras no Brasil.
Os valores mudaram, mas o que é deixado de lado é o saber cultural de nosso povo, que ainda hoje luta
por sobrevivência e busca caminhos e alternativas para conquistar respeito e valorização. E luta incessantemente.
Nas escolas, a história brasileira ressalta os heróis e as datas mais importantes, e muitos professores
ignoram aspectos antropológicos de sua própria cultura, ou seja, desconhecem a origem de certas manifestações:
se branca, negra ou indígena. Então, ao mesmo tempo em que há um progresso tecnológico nos meios de
educar, há também um desprezo quando apenas o “ideal” é ensinado, e não o necessário, o popular, o cultural. É
claro que este fator é dependente de vários outros, não possíveis de ser tratados no momento, mas é
interessante ressaltarmos os valores em que a educação se apóia atualmente.
A capoeira nas escolas, como atividade educativa e cultural, possibilita a análise de vários elementos a
serem explorados. Se enumerarmos as suas contribuições para conhecedores do assunto, teremos uma divisão
destas contribuições segundo os domínios de aprendizagem da criança, ou seja, domínio afetivo, cognitivo e
psicomotor53. Esta divisão dos domínio de aprendizagem da criança, para fins didático-pedagógicos, nos traz
muitas características importantes em nível de movimento, mas em nível educacional deixa a desejar por supor
que a criança seja dividida em partes, fragmentos (corpo e mente) e por não considerá-la como um ser íntegro
que pensa e age ao mesmo tempo, e que uma coisa não acontece sem a outra. Somos um todo interagindo com
o meio.
Diante disto, enumerá-las seria reduzir a experiência de uma prática riquíssima em apenas mais uma
modalidade esportiva, que visa a técnica do movimento.
Na prática de capoeira há um conjunto de elementos que é explorado e se torna importante que não o
consideremos com uma visão de homem fragmentado, mas sim com uma visão de homem único e íntegro. Mas
como esses domínios de aprendizagem devem ser esclarecidos ao leitor, serão citados apenas como uma
contribuição ou uma conseqüência da prática e não como algo que acontece independente de outras ou que um
domínio de aprendizagem seja mais importante que outro, mas são desenvolvidos simultaneamente. O que pode
acontecer é enfatizarmos o nosso objetivo em um dos domínios, mas nunca os consideremos isolados.
Alguns autores como BECHARA (1986), FREIRE (1989), MARINHO (1982), SILVA (1993), SIMAS
(1986), entre outros, já reconhecem na capoeira uma de atividade que desenvolve os domínios motor, cognitivo e
afetivo-social. O domínio motor pode ser observado através de práticas que envolvam as qualidades físicas como
flexibilidade, velocidade de reação, coordenação, ritmo, agilidade, equilíbrio, etc. Todas estas qualidades são
desenvolvidas em conseqüência de uma prática constante, persistente e bem orientada. O domínio cognitivo pode

53GALLAHUE, in GUISELINI, Mauro A. Matroginástica; passim.


ser estimulado através das qualidades psicológicas como atenção, percepção, criatividade, persistência,
capacidade de iniciativa, autocontrole, astúcia, coragem e segurança, citadas por SIMAS (1986). Podemos fazer
então, uma relação em que o primeiro grupo de qualidades corresponda às qualidades motoras (desenvolvimento
motor) e o segundo, ao desenvolvimento cognitivo. Mas poucos autores se centralizam na função social-cultural-
educativo (domínio afetivo-social) que a capoeira pode acrescentar no trabalho escolar. São poucos os
professores de Educação Física que trabalham este aspecto tão, e talvez o mais relevante na educação de suas
crianças.
VIEIRA (1993), mostra a sua preocupação com o trabalho nas escolas com capoeira e sua relevância
educativa na formação integral do indivíduo. Em seu estudo, procura analisar o teor cultural, educativo, folclórico,
artístico e outros, desenvolvidos por mestres e professores de Educação Física nas escolas estaduais e
municipais do Distrito Federal.
O autor relaciona a entrevista feita com os professores de Educação Física e mestres, a prática docente
nas escolas e analisa se esta relação segue os princípios pedagógicos propostos por SEYBOLD (1980), que são:
-Respeito às leis psicofísicas do educando: cada aluno tem uma situação particular assim como cada
faixa etária também, então o professor deve respeitar essas características psicofísicas em seu conteúdo
programático;
-Individualidade do aluno: cada aluno tem formação e experiências motoras diferentes dentro do seu
universo;
-Sociabilidade e solidariedade: o jogo aparece para estimular esses elementos;
-Aprendizado: deve ter objetivos definidos pelo professor;
-Métodos de ensino adequados: o aprendizado dependerá dos métodos utilizados;
-Intuição dos alunos na recreação: o ensino dos movimentos podem ser ensinados e assimilados para
depois ser dado um tempo para que o aluno recrie novos movimentos;
-Conhecer e utilizar os interesses dos alunos: saber os interesses dos alunos e o que querem aprender,
ao invés de impor movimentos dolorosos e maçantes;
-Explorar os aspectos axiológicos, históricos: ensinar a história, os cânticos, jogos, aproveitando o
máximo da participação e atuação dos alunos bem como seu conhecimento amplo sobre a atividade (falar, cantar,
tocar, jogar, etc.);
-Explorar a espontaneidade: a criança, o adolescente, o adulto, o idoso, podem ser explorados em seus
movimentos, gestos, falas, espontâneos e ricos em expressividade.
Da entrevista feita com os professores e mestres, VIEIRA (1993) acredita, como conclusão, que
houve uma concordância nos conceitos (conteúdos da capoeira); os professores entrevistados manifestavam uma
noção homogênea do que seria ensinado, além de identificarem a capoeira como uma atividade cultural brasileira
e também com a natureza de seus alunos, que eram brasileiros e que expressavam essa brasilidade, essa
corporeidade e o resgate à cultura. A maioria dos professores concordou que os movimentos deviam se dar a
partir dos alunos, vencendo de uma etapa para outra os obstáculos existentes na aprendizagem e a importância
do estímulo à sociabilidade e à solidariedade no jogar. O respeito aos direitos do outro, a adequação dos métodos
de ensino e a preferência dos professores pela demonstração dos movimentos também se evidenciam. Os
aspectos culturais e históricos ocorriam durante a roda de capoeira.
Finaliza sua pesquisa criticando as escolas que não cobravam dos professores aspectos pedagógicos
(plano de ensino, de aula). E ainda, o processo pedagógico de ensino se dava por vontades pedagógicas próprias
e da formação capoeirística do professor, estando aí o centro do problema, pois a vontade pedagógica própria de
cada professor ou mestre e a sua vontade própria como educando é que determinava os rumos da capoeira no
estabelecimento de ensino. As deficiências pedagógicas da prática não eram importantes para as escolas. Mesmo
assim, o autor acredita que a capoeira nas escolas pode satisfazer os princípios da Educação Física com bases
pedagógicas.
Com base nos estudos anteriormente citados, a preocupação com a educação e a falta de
reconhecimento e de interesse dos órgãos competentes em incentivar e aceitar a capoeira como uma prática por
seu teor cultural, educacional, social e não por ser uma atividade esportiva marginal, que vai apenas tirar as
crianças da rua, ocupar o tempo de mais um funcionário e utilizar espaços físicos abandonados.
A capoeira deve ser estimulada pelo que é, por sua brasilidade, historicidade, origem, cultura, folclore,
educação, arte, comunicação, gesto, expressão e daí já podemos explorar muitas maneiras de ensinar, de
trabalhar a criança, de lhe dar oportunidade de se educar, brincar e se integrar com seu mundo, seus amigos, seu
corpo.
Alguns trabalhos com essa preocupação começam a aparecer e têm contribuído para confirmar fatos
históricos ou contar a experiência de mestres, seus ensinamentos, contribuições e também para evidenciar o
trabalho deles com seus alunos, os golpes, as crenças, a malícia, a esperteza. Mas poucos estudos ressaltam a
preocupação com o seu aprendizado nas escolas. Tanto é que dificilmente encontramos escolas que aceitem
essa atividade bem como professores de Educação Física competentes e dispostos a desafiarem essas
dificuldades em favor de uma prática popular brasileira que, pelo visto, não é tão popular assim.
Encontramos a prática da capoeira em academias, como luta, com mais facilidade do que em escolas,
talvez por ela ser a lembrança de um povo sofrido que muitos preferem esquecer. Apenas os herdeiros dessa
arte, que conseguiram sobreviver ao preconceito, à humilhação que o povo negro sofreu, é que ainda acreditam
na capoeira como um meio de desenvolvimento do indivíduo. Mas estes, apesar do seu conhecimento prático,
ignoram que além das contribuições físicas e psíquicas, existe ainda algo que nos faz entrar em contato com o
outro e com um mundo que é a própria realidade do nosso dia a dia, mas que se esconde num jogo de “faz de
conta”.
A capoeira nas escolas, pode ser planejada e integrada com outras disciplinas numa riquíssima
exploração. Podemos preparar uma aula de capoeira num gramado ou campo aberto, contribuindo
significativamente para o ensino de Ciências, onde a natureza é um campo amplo a ser explorado, se o professor
souber relacionar e aproveitar o ambiente, unindo a prática da atividade ao conhecimento adquirido em aula desta
disciplina. O mesmo se dará com outras disciplinas como História, Comunicação e Expressão, Educação Artística,
Música, etc. Mas todo este jogo de aprender ainda é visto com muito preconceito, quando relacionado à educação
de crianças, tanto por parte dos professores, direção, pais e próprios alunos, que estão acostumados com uma
educação conservadora.
A capoeira como atividade educativa pode desenvolver, entre outras coisas, a valorização da transmissão
de conteúdos culturais, do convívio social, além de dar vazão à criatividade de maneira prazerosa.
Quando uma criança inicia o aprendizado da capoeira, o seu corpo começa a “aceitar” desafios antes
temidos ou não experiênciados, a sua movimentação vai aos poucos adquirindo uma expressão própria, uma
maneira individual de se comunicar com o outro e com o mundo. Na roda de capoeira ele se confronta com
dificuldades, com desafios, com o inesperado. É aí que ele, descobrindo sua capacidade de movimento e o prazer
que isto traz, faz com que aquele desafio seja não um combate, mas uma troca, uma exteriorização de
expressões não verbais. É na participação, no jogar, no expressar que há a comunicação. Cada um pode
perceber, sentir, esperar a intenção do outro e assim sucessivamente. É no jogo e no envolvimento que nos
preparamos para entender o jogo do outro, a sua intenção gestual, a sua visão do mundo. Além disso, o contato
com diversos companheiros e a necessidade de uma iniciativa rápida colabora para que ele esteja atento à todas
as dificuldades que o jogo oferece.
Muitas vezes as crianças não estão preparadas para enfrentar situações desagradáveis, expor-se em
momentos de necessidade, contornar dificuldades que a vida nos mostra e nos surpreende a cada dia. Perceber
que a vida nos faz conquistar e vencer é muito gratificante, mas por outro lado, perder, lutar, sofrer, enfrentar,
também faz parte dela. É com as experiências da vida, como num jogo de contrastes, que conseguimos “driblar”
esses momentos.
Falar de capoeira como educação não é fácil, e uma das idéias que surgem é a de disciplinar através da
capoeira. Não que isso não possa acontecer. Ao contrário, vários fatores podem ser desenvolvidos e a disciplina
pode ser uma delas. Mas talvez não a mais importante.
Entre os elementos educativos apresentados anteriormente, também podemos valorizar o lado malicioso
e “malandro” presentes no jogo de capoeira, mas não o malandro relacionado à maldade, à violência, vadiagem,
etc, mas sim como esperteza, perspicácia, malícia, provocação, saindo-se bem de qualquer situação
embaraçosa. Aprender no jogo de capoeira o jogo das relações humanas.
Ao transferir a capoeira para outra realidade, no caso as escolas, como prática das aulas de Educação
Física e também nos conteúdos das aulas de História, Ciências, Comunicação e Expressão, Educação Artística,
etc., ela se torna um importante instrumento para as crianças aprenderem a enfrentar situações agressivas,
embaraçosas e enganosas do cotidiano. Não se trata de aprender a ser “malandro” apenas no sentido associado
a “roubo”, “crime”, mas no sentido de saber enfrentar com sagacidade, esperteza, rapidez, versatilidade, os tantos
momentos difíceis que de fato são comuns à nossa vida.
A roda de capoeira, no seu simbolismo, pode constituir-se numa lição de vida para a população
brasileira. O negro, o branco, o mulato, a mulher, a criança, o adulto, o jovem, enfim, todos podem conhecer e
jogar a capoeira.
No jogo, as pessoas se comunicam através de movimentos harmônicos e há uma necessidade de se
estar alerta a todo momento. Há uma troca de percepções de falsidade, malícia, simulação de maldade,
oportunidades de se sair bem ou mal. O jogo de capoeira traz sabedoria, esperteza para sair de situações difíceis,
magia e crença em algo que nos protege desde que entramos no jogo. A vontade de se sair bem é grande, mas
ao mesmo tempo nos deparamos com o desconhecido. Desconfiados, somos levados à uma brincadeira onde
cada um aprende e também ensina.
Aprende-se com a capoeira a enfrentar com humildade uma situação desagradável que a vida real
coloca. Contorna-se o inesperado com esperteza e sutileza.
A capoeira, por envolver aspectos amplos como vimos, pode propiciar uma educação voltada à realidade
da criança sem esquecermos os seus conteúdos culturais e educativos. O canto das músicas que acompanham a
roda de capoeira; a ginga; a participação com outras crianças; o trabalho de ritmo; o manuseio de instrumentos
musicais como o berimbau, atabaque, pandeiro; o contato com a natureza; a fundamentação histórica, etc, são
conteúdos imprescindíveis para a prática da capoeira, e não devem ser ignorados pelos professores.
Como atividade educativa, a capoeira nas escolas deve se preocupar com o ser humano para que ele
seja crítico diante da sua situação e do contexto social em que está inserido, para que, conscientemente, possa
agir para superar as imposições e os condicionamentos.
Com BECHARA (1986), SANTOS (1990), SIMAS (1986), VIEIRA (1993), entre outros, reafirmamos a
capoeira nas aulas de Educação Física como uma atividade transformadora, por revelar às crianças fatos
históricos, os quais foram parte da formação de nossa sociedade, muitas vezes descartados na formação integral
das crianças intencionalmente ou não. A partir da condução dos objetivos propostos pelos professores para essa
transformação é que eles estarão contribuindo para a educação de seus alunos. A Educação Física será mais que
uma atividade, mas um trabalho transformador quando o professor de Educação Física conseguir encontrar sua
identidade social à luz de uma visão histórico-cultural de classe e, no ato de sua prática educativa evidenciarem o
espírito crítico, a denúncia, o conflito e o caminho contra a educação fragmentada e alienante.
Para tanto, estes devem se conscientizar da importância de se trabalhar vários elementos educativos
durante as suas aulas, sem preconceitos, considerando e valorizando o indivíduo como um todo e não apenas
como uma máquina de movimentos. É muito importante que novas atividades como a capoeira, danças regionais,
jogos folclóricos, etc, sejam propostas pelos professores de Educação Física.
No desenvolvimento psicomotor, cognitivo e social da criança, a capoeira pode contribuir para que ela
utilize melhor o seu espaço, com ampla movimentação, aprenda a localizar as partes do seu corpo e de seus
colegas situando-os no espaço e no tempo, a brincar com ritmos diferentes, além de coordenar e organizar suas
atividades e seu equilíbrio interior.
A capoeira ainda possibilita à criança associar o movimento à sua capacidade de execução, numa
seqüência de movimentos harmônicos e expressivos, onde o professor pode levar a criança a pensar e perceber o
movimento e sua elaboração, execução, e com estímulo próprio e do professor, coordenar movimentos amplos,
rápidos, lentos, curtos, longos, com giros, com quedas, com esquivas, próximos e distantes. Como conseqüência
de uma prática constante e bem orientada, as qualidades físicas básicas são desenvolvidas como a força, a
resistência cardiorrespiratória e muscular, a coordenação, a velocidade, a agilidade, o ritmo, etc. que são
indispensáveis no dia-a-dia corrido de todas as pessoas.
A capoeira pode ser considerada também parte integrante do nosso folclore, pois o seu ritual, a dança, os
gestos, estão cheios de significado, em cada elemento presente em sua manifestação se esconde algo que só os
que herdaram, que assimilaram as tradições, os costumes e crenças da época, é que podem dar continuidade à
expressão folclórica da capoeira. Se o folclore é considerado a “ciência do povo”, as tradições, os costumes e as
crenças populares, enfim, tudo o que nasceu do povo brasileiro e nos foi transmitido através das gerações, então
a capoeira pode ser também uma manifestação folclórica.
O professor de Educação Física deve estar atento à sua história, à sua riqueza cultural que está aí para
ser resgatada, ao folclore, tão cheio de mistérios, de sabedoria, manifestando-se em danças regionais, estórias,
cantigas, festas. Só assim ele poderá ser um agente transformador, interagindo com a educação de seus alunos e
dando-lhe oportunidade de desenvolver suas habilidades de movimento integradas à sua cultura, e principalmente
sensibilizá-lo para isto. Apesar dessas manifestações estarem “escondidas” entre os modismos, ainda são parte
integrante de muitos grupos espalhados pelas regiões brasileiras.
Saber sobre a cultura popular brasileira ainda é privilégio de poucos, mas deveria ser um elemento de
valorização muito mais aceito pela população, que afinal é “brasileira”.
A ÉTICA DA MALANDRAGEM

A expressão dos gestos no jogo de capoeira, está intimamente ligada à sua história. Esta nossa busca de
interpretação dos significados dos gestos que o capoeirista faz, nos levou às referências históricas, sociais e
antropológicas do africano na América. Colocou-nos em sua época, vendo-o e sentindo as coisas mesmas que
sentiu. Compreendemos, ao menos parcialmente, o preconceito e as condições em que se encontram os
descendentes da diáspora africana, associando os negros e mulatos à maioria da população que compõe os
miseráveis brasileiros.
A capoeira como conteúdo das aulas de Educação Física nos faz compreender o porquê do passado
sangrento que envolve a capoeira e o capoeirista, e que se transforma numa perspectiva atual: das maltas que se
gladiavam no Rio de Janeiro de fins do século passado e início deste, e que se abrem nos “arrastões”, nas praias
da mesma cidade; dos adolescentes brasilienses, praticantes de lutas, que se reúnem para surrar e matar outros
menos favorecidos; do grupo neo-nazista “Carecas do ABC”que lincham e matam por causa da preferência
sexual.
Por vezes, penso não ser privilégio nosso, pesquisadores da capoeira, chegar a tais conclusões e que
estas já estão presentes na inteligibilidade de cada brasileiro. Por isso, a capoeira, legítima manifestação nacional,
ser alvo de tantas críticas e desprezada enquanto prática de lazer, por estar associada a seu passado “negro”.
Embora ocorra, sua presença ideológica e tática, está enraizada no inconsciente de boa parte de nós: a malícia, o
engodo, a mandinga, enfim, o “jeitinho brasileiro”, resultado da histórica conveniência do branco à negação da
cultura negra, que por isto, cria sua própria maneira de se manifestar, a Ética da Malandragem.
Por estarmos ligados à Educação Física e preocupados com os conteúdos desta disciplina acadêmica
que, por si só, já está farta de críticas, pensamos ser a capoeira, com todas as suas características de presença -
a música, o ritual, a expressão, a harmonia, sua pluralidade de manifestação e sua ambigüidade -, uma grande
escola, que reúne em sua efetivação, instrumentos sem par para a Educação formal e informal. Sem esgotar o
assunto e não querendo ser repetitivos, gostaríamos de atentar ao que se refere à ambigüidade da capoeira:
manifestando-se como jogo, como luta e como dança, sem assumir efetivamente nenhuma destas características
isoladamente, mas sendo todas ao mesmo tempo. Melhor seria se chamássemos a capoeira de um jogo-de-luta-
dançada. Pois, enquanto jogo, brinca-se de capoeira, exalta-se a sua ludicidade, assumindo papéis criados por
nossas fantasias, fingimos lutar. Baseia-se justamente na oportunidade de enganar o outro, de surpreendê-lo
numa armadilha, ou de fingir ter caído na dele. Como luta, a capoeira espanta pela técnica e pela estética de seus
movimentos de esquiva, de desequilíbrio, de traumatismo e os ornamentais, sendo este último conjunto o que
mais dá originalidade à luta de capoeira. Como dança, a capoeira vem reafirmar seu princípio cultural:
originariamente, a comunidade negra possuía danças que simbolizavam vários momentos de seu cotidiano: sua
religiosidade, seu trabalho, seus encontros sociais e ... suas lutas. Na verdade o negro dançava para a vida. Daí,
esta simbiose direta entre luta e dança.
Na verdade, estamos falando aqui das possibilidades do corpo humano através da capoeira. Ainda que
tentássemos explorar todas, ficaríamos devendo. Merleau-Ponty talvez tenha chegado muito próximo disto, ao
falar das dimensões do corpo-próprio: espaço, tempo, movimento, lugar, sensação, ritmo e expressão (gesto),
dimensões estas também apropriadas pelo capoeirista.
Numa última frase:
“É pelo meu corpo que compreendo o outro, como é pelo meu corpo que percebo as 'coisas'. O sentido
do gesto assim 'compreendido' não está por detrás dele, confunde-se com a estrutura do mundo que o
gesto designa e que retomo à vontade, ele se abre no próprio gesto...” 54.

54Maurici MERLEAU PONTY, Fenomenologia da percepção, p. 196.


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____________. Palestra concedida na 3 Clínica de Capoeira: A relação entre princípios pedagógicos em


Educação Física com a capoeira praticada em escolas do Distrito Federal. São Paulo, CEPEUSP,
17/10/1993.

Dos Autores
-André Luis de Oliveira é praticante de capoeira desde 1979, graduado em Educação Física pela UNESP de Rio
Claro SP e mestre em Educação pela PUC/SP, professor de Capoeira e Filosofia da Educação da UNICASTELO
e UNINOVE e coordenador do grupo de estudos em Capoeira e Educação Física na FEFISA.
-Hermes Soares dos Santos é praticante de capoeira desde 1978, graduando em Educação Física pela FEFISA
e professor de Capoeira em Academias em Santo André e São Caetano.
-Maria Angélica Rocha é graduada em Educação Física pela UNESP de Rio Claro SP, mestre em Educação
pela PUC/SP, professora de Educação Física escolar e de capoeira na rede municipal e estadual de Campinas
SP.
-Maurício Germano é praticante de Capoeira desde 1985, graduando em Educação Física pela FEFISA e
professor de Capoeira em São Bernardo, SP.
-Naylor de Oliveira é praticante de Capoeira desde 1995, e graduando em Educação Física pela FEFISA.