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Descriminalização do Uso de Drogas: Objeções

1. Preâmbulo

Remédio que não opera os efeitos desejados, manda a saúde


do paciente que se substitua; muita vez, o próprio médico é o
substituído. O que em verdade importa, na cura ou erradicação do
mal, é a terapêutica eficaz.

Isso, que ordinariamente passa no âmbito das ciências


médicas, é fenômeno comum a todos os ramos da atividade
humana: onde apareça o mal, aí se lhe haverá de aplicar o corretivo
ou a terapia adequada.

É fora de questão que os meios legais empregados no


combate ao tráfico e ao uso indevido de substâncias entorpecentes
não se revelaram, quanto ao resultado, dignos de encômios, nem
suscitaram, no peito de varões graves, arroubos sinceros de
otimismo. Bem ao revés, nisto das drogas proibidas, os que
mourejaram em conter-lhes a difusão não esconderam seu
desalento e, malcontentes, entraram a murmurar entre si aquelas
palavras a um tempo fatais e elegantes dos discretos: “mais fácil fora
endireitar a sombra da vara torta!” (1).

Não estranha, portanto, que alguns espíritos (de igual talento


que audácia) hajam proposto, por equacionar o problema das
drogas, medidas extraordinárias, uma das quais sua
descriminalização (2) ou exclusão da sanção penal (3). Descriminalizar
o teor de proceder de alguém monta o mesmo que subtraí-lo à
censura do direito. Esta, a solução que alguns excogitaram para o
desafio das drogas (4): expungir-lhes a nota de substância proibida.
Seu uso estaria, pois, ao abrigo da severidade da lei.
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2. Argumentos Pró-Descriminalização das Drogas e sua Refutação

Os que, para pôr cobro à desenfreada propagação das drogas,


advogam a tese de sua descriminalização, fazem-no arrimados aos
seguintes argumentos:

a) proibir o consumo de droga não seria outra coisa que


incentivá-lo, pois o proibido é sempre apetecido;

b) a saúde e a vida, atributos personalíssimos do indivíduo,


tocam-lhe exclusivamente;

c) a legalização do consumo de drogas permitiria ao poder


público melhor controle sanitário das doenças que a elas estão
associadas, e sua eficiente profilaxia.

Tais argumentos, ainda que ao primeiro lance de olhos


possam impressionar, mostram-se, porém, quando examinados de
fito e sobremão, desmerecedores de acolhimento, sendo
especiosos.

No que respeita à alegação de que as coisas proibidas excitam


geralmente a curiosidade, não há que opor, visto que se trata de
tendência natural da condição humana, que deseja romper o véu de
mistério que as costuma cingir (5).

Daí não procede, contudo, mereça condescendência o


inveterado sestro do homem de querer devassar todos os segredos,
máxime os de que lhe possam advir males e infortúnios.

Primeiro que encete alguma resolução e a ponha por obra, é


de homem sensato avaliar ao justo seus atos, sem fazer tábua rasa
da lição da experiência vulgar; nele a razão haverá de triunfar
sempre da vontade e de suas ruins inclinações.

Aqueles que, menoscabando os conselhos da prudência,


intentam afrontar o desconhecido, olhem não lhes suceda o mesmo
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que à sinistra caixa de Pandora que, aberta pela curiosidade, foi


causa e origem de “males que inundaram a terra inteira” (6).

Outro argumento dos partidários da descriminalização das


drogas é que, tendo direito o indivíduo à privacidade, cabe a ele
unicamente dar à sua vida o rumo que lhe pareça melhor.

Posto depare patrocinadores conspícuos em todas as esferas


da inteligência (7), tal razão, com a devida vênia, não persuade nem
colhe: à uma, porque, ao invés do que sustentam, a concepção de
ser “gregário”, com que Aristóteles definiu o homem (8), veda-lhe se
aparte a seu talante e discricionariamente da comunhão social; à
outra porque, vivendo em sociedade, não pode o indivíduo eximir-
se da observância dos preceitos que a regem; à derradeira, porque a
afirmação de que, senhor de si, pode o homem dispor livremente
de sua saúde e vida contravém de rosto à boa doutrina jurídica e a
respeitáveis cânones da Moral.

É o parecer de Nélson Hungria, insigne oráculo do Direito


Penal: “Tutelando esses bens físicos do indivíduo, a lei penal está servindo ao
próprio interesse do Estado, pois este tem como elemento primacial a
população, e à sua prosperidade não é indiferente a saúde ou vitalidade de
cada um dos membros do corpo social” (Comentários ao Código Penal, 1981,
vol. V, p. 15).

Outro tanto à luz da Moral: “Da mesma sorte, deve o Estado


intervir contra certos abusos da liberdade pelos quais o interessado faz mal a
si mesmo: assim no caso da liberdade de consumo do álcool ou de outros
produtos nocivos…” (União Internacional de Estudos Sociais, de Malines,
Código de Moral Política, 1959, p. 96).

De tudo o sobredito facilmente se conclui que o direito à


intimidade não é absoluto e irrestrito, mas conhece
temperamentos. É que “o homem, enquanto indivíduo que integra a
coletividade, precisa acatar as delimitações que lhe são impostas pelas
exigências da vida em comum” (9).
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A nobreza de seus intuitos não os guarda do erro em que


incidem, e é que põem a mira em debelar um mal, quando na
realidade estão dando origem e voga a infinitos outros (10).

Os discursos a favor da descriminalização do uso de drogas


têm-se inspirado na suposição enganosa de que, uma vez liberadas,
menos árduo será o combate que se lhes deve dar, sem tréguas nem
quartel.

Esse argumento logo se percebe que é contraproducente:


nunca se viu maior ilogismo que o de emprazar o toque de rebate
ao adversário para depois que se tornou forte, poderoso e, de
conseguinte, invencível. Estratégia é esta que jamais deu lustre a
nenhum capitão de boa milícia!

Ao inimigo (e que outro nome convém ao pernicioso mal das


drogas?!) ao inimigo, se o queremos deveras vencer, cumpre
mover-lhe guerra perpétua de extermínio, sem dó nem
complacência.

Iludem-se redondamente aqueles que defendem se lhe deva


conceder algum respiráculo (que a tal equivaleria a liberação do uso
dos tóxicos) para, ao depois, empenhar-se na campanha de sua
erradicação.

Mais assentado foi Ovídio, que de tema semelhante poetou:


“No princípio é que se devem atalhar os grandes males; tardio será o remédio,
depois que o mal houver criado raízes” (11).

3. Razões para a Criminalização do Uso de Drogas

Nenhuma pessoa medianamente esclarecida (e que não


coxeie do intelecto) poderá divergir, no atual estágio dos
progressos científicos, deste voto abalizado dos que professam com
retidão a Medicina: usar drogas é arruinar a saúde (12).
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Retrato fiel dos malefícios que ao indivíduo e à sociedade


causa a disseminação dos entorpecentes, debuxou com pincel de
artista o saudoso e emérito ex-Ministro da Justiça Alfredo Buzaid:
“A predisposição a estados neuróticos e psicóticos e à criminalidade, a
aniquilação da vontade, a desagregação da família, a corrupção dos costumes,
o abandono dos princípios éticos de convivência social e a desintegração da
unidade nacional, são alguns dos efeitos perniciosos da utilização indevida
dessas substâncias” (13).

Daqui veio o discordarem autores de muito nome do


estribilho da liberação das drogas, da maconha inclusive (14).

Mas, a consciência dos juízes não poderia ficar indiferente à


crueza da lei que, sem atender à circunstância de tratar-se de mero
experimentador ou neófito (que pela primeira vez se envolvera em
drogas), comina pena áspera a quem dela faz uso indevido.

Por isso, a despeito das vozes que se ergueram, conclamando


à fiel observância da Lei dos Tóxicos (15), pouco e pouco um fino
senso de equidade foi prevalecendo no julgamento de certas
hipóteses de violação do art. 28 da Lei nº 11.343, de 23.8.2006, que
define e pune o crime de posse, para uso próprio, de substância
entorpecente.

Para não imprimir o estigma da punição na fronte do jovem


que, ocasional e esporadicamente, usou droga (o que lhe poderia
comprometer sem remédio o futuro), a aplicadores da lei não tem
repugnado alvitrar algumas soluções benignas; que nem sempre
será o juiz escravo da lei (16).

Nesse pressuposto, não será muito realmente que a Justiça


Criminal, tratando-se de réu primário, acusado de trazer consigo,
para seu uso, ínfima quantidade de maconha, opte pelo desfecho
absolutório, ou lhe decrete o perdão, qual sugere a Doutrina (17) e
vêm praticando, com a luz da experiência e o ardor do zelo,
insignes Magistrados (18).
6

Ao demais, como forma de atenuar a rigidez da lei, não raro


tem sido convolada para multa a pena privativa de liberdade
imposta ao usuário de tóxico. A medida é de boa política criminal e
atende ao fim precípuo da pena: reeducar o delinquente para a sociedade.

A dar-se o caso que se tornara viciado em drogas e delas


dependente, não ficará então o usuário sujeito a pena detentiva,
senão a tratamento adequado, até se restabeleça da toxicomania,
doente que é, não só infrator.

4. Conclusão

De par com a repressão (imprescindível ao combate às


drogas), urge promover campanhas educacionais permanentes
sobre seus malefícios, que se inscrevem entre os piores de que há
memória nos fastos da Humanidade.

Aos que, enfraquecida a vontade, acederam a atrativos


ilusórios e abismaram-se no vício, não lhes falte a beneficência
comunitária com os cuidados médicos e com o conforto do
espírito, de que andam carecidos.

A Justiça, considerando mais na recuperação do infrator do


que na satisfação do crime, abrande, quanto em si caiba, o rigor da
clava penal.

O jovem, esse que reflita nas excelências da pessoa humana,


chamada a participar utilmente do convívio social e a obrar
segundo os ditames de sua origem divina, e pratique sem quebra
nem desmaios aquele áureo princípio de que se jactava a
antiguidade clássica: “Mens sana in corpore sano” (19).

Carlos Biasotti
Desembargador aposentado do TJSP e ex-presidente da Acrimesp
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Notas

(1) Cunhada pelo venerável escritor seiscentista Heitor Pinto


(Imagem da Vida Cristã, 1940, vol. I, p. 168), esta feliz e original
expressão teve curso imediato e desembaraçado na literatura.
Dentre outros, serviram-se dela: Amador Arrais (Diálogos,
1846, p. 335); Manuel Bernardes (Nova Floresta, 1706, t. I, p.
17; Luz e Calor, 1871, p. 174) e Camilo Castelo Branco (Questão
da Sebenta, 1883, vol. V, p. 7).

(2) Segundo Ulsman, descriminalização é “ato e a atividade pelos quais


um comportamento, em relação ao qual o sistema punitivo tem
competência para aplicar sanções, é colocado fora da competência desse
sistema” (in Revista de Direito Penal, ns. 9/10, 1973, p. 7; trad.
Yolanda Catão).

(3) Carlos Vico Mañas, O Princípio da Insignificância como Excludente


da Tipicidade no Direito Penal, 1994, p. 24.

(4) Aqui e noutros lugares o vocábulo droga é empregado na


acepção restrita de substância entorpecente.

(5) Conforme a tradição bíblica, foi a curiosidade que levou


nossos primeiros pais a comer, no Éden, o fruto defeso pelo
Criador (Gên 2,17); ela, a que aproximou Plínio, o Antigo, do
Vesúvio, que o sepultou em suas cinzas (cf. Leopoldo Pereira,
Ideias da Antiguidade, 1966, p. 124).

(6) Narciso José de Morais, Flores Históricas, 1887, p. 25.

(7) Passando em silêncio outros muitos, por forçada brevidade,


merece registrado e lido o artigo que, ao propósito, escreveu
o ilustre Promotor de Justiça Dr. Lycurgo de Castro Santos,
na Revista Brasileira de Ciências Criminais, nº 5, pp. 120 e 126.
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(8) “O homem é naturalmente um animal político, destinado a viver em


sociedade, e aquele que, por instinto, e não porque qualquer
circunstância o inibe, deixa de fazer parte de uma cidade, é um ser vil
ou superior ao homem” (A Política, cap. I, § 9º; trad. Nestor
Silveira Chaves).

(9) Luiz Vicente Cernicchiaro e Paulo José da Costa Jr., Direito


Penal na Constituição, 1990, p. 202.

(10 ) “O entorpecente causa os seguintes sintomas:


1 - um estado de ebriedade;
2 - leva ao hábito;
3 - produz tolerância (necessidade de aumentar a dose);
4 - provoca síndrome da abstinência; e
5 - leva, afinal, à decadência moral, física e psíquica”
(Valdir Snick, Entorpecentes, 1981, p. 12).

(11) Apud Arthur Rezende, Frases e Curiosidades Latinas, 1955, p.


605.

(12) Não só a toxicomania, também o alcoolismo e o fumo está


comprovado que são dois agentes deletérios da saúde. Hoje, a
ninguém é lícito “ignorar as evidências relacionadas à mortalidade e
ao uso de cigarro”, brada o médico Ronaldo Larajeira (cf. O
Estado de S. Paulo, 10.11.94, p. 2). O próprio Governo parece
interessado na cruzada antitabagística, ao obrigar que a
propaganda veiculada pela televisão traga a advertência
“fumar é prejudicial à saúde”. Trata-se, no entanto, de pregão
hipócrita. O ponto estava em proibir o anúncio comercial,
não só embargar-lhe os efeitos. Mais autêntico, embora de
mau exemplo, o refrão popular, que soa: “Quem não bebe, não
fuma e não mente não é filho de boa gente”!

(13) Apud João Claudino de Oliveira Cruz, Tráfico e Uso de


Entorpecentes, 1973, p. 5.
9

(14) “Não se pode legalizar ou liberar ou liberalizar a maconha,


reconhecidamente nociva ao indivíduo e à sociedade” (Geraldo
Gomes, in Revista dos Tribunais, vol. 694, p. 436). Desta
opinião, é certo, discrepam vultos supereminentes da
república das letras jurídico-penais, como Paulo José da Costa
Jr.: “Nunca me convenci de que o simples uso devesse ser punido. O
crime de uso de drogas é um crime sem vítima. Ou melhor, é um delito
em que o próprio agente é a grande vítima do seu comportamento
delituoso” (in O Estado de S. Paulo, 11.55.93).

(15) “Exempli gratia”, o ex-Ministro Aliomar Baleeiro, que, da alta


curul do Supremo Tribunal Federal, pontificou solenemente
não ser lícito sublevar-se alguém “contra a lei expressa, ainda que
a repute iníqua e inepta, quando pune brutalmente a posse da
maconha para uso próprio” (in Revista de Direito Penal, ns. 13/14,
1974, p. 28).

(16) É tema fecundo em controvérsia esse da obediência do juiz à


lei. Querem uns, imolando na ara da tradição, que “deverá o
juiz obedecer à lei, ainda que dela discorde, ainda que lhe pareça
injusta” (Mário Guimarães, O Juiz e a Função Jurisdicional, 1958,
p. 330). Sentem outros o contrário, e não se lhes podem
recusar justos aplausos. Desse número, como de grão-
sacerdotes do templo da Justiça, folgamos em referir as
palavras de dois preclaríssimos autores: “Note-se bem e note-se
muito: o que importa não é a lei mas o direito, que vive e vibra na
consciência do povo. Fazer justiça não é, em muitos casos, obedecer à lei
e, sim, obedecer ao direito que é a fonte da lei” (Eliézer Rosa, A Voz
da Toga, 2a. ed., p. 49); “A lei é escrava do juiz, que a manipula e
interpreta visando a fazer justiça. O juiz não pode prestar-se a ser
instrumento dos códigos. Ao revés, estes são sua ferramenta para
atingir o grande ideal humano de justiça” (Alfredo Tranjan, A Beca
Surrada, 1994, p. 146).

(17) Cf. Geraldo Gomes, op. cit., p. 435.


10

(18) Os que vão adiantados na vida forense terão conhecido mais


de um caso de absolvição de réu primário, menor e neófito
(experimentador de droga). A causa de decidir entendeu, pelo
comum, com o ideal de ressocialização do indivíduo: “Não
seria justo obstar o caminho do acusado, dificultar sua vida neste
mundo, que já é tão duro para os jovens pobres” (João Baptista
Herkenhoff, Uma Porta para o Homem no Direito Criminal, 1988,
p. 133). À luz da nova disciplina jurídica, está sujeito o
usuário de substância entorpecente às seguintes penas: “I –
advertência sobre os efeitos das drogas; II – prestação de serviços à
comunidade; III – medida educativa de comparecimento a programa ou
curso educativo” (art. 28 da Lei nº 11.343, de 23.8.2006).

(19) “Um espírito são num corpo são” (Juvenal, Sátira X, v. 356; apud
Arthur Rezende, op. cit., p. 410).