Você está na página 1de 4

O discurso paulino é caracterizado pela natureza circunstancial de suas

missivas. Como escritos de ocasião, redigidos com o propósito de atender


demandas e resolver questões em comunidades cristãs, as cartas paulinas,
sejam autênticas ou não, conservam seus atributos fundamentais: múltiplas
temáticas, riqueza imagética, transições encadeadas, retórica judaico-
helenística e grega-popular.
Em relação à Carta aos Romanos, tem grande importância a questão do
judaísmo e a sua validade/universalidade. A abrangência mais limitada do
judaísmo estrito do seu tempo, em oposição ao universalismo cristão da
pregação aos gentios provocou em Paulo a iniciativa de resolver teologicamente
o dilema. Ele o fez com o arguto conceito de “salvação/aliança” em Abraão.
Abraão, patriarca do povo judeu, não poderia se dissociar da etnia que dele
procede. Porém, Paulo lança mão da conhecida trajetória do patriarca para
atribuir-lhe a fé como elemento fundamental de seu vínculo com Deus, fazendo
alusão frequente da temática já referida na carta aos Gálatas, e que ecoa em
Romanos, de Habacuque 2.4. No texto em questão, outro argumento, ainda mais
elaborado, é trazido à lume. Abraão, que gerara outros filhos, tem por
descendente (semente) apenas Isaque. Em um sofisticado jogo retórico, Paulo
questiona a identidade dos judeus do seu tempo, indicando que nem todos os
que foram nascidos de estirpe judaica seriam verdadeiramente judeus, do
mesmo modo que nem todos os que eram nascidos de Abraão eram os seus
descendentes.
Não há nesta passagem uma argumentação com amplo espectro social, visto
que ela se limita a questão da judaicidade dos interlocutores/leitores. Porém,
ainda assim, ela tange em um grupo que, como se verá posteriormente, é
relevante na discussão paulina a respeito do esvaziamento da identidade social
e a nova identidade dos que, em Cristo, se tornam parte dos que estão
relacionados com Deus na 'ekklesía toû Theoû".

Quanto ao contexto da primeira carta aos Coríntios, esse é de oposição entre


grupos rivais, que provocou a dissociação interna na comunidade. A carta é um
apelo, desde o prólogo, à unidade. Paulo recorre, no afã de que a divisão seja
superada, a uma nova classificação interna na comunidade: espirituais e carnais.
Os carnais são os responsáveis pelas divisões. Os espirituais, são os que
atendem às instruções. No argumento paulino acima, os espirituais julgam, mas
não são julgados. É uma nova categoria, criada especialmente para atender às
demandas discursivas de Paulo no embate com os problemas da comunidade
cristã coríntia.
O mesmo recurso discursivo ocorre na segunda carta aos Coríntios, em que
Paulo, descrevendo as suas dificuldades na viagem à Macedônia e na própria
região, descreve-as utilizando os termos em questão:
Pois, depois de ir para a Macedônia, a nossa carne não teve descanso, mas em
tudo fomos oprimidos; lutas por fora, medos por dentro. (2 Coríntios 7.5)
Aqui, a oposição se mantém dissociada de entes sociais. Observa-se, portanto,
que faz parte da função do discurso marcado pela presença do conjunto que aqui
se destaca opor ideias, nem sempre em situação de oposição de grupos, mas
também de valores ou condições. Está-se aqui no campo da retórica popular em
língua grega, típica dos centros urbanos nos quais Paulo se desloca, em que a
argumentação tange a oposição de ideias para instruir claramente, em um
contexto de estoicismo popular, aquilo que deve ser aceito como socialmente
apropriado ou rejeitado como socialmente inapropriado (ou seja, é mais do que
um conjunto de princípios morais). Conforme diz Lee, comentando a teoria de
Zenão, Cícero e Sêneca e, em seguida, as influências do estoicismo em Paulo:
"A life in accordance with nature is thus a life in accordance with the koinós
nómos. Koinós nómos, however, corresponds more to a mental disposition than
to a set of moral rules. The sage’s perfectly rational disposition allows one to
make exceptions to the moral code depending on the circumstance." [A vida de
acordo com a natureza é, portanto, uma vida de acordo com o koinós nómos.
Koinós nómos, no entanto, corresponde mais a uma disposição mental do que
um conjunto de regras morais. Disposição perfeitamente racional do sábio
permite fazer exceções ao código moral, dependendo da circunstância.]
Observa-se claramente, nas acepções de vida comum a partir de princípios
espiritualmente estabelecidos (koinós nómos), da ideia de unidade e vinculação
à harmonia universal uma clara interface entre tais concepções e as metáforas
paulinas de edifício, lavoura, família e corpo em Coríntios, bem como à ideia da
coparticipação dos agentes fundadores da comunidade coríntia diante de um
plano maior e universal conduzido pelo ser divino e, por fim, a necessidade de
integração a partir de concepções como o amor e a fé (e não de governo comum
ou mediante a autoridade externa ao corpo). Sobre isso, diz também LEE:
For Paul, those who have the nómos can comprehend the things of God,
including the paradox of Christ crucified as the wisdom and power of God. With
the mind of Christ, the Corinthians can know the things God reveals through the
Spirit, and so be spiritual people who declare the Lordship of Jesus (12:3).
However, the problem with the Corinthians is that they have not fully reached
their potential, as evidenced by their quarreling. Paul’s appeals to them to cease
their factionalism are rooted in the need to apply properly the wisdom of the cross.
Until they understand and live by the logic of the eschatological universe, they
cannot be spiritually mature.
[Para Paulo, aqueles que têm o nómos pode compreender as coisas de Deus,
incluindo o paradoxo de Cristo crucificado como a sabedoria e o poder de Deus.
Com a mente de Cristo, os coríntios pode saber as coisas que Deus revela
através do Espírito, e assim ser pessoas espirituais que declaram o Senhorio de
Jesus (12:3). No entanto, o problema com os coríntios é que eles não tinham
atingido completamente o seu potencial, como evidenciado pela sua discussão.
Os apelos de Paulo para que eles deixassem o seu partidarismo estão
enraizados na necessidade de aplicar corretamente a sabedoria da cruz. Até que
eles entendessem e vivessem pela lógica do universo escatológico, eles não
podiam ser espiritualmente maduros.]
A questão social, portanto, é diretiva das demais questões, ainda que, quando
se diga ‘social’, tal vocábulo não represente aquilo que denota a semântica do
termo nas ciências sociais contemporâneas. Limita-se, portanto, o vocábulo à
percepção, espírica, filosófica e/ou religiosamente limitada dos que usavam tais
categorias. E é a tal percepção, a saber, a escolha de um recorte social, que
adota-se aqui para a delimitação de perícopes, uma vez que os valores (sociais,
morais, filosóficos, religiosos etc.) geralmente escamoteiam os grupos em
questão, em contraste com a análise possível a partir da observação da
explicitação paulina dos grupos que ele destacou. Paulo, ao mencionar entes
sociais e inseri-los em seu esquema retórico, torna-se uma relevante fonte de
análise e investigação.

Brian Kibuuka
https://www.facebook.com/ib.jardimjoari/posts/1008092119378439
acessado em 14/02/2019 às 18:51h