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Pobreza e Fecundidade

August Bebel
1879

Primeira edição: item 3 do capítulo XXX do livro: A Mulher e o Socialismo,


publicado na Alemanha em 1879
Fonte: Partido da Causa Operária
Transcrição: Alexandre Linares
HTML: Fernando A. S. Araújo.

De qualquer ângulo que se considere o sistema econômico


do capitalismo, veremos sempre que a necessidade e a
miséria das massas não são conseqüências da penúria dos
meios de subsistência e de víveres, mas sim da desigual
distribuição dos mesmos e da absurda administração
econômica, que proporciona abundância a uns e condena
outros à fome. As afirmações de Malthus só tem sentido
partindo da produção capitalista.

Por outro lado, a produção capitalista incentiva a


procriação: para as oficinas e as fábricas precisam-se de
"braços" baratos sob a forma de menores. Para o
proletariado, a procriação tem a sua conta: os filhos têm de
ganhar o pão. Na industria caseira, o proletariado vê-se
inclusive forçado a ter muitos filhos, pois que isso lhe garante
a possibilidade de competir com os rivais. É, na verdade, um
sistema atroz, que agrava o empobrecimento operário e o
torna mais dependente do patrão. O proletário tem de
trabalhar, em troca de um salário cada vez mais miserável;
toda a lei de proteção ao trabalho, toda a nova despesa para
cumprir este ou aquele dever social, que o empresário não
tem de satisfazer com respeito aos operários que trabalham
em casa própria, estimulam os capitalistas a ampliarem este
tipo de indústria a domicílio porque, em resumo, o sistema
proporciona ao patrão vantagens que este dificilmente
encontraria noutras formas de empresa; porém, como é
natural, o caráter do processo de produção nem sempre torna
possível a indústria doméstica.
O sistema capitalista de produção não apenas gera a
superprodução de mercadorias e de operários, como também
de intelectuais; a estes é cada vez mais difícil encontrar
trabalho, pois a oferta é maior que a procura. No mundo
capitalista, só uma coisa é supérflua: o capital e o seu
proprietário, o capitalista.

Os economistas burgueses são malthusianos, pois assim o


exige o seu interesse burguês. Apenas é preciso que não
tornem extensivas à sociedade socialista as suas
necessidades burguesas. Até John Stuat-Mill disse:

"O comunismo é precisamente o estado de coisas


do qual cabe esperar que a opinião pública se
pronuncie de modo mais enérgico contra esta
espécie de intemperança egoísta. Todo o
aumento de população, capaz de restringir o
bem-estar ou de aumentar os encargos das
massas, deveria ter, para cada indivíduo da
associação, inconvenientes diretos e
incontroversos que pudessem imputar-se à
avareza do empresário ou aos injustos privilégios
dos ricos. Nestas circunstâncias tão diversas, a
opinião pública não poderá deixar de manifestar a
sua reprovação; e se tal não bastasse, há que
reprimir, com certas penalidades, toda a
incontinência suscetível de causar dano à
sociedade. Assim, a teoria comunista não merece
de modo algum censura pelo perigo de
superpopulação; ela antes se recomenda pela
tendência para evitar tal inconveniente."

Na página 376 do Manual de Economia Política de Rau, o


professor Wagner afirma:

"Ainda menos se poderão conceder, na sociedade


socialista, a liberdade de matrimônio e a de
procriação."

Desta forma, os mencionados autores chegam à conclusão


de que a tendência para a superpopulação é própria de todos
os estados sociais, e ambos afirmam que o socialismo, melhor
que qualquer outra formação social, estará em condições de
pôr em equilíbrio a correlação entre a população e os meios
de subsistência. A segunda opinião é justa, ao passo que a
primeira é errada.

É certo que houve socialistas que, corrompidos pelas


idéias malthusianas, receavam a "aproximação" do perigo de
superpopulação. Mas desapareceram. O estudo profundo da
teoria e da essência da sociedade burguesa curaram-nos
deste erro. São igualmente esclarecedoras para nós as
lamentações dos nossos agrários a respeito da produção
demasiada de víveres, do ponto de vista do mercado mundial,
até que a subseqüente redução de preços privou de
rentabilidade a dita produção.

Os nossos malthusianos pensavam, e os charlatões


burgueses fizeram coro, que a sociedade socialista, onde
existe a liberdade do amor e da vida digna do ser humano,
será semelhante a uma sociedade de coelhos, afundar-se-á
na pior das liberdades sexuais e dedicar-se-á à desenfreada
proliferação. Dar-se-á precisamente o inverso. Até agora, em
média, as famílias menos afortunadas têm mais filhos. Pode-
se inclusive afirmar, sem medo de exageros, que quanto mais
pobre é a camada proletária, mais filhos as suas famílias têm;
embora haja exceções. Virchew confirma-o, quando em
meados do século passado escrevia:

"Assim como o operário inglês, na sua mais funda


depravação e na sua extrema decadência mental,
não conhece, no fim das contas, senão os
prazeres — a bebida e a satisfação carnal —, a
população da Alta Silésia, até os últimos anos,
centra todos os seus desejos e todas as suas
aspirações nestas duas coisas. A aguardente e o
desregramento sexual impuseram o seu poder
supremo nesta zona. Assim se explica o rápido
crescimento numérico da população e a sua
igualmente rápida degenerescência física e
moral."

Marx expressa idêntico critério em O Capital:


"De fato, não é apenas o número de nascimentos
e de óbitos, mas também o aumento das famílias
que se acha na razão inversa do montante do
salário, quer dizer do conjunto do meio de
subsistência de que dispõem as diferentes
categorias de operários. Esta lei da sociedade
capitalista será disparatada entre selvagens e até
entre os colonos civilizados. É uma lei que
recorda a reprodução em massa de espécimes
animais individualmente débeis e perseguidas".

Mais adiante, Marx cita Laing:

"se toda a gente vivesse desafogadamente, a


terra não tardaria a ficar despovoada".

Assim, Laing mantém uma opinião contrária a de Malthus:


"as boas condições de vida não estimulam, antes reduzem a
natalidade". O mesmo afirma Hebert Spencer: "A perfeição e
a capacidade de procriação são sempre opostas uma à outra.
Daqui se deduz que o sucessivo progresso da humanidade
levará, possivelmente, a uma menor procriação."

Por conseguinte, neste ponto coincidem opiniões de


homens que, noutros problemas, ocupam posições distintas.
Na questão que nos interessa, aderimos a eles.

A Mulher no Futuro
August Bebel
1879

Primeira edição: Capítulo XXVIII do livro: A Mulher e o Socialismo, publicado na


Alemanha em 1879
Fonte: Partido da Causa Operária
Transcrição: Alexandre Linares
HTML: Fernando A. S. Araújo.
Este capítulo será muito curto. Não conterá mais que as
conclusões que se tiram do que foi dito acerca da mulher na
futura sociedade, conclusões que cada leitor pode tirar por si
próprio.

A mulher será completamente independente, no aspecto


econômico e no social, não conhecerá sequer a sombra de
domínio ou de exploração. Será livre, igual ao homem e
senhora do seu destino. Será educada como ele, salvo nos
casos em que é incontestável a diferença de sexos. Vivendo
em condições naturais, ela poderá desenvolver as suas forças
físicas e intelectuais conforme as suas necessidades; terá
toda a liberdade para escolher a esfera de atividade que
melhor corresponde aos seus anseios, inclinações e dotes e
trabalhará em condições de igualdade com o homem. Uma
parte do dia a operária ocupa-se em algo de prático, na outra
parte dedica-se à educação dos jovens ou cuida dos
enfermos, a terceira parte emprega-a em problemas de arte
ou de ciência e, finalmente, no restante tempo cumprirá
qualquer função administrativa. Dedica-se á ciência, trabalha,
descansa e diverte-se em companhia de outras mulheres ou
homens, conforme for seu desejo e sempre que tenha
oportunidade.

Tal como o homem, a mulher gozará plena liberdade na


escolha do seu companheiro. Elege-o ou é eleita e só se
casará se o escolhido corresponder às suas inclinações. Esta
união será, como era antes da Idade Média, um contrato
privado, sem a intervenção das autoridades. O socialismo,
aqui, nada cria de novo; a única coisa que faz é pôr a um
nível cultural superior e em novas formas sociais o que era
regra geral enquanto não se impôs na sociedade o reinado da
propriedade privada.

O homem poderá dispor de si, sempre que a satisfação


das suas necessidades não cause dano aos outros. A
satisfação do instinto sexual é uma coisa tão pessoal do
indivíduo como a satisfação de qualquer outra necessidade
natural. Ninguém terá por esse fato que dar contas a outrem
e ninguém deverá imiscuir-se no assunto, sem ser solicitado a
fazê-lo. As minhas relações com pessoas de outro sexo, o
meu modo de comer, de beber, de vestir e de dormir são
coisas pessoais minhas. A inteligência, a instrução e completa
independência do indivíduo são propriedades que, em virtude
da educação e das condições da sociedade futura, serão
naturais e protegerão cada um contra atos improcedentes. Os
homens e as mulheres da sociedade futura possuirão um grau
de desenvolvimento e de conhecimento de si mesmos muito
mais alto do que possuem hoje. Já o fato de haver
desaparecido toda a falsa vergonha e todo o medo ridículo de
falar dos problemas sexuais, como se fosse algo de
misterioso, tornará muito mais naturais as relações entre os
sexos. Se entre duas pessoas que contraíram matrimônio
surge indiferença ou antipatia, é moral desfazer a união, pois
ela se tornou antinatural e, portanto, amoral. Ao
desaparecerem todas as circunstâncias que atualmente
condenaram muitas mulheres ao celibato ou à prostituição, os
homens não poderão já fazer valer o seu predomínio. Por
outro lado, as importantes mudanças ocorridas nas condições
sociais suprimirão muitos obstáculos e causas de
desorganização que hoje influem na vida conjugal e a
tornaram por completo impossível e impedem a sua
felicidade.

Os obstáculos, as contradições e o caráter antinatural da


atual situação da mulher são conhecidos de todos e têm a sua
expressão na literatura social, nas novelas quase sempre de
forma infeliz. Nenhuma pessoa inteligente negará que o
matrimônio atual corresponde, cada vez menos, à sua
finalidade, mesmo aqueles que não se mostram conseqüentes
na sua ânsia de modificar o nosso regime social, achem
perfeitamente justo que o amor como o divórcio seja livre;
estas pessoas opinam que só as classes privilegiadas devem
ser livres nas relações sexuais. Vejamos, por exemplo, o diz
Matilda Reichardt-Stromberg na sua polêmica contra os
esforços da escritora Fanny Leward para conseguir a
emancipação da mulher:

"Se Fanny Lewald reclama, para a mulher, a


completa igualdade de direitos com o homem na
vida social e política, George Sand tem também
necessariamente razão nas suas reivindicações de
emancipação, pois não pede mais do que aquilo
que o homem de há muito possui. E não há
qualquer motivo plausível para que, nessa
igualdade de direitos, só possa participar a
cabeça da mulher e não o seu coração - porque
não há de ela ser livre para receber e dar, como o
homem? Ao contrário, se a mulher, por força da
sua natureza, tem o direito - não devemos
enterrar o nosso talento - e o dever de levar as
fibras do seu cérebro à máxima tensão para estar
em condições de lutar contra os gigantes
intelectuais do outro sexo, deve ter também o
direito - como estes últimos — de recorrer aos
métodos que lhe pareçam mais adequados para
manter o equilíbrio e acelerar o bater de seu
coração. Quando lemos, sem sentir o mínimo
pudor, quantas vezes Goethe — para tomar um
exemplo dos maiores — malbaratou, sempre com
uma mulher diferente, o calor do seu coração e o
entusiasmo da sua grande alma, qualquer pessoa
sensata considera isto natural precisamente
porque era difícil satisfazer a grande alma
de Goethe; e só um moralista limitado pode
censurá-lo. Porque rir então das "grandes almas"
das mulheres?... Admitamos que todo o sexo
feminino consta de grandes almas no estilo das
descritas por George Sand, que qualquer mulher
é uma Lucrécia Floriani (NR: protagonista de uma
novela de George Sand), cujos filhos são todos
filhos do amor, filhos que educa com tanto
carinho automaticamente maternal, com
devoção, sensatez e compreensão. Que
aconteceria no mundo? Não há a menor dúvida
de que o mundo continuaria a existir e a
progredir como hoje e, quiçá, a sentir-se
perfeitamente bem."

Mas, porque é que só as "grandes almas" podem ter


direito a tudo isso e não as restantes, que não são tão
"grandes"? Se a um Goethe e uma George Sand, para não
referirmos mais que estes dois dos muitos que procederam e
procedem como eles, se lhes permitia viver de acordo com as
inclinações do seu coração, se acerca dos amores
de Goethe se publicam bibliotecas inteiras que os seus
admiradores e admiradoras devoram como devoto
entusiasmo - porque se censuram nos demais aquilo que feito
por Goethe ou George Sand é motivo de êxtase e
entusiasmo?

Na realidade, a eleição livre do amor, na sociedade


burguesa, não é possível, pretendemos nós demonstrar. Mas
ponhamos todos nas condições sociais de que hoje desfrutam
apenas uns tantos eleitos, no aspecto material e espiritual, e
todos gozarão de igual liberdade.

No seu Jacques, George Sand descreve um marido que


tem o seguinte critério sobre a infidelidade da esposa:

"Nenhum ser humano pode com o amor e


ninguém tem a culpa de o sentir ou de o perder.
O que torna vil uma mulher é a mentira; o que
constitui o adultério não é a hora a que se
entrega ao amante, mas sim a noite que passa, a
seguir, com o marido."

Movido por semelhantes idéias, Jacques vê-se forçado a


ceder o seu lugar ao rival, Borel, filosofando:

"Se estivesse no meu lugar, Borel pegaria


tranqüilamente na mulher e, logo, sem a mínima
crítica, aceitá-la-ia nos seus braços, ofendida
pelos seus gestos e beijos. Há homens que nem
pensam muito, segundo o costume oriental,
matam a esposa infiel, uma vez que a
consideram sua legítima propriedade. Outros
lutam com o rival, matam-no ou afastam-no e
vão solicitar beijos da mulher que pretendem
amar, que se retira com horror ou se resigna,
desesperada. Esta é a maneira comum de atual
do amor conjugal. E eu digo que o amor dos
porcos é menos vil e menos animal que a de
semelhantes pessoas".

Brandes faz a seguinte observação às frases citadas aqui:


"Estas verdades, que parecem elementares ao
nosso mundo intelectual, soaram há cinqüenta
anos como indigna chicana".

Porém, o mundo possessor e intelectual dos nossos dias


não se atreve a declarar-se abertamente partidário dos
princípios de George Sand, embora na realidade viva de
acordo com eles. Assim como é hipócrita na moral, é-lo no
casamento.

O que Goethe e Sand faziam, o fazem hoje milhares de


outros que não se podem comparar ao primeiro nem à
segunda e não perdem o prestígio na sociedade. Basta ocupar
um lugar de destaque e logo as coisas se arranjam por si
mesmas. Apesar disso, as liberdades tomadas por Goethe e
Sand consideram-se a amorais, do ponto de vista da moral
burguesa, uma vez que contrariam as leis morais
promulgadas pela sociedade e chocam com a natureza do
nosso estado social. É normal o casamento à força, a única
união "moral" dos sexos; qualquer outra união é amoral. O
casamento burguês , conforme demostramos sem deixar
lugar a dúvidas, está relacionado com as relações burguesas
de propriedade. Estreitamente ligado à propriedade privada e
ao direito de herança, contrai-se matrimônio para ter filhos
"legítimos" como herdeiros. E sob a pressão das condições
sociais impõe-se também àqueles que "nada têm para
herdar", torna-se um direito social cuja infração é punida pelo
Estado, que leva à prisão homens e mulheres culpados de
adultério.

Na sociedade socialista, nada há para herdar, a não ser


objetos de uso pessoal e doméstico; deste ponto de vista
desaparece também a forma atual de matrimônio. Com ele,
suprime-se o problema do direito de herança, que o
socialismo nem sequer terá de suprimir; uma vez que não
existe propriedade privada, não existirá o direito de herança.
A mulher será livre e esta liberdade que os filhos não
restringem, antes só poderão aumentar a sua alegria de
viver. Educadoras, amigas, raparigas jovens auxiliam a mãe
sempre que esta o necessite.
É possível que, no futuro, haja homens que digam como
H. Humboldt:

"não fui feito para ser pai de família, além disso,


considero o casamento um pecado e fazer filhos
um crime."

E depois? Outros se encarregarão de manter o equilíbrio


da força da necessidade natural. Não nos preocupa o ódio de
Humboldt ao casamento nem o pessimismo físico de
Shopenhauer, de Mäinländer ou de von Hartmann, que
admitem que a humanidade, no Estado "ideal", chegaria à
destruição de si mesma. Neste aspecto, concordamos com F.
Hatzel, que escreve com razão:

"o homem não deve considerar-se a si mesmo


como exceção das leis da natureza; que comece
pois, finalmente, a corrigir a regularidade dos
seus atos e pensamentos e procure levar uma
vida de acordo com essas mesmas leis. Então
chegará a ver a necessidade de organizar a
convivência com os seus semelhantes, quer dizer,
com a família e o Estado, segundo princípios
racionais do conhecimento que tirou da natureza
e não segundo as regras dos séculos passados...
A política, a moral, os princípios jurídicos que
todavia se alimentam de diversas fontes plasmar-
se-ão exclusivamente conforme as leis naturais. A
existência digna do ser humano, com que durante
milênios se sonhou, será finalmente uma
realidade."

Esta época aproxima-se a passos de gigante. Durante


milhares de anos, a sociedade humana passou por todas as
fases de desenvolvimento para atingir, finalmente, o ponto de
onde partira: a propriedade comunista e a plena igualdade e
fraternidade, porém, agora não apenas dentro do clã, mas à
escala de todo o gênero humano. Este é o grande progresso.
O que a sociedade burguesa em vão procurou, contra o que
esbarra e deve esbarrar — a instauração da liberdade, da
igualdade e da fraternidade de todos os homens — o
socialismo torná-lo-á realidade. A sociedade burguesa mais
não podia fazer que formular a teoria; a prática, como em
muitas outras coisas, contradizia as suas teorias. O socialismo
juntará a teoria à prática.

Mas, voltando ao ponto de partida do seu evoluir, a


humanidade fá-lo a um nível incomparavelmente mais vasto
da civilização. A sociedade primitiva possuía a propriedade
comum da gens e no clã, porém, isso revestia a forma mais
tosca e encontrava-se ao mais baixo nível de organização. A
via de desenvolvimento percorrido desde então acabou com a
propriedade comum, reduzindo-a a pequenos e insignificantes
restos, fracionou a gens e, no fim de contas, dividiu em
átomos toda a sociedade, embora nas suas distintas fases
elevasse poderosamente as forças produtivas desta, a
diversidade das necessidades e criasse, a partir das tribos e
das gens, as nações e os grandes Estados, gerando, por sua
vez, uma situação que entrou na mais fragrante contradição
com as necessidades da sociedade. A missão da futura
sociedade consiste em dar solução a esta contradição,
voltando a converter, numa mais extensa base, a propriedade
comum.

A sociedade volta a tomar posse do que noutros tempos


lhe pertenceu, o que própria criou e tornará possível que
todos, em concordância com as condições de vida recém-
criadas, vivam a um nível superior da civilização, isto é, dá a
todos o que, em condições mais primitivas, só podia ser
privilégio de uns quantos indivíduos ou de determinadas
classes. Agora, tal como na sociedade primitiva, também a
mulher torna a desempenhar papel ativo, não como senhora,
mas como igual ao homem.

"O final da evolução do Estado parece-se com o


começo de existência humana. Restabelece-se a
igualdade originária. A existência baseada na
maternidade abre e fecha o ciclo das coisas
humanas" - disse Bachofen na sua obra intitulada
Das Meterrecht (O matriarcado).

E Morgan escreve:
"desde o advento da civilização chegou a ser tão
grande o aumento das riquezas, tão diversas as
formas deste aumento, tão extensa a sua
aplicação e tão hábil a sua administração em
benefício dos proprietários, que tais riquezas
constituíram uma força irredutível oposta ao
povo."

A inteligência humana vê-se impotente e desconcertada


perante a sua própria criação. No entanto, chegará o tempo
em que a razão humana será bastante forte para dominar a
riqueza, chegará o tempo em que se fixará as relações do
Estado com a propriedade que este protege e os limites dos
direitos dos proprietários.

Os interesses da sociedade absolutamente superiores aos


interesses individuais, uns e outros devem concordar numa
relação justa e harmônica. A simples caça à fortuna não é o
destino final da humanidade, pelo menos se o progresso for a
lei do futuro como o foi no passado. O tempo transcorrido
desde o advento da civilização não é mais que uma fração
ínfima da existência passada da humanidade, uma ínfima
fração das épocas que hão-de vir. A dissolução da sociedade
ergue-se ameaçadora perante nós, como o fim de uma
corrida histórica, cuja meta é a riqueza, porque tal corrida
encerra os elementos da sua própria ruína.

A democracia na administração, a fraternidade na


sociedade, a igualdade de direitos e a instrução geral, farão
vislumbrar a próxima etapa superior da sociedade para a qual
tendem, constantemente, a experiência, a ciência e o
entendimento.

Será uma revivescência da liberdade, da igualdade e da


fraternidade das antigas gens, porém sob uma forma
superior.

Assim, homens das mais diversas concepções, chegam a


idênticas conclusões arrancando-as das suas investigações
científicas. A completa emancipação da mulher e a sua
igualdade com o homem constituem um objetivo do nosso
desenvolvimento cultural e não há força no mundo capaz de
impedi-lo. No entanto, a emancipação completa só é possível
na base de uma viragem radical, que ponha fim ao domínio
do homem sobre o homem e, assim, ao capitalismo sobre o
operário. Só então a humanidade atingirá o seu mais alto
grau de desenvolvimento. Será então o "século de ouro", com
o qual os homens sonham há milênios. Ter-se-á acabado para
sempre com o domínio de classe e assim se terá chegado ao
fim do domínio do homem sobre a mulher.

Ferdinand August Bebel

1840-1913

Fundador e líder da social-democracia alemã. Combateu


os reformistas e os
revisionistas: Dühring,Bernstein e Vollmar. Preso à unidade
formal do Partido, Bebel admitiu estabelecer muitas vezes
compromissos com a direita e desligou-se da esquerda
radical, que se cristalizava em volta de Rosa de Luxemburgo.
Foi o mais eminente chefe politico e tático da social-
democracia alemã e de toda a Segunda Internacional. De
origem proletária, torneiro qualificado, tornou-se mais ou
menos em 1865, não sem ser influenciado porWilhelm
Liebknecht, de democrata, que era, em socialista
revolucionário e membro da Associação Internacional dos
Trabalhadores. Junto com W. Liebknecht fundou, em 1869, o
“Partido Operário Social-Democrático”, que se fundiu, em
1875, com os lassallianos num só “Partido Operário Socialista
da Alemanha”, o qual, ulteriormente, adotou o nome de
“Partido Social Democrático da Alemanha”.
A principal obra literária de Bebel, A mulher e o
socialismo, que, desde 1879, teve incontáveis edições,
caracteriza o autodidata trabalhando sem descanso para
aperfeiçoar sua formação marxista. Bebel foi um socialista e
um materialista absolutamente cientifico, um intransigente
inimigo da Igreja e de qualquer crença sobrenatural.
Escreveu, a respeito da religião, uma obra polemica,
Christentum and Sozialismus, 1874, (Cristianismo e
socialismo). Entre outras obras suas, citemos: Ch. Fourier,
sein Leben und seine Theorie, 1888, (Ch. Fourier, sua vida e
sua teoria), e Aus meinem Leben, 3 vols. 1910-1914, (Minha
vida).

Atualmente estão disponíveis em Português as seguintes


obras:

1879 A Mulher no Futuro


1879 Pobreza e Fecundidade

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Malthus, Thomas Robert

(1766-1834): Sacerdote e economista inglês; defensor de uma teoria sobre a


população na qual alegava que a população crescia numa medida muito maior que
os meios de subsistência, indicava nos processes preventivos (controle dos
nascimentos) e nos repressivos (guerra, epidemias etc.) os fatores destinados a
restabelecer o equilíbrio e contestava, ao mesmo tempo, a eficácia de qualquer
reforma social, afirmando que elevar o nível de vida das massas populares equivalia
a favorecer o crescimento demográfico com a conseqüência, em breve tempo, de
agravar a situação geral. Dessa concepção reacionária se originou o
neomalthusianismo, que teorizou especificamente sobre a limitação voluntária da
prole, como objetivo a atingir por todos os meios.

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HOLOMODOR, A FARSA HISTÓRICA


23 de novembro de 2015

Afonso Teixeira filho –

O holomodor, também chamado de “holocausto ucraniano”, não passou de uma


propaganda reacionária utilizada por canadenses ucranianos para obter do governo
verba de pesquisa
Entre os anos de 1932 e 1933, teria ocorrido na Ucrânia uma grande mortandade
devido à fome resultante da política de coletivização forçada na União Soviética,
política essa implementada por Stálin. O termo holomodor significa “morte
provocada pela fome” e é reconhecido por comunidades ucranianas como
genocídio.

Vulgarizou-se chamar de genocídio toda e qualquer catástrofe ocorrida em países


que não se alinham ou alinhavam com o imperialismo, enquanto que o genocídio
imperialista é coberto por eufemismo e falsificações. Por exemplo, o massacre do
povo sérvio durante a Primeira Grande Guerra, o bombardeio anglo-americano
sobre Dresde e várias cidades alemãs na Segunda Guerra, o bombardeio de
Tóquio, a destruição de Hiroxima e Nagasáqui; nada disso é considerado genocídio.
O termo aplica-se apenas aos armênios, pois foi levado a cabo pelo Império
Otomano, adversário da Entente, na Primeira Guerra; aos nazistas, devido à
perseguição aos judeus; e, agora, querem atribuí-lo também aos russos, como se
ucranianos e russos fossem coisas distintas.

Na verdade, a Ucrânia só existiu isoladamente, após o processo de


desmembramento da União Soviética, no início da década de 1990. O império
russo foi criado em Quieve, e teve nessa cidade sua capital. As contínuas invasões
mongóis acabaram por transferir o centro do império para Moscou, uma região de
comerciantes. Na década de 1930, tanto a Rússia como a Ucrânia pertenciam à
União Soviética e formavam, junto com outras 13 nações uma só país. Além disso,
um terço da população da Ucrânia é formada por pessoas de língua russa. Não se
pode falar cientificamente em uma etnia ucraniana. Se houve um massacre
provocado deliberadamente por meio da fome, esse massacre incidiu também
sobre o povo russo. Portanto, tratar isso como genocídio é uma impropriedade.

Mas não devemos levar o caso adiante, pois tudo não passou de uma farsa. A luta
entre os camponeses abastados e o Estado e, subsequentemente a política de
coletivização forçada, implantada pelos planos quinquenais de Stálin, provocaram,
durante um período curto de tempo, uma fome que se generalizou por todos os
países da União Soviética, mas que atingiu, principalmente, o povo russo. A política
resultado dos erros oportunistas do stalinismo, tornou-se inevitável pois os
culaques (proprietários de terra) escondiam alimentos por medo do confisco e os
vendiam a preços exorbitantes e acabaram por destruir boa parte da colheita e dos
rebanhos para não entrega-los ao governo. Não houvesse a coletivização, a fome
ocorreria do mesmo jeito e duraria mais tempo.

Contudo, procurou-se, muito tempo depois do ocorrido, no início da década de


1980, transformar uma crise da produção de alimentos em uma tragédia nacional.
A intenção não era a mesma que tiveram os irlandeses quando denunciaram a
grande fome provocada, no século XIX, pela praga da batata. Naquela época, a
maioria da população do país morreu de fome ou imigrou para os Estados Unidos,
pois dependia da batata para viver. No entanto, os latifúndios que produziam a
batata não diminuíram em um único centavo o lucro que tinham com o produto,
apesar da escassez. O mesmo não aconteceu na Ucrânia.

Os números da suposta tragédia ucraniana revelam a falsidade. Declarou-se que


2,8 milhões de pessoas foram deportadas, o que era simplesmente impossível,
sobretudo em meio de um processo tão trabalhoso quanto o da coletivização. Mas
apenas 300 mil seriam ucranianos, o que revela, de antemão, que não se trataria
de genocídio, mesmo que todos eles tivessem morrido, pois qual seria a raça
exterminada, os ucranianos ou os russos? Existem outros números dos quais
poderíamos falar, mas não vale a pena. Por dois motivos. O primeiro é que parte
desses números foram levantados pelo “historiador” Robert Conquest,
recentemente falecido, um anticomunista que trabalhava para o governo britânico.
Segundo, porque os estudos que levaram à suposição de genocídio começou a ser
elaborado por dissidentes ucranianos, atolados até o pescoço na política
fraudulenta da guerra-fria, e continuada por pesquisadores universitários que
queriam adquirir verba para pesquisa.

O investigador canadense, Douglas Tottle, denuncia, em seu livro Fraud, Famine


and Fascism [Fraude, penúria e fascismo] a falsificação de documentos relativos a
esse pretenso genocídio. Mostra, por exemplo, uma manchete do jornal Chicago
American (jornal esse que pertencia a William Hearst, o “cidadão Kane”) com o
título “Seis milhões perecem pela fome soviética” (25/2/1935). As fotos e relatos
dessa reportagem foram feitas por Thomas Walker, um jornalista que nunca existiu
e seriam, posteriormente, utilizadas por nacionalistas ucranianos em sua campanha
pelo reconhecimento do genocídio ucraniano. Pouco depois que o Chicago
American publicou a reportagem, outro jornal, o The Nation denunciou a
reportagem como falsa. Descobriu-se, por exemplo, que uma das fotos publicadas
no jornal eram de um jornal alemão que retratava a penúria por que passava a
Alemanha no início da década de 1930.
O fato é que grande parte das “evidências” desse “genocídio” ucraniano veio das
páginas dos jornais de Hearst, que fazia uma campanha contra o comunismo. A
maior parte das fotos utilizadas, anto por Hearst quanto pelos nacionalistas
ucranianos fazia parte de um acervo utilizado pelos nazistas para fazer campanha
contra o comunismo e datam, na verdade, do período da guerra civil que ocorreu
logo após a Revolução de Outubro. Fica patente que a ideologia dos nacionalistas
ucranianos era semelhante à dos nazistas. E, levando-se em conta o papel exercido
pelos fascistas no golpe que ocorreu recentemente na Ucrânia, podemos
considerar o homolodor como uma propaganda fascista.

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As três fontes e as três partes


constitutivas do marxismo
V. I. Lênin
A doutrina de Marx suscita em todo o mundo civilizado a maior
hostilidade e o maior ódio de toda a ciência burguesa (tanto a
oficial como a liberal), que vê no marxismo uma espécie de “seita
perniciosa”. E não se pode esperar outra atitude, pois, numa
sociedade baseada na luta de classes não pode haver ciência
social “imparcial”. De uma forma ou de outra, toda a ciência oficial
e liberal defende a escravidão assalariada, enquanto que o
marxismo declarou uma guerra implacável a essa escravidão.
Esperar que a ciência fosse imparcial numa sociedade de
escravidão assalariada seria uma ingenuidade tão pueril como
esperar que os fabricantes sejam imparciais quanto à questão da
conveniência de aumentar os salários dos operários diminuindo os
lucros do capital.

Mas não é tudo. A história da filosofia e a história da ciência social


ensinam com toda a clareza que no marxismo não há nada que se
assemelhe ao “sectarismo”, no sentido de uma doutrina fechada
em si mesma, petrificada, surgida à margem da estrada real do
desenvolvimento da civilização mundial. Pelo contrário, o gênio de
Marx reside precisamente em ter dado respostas às questões que
o pensamento avançado da humanidade tinha já colocado. A sua
doutrina surgiu como a continuação direta e imediata das
doutrinas dos representantes mais eminentes da filosofia, da
economia política e do socialismo.

A doutrina de Marx é onipotente porque é exata. É completa e


harmoniosa, dando aos homens uma concepção, integral do
mundo, inconciliável com toda a superstição, com toda a reação,
com toda a defesa da opressão burguesa. O marxismo é o sucessor
legítimo do que de melhor criou a humanidade no século XIX: a
filosofia alemã, a economia política inglesa e o socialismo francês.

Vamos deter-nos brevemente nestas três fontes do marxismo, que


são, ao mesmo tempo, as suas três partes constitutivas.

A filosofia do marxismo é o materialismo. Ao longo de toda a


história moderna da Europa, e especialmente em fins do século
XVIII, em França, onde se travou a batalha decisiva contra todas
as velharias medievais, contra o feudalismo nas instituições e nas
idéias, o materialismo mostrou ser a única filosofia conseqüente,
fiel a todos os ensinamentos das ciências naturais, hostil à
superstição, à beatice, etc. Por isso, os inimigos da democracia
tentavam com todas as suas forças “refutar”, desacreditar e
caluniar o materialismo e defendiam as diversas formas do
idealismo filosófico, que se reduz sempre, de um modo ou de outro,
à defesa ou ao apoio da religião.

Marx e Engels defenderam resolutamente o materialismo


filosófico, e explicaram repetidas vezes quão profundamente
errado era tudo quanto fosse desviar-se dele. Onde as suas
opiniões aparecem expostas com maior clareza e pormenor é nas
obras de Engels Ludwig Feuerbach e Anti-Dübring, as quais – da
mesma forma que o Manifesto Comunista – são os livros de
cabeceira de todo o operário consciente.

Marx não se limitou, porém, ao materialismo do século XVIII; pelo


contrário, levou mais longe a filosofia. Enriqueceu-a com as
aquisições da filosofia clássica alemã, sobretudo do sistema de
Hegel, o qual conduziria por sua vez ao materialismo de Feuerbach.
A principal dessas aquisições foi a dialética, isto é, a doutrina do
desenvolvimento na sua forma mais completa, mais profunda e
mais isenta de unilateralidade, a doutrina da relatividade do
conhecimento humano, que nos dá um reflexo da matéria em
constante desenvolvimento. As descobertas mais recentes das
ciências naturais – o rádio, os elétrons, a transformação dos
elementos – confirmaram de maneira admirável o materialismo
dialético de Marx, a despeito das doutrinas dos filósofos
burgueses, com os seus “novos” regressos ao velho e podre
idealismo.

Aprofundando e desenvolvendo o materialismo filosófico, Marx


levou-o até ao fim e estendeu-o do conhecimento da natureza até o
conhecimento da sociedade humana. O materialismo histórico de
Marx é uma conquista formidável do pensamento científico. Ao
caos e à arbitrariedade que até então imperavam nas concepções
da história e da política, sucedeu uma teoria científica
notavelmente integral e harmoniosa, que mostra como, em
conseqüência do crescimento das forças produtivas, desenvolve-se
de uma forma de vida social uma outra mais elevada, como, por
exemplo, o capitalismo nasce do feudalismo.

Assim, como o conhecimento do homem reflete a natureza que


existe independentemente dele, isto é, a matéria em
desenvolvimento, também o conhecimento social do homem (ou
seja: as diversas opiniões e doutrinas filosóficas, religiosas,
políticas, etc.) reflete o regime econômico da sociedade. As
instituições políticas são a superestrutura que se ergue sobre a
base econômica. Assim, vemos, por exemplo, como as diversas
formas políticas dos Estados europeus modernos servem para
reforçar a dominação da burguesia sobre o proletariado.

A filosofia de Marx é o materialismo filosófico acabado, que deu à


humanidade, à classe operária sobretudo, poderosos instrumentos
de conhecimento.

II

Depois de ter verificado que o regime econômico constitui a base


sobre a qual se ergue a superestrutura política, Marx dedicou-se
principalmente ao estudo deste regime econômico. A obra
principal de Marx, O Capital, é dedicada ao estudo do regime
econômico da sociedade moderna, isto é, da sociedade capitalista.

A economia política clássica anterior a Marx tinha-se formado na


Inglaterra, o país capitalista mais desenvolvido. Adam Smith e
David Ricardo lançaram, nas suas investigações do regime
econômico, os fundamentos da teoria do valor-trabalho. Marx
continuou sua obra. Fundamentou com toda precisão e
desenvolveu de forma conseqüente aquela teoria. Mostrou que o
valor de qualquer mercadoria é determinado pela quantidade de
tempo de trabalho socialmente necessária investido na sua
produção.

Onde os economistas burgueses viam relações entre objetos


(troca de umas mercadorias por outras), Marx descobriu relações
entre pessoas. A troca de mercadorias exprime a ligação que se
estabelece, por meio do mercado, entre os diferentes produtores.
O dinheiro indica que esta ligação se torna cada vez mais estreita,
unindo indissoluvelmente num todo a vida econômica dos
diferentes produtores. O capital significa um maior
desenvolvimento desta ligação: a força de trabalho do homem
torna-se uma mercadoria. O operário assalariado vende a sua força
de trabalho ao proprietário de terra, das fábricas, dos instrumentos
de trabalho. O operário emprega uma parte do dia de trabalho para
cobrir o custo do seu sustento e de sua família (salário); durante a
outra parte do dia, trabalha gratuitamente, criando para o
capitalista a mais-valia, fonte dos lucros, fonte da riqueza da
classe capitalista.

A teoria da mais-valia constitui a pedra angular da teoria


econômica de Marx.

O capital, criado pelo trabalho do operário, oprime o operário,


arruína o pequeno patrão e cria um exército de desempregados. Na
indústria, é imediatamente visível o triunfo da grande produção;
mas também na agricultura deparamo-nos com o mesmo
fenômeno: aumenta a superioridade da grande exploração agrícola
capitalista, cresce o emprego de maquinaria, a propriedade
camponesa cai nas garras do capital financeiro, declina e arruína-
se sob o peso da técnica atrasada. Na agricultura, o declínio da
pequena produção reveste-se de outras formas, mais esse declínio
é um fato indiscutível.

Esmagando a pequena produção, o capital faz aumentar a


produtividade do trabalho e cria uma situação de monopólio para
os consórcios dos grandes capitalistas. A própria produção vai
adquirindo cada vez mais um caráter social – centenas de milhares
e milhões de operários são reunidos num organismo econômico
coordenado – enquanto um punhado de capitalistas se apropria do
produto do trabalho comum. Crescem a anarquia da produção, as
crises, a corrida louca aos mercados, a escassez de meios de
subsistência para as massas da população.

Ao fazer aumentar a dependência dos operários relativamente ao


capital, o regime capitalista cria a grande força do trabalho unido.

Marx traçou o desenvolvimento do capitalismo desde os primeiros


germes da economia mercantil, desde a troca simples, até às suas
formas superiores, até à grande produção.

E de ano para ano a experiência de todos os países capitalistas,


tanto os velhos como os novos, faz ver claramente a um número
cada vez maior de operários a justeza desta doutrina de Marx.

O capitalismo venceu no mundo inteiro, mas, esta vitória não é


mais do que o prelúdio do triunfo do trabalho sobre o capital.

III

Quando o regime feudal foi derrubado e a “livre” sociedade


capitalista viu a luz do dia, tornou-se imediatamente claro que
essa liberdade representava um novo sistema de opressão e
exploração dos trabalhadores. Como reflexo dessa opressão e
como protesto contra ela, começaram imediatamente a surgir
diversas doutrinas socialista. Mas, o socialismo primitivo era um
socialismo utópico. Criticava a sociedade capitalista, condenava-a,
amaldiçoava-a, sonhava com a sua destruição, fantasiava sobre um
regime melhor, queria convencer os ricos da imoralidade da
exploração.

Mas, o socialismo utópico não podia indicar uma saída real. Não
sabia explicar a natureza da escravidão assalariada no
capitalismo, nem descobrir as leis do seu desenvolvimento, nem
encontrar a força social capaz de se tornar a criadora da nova
sociedade.

Entretanto, as tempestuosas revoluções que acompanharam em


toda a Europa, e especialmente em França, a queda do feudalismo,
da servidão, mostravam cada vez com maior clareza que a luta de
classes era a base e a força motriz de todo o desenvolvimento.

Nenhuma vitória da liberdade política sobre a classe feudal foi


alcançada sem uma resistência desesperada. Nenhum país
capitalista se formou sobre uma base mais ou menos livre, mais ou
menos democrática, sem uma luta de morte entre as diversas
classes da sociedade capitalista.

O gênio de Marx está em ter sido o primeiro a ter sabido deduzir


daí a conclusão implícita na história universal e em tê-la aplicado
conseqüentemente. Tal conclusão é a doutrina da luta de classes.

Os homens sempre foram em política vítimas ingênuas do engano


dos outros e do próprio e continuarão a sê-lo enquanto não
aprendem a descobrir por trás de todas as frases, declarações e
promessas morais, religiosas, políticas e sociais, os interesses de
uma ou de outra classe. Os partidários de reformas e
melhoramentos ver-se-ão sempre enganados pelos defensores do
velho, enquanto não compreenderem que toda a instituição velha,
por mais bárbara e apodrecida que pareça, se mantém pela força
de umas ou de outras classes dominantes. E para vencer a
resistência dessas classes só há um meio: encontrar na própria
sociedade que nos rodeia, educar e organizar para a luta, os
elementos que possam – e, pela sua situação social, devam –
formar a força capaz de varrer o velho e criar o novo.

Só o materialismo filosófico de Marx indicou ao proletariado a


saída da escravidão espiritual em que vegetaram até hoje todas as
classes oprimidas. Só a teoria econômica de Marx explicou a
situação real do proletariado no conjunto do regime capitalista.

No mundo inteiro, da América ao Japão e da Suécia à África do Sul,


multiplicam-se as organizações independentes do proletariado.
Este se educa e instrui-se travando a sua luta de classe; liberta-se
dos preconceitos da sociedade burguesa, adquire uma coesão
cada vez maior, aprende a medir o alcance dos seus êxitos,
tempera as suas forças e cresce irresistivelmente.

Março de 1913

Publicado originalmente em Prosvechtchénie, nº 3, Março de 1913.


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Mill, John Stuart
(1806-1873): Filosofo e economista inglês, espírito eclético. Suas teorias
constituem um bizarro complexo de verdades e falsidades. A seu ver, o
trabalho constitui, antes, o principal elemento do valor, mas deve haver ainda
outros elementos subalternos do valor, como, por exemplo, o lucro do
capitalista. Tentou conciliar a economia política do capital com as aspirações
do proletariado, e o resultado foi, como disse Marx, “um sincretismo
destituído de originalidade”. Indicando as contradições em que se embaraça
John Stuart Mill, procura conciliar a teoria do lucro de Ricardo, com a teoria
da abstinência de Segnor, Marx observa: “As contradições vulgares são-lhe
tão próximas como a “contradição” hegeliana, fonte de toda dialética, lhe é
estranha”. No O Capitel, Marx observa que as propriedades de uma coisa não
nascem de suas relações com outras, mas somente se manifestam nessas relações. Como filosofo
Stuart Mill é positivista idealista, à maneira de Hume. O mundo exterior é, para ele, a “possibilidade
constante das sensações”. Stuart Mill é também conhecido como campeão do movimento de
emancipação das mulheres. Obras principais: Sistema de lógica; O utilitarismo; Análise da teoria de
Hamilton; Economia Politica.
Fonte: Lênin - Materialismo e Empirocriticismo