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Universidade Estácio de Sá

Centro Universitário Madureira - RJ

REVOLUÇÃO FRANCESA

MÁRCIO BREIA SANTOS – Matr. 201307140483

Trabalho apresentado à disciplina


Prática de Pesquisa em História
como parte dos pré-requisitos para a
obtenção do diploma de
Licenciatura em História.

RIO DE JANEIRO – RJ

Dezembro de 2016
Universidade Estácio de Sá
Centro Universitário Madureira - RJ

SANTOS, Márcio Breia


Revolução Francesa/ Márcio Breia Santos/
Universidade Estácio de Sá: Polo Madureira, Rio de Janeiro, 2016.

Trabalho de Conclusão de Curso – História


1. Burguesia 2. Revolução 3. Sociedade
2. SANTOS, Márcio Breia. II. Título

Rio de Janeiro
Dezembro de 2016
MARCIO BREIA SANTOS

REVOLUÇÃO FRANCESA

Aprovada em / /2016.

BANCA EXAMINADORA

_____________________________________________
Prof°

_____________________________________________
Profº

_____________________________________________
Profº

UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ
2016
A todos aqueles que,

Nos infinitos planos da vida,

Auxiliaram-me a chegar até aqui


AGRADECIMENTOS

Agradecimentos a Sra. xxx


Meus mais gratos votos à Simone Costa, á querida irmã Helena;
E a Márcio Augusto Pereira Campos, por todo apoio e incentivo;
``Não há Revolução sem Revolucionários;
Os revolucionários de todo mundo somos irmãos. ´´
(Jose de San Martin)
RESUMO

O presente trabalho tem o objetivo de analisar as causas que levaram a eclosão


da Revolução Francesa, acontecimento dos mais relevantes da história da humanidade, com
profundos reflexos e consequências em várias partes do mundo, e os resultados obtidos ao
longo do processo, com todas as reviravoltas ocorridas. Os principais personagens do
movimento, suas ações, os antecedentes e fases da revolução; ao longo do trajeto da
revolução, será analisado se os revoltosos envolvidos conseguiram atingir todos os objetivos
conclamados ao se iniciar o movimento revolucionário, e se seus lideres estiveram à altura de
representar tão importante movimento, divisor de águas na história da humanidade. As
gravíssimas ocorrências da sociedade francesa moderna oprimida e a busca de mudanças
sociais de vulto, que promovessem uma mudança panorâmica dessa sociedade.

Palavras-chave: Burguesia. Revolução. Sociedade.

ABSTRACT

This study aims to analyze the causes that led to the outbreak of the French
Revolution, historical event of the most important in human history, with deep reflections and
consequences around many parts of the world and the results achieved throughout the process,
with all the twists occurred. The main characters of the movement, its actions, the background
and every stage of the revolution; along the path of the revolution, seek to reflect and consider
whether the rebels involved were able to achieve all the goals urged to begin the revolutionary
movement, and if its leaders were in a position to represent such an important movement
watershed in the history of mankind. The extremely grave instances of modern French society
oppressed and the search for social change shape, which promoted a panoramic change of that
society.

Keywords: Bourgeoisie. Revolution. Society.


SUMÁRIO

Introdução...........................................................................................................................09

Metodologia........................................................................................................................10

Revisão Bibliográfica.........................................................................................................10

Discussão dos Resultados...................................................................................................14

1- A FRANÇA PRÉ-REVOLUCIONÁRIA.......................................................................16
1.1- Situação Socioeconômica..........................................................................16

2- ASSEMBLEIA DOS ESTADOS GERAIS....................................................................18


2.1 Luiz XVI e Seu Reinado.......................................................................................19
2.2 – Reunião dos Estados Gerais...................................................................................20
2.3 – A Queda da Bastilha..............................................................................................21

3 - FASES DA REVOLUÇÃO...........................................................................................22
3.1 – Assembleia Nacional Constituinte.........................................................................22
3.2 – Convenção Nacional..............................................................................................23
3.3 - A divisão Ideológica dos Grupos Políticos............................................................24
3.4 – Terror Jacobinista..................................................................................................25
3.5 – A Reação Termidoriana........................................................................................26
3.6 – O Diretório............................................................................................................27

4 – 18 BRUMÁRIO...........................................................................................................28

Considerações Finais.........................................................................................................29

Referências Bibliográficas................................................................................................31
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Introdução

O presente estudo trata da Revolução Francesa, um marco na história da


humanidade. Dentro do quadro de transformações que ocorriam em sua sociedade, serão
analisados os objetivos da população da França, ao desdobrar os acontecimentos que levaram
a essa mudança estrutural de sua sociedade. Ao conflagrar-se a grande sublevação, resolveu
pegar em armas, modificando os rumos de seu país – isto em todas as partes da França - e
exigir o fim do regime absolutista.
Com o término desta forma de governo – e por extensão - dos multisseculares
privilégios da nobreza e do clero, elabora-se uma profunda mudança na estrutura da sociedade
francesa, rumo à modernização que se fazia necessária para superar a crise econômico-social
em que se debatia.
O problema a ser destacado refere-se a analisar a condução da revolução por seus
principais lideres no sentido de avaliar o terem correspondido às expectativas das massas que
iniciaram a sublevação que alterou os destinos políticos do país.
O resultado esperado era o de eliminar as diferenças e modificar o status social,
com o fomento de uma sociedade mais justa, mais livre, mais igualitária. Seria este o signo da
revolução: os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade.
Em termos de relevância do estudo proposto, objetivar-se-á promover uma
reflexão sobre a importância real da mesma enquanto considerada como o acontecimento que
deu início à Idade Contemporânea, além de aspectos relacionados à aplicação prática dos
conceitos iluministas, com o fim do período dos regimes absolutistas.
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Metodologia

Constou a metodologia, de estudo e consulta sobre a Revolução Francesa, onde


foram pesquisadas as seguintes obras, por visitas á biblioteca municipal de Duque de Caxias
nos dias 06, 13 e 16 de setembro do corrente ano:
1 - TOCQUEVILLE - O Antigo Regime e a Revolução;
2 - SLAVOJ ZIZEK - Robespierre ;
3 - SOBOUL, Albert - A Revolução Francesa;
A metodologia consistiu basicamente na analise de autores consagrados que
versaram sobre o tema, e composição de analise crítica sobre a obra literária dos mesmos, no
intuito de atingir os objetivos anteriormente traçados em referencia ao tema do TCC.
Posteriormente, foram feitas novas visitas à Biblioteca Nacional do Rio de
Janeiro, nos dias 19 e 22 de setembro, e também a 04 e 07 de outubro, para elaborar pesquisa
técnica sobre o conteúdo das seguintes obras:
4 - HOBSBAWM, Eric - A Revolução Francesa;
5 - CARLILE – A História da Revolução Francesa;
6 - HOBSBAWM, Eric - A Era das Revoluções 1789 -- 1;
7 – ESCANDE, Renaud - O livro negro da revolução francesa;
Constou a etapa de conclusão da metodologia de algumas visitas a bibliotecas. A
consulta das referidas obras literárias são as linhas básicas do processo de metodologia
utilizado.

Revisão Bibliográfica

No escopo da análise de revisão bibliográfica, com a leitura de ``O antigo Regime e a


Revolução´´, obra escrita por Tocqueville, o autor estabelece de forma bastante clara e
precisa, á partir de um estudo comparado, todas as similitudes que existiam entre o Antigo
Regime e a Revolução no que se diz respeito a certas estruturas governamentais que foram
por assim dizer ``perpetuadas´´ após a instauração do novo governo. Dentro de um método de
investigação documental profícuo – descortinam-se as causas da Revolução Francesa e – mais
do que isso, todo o leque de semelhanças existentes entre o modelo organizacional e de
11

práticas administrativas e governamentais do antigo Regime que de fato permanecem com o


advento da revolução, sendo mesmo perpetuadas. E isto desde a tomada de governo e poder
pelos representantes do povo que assumiram a preponderância política a partir da mesma. É
assim que o autor refere-se ao esforço do povo francês quando resolve sublevar-se e levantar
toda a nação contra o poder absoluto:

``Os franceses fizeram, em 1789, o maior esforço que povo algum jamais se
empenhou para cortar seu destino em dois, por assim dizer, e separar por um abismo
o que tinham sido até então do que queriam ser de agora em diante. Com esta
finalidade tomaram todas as precauções para que nada do passado sobrevivesse em
sua nova condição, e impuseram-se toda espécie de coerção para moldar-se de outra
maneira que seus pais, tornando-se irreconhecíveis (TOCQUEVILLE, A. O antigo
Regime e a Revolução. 1989 - pag.41)´´.

O estudo nos mostra, todavia, que todo este singular esforço na verdade não foi
intento suficiente para transformar as instituições de maneira tal que algo novo – inédito -
surgisse em seu lugar. Assevera Tocqueville que sempre considerara que o povo houvera sido
muito menos bem sucedido neste empreendimento do que se pensava no exterior, e do que o
próprio povo o pensava no início. Toda a pesquisa em a qual Tocqueville empenhou-se –
através de vasta consulta documental pelas aldeias, cidades e províncias francesas ao longo de
cinco anos – pouco mais - nos traz a prova cabal de que a revolução francesa buscou mexer -
e revirar – a sociedade francesa ao avesso, rompendo com uma ordem social arquissecular,
com profundas raízes de divisão de classes e de soberania de elites privilegiadas, rumo ao
ideal de igualdade; apesar desse descomunal esforço empreendido, o arcabouço das velhas
instituições absolutistas permaneceu de um modo ou de outro; foi suprimida a tirania do rei
pela tirania das massas revoltosas, representadas pelas forças políticas em ascensão – e que
representavam os interesses do povo. O estudo de Tocqueville é interessante, dentro deste
ponto de vista, mostrando-nos o fenômeno das permanências que atravessam os períodos
históricos, além de nos oferecer, em síntese, o objetivo primordial da revolução;

``(...) “Como a Revolução Francesa não teve apenas por objetivo mudar um governo antigo,
mas abolir a forma antiga da sociedade, ela teve de ver-se a braços a um só tempo com todos
os poderes estabelecidos, arruinar todas as influências reconhecidas, apagar as tradições,
renovar costumes e os usos e, de alguma maneira, esvaziar o espírito humano de todas as
ideias sobre as quais se tinham fundado até então o respeito e a obediência.”(...)
(TOCQUEVILLE, A. O antigo Regime e a Revolução. 1989 – pág. 59)
12

Com o estudo da referida obra, comprova o autor que muito do ``velho´´


permaneceu no ``novo´´.
Em prosseguimento, outra obra consultada fio o livro ``A Historia da Revolução
Francesa´´, de Carlile. O referido autor, com linguagem rebuscada e outro tanto empolada,
mas com grande erudição, esboça um minucioso quadro geral da sociedade francesa à época
da revolução, pintando com tom mordaz e de bom humor, todos os fatos que caracterizaram
este advento – o da Revolução Francesa – que acabou por sacudir não só o país de origem
como toda a Europa, posteriormente. As agitações populares, com todo o seu frêmito, as
ações das classes altas - os aristocratas – e as vãs tentativas do governo central monárquico
em solucionar o problema econômico-social da nação – obra para a qual o fraco rei Luiz XVI
não detinha competência para resolver, e que só seria sanado mediante as chamas da
revolução.
O próximo livro analisado nos trás à cena o famoso líder revolucionário de França,
na obra ``Robespierre, ou a divina violência do terror´´ de Slavoj Zizek. Centra a referida obra
literária na fase em que Robespierre atua comandando as ações do governo e guiando o povo,
num momento que ficou conhecido como ``o período do terror´´, onde sob um forte governo
centralizado e de predomínio do partido dos jacobinos – ala radical da revolução – não hesitou
em pegar das armas e derramar sangue sobre o solo francês, com a justificativa de defender a
revolução de seus inimigos com a supressão da vida dos mesmos. O período do terror
desenvolveu-se dentre os anos em 1793-94, quando os jacobinos ascendem ao poder
subtraindo os moderados, com o governo sob os auspícios da esquerda radical. Ocorrem
muitas disputas entre as facções políticas, que se avolumaram ao longo do tempo, vindo a
eclodir a violência desenfreada com a ascensão de Robespierre. Tratou o novo líder de livrar-
se sem qualquer pudor de todos aqueles que - de outros partidos como de alas da própria
esquerda – tornavam-se ameaça ao prosseguimento do processo revolucionário, justificando
suas ações como a defesa das aspirações do povo. É uma fase em que muitos milhares de
pessoas foram perseguidas e perderam a vida, executadas. Porque Robespierre escolheu o
terror? Parece-nos que, num certo sentido, apenas atendeu aos anseios da população revoltada
por séculos de opressão, envolvida agora numa ``catarse coletiva de exsudação de violência´´.
Robespierre respondeu aos anseios do povo, assim como Hitler responderia mais tarde em
relação ao povo alemão no pós-primeira guerra. É assim que cada época traz sua marca, e é
assim também que os grandes homens, de um modo ou de outro, deixam grafada sua memória
para a posteridade.
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Na obra ``A Era das Revoluções´´, de Eric Hobsbawn, a análise centra-se no


período que vai de 1789 até 1848. O autor tece considerações sobre o rol dos eventos que
tomaram lugar na Europa, a partir da revolução de 1789, que deu início a uma série de fatos
sociais que modificaram as concepções políticas deste continente. Ressalte-se a menção que o
mesmo faz aos sucessos que se encadeiam e avançam desde a Revolução Industrial na
Inglaterra e a Revolução Francesa, eventos que marcam profundamente o século em
foco. Tem-se aqui o que ele considera o início do “longo século XIX”, numa observação que
este extrapola os limites cronológicos tradicionalmente considerados, numa visão mais
abrangente do conceito de tempo, dadas as transformações que se aceleram na sociedade
europeia, em vista das inovações do campo tecnológico, com a dinamização da vida, e os
choques advindos das revoluções nas ideias político-sociais que fizeram acenderem-se os
ânimos da sociedade.

Em ``A Face Oculta da Revolução Francesa´´, se observa um outro ângulo dos


acontecimentos, que embora já muito antes percebido, não costumava ser diretamente
analisado pela historiografia em geral, que representa o fato de que houve eventos de
perseguição religiosa, por exemplo, e muito derramamento de sangue, com milhares de
cidadãos mortos na França revolucionária.

No primeiro tomo da obra, há a exposição acerca dos eventos daquele momento


da historia francesa. Dentre os assuntos vemos a questão dos ideais de liberdade e igualdade,
o problema da necessidade da soberania do povo e – entre outros - os fatos violentos que
implantaram o terror na sociedade francesa revolucionária.

As ocorrências de vandalismo do povo revoltado foram ato comum à época, dado


que se encontrava a populaça revoltada e ávida por justiça social. A igreja, por sinal, como
uma das representantes da classe alta da sociedade e cheia de privilégios, passou a ser um dos
alvos principais do ódio do povo; é emblemático, por exemplo, o fato de que em Setembro de
1792 ocorreu grande massacre 1400 pessoas – em Paris – todas essas vidas destroçadas pelos
revolucionários, sendo que ao mesmo tempo se compunha a Declaração Universal dos
Direitos Humanos. Foi este um período em que a guilhotina funcionou quase que sem cessar;
diariamente, centenas de pessoas eram por ela vitimadas. Esta é a linha básica do livro.

Em `` A Revolução Francesa´´, Hobsbawn expõe os efeitos da mesma, as consequências


ideológicas da revolução a influenciar diversos países na Europa e mesmo noutros
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continentes, desde o vocabulário utilizado, as ideias nacionalistas e os temas da política


radical-democrática e liberal, por exemplo. Faz o autor a análise político-social da revolução.

Na abordagem de Sobol em ``A Revolução Francesa´´, temos uma análise


centrada na visão marxista da história, pautada na ascensão da classe burguesa, no momento
de colapso do Antigo Regime, associado aos eventos de rebelião das camadas populares. Com
a ascensão burguesa, estende-se o capitalismo como modelo econômico-social, adequando a
produção material a seus interesses. É o Estado sendo aparelhado com instituições políticas
que atendam aos interesses da classe dominante emergente. Sobol traça o retrato do período,
ressaltando os movimentos paralelos e antagônicos: o da classe burguesa, e o outro, radical,
do operariado pobre e explorado das cidades e dos camponeses.

Discussão dos Resultados

No presente trabalho, a discussão dos resultados obtidos com a pesquisa realizada,


dada a ênfase na leitura e estudo das obras supracitadas, basicamente foi alcançado uma
compreensão maior dos pormenores envolvendo a sociedade francesa do final do século
XVIII, com a grave crise politica, econômica e social em a qual estava submersa.

Dos antecedentes que influenciaram diretamente a Revolução, depreende-se a


acentuada decadência do sistema Monárquico Absolutista, que não era mais capaz de atender
as demandas da sociedade francesa, com seus 26 milhões de habitantes aproximados, dos
quais cerca de 20 milhões eram compostos pelas camadas pobres da população que à época
encontrava-se em estado de miséria. Em decorrência do ineficiente governo monárquico,
somada a fraca organização de sua indústria, ainda arcaica para a época, e a fome que
grassava devido às péssimas safras dos últimos anos, sem dúvida foram estes os maiores
propulsores da revolta popular.

Como observado, a elite social composta pela minoria da população não sofria
dos mesmos efeitos da crise, pelo menos não de forma tão aguda como o restante do povo, e
permanecia rigidamente defensora de seus privilégios nobiliárquicos. Com o agravamento da
crise econômica, e com a citada fome grassando, eclode a rebelião popular, ao tempo que a
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burguesia assoma na liderança do movimento revolucionário, proclamando-se assembleia


constituindo e depondo o rei.

Formaram-se os grupos políticos que começaram a disputar a hegemonia, e


revezaram-se no poder de acordo com as circunstancias e o desenvolvimento da revolução, e
sob Robespierre, inclusive, estabelece-se um período de execuções em massa, no sentido de
preservar a Revolução.

Ao lado das agitações internas, pairava ainda a ameaça de intervenção estrangeira,


das monarquias europeias temerosas de que a sublevação popular da França se transferisse
para seus países, influenciando os outros povos. É diante desse quadro que surge a imponente
personalidade de Napoleão Bonaparte, cuja carreira militar o alçou a uma ascensão meteórica,
pois obteve sucesso ao combater e vencer as tropas estrangeiras que tentaram invadir a
França, e ao mesmo tempo, pacificar a situação interna do país, eliminando as desordens e
trazendo estabilidade social.

Do ano de 1789, quando ocorre a Queda da Bastilha, marco inicial da Revolução


Francesa, até 1799, quando se estabelece a Era Napoleônica, conclui-se que a França
vivenciou momento de grandes agitações e modificações; Bonaparte iria lançar o país em
conflitos externos, e reinaria soberano na Europa por alguns anos, ate sua derrota final em
1815, mas não conseguiria apagar os efeitos da Revolução Francesa na mentalidade dos
cidadãos, efeitos que algumas décadas à frente alastrar-se-iam por todo o Velho continente e,
porque não dizer, por todo o mundo.
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1 - A FRANÇA PRÉ-REVOLUCIONÁRIA

Há alguns anos antes de ocorrer a revolução, a França ainda era basicamente uma
nação rural. Lentamente o modelo econômico de base feudal vinha sendo superado, ao tempo
em que a rica burguesia mercantil ascendia mais no cenário socioeconômico e - a partir do
século XVIII - vinha se firmando dentro da sociedade francesa devido ao seu poderio
financeiro.
A França necessitava reformulações governamentais, a fim de se fomentar maior
progresso econômico e social; nesse sentido, despontava a classe burguesa como o grupo que
poderia ser capaz de promover essa mudança, trazendo as reformas que respondessem aos
anseios do povo, por ser a ativa classe burguesa mais habilitada a encetar o crescimento
econômico do país e a reformulação da sociedade.
Considerando a perspectiva do alcance da Revolução Francesa, temos que:

A Revolução assinala a elevação da sociedade burguesa e capitalista na história da


França. Sua característica principal é ter realizado a unidade nacional do país por
meio da destruição do regime senhorial e das ordens feudais privilegiadas: porque
segundo Tocqueville1 em L´ancien Régime et la Révolution (livro II, cap. I), ``seu
objetivo particular era abolir em toda parte o resto das instituições da Idade Média´´.
O fato de ter chegado, finalmente, ao estabelecimento de uma democracia liberal
particulariza ainda a sua significação histórica. Deste duplo ponto de vista, e sob o
ângulo da historia mundial, ela merece ser considerada o modelo clássico de
revolução burguesa. (...)(SOBOL, 2007, pág. 07)

1.1 – Situação Socioeconômica

A França pré-revolucionária encontrava-se em difícil conjuntura socioeconômica,


que se agravaria nos anos que antecedem ao reinado de Luiz XVI; dentre os problemas
considerados como as raízes da Revolução Francesa, elencam-se fatores de ordem econômica,
política e social. Todos esses em conjunto fizeram o povo sublevar-se e depor a Monarquia.
Era a França de então ainda predominantemente de economia agrícola, sendo que
o povo francês às vésperas do eclodir da revolução passava fome, que se alastrava devido às

1
Ver Tocqueville, Alexis de – O Antigo Regime e a Revolução – BRASILIA: Universidade de Brasília, 1997.
17

safras ruins do período, causando grande elevação no preço dos alimentos, com a consequente
alta do custo de vida, que não era igualmente sentido pela aristocracia política e a nobreza –
que na corte ou em seus castelos – viviam no luxo e na opulência; havia um abismo
socioeconômico separando os ricos dos pobres, corroborado pelo fato de que:

A Revolução Francesa foi um longo processo que teve como marco uma grande seca
e fome generalizada, fatores que conduziram e se somaram a outros, fazendo a
população urbana de Paris se revoltar contra o rei, espalhando a revolta entre os
camponeses no campo e criando um ódio generalizado pela nobreza. A burguesia,
temendo engrossar a lista de desafetos da população mais humilde, acabou tomando
a frente, transformando o que era uma revolução puramente popular em burguesa.
(disponível em http://fabiopestanaramos.blogspot.com.br/2010/08/revolucao-
francesa-foi-causada-pela.html)

Em relação à situação industrial, o cenário era igualmente de crise. Encontrava-se


pouco desenvolvida, utilizando técnicas arcaicas. O governo francês buscou implementar uma
série de tratados comerciais, que mostraram-se ineficientes e redundaram em prejuízo para
sua própria indústria. No conjunto desse quadro, temos um processo que levou sua incipiente
indústria a permanecer abaixo dos padrões que se faziam necessários para concorrer no
mercado internacional crescente, sem condições de facear a rica indústria inglesa.
A França possuía o grosso de sua população formada por camponeses2, que
sobreviviam no campo, muitos deles ainda ligados ao regime de servidão. O panorama social
configurava-se de grande atraso.
E finalmente, havia ainda uma crise política. A Monarquia Absolutista francesa
atravessava momento difícil, cujas raízes podem ser apontadas na elevação de gastos da
luxuosa corte e à politica belicista dos governantes franceses, sempre lançando o país em
guerras externas, tantas que foram as em que a França se envolveu. Muito influenciou no
aumento do déficit das contas publicas o apoio militar à Guerra de Independência dos Estados
Unidos, onde se propôs auxiliar os colonos norte-americanos, num nítido espirito revanchista
- e que gerou altos gastos sempre custeados pelos impostos sobre o povo e a burguesia, que
findaram por quebrar o Estado, tornando insustentável a crise econômica. Segundo
Hobsbawn, (1996, pag.18), ``Assim, a França envolveu-se na guerra de independência

2
Dados estimam que fossem cerca de 20 milhões deles às vésperas da revolução; este
enorme contingente de camponeses famintos e desesperados acabaria por se tornar a força motriz que em
breve traria sérios embaraços à Monarquia, eliminando o Absolutismo da França.
18

americana. A vitória contra a Inglaterra foi obtida ao custo da bancarrota final e, portanto, a
revolução americana pôde proclamar-se causa direta da Revolução Francesa. ´´
Ratificando a afirmação do citado autor, este seria um dos maiores fatores a lançar
a França na bancarrota econômica. E com o crescimento da miséria assaltos tornaram-se
comuns tanto nos campos quanto nas cidades. Com o aumento da criminalidade já não havia
segurança em lugar algum; fome e desemprego assolavam por toda parte. O povo morria à
mingua. Dada a gravidade do contexto, foi preciso decretar os Estados Gerais.

2 - ASSEMBLEIA DOS ESTADOS GERAIS

Em maio de 1789 o rei Luís XVI resolveu convocar os Estados Gerais. Na França
Absolutista a Assembleia dos Estados Gerais constituía-se de um órgão político de carácter
consultivo e deliberativo, formado por representantes das três ordens sociais existentes,
denominadas Estados. A última data de convocação havia sido desde o ano de 1614, inicio do
sec. XVII. Para Carlile, (1962, pag.109) temos a seguinte assertiva:

Dizer venham os Estados Gerais, é fácil; dizer de que maneira devem vir, não é
tão fácil. Desde o ano de 1614, não se reuniram em
França nenhuns Estados Gerais; todos os vestígios deles desapareceram dos
hábitos dos homens. A sua estrutura, poderes, métodos de trabalho, que nunca
haviam sido de qualquer forma fixados, tornaram-se agora uma vaga
possibilidade. Um barro que o oleiro pode modelar, desta forma ou daquela:
digamos antes, os vinte e cinco milhões de oleiros;

No século XVIII, a sociedade francesa estava subdividida em três estamentos ou


partes, denominadas Estados, hierarquicamente escalonados.
No chamado Primeiro Estado – estava posicionada a elite social francesa
composta pelo clero, que comportava ainda uma subdivisão em suas fileiras, que
compreendiam o alto e baixo clero. O primeiro deles estava composto por indivíduos
provenientes das ricas famílias nobres – e eram dotados de privilégios de classe,
principalmente o de estarem isentos do recolhimento de tributos. Já com o baixo clero era
composto de indivíduos saídos das classes populares
19

Na pirâmide social, imediatamente abaixo vinha o chamado Segundo Estado,


composto pela camada da nobreza fundiária. Igualmente dotados de privilégios sociais,
também isentos de pagamentos de impostos. Uma parte dessa nobreza era encarregada de
auxiliar a monarquia na administração do reino.
O Terceiro Estado compunha-se da faixa mais densa da população, compreendida
por todo o restante dos franceses. Era justamente esta parcela do povo a que cabia o dever de
pagar os impostos, suportando a tarefa de sustentar o Estado francês. Sua porcentagem maior
era formada pelos camponeses. Pertenciam-lhe ainda a classe de todos os pobres
desempregados e trabalhadores das cidades, em numero considerável, juntamente com a
burguesia.
Com a sucessão dos eventos, estes três Estados entrarão em rota de colisão, e o
Terceiro Estado será o elemento que, dadas as circunstancias político-econômicas da
sociedade francesa naquele momento – e devido à alta oneração que lhe era imposta pelo peso
das responsabilidades que tinha de arcar em benefício dos demais membros - este imenso
grupo se sublevará contra o Estado Absolutista. Sob a liderança da camada da burguesia,
alinhar-se-ão os demais membros desse Estamento; camponeses, pobres trabalhadores e
desempregados das cidades atuarão decisivamente, engrossando o coro e a luta por mudanças
sociais.

2.1 - Luís XVI e seu Reinado

Luís XVI sagrou-se Rei no ano de 1774, pouco antes da revolução. Observe-se
que da morte de Luís XV ao inicio da revolução demandou-se apenas quinze curtos anos, o
que evidencia que o novo rei apenas assumiu o trono diante de uma situação crítica
engendrada por seus antecessores, com seu ápice no final dessa década de 1780, de cujos
desdobramentos o frágil rei Luís XVI nada pôde fazer.

Luís nasceu em 23 de agosto de 1754, em Versalhes, na França. Quando tinha


apenas quinze anos, casou-se com Maria Antonieta da Áustria. Após a morte de seu avô, o rei
Luís XV, subiu ao trono francês, e o desafio que teria de enfrentar mostrou-se maior que suas
forças.
20

Suas sucessivas tentativas de mudanças ministeriais redundavam ineficazes. Os


ministros das finanças sucediam-se sem resolver os problemas econômicos do reino;
Assumira Jacques Necker, substituto de Clugny de Nuits, que fora por sua vez o substituto de
Turgot – esse rodízio de ministros nas finanças, por si mesmo patenteia as dificuldades do
Reino, nenhum deles conseguindo solucionar a crise financeira. Necker, assim como Turgot,
insiste no ponto de que todos deveriam pagar impostos na França, considerando esta uma
opção urgente para corrigir as mazelas econômicas em curso. Asseverado o déficit gigantesco
de 126 milhões de libras, com a anuência Real e da nobreza, procede à convocação dos
Estados Gerais, solução final para se encontrar um caminho de retorno aos eixos e solver a
crise econômica. Nas palavras de Carlile (1962, pag.50) registra-se a tentativa de Turgot em
estender os impostos às classes altas e a reação destas: ``[...] Logo no princípio, ele propõe
que o clero, a nobreza, os próprios parlamentos sejam sujeitos a impostos como o povo! Um
grito de indignação e de pasmo reverbera através de todas as galerias do castelo. ´´

2.2 – Reunião dos Estados Gerais

Eram os Estados Gerais, um grupo de representantes formado de nobres, clérigos


e de pessoas comuns – que formavam os três Estados – e cuja ultima reunião não se dava a
mais de 170 anos. Foi a 5 de maio de 1789 que iniciaram os trabalhos, quando suceder-se-iam
os eventos.

Realizadas as eleições para a Assembleia dos Estados Gerais, em 1788, foram


eleitos 1139 deputados. Ao clero eram destinadas 291 cadeiras; à nobreza, 270; e ao terceiro
estado, 578. Este, apesar de ter ampliado sua representatividade, não consumou outra
reivindicação, a realização do voto individual. Isto porque o voto era por Estamento, e assim o
primeiro e segundo Estados sempre se uniam, formando maioria e assim impondo sua
vontade.

Tal conjuntura fez que o Terceiro Estado se proclamasse em Assembleia Nacional


Constituinte. Com a interrupção das negociações o Terceiro Estado, com seus deputados,
reúnem-se em separado, elaborando uma Constituição para a França. Para o Regime
Absolutista a elaboração da carta-magna representava o seu fim.
21

Luís XVI decidiu enviar tropas a Paris, no intuito de abafar e interromper o


processo constituinte, mas este fato acabou por exasperar a população. Foi assim que eclodiu
a revolta popular, em 14 de julho de 1789; o populacho invadiu a Bastilha, uma prisão oficial
do Estado destinada aos inimigos da monarquia, e conhecido símbolo da repressão real.
Armas foram distribuídas à população, iniciando-se, assim, a Revolução Francesa. A
burguesia, assumindo a liderança e manipulando os eventos, deu sustentação ao povo.

2.3 – A Queda da Bastilha

Este evento de 14 de Julho de 1789, foi acontecimento crucial para o desenrolar


dos fatos. Construída em 1370, a Bastilha era uma velha fortaleza, utilizada pela monarquia
como prisão para os criminosos comuns. Na época do cardeal Richelieu3 o prédio foi utilizado
como prisão para intelectuais e nobres, e para todos aqueles que ousavam desafiar a ordem
estabelecida. Conforme transcrito abaixo:

A queda da Bastilha pode dizer-se que abalou toda a França até aos mais profundos
alicerces da sua existência. O rumor destas maravilhas corre por toda a parte, com a
velocidade natural do rumor, com um efeito julgado preternatural, produzido pelos
conluios conspiratórios. ´´ (CARLILE - 1962, pag. 180)

A invasão da fortaleza pela população de Paris, fez com que o 14 de julho de 1789
se tornasse a data de inicio da Revolução Francesa. No momento em que ocorre a invasão do
prédio, contava sete presos em seu interior. A questão de libertar os presos não era o mais
significativo; é que havia um objetivo mais prático ao se realizar esta tomada, no sentido de
resgatar os armamentos depositados em seu interior, cujo uso era de interesse para os
invasores.

Ressalte-se que à partir desse momento - a queda da bastilha – a população


francesa assume a preponderância nos eventos, ultrapassado o contexto da luta política dos
deputados em sua trajetória ruma a modificação do regime pelos meios legais, pois logo o
movimento alastrou-se também às demais cidades e ao campo, com os revoltosos invadindo

3
Armand Jean du Plessis, Cardeal e Duque de Richelieu, (Paris, 9 de setembro de 1585 – Paris,
4 de dezembro de 1642); foi o arquiteto do absolutismo em França e da liderança francesa na Europa.
Partidário do lema ``todo poder ao rei´´, levou o absolutismo às últimas consequências.
22

diversos castelos no interior do país - a massacrar famílias inteiras de nobres -


impiedosamente, deixando extravasar o rancor acumulado por séculos de exploração servil.
Neste primeiro momento, no campo, a violência foi maior. Invadiram, pilharam e queimaram
as propriedades feudais, destruindo castelos e cartórios, para eliminar os títulos de
propriedade de terra. Este momento ficou conhecido como Fase do Grande Medo. Muitos
desses nobres tiveram de fugir para países vizinhos, em busca de proteção. Preocupada com
os eventos, a burguesia, adotou medidas a fim de beneficiar o povo, a fim de não perder o
controle da situação.

3 – FASES DA REVOLUÇÃO

3.1 - Assembleia Nacional Constituinte

Com a formação da Assembleia Nacional Constituinte, se implantou a Monarquia


Constitucional, perdurando de 1789 até 1792. A mesma demandaria no sentido de votar e
aprovar a constituição de 1791. A revolução tencionava estabelecer a Monarquia Parlamentar,
copiando o modelo inglês, e assim o Rei continuaria a governar a França, limitado pelas
deliberações do Parlamento. É dessa fase a elaboração da Declaração dos Direitos do Homem,
e de acordo com a seguinte assertiva:

A Igualdade (L´égalite) exibe a declaração dos Direitos do Homem, documento


lançado em 1789 sob a influencia dos ideais iluministas e um dos principais
símbolos da Revolução Francesa: a superação da concepção tradicional de que os
indivíduos nascem distintos por natureza. (GRESPAN, 2003, pag.10)

A revolta popular assume os contornos nítidos de uma revolução burguesa, com


as ações dominadas pela camada mais alta da mesma, em a qual se implantaram medidas de
caráter conservador, buscando uma forma de entendimento entre a burguesia e a nobreza. A
liderança dessa elite burguesa não foi capaz de satisfazer as aspirações do povo e conter a
crise econômica; e o terceiro Estado acabou fragmentando-se politicamente entre as alas dos
jacobinos - que adotavam postura mais radical aproximada ao povo – e os girondinos,
composta pelos membros da rica burguesia que comandava as reformas políticas.
23

O partido jacobino era liderado por Robespierre4, que ainda comportava uma
subdivisão em suas fileiras, o pequeno grupo dos chamados Cordeliers, que tinha entre seus
mais expoentes líderes Georges Jacques Danton, personagem importante nos primeiros
tempos de Revolução.

Os constituintes tiveram de se defender de uma coligação de Monarquias


estrangeiras – Áustria e Prússia - que tencionavam intervir à favor da restauração monárquica.
Nesse sentido, a França declarou guerra a Áustria em 20 de abril de 1792. Após algumas
derrotas iniciais, o exercito francês conseguiu superar as forças inimigas e abafar o
movimento reacionário apoiado secretamente por Luiz XVI. A partir daí, a Revolução
ganharia novos rumos.

3.2 – A Convenção Nacional

A segunda fase da Revolução Francesa foi denominada Convenção. Alguns


eventos desdobrados acabaram por precipitar os acontecimentos, dando inicio a esta segunda
fase. A fracassada tentativa de fuga de Luís XVI para a Áustria acentuou a ação dos
revoltosos, tendo sido preso e mais tarde executado, juntamente com toda a família real;
formado o governo executivo provisório, sob George Jacques Danton, a convenção proclamou
a Republica, a 20 de Setembro – esta que seria a primeira da história da França. Com a
Monarquia Constitucional destituída devido à traição de Luís XVI, e com as reformas
conservadoras do governo girondino, que desagradavam ao povo, surgiu a oportunidade que
os jacobinos, apoiados pelos sans-culottes5, esperavam. Após deporem os deputados do
governo girondino, assumem a liderança da Revolução. Sob o comando de Robespierre,
haveriam de concentrar em suas mãos as rédeas do governo, através da Convenção, eleita por
voto universal.

4
Nascia no ano de 1758 na cidade de Arras, no interior da França, Maximilien François Marie Isidore de
Robespierre - vindo de família pertencente à pequena burguesia. Mais tarde seria denominado “o
incorruptível” e se tornaria um dos principais personagens da revolução que modificou os rumos de seu país
5
Denominação dada aos membros da pequena ou média burguesia das classes populares propriamente ditas:
trabalhadores, operários e artesãos de Paris, que, durante a Revolução, transformaram-se em temerosa milícia
armada, que dava sustentação ao governo jacobino de Robespierre. O nome Sans-culottes (sem culotes) deriva
do fato de sua vestimenta típica ser os calções longos, em oposição aos culotes – calções curtos e apertados
amarrados aos joelhos, típicos da nobreza.
24

3.3 – A Divisão Ideológica dos Grupos Políticos

Com o estabelecimento da Convenção, a divisão ideológica dos partidos políticos


formados tornou-se mais evidenciada. Tem-se agora o grupo que se caracterizou como a
direita politica. Estes eram justamente os girondinos, assim chamados por serem muitos dos
seus líderes provenientes da região da Gironda, na França. Esta ala política defendia
abertamente os interesses da burguesia. Eram os representantes daqueles que mais haviam se
beneficiado da revolução, grandes banqueiros, industriais e financistas. Para a manutenção de
sua primazia social, articulavam no sentido de manter a situação favorável aos interesses
burgueses, temerosos de que a revolução redundasse em democracia social.

No centro, o partido dos constitucionalistas, mais tarde conhecidos como planície,


alinhados à burguesia financeira. Era um grupo que tendia a adernar entre uma ou outra
posição que - no jogo das circunstancias e artimanhas politicas - lhes fosse mais favorável.

O terceiro grupo é o já citado dos jacobinos, a ala mais radical da revolução,


representantes diretos dos interesses do povo e das média e baixa burguesia, que se sentavam
à esquerda e ao alto na assembleia, sendo por isso cognominados ``montanha´´. Ao
assumirem o poder, lançarão a França em um dos períodos mais dolorosos da revolução,
conhecido como o ``período do terror´´.

Foram os jacobinos os responsáveis diretos pela execução do Rei Luís XVI, sob a
alegação de ser este um traidor da pátria. Crescente tornava-se sua popularidade, e recebiam
apoio direto dos sans-culottes; no jogo de interesses em disputa naquele momento, tornaram-
se ameaça às pretensões dos girondinos, polarizando a disputa pela hegemonia politica entre
esses dois grupos. Com o alavancamento dos jacobinos ao primeiro plano das ações
revolucionárias, conforme analisado, os girondinos foram suprimidos do comando da situação
politica em França. Através da Comissão de Salvação Publica6, a convenção adota medidas no
sentido de favoreces aos anseios do povo, através do controle de preços das mercadorias,
amenizando a situação financeira das massas.

6
Este comitê, criado pela convenção, tinha a prerrogativa de administrar a finanças publicas – e também de
controlar as forças armadas. Era um órgão executivo. Na época de poderio dos jacobinos, passou a atuar na
condução da política do terror.
25

Destituídos os deputados girondinos, os jacobinos - agora apoiados pelos sans-


culottes - posicionam-se na vanguarda da revolução. E a luta entre os partidos na França
revolucionária intensifica-se: à partir desse momento, inaugurar-se-ia um dos períodos mais
repressivos na França – que foi denominado período do Terror.

3.4 – Terror Jacobinista

Maximilien de Robespierre - um dos nomes mais populares da historia da


Revolução Francesa - buscou implantar reformas populares. A partir desse momento, quando
o objetivo principal já fora atingido, seria preciso amainar os ânimos exaltados do povo, a fim
de se poder governar a França com tranquilidade, adotando as medidas necessárias para sustar
a crise econômica Uma série de medidas favoráveis ao povo é imediatamente implementada
pelos jacobinos, medidas essas recebidas satisfatoriamente pelo povo francês, denotando a
característica popular do governo.

A tendência natural seria um abrandamento dos clamores populares, visto que


suas reivindicações começaram a ser atendidas pelo governo jacobino. Todavia, uma
ocorrência haveria de modificar o andamento dos fatos: a 13 de julho de 1793, o assassinato
de Jean-Paul Marat7.

Marat é uma das lideranças centrais da Revolução. Fundou um periódico, o


jornal L’Ami du Peuple (O Amigo do Povo), passando a divulgar os ideais da Revolução e a
defender as aspirações das massas. Por defender suas ideias, Marat foi perseguido, tendo de se
exilar na Inglaterra. Ao retornar um ano depois, tornou-se porta-voz do partido jacobinista.
Jean Paul Marat, por suas posições ideológicas, pode ser considerado um extremista de
esquerda.

Marat, Robespierre e Danton formaram uma tríade que assumiu a primazia do


governo jacobinista. O assassinato de Marat por uma mulher de nome Charlotte Corday,
militante girondina, em sua própria banheira, a punhaladas, encerra sua breve carreira política.
À partir desse momento – e com outros ataques a lideranças jacobinista – tem-se o pretexto

7
Médico, periodista e revolucionário franco-suíço, nasceu em Boudry, cantão de Neuchâtel, Suíça, a 24 de
maio de 1743. Ao subir ao primeiro plano do processo revolucionário, acabou por ser conhecido como um dos
elementos mais radicais dos setores populares do jacobinismo durante a revolução francesa.
26

para a adoção de duríssima ofensiva jacobinista aos adversários polítcos.ao se sentirem


ameaçados, adotaram uma política de terror extremista, coma eliminação sumária da vide de
seus opositores. Qualquer indivíduo suspeito de ligações com os girondinos e com a ala
aristocrática opositora da Revolução passaria a ser perseguido, preso e executado na
guilhotina. O terror se configura como período terrível, sob o ponto de vista das execuções
postas em prática. Na análise de Hobsbawn, (1996, pag.41) esta medida extrema seria
justificável aos olhos da liderança jacobinista pelo fato de que:

Para esses homens como, de fato, para a maioria da convenção Nacional, que no
fundo deteve o controle durante todo este período, a escolha era simples: ou o
Terror, com todos os seus defeitos do ponto de vista da classe média, ou a destruição
da revolução, a desintegração do Estado nacional e provavelmente – já não havia o
exemplo da Polônia? –o desaparecimento do país. (...)

3.5 - A Reação Termidoriana

Este período somente se extinguiria com a queda de Robespierre em 1794, tendo


perdurado cerca de dois anos. Estima-se o total de mortos 15 a 40 mil pessoas decapitadas, o
que o torna um período cruel e sanguinário. Essa política de execuções sumárias acabou por
extrapolar os limites aceitáveis, e vitimou inclusive as próprias lideranças jacobinistas. A
fragmentação interna da esquerda revolucionária terminou por fragiliza-la ao ponto de
eliminar seus lideres; com a morte de Danton, Hebert e Jacques Roux entre outros,
Robespierre, ficou isolado na condução do Comitê de Salvação Pública.

Robespierre eliminou seus ex-aliados, que eram justamente os homens capazes de


mobilizar os sans-culottes – a milícia armada de Paris – força indispensável para dar suporte
armado ao governo. Sem este apoio, acabaria alijado do poder.

As medidas econômicas de Robespierre insatisfaziam aos burgueses; a execução


de lideres populares de esquerda e a permanência da crise econômica propiciaram o clima
necessário para a reação da ala central partidária, os membros da planície, apoiados pela alta
burguesia financeira. Incapaz de mobilizar as camadas populares, Robespierre, foi preso e
executado, junto com seus principais apoiadores, encerrando o período do terror, uma das
características da Revolução Francesa, que se configura uma das revoluções mais violentas da
historia, com sucessões quase ininterruptas de execuções e assassinatos.
27

3.6 - O Diretório

Com a extinção da convenção, Setembro de 1795, uma nova Constituição seria


outorgada ao povo - de caráter liberal - substituindo a anterior. O novo governo que se
instaurava recebeu o nome de Diretório, aonde cinco cidadãos compunham o poder executivo,
ao lado de duas Câmaras. Uma medida importante adotada pelo diretório foi a restauração do
voto censitário - onde só os elementos com posses poderiam eleger o governo – afastando a
população das decisões políticas. Com esta nova liderança - a da rica burguesia financeira - o
povo será alijado do processo revolucionário.

Devido aos problemas de instabilidade politica, o diretório se vê obrigado a rogar


auxilio ao exército, a fim de manter a ordem social. O jovem general Napoleão Bonaparte, foi
escolhido para organizar a defesa interna do país, e obteve grande sucesso, ao manter a
estabilidade do governo do diretório. Juntamente com suas vitórias no exterior, assoma
Napoleão como grande liderança, - e é esse prestígio alcançado por Napoleão – ao conter as
balbúrdias que ameaçavam a paz interna almejada pelo Diretório – e as ameaças externas que
intentavam acabar com a Revolução Francesa e, além disso, anexando novos territórios ao
país, acabaram por fazer que fosse convidado, em outubro de 1799, a participar do diretório.
A necessidade de debelar essas ameaças externas coaduna-se com o alcance internacional da
Revolução Francesa, que extrapolou suas fronteiras, corroborado ainda pela seguinte
afirmação:

(...) Todas as revoluções civis e políticas tiveram uma pátria e nela se fecharam. A
Revolução Francesa não teve um território próprio, mais do que isso, teve por efeito
por assim dizer apagar do mapa todas as antigas fronteiras. Aproximou ou dividiu os
homens a despeito das leis, das tradições, dos caracteres, da língua, transformando
às vezes compatriotas em inimigos e irmãos em estranhos ou, melhor, formando
acima de todas as nacionalidades uma pátria intelectual comum da qual os homens
de todas as nações podiam tornar-se cidadãos. ”(...) (TOCQUEVILLE, 1989 – pág.
59)
28

4 – 18 BRUMÁRIO

A ascensão meteórica de Napoleão Bonaparte no cenário europeu – dentro e fora


da França - lhe renderam grande prestígio e poder. Praticamente passou a comandar o
Diretório, e como chefe máximo das forças armadas – e plenamente apoiado pelos partidários
do governo, nele se depositavam a confiança da salvaguarda das conquistas do povo e da
burguesia em geral. Diante de seu poder pessoal, do comando do exercito, de seu carisma e
capacidade administrativa, se deparava com o caminho aberto para reinar soberano. Seu
prestígio cresceu de tal maneira, que a 9 de novembro de 1799 – o famoso 18 Brumário,
pelo novo calendário – exatamente um mês depois de ter sido convidado a participar do
governo, dissolveu o parlamento e substituiu o diretório por um consulado provisório,
composto por três membros, sendo ele o mais proeminente. De acordo com o exposto, a
importância de Napoleão para a França assenta na seguinte assertiva:

Para os franceses ele foi, também, algo bem mais simples: o mais bem sucedido
governante de sua longa história. Triunfou gloriosamente no exterior, mas, em
termos nacionais, também estabeleceu ou restabeleceu o mecanismo das instituições
francesas como existem até hoje. Reconhecidamente, a maioria de suas ideias talvez
todas foram previstas pela Revolução e pelo Diretório; sua contribuição pessoal foi
faze-las um pouco mais conservadoras, hierárquicas e autoritárias. Mas seus
predecessores apenas previram; ele realizou. (...). (HOBSBAWN, 1996, pag.56)

Iniciava-se o Consulado, onde ele concentrava a maior parte do poder. Já em


1802, por meio de um plebiscito lhe foi concedido o titulo de cônsul vitalício; dois anos mais
tarde, um novo plebiscito lhe daria o titulo de imperador. É ainda Hobsbawn (1996, pag. 56)
quem observa:

Ele destruíra apenas uma coisa: a Revolução Jacobina, o sonho de igualdade,


liberdade e fraternidade, do povo se erguendo na sua grandiosidade para derrubar a
opressão. Este foi um mito muito mais poderoso do que o dele, pois, após sua queda,
foi isto e não a sua memória que inspirou as revoluções do século XIX, inclusive em
seu próprio país.

O consulado chegava ao fim, a Republica ficava extinta e a França se


transformava em Império. Era também o fim da Revolução Francesa.
29

Considerações Finais

Dentro do escopo do presente trabalho, ao analisar os eventos que configuraram a


Revolução Francesa, observa-se uma visão panorâmica de todas as ocorrências, dentro do
quadro estrito do período que compreende o ano de 1789 - com a queda da bastilha - até 1799,
que confere o início da chamada ``Era Napoleônica´´. De grande turbulência social, os
eventos que convulsionaram a sociedade francesa são acontecimento inédito na historia da
civilização ocidental, configurando se não o maior, ao menos um dos mais importantes
fenômenos ocorridos nesta referida civilização, dado o quadro de profundas transformações
que desencadeou em solo europeu, e ainda em outras áreas do planeta, influenciando, por
exemplo, algumas independências de colônias espanholas no novo mundo, e chegando
mesmo a repercutir em solo brasileiro, ao servir de inspiração para a Inconfidência Mineira.
Do ponto de vista da historiografia, trata-se de marco histórico, não obstante sua
face extremamente violenta, pois foi uma revolução que englobou toda a nação,
principalmente ao se observar que a França possuía naquele momento a maior população da
Europa, com cerca de 26 milhões de habitantes, configurando uma grande massa humana para
os padrões da época, e que ao não ter atendidas as condições mínimas de qualidade de vida
para sua faixa mais ampla, sublevou-se contra o sistema monárquico e pela força das armas
modificou modelo governamental do país.

Com o desdobrar desses fatos que convulsionaram o solo da França, e que


passaram a história a partir do citado ano de 1789, ao marcarem o fim de uma época – a
chamada Idade Moderna – e dar início à Idade Contemporânea, tais eventos significaram o
fim do absolutismo na França. Neste momento ascendeu ao poder a burguesia, consolidando-
se ao primeiro plano no cenário político, que abriria as portas logo depois para a ascensão ao
capitalismo global. Mas, com efeito, a Revolução Francesa ultrapassou os limites geográficos
do território francês, devido a sua repercussão; suas ideias espalharam-se pela Europa,
penetrando nos demais países e lançando a preocupação no seio das Monarquias Europeias,
temerosas de que a Revolução se expandisse e promovesse a alteração do status quo.

Seus líderes foram homens do seu tempo, com as luzes de sua época, como o
foram os homens de todas as épocas da humanidade, com suas falhas e suas virtudes. Por
vezes foram cruéis, não titubeando em ceifar a vida dos que ousassem paralisar a revolução
em curso, naqueles tempos difíceis para o povo francês, de profunda crise político-econômica
30

e de grande turbulência social. Deram esses líderes - Danton, Robespierre, Janot, Marat, e
tantos outros – entre eles o próprio Napoleão – aquilo que tinham para ofertar, dentro do
contexto político-social em que viveram. De todos os partidos e suas lideranças envolvidas
nos conflitos e disputas pelo poder, os jacobinos de Robespierre foram os que mais se
identificaram com as aspirações das massas populares. Todavia, nenhum deles conseguiu
liderar a revolução de modo a satisfazer plenamente aos anseios do povo, e resolver seus
problemas, estabelecendo um período de eficaz liberdade, igualdade e fraternidade, os ideais
decantados na filosofia Iluminista. Tanto é fato que sob a liderança de Robespierre e do
partido jacobino, a Revolução desvirtuou-se em momento cruel e sangrento – em o qual a
guilhotina trabalhou sem cessar - com a morte de milhares de pessoas, na fase do ``período do
terror´´. Observa-se então que o ideal de fraternidade desvirtuou-se, dando lugar a execuções
em massa. Num contexto dessa monta, atingir a estabilidade social torna-se tarefa infértil.

Com os girondinos igualmente não se consegue viabilizar as aspirações das


massas populares, pois era este um partido profundamente identificado com as aspirações
burguesas. Em assim sendo, tal desiderato – estabilidade político-social - só seria
convenientemente atingido no fugaz governo de Napoleão Bonaparte, que aliava em si a
maestria nos campos de batalha e a excelência da capacidade administrativa, quando
conseguiu pacificar internamente o país. Seu sucesso, todavia, só não foi pleno porque
Napoleão era mais General do que Estadista; lançou o país em muitas guerras de conquista
pelo solo europeu, o que o levaria à derrota final em Waterloo8, quando seria deposto pelos
ingleses.

O povo francês, a partir de 1789, inspirado pelos ideais iluministas de igualdade,


liberdade e fraternidade, iniciou um movimento de sublevação nacional que remodelaria sua
sociedade e lançaria o país – e o mundo - em um novo período. E no esteio dessa sublevação,
outras ainda eclodiriam em França algumas décadas à frente - em 1830 e em 1848, na
chamada Primavera dos Povos, eventos que tiveram como início a Revolução Francesa, e que
confirmam a assertiva de que a mesma é de fato um importante marco na história da
humanidade.

8
A Batalha de Waterloo marca a derrota final de Napoleão, a 18 de Junho de 1815 em Waterloo, Bélgica, pelas
forças coligadas dos ingleses sob o comando de Duque de Wellington, e dos prussianos de Von Blücher.
Aprisionado, Napoleão seria exilado na Ilha de Santa Helena, onde faleceria em 1821.
31

Referências Bibliográficas

CARLILE, Thomas – A História da Revolução Francesa - São Paulo - Edições

Melhoramentos -1962

GRESPAN, Jorge – Revolução Francesa e o Iluminismo - São Paulo – Editora

Contexto, 2008

HOBSBAWN, Eric – A Revolução Francesa – São Paulo – Editora Paz e Terra,

1996

PESTANA, Ramos Fábio – Para Entender História – Revolução Francesa foi

Causada pela Fome – Disponível em http://revolucao-francesa-foi-causada-pela.html -

Acesso em 03 de novembro de 2016

SOBOL, Albert - A Revolução Francesa – Rio de Janeiro – DIFEL, 2007

TOCQUEVILLE, Alexis de – O antigo Regime e a Revolução - Brasília- Editora

UNB, 1997