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Oração, o exercício da simplicidade

Não sei se você já observou, mas as orações na Bíblia geralmente são muito
curtas. Existem, claro, orações mais longas, como a conhecida oração sacerdotal de
Jesus, a oração de confissão de Isaías ou Daniel, entre outras. Mas, normalmente,
encontramos muitas orações que são pequenas e curtas frases, carregadas de
conteúdo e significado. Assim foi a oração do pequeno Samuel no templo, quando
responde à voz de Deus que o chamava, simplesmente dizendo: "Fala, Senhor,
porque o teu servo ouve." Isaías também economiza palavras quando, cheio de
temor, reconhece o seu pecado na presença de Deus, confessa e ouve a voz do
Senhor perguntando: "Quem há de ir por nós?", e ele responde, dizendo: "Eis-me
aqui, envia-me a mim." A oração de Maria, depois da visita do anjo que lhe
anuncia a bem-aventurança de que seria a mãe do Messias, é também muito
simples: "Eis aqui a serva do Senhor, que se cumpra em mim conforme a sua
vontade." Jesus, no jardim, enquanto se agonizava diante do sofrimento, orou
dizendo: "Pai, se possível, afasta de mim este cálice, contudo não seja o que eu
quero, e sim o que tu queres."
A oração é sempre um segundo ato na vida cristã, uma segunda palavra. A
primeira sempre pertence a Deus. Primeiro Deus fala, depois respondemos. Nossa
oração é uma resposta a Deus, pois a primeira palavra sempre lhe pertence, não a
nós. Neste sentido, vemos que a oração é um ato simples, não requer um discurso
muito bem elaborado, cheio de recursos verbais normalmente usados para
impressionar os mais simples. Quando ouvimos a Deus, quando permitimos que
Ele fale primeiro, nossa oração se transforma numa simples e honesta resposta. Às
vezes penso que as longas orações, para muitos cristãos, não passam de uma forma
espiritualmente sofisticada de nada dizer, de nada responder porque nada se ouviu.
Outra oração curta que encontramos na Bíblia é a do cego Bartimeu que,
assentado no caminho de Jericó, grita por Jesus. Diante do Mestre, o cego ouve a
pergunta: "Que queres que te faça?" Às vezes, pensamos que a pergunta que Jesus
faz ao cego encontra sempre uma resposta pronta em cada um de nós. No entanto,
quando imaginamos Jesus olhando ternamente para nós e fazendo esta pergunta,
nos damos conta de que a resposta nem sempre é simples e óbvia. Responder a
uma pergunta assim exige um cuidadoso olhar para dentro, para nossas
necessidades mais íntimas e profundas, uma percepção realista de quem somos e o
que queremos. Orar com uma só frase pode parecer simples, mas não é. Por isto é
que preferimos longas orações: para nada dizermos.
O escritor Rubem Alves ilustra bem isso quando conta a história de um
homem que era muito invejoso. Um dia, apareceu diante dele um gênio, daqueles
que saem da garrafa, e lhe disse que poderia fazer um pedido, qualquer que fosse,
que seria imediatamente atendido. Aquele homem pensou nas mansões, iates,
viagens, ilhas, mulheres, carros e todas as coisas que sempre sonhou um dia ter.
Porém, antes do gênio perguntar se já havia decidido o que pedir, disse que tinha
uma única condição: tudo o que aquele homem pedisse, seu pior inimigo ganharia
o mesmo em dobro. O homem voltou a pensar e, depois de algum tempo retornou
dizendo que já havia decidido o que pedir. O gênio então perguntou: "O que você
quer que eu faça?" Ele respondeu: "Que eu fique cego de um olho."
Esta história mostra que nem sempre nossos desejos refletem o que há de
mais nobre em nós - pelo contrário, refletem nossas cobiças, ciúmes, medos e
ansiedades. É isso que Tiago afirma na sua carta, quando diz: "Pedis e não
recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes nos vossos prazeres." A pergunta de
Jesus nasce do seu mais profundo e verdadeiro amor por nós, mas nossas respostas,
muitas vezes, brotam dos nossos desejos e necessidades mais mesquinhos. Para
responder a pergunta de Jesus ao cego Bartimeu, é preciso dar um mergulho em
nossa alma e permitir que Deus mesmo descortine o nosso interior e revele aquilo
de que mais necessitamos.
A confissão é sempre o melhor começo para a experiência da oração. É
através dela que olhamos com maior realismo para nossas necessidades e
buscamos com sinceridade aquilo de que necessitamos. Foi George McDonald que
disse em uma oração: "Senhor, minhas orações fluem daquilo que eu não sou,
penso que suas respostas fazem de mim o que devo ser."
Uma pergunta como essa que Jesus fez ao cego exige de nós uma resposta
mais objetiva, que nos envolva pessoalmente e nos coloque no caminho da
transformação. Se não olharmos com realismo e sinceridade para nós mesmos,
corremos o risco de buscar aquilo que satisfará apenas nossas cobiças e nossos
enganos, e não nossa alma e nosso coração. É importante lembrar que o povo de
Israel uma vez pediu um rei porque achava que era aquilo iria ajudá-lo a progredir,
a ser igual às outras nações, a ser mais feliz. Deus deu, mas advertiu dos riscos que
a monarquia haveria de trazer. Israel recebeu o seu rei e mergulhou num dos
períodos mais graves da sua história porque não soube dizer a Deus o que
realmente precisava. Sua oração nasceu daquilo que não era. O Salmo 105.15
mostra a conseqüência da oração que nasce da cobiça e da ingratidão. O salmista
afirma: "Concedeu-lhes o que pediram, mas fez definhar-lhes a alma." É uma
afirmação grave. Ela nos mostra que, quando ouvimos primeiro a nós, e não a
Deus, nossa alma acaba definhando.
Muitas pessoas têm dificuldade de orar porque acham que oração é algo
complicado, que exige domínio sobre as palavras mágicas ou as fórmulas que
despertam o gigante adormecido. Mas o que encontramos na Bíblia é outra coisa.
São súplicas simples, pedidos quase infantis, ações de graças. São mães suplicando
pelos seus filhos, enfermos clamando por misericórdia, homens e mulheres
prostrados em gratidão. Quando ouvimos a voz de Deus e somos tocados pelo seu
amor; quando seu olhar cheio de ternura e compaixão penetra o nosso, a oração se
transforma num simples ato, numa simples frase, num gesto de gratidão. Nossa
grande dificuldade hoje é permitir ser tocado, olhado, abraçado e amado. Noutras
palavras, não ouvimos, não há uma primeira palavra e, conseqüentemente, não há
uma resposta, não há oração.
É por isso que a oração sempre começa com um pedido para que o Senhor
nos ensine a orar. Foi assim que os discípulos fizeram, porque nós, como eles,
também não sabemos orar. Um bom exercício para começar é colocar-se no lugar
do cego Bartimeu e ouvir Jesus olhando com ternura para você e perguntando-lhe
mais uma vez: "O que queres que te faça?" Responda com uma só frase, busque no
fundo de sua alma aquilo que mais necessita e apresente diante dele. Continue
fazendo esta mesma oração por muitos dias até ver a graça de Jesus se
manifestando em sua vida, transformando seu caráter, abrindo seus olhos,
desamarrando seus pés, quebrando seu coração. Lembre-se, é isto que seu coração
deseja, espere com paciência a resposta boa, perfeita e agradável que virá do
Senhor. Orar é ouvir primeiro para depois falar, é responder e esperar, é manter
nossos olhos sempre voltados ao olhar amoroso e gracioso do nosso Salvador e
aguardar a salvação que vem dele.

Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja Presbiteriana do


Planalto, em
Brasília/DF