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Nº 516 | Ano XVII | 4/12/2017

Base Nacional
Comum Curricular
O futuro da educação brasileira

Renato Janine Ribeiro


Roberto Rafael Dias da Silva
Sílvio Gallo
Monica Ribeiro da Silva
Paulo Fochi
Daniel Cara
Elí Fabris e Maria Cláudia Dal’Igna
Maurice Tardif

Leia também
Flavio Koutzii ■
Benito Schmidt ■
Lucas Luz e Gilberto Faggion ■
Perfil: Sandro José Rigo ■
Bruno Lima Rocha ■
EDITORIAL

Base Nacional Comum Curricular


O futuro da educação brasileira

Q uando o governo brasileiro acelera a vo-


tação de uma nova versão da Base Na-
cional Comum Curricular – BNCC sem
novo debate, a revista IHU On-Line discute o
versidade de Montreal, aponta que o proble-
ma do Brasil não é a formação de professores,
mas as condições de trabalho dos educadores
e das educadoras.
tema com um pesquisadores e pesquisadoras de O tema em discussão nesta edição será abor-
diversas áreas do conhecimento que pensam e dado no II Encontro das Licenciaturas da
analisam os desafios da escola brasileira do sé- Região Sul - II EncliSul, II Encontro do
culo XXI. Programa Institucional de Bolsas de Ini-
Renato Janine Ribeiro, que iniciou os mo- ciação à Docência da Região Sul - II Pibid
vimentos para a construção do projeto na sua Sul e II Seminário Institucional Pibid/
passagem pelo Ministério da Educação, avalia Unisinos, a ser realizado na Unisinos, nos dias
todo o processo e observa como as discussões 13 a 15 de dezembro.
da Base Comum Curricular revelam o verdadei-
Completam a presente edição as entrevistas
ro racha pelo qual o país passa hoje.
com o historiador Benito Bisso Schmidt,
Para o professor do PPG em Educação da Uni- autor da biografia de Flavio Koutzii, político
sinos Roberto Rafael Dias da Silva, a última gaúcho, recentemente publicada sob o título
versão da BNCC está levando a cabo um projeto Flavio Koutzii: Biografia de um militante re-
maior de cunho neoliberal, que na educação pri- volucionário – De 1943 a 1984 (Porto Alegre:
vilegia apenas os saberes utilitaristas. Editora Libretos), e com o biografado; com Lu-
2 Sílvio Gallo, professor da Faculdade de Edu- cas Henrique da Luz e Gilberto Antonio
cação da Unicamp, vê na proposta apresentada Faggion, professores da Unisinos, sobre o livro
pelo Ministério da Educação a atualização de Homo Deus. Uma breve história do amanhã,
um desejo de controle biopolítico da população. de Yuval Noah Harari (São Paulo: Cia. das Le-
tras, 2016), recentemente apresentado e deba-
Monica Ribeiro da Silva, professora na tido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU;
Universidade Federal do Paraná, alerta para um o artigo Evasão de divisas e os Paradise Papers
risco: o projeto da BNCC transforma a escola como evidência sistêmica de Bruno Lima
numa empresa, mensurando educação como ín- Rocha, professor do Curso de Relações Inter-
dice de produtividade. nacionais da Unisinos; e a entrevista perfil com
Paulo Fochi, doutorando em Educação na Sandro Rigo, decano da Escola Politécnica da
Universidade de São Paulo - USP, especialista Unisinos.
em Educação Infantil, a BNCC adultera a lógi- A todas e a todos uma boa leitura e uma exce-
ca que deve nortear a primeira fase de educa- lente semana.
ção escolar.
Para Daniel Cara, coordenador geral da
Campanha Nacional pelo Direito à Educação,
afirma que “sozinha, a BNCC não resolve nada,
pois com um professor desmotivado, sem con-
dições adequadas de trabalho, terá resultado
nulo. Não vamos melhorar nossa relação de en-
sino-aprendizagem”.
As professoras e pesquisadoras do PPG em
Educação da Unisinos Elí Fabris e Maria
Cláudia Dal’Igna alertam para as ameaças
que a escola de hoje sofre, seja por violência,
discriminações ou ações como do movimento
Escola Sem Partido.
O canadense Maurice Tardif, professor da
Foto da Capa: Marcos
Faculdade de Ciências da Educação da Uni-
Santos / USP Imagens

4 DE DEZEMBRO | 2017
REVISTA IHU ON-LINE

Sumário
4 ■ Temas em destaque
6 ■ Flavio Koutzii: “A locomotiva da memória está sempre andando, e haja combustível”
14 ■ Benito Schmidt: “Tratei de avaliar o significado histórico e social da tortura, mais do que
descrevê-la de forma minuciosa”
18 ■ Lara Ely: A virada de uma “igreja em saída”
20 ■ Tema de capa | João Vitor Santos: Base Nacional Comum Curricular – BNCC
23 ■ Tema de capa | Renato Janine Ribeiro: Em um Brasil sem diálogo, escola vira arena
para disputas
30 ■ Tema de capa | Roberto Rafael Dias da Silva: A Base Curricular que reverencia a lógica
da financeirização
37 ■ Tema de capa | Sílvio Gallo: Base Comum Curricular, um instrumento da biopolítica
42 ■ Tema de capa | Monica Ribeiro da Silva: Os limites de uma reforma com
“empresariamento” e que ignora as desigualdades
46 ■ Tema de capa | Paulo Fochi: Educação Infantil não deve se submeter à ideia de
compartimentação
53 ■ Tema de capa | Daniel Cara: A mediocrização da educação pública
56 ■ Tema de capa | Elí Fabris; Maria Cláudia Dal’Igna: Nenhuma escola está imune às ondas
de violência e conservadorismo
62 ■ Tema de capa | Maurice Tardif: O eterno desafio brasileiro da valorização docente 3
66 ■ Lucas Luz; Gilberto Faggion: Homo Deus e a grande revolução algorítmica no século XXI
74 ■ Perfil: Sandro Rigo
76 ■ Crítica internacional | Bruno Lima Rocha: Evasão de divisas e os Paradise Papers como
evidência sistêmica
79 ■ Outras edições

Diretor de Redação Atualização diária do sítio


Inácio Neutzling Inácio Neutzling, César Sanson, Patrícia
(inacio@unisinos.br) Fachin, Cristina Guerini, Evlyn Zilch,
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to Humanitas Unisinos - IHU. Esta Vitor Necchi – MTB 7.466/RS Instituto Humanitas Unisinos - IHU
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EDIÇÃO 516
TEMAS EM DESTAQUE

Entrevistas completas em www.ihu.unisinos.br/maisnoticias/noticias


Confira algumas entrevistas publicadas no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU na última semana.

Frei Henri des Roziers, um dominicano movido


pela paixão e a exigência radical de justiça
“Acabar com a impunidade, matriz da reprodução da injustiça, era como
que a obsessão de Frei Henri e pode-se dizer que ele conseguiu fazer recuar
– por quanto tempo? – a impunidade no Pará.”
Jean Marie Xavier Plassat é frade dominicano e coordenador da Campanha contra o Trabalho
Escravo da Comissão Pastoral da Terra - CPT.

As Conferências do Clima têm sido


frustrantes desde Copenhague, em 2009
“A COP funciona como uma espécie de quebra-cabeças: a cada nova dis-
cussão que acontece na COP, se abre um novo espaço de debate, e aquilo
vai virando um monstro com ‘trezentos’ espaços de debates paralelos.”
Iara Pietricovsky de Oliveira é antropóloga e mestra em Ciência Política pela Universidade de
Brasília - UnB.

4 Vicente Cañas, jesuíta, trinta anos depois do


assassinato, acontece um novo julgamento
“O legado do Irmão Vicente é o resgate da luta dos povos originários
quando a legislação brasileira está flexibilizando o artigo 231 da Cons-
tituição Federal de 1988 e colocando em grande fragilidade os indígenas
pelos quais o Irmão Vicente Cañas deu a vida.”
Aloir Pacini é graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG e em
Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia - Faje.

Em 15 anos, Cerrado perde 11% de cobertura


vegetal nativa por causa do desmatamento
“Um prejuízo gigantesco, quase que inestimável para a sociedade brasi-
leira e global, porque estamos perdendo uma quantidade inestimável de
patrimônio genético, de capacidade de recarga de aquíferos e de formação
de chuvas, que alimenta, abastece e permite a agricultura no bioma.”
Tiago Reis é graduado em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro - PUC-RJ e mestre em Política Ambiental pela University College Dublin, na Irlanda.

A política do comum e do protótipo. Duas


alternativas ao mal-estar contemporâneo
“Corporatização e financeirização do Estado”, que é um “vetor de subor-
dinação da política e erosão da dimensão pública e comum das instituições
democráticas aos imperativos das finanças internacionais e ao controle
das grandes corporações.”
Henrique Z. Parra é graduado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo - USP e doutor
em Educação pela Universidade de Campinas - Unicamp.

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REVISTA IHU ON-LINE

Textos na íntegra em www.ihu.unisinos.br/maisnoticias/noticias


Confira algumas notícias públicas recentemente no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU

Morre Frei Henri, ‘’Precisamos de um Vicente Cañas. Manter


diante de uma árvore Silicon Valley da Igreja. um processo vivo por
Deveríamos ser os Steve trinta anos é uma vitória
Jobs da fé’’ no país da impunidade

“Recebi hoje, no aeroporto “Há um fronte que gostaria “O fato de que mantemos o
de Joanesburgo, na África de me ver à frente de um mo- processo vivo por trinta anos,
do Sul, a triste notícia da vimento contra o papa, mas e o réu respondendo, já é uma
morte de Frei Henri des Ro- eu nunca farei isso.” São as vitória num país onde a impu-
ziers, frade dominicano que palavras do cardeal e teólo- nidade em relação aos crimes
trabalhou mais de 40 anos go alemão Gerhard Ludwig envolvendo indígenas e indige-
no combate ao trabalho es- Müller, prefeito emérito da nistas é a regra”. O depoimento
cravo, na luta pela reforma Congregação para a Doutri- é da advogada criminalista e
agrária e pelos direitos hu- na da Fé. Porém, as autori- religiosa da Congregação das
manos no Brasil”, afirma dades da Igreja – acrescenta Irmãs da Santa Cruz, Michael
José Graziano da Silva. – devem ouvir, caso contrá- Nolan, que há 30 anos acom-
O depoimento é de Jelson Oliveira, rio, podem aumentar o risco panha a investigação do assas-
professor de Filosofia na Pontifícia de um cisma. sinato do Irmão Vicente Cañas.
Universidade do Paraná – PUCPR,
A reportagem é de Massimo Franco, A entrevista especial com Ricardo Pael
publicado em Notícias do Dia do IHU,
jornalista do Corriere della Sera, Ardenghi, procurador da República em
em 27-11-2017, disponível em http://
publicada em Notícias do Dia do IHU, Mato Grosso e integra a Força-Tarefa Ava
bit.ly/2zEUKbA.
em 27-11-2017, disponível em http:// Guarani, foi publicada em Notícias do Dia
bit.ly/2ixYCb5; do IHU, em 29-11-2017, disponível em
5
http://bit.ly/2AoNtOq.

STF proíbe amianto Metade dos Em 4 anos, secas e


em todo o Brasil trabalhadores brasileiros inundações afetam 55,7
tem renda menor que o milhões de brasileiros
salário mínimo

Por 7 votos a 2, o STF, Supre- Uma pesquisa divulgada Estiagens, secas, enxurra-
mo Tribunal Federal, proibiu nesta quarta-feira (29) pelo das, inundações. Os fenô-
a produção, uso e comercia- Instituto Brasileiro de Geo- menos naturais que sempre
lização do amianto branco grafia e Estatística (IBGE) marcaram diferentes regi-
em todo o país. Os ministros revela que 50% dos traba- ões do País, que vive situa-
Alexandre de Moraes e Marco lhadores brasileiros rece- ção de estresse hídrico, nun-
Aurélio Mello foram os únicos bem por mês, em média, 15% ca expuseram cenários tão
que se posicionaram a favor menos que o salário mínimo. extremos como os ocorridos
da permissão do produto. A Além disso, o rendimento nos últimos anos. Entre 2013
decisão desta quarta-feira daqueles que ganham mais e o ano passado, os desas-
(29) derruba o artigo da Lei é 360 vezes maior do que o tres naturais afetaram 55,7
Federal 9.055, que permitia dos trabalhadores que têm milhões de pessoas - mais de
o uso da substância, conheci- renda mais baixa. 25% da população nacional.
da também por crisotila, na A reportagem é de Daniel Silveira No total, as perdas são R$ 9
construção civil. publicada em Notícias do Dia do IHU, bilhões por ano.
em 30-11-2017, disponível em http://
A reportagem publicada por Brasil de A reportagem é de André Borges
bit.ly/2ANonf9;
Fato, 29-11-2017, publicada em Notí- publicada em Notícias do Dia do IHU,
cias do IHU, em 30-11-2017, disponível em 1-12-2017, disponível em http://bit.
em http://bit.ly/2BBhOJK. ly/2nkYMEC.

EDIÇÃO 516
ENTREVISTA

“A locomotiva da memória está


sempre andando, e haja combustível”
Flavio Koutzii, cuja biografia acaba de ser lançada, garante que
cada palavra que puder dizer é para falar do absoluto mal e
barbárie que advêm das escolhas que a direita fez no país
Vitor Necchi

F
lavio Koutzii está em paz. Não No meio da entrevista, realizada na sala
porque a vida foi banal e tran- do apartamento onde vive há mais de 50
quila, mas porque ela valeu pela anos, no bairro Bom Fim, em Porto Ale-
tentativa. Um dos principais líderes po- gre, tradicional reduto judaico, reconhe-
líticos do Rio Grande do Sul, que com- ceu que estava indo longe nas respostas.
bateu as ditaduras militares no Brasil e “Não me arrependo, ela tem uma dimen-
na Argentina, aos 74 anos tem, nas suas são que com certeza nenhuma outra teve”,
palavras, o privilégio e a dor de ler o re- considera. “Há intimidades e sutilezas
gistro da própria trajetória. Trata-se de minhas que eu só poderia escrever sobre
Flavio Koutzii: Biografia de um mili- elas se tivesse bala na agulha para fazê-lo.
tante revolucionário – De 1943 a 1984 O que penso e sinto eu sei, mas transferir
6 isso para uma página não sei.” Ele acredi-
(Porto Alegre: Editora Libretos).
A obra, escrita pelo historiador Benito ta que “é difícil escrever sobre o próprio
Bisso Schmidt, foi lançada recentemen- sofrimento sem ser literariamente capaz
de dar a densidade infinita e íntima que
te, durante a Feira do Livro de Porto
os fatos tiveram”. Ao falar do mergulho
Alegre, em uma concorrida sessão de
nos escombros da memória, admite: “Este
autógrafos. “A biografia é um catalisa-
processo foi infernal. Sofri muito”.
dor de memórias. É duro ter memória,
bancar sua memória. É preciso ter co- Quando instigado a se dirigir para a
ragem”, resume Koutzii. esquerda, campo político que está em
crise, Koutzii é contundente: “A única
As 544 páginas transcendem ao perso-
coisa que quero falar, no sentido de ser
nagem, que funciona como um fio articu-
o mais importante, é sobre a ditadura”.
lador para se compor um panorama de Reconhece a importância de se fazer
um tempo importante e grave dos ciclos um balanço, mas isso empreenderá
ditatoriais do Cone Sul. Elas registram junto com a esquerda. “Cada palavra
fatos compreendidos desde o nascimento que eu puder dizer, se tiver energia,
de Koutzii até 1984, quando ele retornou é para falar, neste momento, do ab-
ao Brasil, depois do exílio na França. soluto mal e barbárie que advêm das
O político afirma que, hoje em dia, escolhas que a direita fez neste país”,
uma das coisas mais importantes é pen- resume.
sar. “Muitos de nós estamos tendo tanta Flavio Koutzii é graduado em So-
indignação com o que está acontecendo ciologia pela École des Hautes Études
exatamente porque preservamos deter- en Sciences Sociales, da Universida-
minados valores que sobreviveram em de Sorbonne. Ao longo de sua mili-
várias gerações”, explica, na entrevis- tância política, foi filiado ao PCB, fez
ta concedida presencialmente à IHU oposição à ditadura militar brasileira
On-Line. “Não tenho a energia e a di- de 1964 e integrou a Dissidência Le-
nâmica de quando eu era jovem, mas o ninista do Rio Grande do Sul. Na Ar-
interessante é não perder a noção das gentina, no início da década de 1970,
coisas, afogado pelo presente das coisas atuou no Partido Revolucionário de
terríveis que estão acontecendo”. los Trabajadores – Exercito Revolu-

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cionário del Pueblo (PRT-ERP). Quan- partido pelo qual foi eleito vereador em
do regressou ao Brasil, nos anos 1980, Porto Alegre e deputado estadual.
após o exílio na França, se filiou ao PT, Confira a entrevista.

IHU On-Line – O lançamento Diego Grando4. Foi uma surpresa. Fiz disse que estava lotado, em compa-
da sua biografia foi um grande um deboche com eles: finalmente fui ração com outras edições. E aqui na
acontecimento na Feira do Li- para a noite. Me surpreendeu. A Clô minha rua, onde moro há 50 anos
vro de Porto Alegre, no dia 14 Barcellos5, que é uma das editoras, [Koutzii mora na Rua João Telles,
de novembro. Auditório lotado em Porto Alegre, onde se localiza
de pessoas que foram ouvi-lo, produtora cultural nascida em Salvador. Graduada o bar Ocidente, que abriga o Sarau
depois longa fila de autógra- em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade ca- Elétrico]. Foi muito significativo.
tólica do Rio Grande do Sul – PUCRS, mestra em Co-
fos. Passados alguns dias, o municação Social pela Universidade do Vale do Rio Quando terminou, houve aplausos
dos Sinos – Unisinos e doutoranda em Letras pela
que mais o marcou? Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFR- perceptivelmente muito cálidos, nas
GS. Com poucos meses de idade, mudou-se com a duas ocasiões (Feira do Livro e Sa-
Flavio Koutzii – O que me mar- família para Porto Alegre. Estudou no Colégio Júlio
de Castilhos, onde fez um curso técnico de redatora rau Elétrico].
cou bastante a partir do lançamen- publicitária. Com 18 anos, começou a trabalhar com
to foi outra circunstância intensa, a publicidade em São Paulo, onde viveu sete anos, ini- Tinha muita gente que eu conheço
ciando também estudos superiores de Letras, que
partir de uma iniciativa da editora abandonou antes de concluir. No mesmo período na Feira e no Ocidente. Percebi que
fez algumas experiências com teatro. Nesta altura,
do livro [Libretos], o conhecido Sa- veio a conhecer a Rádio Bandeirantes (depois Rádio era algo entre o reencontro, a des-
rau Elétrico1 [Koutzii foi o convida- Ipanema FM) de Porto Alegre, que mantinha uma pedida e a inquietação. Inquietação
programação diferenciada. Apresentando uma pro-
do do evento realizado no dia 21 de posta de trabalho privilegiando a música brasileira, porque todo mundo sabe que andei
foi contratada em 1983. Na Ipanema, permaneceu
novembro]. Tinha a ver com o lança- por muitos anos, assumindo diversas funções e tendo sucessivos problemas de saú-
mento do livro, mas com a estrutu- ganhando renome como locutora, comentarista e de. Passei bastante tempo sem ver
programadora musical, apoiando músicos e bandas
ra deles, com a participação do Luís emergentes e prestigiando na programação uma as pessoas, então a minha intuição
Augusto Fischer2, a Katia Suman3 e o variedade de gêneros. Contribuiu de forma impor- e sensibilidade me dizem que tinha 7
tante para consolidar o prestígio da Rádio Ipanema
e, nas palavras de Luiz Artur Ferraretto, a locutora este conteúdo generoso e intenso.
era extremamente popular “graças à sua performan-
1 Sarau Elétrico: atividade cultural tradicional ce ao microfone nas noites dos 94,9 MHz, quando Pessoas que me acompanharam ti-
da cidade de Porto Alegre, que ocorre sempre abre espaço para os, na sua expressão frequente, veram a mesma percepção. Ainda
no Bar Ocidente, no bairro Bom Fim, às terças- ‘radiouvintes’, em conversas que variam do hilário
feiras, reunindo nomes do círculo cultural da ca- a uma profundidade ‘papo-cabeça’, não usual na haverá outro lançamento, no Clube
pital gaúcha para discutir diversos temas. (Nota programação jovem de consumo rápido de outras
da IHU On-Line) estações”. Depois lançou uma emissora própria na de Cultura [no dia 16 de dezembro,
2 Luís Augusto Fischer (1958): escritor, ensaísta e internet, a Rádio Elétrica, centrada em temas liga- às 19h, na rua Ramiro Barcelos,
professor brasileiro. Nascido em Novo Hamburgo, dos a sustentabilidade, consumo, comportamento,
Fischer vive em Porto Alegre desde o seu primeiro leis, política, ativismo e urbanismo; trabalhou na TV 1.853, com a presença do autor da
ano de vida. É formado em Letras pela Universida- COM, na FM Cultura, na Pop Rock FM e na Unisinos
de Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Cursou FM. Foi a idealizadora e até hoje é apresentadora do biografia, Benito Bisso Schmidt].
também História, mas não concluiu. Tem mestrado Sarau Elétrico, projeto de música e literatura realiza-
e doutorado (com tese sobre Nelson Rodrigues) do desde 1999 no Bar Ocidente, no bairro Bom Fim,
também pela UFRGS, onde leciona Literatura Brasi- em Porto Alegre. É membro fundador dos coletivos
leira desde 1985. Escreve regularmente para vários Ocupa Cais Mauá e Cais Mauá de Todos, que lutam IHU On-Line – Quais são as
jornais, como Zero Hora, Folha de S. Paulo e ABC para preservar o sítio histórico e paisagístico do Cais
Domingo (de Novo Hamburgo). Também colabora Mauá contra um projeto oficial de revitalização que suas referências políticas? O
com as revistas Bravo! e Superinteressante. Entre tem causado uma grande polêmica. Recebeu o Prê- que foi determinante em sua
1993 e 1996, foi coordenador do Livro e Literatura mio Joaquim Felizardo de 2007 na categoria Mídias
da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Ale- Culturais/Rádio. Em 2010, recebeu da Câmara de formação?
gre. De 1998 a 1999, foi presidente da Associação Vereadores de Porto Alegre o título de Cidadã de
Gaúcha de Escritores. Desde 1999, juntamente com Porto Alegre. (Nota da IHU On-Line)
o professor Cláudio Moreno e a radialista Kátia Su- 4 Diego Grando (1981): poeta e professor de
Flavio Koutzii – Isto ocupa uma
man, Fischer organiza o Sarau Elétrico, evento que literatura. Licenciado em Letras – Português/ boa parte do primeiro capítulo do
acontece todas as noites de terça-feira no Bar Oci- Francês e doutor em Letras pela Universidade
dente, no bairro Bom Fim, sempre com leituras de Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e mestre livro, Meu DNA político e ideológi-
textos em torno de um tema ou de um autor, e que em Teoria da Literatura – Escrita Criativa pela co, que tem um jogo de palavras em
se tornou uma referência para a cultura de Porto Pontifícia Universidade católica do Rio Grande
Alegre. Em 2007 recebeu da Secretaria Municipal de do Sul – PUCRS. Publicou Desencantado carros- um dos subtítulos, Começando pelo
Cultura o Prêmio Joaquim Felizardo, como Intelec- sel (Porto Alegre: Não Editora, 2008) e Sétima do
tual do Ano de Porto Alegre. Em 2007, recebeu da singular (Porto Alegre: Não Editora, 2012), além (Bom) Fim. Fala da minha criação,
Secretaria Municipal de Cultura o Prêmio Joaquim de poemas em jornais, revistas e antologias. da minha frequentação ao Clube de
Felizardo, como Intelectual do Ano de Porto Alegre. Faz parte do elenco do Sarau Elétrico, evento
Em 2013, foi eleito Patrono da 59ª Feira do Livro de de literatura que acontece todas as terças-feiras
Porto Alegre. Tem publicados vários livros de con- no Bar Ocidente, no bairro Bom Fim, em Porto
tos, crônicas, ensaios e teoria literária. Seus maiores Alegre. (Nota da IHU On-Line)
sucessos de vendas são Dicionário de Porto-Alegrês 5 Clô Barcellos: formada em Jornalismo pela de Literatura 2004, categoria Projeto Gráfico),
(Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1999) e Dicionário de Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande ambos para a RBS Publicações, e 50 anos do
Palavras e Expressões Estrangeiras (Porto Alegre: do Sul – PUCRS, em designer pela Universidade Margs (Museu de Artes do Rio Grande do Sul),
L&PM, 2004). Em 2005, publicou seu primeiro texto Luterana do Brasil – Ulbra e artes plásticas pela que recebeu o Prêmio Açorianos de Literatura,
de ficção mais longo, a novela Quatro Negros (Porto Universidade Federal do Rio Grande do Sul – categoria Projeto Gráfico, e o Prêmio Bornanci-
Alegre: L&PM). É autor também de Inteligência com UFRGS). Atua desde 1982 na área de design edi- ni/I Salão Apdesign, categoria design editorial,
dor – Nelson Rodrigues ensaísta (Porto Alegre: Arqui- torial ( jornais, revistas e livros). Dirige a Libretos ambos em 2006. Além disso, é responsável pelo
pélago Editorial, 2009), Machado e Borges – e outros Design Editorial desde 1998. Entre os trabalhos design dos livros História Ilustrada de Porto Ale-
ensaios sobre Machado de Assis (Porto Alegre: Arqui- que executou como designer, estão Os Farrapos gre e História Ilustrada do Rio Grande do Sul,
pélago Editorial, 2008) e Duas Águas (Porto Alegre: (premiado com Troféu Açorianos de Literatura Lendas Gaúchas, Protasio Alves e o seu tempo,
L&PM, 2008). (Nota da IHU On-Line) 2002, categoria Projeto Gráfico), Astrologia, o Carlos Reverbel, textos escolhidos, entre outros.
3 Katia Suman (1957): jornalista, comunicadora e cosmos e você (premiado com Troféu Açorianos (Nota da IHU On-Line)

EDIÇÃO 516
ENTREVISTA

Cultura, da esquerda judaica que interrogação seguiu em todo o Bra- datado. Eu dei um testemunho quase
existiu em uma certa época. Isso sil, nos dissidentes que começaram a imediato do sistema das prisões que
era muito vivo na minha juventu- se constituir no Partido Comunista, havia na Argentina, do qual eu saí, e
de e tinha muito a ver no ambiente uma espécie de nova vanguarda, e que elaborei quando estava no exílio
em que eu cresci, nesta mesma sala. esta pergunta perpassa todo um de- na França, uma espécie de memória
Uma casa cheia de livros, com mui- bate no Brasil e no mundo, quando acolhida na instituição universitária.
ta música clássica. Meu pai era um se discutiam os caminhos a seguir. Era sobre o período pós-abertura e
cara de esquerda, com viés comu- permitiu que as pessoas olhassem
Depois disso, fizemos uma op-
nista, e a minha formação tem mui- aquele universo carcerário. Não ti-
ção. Formamos um grupo que se
to a ver com isso. Minhas histórias nha papo subjetivo. Foi uma escolha
chamava POC [Partido Operário
para ninar eram duas que meu pai minha. Se eu fosse fazer uma des-
Comunista], com a chamada Dissi-
contava e jamais esqueci. Ele era crição detalhada do sofrimento, não
dência Leninista do Rio Grande do
um bom narrador, com boas infle- terminaria nunca, e não tinha talen-
Sul, que eram os caras do partidão
xões, e me contava sobre a batalha to para tanto.
na Filosofia. Na biografia, fomos
de Stalingrado6 e a luta do Gueto de
indo e entramos na circunstância Noto isso em muitas coisas que
Varsóvia7. Isso nutriu em mim uma
que dá um certo panorama que foram escritas depois, de pessoas
espécie de sentimento romântico,
transcende à minha pessoa. Ainda formidáveis que sobreviveram à di-
um sentimento épico sobre as lutas
bem! Isso dá à biografia uma deter- tadura militar brasileira e que, ao
e, sobretudo, aprendi a noção de minada estatura que não começa e narrarem o que viveram e sofreram,
opressão, de oprimido, em relação nem termina no personagem que é às vezes não conseguiram ter a esta-
aos nazistas, tanto na União Sovié- o motivo da biografia. tura da sua própria dor, porque não
tica quanto na Polônia. Havia este
tinham capacidade literária. Narrar
ambiente cultural. Era uma seiva A biografia o que viveram, sim, mas descrever o
mais cultural que ideológica.
que sentiram, não. Dostoiévski8 da-
Depois, aos 18 anos, militei na uni- Pessoas que a leram percebem que
ria um jeito com alguma facilidade,
versidade, na formação do Partido foi muito bem-feita, exaustiva, com
Graciliano Ramos9 também o fez.
muito critério por parte do Benito
8 Comunista dentro da UFRGS. Logo
[Bisso Schmidt], sobretudo. Biogra-
Como eu li toda a literatura dos anos
fui eleito presidente do centro acadê- 1960 sobre este assunto, até para me
fia é como atirar um puzzle com mil
mico da Filosofia, em uma época em preparar, tenho a pretensão de saber
peças. Se o historiador não souber
que os centros acadêmicos em geral, bem o que estou falando.
juntá-las em um período tão longo
e o da Filosofia acentuadamente,
de anos, as chances de ela sair con- Esta biografia, diferencialmen-
eram muito progressistas. Aí se ini-
sistente são menores. Um dos mé- te, acabo achando agora que ela
ciou minha atividade política como
ritos imensos do trabalho do Benito está conformada, que ela tem esta
uma das lideranças universitárias.
é este: teve tenacidade, método e estatura. Não é descartável rapi-
Foi algo relativamente rápido, já no
montou de uma forma muito impor- damente, porque ela é um quadro
primeiro ano, o que era incomum.
tante e, ao mesmo tempo, com uma
Fui eleito em 1963, e em 1964 teve
certa qualidade literária, na minha 8 Fiódor Mikhailovich Dostoiévski (1821-1881):
o golpe de Estado e fui destituído do um dos maiores escritores russos e tido como um
opinião e na de pessoas para as quais dos fundadores do existencialismo. De sua vasta
centro acadêmico. obra, destaca-se Crime e castigo, O Idiota, Os De-
eu perguntei expressamente isso. mônios e Os Irmãos Karamázov. Ao autor, a revista
Depois de eu ser cassado, começa- IHU On-Line edição 195, de 11-9-2006, dedicou a
Como é um livro que está cercado matéria de capa intitulada Dostoiévski. Pelos sub-
ram as lutas que foram emblemáti- terrâneos do ser humano, disponível em http://bit.
de certas características acadêmicas ly/ihuon195. Confira, também, as seguintes entre-
cas daquele tempo, o pós-golpe de
e se relaciona com a enunciação de vistas sobre o autor russo: Dostoiévski e Tolstoi:
64 e o início da reflexão até 66, que exacerbação e estranhamento, com Aurora Ber-
alguns conceitos feitos pelo próprio nardini, na edição 384, de 12-12-2011, disponível
perpassa toda a esquerda que tinha em https://goo.gl/xzfwFD; Polifonia atual: 130
historiador, era meio difícil para anos de Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski, na
sido derrotada e destroçada nos pri-
mim, genericamente, conseguir fa- edição 288, de 6-4-2009, disponível em https://
meiros momentos do golpe e se fazia goo.gl/VvqQSt; Dostoiévski chorou com Hegel,
zer uma coisa fluir. E ele conseguiu. entrevista com Lázló Földényi, edição nº 226, de
uma pergunta crucial para os anos 2-7-2007, disponível em https://goo.gl/Uap1Sb.
É um mérito substantivo: a obra flui (Nota da IHU On-Line)
subsequentes: como é que nos pas-
e, embora seja extensa, ela trans- 9 Graciliano Ramos (1892-1953): escritor alago-
saram por cima tão facilmente? Esta ano, nascido em Quebrângulo. Autor de numero-
cende ao personagem porque acaba sas obras, várias delas adaptadas para o cinema,
sendo um grande panorama em que como Vidas secas e Memórias do cárcere, em 1963
6 Batalha de Stalingrado: operação militar con- e 1983, respectivamente, por Nelson Pereira dos
duzida pelos alemães e aliados contra as forças o personagem é uma espécie de fio Santos. Vidas secas foi o objeto de estudo do Ci-
russas em 1942 pela posse da cidade de Stalin- clo de Estudos sobre o Brasil, de 17-6-2004, no
grado, durante a Segunda Guerra Mundial. (Nota articulador. Acho que este livro não IHU. Quem conduziu o debate foi a professora
da IHU On-Line) será como o que eu escrevi sobre a Célia Dóris Becker. Confira uma entrevista que a
7 Gueto de Varsóvia – foi o maior gueto judai- professora concedeu sobre o tema na 105ª edi-
co estabelecido pela Alemanha Nazista na Polô- prisão argentina, que se chama Pe- ção da IHU On-Line, de 14-6-2005, disponível em
nia durante o Holocausto, ao tempo da Segunda https://goo.gl/bHDxB0. Confira, também, a edi-
Guerra Mundial. Nos três anos da sua existência, daços de morte no coração [Porto ção 274, de 22-9-2008, intitulada Josué de Castro
fome, doenças e deportações para campos de ex- Alegre: L&PM, 1984], que tinha a ver e Graciliano Ramos. A desnaturalização da fome,
termínio reduziram a população estimada de 380 disponível em http://www.ihuonline.unisinos.br/
mil para 70 mil habitantes. (Nota da IHU On-Line) com o pós-ditadura e acabou ficando edicao/274. (Nota da IHU On-Line)

4 DE DEZEMBRO | 2017
REVISTA IHU ON-LINE

histórico significativo e porque há grafado. Isso é uma questão crucial, nunca aceitaram as coisas, como as
a circunstância singular e pertur- conforme o Benito me explicou. mães e as avós da Praça de Maio10,
badora de que o trabalho termina na Argentina. É um tema clássico
O biógrafo não fica com a versão do
quando acontece a destruição da das ditaduras: quando um cara de-
biografado, ele examina essa versão.
democracia e o avanço terrível da saparece e o Estado não diz que ele
Como é feito com muito critério, há
barbárie neste país. Começamos a está morto, fica uma potencial trans-
um crescente amalgamento dos de-
prepará-la na ascensão do período ferência para o pai e a mãe, que pre-
poimentos que ele vai colhendo, dos
lulista e terminamos na ascensão cisam dizer que ele está morto. Por
documentos que ele vai pesquisan-
do período neonazista que estamos isso as mães da Praça de Maio nunca
do, do fato de que ele foi à Argentina,
vivendo – usando a palavra com al- afrouxaram, porque elas têm uma
guma mesura, porque não sei como onde conheceu companheiros meus
compreensão profunda disso. São
insultar esta gente que não seja com de prisão e até um universo, como
temas que quem viveu na Argentina
uma palavra mais forte. Algumas ele mesmo diz, de um país que não
entende muito bem.
pessoas que já leram fazem esta as- conhecia, no sentido mais profundo.
Benito evoca, quase no início do li-
sociação diretamente. Isso pode ser A mãe
interessante para esta nova geração vro, o primeiro encontro dele com
que está sofrendo neste momento. um grande amigo meu, que esteve Minha mãe fez a sua parte e, quan-
Não é uma insensatez estabelecer preso comigo, e explica de maneira do eu volto em liberdade, não fui o
esta relação. muito tocante e comovente como foi filho que deveria ser. Depois do meu
esta primeira conversa. Uma reve- amadurecimento, não dei um retorno
lação, porque meu amigo tem uma suficiente à minha mãe, em seus anos
“Durmo pou- memória infernal. mais difíceis. Este é um exemplo níti-
do, é um tema central da minha vida, e
co, então o Uma certa policromia é elemento
decisivo em um trabalho desta am- ele vem, emerge, não tem vez que não

processo de bição. Os matizes de uma vida, que


nunca são apenas a versão que o
venha. Cria-se, na velhice, um meca-
nismo incontido de associações. Tenho

reconstrução biografado tem de si mesmo, vão ga-


nhando nuances, pinceladas, tons e
até hoje, de qualquer natureza. Desde
ver um filme ou ler um parágrafo, que 9
da memória é semitons do conjunto dos documen-
tos, do período histórico no qual ele
engatam e desencadeiam um processo
emotivo. É como se fosse uma tesou-
como um tritu- também vai se alimentando. ra, que aperta pelos dois lados. Ou eu
fracassei em determinado assunto, não
rador, pela im- Durmo pouco, então o processo de
reconstrução da memória é como
fui o filho que deveria ter sido, e isso vai
virando uma máquina de moer carne.
possibilidade um triturador, pela impossibilidade
de contê-lo. Não fico vendo filmes da
Algo essencial, que comento breve-

de contê-lo” Disney todo tempo, se não me dis-


trairia. Leio muito, vejo muita coisa,
mente no posfácio do livro, e é pró-
prio do envelhecimento, é a noção do
irremediável. Não tem volta. A pessoa
gosto muito de cinema, mas o troço
IHU On-Line – Para compor a pode fazer de conta que não está en-
vem. A dinâmica da reconstrução
biografia, o senhor precisou re- tendendo, para poder lidar com o pró-
que a biografia suscita, e que o bió-
visitar sua trajetória. Como foi prio envelhecimento, com a proximi-
grafo suscita para o biografado, tem
este processo? dade do tema da finitude, mas não há
ao mesmo tempo o envelhecimento,
como este tema não vir. A locomotiva
Flavio Koutzii – Este processo e isso é fortíssimo. Os dois temas,
da memória está sempre andando, e
foi infernal. Sofri muito. As poucas biografia e envelhecimento, são da
haja combustível, haja carvão.
coisas que tenho falado em função mesma natureza, por isso uso a pala-
do lançamento do livro são do pon- vra triturante. Não tem como conter
to de vista do biografado. Destaco a as duas, elas vêm e emergem para IHU On-Line – Após fazer um
obviedade necessária de que o bi- a superfície. Por exemplo: a relação balanço de parte expressiva da
ógrafo é um e o biografado, outro. com minha mãe. Durante os anos em
Não é o biografado que faz a biogra- que estive preso, ela foi à Patagônia, 10 Mães da Praça de Maio: mulheres que se re-
fia. No meu caso, se instalaram dois na Argentina, para me visitar. Ape- únem na Praça de Maio, em Buenos Aires, para
exigirem notícias de seus filhos desaparecidos du-
processos da mesma natureza. Um nas parente consanguíneo podia ir, rante a ditadura militar na Argentina (1976-1983).
Alguns pais e mães, considerados subversivos, ti-
é estar no centro de um processo e tinha contato durante dez minutos veram seus filhos retirados de sua guarda e colo-
que implica que o historiador con- através de um vidro blindado. Ela cados para a adoção durante a ditadura. Quando
acabou o regime de exceção, muitos filhos esta-
sulte arquivos, ouça muitas pessoas fazia uma coisa que não era de sua vam sob guarda de famílias de militares. Ainda
hoje, todas as quintas-feiras, as mães realizam
– várias indicadas por mim –, o que cultura, nem de sua natureza, por- manifestações na Praça de Maio, em frente à Casa
é uma certa garantia de que a bio- que quem se meteu nesta história fui Rosada, buscando manter o desaparecimento de
seus filhos vivo na memória de todos os argenti-
grafia não é apenas a versão do bio- eu. São mulheres que notavelmente nos. (Nota da IHU On-Line)

EDIÇÃO 516
ENTREVISTA

sua vida e de sua trajetória po- Che Guevara dizendo que o mercado gostou ou
lítica, há arrependimentos? não gostou.
No final do livro, faço uma home-
Flavio Koutzii – Não. Esta res- nagem comovida ao Che11, que para Como sou a favor de uma socieda-
posta parece categórica demais, mim é uma referência. Não porque de humana, e não a favor de uma so-
mas falo em geral. Fiz muitos erros, eu ache, como fiz em algum momen- ciedade dominada pela mercadoria
mas a questão que está posta para to, que a estratégia da luta armada e pela lógica capitalista, acho que a
mim, que sou o biografado, tem a deva ser retomada. Mas, para mim, condição humana está sofrendo um
ver com esta pergunta. É muito di- ataque absolutamente bárbaro em
Che é um personagem gigantesco
fícil para pessoas que fizeram certas todos os terrenos, por isso temos a
por elementos centrais, comporta-
trajetórias – e que eventualmente brutalidade, a regressão total através
mentos, valores humanistas extraor-
foram lideranças ou intelectuais de preconceitos, da selvageria nas
dinários. Não acho que isso seja uma
que produziram coisas importan- relações. Deste ponto de vista meu,
espécie de fascinação mística, culto à
tes – se relacionar com o passado. pelo qual vejo o que está acontecen-
personalidade. Che é um cara crucial
É um desafio específico da condição do e me incomodo, sustento esta no-
e emblemático do final do século 20,
humana. Não apenas quando o cara ção de atualidade. Não do ponto de
quando há uma atualização dele.
fica velhinho, mas quando tem que vista literal, mas de um símbolo. É
encarar no espelho da história o que Um grande parceiro meu, em um recado final. Eu incluo isso como
ele decidiu e, às vezes, há arrepen- depoimento, fez uma fala onde um elemento não de uma nova pla-
dimentos. Vejo muitas lideranças praticamente considera o Che um taforma, mas como uma despedida.
políticas com dificuldade de lidar homicida, o que me deixa puto, en-
com o próprio passado, porque é tão resolvi fazer esta homenagem
lidar com o próprio sentido da sua ao final, no posfácio, porque não IHU On-Line – E do que se or-
vida, e somente se dá conta disso podia ficar assim. Mas, sobretu- gulha?
quando se tem mais rodagem. do, porque não poderia ficar assim Flavio Koutzii – Tenho todas as
Tenho muitas culpas e digo isso agora, no presente, do ponto de características de um cara de forma-
em várias partes do livro. Os com- vista do simbolismo, quando se vê ção judaico-cristã, com a absoluta
10 panheiros que perdi, os compa- nas propagandas da televisão um onipresença da noção da culpa, e te-
nheiros que morreram lutando elogio sacralizador do empreende- nho uma visão muito crítica de mim,
em políticas que em determinado dor. Não há nada que deixe de falar crítica de mim com a minha consci-
momento tomei influência. No que de empreendedor. Isso é da cultura ência. Tenho cicatrizes, isso me faz
me concerne, onde há perdas im- americana, o loser e o que venceu, mal, e não me orgulho de cada uma
portantes e dolorosas, se acho que e toda merda que vem junto. To- delas. Gosto muito da vida que tive,
fui um dos responsáveis, não tenho das as notícias que lemos começa mas não porque ela me fez neces-
como me desresponsabilizar disso. sariamente feliz. Chego a dizer isso
Mas o fato de não me desrespon- 11 Che Guevara (Ernesto Guevara de la Serna, inspirado em uma letra de um tan-
1928-1967): um dos mais famosos revolucioná-
sabilizar – algo eticamente correto rios comunistas da história. Nasceu em Rosário, go12 notável – a diferença entre viver
na Argentina, e morreu em La Higuera, Bolívia. Foi e honrar a vida. Isto é a melhor res-
e pertinente – não quer dizer que guerrilheiro, político, jornalista, escritor e médico.
não tenha uma percepção crítica. Guevara foi um dos ideólogos e comandantes da posta que posso dar.
Revolução Cubana (1953-1959). Ele participou
Não falei isso para ninguém ainda, desde então, até 1965, da reorganização do Es-
tado cubano, desempenhando vários altos cargos As duas coisas andam juntas. A
mas acho que o que está aconte- da sua administração e de seu governo, princi- noção de ter lutado por causas que
palmente na área econômica, como presidente
cendo agora no Brasil dá mais ra- do Banco Nacional e como ministro da Indústria, defendo até hoje, por valores, e isso
zão para as escolhas feitas em um e também na área diplomática, encarregado de
é uma maneira de honrar a vida. Por
várias missões internacionais. Convencido da
longínquo passado, do que se fosse necessidade de estender a luta armada revolu- isso acho a frase do título do livro,
cionária a todo o Terceiro Mundo, Che Guevara
lido há 30 anos, como um pedaço impulsionou a instalação de grupos guerrilheiros “biografia de um militante revolu-
da história. em vários países da América Latina. Entre 1965 e cionário”, excessiva. O Benito defi-
1967, lutou no Congo e na Bolívia, onde foi cap-
Identifico pessoas que lidam com
turado e assassinado de maneira clandestina e niu o título com a palavra revolucio-
sumária pelo exército boliviano, em colaboração
dificuldade com este tema, a partir com a CIA, em 9 de outubro de 1967. Foi conside- nário. É uma palavra muito grande
rado pela revista norte-americana Time uma das para mim, continuo achando, mas
de uma certa época da vida, pois cem personalidades mais importantes do século
questionar isso é questionar a pró-
20. Para muitos dos seus partidários, representa a na hora H não discuti porque con-
rebeldia, a luta contra a injustiça social e o espírito
pria vida. Tenho a pretensão de incorruptível. Em contrapartida, muitos dos seus siderei suficiente. De fato, foi o que
opositores o consideram um criminoso, respon- tentei, eu e minha geração. Do ponto
ter uma certa sabedoria nisso, por sável por assassinatos em massa, e acusam-no de
conta de tudo o que vivi e li. Eu me má gestão como ministro da Indústria. Sua foto- de vista da tentativa – não do pon-
grafia feita por Alberto Korda é uma das imagens
sinto individualmente muito res- mais reproduzidas do mundo e um dos ícones do to de vista da qualificação do que fiz
movimento contracultural. Tanto a fotografia ori- como ser humano, o que fiz bem, o
ponsável, o que transpira dentro ginal como suas variantes, algumas apenas com
do livro. Não tenho respostas muito o contorno do seu rosto, têm sido intensamente que fiz mal, o que não tive as cora-
reproduzidas, para uso simbólico, artístico ou pu-
simplificadas, pois seriam reduto- blicitário. Che Guevara foi tema da edição 239 da
IHU On-Line, de 8-10-2007, disponível em http:// 12 Honrar la vida, música e letra de Eladia Bláz-
ras demais. migre.me/2pebG. (Nota da IHU On-Line) quez. (Nota da IHU On-Line)

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REVISTA IHU ON-LINE

gens necessárias – se sustenta. Na de que gosto muito até hoje, Olívio14, caras que sempre honraram os seus
linguagem da esquerda, de seus sím- Tarso15, Raul16, Rossetto17, são uns valores. Não tem notas muito disso-
bolos e de seus códigos, dizer que nantes aqui no Rio Grande do Sul.
alguém é revolucionário é a maior 14 Olívio Dutra (1941): sindicalista e político nas- Não pode ser por causa do vento Mi-
coisa que talvez se possa dizer de um cido em Bossoroca (RS). Foi prefeito de Porto Ale- nuano. Deve ter uma educação de-
gre, governador do Rio Grande do Sul e ministro
lutador social, de um cara que cons- das Cidades. Formado em Letras, Olívio foi fun- terminada, que foi um pouco o DNA
cionário concursado do Banrisul, a partir de 1961.
truiu ideias e teorias. Nesta condição, começou a militar no Sindicato do PT gaúcho. Não somos nenhum
dos Bancários de Porto Alegre e chegou à presi- CTG [centro de tradições gaúchas],
Eu estou em paz, não no sentido de dência da entidade em 1975. Comandou a greve
geral do funcionalismo público de setembro de mas, do ponto de vista de uma certa
que tudo é banal e tranquilo, mas de 1979, motivo pelo qual foi preso durante a dita-
dura militar e perdeu seu mandato sindical. Foi
educação de valores, isso está abso-
que valeu pela tentativa.
presidente do PT gaúcho de 1980 a 1986. (Nota lutamente perceptível em suas figu-
da IHU On-Line)
15 Tarso Genro (1947): advogado e político nas- ras mais conhecidas. Pessoas como
cido em São Borja (RS). Filiado ao Partido dos Fontana18, e vários outros. Se fizes-
IHU On-Line – Passar por Trabalhadores (PT). Foi duas vezes prefeito de
episódios brutais no ciclo de Porto Alegre, ministro da Educação, das Relações sem o que não devia, já se saberia,
Institucionais e da Justiça durante o governo de
ditaduras do Cone Sul teve que Luiz Inácio Lula da Silva. Em 3 de outubro de 2010, pois estamos sempre na pontaria.
elegeu-se governador do Rio Grande do Sul no
impacto na sua maneira de en- primeiro turno, com mais de 54% dos votos váli- Esses impactos difíceis confirma-
carar a vida? dos. (Nota da IHU On-Line)
16 Raul Pont (1944): historiador e político nasci- ram a minha visão de mundo. E o
do em Uruguaiana (RS). Fundador do Partido dos que seguramente fizeram comigo
Flavio Koutzii – Estas coisas me Trabalhadores. Foi líder estudantil, militante sin-
reforçaram. De um lado, as minhas dical, professor universitário, deputado estadual e com muita gente – são muitos e
e federal, além de 39ª prefeito de Porto Alegre,
opiniões sobre a necessidade de ten- entre 1997 e 2001. Como estudante de História milhares aqui e na América Latina
na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, – é uma humanização mais densa
tar fazer um mundo melhor – agora nos anos 1960, iniciou-se na política como mi-
estamos na época de fazer um mun- litante estudantil. Elegeu-se presidente do Dire- e contraditória. Hoje dia, uma das
tório Central dos Estudantes (DCE) em 1968. Foi
do pior. Aquelas noções que se ob- perseguido durante a ditadura militar devido ao coisas mais importantes é pensar,
seu envolvimento com grupos de esquerda e mu- pensar. O pensamento e os matizes
servaram muito quando a hegemo- dou-se para São Paulo. Retornou a Porto Alegre
nia do neoliberalismo começou a se em 1973 e participou do Instituto de Estudos Po- do pensamento e das escolhas de
líticos, Econômicos e Sociais (Iepes), organização
consolidar, fim da ideia de solidarie- ligada ao MDB. Foi professor da Universidade do cada ser humano estão totalmente
Vale do Rio dos Sinos – Unisinos de 1977 a 1991. ameaçados. Muitos de nós estamos
dade, fim da ideia de compartilhar, No final da década de 1970, participou da funda- 11
uma dinâmica total de o homem é o ção do jornal Em Tempo. No início dos anos 1980, tendo tanta indignação com o que
envolveu-se com as mobilizações sindicais que
lobo do homem13, prepare-se para a culminariam com o surgimento do PT. Foi secretá-
rio geral e presidente do PT do Rio Grande do Sul,
competição do mercado senão está membro da executiva nacional e tesoureiro. Em acabou perdendo o cargo para Pedro Simon. Em
fora. Este tipo de coisas que foram 1982, foi candidato do partido ao Senado, e em 17 de março de 2014, assumiu novamente como
1985, candidato à prefeitura de Porto Alegre. Não ministro do Desenvolvimento Agrário, agora no
se hegemonizando cada vez mais no se elegeu nestas ocasiões, quando o PT ainda era governo de Dilma Rousseff. Deixou o cargo em
pequeno e tentava se firmar como força política. 8 de setembro do mesmo ano, para fazer parte
pensamento ocidental. Desse ponto Em 1986, entretanto, foi o candidato mais vota- da coordenação da campanha para a reeleição da
de vista, da minha experiência, a no- do do partido no Rio Grande do Sul e elegeu-se presidente. Em 29 de dezembro de 2014, foi con-
deputado estadual constituinte, sendo o líder da firmado como o novo ministro da Secretaria-Ge-
ção de justiça e de direito das pesso- bancada nos dois anos seguintes. Em 1990 ele- ral da Presidência do segundo mandato de Dilma
geu-se deputado federal. Em 1992, Tarso Genro Rousseff. Em 2 de outubro foi transferido para o
as, noção de respeito – que não é de elegeu-se prefeito da capital gaúcha, tendo Raul Ministério do Trabalho e Previdência Social. (Nota
compaixão –, de humanismo, isso se Pont como vice. Em 1996, Pont conquistou a pre- da IHU On-Line)
feitura. Na sua gestão, o PT deu início ao seu mais 18 Henrique Fontana (1960): médico, adminis-
reforçou. grandioso projeto na capital gaúcha, a construção trador e político nascido em Porto Alegre, filiado
da 3ª Perimetral, via expressa que liga a zona sul ao Partido dos Trabalhadores (PT). Formado em
De outro lado, se reforçou a percep- à zona norte sem passar pelo centro da cidade. Administração de Empresas e Medicina pela Uni-
Nas eleições de 2002, Pont foi eleito deputado versidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS,
ção, na própria carne, dos movimen- estadual e retornou para a Assembleia Legislati- foi eleito vereador da capital gaúcha em 1992. Em
va. Reelegeu-se em 2006 e 2010 para deputado. 1996, foi reeleito vereador e se tornou secretário
tos repressivos, da dimensão brutal Não concorreu à reeleição em 2014. Foi candidato municipal da Saúde, na gestão de Raul Pont. Can-
da injustiça que pode ser feita inclu- novamente à prefeitura de Porto Alegre em 2016. didato a deputado federal pela primeira vez em
(Nota da IHU On-Line) 1998, teve votação expressiva e ingressou na ban-
sive pelo fato de se pensar diferente. 17 Miguel Rossetto (1960): político e sindicalista cada do PT na Câmara Federal. A partir daí, desta-
brasileiro nascido em São Leopoldo. Graduado em cou-se no Congresso Nacional pela sua oposição
Por isso eu mantive em parte meu Ciências Sociais pela Universidade do Vale do Rio ao governo de Fernando Henrique Cardoso. Com
ideário, mesmo quando fui deputado dos Sinos – Unisinos. Iniciou-se na política no final Olívio Dutra à frente do governo gaúcho, Fonta-
dos anos 1970, no Sindicato dos Metalúrgicos de na tornou-se defensor de projetos de interesse
durante 16 anos, em um espaço que São Leopoldo, concorrendo como primeiro candi- do Rio Grande em Brasília. Em 2002, foi reeleito
não é para a palavra revolucionário dato a presidente numa chapa de oposição. Parti- deputado federal. Com a vitória de Lula, passou a
cipou do movimento de fundação do Partido dos mostrar habilidade já na vice-liderança da banca-
– se chama esfera institucional, o Trabalhadores e fez parte da primeira executiva da do PT e, posteriormente, na liderança do par-
estadual do partido. Em 1982, foi candidato a de- tido, durante a crise de 2005, função que ocupou
parlamento. putado estadual, mas somente em 1996 conquis- até o início de 2007. O Departamento Intersindical
tou um cargo eletivo, o de deputado federal. Foi de Assessoria Parlamentar (Diap) colocou Fontana
Disso que se trata, pessoas que vi- ainda presidente do Sindicato dos Trabalhadores entre os parlamentares mais destacados do Con-
nas Indústrias do Polo Petroquímico de Triunfo, de gresso. Em 2008 e 2009, foi eleito pelos parlamen-
nham da minha cultura política, e 1986 a 1992. Integrou ainda a executiva estadual tares como o segundo deputado mais destacado
da Central Única dos Trabalhadores do Rio Gran- do Congresso Nacional. Pela sua atuação, recebeu
tantos antes, pessoas que admiro, de do Sul e da CUT Nacional. Em 1998, foi eleito também prêmios do site Congresso em Foco. Na
vice-governador, na chapa encabeçada por Olívio reeleição de Lula em 2006, Fontana ampliou sua
Dutra. Em 1º de janeiro de 2003, após ser derro- votação. Foi eleito para o terceiro mandato fede-
13 Trata-se de uma ideia de Thomas Hobbes. So- tado na busca pela reeleição no pleito de 2002, ral consecutivo. Em 2007, foi vice-líder do Gover-
bre o assunto, ver a entrevista com Maria Isabel desta vez com Tarso Genro encabeçando a chapa, no Lula e líder de 2008 a 2010. Em 2010, foi eleito
Limongi intitulada O conflito é o motor da vida foi nomeado pelo presidente Luiz Inácio Lula da pela quarta vez consecutiva para o cargo na Câ-
política, publicada na edição 276 da IHU On-Li- Silva para o cargo de ministro do Desenvolvimen- mara, com mais de 131 mil votos. Em 2014, voltou
ne, disponível em https://goo.gl/ZP96aT. (Nota da to Agrário. Em 2006, tentou uma vaga no Senado, a ser líder do Governo na Câmara, desta vez pelo
IHU On-Line) mas apesar de ter superado todas as expectativas, Governo Dilma Rousseff. (Nota da IHU On-Line)

EDIÇÃO 516
ENTREVISTA

está acontecendo exatamente por- xo da biografia efetivamente escrita. resolva escrever uma carta de adeus.
que preservamos determinados va- Existe o livro, logo existe a dimensão
O pudor do historiador, que não
lores que sobreviveram em várias múltipla, seus valores e não valores.
violenta seus critérios profissionais
gerações. Isso dá uma certa atuali-
Estou indo muito longe nesta en- e éticos, é muito importante na ava-
dade à biografia, neste sentido. São
trevista. Não me arrependo, ela liação desta biografia. Há uma deli-
valores que defendemos. Não tenho
tem uma dimensão que com certeza cadeza com que o biógrafo transita
a energia e a dinâmica de quando eu
nenhuma outra teve. Agora, é di- por um universo complicado e cheio
era jovem, mas o interessante é não
ferente. Há intimidades e sutilezas de nuances, com que trata a vida do
perder a noção das coisas, afogado
minhas que eu só poderia escrever biografado. Há coisas que eu tomei
pelo presente das coisas terríveis
sobre elas se tivesse bala na agulha a iniciativa de falar, como sobre a
que estão acontecendo. Isso é uma
prova de que, a longo prazo, soube- para fazê-lo. O que penso e sinto eu luta política, em alguns momentos
mos manter determinados valores e sei, mas transferir isso para uma pá- a luta armada, coisas que fiz e não
de que eles não nos soterraram. gina não sei. E tem uma parte disso fiz. Vivemos um momento histórico
que é explícita e é um dos aprendiza- em que se deve evitar uma coisa exi-
dos da biografia: eu faço uma certa bicionista ou heroicizante, o que eu
sempre queria que não acontecesse,
“Che [Guevara]
escolha dos meus labirintos. Eu não
deformo as coisas para ajeitar a bio- e não aconteceu.

é um cara grafia como gostaria.


Se isso é um baita de um self, devo IHU On-Line – Qual a sensa-
crucial e me proteger de algumas coisas ção de ler a própria biografia?
porque o mundo é cruel. Se eu fos-
emblemático se deputado agora, pegariam esta Flavio Koutzii – Enquanto a bio-
grafia está sendo construída, as dores
do final do
biografia e espremeriam cada frase
vêm, não dá para segurar a memória.
para me enfiar na cara, tentar me
Há uma enorme singularidade, pois

12
século 20, destruir, tentar me diminuir. Neste
tempo de hoje, há uma convivên-
não é todo mundo que nesta etapa
está vivo ainda e pode ver e ler uma
quando há uma cia tensa e complexa entre a obra
e o presente. O que fizeram com a
biografia sobre si mesmo. Existo ain-
da, e minha história me provoca di-
atualização Judith Butler19... Não tem limite
nenhum. É uma intelectual interes-
versas reações. A percepção de si que

dele” sante. Temos que estar atentos. Há


um matador em cada esquina – para
se tem é privilegiada. A biografia é
um catalisador de memórias. É duro
ter memória, bancar sua memória.
dizer de uma forma dramática. Não
É preciso ter coragem. Uma biogra-
estou fora deste universo. Tanto o
IHU On-Line – Mario Quinta- fia não é um flashback que se vê em
Benito quanto eu, lá pelas tantas,
na, em um poema, fala “da vez um filme, quando o cara cai no chão
percebemos esta demencialização
primeira em que me assassina- ferido e lembra da esposa, das crian-
do período que vivemos, política e
ram”. A lembrança desse verso ças, de forma fulminante, em breves
socialmente.
decorre da leitura do posfácio segundos. A biografia é uma filma-
da sua biografia, onde o senhor Frente à intimidade que tua per- gem em câmera lenta com direito a
escreveu que tem “o acalanto gunta toma, ou eu dou uma enrolada replay. Posso voltar nela a qualquer
confortante de ter vivido mui- – o que não farei – ou digo o que es- momento. Não é uma sensação agu-
to mais do que minhas mortes tou dizendo. Isto está na biografia. O da. É um tema de longo prazo. Ler a
prenunciavam”. Quais foram livro – não como fetiche, mas como própria biografia é uma sensação es-
as suas mortes? E qual sua es- produto espiritual, de lenta constru- pecialíssima, privilegiada e dolorosa.
tratégia para se manter vivo? ção, como se fosse uma argila, pois Ao mesmo tempo, acontecem agora
não deixa de ser uma escultura – tem reações tão confortadoras e cálidas,
Flavio Koutzii – Há perguntas de reconhecimento, muitas pessoas
este tema que faz parte de escolhas
que prefiro não responder. São to- têm expressado. Há um clichê: posso
irreversivelmente subjetivas e pes-
talmente pertinentes, mas são mui-
soais e, ao mesmo tempo, políticas e perceber o conjunto da obra.
to densas para responder. É difícil
sociais. Tem coisas que ficaram mais
escrever sobre o próprio sofrimento A finitude está na ordem do dia – e
reservadas e ficarão, a menos que eu
sem ser literariamente capaz de dar isso não é pouca coisa dizer. Ao mes-
a densidade infinita e íntima que os 19 Judith Butler (1956): filósofa pós-estrutura-
mo tempo, o conjunto da percepção
fatos tiveram. Isso tem a ver com lista estadunidense, uma das principais teóricas de mim mesmo está com uma niti-
da questão contemporânea do feminismo, teoria
este momento, em que há uma bio- queer, filosofia política e ética. Ela é professora do dez ofuscante na biografia. Isso é so-
grafia, e sobre este tema não quero departamento de Retórica e Literatura Compa- frido. Leio passagens sobre as coisas
rada da Universidade da Califórnia, em Berkeley.
falar. Não sou uma espécie de ane- (Nota da IHU On-Line) mais íntimas, pois não são segredos,

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mas formas como olho a mim mes- Sua voz é ouvida e respeitada. eu ainda seria capaz de fazer. Des-
mo. Tem o exemplo da minha mãe: Aos 74 anos, o que diria a este ta minha formação, que ainda vem
não honrei este afeto, com ela, que campo político que está em dos anos mais difíceis, acredito que
foi lá na Patagônia... É ultradilace- crise? o cara tem de falar o que ele é capaz
rante, mas, ao mesmo tempo, é um de fazer.
Flavio Koutzii – A única coisa
pedaço de mim, não tem volta. Se
que quero falar, no sentido de ser o Quem tem que fazer o aggiorna-
agora eu me sinto muito mal por ter
mais importante, é sobre a ditadura. mento disso, e colocar as coisas na
dado apenas esta resposta, este re-
Claro, tem um balanço da esquerda sua devida proporção, sou eu. Eu
torno a ela, sou eu. Há algo interes- a ser feito, mas isso farei junto com
sante no livro: o Benito dedica o livro que escolho. Não com arrogância.
a esquerda, mas não para tapar o sol O passado foi tão duro que há um
à minha mãe. E não é por acaso, ele com a peneira. Cada palavra que eu
sabe todos os trânsitos que comen- respeito. Isso põe em mim um certo
puder dizer, se tiver energia, é para peso, uma transcendência, que con-
tei e seguramente tem a opinião dele falar, neste momento, do absoluto
sobre isto: “Para Clara, por Flavio”. sidero demasiada. Então eu devo es-
mal e barbárie que advêm das esco- tabelecer o limite. Tenho feito isso e
Eu sei por que ele fez, e acho de uma lhas que a direita fez neste país. É
delicadeza, uma sensibilidade muito tenho recusado alguns convites. Só
isso que quero dizer. estou disposto a dizer o que ajude
grande. É que, ao longo de tudo, fi-
cou claro para ele, e para mim, que É um privilégio poder me expli- a compreender o momento que vi-
há uma dívida. car. Tenho um certo papel, mas vemos. Espera-se de uma liderança,
acho que este crédito que se pres- a qualquer época, que ela lidere,
supõe na tua pergunta, hoje em incentive, dê a linha e, de preferên-
IHU On-Line – O senhor é dia, é tratado por mim com extre- cia, vá na frente. Eu não tenho mais
uma referência para as esquer- ma reserva e pudor, no sentido do essa pegada de mobilizar, então fico
das porto-alegrense e gaúcha. que nós estamos vivendo e do que mais reservado. ■

13

EDIÇÃO 516
ENTREVISTA

“Tratei de avaliar o significado histórico


e social da tortura, mais do que
descrevê-la de forma minuciosa”
O historiador Benito Schmidt é autor da biografia de Flavio Koutzii, importante
líder político que combateu as ditaduras do Brasil e da Argentina
Vitor Necchi

U
m livro recém-lançado, que ultra- O biografado reclamou muito desta opção
passa as 500 páginas, conta parte e protestava: “A minha vida continuou
da trajetória de um dos mais im- depois de 1984”. A decisão deveu-se à via-
portantes líderes políticos do Rio Grande bilização da pesquisa. “Eu me interessava
do Sul: Flavio Koutzii. A obra é fruto do sobretudo por sua militância na clandes-
trabalho do historiador Benito Schmidt, tinidade, por sua luta contra as ditaduras,
que consumiu sete anos neste trabalho. em especial no Brasil e na Argentina. E
Nas pesquisas que desenvolve em sua tra- também por seu processo de reconstru-
jetória acadêmica, Schmidt busca “avaliar ção vivido na França. Então interrompi
o papel da atuação individual na história, a narrativa em 1984, quando ele voltou
a tensão entre projetos individuais e deter- ao Brasil, ingressou no PT e desenvolveu
minações sociais, a margem de liberdade uma brilhante carreira como parlamentar
que todas as pessoas têm mesmo diante e secretário de Estado”, justifica.
14 das normas sociais mais opressivas”. O Ao afirmar que “a tortura é uma expe-
mesmo intento se manteve quando deci- riência limite, que toca as fronteiras do
diu pesquisar a trajetória de Koutzii. Neste dizível”, Schmidt considera impossível
caso específico, o objetivo era “investigar “representar com palavras toda a com-
o peso das ações deste indivíduo no con- plexidade de tal experiência”. Preferiu
texto das ditaduras de segurança nacional se ater ao próprio ofício, ao que acredi-
que assolaram a América Latina nas déca- ta saber fazer. “Como historiador, quis
das de 1960 e 1970”. entender o sentido da tortura, tanto
Em entrevista concedida por e-mail à como parte integrante e sistêmica das
IHU On-Line, o autor reconhece a di- ditaduras no Brasil e na Argentina [...],
ficuldade e a envergadura da empreita- quanto para aqueles que a vivenciaram.
da. “Foi longo, complexo, desafiador e Ou seja, tratei de avaliar o significado
fascinante”, resume. Houve fatores de- histórico e social da tortura, mais do
licados, pois, para o biografado, “expor que descrevê-la de forma minuciosa.”
as vísceras e reviver experiências tão Benito Bisso Schmidt é licencia-
dolorosas como as derrotas políticas, do, bacharel e mestre em História pela
a tortura e a prisão” revelou-se ser um Universidade Federal do Rio Grande
processo muito difícil. do Sul - UFRGS e doutor em História
O historiador optou por um recorte tem- Social do Trabalho pela Universidade
poral que começa no nascimento de Kout- Estadual de Campinas - Unicamp. Le-
zii e se encerra em 1984, quando ele retor- ciona e pesquisa na UFRGS.
nou ao Brasil depois do exílio na França. Confira a entrevista.

IHU On-Line – A biografia de Benito Schmidt – Há muitos nas últimas décadas do século 19 e
Flavio Koutzii teve origem em anos me interesso por biografias. No primeiras do 20. Depois fiz um estu-
uma pesquisa acadêmica que o mestrado e no doutorado, realizei do sobre a jornalista Gilda Marinho,
senhor desenvolveu. Qual era o biografias de militantes socialistas conhecida por sua irreverência e por
objetivo da investigação? que atuaram no Rio Grande do Sul desafiar publicamente algumas nor-

4 DE DEZEMBRO | 2017
REVISTA IHU ON-LINE

“Tive que lidar com muitas


narrativas sobre o passado,
produzidas em momentos
diversos, a fim de produzir uma
versão possível da vida de Flavio”

mas sociais impostas às mulheres. vo desses cárceres. Também gostava jornais, arquivos policiais, arquivos
Ainda estou devendo um livro sobre do seu jeito de fazer política: sem institucionais, acervos privados, en-
ela, mas, da pesquisa, resultaram al- demagogia, com base em reflexões tre outros materiais. Mas a substân-
guns artigos e um curta-metragem, complexas sobre a realidade. Naque- cia do livro vem das entrevistas, com
Gildíssima, dirigido por Alexandre le momento, me interessava, sobre- Flavio, especialmente, mas também
Derlam1. Em todas essas pesquisas, tudo, realizar, pela primeira vez, a com seus amigos, colegas de colé-
meu objetivo, como historiador, foi biografia de alguém vivo e enfrentar gio e universidade, companheiros
sempre avaliar o papel da atuação os desafios epistemológicos, meto- de militância, familiares e até com o
individual na história, a tensão entre dológicos e éticos colocados por essa psicanalista que o atendeu na Fran-
projetos individuais e determinações situação. ça, quando ele foi para lá, depois de
sociais, a margem de liberdade que quatro anos de prisão, para tentar se
todas as pessoas têm mesmo diante Ajudou o fato de que o meu irmão,
reconstruir psíquica e politicamente.
das normas sociais mais opressivas. Carlos Schmidt, que conhece o Fla-
Tive que lidar com muitas narrativas
vio há muitos anos, se propôs a fazer
sobre o passado, produzidas em mo-
15
Quando me voltei para a trajetória a intermediação entre nós, biógrafo
de Koutzii, a busca era a mesma: in- mentos diversos, a fim de produzir
e biografado. Afinal, não é fácil para
vestigar o peso das ações deste indi- uma versão possível da vida de Fla-
ninguém concordar em expor a sua
víduo no contexto das ditaduras de vio. Não “a” versão definitiva, pois
vida para um estranho.
segurança nacional que assolaram a não acredito em histórias definiti-
América Latina nas décadas de 1960 Na conjunção destes fatores, e pos- vas, mas aquela que pude construir
e 1970. Não para transformá-lo em sivelmente de muitos outros incons- a partir das fontes consultadas, de
herói, mas para pensar como as ações cientes para mim, nasceu a ideia de meus referenciais teóricos e metodo-
individuais podem interferir nos mo- biografar Flavio. lógicos, e da minha visão de mundo.
vimentos mais amplos da história.
Posso dizer que ao longo deste pro-
cesso contei sempre com a parceria
IHU On-Line – Como foi o
de Flavio. Ele nunca censurou nada
IHU On-Line – Por que a es- processo de construção da
do que eu escrevi. Certamente não
colha de Koutzii como persona- biografia?
concordou com algumas de minhas
gem deste trabalho?
Benito Schmidt – Foi longo, com- escolhas. Mas deu opiniões e fez ava-
Benito Schmidt – Não sei pre- plexo, desafiador e fascinante. Por ve- liações, além de intermediar conta-
cisar exatamente. Eu tinha (e agora zes, tive a sensação de que nunca iria tos e indicar possíveis fontes de pes-
tenho mais ainda) uma grande ad- terminar o trabalho. Depois de cada quisa. Algumas sugestões eu aceitei,
miração pelo Flavio. Conhecia seu conversa com o Flavio, surgiam no- outras não. Nesse sentido, assumo
livro Pedaços de morte no coração, vas ideias, pistas e informações. Para completamente a autoria do livro.
de 1984, que faz uma autópsia mui- ele foi muito difícil também: expor as
to sofisticada do sistema prisional vísceras e reviver experiências tão do-
argentino e das ações que os pri- lorosas como as derrotas políticas, a IHU On-Line – Por que a deci-
sioneiros políticos realizaram para tortura e a prisão não é nem um pouco são pelo recorte temporal des-
não sucumbir à aniquilação física e tranquilo. Ainda mais em um contex- de o nascimento de Koutzii até
subjetiva, que era o principal objeti- to, como o atual, em que os projetos 1984?
que animaram a sua geração estão sob
1 Alexandre Derlam: diretor de cena e roteiris- Benito Schmidt – Flavio recla-
ta. Graduado em Publicidade e Propaganda, com forte ataque das forças reacionárias.
especialização em Cinema, pela Universidade do mou muito deste recorte. “A minha
Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. Dirigiu e roteiri- Pesquisei, com o auxílio de inte- vida continuou depois de 1984”, ele
zou Papão de 54, Mais uma Canção, Gildíssima e
Rito Sumário. (Nota da IHU On-Line) ligentes e operosos bolsistas, em me dizia. Mas tive que fazer esta op-

EDIÇÃO 516
ENTREVISTA

ção até para viabilizar a pesquisa. Eu obra maravilhosa da qual eu reti- Benito Schmidt – Não falaria em
me interessava sobretudo por sua mi- rei a epígrafe, Homens em tempos fatos apurados, mas em narrativas
litância na clandestinidade, por sua sombrios, nos mostra como a vida ouvidas. Nós conhecemos, ou deve-
luta contra as ditaduras, em especial de certos homens e mulheres que vi- ríamos conhecer, os horrores perpe-
no Brasil e na Argentina. E também veram os horrores do século 20, em trados pelas ditaduras na América
por seu processo de reconstrução vi- especial o totalitarismo nazifascista, Latina. Assusta-me, me indigna e
vido na França. Então interrompi a podem ser inspiradoras nesse senti- me entristece profundamente esta
narrativa em 1984, quando ele voltou do. Espero que eu tenha conseguido reconstrução positiva que alguns
ao Brasil, ingressou no PT e desenvol- fazer o mesmo com a vida de Flavio. grupos sociais tentam fazer da dita-
veu uma brilhante carreira como par- dura brasileira. Isso se deve ou à ig-
lamentar e secretário de Estado. Até norância ou à má-fé.
seus opositores políticos reconhecem IHU On-Line – Em que a bio-
esse seu brilhantismo. Mas, para ana- Voltando ao ponto: ouvir as narra-
grafia de Koutzii dialoga com o
lisar este período posterior, eu teria tivas daqueles que foram vítimas da
tempo presente do Brasil?
que pesquisar em outras fontes, ouvir violência do regime ditatorial é uma
outras pessoas, estudar sobre outro Benito Schmidt – Todos os his- experiência marcante e desestabili-
contexto. O livro já está enorme (543 toriadores, consciente ou incons- zadora. A pergunta que sempre fica
páginas!!!!). Se eu não parasse, o pro- cientemente, estão profundamente é: “como foi possível?”. Mas também
jeto se tornaria inviável. inseridos em seus presentes. Eu fiz é estimulante perceber como mui-
a pesquisa ao longo de sete anos. tas destas pessoas conseguiram se
Fica então o convite para que ou- Quando comecei, o projeto petista reconstruir e se engajar em novos
tros pesquisadores se debrucem so- estava em seu apogeu. As últimas projetos políticos, pessoais e pro-
bre esta “parte 2” da vida do Flavio. linhas foram escritas sob a sombra fissionais. Sendo um pouco piegas,
Certamente será um trabalho muito deste governo golpista que tomou o são verdadeiras lições de vida. Neste
útil para entendermos a nossa con- poder no Brasil, de todos os retro- sentido, sou muito grato aos meus
temporaneidade. cessos que ele vem implementando entrevistados, a Flavio em especial,
e de uma onda reacionária que não por sua disponibilidade em dividir
16 se via desde a ditadura. Então, é comigo histórias tão tocantes.
IHU On-Line – O que motivou claro que esta situação impactou a
a escolha da epígrafe “Mesmo minha escrita.
no tempo mais sombrio temos
Creio que o diálogo do livro com o IHU On-Line – O senhor disse
o direito de esperar alguma ilu-
tempo presente se dá sobretudo no uma vez que, ao escrever a bio-
minação”, de Hannah Arendt?
sentido de mostrar, por um lado, os grafia, não pretendia detalhar
Benito Schmidt – A história, horrores de que são capazes as di- as torturas descritas por Kout-
como conhecimento, tem sempre taduras e as soluções autoritárias, zii durante as entrevistas, a fim
um sentido ético. Nossas pesquisas, e, por outro, as possibilidades de de não alimentar a curiosidade
mesmo sobre tempos distantes, fa- de “voyeur de tortura”. Como
resistência a tal situação. Podemos
lam do presente, de política, de rela- lidou com este tema? Qual a so-
e devemos criticar, sem dúvida, os
ções humanas. Não acredito na ideia lução adotada?
métodos e, por vezes, as visões equi-
de “história mestra da vida”, de que,
vocadas daqueles que pegaram em Benito Schmidt – A tortura é
necessariamente, aprendemos com
armas para lutar contra as ditaduras, uma experiência limite, que toca as
os erros e acertos do passado. Mas
mas não devemos, creio eu, abrir fronteiras do dizível. Não creio que
creio, espero mesmo, que ela possa
mão do legado ético deixado por eles seja possível representar com pa-
nos fornecer certas iluminações, nos
e elas, em termos de coragem e de lavras toda a complexidade de tal
alertar para a complexidade da vida,
disposição para lutar por uma socie- experiência. Alguns autores foram
nos ensinar sobre a profunda histo-
dade mais justa. longe nesta empreitada, como Pri-
ricidade de todas as coisas e, portan-
to, nos ajudar a pensar em projetos mo Levi3, no caso do Holocausto, e
de mudança. Hannah Arendt2, nesta
IHU On-Line – Passada a em- 3 Primo Levi (1919-1987): judeu italiano, um dos
poucos sobreviventes de Auschwitz, o campo de
2 Hannah Arendt (1906-1975): filósofa e sociólo- preitada da pesquisa e da escri- concentração onde milhões de prisioneiros, ju-
ga alemã, de origem judaica. Foi influenciada por ta, que fatos apurados foram os deus como ele, foram assassinados pelos nazistas.
Husserl, Heidegger e Karl Jaspers. Em consequ- Sobreviveu para regressar a Turim, sua cidade-
ência das perseguições nazistas, em 1941, partiu mais marcantes e por quê? natal, e escrever um dos mais extraordinários e
para os Estados Unidos, onde escreveu grande comoventes testemunhos dos campos de exter-
parte das suas obras. Lecionou nas principais mínio nazista. Em seu primeiro e mais impressio-
universidades deste país. Sua filosofia assenta em balho da filósofa. Sobre Arendt, confira ainda as nante livro, É isto um homem, escrito em 1947,
uma crítica à sociedade de massas e à sua ten- edições 168 da IHU On-Line, de 12-12- 2005, sob Levi relata o ano que passou em Auschwitz. Em
dência para atomizar os indivíduos. Preconiza um o título Hannah Arendt, Simone Weil e Edith Stein. 1963, Primo Levi publica seu segundo livro, A Tré-
regresso a uma concepção política separada da Três mulheres que marcaram o século XX, dispo- gua, em que narra os últimos dias em Auschwitz,
esfera econômica, tendo como modelo de inspi- nível em http://bit.ly/ihuon168, e 206, de 27-11- após os nazistas terem abandonado o campo, e
ração a antiga cidade grega. A edição 438 da IHU 2006, intitulada O mundo moderno é o mundo sem sua viagem de volta para casa, na Itália. Seu últi-
On-Line, A Banalidade do Mal, de 24-3-2014, dis- política. Hannah Arendt 1906-1975, disponível em mo livro, Os afogados e os sobreviventes, foi publi-
ponível em https://goo.gl/QqtQjz, abordou o tra- https://goo.gl/uNWy8u. (Nota da IHU On-Line) cado em 1986. (Nota da IHU On-Line)

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Bernardo Kucinski4, no que se refere à ditadura brasileira, que escreveu Isabelita), quanto para aqueles que a
aquele que para mim é um dos rela- vivenciaram. Ou seja, tratei de ava-
4 Bernardo Kucinski (1937): graduado em Física tos mais impactantes da experiência liar o significado histórico e social da
pela Universidade de São Paulo (1968). Militante
estudantil durante o regime militar, foi preso e da perda e da violência ditatorial: K. tortura, mais do que descrevê-la de
exilado na Inglaterra, após participar do mapea- Mas eu não tenho este talento, então
mento da tortura no Brasil, em duas reportagens forma minuciosa.
publicadas na revista Veja. Em Londres, entre 1971 preferi me ater ao meu ofício, ao que
e 1974, foi produtor e locutor da BBC, correspon-
dente de Opinião e depois da Gazeta Mercantil, acredito saber fazer.
dedicando-se ao aprofundamento de sua forma-
ção em Economia. De volta ao Brasil em 1974, Como historiador, quis entender IHU On-Line – Este livro foi
participou da fundação dos jornais alternativos escrito pelo historiador Beni-
Movimento e Em Tempo (do qual foi o primeiro o sentido da tortura, tanto como
editor, em 1977). A partir de então, trabalhou no
parte integrante e sistêmica das di- to. E para o cidadão, como foi
jornal Gazeta Mercantil e foi correspondente do
jornal The Guardian, da revista Euromoney e do taduras no Brasil e na Argentina (e, a experiência de acompanhar a
boletim Latin America Political Report, todos peri-
ódicos londrinos, e de Lagniappe Letter, newslet- no caso desse último país, mesmo reconstituição da biografia de
ter novaiorquina, além de produzir cadernos es- Koutzii?
peciais para a revista Exame. Também participou antes do golpe de 1976, pois Flavio
da revista Ciência Hoje, da Sociedade Brasileira e seus companheiros foram presos
para o Progresso da Ciência – SBPC. Entrou para Benito Schmidt – Uma experi-
os quadros da Escola de Comunicações e Artes e torturados ainda sob o governo de ência transformadora. Como disse
da Universidade de São Paulo – USP em 1986.
Em 1991, obteve grau de doutor em Ciências da antes, o historiador e o cidadão são
Comunicação pela USP. Ganhou o Prêmio Jabuti que a família pudesse aceitar que tinha sido exe-
de Literatura em 1997. No período de fevereiro cutada. K. é a história do pai do autor em busca indissociáveis. Para mim, só faz sen-
de 2003 a junho de 2006, foi assessor especial do paradeiro da filha. Dono de uma loja no Bom
da Secretaria de Comunicação Social – Secom da Retiro, judeu imigrante que na juventude fora pre- tido escrever história se essa tem
presidência da República. Aposentou-se como so por suas atividades políticas, ele depara com a algum sentido ético e político, capaz
professor titular da USP. Estreou na ficção com o muralha de silêncio em torno do desaparecimen-
livro K. – Relato de uma busca, lançado original- to dos presos políticos. Seu lançamento seguinte de nos fazer refletir com mais com-
mente em 2011, pela editora Expressão Popular. foi a novela Os visitantes (2016, Companhia das
Em 2013, ganhou nova edição pela CosacNaify. Letras), continuação de K. Cada capítulo narra a plexidade a respeito do presente. E o
Em 2016, a obra foi editada pela Companhia das visita de uma pessoa diferente que vai até o autor
Letras. O livro baseia-se na história da irmã do au- cobrar satisfações sobre o livro anterior. Ao fim, nosso presente, marcado por retro-
tor, que era professora de Química na USP e em descobre-se também o destino trágico da irmã. cessos tão impactantes, exige algum
1974 foi presa pelos militares, ao lado do marido. Em 2017, lançou o romance Pretérito imperfeito
Desapareceu sem deixar rastros – foram anos até (Companhia das Letras). (Nota da IHU On-Line) tipo de ação. ■

17

EDIÇÃO 516
REPORTAGEM

A virada de uma “igreja em saída”


Lara Ely

U
m papa com cheiro de povo. Assim Boas (PUC-PR), Dom Francisco de As-
se pode definir, de modo genérico, sis da Silva (Igreja Episcopal Anglicana
o estilo do pontificado de Francis- do Brasil - IEAB ), Romi Márcia Bencke
co, que em 2018 completa cinco anos à (Igreja Evangélica da Confissão Luterana
frente da Igreja Católica. Com o objetivo no Brasil - IECLB e Conselho Nacional de
de refletir e tentar compreender um pouco Igrejas Cristãs - Conic), Paulo Suess (Con-
mais os movimentos desse papa, o Insti- selho Indigenista Missionário - Cimi), Luís
tuto Humanitas Unisinos - IHU pro- Corrêa Lima, Cesar Kuzma, Jesus Hortal e
move o XVIII Simpósio Internacional Bárbara Pataro Bucker (PUC-Rio), Moisés
IHU – A Virada Profética de Francis- Sbardelotto, Hilário Henrique Dick e José
co – Possibilidades e Limites para Roque Junges (Unisinos), Ivanir Rampon
o futuro da Igreja no Mundo Con- (Itepa Faculdades) e Júlio Lancellotti (Ar-
temporâneo. (saiba mais em http://bit. quidiocese de São Paulo), Ivo Poletto (Fó-
ly/2iMrE6Z). O evento ocorrerá entre os rum Mudanças Climáticas e Justiça Social)
dias 21 e 24 de maio no Teatro Unisinos – e Jonas Jorge da Silva (Cepat).
18 Campus Porto Alegre e terá a participação Em recente artigo intitulado A virada
de teólogos e historiadores do Brasil e do profética de Francisco: um Deus que sur-
mundo que têm se dedicado a observar as preende, publicado no sítio do IHU1, o jor-
ações de Francisco. nalista e ex-senador italiano pelo Partido
Entre os principais nomes já confirma- Comunista Italiano Raniero La Valle res-
dos, estão os teólogos italianos Andrea salta a surpresa trazida pelo papa à Igreja.
Grillo (Pontifício Ateneu Sant’Anselmo) “O Deus que irrompe na Igreja de Fran-
e Vito Mancuso (Università di Padua), cisco é diferente. Em um mundo curvado
os argentinos Emilce Cuda (Pontificia e exposto às piores surpresas, ninguém
Universidad Católica Argentina) e Juan pensava que pudesse haver uma surpresa
Carlos Scannone, além dos americanos por parte de Deus”. Essa surpresa a que La
Mary Hunt (Women’s Alliance for Theo- Valle se refere baseia-se, em termos, nas
logy, Ethics and Ritual – WATER), Massi- perspectivas teológicas, muito mais volta-
mo Faggioli (Villanova University), Todd das à pastoralidade que tem mexido com
Salzmann (Creighton University) e Mi- as estruturas eclesiais do Vaticano.
chael G. Lawler. Ao lançar outros olhares sobre a tradi-
Os professores e pesquisadores que já ção, Francisco causou certo desconforto
confirmaram a participação são: Luis Cor- e despertou reações nas alas mais con-
rêa Lima (PUC – Rio), Leonardo Ulrich servadoras da Cúria. Ações como a sua
Steiner (Conferência Nacional de Bispos aproximação com os jornalistas por meio
do Brasil - CNBB), Rubens Nunes da Mota de entrevistas coletivas concedidas no
(Organização Religiosa Capuchinha - OR- avião, após cada viagem, intensificaram a
Cap), Carmen Oliveira (Fundação Oswal- imagem de pontífice amigo da imprensa.
do Cruz - Fiocruz), Márcio Pimentel e E com essas ações, reforçou sua imagem
Geraldo Luiz De Mori (Faculdade Jesuíta midiática com posições quase sempre sur-
de Filosofia e Teologia - Faje), Carmem preendentes. São inúmeras as ações que
Lussi (Centro Scalabriniano para Estu- revelam esse seu perfil mais aberto, pasto-
dos Migratórios - CSEM), Fernando Alte- ralmente mais próximo das pessoas, nes-
meyer Junior (PUC-SP), Leomar Antônio ses cinco anos. Entre elas, a forma como
Brustolin, Maurício Perondi e Patrícia
1 O texto completo está disponível em http://bit.ly/2jLJ-
Machado Vieira (PUC-RS), Alex Villas Zxs. (Nota da IHU On-Line)

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discute o papel da mulher na sociedade, o divorciados que voltam a casar. Em 2017,


diálogo que estabelece com os gays, o res- na Colômbia, o Papa ajudou a mediar os
peito aos fiéis divorciados e a mediação de acordos de paz entre o governo colombia-
conflitos, como no caso dos narcotrafican- no e as Forças Armadas Revolucionárias
tes na Colômbia. da Colômbia - Farc. O pedido de que os
Em 2014, defendeu a importância da colombianos renunciassem à vingan-
participação feminina. “Um mundo no ça em nome da paz veio após receber da
qual as mulheres são marginalizadas é organização criminosa, então convertida
um mundo estéril, porque as mulheres em partido político, um pedido de descul-
não só dão a vida”. Em 2015, falou sobre pas formal via redes sociais.
paternidade responsável ao dizer que os Estão abertas no site do evento as inscri-
“Católicos não precisam procriar ‘como ções para participação e para a apresen-
coelhos’. Em 2016 a publicação da exorta- tação de trabalhos. O envio de trabalhos
ção apostólica Amoris Laetitia propôs um pode ser feito até 31-3-2018 para o e-mail
repensar sobre a vida em família, ao pro- ihu-trabalhos@unisinos.br. A divulgação
por que a Igreja aceite transformações na dos trabalhos aceitos ocorre a partir de
realidade da sociedade contemporânea 16-4-2018. Os horários e locais das apre-
como novos arranjos familiares. O docu- sentações serão informados a partir de
mento convida os sacerdotes a tratarem 14-5-2018. Mais informações podem ser
com compaixão, por exemplo, católicos obtidas no site ihu.unisnos.br.■

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EDIÇÃO 516
TEMA DE CAPA

Base Nacional Comum


Curricular – BNCC
Documento determina currículo comum em todo o país
para Educação Infantil e Ensinos Fundamental e Médio
João Vitor Santos

O
projeto da Base Nacional Comum Feito isso, em 2010, durante a Confe-
Curricular – BNCC tem a função rência Nacional de Educação, a institui-
de regular a elaboração dos currí- ção da Base foi assumida como parte do
culos em todas as escolas públicas e priva- Plano Nacional de Educação que, entre
das dos níveis Fundamental e Médio, além outros pontos, projeta o desenvolvimen-
da Educação Infantil. A ideia é que elenque to de políticas educacionais para o país.
conteúdos que devem ser trabalhados em Nos dois anos seguintes, de 2010 a 2012,
todas as instituições de ensino. O Minis- houve a instituição de Novas Diretrizes
tério da Educação define esse documento Curriculares Nacionais, que atualizaram
como de caráter normativo e, no texto de todo o currículo da Educação Básica no
apresentação da proposta, pontua: “a Base Brasil4. Em 2014, a Lei 13.005 instituiu o
estabelece conhecimentos, competências Plano Nacional de Educação – PNE5, com
e habilidades que se espera que todos os vigência de 10 anos. Ou seja, formaliza e
20 estudantes desenvolvam ao longo da esco- institui 20 metas para melhorar a quali-
laridade básica”1. dade da Educação Básica no Brasil. Para
A criação da Base está definida na Lei de isso, determina uma série de ações a se-
Diretrizes e Bases da Educação, a LDB, rem desenvolvidas, entre elas, a criação
Lei Número 9.394/19962. Na realidade, a da Base Comum Curricular.
instituição da BNCC vem cumprir o que É somente no ano seguinte, em 2015, que
determina a LDB, que, assim que foi san- o Governo Federal dá início aos debates
cionada pela Presidência da República, para elaborar a Base propriamente dita. A
desencadeou todo um processo até que ideia é debater as propostas entre grupos
se chegasse à elaboração de uma propos- de especialistas, depois levar esse esboço
ta. Entre os anos de 1997 e 2000, houve a para debates com a população, através dos
discussão e a formatação dos Parâmetros conselhos municipais e estaduais de Edu-
Curriculares Nacionais – PCNs. São di- cação. O trâmite legal prevê, ainda, que o
retrizes elaboradas pelo Governo Federal Ministério da Educação redija o documen-
para orientar a educação. Ela, entre outros to e, antes de sancionado, encaminhe para
pontos, prevê a separação dos conteúdos avaliação do Conselho Nacional de Educa-
por disciplina. Toda essa normatização ção, que também pode propor mudanças.
é destinada à rede pública e privada de Somente depois disso a Base é regulamen-
ensino. Esse documento é importante tada pelo Governo.
porque são desses parâmetros que se vai
constituir a Base, como que aumentando o As versões
detalhamento dos conteúdos a serem tra-
balhados. Ao longo desses três anos, os pa- Em março de 2015, chega-se à primeira
râmetros foram apresentados e discutidos versão da Base. Entretanto, o processo se
entre educadores3. dá em meio a polêmicas. O então minis-
tro da Educação, Renato Janine Ribeiro,
diverge da forma como alguns pontos fo-
1 O Ministério da Educação criou uma página com infor-
mações sobre a Base. O endereço é basenacionalcomum.
mec.gov.br. (Nota da IHU On-Line) Médio, disponível em http://bit.ly/2iayd32. (Nota da IHU
2 Confira a LDB em http://bit.ly/2AdjPy1. (Nota da IHU On-Line)
On-Line) 4 O documento está disponível em http://bit.ly/2Bsszho.
3 Os parâmetros foram organizados em três módulos. De (Nota da IHU On-Line)
1ª a 4ª série, disponível em http://bit.ly/2AgVZio, de 5ª 5 Acesse o documento em http://bit.ly/2zKEWbE. (Nota da
a 8ª séries, disponível em http://bit.ly/2iZEJ9V, e Ensino IHU On-Line)

4 DE DEZEMBRO | 2017
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ram trabalhados pela comissão respon- ensino religioso como uma área específica.
sável pela preparação do documento6. No Ainda há alguns pontos entre a segunda e
mesmo ano, o governo da então presiden- a terceira versão da Base que têm causado
te Dilma Rousseff passa por uma refor- mais discussões. Entre eles, a exclusão do
ma ministerial, e Ribeiro deixa a pasta da ensino religioso não confessional e do con-
Educação. Em seu lugar, assume Aloizio ceito de gênero, alfabetização antecipada,
Mercadante, que inicia um processo de re- história organizada segundo a cronologia
visão dessa primeira proposta. dos fatos, língua inglesa obrigatória, uso
de tecnologias e a inclusão de “direitos de
A segunda versão é apresentada em maio
aprendizagem e desenvolvimento” para
de 2016 e tenta sanar as polêmicas da pri-
bebês e crianças com menos de seis anos.
meira versão. Entre as críticas à comissão
Agora em novembro, a proposta foi en-
de 116 especialistas de 37 universidades
caminhada para apreciação do Conselho
que trabalharam na versão 1, estava o fato
Nacional de Educação, que deverá emitir
de deixarem lacunas em áreas como His-
seu parecer para só então o Ministério da
tória e Literatura, que não traziam conte-
Educação homologar a Base. A proposta
údos programáticos. O texto não previa,
da Base em análise no Conselho pode ser
por exemplo, que fossem trabalhados
acessada em http://bit.ly/2AhXhJU.
conteúdos referentes às revoluções In-
dustrial e Francesa, bem como a culturas
Ensino Médio
de povos egípcios e de civilizações gregas.
Assim, a segunda versão segue para deba- A Base do Ensino Médio ainda não tem
te, tendo como prazo máximo para apro- data para ser divulgada, segundo o MEC,
vação junho de 2016. Entretanto, além de pois está sendo discutido o alinhamento
questões internas, atrasos na realização com a MP 746/20167, popularmente co-
de plenárias, todo o trâmite é impactado nhecida como a reforma do Ensino Médio.
pelo processo de impeachment de Dilma A medida foi apresentada pelo presidente
Rousseff e a troca de comando no Minis- Michel Temer em 22 de setembro de 2016, 21
tério da Educação. com o objetivo de flexibilizar as disciplinas
Em setembro do ano passado, o Gover- dadas aos alunos dessa fase escolar, esta-
no anuncia medida provisória que reforma belecendo disciplinas obrigatórias e op-
partes da Lei de Diretrizes e Bases relacio- cionais. A MP também prevê aumento da
nadas ao Ensino Médio. A Reforma do En- carga horária ao longo dos anos. No dia 8
sino Médio, como ficou conhecida, impac- de fevereiro de 2017, foi aprovada no Se-
tou a construção da Base. A proposta foi de nado por 43 votos a 13, sendo sancionada
que o documento fosse elaborado em duas pelo presidente da República no dia 16 de
etapas: a primeira compreendendo da fevereiro. O texto aprovado divide o con-
Educação Infantil ao Ensino Fundamen- teúdo do Ensino Médio em uma parte de
tal, e a segunda, compreendendo o Ensino 60% para disciplinas obrigatórias, a serem
Médio. Com isso, seguiu-se a elaboração definidas futuramente pela Base Comum
de uma terceira versão da Base referente Curricular, e 40% para que o aluno escolha
à primeira etapa, enquanto as discussões uma área genérica de interesse entre as se-
acerca do Ensino Médio sofreram novo guintes opções: Linguagens, Matemática,
atraso, pois agora os debates deveriam Ciências Humanas, Ciências da Natureza e
compreender as reformas previstas na me- Ensino Profissional.
dida provisória.
Quarta versão
Últimas versões e Ensino Médio
Há uma expectativa do Ministério da
A terceira versão da Base, agora compre- Educação de aprovar a Base já nessa se-
endendo apenas Educação Infantil e Ensi- mana. Na quarta-feira passada, dia 29/11,
no Fundamental, foi apresentada pelo Mi- o MEC enviou uma nova manifestação a
nistério da Educação em abril deste ano. respeito da Base aos membros do Conse-
Entre as principais mudanças, está a an- lho Nacional de Educação, que serão res-
tecipação da alfabetização das crianças do ponsáveis pela votação do texto final. Essa
terceiro para o segundo ano e a retirada do votação pode ocorrer entre quarta e quin-
ta-feira dessa semana, dias 4 e 5 de dezem-
6 Renato Janine Ribeiro é um dos entrevistados dessa edi-
ção da IHU On-Line. Ele detalha todo esse processo e ex- 7 Saiba mais sobre a MP em http://bit.ly/2n8g4oa. (Nota
põe seus pontos de divergências. (Nota da IHU On-Line) da IHU On-Line)

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TEMA DE CAPA

bro. Especialistas criticam que para essa dias de 2018. Segundo o Ministério, “a
quarta versão, como vem sendo chamada, partir da homologação da BNCC come-
não haverá tempo hábil para discussões. ça o processo de formação e capacitação
dos professores e o apoio aos sistemas de
Sobre mudanças, a última versão retoma Educação estaduais e municipais para a
a inclusão do Ensino Religioso de carácter elaboração e adequação dos currículos es-
não confessional. Ainda houve o acréscimo colares”.
de menções sobre conhecimentos de tec-
nologia e mudanças na Educação Infantil As escolas terão um prazo para aumentar
e alfabetização, onde se detalha as expec- a carga horária das 800 horas anuais para
tativas para as crianças nos dois primeiros 1.000 horas (ou de quatro horas diárias
anos escolares. para cinco horas diárias), visando implan-
tar gradualmente o ensino dito “de tempo
Há a expectativa de que esse processo integral”. Futuramente, a carga anual de-
seja finalizado ainda em 2017, para que o verá chegar a 1,4 mil horas, mas não há
MEC homologue a matéria nos primeiros prazo estipulado para esta meta.■

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Em um Brasil sem diálogo, escola


vira arena para disputas
Renato Janine Ribeiro observa como discussões
da Base Comum Curricular revelam o
verdadeiro racha pelo qual passa o país
João Vitor Santos

A
escola deve ser o espaço livre para e temos que ser capazes de avançar neste
a manifestação da diversidade, país”. E Renato vê a educação como um
sem qualquer tipo de repressão. caminho possível para esse avanço. “Se
Esse é o conceito que deve ser persegui- nossos alunos não tiverem espírito críti-
do, segundo o professor e ex-ministro co, não tiverem conhecimento de mun-
da Educação Renato Janine Ribeiro. “O do, não se abrirem para a diversidade, a
papel básico da escola, de qualquer or- nossa economia não vai melhorar. Preci-
dem que seja, é aceitar a pessoa na sua samos de pessoas que pensem, e a educa-
diversidade. A escola não deve doutrinar ção ajuda a pensar”, analisa.
em nenhuma direção”, complementa. Se- Na entrevista, concedia por telefone
gundo ele, esse também deve ser o princí- à IHU On-Line, o ex-ministro tam-
pio da Base Nacional Comum Curricular bém avalia o processo de montagem da
- BNCC. Entretanto, muitas discussões
BNCC, iniciada em sua gestão. “O erro
acabam se dando de forma enviesada, 23
que cometemos foi não termos acom-
contaminadas pela polarização e pela
panhado muito de perto o trabalho de
inaptidão ao diálogo que parecem tomar
cada comissão; com isso, tivemos pro-
o Brasil de hoje. “Você tem uma atuação
blemas”, reconhece.
de grupos que pedem que a educação seja
exatamente o que ela não pode ser. São Renato Janine Ribeiro foi ministro
movimentos que dizem ser contrários à da Educação, entre abril e outubro de
doutrinação, mas que são extremamente 2015, durante o governo de Dilma Rou-
doutrinadores”, denuncia. sseff. É professor titular da Universidade
de São Paulo – USP, na disciplina de Ética
Renato exemplifica com os debates em
e Filosofia Política. Doutor em Filosofia
torno das questões de gênero e as ações
pela USP, recebeu o Prêmio Jabuti de Li-
do grupo defensor da ideia de escola sem
teratura em 2001 pela obra A Sociedade
partido. Muito mais do que qualificar o
debate sobre educação, querem fazer va- Contra o Social (São Paulo: Companhia
ler apenas sua visão de mundo. “Educar, das Letras, 2000). Entre suas publicações,
na verdade, é abrir para o mundo. Sig- destacamos também A Última Razão dos
nifica fazer a pessoa sair de seu mundo Reis - Ensaios de Filosofia e de Política
fechado e abrir-se para um mundo mais (São Paulo: Companhia das Letras, 2003),
amplo, mais abrangente”, contrapõe. A A Universidade e a Vida Atual (Rio de Ja-
origem disso seriam as polarizadas dis- neiro: Campus, 2003), A imprensa entre
putas políticas que colocam, de um lado, Antígona e Maquiavel: a ética jornalísti-
os opositores e, de outro, defensores do ca na vida real das redações (São Paulo:
governo petista, ambos fechados em si. Renato, 2015) e A boa política - Ensaios
“O Brasil está rachado em torno de ini- sobre a democracia na era da Internet
mizades”, avalia. “Não temos alternativa. (São Paulo: Companhia das Letras, 2017).
Temos que recuperar o diálogo no Brasil Confira a entrevista.

IHU On-Line – Todo o processo ricular – BNCC iniciou ainda na processo que culmina nessa pro-
das discussões para a formação sua gestão no Ministério da Edu- posta levada agora ao Conselho
da Base Nacional Comum Cur- cação. Como o senhor avalia esse Nacional de Educação?

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Renato Janine Ribeiro – A mesmo quando você diz exatamen- Renato Janine Ribeiro – Em
Base Nacional Comum Curricular foi te o que tem de ser feito, as pessoas quatro componentes, nós pensamos
estabelecida pelo Plano Nacional de prestarem atenção, entenderem e que era interessante uma diversida-
Educação, que foi votado e sancio- respeitarem. de regional grande. São eles: Histó-
nado pela presidente Dilma Rousseff ria, Geografia, Português e Biologia.
Mas isso não foi feito. Resultado:
em junho de 2014. E a Base deveria Se pensarmos o Brasil dividido por
a primeira versão, que foi entregue
ter sido entregue ao Conselho Nacio- suas bacias hidrográficas, que é um
em setembro, ainda na minha ges-
nal de Educação, para sua aprovação tema da Geografia, veremos que,
tão, era muito longa, e a segunda
final, dois anos depois, ou seja, em conforme a bacia, temos animais e
versão, que já foi entregue na gestão
junho de 2016. No período desde a plantas, tema da Biologia, muito di-
do Mercadante2, tinha dobrado de
entrada em vigor da lei, o Plano Na- ferentes entre si. A Biologia já via a
tamanho. Na verdade, era preciso
cional de Educação, até a minha pos- diversidade, e a Geografia também
ter um tamanho bem mais conciso,
se em abril do ano seguinte, nada foi via a diversidade. História e Portu-
porque a Base não pode entrar em
feito nessa direção. No final de abril, guês também podem destacar as di-
detalhes, ela é justamente uma base,
eu instalei as comissões que iam versidades regionais, como é óbvio.
um currículo comum ao país. Tem
montar a base. Nessas quatro áreas, não sei se 40%
que dizer, por exemplo, quando se
dos conteúdos mas possivelmente
Alguns critérios: presença forte de vai estudar equação de segundo grau
30%, ou um número perto desse,
professores que estavam em sala de ou, no caso de História, quando se
deveriam ser fixados em cada região.
aula, professores com experiência, vai estudar a Idade Média ou Idade
para, assim, evitar um saber que ca- Moderna, ou Brasil Colônia. São es- Enfim, em certas matérias que não
ísse de cima para baixo sobre as pes- ses os pontos cruciais, e não mil de- são tão exatas quanto as ciências di-
soas. A ideia era fazer que aqueles talhes de como vai ser dada a aula. tas exatas, realmente poderia haver
que entendem da aula, dos alunos, A própria metodologia não pode en- uma parte regional importante. Mas
que sabem das dificuldades e pos- trar na base, porque ela é questão de não há como você não estudar Histó-
sibilidades, pudessem eles mesmos autonomia da escola, de autonomia ria universal, não há como não estu-
montar a base. O trabalho foi con- do professor, de autonomia da rede. dar as bases da Biologia. Contestar o
24 duzido com muito entusiasmo pelo O erro que cometemos foi não ter- currículo comum a partir disso é um
secretário de Educação Básica da mos acompanhado muito de perto o pouco de ingenuidade ou de desco-
época, Manuel Palácios1, mas creio trabalho de cada comissão; com isso, nhecimento do assunto.
que nós erramos ao não colocar uma tivemos problemas. Mercadante
pessoa representando o Ministério apontou muitos problemas da área
da Educação - MEC em cada uma de gramática, e eu vi os problemas IHU On-Line – Especifica-
das 39 comissões, ou, pelo menos, da área de História. mente com relação ao campo
em cada um dos 13 nomes diferentes das ciências humanas, na disci-
que as comissões tinham. Devería- plina de História, o senhor cri-
mos ter pegado o número de compo-
nentes curriculares, os quais muita
“O erro que nós ticou a BNCC por não atender a
um repertório básico. Gostaria
gente conhece pelo nome de “maté- cometemos que o senhor recuperasse e jus-
tificasse a sua crítica.
ria” ou “disciplina”, que fazem parte
do Ensino Médio, onde há o maior foi não estar Renato Janine Ribeiro – Há
muito de perto”
número – no Ensino Fundamental I o célebre poema de Brecht3: quem
há poucos componentes, no Funda- sabe quem são os artesãos que cons-
mental II aumenta e no Ensino Mé- truíram as pirâmides e os muros de
dio chega a 13 – e em cada um des- Tebas? Fala-se muito dos reis, mas
ses grupos colocar um representante IHU On-Line – Num país de não se fala desses artesãos. Esse
do MEC, dialogando, verificando se dimensões continentais como ponto é crucial, pois não se pode ter
eles não estavam se afastando dos o Brasil, com realidades regio- uma visão centrada nos reis. Outro
princípios básicos que devem reger nais tão distintas, por que é im- ponto decisivo é estudar a História
a Base. Isso porque é muito difícil, portante a constituição de uma do Mundo, mesmo, e não uma his-
base curricular em comum? tória eurocêntrica, como era praxe
1 Manuel Palácios: professor da Universidade Fe- no passado. Ora, se olharmos os
deral de Juiz de Fora - UFJF, membro titular do Fó- 2 Aloizio Mercadante Oliva (1954): economista
rum Nacional de Educação. É graduado em Enge- e político brasileiro, foi um dos fundadores do bons livros de História que já estão
nharia de Telecomunicações pelo Instituto Militar Partido dos Trabalhadores - PT. Foi senador pelo no mercado e que o MEC comprava
de Engenharia, com mestrado em Ciência Política estado de São Paulo entre 2003 e 2010. De 2011
e doutorado em Sociologia pelo Instituto Univer- a 2012 foi Ministro da Ciência, Tecnologia e Ino-
sitário de Pesquisas do Rio - IUPERJ. Na UFJF, foi vação do Brasil, e, em 2012 tornou-se Ministro da
diretor da Faculdade de Educação e Pró-reitor de Educação. Em 2014, tornou-se Ministro da Casa 3 Bertold Brecht (1898-1956): escreveu poesia,
Planejamento. Já esteve no MEC, atuando na Se- Civil. Com a reforma ministerial do governo Dil- teatro, ensaios e roteiros de cinema, lutando du-
cretaria de Ensino Superior. Foi nomeado secretá- ma Rousseff em outubro de 2015, voltou a ser rante toda a sua vida pelos oprimidos. Assumiu
rio de Educação Básica pelo ministro Cid Gomes Ministro da Educação, permanecendo no cargo uma clara posição de esquerda e procurou co-
e mantido pelos ministros Renato Janine Ribeiro e até o afastamento da presidente. (Nota da IHU locar a luta de classes no palco, utilizando-se da
Alozio Mercadante. (Nota da IHU On-Line) On-Line) dialética. (Nota da IHU On-Line)

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– eu pedi que o Fundo Nacional de Religioso não deve ser, quando obri- se reuniu no começo dos anos 1960,
Desenvolvimento Escolar me man- gatório, de proselitismo ou de ca- houve um processo de diálogo fan-
dasse os melhores livros de escola e tequese. Deve ser um ensino sobre tástico entre as grandes religiões, o
vi que eram muito bons nesse tocan- esse fenômeno extremamente rico e assim chamado ecumenismo, pelo
te –, veremos que nenhum deles era complexo que é a religião. Deve ser qual, por exemplo, os católicos para-
só de faraós, nenhum deles ignorava um ensino que foque a espiritualida- ram de amaldiçoar durante a missa
Ásia, África ou América pré-colom- de, que foque diferentes religiões, e os judeus. Também pararam de di-
biana. Então, isso já estava sendo faça a pessoa conhecer um pouco de zer que praticantes de outras ver-
conduzido. Mas, ao invés disso, tive- toda essa discussão que é extrema- tentes cristãs, ou de outras religiões,
mos um projeto que era caótico. Não mente rica. iriam direto para o inferno, e come-
dava para entender o que eles que- çaram a encontrar pontos comuns.
Afinal, há várias religiões que têm
riam dizer. O principal ponto de convergência
em comum a transcendência. Três
dessas várias religiões é a questão
Alguns acharam que era um pro- religiões são chamadas religiões do
ética. Não é sequer a questão de to-
jeto esquerdista, mas não era. Por livro, os grandes monoteísmos – que
dos aceitarem um criador, um deus
exemplo, no caso do Brasil, nós te- têm esse nome porque se referem
único, porque há religiões, como o
mos uma periodização da História a escrituras sagradas transmitidas
budismo, que não têm o criador e
que muitos associam a Celso Fur- pelo próprio Deus aos seus fiéis: ju-
há religiões, como as afro-brasilei-
tado4, que é o Ciclo do Pau Brasil, daísmo, cristianismo e islamismo.
ras, que não são monoteístas, mas
do Açúcar, do Ouro, do Café. E essa Os três somados incluem, muito pro-
há uma convergência muito forte na
é uma cronologia. Mas não é uma vavelmente, a maior parte da popu-
questão do Bem, na questão da ética
cronologia boba, é uma cronologia lação mundial. Mas há outra religião
etc. Isso é muito interessante, vale a
inteligente, e isso não foi aprovei- bastante forte, o budismo, da qual o
pena estudar.
tado. Não apareceu nada que fosse papa João Paulo II5 até dizia que era
cronologia. Só apareceu, no meio do uma religião ateia, porque não tem
Gênero
Ensino Médio, um ano de História exatamente um deus, menos ain-
da África. Era a única que tinha que da um deus supremo. Temos ainda Quanto às questões de gênero: o
ser estudada, porque estava na lei... os politeísmos, que são fenômenos papel básico da escola, de qualquer 25
Mas, se dependesse da equipe, tal- muito diferentes. Fazer com que os ordem que seja, é aceitar a pessoa
vez nem isso tivesse havido. Foi um alunos tenham conhecimento deles é na sua diversidade. A escola deve ser
grande equívoco na área de História muito importante, porque isso pode acolhedora, ela não pode ser discri-
e pedi que refizessem, mas se recu- ajudar na sua formação espiritual. minadora. Essa é a questão crucial.
saram a refazer e aí divulgamos essa Do ponto de vista das religiões, aliás, Obviamente a escola não deve dou-
parte, alertando que não tínhamos hoje a convergência se dá muito no trinar em nenhuma direção, mas
responsabilidade pelas propostas, aspecto ético. deve dar espaço para a diversidade
que o MEC tinha dado ampla au- se manifestar sem repressão.
Desde que o papa João XXIII6 con-
tonomia – quase sempre com bons
vocou o Concílio Vaticano II7, que
resultados – a fim de que a socie-
dade discutisse livremente a versão IHU On-Line – Outro ponto
5 Papa João Paulo II (1920-2005): Sumo Pontífice
inicial da Base. da Igreja Católica Apostólica Romana e soberano que gerou muitas críticas ao
da Cidade do Vaticano de 16 de Outubro de 1978
até à sua morte. Teve o terceiro maior pontificado Ministério da Educação foi a
documentado da história, reinando por 26 anos, antecipação do período de alfa-
IHU On-Line – Entre os pon- depois dos papas São Pedro, que reinou por cer-
ca de trinta e sete anos, e Pio IX, que reinou por betização completa das crian-
tos mais polêmicos e discutidos trinta e um anos. Foi o único Papa eslavo e polaco
até a sua morte, e o primeiro Papa não italiano
da última versão da BNCC estão desde o neerlandês Papa Adriano VI em 1522. da democratização dos ritos, como a missa rezada
o Ensino Religioso e questões João Paulo II foi aclamado como um dos líderes em vernáculo, aproximando a Igreja dos fiéis dos
mais influentes do século XX. Com um pontificado diferentes países. Este Concílio encontrou resis-
de gênero. Como o senhor ob- de perfil conservador e centralizador, teve papel tência dos setores conservadores da Igreja, de-
fundamental para o fim do comunismo na Polónia fensores da hierarquia e do dogma estrito, e seus
serva esses dois pontos? e talvez em toda a Europa, bem como significante frutos foram, aos poucos, esvaziados, retornando
na melhora das relações da Igreja Católica com o a Igreja à estrutura rígida preconizada pelo Con-
Renato Janine Ribeiro – O en- judaísmo, Islã, Igreja Ortodoxa, religiões orientais cílio Vaticano I. A revista do Instituto Humanitas
e a Comunhão Anglicana. (Nota da IHU On-Line) Unisinos – IHU publicou na edição 297 o tema
tendimento de muitas pessoas, nas 6 Papa João XXIII (1881-1963): nascido Angelo de capa Karl Rahner e a ruptura do Vaticano II, de
quais me incluo, é de que o Ensino Giuseppe Roncalli. Foi Papa de 28-10-1958 até 15-6-2009, disponível em https://goo.gl/GVTuEO,
a data da sua morte. Considerado um papa de bem como a edição 401, de 3-9-2012, intitulada
transição, depois do longo pontificado de Pio XII, Concílio Vaticano II. 50 anos depois, disponível
convocou o Concílio Vaticano II. Conhecido como em https://goo.gl/5IsnsM, e a edição 425, de
4 Celso Furtado (1920-2004): economista brasi- o “Papa Bom”, João XXIII foi canonizado em 2013 1-7-2013, intitulada O Concílio Vaticano II como
leiro, membro do corpo permanente de econo- pelo Papa Francisco. (Nota da IHU On-Line) evento dialógico. Um olhar a partir de Mikhail
mistas da ONU. Foi diretor do Banco Nacional de 7 Concílio Vaticano II: convocado no dia 11- Bakhtin e seu Círculo, disponível em https://goo.
Desenvolvimento Econômico e da Superinten- 11-1962 pelo papa João XXIII. Ocorreram quatro gl/8MDxOM. Em 2015, o Instituto Humanitas
dência do Desenvolvimento do Nordeste e mem- sessões, uma em cada ano. Seu encerramento Unisinos – IHU promoveu o colóquio O Concílio
bro da Academia Brasileira de Letras. Algumas deu-se a 8-12-1965, pelo papa Paulo VI. A revi- Vaticano II: 50 anos depois. A Igreja no contexto
de suas obras são A economia brasileira (1954) são proposta por este Concílio estava centrada das transformações tecnocientíficas e sociocultu-
e Formação econômica do Brasil (1959). Confira na visão da Igreja como uma congregação de fé, rais da contemporaneidade. As repercussões do
a edição 155 da IHU On-Line que aborda a obra substituindo a concepção hierárquica do Concílio evento podem ser conferidas na IHU On-Line
de Furtado, disponível em http://migre.me/BhSp. anterior, que declarara a infalibilidade papal. As 466, de 1-6-2015, disponível em https://goo.gl/
(Nota da IHU On-Line) transformações que introduziu foram no sentido LiJPrZ. (Nota da IHU On-Line)

EDIÇÃO 516
TEMA DE CAPA

ças. O que está em jogo e quais a ser de nível superior, a questão da dade democrática por terem sido in-
os limites dessa proposta? alfabetização foi um tanto descon- dicados a partir de uma escolha do
siderada. Nós temos que retomar a povo. Eles querem que se aprenda
Renato Janine Ribeiro – A al-
questão da alfabetização como deci- mais como ensinar. O problema sé-
fabetização é uma questão muito
siva. Aliás, isso já foi iniciado tanto rio que gera muita discussão é que,
complexa. Nós temos um grande
com o Pacto Nacional pela Educação na formação de professores, nem
sucesso no Ceará, onde o Governo
na Idade Certa, adotado em 2013, sempre se aprende como ensinar,
Cid Gomes8 desenvolveu um projeto
quanto pela Avaliação Nacional da seja História, Geografia ou Filoso-
muito bom, já iniciado em 2007, de
Alfabetização. fia. A Coordenação de Aperfeiçoa-
alfabetização na idade certa. Isso faz
mento de Pessoal de Nível Superior
com que as escolas públicas assegu-
- Capes fez um trabalho muito bom
rem que, aos oito anos, até o final do
terceiro ano do Ensino Fundamen-
tal, as crianças saibam ler, escrever e
“Você não pode nos últimos anos com os chamados
“PROF’s”, que são mestrados profis-
fazer as quatro operações básicas de
matemática. Significa que são três
ter uma visão sionais criados para formar melhor
os professores. Isso está caminhan-
anos para uma escola pública aten- eurocêntrica do, mas há uma discussão frequente
com algumas faculdades de Educa-
e não pode
der esse objetivo da alfabetização
ção, que não concordam muito com
integral na idade certa. Mas mesmo
isso. Esse é um ponto que precisa ser
isso está muito difícil de se conseguir
no Brasil como um todo. Os dados ter uma visão resolvido.
da Avaliação Nacional de Alfabetiza-
ção - ANA, de 2015, indicavam que centrada Material didático
22% desses alunos não sabiam ler,
35% não sabiam escrever de manei-
nos reis” Há, ainda, outro aspecto que não
foi mencionado na pergunta, mas
ra plenamente satisfatória e 57% não que tenho que destacar: o material
dominavam a matemática necessá- didático. Esse material tem que ser
26 ria para essa faixa de idade. E esse IHU On-Line – Como imagina
reformulado com as ênfases novas
volume muito alto de analfabetos é que a BNCC vai impactar a for-
que a base vai indicar e também com
extremamente preocupante, porque mação de professores? Quais os
o seu suporte eletrônico. Não pode-
mais ou menos condena as crianças maiores desafios para a forma-
mos pensar só no material didático
a um futuro mais pobre do que aque- ção docente em nosso tempo?
em papel. Provavelmente o mais
las que acompanharam a formação Renato Janine Ribeiro – A adequado, especialmente nos pri-
desejada. Base realmente é para a formação meiros anos vindouros, seria termos
O Brasil não está conseguindo alfa- de professores e para formação de o livro em papel e também tudo isso
betizar em três anos. Mesmo assim, material didático. Na hora em que num tablet, o que trará inúmeras
considero que a meta de obter alfa- você decide o que os alunos devem vantagens. No tablet é possível ter
betização em dois anos é muito boa. aprender em cada época de sua vida, links para ampliar os conhecimen-
Nesse ponto, estou de acordo quanto também decide como devem ser for- tos, podem ocorrer atualizações do
a se procurar fazer isso ao longo dos mados os professores. Por exemplo, material, pode haver uma referên-
seis e sete anos de idade. Agora, o se afirmamos, no caso da História, cia a tudo que representa exercício e
problema é que se não conseguimos que não pode ser apenas a História conteúdo adicional.
alfabetizar em três anos, apesar de Ocidental, mas tem que ser a histó-
O tablet é muito rico, mas substi-
todo empenho que o governo ante- ria do mundo inteiro, e não pode ser
tuir o papel pelo tablet seria muito
rior colocou nisso, reduzir para dois apenas a história dos poderosos, mas
arriscado, até porque não sabemos
anos exigirá ainda mais empenho. E, tem que ser a história dos povos, é
ainda qual será a reação dos alunos,
nesse sentido, o Brasil carece de vá- claro que sinaliza para as faculdades
em que medida a paixão deles pelo
rias competências. Inclusive porque, que formam professores de História
eletrônico vai ser bem-sucedida ou
desde que acabou o Curso Normal, o caminho que deve ser seguido para
não. Veja o livro eletrônico: o Kindle
que era um curso de nível médio, e ensinar seus alunos. Esse é o ponto
não emplacou. O e-book está há dez
a formação dos professores passou na formação.
anos no mercado e não passa de 10%
Os gestores, nesse caso estou falan- das vendas desse mercado editorial,
8 Cid Ferreira Gomes (1963): é um engenheiro
civil e político brasileiro. Foi filiado ao Partido do do MEC, dos secretários munici- mesmo nos Estados Unidos, Europa
do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), pais e estaduais de Educação, todos etc. Não podemos correr riscos tolos;
Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB),
Partido Popular Socialista (PPS), Partido Socialista os quais ocupam seus cargos indica- o mais simples seria manter o papel,
Brasileiro (PSB) e Partido Republicano da Ordem
Social (PROS). Atualmente, é filiado ao Partido dos por governantes eleitos – e que, acrescentarmos o tablet e depois ve-
Democrático Trabalhista (PDT). Foi governador do portanto, têm um dever importante rificarmos como está funcionando,
estado do Ceará por dois mandatos. (Nota da IHU
On-Line) em relação à população e à legitimi- em que faixas etárias, em que ma-

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térias, em que regiões do país. Isso trícula. Criou, ainda, o piso nacional seja ele qual for. Compare com o
porque, pelo menos quando eu era de salários, melhorando o pagamen- Ensino Médio, com seus 8 milhões
ministro, não havia ainda pesquisas to de um bom nível de professores; de alunos, dos quais 7 milhões vêm
conclusivas, nacionais ou interna- criou o Programa Integrado de Bolsa dos estados. Mas tem que haver uma
cionais, sobre a preferência dos alu- de Iniciação à Docência - Pibid, es- mudança no Ensino Médio. É o que
nos, conforme a série, por material timulando os alunos de graduação a está sendo feito pelo atual governo,
em papel ou em tablet. Vamos ter se tornarem professores na rede pú- mas com alguns equívocos.
que experimentar e aprender o que blica; criou indicadores poderosos
Há o equívoco de gestão, que é mu-
é melhor. da qualidade da educação, dos quais
dar as matérias que serão estudadas
o Índice de Desenvolvimento da
no meio do segundo ano. Significa
Educação Básica - Ideb é o mais co-
“A escola nhecido, criou o Exame Nacional do
Ensino Médio - Enem, que também
que haverá professores ociosos, sem
carga horária na primeira metade do

não deve universaliza toda a aferição da con-


clusão do Ensino Médio, bem como
ano, e outros com o mesmo proble-
ma na segunda metade, ao mesmo
encaminhar a entrada no Ensino Superior fede-
tempo em que haverá professores
que darão mais aulas no primeiro
ral e, muitas vezes, privado. E, para
ninguém para concluir a parte da Educação Básica,
semestre e outros que darão mais
aulas no segundo semestre. Esse é
nenhuma o Ideb mostra que foi melhorando
a qualidade da educação, apesar de
um problema de gestão.

direção, mas muita gente ser pessimista e falar


coisas exageradas.
Ainda há outro grande problema.
As cinco áreas de ênfases: Lingua-

deve dar Agora, ele foi mais bem-sucedido


gens, Ciências Humanas, Ciências
da Natureza, Matemática e Ensino
na expansão do nível Superior. Tí-
espaço para nhamos 100 mil vagas de ingresso
Técnico não compõem cinco tipos
de cursos possíveis. Elas com-
a diversidade
por ano no Ensino Superior público põem talvez três. Talvez Técnico,
e passamos para 230 mil, mais que talvez Humanas junto com Lin- 27
se manifestar dobramos. Isso, por sinal, veio jun-
to com o programa de cotas que, ao
guagens, talvez Matemática junto
com Ciências da Natureza. E não
sem repressão” contrário do que muita gente pen-
sa, não são cotas étnicas. São cotas,
está claro como tudo isso vai fun-
cionar. Há o risco de que várias
antes de mais nada, para a escola matérias não sejam lecionadas em
pública. Metade das vagas nas ins- nenhuma escola de uma cidade
IHU On-Line – Quais os maio- tituições federais é oferecida para ou mesmo de uma região. Ainda,
res avanços e limites do Brasil escolas públicas. Ninguém foi pre- se não houver número de alunos
no campo da Educação nos úl- judicado. Cotas não tiraram o aces- suficientes para formar duas tur-
timos anos? so de ninguém à universidade, por- mas, talvez seja uma turma só que
que as vagas mais que dobraram. E se forme. Então, há problemas aí.
Renato Janine Ribeiro – Os essa ampliação do Ensino Superior O que é certo é que 13 matérias no
avanços da Educação no Brasil, nos também se deu com a criação de Ensino Médio não dá.
últimos anos, foram inúmeros. O 18 universidades novas, elevando o
Brasil, durante os governos Lula e número para 63. E tenho insistido: o Ensino Mé-
Dilma, não só deu continuidade a dio não pode ter 13 matérias que
um êxito do Governo Fernando Hen- Limites são introduções aos cursos de gra-
rique, que foi a universalização do duação com o mesmo nome. Filo-
Ensino Fundamental, como também Um upgrade importante foi fei- sofia, por exemplo, não pode ser
aumentou esse Ensino Fundamen- to nas antigas escolas federais de um resumo do curso de graduação
tal, que era de oito anos e passou Ensino Técnico, que viraram Insti- de Filosofia. E nem Física, nem
para nove. E isso ainda conseguindo tutos Federais de Ciência e Tecno- Química, nem História. Tem que
manter a universalização nesse ano logia – hoje são 38, e com um bom ser matéria útil, adequada para o
suplementar, fazendo com que o En- contingente de alunos. Mas tudo aluno dessa idade. E isso é uma
sino Fundamental comece aos seis isso mostra também qual o grande evolução que vai depender da base
anos de idade e não mais aos sete. limite. Apesar de demandar esfor- curricular do Ensino Médio. Eu te-
Também ampliou a obrigatorieda- ços gigantescos, foi mais fácil conse- nho um pouco de receio quanto a
de para a pré-escola, começando guir expandir o Ensino Superior do isso, porque não vejo muita gente
aos quatro e cinco anos de idade, o que mexer na Educação Básica de disposta a pensar nessa linha que
Ensino Médio de 15 a 17, faixas em maneira radical. E isso tem muitas estou expondo, que me parece a
que conseguiu mais de 80% de ma- razões. O Ensino Superior é menor, mais razoável.

EDIÇÃO 516
TEMA DE CAPA

la estão estudando – ou porque os para a diversidade, nossa economia


“Você tem uma pais não sabem do que se trata. Eu não vai melhorar. Precisamos de
sempre defendi a participação ativa pessoas que pensem, e a educação
atuação de dos pais, porque são eles que vão ajuda a pensar. Não se pode ficar no

grupos que
cobrar que o governo dedique mais conformismo, na repetição.
empenho à educação e são eles que

pedem que a também vão cobrar dos professores


se houver uma greve que se alongar IHU On-Line – Como supe-

educação seja e prejudicar os filhos. Então são os


pais, no meio dessa discussão, que
rar essa pouca disposição para
o diálogo, uma das marcas de

exatamente podem praticamente resolver. nosso tempo, tanto no Brasil


como no mundo?
Entretanto, quando a participação
o que ela não dos pais começou a ocorrer, foi atra- Renato Janine Ribeiro – Essa
questão está muito difícil, o Brasil
pode ser”
vés de dois temas que, a meu ver,
são contra a Educação. O primeiro está muito dividido, se fraturou pelo
foi o combate à “ideologia de gêne- ódio nos últimos anos, por causa
ro”, quando os planos de Educação de política. Um lado significativo
IHU On-Line – Vivemos um
estavam sendo discutidos, e, mais da opinião pública se opôs radical-
tempo de disputas polares, con-
recentemente, o grupo escola sem mente ao governo eleito em 2014,
texto em que o tema da Educa-
partido. Assim, há uma atuação de levando a sucessivas manifestações
ção passou a ser discutido por
grupos que pedem que a Educação na rua e a sua destituição. Destitui-
qualquer pessoa e, muitas ve-
zes, confundindo políticas edu- seja exatamente o que ela não pode ção que também se deu pelo fato de
cacionais e ideologia. O senhor ser. Educar em latim vem de “ex” que aqueles que foram beneficiados
chegou a declarar que o proble- mais “ducere”, que quer dizer “sair mais pelos programas dos governos
ma é que pessoas que detestam de dentro para fora”. Esse é o sig- petistas ficaram insatisfeitos com a
Educação estão discutindo o nificado literal de educar. Educar é maneira como a presidente Dilma li-
28 tema. Como compreender esse abrir para o mundo. Significa fazer dou com a crise econômica depois da
cenário? E qual a questão de a pessoa sair de seu mundo fechado sua reeleição, uma vez que ela nem
fundo desses debates? e abrir-se para um mundo mais am- explicou direito o que estava acon-
plo, mais abrangente. tecendo e foi mudando as políticas.
Renato Janine Ribeiro – Estou O governo estava muito fraco e essas
terminando um livro sobre minha Portanto, é óbvio que a pessoa vai
pessoas adquiriram um ódio que pa-
experiência no Ministério da Educa- descobrir que, além dos heterosse-
rece ser mantido, em boa parte, em
ção e há uma parte em que discuto xuais, há homossexuais, há outras
resposta ao que os 12, 13 anos de go-
quem são os atores da Educação. orientações sexuais. É óbvio que a
verno petista representaram.
Entre os atores da Educação temos pessoa vai descobrir que os fenôme-
os gestores públicos, o MEC, as se- nos sociais e mesmo naturais têm in- Por outro lado, as pessoas que
cretarias estaduais e municipais de terpretações. É óbvio que as pessoas apoiaram o governo eleito e que se
Educação, os institutos de pesqui- vão sair do universo apenas da famí- opõem às políticas do governo atual
sa privados que procuram ajudar e lia ou do grupo ao qual pertencem. A por considerá-las ilegítimas, porque
dialogam bem com o setor público vida é assim, e a educação, na verda- são políticas exatamente opostas à
e temos os professores e os funcio- de, é o que melhora a vida. Ao invés que foi votada em 2014 e também
nários, pensando sobretudo na rede de você aprender isso apenas porque porque veem o retrocesso em muito
básica, que é mais numerosa, que foi passando a vida, você aprende do que diz respeito ao conteúdo da
têm um diálogo com o setor público segundo a ciência, com bons profes- educação, ao respeito dos costumes
mais difícil e, às vezes, tenso. sores, conhecimento e tudo o mais. diferentes etc., essas pessoas tam-
bém não sentem disposição para o
É uma situação que não é fácil, que Daí a minha preocupação com es-
diálogo com os inimigos de ontem e
tem que ser melhorada, tanto com ses movimentos que perdem o foco
que continuam sendo inimigos hoje.
melhor qualificação de professores e do que é educação. Eles levam a
funcionários quanto com melhor re- uma situação curiosa. Eles dizem ser Assim, o Brasil está rachado em
muneração. Agora, há um ator, que contrários à doutrinação, mas são torno de inimizades. Amizades pes-
são os pais dos alunos, que está mui- extremamente doutrinadores. Que- soais se romperam, pessoas não
to por fora da discussão educacional. rem que uma doutrina tradicional apenas deletaram o outro do Face-
Isso porque os pais, na maior par- permaneça. Isso é ruim para a de- book, mas de suas vidas. Como essa
te, tiveram uma educação inferior à mocracia e é ruim para a economia, situação vai ser resolvida? Eu não
que os filhos estão tendo – porque, porque se nossos alunos não tiverem sei, vai ser difícil, vai ser demorado,
cada vez mais, crianças de um perfil espírito crítico, não tiverem conhe- mas não temos alternativa. Temos
socioeconômico que nunca ia à esco- cimento de mundo, não se abrirem que recuperar o diálogo no Brasil e

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temos que ser capazes de avançar gritar. Por isso acho que liberdade gritando, cada uma sozinha e nenhu-
neste país. A educação pode dar uma de expressão só faz sentido quando ma escutando. A finalidade dela é as
ajuda nisso, porque um dos pontos há diálogo. A liberdade de expressão pessoas dialogarem, conversarem,
que pode melhorar o diálogo é fazer sem diálogo é estéril. Não é que não se respeitarem, se corrigirem, cami-
as pessoas se tornarem mais aptas a deva haver liberdade de expressão! nharem juntas, firmarem acordos,
ouvir os argumentos das outras. Não Ela deve ser preservada, mas a fi- compromissos e, com isso, melhora-
apenas repetir como papagaios, não nalidade dela não é ter dez pessoas rem o mundo.■

Leia mais
- “A intolerância cresceu brutalmente na política”. Entrevista com Renato Janine Ribeiro,
publicada nas Notícias do Dia de 02-9-2014, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU,
disponível em http://bit.ly/2B7evd3.
- Dá para pensar a política eticamente, sim ou não? Entrevista com Renato Janine Ri-
beiro, publicada na revista IHU On-Line número 398, de 11-8-2012, disponível em http://bit.
ly/2jNwLEp.
- “PT permitiu que agenda social se dissociasse da agenda moral”. Entrevista especial
com Renato Janine Ribeiro, publicada nas Notícias do Dia de 27-3-2013, no sítio do Instituto
Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2AZBvtz.
- A essência da técnica não é nada de técnico. Entrevista especial com Renato Janine Ri-
beiro, publicada nas Notícias do Dia de 14-10-2014, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos
– IHU, disponível em http://bit.ly/2A1KN9g .
29

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TEMA DE CAPA

A Base Curricular que reverencia


a lógica da financeirização
Roberto Rafael Dias da Silva compreende que a última versão
da BNCC está plenamente alinhada com as perspectivas
neoliberais, privilegiando apenas os saberes utilitaristas
João Vitor Santos

O
doutor em Educação Roberto Assim, a escola se transforma numa
Rafael Dias da Silva acredita empresa, o aprendizado vira índice e o
que um currículo escolar con- aluno é forjado numa lógica de empre-
cebido a partir do sentido pleno do endedorismo de si, primando pela efi-
conceito de democracia pode catapul- ciência. Mas como fugir a essa lógica?
tar indivíduos através de uma educação “Seria possível, em linhas gerais, atra-
libertadora. Entretanto, lamenta que vés de movimentos de diversificação
a proposta da Base Nacional Comum curricular, com uma ênfase na noção
Curricular – BNCC em discussão é o de qualidade social e com uma aposta
oposto. “Dificilmente a BNCC não se em modelos cooperativos”, responde.
configurará como um instrumento de E ainda sugere, em tom de desafio: “a
centralização e de tentativa de homo- longo prazo, inspirando-me em Hardt
geneização das práticas pedagógicas e Negri, talvez seja possível reinscrever
30 desenvolvidas em nosso país”, pontua. o conhecimento escolar no território do
Isso porque a Base “pode ser posicio- comum”.
nada na justaposição entre financeiri-
zação da vida e a primazia de saberes Roberto Rafael Dias da Silva é
utilitaristas”, que tem como conceito doutor em Educação, professor do Pro-
orientador a noção de competência. “O grama de Pós-Graduação em Educação
processo de construção da Base negli- da Unisinos, no qual atua na linha de
gencia um debate acerca dos propósitos pesquisa Formação de professores,
ou finalidades públicas da escolariza- currículo e práticas pedagógicas. Re-
ção. No mesmo espírito das políticas centemente, publicou os seguintes tex-
contemporâneas, a proposta curricular tos: Curricular policies for Secondary
analisada deixa de lado uma reflexão Education in Latin America: Between
acerca do ‘como’ e do ‘porquê’ da edu- capacities and opportunities (revista
cação”, critica. European Journal of Curriculum Stu-
dies), Currículo e conhecimento esco-
Na entrevista, concedida por e-mail à
lar na sociedade das capacitações: o
IHU On-Line, Silva ainda explica que
Ensino Médio em perspectiva (revista
esse negligenciamento não é gratuito.
“Dizem os especialistas na questão que, E-Curriculum) e Investir, inovar e em-
a partir da predominância de uma lógi- preender: uma nova gramática curri-
ca econômica, explicita-se a emergência cular para o Ensino Médio brasileiro?
de uma ‘nova ordem moral’ para orien- (revista Currículo sem Fronteiras).
tar as instituições educativas”, explica. Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais os avan- Roberto Rafael Dias da Silva décadas foram recorrentes as preo-
ços e limites da proposta de – A defesa de um currículo nacional cupações em torno das definições de
Base Nacional Comum Curricu- em nosso país não se configura como conhecimentos, habilidades, valores
lar – BNCC? uma novidade. Ao longo das últimas e, mais recentemente, competên-

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“Estamos diante do
ressurgimento do conceito
de ‘competência’ que parecia
estar esmaecido na literatura
curricular brasileira”

cias que fossem posicionadas como Porém, tal como percebemos a propostas pedagógicas destinadas à
indispensáveis para a formação dos concepção e os primeiros sinais da Educação Básica, nas redes públi-
cidadãos brasileiros. Via de regra, os implementação da Base Nacional cas e nas redes privadas, definindo
pesquisadores do campo do currícu- Comum Curricular, parece estar os conhecimentos, as competências
lo olham com cautela para este tipo vinculada a modos de gerenciamen- e as habilidades que todos os estu-
de iniciativa, visto que facilmente to do desenvolvimento curricular. dantes brasileiros devem aprender
declinam para tentativas de padro- Como explicita-nos um texto-mani- na escola.
nização dos processos formativos, de festo publicado pela Associação Na-
regulação do trabalho docente e de cional de Pós-Graduação e Pesquisa Ao longo dos últimos anos, foram
utilitarismo nos critérios de seleção em Educação - Anped, o Ministério vários os conceitos utilizados para
dos conhecimentos. Todavia, um de- da Educação, nas variadas fases de organizar e regular a seleção dos
bate em torno dos conhecimentos a elaboração da Base, foi “cedendo conhecimentos. Noções como “ex-
serem ensinados é “incontornável”, voz ao projeto unificador e merca- pectativas de aprendizagem”, “cur-
como tem assinalado a professora dológico na direção que apontam as rículo mínimo”, “direitos de apren- 31
Carmen Teresa Gabriel1. tendências internacionais de unifor- dizagem”, “competências cognitivas
mização/centralização curricular + e socioemocionais”, dentre outras,
Antonio Flávio Moreira2, impor- foram utilizadas no decorrer deste
testagens larga escala + responsa-
tante pesquisador brasileiro, de- processo de longos embates políti-
bilização de professores e gestores
fende que poderíamos retomar os cos. Na última versão do documen-
traduzidos na BNCC e suas comple-
debates acerca das políticas curri- to conseguimos ter uma visão mais
mentares e hierarquizantes avalia-
culares nacionais. Todavia, reitera abrangente e definitiva dos concei-
ções padronizadas externas”.
que sua defesa abrange não mera-
tos orientadores. Ao apresentar os
mente um currículo nacional, “mas
fundamentos pedagógicos da BNCC,
uma política curricular nacional, IHU On-Line – Como avalia o documento indica como primeiro
centrada em princípios que possam todo o processo de construção aspecto que os conteúdos curricula-
nortear políticas em nível estadual da BNCC? res devem estar “a serviço do desen-
ou municipal, assim como os planos
Roberto Rafael Dias da Silva volvimento de competências”.
curriculares das instituições escola-
res”3. Interessa ao pesquisador um – Quando lemos a página destina- Ou seja, estamos diante do ressur-
conceito de qualidade negociada da à BNCC, no site do Ministério da gimento do conceito de “competên-
que ultrapasse os limites de um cur- Educação4, deparamo-nos com uma cia” que parecia estar esmaecido na
rículo padronizado. definição bastante elucidativa que literatura curricular brasileira. Isto
nos permite ampliar o escopo desta também sinaliza para os modos pe-
1 Carmen Teresa Gabriel: doutora em Educação problematização que estou propon- los quais a BNCC pode ser levada a
pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro, atualmente é professora titular da Facul- do. Define-se no documento que “a operar: busca pela eficiência, inten-
dade de Educação da Universidade Federal do Rio Base Nacional Comum Curricular é
de Janeiro – UFRJ. (Nota da IHU On-Line) sificação dos regimes de avaliação,
2 Antonio Flávio Barbosa Moreira: licenciado um documento de caráter norma- centralidade do rendimento dos
em Química pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro - UFRJ, ainda é graduado em Pedagogia tivo que define o caráter orgânico e estudantes e do desempenho dos
pela Sociedade Universitária Augusto Motta, mes- progressivo das aprendizagens es-
tre em Educação pela UFRJ e doutor em Educação professores e, no limite, performa-
pelo Instituto de Educação da Universidade de senciais que os alunos devem desen- tividade e accountability. Dizem os
Londres. Atualmente é professor titular da Uni-
versidade Católica de Petrópolis, onde coordena volver ao longo das etapas e modali- especialistas na questão que, a par-
o Programa de Pós-Graduação em Educação. Tem dades da Educação Básica”. A base,
experiência na área de educação, com ênfase em tir da predominância de uma lógica
currículo, atuando principalmente nos seguintes sob este entendimento, orientará as econômica, explicita-se a emergên-
temas: escola, teorias de currículo, prática curri-
cular, história do currículo, multiculturalismo e cia de uma “nova ordem moral” para
formação de professores. (Nota da IHU On-Line) 4 O endereço eletrônico é basenacionalcomum.
3 MOREIRA, 2012, p. 182. (Nota do entrevistado) mec.gov.br. (Nota da IHU On-Line) orientar as instituições educativas.

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IHU On-Line – No que consis- o debate desde outros entendimen- debate acerca dos propósitos ou fi-
te a ideia de um currículo de tos, que não percam de vista sua di- nalidades públicas da escolarização.
base comum para todo o país? mensão crítica e compreensiva. Po- No mesmo espírito das políticas con-
Como garantir que essa base deríamos seguir pensando em uma temporâneas, a proposta curricular
não seja um instrumento de política curricular justa, na medida analisada deixa de lado uma reflexão
centralização e homogeneiza- em que pudesse ser estabelecida acerca do “como” e do “porquê” da
ção das diferenças regionais? sob os critérios da redistribuição, do educação, bem como de suas poten-
reconhecimento e da participação. cialidades para a vida democrática.
Roberto Rafael Dias da Silva
A combinação destes critérios, de Ao optar por priorizar uma “cultura
– Do ponto de vista metodológico,
acordo com a filósofa Nancy Fraser5, de medição”, as atuais políticas des-
tenho procurado compreender as
poderia impulsionar outros sentidos viam desta questão imprescindível.
políticas curriculares em seus varia-
para a justiça em nosso tempo. O filósofo Gert Biesta6 tem insistido
dos regimes de implementação. Isso
que “existe uma falta de atenção ge-
implica reconhecer que tais políticas
ral e de clareza conceitual a respeito
são movidas por interesses variados,
heterogêneos e, muitas vezes, an-
tagônicos. Na análise da BNCC não
“O processo da pergunta do propósito da educa-
ção”. Em outras palavras, existe uma
consigo pensar diferente. A proposta de construção intensa preocupação com os méto-
dos, com as didáticas e, mais recen-
de uma base, construída sob prin-
cípios democráticos, tem sido jus- da Base temente, com o design pedagógico,
e a consequência, de acordo com o
negligencia um
tificada por variados campos políti-
filósofo, seria um esvaziamento do
cos, valendo-se de uma significativa
debate crítico sobre as finalidades da
variação de prismas analíticos. Por
exemplo, alguns grupos defendem debate acerca escola.
esta base como uma estratégia de
padronização dos conteúdos a serem dos propósitos Na mesma direção, em publicação
recente, o sociólogo Stephen Ball7

32
ensinados, ou mesmo como possi-
bilidade de orientar a fabricação de ou finalidades tem defendido um “retorno ao bási-
co”, como estratégia de deslocamen-
materiais didáticos. Encontramos
setores que postulam sua importân-
públicas da to das perspectivas empresariais
presentes na educação atual. Em sua
cia para a melhoria dos resultados
nas avaliações de larga escala. Movi-
escolarização” percepção, isto significaria “repoliti-
zar a educação”, ou seja, “reconectá
mentos mais progressistas defendem -la com as vidas, esperanças e aspi-
a BNCC como uma possibilidade de rações de crianças e pais, não através
suprir as deficiências na formação IHU On-Line – De que forma a da escolha da escola e da competição,
dos professores ou na organização BNCC deve impactar o proces- mas sim através da participação, do
dos sistemas de ensino. Enfim, a so de ensino e aprendizagem debate e do compromisso educativo
própria ideia de um currículo nacio- nos três níveis escolares, Edu- das escolas com suas comunidades”.
nal instaura-se em um campo polí- cação Infantil e Ensinos Funda- Em um tempo no qual a responsabi-
tico povoado por intermináveis dis- mental e Médio? E quais devem lidade adquire uma conotação técni-
putas. Há dificuldades também de ser os reflexos na universidade ca e gerencial, poderíamos reinvestir
ordem epistemológica para definir o e educação profissionalizante? a responsabilidade educativa de um
que conta como “comum” ou “nacio- Roberto Rafael Dias da Silva enfoque democrático.
nal” para orientar um currículo. – Para além de estabelecer uma car- Parece-me que o processo de cons-
Dificilmente a BNCC não se con- tografia dos eventuais impactos da trução da BNCC demonstra-se inca-
figurará como um instrumento de BNCC nos variados níveis de ensino, paz de reconectar o debate curricu-
centralização e de tentativa de ho- penso que vale a pena destacar um lar com as finalidades públicas da
mogeneização das práticas pedagó- aspecto que talvez seja uma das prin- escolarização. Isto seria possível, em
gicas desenvolvidas em nosso país. cipais lacunas no processo de cons- linhas gerais, através de movimen-
Acredito que uma política curricular trução desta política. O processo de tos de diversificação curricular, com
possa delinear princípios e produzir construção da Base negligencia um
outras formas de educação de qua- 6 Gert Biesta: professor da School of Education &
lidade, mas não por esse caminho. 5 Nancy Fraser (1947): filósofa feminista estadu- Laboratory for Educacional Theory, da University
nidense ligada à Teoria Crítica. É titular da cátedra of Stirling, Stirling, Scotland, Reino Unido. (Nota
Uma possibilidade de produzir al- Henry A. and Louise Loeb de Ciências Políticas e da IHU On-Line)
ternativas poderia estar na retomada Sociais da New School University, Estados Unidos. 7 Stephen J. Ball: é professor do Instituto de Edu-
Para ela, o conceito de justiça deve ser entendido cação da Universidade de Londres. Ele se dedica
do conceito de “justiça curricular”. a partir de três dimensões inter-relacionadas, que a pesquisas sobre política educacional da atu-
seriam a distribuição (de recursos produtivos e alidade. Suas pesquisas oferecem interessantes
Produzir tal iniciativa suporia afas- de renda), o reconhecimento (das contribuições recursos intelectuais que permitem compreen-
tar-se dos posicionamentos desta- variadas dos diversos grupos sociais) e a repre- der como as políticas são produzidas, o que elas
sentação (na linguagem e nos demais meios sim- pretendem e quais os seus efeitos. (Nota da IHU
cados anteriormente e reenquadrar bólicos). (Nota da IHU On-Line) On-Line)

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REVISTA IHU ON-LINE

uma ênfase na noção de qualidade to para a autorregulação docente e destacar que as relações capitalis-
social e com uma aposta em mode- para a performatividade, construin- tas não seriam mais somente ex-
los cooperativos. Sem a pretensão do aquilo que Ball nomeou como um plicadas através das relações entre
de estabelecer um receituário, su- “sistema de terror”. capital e trabalho, mas poderiam
ponho apenas que ainda é possível ser explicadas sob as condições da
Porém, para melhor avançar na
produzirmos insurgências críticas relações débito-crédito. A forma
descrição das articulações entre
aos pressupostos neoliberais e neo- predominante do homo economi-
educação e neoliberalismo, alguns
conservadores predominantes nas cus estaria muito próxima à figu-
breves comentários precisam ser
políticas curriculares brasileiras. ra do “homem endividado”, com-
realizados. O primeiro comentário
prometido permanentemente em
vincula-se à compreensão do neoli-
investir em sua vida, capitalizan-
beralismo. Justapondo teorizações
do-a de maneira que se torne mais
“Poderíamos críticas e estudos foucaultianos,
Dardot9 e Laval10 explicam que se-
competitivo. Em outras palavras,

reinvestir a res-
mais que um modo de governança,
ria prudente ampliar os entendi-
o neoliberalismo também operaria
mentos acerca do neoliberalismo,
ponsabilidade interpretando-o para além de um
doutrina econômica, da crença da
no âmbito da própria vida, impe-
lindo os sujeitos a sentirem-se en-

educativa de naturalidade do mercado ou mes-


mo de uma redução do Estado. A
dividados e buscarem uma contí-
nua reinvenção, “financeirizando
um enfoque interpretação produzida pelos au-
e/ou capitalizando” seus próprios
percursos formativos.
tores, objetivamente, sugere que
democrático” o neoliberalismo poderia ser en- Por fim, em termos curriculares,
tendido como uma racionalidade o terceiro comentário diz respei-
orientadora das vidas contempo- to à primazia de valores e saberes
râneas. Ou ainda, pensar que “o utilitaristas. Na medida em que a
IHU On-Line – Em sua últi- neoliberalismo não destrói apenas vida passa a ser explicada através
ma entrevista à IHU On-Line8, regras, instituições, direitos. Ele dos interesses individuais, que en-
o senhor destacava que, num 33
também produz certos tipos de re- fatizam o componente econômico
contexto de crises, como o que lações sociais, certas maneiras de como princípio explicativo da ação
se vive no Brasil, a educação viver, certas subjetividades”. humana, os currículos escolares
utilitarista e de cunho neolibe- tornam-se mobilizados por relações
ral se apresenta como alterna- Em termos das relações entre
utilitárias. Lembra-nos Yves Le-
tiva de superação dessas crises. educação e neoliberalismo, meu
noir12, por exemplo, que “a tendên-
Em que medida a proposta de segundo comentário dá visibili-
cia forte que emerge e que defende
BNCC se associa a essa lógica? dade para as economias da dívida
esta orientação conduz numerosos
emergentes da gramática peda-
Roberto Rafael Dias da Silva alunos a irem à universidade para
gógica do “aprender a aprender”.
– Há um consenso entre os analis- obter um diploma que lhes permita
Dialogando com Lazzarato11, vale
tas de política curricular que o atu- ‘vencer na vida’, e não para estudar
al direcionamento que a BNCC tem e desenvolver suas capacidades in-
9 Pierre Dardot: é filósofo e pesquisador da uni-
recebido associa-se aos pressupos- versidade Paris-Ouest Nanterre-La Défense, espe- telectuais”.
tos de uma racionalidade neoliberal. cialista no pensamento de Marx e Hegel. Desde
2004, com Christian Laval, coordena o grupo de
Todavia, isso não começou agora, estudos e pesquisa Question Marx, que procura
contribuir com a renovação do pensamento críti- dívida infinita. Entrevista com Maurizio Lazzarato,
nem mesmo a Base é seu principal co. Publicou no Brasil, juntamente com Christian publicada em Notícias do Dia, de 2-6-2012, no
constructo político. A definição de Laval, o livro A nova razão do mundo (Boitempo, sítio do IHU, disponível em http://bit.ly/1N0i2JB;
2016). (Nota da IHU On-Line) “Atualmente vigora um capitalismo social e do
um currículo padronizado está ar- 10 Christian Laval: é pesquisador e professor de desejo”. Entrevista com Maurizio Lazzarato, pu-
sociologia da universidade Paris-Ouest Nanter- blicada em Notícias do Dia, de 5-1-2011, no sítio
ticulada com a predominância das re-La Défense. É autor de L’Homme économique: do IHU, disponível em http://bit.ly/1LejolW; “Os
avaliações externas, com os critérios Essai sur les racines du néoliberalisme (Gallimard, críticos do Bolsa Família deveriam ler Foucault...”
2007) e também de um volume de história da so- Entrevista com Maurizio Lazzarato, publicada
utilitaristas para selecionar os con- ciologia, L’ambition sociologique (Gallimard, 2012). em Notícias do Dia, de 15-12-2006, no sítio do
Publicou no Brasil, juntamente com Pierre Dardot, IHU, disponível em http://bit.ly/1GLy9d9; Capi-
teúdos, com o estímulo à competi- o livro A nova razão do mundo (Boitempo, 2016). talismo cognitivo e trabalho imaterial. Entrevista
tividade entre profissionais e entre (Nota da IHU On-Line) com Maurizio Lazzarato, publicada em Notícias
11 Maurizio Lazzarato: sociólogo e filósofo ita- do Dia, de 6-12-2006, no sítio do IHU, disponí-
estabelecimentos de ensino ou mes- liano que vive e trabalha em Paris, onde realiza vel em http://bit.ly/1LejOsv; As Revoluções do
mo com as novas figuras subjetivas pesquisas sobre a temática do trabalho imaterial, Capitalismo. Um novo livro de Maurizio Lazzara-
a ontologia do trabalho, o capitalismo cognitivo to. reportagem publicada em Notícias do Dia, de
emergentes deste cenário. A BNCC, e os movimentos pós-socialistas. Escreve também 6-12-2006, no sítio do IHU, disponível em http://
sobre cinema, vídeo e as novas tecnologias de bit.ly/1GXuMlq. (Nota da IHU On-Line)
com maior ou menor intensidade, produção de imagem. É um dos fundadores da 12 Yves Lenoir: professor titular da chaire de re-
apresenta-se como um instrumen- revista Multitudes. O IHU já publicou uma série de cherche du Canada sur l’intervention éducative. Ex
textos e entrevistas com Maurizio Lazzarato entre -Presidente da Associação Mundial de Ciências da
elas: O “homem endividado” e o “deus” capital: Educação – ASME, Associação Mundial de Cien-
uma dependência do nascimento à morte. Entre- cias de la Educación – AMCE, Associação Mundial
vista com Maurizio Lazzarato, publicada na IHU de Pesquisas Educacionais - Waer, organização
8 A entrevista está disponível em http://bit. On-Line, edição 468, de 29-6-2015, disponível em não-governamental com relações oficiais com a
ly/2ADQP2U. (Nota da IHU On-Line) http://bit.ly/1WmGF9v; Subverter a máquina da Unesco. (Nota da IHU On-Line)

EDIÇÃO 516
TEMA DE CAPA

A nova Base e a financeiri- espanhol, explicita que as racionali- questões, embora possa me reconhe-
zação dades neoliberal e neoconservadora cer como um pesquisador curioso
parecem operar em ampla coalizão. acerca das questões do nosso tempo.
Em síntese, a BNCC pode ser posi- Muitas vezes, as estratégias de ação Sem adentrar em um detalhamento
cionada na justaposição entre finan- são neoliberais, enquanto os obje- específico destas discussões, parece-
ceirização da vida e a primazia de tivos ou as pautas pedagógicas são me que a reiterada ênfase na “ideolo-
saberes utilitaristas. Sob essa pers- neoconservadores. Nas palavras de gia de gênero” e a recente aprovação
pectiva, não é difícil compreender por Viñao, tal articulação favorece a ins- do “ensino religioso confessional”
que seu conceito orientador é a noção tauração de “uma nova versão destas poderiam ser dimensionadas no
de competência. Ao mesmo tempo, políticas com vistas ao desmante- próprio declínio da democracia.
em um exercício mais ampliado de lamento ou a debilitação do direito Quando um grupo político luta ex-
pensamento, faz-se possível entender social à educação junto com outros clusivamente para que determina-
o recente sucesso das pedagogias ino- direitos sociais próprios do chamado das formas de vida sejam suprimidas
vadoras centradas nos interesses dos Estado de Bem-Estar Social, assim do jogo político, ou quando introduz
estudantes, em suas capacidades e como a imposição de uma menta- a possibilidade de que a sua religião
nas promessas de autorrealização em lidade, ideologia e modos de fazer seja ensinada pela escola pública (e
um mundo financeirizado. tradicionalmente conservadores e financiada pelo Estado), em minha
autoritários”. Precisamos ficar aten- leitura, significa que estamos com
tos, dessa forma, à composição de dificuldades para definir democrati-
IHU On-Line – O debate em políticas neoliberais que trazem em camente nossos modos de convivên-
torno da proposta “escola sem sua agenda conceitos e concepções cia e direcionamentos para a vida
partido”13 está associado a um neoconservadoras. coletiva.
modelo neoliberal de ensino?
Os princípios pedagógicos defen- Ao longo da Modernidade, lembra-
Por quê?
didos e difundidos pelo movimento nos Zygmunt Bauman15, em uma de
Roberto Rafael Dias da Silva – “Escola sem Partido” evidenciam suas últimas obras, que “a demo-
Como sinalizei na questão anterior, uma conotação neoconservadora. cracia foi sustentada pela tradução
34 em termos globais, há uma clara pre- Isso se explicita na medida em que, contínua de interesses privados em
dominância das racionalidades polí- no site que apresenta o movimen- questões públicas e de necessidades
ticas inspiradas pelo neoliberalismo. to, assinala-se que seu foco é o en- públicas em direitos e deveres pri-
Porém, é importante enaltecer que gendramento de uma lei contra “o vados”. De acordo com o sociólogo,
outras lógicas de reflexão também abuso da liberdade de ensinar”. Os parece que o pêndulo mudou de di-
operam nestes cenários, sendo inegá- alvos são aqueles que “a pretexto reção e hoje explicamos o público
vel a força que têm adquirido os mo- de transmitir aos alunos uma ‘visão através das demandas privadas. Sob
vimentos neoconservadores. No caso crítica’ da realidade, [configuram- essa leitura, não é apenas o Estado
da “Escola sem Partido”, no Brasil, se como] um exército organizado de
que declina de suas históricas res-
sua conotação atende a princípios ne- militantes travestidos de professores
ponsabilidades acerca da proteção
oconservadores. Seu conteúdo, seus [que] prevalece-se da liberdade de
coletiva. Mais uma vez dialogando
métodos e suas formas de inspiração cátedra e da cortina de segredos das
com pensador social, parece que “o
pedagógica – seja no plano macropo- salas de aula para impingir-lhes a
mundo não se manifesta para nós
lítico, seja nos cotidianos escolares – sua própria visão de mundo”. Enfim,
como objeto de nossa responsabili-
conduzem a pauta moralizante. os delineamentos futuros da agenda
dade”. Uma necessidade teórica para
neoconservadora merecem nossa
O historiador Antonio Viñao14, co- o campo dos Estudos Curriculares
atenção enquanto pesquisadores e
mentando essa questão no contexto talvez seja uma retomada dos deba-
professores, sobretudo pelo modo
tes acerca da alteridade e da respon-
como os jovens têm aderido a con-
13 Programa Escola sem Partido [ou apenas Es- sabilidade coletiva pelo mundo.
cola sem Partido]: é um movimento político cria- cepções dessa natureza.
do em 2004 no Brasil e divulgado em todo o país
pelo advogado Miguel Nagib. Ele e os defensores 15 Zygmunt Bauman (1925-2017): Sociólogo
do movimento afirmam representar pais e estu- polonês, professor emérito nas Universidades
dantes contrários ao que chamam de “doutrina- IHU On-Line – Ao longo do de Varsóvia, na Polônia e de Leeds, na Inglater-
ção ideológica” nas escolas. Ganhou notoriedade ra. Publicamos uma resenha do seu livro Amor
em 2015 desde que projetos de lei inspirados debate dessa última versão da Líquido (São Paulo: Jorge Zahar Editores, 2004),
no movimento começaram a ser apresentados na 113ª edição da IHU On-Line, de 30-8-2004,
e debatidos em inúmeras câmaras municipais e BNCC, emergiu a discussão disponível em http://bit.ly/ihuon113. Publicamos
assembleias legislativas pelo país, bem como no sobre questões de gênero e o uma entrevista exclusiva com Bauman na revista
Congresso Nacional. (Nota da IHU On-Line) IHU On-Line edição 181 de 22-5-2006, disponí-
14 Antonio Viñao Frago: é catedrático de Teoria e ensino religioso confessional. vel para download em http://bit.ly/ihuon181. Por
História da Educação na Faculdade de Educação da ocasião de sua morte, o IHU, na seção Notícias do
Universidade de Múrcia, na Espanha. Atualmente é Como compreender as ques- Dia de seu sítio, publicou diversos textos sobre a
presidente da Sociedade Espanhola de História da tões de fundo no debate desses importância de Bauman para compreender o nos-
Educação. As suas principais linhas de investigação so tempo. Entre eles, Zygmunt Bauman represen-
são os processos de alfabetização, escolarização e dois temas? tava algum conforto em um mundo cada vez mais
profissionalização docente, a história do currículo cinzento, artigo de Ricardo Lísias, reproduzido em
e o ensino secundário, assim como a análise das Roberto Rafael Dias da Silva 10-1-2017, disponível em http://bit.ly/2mUoJFm.
políticas e reformas educativas nas suas relações Leia mais em ihu.unisinos.br/maisnoticias/noti-
com as culturas escolares. (Nota da IHU On-Line) – Não sou um pesquisador destas cias. (Nota da IHU On-Line)

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empresarial converteu-se no sentido foco e os padrões internacionais do


“Mais que comum da vida da organização”, tal Pisa são tomados como grade de lei-
como argumenta Stephen Ball. Ao tura do que conta como “boas práti-
um modo de tomar a empresa como modelo or- cas pedagógicas”. Assim sendo, não

governança, o ganizacional, privilegiam-se novas conseguimos analisar se a LDB seria


lógicas de competição e de explora- um bom modelo e que se fosse bem

neoliberalismo ção, bem como novos procedimen-


tos explicativos são demandados.
aplicada teriam processos mais con-
solidados. No limite, apenas poderí-

também A linguagem empresarial explica o


mundo educacional, o mundo pro-
amos interrogar: quais foram nossos
êxitos pedagógicos após a conversão
operaria no fissional e até mesmo o componente
emocional. Mais uma vez recorrendo
do ensino e da aprendizagem em ele-
mentos calculáveis?
âmbito da a Ball, “o neoliberalismo se plasma
em um ‘novo tipo de indivíduo’, um
própria vida” indivíduo formado na lógica da com-
petição: um ‘homem empresarial’,
IHU On-Line – Quais os desa-
fios para se conceber um currí-
calculador, solipsista e instrumen- culo escolar comum que traba-
talmente dirigido”. lhe na perspectiva da educação
IHU On-Line – A Lei de Di- libertadora e não utilitarista e
Nas políticas curriculares, as refor- tecnicista?
retrizes e Bases da Educação
mas permanentes podem ser lidas a
– LDB brasileira é tida por es- Roberto Rafael Dias da Silva
partir dessa grade explicativa. Um
pecialistas como modelo. En- – Em termos de teorias ou práticas
grande conjunto de reformas deri-
tretanto, reconhece-se que há curriculares acredito que precisamos
va-se do Programa Internacional de
uma aplicação parcial de seus produzir alguns avanços na direção
Avaliação de Alunos - Pisa16, fortale-
dispositivos. A aplicação plena do mapeamento das resistências e
cido internacionalmente por meio de
da Lei hoje dispensaria a emer- alternativas às políticas derivadas do
um conjunto de atores e instituições
gência da ideia de “reforma da neoliberalismo ou do conservadoris-
e promovido intensamente pela Or- 35
educação”? Por quê? mo. Talvez seja o momento de inter-
ganização para a Cooperação e De-
rogarmos os currículos escolares de
Roberto Rafael Dias da Silva – senvolvimento Econômico - OCDE.
outros modos, para além do público
Para produzir algumas problemati- Os exames derivados do Pisa criam
ou do privado, buscando alterna-
zações em torno desta questão, pre- seus próprios padrões de qualidade
tivas mais abertas, democráticas e
cisamos ponderar os modos pelos educativa e, mais que isso, estimu-
coletivas que problematizem os pro-
quais as reformas educativas ope- lam determinadas formas de compe-
pósitos da escolarização, conforme
ram como estratégia governamental. titividade e de indução a reformas.
apontei anteriormente. Gosto muito
Esclarece-nos o sociólogo Christian Da reforma educativa como estraté-
do desafio proposto pelos colegas es-
Laval que o neoliberalismo aciona gia governamental, conforme explica
panhóis Jordi Collet18 e Antoni Torti
determinadas modalidades de crise o pesquisador alemão Ludwig Pon-
em torno das possibilidades de “uma
que tendem a fabricar a necessidade gratz17, “cada aluno e cada professor
governança escolar a serviço de pro-
de reformas. Em outras palavras, as se convertem em seu próprio centro
cessos de justiça e democracia”.
reformas são derivadas da própria de competência e, em consequência,
necessidade do Estado neoliberal em o conceito de competência orienta- Todavia, importa sinalizar que no-
promover mudanças que justifiquem se ao centro da reflexão pedagógica”. ções como justiça e democracia, em
seus modos de proceder e intervir minha leitura, não apresentam sen-
Sob as condições das crises engen-
através das regras da concorrência e tidos últimos ou definitivos, mas são
dradas no contexto neoliberal, as po-
do modelo empresarial, que são seus redimensionadas ou reposicionadas
líticas educativas (e as políticas em
pilares. Atualmente, então, precisa- no agonístico território das lutas co-
geral) são regidas pela necessidade
ríamos considerar que a crise ocupa letivas. Para pensar o currículo sob
constante de reformas. Tais refor-
um papel estratégico, isto é, torna-se outros enquadramentos, três desa-
mas consideram a qualidade como
“um modo de governabilidade que fios emergem de minhas investiga-
consiste em usar a crise como pon- 16 Programa Internacional de Avaliação de
ções, quais sejam: a) a necessidade
to crucial para acelerar o estabele- Alunos – PISA: é uma rede mundial de avaliação de manter aberto o debate acerca
de desempenho escolar, realizado pela primeira
cimento da lógica de mercado e as vez em 2000 e repetido a cada três anos. É co- dos conhecimentos escolares, visan-
regras de concorrência no âmago do ordenado pela Organização para a Cooperação e do à ampliação do repertório cultu-
Desenvolvimento Econômico (OCDE), com vista a
emprego e da sociedade”. melhorar as políticas e resultados educacionais. ral dos estudantes de nosso país; b)
(Nota da IHU On-Line)
17 Ludwig A. Pongratz (1948): é um educador
Ainda acerca das conexões entre alemão. De 1992 a 2009 foi professor de educa- 18 Jordi Collet Sabé: sociólogo, educador social e
crise e neoliberalismo, importa enal- ção geral e educação de adultos na Technische professor associado de sociologia da educação na
Universität Darmstadt, Alemanha. (Nota da IHU Universidade de Vic (UVic), em Barcelona. (Nota
tecer que nesta conjuntura “a prática On-Line) da IHU On-Line)

EDIÇÃO 516
TEMA DE CAPA

a importância da promoção e da va- radas com maior atenção. A primei- mas tornar problemática esta predo-
lorização das diferenças culturais, ra delas vincula-se à centralidade de minância das práticas e dos conheci-
em justaposição ao questionamen- uma nova linguagem da aprendiza- mentos úteis para a formação de pro-
to das desigualdades sociais; c) o gem na educação, como tem argu- fessores torna-se indispensável.
fortalecimento da cooperação, do mentado o filósofo Gert Biesta. Hoje,
diálogo, das formas de reconheci- em todo o mundo, o discurso pedagó-
mento, da alteridade e de todas as gico enuncia recorrentemente a po- IHU On-Line – Deseja acres-
possibilidades que contestem as ló- sição dos professores como gestores centar algo?
gicas da performatividade e do de- de aprendizagem, do ensino como Roberto Rafael Dias da Silva
sempenho individual. criação de possibilidades de apren- – Como pesquisador interessado em
dizagem ou mesmo das escolas como ampliar as fronteiras analíticas de
Tenho a convicção de que as atu-
comunidades de aprendentes. Esta minha área do conhecimento, tenho
ais políticas de reforma curricular,
“learnification” enuncia um aprendiz apostado em análises críticas que con-
dentre as quais a BNCC é um exem-
vitalício e tende a produzir certa “ero- sigam justapor a relevante herança do
plar privilegiado, ao enfatizarem as
são” nas funções públicas da docên- pensamento crítico com os estudos
avaliações de larga escala e as con-
cia. Parece consolidar-se uma leitura foucaultianos sobre a governamentali-
cepções utilitárias de conhecimento
individualista e demasiadamente in- dade e a biopolítica. Em meus últimos
dela derivadas, não garantem aos
dividualizante da tarefa educativa. trabalhos tenho me dedicado a proble-
estudantes as condições necessárias
para participar ativamente da vida Outra questão que merece ser des- matizar os “dispositivos de customiza-
democrática. A longo prazo, ins- tacada e que está conectada com o ção curricular” que delegam aos pró-
pirando-me em Hardt19 e Negri20, aspecto anteriormente referido é a prios jovens a responsabilidade sobre
talvez seja possível reinscrever o centralidade das práticas como prin- seu processo formativo. Diagnostico,
conhecimento escolar no território cípio explicativo do trabalho docente. nestas investigações, que a individu-
do comum. As “boas práticas” são cada vez mais alização dos percursos formativos no
cartografadas, os bons modelos for- Ensino Médio tende a ampliar as desi-
mativos são centrados na prática e as gualdades educacionais, uma vez que
IHU On-Line – Quais os desa- não considera que os sujeitos mobili-
36 boas aulas são aquelas lúdicas, inte-
fios para a formação docente rativas e criativas. A ênfase nas práti- zam recursos desiguais.
no nosso tempo? cas, ainda que revestida de intenções Tais elaborações podem ser impor-
Roberto Rafael Dias da Silva – desejáveis como no caso do Programa tantes para aqueles que planejam
Tendo em consideração as questões Institucional de Bolsas de Iniciação à ou executam políticas curriculares.
da docência e da formação de profes- Docência - Pibid, fabrica um tipo es- Porém, o trabalho da crítica é maior
sores, no contexto de predominância pecífico de professor e, mais que isso, do que esse. Desejo muito seguir in-
das racionalidades políticas apresen- delineia o que vale a pena ser feito em terrogando essa questão e, tal como
tadas anteriormente, proponho que sala de aula. O pesquisador Thomas aprendi com Laval em uma de suas
duas questões precisam ser conside- Popkewitz21, em texto recente, pon- últimas passagens pelo Brasil, am-
tua que “a prática é uma abstração pliando nossas ferramentas de tra-
19 Michael Hardt (1960): teórico literário ameri- que expressa teorias sobre o futuro balho através da consideração de li-
cano e filósofo político radicado na Universidade professor cosmopolita ideal, para ser teraturas diversificadas. Permito-me
de Duke. Com Antonio Negri escreveu os livros in-
ternacionalmente famosos Império (5ª ed. Rio de atualizado mediante investigação que encerrar a entrevista valendo-me das
Janeiro: Record, 2003) e Multidão. Guerra e demo-
cracia na era do império (Rio de Janeiro/São Paulo: tem que maximizar a utilização do palavras do sociólogo referido: “[...]
Record, 2005). (Nota da IHU On-Line) sistema escolar”. Isso não significa os que lutam não precisam somente
20 Antonio Negri (1933): filósofo político e mo-
ral italiano. Durante a adolescência, foi militante que as práticas sejam importantes, de panfletos, precisam de uma pers-
da Juventude Italiana de Ação Católica, como
Umberto Eco e outros intelectuais italianos. Em pectiva histórica e de ferramentas
2000, publicou o livro-manifesto Império (Rio de 21 Thomas S. Popkewitz (1940): é um teórico teóricas. Necessitam sobretudo de
Janeiro: Record), com Michael Hardt. Em seguida, do currículo e professor dos Estados Unidos da
publicou Multidão. Guerra e democracia na era América, na faculdade da Escola de Educação da provas, armas intelectuais reais, e
do império (Rio de Janeiro/São Paulo: Record), Universidade de Wisconsin-Madison. Seus estu-
também com Michael Hardt – sobre esta obra, a dos estão preocupados com os conhecimentos não de belas frases. É isso o que pro-
edição 125 da IHU On-Line, de 29-11-2004, pu- ou sistemas de razão que regem políticas e pes- curamos fazer ao não distinguirmos
blicou um artigo de Marco Bascetta, disponível quisas educacionais relacionadas à pedagogia e à
em https://goo.gl/9rjlQw. (Nota da IHU On-Line) formação de professores. (Nota da IHU On-Line) trabalho sério de engajamento”.■

Leia mais
- No discurso de crises, a busca por uma educação utilitarista e neoliberal. Entrevista com
Roberto Rafael Dias da Silva, publicada na revista IHU On-Line, número 505, de 22-5-2017,
disponível em http://bit.ly/2Afsair.

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Base Comum Curricular, um


instrumento da biopolítica
Sílvio Gallo vê na proposta apresentada pelo Ministério
da Educação a atualização de um desejo de controle da
população e alinhamento às perspectivas neoliberais
João Vitor Santos

“ O
que se vê num projeto desta na- estende seus tentáculos sobre a escola,
tureza é um desejo de contro- tida como fábrica de cidadãos alinha-
le populacional, o que Michel dos com suas perspectivas. “A alquimia
Foucault denominou uma biopolítica”. que assistimos é a de procurar compa-
É assim que o filósofo Sílvio Gallo de- tibilizar nossos sistemas, apresentados
fine a versão da proposta da Base Na- à população como democráticos e com
cional Comum Curricular – BNCC. Ele atenção social, com os preceitos neoli-
explica que, ao longo da História do berais dos organismos internacionais”,
Brasil, sempre foi destacada essa neces- analisa. Assim, como linha de resistên-
sidade de constituição de uma nação, e cia, o professor provoca: “a consolida-
o campo da educação serve muito bem ção de sistemas públicos de ensino, da
a esse propósito. É a “ideia recorrente educação infantil à universidade, com
de que a educação brasileira deve abar- qualidade socialmente referenciada,
car todo o conjunto do povo brasileiro, parece-me ser o grande desafio a ser 37
garantindo a todos os cidadãos os mes- enfrentado pela sociedade brasileira
mos direitos básicos no que respeita ao neste século”.
aprendizado”. Segundo Gallo, o pro- Sílvio Gallo, filósofo de formação, es-
blema é que esse desejo se transveste pecializou-se em Filosofia da Educação
em instrumento de controle, por vezes e atualmente é professor da Faculdade
ainda com um verniz de democracia. de Educação da Universidade Estadual
“Se constituiu no país, desde o início do de Campinas – Unicamp. Dedica-se ao
processo de redemocratização em mea- estudo da filosofia francesa contempo-
dos da década de 1980, uma ‘governa- rânea para pensar a problemática edu-
mentalidade democrática’”, pontua. cacional. É autor do livro didático para
Na entrevista concedida por e-mail à o Ensino Médio Filosofia – experiência
IHU On-Line, Gallo destaca que essa do pensamento (São Paulo: Scipione,
não é a única fragilidade do projeto. 2014). Em 2017 organizou, junto com
A Base promove uma uniformização, Margareth Rago, o livro É inútil revol-
que visa possibilitar avaliações em lar- tar-se? Michel Foucault e as insurrei-
ga escala. Para ele, isso é um “ícone do ções (São Paulo: Intermeios, 2017).
neoliberalismo contemporâneo” que Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o senhor retoma um movimento que não é única, de enfatizar uma cultura na-
avalia todo o processo de cons- novo e nem é original. Já com a for- cional e para isso os processos edu-
trução da Base Nacional Co- mação dos Estados nacionais euro- cativos serviram como instrumentos
mum Curricular – BNCC? peus modernos a educação aparecia importantes.
Sílvio Gallo – Podemos começar como um forte componente do pro- Aqui no Brasil, podemos identifi-
dizendo que a construção de uma jeto de construção de uma nação. car diversos movimentos e processos
Base Nacional Comum Curricular Tratava-se de definir uma língua nos quais a educação foi instrumen-

EDIÇÃO 516
TEMA DE CAPA

to para a construção de uma nacio- cício de um poder que produz seus as competências específicas de área
nalidade; mesmo com a valorização efeitos sobre uma população que é e são estruturadas em componen-
de aspectos regionais, a afirmação governada como população, tomada tes curriculares, cada um com suas
de um pertencimento a uma pátria. em seu conjunto. Por isso a ideia re- competências específicas. Cada
Isso se traduziu, por exemplo, em corrente de que a educação brasilei- componente curricular tem suas
determinados momentos históricos, ra deve abarcar todo o conjunto do unidades temáticas e objetos de co-
na imposição do português como povo brasileiro, garantindo a todos nhecimento, que se consolidam nas
língua única de ensino, o que sig- os cidadãos os mesmos direitos bási- habilidades a serem desenvolvidas.
nificou a impossibilidade da práti- cos no que respeita ao aprendizado. Tudo isso é atravessado por “temas
ca de idiomas indígenas em escolas contemporâneos”, que devem estar
Um outro lado da questão é a uni-
com grande número de pessoas que contemplados nas habilidades de to-
formização que a BNCC promove,
não dominava a Língua Portuguesa, dos os componentes curriculares, de
mas que precisavam ser introduzi- tornando possíveis as avaliações de
forma transversal e numa perspec-
dos a ela para garantir sua integra- larga escala, ícone do neoliberalismo
tiva integradora. Tudo isso é mos-
ção na comunidade e a própria in- contemporâneo, que possibilitariam
trado na página da BNCC no MEC,
tegração nacional. Isto também se que, ano a ano, tivéssemos um retra-
através de um estudo comparativo,
pode notar em situações em que foi to fiel das condições da educação no
que pode ser consultado2.
proibido o ensino em língua estran- país, de norte a sul e de leste a oeste,
geira em comunidades de imigran- permitindo o planejamento de in- A versão final revela, pois, uma mu-
tes. País único, língua única. Idioma tervenções onde for necessário e o dança significativa na proposta de es-
como fator de integração nacional e direcionamento dos recursos e dos truturação do Ensino Fundamental.
processos educativos formais como investimentos de forma racional. Qualquer semelhança com a funda-
seu veículo. mentação filosófica das propostas dos
Parâmetros Curriculares Nacionais
De modo que a BNCC é mais uma IHU On-Line – O que essa úl- produzidos na segunda metade da
investida nesta direção. Definir as tima versão da BNCC, entregue década de 1990, logo depois da pro-
“aprendizagens essenciais” que de- pelo Ministério da Educação ao mulgação da Lei de Diretrizes e Bases
38 vem ser comuns a todos os estudan- Conselho Nacional de Educa- da Educação Nacional em 1996, não
tes brasileiros da educação básica é ção, revela? é mera coincidência. Com a mudança
uma maneira de garantir uma mes- de governo de 2016, mudanças signi-
Sílvio Gallo – A versão apresenta-
ma orientação nos currículos das ficativas aconteceram no Ministério
da como “Versão Final”, se comparada
escolas brasileiras, não importa se de Educação e o mesmo grupo políti-
com a “Segunda Versão” revela, sobre-
esteja na capital gaúcha, na periferia co que dominou a construção das po-
tudo, uma mudança de perspectiva.
de São Paulo ou no interior do Acre. líticas públicas de educação durante o
Destaco que aquilo que na versão an-
Há que se garantir uma unidade na- governo FHC voltou a dar as cartas no
terior era denominado como “Direitos
cional, ainda que se respeitem as di- Ministério, retomando sua concepção e
de Aprendizagem e Desenvolvimen-
versidades regionais. seu projeto depois de quase vinte anos.
to”, denotando uma certa visão polí-
Educação como instrumen- tico-social (as escolas devem ensinar Evidencia-se, assim, que não im-
to da biopolítica aquilo a que, por direito, todo cidadão porta qual o partido hegemônico no
brasileiro deve ter acesso), passou a governo federal, encontramo-nos no
Ora, o que se vê num projeto desta ser apresentado como “Competên- mesmo regime de governamentali-
natureza é um desejo de controle po- cias Gerais da Base Nacional Comum dade. Mudanças pontuais ou mesmo
pulacional, o que Michel Foucault1 Curricular”. Ainda que no âmbito da bastante significativas podem ser fei-
denominou uma biopolítica. O exer- Educação Infantil a estrutura siga a tas, modificando-se as ênfases e as
mesma, no âmbito do Ensino Funda- concepções educativas, mas o projeto
1 Michel Foucault (1926-1984): filósofo francês. mental a alteração estrutural foi clara. educativo segue sendo um compo-
Suas obras, desde a História da Loucura até a His-
tória da sexualidade (a qual não pôde completar
Se antes se apresentavam os eixos nente biopolítico de governo. Há al-
devido a sua morte), situam-se dentro de uma
filosofia do conhecimento. Foucault trata princi- de formação, as áreas do conheci- guns anos venho fazendo exercícios
palmente do tema do poder, rompendo com as de leitura da produção biopolítica em
concepções clássicas do termo. Em várias edições, mento, cada uma delas definindo
a IHU On-Line dedicou matéria de capa a Fou-
seus objetivos gerais de formação, educação no Brasil nas últimas três
cault: edição 119, de 18-10-2004, disponível em
http://bit.ly/ihuon119; edição 203, de 6-11-2006, que se desdobravam nos compo- décadas, defendendo a ideia de que
disponível em https://goo.gl/C2rx2k; edição 364, se constituiu no país, desde o início
de 6-6-2011, intitulada ‘História da loucura’ e o nentes curriculares que, por sua
discurso racional em debate, disponível em ht-
vez, apresentavam os objetivos de do processo de redemocratização em
tps://goo.gl/wjqFL3; edição 343, O (des)governo
biopolítico da vida humana, de 13-9-2010, dis- aprendizagem e desenvolvimento, a meados da década de 1980, uma “go-
ponível em https://goo.gl/M95yPv, e edição 344, vernamentalidade democrática” (pen-
Biopolítica, estado de exceção e vida nua. Um de- versão enviada ao Conselho Nacio-
bate, disponível em https://goo.gl/RX62qN. Con-
nal de Educação pelo MEC modifi- sada a partir de Foucault, mas orienta-
fira ainda a edição nº 13 dos Cadernos IHU em
formação, disponível em http://bit.ly/ihuem13, ca tudo isso. Nesta última versão,
Michel Foucault – Sua Contribuição para a Educa- 2 O estudo está disponível em http://bit.
ção, a Política e a Ética. (Nota da IHU On-Line) as áreas do conhecimento definem ly/2ia52wU. (Nota do entrevistado)

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da para as especificidades brasileiras, No projeto de Lei de Diretrizes e Ba- údos, e o resultado é que elas ficam
daí a adjetivação como “democrática”, ses da Educação que foi gestado no presentes apenas no discurso, não
que não caberia na obra do filósofo Congresso Nacional, elas apareciam na prática.
francês). A hipótese é que a constru- como disciplinas obrigatórias; no
ção biopolítica brasileira esteve e está substitutivo assinado por Darcy Ri- Retomada da Filosofia e
centrada na construção e promoção beiro3, que viria a ser a Lei 9.394/96, Sociologia
da cidadania, uma vez que saídos de apareciam como “conhecimentos ne-
25 anos de um regime político de ex- cessários ao exercício da cidadania”, Com o governo Lula, o processo foi
ceção, era necessário constituir a ci- mas sem a definição de sua presença retomado e em 2008 o então presi-
dadania do brasileiro, de modo que disciplinar no currículo. A defesa do dente em exercício, José Alencar5,
fosse possível a construção de uma MEC, à época, era que elas deveriam sancionou o substitutivo da LDB que
sociedade democrática, alicerçada na sim estar presentes, mas como “temas tornou Filosofia e Sociologia discipli-
participação política e na afirmação transversais” às demais disciplinas. nas obrigatórias. Temos, portanto,
dos direitos sociais da população. menos de dez anos desta decisão e, se
Um projeto de lei complementar que
levarmos em conta que a lei definia o
tornava Filosofia e Sociologia discipli-
A BNCC é mais uma peça na intensa prazo até 2012 para que os governos
nas obrigatórias, aprovado no Con-
produção de políticas públicas em estaduais, responsáveis pelo Ensino
gresso, foi recusado pelo presidente
educação pós-LDB e enfatiza, uma Médio, implementassem a decisão,
FHC, por recomendação de seu mi-
vez mais, seu perfil democrático, temos efetivos cinco anos de obrigato-
nistro da Educação, Paulo Renato de
quando a página do MEC, bem como riedade do ensino destas disciplinas.
Souza4, justamente com o argumento
as diferentes versões do documento, Desde 2012, Filosofia e Sociologia
de não “disciplinarizar” e enrijecer
salienta que ela é fruto de processo estão no Programa Nacional do Livro
demais o currículo do Ensino Médio,
coletivo com grande participação Didático - PNLD e livros destas disci-
afirmando que elas deveriam perma-
da comunidade. Mas vemos que plinas são escolhidos pelos professo-
necer como temas transversais.
não importa o quanto haja de res e distribuídos em todas as escolas
participação: um grupo político Apenas uma observação, visto que brasileiras. Filosofia e Sociologia estão
impõe sua visão de educação e define não temos como desenvolver o tema no Exame Nacional do Ensino Médio
os rumos daquilo que se faz na área. aqui: os nossos currículos são tra- - Enem e passaram a fazer parte do 39
dicionalmente disciplinares, o que cotidiano de todos os estudantes bra-
significa que se não são disciplinas, sileiros do Ensino Médio. A formação
IHU On-Line – Recentemente,
não temos como ter professores de política e crítica, para o exercício do
a proposta de “reforma” do En- pensamento e para a livre análise da
Filosofia e de Sociologia nas escolas.
sino Médio provocou muita dis- realidade social, tornou-se a tônica
Por outro lado, os professores das
cussão por preterir disciplinas destas disciplinas. Temos já condições
demais disciplinas, também forma-
como Filosofia e Sociologia. de analisar seus efeitos, em tão pouco
dos disciplinarmente, não são pre-
Qual a questão de fundo numa tempo? Evidentemente não.
parados para trabalhar esses conte-
ideia de “reforma” que deixa
em segundo plano disciplinas Então fomos, todos, surpreendi-
3 Darcy Ribeiro (1922-1977): etnólogo, antropó-
de caráter mais humanista? logo, professor, educador, ensaísta, romancista e dos por esta “reforma” apressada,
político mineiro. Completou o curso superior na em que se afirma que estas áreas
Escola de Sociologia e Política de São Paulo, no
Sílvio Gallo – A “reforma” definida ano de 1946. Trabalhou como etnólogo no Ser- são muito importantes e que devem
a toque de caixa pelo governo Temer e, viço de Proteção ao Índio, e, em 1953, fundou o
estar presentes na formação dos jo-
Museu do Índio. Foi professor de etnologia e lin-
sem qualquer debate com a comunida- guística tupi na Faculdade Nacional de Filosofia e vens, mas não como disciplinas e
dirigiu setores de pesquisas sociais do Centro de
de, aprovada de modo sumário foi a in- Pesquisas Educacionais e da Campanha Nacional sim como “estudos e práticas”. Como
vestida mais visível de um governo que de Erradicação do Analfabetismo, além de ocupar,
isso pode ser feito e como será feito,
no biênio 1959/1961, o cargo de presidente da
parece pretender neutralizar e mesmo Associação Brasileira de Antropologia. Foi eleito ninguém ainda o disse. Isso nos leva
voltar atrás numa série de ações que em 8 de outubro de 1992 para a Cadeira n. 11
da Academia Brasileira de Letras. (Nota da IHU a crer que, uma vez mais, estaremos
foram levadas a cabo pelos governos On-Line)
4 Paulo Renato Costa Souza (1945-2011): foi um
anteriores. No que diz respeito a Filo- economista e político brasileiro. Formado em Eco- 5 José Alencar Gomes da Silva (1931-2011): foi
sofia e Sociologia, penso ser interessan- nomia pela Universidade Federal do Rio Grande um empresário e político brasileiro. Constituiu sua
do Sul, obteve o seu mestrado na Universidade primeira empresa aos 18 anos, uma loja chama-
te destacar que após a reforma de 1971 do Chile e o doutorado na Unicamp – na qual da a Queimadeira. Em 1967 fundou a Companhia
também tornou-se professor-titular de Econo- de Tecidos Norte de Minas (Coteminas), empresa
ter definido um currículo em que essas mia. Foi um dos fundadores do PSDB em 1988, do ramo têxtil que teve grande êxito. Foi sena-
disciplinas eram ausentes, mas tínha- e foi o ministro da Educação durante o governo dor pelo estado de Minas Gerais de 1999 a 2002.
Fernando Henrique Cardoso de 1 de janeiro de Elegeu-se vice-presidente da República do Brasil
mos a presença de “Educação Moral 1995 a 31 de dezembro de 2002. Dentre as suas na chapa do candidato do PT, Luiz Inácio Lula da
maiores realizações à frente do Ministério da Silva, em 2002, conseguindo a reeleição em 2006,
e Cívica” e de “Organização Social e Educação, estão a Universalização do acesso no assegurando, portanto, a permanência no cargo
Política do Brasil”, criadas para fazer a Ensino Fundamental, o Enem e o Saeb. Por outro até o final de 2010. Desde 1997 apresentou vários
lado, durante o tempo que este estava em ofício, problemas de saúde. A sua determinação na luta
difusão oficial da ideologia governista, a educação federal encarou uma enorme escassez contra o pior deles, um câncer, tornou-o inspira-
de recursos, a qual resultou em uma greve com a ção. Veio a falecer três meses após deixar a Vice
iniciou-se um longo e amplo movimen- participação de todas as instituições educacionais -Presidência. Em julho de 2012, foi eleito um dos
to de reivindicação da presença de Fi- federais em todo Brasil, começando nos meados 100 maiores brasileiros de todos os tempos em
de 2001 e terminando no primeiro trimestre de concurso realizado pelo SBT com a BBC de Lon-
losofia e de Sociologia no nível médio. 2002. (Nota da IHU On-Line) dres. (Nota da IHU On-Line)

EDIÇÃO 516
TEMA DE CAPA

na mesma situação do final da déca- plementar, de fato, a Base em todo o produziu material para educação se-
da de 1990. Como observei em res- território nacional. xual nas escolas e que foi abortada.
posta anterior, não é de se estranhar
Já tivemos a edição de “parâmetros”, Se a escola sucumbirá a essa onda,
que temos hoje no MEC o mesmo
de “orientações” e de “diretrizes” curri- dependerá de nossa capacidade de
grupo daquela época, impondo um resistência. Os seguintes versos de
culares, que pretendiam dar subsídios
retorno à sua concepção de educa- Caetano Veloso6 são emblemáticos
para a organização dos sistemas esco-
ção, “democraticamente” apresenta- de nosso presente: “Eram os outros
lares. Agora, com a Base, o movimento
da ao povo brasileiro como a melhor românticos, no escuro / Cultuavam
parece ser mais forte. Não se trata de
e a mais conveniente para todos... outra idade média, situada no futuro
orientar, mas de definir o que deve ser
feito. Ainda que se deixe uma margem /Não no passado”. São da canção “Os
de escolhas para complementar aqui- outros românticos”, do álbum “O Es-
IHU On-Line – A última ver-
lo que é básico, trata-se da definição trangeiro”, lançado em 1989 e pare-
são da BNCC não compreende o
e imposição, em todo o território, de cem profetizar nossa atual condição, a
Ensino Médio. Qual o sentido de
um sistema. A questão é saber como consolidação de uma outra “idade mé-
discutir uma “reforma” do Ensi-
isso será implementado, gerenciado e dia”, a defesa de um obscurantismo
no Médio sem antes se ter pelo
controlado pelo governo federal. Con- contra o conhecimento racional. Se a
menos uma proposta de base na-
seguiremos efetivar uma base nacio- escola sucumbir a tal onda, será o fim
cional para esse período escolar?
nal comum, as escolas a aceitaram? da educação. Não podemos permitir
Sílvio Gallo – As duas coisas estão, Ou serão refratárias a ela? O governo que isso aconteça.
claro, interligadas. A própria BNCC imporá sua efetivação? Através de que
poderia significar o disparo de uma mecanismos? Teremos espaço efetivo
reforma deste nível de ensino. Mas IHU On-Line – Num mesmo
para a construção de especificidades
o governo decidiu instituir a reforma período em que se discutem
regionais e locais?
por medida provisória, “atropelando” ideias como “escola sem parti-
o próprio processo de construção da Enfim, o limite é justamente a di- do”7, percebe-se o ativismo de
Base, sendo levado em seguida a pos- ficuldade da extensão territorial. A estudantes que ocupam colé-
imposição de uma base não será, de gios como forma de reivindicar
40 tergar a sua definição, visto que há
fato, o apagamento das diferenças educação de qualidade. Como
que se consolidar as mudanças pre-
regionais? Em nome de uma “identi- compreender essas duas reali-
conizadas por tal reforma para defi-
dade e unidade nacional” é isso mes- dades num mesmo mundo?
nir em seguida a base curricular.
mo o que queremos?
Sílvio Gallo – Projetos como o
Este “atropelo” mostra certa afoba-
“Escola sem partido”8 são parte do
ção do governo em colocar os sistemas
educativos brasileiros em sintonia IHU On-Line –  Temos obser-
6 Caetano Veloso (1942): músico, produtor, arran-
com os preceitos neoliberais explici- vado um avanço do conserva- jador e escritor brasileiro. Com uma carreira que
já ultrapassa quatro décadas, construiu uma obra
tados por organismos como o Banco dorismo e, ao mesmo tempo, musical marcada pela releitura e renovação, con-
Mundial. A alquimia que assistimos uma inaptidão para o debate de siderada de grande valor intelectual e poético. Em
1969, é preso pelo regime militar e parte para exí-
é a de procurar compatibilizar nossos ideias. A escola corre o risco de lio político em Londres, onde lança Caetano Veloso
(1971). Transa (1972) representou seu retorno ao
sistemas, apresentados à população ser soterrada por essa onda? país e seu experimento com compassos de reggae.
como democráticos e com atenção so- Em 1976, une-se a Gal, Gil e Bethânia para formar
Sílvio Gallo – Um neoconserva- o Doces Bárbaros, típico grupo hippie dos anos 70,
cial, com os preceitos neoliberais dos dorismo cresceu no Brasil sem que lançando um disco, Doces Bárbaros. Na década de
80 apadrinhou e se inspirou nos grupos de rocks
organismos internacionais. nos déssemos conta e explodiu em nacionais, aventurou-se nas produções dos discos
Outras Palavras, Cores, Nomes, Uns e Velô, e em
visibilidade pelos meios de comu- 1986 participou de um programa de televisão com
Chico Buarque. Na década de 90, escreveu Verda-
nicação, com centralidade nas redes de Tropical (1997), e o disco Livro (1998) ganha o
IHU On-Line –  Quais os limi- Prêmio Grammy em 2000, na categoria World Mu-
sociais viabilizadas pela tecnologia.
tes e potencialidades de cons- sic. A edição 476 da IHU On-Line, de 3-11-2015,
Em boa medida, este crescimento é intitulada Ousadia e sensibilidade. Caetano e Gil,
tituir uma base curricular em duas vidas em uma só, trata dos 50 anos de carreira
uma reação ao desenvolvimento de de Gil e Caetano. Acesse em http://bit.ly/2Bh4FVq.
todos os níveis escolares num (Nota da IHU On-Line)
políticas sociais afirmativas: na me-
país de dimensões continentais 7 Programa Escola sem Partido [ou apenas Es-
dida em que a questão racial ganha cola sem Partido]: é um movimento político cria-
como o Brasil? do em 2004 no Brasil e divulgado em todo o país
espaço nas escolas, atitudes racistas pelo advogado Miguel Nagib. Ele e os defensores
Sílvio Gallo – Penso que esta saltam aos olhos nas redes sociais; do movimento afirmam representar pais e estu-
dantes contrários ao que chamam de “doutrina-
resposta está articulada com aquela na medida em que ações formativas ção ideológica” nas escolas. Ganhou notoriedade
em 2015 desde que projetos de lei inspirados
que dei para a primeira pergunta. relacionadas ao gênero e à sexualida- no movimento começaram a ser apresentados
Trata-se, justamente, de procurar de e o combate à homofobia ganham e debatidos em inúmeras câmaras municipais e
assembleias legislativas pelo país, bem como no
construir uma “unidade nacional” espaço nas escolas, o preconceito Congresso Nacional. (Nota da IHU On-Line)
8 Programa Escola sem Partido [ou apenas Es-
num país que, pela extensão territo- mostra sua cara e articula-se politi- cola sem Partido]: é um movimento político cria-
rial, seria muito fácil de se perder. A camente, a ponto de ter impedido, do em 2004 no Brasil e divulgado em todo o país
pelo advogado Miguel Nagib. Ele e os defensores
dificuldade está em se conseguir im- anos atrás, uma ação de governo que do movimento afirmam representar pais e estu-

4 DE DEZEMBRO | 2017
REVISTA IHU ON-LINE

obscurantismo a que me referi ante- efeitos. O momento que vivemos é professor é e precisa ser uma figura
riormente, um exercício de ignorância exatamente o do conflito; que futuro pública, que está num espaço público
(no pior sentido do termo) e não de seremos capazes de produzir? comprometido com a preparação das
conhecimento. Afirmei que precisa- novas gerações. Ele não está ali para
mos resistir e para mim a esperança de expor suas opiniões, mas para mediar
que uma resistência possa se constituir IHU On-Line –  Quais os maio- o acesso à cultura, mostrando que a
vem justamente da movimentação dos res desafios para o campo da edu- cultura e o conhecimento são locais
estudantes. No final de 2015 tivemos cação no Brasil do século XXI? de debate de posições. O professor
um amplo movimento de ocupação de Sílvio Gallo – Este tipo de pergunta não é e não pode ser neutro. Na me-
escolas no estado de São Paulo9 em rea- é sempre muito difícil de ser respondi- dida em que ele assume claramente
ção a uma decisão do governo estadual do, dada a sua amplitude. Tentarei res- suas posições, ele ensina aos estudan-
de fechar quase uma centena de insti- ponder apenas dizendo que, em meu tes que tomar posição é importante.
tuições. Mais do que conseguir barrar ponto de vista, não podemos abrir mão Mas não pode impô-las.
a ação do governo naqueles momentos, de seguir ampliando o acesso à educa- Nesta direção, o professor precisa
os jovens estudantes deram mostras ção no país, sem abrir mão da escola de uma sólida formação em sua área
de cidadania efetiva e experimentaram pública. Sabemos que grupos privados de saber, mas também ter capacidade
outras possibilidades de criação de si veem a educação como um excelente de mediar a relação dos estudantes
mesmos e de suas vidas. Deram aulas negócio, com retornos financeiros ga- com o conhecimento. Precisa também
para toda a sociedade. Em 2016, movi- rantidos; as pressões neoliberais para ser capaz de pensar autonomamente,
mentos espalharam-se pelo Brasil, com flexibilizar a educação e possibilitar para que possa mobilizar nos estudan-
mais de mil escolas ocupadas, em pro- maior acesso de grupos financeiros (in- tes a possibilidade de que pensem por
testo contra a reforma anunciada pelo clusive estrangeiros, como temos visto si mesmos e sejam capazes de fazer as
governo federal. no caso da educação superior) são for- escolhas necessárias em suas vidas.
Os dois movimentos são produ- tes. Exatamente por isso, não podemos
As boas universidades brasileiras,
zidos pelo tempo em que vivemos. deixar de lado a defesa da escola públi-
sobretudo as universidades públicas
Avançamos no enfrentamento de si- ca, espaço de formação democrática e
e as universidades privadas que têm
tuações sociais, reduzimos a pobreza social. A consolidação de sistemas pú- 41
sólido projeto social, não estando
e ampliamos o acesso à escola, com- blicos de ensino, da educação infantil
interessadas apenas nos lucros, têm
batendo velhos preconceitos. Forças à universidade, com qualidade social-
todas as condições de formar este
contrárias se articulam e buscam im- mente referenciada, parece-me ser o
profissional e o estão fazendo. Um
por suas ideias, buscando retomar o grande desafio a ser enfrentado pela
apoio interessante foi o Programa
controle da situação. Mas forças sociedade brasileira neste século. Mas
Institucional de Bolsas de Iniciação à
democráticas resistem e mostram que sejam espaços múltiplos e plurais,
Docência, o Pibid, que significou uma
que uma educação mais democráti- espaços de convívio nas diferenças e
verdadeira revolução na formação de
ca, aberta ao debate social tem seus com abertura de pensamento, não es- professores no Brasil, com efeitos im-
paços de distribuição de dogmas e po- portantes e muito interessantes.
dantes contrários ao que chamam de “doutrina- sições conservadoras.
ção ideológica” nas escolas. Ganhou notoriedade Mas de todos os lados percebemos
em 2015 desde que projetos de lei inspirados
no movimento começaram a ser apresentados forças distintas, que buscam uma for-
e debatidos em inúmeras câmaras municipais e
assembleias legislativas pelo país, bem como no IHU On-Line – Como deve ser mação do professor mais tecnicista,
Congresso Nacional. (Nota da IHU On-Line) o professor do século XXI? Em menos amparada numa boa forma-
9 O sítio do IHU, na seção Notícias do Dia, publicou
inúmeros textos sobre essas ocupações. Entre eles, que medida as universidades ção teórica e mais “dador de aula”.
O antivírus político. As ocupações das escolas e o pro-
tagonismo das juventudes e a potência dos pobres. estão preparadas para formar Tais forças se mostram presentes
Entrevista especial com Silvio Pedrosa, disponível em esses profissionais? também no desmonte do Pibid.
http://bit.ly/2As8Zlj; e O levante de Junho de 2013 e
a ocupação de escolas, disponível em http://bit.ly/2j-
d9pEV; e Inspirado no Chile, manual orientou ocu- Sílvio Gallo – Esta pergunta é tão Temos que fazer frente a tais forças
pação de escolas por alunos em SP, disponível em difícil quanto a anterior, pela mesma e tentar consolidar o que vem sendo
http://bit.ly/2ij4Nw8. Leia mais em ihu.unisinos.br/
maisnoticias/noticias. (Nota da IHU On-Line) razão. Na mesma linha, penso que o construído. ■

Leia mais
- As contribuições de Foucault à educação. Entrevista com Sílvio Gallo, concedida à IHU
On-Line número 203, de 06-11-2016, disponível em http://bit.ly/2Af63ID.
- A educação sob os parâmetros da biopolítica: o efeito Foucault. Entrevista especial
com Sílvio Gallo, publicada nas Notícias do Dia de 11-10-2010, no sítio do Instituto Humani-
tas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2BpNlhD.

EDIÇÃO 516
TEMA DE CAPA

Os limites de uma reforma


com “empresariamento” e
que ignora as desigualdades
Monica Ribeiro da Silva reconhece a importância de uma Base
Comum, mas lamenta a forma como está posta, porque não
supera os atuais problemas e transforma a escola numa empresa
Ricardo Machado | Edição: João Vitor Santos

F
ormar uma base comum nos cur- qualquer”, analisa. Realidade que, para
rículos de todas as escolas e de a professora, fica ainda mais clara quan-
todos os níveis no país não é má do se olhar para propostas referentes
ideia. Entretanto, a professora Monica ao Ensino Médio. “A reforma em curso
Ribeiro da Silva adverte: “a diversidade propõe que a formação técnica e profis-
e desigualdades educacionais pelo país sional seja um dos itinerários formativos
são aspectos que também precisam ser do Ensino Médio, podendo ser oferecido
levados em conta”. Segundo ela, uma por meio de parceria com o setor priva-
das falhas da proposta da Base Nacional do, em duas trajetórias concomitantes.
Comum Curricular – BNCC é justamen- Isso é o que destrói a ideia de integração
te não levar isso em conta, o que coloca entre formação profissional e formação
42 escolas “em condições distintas de reali- científica básica”, completa.
zar o que está definido em uma listagem Monica Ribeiro da Silva possui
de objetivos e conteúdos”. “Por óbvio, as doutorado em Educação pela Pontifícia
escolas com condições mais precárias Universidade Católica de São Paulo –
estarão mais distantes de cumprir o que PUC-SP, mestrado em Educação pela
está prescrito, aumentando ainda mais Universidade Federal de São Carlos –
as desigualdades de aprendizagem entre UFSCar e graduação em Pedagogia com
os estudantes”, pontua. habilitação em Administração Escolar
Na entrevista, concedida por e-mail pela Universidade Estadual Paulista
à IHU On-Line, a professora chama Júlio de Mesquita Filho – Unesp. Está
atenção para a forma como a Base ran- realizando estágio pós-doutorado na
queia colégios, trazendo ao ambiente Faculdade de Educação da Universida-
de aprendizagem uma lógica empresa- de Estadual de Campinas – Unicamp. É
rial. Segundo Monica, isso revela que professora na Universidade Federal do
a educação crítica com vistas à autono- Paraná – UFPR, nos cursos de formação
mia é posta de lado em detrimento a de professores e no Programa de Pós-
uma formação voltada às demandas de Graduação em Educação. Entre suas pu-
mercado. “Nesse cenário de disputas pa- blicações, destacamos Currículo e Com-
rece estar conquistando uma certa he- petências: a formação administrada
gemonia o que estamos chamando por (São Paulo: Cortez, 2008) e Educação,
‘empresariamento da educação’. Isso Movimentos sociais e políticas gover-
significa que o setor empresarial vê na namentais (Curitiba: Appris, 2017).
educação uma mercadoria como outra Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como a senho- Monica Ribeiro da Silva – Vejo versão. A extrema padronização ine-
ra avalia a mais recente versão com muitas ressalvas a ideia de uma rente a um documento desse tipo
da Base Nacional Comum Cur- Base Nacional Comum Curricular contraria tanto as trajetórias que o
ricular – BNCC? para o país, independentemente da Brasil vinha percorrendo, por meio

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“Vejo com muitas ressalvas a


ideia de uma Base Nacional
Comum Curricular para o país,
independentemente da versão”

da definição de diretrizes curricula- impõe às escolas o que elas devem de ensino. O encaminhamento dado
res, quanto o acúmulo que as pes- ser, contrariam até mesmo a ideia pelo MEC vai justamente na posição
quisas no campo do currículo e das de educação, uma vez que é algo de- contrária ao separar o Ensino Médio
políticas curriculares evidenciam. finido sem sequer atentar para o que e compromete, com isso, até mesmo
é praticado e definido pelas pessoas o sentido de educação básica atribu-
A ideia de diretrizes curriculares
diretamente envolvidas. ído pela LDB.
nacionais, como as exaradas pelo
Conselho Nacional de Educação
 
para as diversas etapas e modalida- IHU On-Line – Neste primeiro IHU On-Line – O que deve mu-
des da Educação Básica permitem, momento da aplicação da Base dar no Ensino Médio do Brasil?
ao mesmo tempo, assegurar alguma Nacional Comum Curricular,
proximidade curricular entre as di- Monica Ribeiro da Silva – O
o Ensino Médio está de fora.
Ensino Médio brasileiro se caracteri-
43
ferentes unidades da federação e, ao Quais as implicações disso?
mesmo tempo, a autonomia que as za por um conjunto de dificuldades,
escolas e redes de ensino necessitam Monica Ribeiro da Silva – dentre as quais destaco:
tendo em vista atender às necessi- Afirmei anteriormente que enten-
do como um retrocesso imenso a O elevado número de jovens entre
dades formativas e aos interesses
definição de uma Base Nacional 15 e 17 anos que não se encontram
dos sujeitos, alunos e professores,
Comum Curricular nos termos que matriculados na última etapa da
no interior das escolas. A diversi-
vem sendo encaminhado pelo go- Educação Básica. O Brasil possui
dade e desigualdades educacionais
pelo país são aspectos que também verno federal. Ainda que fosse de- atualmente algo próximo a 10 mi-
precisam ser levados em conta ao sejável essa prescrição de objetivos lhões e 500 mil jovens nessa faixa
se pensar a formulação de políticas e conteúdos de forma centralizada, etária. Destes, pouco mais de 5 mi-
curriculares. As desigualdades de o fato de estar sendo produzido lhões estão matriculados no Ensino
condições de oferta, por exemplo, em separado um documento como Médio. Pouco mais de 3 milhões e
quando deparadas com um currícu- este, desconsidera que a Lei de Di- 500 mil estão cursando ainda o En-
lo padrão, extremamente prescritivo retrizes e Bases da Educação – LDB sino Fundamental e quase 1 milhão
como se vê especialmente na terceira 9.394/96 institui um nível de ensi- e 700 mil não possuem qualquer
versão da BNCC, coloca essas escolas no chamado “Educação Básica”, que vínculo escolar, mesmo estando em
em condições distintas de realizar o compreende a Educação Infantil, o idade obrigatória.
que está definido em uma listagem Ensino Fundamental e o Ensino Afora o problema de acesso, te-
de objetivos e conteúdos. Médio. Veja, um único nível de en- mos ainda o problema do abandono
sino que recebeu, inclusive, a partir escolar. Nem todos que começam
Por óbvio, as escolas com condi-
de 2010 uma orientação do Conse- concluem. Nota-se uma dificuldade
ções mais precárias estarão mais
lho Nacional de Educação que este das redes de ensino em qualificar a
distantes de cumprir o que está pres-
nível compõe “um todo sequencial, permanência dos jovens na escola,
crito, aumentando ainda mais as de-
orgânico e articulado”. fazer com que a escola dê respostas
sigualdades de aprendizagem entre
os estudantes. O campo de pesquisa Esta definição, que é a norma esta- efetivas às necessidades e interes-
em currículo no Brasil tem se posi- belecida nas Diretrizes Curriculares ses dessas várias juventudes que se
cionado também de forma contrária, Nacionais Gerais para a Educação encontram dentro dela. A origem
e com bastante veemência, quando Básica, busca assegurar que não desses problemas está na estrutura
se trata do assunto, por entender haja um tratamento estanque entre da própria sociedade brasileira, nas
que essa padronização, essa lista que as etapas que compõem esse nível desigualdades históricas que dentre

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TEMA DE CAPA

outras coisas mascara as diferenças Monica Ribeiro da Silva – educação profissional integrada
e naturaliza aquilo que é produzido Desde que a atual equipe do Mi- ao Ensino Médio. A oferta do EMI
social e culturalmente. nistério da Educação assumiu, está atualmente quase restrita aos
muito pouco se tornou público Institutos Federais e foi colocada
A ampliação da matrícula que se
dos caminhos trilhados na elabo- em risco com a atual reforma do
deu de forma acelerada entre o iní-
ração da BNCC do Ensino Médio. Ensino Médio (Lei 13.415/17 que
cio dos anos de 1990 a início dos
Do que está publicizado, além da resultou da MP 746/16).
anos 2000 é outro fator que explica
preocupação com a padronização
as dificuldades atuais por que pas- A reforma em curso propõe que a
e prescrição centralizada de uma
sa o Ensino Médio. Passamos de formação técnica e profissional seja
listagem de objetivos, outro ele-
3.500.000 matrículas em 1991 para um dos itinerários formativos do
mento se configura em um claro
9 milhões em 2004. Desde então a retrocesso. Estou me referindo à Ensino Médio, podendo ser ofereci-
matrícula tem oscilado em torno de retomada da proposta de organi- do por meio de parceria com o setor
8 milhões. Certamente a inclusão de zar uma base curricular por meio privado, em duas trajetórias conco-
um contingente imenso de pessoas da definição de uma listagem de mitantes. Isso é o que destrói a ideia
que ao longo do século XX esteve “competências” que caberia à es- de integração entre formação profis-
excluída do ensino secundário tem cola desenvolver nos estudantes. sional e formação científica básica.
contribuído para criar distorções na Mais um retrocesso, portanto, em
oferta, dado que esta escola pensada Trata-se de uma retomada de um relação ao que vinha sendo feito.
para poucos teve que buscar respos- modelo que se tentou impor ao país
tas (nem sempre encontradas) de ao final da década de 1990 e que se
como acolher uma diversidade de mostrou absolutamente inapropria-
pessoas das mais variadas origens do. Isso pelo próprio significado do
termo “competências”, carregado
“A ideia de uma
sociais, econômicas e culturais.
Corrigir tais distorções passa por de um viés pragmático que reduz
o conhecimento escolar à sua con-
BNCC como
dar maior atenção às especificida-
des desse público, o que é o oposto dição de aplicabilidade imediata, sendo capaz
acarretando uma fragilização na
44 de propor uma padronização como
a da BNCC que ignora ainda mais formação dos estudantes por meio de resolver
os problemas
essas especificidades. justamente da perda de centralida-
de do conhecimento.
Outras dificuldades estão nas
condições muitas vezes precárias educacionais
do país torna-
de infraestrutura das unidades es- IHU On-Line – Em um con-
colares, na formação de professo- texto de intensificação da auto-
res que nem sempre responde às
necessidades das escolas e redes de
mação industrial e da redução
de postos de trabalho, o que se inócua”
ensino, nas condições de trabalho significa apostar em uma for-
docente cada vez mais precarizadas mação profissional no Ensino
e desvalorizadas. Médio? O BNCC está alinhado
aos desafios atuais do mundo IHU On-Line – No que diz res-
Diante desse quadro, a ideia de peito à autonomia do profes-
do trabalho?
uma BNCC como sendo capaz de sor, que garantias a BNCC esta-
resolver os problemas educacionais  Monica Ribeiro da Silva – A belece?
do país torna-se inócua. Do mesmo BNCC trata apenas dos conheci-
modo, a reforma do Ensino Médio mentos gerais, não estando vin- Monica Ribeiro da Silva –
feita por meio de medida provisó- culada à formação profissional. A Ainda que o Ministério da Educa-
ria, sem qualquer diagnóstico mais Educação Profissional Técnica de ção, nos momentos em que apre-
próximo da realidade, não mostra Nível Médio no Brasil é uma ne- senta os documentos de BNCC,
quaisquer condições de superar os cessidade e precisaria estar dispo- insista em dizer que a autonomia
problemas apontados. Pelo contrá- nível aos estudantes que por ela das redes de ensino está assegura-
rio, poderá agravá-los. optassem. No entanto, teria que se da, a vinculação desse documento
assegurar uma oferta de qualidade, às políticas de avaliação em larga
que respondesse ao contexto das escala sinalizam claramente para
IHU On-Line – Como a senho- mudanças no mundo do trabalho uma dimensão de obrigatorieda-
ra tem acompanhado as dis- e, ao mesmo tempo, garantisse a de, de controle e de imposição que
cussões relacionadas à BNCC formação geral, científica e huma- recairá, em última instância, sobre
que serão aplicadas ao Ensino nista. O país tem efetivamente essa professores e professoras. O resul-
Médio? Que caminhos têm sido possibilidade por meio do Ensino tado disso é exatamente a ausência
trilhados? Médio Integrado – EMI, isto é, a de autonomia.

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IHU On-Line – Não parece cação uma mercadoria como outra lem ao mesmo tempo esses aspec-
contraditório reformar o ensi- qualquer, tem adquirido cada vez tos poderiam contribuir na direção
no básico no Brasil (incluído o mais espaço, colocando em risco dessa valorização. Outros desafios,
Médio) em um contexto de cor- até mesmo o princípio constitu- como por exemplo, a maior articu-
tes no Ministério da Educação? cional de que a educação é dever lação entre a formação superior e
Como melhorar o ensino sem da família e do Estado. a escola, entre a universidade e a
investimentos? educação básica, encontram pos-
Temos assistido a uma verdadeira
sibilidades reais nas atuais Dire-
Monica Ribeiro da Silva – A demonização do público – ao qual
evidência dessa contradição, em trizes Curriculares Nacionais para
se atribui a alcunha de ser caro e
especial no que diz respeito ao ineficiente – decorrente de pers- a Formação Inicial e Continuada
Ensino Médio, está no emprésti- pectiva economicista que possui dos Profissionais do Magistério da
mo realizado pelo MEC logo após claramente a finalidade de justifi- Educação Básica (Parecer CNE/
a aprovação da Lei 13.145/17. Em car a privatização de serviços tidos, CEB 02/2015).
torno de 800 milhões de reais jun- até o presente, como sendo de ofer-
to ao Banco Interamericano para ta pública por ser direito do cida-
IHU On-Line – Deseja acres-
Reconstrução e Desenvolvimento dão e dever do Estado. Assim, flexi-
centar algo?
- eBIRD, essa ação significa a re- bilização das relações de trabalho,
tomada do endividamento externo reforma trabalhista, reforma da Monica Ribeiro da Silva
como política de financiamento de previdência e reformas educacio- – Considero necessário apenas
reformas educacionais, experiên- nais fazem parte de um mesmo ce- explicar as razões da afirmação
cia nefasta que o país havia pra- nário que, em síntese, culmina com feita anteriormente acerca da
ticamente abandonado e agora é a perda dos poucos direitos que a atual reforma do Ensino Médio.
retomada. população brasileira ousara acu- O reconhecimento da existência
mular ao longo de sua história. de problemas na última etapa da
Esse modelo de financiamento de
Educação Básica sinaliza clara-
reformas por meio de endividamen-
to externo mostrou-se inócuo, espe- mente para a necessidade de mu-
cialmente devido às contrapartidas danças. Mas, as alterações apro- 45
exigidas pelos organismos “parcei-
ros” e pelo pagamento de altos juros
“A Educação vadas na Lei 13.415/16 respondem
a essa necessidade? Certamente
que com o tempo consomem os re-
cursos financeiros que seriam des-
Profissional que não. E por quê? Porque fatia o
currículo em itinerários de modo
tinados à educação. Esse cenário se
agrava no contexto de vigência da
Técnica de a que cada estudante faça apenas
um deles. Compromete com isso
Emenda Constitucional 95/16 (PEC Nível Médio no uma formação integral bem como
o acesso a um conjunto de co-
241/55) que impõe teto de gastos nas
áreas sociais, especialmente educa- Brasil é uma nhecimentos nas múltiplas áreas
da ciência e da arte, necessários
necessidade e
ção, saúde e assistência social.
para o desenvolvimento de uma
IHU On-Line – Que disputas visão crítica do mundo; porque
de poder estão em jogo nas
atuais reformas relacionadas à
precisaria estar ilude os jovens com a falsa pro-
messa de que poderão escolher
educação? disponível aos uma das quatro áreas (itinerários
Monica Ribeiro da Silva –
São várias as disputas, desde a que estudantes” formativos) ou a formação técnica
e profissional, e ao mesmo tempo
gira em torno dos sentidos e fina- desobriga os sistemas de ensino
lidades da educação básica, por de oferecer em uma mesma esco-
exemplo, mais voltadas a uma for- la os cinco itinerários propostos;
mação crítica e autônoma ou mais porque contribui ainda mais para
IHU On-Line – Quais os desa- a desvalorização dos professores
atrelada a demandas do mercado,
fios para a formação docente ao instituir a figura do “notório
até a disputa quanto à responsabi-
no nosso tempo?
lidade sobre a oferta, a produção saber” e permitir que pessoas sem
de materiais, a formação de pro- Monica Ribeiro da Silva – Um formação apropriada passem a ter
fessores. Nesse cenário de dispu- primeiro desafio diz respeito à va- direito à docência. Estes, dentre
tas parece estar conquistando uma lorização dessa formação, o que, outros aspectos, constituem-se em
certa hegemonia o que estamos por sua vez, depende, da valoriza- fragilização do direito à educação
chamando por “empresariamento ção do trabalho docente, da escola e básica e compõem o cenário de re-
da educação”. Isso significa que o da educação. Somente um conjun- trocessos a que estamos assistindo
setor empresarial, que vê na edu- to de políticas públicas que articu- no país.■

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Educação Infantil não deve se submeter


à ideia de compartimentação
Paulo Fochi critica a última versão da BNCC e diz que é preciso
compreender que a relação entre ensino e aprendizagem tem outra
lógica a ser seguida nessa primeira fase de educação básica
João Vitor Santos

A
Modernidade impôs uma lógica capitaneou o debate nessa fase deu mais
de fragmentação do conhecimen- ênfase ao letramento e ao numeramento
to através da divisão em áreas. das crianças. “Esse não é o debate da área
Isso chega até a escola, com seu proces- da Educação Infantil, não entendemos
so de ensino e aprendizagem fatiado em que esses dois campos tenham que ter
disciplinas. Se por um lado tal perspecti- predomínio”, argumenta. Isso porque,
va favorece a produção de conhecimento segundo o professor, o grupo que assu-
especializado e índices que podem men- miu a revisão da base na terceira e quarta
surar a eficiência, por outro acaba redu- versão “tem interesse em produzir ava-
zindo a fluidez da experiência no pro- liações de larga escala”, o que seria pos-
cesso. Mesmo no Ensino Fundamental e sível só através da ênfase na alfabetização
Médio, há quem combata essa visão. Na e de indicadores mensuráveis. “A lógica
Educação Infantil, os movimentos sociais de educação deles é essa lógica mensurá-
46 e grande parte da comunidade científica vel, que nós da área de Educação Infantil,
não concorda com a compartimentação incluindo o grupo que estuda avaliação
do conhecimento. Segundo o professor para esta etapa rechaçamos. Nós não en-
Paulo Fochi, essa última versão da Base tendemos que uma avaliação desse nível
Comum Curricular dá ênfase a separa- possa afetar positivamente a vida das
ção do conhecimento a partir das sim- crianças”, acrescenta.
ples alterações dos nomes dos campos de Paulo Sergio Fochi é doutorando
experiência e do modo como colocou os em Educação pela Universidade de São
objetivos. “Na Educação Infantil o conhe- Paulo - USP, mestre em Educação pela
cimento compartimentado não interessa. Universidade Federal do Rio Grande do
Essa ideia de compartimentar o conheci- Sul - UFRGS, especialista em Educa-
mento é uma invenção de muitos séculos ção Infantil pela Unisinos, especialista
e que para as crianças não faz nenhum em Gestão e Organização de Escola e
sentido. Diferentes autores já debateram licenciado em Pedagogia pela Unopar.
sobre isso”, comenta. Fochi ainda explica Atualmente, é professor do curso de
que os bebês e as crianças pequenas “não Pedagogia, coordenador e professor do
constroem e elaboram o conhecimento a curso de especialização em Educação
partir da compartimentação, mas sim a Infantil da Unisinos. Entre suas publi-
partir do todo”. cações, destacamos Afinal, o que os be-
Fochi trabalhou nas duas primeiras ver- bês fazem no berçário? (Porto Alegre:
sões da Base para Educação Infantil, e, na Penso, 2015) e Infância e Educação In-
entrevista concedida por telefone à IHU fantil: linguagens (São Leopoldo: Edi-
On-Line, critica as mudanças feitas na tora Unisinos, 2014).
terceira versão. Segundo ele, o grupo que Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o senhor Comum Curricular - BNCC? Paulo Fochi –  Em 2015, o Mi-
tem acompanhado os deba- Quais os avanços e limites da nistério da Educação nomeou 116
tes acerca da Base Nacional proposta? especialistas, com representantes de

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“[Letramento e numeramento] não é o


debate da área da Educação Infantil,
não entendemos que esses dois
campos tenham que ter predomínio”

todos os estados, vindos de univer- Trabalhamos todo o ano de 2015 e versão da Base. Quando houve a mu-
sidades públicas e algumas privadas, início de 2016 em volta da primeira e dança de governo e, com isso, mu-
e também representantes de secreta- da segunda versão desse documento. danças no Ministério da Educação, a
rias de Educação. Esses especialistas Nós, da Educação Infantil, fizemos opção da atual gestão foi pegar essa
foram selecionados para discutir e mais de 100 reuniões em mais de 20 segunda versão que já havia sido
constituir o documento da Base Na- estados, discutindo com a área, com entrega ao Conselho Nacional de
cional Comum Curricular para Edu- as escolas, com os fóruns de Educa- Educação e entregar para um grupo
cação Infantil, Ensino Fundamental ção Infantil e com as universidades privado, que é o movimento Todos
e Médio. Desses 116 especialistas, as versões que fomos apresentando. pela Base, um grupo financiando por
quatro foram nomeados para a Edu- Além disso, discutimos também com bancos e empresas privadas.
cação Infantil: a professora Zilma o grupo de especialistas que traba-
Ramos de Oliveira1, da Universida- lhavam com a construção do docu- Alfabetização e numera-
de de São Paulo, a professora Silvia mento do Ensino Fundamental, até mento
Cruz2, da Universidade Federal do para pensar questões de articulações
47
Ceará, e a professora Maria Carmen entre Educação Infantil e Ensino Esse grupo não tem envolvimen-
Silveira Barbosa3, da Universidade Fundamental. Ou seja, fomos fazen- to com a área e, além disso, produ-
Federal do Rio Grande do Sul e eu, do um documento que foi discutido ziu uma discussão de forma fecha-
da Unisinos. com a área e, ao mesmo tempo, que da. Este grupo vinha assediando as
este documento representasse o que versões da base que nós estávamos
1 Zilma de Moraes Ramos de Oliveira: possui
nos últimos 15 ou 20 anos nós con- trabalhando desde o princípio, es-
graduação em Pedagogia pela Universidade de
São Paulo, mestrado em Educação (Psicologia da seguimos construir em termos de pecialmente porque eles tinham – e
Educação) pela Pontifícia Universidade Católica ainda tem - interesse que fosse dado
de São Paulo, doutorado em Psicologia (Psicolo- conhecimento sobre a Educação In-
gia Experimental) pela Universidade de São Paulo assento à alfabetização e ao numera-
e Livre-docente pela Faculdade de Filosofia, Ciên- fantil no Brasil.
cias e Letras de Ribeirão Preto da Universidade mento. Esse não é o debate da área
de São Paulo. É Professora Associada da Univer- Em especial entre os anos de 1999 da Educação Infantil, não entende-
sidade de São Paulo. Tem experiência na área de
Psicologia, com ênfase em Psicologia do Desen- e 2009, quando se elabora a revisão mos que esses dois campos tenham
volvimento Humano, atuando principalmente nos
seguintes temas: educação infantil, creche, for- das diretrizes curriculares nacionais que ter predomínio. Sempre com-
mação de professores, desenvolvimento infantil para a educação infantil, a área pro- preendemos que a alfabetização e o
e currículo para educação infantil. (Nota da IHU
On-Line) duziu e acumulou bastante conhe- numeramento são parte da discus-
2 Silvia Helena Vieira Cruz: graduada em Psico-
logia, mestre em Psicologia Escolar e do Desen- cimento. Então, nós quatro sempre são da Educação Infantil, mas uma
volvimento Humano e também doutora em Psi- afirmamos que na base nós estáva- base não pode se reduzir a isso.
cologia Escolar e do Desenvolvimento Humano
pela Universidade de São Paulo. Realizou estágio mos representando muito mais o
pós-doutorado na Universidade do Minho (Braga Quando esse grupo assumiu a ter-
-Portugal) em 2007. É professora titular da Univer- fortalecimento de um campo do que
sidade Federal do Ceará, com experiência na área ceira versão, de forma fechada e sem
de Educação, com ênfase em Educação Infantil.
ideias particulares. Nós entendemos
debate com a área, fizeram as altera-
(Nota da IHU On-Line) que muitas das questões, ou pelo
3 Maria Carmen Silveira Barbosa: graduada ções conforme a desejavam: colocar
em Pedagogia pela Universidade Federal do Rio menos os conceitos básicos, que tí-
Grande do Sul, especialista em Alfabetização em o assento nas questões de alfabetiza-
Classes Populares pelo Grupo de Estudos sobre
nhamos que ali discutir já estavam
ção e numeramento e escrever obje-
Educação, Metodologia da Pesquisa e Ação - expressas na Diretriz Curricular Na-
GEEMPA e em Problemas no Desenvolvimento tivos que facilmente se tornem em
Infantil pelo Centro Lidia Coriat, mestre em Pla- cional para Educação Infantil, que é
nejamento em Educação pela Universidade Fede- indicadores de avaliação. Esse grupo
ral do Rio Grande do Sul, doutora em Educação
um documento que nós entendemos
reúne outras ONGs e fundações que
pela Universidade Estadual de Campinas. Realizou que representa como um certo con-
estágio pós-doutoral na Universitat de Vic, Cata- também são, na verdade, financia-
lunya, Espanha. Atualmente é Professora Titular senso da área.
na Faculdade de Educação da Universidade Fede- das por empresas e bancos e tem
ral do Rio Grande do Sul e atua como Professora Esse foi meu envolvimento na interesse em produzir avaliações de
Permanente no Programa de Pós-Graduação em
Educação. (Nota da IHU On-Line) construção da primeira e da segunda larga escala.

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TEMA DE CAPA

Instrumentos quantitati- fechados, em que o acesso foi sem- A ideia dos campos de experiência
vos para avaliação pre muito restrito. O acompanha- foi também para mobilizar a reflexão
mento que temos conseguido fazer sobre a organização do currículo a
Criar indicadores externos para nos últimos tempos tem a ver com respeito dessa outra possibilidade de
avaliar as crianças, ao final da Edu- a divulgação da própria mídia e, no constituir uma escola de Educação
cação infantil, não contribui para a último caso (para a 3 versão), para Infantil que respeite a especificida-
construção da qualidade e da equida- as versões que foram enviadas para de das crianças que estão chegando
de em educação, ao contrário, o que discussão nos conselhos estaduais nesse espaço institucional. Então,
pode construir é desigualdade e fra- de Educação. propusemos cinco campos de expe-
casso. Criar indicadores para avaliar riência, e nenhum deles se remetia
a qualidade da Educação Infantil é di- à área de conhecimento. Na terceira
ferente de criar indicadores externos IHU On-Line – A BNCC tem versão da Base, o grupo do Movi-
para avaliar as crianças na Educação suscitado muitos debates acer- mento Todos pela Educação4 trans-
Infantil. Sobre este tema, nós já te- ca dos currículos do Ensino formou dois dos campos de experi-
mos um certo conhecimento acumu- Fundamental e Médio. Entre- ência em áreas relativas à linguagem
lado inclusive em projeto financiado tanto, a Base deve também oral e escrita e outra ao numeramen-
pelo MEC nos anos de 2015 e 2016 nortear os currículos e as pro- to, o que desconstrói a lógica inicial
em convênio com a Universidade postas pedagógicas de escolas dos campos de experiência.
Federal do Paraná. Fazer avaliações públicas e privadas de Educa-
externas (em larga escala) não afeta ção Infantil. O que a BNCC pre- Direitos de aprendizagem
positivamente a vida das crianças, a vê no que diz respeito à Educa-
vida da escola e a qualificação da edu- ção Infantil? Além desses cinco campos, nós
cação como um todo. Mesmo países propusemos seis direitos de apren-
Paulo Fochi – A estrutura do do-
que já adotaram este tipo de avalia- dizagem. Esses direitos falam o que
cumento da Base como um todo era
ção em larga escala, por exemplo, Es- nós, a partir dos valores éticos, es-
organizada por direitos de aprendi-
tados Unidos, não têm nada de muito téticos e políticos da Diretriz Cur-
zagem e objetivos de aprendizagem.
interessante e positivo para mostrar, ricular Nacional, conseguimos en-
Nós da Educação Infantil entende-
48 a não ser criar rankings em esco- tender que é direito de toda criança
las para dizer “essa aqui é melhor” mos, quando construímos a primeira
e a segunda versão, e se manteve na que acessa uma escola de Educação
e “essa aqui não é a melhor”, sem Infantil no Brasil. Isso porque, ao
proposta para melhorar aquela que terceira, que não iríamos estruturar a
organização curricular para a Educa- mesmo tempo que estavam expres-
não era boa. Aliás, quando pensamos sos de alguma forma nos princípios
em boas experiências educativas não ção Infantil em áreas de conhecimen-
to. Isso porque na Educação Infantil éticos, estéticos e políticos, eles tam-
lembramos dos Estados Unidos, lem- bém representam os modos como
bramos de Finlândia, Itália. Estes pa- o conhecimento especializado por
áreas não interessa. Conseguir isso as crianças aprendem. Tais direitos
íses, por exemplo, não tem esse tipo são: o direito de conviver, de brin-
de avaliação. foi uma grande conquista. Essa ideia
de compartimentar o conhecimento car, de explorar, de participar, de se
Desde que houve a alteração do é uma invenção de muitos séculos e expressar e de se conhecer. Assim,
grupo de trabalho na Base como um que para as crianças não faz nenhum estruturamos a primeira e segunda
todo, os 116 especialistas não compu- sentido, porque elas não constroem e versão apresentando os direitos e,
seram mais o debate. Nós, da Edu- elaboram o conhecimento e o sentido depois, os campos de experiência,
cação Infantil, a partir de nossa re- do conhecimento a partir da compar- que, a princípio, não se remetiam às
presentação nos fóruns de Educação timentação, mas sim a partir do todo. áreas de conhecimento e que davam
Infantil e da nossa militância na área, uma ideia mais global de como o co-
temos mesmo assim mobilizado, Assim, optamos por estruturar o nhecimento poderia ser construído
mesmo que por fora, esse debate. Es- documento por campos de experiên- dentro da escola.
crevemos notas sugerindo mudanças cia. Essa ideia de campos de experi-
sobre a terceira versão, que foi publi- ência - que é uma ideia originalmente Cuidado e aprendizagem
cada há pouco tempo, posicionando da Itália e que fomos reelaborando a
quais eram as nossas questões. partir dessa experiência italiana que Essa perspectiva revela como é im-
surgiu nos anos 1990 com a reforma portante compreender que o cuida-
Restrições do debate pedagógica - está centrada na ação
da criança. Entendemos que por 4 Todos pela Educação (TPE): é uma organização
sem fins lucrativos composta por diversos setores
A versão três e agora uma versão ser essa a primeira vez que o Brasil da sociedade brasileira com o objetivo de assegu-
quatro, que parece que vai ter de elabora uma base comum curricular rar o direito à Educação Básica de qualidade para
todos os cidadãos até 2022, ano que se come-
sair, que está em negociação entre para a Educação Infantil, tínhamos mora o bicentenário da independência do Brasil.
Fundado em 2006, o movimento conta com 32
o Conselho Nacional e o Ministério que, ao mesmo tempo, fazer uma po- organizações, entre mantenedores e parceiros, e
da Educação, são versões que es- lítica formativamente indutora para quase 200 representantes divididos entre os di-
versos cargos da estrutura organizacional do TPE.
tão sendo feitas muito em grupos os professores. (Nota da IHU On-Line)

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do na Educação Infantil é uma mo- dada cultura. Enfim, o modo como damental. Acontece que essa forma-
dalidade de atividade das crianças. nos comportamos em diferentes si- ção generalista, que é o único curso
Aprender a se vestir é uma ativida- tuações é construído também cul- de formação docente que temos, não
de e isso não se faz dizendo “agora, turalmente e, portanto, faz parte de consegue tratar da especificidade
vamos todos sentar e nos vestir”, se um conhecimento para essas crian- da Educação Infantil, da especifici-
faz no modo inicialmente como um ças que estão chegando ao mundo dade do conhecimento praxiológico
professor veste uma criança e que também construírem. para atuar na Educação Infantil e
assim está ensinando, no sentido tampouco no Ensino Fundamental.
Nos campos de experiência, con-
etimológico da palavra, que é in- Temos, no Brasil, um problema de
seguimos também ter lugar para
signare, deixar marca, mostrando concepção sobre o curso de Pedago-
essas questões do cotidiano além
para ela como é que pode, aos pou- gia. A pedagogia é o único curso que
do acesso ao patrimônio que a hu-
cos, ir se vestindo. E posso pensar a forma professores para trabalhar na
manidade sistematizou. Ou seja,
mesma coisa a respeito de limpar o Educação Infantil e nas séries ini-
para nós não significa apenas ati-
nariz, de se alimentar, posso ainda ciais do Ensino Fundamental, mas o
vidades de cuidado para com as
pensar o mesmo com relação a se curso não está direcionado à docên-
crianças, significa algo muito im-
deslocar pela escola. cia. É generalista e abarca diferentes
portante porque, inclusive, diz res-
possibilidades de atuação do Peda-
Então, não separamos as ativida- peito à construção da identidade,
gogo. No entanto, sendo o único cur-
des de cuidado com as atividades do “eu” no mundo – como eu cuido
so superior para formação docente,
que são de acesso e articulação de mim, como eu cuido do outro e
minha opinião é que deveria estar
com o patrimônio que a humani- como eu cuido do mundo.
centrado na docência.
dade já sistematizou. Na Educação
Infantil, nós não temos aulas. Não Portanto, nos últimos dez anos,

“Na Educação
se organiza assim a escola, por isso todas as políticas que foram se con-
que não se chama ensino infantil, cebendo no âmbito do Ministério da
e sim Educação Infantil, porque
tem uma noção de educar que é Infantil o Educação foram também bastante
indutivas. Essas políticas foram in-
maior do que apenas ensinar. Não
temos alunos, temos crianças que conhecimento duzindo a um modo de atuar com as
crianças ao mesmo tempo em que se
49
frequentam a escola em que a jor-
nada de aprendizagem é baseada especializado normatizavam determinadas ques-
tões. E isso foi um avanço muito im-
nas experiências pedagógicas, di-
ferente do que são aulas, separa-
não interessa” portante, a gente cresceu muito nos
últimos anos na Educação Infantil
das por áreas do conhecimento e no Brasil, tanto em termos de acesso
que separam o que é cuidado e o como num âmbito de conhecimento
IHU On-Line – Quais as espe-
que é educar. específico dessa etapa. As políticas
cificidades da Educação Infan-
voltadas para a Educação Infantil
Desde 1996, falamos da relação til com relação a outras etapas
que nós temos até então são muito
indissociável entre cuidar e edu- escolares? E quais os desafios
indutivas para o professor aprender
car; são coisas que andam juntas para a formação profissional
a atuar. Como já destaquei, a estru-
e uma produz a outra. Isso é im- nessa área?
tura da Educação Infantil é muito
portante entender para quando se
Paulo Fochi – De certa forma, já diferente do Ensino Fundamental e
pensa nesse arranjo curricular que
tratamos dessas questões anterior- de toda essa lógica que a gente co-
fizemos sobre os campos de expe-
mente, quando falávamos dos ob- nhece como aluno, que é de ter aulas
riência. Nos campos de experiência
jetivos, no sentido de que eles têm divididas por períodos, um professor
também aparecem essas questões
que ser constituídos não para serem que ensina e um aluno que aprende.
relativas ao que nós entendemos
mensurados, como acabou fican- A Educação Infantil não é assim.
como cuidado, porque entendemos
do na terceira versão, pois isso não
isso como um modo de aprender Então se imagina que um profes-
ajuda na qualificação da escola. Pre-
sobre si, sobre o outro e sobre o sor que vai atuar na Educação In-
cisamos construir políticas públicas
mundo. A forma como nos alimen- fantil também tem que descobrir
que induzam o professor na busca de
tamos no Brasil, por exemplo, é um modo de construir sua docência
formas alternativas à lógica da men-
uma forma particular de país que não da forma que ele conheceu como
suração. E com isso, também, entro
construiu essa noção de alimenta- aluno por tantos anos e que a forma-
um pouco na questão dos desafios da
ção, que é diferente inclusive entre ção profissional dele não conseguiu
formação desse profissional.
os estados, diferente também em desconstruir para construir uma for-
relação a outras partes do mundo. Os nossos cursos de Pedagogia são ma alternativa de ser professor. Se
Portanto a experiência da criança cursos generalistas, que formam por um lado temos que avançar em
comer na escola envolve a parti- professores tanto para atuar na Edu- termos de formação para conseguir
cipação e o pertencimento a uma cação Infantil como no Ensino Fun- fazer essa desconstrução, por outro,

EDIÇÃO 516
TEMA DE CAPA

em termos de política, foi-se conse- temos cerca de 30 ou 40% do curso. com as crianças. É muito diferente
guindo fazer isso pela forma que as É possível, por exemplo, imaginar ser professor de bebê de zero a dois
próprias políticas induziram o pro- um curso de Engenharia com 30% anos e ser professor de criança de
fessor a pensar sobre o seu lugar de de assuntos específicos de engenha- dois a quatro anos, porque nesses
docência para atender a especificida- ria? Não conseguimos, mas conse- zero a dois anos há uma intensidade
de da Educação Infantil. guimos imaginar e fazer um curso de acontecimentos e aprendizagens
de Pedagogia desta forma. Existe um e há uma relação de dependência e
Educação Infantil no âmbi- problema de compreender o que é independência dessas crianças com
to da educação básica pedagogia, de afirmar a pedagogia o adulto que é muito distinta da que
como aquele campo que vai afirmar vai se dar depois dos dois anos.
Nesse sentido, pensar objetivos os professores.
de aprendizagem não é pensar se
Uma relação para além da
aprendeu isso ou aquilo. Devem ser
palavra
objetivos que garantam que todas IHU On-Line – O que implica
as crianças que acessam a escola e quais as complexidades para Existe, ainda, a complexidade do
tenham direito de acessar um patri- se acolher uma criança peque- entendimento: como se constrói o
mônio que a humanidade já sistema- na, especialmente um bebê, no conhecimento com aqueles que não
tizou, mas, sobretudo, com sentido. ambiente de uma escola?  falam, que são os bebês? Descobrir
É nisso que consiste nossa defesa, outras formas de relação e interação
de que essa questão de discutir esses Paulo Fochi – Vai um pouco no
que não aquela pautada pela palavra
pontos deveria estar dentro da Base. âmbito de tudo que eu já vinha des-
é recuperar em nós mesmos uma
Como primeira etapa da Educação tacando. Partimos de uma outra ló-
linguagem que já esquecemos, que é
Básica, nós entendemos que discutir gica de Educação Infantil, de outro
uma linguagem do corpo, que se co-
isso é também fortalecer a identida- modo de fazer funcionar uma esco-
munica pelo modo com que eu toco
de da Educação Infantil no âmbito la... A complexidade tem a ver, de
na criança. Uso sempre o exemplo
da educação básica. um ponto de vista bem pragmático
da criança que está sentada no chão,
e organizacional, com uma infraes-
É também discutir o direito de que trutura que demanda acolher bebês, com o nariz escorrendo, como acon-
50 todas as crianças têm de acessar tece muito no inverno. O modo como
o que implica ter um lactário, fral-
uma escola laica, de qualidade e que dário, uma zona para as crianças te- interpelo essa criança é também
ali ela possa ter excelentes oportu- rem uma circulação livre e um espa- construir uma noção de mundo com
nidades educativas com professores essa criança; é construir uma rela-
ço satisfatório. Quer dizer, implica
qualificados, que saibam entender ção de realidade com essa criança,
ter uma estrutura física e também
a especificidade dessa faixa etária. de interação para além da palavra. E
de pessoal.
Discutir uma base curricular para recuperar isso no âmbito da docên-
Educação Infantil, para além de dis- A relação adulto x criança, mesmo cia, no âmbito da interação adulto e
cutir o que as crianças têm direito de a estabelecida pela Diretriz Curri- criança é muito difícil, porque nós
ter acesso, é discutir a importância cular, é muito difícil de dar conta, estamos constituídos pela palavra,
social, política e pedagógica que essa pois fala de oito bebês de zero a um atravessamos e interpelamos pela
etapa tem numa sociedade. ano por adulto, e isso é muito difí- palavra e temos uma ideia de cons-
cil do ponto de vista da atuação do trução de conhecimento que se dá
Pedagogia com pouca pe- professor. Sei que esse é um ponto pela palavra.
dagogia em que os gestores, os municípios
reclamam, porque acham que fica Entender uma possibilidade de
Ainda sobre o curso de Pedago- muito caro. Imagine se pensásse- construção de conhecimento pela
gia, temos um curso de Pedagogia mos pela lógica mesmo da necessi- não palavra, por outras vias, como
que tem muito pouco de pedagogia. dade, de que seriam cinco bebês por dizia Malaguzzi5, por outras 99 lin-
No Brasil me parece que não temos adulto, o quanto isso seria também guagens que não a palavra, é sim um
clara a diferença entre Ciência da bastante caro. grande desafio. Escrevi num texto há
Educação e Pedagogia, sendo essa uns dois anos, que se chama A com-
última uma ciência praxiológica. As- Do ponto de vista formativo, existe
sim acabamos tendo um curso com outra complexidade: pouco se fala 5 Loris Malaguzzi (1920-1994): foi um pedagogo
e professor italiano. Constituiu um princípio de
um monte de disciplinas de História sobre como acolher um bebê no âm- ensino em que não existem as disciplinas formais
da Educação, Filosofia da Educação, bito da formação do professor. Nós e que todas as atividades pedagógicas se desen-
volvem por meio de projetos. Estes projetos, no
Psicologia da Educação, Sociologia temos pouquíssimas experiências entanto, não são antecipadamente planejados
pelos professores, mas surgem através das ideias
da Educação, e que são muito im- brasileiras com boas práticas com dos próprios alunos, e são desenvolvidos por
portantes, mas que não podem ser bebês. É difícil que o próprio pro- meio de diferentes linguagens. O ensinamento
que sustenta todo esse princípio é a Pedagogia
uma parte representativa em relação fessor construa uma certa coleção da Escuta. (Nota da IHU On-Line)
ao que é especificamente da pedago- de exemplos para entender como ele O texto pode ser acessado em http://bit.ly/2zAru-
gia. De pedagogia, especificamente, pode constituir seu modo de atuar XO. (Nota da IHU On-Line)

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plexa sutileza de ser professor de be- pois se dá conta de que as crianças precisam ser bebês. Um bebê tem o
bês, que se constitui por uma série têm um monte de coisas para dizer. direito de ser bebê, ter o seu ritmo
de sutis ações, de modos de interpe- E ele se dá conta disso porque não respeitado, uma criança tem que ter
lar, que ainda não cartografamos do tem um adulto dizendo o tempo in- o direito de ser criança.
ponto de vista pedagógico. teiro o que ela tem que fazer. Hoje,
Toda essa ideia que se veio consti-
a realidade das crianças é um adulto
tuindo de preparar as crianças para
Relação com as famílias dizendo, o tempo inteiro, o que ela
o futuro é uma besteira gigante. A
tem que fazer, e estão sempre as-
Outra dimensão dessa questão de nossa ideia de futuro é inimaginá-
sistidas por um adulto, se não é por
acolhimento de bebês na escola tem vel, pois as coisas estão se trans-
um adulto é por uma câmera que o
a ver também com as relações com a formando, então tudo que estamos
pai pode acessar pela internet. Se
família. O que representa para uma aqui preparando para que depois
as crianças não tiverem espaços de
família de periferia levar seu filho à usem pode já não servir mais. To-
“sozinhez”, elas não vão ter o que
escola; o que isso representa para dos esses aparatos tecnológicos já
dizer, o que compartilhar.
uma família burguesa; como a esco- serão obsoletos quando as crianças
la cumpre seu papel, conforme está Tem alguma coisa na dimensão do forem usar. Além do mais, nesse
explicitado na lei, de corresponsá- humano que se dá pelas vias das re- mundo de incerteza líquida, como
vel pela educação das crianças e que lações, e hoje, no excesso da virtua- diz Bauman7, precisamos começar
isso não significa para os pais tercei- lidade, construir uma noção real de a nos ocupar das coisas que são,
rizar a educação para a escola. Não interatividade é alguma coisa que de fato, concretas, que é o agora. O
é duelar com a família, não é lugar precisamos começar a pensar seria- agora das crianças está demandan-
de depósito, não é um lugar de “cui- mente. A escola tem um valor fun- do uma outra relação; elas preci-
da-se” – no mau sentido da palavra, damental na vida das crianças por sam de um adulto responsável que
de assistência –, mas é um lugar de esse aspecto da cultura infantil, da ofereça uma possibilidade de estar
amplo cuidado, de construção do co- interação criança com criança. Só no mundo desde um outro lugar
nhecimento, de não aceleração dos que, para as crianças interagirem, que não é uma agenda cheia, que
bebês, de respeito aos seus ritmos, tem que ter um adulto competente não é o tempo todo mediado por
de respeito aos seus tempos, de en- que crie espaços de interação em uma tela. 51
volvimento da família para que olhe que não fique mediando e interpe-
para esse bebê e o reconheça na sua lando, o que não significa abando-
nar as crianças. É uma coisa mui- IHU On-Line – No Brasil, é
potência. Ou seja, tem uma comple-
to sutil, que se consegue construir comum, especialmente no con-
xidade também na relação com as
numa intervenção indireta, através texto de periferias, ouvirmos
famílias, no sentido de que tem uma
de uma boa organização de espa- falar em déficit no número de
novidade em pensar isso desde um
ços, seleção de materiais e gestão vagas na Educação Infantil –
ponto de vista pedagógico e de uma
de tempo. É possível fazer com que em muitos municípios do RS,
pedagogia que respeita as crianças.
as crianças tenham interações ade- inclusive, o Ministério Públi-
quadas, de qualidade, sem excessos co cobra a ampliação de vagas
IHU On-Line – Como assegu- e tendo uma relação com o espaço através de Termos de Ajusta-
rar o desenvolvimento e apren- de forma satisfatória, e que consi- mento de Conduta. Quais os
dizagem das crianças na pri- ga distanciar o adulto para que as desafios para assegurar escolas
meira infância sem sobrecarga crianças consigam, entre elas, in- públicas de Educação Infantil
e tampouco desenvolvendo teragir, sem a presença constante de qualidade e com número su-
apenas atividades relacionadas ficiente de vagas?
desse adulto.
ao cuidado dessas crianças? E Paulo Fochi – Temos um sério
qual o papel da regulamenta- “Parem de enlouquecer as problema. Tenho falado com o pes-
ção legal para assegurar a Edu- crianças”
cação Infantil de qualidade? 7 Zygmunt Bauman (1925-2017): sociólogo po-
Devemos desconstruir essa ideia lonês, professor emérito nas Universidades de
Varsóvia, na Polônia e de Leeds, na Inglaterra. Pu-
Paulo Fochi – Já falamos bas- de escola que enche as agendas das blicamos uma resenha do seu livro Amor Líquido
tante sobre cuidado e aprendiza- (São Paulo: Jorge Zahar Editores, 2004), na 113ª
crianças com uma série de ativida- edição da IHU On-Line, de 30-8-2004, disponível
gem, mas gostaria de complementar des. Escrevi certa vez para uma revis- em http://bit.ly/ihuon113. Publicamos uma en-
trevista exclusiva com Bauman na revista IHU On
lembrando que Freinet6 (isso lá nos ta: “parem de enlouquecer as crian- -Line edição 181 de 22-5-2006, disponível para
anos 30) vai desenvolver uma série download em http://bit.ly/ihuon181. Por ocasião
ças”. Continuo dizendo isso cada vez de sua morte, o IHU, na seção Notícias do Dia
de técnicas dentro de sua pedagogia, mais. Parem de encher as crianças de seu sítio, publicou diversos textos sobre a im-
portância de Bauman para compreender o nosso
de atividades, elas já nascem cheias tempo. Entre eles, Zygmunt Bauman representa-
6 Celestin Freinet (1896-1966): pedagogo anar- va algum conforto em um mundo cada vez mais
quista francês, uma importante referência da pe- de deveres, têm que caminhar, fa- cinzento, artigo de Ricardo Lísias, reproduzido em
dagogia de sua época, cujas propostas continuam lar, ter sucesso, ser felizes etc. Isso 10-1-2017, disponível em http://bit.ly/2mUoJFm.
tendo grande ressonância na educação dos dias Leia mais em ihu.unisinos.br/maisnoticias/noti-
atuais. (Nota da IHU On-Line) é demasiado para a vida delas, elas cias. (Nota da IHU On-Line)

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TEMA DE CAPA

soal do Ministério da Educação e dividido. E essa política de Educa- na Europa inteira a jornada máxi-
hoje temos cerca de 15 milhões de ção é eficiente quando ela consegue ma da escola é de sete horas. Isso
crianças matriculadas, o que deve ir para além do que ela se propõe implica fazer com que os pais se
representar cerca de 50 ou 60% de enquanto um documento norma- organizem profissionalmente para
crianças de zero a cinco anos ma- tivo, conseguindo mobilizar num estar com as crianças nos outros
triculadas. Significa que temos 30 campo micro e num campo macro horários – e pais de todas as clas-
ou 40% de crianças sem vagas, o questões que estavam ali paradas, ses sociais. Nas nossas condições
que representa alguns milhões de fazer com que se discuta o que não de trabalho e vida, é muito difícil
crianças. Crescemos muito, mui- se estava discutindo. Uma política pensar isso. Quando elaboramos
to mesmo em termos de vaga com pública que no âmbito da Educação uma política pública, temos que
o programa Pró-Infância, criado Infantil foi muito importante, por pensar como ela pode desencade-
pelo Governo Federal para auxiliar exemplo, foram as Diretrizes Cur- ar movimentos que transformem
os municípios, já que a Educação riculares Nacionais que foram re- as realidades.
Infantil é de responsabilidade dos vistas em 2009 e apresentam uma
No caso da Diretriz Curricular, a
municípios, mas estamos muito mudança de chave de leitura para
política começou a tensionar, por
longe ainda de universalizar o aces- essa fase escolar. Isso foi muito im-
exemplo, para que os conselhos
so das crianças. portante e impactou o modo como
municipais de Educação come-
os gestores vinham encarando a çassem a discutir a relação adulto
Por outro lado, não adianta só
Educação Infantil, o modo como o x criança, a metragem mínima de
universalizar se não discutirmos
próprio Ministério da Educação es- uma sala para um número X de
a qualidade dessas escolas, por-
tava tratando a Educação Infantil, crianças, que fosse se olhar a for-
que se as escolas não forem boas
o modo como a pesquisa no âmbi- mação dos professores. Isso levou à
para as crianças não é bom que
to da universidade vinha falando elaboração de políticas locais para
haja 100 ou 250 crianças dentro
a respeito da Educação Infantil, o garantir a qualidade da educação.
de um lugar em condições inade- modo como a formação inicial es-
quadas e com profissionais inade- tava ou não falando de um docu-
quados. Temos que discutir uma Papel da Base
mento norteador importante para
52 boa formação inicial para esses pensar a estrutura dessa primeira A função da Base, em específico,
professores, uma boa formação etapa da educação. é apresentar a Educação Infantil
continuada, condições de trabalho
como primeira etapa da educação
adequadas, escolas com espaços Ou seja, ela é considerada efi-
básica. Eu sentia isso quando tra-
adequados, saber envolver as fa- ciente quando consegue cumprir
balhávamos até a segunda versão,
mílias para que elas se responsa- com esse seu papel de desenca-
pois, quando sentávamos com os
bilizem pelos processos de educa- dear que movimentos possam ir
outros 116 especialistas, víamos que
ção das crianças. Há uma série de acontecendo, porque não tenho a
desconheciam completamente o
questões que devem andar junto ilusão de que ela consiga resolver,
que era a Educação Infantil e come-
com a discussão de acesso à vaga. equacionar efetivamente alguma
çaram a conhecer no debate que fo-
coisa. Um documento não tem
mos produzindo entre os especialis-
essa força, não num país como o
tas que estavam trabalhando. Fora
IHU On-Line – Uma política nosso, nessas dimensões. Pensar a
desses especialistas, também com
pública de Educação Infantil Educação Infantil está relaciona-
outras entidades e discussões que
eficiente passa necessariamen- do com muitas questões de fundo,
produzimos, conseguimos apresen-
te por quais processos? tem a ver, inclusive, com a condi-
tar a especificidade da Educação
ção de moradia das famílias, con-
Paulo Fochi – Uma política Infantil. Nunca se ouviu falar tan-
dições de trabalho das famílias.
pública de Educação Infantil dife- to em Educação Infantil como nos
rente de uma política pública para A jornada da escola no Brasil, por últimos três anos, e isso muito em
infância, pois temos no Brasil isso exemplo, é de 12 horas, enquanto função da Base.■

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A mediocrização da educação pública


Daniel Cara destaca que a proposta da Base Comum
não resolve os problemas do Brasil e ainda abre caminho
para a perspectiva de privatização do ensino
João Vitor Santos

O
professor Daniel Cara reco- mas”. Para ele, tão importante quando
nhece a importância de se a implementação da base é conceber
constituir uma base comum melhor remuneração e condições de
curricular, mas destaca que essa não trabalho a professores. E, ainda, viabi-
dever vista como única alternativa para lizar estruturas que auxiliem o desen-
acabar com os déficits educacionais do volvimento das aulas, como bibliotecas,
país. “Há exageros na importância da laboratórios de ciências e informática,
Base Nacional Comum Curricular – internet banda larga, alimentação nu-
BNCC, há quem ache que ela solucio- tritiva e transporte escolar. “Sem isso,
nará tudo. Mas ela não é a salvação da não adianta BNCC”, resume.
lavoura”, reitera. Além disso, pontua Daniel Tojeira Cara é doutorando
que essa última versão do projeto está em Educação pela Universidade de São
muito aquém do que se espera de uma Paulo – USP, mestre em Ciência Políti-
boa base. “O Governo Temer produziu
53
ca e bacharel em Ciências Sociais pela
uma péssima versão, orientada para mesma instituição. Atualmente é coor-
responder às avaliações de larga escala denador geral da Campanha Nacional
e que vai colaborar com processos de pelo Direito à Educação, membro titu-
privatização, já ensaiados por governos lar do Fórum Nacional de Educação e
estaduais, especialmente o de Goiás, do Conselho Universitário da Universi-
gerido pelo PSDB”, dispara. dade Federal de São Paulo – Unifesp.
Na entrevista concedida por e-mail à Entre suas publicações, destacamos
IHU On-Line, Cara também denuncia Por que o Brasil precisa de um inves-
que a proposta pode levar à derroca- timento público direto equivalente a
da da escola pública. “A política eco- 10% do PIB para a educação pública?
nômica de austeridade vai dizer que o (Universidade e Sociedade (Brasília), v.
povo não cabe no orçamento público 50, p. 122-135, 2012) e Municípios no
brasileiro”, analisa. E acrescenta: “es- pacto federativo: fragilidades sobre-
tou cansado de amadores pedagógicos postas (Retratos da Escola, v. 6, p. 255-
falando sobre educação. Isso atrasa a 273, 2012).
área e nos afasta da solução dos proble- Confira a entrevista.

IHU On-Line – Por que, num extenso programa de distribuição BNCC, há quem ache que ela solu-
país de dimensões continentais de livros didáticos, o Programa Na- cionará tudo. Mas ela não é a sal-
e tão diverso como o Brasil, é cional do Livro Didático – PNLD. vação da lavoura. Eu diria até que é
necessário conceber uma Base Na prática, o livro didático já ex- secundária diante das dívidas educa-
Nacional Comum Curricular – pressa uma política curricular. Ou cionais que temos. Nosso maior pro-
BNCC? seja, não estamos saindo do zero, blema é o subfinanciamento da edu-
como muitos dizem.
Daniel Cara – Essa é a questão cação básica pública, e isso causa a
mais importante. O Brasil tem um Há exageros na importância da desvalorização docente – o principal

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TEMA DE CAPA

motivo para a baixa qualidade das textos da BNCC: o primeiro para nós Daniel Cara – É preciso ter esco-
nossas escolas. e para a imprensa em que consta las que cumpram com o Custo Alu-
“identidade de gênero” e “orientação no-Qualidade Inicial - CAQI3, garan-
Dito isso, uma boa BNCC colabora?
sexual”. Outro, oficial, foi entregue tindo padrões mínimos de qualidade
Sim. Contudo, vale grifar: uma boa
ao Conselho Nacional da Educação para todas as escolas. Ou seja, todas
BNCC. E, sozinha, não resolve nada.
- CNE, que exclui ambos. Distribuir devem ter professores bem remune-
A melhor BNCC com um professor
dois textos de um mesmo documen- rados, com política de carreira, for-
desmotivado, sem condições ade-
to ou é incompetência ou má-fé. Até mação continuada, salas de aula com
quadas de trabalho, terá resultado
podem ser os dois. Tudo para não número adequado de alunos por tur-
nulo. Não vamos melhorar nossa re-
desagradar a base parlamentar ul- ma, além de bibliotecas, laboratórios
lação de ensino-aprendizagem.
traconservadora de Temer. de ciências e Informática, Internet
banda larga, alimentação nutritiva
IHU On-Line – Como avalia a e transporte escolar decente. Sem
IHU On-Line – Outro ponto isso, não adianta BNCC.
última versão da BNCC?
da BNCC que tem gerado mui-
Daniel Cara – Se uma boa BNCC to debate diz respeito ao Ensi-
não resolve, imagina uma ruim. O no Religioso. Qual é o papel do IHU On-Line – Vivemos um
Governo Temer produziu uma pés- Ensino Religioso na formação tempo de pouca disposição ao
sima versão, orientada para respon- escolar dos indivíduos? E como diálogo e de avanço de ondas
der às avaliações de larga escala e avalia a decisão do Supremo mais conservadoras. De que
que vai colaborar com processos Tribunal Federal - STF, que forma a ideia de reforma do
de privatização, já ensaiados por permitiu a instituição de Ensi- Ensino Médio pode servir de
governos estaduais, especialmente no Religioso confessional? instrumento para solidificação
o de Goiás, gerido pelo PSDB1. A Daniela Cara – Primeiro, dizer dessas perspectivas?
BNCC do jeito que está mediocriza- que o Brasil é um Estado Laico é Daniel Cara – Se a educação
rá as escolas públicas. insistir em uma falácia. Segundo, o fosse significativa e emancipadora,
54 STF decidiu descumprir a Constitui- os ultraconservadores não teriam
ção Federal e os princípios dos Direi- tanta força. Eles se alimentam da
IHU On-Line – Um dos pontos
tos Humanos. ignorância.
mais polêmicos da BNCC diz
respeito a questões de gênero. A Reforma do Ensino Médio re-
Como o senhor tem visto esses IHU On-Line – Qual deve ser produz a lógica de uma educação
debates? o impacto na escola pública se medíocre, orientada a cindir aqueles
Daniel Cara – Organizações ul- a BNCC fosse implementada que vão para o mercado de trabalho,
traconservadoras, como o movimen- hoje? E na rede privada? servindo como mão de obra barata, e
to ‘Escola sem Partido’2, buscam aqueles que terão ensino propedêu-
Daniel Cara – Uma BNCC pro- tico. É preciso reformar o ensino,
massificar sua posição promovendo duzida pelo Governo Temer, que
o ‘pânico moral’. Praticam a covar- mas não no espírito de precarização
carece de legitimidade, orienta-
dia, mergulham na irresponsabilida- de Temer, mas no caminho do Plano
da para a privatização e para as
de. Vivem de cooptar e assustar pais, Nacional de Educação - PNE.
avaliações de larga escala, mes-
utilizando um conceito acusatório mo com o apoio da União Nacio-
criado no seio das Igrejas Cristãs – e nal dos Dirigentes Municipais de IHU On-Line – Como conce-
que na prática é inconsistente: a ide- Educação - Undime e do Conselho ber uma ideia de reforma da
ologia de gênero. Um absurdo inte- Nacional de Secretários de Educa- educação no Brasil, num con-
lectual. Mas, pior foi o Governo Te- ção - Consed, não chegará a lugar texto de imposição de limites
mer apoiar o projeto e distribuir dois algum. Quando ficar pronta, vai orçamentários e sob a justifica-
gerar algum burburinho. Depois, tiva da austeridade?
1 O IHU vem acompanhando essa discussão, pu-
blicando textos na seção Notícias do Dia, em seu morrerá. Até porque estão prome-
sítio, acerca do assunto. Entre eles Professor Uber: tendo que ela será a solução da la- Daniel Cara – Demonstrando
a precarização do trabalho invade as salas de aula,
disponível em http://bit.ly/2zNsms5. (Nota da voura, gerando expectativas muito que a austeridade é uma ideia econô-
IHU On-Line) mica inaceitável e que a prioridade
2 Programa Escola sem Partido [ou apenas Es- grandes. Na hora H será frustran-
cola sem Partido]: é um movimento político cria- te e desmobilizadora. deve ser dedicar o orçamento públi-
do em 2004 no Brasil e divulgado em todo o país
pelo advogado Miguel Nagib. Ele e os defensores
do movimento afirmam representar pais e estu- 3 Custo Aluno-Qualidade Inicial - CAQI: é um
dantes contrários ao que chamam de “doutrina- mecanismo criado pela Campanha Nacional pelo
ção ideológica” nas escolas. Ganhou notoriedade IHU On-Line – Quais os desa- Direito à Educação, que traduz em valores o quan-
em 2015 desde que projetos de lei inspirados to o Brasil precisa investir por aluno ao ano, em
no movimento começaram a ser apresentados fios na redução das desigual- cada etapa e modalidade da educação básica pú-
e debatidos em inúmeras câmaras municipais e dades entre escolas públicas e blica, para garantir, ao menos, um padrão mínimo
assembleias legislativas pelo país, bem como no de qualidade do ensino. Saiba mais em http://bit.
Congresso Nacional. (Nota da IHU On-Line) privadas? ly/2Ajyjdm. (Nota da IHU On-Line)

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co para a realização dos direitos e do que forma? IHU On-Line – Quais os desa-
desenvolvimento do país. A política fios para a formação docente
Daniel Cara – O Governo Temer
econômica de austeridade vai dizer no nosso tempo?
é o governo da “Escola sem Parti-
que o povo não cabe no orçamento
do”, embora não tenha coragem de Daniel Cara – O principal é lutar
público brasileiro. Ou seja, a riqueza
assumir. No Instituto Nacional de pela valorização docente, por arro-
produzida pelo povo não pode bene-
ficiar o próprio povo. Isso é absurdo. Estudos e Pesquisas Educacionais
gar aos educadores o domínio do
Anísio Teixeira - INEP até censu-
debate da educação. Estou cansado
raram um artigo científico. A BNCC
desse governo é a BNCC do Escola de amadores pedagógicos falando
IHU On-Line – Em alguma
medida, as questões de fundo sem Partido, sem abordar “iden- sobre educação. Isso atrasa a área
das discussões da proposta de tidade de gênero” e sem abordar e nos afasta da solução dos proble-
“escola sem partido” emer- “orientação sexual”. É o governo do mas. É preciso (e prudente) entre-
gem no debate da BNCC? De obscurantismo. gar a educação aos educadores.■

Leia mais
- O ensino a qualquer custo e a falta de compromisso com a educação brasileira. En-
trevista especial com Daniel Cara, publicada em Notícias do Dia de 21-7-2014, no sítio do
Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2AdYxQy.

55

EDIÇÃO 516
TEMA DE CAPA

Nenhuma escola está imune às ondas


de violência e conservadorismo
Para Elí Fabris e Maria Cláudia Dal’Igna, professores e alunos
são ameaçados pela criminalidade, pelo movimento Escola
Sem Partido e por várias discriminações
João Vitor Santos | Edição: Vitor Necchi

A
s professoras Elí Terezinha Henn para a profissão, entre eles, a desvaloriza-
Fabris e Maria Cláudia Dal’Igna ção social e a baixa remuneração salarial”.
mantêm uma cumplicidade calca- Se, neste aspecto, há muito a superar, ain-
da em laços afetivos e profissionais há pelo da existem outros grandes desafios para a
menos duas décadas. Fruto desta sintonia, docência nas escolas públicas, porque vi-
a entrevista que se segue foi respondida vem-se ameaças a partir de muitas formas
em conjunto pelas duas, como a fazer eco de violência, como, por exemplo, “os cri-
para uma das afirmações que formula- mes ocorridos no entorno da escola, o cer-
ram acerca da atuação de professores: “A ceamento dos professores e professoras a
docência pressupõe sujeitos em posições partir do movimento Escola Sem Partido,
e funções diferenciadas de ensino e de ou, ainda, as várias discriminações de
aprendizagem. Isso não impede que as classe, raça/etnia, gênero, sexualidade,
trocas entre professoras e alunas aconte- religião, entre outras, praticadas dentro e
56 çam de distintas formas. Ora a aprendente fora da escola”. No entendimento das pro-
pode ensinar, ora a ensinante pode apren- fessoras, “nenhuma escola está imune às
der, mas isso não implica uma inversão de ondas de violência e conservadorismo que
posições e funções, em que a professora temos enfrentado na vida social”.
é vista como aluna e a aluna é percebida
como professora”. Nas respostas, encami- Elí Terezinha Henn Fabris é douto-
nhadas por e-mail à IHU On-Line, elas ra e mestra em Educação pela Universida-
se posicionam “absolutamente contrárias de Federal do Rio Grande do Sul – UFR-
a qualquer moda educacional que fragilize GS, especialista em Métodos e Técnicas de
os saberes docentes e secundarize a fun- Ensino pela Universidade de Santa Cruz
ção de ensinar, primordial para um exer- do Sul – Unisc e graduada em Pedagogia –
cício qualificado da docência”. Administração Escolar e Orientação Edu-
cacional pela Universidade de Passo Fun-
As duas recordam que, no Brasil, “o
do – UPF. É professora e pesquisadora da
magistério se torna uma profissão ma-
Universidade do Vale do Rio dos Sinos –
joritariamente exercida por mulheres”
Unisinos, onde coordena o Programa de
entre o final do século XIX e o início do
Pós-Graduação em Educação e o Grupo
século XX, quando o magistério tinha o
Interinstitucional de Pesquisa Pedagogias,
valor de uma conquista para as mulhe-
Docências e Diferenças (GIPEDI/CNPq).
res, que podiam receber remuneração
pelo trabalho e ainda ampliavam seu Maria Cláudia Dal’Igna é doutora e
universo de atuação. “Por outro lado, mestra em Educação pela Universidade
é preciso considerar que o ingresso no Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS
magistério, em meados do século XIX, e graduada em Pedagogia pela Unisinos.
era uma das únicas possibilidades de É professora e pesquisadora da Unisi-
trabalho, pois aproximava o ofício do nos, onde atua como vice-coordenadora
magistério daquilo que era considerado do Programa Institucional de Bolsa de
como ocupação feminina: cuidado com Iniciação à Docência (Pibid/Capes) e do
a família, as crianças e o lar”, ressalvam. Grupo Interinstitucional de Pesquisa em
Com o tempo, a caracterização do magis- Docências, Pedagogias e Diferenças (GI-
tério como atividade própria da natureza PEDI/CNPq).
feminina “produziu alguns efeitos nocivos Confira a entrevista.

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REVISTA IHU ON-LINE

“Posicionamo-nos absolutamente contrárias


a qualquer moda educacional que fragilize
os saberes docentes e secundarize a
função de ensinar, primordial para um
exercício qualificado da docência”

IHU On-Line – De que modo isso, sugerimos ver as pesquisas de- trial. Assim, o magistério constitui-
vocês compreendem a docên- senvolvidas pelo GIPEDI sobre do- se como uma conquista das mulhe-
cia? cência virtuosa (Oliveira, 2015), do- res, ao desempenharem um trabalho
cência redentora (Brodbeck, 2015), remunerado, e um alargamento de
Elí Terezinha; Maria Cláudia
docência S/A (Dal’Igna, Scherer, Sil- seu universo de atuação, com ingres-
– Queremos responder essa pergun-
va, no prelo), flexível e generificada, so na esfera pública.
ta buscando apoio em nosso grupo
docência terapêutica (Silva, Toma-
de pesquisa, o GIPEDI – Grupo In- Por outro lado, é preciso conside-
sel, no prelo).
terinstitucional de Pesquisa em Do- rar que o ingresso no magistério, em
cências, Pedagogias e Diferenças. meados do século XIX, era uma das
Para esse grupo, docência significa IHU On-Line – Historicamen- únicas possibilidades de trabalho,
o exercício da ação de um professor, te, quais eram os maiores desa- pois aproximava o ofício do magis-
de uma professora (a partir de agora, fios para a docência no Brasil? tério daquilo que era considerado
nesta entrevista, alternamos a flexão E na atualidade? como ocupação feminina: cuidado 57
de gênero, para dar visibilidade às com a família, as crianças e o lar. Em
relações entre docência e diferenças Elí Terezinha; Maria Cláudia
certa medida, essa representação do
de gênero). Só pode exercer a docên- – Pensar sobre os desafios da do-
magistério como uma atividade liga-
cia um professor em certa condição. cência no passado e na atualidade
da a um suposto instinto feminino
Ele exerce a docência quando no nos faz retomar a historicidade de
e com algumas características que
contexto de um processo educati- nossa profissão. Por sua relevância
foram sendo construídas historica-
vo intencional desenvolve o ensino, para compreender a docência bra-
sileira, escolhemos aqui o processo mente como parte dessa natureza
junto a um grupo de indivíduos que feminina, como o amor e o cuidado,
estão em posição de aprendentes de feminização do magistério para
comentar, e destacar alguns dos por exemplo, produziu alguns efei-
– são alunos. Portanto, a docência tos nocivos para a profissão, entre
pressupõe sujeitos em posições e desafios envolvidos para analisar o
tempo presente. Considerando o que eles, a desvalorização social e a baixa
funções diferenciadas de ensino e de remuneração salarial.
aprendizagem. Isso não impede que muitos estudos e pesquisas sobre
feminização do magistério vêm mos- Na atualidade, esses sentidos asso-
as trocas entre professoras e alunas
trando (Almeida, 1996; Louro, 1987; ciados ao processo de feminização
aconteçam de distintas formas. Ora
Chamon, 1996; Tambara, 1998), no precisam ser retomados e investi-
a aprendente pode ensinar, ora a en-
Brasil, podemos afirmar que entre o gados. Para isso, temos desenvol-
sinante pode aprender, mas isso não
final do século XIX e início do século vido pesquisas que nos permitem
implica uma inversão de posições e
XX, o magistério se torna uma pro- problematizar a naturalização e a
funções, em que a professora é vis-
fissão majoritariamente exercida por absolutização de uma identidade
ta como aluna e a aluna é percebida
mulheres. profissional docente. Uma de nós
como professora. A docência é uma
condição exercida pelo professor, Um processo de feminização da desenvolveu pesquisas com filmes
comprometido com o processo de profissão no Brasil precisa ser ana- hollywoodianos (Fabris, 1999) e fil-
ensino e com as possíveis apren- lisado, ainda, a partir das trans- mes brasileiros (Fabris, 2005). Na
dizagens promovidas a partir dele. formações ocorridas no mundo do primeira, a mulher professora esta-
Aqui, nos posicionamos absoluta- trabalho. Com base nesses estudos va sempre ligada ao trabalho com
mente contrárias a qualquer moda e pesquisas, entre outros, também crianças; na segunda, eram os ho-
educacional que fragilize os saberes podemos afirmar que, por um lado, mens professores de jovens estudan-
docentes e secundarize a função de há um protagonismo das mulheres tes. Em outra pesquisa, em fase ini-
ensinar, primordial para um exer- na ocupação do mercado de trabalho cial de desenvolvimento, realizada
cício qualificado da docência. Sobre em uma emergente sociedade indus- por uma de nós (Dal’Igna, 2017), a

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TEMA DE CAPA

docência é analisada sob a perspec- estágios supervisionados e, após a da docência atingir seus objetivos e
tiva de gênero. O que essa pesquisa conclusão de seu curso, no processo metas.
busca investigar é de que modos o de inserção profissional (residência
Em uma das pesquisas que desen-
discurso pedagógico brasileiro re- pedagógica).
volvemos (Fabris, 2012) em uma
ferente à profissionalização do tra-
Defendemos que os cursos de li- escola de periferia, isso ficou bem
balho docente tem negado as pers-
cenciatura devem organizar seus evidente. Tínhamos um grupo de pro-
pectivas que pensavam o magistério
currículos contemplando um corpo fessoras alfabetizadoras extremante
como uma atividade ligada a um
de conhecimentos específicos de dis- comprometidas com a condição social
instinto feminino e com os atributos
tintas áreas e de conhecimentos pe- em que a escola estava inserida, mas
de amor, cuidado e afeto, que foram
dagógicos, aliados com um processo os alunos apresentavam graves difi-
sendo construídos historicamente
de socialização na profissão desde os culdades no processo de alfabetização.
como parte dessa natureza feminina.
primeiros anos do curso, para formar Após um estudo amplo e detalhado,
um profissional professor capaz de o que verificamos foi que era preciso
IHU On-Line – Como com- ensinar e de enfrentar as ondas de promover ações em rede, sustentadas
preender as particularidades violência e conservadorismo atuais. por políticas públicas, nas áreas da
do processo de formação e do Desse modo, compreendemos que a saúde e da assistência social, em arti-
exercício da docência na escola universidade tem uma função muito culação com a educação, para atender
importante na formação inicial desta os alunos e suas famílias. Além disso,
pública? E qual o papel da uni-
profissional. Mas, temos advogado era preciso uma revisão na política de
versidade na preparação des-
que ela precisa também, ao “entregar” inserção dos professores na escola,
ses professores?
a egressa professora para a sociedade proposta pela secretaria do municí-
Elí Terezinha; Maria Cláudia e a escola, desenvolver um programa pio, porque os docentes eram con-
– Hoje os desafios da docência nas de acompanhamento. Nessa direção, duzidos para a escola, localizada em
escolas públicas têm aumentado entendemos que as universidades e uma região de “difícil acesso”, com a
porque vivemos ameaçados por mui- o poder público poderiam estabele- promessa que ficariam um ano e, de-
tas formas de violência, como, por cer parcerias para criar um progra- pois, poderiam pedir transferência,
58 exemplo, os crimes ocorridos no en- ma de residência pedagógica após a portanto, não criavam vínculo com a
torno da escola, o cerceamento dos conclusão da formação inicial para escola. Além dessas ações de gestão
professores e professoras a partir do acompanhar e subsidiar a atuação do processo educacional, também era
movimento “Escola Sem Partido”, dos professores iniciantes na carrei- necessária uma revisão da prática do-
ou, ainda, as várias discriminações ra. Eles poderiam, por exemplo, se cente. Então, desenvolvemos, naquele
de classe, raça/etnia, gênero, sexu- manterem vinculados aos grupos de momento, um grupo de estudos para
alidade, religião, entre outras, prati- estudo e pesquisa nas universidades as professoras alfabetizadoras que es-
cadas dentro e fora da escola. Mas, para fortalecer a relação teoria e prá- tudavam no final das aulas junto com
essa é uma condição da sociedade tica e para qualificar a sua formação a pesquisadora e no final, elaboraram
contemporânea e tal condição, apen- continuada e a sua atuação como pro- princípios para alfabetizar naquela
sar de ser difícil e complexa, não deve fessor iniciante. escola, com aquele grupo de alunos e
nos paralisar como docentes. Ne- alunas, passaram a analisar a “matriz
nhuma escola está imune às ondas pedagógica” daquela escola (Fabris;
de violência e conservadorismo que IHU On-Line – Como reduzir
Silva, 2015). Esse é um exemplo que
temos enfrentado na vida social, em- as desigualdades entre ensino
mostra a necessidade de criar projetos
bora tenhamos que reconhecer que na rede pública e na privada, a
coletivos, em que a educação básica e a
existem contextos mais vulneráveis partir da perspectiva da atua-
educação superior compõem parceria
que outros, com mais ou menos con- ção da prática docente?
com outros setores da sociedade para
dições de (re)ação e enfrentamento. Elí Terezinha; Maria Cláudia qualificar o ensino e seus resultados
Portanto, para analisar o exercício – A “pedagogia da redenção” (Bro- educacionais.
da docência na escola pública (e pri- dbeck, 2015) e ou a “pedagogia do
vada) e a função da universidade na herói” (Fabris, 2010) nos conduz a
preparação das futuras professoras, acreditar que a professora pode ser IHU On-Line – O ensino a dis-
precisamos compreender a docên- uma semideusa, uma heroína que a tância e a mediação do proces-
cia como uma ação de profissionais todos pode salvar. A professora, ao so de ensino e aprendizagem
que precisam de políticas públicas exercer a docência, tem limites defi- por ambientes virtuais, aposti-
que contribuam para a sua qualifi- nidos para sua ação. As práticas pe- las, manuais e monitores (mui-
cada formação inicial em diferentes dagógicas possuem limites. A escola tas vezes sem formação docen-
cursos de licenciatura, assegurando possui limites. Para reduzir as de- te) são uma realidade. Quais os
o direito de aprender a ser docente sigualdades sociais e educacionais, limites e as possibilidades des-
na escola e na universidade, duran- precisamos de políticas públicas que sa reconfiguração do ambiente
te a iniciação à docência (Pibid) e os deem sustentação para o exercício de sala de aula?

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Elí Terezinha; Maria Cláudia sar em qualquer posição”. (DELEU- tas” (Álvaro Hypolito, 2010). Esses
– O uso de diferentes tecnologias e ZE, 1996, s.p.). estudos nos permitem propor uma
metodologias educacionais tem sido análise do trabalho docente focali-
A partir dessa ideia, podemos afir-
um indicador utilizado para ates- zando as relações empresa-escola,
mar que uma aula requer muito pla-
tar a condição da inovação em sala empresa-universidade, sujeito e ca-
nejamento, ao mesmo tempo em que
de aula. No entanto, mesmo enten- pital, custo e benefício. Nesses ter-
é um ensaio, um exercício, um mo-
dendo que não podemos negar aos mos, o professor-trabalhador é visto
vimento provisório e sempre inaca-
nossos estudantes distintas oportu- como uma espécie de empresa para
bado. O ensaio proposto pelo autor
nidades e recursos para o seu desen- si mesmo. Trata-se de uma mudança
é isso, é composto por um momento
volvimento pleno, temos de registrar poderosa, de grande impacto para a
de planejamento no qual antecipa-
que uma educação de qualidade e profissão docente e para os proces-
mos o que pode acontecer, pergun-
um projeto educacional inovador sos de ensino e aprendizagem, uma
tas, desafios, questões..., e por um
não se restringem a isso. mudança de ordem subjetiva, que
momento de execução, esse espa-
dá visibilidade a uma nova forma de
Podemos e devemos pensar a ino- ço para as descobertas junto com
organização, gestão e avaliação do
vação junto com as Artes, com a os alunos e alunas. Um ensaio que trabalho docente. Assim, assistimos
Pedagogia, a Filosofia, a Sociologia, não é só repetição, um ensaio que à criação e propagação acelerada de
a Educação Física, a Língua Portu- é preparação para uma experiência termos educacionais antes utilizados
guesa, a Matemática... enfim, com os formativa. Em uma aula, nem sem- somente em empresas: o diretor da
campos de saber que fundamentam pre conseguimos interpelar todos os escola ou da universidade passa a ser
os processos educativos, sustentam nossos alunos e alunas, mas temos gestor, o coordenador pedagógico é
a produção de novos conhecimen- que seguir perseguindo esse obje- gerente, o professor é colaborador, e
tos e geram subsídios para a criação tivo. Se, por um lado, não podemos
o aluno é cliente.
de projetos educativos inovadores. recuperar uma aula, por outro lado,
Além disso, para refletir sobre a re- podemos retomá-la e ressignificá-la Igualmente, nessa perspectiva, são
configuração da sala de aula hoje e porque há uma continuidade previs- criadas políticas curriculares basea-
no futuro, precisamos analisar o que ta no trabalho formativo, e de uma das nas competências e nos resulta-
entendemos como aula. Para isso, semana para outra podemos perce- dos gerenciais, e proliferam exames 59
recorremos a uma ideia de Gilles ber mudanças. Isso é fascinante! nacionais e modalidades de premia-
Deleuze1 (1996), sobre ser profes- ção e ranqueamento de alunos e alu-
sor e sobre a aula: “Para mim, uma nas, professores e professoras, esco-
aula não tem como objetivo ser en- IHU On-Line – Atualmente, las e universidades. Essas estratégias
tendida totalmente. Uma aula é uma fala-se que a “lógica da uberiza- de regulação das vidas escolar e uni-
espécie de matéria em movimento. ção” chegou ao campo da edu- versitária contemporâneas precisam
[...] Numa aula, cada grupo ou cada cação. Como essa perspectiva ser identificadas e examinadas com
estudante pega o que lhe convém. tem impactado a profissão do- criticidade, e não simplesmente se-
Uma aula ruim é a que não convém cente e os processos de ensino rem celebradas ou demonizadas. É o
a ninguém. Não podemos dizer que e aprendizagem? exercício de pensamento, e não o jul-
tudo convém a todos. [...] Uma aula gamento, que torna possível a qualifi-
Elí Terezinha; Maria Cláudia
é emoção. É tanto emoção quanto cação das práticas e a criação de ou-
– Para relacionar a empresa Uber,
inteligência. Sem emoção, não há tros modos de ser e viver a docência
o trabalho e o trabalho docente, te-
nada, não há interesse algum. Não na contramão da “lógica da uberiza-
mos que contextualizar o proces-
é uma questão de entender e ouvir ção”. Não sonhamos com a vida per-
so de “uberização educacional”, se
tudo, mas de acordar em tempo de feita. Sabemos que estamos vivendo
pudermos dizer assim, no tempo
captar o que lhe convém pessoal- em um mundo em que a regulação da
vivido. Uma série de transforma-
mente. [...] [Para dar aula] é preciso vida humana é cada vez mais intensa,
ções do trabalho estão em curso há
estar totalmente impregnado do as- em todos os sentidos. Justamente por
décadas, e a “lógica da uberização”
sunto e amar o assunto do qual fa- isso, entendemos que a escola e a uni-
é um dos efeitos das políticas ne-
lamos. Isso não acontece sozinho. É versidade podem se constituir como
oliberais desenvolvidas no Brasil,
preciso ensaiar, preparar. É preciso lugares para exercício de pensamen-
as quais produzem nuances impor-
ensaiar na própria cabeça, encontrar to e criação de projetos de vida mais
tantes e específicas para as relações
o ponto em que... É muito divertido, coletivos e menos individualistas,
entre Estado, mercado e educação.
é preciso encontrar... É como uma projetos ancorados em um “ethos do-
Para contextualizar essas relações
porta que não conseguimos atraves- cente” (Aquino, 2014) e um “ethos de
no campo da Educação, podemos
formação” (Dal’Igna; Fabris, 2015).
1 Gilles Deleuze (1925-1995): filósofo francês.
citar aqui estudos de colegas pro-
Assim como Foucault, foi um dos estudiosos de fessores sobre a formação da “Cul- IHU On-Line – Como as se-
Kant, mas tem em Bergson, Nietzsche e Espinosa,
poderosas interseções. Professor da Universidade tura do Empreendedorismo” (Costa, nhoras avaliam as recentes “re-
de Paris VIII, Vincennes, Deleuze atualizou ideias 2009), ou ainda, da construção de formas educacionais” propos-
como as de devir, acontecimentos e singularida-
des. (Nota da IHU On-Line) “Modelos Educacionais Gerencialis- tas pelo Governo Federal, entre

EDIÇÃO 516
TEMA DE CAPA

elas a Base Nacional Comum estabelece a relação entre o que é sobre os pressupostos orientadores.
Curricular? No que consiste básico-comum e o que é diverso Que sentidos são atribuídos à do-
essa base? Em que medida ela em matéria curricular: as compe- cência, ao ensino, à aprendizagem,
reduz a possibilidade do desen- tências e diretrizes são comuns, os aos conhecimentos, aos conteúdos
volvimento de conteúdos regio- currículos são diversos. O segundo e às competências neste documen-
nalizados, valorizando culturas se refere ao foco do currículo. Ao to (BNCC)? Indicamos aqui alguns
e hábitos, saberes locais? dizer que os conteúdos curriculares pontos que merecem ser examinados
estão a serviço do desenvolvimen- com cuidado e para isso sugerimos a
Elí Terezinha; Maria Cláudia
to de competências, a LDB orienta entrevista do professor Roberto da
– Nós duas estivemos envolvidas
para a definição das aprendizagens Silva, nesta edição da Revista IHU
em diferentes momentos com as
essenciais, e não apenas dos conte- On-line, e o artigo da professora Eli-
discussões que foram organiza-
údos mínimos a ser ensinados. Es- zabeth Macedo (2016).
das por região (2013 a 2015) para
sas são duas noções fundantes da
elaborar a Base Nacional Comum
BNCC”. (Brasil, 2016).
Curricular - BNCC. Nestes momen-
tos, ressaltamos a nossa satisfação A partir desse excerto, podemos IHU On-Line – Desejam acres-
com os diálogos coletivos estabele- perceber que a Base Curricular pro- centar algo?
cidos entre escolas, universidades, põe o foco nas aprendizagens e não Elí Terezinha; Maria Cláudia
secretarias e conselhos municipais nos conteúdos. Além disso, os con- – Gostaríamos de concluir esta en-
e estaduais. Do mesmo modo, ma- teúdos curriculares devem estar a trevista convidando as pessoas para
nifestamos a nossa preocupação serviço do desenvolvimento de com- conhecerem o GIPEDI – Grupo Inte-
com os pressupostos orientado- petências. Considerando que esse é rinstitucional de Pesquisa em Docên-
res da Base Curricular em vigor e um documento de caráter normativo cias, Pedagogias e Diferenças. Acesse
que estão claramente expressos que define os modos de organização o Diretório dos Grupos de Pesquisa
no documento final: “A LDB (Lei dos currículos dos sistemas e redes do CNPq - Conselho Nacional de De-
de Diretrizes e Bases da Educação de ensino das Unidades Federativas, senvolvimento Científico e Tecnoló-
Nacional – 9.394/1996) deixa cla- como também as propostas pedagó-
gico: http://dgp.cnpq.br/dgp/espe-
60 ros dois conceitos decisivos para gicas de todas as escolas públicas e
lhogrupo/1673844229666121.
todo o desenvolvimento da questão privadas de Educação Infantil, Ensi-
curricular no Brasil. O primeiro, no Fundamental e Ensino Médio, em Em breve faremos o lançamento da
já antecipado pela Constituição, todo o Brasil, é importante pensar página do GIPEDI. ■

Referências
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no. In: Cadernos de Pesquisa, São Paulo, n. 96, p. 71-78, fev., 1996.
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Brasília: MEC, 2016. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/a-base Acesso em:
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jeto biologia e a produção de uma pedagogia da redenção. Tese (Doutorado em Educação)
– Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São
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- DAL’IGNA, Maria Cláudia. A produção de sentidos sobre afeto, amor e cuidado na formação
inicial docente sob a perspectiva de gênero (2017-2021). São Leopoldo: Programa de Pós-Gra-
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4 DE DEZEMBRO | 2017
REVISTA IHU ON-LINE

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Unisinos: processos de subjetivação na iniciação à docência. In: Educação Unisinos. Volume
19, n. 1, janeiro a abril 2015, p. 77-87.
- DAL’IGNA, Maria Cláudia; SCHERER, Renata Porcher; SILVA, Jonathan Vicente da. Docên-
cia S/A: Gênero e flexibilidade em tempos de educação customizada. In: FABRIS, Elí T. Henn;
DAL’IGNA, Maria Cláudia; SILVA, Roberto R. Dias da. Modos de ser docente no Brasil contem-
porâneo: pesquisa e formação. [livro no prelo].
- DELEUZE, Gilles. L’abécédaire de Gilles Deleuze. Entrevista feita por Claire Parnet, filmada e
dirigida por Pierre-André Boutang. Paris: Vidéo Éditions Montparnasse, 1996.
- DERRIDA Jacques; ROUDINESCO, Elisabeth. De que amanhã... Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 2004.
- FABRIS, Elí. T. Henn. Representações de espaço e tempo no olhar de Hollywood sobre a
escola. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação,
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- FABRIS, Elí. T. Henn. Em cartaz: o cinema brasileiro produzindo sentidos sobre escola e tra-
balho docente. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação,
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2005.
- FABRIS, Elí. T. Henn. A pedagogia do herói nos filmes hollywoodianos. In: Currículo Sem Fron-
teiras, v. 10, p.232-245, 2010.
- FABRIS, Elí. T. Henn. As tramas do currículo e o desempenho escolar: as práticas pedagógicas
nos anos iniciais do ensino fundamental (2008-2012). São Leopoldo: Programa de Pós-Gradua-
ção em Educação, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 2012. [Relatório de Pesquisa].
- FABRIS, Elí. T. Henn; SILVA, Roberto R. Dias da. Análise de uma matriz pedagógica escolar: a
invenção da docência e de pessoas em uma escola de periferia. In: Currículo Sem Fronteiras, 61
v. 15, p. 492-507, 2015.
- HYPOLITO, Álvaro Moreira. Políticas curriculares, Estado e regulação. In: Educação & Socieda-
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- LOURO, Guacira Lopes. Prendas e anti-prendas: uma escola de mulheres. Porto Alegre: Edito-
ra da Universidade/UFRGS, 1987.
- MACEDO, Elizabeth. Base nacional curricular comum: a falsa oposição entre conhecimento
para fazer algo e conhecimento em si. In: Educação em Revista, Belo Horizonte, v.32, n.2, pp.45-
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- OLIVEIRA, Sandra de. Tornar-se professor/a: matriz de experiência e processos de subjetiva-
ção na iniciação à docência. Tese (Doutorado em Educação) –Programa de Pós-Graduação
em Educação, Universidade do Vale do Rio dos Sino, São Leopoldo, 2015.
- SILVA, Miriã Zimmermann da; TOMASEL, Soraia. Socialização e desejos: a docência terapêu-
tica em dois atos. In: FABRIS, Elí T. Henn; DAL’IGNA, Maria Cláudia; SILVA, Roberto R. Dias da.
Modos de ser docente no Brasil contemporâneo: pesquisa e formação. [livro no prelo].
- TAMBARA, Elomar A. Callegado. Profissionalização, escola normal e feminilização: magistério
sul-rio-grandense de instrução pública no século XIX. In: História da Educação. Pelotas, n.3,
p.35-58, abr.1998.

Leia mais
- Governamentalidade, gênero e educação, uma relação complexa. Entrevista com Ma-
ria Cláudia Dal’Igna, publicada na revista IHU On-Line número 463, de 20-04-2015, disponí-
vel emhttp://bit.ly/2idBkr1.
- A escola e o trabalho docente no cinema hollywoodiano e nacional. Entrevista com Elí
Terezinha Henn Fabris, publicada na revista IHU On-Line, número 182, de 26-05-2006, dis-
ponível em http://bit.ly/2eayJMc.

EDIÇÃO 516
TEMA DE CAPA

O eterno desafio brasileiro


da valorização docente
Para o canadense Maurice Tardif, o problema do Brasil não
é a formação de professores. A grande questão continua
sendo as condições de trabalho dos educadores
João Vitor Santos | Tradução: Vanise Dresch

E
m meio a toda a discussão sobre nhecimento geral e abstrato. Mas a ação
a Base Nacional Comum Curricu- docente é concreta e situada”, avalia.
lar - BNCC, o professor canaden- Maurice Tardif é professor titular
se Maurice Tardif reascende um debate de História e Sociologia da Educação na
muito antigo: “creio que o principal pro- Faculdade de Ciências da Educação da
blema dos professores no Brasil não está Universidade de Montreal, no Canadá,
na formação, mas em suas condições de onde leciona História do Pensamento
trabalho”. A Base deve trazer mudan- Educativo Ocidental. Também é mem-
ças na formação de professores, mas,
bro da Comissão canadense da Unesco,
seguindo com Tardif, tais mudanças só
da Sociedade Real do Canadá e da Aca-
poderão dar resultado se o país superar
demia de Ciências do Canadá. Publicou
esse antigo problema. “Os professores
32 obras e mais de 250 textos, dos quais
brasileiros ainda não são considerados
62 destacamos El problema de las identi-
e tratados como verdadeiros profissio-
dades docentes (Espagna: Narcea, 2017)
nais”, destaca, ao lembrar de baixos sa-
e L’organisation du travail des acteurs
lários e das dificuldades estruturais do
scolaires. Points de repères sur les évo-
ambiente de trabalho dos educadores.
lutions au début du XXIe siècle. (Qué-
Para o professor, um país só será capaz
bec: Presses de l’Université Laval, 2017).
de se desenvolver se, primeiro, desen-
volver o sistema educacional. “Valorizar Tardif será o conferencista do II En-
o ensino é valorizar o desenvolvimento contro das Licenciaturas da Re-
do Brasil; apoiar os professores brasilei- gião Sul – II EncliSul, II Encontro
ros é apoiar o avanço do Brasil”, pontua. do Programa Institucional de Bol-
Na entrevista a seguir, concedida por sas de Iniciação à Docência da Re-
e-mail à IHU On-Line, o professor ain- gião Sul – II Pibid Sul, II Seminá-
da traz a experiência canadense como rio Institucional Pibid/Unisinos,
inspiração nesse momento em que se a ser realizado entre os dias 13 e 15 de
fala em reforma da educação. “Hoje, o dezembro, no Campus São Leopoldo da
mais importante é a formação continua- Unisinos, cujo tema é Práticas de Ini-
da e o desenvolvimento profissional dos ciação à Docência na Região Sul: enfo-
professores”, aponta. Desenvolvimen- ques, avaliação e perspectivas. O evento
to profissional que, para ele, significa: é promovido pelo Programa de Pós-Gra-
atualização e aprimoramento constan- duação em Educação da Unisinos. Saiba
te e formação alicerçada na prática. “O mais em http://bit.ly/2nsMsls.
conhecimento teórico é sempre um co- Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em suas pes- de uma sociedade, com as cul- Maurice Tardif – Tradicional-
quisas, o senhor argumenta turas. Assim, o que constitui o mente, antes da década de 1960,
que o saber docente transfor- saber docente na sociedade do o saber docente limitava-se ao co-
ma-se de acordo com a história nosso tempo? nhecimento do conteúdo a ensinar

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“Um professor não pode


mais ser considerado um
técnico ou um executor”

(Português, História, aritmética, formar e ajustar seus conhecimen- Por exemplo, um professor que en-
Geografia etc.) e às técnicas de co- tos e competências em função da frenta, em sala de aula, problemas
ordenação dos grupos de alunos: evolução da sociedade e dos públicos de comportamento de certos alunos
controle dos alunos, manutenção de escolares. O saber docente não pode não pode simplesmente lançar mão
uma boa disciplina em sala de aula, mais ser um saber estático, fixo, dos conhecimentos teóricos extraí-
eliminação de situações de confli- adquirido de uma vez por todas ao dos da psicologia comportamental,
tos etc. Ora, atualmente, o que se término da formação inicial. Apren- tendo de adaptar obrigatoriamen-
exige dos professores é muito mais der a ensinar é um processo que se te esses conhecimentos teóricos ao
do que isso: eles têm de conhecer o estende por toda a carreira docente, caso específico de sua classe e de
desenvolvimento intelectual de seus não se limitando, portanto, apenas seus alunos. O conhecimento teóri-
alunos, precisam adaptar o ensino à formação inicial. Precisamos, nos co é sempre um conhecimento geral
às características e às diferenças in- dias de hoje, de professores que sai- e abstrato. Mas a ação docente é
dividuais destes, devem dominar as bam que o dever deles é o aperfeiço- concreta e situada. São a experiên-
novas tecnologias da informação, amento contínuo. cia e a prática que permitem que os
63
dar suporte aos alunos com dificul- professores traduzam e adaptem os
dades de aprendizagem e promover conhecimentos teóricos às realida-
o êxito escolar de todos, respeitan- IHU On-Line – A partir dos des concretas de suas classes e de
do, ao mesmo tempo, as culturas dos seus trabalhos, podemos di- seus alunos.
alunos e de suas famílias – que, às zer que a experiência é um
vezes, são muito diferentes – etc. saber central para a prática
docente. Mas de que ordem é IHU On-Line – No Brasil,
Por exemplo, em certas cidades essa experiência? ainda há grandes desafios a
como Montreal, os professores serem enfrentados no campo
trabalham com turmas compos- Maurice Tardif – Como nas
educacional, principalmente
tas majoritariamente por alunos outras profissões (medicina, di-
relacionados com a formação
de imigração recente, cujos pais reito, trabalho social, engenharia
de professores. Como o senhor
não falam francês nem inglês. Em etc.), o aprendizado da docência
vem acompanhando a realida-
certas escolas canadenses situadas não pode se limitar a conheci-
de brasileira?
em região urbana, 90% das crian- mentos teóricos: um profissional é
ças provêm de outros países e de
aquele que possui saberes práticos Maurice Tardif – Não sou um es-
capazes de agir sobre a realidade pecialista do Brasil. Dito isso, creio
outras culturas. Tudo isso mostra
e transformá-la. Sabe-se hoje que que o principal problema dos profes-
que o saber docente tem se torna-
esses saberes práticos são adqui- sores no Brasil não está na formação,
do mais complexo. Um professor
ridos principalmente na ação e mas em suas condições de trabalho.
não pode mais ser considerado um
pela experiência adquirida com o Os professores brasileiros ainda não
técnico ou um executor. Ele tem de
trabalho profissional. Por isso, a são considerados e tratados como
agir como um profissional e man-
formação prática (estágios) está verdadeiros profissionais: são mal
ter uma relação reflexiva com o seu
sempre no cerne de toda formação pagos, trabalham em condições difí-
próprio saber, seus conhecimentos
profissional de qualidade. De fato, ceis muitas vezes, trabalham em duas
e suas competências.
é no confronto com as realidades ou três escolas para terem um salário
Hoje, o mais importante é a forma- do trabalho que se pode aprender decente, são pouco respeitados pe-
ção continuada e o desenvolvimento a desenvolver estratégias concre- los dirigentes políticos. Penso que o
profissional dos professores. Os do- tas para a resolução de situações Brasil deveria apoiar e valorizar mais
centes de hoje precisam aprender ao cotidianas. Isso não é diferente em seus professores, pois, sem eles, a es-
longo de toda a vida, devem trans- relação à docência. cola não existiria, nem a democracia.

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TEMA DE CAPA

Vivemos cada vez mais numa socie- Maurice Tardif – No Canadá de ração da formação, o que representa
dade do conhecimento. Uma socie- língua inglesa, a formação dos pro- facilmente o dobro do que se pratica no
dade desse tipo baseia-se na qualida- fessores é feita na universidade e resto do Canadá. Na verdade, as uni-
de da educação e no valor da escola. dura cinco anos: três anos de licen- versidades dedicam ainda mais tempo
São os professores, dentro de suas ciatura e dois anos de “mestrado”. É o à formação prática (em média, cerca de
salas de aula com seus alunos, que mesmo modelo dos Estados Unidos. 1.000 horas), pois consideram que esta
garantem justamente a qualidade Em Quebec, a formação universitá- dá aos futuros professores a oportuni-
da educação. Sem esse trabalho di- ria é de quatro anos. No entanto, em dade de adquirirem as competências
ário dos professores com os alunos, ambos os casos, a duração global da essenciais à sua profissão. Essa forma-
a escola não passaria de uma imensa formação é a mesma, ou seja, 17 anos ção é feita nas escolas sob a orientação
concha vazia. Valorizar o ensino é de escolaridade. A formação prática é de professores experientes.
valorizar o desenvolvimento do Bra- o elemento mais original e mais forte
sil; apoiar os professores brasileiros Além disso, em complementação aos
dos currículos quebequenses em rela-
é apoiar o avanço do Brasil. estágios, existem vários dispositivos de
ção ao resto do Canadá.
formação: análise de práticas pedagó-
Durante as décadas de 1970 e 1980, gicas, estudos de casos, simulações etc.
IHU On-Line – Como o pro- a duração dos estágios girava em tor- Em resumo, ao longo dos anos, a for-
cesso de formação de futuros no de 200 a 300 horas, dependendo mação docente esforça-se para aproxi-
quadros docentes tem sido de- da universidade. Mas o Ministério da mar-se de um modelo “clínico”, alian-
senvolvido no Canadá? E de Educação determina, desde 1994, um do o máximo possível a teoria à prática,
que forma podem inspirar a re- mínimo obrigatório de 700 horas de como se vê nas formações profissionais
alidade brasileira? estágio durante os quatro anos de du- universitárias de maior reputação.■

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EDIÇÃO 516
ENTREVISTA

Homo Deus e a grande revolução


algorítmica no século XXI
Os professores Lucas Luz e Gilberto Faggion analisam
a obra da Yuval Harari e dissecam os principais
pontos debatidos pelo historiador israelense
Ricardo Machado

Y
uval Noah Harari tornou-se um complementa.
dos escritores mais conhecidos Lucas chama atenção para a forma
no mundo por sua obra Sapiens como o humanismo tipicamente mo-
– Breve História da Humanidade derno vem dando lugar a uma nova
(Porto Alegre: LP&M, 2017) e seu livro forma de relação, onde “estamos desa-
escrito mais recentemente, Homo Deus coplando inteligência e consciência”.
(São Paulo: Companhia das Letras, Além disso, sobre a ampliação da ca-
2016), segue o mesmo caminho de su- pacidade de processamento, diz que “a
cesso editorial. Os professores da Uni- capacidade de compreender e apreen-
sinos Lucas Henrique da Luz e Gilberto der os algoritmos e os processamentos
Antonio Faggion, que apresentaram a de dados que movem uma vida e a vida
obra no IHU no dia 16-11-2017 (o vídeo humana de maneira mais geral é muito
da conferência pode ser acessado no maior, permitindo maiores e mais pro-
66 Canal do IHU no You Tube – youtube. fundas interferências no ser humano,
com/ihucomunica), debatem, em en- até mesmo a sua superação.
trevista por e-mail, os principais pontos
da obra. Lucas Henrique da Luz é gradu-
ado em Administração, mestre em Ci-
Embora o termo algoritmo tenha se ências Sociais pela Unisinos e doutor
tornado mais utilizado recentemen- em Administração pela Unisinos e pela
te, sobretudo por conta da revolução Université de Poitiers, na França. Par-
digital, Harari sustenta que desde a ticipa da coordenação do Instituto Hu-
Revolução Agrícola os humanos, ou manitas Unisinos – IHU. Atualmente é
os sapiens, para usar sua própria ter- professor na Unisinos.
minologia, fazem uso de operações al-
gorítmicas. Contudo, a capacidade das Gilberto Antonio Faggion é gra-
novas tecnologias de processarem algo- duado em Administração e Comércio
ritmos no século XXI poderão transfor- Exterior pela Unisinos e mestre em Ad-
mar radicalmente “as democracias que ministração pela Universidade Federal
conhecemos”, situa Faggion. “Nas pró- do Rio Grande do Sul – UFRGS. Par-
ximas décadas, afirma o autor, é prová- ticipa da coordenação do Instituto Hu-
vel que vejamos mais revoluções como manitas Unisinos – IHU. Atualmente é
as provocadas pela internet, nas quais professor na Unisinos.
a tecnologia vai se antecipar à política”, Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são manos controlaram os três maiores tão ele aponta que é provável que os
os principais pontos aborda- males experimentados pela humani- humanos busquem atingir a imor-
dos por Harari na obra Homo dade: fome, pestes e guerra. Diante talidade e encontrar a chave para a
Deus? disso, questiona o que vamos fazer felicidade terrena. Com isso, estão
Gilberto Antonio Faggion – O conosco no século XXI, o que será tentando promover-se à condição de
autor argumenta que hoje os hu- prioridade na agenda humana. En- deuses. No entanto, a mesma tecno-

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“O fortalecimento dos dados


(dataísmo) e dos algoritmos
como religião. A superação do
humano justamente pela expressão
suprema da sua concepção”

logia que poderá levá-los a ser deus, – a valorização extrema e indivisível entre seres inorgânicos e/ou super
poderá torná-los irrelevantes, pois a da vida humana; dentre outros. -humanos e esta subespécie, que
própria técnica se tornaria deus e os não podemos prever de que forma
Porém, todos estes pontos do li-
humanos seriam um acessório dela. ocorrerá. O certo é que não haverá
vro, e muitos outros que poderiam
Nesse sentido, os humanos seriam o humanismo como base e, ao que
ser acrescentados, são trazidos para
considerados apenas como instru- se tem indicação, colocarão seres
convergir em uma direção, qual seja,
mentos para a criação da internet de como nós em um nível elevadíssimo
mostrar que superados os grandes
todas as coisas. Uma vez cumprida de não protagonismo.
desafios da humanidade a gran-
essa missão, o Homo sapiens desa- de agenda é agora (e será cada vez
pareceria, pois seria um algoritmo mais) a busca da divindade por par-
obsoleto. Esse sistema de processa- IHU On-Line – Como Harari
te do sapiens. E, para tal, a busca da faz, em Homo Deus, uma espé-
mento de dados cósmico seria como imortalidade e da felicidade perma- cie de história do presente ao
Deus. Estaria em toda a parte e con-
trolaria tudo, e os humanos estariam
nente por parte dos humanos. Fato levar em conta as transforma- 67
este que expressa justamente o ápi- ções tecnológicas a que esta-
destinados a se fundir dentro dele. ce do humanismo, a valorização da mos submetidos?
Lucas Henrique da Luz – Há vida – como coloquei antes, mas se
vários pontos relevantes abordados expressa pela transformação desta Gilberto Antonio Faggion –
por Harari, tais como: a superação (da vida) e, por que não, pela trans- Ao descrever várias das transforma-
dos três grandes males que asso- formação da existência humana, em ções tecnológicas atuais formadas
laram a humanidade por séculos algoritmos e fluxos de dados. Vida por duas disciplinas-mãe: a ciência
(fome, pestes e guerras); o destaque e existência passam então a ser um da computação e a biologia, espe-
dos fundamentos ao Homo sapiens problema técnico; podem ser domi- cialmente na Parte III - O Homo
enquanto “centro” do planeta, cen- nados, influenciados e manipulados sapiens perde controle, ele acaba
tro da vida e toda a lógica do Antro- pela técnica, pelo dataísmo e por ma- por documentar e relatar uma série
poceno1; a forma como o sapiens sig- nipulações genéticas. É justamente de exemplos e evidências de fatos
esta “evolução” (ou seria involução?) de nossa época, pensando tanto
nifica sua existência e nesse contexto
técnica que tem a vida (eterna e fe- no hoje quanto no amanhã, aliás,
a relação próxima entre ciência e
liz) como foco, que traz a superação o subtítulo do livro é “Uma breve
religião e não a sua oposição; a cen-
do homem, do sapiens e dos para- história do amanhã”. Por exemplo,
tralidade do humanismo na moder-
digmas do humanismo. Será ela a descreve como Google e Facebook e
nidade e os seus diferentes ramos; a
outros algoritmos são hoje oráculos
forma como estamos desacoplando passagem para tornar o ser humano
oniscientes, que podem muito bem
inteligência e consciência; o fortale- irrelevante, dispensável, quem sabe,
evoluir e se tornarem soberanos,
cimento dos dados (dataísmo) e dos inexistente? Na forma como é hoje,
ou seja, definitivamente comanda-
algoritmos como religião; a supera- se tornará uma subespécie. Ter-se-á
rem o que os humanos irão decidir.
ção do humano justamente pela ex- uma nova era, governada pelos algo-
Nesse sentido, muitas empresas do
pressão suprema da sua concepção ritmos, pelos dados, por seres inor-
Vale do Silício buscam não só in-
gânicos e, talvez, por um conjunto
fluenciar o mundo atual, como tam-
1 Antropoceno: termo usado por alguns cien- pequeníssimo de “super-humanos”,
tistas para descrever o período mais recente na bém definir as regras e os rumos do
história do Planeta Terra. O sítio do Instituto Hu- pós-sapiens. Humanos semelhantes
manitas Unisinos – IHU tem tratado dessa pers- “jogo de amanhã”.
pectiva em diversas publicações. Entre elas “An-
aos que conhecemos e somos hoje,
tropoceno: ou mudamos nosso estilo de vida, ou deverão tornar-se uma subespécie Outro exemplo disso é quando Ha-
vamos sucumbir”. Entrevista especial com Wagner
Costa Ribeiro, publicada nas Notícias do Dia, de – espécie inferior e, quiçá, descar- rari indica que se as condições de
29-2-2016, disponível em http://bit.ly/1T5xU2U. tada. Na realidade, como o autor processamento de dados mudarem
Confira mais em http://bit.ly/1TFub7T. (Nota da
IHU On-Line) mostra, deverão ser criadas relações novamente no século XXI, as demo-

EDIÇÃO 516
ENTREVISTA

cracias que conhecemos poderão de- vida. Muitos humanos no presente rupções que nos fazem encontrar as
clinar e até mesmo desaparecer, por- se questionam: de que adianta fa- tecnologias que, ao expressar o valor
que não processarão os dados com zer ou experimentar qualquer coisa máximo da vida humana (projeto
eficácia suficiente. Nas próximas dé- se ninguém souber disso, e se isso histórico e do presente e do futuro),
cadas, afirma o autor, é provável que não contribuir para a troca global de levarão justamente à superação do
vejamos mais revoluções como as informações? Ou seja, os dataístas humano.
provocadas pela internet, nas quais a acreditam que experiências não têm
Vejamos de forma um pouco mais
tecnologia vai se antecipar à política. valor se não forem compartilhadas
concreta. A lógica da vida sendo
e que não precisamos – na verdade
Nesse cenário, os eleitores comuns organizada enquanto algoritmo(s),
não podemos – encontrar significa-
estão começando a sentir que o me- não é algo do presente apenas ou
do em nosso interior. O novo lema é:
canismo democrático não mais lhe algo futurista, ainda que se intensi-
“Se você experimentar algo – grave.
confere poder. Isso os deixa insegu- fique atualmente e se intensificará
Se gravar algo – faça upload. Se fi-
ros e tendem a optar por posturas ainda mais no futuro. É algo que
zer upload de algo – compartilhe”.
mais conservadoras, na tentativa ocorria já no passado, talvez prin-
De alguma maneira temos de pro-
de retomar esse poder. Fato que já cipalmente a partir da Revolução
var a nós mesmos e ao sistema que
é constatável, por exemplo, na sa- Agrícola e com o advento da escrita,
ainda temos valor. E o valor, nesse
ída do Reino Unido da Comunida- como mostra o autor. A vida e suas
contexto apresentado, reside não em
de Europeia (Brexit2) e na eleição relações como conjuntos de algorit-
ter tido experiências (como na visão
americana de Trump. O mundo está mos já aparecia, por exemplo, no an-
humanista), e sim em fazer delas um
mudando em toda a sua volta, e eles tigo Egito dos Faraós ou mesmo nos
fluxo livre de dados.
não compreendem como e por quê. Impérios Europeus, bem como se faz
Harari descreve que no início do sé- Lucas Henrique da Luz – Se presente no sistema educacional de
culo XXI a política está desprovida pegarmos por base a teoria da com- hoje, no sistema de saúde, no fun-
de grandes visões e que governar plexidade e uma lógica de tempo não cionamento de uma organização ou
tornou-se meramente administrar. linear, onde a história comporta ao de uma máquina de café, como traz
mesmo tempo avanços e retornos, o livro. Porém, isto que parece uma
A partir desses e de vários outros
68 idas e vindas, continuidades e ruptu- simples continuidade de tecnologias
exemplos atuais, o autor argumenta
ras, que muitas vezes podem parecer (processos como tecnologias) tem
que o dataísmo que se desenvolve
verdadeiros paradoxos, parece-me, mudanças significativas. A sua lógi-
no presente é o primeiro movimen-
então, que podemos colocar o tra- ca pode permanecer a mesma, mas
to desde 1789 a criar um valor real-
balho de Harari como algo que mis- a capacidade de gerar, armazenar e
mente inovador: o da liberdade de
tura passado, presente e futuro. Até processar informações destes algo-
informação. E alerta que não deve-
porque, a sua separação de maneira ritmos foi ampliada milhões de ve-
mos confundir liberdade de infor-
mais rígida, talvez seja produto da zes. As tecnologias como a inteligên-
mação com o velho ideal liberal da
modernidade e sua mania de purifi- cia artificial, por exemplo, podem ser
liberdade de expressão.
car. Modernidade, que pelo trabalho encontradas há mais tempo. Porém,
Também, o autor acaba por regis- de Harari no livro, está vendo ruir elas se modificaram e se modificam
trar tendências comportamentais de seus paradigmas de sustentação; a ponto de que a lógica é a mesma,
alguns humanos no presente, como está continuando ao extremo e, com mas a capacidade de compreender e
a ideia de que estar desconectado isso, sendo superada. apreender os algoritmos e os proces-
do fluxo de dados acarreta o ris- samentos de dados que movem uma
Penso que Harari mistura passa-
co de perder o próprio sentido da vida e a vida humana de maneira
do, presente e futuro quando, por
mais geral é muito maior, permitin-
exemplo, mostra questões como o
2 Brexit: a saída do Reino Unido da União Euro- do maiores e mais profundas interfe-
peia é apelidada de Brexit, palavra-valise origi- antropoceno, o desacoplamento en-
nada na língua inglesa resultante da fusão das rências no ser humano, até mesmo a
palavras Britain (Grã-Bretanha) e exit (saída). A tre inteligência e consciência, as nar-
saída do Reino Unido da União Europeia tem sido
sua superação.
rativas intersubjetivas que colocam
um objetivo político perseguido por vários indi-
víduos, grupos de interesse e partidos políticos, os humanos cooperando a partir de Assim, a capacidade de interferir
desde 1973, quando o Reino Unido ingressou na
Comunidade Econômica Europeia, a precursora determinados padrões e papéis, den- nos algoritmos que mobilizam sen-
da UE. A saída da União é um direito dos estados- tre outros. São aspectos que Harari sações e o ser e fazer dos humanos
membros segundo o Tratado da União Europeia.
A saída foi aprovada por referendo realizado em desenvolve no livro e que podem ser ampliou-se enormemente por avan-
junho de 2016, no qual 52% dos votos foram a fa-
vor de deixar a UE. O Instituto Humanitas Unisinos considerados verdadeiras assinatu- ços de tecnologias da engenharia
– IHU, na seção Notícias do Dia de seu site, vem ras, perpassando e mesclando dife- biológica, da engenharia cibernética
publicando uma série de análises sobre o tema.
Entre elas, A alma da Europa depois do Brexit, ar- rentes temporalidades. E são essas e de seres inorgânicos. Estas mesmas
tigo de Roberto Esposito, publicado no jornal La assinaturas que ele bem trabalha no tecnologias ampliam nossa capaci-
Repubblica e reproduzido nas Notícias do Dia de
1-7-2016, disponível em http://bit.ly/2gazMuF; e livro (não chama assim, o termo as- dade de criar realidades intersubje-
O Brexit e a globalização, artigo de Luiz Gonzaga
Belluzzo, publicado por CartaCapital e reproduzi- sinatura é colocado aqui por mim), tivas, de misturar realidade e ficção,
do nas Notícias do Dia de 12-7-2016, disponível essas continuidades que citei nas que são fundamentais para mobili-
em http://bit.ly/2eY4F68. Confira mais textos em
ihu.unisinos.br. (Nota da IHU On-Line) frases anteriores, que geram as dis- zar o ser e fazer da cooperação dos

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sapiens. Também aproximam cada 3) O que vai acontecer à socieda- Assim, acabamos concebendo a vida
vez mais ciência e religião. Questões de, aos políticos e à vida cotidiana enquanto um problema técnico, da
que apesar de não serem novas, in- quando algoritmos não conscien- engenharia algorítmica, de proces-
tensificam-se cada vez mais, sendo tes mas altamente inteligentes samento de dados e vemos nisso a
realmente uma história do presente, nos conhecerem melhor do que possibilidade de manipularmos a
mas também do passado e do futuro nós nos conhecemos? vida eterna e feliz: expressar a vida
que, paradoxalmente, ao continu- humana enquanto valor máximo,
Lucas Henrique da Luz – Para
ar no presente um projeto histórico dando a ela eternidade e felicidade
responder à questão citarei algumas
humanista, deverá levar, no futuro, constante, assumindo assim o papel
constatações e “projeções” que o au-
a sua superação. É um presente que, de Deus. Ao fazer isso, consciente
tor faz e que podem ser consideradas
a partir das tecnologias que temos ou inconscientemente, estamos co-
críticas, mas adianto que, na minha
hoje, continua o passado, se projeta locando o protagonismo na técnica,
perspectiva, elas convergem para
sobre o futuro e, paradoxalmente, não no humano e na vida humana,
uma crítica ou constatação que pa-
ao dar conta de uma continuidade reforçando o seu processo de auto-
rece ser central na sua obra. Como
em expressão máxima, leva e leva- validação. Estamos criando, quem
exemplo das diversas constatações
rá a profundas rupturas, trazendo sabe, um processo sem sujeitos (pelo
e projeções críticas que o autor traz
espécies, seres e relações que talvez menos se pensarmos os humanos
eu citaria a crítica ao antropoceno e
não possamos prever. Diria eu que é como sujeitos) levado a cabo por se-
a uma superioridade artificial e pre-
a expressão da complexidade, onde res inorgânicos ou então, por uma
passado, presente e futuro vivem em datória assumida pelos humanos; a pequeníssima elite de super-huma-
momentos de aparente caos ou or- dificuldade de sairmos de uma lógi- nos. Como serão as relações entre
ganização, onde tecnologias e para- ca de “progresso”, de busca constan- estes super-humanos ou os seres
digmas continuam e rompem, viven- te de superação, de avanço técnico/ inorgânicos e os sapiens (uma pro-
do conjuntamente até que grandes científico, ainda, desvinculando vável subespécie)? Não sabemos.
transformações ocorram, não linear- neste processo inteligência e cons- Mas, a julgar pela forma como o sa-
mente traçadas. ciência; o descontrole e, porque não, piens se relacionou com as demais
a falta de consciência em relação ao espécies, com os animais, não temos
momento em que chegamos, no qual muitas razões para sermos otimis- 69
IHU On-Line – Quais as prin- não podemos mais pisar nos freios e tas, como mostra Harari. E mais:
cipais críticas que a obra faz? somos cada vez menos sujeitos; a ex- contribuímos e desejamos tudo isso,
cessiva autovalidação do ser huma- acreditando que será a nossa salva-
Gilberto Antonio Faggion – A no; nossas falsas compreensões das
obra traz alguns questionamentos ao ção; será a possibilidade de sermos
relações entre ciência e religião, bem felizes e “eternos de fato”.
citar que a política está desprovida como nossa cada vez menor capaci-
de maiores objetivos e ideais e que dade de distinguir realidade e ficção;
governar tornou-se administrar. Ha- dentre outros. IHU On-Line – Como as trans-
rari argumenta que as decisões sobre
Na minha percepção, a obra usa es- formações científicas a partir
o que, por exemplo, precisa ser feito
tas e um conjunto de outras consta- do século XVI transformaram a
quanto ao aquecimento global e ao
tações e projeções críticas como for- noção de Deus?
perigoso potencial da inteligência
artificial, não pode ser simplesmen- ma de embasar uma crítica maior: o Gilberto Antonio Faggion – A
te deixado à mão do mercado, pois fato de estarmos construindo, nesta ciência moderna, que se desenvol-
é cega e invisível e, se deixada por transição epocal que nos leva para ve a partir do século XVI, faz uma
sua própria conta, poderá fracassar. lá da modernidade, “uma civilização aliança e um acordo com uma “reli-
Ainda, é provável que estruturas no- tão prodigiosamente avançada na gião” específica, o humanismo. Este
vas e mais eficientes vão se desenvol- sua razão técnica e tão dramatica- rejeita a crença em um grande plano
ver para assumir o lugar das atuais mente indigente na sua razão ética”3. cósmico, sendo que a ciência passa a
políticas, mas a questão é quem vai Ou seja, Harari parece evidenciar dar aos humanos a sensação de do-
construir e controlá-las. na sua obra que estamos para além mínio sobre o mundo, interferindo
da relação técnica e ética, ciência e diretamente nele, não dependendo
Ainda, no final do livro, Harari le-
religião. A própria técnica cada vez mais de algum ser transcendente
vanta três questões que levam a uma
mais valida os princípios éticos, e a para interferir por eles. A ciência e
reflexão crítica do que argumentou e
religião é cada vez mais a técnica – a tecnologia modernas conferem aos
exemplificou ao longo da obra:
o dataísmo, a inteligência artificial. humanos poderes que excedem em
1) Será que os organismos são muito os dos antigos deuses.
apenas algoritmos, e a vida ape- 3 O trecho entre aspas faz menção ao Gênese,
Missão e Rotas do Instituto Humanitas Unisinos, A modernidade fez um contrato
nas processamento de dados? particularmente a uma citação de Henrique de
Lima Vaz, na obra Raízes da modernidade. Escri- com os humanos, no qual concor-
2) O que é mais valioso – a inteli- tos de Filosofia VII. O texto Gênese, Missão e Rotas dam em abrir mão de significado em
pode ser lido em http://bit.ly/2j16JKC. (Nota da
gência ou a consciência? IHU On-Line) troca de poder, sendo que as coisas

EDIÇÃO 516
ENTREVISTA

simplesmente acontecem e a vida vro e de outras resenhas sobre ele, E é justamente este levar ao extre-
moderna consiste numa constante inicio a resposta trazendo o fato de mo o projeto humanista, colocando
busca de poder num universo desti- que Harari mostra que os caçadores- o Homo sapiens enquanto Homo
tuído de significado. Espera-se que coletores eram animistas, ou seja, Deus, que leva à superação do para-
as experiências dos humanos deem percebiam os humanos como outro digma humanista e traz novos parâ-
significado ao grande cosmo, que animal e não um ser superior. Em metros à religião, uma vez que agora
criem um significado sem significa- uma etapa posterior, o homem passa o Deus está baseado nos algoritmos,
do, que se adquira fé na humanida- a se perceber enquanto criação úni- nos fluxos de informação, na inteli-
de. Somos a fonte suprema de signi- ca, imagem e semelhança de Deus. gência artificial e no big data. Temos
ficado e nosso livre-arbítrio é a mais Nesse sentido, Harari mostra que o então a religião dos dados e, quem
alta de todas as autoridades. velho testamento coloca nós huma- sabe, outras tecnorreligiões.
nos nesta condição, uma vez que não
No humanismo, são os nossos sen-
há como reconhecer o animal dentro
timentos que proveem significado. IHU On-Line – Quem é ou o
de nós, pois isto negaria o poder da
Tanto é que o humanismo trouxe um que é o Homo Deus?
Criação, o poder de Deus e sua au-
novo método de estar em contato
toridade. Mostra ainda que esta con- Gilberto Antonio Faggion – Os
com a autoridade e de adquirir co-
cepção, assim como a bíblia, foram novos projetos do século XXI – al-
nhecimento. Na Europa medieval, a
produtos da Revolução Agrícola. Ou cançar a imortalidade, a felicidade
fórmula era: Conhecimento = Dados
seja, com ela reforçamos as religiões e a divindade – têm o propósito de
empíricos x Matemática. No huma-
agrícolas que de uma ou de outra superar e não de salvaguardar os
nismo é: Conhecimento = Experiên-
forma justificaram a superioridade humanos, eles podem resultar na
cia x Sensibilidade. A visão huma-
humana perante os outros animais. criação de uma nova casta super-hu-
nista da vida como uma sequência
de experiências tornou-se o mito que A teologia, a mitologia e a litur- mana que abandonará suas raízes
fundamenta numerosas indústrias gia de religiões como o Judaísmo, liberais. Então o liberalismo entrará
modernas, do turismo à arte. o Hinduísmo e o Cristianismo con- em colapso. Esses super-humanos
tribuíram na justificação da supe- teriam experiências fundamental-
No entanto, a aliança que conecta mente diferentes das do Homo sa-
70 ciência e humanismo pode muito
rioridade humana e a consequente
possibilidade de exploração dos piens. Para o tecno-humanismo, que
bem desmoronar e dar lugar a um ainda considera os humanos o ápice
animais, por exemplo. Já, o adven-
tipo muito diferente de trato, en- da criação e se atém a muitos valo-
to da revolução científica gerou as
tre a ciência e alguma nova religião res humanistas tradicionais, o Homo
religiões humanistas, mantendo e
pós-humanista. Ou seja, a visão sapiens, tal como conhecemos, já
quiçá ampliando a superioridade do
humanista estaria por ser supera-
valor do humano, porém tendo uma esgotou o seu curso histórico e não
da por uma tecnorreligião, a qual
substituição dos deuses do período será mais relevante no futuro; por-
está associada justamente aos avan-
anterior, pelos humanos. O Homo tanto, deveríamos usar a tecnologia
ços científicos. Pode-se prometer a
sapiens enquanto portador de uma para criar Homo Deus – um modelo
salvação por meio de algoritmos e
essência única e sagrada, de alma, humano muito superior.
genes. Surge o dataísmo, como se
de inteligência e consciência (coi-
fosse Deus, para o qual o Universo O Homo Deus manterá algumas
sas que Harari questiona no livro)
consiste em um fluxo de dados e o características humanas essenciais,
se percebe capaz de compreender o
valor de qualquer fenômeno ou en- porém usufruirá igualmente de apti-
universo e ter autoridade para com
tidade é determinado por sua contri- dões físicas e mentais aprimoradas,
ele, passando assim a substituir os
buição ao processamento de dados. que o capacitarão a manter-se firme
deuses. Passa a se autovalidar, não
No dataísmo os humanos passam a mesmo contra os mais sofisticados
negociando com as demais espécies
ser secundários nesse processo, pois algoritmos não conscientes. Os hu-
e mesmo silenciando os deuses. É o
não passariam de algoritmos. Além manos devem ativamente fazer o
que Harari chama no livro de “one
disso, o autor argumenta que não upgrade de suas mentes se quiserem
man show”. Ele praticamente age
há razão para pensar que algoritmos permanecer no jogo. Ainda, é bem
sem praticamente nenhuma obriga-
orgânicos (humanos) possam fazer provável que os futuros upgrades da
ção, responsabilidade, cuidado no
coisas que algoritmos não orgânicos mente humana reflitam necessida-
mundo. Ou seja, passou-se de um
(inteligência artificial) não serão ca- des políticas e forças de mercado.
plano cósmico enquanto significador
pazes de igualar ou de superar.
da vida, para um paradigma onde Deve-se ressaltar que apenas uma
Lucas Henrique da Luz – Não estas religiões humanistas passam elite da humanidade se tornaria esse
sou especialista e nem mesmo um a adorar a humanidade e esperam Homo Deus, uma vez que grande
leigo conhecedor do tema, então po- que os humanos atuem como Deus parte dos humanos seria militar e
derei trazer algumas coisas impreci- (este é o projeto em curso). As expe- economicamente dispensável. Mas
sas – o que pode ser bom também. riências humanas passam a dar sig- algumas pessoas continuariam a ser
Assim, valendo-me da leitura do li- nificado ao cosmos e não o inverso. indispensáveis e indecifráveis, cons-

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tituindo uma elite diminuta e privi- ensão do que são e de suas implica- ço sem precedentes da cultura ma-
legiada de humanos elevados a um ções. Destina várias e várias páginas terial, mas fica devendo em termos
grau superior. Esses super-humanos do livro descrevendo e exemplifi- de apresentar um horizonte claro
seriam dotados de aptidões ainda cando a concepção de organismos de valores, metas e ideais. O mundo
desconhecidas e de uma criatividade como algoritmos, a organização da ético é fruto de uma árdua conquista
sem precedentes, o que permitiria sociedade em formato de algoritmos da civilização, que precisa ser cons-
que tomassem muitas das decisões e como eles tornam os humanos inú- tantemente desenvolvido diante do
mais importantes no mundo. teis econômica e militarmente. rápido avanço tecnológico. Nisso o
livro deixa a desejar.
Harari sustenta que o Homo sa- Já quanto aos limites, me parece
piens não é o ápice da criação ou o que o principal é focar demais na
precursor de algum futuro Homo tecnologia e nas suas proezas, como Lucas Henrique da Luz – A
Deus. Os humanos seriam apenas se fosse certo que ela vai dar conta obra tem, para mim, um mérito
instrumentos para a criação da in- de tudo, resolver os problemas hu- grande ao ler cenários pós (moder-
ternet de todas as coisas que even- manos e inclusive não precisar mais no, humano etc.) de uma maneira
tualmente poderia se estender para deles, superando-os. Acaba por sus- um tanto moderna, a das macronar-
fora do planeta. Esse sistema de pro- tentar uma narrativa um tanto ca- rativas. Fato este que torna a obra
cessamento de dados cósmico seria tastrófica e distópica, que vai ficando muito rica e capaz de trazer alertas,
como Deus. Estaria em toda a parte mais forte nos capítulos finais, evi- histórias, projeções, fatos, bastante
e controlaria tudo, e os humanos es- denciando a ideia de que a técnica aguçados, que já mencionei. Assim,
tariam destinados a se fundir dentro fugirá do controle humano, fazendo creio que tem como grande mérito
dele. O Homo sapiens se tornaria -o desaparecer. Há uma forte ideia provocar reflexões sobre um tempo
um algoritmo obsoleto. de que o humanismo será devorado em que o paradigma dominante téc-
pelo progresso tecnológico. Ou seja, nico fundamenta a nossa existência
Lucas Henrique da Luz – O
o mundo atual, dominado pela or- e, ao mesmo tempo, fundamenta-se
Homo Deus poderá ser um tipo de
dem do pacote liberal do individu- a si próprio, cada vez mais. Então,
super-humano, talvez podemos di-
alismo, dos direitos humanos, da consegue questionar algo que se tor-
zer de pós-humano: uma pequenís-
sima casta de “sacerdotes” dotadas
democracia e do livre mercado, será nou ao mesmo tempo o existir e o 71
solapado pela ciência do século XXI. fundamento da existência, o que me
do acesso aos artefatos inorgânicos,
acoplados ao seu próprio corpo mui- Talvez, isso ocorra mesmo, o que parece algo bastante difícil e meritó-
tas vezes, com formas de pensar e não quer dizer que seja o fim da hu- rio. Além disso, creio que consegue
processar diferenciadas, com conhe- manidade, mas sim um cenário típi- mostrar a continuidade entre o que
cimentos “técnicos” elevadíssimos co de um mundo pós-liberal, no qual trabalhou no livro anterior – o que
(nível elevadíssimo de inteligência haverá também outras “inovações” ocorreu para se chegar ao sapiens
– ou um tipo dela – e não de consci- humanas além das tecnológicas, que que conhecemos, com a tentativa
ência). Ou ainda, em outra hipótese, junto a estas podem tornar o mundo atual de nos tornarmos Homo Deus
o papel de Deus, o Homo Deus pode- um lugar muito melhor para se con- (foco desta última obra). Neste sen-
rá ser constituído de seres inorgâni- viver e compartilhar, mais justo e in- tido, penso que o mérito maior está
cos. Estes terão tamanha capacidade clusivo, mais equilibrado e integra- em mostrar uma “continuidade his-
que não precisarão mais dos sapiens do ecologicamente e por aí vai. Basta tórica” que gera seu próprio esgota-
e nem mesmo destes super-huma- pensar nos potenciais da tecnologia mento, gera descontinuidades.
nos, destes pós-sapiens. Enfim, o para facilitar uma governança autô-
Enquanto limites, não há como
certo é que o custo de chegarmos a noma da sociedade, para a geração
uma obra desta dimensão não ter fal-
Homo Deus, em qualquer uma das de melhores resultados econômicos
tas. O próprio autor fala disso. Penso
“formas” que tentei expressar nesta numa sociedade sem classes, para a
que no livro não fica claro o que ele
resposta, ou na mistura delas, será integração ecológica dos humanos
percebe enquanto inteligência arti-
(grosso modo) entregar nossa liber- com os demais seres e com o Plane-
ficial. Mesmo outros avanços, como
dade às máquinas, à técnica e signi- ta. A questão é como num mundo
o big data, o autor trata deles como
ficará a nossa superação. pós-liberal se empregará a tecno-
se houvesse certo consenso, um “sa-
logia, para a criação de sociedades
ber o que são”, do que se tratam e
melhores ou para a remodelação e
até mesmo de que vão avançar em
IHU On-Line – Quais são os li- manutenção das velhas injustiças.
determinada direção. Além disso,
mites e os avanços da obra?
Nesse contexto, o livro descreve os outro limite tem sido apontado no
Gilberto Antonio Faggion – A grandes avanços da razão técnica, sentido de que o autor pode assumir
contribuição maior da obra está na a ponto de praticamente deificar a uma posição muito distópica, o que
forma como o autor traz a questão tecnologia, mas não consegue for- acabaria reforçando um paradigma
dos algoritmos para o público em ge- mular a razão ética correspondente tecnófilo, pois parece que não há sa-
ral, permitindo facilmente a compre- a isso. Há a descrição de um avan- ídas perante a tecnologia e seu avan-

EDIÇÃO 516
ENTREVISTA

ço. Harari afirma que não há como se irrelevantes. O indivíduo estaria se algum momento vejo uma leitura com-
pisar nos freios e, ao mesmo tempo, tornando um pequeno chip dentro de partilhada entre Harari e autores que
diz que não há liberdade de decisão um sistema gigantesco que, na reali- têm escrito sobre a Revolução 4.0,
perante algoritmos que compõem a dade, ninguém entende. Do ponto de como por exemplo, Klaus Schwab4.
nossa vida. Daí, por exemplo, a dis- vista dataísta, podemos interpretar Tanto Harari como Schwab alertam ou
topia. Comento isso na questão se- toda a espécie humana como um siste- mostram a fusão cada vez mais inten-
guinte e acredito que falar de limites ma único de processamento de dados. sa entre o físico, o biológico e o digital
e pontos fortes seja tarefa para a lei- como potencializadores do processo de
Diante disso, o dataísmo ameaça fa-
tura de cada um e cada uma. transformação vivenciado. Harari vai
zer ao Homo sapiens o que o próprio
Homo sapiens fez a todos os outros falar da engenharia biológica, da enge-
nharia cibernética e dos seres inorgâ-
“A própria animais. Os humanos renunciam à
autoridade em favor do livre mercado, nicos que cada vez mais compõem as

técnica cada da sabedoria das multidões e de algo-


ritmos externos em parte porque não
novidades da nossa realidade. Porém,
as consequências possíveis que os au-

vez mais valida conseguem lidar com o dilúvio de da-


dos, sendo que atualmente e no futuro
tores percebem são muito diferentes.
E, ainda, Harari trabalha muito mais
os princípios ter poder significa saber o que ignorar. a perspectiva histórica que antecede a
transição atual, dando uma visão bas-
éticos, e a Assim, quanto ao futuro, o autor
argumenta que se adotarmos uma
tante mais complexa do fenômeno. Ou
seja, sei que não há comparação entre
religião é visão realmente ampla da vida, to-
dos os outros problemas e desenvol-
as obras, mas o que me chama atenção
é que apesar de verem, serem e falarem
cada vez mais vimentos serão ofuscados por três
processos interconectados:
para “audiências aparentemente tão
diferentes”, ambos percebem um grau
a técnica” 1) A ciência está convergindo para de transformação quem sabe jamais
um dogma (dataísmo) que abran- vivenciado e seu motor localizado na
72 ge tudo e que diz que organismos fusão anteriormente colocada.
IHU On-Line – O livro apon- são algoritmos, e a vida, processa-
Por fim, para aquelas e aqueles que
ta para a atual crise do huma- mento de dados.
pensam que tudo isso seja um “papo
nismo e sugere que no futuro
2) A inteligência está se desaco- delirante”, longe do presente (nunca
estaríamos diante do impera-
plando da consciência. apostar no tempo linear), lembro de
tivo dos bancos de dados e dos
algoritmos. Segundo a leitura 3) Algoritmos não conscientes um fato que ocorreu recentemente.
de Harari, pode-se afirmar que mas altamente inteligentes pode- Qual seja, a fundação da igreja Way
depois do Homo Deus virá o rão, em breve, nos conhecer me- of the Future5, que tem a adoração,
Big Data Deus? Como o autor lhor do que nós mesmos. culto e desenvolvimento de uma di-
acena para o futuro? vindade baseada na inteligência ar-
tificial, como forma de melhorar a
Gilberto Antonio Faggion – O IHU On-Line – Deseja acres- sociedade. Instigante. Ou seria, pre-
autor afirma que é provável que um centar algo? ocupante? ■
exame crítico do dogma dataísta seja
não apenas o maior desafio científico Lucas Henrique da Luz – Na 4 Klaus Schwab (1938): engenheiro e economis-
do século XXI como também o mais linha da penúltima questão desejo ta nascido na Alemanha, é fundador e presidente
executivo do Fórum Econômico Mundial. Escreveu
urgente projeto político e econômi- acrescentar que é difícil apontar o au- o livro A Quarta Revolução Industrial, lançado no
Brasil pela editora Edipro. Em 1971, Schwab le-
co. Mas, ainda que o dataísmo esteja tor como tecnófilo e distópico, fazendo cionava Universidade de Genebra, Suíça, quando
errado e os organismos não sejam disso uma crítica a ele. Difícil, pois se convidou 444 executivos de empresas da Euro-
pa Ocidental para o primeiro Simpósio Europeu
apenas algoritmos, isso não impedirá pegarmos um pouco da evolução das de Gestão. O evento foi realizado no Centro de
Convenções de Davos, então recentemente cons-
necessariamente que o dataísmo tome tecnologias e suas promessas de vida truído. O encontro teve patrocínio da Comissão
conta do mundo. Nesse sentido, para mais livre, com tempo ocioso, com uma Europeia e das associações industriais do conti-
nente. O objetivo de Schwab era introduzir as
poder alcançar a imortalidade, a feli- criatividade podendo ser aplicada a di- empresas europeias nas práticas de gestão dos
Estados Unidos. Para tanto, fundou o Fórum de
cidade e os poderes divinos da criação, ferentes dimensões da vida etc., vere- Gestão Europeu, organização sem fins lucrativos
precisamos processar quantidades mos que o que alcançamos é uma vida localizada em Genebra, convocando todos os me-
ses de janeiro anualmente, líderes empresariais
imensas de dados, muito além da ca- cada vez mais governada por elas, com europeus para Davos. O nome do fórum mudou
para World Economic Forum em 1987. (Nota da
pacidade do cérebro humano. Assim, menos tempo livre/ocioso, com menos IHU On-Line)
os algoritmos farão isso por nós. liberdade e criatividade, que não aque- 5 Igreja Caminho do Futuro (Way of the Future):
o ex-engenheiro do Google e Uber, Anthony Le-
la no sentido utilitarista/produtivista. vandowski, propôs em 2015 estabelecer uma es-
Contudo, assim que a autoridade pécie de Igreja do Futuro, chamada em inglês de
passar de humanos para algoritmos, Também preciso ressaltar que, por Way of the future, uma instituição religiosa sem
fins lucrativos dedicada a adorar a Inteligência Ar-
os projetos humanistas podem tornar- mais estranho que possa parecer, em tificial. (Nota da IHU On-Line)

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Leia mais
- O futuro do capitalismo: uma sociedade com custo marginal zero. Reportagem pu-
blicada nas Notícias do Dia, de 10-9-2016, do sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU,
disponível em http://bit.ly/2zBnz91;
- A barbárie da financeirização e a crise do RS. Entrevista especial com Lucas Henrique
da Luz publicada na revista IHU On-Line, nº 470, de 17-8-2015, disponível em http://bit.
ly/2Ae6ghg;
- A burguesia golpista de 1964. Reportagem publicada nas Notícias do Dia, de 19-3-2014,
no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/1qUwRDH;
- A contribuição da universidade na modelagem das relações de trabalho. Entrevista es-
pecial com Lucas Henrique da Luz publicada na revista IHU On-Line, nº 416, de 29-4-2013,
disponível em http://bit.ly/1hiWjmp;
- Sociedade sustentável. Um debate em ambiente virtual. Entrevista especial com Gilber-
to Antonio Faggion publicada na revista IHU On-Line, nº 408, de 12-11-2012, disponível em
http://bit.ly/2BlYJum;
- Cooperativismo de Trabalho: Avanço ou Precarização? Um estudo de caso. Artigo de
Lucas Henrique da Luz publicado na 20ª edição dos Cadernos IHU, disponível em http://
bit.ly/1IYD9sB;
- Fórum Nacional de Economia Solidária. Depoimento de Lucas Henrique da Luz publica-
do nas Notícias do Dia, de 29-6-2006, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, dispo-
nível em http://bit.ly/1ExLn9l.

73

EDIÇÃO 516
PERFIL

Tecnologia como intersecção


entre academia e mercado
Saiba como o decano da Escola Politécnica,
Sandro José Rigo, estuda a aplicação da
inteligência artificial aos problemas da vida real

Lara Ely

Aos 47 anos, o Decano da Escola Politéc- manda de mercado.


nica, Sandro José Rigo, é o nome de van-
Lecionando na Unisinos desde 1995,
guarda quando se fala na digitalização dos
trabalhou em projetos de aplicação da in-
campi da Unisinos. Dentro do Programa de
formática à educação nos primórdios da
Pós-Graduação em Computação Aplicada,
internet. Fez capacitação de professores,
está o local onde se materializam as pes-
desenvolveu módulos de ensino a distân-
quisas sobre os principais eixos temáticos
cia, criou recursos pedagógicos e material
da chamada Revolução 4.0. Nas portas das
institucional, coordenou equipes. Como
salas de pesquisa do quarto andar no pré-
dio C, estão placas
74 contendo expres-
sões como internet
das coisas, big data
e inteligência artifi-
cial. Nesta última li-
nha que Rigo baseia
seu foco principal
de estudos.
Interessado por
tecnologia desde
cedo, ingressou no
curso de graduação
em Software Bási-
co na PUCRS após
concluir o Ensino
Médio Profissio-
nalizante em Ele-
trônica. Além da
facilidade em ma- Rigo na sala do cluster da Escola Politécnica, a “nuvem” da universidade
temática e física, o
gosto por psicolo-
gia e história o levou a optar pelo curso programador, trabalhou ainda no desen-
por entender que, nele, poderia empre- volvimento de aplicações web. “Atuava
gar a tecnologia na solução de problemas junto a uma equipe de webmasters que
específicos da sociedade, como na edu- fazia um trabalho integrado para cuidar
cação, direito e saúde, por exemplo. Ao da comunicação de cada centro”, recorda.
fazer Mestrado e Doutorado em Ciências Após duas décadas de dedicação à área,
da Computação, na UFRGS, nos anos agora ele se prepara para um Pós-Dou-
1990 e 2000, sua visão sobre a área se torado na Europa, onde irá estudar o uso
ampliou e foi coroada com a descoberta da tecnologia aplicada à saúde junto aos
de um campo aberto à inovação e alta de- pesquisadores do Medical Valley, na Ale-

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manha. Trata-se de um conglomerado de Questionado sobre os desafios da ino-


empresas que interagem junto a um hos- vação, diz que lidar com o risco é a prin-
pital e uma universidade local chamada cipal questão a ser enfrentada nesses
Friedrich-Alexander-Universität Erlangen novos tempos. Pessoalmente, traz da
-Nürnberg - FAU. infância em Porto Xavier, cidade no in-
terior gaúcho onde nasceu e morou até
Em solo brasileiro, essa intersecção en-
os 14 anos, lembranças que o tornaram
tre academia e mercado tem sido o motor
apto para a missão de lidar com o incer-
do trabalho de Rigo. Atuando em entida-
des de classe como a Sociedade Brasilei- to. Desse tempo, recorda principalmente
ra de Computação - SBC ou a Fundação o trabalho na loja de departamentos do
de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio pai, onde convivia diariamente com um
Grande do Sul - Fapergs, por exemplo, ele grupo de 35 funcionários e contribuía em
media a interação entre o fazer e o pen- todas as áreas. Outro ponto-chave para
sar tecnológico baseado em uma visão quem quer inovar é pensar o conteúdo,
inovadora. A presença ativa no mercado, de forma que este seja relevante e dife-
propondo ações como a criação de pro- renciado. Segundo Rigo, as tecnologias
gramas de computador que resultaram disponíveis hoje permitem montar proje-
em seis registros de software no Institu- tos de alto impacto social. Mas para que
to Nacional de Propriedade Industrial - isso ocorra, alerta, “é importante ter per-
INPI, é um prato cheio para sua atuação sistência e saber esperar”.
em sala de aula. Inclusive, compartilhar Atento ao momento de franca mudança
essa experiência com os alunos de gradu- pelo qual a universidade passa, ele arris-
ação, pós-graduação e os demais cursos ca dizer que a coleta, o armazenamento
que compõem a Escola Politécnica é algo e a utilização de dados para identificar
que lhe faz brilhar o olho. novos modelos de soluções está atrelado
Todo esse envolvimento e doação à car- ao avanço da nossa relação com a tecno- 75
reira tem um preço: Rigo diz que é im- logia. “Para alguns a relação com a tecno-
possível separar vida pessoal e profissio- logia é algo que muda a vida. Para outros,
nal. Com o passar do tempo, aprendeu a isso é algo intrínseco. Temos que lidar
preservar sua rotina, mantendo hábitos com essa dicotomia”.
saudáveis, como a prática de caminhadas Recentemente, um trabalho financia-
e corridas semanais em parques e na orla do pelo governo do Estado que resultou
de Porto Alegre, e mantendo o hábito du- na criação de aplicativo de jogo sobre as
rante viagens, como fez em sua passagem Missões Jesuíticas foi uma amostra dessa
por Zaragoza, na Espanha, durante está- atuação colaborativa. No projeto partici-
gio de dois meses. “Aprendi que é fun- param pedagogos, historiadores, profis-
damental manter esse equilíbrio”. Outro sionais do turismo e dos games. O app
elemento que ajuda na descompressão foi desenvolvido em vários ambientes de
do cotidiano é o contato com os filhos e realidade virtual para mostrar a questão
sobrinhos, com quem gosta de comparti- histórica. Assim como neste caso, Rigo
lhar momentos assistindo filmes e séries ressalta que há hoje muitas iniciativas li-
(ou trechos deles) e ouvindo música. gadas ao aprendizado informal e forma-
No decanato, compromisso que assumiu tos de transmissão de informação, mais
em 2017 após período como coordenador conhecidos como MOOC (massive onli-
da pós-graduação, ele conseguiu colocar ne open courses, na sigla em inglês). São
em prática um estilo de trabalho que mui- essas abordagens disruptivas que impac-
to lhe agrada: a colaboração. “Vejo, a par- tam a universidade algo que ocupa o pen-
tir da computação, o quanto conseguimos samento do decano. Para ele, pensar es-
avançar trabalhando dessa forma. Agora, tas formas de ensino hoje significa olhar
como decano, isso ficou ainda mais pre- para a infância e adolescência dos alunos
sente. Essa colaboração é fundamental e considerar seus modos de interação so-
para que haja inovação”. Quando com- cial, aprendizado, entretenimento”. Es-
partilha os frutos dessa vivência com os sas vivências, segundo Rigo, demandam
alunos, o interesse é imediato. “Os alunos da universidade uma reação, não apenas
estão muito abertos para a integração da para incorporar a tendência, mas para fa-
tecnologia com outras áreas”, afirma. zer a crítica e avançar.■

EDIÇÃO 516
CRÍTICA INTERNACIONAL

Evasão de divisas e os Paradise


Papers como evidência sistêmica
Bruno Lima Rocha

“ A
queda de receita é visível, sendo que a carga tributá-
ria, mesmo no ‘centro do sistema’ termina recaindo
sobre salário e consumo, incidindo em cascata em
assalariados e aposentados, sendo provável a evasão fiscal
e envio de recursos de forma suspeita mesmo na União Eu-
ropeia, revelado em outro ‘escândalo’, este dos Lux Leaks,
sendo a PricewaterhouseCoopersa a principal operadora
da fraude”, aponta Bruno Lima Rocha.
Bruno Lima Rocha é doutor em ciência política pela
Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e
professor de relações internacionais da Unisinos.
Eis o artigo.

76
O Brasil, infelizmente, não está isento da evasão de divisas. No ranking de 2012, nosso país
ocupava o vergonhoso quarto maior volume de depósitos no exterior. Assim, em tese, teríamos
a resgatar cerca de 28% do PIB em estoque, um montante ao redor de R$ 570 bilhões de reais.
Ou seja, um a cada quatro reais que circulariam aqui deixaram de alimentar a economia real,
não geram nem emprego vivo e tampouco carga tributária para ser disputada através de políti-
cas públicas. Estes valores estão em “jurisdições especiais”, também conhecidas como “paraísos
fiscais”, e operam no limite da legalidade. Por mais amoral e indigno, não se poderia – formal-
mente – acusar de crime sem as provas materiais do ato criminal, sob o risco de ter de responder
a um processo milionário, com severos danos ao modesto patrimônio de quem acusa. Os agredi-
dos – supostamente – estariam indignados com a “desconfiança”. Então, sem “acusar”, constato
o óbvio nas evidências subsequentes, diante da última revelação dos depósitos de autoridades e
bilionários no estrangeiro.
A Ilha de Bermuda (gov.bm) é um território ultramarino britânico, e, embora tenha certo esta-
tuto de autonomia, obedece às regras do gabinete da primeira ministra e pode sofrer interven-
ção do governo londrino. É considerada uma “jurisdição especial” do Reino Unido, dependente
no quesito de defesa e relações externas, além de operar como uma lavanderia do império. As
revelações contidas nos chamados Paradise Papers – uma dentre várias oriundas. A chave de
interpretação desta nova “revelação” é a presença de um advogado e ex-oficial do império bri-
tânico, Reginald Appleby, que abriu um escritório legal na ilha de Bermuda, onde o mesmo era
visto como autoridade máxima. Pode-se compreender que a empresa Appleby (applebyglobal.
com) como Transnacional - TNC de serviços financeiros acompanhou a expansão da chamada
“indústria offshore” e opera em uma teia com mais de 60 escritórios afins coligados, tem mais
de 470 profissionais legais – especializados, obviamente, em direito tributário internacional e
as arriscadas operações daí decorrentes – estando em dez sedes físicas, todas “paraísos fiscais”.
Sua matriz global é em Bermuda, mas tem escritórios nas Ilhas Virgens Britânicas, Cayman,
Guernsey, Hong Kong, Ilha de Man, Jersey, Mauritius, Seychelles e Shanghai.
Os Paradise Papers, esforço investigativo vazado através do Consórcio Internacional de Jorna-
listas (icij.org), são parte dos Offshore Leaks Database, coletando mais de 500 mil pessoas jurí-
dicas reveladas nos Panama Papers e Bahamas Leaks (2016), Offshore Leaks (2013) sem contar

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“Os bilionários e suas empresas matrizes,


do ‘norte hegemônico’ e no eixo anglo-
saxão (EUA e aliados) cometem
permanente evasão fiscal e de divisas”

investigações regulares. No vazamento da Appleby Bahamas surgem três figuras proeminentes


no Brasil: os ministros da Fazenda Henrique Meirelles e da Agricultura Blairo Maggi, além do
mais rico brasileiro no planeta, Jorge Paulo Lemann e seus sócios, Marcel Telles e Beto Sicupira,
controladores da 3G Capital. De forma cruzada, a 3G – que pertence aos homens que ocupam
as posições 1º, 3º e 4º maiores bilionários do país – tem participação em mais vinte empresas
localizadas em paraísos fiscais da região, além de Bermudas, Cayman e Bahamas. É interessan-
te observar que no site oficial (3g-capital.com) a empresa tem sedes físicas em Nova York, Rio
de Janeiro e São Paulo, e não nas ilhas acima citadas. No portal bermuda-online.org é possível
localizar centenas de empresas com sedes offshore na ilha e também os “líderes mundiais” com
contas abertas naquela jurisdição.
Os números de nacionais não são proporcionais aos nomes descobertos. Ao contrário do vo-
lume de contas de brasileiros encontradas no Swiss Leaks (HSBC Suíça, revelados em 2015),
constavam 6.606 contas secretas de brasileiros no país; no Panama Papers (revelações da em-
presa Mossack Fonseca – mosfon.com – em 2015) localizaram 1.707 beneficiários. Antes dessas
duas revelações, era comum surgirem depósitos no exterior a cada escândalo ou investigação 77
federal, como na CPI do Senado investigando o Sistema Financeiro nacional e o favorecimento
com informações privilegiadas aos maiores especuladores (físicos e jurídicos) sendo alertados
da desvalorização do real diante do dólar. Na ocasião foram punidos os bancos de investimento
Marka (presidido por Salvatore Cacciola) e FonteCindam (presidente Luiz Antônio Gonçalves),
sendo que o primeiro detinha contas e empresas de tipo “offshore-onshore” no Uruguai. As duas
instituições financeiras acima foram as únicas a sofrer penalidades, mas a CPI apurou a atuação
de outras afins e tomadores de decisão de ambos os lados do balcão (empresas e Estado). Esta
complementaridade, onde o ministro atual era o banqueiro ou o CEO de ontem e poderá vir a ser
o gerente do hedge fund ou diretor de organismos internacionais de amanhã materializa tanto
a teoria das portas giratórias na formação de uma elite dirigente brasileira transnacionalizada
como também exemplifica a captura do Estado por interesses privados, e especificamente finan-
ceiros e especulativos.
A elite financeira e dirigente dos bancos, fundos de investimentos e infelizmente, também
da autoridade monetária nacional, não formam a exceção e sim uma regra em escala mundo.
Com maior ou menor intensidade, assim como o sistema financeiro inverte sua concepção
lógica – fornecer créditos, poupança interna e garantias produtivas – e drena recursos para
um ganho de rentabilidade muito superior ao da economia real, o mesmo ocorre quando
estes indivíduos e suas empresas, assim como as Transnacionais de controle parcialmente
pulverizado – com capital aberto em alguns países – operam com holdings e trustes locali-
zados em “jurisdições especiais”.
Se até os anos ’80 do século XX uma das grandes reclamações na América Latina (e no Brasil
em específico) além da estagflação e a dívida externa era a absurda remessa de lucros pouco ou
nada tributada para as matrizes das TNCs, hoje o quadro é ainda mais assustador.

Expediente
Coordenador do curso de Relações Internacionais da Unisinos: Prof. Ms. Álvaro Augusto
Stumpf Paes Leme
Editor: Prof. Dr. Bruno Lima Rocha

EDIÇÃO 516
78

4 DE DEZEMBRO | 2017
REVISTA IHU ON-LINE

Outras edições em www.ihuonline.unisinos.br/edicoes-anteriores

Interculturalidades no Sul Global

Edição 459 – Ano XIV – 17-11-2014

“Com o intuito de encorajar a comunidade acadêmica e o público em ger-


al a discutir problemas específicos do Sul Global, especialmente da África
e da América Latina, desde o referencial teórico descolonial, a revista
IHU On-Line se insere na discussão do tema do evento Interculturali-
dades no Sul Global. Descolonização, Direitos Culturais e Política, real-
izado na Unisinos em 2014.”

Os desafios da Escola, hoje. 50 anos do


Curso de Pedagogia da Unisinos

Edição 281 – Ano VIII– 10-11-2008 79


“Por ocasião dos 50 anos do curso de Pedagogia da Unisinos, foi publica-
da a edição 281 em comemoração a esse cinquentenário. A proposta da
edição foi descrever os desafios da educação no Brasil e as característi-
cas de algumas correntes pedagógicas que marcaram as últimas cinco
décadas, como Piaget, Vygotsky, Montessori. Reflexões sobre a educação
a partir de autores como Michel Foucault e Pierre Bourdieu também
compõem a edição.”

Uma outra educação é possível

Edição 110 – Ano IV– 9-8-2004

“Em 2004 foi realizado em Porto Alegre, o III Fórum Mundial de Edu-
cação - FME, com o tema que inspira o título desta edição, Outra edu-
cação é possível. Na ocasião a Unisinos esteve presente no evento com
vários professores e representantes, onde o Instituto Humanitas Unisi-
nos - IHU fez o lançamento do Simpósio Internacional Terra Habitável:
Um desafio para a humanidade.”

Errata
Diferentemente do que informou o texto Informação sob alto controle, publicado nas páginas 64 e 65 da edição
nº 515 da revista IHU On-Line, o professor Jorge Rosa não faz parte do Escritório de Segurança da Informação
e Risco Corporativo. Este é um papel exercido por Thomas Low, na Associação Antônio Vieira.

EDIÇÃO 516
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