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L.t Jll.J
Dados Int•macionais de Catalogaçao na Publicação (UP)
GLADYS D'ACRI
(Câmara Brasileira do livro. SP, Brasil) PATRÍCIA UMA (TICHA)
SHEILA ORGLER
Oícionário de Gestalt-terapía : "Gestaltês" / ú!adys O'A<:ri, Patrida
Lima, Sheí!a Orgler, São Paulo ; Summus, 2007,
Organizadoras
Bibliografia,
ISBN ~78-85-32Hl382·0

1. Gést.!IHerapia Oidonálios !. D'Aai, úladys. 11. Uma,


Patlida, m. Orgler, Sheíla.

07-6961i - - - - - - - · · - - - - _.;:CD:.:D:_-6:.:lc:.6:;:.89.:..1:.:4:.:30:::3_

!ndke para catálogo sistemático; DICIONÁRIO DE GESTALT-TERAPIA


1. Gestatt-terapía; Medicina: Oidonáríos 616.8914303

"GESTALTÊS"

C,,,,,pre em lugar de fotocopiar.


Cada real que você dá por um livro recompensa seus .JUtores
• os convida a plll<luzlr mais sobre o terna;
incentiva seus editores a ern:omendar, traduzir • publica,
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financia o crime
e ajuda a malar a produção íntelecwal de seu pais.
SUMÁRIO

Apresentação, 13
Apresentação da Gestalt-terapia. 15
Introdução à obra, 17

Verbetes

APT·essáo. l 9
Ajustamento criativo, 20
Ansiedade, 22
Aqui e agora, 24
Assimilação. 26
Atualização, 27
Auto-apoio, ambiental e maturação, 28
Auto-regulação organísmica, 3 r
AvVOreness, 32
Cadeira quente (ver Hot 35
Cadeira vazia, 35
Camadas da neurose, 38
(ver Teoria de campo), 39
Caráter; 39
Gelo do contato, 42
Comportamento deliberado e espontâneo, 45
Compulsão à 47
Como (ver Semântica. porquê e como). 48
Concentração (ver Terapia e técnica de concentração). 48
Configuração, 48
Conflito, 50
Confluência . 52
Consciência, 54
Conscientização, dar-se conta, tomada de consciência, 57
Contato, 59
Crescimento, 60
Cura (ver Doença. saúde e cura). 62
Dar-se conta (ver Consàertízação, dar-se conta. tomada de consciência), 63
Deflexão (ver Mecanismos neuróticos), 63
Hot seot, 139
Dessensibilização Mecanismos 63
ld, (ver Função id, ego, personalidade), 141
63
Indiferença criativa, pensamento diferencial, ponto zero. l 41
Dialét:ic:a, 65
Instinto de fome, 142
Dialógico, 68
145
, 1,,.,,,.. " saúde e cura, 70 Maturação (ver Auto-aprno, ambiental e maturação), 147
Dominador (underdog) versus dominado 72 Mecanismos neuróticos. l 47
Dominâncias (espontânea, não espontânea e neurótica), 74 Método fenomenológico, l 50
Ego, 79
Mudança (ver Teoria paradoxal da mudança/mudança), i 53
função (ver id, função ego. função 80 Necessidades, hierarquia de necessidades, de necessidades, 155
Egotísmo. 80
Neurose, 158
Necessidades, hierarquia de necessidades e Neutralidade, 160
emergência de necei;s1a:aa,es1. 8 1
Óbvio, 165
81
(ver Teoria rm,;-;r,ísnnír~ organismo.
Or·cr;;i1'11'-<no campo organismo/ambiente), 167
Energia, 83
Parte e todo, 169
Escotoma Ponto cei~o1'es,:ot:on.a 85
Pensamento diferencial Indiferença criativa, pensamento diferencial, ponto
Espontaneidade, 85
zero). 17i
Estética. 87
Personalidade, função (ver Função id, função ego. função personalidade), 171
Eu-Tu e Eu-Isso, 89
Polaridades, opostos. opostas, 171
Exôtação/excitamento, 92
Ponto cego/escotoma, 173
Existência, 94
Porquê (ver Semântica, porquê e como). 174
Existencialismo, 97
Presente, 174
Experiência, 100
Prioridade (ver Necessidades, hierarquia de necessidades, de
Experimento, 102
176
Fantasia, 109
Proflexão (ver Mecanismos neuróticos), 176
Fenomenologia, 1 1O
Projeção, 176
Figura e fundo, 1 12
Psicose. 177
Fixação (ver Mecanismos neuróticos), 1 15
Psicoterapia de grupo e workshop, 180
Fluidez, 1 15 .
Resistência e evitação. 185
Fronteira de contato, 1 16
186
Frustração, 1 17
Retroflexão, 189
e disfunção de contato, 119 Satori, 191
Função íd, função ego, função personalidade, 120
Saúde (ver Doença, saúde e cura), 193
Funcionamento saudável e funcionamento não saudável, 122
Self. 193
Gestalt, Gestalt aberta, Gestalt fechada, Gestalt inacabada, 125 Semântica. porquê e como, 195
Gestaltísmo, 127
Ser-no-mundo, 198
Gestalt-pedagogia, 129
Sistema, 199
131
Sístema sensoriomotor, 20 1
Hábito, 135
S~uaçãoinacabada, 202
Hierarquia de necessidades Necessidades, hierarquia de necessidades e Sonhos,205
"="'~"l>nri" de ne,:esi;ida.de,; ). 13 6
206
Holismo, 136
Teoria de campo, 209
Homeostase, 137 campo organismo/ambiente, 21 1
Teoria organísmica,
Teoria paradoxal da mudança/mudança, 214
Teoria e técnica de concentração, 216
Tomada de consciência (ver Conscientização. dar-se conta, tomada de
consciência), 218
Totalidade, 218
Vazio fértil. 221
Viagem de fantasia, 223 APRESENTAÇÃO
Vivência (ver Método fenomenológico), 224
V\lorkshop (ver Psicoterapia de grupo e workshop), 224 Com imensa satisfação vemos concretizada a criação, em todos os significados da palavra (obra,
Zen-budismo, zen, 225 criatividade, invento, instituição de algo novo), do Dicíonário de GestalHerapía 'Gestaltês".
Trata-se de um livro que contribui para o uso dos termos técnicos e científicos da
abordagem gestáltica. A forma clara com que esses termos estão definidos organiza os conceitos
de maneira singular: Baseado nas informações dos criadores da abordagem. a leitura de cada
verbete concorre para deixar claros o âmbito e os limites do campo conceituai da
tal é a sustentação com que se fazem presentes. Não bastasse a novidade da obra, desco-
nhecemos qualquer trabalho em Gestalt nos moldes aqui apresentados. apreciarDos também a
maneira de desenvolvê-la.

absolutamente original. vem preencher uma lacuna alimentar nossa sede desa-
ber e contribuir de forma decisiva para o escopo teórico-prático desta vertente ps1,co1,::,g1,ca
e psícoterapêutica.
Não temos dúvida, portanto. da relevância deste trabalho. Ele se mostra importante para os
GestalHerapeutas em sendo mais que um instrumento para profissionais e estudantes,
um refúgio para o desconhecimento. para as dúvidas e as questões polêmicas. Acreditamos que
ele tão grande êxito que atravessará as fronteiras do Brasil e conquistará o mundo.
Não poderíamos esperar nada diferente de uma idéia que tivesse partido das organizadoras.
Sobre Gfadys D'Acri, idealizadora deste dicionário, os que a conhecem sabem que, aiém
de psicóloga clínica, destaca-se por sua força empreendedora. vontade e de levar
adiante qualquer Com este dicionário, um sonho seu antigo se realiza.
Patroa Albuquerque Lima (fid1a) é capaz de articular saber, fazer e interagir de rnareira firme e
dekada. enriquecendo a todos com sua capacidade de comunicação. Seu jeito de ser está impresso
nos contatos, nos verbetes que escreveu e no empenho para que este sonho se realizasse.
Sheila Orgler; além da vasta experiência e da seriedade com que conduz seu trabalho em
diferentes setores, alia requinte intelectual à paixão pelas artes, mais especialmente pela música,
fato que toma seu fazer profissional diferenciado.
Cada qual, com perfil próprio, mergulhou na deste livro oferecendo aos leitores
o que há de mais importante para um sistema psicológico a clareza dos conceitos.
Parabenizo as organizadoras, minhas e diletas amigas, e agradeço a honra de ter
sido escolhida para apresentar uma criação de tão grande alcance.

Teresínhc Me/lo da Silveira


APRESENTAÇÃO DA GESTALT-TERAPIA

Origens da Gestalt·terapia'

AD perguntar a qualquer Gestalt-terapeuta a respeito da origem de sua pode-


mos obter duas respostas bastante para alguns, o fundador é Fritz Perls;
para outros, não se pode falar de um fundador, mas de um grupo de fundadores o dos
Sete", que compreendia um médico. um educador; dois """·~n,H,t:ois um filósofo, um escntor
e um especialista em estudos orientais. Não se trata. no caso, de uma r1"·"'"';-.r,r,, puramente
histórica, mas de duas maneiras diferentes de pensar e praticar a Gestalt-terapia.
Além dessa divergência quanto à origem, temos também a de qual livro mais bem
representa a O livro da discórdia, o mais discutido e certamente o que expressa as
vánas contraposições, permanece sendo Gestalt therapy: excitement and growth ln tr1e humon
personolity ( 1951 ), de Perls, Hefferline e Goodman Estamos falando mais precisamente da se-
gunda parte desse livro, escrito por Paul Goodman com base em apontamentos de Fritz Perls,
na época com 58 anos.
O chamado Grupo dos Sete. que era constituído por Fritz Perls, sua esposa, Laura, Paul
Goodman, lsadore From, Paul Weisz, Ellíot Shapiro e Sylvester Eastman, muito experimentou e
aprofundou essa parte do livro, sempre o considerando como a bíblia da Gestalt.
O Gestaft theropy foi publicado há 56 anos. É razoável considerar esse evento como o
nascimento da Gestalt. Foi então que se usou o termo vez, apesar das discussões
entre o gnupo. Para Laura. devia chamar-se ·Psicanálise existencial". Esse nome foi recusado por
ques1oes mercadotógícas (na época, o existencialismo de Sartre era considerado demasiado
niilista nos Estados Unidos). Hefferline queria que o livro se chamasse "Terapia •o
Grupo dos Sete como um todo queria chamá-lo "Terapia experiencial''; Perls queria chamá-lo
de concentração', para se opor à livre da psicanálise.
O nome provocou acalorados debates, principalmente com Laura. que
conhecia muito bem a psicologia da Gestalt e não achava esse nome pertinente. Paul Good-
man, por sua vez, corno bom anarquista. achou o tenno muito "esotérico e estranho'. por isso
mesmo o apoiou. Esse texto veio propor uma nova teoria e mudanças em alguns paradigmas
teórico-clínicos da psicoterapia da

~Gestalt-terapa: revisítarldo as ooss.as histórias~. fGr oo Pede - Revista Virtual,


* Este texto,
<http://wwW.igtpscbc/artJgo>.
16

No período de publicação desse livro nasce, em Nova York, o primeiro Instituto de Gestalt.
No ano seguinte, é fundado o Instituto de Cleveland. de onde se originaram, entre outros.
Erving e Miriam Polster; e Joseph Zlnker, que são rec011hecidos como a primeira geração de

Principais idéias
INTRODUÇÃO À OBRA
Para Perls, a tarefa central da terapia não é fazer os pacientes aceitarem interpretações ar-
caicas de sua história passada. e sim ajudá-las a se tomar vivas para a experiência imediata no Este dicionário tem a intenção de apresentar de maneira clara e precisa 05 nnr,rir,,,,
momento presente. Éacordar para o imediatismo e a simplicidade do agora. O por quê da ceitos da Gestalt-terapia, propondo-se a ser um veículo de consulta para todos os nrc,fi,,,irn,~,c
nálise dá lugar ao o quê e ao como. Preocupa-se rnaJs com a estrutura do que com o conteúdo e estudantes interessados nessa abordagem. Nesse intuito, os conceitos foram nrcr:m,in,-i,-,c
da fala. Esse sistema modifica radicalmente o que o terapeuta e o cliente vão focalizar, tornando forma de verbetes.
ponto, com qualquer material disponível: um sintoma, um sonho. Para sua execução, convidarnos profissionais de quase todas as do Brasil, e até de
um uma expressão facial, um modo de se sentar etc. Em Gestalt-terapia, qualquer ele-
vizinhos, que de algum modo estão envdvidos com o desenvolvimento da Gestalt-tiira-
mento desses é o núcleo do trabalho. pia do nosso pais,
Meio e mensagem. forma e conteúdo têm relação quase oposta à da psicanálise tradicional, Esta obra reúne a maioria dos termos relacionados à Gestalt-terapía, preocupando-se com
na qual o relato do paciente e a interpretação do terapeuta são o material básico. A maneira pela a contextualização (quando fOl introduzido na conceituação Perls ou
qual o paciente se apresenta permanece n..., "...,x, quem o introduziu) e do termo na contemporaneidade au-
A busca de trabalhável no presente dá à Gestalt-terapia seu ímpeto tores contemporâneos para o termo e/ou do autor do
para improvisar e experimentar. mais que explicar. A vivência, o acontecimento são as melhores bibliográficas de cada verbete, facilitando a procura e o
explicações. Como na organização dos verbetes os livros e são cons-
Ao trocar o local da descoberta do para o presente, da lógica das causas para o taritemente cítados. adotamos as EFA e P.YG, respectivamente: e PHG (sem itálico) para
drama dos efeitos, Perls foi rnatS além: tomou possível para o paciente em terapia revisar todo nos referirmos aos autores Perls. Heffeiiine e Goodman.
seu padrão de existência de acordo com a perspectiva do agora. Portanto. a construção que o Por uma questão de coerência com a Gestah:-terapia, um constante coostru1r, esta
paciente faz de sua vida se toma urna escolha, não um fato do destino.
não é uma obra acabada. Nem tem a pretensão de ser completa, mas d€ ir-se completando,
O que dá coerência a todos os conceitos alheios que Perls toma emprestados é sua focali- quem sabe, com futuras
zação na qualidade de vida do presente. Ele se utiliza de conceitos teóricos como rentes através
das quais examina a dificuldade das pessoas em contatar a situação imediata.
Gladys D'Acri. Patrícia Lima (T1cha) e Shei/a Orgler
A medida de saúde, para Perls, é a habilidade de experimentar o que é novo, como novo.
Rio de Janeiro, julho de 2007
Essas elaborações teóricas integraram diversos modelos de nsi,cnt,e>r..ni;, as principais orien-
tações do horizonte cultural - 195 !.

jean Oark Juliano

DICIONÁRIO DE GESTALT·HRAPIA
a
AGRESSÃO do desenvolvimento do instinto de

Em 1936, Perls participou do Congresso


forne e seus aspectos classifican-
lntemacional de Psicanálise na Tchecoslová- do nascimento).

quia, levando uma contribuição à teoria incisivo (morder)


nalítica intitulada "Resistências orais". Na oca-
ma,ct,c,~,, Com base nes-
sião, sua contribuição foi muito mal recebida ses descreve as resistências ora,s que
por Freud e outros Desde então, vão fundamentar a compreensão de proces-
Perls passou a criticar a teoria de Freud e a sos mentais não sa:.idáveis, tais como introje-
propor urna nova compreensão e atuação do ção, narcisismo e retroflexão.
trabalho r,çl{·ana,nt,,r, No livro Isto é Gesta/e, em seu artigo ·Mo-
Já em contato com Friedlãnder, atraído ral, fronteira do ego e , Perls (in Ste-
pensamento existencial de Martin Bub- vens. 1977, p. 57) coloca:
ber e tendo trabalhado com Goldstein, publi-
ca seu primeiro livro, em 1942, intitulado EFA. Para viver, um organismo precisa cres-
que levava como subtítulo Uma revisão da teo- cer ftsíca e mentalmente. Para crescer,
ria de Freud. O cerne dessa obra refere-se às precisamos incorporar substâncias de
"Resistências orais", de onde surgem impor- fora e, para torná-las assimiláveis,
tantes conceitos, entre eles o da "agressão". necessitamos desestruturá-las. üm-
Partindo de uma visão holística, na qual o sideremos a ferramenta elementar da
organismo é visto como um todo indivisível. desestruturüfÍ:ÍO agressiva, os dentes.
Per!s faz um paralelo entre o processo bioló- Para formar as proteínas altamente
gico da fome e da alimentação e os processos diferenciadas da carne humana, te-
mentais, o que denomina "metabolismo mer- mos de desestruturar as moléculas do
tal" (Parte U). Inicia analisando o alimentar-se nos5Q alimento. Isto OC(Jrre em três es-
ao longo do desenvolvimento humano, par- tágios: mordendo, mastigando e dige-
tindo da alimentação do embrião até a mastí- rindo. Para morder, temos os inci;ivos,
cornpleta. Descreve então os diferentes os dentes da frente que em nessa cul-
20 21

tura foram pardalmente substituídos Portanto, para Perls, a agressão é uma vidos dentro do organismo, o qual constituí a como inúteis ou nocivas para a manutenção e
pela faca. O primeiro passo é cortar função importante para o crescimento emo- maioria das funções reguladoras da horneos- o crescimento do indivíduo.
pedaços grandes em pedacinhos. Em cional saudável. Na medida em que pode· tase fisiológica (PHG, 1997). O contato aware na fronteira entre o orga-
segundn lugar, moemos os pedacinhos mos identificar e fazer uso da ·agressividade No ajustamento saudável, a criatividade nismo e o ambiente é condição prévia consti-
transformando-os em uma massa com construtiva• , passamos a aprimorar nosso pode ser entendida como a posse pelo indi- tuinte do processo de criativo:
a ajuda de nossos molares [..• J; final- senso crítico e a desenvolver maior proati· víduo da aptidão de se orientar pelas novas
mente há a desestruturação química vidade diante da vida. Vamo-nos construindo exigências das circunstâncias, possibilitando Quando estes processos (as necessida-
no estômago, pelos ácidos solventes com base no auto-respeito e na coerência inclusive uma transformadora. PHG des arganismícas) requerem recursos
[... ]. Niw só os dentes, mas também os interna, o que possibilita o estabelecimento ( 1997. p. 45) afirmam que "todo contato do meic para sua realização, estas fi-
mííscuws do queixe, mãos e palavras de e mais genuínas. é ajustamento criativo do organismo e am- guras despontam na consciência mo-
silo instrumentos de agressão. Esta re- Acredito que a agressão descrita por Perls biente. consciente no campo. É o bilizando as funçóes de contato do or-
sulta do trabalho orgânico de todas a.s se faça presente na atitude do terapeuta, per· instrumento de crescimento no campo·. Es- ganismo, que são o instrumental que o
partes da pernmalidode. meando a Pode- tando o campo (tanto o organismo como o indivíduo dispõe para ir ao encontro,
mos assim, junto com nosso cliente, mastigar meio) em contínuo processo de transforma- sentir, avaliar e seleâonar o que se en·
Perls discute o concerto apontando que, e digerir suas vivências, buscando sob pressões e de vida cons· contra à sua volta. (Ciornai, 1995)
para a sociedade, a tem como seu criativas - e não temerosas diante de suas tantemente mutáveis (Perls, l 988), o contato
"'""v;i,,,.rnpemocíonal o ódio, confundindo a escolhas e da verdadeira <>v,.,..,,,,d,., do Ser. é sempre novidade, e o processo auto-regu· o
"""'n11,•an com aniquilamento. Acrescenta: Oaudia Ranalci lador necessita de owareness da situação e tai para a auto-regulação humar1a. Os
descoberta de estratégias adaptativas. mentas na fronteira podem, contudo. se crista·
[... J nãopodemosdestruirumasubstân- REFERÊNCIAS 818UOGRÁFICAS O papel ativo do indivkluo se toma furdlmen· lizar assumindo formas crônicas de reação em
cia importante para nós, transforman· l'rnls. F. s. hunger and ~ · Nova York: Random tal e urgente, já que. ante a enonne variedade determinado âmbito da vivência. ou for-
Hoose,
do-a em niM nada. Destruir signifiai do ambiente e as próprias mudanças a que ele mas alienadas das presentes e atuais.
SrMNS, J. O (org. ). Isto é Gestolt. São Paulo: Summus,
desestruturar, quebrar em pedaços. [..• J !977. mesmo está sujeito, nenhum ajustamento seria Sendo este o caso, o ciclo de auto-regulação
A agressào tem um duplo objetivo: 1) possível somente por meio da auto-regulação está interrompido neste particular; ficardo o in-
desestruturar qualquer inimigo amea- VERBETES RElACIONADOS herdada e conservativa. k, funções conserva- divíduo de satisfazer suas necessidades
çador, de forma que ele se torne impo- Instinto de fome, lntrojeção, Organ,smo. Retroflexão tivas dispensam o contato consciente com o e em permanente estado de desequilíbrio e
tente; 2) numa agressão que se expande, entorno, de forma involuntá- tensão, pela inibição temporária ou permanen-
desestruturar a substância necessária ria e irrefletida. como: a síntese de hormônios, te da capacidade de ajustar-se de forma nova
AJUSTAMENTO CRIATIVO
para o crescimento, tormí-la assimilá- secretoras das células endoteliais, a num campo sempre novo.
vel. (Perls, in Stevens, 1977, p. 56) O conceito de "ajustamento criativo· foi ""' "'" '"' a termorregulação, a perlod1c1d,!de Em síntese, pode-se descrever o ajustamen-
usado por Frederick Perls para descrever a circadiana do homem, entre outras. to criativo como o processo pelo qual a pessoa
A energia agressiva é essencial para os natureza do contato que o indivíduo mantém A quase totalidade das necessidades huma~ mantém sua sobrevivência e seu cresámento,
processos de discriminação e diferenciação, na fronteira do campa organismo/ambiente, nas, porém, implica. para sua sat1~;ão, conta- operando seu meio sem cessar ativa e respon-
que possibijitam ao indivíduo fazer escolhas visando à sua auto-regulação sob to a,,,,ore, ou consciente da situação. Isso savelmente, provendo seu próprio desenvolvi-
saudáveis. Digerir experiências vividas, bem diversas. O qualificativo de 'criativo" refere- se reflete na percepção do campo (que inclui a mento e suas necessidades llsicas e psicossoc.iaís.
como idéias e conceitos morais, permite que se ao ajustamento resultante do sistema de própria pessoa) discriminando tanto as próprias Diante de alteráveis, o mero ajusta-
o indivíduo identíflque o que é seu e o que é contatos intencionais que o indivíduo mantém necessidades quanto os recursos disponíveis, mento do organismo ao meio é insuficiente, re·
do outro, podendo reter o que lhe serve e com seu ambiente, diferenciando-o do siste- ou a serem modif!Cados e assimilados, u<1<,lut::to querendo respostas criativas, ~ nesse
jogadora o que lhe é tóxico e faz mal. ma de ajustamentos conservativas desenvol- elementos do campo que devem ser rejeitados encontro específico e singular no campo, por

DICfONÁRlO DE GESTAtT-TERAPIA DI e >ONÁRI O O E GESTAt T • HI\APlA


A!USTAMENTO C'W\TI\IO 22

meio da identilkação da nov.dade e assimila- RoeiNE, J.·M. Contato y relodón em psicoterapia: reflexio· cimento criativo", e é pertinente à psi<:ok,gía "Tenho filmes que mostram que qualquer
nes sobre terapia gesrolt. ~ de Chile: Cuatro
ou na fronteira de contato Viente;, 1997.
anormal. ~ra Perls ( 1979. p. i 51 ), a ansiedade medo do palco logo que o pa-
(PHG, 1997). Écriativo na medida em que "não S..VEIAA,T M. da. "Caminhando na coroa bamba: a Gestllt·
é patológica: •Eu, e não somente eu, vejo a an- ciente entra em contato com o presente e
se traia de adaptação a algo que já existe e sim terapia de casal e de familia" 1Gí no Rede - fle,i:;m Vir- siedade como um estado não sadio'. larga sua preocupação com o futuro• (Perls.
wa/, Rio de Janeiro, n. 3, ano 2, 2005. Dispoo'."'ll em:
de transformar o ambiente e. enquanto este se Ébastante comum, em Perls e na Gestatt- 1979, p. 1
<http://www.igt.r,sc.br/Artigo>. k = em: fev. 2007
transforma, o indivíduo também se transforma e ansiedade como pa- Penso que é preciso o olhar ges-
é transformado" (Silveira, 2005). VERBETES RELACIONADOS tologia da excitação: "A ansiedade é a excitação, táltíco para a ansiedade, de maneira a incluir
A compreensão do conceito de ajusta- Auto-regulaçâo organísmíca. AWtireness, Contato o élan vital que carregamos conosco. e que se mais claramente as referências da ps,,:ok:,gia
mento criativo ser enriquecida correla- torna estagnado se estamos incertos quanto existencial ao tema, as quais colocam, ao lado
cionando-o com a dinâmica do elemento no ao papel que devemos desempenhar· (Perls. da ansiedade patológica. a ansiedade existen-
ANSIEDADE
campo. descrita filósofo Gilbert Simon- 1977, p. 15). É ainda Perls quem argumenta: que é inerente ao ser hu-
don (apud Robine, 1997, p. 194). Ele iden- Este conceito aparece em textos e livros "Se as não ser transforma· ser confundida com a ex-
tífka dois estatutos do elemento no campo: de GestalHerapía prinopalme:1te por duas das nas atividades específicas, e ficarem estag- Como ser-para-a-morte, ao homem
a) como receptor da influência do campo, es- compreensões não excludentes: uma que tra- nadas, então temos o estado que chamamos ameaça cons:tanterneme o nào-ser, de modo
tá submetido à força deste, ocupando certo ta a ansiedade como relacionada à ex<:1t<U;ão; de ansiedade, que é uma tremenda ex,:ita•cãc que a ansiedade está inevitavelmente posta
ponto do gradiente. o que perrrnte represen- outra que a trata como relacionada com o contida,engarrafada'(Perls, 1977,p. diante dele por toda a sua existência.
tar a repartição do campo; b) o elemento in- tempo, especialmente entre presente e futu- É essa ansiedade. não patológica, que vi-
tervém no campo na qualidade de criador e ro. Uma terceira compreensão, proveniente vemos ao nos protegermos para atravessar
as
ativo, modificando-lhe linhas de força e a do movimento existencial em psicologia, que urna rua. ao escolhermos um tr.lje para uma
repartição do gradiente. trata a ansiedade como algo inerente ao ser sempre relacionada com o futuro"; ele a define reunião importante, ao participarmos de um
Resta afirmar que ambos os estados humano, poderia ser mais bem explorada na como a "tensão (Perls,
submetido estar intervin- abordagem ge,;ranJw. l979, p. 153). O que vem ao encontro de urna mos nossos valores existenciais. É essa ansie-
do no campo) se desenvolvem de forma simul- Na obra inicial de Perls, EFA, a ansiedade afirmação sua feita em outro texto: 'Assim que dade que
tinea, e não ora um ora outro, como se pode é estudada em seu aspecto corporal, ou seja. você puia para fora do agora, por exemplo, para quando afirma que "para que um experimento
supor pela dualidade utilizada como recurso como fruto de uma couraça peitoral que o futuro, o intervalo entre o agora e o depois se não caia no vazio, ou levante ansiedades aci-
explicativo. Essa reciprocidade entre a função gera problemas respiratórios. Já nessa enche de exc:rta(:ao
ma do que o grupo ou uma pessoa possa su-
de totalidade e a função de elemento é o que ca, para Perls, a ansiedade derivava de uma como ansiedade" (Perls, 1977, p. i 11 ). Por não portar em dado momento, é preciso que haja
exige do elemento VfllO, no caso o sujeito hu- descarga inadequada da de modo conseguir tolerar essa tensão, muÍ"..as pessoas suporte (por parte do terapeuta)", É também
mano, a função de ajustar-se criativamente. que a terapêutica recomendada se baseava nn°<>nc·hP,m esse espaço com tentativas de tor-
a essa ansiedade ontológic.a que Kierkegaard
na percepção concentrada da contração dos nar o futuro seguro, por meio de de se refere quando diz que "aventurar-se causa
Marisete Malaguth Mendonça
músculos peitorais, na expressão da excita- mesmices. Isso toma o futuro um "vazio esténl"
ansiedade. mas deixar de arriscar-se é perder a
REFERÊNQAS BlBUOGAA.flCAS contida e na reconstrução da respiração, (Perls. 1979, p. 153). si mesmo. [... ) E aventurar-se no sentido mais
OORNi>J. S. 'Relação entre criatividade e saúde na Ges!alt- especialmente da capacidade de esvaziamen- Discordando de Goldstein, para quem
terapia" Pdlesua publi<:ada na Revisto do I Encontro
elevado é precisamente tornar consciência de
GoíQl1() de Gestolt-lerapio do lnstimto de Treinamento
to. proporcionada por urna boa expiração a ansiedade estaria a expectativas ca- si próprio" (apud May, 1978. p. 5).
e A,squísa em Gestal,-1éropio (/TG1), Goiânia. n. i, f'· (2002. p. 267-9). tastróficas. Perls afirma que a ansiedade está
72-5. 1995. ligada a elas catastróficas Énío Brito Pínto
Em outra obra de Perls (1997, p. 45), a
f\ru.s. F. S. A abordagem gestdltica e testemunho ocuior da ansiedade, "fator nn,nn,,rl,,r.:mtP ou positivas, isto é, a ansiedade, que é tam-
terapia. São Paulo: LTe 1988. REFERÊNCIAS BIBUOGAA.FICAS
é conceituada corno uma IJdt.u,u,.,.., uma •con- bém "medo do (Perls. 1979, p. 153), H~R. M. 8 sery el tiempo. México: Foodo de Cultu-
PtRLS, F. S.: Hffl'H\LINE, R.: GóoD!'Wl, P. Gesrólt-terapkl.
São Paulo: Summu;, 1997. seqüência da intern.Jpção da cres- aparece quando a pessoa sai do presente: ra Económica, ! 974.

n1rtO:NÁRIO flF C.FSTALT-TFRAPiA


24 25

MAr, R O homem à procura de si mesmo. Petr6poi,s: Vo- Na obra EFA. Frederíck Perls não empre- mundo da vida, Husserl propõe uma inter- a determinado instante ou lugar, mas ao fato
zes. 1978.
ga, explicitamente, o termo ·aqui e agora•. pretação, segundo a qual toda vez que so- de que, em cada instante e lugar, somos tres-
l'ER!.s, F. S. {1947). Ego. fomeeogressilo. São l'aulo: Sum-
mus, 2002.
Todavia, ao criticar as práticas psicanal!ticas mos afetados por uma matéria irnpress1onal. passados por uma história que llOS ao
. Es,;ar~do Fritz: dentro e foro da low de que fazem do passado a causa dos sintomas por uma nota musical, se essa ex- futuro e, conseqüentemente. àquilo que vem
.•xo. São Paulo: Summus, 1979. presentes, Perls (2002, p. 146) afirma não ha- periência foi capaz de dar, às minhas vívên- nos surpreender. Cada "aqui e é mais
GestalHerapia explicada. São Paulo: Summus. ver "outra realidade a não ser o presente". O do que uma posição determinada. Trata·se de
que não desprezasse a importân- ela não desaparece tão logo eu ouça outra um campo temporal ou. o que é a mesma
S,; HEFFERUNé. R; G()()!)t-W<, P. Gestalnerapía.
Í'Íl<l.S, F.
São Paulo: Summus. 19'17. cia do passado e do futuro na experiência clí- nota. A primeira nota permanece "retida" coisa, de um campo de presença do já vivido
TELI.EGEN. TA Geswlt e grupos: umo perspectiva sistêmJCo. nica. llínda assim, afirma Perls (2002, p. 148), como horizonte de percepções duradouras. como horizonte de futuro para a materialida-
São Paulo: Summus. 1984. o só existe enquanto puder se fazer o que não quer dizer que permaneça inalte- de da relação organismo/meio. No interior de
sentir no presente, da mesma forma como o rada. A cada nova vivência, aquela que ficou cada aquí e agora, operamos o "conti.to", que
VERBETES RELACIONADOS
futuro não é mais que uma possibilidade que retida sofre uma pequena modificação. Ainda é essa reedição criativa {ou
Aqui e agora. Excitaçãoíexcitimento. Presente
se abre na atualidade. assim, permanece como fundo disponível à menta criativo).do passado diante das possibi·
De acordo com essa constatação. Perls espera de retomada. Razão pela qual o valor lidades abertas pela atualidade do dado. Nas
AQUIEAGORA
propõe uma maneira de intervenção clínica de cada nova nota escutada não se restringe palavras dos autores (PHG, 1997, p. 48):
em que. em vez de promover a busca "ar- às propriedades materiais que essa mesma
O termo "aqui e agora· é aplicado na queológica" no passado pelas causas do so- nota é capaz de mobilizar; mas inclui um fun- Contato é achar e fazer a solução
tanto para exprimir o caráter frimento atual. o terapeuta incentiva a "con- do de vivências (por exemplo, no- vi11doura. A preocupação é sentida
temporal do sistema se/f, e das vivências de ,N,tr:1,:ir, • do consulente nas ma:n1t,~1çôes tas Já ouvidas). para o qual a nota atual há de por um problema atual, e o excita-
contato nele estabelecidas. quanto presentes desse passado, tal como elas se dão abrir perspectivas, possibilidades de retoma· mento cresce em direção à solução
nar um "estilo" de intervenção clínica adotado a conhecer na atualidade da sessão. Dessa for- da (num todo de sentido, que é a melodia). vindoura, mas ainda desconhecida.
cujo propósito é pro- ma, o consulente recobra a awareness de seus E em tomo de cada vivência mate- O assimilar da novidade se dá no
mover a 'concentração" do consulente' no pr6pnos modos de ajustamento, da maneira nal, forma-se um "campo de tempo- momento atual à medida que este se
modo "como· este. na atualidade da sessão, ral {Husserl. s.d .. p. 141), em que o e
como se interrompe e das possibilidades que transforma no futuro.
opera com isso que, para ele, é ou ainda lhe restam ou que a atualidade inaugura o futuro não estão ausentes, mas comparecem
futuro. Os dois empregos estão íntimamente para ele lidar com o que tiver restado como como horizontes virtuais. Esse campo, por sua O se/f. por sua vez. é apenas o sistema
relacionados, a ponto de podermos dizer que vez. não permanece eternamente. Tão logo
situação inacabada vinda do de contatos no presente trans1ente, o fluir de
constituem a mesma noção. Ésó na obra de PHG {1951, p. 51) que a um novo dada material demandando a um "aqui e agora· em outro, a passagem de
exriressao "aqui e agora" ganha seu formato participação de meus horizontes de passado um campo de presença para outro. a fronteira
definitivo. Os autores acrescentam à forma e futuro, o campo de presença se desmancha de contato em funcionamento que é outro
como Perls concebia a das dimen- em proveito da configuração de um novo. Essa nome para a síntese de passagem de que fala-
ti. pon.ua vez. não é
mas alguém que se compromete em p,ootuar a "k>rrna" im~
sões no presente uma leitura feno- passagem assegura à minha própria história va Husserl. Nas palavras de PHG: ·o presen-
plirada. nessa consulta. especíalmente no modo como esta menológica, explicitamente fundamentada no uma auto-aparição fluida, porquanto, a cada te é uma passagem do passado em direção
é proposta. Não se lr.ita de uma prestação de ser.,íço (su·
gestão) a um 'díerue' ou de uma nter.teoçáo (de cuidado) modo como o filósofo Edmund Husserl pro- nova aparição, é a mesma história que retoma, ao futuro, e esses tempos são as etapas de
em beneíkío de alguém abre mão de sua autonomia punha à de "campo de presença·. da mas em uma configuração diferente. um medida que entra em contato
pontuar a forma da consuJta.
o Gestalt-terapeut\ procura ,m;,li<ar o =lente em = qual "aqui e agora" é uma versão. PHG (1951) utilizam a expressáo "aqui e com a realidade" (1997, p. 180).
enf1m, que o <OnS!.àente
Em sua tentativa de explicitar de que para elucidar essa unidade de passagem De onde se depreende, mais uma vez.
modo nós vivemos, antes de rer,re<;entá-la. que é o "campo de presença". Com aquela que ·em psicoterapia procuramos a instiga·
a unidade de nossa inserção operativa no "'"'~r.. cç,n os autores não querem se referir ção de situações inacabadas na situação atual

DICIONÁRIO DE GESTALT-TERAPIA DICIONÁRIO OE GESTAL'r·TERAPIA


26 27

e, por meio da experimentação atua! com imaginava que estava começando a um mento físico e material pskológico, deline.n- nutritivo, o organismo o assimila e o
novas atitudes e novos materiais[ ... ), visamos caminho próprio. Como essa comunkação do um funcionamento Conforme torna parte de sí. Se tóxico, o organis-
a uma integração melhor" ( 1997, p. 48). Ou, não foi bem recebida, ele voltou frustrado e, a Perfs (2002, p. 198). mo o cospe fora (rejeita-o).
então. conforme Perls ( 1973, p. partir dessa iniciou suas críticas à psica-
nálise. marcando o começo de sua dissidência, Não devemos ficar satisfeitos em tor- Pode-se dizer também que o material
A terapia gestdltíca é, então, uma tera· como menciona em EFA (2002, p. 185): nar consciente o material inconsciente, não despedaçado, não triturado, é
pia "aqui e agora~ em que pedimos ao em "vomitar" o material inconsciente. um ·não-eu", que. ao processo de
paciente durante a sessão para voltar Minhas experúlncias em psicanálíse Devemos insistir em que deveria ser ;,«,,m,1:v-õr. toma-se "eu", provendo saúde e

toda sua atenção ao que está fazendo foram influenciadas por meu próprio remoído e, portanto, preparado para bem-estar, crescimento e desenvolvimento.
no momento, no decorrer da sessão. subdesenvolvimento oral. Acreditando, sua assímílaçiío. Bngíte Peterhans
Pedimos ac paciente para niío falar so· como anteriormente fiz, na teoria da li-
bre seus traumas e problemas da área bido (especú:ilmente no ideal do caráter Assim corno a mastigação é a REFERÊNCIAS BIBUOGRÁFICAS
genital de Reich) e não compreendendo do conteúdo ingerido, no processo organís· S. ( 1942). Ego, fome e cgressão. São Paulo: Sum ..
'1'P.LS, F.
remota do passado e da memória, mas
rnus. 2002
para reexperencíar seus problemas e suas implicações, fiz dela um tipo de re- mico do metabolismo mental. descrito como
tsc,1mr,urn:11ani10 Fritz dentro tora da iaro
traumas - que são situações inacaba· ligião fálica, racionalizada e justificada a digestão do alimento mental, a assimilação l,xo. São Paulo: Summus,

das no presente - no aqui e agora. pelo que parecia um fundamento cien- funciona de forma similar, fazendo que não TfütG<N. T A Gesto/te grupos: uma persf:)ff!Na s,sti'mica.
tifico rolído. Mastigando as teorias psí- São Paulo: Summus. 1984
Marcos josé e Rosane Lorena Muller· Granzotto YONn+. G. M Processo, óiólogo e awareness. São Paulo:
canaliticas, entretanto, e ponderando dívíduo. Quando um conteúdo é ingerido ín·
Sucnrnus. 1998
REFERÊNCIAS Bllll..lOGRÁFICAS sobre cada pedaço indigesto, tornei-me teíro, como no estágio da amamentação, esta
HuSSERL, E. Ur;ões paro uma fenomenoiog,a da cCfl5ciênoa cada vez mais capaz de assimilar suas é considerada uma introjeção tot.al; e diz-se VERBETE RElACIONADO
intema do tempo. Trad. Pedro M. S. Nves. Lisboa: Im- partes valiosas e de descartar seus erros que é uma introJeção parcial quando somente lntrojeção
prensa Nacíonal!Casa da Moeda. [s.d.].
e construtos artificiais. partes do conteúdo são ingeridas, como no
PéRLS, E S. (1973). A o/xlrd<:Jgélll gestálüca e testemunha
ocular do remp,a. Rio de Janeiro: Zahar. l 977. estágio da mordida.
Em 1941, em Durban. do Sul, foi Segundo Perls, em Escarafunchando Fritz ATUALIZAÇÃO
(1942}. Ego. fome e agressão. São Paulo Surn·
mus. 2002. publicado pela primeira vez EFA. do qual o ( 1979. p. 250): "Ao desestruturarmos a CO· Em seus escritos iniciais, Peris ressalta o pro-
Pmts. F,; HEffEllLINE, R.; GooDM'>N. P. (1951 ). Gesralt-rera· sobre ·Resistências orais" tornou-se mida mental ou real, nós a assimilamos, a cesso de do indivíduo, partindo da
p.i. São Paulo: Summus. 1997.
o núcleo, e Peris marcou a 1m1v,,1~r,r,a assi- tomamos nossa, fazemos que parte do de que é pela de atualiza-
mílação nesta citação: processo de cresàmento". ção que o organismo prioriza aquilo que satisfaz
VERBETES RELACIONAPOS
Em EFA (2001, p. 199), diz; "[...] o ma· a sua necessidade mais premente (que se desta.
Ajustamento cria!M), Awarl?11€SS, Cor.centração. Contato.
Fronteira de contato, Presente, Sei(. Sitúaç.ão inacabada. Após as lacunas terem sido preenchi- teria! introjet.ado - ao ser de5:pe<jaç;ido é necessidade é satisfeita,
V!Vênoa das, e termos psicanalíticos dúbios taís diferenciado em material assimilável". outra surge, e aquela deixa de estar em evidên·
como libido, instintc de morte e outros E Yontef ( 1998, p. 28) traduz desta eia (vai para o fundo). Surge então outra figura,
serem examinados, o mais vasto esco· forma: e o processo se reinicia sucessivamente.
ASSIMILAÇÃO
pa do novo conceito será demanstrado Na obra de PHG (1997, p. 84), o pro-
A comunicação sobre "Resistências orais" na Parte II, que trata da assimilação As pessoas crescem abocanhando um cesso de auto-regulação organismica é assim
feita por Perls, em !936, no Inter· mental. (2002, p. 40) pedaço de tamanho apropriado (seja explicado:
nacional de Psicanálise na Tchecoslováquia, tinha comida, idéias ou relacionamentos),
a intenção de contnbuír com a teoria de Freud, Essa Parte li do livro trata do metabolismo mastigando-o (c.onsiderando) e des· Cada situação inacabada mais pre-
que defendia a "Resistência anal", mas Perls não mental, que estabelece um paralelo entre ali- cobrindo se é tóxico ou nutritivo. Se mente assume a dominância e mobi·
28
29

liza todo o esforço disponível até que a necessidade mais urgente energiza o recebe toda apoio da mãe - axigênío, ra, cada vez que o mundo adulto im-
tarefa seja completada; então torna-se organismo até ser concretizada, ou é comida, calor, tudo. Assim que a crian- pede a criança de crescer, cada vez qUe
indiferente e perde a consciência, e a substituída par uma necessidade mais ça nasce já é abrigada a respirar par si ela é mimada por não ser frustrada o
necessidode premente seguinte passa a vital. Viver é uma progressão de neces- mesma. !... ] O impasse é o ponto ande suficiente, a criança está presa. Assim,
exigir atenção. sidades, satisfeitas ou não, que atin- o apoio ambiental ou o obsoleto apoio em vez de usar seu potencial para cres-
gem um equilíbrio homeastático e vão interno não é mais suficiente, e a autv- cer, ela agora usará seu potencial para
Provavelmente surgem problemas no pro- em busca do próximo momento e da apoio autêntico ainda não foí obtido. controlar o mundo, adultos. Em vez de
cesso de atualização quando uma necessidade nova necessidade. O bebê não consegue respirar sozinho mobilizar seus próprios recursos, ela
básica não pode ser satisfeita. - e não há mais suprimento de oxigé- cria dependências. (1977, p. 50-4)
Como pano de lundo para entendermos Portanto. o organismo às vezes se expressa nio pela placenta. Não podemas dizer
melhor esse Ges- como figura, às vezes como fundo. e todo o que o bebé tem uma escolha porque não O pensamento de Perls sobre hétero e
tafHerapía, temos a abordagem organísmica processo é visto de forma holística e natural. há uma tentativa deliberada de pensar
para os dias. atuais.
de Kurt Goldstein. que aponta a tendência de a que f a.zer, mas o bebé ou morre ou
Mário Tadeu Bruçó A natureza nos dá a dica de que um suporte
o organísmo se atualizar na busca da auto- aprende a respirar. Deve existir algum nutritivo caminha do próximo para o distan-
regulação. Pela Teoria 0N>,mísrr11c1 acredita- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS apoio ambiental próximo uma pal- te. do externo para o interno. Pensemos no
se que. na do or<,an!Srr\n com o PERL,. F. S; HmERJ.\M, R.; GoooM.AN. P Gestalt-terapía. mada ou provisào de oxigênio. bebê no ventre matemo, onde recebe, para
mundo, ele se atualiza em contato com sua São Paulo: Summu,, 1997.
seu desenvolvimento. tudo de que precisa do
natureza. do melhor jeito Então. "o RmsRO, J. f: GestalHerop,a: re(ozendo um caminho. São
Paulo· Summus. 1985.
livro, Perls define "ma- meio externo (mãe). À medida que vaí de-
organismo se atualiza no momento em que as turação" de acordo com conceitos de apoio
YoNITf, G. M. Processo, diálogo awareness. São Paulo: senvolvendo seu auto-suporte, se diferencia
necessidades são satisfeitas segundo uma or- Summus. 1998. ambiental e auto-apoio: e distancia daquilo que lhe dera suporte íni-
dem pré-estabelecida pela própria natureza·
(Ribeiro, l 985, p. 109). VERBETES RELACIONADOS r... ] o processo de maturação é a trans- nando-se para uma auto-suficiência (um apoio
Podemos entender; por extensão, que Mo-regulação organísmka, Energia. Figura e lundo, Ges- ferência do apoio ambiental para o ancorado mais em sí e menos no meio).
todo tipo de psicoterapia que tem por base o tilt-terapa, Necessidades, Ü'E'Jflisrno, leoria organísrruca
auto-apoio, e o objetivo da terapia é Como indivíduo e sujeito são elementos de
equilíbrio organismo/ambiente (como a Ges- fazer que o paciente "não" dependa um único todo, eles estarão em de ín-
talt-terapía) leva à do movimento dos outros, e descubra desde o primei-
AUTO-APOIO, APOIO AMBIENTAL E tP.rt1P1'>Pr1r1i>nrn por toda a vida. Assim, ambos
que emerge, por meio das figuras naturais, atua- ro momento que ele pode fazer "mui-
MATURAÇÃO se influenciam. sem haver relação causa!, não
lizando-se. A lei que rege o funcionamento do ta mais" do que ele acha que pode. podendo um ser responsabilizado pela doen-
homem diz respeito à busca incessar1te de atua- No livro A gestáltica e teste· No processo de crescimento existem ça do outro. Como um ser-no-mundo. estará
lizar suas potencialidades, principalmente sua munha ocular da terapia, de Fritz Perls ( 1981 ). duas escolhas. A criança pode crescer sempre no meio, mas contar cada vez
base positiva. caracterizada por um impulso de de forma genérica e sem uma cla- e aprender a superar frustrações, ou mais com seu apoio. Ou, como Sartre (in Cha-
auto-regulação. Nesse aspecto, sua energia de ra, aparecem os conceitos de "auto-apoio" e pode ser mimada. [... J Sem frustra- telet, 1974, p. 201) dizia: "O homem não é um
vida está diretamente ligada à sua capacidade "apoio ambiental". No entanto, no Gestalt- ção não existe necessidade, não existe espírito desencamado, está em mas é
de atualização(Ríbeiro, 1985, p. 107-8). terapia explicada ( 1977, p. 49-50), ele define razão para mobilizar as próprios re- ele quem confere o valor".
Segundo Yontef ( 1998, p. 28): assim estes verbetes: cursos, para descobrir a própria ca- Perls declarava a importância para a matura-
pacidade, para fazer alguma coisa; e, ção do acolhimento e da frustração como con-
Mesmo a que é nutritivo precisa ser Minha formulação é que amadurecer a fim de não se frustrar, o que é uma necessárias ao homem para seu cresci-
discriminado de acordo com a neces- é transcender ao apoio ambiental para experiência muito dolorosa, a criança mento. O pulsar ent.re essas duas possibilidades
sidade dominante [... ]. Idealmente, a a auto-apoio. Consideremos o feto. Ele aprende a manipular o ambiente. Ago- no mundo (contato consigo e com o meio) é

DICIONÁRIO DE GESTAl T- TERAPIA DICIONÁRIO DE GESTALT-TERAPIA


AIJTO,Af'OIO. Al'Oló AMBIENTAL E !-1>\lUAAÇÂO 30 31

mo. "A líbercade é escolha de mim-rnesmo- REFERtNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


que irá propiciar um eixo. gerando uma boa for- ponto de vista sistêmico. Ele observara como.
ma. uma configuração saudável do homem no no-mundo e ao mesmo tempo descoberta do AisMANn. M.; N1CHOU, J. Ft C 5. 1-is e Freud debatem
Deus, amor sexo e sentido da vida. Viçosa: UitJmato,
diante de determinadas lesões no cérebro.
mundo e um bom transito deste em seu mun- mundo· (Sartre. in Chatelet, 1974, p. 207). 2005. este reagia ativando ou substituindo funções
do, ou, como escreveu Perls ( l 981, p. 40): ·o CHAmET. ~ Hisrória da filosofia, Kléías, dowmas. Rio de para completar a funçáo global.
homem que pode viver em cootato íntimo com O que facilita o apoío ambiental é um Janeiro: Zahar, 1974
O que a trouxe de Gold-
Pf:RLS, F. S. A abordagem gestdltírn e !éS!emuriha ocuk,, do
sua sociedade. sem ser tragado por ela nem dela ambiente onde se favorece a crença de steín foi a visão do ser humano como um
terapia. R,o de Janeiro: Zahar. i 981.
completamente afastado, é um homem bem in- que todos os tipos de experiência ge- todo, corno um organismo vrvo no qual
. Ge,c;,a/nerap,o explicada. São Paulo: Summus.
tegrado. É auto-suficiente, porque rr,nnn"'"""'i"' ram melhor percepção e orientação. A 1977. ocorrem processos de inter-relação entre
a entre si e a socíedade•. exclusão, típica da nossa cultura com- suas partes e que está em permanente re-
Dessa forma, processa o crescimento tan- parativa e classificatória, urganiza as VERBETES RELACIONADOS com o meio. tomando deste o que
to para fora quanto para dentro. Como coisas em categorias, e assim descarta Configuração. Contato, C"'5cimento. Experiência. Frus- necessita e deixando o que não necessita. a
tração, S<er.no-mundo, Suporte
rá o ser amadurecer se tudo lhe for dado gra- uma parte, nào é suportiva. É impor- da Pela auto-regula-
ciosamente na boca? Como dizia Perls, esta tante que não excluamos tudo aquilo ção, a necessidade predominante é a que.
crença de que "quero dar tudo a meu filho" com o qual não conseguimos lidar no de alguma forma, nossa percepção
AUTO-REGULAÇÃO ORGANÍSMICA
ou porque não tive nada ou porque momento para, após o contato, assi- e faz se transformar em figura. abrindo
de ter recebido mais do que recebi alimenta O concerto de organís- assim um novo ciclo de A figura
milar de forma satisfatória.
mais o "bebê chorão", do que promove ver- m1ca surge com Kurt Goldstein, seguramen- emerge de um fundo, contrasta com ele e
dadeiramente um crescíment.o saudável. Per- te um pouco antes da apresentação de seu clama pela de uma necessidade.
Deixo aqui. para ajudar nesta reflexão de
mitir pulsar entre a frustração e o acolhimento livro. The organism: a holistíc to Assim. a de Gestalten, a
auto e um trecho da obra de
é um "todo" que pode gerar um desenvolvi- deríved from pathologica/ data ín man, de necessidades, tem que ver com um fenô-
MT1and e Nicholi (2005) sobre C. S. Lewis,
mento saudável ao ser-no-mundo. em 1934. Em 1927. Fritz Perls trabalhou um meno primário.
escritor. critico líterário e autor das Crônicas de
Podemos pensar que, quando oferecemos tempo como médico assistente de Goidstein, Os organismos vivem em estado perma-
Námia e de ShadOINlands;
só beneficias a nossos filhos, clientes, aluros, na em que ele pesquisava os distúr- nente de tensão entre ordem e desordem.
amantes etc., estamos lhes dando possibilidades bios perceptivos em pessoas com problemas
O amor é algo mais austero e esplên-
para o crescimento e desenvolvendo uma re- cerebrais. Partindo de seus questionamentos stein (2000), até a busca do equilíbrio seria o
dido do que a bondade... Há bondade
lação de amor/respeitoibondade. Na verdade, sobre a atomística adotada pelas que nos move para encontrar maior desen-
rio amor; mas amor e bondade não são
desse modo não oferecemos a estes a ciências biológicas, propôs a adoção do pen- volvimento e
coincidentes e, quando a bondade "é se- samento r,rcronicrr,i,-A
lidade de desenvolverem seus auto-suportes, Nesse sentido, é bom revisitar a visão de
parada dos outros elementos do amor, ·
de desenvolverem suas habilidades Goldstein demonstrou não haver apenas Maslow que distingue dois tipos de necessida-
ela acaba envolvendo cerra indifere:nça
de lidar com as situações reais do mundo. de uma mera nas áreas cerebrais. Ainda des humanas. As necessidades de deficiência
fundamental em relação ao seu objeto,
amadurecerem. que se possam localizar no cérebro áreas e são tanto as necessidades de obter ar, água.
e até certo descaso em relação a ele':
As capacidades humanas de elaborar e de centros de funcionalidade distintos entre si, comida, casa, vestimenta, que são necessida-
Lewis destaca que o amor, por sua pró-
simbolizar geram um homem em contínua todas essas áreas e centros estão regulados des fisiológicas. quanto as de segurança, amor.
pria natureza, demanda o aperfeíçca- globalmente, o que permite que dadas nP1-tpr,rinn,,r1tn que são psicológkas. Por outro
construção. Em sua existência construindo sua
mento do ser amado; que a mera bon- respo!t..as globais a lesões cerebrais tipo de necessidade é o de de-
essência, em contínua Um ser
dade, que tolera qualquer coisa, exceto cas. Segundo Goldstein, o cérebro e, em ge- senvolvimento, podendo ser citada a busra por
do futuro que. na exístêricia presente. trans-
sofrimento em seu objeto, está, a esse ral, os organismos são sistemas que possuem autenticidade. justiça. auto-realização etc.. e ain-
muta, por meio de suas atitudes, o não-sentido
respeito, no pólo oposto do amor. funções inter-relacionadas. Assim, o ponto de da podemos agregar a necessidade de transcen-
em sentido. Cria-se, aiando sua essência. Nes-
te criar-se, transcende a todo instante a si mes- Flávio Abreu vista holístico de Goldsteín se baseava em um dência. De acordo com essa perspectiva. o

DICIONÁRIO Df GESTALT,HI\APII\ DICIONÁRIO DE GESTALT-TERAPIA


32 33

indivíduo um grupo ou uma nação, primeiro é VERBETES RELACIONADOS O contato como tal é possível sem awareness é sempre acompanhada de
satisfazer as necessidades por deficiên- Experiência, Figura e fundo, Homeostase, Necessidades. awareness, mas para a awareness o formação de Gestalt. Totalidades sig-
Organismo
cia, para poder chegar às de desenvolvimento. contato é indispensável {... j O sentir nificativas novas são críadas por con-
Segundo Goldstein, a auto-realização é determina a natureza da awareness. tato de aware. A awareness é, em si, a
um processo. é uma tendência do organismo. quer ela seja distante (p. ex., acústi- integração de um problema. (Yontef,
AWARE.NESS
Já para Maslow, é poder chegar a realizar uma ca). próxima (p. ex., táctil) ou dentro 1998,p.215)
A primeira referência ao termo 'aware- da pele (propríoceptiva). Na última
:.,e~-de maior possibilidade e nas
ness· surgiu quando Frederíck Perls vivia na expressão está incluída a percepção Define que a a.vareness pode ser parcial.
ne~essídades. Conforme a terapia gestáltica. a
África do Sul. Refletindo sobre a prática da de nossos sonhos e pensamentos. [... ] ísto é, um conhecimento que não é acompa-
dutv-rt:Js\J[d~,du é a base para a confiança na
n,u:anális.e. propõe a terapia da concentração Excitamento (... j abrange a excitação nhado da presentíflcação do sentimento, ou
fonte da vida, e por meio dela nos dirigimos
em contraposição ao método da ass,ooação fisiológica assim como emoções dife- vice-versa: que são expressas fisica-
à realização como a melhor de nós
livre utilizado por esta abordagem. Segundo renciadas. Tncl ui a noção freudiana de mente sem conhecimento cognitivo.
mesmos. É uma forma de reconhecermos o
ele, a associação livre poderia levar à evitação catexis, o elà vital de Bérgson, as ma- Aponta os corolários da O'NOreness: 1)
que somos e confiar que. soltando o controle,
do tema ou conflito, enquanto a sua nrr)f'lf',st~ nifestações ps1col,óJ/J,cas do metabolis- "Awareness é eficaz apenas quando funda-
a ser quem somos, em
a técnica da no contato. mo, do mongolismo a Basedow, e nos mentada e energizada pela necessidade atual
Pelo expresso até agora, identificamos
Dedica a Parte lll do livro EFA. de 1947, adis- dá a base para uma teoria simples da dominante do organismo": 2) "A ffi,\'(Jfeness
uma visão relacional ou sistêmica ao conceito
cutir a evolução da técnica da cc1C'IC,•ntr-;ic:iío. ansiedade. [... J A formação de Gestal- não está completa sem conhecer diretamente
da auto-regulação. Isso estimulou e desenvol-
com base na definindo como meta ten sempre acompanha a awareness. a realidade da e como se está na si-
a recuperação da ™ureness (Perls, 2002). Não enxergamos três pontos isola- 3) 'A owareness é sempre aqui e ago-
paradigma reducionista newtoniano-cartesia-
dos; fazemos um triângulo com eles. ra e está sempre mudando, evoluindo e se
no, também chamado mecanicista, dominan-
bito de comer; na percepção visual, em de- A formação de Gestalten completas transcendendo" 1998, p, 21
te na época em que o conceito foi formulado
vaneios, imagens. fantasias. Enfatiza o 'estar e abrangentes é a condiçiio da saúde As recentes contribuições dos Ginger
por Goldstein, Há de se ter em conta que o
"'"'""r=,,t,,, presente" e analisa a linguagem, a mental e do crescimento. Só a Gestalt {1995, p. 254) apontam: 'Awareness: tomada
paradigma emergente não exdui o paradigma
e a escuta interior. Fala da concentra- compl.etada pode ser organizada como de consciência no momento presente,
dominante, e sim o incluí e o rc,,mrJPrnP11t;,
ção corporal e propõe exercícios para vános uma unidade (reflexo) de funciona- atenção ao , rn uu, nu de percepção
O conceito da chega à obra mento automático no organismo total corporal e emocional, interior e ambiental,
sintomas e distúrbios somáticos. Traz a noção
da Gestalt-terapia, nos primeiros livros. como {... ]. (PHG, 1997, p. 33) consciência de sí e consciência perceptiva".
de aworeness, a identificação e a assimilação
idêntico ao conceito de homeostase. No li- No Brasil, Thérese fala em fluxo
como antídotos da nas neuroses e
vro Gestah-teropio, de PHG, eles se utilizam nos sonhos.Para ele, o "ganho final' dos exer- Para Yontef (1998, p. 215), 'aworeness é associativo focalizado, ser a mais ade-
dessa para se referir à auto-regula- uma forma de experienciar: é o processo de das opções oossí11•eis. Diz que "nela fica
ácios propostos é "o resgate do fluxo natural
Neste dicionário, adiante, encontra-se o da fonmação (Wysong in Perls, estar em contato vigilante com o evento mais implícito o caráter dinâmico e de processo no
verbete Homeostase, que explícita o modo importante do campo indivíduo/ambiente, termo fluxo; a finalidade do método de faci-
2002, p. 26-7).
como esse conceito foi inicialmente utilizado Mais tarde, em 1951, quando lançaram a com total apoio sensório motor. emocional, litar a discriminação e de promover a maior
nessa abordagem. C,estart-te:racNa como abordagem psicológica ,n<mrt,v<"le energético". Afirma que: no contato com a figura emergente,
Fernando de Luc.:a propriamente dita, PHG ( 1997, p. defi- através do termo focalizado; e associativo, na

nem: "Awareness caracteriza-se pelo contato. Um coutinuurn e sem interrupção medida em que a focalização levar à
REFERÉNCIA BISUOGWICA de awareness leva a um Ah! A uma u, '""''"·'""' de novas cadeias de relações de sig-
pelo sentir (sensação/percepção). pelo excita-
G::>!.OSTBN. K. ( 1934). The organism: o hoNstíc approoeh percepção imediata da unidade óbvia nrfkado' (in lofredo, 1994, p. 128).
10 blology derived from pathologicCJI dClca in mon. Nova
mento e peia formação de Gestalten'. A se-
Yorl<: Zooe Books, 2000. de elementos dispares no campo. A Para Paulo Barros ( 1994, p. 90),

DICIONÁRIO DE GESTALT,TERAPIA
DICIONÁRIO D( GESTALT·TERAPIA
34

Awareness, esta palavra estrangeira, REFEfltNCIAS SIBUOORÁFICAS


que talvez devêssemos traduzir como llAAAos, P. Nardsó. a bruxa, o terapeuta e outras histórias.
São Paulo: Summus. 1994.

e
contato com o mistério, talvez nada
G!NGER, S.: GINGER, A Gestalt: uma teropio do contato.
mais seja do que uma relação adequa- São Pauio: Summus. 1995.
da com os limites. Awareness, a rela- lOHl<WO, A M. A caro e o rosto. São Paulo: Escuta,
ção adequada com a forma. A forma. 1994.

A deusa forma de todos os artistas. A Prn,.s. F. S. {1947). Ego, fome e agressão. São Paulo: Sum·
mus. 2002.
paixão, a veneração, a finalidade úl- Plci>iS,F. S.; HEITTRllNE, R.; GOODl".AN, P. ( 1951 ). Ges!alt·
tima, a dedicação exclusiva de toda terapia. São Paulo: Summus, 1997.
criação. O segredo de toda realização. YONTEF, G. M. Proc=. diálogo e awareness. São Paulo:
A relação entre forma e conteúdo. A Summus, 1998.

finalização, a adequação, a identidade


VERBETES RELACIONADOS CADEIRA QUENTE (VER HOT SEA1) na filosofia. nas concepções teóricas e meto-
entre forma e conteúdo. A finalização,
Asslmíiação, Contato. Emoções, Figura e íunc!o. Proje,;ão, dológicas da abordagem. Mal compreendida
o fechamento de toda Gestalt. Sonhos, Terapia e técrnca oe concentração
e é apenas uma técnica. Com ade-
Neuza Arruda e Myrían Bove Fernandes CADEIRA VAZ.IA quado maneJO, é um potente instrumento
A cadeira vazia foi uma técnica amplamente e pode se transfor-
o cliente a
utilizada por Frrtz Perls em seus anos de Esalen
e se tomou muito famasa. Foi e é muito em- finalizar situações inacabadas ou atuais.
por tantos outros terapeutas, entendi-
da e confundida como método e com a própria tes de si mesmo dissociadas, conflitos, discre-
Gestalt-terapia. Segundo Sínay (1997, p. 164): e verbais, acesso a pessoas
inacessíveis, encontro com uma parte não de-
A cadeira vazia é a técnica preferida senvolvida e assim por diante.
de Frederick Perls, que a usou espe- A c.adeira vazia funciona por meio do diá-
cialmente a partir de 1964. Ela con· logo entre uma parte da pessoa e "outro" da

síste em pedir ao paciente para se vida dela, com outra parte de si mesmo ou
instalar em frente a uma cadeira va- uma situação. O terapeuta o tom de
zia e imaginar um personagem (por voz. as atitudes, os trejeitos, as mensagens
exempl.o, o pai) com quem ele precisa corporais, faciais, as hP•,it~,r&"'
falar. A "cadeira vazia" pode ser uma compartilhando aquilo que ou "diri-
almofada que pode ser colocada numa gindo" a cena para o díente experimentar-se
variedade de lugares de acordo com a mais integralmente.
posição do cliente. Em geral. a técnica da cadeira vazia está as-
sociada à idéia de cadeira quente - o hot seat.
A prática da Gestalt-terapia se dá num Corno o próprio Perls ( 1977, p. 105) explica
encontro relacional. e seu método é feno· na Introdução da seção "Seminários com so-

menológico e A cadeira vazia é nhos", no livro Gesta.lt:-teropio explicado: "Ba-


uma estratégia técnica totalmente embasada sicamente, o que estou fazendo é uma terapia

01é10NÁRIO DE CESTAtT-TERAPIA
36 37

individual no contexto de grupo, mas não se ra vazia: o grupo fica sentado no chão, "Cadeira vazia" é diálogo. A maior acontecendo é uma mera troca de lugares,
limita a isso'. Sua posição é de que nem toda num airpete ou em colchões cercados parte dos Gestalt-terapeutas se refere uma tarefa que o cliente cumpre porque o te-
interação grupal é terapêutica, e as válidas são de almofadas de vários fonnatos, tex- ao trabalho da cadeira vazia como a rapeuta pediu, ou se está ocorrendo um en-
aquelas nas quais há um compartilhamento tura varíável e cores diversas. 1... J Uti- construção de um diálogo entre duas volvimento de sentimentos e pensamentos.
das pessoais. O hot seat seria a lizamos as almofadas[ ... ) como "obje- polaridades de uma pessoa. Em sen- ísso aparece na expressão faoal dos
escolha das pessoas do grupo em trabalharem tos tramícionais'; podendo simboliz.ar, tido mais restrito, a denominação em suas lágrimas, olhares, movírnentos cor-
alguma ou sonho, e a cadeira vazia, o sucessivamente, personagens, partes parece errônea, considerando-se um porais e no desenvolvimento do ·trabalho.
instrumento por intermédio do qual Fritz Perls do corpo, até entidades abstratas. Dei- aspecto sempre enfatizado por Buber: pois, durante a troca de lugares, ocorre com
trabalhava fenomenologícamente, propician- xamos o cliente escolher por si mesmo ser surpreendido pela «alteridade" da freqüência um
do a conexão, o contato ou a aworeness das o objeto que lhe convém. outra pessoa, que é sempre diferente Em terapeutas pouco
partes dissociadas, pouco desenvolvidas ou de mim. Devido a essa alteridade, tes não conseguem trabalhar bem com essa
conflitadas. Fritz desenvolveu assim um instru- nunca posso prever com certeza o que técnica. Há sempre o risco de se perder na
mento técnico de integração: 124), a cadeira vazia é um experimento que a outra pessoa fará. Esse sentido de com o cliente e não perceber quan·
serve para trabalhar com os "temas recorren- 11ão saber e de ser surpreendido é fim- do uma Gestalt fixa. ocupa o pnmeiro
F: Ah! Coloque o Sam na cadeira vazia damental no diálogo genuíno. Parece plano. Algumas mudanças emocionais não po-
tes, que se relacionam com vozes em confli-
e fale com ele: "Sam, esta é a sua única suspeito se referir à interação entre dem prescindir de uma destruição de Gestalt,
tos internos ou com nossos choques com as
oportunidade. Tire o máximo proveito duas polaridades da pessoa como um porém nem todo cliente a possíbílídade
pressões ambientais [.. .). Possibilita a apropria-
que puder" [... J S: É [ ... ] Você está aí verdadeiro diálogo... O trabalho da de reorganizar suas fronteiras. Nesses casos,
ção de que se opõem, integrando-as
sentado todo tenso [...] Para que foi que cadeira vazia parece ser um autodiá- o trabalho com a cadeira vazia pode confron-
criativamente. e a clareza das ambigüidades e
voei! subiu? F: Troque de lugar. Agora, logo em que ficamos conscientes de tá-lo com dilemas com os quais o cliente não
polaridades de cada pessoa".
{... ] «escreva um roteiro~ Invente um que estamos divididos ou de que há que1", não pode ou não consegue lidar: E isso
A cadeira vazia. na verdade, como afirmam
roteiro ou díálogo entre doís opostos. Isto ao menos dois pensamentos ou sen- o terapeuta precisa perceber.
Perls e os demais autores, resgata a
é parte da íntegraçiro dos fragmentos timentos polares dentro de nós que Outro aspecto fundamental diz à
lidade de diálogo interno e contato com as
da sua personalidade, e, em geral, elas estão em conflito; estamos tentando gravidade da disfunção do cliente com quem
histórias, sentimentos e as vivên-
aparecem como opostos - por exemplo, ouvir ambos os lados. Em sentido trabalhamos. O trabalho com a cadeira vazia
cias infantis e adu1tas. Principalmente. é uma não deve ser realizado com pessoas com dis-
o dominador e o dominado. Então, res- mais restrito, isto não é um diálogo,
possibilidade de dar voz às cristalizações e a túrbios mais graves tais como a personalida-
ponda a ele. Quem está sentado aí é ele e sim uma espécie de dialética intra-
tudo que, fazendo parte do fundo •-vr=r•=n~1 de borderlíne, estruturas psicóticas em
ou ela? (Perls, I9n, p. 230) psf.quica. Entretanto, com freqüência,
das pessoas. de sua própria vida emocional e é necessário pasSllr pelos impedimen- ou com pessoas nas quais se ídentíllque um
Como e Anne Ginger ( 1995. p. inter-relacional, permanece paralisado, Zinker tos intrapsiquicos antes que um diá- estado de ansiedade e angústia grande. Em
21) afirmam: ( 1979, p. 124) justifica por que a cadeira va- logo genu(no possa ocorrer. resumo, não deve ser utilizado com pessoas
zia é utilizada: "(...] por ser um eficaz dispo· cuja da identidade sendo
[... ] objetiva favorecer uma nova ex- sitivo para reclamar algo do qual a pessoa se Em minha experiência de trabalho com a mantida com muito esforço.
periéncia pessoal, uma reelaboração desapropriou sem se dar conta e aprende a cadeira vazia, considero a técnica muito efi-
do sistema individUitl de percepção e nutrir-se de algo que a princípio parecia difícil. ciente, principalmente para trabalhos com
doloroso, repugnante". REFERÊNCIAS BIBUOGRÁFICAS
representação mental.
Para fazer um contraponto a considera- GiNGrn,S.; GlNGffi, A Gestalt: umo terapia do contato.
Nós, na École Parisiense de Gestalt, ge- fusão interna e conflitos interpessoais. No
São Paulo: Summus, 1995,
ralmente trabalhamos mais com gran- ções tão positivas com relação a essa técnica, entanto, o Gestalt-terapeuta prestar HYCNER. fl;],coes, L. Reloçõo e rum em Gem:dt·terapía.
des almofadas do que com uma cadei- citamos Richard Hycner ( 1997, p. 47-8): muita atenção para perceber se o que está São Paulo: Summus, 1997.

DICIONÁRIO DE G ESTALT· TERAP•A DICIONÁRIO OE GESTALT·TERAPIA


38
1
~
!
39 CAMADAS DE NEUROSf

f\ns. F. S. Gesta/t-rerapia explicada. São Paulo: Summus. com um conceito, que a tônica: nós nos ag.egamos, nos contraímos e, REFEMNCIAS BIISUOORÁFICAS
1977. uma fantasia que nós ou outros criamos, quer comprimidos, nos impkxlimos" (Perls, 1977, ÚSOEUA, B. H.
S1NAY, S. Gestalt for beginners. Nova York: Writers and lo: Summus, 1994.
Readers. 1997.
resulte em uma maldição ou em um ideal" p. 85). Neste ponto. não há prontidão para o
F,o,,.,, J.: 5;.;H'Hffi!l. 1. L (orgs.). Gesraí-teropia: Céól'ia, téc-
z.,.,KY<. j. EJ proceso creatJvo en la terapia guestólricc. Sue· (Perls apud Fagan, 1977. p. 36). É um afas- acesso aos recursos genuínos. A implosão nica e apl•cações. Rio de Janeiro: Zahar. 1977
no,; Aires: Paíd6s. 1979. tamento da autenticidade, do que realmente ocorre pelo receio no entanto, o Prni.s. E S. ( 1942). Ego, fome e agressáô. São Paulo: Sum-
se é. O reconhecimento da falsidade desse contato com esse medo pode ser o início da mus. 2002.
VERBETES RELACIONADOS jogo leva ao encontro do da dor, - ~ · Escarafunchando Fritz: dentro fora da lata de
explosão: "[...) a mínima um
Ansiedade, Awareness, Conflito. Contato, Experimento, lixo. São P.rulo: Summus. 1979.
do da angústia, e é justamente a leve tremor já é o começo da dissolução da
Gestalt, Hot seat, Método fenomenológico, S.tua· Gestaincropia explícoda- São Paulo: Summus,
ção ,nacabada camada ímplosíva". (Perls, 1977, p. 46). i977.
mentas desagradáveis que serve de passagem Na quarta camada, a implosão torna-se STEVENS. I· O. (org ). Isto é Gestalt. São F\,,ulo: Summus,
à camada A compreensão toma-se expres· 1977.
CAMADAS DA NEUROSE Na camada fóbica aparecem as objeções são. A explosão:
VERBETES RELACIONADOS
Na literatura da Gestalt-terapia, essa ex- a ser o que se é.
Fantasia. Neurose. Ps,coterapía de grupo e workshop
tr:,n,:rriri""" de seminários, [... J é: o elo com a pessoa autêntica ca-
workshops e palestras dadas por Peris na década [... ) Nós somes fóbicos, evitamos o so- paz de experienciar e expressar suas
de 1960. Encontramos desde o livro frimento, especialmente o sofrimento emoções. Existem quatro tipos bási- CAMPO (VER TEORIA DE CAMPO)
de Perls. EFA. a conceituação de neurose como de frustração. Somes mimados e não cos de explosões da camada da morte.
um "[...) processo de desvitalização e enfraque- queremos prusar pelo inferno do so- Existe a explosao em pesar genuíno
cimento das funções de partes da per- frimento: co11servamo-nos imaturos, se trabalharmos com uma perda ou CARÁTER
sonalidade" (2.002, p. 106). continuamos a manipular o mundo, morte que não tenha sido rusimila-
em vez de sofrer a dor do crescimento. Fritz Perls iniciou seu treinamento em psi-
A visão de neurose, ou indivi- da. Existe a explosão em orgasmo,
(Perls in Stevens, 1977, p. 84) canálise no ano de 192.7, na cidade de Viena.
dual. levou Perls a estabelecer, didaticamente, a em pessoas sexualmente bloqueadas.
Na época, foi analisando de \!\/ilhelm Reich. de
estrutura da neurose em cinco camadas: pos- Existe a explosão em raíi•a, e também
Nessa camada estão localizados os "não quem. sem dúvida, recebeu grande iníluência,
tiça, fóbica. impasse, irnplosiva, explosiva. Essa a explosào em alegria, riso, alegria de
devo", os "não O medo e a principalmente no tocante ao corpo. ao ges-
divisão corresponde a uma aproximação com viver. Estas explosões se ligam à persa -
de ser aquilo que se quer encaminham a con- tual, ao olhar, à entonação de voz, à estrutura
o processo real do comportamento neurótico. nalídade autêntica, ao verdadeiro self.
A <amada postiça, também chamada da processo à terceira camada. e à forma da fala, destacando-se a infuência
(Perls, 1977, p. 85)
dos clichês, é aquela na qual acontecem os Na e.amada do impasse se dá o reconhe- do conceito de couraça muscular do caráter.

jogos sociais, normas de cumprimentos. feli- cimento do que não se é. Isso gera um senti- No livro EFA (2002), Perls faz referências aos
É passível de observação nas fontes con- caracteres oral, anal. genital e paranóíde, mas
etc.: "[...] Se você se encontra com mento de coisificação, de não se estar vivo, de
sultadas que, em todas as vezes que Perls fa- sem definir o conceito de caráter. No preiâcio
alguém, você se envolve numa troca de cli- que nada se é: "[ ...] O é o estar en-
lou sobre as camadas da neumse, ele usou do livro de PHG (1997), Perls traça algumas
chês: 'Bom-dia', aperto de mão, todos estes calhado, paralisado, nem exteriorizando, nem
exemplos vivenciais. Isso possibilita o entendi- referências à contribuição de Reích para as
símbolos sem significados usados num en- não exteriorizando" (Perls in Stevens. 1977, p.
mento de que essa divisão é um recurso teó-
contro• (Perls, 1977, p. 83). Dá-se, então, o 46). O próximo passo é implodir.
rico facilitador da compreensão de um pro- com esse autor. Ele diz:
desempenho de um viver de acordo A camada implosiva ou da morte "[ ...] é
cesso que ocorre com cada pessoa, devendo
com conceitos que corresoondem a uma fan- onde as necessárias à vida se encon-
ser as características individuais A idéia da aiuraça muscular de Reidi
tasia criada pelo próprio indivíduo para satis- tram bloqueadas e investidas sem uso algum"
de cada caso. é, sem dúvida, a contribuição mais
fazer um ideal ou social: "São atitudes (Perls apud Fagan, 1980, p. 41 ). Nessa cama-
'corno se' que exigem que vivamos de acordo da vivemos de paralisia cata- Magda Campos Dudenhoeffer importante para a medicina psicosso-

o:c10NÁRIO DE GESTAL T-TERAPIA OIC!ONÂRIO OE GESTALT-H~APIA


ÇAAÁTER 41

mátíca desde Freud. Discordamos dele agir com um conjunto límitado e fixo dele, a camada fóbica, que o envolve, repre- Na teoria e prática reichiana, o concei·
(e de Anna Freud) em um ponw: con- de respostas. sentando seus medos; e, em tomo desta, a Qn;arrr.C<t>r'R está inserto na funcionalidade
sideramos a função defensiva da cou- camada postiça. na qual o organismo se pro- pela "fórmula": tensão car·
raça um engano ideológico. Uma vez Em outra passagem do mesmo capítulo diz: tege do contato com o mundo externo, com ga descarga repouso, muito
que uma necessidade organfsmíca é suas representações de as respostas semelhante ao que Perls se refere no Ciclo
condenada, o self dirige sua atividade Tal pessoa terá a possibilidade de ver fixas, ou seja, o caráter. Homeostático. Para Reich, havia um quantum
criativa, sob forma de agressão, centra urna situação total {uma Gestalt) sem No contexto do funcionamento intra-or- energético no cérebro reptiliano, respon-
o impulso, repudiado, subjugando-o perder os detalhes. Com esta orienta· Perls insistia que os seres humanos são sável pelas sensações e sobrevivência; um
e controlando-o. [... J Contudo, segui- pio desenvolvida, está em condições organismos unificados e que não há nenhuma
mos Reich de todo o coração quando de lídar com a realidade, mobilí:mn· diferença entre atividade física e mental. Defi- nn,nca"'"' pelos sentimentos: e um quantum
este muda a én[ase da recuperação do seus próprios recursos. Não maís nia atividade mental como atividade da pessoa eneri>t>tiiro na porção do cérebro, chamado
daquilo que foi "reprimido" para a reagirá com resposta5 fixas (caráter) toda que se desenvolve num nível mais baixo neocórtex, responsável pensamentos,
reorganização das forças ªrepressoras~ e com idéias preconcebidas. (Perls in de a atividade física. pela solução de problemas. Esses quontuns
embora achemos que na recuperação Stevens, 1977, p. 26) Além do holismo em nível organísmico ener51:étí,cos se distribuem e circulam desde
do self haja muito mais coisas envol- (Ciclo Homeostático do Organismo), Perls a concepção, gestação, parto até os primei-
vidas do que a mera dissolução da No livro {1977. acentuou a importância do fato de considerar ros dez dias de nascimento, e a isso Reích
couraça muscular do caráter. (PHG, p. 55), Peris também fala sobre a noção de o ind1Víduo como parte perene de um cam- chamou de "temperamento", que, '"'º'"nrrr.
1997, p. 34-5) caráter: po mais amplo. incluindo o organismo e seu ele, é ímutáveL Imutável porque precisaria
meio. Assim como Perls protestava contra a ser novamente concebido, gestado, parido
Em artigo contido no livro Isto é Gestalt, A medida que a criança começa a de- noção de divisão corpo-mente, protestava para contatar o mundo em seus dez primei-
Perls (in Stevens, 1977, p. 21 senvolver meios de manipulação, ela também contra a divisão interno-externo. ros dias de vida em outro campo em~rg,étlco
finir o que é caráter: adquire o que é chamado de caráter. Considerava que a questão de as pessoas se- de gestação, parto e r,r,yr,QirRc

Quanto rnaís caráter uma pessoa tem, rem por internas ou externas cuidados. De acordo com Reich, núcleo psi-
Quanto mais o caráter repousa sobre menor é seu potencial Isto parece um não tinha nenhum sentido em si, uma vez que cótico, núcleo borderline etc. são
conceitos prontos, formas fixas de com- paradoxo, mas a pessoa com caráter é os efeitos causais de um eram inseparáveis formas de temperamento, a estase orn,m""-
portamento e "computação': menos aquela que é previsível, que tem ape- dos efeitos causais do outro. ca é chamada de couraça muscular e o modo
é aipaz de usar seus sentidos e intui· nas um número determinado de res- Na teoria e prática gestáltica, há um limite como o ser h>Jmano lida com essa estase nos
ção. Quando o indívlduo tenta viver postas fixas. de contato entre o individuo e seu meio, e seus contatos é chamado de caráter.
de acordo com idéias preconcebidas é esse limite que define a relação entre eles Quando Perls considera "a função defen-
de como o mundo "deveria" ser, ele se Na teoria de Peris, a noção de r,r,,an,ó<m,n (fronteira de contato). Num indivíduo saudá- siva da couraça um engano ideológico· (PHG,
como um todo é central, tanto em 1 vel, esse límíte é fluido, permitindo contato e 1997, p. 35), como em anterior. ele
afasta de seus próprios sentimentos e
necessidades. O resultado desta alie- funcionamento organísmico quanto à partid- afastamento do meio. Contatar cons- se engana porque. segundo a vegetoterapia
nação dos sentidos e necessidades é o
bloqueio de seu potencial e a distorção
de sua perspectiva. [... ] Pelo menos
mais dois fenômenos interferem com
pação do organismo em seu meio para criar
um campo único de atividades. Para
compreensão, imaginemos círculos concên-
melhor

tricos representando as camadas do ciclo ho-


l tituí a formação de uma Gestalt e afastar-se
representa seu fechamento. Num indivíduo
neurótico, as funções de contato e afastamen-
to estão perturbadas, e ele se encontra diante
car.!tero-analftica, um recém-nascido pode
desenvolver couraças auditivas, oculares, pela
contração dessas áreas nos dez
primeiros dias de vída, que são anteriores à
o desenvolvimento do potencial genuí· meostátíco em que o sei{ é o núcleo a partir de um aglomerado de Gestalten que estão, mobilidade (uso da musculatura para o movi-
no do homem. Um deles é a formação do qual o organismo tem awareness de sen- de a!guma forma, inacabadas, ou nem plena- mento em torno dos 6 meses de idade). Nes-
de airáter. O indivíduo então sé pode sentimentos e necessidades; em volta mente formadas nem plenamente fechadas. sa fase, não há, como diz Perls, idéias precon-

DICIONÁl\íO DE GESTALT·TERA?IA OlClONÁRIO OE GESTAL T-TERAPtA


42 43 00.0 00 CONTATO

cebidas, já que no recém-nascido o cognitivo gonoterapeuta, trabalho no entrelaçamento modelos variam tanto em número de meca- construto self. O ciclo do contato, na forma
não está completamente formado. das duas abordagens. que podem ser com- nismos de bloqueio quanto no que se atual, é uma organização de Ribeiro ( 1997).
Reich discorda de Perls quando este afir- preendidas como primas-irmãs: consideran- ria chamar de processo de consciência ou de que contém nove mecan,smos de bloqueio
ma: 'Ela [a criança] necessita de apoio dire- do as couraças. mas sem fazer análise do saúde. Eis algumas das principais denomina- e nove mecanismos de cura, respectivamen-
cional" (Perls in Stevens, 1977). Na verdade, caráter. ções históricas de ciclo do contato: Petruska te. o autor está concebendo o cido do
segundo Reích, antes de ser criança existe um Clarkson ( 1989) fala de "Ciclo de formação contato como uma teoria do contato, como
Jane fl.o<Jrigues
bebê que necessita de contato-referência na e de Gestalt·, e. às vezes. de "Ci- algo que se expressa por meio ele ciclos. su-
com quem cuida diretamente dele REFERÉNCIAS BIBLIOGRÁFICAS clo da Saúde". Zinker ( 1979) fala de "Ciclo perando a das de fron-
para que desenvolva: foco. sensação de acolhi- 11:flJS, E$. (1947). Ego fome e agressão São Paulo: Sum- cor1sc1êm:ia-exc:itat;ao-cc1ntato-. Gile Desfile teira ou contornos do contato, para ser uma
mus, 2002.
mento. de atendimento de suas necessidades, ( 1999) fala de "Ciclo de Experiência", Ser- dimensão da pessoa que evoca, a todo instan-
GestolHempía expiicaóa. São Paulo: Sumrnus,
sua auto-estima, além de sentir-se existindo e 1977. ge e Anne Ginger ( 1995) falam de "Ciclo do te, uma dimensão transcendental humana. A
amado no campo mãe-bebê. S.; HEFrfRUNE. R.; GooL>'W'J. P. Gesrolt·terap,a.
f'ERlS. F. Contato". Ribeiro (1995) faia de "Ciclo dos edição revisada de O Ciclo do Contato traz oito
No texto citado anteriormente. Perls São Paulo: Summus. 1997. Fatores de Cura e Bloqueios do Contato" e modelos de ciclos de contato, que funcionam.
( 1977, p. 55) diz: "Ela sabe como torturar sua STEVENS, J. O. (org.). Is.o é Ges,alt. São Paulo. Summus, Ribeiro ( 1997) fala de "Ciclo do Contato e por uma
1977.
mãe. Ou a criança a auto-estima do Fatores de Cura•. que ser vista, indutiva ou dedutivamen-
outro. de modo que o outro se sente bem e Não existe, portanto, uma única t1"'1l1n1,·:.n te, com base na noção de sei(.
VERBETES REI.ACIONADOS
dá alguma coisa em troca". Mas, para Reich. Agressão, Ajustamento criativo, Aqui e agora, A!M'.lreness. para "ciclo'. uma vez que os autores têm vi- Como um dado, aqui e agora. Gestalt
a criança repete o comportamento aprendido Camadas de neurose, Campo, Contato, F,gura e fundo, sões diferentes sobre ele. Entre muitas defini- pode ser definida como terapia de contato e,
Função e dísfunção de contato, Fronteira de contato.
de quando se sentiu torturada, isto é, desde os apresento a como uma proposta, Gestalt pode ser definida
Gestalt. Gestalt-terapia, Holismo, Necessidades, Orga-
primeiros dias de nascida em que seus choros nismo, Self como terapia de totalidade, enquanto contato
deixaram de ser atendidos como expressão O Ciclo é, portanto, concebido como é o instrumento por meio do transcen-
de sentimentos ou necessidades. um sistema self-eu-mundo. Permi- demos partes, na direção de uma totalidade
Perls afirma que a Gestalt-terapia •descas- CICLO DO CONTATO te-nos ler a realidade por intermédio Contato é o instrumento que nos
ca a cebola" referindo-se a um trabalho de Gestalt-terapia tem sido definida como dele, bem coma entender o processe transporta das partes para a totalidade, da
fora para elentro, em direção ao e deste de contato". Contato que é, ao mes- pelo qual este sistema foi se estrutu- quantidade para a qualidade, do imanente para
para o todo novamente, sem considerar as mo tempo, um processo, um modelo e um rando ao longo do tempo. Revela um o transcendente. da matéria para o imaterial.
couraças musculares citadas !X)r Reích. A tera- instr..imento de trabalho. A noção de contato processo de relacionamento entre o Mas contato estamos falando? Estamos
pia neo-reichiana trabalha de dentro para fora: é ampla e não é nova; !X)r isso, se toma difícil self, o eu e o mundo, partindo de um falando de Uf'l contato sem fronteiras. esta-
incluindo as couraças musculares, indo em de ser operacionalizada. Uma existência em processo mais primitivo, fixação/flui- mos falando de um processo de imersão total
ao interior novamente, já com outra ação, cuja essência é de difícil definição, torna dez., para uma forma mais complexa no próprio ser, numa busca ilimitada de nos-
perspectiva da realidade do todo circundante. o conceito extremamente reiatívo e subje- de estar no mundo, confluêncíalreti- sas possibilidades. De uma maneira macro, o
Perls e Reich usam metodologias dife- tivo. Ao longo dos tempos. surgiram novos rada. (Ribeiro, 1997, p. 30) contato se dá no campo. onde existe uma to-
rentes. entretanto concordam quanto à de- posicionamentos tentando mostrar o cons- talidade potencial, e, de uma maneira micro,
finição de caráter: um conjunto de respostas truto "contato" em funcionamento. Todos O ciclo do contato é um modelo teórico ele se intensifica na fronteira, nas partes, onde
fixas. Não há uma metodologia meíhor que a os autores apresentam o "ciclo" ou "árculo" que tem no construto "contato" seu princípio encontramos o outro, o diferente.
outra, já que com ambas trabalhar do contato de maneira diferente. Uns apre- opera,ac,nal Visa discutir, teoricamente, a no- Creio que devemos fàlar ele níveis de con-
com awareness, contato, aqui e agora. sentam apenas os passos do contato, outros de contato, de ciclo, os mecanismos de Estamos indo além do conceito de contato
tato.
e fundo, fronteiras de contato, ajustamentos apresentam os passos e seus bloqueios ou bloqueio do contato e sua com os como olhar; prestar atenção. tocar; e outras for-
criativos etc. Como GestalHerapeuta e or- interrupções correspondentes, e ambos os "mecanismos de cura", sob a perspectiva do mas de relacionamento. Falamos de um con-

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ocwooCONTATO

trto que muda. que transforma, que cura, um Ê nesse contexto de impermanência que às vezes, um novo ciclo. Esse é o jogo da psicoterapia, das quais nos interessa particular-
processo de ecologia interna, profunda, como os mecanismos de bloqueio e de saúde fazem vida: os ciclos de contato registram nosso mente a que existe comumente entre espon-
uma totafidade viva, um processo de transcen- do contato pessoa-meio nosso principal ins- caminhar e por meio deles nos tornamos tâneo e deliberado. Tal dicotomia considera o
dência. Conlato como um dar-se conta (=· trumento de mudança. na eterna caminhada presença para nós mesmos. O ciclo do con- que é como algo especial, que só
re=) cognitivo. emocional, motor. C011tínuo entoe fluidez e retirada, permeado. aqui e ali, tato registra os ciclos do contato que, pela acontece com algumas pessoas em particular; e
que se expressa f10 corpo. que faz todo nosso pelos bloqueios transgressores que nos des- intercomunicabilídade de nossos processos, o que é deliberado corno o que necessariamen-
ser mergulhar no ser do outro à procura de um pistam o horizonte. Somos fluidez e retirada. permitem a nosso um ponto de mu- te objetiva algo que não queremos e não nos
encontro pleno. de uma forma que totaliza a somos fixação e confluência, e é neste cami- dança que nossa crença de que não será satisfatório. O mérito da Gestalt-terapia
presença de uma complexa intersubjetividade. nhar entre um e outro que todo nosso ser se somos uma ilha, e sim uma imensa península nesse aspecto é apontar: de acordo com seus
Contato, assim concebido, é um processo revela como id, como eu, como personalida- onde o contato se transforma no princípio conceitos de sei(, auto-regulação organísmic:a e
de se encontrar com o outro e no outro. Nada de, funções que dão visibilidade ao nosso sei(. essencial de nossa existência. ajustamento criativo. que a espontaneidade é
fica de fora. Tudo ocorre nos dois lados, não que é nossa operacional de contato. Jorgi, Ponciano Ribeiro urna qualidade da experiência do ser-no-mun-
só na pessoa ou só no mundo, mas na pes- Ele é como uma matriz que recebe e distri- do de modo e que a deliberação é funda-
soa-mundo, uma de total inter, intra e buí toda forma de contato por mecanismos REFERÊNCIAS 818LIOGRÁflCAS mental para a organização e síntese criativa da
na qual tudo está incluído de bloqueio e de saúde. Ele não é processo CLMl<ION, f' Ge:italt couselmg m crcrion. Londres: Sage, experiência vívida. Conciui-se dessa forma que
1989
amorosamente. É a descoberta plena do TU puro nem estrutura pura. É ambos, ao mes- a não é algo só para
G1NGER, S.; G1NGER. A { 1987). Gestalt: uma ceropio do
que mora em nós e nele nos fundimos numa mo tempo. Como sexualidade. vontade, me- conta'c0. São Pauio: Summus, 1995. e aquilo que é deliberado não sígnrnca
inclusão Isso só acontece quando o tu mória são propriedades várias e variantes com ,'llllE,RCJ, J, P O ciclo do contato. Brasfüa: Ser, 1995. sempre contenção, entrave à de
do homem se encontra com o TU eterno que funções de nossa np1r,:r,n;i1,,r1:1,;p O ciclo do contato: remos bás,cos na abordagem obietivos ou 1ns;;rtlst,açã,::i.
gestG!tka. São Paulo: Sumrnus, 1997.
mora em cada um de nós. O corpo-pessoa assim é nosso self. Ele não é um aspecto, ele PHG ( 19 51 ) colocam a teoria do self, cujo
Do self e do ipseidode: uma proposta cor.ce,tual
é o lugar onde tudo acontece. O corpo é o é uma entidade. funcionamento baseia-se na em
em Gestalt-!erap,a. São Paulo; Summus, 2005.
espaço-tempo por intermédio do Transcendemos porque somos ímperma- Z1NKER, J. 8 proceso creativo en lo ternpia guestiiluca. Bue-
tres aspectos id, ego e personalidade res-
tulamos nosso ser corno uma história viva, vi- nência. Passamos mesmos mais nos A.res: Paídós, 1979. ponsáveis por mo:nentos distintos na busca
vente e vivificante. E. nele, de uma vez, embora não do mesmo modo. do a1ustamento criativo.
dade estruturante de nossa n,,1'<;()ln;ihrl;:iríP O que nos é próprio não muda; mudam os VERBETES RELACIONADOS Para a compreensão da noção de com-
acidentes que nos permitem nos identificar- Awureness, Cam::,o. Confluência, Contato, EgotJsmo. portamento deliberado, interessa-nos
lugar do encontro marcado do tempo com
Existência, fluidez, Função íd, Gestatt. Gestalt-terapia,
o espaço e do espaço com o tempo. do íguai mos conosco mesmos, sendo sempre di- lntrojeção, Me<anísmos neuróticos. Mudança. Person.a- larmente o funcionamento do self. conforme
com o diferente, é o lugar do hoJe que se abre ferentes do dia anterior. O eterno retomo, l,dade, Projeção. Retroflexão. Saúde, Sei(. lotalidade proposto por PHG. em seu aspecto funcional
continuamente para o horizonte do amanhã. nossa eterna impermanência e nossa sempre denominado ego. O se/f no modo de funciona-
Diferentemente da tpse1dae11e, que finaliza em progressiva transcendência são nossos ciclos ·mento do ego é o responsáveí escolhas
COMPORTAMENTO DELIBERADO E
nós um processo evolutivo cósmico, nosso de mudança. Retomamos ao ponto de par- e decisões deliberadas - motoras ou de lingua-
ESPONTÂNEO
se/f é temporal, nasceu conosco, corno uma tida, mas agora de toda a expe- gem que estabelecem limites para a identifi-
entidade, corno um proprium, que vai regis- riência anterior. Fluímos. sentimos, somos O ponto inicial para entenclermos tal ex- cação e das possibilidacles surgidas na
trando. dia a dia, nossa caminhada do hoje de conscientes. nos movimentamos, agimos, pressão em Gestalt-terapia é encontrado na fronteira organismo/ambiente. tomando cleci-
cada dia. Nosso Jeito de pensar; de sentir. de fazemos contato, nos satisfazemos e nos obra inaugural da abordagem, de autoria de sões e agindo. com ftns de encami-
fazer, de falar. nossa síntese contativo-existen- retiramos para um novo ddo. Fixamo-nos, PHG ( 1951 ). quando destacam na apresenta- nhamento e resolução da figura que se forma.
cíal, é nosso self visível, urna estrutura proces- dessensibílizamo-nos, defletimos. introjeta- ção do "plano da obra" (capítulo li, item 5) que No funcionamento saudável, a delibera-
sual que se atualiza cotidianamente, como um mos. projetamos, profletimos, retrotletimos, um de seus objetivos é questionar as inúmeras •é a restrição consciente de determinados
retrato eternamente retocado. egotizamos, confluímos. Cada ponto marca, dicotomias "neurólicas" presentes na história da intenesses, percepções e movimentos para

DICIONÁRrO DE GESTALT,TER.APIA DICIONÁR10 DE GESTALT-TERAPIA


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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS e muito do que preconizava Freud, associan-


concentrar atenção em outra parte• (PHG, Com isso, todo o processo de ajustamento
Pt:RJ.S, F. S. Esccra{únc0011do Fritz: dentro e fora da lata de do-as ao "instinto de morte" Além do mais,
1997, p. 185), permrtindo, assim, que o equi- criativo estará comprometido, pois a pessoa lrxo. São Paulo: Summus, 1979.
líbrio na fronteira organismo/ambiente já não sabe como está se impedindo e não Pt:ru.s. F. S.; HEfrn<LrNts, R; ~ . (1951). Gestalt·
a repetição é a essência do desenvolvimento,
restabelecido com a satisiação da necessidade pode mais administrar de forma satisfatória terapia. Sao Paulo: Summus, 1997. na medida em que uma ação nova requer a
emergente. Com a a deliberação é suas identificações e Conforme P<MENTR, A Asicodiagnóst,co em Gesroit-terapio. São f'au. para haver um aprendi-
lo: Summus. 2003.
relaxada, permitindo a possibilidade de exemplificado por PHG ( 1997, p. 78): zado. Uma mecâni<:a contrapõe·se
menta de outra figura de interesse. à criatividade; "repetir uma até conseguir
VERBETES RELACIONADOS
Porém, se em vez de um desequilíbrio [... ] nosso homem não percebe que está dominá-la é a essência do desenvolvimento"
AJustamerrto criativo, Auto-regulação organísmica. Conflí·
momentâneo na fronteira de contato enfren- controlando deliberadamente seu cor- t~. Ene'!4' Espoo~. Expe- (Perls. 2002, p. 160).
tamos um CíOOiCO, Uma ~ · ngura e fundo, Função íd, ego. fun,;ão per· Na obra de PHG, os autores diferenciam
<Prv::;u-âf') po. Trata-se do seu corpo, a,m o qual sona;1dad€, Fronteira de contato, Gestalt-terapía, Neurose.
contínua de perigo e frustração, tal rlPiihc,.,,>r-'>A tem certos contatos externos, mas niio Self. Ser-no..mundo, Siruaçiio inacabada a repetição neurótica da saudável. Na prime,.
jamais se completamente relaxada, se trata dele; ele não sente a si mesmo. ra, a compulsão "é srnai de que uma
impedindo a finalização da o próprio Suponha agora que ele tenha muitos inacabada no passado ainda está inacabada no
comportamento deliberado toma-se o arran- COMPULSÃO À REPETIÇÃO presente. Todas as vezes que uma tensão su-
motivos para clwrar. Todas as vezes
jo possível na fronteira organismo/ambiente ficiente se acumula no organismo para tomar
que se emociona até ficar à beira das O fenômeno repetição foi
(Pimentel, 2003). Outras figuras emergem en- a tarefa dominante, tenta-se novamente en-
lágrímas, ele, não obstante, não "se descrrto por Freud, mas, pela forma como o
quanto aquela srtuação anterior permanece ina- contrar uma solução" (PHG, 1997, p. 1O1). A
sente com vontade de chorar': e não pai da psicanálise o compreendia, foi crit,cado
cabada e suprimida, apesar de continuar a existir é que essa tensão que não se com-
chora; isto é porque se habituou, há por Perls, em seu livro EFA {2002, p. 158):
como parte do fundo. Embora o sei( se ocupe pletou assume um posto de dominância e ne-
muito tempo, a não perceber como está
da nova figura. náo pode dispor da energia que cessita ser Dessa maneira, como
inibindo muscularmente essa função e Ele [Freud) viu na monotonia das
está sendo utilizada para reprimir a excitação que não há o fechamento desse processo. que se-
cortando o sentimento. repetições uma tendência à ossifica-
foi suprimida, ou seja, o processo de contato de ria o crescimento pela do novo, 0
ção mental[ ... ]. Em minha opinião,
novas figuras é dificultado pela existência da s1- organismo repete a atitude fixada.
A inibição tomou-se rotina, um comporta- a construção de Freud contém vários
ruação inacabada, pois as faculdades perceptivas Cada vez que o organismo repete essa
mento deliberado, padronizado e não perce- erros. Não partilho de sua opinião
e musculares náo estão completamente livres atitude fixada, mais difícil fica o fechamento
bido. Em sua obra autobiográfica, Perls ( l 979) quanto à Gestalt da ~,ompulsão à
- estão a serviço da deliberada. Esse da A é apenas afastada da
traz novamente a temática, contrapondo o repetição" ter o caráter de rigidez,
é o funciooarnento típico na neurose: "[...] a es- atenção e qualquer outro acontecimento é
que ele denomina de a uma embora exista uma nítida tendência
trutura do contato neurótico caracteriza-se por experienciado como confronto, '[...] só que
deliberada, com o objetivo de des- à ossificação nos hábitos. 2
um excesso de de~beração. da o processo agora é dificultado pelo fundo
tacar o conílrto entre a atenção às necessidades perturbado da inacabada. A pertur-
e músculos preparados para uma resposta espe- Nesta época, Perls já pensava nas
do organismo e às do que ele denominou
cífica' (Pimentel, 2003, p. 85). bação persistente impede o contato final no
de auto-imagem: "Freqüentemente temos de sob a influência do "holismo criativo• de
Um estado de vigilância deliberada contra novo porque não se concede
interpretar papéis por exemplo, estar deli- Smuts, isto é, as repetições compulsivas não
o perigo, por exemplo. com o tempo toma- todo o interesse à figura" (PHG. 1997, p.
beradamente se comportando da melhor ma- são automáticas e mecânicas, ·ao contrário,
se uma contração muscular crônica que não 233). A resperto dessa circularidade, PHG
são tentativas resolver nrt,hl,,,.,,,,c
neira -, mas quem quer crescer pode e deve { 1997, p. 1O1) c;omentam: "(...] é somente
é mais percebida, uma vez que, embora a de vida relevantes" (Perls, 2002, p. 160), daí
superar a interpretação compulsiva de papéis por meio da assimilação, do acabamento,
suprimida permaneça, na medida
manipulativos que substitui a auto-expressão que aprendemos a!go e estamos preparados
em que tal supressão se expressa como um
honesta' ( 1979. p. 163). para uma nova mas o que não con-
padrão motor, com o tempo ela é ::.nrr>r,r!í,ia
2
Recomenclo a leitura do verbete Há.bito. seguiu se completar é ignorante e não está
e esquecida, tomando·se habitual.

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a par das coisas. e. portanto, toma-se cada VERBETES RELACIONADOS da soma dos de que somos formados, tivas a uno fenomenologia pura e una filosofia
Assimilação. Contrto. Crescimento, Energia. Excitação/ nem é um desses órgãos. Trata-se de uma uni- fenomenológica 1( 1913), a qual serviu de mo-
vez mais incompleto". excitamento. Rgura e fundo. Gestalt. Holisrno. Organis·
É importante destacar que são as atitu- mo. Situação inacabada dade que se exprime entre nossos órgãos, que delo para Goodman est.abelecer a redação da
des fixadas que incluem as imagens desatua- não existe sem eles, mas não é um deles. Nos- teoria do sei(, na terceira parte do segundo
lizadas e as concepções abstratas que pare- so é a própria relação dos volume da obra de PHG {1951), conforme
cem infantis e inadequadas - não o COMO (VER SEMÂNTICA. PORQUÊ E entre si, a prévia disponibilidade de um para o declaração do próprio Goodman (Good-
ou instinto. COMO) outro, o sistema espontâneo de equivalência man apud Stoehr, 1994). Segundo Husserl,
Na repetição saudável. a tarefa é que estabelecem entre si. Ou. ainda, o organis- um todo autêntico é partes ou
completada, o equilíbrio é restaurado e o or- mo é a fronteira viva entre esses órgãos, aquilo conteúdos estão relacionados de modo de-
CONCENTRAÇÃO (VER TERAPIA E que os faz trocar l!sícas e vitais, pendente, o que dizer: a mcidifica<;ão
ganismo se conservou ou cresceu pela assí-
TÉCNICA DE CONCENTRAÇÃO) O que nos perrnrte entender a configuração de uma parte acarreta a modificação das ou-
de algo novo" (PHG, 1997, p. IOl),
como no caso da fome. da pulsação sexual. como uma de fronteira viva. tras. No caso de uma totalidade acústica, por
Nessa as devem ser . Ora entendida como fronteira viva. a con- exemplo, se mudo a qualidade do som, simul-
. . ~ - CQNFIGURAÇAO não se limita a nosso orga- taneamente altero sua imensidade. e assim
vistas como 1nvestJmentos para fechar ~ -
Gestalt por meio da da para O termo para a nismo. A configuração como fronteira viva sucessivamente. de modo que passo a dispor
o crescimento. No entanto, a impossibilidade Gestalt-terapia. uma das possíveis formas de também existe entre os organismos. entre de uma nova unidade sonora. Para Husserl.
em desimpedir o primeiro plano favorece a do substantivo alemão "Gestalt" eles e as coisas inanimadas, entre eJes e as ins- as Gestalten ou configurações são totalidades
constância de e tensão por parte do Conforme PHG ( 1951, p. 33-4). "configu- tituições culturais. O que nos falar das autênticas, em que se observar, nos ter-
organismo, encuanto não houver o fecha- ração. estrutura, tema, relação estrutural "'"'"'"' °'"" como totalidades impessoais e mos de uma de dependência entre as
mento da Gestalt, e •esse esforço é rec,et«ja- (Korzybskí) ou todo organizado e significativo genéricas, das quais participamos em diversos partes envolvidas, a vigência de uma intencio-
mente inibido por um ato delii;Jerado presen- são termos que se assemelham mais de per- níveis: físico, biológico, vital. social... Nesse nalidade comunitána, sem porta-voz
te" (PHG. 1997. p. 103). to à alemã, para a qual não há uma sentido, dizem PHG ( 1951, p. 41 ): co, mas partilhada por todos os envolvidos, tal
Em proferida intitulada "O corpo tradução equivalente em inglês [tampouco qual uma fronteira víva.
como expressão" (2006), contribuo: "Desapon- em portuguêsr. Ou, então, segundo Perls A experiência se dá mz fronteira en- Os psicólogos da fonna tomaram para si
tados com suas impossibilidades: frustrados em ( 1973, p. 19): "Uma Gestaft é uma forma, tre o organismo e seu ambiente, pri- a teoria fenomenológica do todo autêntico
suas e com grandes expectativas, assim urna o modo particular de or- mordialmente a superfície da pele e e com ela tentaram pensar fenômenos na-
chegam nossos díentes. Cabe a nós ajudá-los a ganização das partes individuais que entram os outros órgikls de resposta sensorial turais. como a percepção. Segundo e1es, as
transformar suas compulsões em escolhas atra- em sua composição". e motora. A experiência é função des- discussões fenomenológicas pennitem com-
vés de uma releitura de suas queixas". O termo "configuração". tal como é em- sa fronteira, e psicologicamente o que nrP·Pn,1i>r que é a dos fatos,
na língua portuguesa. lavorece a é real sã.o as configurações "inteiras" percepções e comportamentos. e não os
Gladys D' krí
descrição dos aspectos dinâmicos envolvidos (whole) desse funcionar, com a obten- aspectos individuais de que são compostos,
REFERÊNCIAS BIBUOGftÁFICAS na f01mação de uma Gestalt. Trata-se de um fâO de algum significado e a conclusão que dá aos todos sua definição ou significa-
O' h:PJ. G. 'O éorpo como e ~ · . Palestra prole· modo de nominar o processo de formação de alguma ação. específica e particular (Perls, 1973, p. 18).
rida no !li Encontro Carioca. Rio de Janeiro. 2006.
de uma totalidade, a qual não é resultante do Também chamaram a essa organização es-
(Manuscrito não p,.,bli01do.)
11:ALS, F. S. {1942) Eg.l. fiyne e ogressro. São Paulo: Sum-
somatório das partes envolvidas, tampouco é Essa forma de empregar a de con- pontânea de Gestalt ou configuração.
mus. 2002. apartaóo dessas partes, como se delas in- figuração lembra a teoria fenomenológica do Diferentemente da fenomenologia, en-
fscorofjmchcJnd-0 Fritz: dentro e fora da law de dependesse. h> contrário, quando falamos em todo autêntico, a qual foi por tretanto, os psicólogos da forma tomaram as
Summus, 1979. Gestalten como se elas pudessem ser tradu-
configuração. temos em vista uma totalidade tal Husserl, na terceira das lnvestigocíones
f'Erus, F. S.; 1--lmERUNE, R.: ~ . P. Gestolt-terapkl.
como nosso organismo: este não é o resultado ( l 900-1901 ), e retomada na obra ldeas rela- zidas em termos objetivos, como se elas pu-
São Paulo: Summus, 1997.

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l
51 CONPJTO
50

STO€HR, T. ( 1994t Here mm nexc Paul Goodmon ond Outra referência ao conceito de conflito emergénâa de 11ma figura seguinte
dessem ser reduzidas a leis ou regularidades
the orígins of Gestolt therapy. São frant1sco: Jossey· aparece no livro de PHG ( 195 l ). Neste. os au- nítida e vívida. Os excitamentos a:m-
fenomênicas, desprezando o que nelas pu-
Bass. 1994. tores referem-se aos conflitos internos de urna flitantes sempre tornam dominantes
desse haver de intencional. É como se cada
pessoa ser íntrojetos de conflitos do figuras alternativas. A tentativa de
Gestalt, ou configuração, exprimisse uma
VERBETES RELACIONADOS meio. Dada à impossibilidade de isolar partes unificar uma única figura quando o
combinatória de partes que valesse como lei
Gestalt. Gestalt-terapía, Organismo, Parte e todo, Psico, do campo indivíduo/meio, a distinção entre fundo está movimentado, para prosse-
universal e não como se houvesse entre terapia de grupo e worl<shop, Sei(, Totalidade
conflitos internos e externos não é exata. guir e chegar a uma solução fácil[ ... ]
as envolvidas uma intencionalidade
semelhante tentativa deverá resul-
comum. Os fundadores da Gestatt-terapia
Por exemplo, na medida em que uma tar numa Gestalt débil. à qual faltará
criticaram essa tentativa de objetivação esta- CONFLITO
criança ainda não fica em pé por con- energia. Ao contrário, se o escolhido for
belecida pelos psicólogos da fonna. De acor-
ta própria, separada do campo crian· o próprio conflito, então a figura será
do com estes, PHG tentaram estabelecer
na relacionada à em ça/pais ela ainda está mamando, excitante e cheia de energia, mas esta-
um retomo ao emprego fenomenológico do
EFA ( 1947), na qual Peris afirma que o que deter- aprendendo a f a ~ economi- rá cheia de destruição e sofrimento.
termo ·configuração" (Gestalt); o que signi-
mina uma personalidade integrada ou neurótica camente dependente etc. [... ] -, não Todo c.onflíto é ftmdamentalmente um
fica restituir o caráter intencional que define
é o conflit:o entre as necessidades bíológi<:as e tem sentido falar de distúrbios neu· conflito nas premissas da ação, um
a maneira corno as partes de urna Gestalt
as necessidades sociais. A cisão da personalidade rótícos (inanição inconsciente, hos· conflíto entre necessidades, desejos,
estão ligadas entre si. O que talvez explique
acontece quando o indivíduo, ao tentar evitar os tílidade, privação de co11tato) como fascínios, imagens de si próprio, ob-
por que razão, na prática clínica da Gestalt-
conflitos com o meio, identifica-se com a parte estando dentro da pele ou da psique jetivos alucinados; e a função do self
terapia. por exemplo, importa salientar que
do conflito em oposição às necessidades orga- de qualquer indivíduo. Os distúrbios é atravessar esse conflito, sofrer per-
as sessões os trabalhos de
nísrnicas, alienando ou suprimindo o desejo. estão no campo; é verdade que eles das, mudar e alterar o que está dado.
acompanhamento terapêutico e os l!{()rkshops
derivam dos "conflitos ínternosn dos (PHG, 1977, p. 216)
entre outras modalidades de intervenção
são menos repetições estruturadas com Para evitar conflitos - para permanecer pais, e resultarão, posteriormente, em
dentro dos limites da sociedade ou de conflitos introjetados no filho ou filha A nevrose é conceituada como a pacrfica-
base no passado e mais ajustamentos 'cria-
outras unidades -, o indivíduo aliena à medida que estes se tomem indepen- ção prematura dos conflitos, constituindo-se
dos' no aqui e agora da sessão. A criação é o
aquelas partes de sua personalidade que dentes. Porém sua essência na relação na tentativa de evítá,los, impedindo a
ingrediente intencional de acordo com o qual
levariam a amjlítos com o meio am· sentida e perturbada é irredutível às criativa e a utilização da função de auto-regula-
as partes envolvidas. venham elas ou não do
biente. [... ) Se há uma cisão na persona- partes. Desse modo, a criança e os pais organísmica e crescimento do
passado, assumem uma configuração única.
formando uma totalidade autêntica whole, lídade (por exemplo, entre consciência têm de ser considerados juntamente.
e instintos), o ego pode ser hostil em re- (PHG, 1977, p. 161) No momento de conflito e desespero
na terminologia de PHG ( 1951, p. 41 ).
lafào ao instinto e amigável em relaçiío extremos, o organismo responde com
Marcos José e Posane Lorena Müller-Granzotto o mecanismo de supressão, de manei-
à consciência (inibição), ou vice-versa Urna vez que o confltto tem uma função
de auto-regulação, prestando-se atenção ao ra impressionante, com o desmaio, e
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS (desafa>). (Perls, 2002, p. 220)
conflito, permite-se que o ajustamento criativo mais comumente com o sentimento
Hussau_, E. (1900-1901), lnvemgadonesiógkos. V. li. Trad
josé Gaos. 2. ed. Madri: Aiíarlza, [s.d.]. e a auto-regulação organísmica promovam. es· embotado, a paralisia ou algum ou-
O processo terapêutico, nesse caso, cons-
Fm.5, E S. ( 1973). A abordagem g,EStâlôca e testemunha pontanearnente, uma nova configuração. inte- tro método de repressão temporária.
ocular do terapia. Rio de Janeiro: Zahar, 198 l. titui·se na identificação do individuo com suas
grando tais se/f, ampliando-o. (PHG, 1977. p. 167)
( 19 13). ldeas relativas o una fenomeoologio puro necessidades reais, o que se dá ao assumir
e una filosofia feromeno/ógica 1. Trad. José Gaos, 3. ed. a responsabilidade pelo uso de seu sistema
México: Fondo de Cultura EconómÍGI, 1986. O conflito é uma perturbação da ho- Todavia, corno o mecanismo de supres-
sensoriomotor para evitar o contato com as
S.; H,m1<1.1Nt, R.: GooDK<\N, f' (1951). Geswlt·
f'ffil;;, F,
mogeneidade do fundo e impede a são implica algum modo de imobilização do
terapia. São Paulo: Summus. 1997. emoções indesejáveis.

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DICIONÁRIO D!' GESTAL T ~TERAPIA
COMUTO 52 53

organismo, o conflito retoma, e o sofrimento CONFLU@NCIA to, para Perls ( i 997, p. "todos os hábitos de segurança básica que dificilmente se tornam
emocional impele o indivíduo para a busca de e aprendizados são confluentes". Na seqüência conscientes, no entanto funcíonam como fun-
Termo utilizado por Wertheimer, teórico
uma solução. de figura e fundo do processo de os planos de fundo. A confluênaa, des-
da da Gestalt, para explicar o fe-
Podemos encontrar outras referências so- estabelecimento de contato, mais precisamen- sa forma, "surge a continuidade da
nômeno phi e. posteriormente, incorporado
bre o conceito de "conflito" no livro B proceso te entre as fases do pós-contato e pré-conta- experiência, prolongando o apego. a pertinência
à Gestalt-terapia por seu fundador; Frederick
creativo en la terapia guest:áltíco bem como, índi- to há um vazio, ídentifkado por ou o vínculo. O que era novo [ .. .] foi assimilado
Perls. Inicialmente, em seu livro EFA ( 1947),
retirnente, nos mais diversos textos de Gest:alt:- Perls como o "vazio fértil", análogo à "indiferen- e retomado para constituir o plano de fundo de
ele se refere à confluência para designar; basea-
associados ao conceito de polaridades. ça criativa" de Fried!ander, e é exatamente onde um contato (Robine, 2006, p. 102).
do em sua teoria do metabolismo mental, a
a confluência alcança sua maior intensidade.
"fusão" do leite na boca do lactente. denotan-
Uma boa teoria do conflito incluí um- "Neste momento, opera-se uma confluência Goodrnan distingue assim a confluência
do a ausência de limites do Eu. "Tenho usado
to o conflito intrapessoal como o inter- saudável, um momento de da fron- sadia, 1U1 qual o plano de fundo pode
o termo confluência desde 1940. Não creio
pessoal. Parte da noção de que o in- teira de contato organismo/ambiente, já que o novamente ser mobilizado e se transfor-
que ele tenha entrado na psiquiatria. Como
dividuo é um conglomerado de forças movimento impulsivo do contato encontra aqui mar em primeiro plano, da confluência
palavra. é fácil entender; como termo não é
polares, todas as quais se interceptam, sua plena ao encontrar o es- patológica, na qual o fundo permanece
nem um pouco fácil. É uma das do
porém não necessariamente no centro. colhido. É um momento de unidade da figura wmofundo por meio de fvcaçào. (Good-
nada" (Perls, 1979, p. 140).
Podemos dar como exemplo supersim- e do fundo" (Robine, 2006, p. 65) e de onde man in Robine, 2006, p. 103)
plificado o de uma pessoa que contém 'Confluência a não-existência ou a
poderá uma nova experiência.
a qualidade de bondade e também sua não-consciência de íronteiras" (Perls, ! 977, p.
Com uma compreensão mais relacional do
polaridade, ou seia, a crueldade, e a 93). í\ confluência é a condição de não-con-
O pôs-contato é a conseqüência do con- termo, M1riam e Polster; em Gestalt-tera-
característica de dureza e sua polari- tato" (Perls, 1997. p. 252) trata-se de um
tato, isto é, o crescimento. Essa assimi- pia lfltegrada ( 1979. p. 95). referem-se à con-
dade, isto é, a ternura. (Zinker, 1977, vazio estéril, experienáado como nada, dife- lação, que pressupõe distanciamento lluênaa como um "fantasma pelas
p. 158; tradução nossa) rente do vazio fértil que é experiendado como
e retração, pode ser interrompida, de pessoas que desejam reduzir as diferenças para
algo emergindo. "A distinção entre confluências novo, pela confluência que busai evitar moderar a experiência perturbadora da novida-
saudáveis e as neuróticas é que as primeiras a separação, que busca manter o orgas-
Eliane de Okveira Farah de e da al!erídade". Segundo eles, as
são potencialmente contatáveis [...] e as últi- mo do contato pleno como se não hou- regidas por esse mecanismo são es-
REFEl!tNCIAS BIBLIOGRÁFICAS mas não podem ser cont.at.adas devido à re- vesse um refluxo, uma reconstrução da tabelecidas "entre duas pessoas que concordam
F'fRLS. F. S. ( l 94il Ego. fome e ogressõo. São Paulo: Sum- pressão" (Perls, 1977, p. Por repressão, fronteira depois de ter sido temporaria- em não discordar", embora, freqüentemente,
mus. 2002. PHG (1997, p. 235) entendem o mente abolida, e recusa a retração, isto uma das partes ignore as bases que regem o
l'ERts, f. $.; HmfRUNt, R.; GOODMAN, P. (1951). Gésrolt-
de esquecimento da inibição deliberada que se é, a temporalidade do contato. [... J Ê
terapia. São Paulo: 51.,mmus. 1977. contrato dessa relação. Muitas vezes, concor-
ZIN<ER, J. E! proceso creativo en lo terop,o guestáltica. Bue- tomou habitual·: na verdade, e se essa confluência que encontramos des- rem para os relacionamentos confluentes mari-
nos Aires: Paidós, 1977. esquece como se aprende. de a origem da construção da Gestalt do e mulher, pai e filho, chefe e subordinado.
Fronteira pressupõe contato. E contato seguinte: a recusa em destruir a Gestalt Os autores acrescentam que "a culpa é um dos
VERBETES RELACIONADOS
requer consciência. A consciência é o oposto precedente. (Ibidem, p. 66) principais sinais de que a confluência foi pertur-
'°'Justamente criativo, Auto-regulação organísmíca, Confi-
guração, Contam. Emoções, figura e fundo, Necessida-
da confluência. na medida em que a primeira bada" (Polster; Polster, 1979. p. 106), e a outra
des. Neurose, Organismo. Sistema sensoriorr.otor, Sei( requer uma figura de contato que propicia adi- Na obra de PHG (1997, p. 252), os auto- pessoa "que sente que houve uma transgressão
ferenciação. A confluência se inicia mediante a res ressaltam que 'áreas imensas de confluência contra si uma justa indignação e um
a~iO!l-içaç dessa fronteira de relação figura/ fun- relativamente permanente são indispensáveis ressentimento" (Polster: Polster, 1979, p. 107).
do que, por sua vez, possibilita as aquisições, os como fundo subjacente e inconsciente dos fun- Recomendam, como antídoto à confluência, o
hábitos, rsto é, a constituição do fundo. Portan· dos conscientes da experiência". São os fundos contato, a diferenciação e a Éimpor-

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54 55 CONSCl~NCIA
CóNFLi.JtNCIA

tante ressaltar que é a dissolução da 11- f'ERJ..s, E S. ( 1947). ~. fome e agressóo. São Paulo: Sum· portamento padronizado, niio tem possuímos. De nossa experiência consciente
mus, 2002.
guraftundo, e não da relação sujeito/objeto, que mais consciência de como reprimiu. ""'""'""''e olhar para o resto da existência e
Esmmfimchando frirz: dentro e fom da lata de
principia o fenômeno da confluência. (PHG, 1997,p.35) supor que há vários graus de tomada de cons-
lixo. Paulo: Surnmus, 1979.
No livro Gestolt: uma terapia do contato Gestnlt-terapia explicado. São Paulo: Summus. ciência em todas as coisas. Tomar-se presente,
( 1995), os autores dão uma contribuição à "A rotina se tornar uma necessi- consciência ou excitamento são
PErus, E S.; HE!HRLINE, R.: GOODMAN, P. Gesterlt-terapía, dade consciente, nova e excitante para que similares". Ainda Perls nos diz: "Nada 1amais
do GestalHerapeuta, dizendo: Sâo Paulo: Summus, 1997,
recobre a habilidade de lidar com morre ou desaparece nos domínios da cons-
f'rJlSIEP, E.: PO!SfER. M. Gestolt-teropia integrada. Belo
A atitude terapêutica consistirá es- Horizonte: lnteriivros, 1979 inacabadas" {PHG, 1997. p. 36). "Todo con- ciência, o que não é vívido aqui. como consci-
pecialmente em trabalhar nas fron- Roa1NE, J.-M. O sei( desdobrado, São Paulo: Summus, tato é ajustamento criativo do organismo e ência. é vivido lá como tensão muscular, emo·
2006 ambiente. Resposta consciente no campo ções percepção dos outros
teiras do self, no "território" de cada
um, com sua especificidade. com os (como e como manipulação)" e assim por diante. Nada desaparece, mas é
VERBETES RELACIONADOS
(PHG, l 997, p. 45). ''A consciência não tem deslocado e desarranjado" (Perls in Stevens,
limites temporais, com a fluidez das Consciência, Contato, Experiência, Figura e fundo. Ges·
de encontrar o problema: mais exatamente. 1977, p. 1O1). "Na unidade da consciência a
relações (alternância de contatos e tak-terapia, Hábito. Indiferença criativa, Mudança, Vazio
fértil. ela é igual ao A consciência es- divisão dentro de si desaparece, assim como
rompimentos). Isso implicará um cli-
pontânea da necessidade dominante e sua a divisão entre o eu e os outros,
ma de confiança e de segurança sufi-
das funções de contato é a for· entre o eu e o resto do mundo· (Perls in Ste-
ciente, autorizando o "confluente" a CONSCIÊNCIA ma psicológica da auto-regulação vens. i 977, p. 105).
se emancipar sem o temor de se sentir
No livro de PHG ( 1951 ). os autores ca" (PHG. 1997. p. 84). Para Latner (apud Perls, 1994, p. 70), "es-
abandonado ou dissolvido. (Ginger;
concebem a fenomenologia, fundament;ção De acordo com Perls ( 1997). só há uma tar consciente é ser responsável, sena captar
Ginger, 1995, p. 133}
filosófica da Gest.alt-terapia. como método consciência: o presente. A consciência por nossa existência tal como se apresenta. A cons-
de investigação do mundo externo. apontan- sua vez é a experiência do que neste mo· ciência é a experiência do que no momento
Em outras palavras, onde não há nenhuma
do-a como a única forma de conhecer como mento está à nossa frente. No enfoque ges- está à nossa frente. só há uma consciência, o
necessidade ou possibilidade de mudança é que
este mundo se apresenta à consciência. Tam- táltico. evita-se a dicotomia entre consciente presente". Em sobre Peris neste mes-
estamos em confluência, e, para denunciar sua
bém nos dizem: 'a perspectiva éa mo livro, lê-se: "Estou seguro de que algum
existência, Perls compôs a célebre da
~h,"rl:am m original, não deturpada e natural
0 está presente. O que emerge neste momen- dia descobriremos que a consciência é uma
Gestalt. fato que lhe rendeu inúmeras críticas:
da vida: isto é, do pensar, agir e sentir do ho- to é realmente o que sucede na ,nt,,r;i,r3.- do universo: extensão, duração,

Eu faço minhas coisas, você faz as suas.


mem" (PHG. 1997, p. 32}. 1 entre passado e futuro. É necessário refle- consciência" (apud Perls. 1994. p. 26).
tir sobre o cotidiano, para que se revele a De acordo com Fagan ( 1980), o que nos
Não estou neste mundo para viver de
Encontramos uma inconsistência es- existência de uma consciência. O mundo e o permite compreender o agora é a seqüênoa
acordo com suas expectativas.
pantosa quando tentamos fazer com suJeito revelam-se O mun- de isto é, a descoberta e a
Você não está neste mundo para viver
que o paciente se torne consciente dos do é criado de acordo com as necessidades tomada plena de consciência de cada expe-
de acordo com as minhas. da pessoa, é organizado à medida que vive. riência real e concreta. A conscientização é o
meios pelos quais ele suprime. Desco-
Você é você, e eu sou eu. Quando está interessada, a pessoa se torna eu todo. cônscio daquilo a que o organismo
ln'imos que está consciente e orgulhoso
Se por acaso nos encontramos, é lindo. se aplica: é concentração espontânea naquilo
quando usa muitas das suas energías consciente do que está ocorrendo, Já que
Senão, nada há afazer. {1977,p. l7) que é excitante e de interesse. A conscíentiza-
wntra sí prúprio, mas percebemos isso é parte do processo de descoberta e in-
Gladys D'Acri também que ele é, em geral, incapaz venção que consiste na amtpt.1.çao criativa do ção refere-se à experiência imediata e desen-
de renunciar ao seu autocontrole. Ele organismo com o meio. volve-se pela transação organismo/ambiente,
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
esqueceu a maneira como se inibe, a Para Perls (in Stevens. 1977. p. 100): que inclui pensarnento e sentimento e baseia·
GINGER.,S.; G1NGER, A. Gestait: umo terapia do contato.
inibição tornou-se rotina, um wm- •Nós somos a tomada de consciência e não a se na percepção atual da situação corrente.
São Paulo: Summus, !99 5.

DICIONÁRIO OE GfSTALT-TERAPIA
DICIONÁRIO D GESTALT-TERAPIA
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Para Baumgardner (1982), a realidade é a A consciência é subjetiva, mas o desdo- Segundo Heidegger ( 1997, p. 298): "Urna termo como sinônimo da expressão "dar-se
tomada de consciência da experiência que se bramento da consciência, sobre si mesma, chamada no vazio de que nada se queira é uma conta", ou então ao processo de "tomada
processa. o tocar. o mover, o fazer real. O permite ao sujeito tratar-se objetivamente. ficção existencialmente incompreensível''. de consciência". No sentido literal do di-
ponto de partida fundamental da consciência é A consciência em sua complexidade parado- cionário, é um processo de
loeci Mana Pagano Gafü
que só um fenômeno pode ocupar o primeiro xal é ao mesmo tempo subjetiva e conscientizar-se como"[... ] tomar consciên-
plano de cada vez. obietivante, distante e interior, estranha e ín- RE.FER.ÊNCAS BIBLIOGRÁFICAS cia de, ter noção ou idéia de [ .. .]" (Hotlanda,
Merleau-Ponty (1996. p. 296) tratou do fo11a, e central, epifenomenal e es- BAl.Jt~ER. P. Terapio Gesu,lt. México: Concepto, 1982. 1975. p. 367).
sencial". "A consciência pode imediatamente DAMÁSIO. A O mistério da cmsoêncía. São Paulo: Compa-
tema da consciência e pontuou: "Quando se No livro de PH(i,. de l 951 , encontra-
nhia das Letras, 2000.
trata da consciência, só posso formar urna desdobrar-se em consciência da consciência,
FA<'.N,, J.: 5HEPHERD, L L (rn-gs.). Gestalt-terap,o: teono,
mos: "[...] o que se denomina 'consciência'
noção reportando-me a esta e ve ,()Ortanto, considerar-se talillbém um técrnca e aplicações. Rio de janéírc: Zahar, 198(1 parece ser um tipo de d,:;areriess,
eu sou, e partk:ularmente não ,í:@4 ito de vista permanecendo embora GoswAM,. A. O médico quântico. São Paulo: C:ultríx. 2006. uma função-<:ontato e, qué há di!!Jdades e
devo em primeiro lugar definir os sentímen- ela mesma" (Morin, 1996, p. l 78). -*ºuniverso ootoetms:dente. !\iÔ de Janeirô:""=,si, demoras de ajustamento. Tâdo'. contài;o
tos, mas retomar contato com a sensorialída- Segundo Goswami (2006, p. 84), "numa
dos Ventos: 2000.
M.
•, ·
Ser y Uempo. ~hile: Uníve:5.r&ia, 1997.
·
é ajll$tàrl'lento crjatívo do organismo •!! aro:
de que vivo no interior" Complementando visã~_de mundó baseada no primado da cons-
j. Fundamenff:ls
l,,TNER, !a Gestalt. Santiago d6 Chile:
essa noção, ele (1996, p. 445) também r;J~scioosness). o ,nconsciente é um Quatro \lientos,
se: "A razão me toma presente aqui e ~01errnin,01ol.o
ó~g~o.rrcque a consciência MEru.EAU-PoNn, M. Fenomenologia do r.,ercepçào.
e presente alhures e sempre, ausente daqui está sempre ~ r c e p ç ã o (awore- lo: Martins Fontes, 1996: · •

·e de agora e ausente de lugar e de ness) surge de um colapso quântico". Aindase-


qualquer tempo. Essa ambigüidade não é uma gundo Goswami (2000, p. 3 18): "Consciência awareness.
f'Eru.s. E S.; HEtFER<.INE, R: F: ( 1951 ). Gestalt,
imperfeição da consciência ou da existência, é é fundamento do ser que se manifesta como terap,a. São Paulo: Summuc, 1997. A abordagem
Perls. na obra e
sua definição". o sujeito que escolhe, e experimenta o que STMNS, ). O. (org.). Isto, Gestalt. São P.1ulo: Summus, testemunha ocular da terapia ( 198 1, p. 77),
escolhe, ao produzir o 1977.
Na atualidade. diversos autores refletiram auto-referen- faz uma ressalva fundamental para a com-
Wou, F. A A C()f1exãó entre mente e matéria. Uma novo
sobre o papel da consciência, como Wolf cial da função de onda quântica em presença preensão do conceito de conscientização:
alquimia da Ciência do Espírito. São Paulo: Cultrix,
(200 ! ). Damásio (2000) etc. Entre estes. po- da do cérebro-mente". 2001 "O conscientizar-se fornece algo mais ao
demos destacar Morin ( 1996. p. 178), para Para Heidegger ( 1 quando se fala consciente. ( .. .] Não se trata de conscien-
quem a consciência é em consciência é preciso acrescentar: quem VERBETES RELACIONADOS te - que é puramente mental como se a
é interpelado por ela? Manifestamente seria Ajustamento criatvo. organísmi<:a, Con- experiência fosse investigada somente atra-
tato, Fef'Of'()éf1ologia,
o produto e a produtora de uma refle- o próprio Dasein (significa "ser o aí", refe- Função e disfunção de contato. Gestalt-terapía. Necessi, vés da mente e das palavras·. Esse sentido
xão; o termo reflexão pode ser consi• re-se ao ser humano, aberto a si mesmo. e dades, Presente, Teoria de campo atribuído ao termo por Perls é próximo do
demdo em um sentido análogo ao do aos demais seres humanos). Essa chamada entendimento do que é a própria awrJreness,
espelho ou da lente, mas, ao nível do o Dasein nessa compreensão coti- ou há distinção entre o processo de
diana de sí mesmo; ele já tem de sempre CONSCIENTIZAÇÃO, DAR-SE CONTA,
espírito, a reflexão é muito diferente de conscientização e o sentido de estar cons-
TOMADA DE CONSCIÊNCIA
um jogo ótico; é o retorno do espírito ocupar-se (das coisas do mundo). Ele mes- ciente de algo apenas mentalmente. Em sua
sobre si mesmo através da linguagem; mo está ocupado com os outros. A consci- O termo gera algumas autobiografia, Perfs ( 1979, p. 88) descreve a
este retomo do espírita permite um ência é uma intimação a si mesmo, ao seu confusões em função da dubiedade de seus propo~ca da Gestalt-terapia:
pensamento do pensamento capaz de ,..,,.,,;.,.rc<,,,r-<1-m,F>,rnn e, por isso, um chamar sentidos. Alguns autores se utilizam dessa pa-
retroagir sobre o pensamento, e per- ao Dasein para suas possibilidades. A cons- lavra como uma forma de tradução de awa- Eu fiz da tomada da conscilmcia o
mite am-elativamente um pensamen- ciência chama ao si-mesmo do Dasein para reness, um dos conceitos mais importantes ponto central da minha abordagem,
to de si capaz de retroagir sobre si. sair de sua perda no mundo. para a GestalMerapia. Outros se referem ao recOt1hecendo que a fenome.now-

DICIONÁRIO OE GESTALT·TERAPIA OI CiONÁRI O DE G ESTAL 1', TERAPIA


58 59 CONTATO

gia é o passo básico no sentido de sona, possibilitando uma vivência de integra- tamento com relação a esta; e rejeição da no-
sabermos tudo que é possível saber. ção. Spangenberg(2004, p. 99), referindo-se vidade 1nassímilável' (PHG, 1997, p. 44). Por

Sem consciência nada há.. ao sentido da palavra aworeness, diz: "Signi· essa afirmação pode-se ver que o contato é
Sem consciência há vazio. fica algo assim como estado de alerta, des- algo dinâmico, ativo. e dependerá sempre de
pertar. consciência[ ... ]. Foi traduzida como o um acordo entre as partes envolvidas. Ade-
Em A abordagem gestáltica e 'dar-se conta', o 'estar presente', querendo mais, observa-se que o contato é seletivo: ele
nha ocular da terapia ( 1981 , p. recuperar sua qualidade ativa e focaíízadora 'escolhe" o que deve ser assimilado. Percebe-

ae!,1ac1ue à ímportância de uma (...r. Ele afirma: "Não podemos atuar sobre se ainda que o que é assimilado é algo novo
mais ampla da por parte do tera- o que não nos damos conta; e o mero fato para o organismo. Outro trecho do livro cor-

peuta, de modo que este "[... ] possa servir de fazê-lo (de dar-nos conta). Já é transfor· robora o que foi dito anteriormente: ·[...] o

de meio que habilite o paciente a criar sua mador" (Spangenberg, 2004, p. 102). Ainda contato não pode aceitar a novidade de forma

própria . O incremento da segundo este autor: passiva ou meramente se a ela, por-


Vl!RBl!Tl!S Rl!t.ACIONADOS que a novidade tem de ser assimilada. Todo
conscientizaç:ão. por meio do processo te-
Ajust>mento crutivo. P<juí e agor.,, AlfilfélléSS, lêona Or· contato é a1ustamento criativo do organismo
rapêutico. é destacado "[ ... ) fornece ao O dar-se amta, mudando a forma da
ganísmica. Consciência, Contato. GestalMerapia. Hor sem
paciente a compreensão de suas próprias ca- organização e focalizando no "como~ e ambiente" 1997. p.
pacidades e habilidades, de seu equipamento organiza a experiéncia, permite o pri- O ato de contatar envolve sempre a per-
~ensorial. motor e intelectual" (Perls, 1981 , meiro "insíght" do paciente, libertan- CONTATO cepção dara da 'O que é difi.Jso, sem-
·p. 77). Ao descrever um trabalho feito com o do-o de sua condenação à repetição pre o mesmo, ou indiferente, não é objeto de
O uso corriqueiro da "contato".
contato" (PHG, 1997, p. 44). O contato se faz
uso da técnica de hot seot, d,z que trabalhar do abandono, mas deixa ainda intac-
em diferentes contextos, incorre no risco da
fenomenologícamente significa trabalhar ta a experiência de «fechamento" de na diferença. Trata-se da ne~iooaçao duas
supersimplificação de seu significado. O em-
na conscientizaç:ão do processo que ocorre" sua Gestalt Aberta. (Spangenberg, partes diferentes que se fundem para poste-
prego irrefletido do termo tem sido objeto riormente se transformar. Assim é que "con-
(Perls, 1981, p. 138}. 2004,p.49)
de polêmicas e controvérsias entre terapeu- tato, o trabalho que resulta em assimilação e
Segundo as palavras de Perls em Geswlt-
É importante a conscienti- tas Para a ele é crescímento, é a formação de uma figura de
teropia explicado ( 1977): "Estas são as duas
zação como uma forma de "consciência em muito importante e apresenta dimensões interesse contra um fundo ou contexto do
bases sobre as quais a Gestalt-terapia caminha:
• ou dar-se conta de algo nunca é n~1cr1r, "~'"' coerentes com O escopo teórico campo organismo/ambiente" (PHG. 1997, p.
aqui e como.[ ... ] Tudo está baseado na toma-
um processo dissociado de uma ação. Cons- da abordagem. 45). Essa definição evidencia mais uma vez a
da de consciência. A tomada de consciência é
ciência3 e formam um binômio insepa- A palavra "contato" tem sido utilizada para emergência da no,idade, da criação.
a única base do conhecimento, comunicação.
rável. A tomada de consciência só acontece definir o intercâmbio entre o indivíduo e o O contato sempre ocorre num limite
e assim por diante·. Continuando, ele fala so-
quando há o contato com o como eu me ex- ambiente que o circunda dentro de urna visão denominado fronteira de contato. A frontei-
bre a •tornada de consciência real': •Enfatizem
perimento no aqui e agora. de totalidade, visto que organismo e meio são ra une e separa tomando-se mais ou menos
o como como vocês se comportam agora,
um todo indivisível. Contato, desse modo, re- permeável. e, dessa forma. favorece, dificulta
como estão sentados, como conversam, to- fatrícia Lima (T!dia)
fere-se aos ciclos de encontros e retiradas no ou impede o contato.
dos os detalhes do que ocorre agora' (Perls.
campo organismo/meio. O contato é um todo
1977. p. 69-70).
No livro de PHG ( ! 9 5 1), marco inicial apontam para quatro fases principais no pro-
Podemos compreender a conscientiza·
da abordagem gestáhica como uma verten- cesso de contato: pré-contato (fase na qual a
como um estado oware do ser no qual
te e os autores sensação corporal toma-se figura); contato (na
as emoções, os pensamentos e as sensações 3 Recornendo a leitL!ra dos ve~es A ~ e Consdên-
que ocorrem no contato deste com o meio
ó processo de tOO"lada de explicam que: "Primordialmente o contato é qual se destaca a ação do organismo no am-
av,.'Qreness da novidade assimilável e compor- biente}; contato final (momento em que a troca
são plenamente identificados de forma unís-

OICIONARIO OE GESTALT·TERAPIA
DICIONÁRIO DE GE5TALT·TERAPIA
60 61 Cl\ESCIMENTQ

ocorre pela flexibilização ou perda temporária Em obra recente. Ribeiro (2006, p. 93) de PHG). Aceitando seu interesse e objeto e Peris descreveu crescimento como a ex-
das fronteiras): e pós-contato da assimila- reafirma a relevância e a força transformadora exercendo a agressão. o homem criativamen- periência da ampliação de possibilidades exis-
ção do novo, a qual favorece o cresámento). do contato expressando-se assim: contato·o te imparcial excita-se com o conflito e cresce tenciais. Em vários escritos, utiliza o termo
O casal Polster ( l 973), da segunda gera- indui a experiência consciente do aqui-agora. por meio deste; ganhe ou perca, ele nâÓ está· sempre relacionando-o à fronteira de contato
de Gestalt-terapeutas. traz uma contribui- envolve uma dara de estar em, de
apegado ao que poderia perder. pois sabe que e ao investimentb agressivo do indivíduo no
significativa para conceituar contato, bem estar com. de estar para e cria algo diferente
está mudando e já se identifk:a com o que se meio externo, fazendo isso de modo que ob-
como para compreender o homem em rela- do suieito e do objeto (pessoa ou coisa) com
tomará(PHG, 1997, p. 161). tenha realização do novo ao ousar arriscar-se
ção com o mundo. Para eles. o contato como a qual está em relação".
No Capítulo X, os autores retomam o ter- àquilo que não está aí.
um todo, com a sua polaridade (isolamento). Teresinha Mello da Silveira mo "crescimento", focalizando-o no contexro
é a função que faz a síntese da necessidade de
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
do campo em que se situa o ou Contatar é, em geral, o crescimento do
união e separação.
Puu, f. S.; HEFFERLNE, K; GooDMAN. P. (1951). Gestolt- a ênfase para a compreensão do concerto organismo. Pelo contato queremos dizer
terop,o. São Paulo: Summus. 1997 de crescer pela 61:íGa do âmbito relacional. Ob- a obtenção de comida e sua ingestão,
Ele só pode acontecer entre seres sepa-
PomE«. E.; POlmR. M. (1973). Gest11Herapía integrado. servemos que os autores frisam a excitação e o amar e fazer amor, agredir, entrar em
rados, que precisam ser independentes São Paulo: Summus. 2001
conflito como sinal da energia ao conflito, comunicar, perceber, aprender,
e st:mpre se arriscam a ser capturados Rlooeo. j. P lbde·mécum de GestaiHerapic conceitos M·
locomover-se, a técnica e em geral toda
na união. No momento da união, o s,cos. São Paulo: Summus. 2006. processo de crescimento. enovelando-o com
função que tenha de ser considerada
. , ...... ....•-·
senso mais pleno que um individuo
os concertos de de contato.
Sao primordialmente como acontecendo
tem de si mesmo é movido rapida-
O campo como um todo tende a se na fronteira, na campo organismo/am-
mente para uma nova criação. (Pols- biente. (PHG, 1997, p. 179)
ter; Polster, 2001, p. 112) VERBETES REI.ACIONADOS completar, a atingir o equilíbrio mais
A,ust'lmento criativo, Assimilação, Contato. Crescimento, simples possível para aquele nível de
Figura e fundo, fronteira de contllo, GeslalHefi!PÍa, Mu- Desapegando,se de respostas obsoletas,
eles, o contato é o meio para campo. úmtudo, já que as condições
dar'9', Organismo, Polaridades. Totllidade o ser pode alcançar a ,nt,!>or.,.,,,f'\ a qual vem
a pessoa mudar e para mudar a experiência estão sempre mudando, o equilíbrio
acompanhada da de completude.
<<'>r,-~.dn
que tem do mundo. A mudança é o resulta- parcial obtido é sempre inusitado;
Partes antes alienadas, quando reencontra-
do inevitáve! do contato. na medida em que CRESCIMENTO é preciso crescer para chegar a ele.
das, passam a fonnar uma nova
ocorrem a do que é nutritivo e a Um organismo preserva-se somente
No capítulo 'Conflito e autoconquista" da fechando urna Gestalt. trazendo um novo
rejeição do que é nocivo. pelo crescimento. A autopreservação
obra de PHG ( 1997), os autores denomina- sentido à existência, abrindo, portanto, uma
Z1nker ( 1994), discípulo de Perls, cont-'ibuí e o crescimento são pólos, porque é
ram de "desprendimento criativo· (p. r 61) a nova Gestalt. Segundo Stevens ( 1977. p. 24):
para a compreensão do significado do verbete somente ó que se preserva que pode
possibilidade de a pessoa entregar-se à vivên- ·o .potencial humano é diminuído tanto
em questão quando diz: cia da perda daquilo que não lhe serve mais e crescer pela assimilação, e é somente
ordens apropriadas da sociedade, como pelo
preencher-se com o que já está se tornando. o que contínuamente assimila a no-
conflito interno". Essa diminuição decorre da
O contato é a consciência da diferença Somente com base na despedida advém a ex- vidade que pode se preservar e não sensação de cisão, de fragmentação de par-
(o "novo" ou o "diferente") na frontei- periência paradoxal da ampliação de recursos degenerar. Desse modo, os materiais e tes da personalidade. Essa mesma experiência
ra entre organismo e ambiente; é mar- 1-"''>>u•a,,, a que podemos chamar de vivência a energia do crescimento são: o esfor- propioa ao individuo a de recursos
cado pela energia (excitQfãO), mawr de plenitude do crescimento. ço conservatÍvó do organismo de per- para hdar com suas demandas e com as con-
presença ou atenção e "intencionali- O contrário da necessidade de vitória manecer como é; o ambiente novo; a dições para satisfazê-las, redundando no apri-
dade" que medeia aquilo que cruza é o "desprendimento criativo" Tentaremos destruição de equilíbrios parciais an- sionamento aos chamados "deveria-ismos·.
a fronteira e rejeita aquilo que niw é descrever posteriormente essa atitude pecu- teriores e a assimilação de algo novo. Podemos afirmar; então, que crescer é es-
assimilável. (Zinker, 2001, p. 97) liar do self espontâneo (Capítulo X da obra (PHG, 1997, p. 179) tar cada vez mais do seu próprio tamanho. As-

DICIONÁRIO DE GESTALT·TERAPIA D I Ció NÁRIO D E GES TAL T- TERAPIA


çf<ESCIMENTO
62

REFERÊNctAS BIBLIOGRÁFICAS
sim, "integrando os opostos, tornamo-nos a
ficRLS. F. S.; H8'1m.JN€, R.; G ~ . P. Ges1.alHerop,a.
pessoa completa de novo" (in Stevens, 1977,

d
São Paulo: Summus, 1997.
p. 26). Segundo a perspectiva relacional, o Sm-ENS, j. O. (org.). Isto é Gestalt. São Paulo: Summus.
conceito de crescimento passa pela noção de 1977.
ampliação de possibilidades existenciais e, pa-
radoxalmente, o ser humano só cresce con- VERBETES RELACIONADOS

servando-se de acordo com sua no Conf,guração. Coollíto, Contato. Exatação/exdtamento,


Frooteíra de contato, Gestalt. Organismo, Sei{
contexto de mundo e por meio das relações
das quais faz parte. Ficamos então com um le-

-
gado de um conceito que é fluido, contínuo, CURA (VER DOENÇA. SAÚDE E CURA)
e depende da ativação da criatividade nas es-
ra,:_emos. DAR-SE CONTA (VER mas de todos os termos
Luciana Loyola Madeira Soares CONSCIENTIZAÇÃO, DAR-SE CONTA, em
TOMADA DE CONSCIÊNCIA) Nesse contexto, com o auxílio da Gran:
de enciclopédia Lnrousse Cultural. resta
delineando uma de diagnóstico no
DEFLEXÃO (VER MECANISMOS
campo cultural mais amplo da abordagem
NEURÓTICOS)

Diagnóstico s.m. (Do gr. diagnosti-


DESSENSIBÍLIZAÇÃO (VER
kos, hábil em discriminar.) 1. A arte
MECANISMOS NEURÓTICOS)
de conhecer as doenças pelos seus si-
nais e sintomas. (Sín. DIAGNOSE.)
DIAGNÓSTICO
f encicl. J- 2. Identificação da 1U1tureza
de um problema, de uma dificuldade,
O termo "diagnóstico· não é explicita- de um mal etc., pela interpretação de
mente definido nas primeiras da seus indícios exteriores. - 3. Conjunto
na maioria delas, não é sequer de medidas e 1'1lmtroles realizado para
mencionado. Apesar disso, seu sentido determinar ou verificar as caracterís-
ser depreendido de noções desenvolvidas ticas técnicas de um sistema. a fim de
por Perls e seus contemporâneos ao longo de garantir a manutenção ou a melhoria
praticamente todos os capítulos de suas obras, das instalações [... J.
por exemplo "padrões de comportamento" e adj. Relativo ao diagnóstico.
"neuroses•, noções direta ou indiretarnente ENCICL. Med. O diagnóstico é o
associadas a tradicionais de tempo do ato médico que permi-
nóstico" em psicoterapia, ou "equilíbrio orga- te determinar a natureza da doença
nismo/meio" e "fluido processo de formação observada e classificá-la num quadro
e destruição de Gestalten", noções renovado- nosológiro. Distinguem-se o diagnós-

OICIONÀl\10 OE GESTAlT-TERAPIA
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1
li
65

tico clínico, estabelecido pela conversa dronízação. Se bem que diagnóstico a.través das relações que ele mantém rias clínicas da psicopatologia tradicional com
com o doente, seguida de exame físico seja um termo mais comum, tem a com seus sujeitos e objetos, com os ob- as diversas fases do processo de formação e
completo; o diagnóstico biológico, ba- desvantagem de provocar a analogia jetos-sujeitos e sujeitos-objetos de seu destruição de Gestalten (Burley, 1987).
seado nos resultados de análises labo- com o modelo médico e de sugerir dia-a-dia, com os eus, os tus, e os issos Aqui e agora. em concordância com a
ratoriais, exames radiográficos etc.; o que a finalidade do processo é chegar com os quais interage nos tempos e es- abordagem fechar o verbe-
diagnóstico diferencial, que compara a um rótulo específico. paços que segue percorre11do. (Barro- te "diagnóstico", abnndo-o: recriando, sempre,
os sintamas e sinais da moléstia em so, 1992, p. 55·6) sentidos.
estudo com os de outras afe<:fões seme- A Gestalt-terapia se adequa ao modelo
Fátima Barroso
lhantes, eliminadas por um processo do pensamento complexo, paradigma da Cabe acrescentar à definição anterior a
de dedução; e o diagnóstico etiológico, pós-modernidade, que enfatiza a distinção de pelo menos dois níveis de REFERÊ~IAS 81BLIOGRÁFICAS
que determina a causa da doença. dinâmica entre os fenômenos nósticq: BAARoso. F. "Diagnóstico em Ges1alt-terap,a• Cornunica-
substituindo simples definições isoladas pelo çáo proferida em Citlo d.? Debates do GT·Rio, Rio
de janeiro. 1995 (Manuscrito não publicado.)
Écom esse sentido.... que o termo ··d1agnós- de campos de. sentido e de [... ) diagnóstico_no sentido amplo, pro·
"0<»"5stidores de uma GestalHerapeuta: re-
tico" atravessa a área da psicoterapia ocidental transformando: cesso. contí11uo de construção ,~~junta ver;do a questáo diagnóstico erl! psicoterapia'.
em geral, reproduzindo o ponto de vista da local e globalmente, à medida que novos de conhecimento em campo, que não Revista de Gestalt, Paulo, n. 2, 1992.
medicina que separa a •doença" de pontos lhes são acrescentados.. É essa a se atém a categorias preestabelecidas e Bvru.,c, T A Pheflül11enoiog,col tfiecry of personol,ry. Pomo.
oo \l;ley Mentol Heafrh ú,mer. Trad. livre de Fát:ma
quem a vive, bem corno "exterior" de "inte- perspectiva da seguinte referência a diagnós- acompanha a singularidade do sujeito Barroso, 1987. (Manusmto náo publicado.)
rior". Tal ponto de vista é norteado pelo mo- tico na Revista de Gestalt, n. 2. do em relação, e diagnóstico 110 sentido F"3AN, J.; SHfl'h,an, L L teoria. técnica.; e
delo de pensamento simplificado, paradigma Instituto Sedes Sapíentíae: restrito, processo específico que, frente oplkações. Rio de Janeiro: 1980.

da modernidade, que perpassa os quatro úl- a sígní.ficativas evidências de perda de HlAZÃO, L ·o pensamento díagnóstí<:o em Gest.lt-tera-
pia' Revisto de GestaJt, São Paulo. n. 1, 1991
timos séculos da históna das produções oci- Saber, "gnosis "; através de, "dia~ vitalidade, estreitamento da existên-
YomE,. G. 'Gestalt therapy: c<in,cal phenomenology'
dentais, na qual se inscrevem. até hoje, todos Assim compreendo o diagnóstico em cia, ou adoecimento conforme con- The Ges!aitjoumol. Nova York. v, li. n. i, 1979.
os tipos de fragmentação e isolamento. Daí. psicoterapia. Um saber através da cebido no âmbito da Gestalt-terapia,
talvez. a incomum aplicação do termo "diag- historicidade, do tempo e espaço onde pode incluir a correlação com hipóte- VERBETES IU:1.ACIOHAOOS
nóstico" na literatura básica de G,st:dt-1ter.m1a individualidades se entrecruzam e ses clínicas descritas pela psiquiatria. Contato, Doença, saúde e cura, Gesta!Herapia
abordagem que propõe, desde seus primór- prosseguem se dando a conhecer. Ain- {Barroso, 1995)
dios, redefinições radicalmente crrtícas dessas da hoje me surpreendo a mais saber de
DIALÉTICA
formulações. Tal é textualmente meu cliente de dois, três anos, "através" Gestalt-terapeutas de diferentes proce-
confirmada na década de 1970, no livro Ges- da história que ele segue me contando, dências e áreas de interesse vêm atualizando Perls ( 1969) entende a vinculação do pen-
talt-terapia: teoria, técnicas e aplicações segue vivendo; através da história que suas próprias reflexões sobre diagnóstico por samento diferencial de Friedlãnder à perspecti-
gan, 1980, p. ! 24): segue se dando entre nós. Diagnosti- meio de teses de mestrado, de doutorado, va da dialética. Cuida, entretanto, de distinguir
car um ser humano no contexto da de estudos e publicações de natureza diversa, essa sua concepção de dialética de concep-
O terapeuta é, sobretudo, um obser- psicoterapia implica, pois, para mim, quer concebendo-o como aspecto de um pro- meramente especulativas e idealistas. re-
vador e construtor de padrões. Logo seguir acompanhando-o, renovando cesso mais amplo de contato, compreensão e metendo-se especificamente às concepções
que é informado de um sintama ou constantemente o dele saber. Significa reorganização de •diagnóstico pro- da dialética de Marx e Engels:
de um pedido de mudança e começa prosseguir (re)conhecendo·o ao longo cessual" (Frazão, 1991, p. 43). quer apliran-
escutando e observando um pacien· de sua existência, através das relações do-o como descrição e acompanhamento das Minha intenção é traçar uma distinção
te, e respondendo-lhe, inicia-se um que ele estabelece com e em seu mun- Gestalten produzidas no processo terapêutico clara entre a dialética como um am-
processo a que me referirei como pa- do. Através de swi relação comigo, (Yontef. 1979), quer correlacionando catego- ceiw fiwsófico e a utilidade de certas

DICIONÁRIO DE GESTAl T-TERAPIA DlClONÁRIO Df GESTALT-Tfl\APIA


66
1
f.
67

regras como as enamtnutas e aplicadas dialética da realidade. ligadas à totalidade dara- O factual, como expressão da t01alidade, ao lactual e a suas relações superficiais e estáti-
na filosofia de Hegel e Marx. Estas re- zão. como espírito universal. A versão hegelia- não é estático, está em movimento e, em si, cas, e na medida em que se interessa pelo que
gras coincidem apmxímadamente com na da dialética foi. por seu turno. reinterpretada contém o germe de sua negação e superação. está para além do factual, na totalidade crítica
o que nós poderíamos chamar "pensa- por Karl Marx ( l 818--1883), que manteve o De modo que é, intrínseca e contraditoriamen- de seus processos de emergência e de mudan-
mento diferencial''. Pessoalmente, sou método, mas se afastou do idealismo da fun- te, pela emergência do novo que as- ça, admitindo e entendendo a contradição. a
da opinião de que em muitos casos este damentação hegeliana. Edefiniu as bases h,st6- sim enseja, oriundo este das dinâmicas emer-
método é um meic apropriado para ricas (materialistas) de sua dialética, as bases de gentes das possibilidades ainda não factJais da do movimento da realidade - e não como ano-
atingir uma nova compreensiw cienti- seu materialismo histórico, fundadas essas na totalidade, que a dialética visa considerar e dar malias, como os interpreta a lógica formal.
fica, levando a resultados em que ou- realidade histórica. da estrutura e da dinâmica conta. epístemo!ógíca e praxíca'l1ente. O novo Karl Marx foi estudante de He-
tros métodos íntelectuo.ís, por exemplo históricas da sociedade. e das sociedades parti- é a verdade do velho na medida em que o que Contudo, ainda que mantivesse a meto-
o pensamento em termos de cuusa e culares. Em específlco. das relações e "conflitos existe, factual e traz, intrinseca- dologia dialética hegeliana, afastou-se de sua
efeito, fracassaram. (Petis, 2002, p. 45) de dasses". Marx desenvowe. de acordo com mente em si. os germes de sua própria nega- perspectiva idealista. Entendeu e constituiu,
a dialética de seu materialismo histórico, urna e superação, como expressão das possibi- em seus estudos da sociedade capitalista. a
· A diaíétíca é uma perspectiva, e metodo- análise crítica do modo de do capital lidades não da totalidade de que se sociedade histórica como a totalida-
logia epistemológica e práxica, da filosofia e da e da sociedade cap~alista. constrtui. ·Todo fato é mais que um mero fato; de dialética. Para ele, não era a consciência
cíém:ia. Remonta a Sócrates (470-399 a.C.} e Caracteristicamente, a perspectiva dialéti- ele é a negação e a restrição de possibilidades dos homens que determinava sua existência,
a Platão (428--348 a.C.). Na filosofia clássica ca entende a realidade com base na perspec- reais" {Marcuse, l 978, p. 259). mas sua existência social que determinava
dos gregos ántígos, a dialética significou o in- tiva da totalidade dç, real, que envolve o em- Para a dialética. portanto, a realida- sua consciência.
terc.âmbio de idéias de proposições pírico e o não empírico que, ainda que não de factual. os fatos são negativos. E. como Para o homem que pensa dialeticamente.
e rontraproposições (antíteses), que gerariam empírico, é concreto em suas possibilidades. tais, sofrem a negação da negação. Negam é Imanente pensar-se a si próprio e pensar as
sínteses das proposições contraditórias -. em E entende a realidade empírica como nega- a totalidade concrescente do real, de onde ,nt,"Ur:>rr,p,;: sooais a que pertence, em suas

busca do convencimento lógico. por meio do tiva das possibilidades de suas determinações emergem. e à qual umbi!icalmente se ligam. rr,,~rli,•r.,•c históricas e sociais particulares. Ou

diálogo. Ao lado da gramática e da retórica. não emplncas. A realidade factual e empírica ao mesmo tempo que são pensar-se histórica e existencialmente.
a dialética figurou nesse contexto corno uma é contraditoriamente negada, continuamen- processos de emergência factual das novas Seu pensar é eminentemente crítico, na
das três artes liberais originais. No método te, por sua vez. numa negação da negação, dinâmicas da totalidade, que se constrtuem medida em que, potente. ativo e criativo,
socrâtíco. a dialética se na proposta por suas e não como novos fatos. reais. como pensar efetivo, efetiva de
de uma hipótese, que. dadas outras possibili- empíricas, das quais continuamente emerge. estes (da totalidade possibilidades, em reflexão e teoria, é negati-
dades, leva a uma contradição e ao abandono como negação, dinamicamente processual e concrescente do real). E. por sua vez, como vo da factualidade constituída. Histórica e exis-
da em questão, no sentido de uma contraditória. A totalidade, a processualidade. expressão da totalidade. portadores do ger- tencialmente determinado em suas possibili-
perspectiva mais verdadeira. Tradicionalmen- a contradição, a negação e a da ne- me e da dinâmica de sua própria negação, dades. seu pensar é contraditório e negativo
te. o método dialético sempre esteve ligado são, assim. categorias fundamentais da em um processo perenemente potente de com relação à factualidade empírica de suas
à discussão racional. visando à de perspectiva e do pensar dialéticos. A realidade da rc>1"fa·fl"·~dadas. Pensa por contradição, por-
desentendimentos. Na Idade Média (500- lactual e empírica se constrtui e deriva das di- As categorias, assim, de totalidade, de pro- que expressa, nas possibilidades de sua exis-
ISOO), a dialética e a retórica estavam estrei- nâmicas de uma totalidade mais ampla. abran- cesso, de contradição. de e de nega- tência e em sua reflexão, a contraditoriedade
tamente ligadas às artes da persuasão. gente e absoluta, de modo que, para a pers- ao e a negatividade, históricas e exísteooaís, no
A dialética foi reinterpretada por Hegel pectiva dialética, o que existe empíricamente. pensar e ao método dialéticos, perfazem uma que concerne à realidade f.ática de suas condi-
( 1770-183 1), que constituiu uma versão idea- de e como fato, pertence, e dinamicamente lógica dialética. lógica esta que supera a pers- ções, negatividade determinada pelas possibi-
lista de uma dialética da natureza e de urna dia- expressa, a totalidade mais ampla e dinâmica, pectiva da metafisica e da lógica formal, uma lidades históricas e existenciais nela inerente-
lética da História, constíluintes ambas de urna que não é empiricamente factual. vez que entende que a realidade não se limita mente contidas. Pensa assim, contraditória e

DICJONÀRIO DE GESTALT,H.RAPIA DiCIQNÁRIO DE GESTALT,HRAPIA


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69

negativamente. de acordo com sua situação e terapia nos Estados Unidos, já com o concurso Desde seu inicio, a Gestalt-terapin Ele tinha consciência de que a ênfase
suas hístóric.as particulares. íneren- de Paul Goodrnan, que enfatizam o vínculo in- enfatizou o tratamento usanda a pre- tecnocrática da sociedade moderna
temente impregnadas por seus processos de dissociável entre a realidade existencial da pes- sença ativa do terapeuta como seu provoca um distanciamento maior
negação e de superação. soa e suas determinações histórico-sociais. instrumento principal [... J Embora entre as pessoas. [... ] A ênfase exces-
O pensar dialeticamente negativo é fadado a línguagem usada nos primórdios siva no individual cria uma separação
a se negar. a se superar. em uma práxis existen- Esses opostos apresentam, em seu da literatura da Gestalt-terapia tenha não somente entre as pessoas e em
cial e histórica. O critério de verdade do pen- contexto especifico, uma grande afi- sido diferente da deste trabalho, e im- nosso relacionamento com a natureza,
sar; do conhecer e do conhecimento, da teo- nidade entre si. Permanecendo aten- precisa, ela era uma forma pioneira de
mas também dentro de nossa própria
ria, dialéticos, configura-se, tos no centro, podemos adquirir uma terapia por diálogo. As vezes isto era
psique. A perspectiva dialógica é um
na com relação ao mero pensar habilidade criativa para ver ambos os abordado sem referência direta à pa-
esforço para sanar essas rupturas. ( in
teorizante - de uma práxis histórica e existen- lados de uma ocorrência e completat lavra "diálogo·: [... ] Existia uma falta
Hycner, l 988, p. 23)
eia!. Práxis existencial como uma metade incompleta. Evitando uma de elaboração teórica, como ocorria
tal, não se confunde com a prática empirista e perspectiva unílateral, obtemos uma ~ · diverros conceitos da Gestalt-te-
Foi o psicólogo americanó Richard Hyc-
pragmatista vulgares, uma vez. que, necessaria- compreensão muito mais profunda da rapia. Na prática, a Gestalt-terapía
ner quem estruturou os nn,,.-1,w-..s diétló,1ícc,s
mente, incluí a crítica, a e a superação estrutura e da função do organismo. mostrou a presença do terapeuta, que
desenvolvidos por Buber em uma forma de
das limitações do factual, e a introdução na rea- (Perls, 2002, p. 45-6) i o início do tratamerzto por diálogo.
Com freqüência, faltava a esta presen- a dialógica cuja pro-
lidade, no processo de sua superação, da atua-
Afonso Henrique lisboa da Fonseca posta é desenvolver uma postura relacional
crítica de possibilidades. ça a diretriz de uma explicafiio teórica
clara. (ín Yontef, 1993, p. 235) das polaridades Eu-Tu e Eu-Isso no processo
A dialética envolve, portanto. uma postu- REfERÊNctAS BIBLIOGRÁFICAS
terapêutico. É a busca pela mutualidade de
ra e uma concepção na realidade, um modo Got0MM1N, L Critica e dúglnatismo no socíed<Jde moder-
de pensar por contradição, que são em si
f'K!. Rio de Janeím: Paz e Terra, 1973. A filosofia dialógica de Buber propõe urna contato que possibilita o processo de cura: ·o
MAA<_·us,, H. Razoo e revoluçá<.t Rio de Janeiro: Paz e Ter· postura relacional no inter-humano, uma on- dialógico não se limita ao dos homens
da própria contraditoriedade e ra. 1978.
tologia da relação. uma filosofia do encontro entre si; ele é é assim que demonstrou para
negatividade da dinâmica do real. E uma prá- MAAX, K O capíwi livro 1. São Paulo: Civilização Brasí·
leira, 1989. Eu-Tu: "Sua proposta de se compreender a rea- nós - um comportamento dos homens um-
xis que define a possibilidade do verdadeiro
Peru.s, F. S. (1969). E!;'J, f=eagressiio. São Paulo: Sum- lidade humana através do prisma do 'dialógíco' para-com-o-outro, que é apenas representa-
deste pensar: e se supera. eia própria. na ne-
mus. 2002. é um exemplo do IIÍncu!o entre a experiência do em seu tráfego· (Buber, 1974, p. 40).
gatividade do pensamento e do processo de
vívida e a reflexão, entre o pensamento e a dialôgica é uma forma de psico-
produção de conhecimento díalétícos, que
\11:RBETES RElACIONADOS ação" ~n Zuben, 2003, p. 146). terapia baseada no encontro do terapeuta e
contêm em si o germe práxico de sua nega- Gestalt-terapia. Indiferença criativa. pensamento diferen- Segundo Buber {1974, p. 88), o dialógico seu cliente. O ponto central dessa aborcla2,~m
ção e cial, ponto zero
inclui a relação e a atitude de ir na do é colocar o encontro como tema central da
Em sua perspectiva alternativa, que transita
outro, em busca do encontro da totalidade da psicoterapia. Uma abordagem dialógica estará
pelo "pensamento diferenciar de Friedíãnder.
DIALÓGICO existência humana: "Quando. seguindo nosso sempre comprometida com o encontro ver-
Perls ( 1947) busca sair da mera perspectiva da
caminho, encontramos um homem que, se- dadeiro do terapeuta com o cliente;
metafiska e da perspectiva de uma ciência de O termo "díalógico· refere-se à atitude rela-
guindo o seu caminho, vem ao nosso encon-
causalidade unidireciooal, ou posítivista, flliando- cional do ser humano e surgiu com Martin Bu-
tro, temos conhecimento somente de nossa Antes de tudo, em uma abordagem
se à perspectiva de uma epistemologia dialética, ber; o filósofo do diálogo. Em 1923, publicou o
parte do caminho, e não da sua, pois esta nós dialógica genuína, o terapeuta é visto
mencionando especificamente a dralétka mar- livro Eu e Tu na de pensar e compre- vivenàamos somente no encontro•. como "alguém que está a serviço do
xiana, como compatível com a concepção de ender a naturez.a relacional da existência huma-
O pensamento de Buber norteia a dimen- dialógíco". Isso significa, no seu senti-
Friedíãnder. Isso certamente ajuda a esclarecer na como um processo que acontece na esfera são dos problemas filosóficos das do do mais profundo, que a individuali-
certos movimentos da da Gestalt- do entre e das atitudes Eu-Tu e Eu-Isso. século XX: dade do terapeuta rende-se (pelo me-

DIC<ONÁR10 DE GESTALT·TERAPIA
DICIONÁRIO OE GESTALT·TERAPIA
DW.ôGICO 70 71

nos momentaneamente) ao serviço do YONm. G. Processe. d,álago e aw<Jfeness. São Paulo: Sum- ca com seu self em formação, não inibe criativos' (PHG. 1997, p. 45), acrescentando
mus, !993. seu próprw excitamento criativo e sua
ªentre". (in Hycner, 1988, p. 55-6} que resulta em assimilação e crescimento,
Z'-"'<N. N. A. Morón 8uber - cumplicidade e didlogo. São
busca da solução vindoura; e, inversa- E definem psicologia anormal como "o
Paulo: Edusc, 2003
A existência humana é relacional, e, par- mente, se ele ali.ena o que não é orga- estudo da interrupção. inibição ou outros aci-
tindo desse princípio. é de fundamental im- VERBETES RELACIONADOS. nicamente seu e portanto não pode ser dentes no decorrer do criativo"
portância que a postura do terapeuta A ~ . Contato. Cura, Eu-tu e Eu-isso, Gestalt-tera· vitalmente interessante, pois dílacera a (PHG, 1997, p. 45).
também relacional. Não há possibilidade de pia, Teona paradoxal da mudança/mudança figumlfu.ndo, nesse caso ele é psicologi- A maneira de conceber normal e anormal
encontro dialógico sem que haja uma
camente sadio, porque está exercendo foi influenciada idéias de Kurt Goldstein,
diatógk:a por parte do terapeuta. Em Gestalt- sua capacidade superior, efará o melhor neuropsiquiatra, com quem Perls trabalhou
DOENÇA, SAÚDE E CURA que puder nas circunstâncias difíceis do
terapia, o modelo díalógico traduz-se em uma tão logo se formou em rnedicir.a. Goldstein
postura relacional. sustentada na esperança de 1950corno mundo. Cantudc, ao contrário, se ele se vê a doença como "um distúrbio no proces-
atingir. por meio do encontro a parte do Movimento para o Desenvolvimen- aliena e, d~ido a identificações falsas, so vital do homem "'"'w•ct•.,du organís-
to Humano (Human Growth Movement) e, tenta subjugar sua própria espontanei- diante de uma que o coloca
completude do Eu:
como tal. mostra-se mais com as dade, toma sua vida insípida. amfusa e em risco" (lima, 2005. p. 59). Urna vez que
dolorosa. (PHG, 1997, p. 49)
, Â relação dialógica também é um mo- ""questões relativas ao crescimento e desenvolvi- do
, delo para o tipo tle relaçãq terapêutí· mento da pessoa em sua totalidade do que em processo de crescimento estão a serviço da
definir e saúde. Essa idéia fica mais clara acrescida do que sobrevivência eles podem ser pen-
ca que é consiste~te com a teoria da
mudança da Gestalt. Um terapeuta Já no subtítulo da primeira da se encontra algumas antes. no mesmo sados, em sua como funcionais e
que atue a partir de uma orientação abordagem, escrita por PHG, podemos íden· capítulo. Ao, discutirem a "Estrutura do cresci- saudáveis 1997).
dialógica estabelecerá um diálogo tificar essa preocupação quanto a crescimento:
mento•. PHG definem, dedutivamente, "psi· É também de Goldste1n a concepção de
cologia· e "psicologia anormal". como uma totalidade. com base no
centrado no presente, nllo critico, que "Gestalt therapy: excitement and Growth in the
Partem da idéia de que todo contato é que Perls esboça uma de saúde em
permita ao paciente tanto intensificar human perwnalit( [Gestalt-terapia: estimula-
criativo e dinâmico na medida em que, in- seu livro [.,p<;tnlic.tP,rm,in e;<J)lk:oo::;: "Saúde é o
a awareness como obter contato com ção e crescimento na personalidade humana]
outra pessoa. [...] Na Gestalt-tera- trínseco ao processo de contato. ocorre as- equilíbrio da de tudo
{PHG. 1997).
similação do novo, que constitui o nutritivo. ( 1977, p. 20). enfatizan.
pia, a awareness é empregada para Neste livro, considerado o mais impor-
Não se trata de simples ou ajus- do que saúde não é algo que temos, e sim
restaurar a awareness, e essa restau- tante da abordagem, não encontramos, no
tamento, e sim de assimilação, que ocorre que somos e se manifesta em nossa totalidade
ração pode ser facilitada pela criação índice remissivos. os verbetes Saúde. Doen-
pelo criativo organismo/meio, existencial. Dessa forma, os assim chamados
de um contexto dialógú:o. (in Hycner; ça e Cura, embora encontremos os verbe·
dando-se o ajustamento criativo por inter- "distúrbios mentais" não envolvem apenas adi-
Jacobs, 1997, p. 93) tes Neurose, Conflito. Sintoma.
médio do mensão mental, mas a pessoa em sua totalidade,
inacabada. Sofrimento, e Psicologia
Os autores então concluem que "cresci- na medida em que interferem com o processo
Teresa Oistina Gomes Waismarck Amorim anormal. No entanto, ao ralarem de se/f, no
mento é a função da fronteira de contato no de formação e de Gestalten. o que
Capítulo 1, dizem que a questão de saúde e
campo organismo/meio; é através de ajusta- resulta em distorções e desequiiíbrios em nossa
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS doenças psicológicas
mento criativo, mudança e crescimento que intP<1r::1riir>básica (Latner; 1973, p. 83). "Sãodi:;..
BueEF<. M. Do diálogo e dó dialógíca. ~ Paulo: Perspec ·
tiva, 1982. as un~ades continuam túrbios de funcionamento e crescimento do sei('
É uma questiio das identifo:atões e alie-
_ _.&,e tu. 5.'lô Paulo: Ceotrum, 1974. a viver na unidade mais ampla do campo" (Latner; 1973, p. 83).Assim. saúde e doença em
1--lYcNEl\, R De pessoa a pessoa. São Paulo: Summus, nações do self: se um homem se identifi- (PHG. 1997, p. 45). Gestalt-terapia são concebidos não como "es-
1988. tados", mas como "processos" que favore<:em
HYcNER, R; j,,cO!lS, L. Relação e cura em GestalHetapia.
São Paulo: Summus, 1997. ' Este lodice nâo existe na ediçiio em porlugvês. psicologia como "o estudo dos ajustamentos ou dificultam o desenvolvimento da pessoa. não

DICIONÁRiO DE GESTALT-TERAPIA DICIONÁRIO D~ GESTALT-TfRAPIA


72
73 DOMINADOR (UNDEPiX>G) 1/Dlsus.

se restringindo a noção de desenvolvimento :it1<:r,rr,~r, completa e satisfatória daquilo rar dele análises ou definições rigorosas em deliberadamente modificar a nós mes-
em GestalMerapia a iases específicas, e sim a com que estamos em contato. suas falas. mos ou aos outros. Este é um ponto
um processo de crescimento e transformação No último capítulo de EFA ( 1947), inti- decisivo: muitas pessoas dedicam suas
constante que ocorre ao longo de toda a vida Saúde é a capacidade de lidar satisfu.toria· tulado "Dr. Jekyll e Mr. Hyde", há uma re- vidas a realizar sua concepção do que
da pessoa. mente com qualquer situação com a qual de- ferência ao conceito de "dominador versus elas devem ser, em vez de realizarem a
"Saúde" e "doença·. ou "funcionamento paremos, e satisfatória é a resolução que está dominado": sí mesmas.
saudável" e "não saudável". são pensados dia- de acordo com a dialética da fonmação e des-
leticamente, uma vez que um mesmo com- truição de Gestalten (latner. 1973. p. 43). Os pais [...] cometem o erro funda- Outras referênoas aparecem em Isto é
portamento pode ser saudável ou não, de- mental de lutar pela perfeição em vez
lfan Meyer Frario Gesta/t, no qual Perls (ín Stevens, 1977, p.
pendendo de ·a serviço do ele está. de lutar pelo desenvolvimento. Com 24-6) coloca:
Latner ( 1973) menciona alguns aspectos REFERÊNOAS BIBLIOGRÁFICAS
sua atitude idealista, ambiciosa, con-
indicadores de funcionamento saudável: fAAzÃD. l. M. "Funcionamento saudávt!l e ;;ão saudàvel
el'\quanto fenômenos interativos•. Revista do líl En-
seguem o oposto às suas intençoes; de- Dominador e dominado são na ver-
contro Goiano de Gestalt-terapia, Goiânia. v, 3. n. 3, têm o desenvolvimento... dade dois palhaços representando sua
• comportamento inti'<'r,100 p, 64-71, 1997, Há um livro famoso que mostra [... ] sina e papéis inúteis no palco do self
• possibilidade de satis· lATNER, J. The Gestalt t;he,:apy book. Nova York Julian. os resultados catastróficos do idea-
1973. tolerante e mudo. Integração e cura só
fatória de Gestalten: lismo, se você compreendé-1.o corre-
UMA, PV A. Psicoteropió e mudança- uma ref',exão. 2005. podem ser conseguidas quando a: ne- ·
• autenticidade e Psrmrm1r1P1<1ar1P (não se tamente; a história de Dr. Jekyll e de
Tese (Doutorado) lnstiMo de Comunicação. Uni- cessidade de controle entre dominador
trata simplesmente de fazer o que quere- versidade Federai do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Mr. Hyde. O Dr. fekyll representa um
janeiro. e dominado cessa. [... ] Externamen-
mos, e sim de estarmos centrados em ideat não um ser humano. (... J O ser
Perus. F S. GestolHempio explicado. São Paulo: Surnmus. te, dominador e dominado batalham
contato pleno conosco e com o meio); humano foi diferenciado nos opostos
1977. também pelo controle. Marido e mu-
• conhecimento de nossas necessidades que R:ru.s. S,; HEffERLINE, R.: GoooM;,,.., P. Gesr.o/Hempia. «anjo" e "'demônio~ o primeiro lou- lher, terapeuta e paciente, empregador
estão imersas em nossa existência no aqui São Paulo: Summus, 1997. vado e bem-vindo, o outro detestado e empregado desempenham papéis de
e agora, para o que se fazem necessários o _ _ _, Gestalt lherapy: exatement and grawtfi ín lhe e repelido; mas o primeiro pode existir
lhe human petsimoety. Nova York Deli, 195 l . mútua manipulação.
conhecimento e a aceitação do que somos: sem o outro tanto quanto a luz sem a A filcsofia básica da Gestalt-terapía é a
ao processo; sua sombra. (Perls, 2002, p. 375)
VERBETES RELACIONADOS da natureza: diferenciação e integração.
• auto-suporte;
Ajustamerrt:o criativo, Aqui e agora, Assimilação, Auto- Só a diferendação leva a polaridades.
• integração: que implica não apenas co- apoio. Auto-regula,'io organísmica, Al'tlreness. Campo, Em Gestalt-teropia explicada, Perls ( 1977, Como dualidades, estas polnridades
nhecimento e de nossos de- Contato, Crescimento. Espontaneidade, Excitação/exci-
p. 35-7) retoma o tema afirmando que: facilmente lutarão e se paralisarão. In-
tamento, Figura e fundo. Fronteira de contato, Funciona-
necessídades, comportamentos e mento saudável. Gestalt-terapía, Mudança. Organismo, tegrando os opostos, tornamos a pessoa
habilidades, mas também nos sabermos Seif, lotalidade se quisermos ficar no centro do nosso completa de novo.
parte do campo. "Na saúde estamos em mundo [... ) realmente no nosso cen-
contato conosco e com a realidade" (Peris. tro, seremos ambidestros - veremos os
DOMINADOR (UNDERDOG) VERSUS Em diversas falas, Perls insiste em colocar
1969. p. 241); dois pólos de todo evento. [... ] O con-
DOMINADO (TOPDOG} no centro da temática humana a dualidade.
• awareness; de apreender o flito interno, a luta entre dominador a luta de forças ditas opostas e tão bem re-
mundo fenomênico, como ocorre no Sendo a linguagem de Perls fenomeno- e dominado nunca é completa, pois presentadas na expressão •dominador versus
momento presente. com o escopo total lógica, ele busca a descrição dos fenômenos dominado e dominador lutam por dominado". ligando-a à busca perfeccionista.
de nossos sentidos; por imagens. metáforas. jogos de palavras, suas vidas. [... J Poderemos levar esses "Que isto fique para o homem! tent.ar ser
• contato de boa qualidade: engajamento gírias, para se aproxímar dos fenômenos e dois palhaços brigiies à reconciliação; algo que não o é - ter ideais que não são
pleno no processo de forma que propicie descrevê-los. fato que nos ajuda a não espe- então perceberemos que não podemos atingíveis. ter a praga do perfeccionismo para

OIClONÁl\10 DE GESTALT,TERAP!A
DICIONÁRIO DE GESTAlT,TERAPIA
74 75 DOMINÂNCIAS (ESPON'TmEA NÃO ESPONTÂNEA.)

estar livre de crrt:kas. é abrir a senda infinita da dade de Brandeis, Massachusetts, no perfodo Goldstein diferencia figuras naturais {ne· avaliação da obra de PHG ( 1997, p. 83-4),
tortura mental· (Perls, ! 979. p. 20). em que Maslow exercia o cargo diretor do De- cessídades que emergem como figuras, ten- no qual os autores definem o conceito de do-
Ao enfatizar o sentido amplo da dualida- partamento de Psicologia ( 19 51 l 960f. do como fundo do qual emergem o processo minância da seguinte forma:
de humana para o conceito de "dominador Em The organism [O organismo) (de 1934, de auto-atualização da totalidade do organis-
versus dominado", pretendo reanimar o que publicado em 1939 nos EUA), Goldstein amplia mo) de não naturais - produzidas por Chilmemos a tendência de uma forte
acredito ser a expressão maís ingênua de o campo de aplicação de conceitos da psicologia oo•;icêies externas. eventos traumáticos e tensão a sobressair-se proeminente~
Perls: uma metáforafacílítadora da compreen- da Gestalt (como "diferenciação figura-fundo", repetições que se tomaram automatizadas. mente e a organizar a awareness e o
são das muitas dualidades experimentadas "configuração", figuras") para a Para ele, uma figura é natural se o compor- comportamento de dominância [... ].
por nós, seres humanos. Os fortes e os fra- compreensão do funcionamento do organismo tamento que elida é ordenado, flexível e Cada sítuaçao inacabada mais pre-
cos compreendidos em suas contradições e como um todo. ··o fundo é determinado mente assume a dominância e mobi-
como expressão de um contínuo a ser resga- tarefa que o organismo tem de realizar a cada autêntica. se representa uma necessidade liza todo o esforço disponível até que a
tado e integrado. momento, isto é. pela situação em que o or- imposta e resulta em comportamento rígido tarefa seja completada.
ganismo se encontra e pelas demandas com as e mecânico.
Abel Guedes
quais tem de lidar" (Goldstein, 1939, p. 111-2, Podemos claramente reconhecer, nessas Assim, na teoria da Gestalt- terapia,
REFERi;NCIAS BIBLIOGRÁFICAS apud Hall; Lindzey, !978, p. 251 ). K.e1lu,Kc>es. a fundamentação do conceito
f'Esi.s. F, S. (! 947). Ego. fome e agressáo. Sâo Paulo: SiJrn· Para ele, todo organismo tem um só obje- de "dominância" na Gestalt-terapia. Aliás, no processos requerem recursos do meío
mi.IS, 2002. tivo: auto-atualização. prefácio à edição de 1969 do livro EFA (2002). para sua realização, estas figuras des-
Esa,rafur,diondo Fritz: dentro e fora do lota de
Perls cita os conceitos de ·n,m,11«nn.rr,m,~- pontam na consciência mobilizando as
Summus, 1979.
Gestait-cerap!ó explicado. São Paulo: Summus,
O que parecem ser diferentes impulsos um-todo" e "dominância da necessidade mais de contato do organismo, que
tais como fome, sexo, poder, realiza- emergente" como idéias que foram pilares às são o ítistrumental o individuo é visto
Srt\'ENS, J. O (org.). Isto é Gestolt. São Paulo: SumrnüS, ção, curiosidade são meras manifes- desenvolvidas nesse livro, que marca, segun- como um sistema aberto, em constan-
1977. tações do propósito soberano da vída: do o próprio autor, sua transição da psicanálise te relação de troca com seu ambiente.
auto-atualização. Quando as pessoas ortodoxa à abordagem gestáltica. Desejos e necessidades da pessoa as-
VERBETES RELAQONADOS
estao famintas, elas se autv-atualizam Deforma na Gestalt-terapia, sumem dominâncias [... ] que, quan-
Conflito, Doença. saúde e cura, Polaridades, opostos,
torças opostas. Sei( comendo; quando anseiam por poder; do não equilibradas pelas funções
auto-atualizam-se obtendo poder. A a dinâmica das transações organismo/ autônomas do organismo, tornam-se
satisfação de uma necessidade par- meio édescrita como um processo con- figuras de awareness, isto é, gestalts
DOMINÂNCIAS (ESPONTÂNEA, NÃO ticular torna-se figura quando é pré- tínuo de surgimento de «figuras" mo· que mobilizarão a energia do orga-
ESPONTÂNEA E NEURÓTICA) requisito para a auto-atualização do tivadonais que mobilizam o organis- nismo para sua completude. Quando
.A.pesar de o termo 'dominância" rerneter- organismo como um todo. (Hall; Lin- mo como um todo em sua percepção, estes que o indivíduo dispõe para ir ao
nos à concepção de hierarquia de necessidades dzey, 1978, p. 249-50) orientação e ação. O que surge como enco11tro, sentir, avaliar e selecionar o
de Abraham Maslow ( 1954, 1968). o ponto de figura é aquilo que o organismo neces- que se encontra à sua volta. (Ciornai,
partida para a compreensão desse conceito na sita em dado momento para satisfazer 1991, p. 30-9)
6 Sobre M.aslow. todas as
realidade é a teoria organísmica de Kurt Gotd- ramente Goldstein como original do conceito de
a necessidade mais premente, e, assim,
(ou "auló·realízação") e também da restabelecer seu estado de equilíbrio.
stein. neuropsiquiatra alemão que influenciou perspectrva de necessidades, pois Goldstein
fortemente o pensamento de Perls e. após imi- postviava que, para entende:< o modo como a natureza e (Tellegen,1984,p.48) sabedoria intrínseca do organismo sobre
o s ~ funcionam, tlá de se uma escala
grar para os Estados Unidos, exerceu influên- suas necessidades e evidenciam uma hierar-
ascendente que val do inferior ao superior
cia determinante também no pensamento de ( mais complexo). Maslow, no entanto, e se dife~ Essas idéias desdobram-se de fonna mais quia de necessidades. Nas palavras de Per!s
renaa de Goldstein .ao desdobrar essa perspectiva pata o
Maslow, com quem teve contato na Uníversi- estudo de :pessoo.s saudáveis. criat,j,..,as e auto-realizadrn"as, explicita no capítulo 'Realidade, emergência e ( 1977. p. 33-4):

DICIONÁRIO DE Gl'STALT-TERAPlA DICIONÁRIO DE G E STAL T- TERAPIA


76
77

A situação mais urgente emerge, e[ ... ] sultarem de avaliações arcaicas da situação, Esses são dilemas com os quais ainda nos _ _ . Towards a psychology of be,ng, Pnrn:eton: Van
você percebe que ela prevalece sobre ou seja. experiências inacabadas do passado debatemos. pois se situam na passagem de Nostrand, 1968,
qualquer outra atividade. Se de repen- transportadas inconscientemente para a situa- um paradigma individualista a um paradigma PERLs, E S. fg;,. fome e agressão. São Pawlo: Surnmus
2002. '
te este lugar pegasse fogo, o fogo seria presente. de campo. A Gestalt-terapia. que postula des-
_ _ . Gestolt-terapía explicado. São Paulo: Summus
mais importante que a nossa conversa.. Defendendo a possibilidade de deixar o de seu inicio o trabalho com polaridades, pro- 1977. '
Se você ame e foge do fogo e de repen- organismo "tomar conta de si mesmo· sem vavelmente tem aí um de seus desafios. E S.; H,mF«NE. H,; Gooo,w.,, P. Gestalt ,terapia.
l'Efit5,
te fica mn respirafâo, seu suprimento interferência externa e de confiar na sabedoria São Paulo: Surnmus, 1997
Selrna Cioma,
de oxigênio torna-se mais importante intrínseca do organismo, de confiar no efeito TflLEGOI, TA C..estalr e grupos: uma perspectiva SISl.êmico.
São Pauh Summus. 1984,
que o fogo. Você pára e respira, porque a.irativo que o trabalho de aworeness pode ter REFERÊNOAS BIBLIOGRÁFICAS
V1NACOUA, C. A ·Nuevos aportes ai enfoque gestál!ico:
isso agora é a coisa mais imporninte. no reconhecimento das dominâncias espon- CIOIWAI, S. *Em qoe acra:li'.amos?". Gestolt 1eropio jornal,
su insercíón en el presente y su proye<:c,ón futu-
Curitiba, l. p. 30-9, 1991. Apresentado no li Encon-
tâneas e no processamento das dominânáas ra". Apresentado no Ili Congresso Internacional de
tro Nacional de Gestitt-terapia, Caxambu, 1989.
Buenos Aires, 1995, Disponfvel err,:
Inspirando-se no vocabulário e modelo neuróticas, PHG não deixaram de reconhecer Disponível em: <http://www.gestal!sp,com.br/>. < htt~i://wv,,w.gestaltsr>.com
da psicologia da Gestalt, PHG escrevem que a necessidade de inibição everrtual de domi- Goi.DSTE<N, K. The orgar,ism. N011a York· Ametican Baok,
1939.
o que surge como dominâncias r,crVV>-·'"' nâncias espontâneas no convlvio social. Apon- VERBETES RELACIONADOS
HAu, C S.: G. Theories o( perwooUiy. 3. ed.
UNDZ!IY,
formará figuras pregnantes, isto é, vívidas. for- tam que ordenada de domi- Nova York: John Wiley & Sons, 1978. Awareness, Configuração, Figura e fundo. Gestaltismo,
tes e energizadas, com bnlho e nitidez. nâncias é capital para a definição de uma ética e Gestalt,terap,a, de necessidades, Organismo,
MAStOW, A Motiva!ion ond petsonality. 2. ed. Nova York: Polaridades, Situação Teoria organísrní<:a
Dominâncias em contra- urna política social {PHG, 1997, p. 87) e suge- Harper, 1970,
partida, serão aquelas rem também que das dominâncias que emer-
pela própria pessoa ou pelo meio). Envolve- gem no processo de surgem
rão obviamente menor motivação e tenderão hierarquias de valores, mencionando doenças.
a ser figuras confusas. e sem necessidade de amor, de auto-estima, de inde-
brilho, pois implicarão "devotamento de cer- pendência, do isolamento e da solidão
ta quantidade de energia, e o desvio de certa etc. como exemplos de dominâncias que ocu-
quantidade de atenção, para a repressão do pam lugares importantes nessas hierarquias.
self espontâneo que está buscando expressão No entanto, relendo esses textos, pode-
na auto-regulação" (Perls, J 977, p. 84). Isso mos perceber como os autores ora tendem
ocorre mesmo quando a dominância é inibi- a uma compreensão do humano baseada no
da sensatamente, em prol dos interesses da modelo mais biológico de Goldst:ein (no qual
exemplo, ao se que uma dominâncias emergem dos desejos e neces-
corra à frente de automóveis quando sidades de um organismo individual). ora a
o sinal está aberto). Porém. freqüentemente uma compreensão síst:êmica, em que domi-
nâncias podem ser emergentes do campo, de
Dominâncias neuróticas nâo apenas se um sistema mais amplo. Percebemos também
caracterizam por um excesso de deliberação corno ora defendem o "homem natural". em
e como são comumente orienta- uma proposta de retomo ao "ser selvagem"
das por uma busca em atender a imposições (Yínacour. 1995). ora falam de ética social.
e exigências externas em detrimento dos afimiando que é impossível alguém poder ser
movimentos de auto-regulação espontânea realmente feliz enquanto não sejamos felizes
do organismo, e por freqüentemente re- de maneira mais geral (PHG, 1997, p. 64).

DICIONÁRIO OE GESTALT-TERAPIA
DIClONÁIUO DE GESTALT-HRAPIA
e
EGO ego é definido como um dos aspectos do
O termo aparece em destaque nos junto com o íd e a personalidade. Esses as-
~~.. ...
primórdios da abordagem em EFA. pectos são as orincipais etapas de ajustamento
de 1942, mais no Capítulo 7, criativo(PHG, 1997, p. 1

·o ego como uma função do organismo".


Perls (2002, p. 205) adverte que "o analista O ego é ,1 identificação progressiva
deve lidar mais com o ego do que com o in- com as possibilidades e a alienação
consciente" e que o "ego é uma função do destas, a limitação e a intensificação
organismo", e não uma parte concreta dele. do contato em andamento, incluindo
O autor critica o caráter de substância dado ao o comportamento motor, a agressão,
tenno pela psicanálise e afirma: ·o ego é uma a orientação e a manipulação. (PHG,
função, urna função de contato, uma forma- 1997,p.297)
ção figura/fundo" (2002, p. 207). Ele prosse-
gue na enumeração de outras características: Depreende-se dessa a ação do
·o Ego... [é] interferente; [funciona] na ego na fronteira de coCJtato, direcionada pelo
owareness do self; [é] exemplo de responsa- interesse do indivíduo e pelos aius-
bilidade; [é] o próprio fenômeno de frontei- tamentos criativos. Em sentido oposto. PHG
ra; [é) espontâneo; [é] servo e executivo do ( 1997, p. definem a neurose como "a
organismo; aparece na ectoderme; [funciona] das do ego para a fisiologia se-
na identificação e [do organismo)" cundária sob a forma de hábitos inacessíveis·.
(2002, p. 207;). Perls já estabelece aqui aspec- Modernamente, o conceito de sei( tem
tos básicos da futura definição de ego na Ges- sido ampliado e atualizado: ele é o sistema de
talt-terapia: a função do ego nos processos de contato na fronteira, englobando as
identificação e alienação. necessárias à sua atividade. Há um menor
O conceito de ego é aprofundado e re- número de referências diretas ao ego na li-
feito na obra de PHG, que enfatizam desde o teratura gestâltíca atual Essa relativa omissão
inicio seu papel no contato. O da "função ego• é trat.ada por Ervíng Polster
80 81 EGOTISMO

no artigo "Response to 'loss ofego functions. dos processos de fronteira de identificação e Refere-se a um controle de si mesmo e do por PHG (1997. p. 256) à retroflexão: "Qual.
conflict and resistance'", publicado em The alienação, em item irrtitulado e escolha". ambiente para evitlr as surpresas decorrentes quer ato de autocontrole deliberado durante
Gestalt Joumal ( 1991 ). O texto é uma respos· Parece claro que o conceito de ego contínua deste. "Neuroticamente, o egotismo é um tipo um envolvimento dífkil é uma retroflexão". Em
ta às criticas de Douglas Davidove, em artigo a preocupar os estudiosos da Gestalt-terapia, de confluência com a GNCireJ1eS5 deí1berada, é sua obra O (2006), aponta para
da mesma revista, a posições expressas por ainda que de formas diferentes. uma tentativa de aniquilação do incontrolável e um paradoxo quando Goodrnan refere-se ao
Ervíng e Miriarn Polster em Gesta/e-terapia in- do surpreendente" (PHG, 1997. p. 257). egotismo como perdas das funções de ego e, no
Enila Oiaga.s
tegrada (2001 ). Polster assim se expressa: Em seu livro Gestolt uma terapia do conta- entanto. define-o como um "excesso' de ego.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS to, os Ginger ( 1995. p. 256) consideram o ego-
Gladys D'Acri e Sheila Orgier
Por todo nosso livro [..• Jfica totalmen · Pe,i.s, 1: S. ( 1947). Ego, jiJme e ogressõo. São Paulo: Sum- tismo urna "hipertrofia artificial do ego, que visa
mus. 2002 encorajar o naràsismo e a resf)O!,sabll1i2çào
te claro que, em nossa própría lingua- REFE~CIAS BIBUOGRÁFICAS
F'EP1.S, E S.: HEfffí<UNE, R.: Goc,or,w.J, I' Geswlt-terapkl.
gem, enfatizamos a preocupação com pessoal a fim de preparar para a autonomia". G1NGER. S.: G1NGER. !'.. G€sta!t: uma terapia do contam.
São Paulo: Sumrnus. 1997.
É um voltar-se para si própno exage- São Paulo: Summus, 1995
o processo de escolha, com a integra· PHILIPPSON, P. Self ín relarioo. Nova Yoric 11,e Gesta.'t Jour-
f'tRLS, F. S.; HEFFERt.lNlé, R.; GooDMAN, f: (1951). Gestolt-
ção de diversos aspectos da existência nal. 2001 radamente. No entanto. é de fundamental
1'2rop1a. Sao Paulo: Summus. 1997.
da pessoa, com a luta para conseguir o Po:5Tta. E. "Response to 'loss of Ego functions. Conflict importância no processo terapêutico por ser
and Resistance" TheGestaltjoutr.nl, Highland, v. XIII.
ROBJNE, J.-M. O self desdolxado. São Paulo: Summus,
que é melhor para si mesmo e com as considerada uma fase de recuperação nard- 2006.
n 2, 1991.
funções de contato. [... ] Cabe pergun· sica necessána durante a terapia. ''Ela [faseJ
E.; Pol.sm,. M. Geswlt-teraplO integrado. São
f\::),..STER,
é sem dúvida um elemento motor essencial VERBETES RELACIONADOS
tar, portanto, por que não usamos o Paulo: SumrT'US, 2001.
~NE. J.-M O seif desdobrado. São Paulo: Summus, para que o cliente se encarregue de si mesmo Aworeness. Confluência. Ego. Função id, função ego. fun.
termo "ego': Para nós, a palavra "Eu" <;ão pé,,onaJídade, Aetrofiexão. Suporte
2006. e conquiste a auto-suficiência (self-support)"
é uma escolha mais pessoal e menos
técnica. Também acreditávamos - e (Ginger; 1995, p. 140).
VERBETES RELACIONADOS Ü P'1()f1ç1"1"1n
ainda acreditamos que esse termo, Agressão, Ajustamento criativo. Aworeness, Contato, EMERGÊNCIA DE NECESSIDADES
ego, carregava uma bagagem pesada Espontaneidade, Figura e lundo, Fronteira de Côfltrto. "'""º"'r~rfa para a interdepen- (VER NECESSIDADES. HIERARQUIA DE
de sua anterior fixidez na classificação Função e disfunção de conli!to, função id. função ego. dência madura, isto é, owareness de uma rela- NECESSIDADES E EMERGÊNCIA DE
função personalidade. Neurose, Organismo. Respon· ção saudável com o meio saciai. NECESSIDADES)
psícanalítíw, incluindo as implicações sabilídade. Sei[. leoria organísmíca. organismo, campo
topográficas da associação do ego com organismo/ambieDte
o id e o superego. (Polster, 1991, p. Em Gestalt, quando o egotismo se dis-
solve e o cliente não mais se compraz EMOÇÕES
53-5; tradução nossa do original em
EGO, FUNÇÃO (VER FUNÇÃO numa atitude de independbtcia exces~
inglês) Na filosofia, as emoções. os sentimentos, o
ID. FUNÇÃO EGO, FUNÇÃO siva em relação ao terapeuta e seus pró- espírito são representados pela Alma. Em seu
PERSONALIDADE) ximos, e volta assim ude uma egologia a
Por outro lado, temos exemplos de auto- primeiro livro, EFA ( 1947). Peris cita a palavra
res atuais conheàdos. como Jean-Paul Robine uma ecologia" (no sentido de Bateson), "alma" referindo-se também às emoções; no
em O self desdobrado (2006) e Peter Philipp·
retomando a feliz formulação de Robi- entanto, começa a delinear uma concepção
EGOTISMO ne. 7 ( Gínger; Ginger, 1995, p. 14 l)
son em Self ín relatían (2001 ), que partem de homem em que alguns de seus aspectos
da definição de PHG ( 1997) e estudam em Termo cunhado por Goodman ( 195 l ), como corpo, mente e alma devem ser reco-
pouco citado na bibliografia gestálti<:a. não Robine considera o egotísmo um tipo de nhecidos como totalidades integradas.
profundidade o papel do ego no contato. Ro-
bine (2006, p. 69-7!) estabelece uma forte chegando a ser bem-aceito pelos Gestalt-te- retroflexão, poís corresponde à definição dada
relação entre a perda de funções-ego do self e rapeutas. Segundo Robíne (2006), só apare- O homem é um organismo vivo e al-
a formação de mecanismos de defesa. já Phi- ce em dois estudos: R. Bumham ( 1982) e D. guns de seus aspectos são chamados
lippson (2001, p. 32) refere-se à importância Davídove ( 1990). de corpo, mente e alma. Se definir-

DICIONÁRIO DE ÇlSTAL T-TERAPIA DICIONÁRIO DE GESTALT-T€RAPIA


r,ws o corpo como a soma de células,
a mente como a soma de percepções e
82

As emoções podem ser descritas como


a força motora mais importante para nos-
so comportamento sendo transformada em
' altera na situação real. e esse envolvimento
parte da situação real".
83

ENERGIA
EMOÇÕES

O termo "energia" permeia toda a obra


pensamentos, e a alma como a soma da Encontramos a primeira
das emoções, e mesmo se acrescentar- energia e expressa na mobilização dos mús- Emoções são unificações, ou tendên-
referência em 1942, em EFA, quando Perls
mos uma "integração estrutural" (ou culos por meio do sistema motor: "Numa cias unificadoras, de certas tensões
utiliza a palavra como um aspecto
a existmcía destas somas totais como situação emocional, a emoção nãoé sentida fisiológicas com situações ambientais
de uma função: "A concepção de função abar-
até que aceitemos o comportamento corpo- favoráveis ou desfavoráveis, e, como
totalidades) a cada um dos três ter-
ral correspondente - é quando cerramos o tal, fornecem o conhecimento último
ª
ca 5 coincidências tanto de um evento como
mos, ainda compreenderemos quão de propulsara - sua dinâmica" (Perfs,
artificiais e fora de conformidade com punho que começamos a sentir raiva" (PHG, indispensável (embora não adequa-
2002. p. 54). Considera que a energia não
a realidade tais definições e divisões 1997, p. 212). A energia que provém das do) dos objetos apropriados às ne-
pode ser vista corno urna força inseparável do
emoções é o excítamento, que, por sua vez. cessidades, assim como O sentimento
são. {Perls. 2002, p. 66-7} evento, contrapondo-se, assim, a rn•,irn,,,.,
é fornecido pelo metabolismo do organismo. estético nos fornece o conhecimento
concepção metafisica.
Perls (2002. p. 69) enfatiza que "nenhu- É por meio das alterações hormonais que é último (adequado) de nossas sensibi-
Em 195 i. na obra de PHG, os autores des-
ma emoção, raiva, tristeza, vergonha ou possível a diferenáação de um excitamento lidades e seus objetos. Em geral, o in·
crevem a energia como uma excitação, julgan-
nojo. ocorre sem que seus componentes fl. básico em específico. Por exemplo: a raiva e teresse e o excitamento da formação
do "excitlmento" um termo lin,,ü1,t1c:1m,,,ntP
o medo são os excitamentos isto figura!fimdo são testemunhos imedia-
siológicos, bem como os psicológicos, entrem adequado, na medida em que
em jogo". e confirma a necessidade de pen-
<>rr1nr,,P<C que estão ligadas às glânduías tos do campo organismo/ambiente.
(PHG, 1997, p. 48)
sarmos no funáonamento de um organismo <, ir,r.:. .. ,,,.,,~" (adrenalina).
dadas.
A Gestalt que do ponto de vista da sobre-
em interação com seu ambiente. Fagan, 1980. p. 50) acrescenta que:
Nessa época. já expressava mais idéias vivência tiver maior significânáa recebe mais A Gestalt-terapía propicia um importante

que a Gestalt-terapia desenvolveu poste-


excitamento e, assim, é capaz de emergir e "método unitário e combinado" de trabalho
[... ) nós temos que obter a nossa pró-
usar seu excitamento para orientação e en~ para a prática psicoterápica, quando possibilita
riormente. como: ·A awareness de emoções pria energia do alimento e ar que rece-
frentamento. Em muitos casos, o enfrenta- "nos concentrar tanto no mundo dos 'objetos'
indesejáveis e a habilidade para bemos no nosso organismo. Não temos
mento requer uma quantidade extraordinária [ ...] quanto na da mobilidade corpo-
são a condttia sine qua non para uma cura nome para esta energia que criamos.
de exátamento, e isto é experienciado como ral e do apetite, como também na estrutu-
bem-sucedida; estas emoções serão des- Bergson cl1anwu-lhe de élan vital
[ ...]. O excitamento sofre uma trans- ra do terceiro elemento, a emoção do se/f'
carregadas ao se tomarem funções egóicas. Freud chamou-lhe de libido ou instin-
formação hormonal que transforma o exci- (PHG, 1997, p. 214).
Este processo. e não o processo de recor- to de morte (ele tinha duas energias)
tamento generalizado indiferente em excita-
dar. forma a via régia para a saúde· (Perls. José A'nâncío dos Santos Neto e Reich deu-lhe o nome de orgone.
mentos específicos. [ ...] O excitamento é tan-
2002. p. 258). Eu chamo-lhe de excitação porque a
to uma experiência quanto a forma básica de REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Com a evolução da abordagem, Perls palavra coincide com o a$pecto fisio-
energia organismica (Peris. l 979, p. 200-1). l'ER!,S F. S. ( 1947). Ego, f~ e agres:;oo. São Paulo: Sum,
aponta para a necessidade de pensarmos no mus, 2002. lógico de excitação. [... ) A excitação
O reconhecimento do que nos acontece freqüentemente é sentida como ritmo,
funcionamento de um organismo em inte- --. · &::arafimchando Fritz: dentto e fora da lotô de
e nos excita, do que sentimos e percebemos hxo. São Paulo: Summus. 1979. vibração, tremor, afeto. Essa excitação
ração com seu ambiente, por combinações
no contato com o campo nos faz entender a PERtS, F. S.; HEfffRLINE, R.; GoooM•N. I' Gesta/Herapio. tampouco é criada em seu próprio in-
integrativas, quando diz: "Uma emoção éa
realidade, e esta, por sua vez, não é neutra São Paulo Summus, ! 997.
Q'M:lreness íntegrativa de uma relação entre teresse, mas em relação com o mundo.
organismo e ambiente. (É a figura de primeiro nem indiferente. PHG (1997, p. 47) enfa-
VERBETES RELACIONADOS
tizam que •os diferentes de sen- Peris busca a compreensão do indivíduo
p1ano de combinações diferentes de proprio- Awareness. Campo, Doença. saúde e a.,ra. Energia, Esté!J-
t1mento o prazer e as distintas Prru;r,'\,,<
ca, fundo, Gesta~c. Neces- como um todo, unificando por meio do con·
cepções e percepções.) Como tal é uma fun-
- indicam um envolvimento orgânico que se Organismo, Sei(. ceito de energia a visão de mente e corpo,
ção do camPo. (PHG, 1997. p. 212).

01 C lONÁRIO DE GE STAl T .TERAPIA D1ClONÁRIO OE GfSTAt T-TERAPI._


85

conforme expõe em A abordagem gestáltica e ções em qualquer fase deste ciclo po- duto da função biológica do organismo. afas- Gestnlt-terapia: teoria, témica e aplica;;ões. R.io
testemunha ocular da terapia ( 1981 . p. 30): de Janeiro: Zahar. 1980.
dem determinar patologias. (Zinker, tando qualquer concepção metafísi<:a de uma
~,u. E S. (1942}. Ego. fome e agressao. São Paulo: Sum-
2004, p. 89; tradução nossa) energia independente do funcionamento do mus. 2002.
Só quero dizer que as atívidades que ser vivo. Perls preocupou-se em definir o que é E.scarofunchondo Fritz: dentro e foro do lata de
denominamos mentais exigem menos Podemos observar uma mudança na des- energia e de onde ela vem. No entanto. como lixo. São Paulo· Summus. 1979.
dispêndio de substância corporal que do conceito de na Gestait-tera- ele mesmo explica. o desenvolvimento da biofí- ~fllS, E S.; HffffR!INE, R.; Goooc-w,;, P (1951). Gesi:oJt-
as atividades denominadas físicas. !... ] pia com base no desenvolvimento da ciência. sica e da linguagem na não era adequado
terapia. São Paulo: Summus, 1997.

A energia que o homem economiza Na era moderna, a forma de da 'Jbr.ITEF. G. Processo, did/ago e 0,1,:mmess. São Paulo: Sum-
para descrever o conceito. .Atualmente, com os mus, !998.
pensando nos problemas em lugar de ciência mecanicista adequava-se aos sistemas novos recursos da ciência contemporânea, te- Z1NKER, J. (1970)_ EJ procesn creoVvo éft la terapia g;.iestál-
atuar em toda a situação pode agora simples, enquanto a ciência pós-moderna tem mos muito mais de rlP•:rri,c:lo 1:Ica. Buenos Aires: Paidós. 1994.
ser investida num enriquecimento de uma visão adequada aos sistemas mais com- O conceito foi profundamente ampliado
sua vida. Esta concepção da vida com- plexos, como os seres vivos. Assim, na obra VERBETES RELACIONADOS
quando os físicos quânticos observaram que
posta por níveis de atividade acaba de Processo. diálogo e awareness, Yontef ( l 998, p. Auto-regulação organísmica. A""11"eness, Cido do conta-

--
uma vez por todas com o paralelismo "Em Gestalt-terapia, o metabo- to, Emoções. Excitação/excitamento, Fronteira de conta-
ções de energia. podendo ser ondas ou partí- to. Holismo, Necessidades. Sistema. Teoria de campo
psicoftsico lismo é usado como metáfora para o fundo-
namento osicolóe"ico'. e acrescenta que a te-
Dessa forma, toda a estrutura funciona por
Em 1970. Zinker descreve, em ona de campo fornecer uma linguagem
meio das entre as de ESCOTOMA (VER PONTO CEGO/
seu livro EJ r.roceso creotivo en la terapia capaz de descrever os fenômenos simples e ESCOTOMA)
energia e tudo passa a ser abordado com base
o ciclo psicofisiológíco, que se complexos. Sem um conhecimento da teoria
na teia de r<>l:ll"!""'Ç
relaciona com a de necessidades, de campo. observa que:
A GestalHerapia é considerada uma tera-
denominado cído de auto-regulação do or- ESPONTANEIDADE
pia de processo. Na definição de um proces-
ganismo. Mais tarde, em 1994, passa a fazer [... ] muitos teóricos rejeitam todfü os
so, tudo é energia. Tudo é estruturado pelas Desde a obra de PHG, publicada origi-
uma fenomenológica do processo conceitos de uma energía física como
dinâmicas de um campo. que se move nalmente em 1951, encontram-se referên-
intrapsíquíco, denominando-o ciclo gestátti- mecanicista, reducionista e dualista,
pelo tempo e pelo espaço. cias ao conceito de espontaneidade, como
co de experiência: sem perceber que a energia ftsica é
Na práxis, a Gestalt é uma abordagem em a
um aspecto necessário de uma teoria
sintonia com o pensamento científico con-
No plano intrapsú:Juico, enraízamo- holística, e pode muito bem ser conta-
temporâneo, já que o terapeuta se indui na A espontaneidade é o sentimento de
nos na awareness do que é relevante bilizado na teoria de campo, sem pen-
nr,.,.,rv;ic:ao. utilizando-se como seu próprio estar atuando no organismo/ambiente
no momento, do que chama nossa samentos mecanicistas, reducionistas
instrumento de trabalho. Com base em seus que está acontecendo, sendo não so-
atenção e se destaca motora ou inte- ou dualistas. [... J Uma perspectiva de
lectualmente. Esse interesse é investido sentidos, ele procura observar em seu cliente mente seu artesão ou seu artefato, mas
teoria de campo pode fornecer supor-
de energia, sem a qual seríamos inca- onde há mais energia, isto é, como e onde a crescendo dentro dele. A espontanei-
te teórico para a integração de uma
pazes de agir. Nossa awareness é clara teoria que abrange o corpo, a mente, está sendo expressa, o que serve de dade não é diretiva nem autodiretíva,
e rica. Quando está suficientemente as emoções, as interações sociais e os orientação para o processo terapêutico. e nem nada a está arrastando embora
energízada, podemos nos mover de aspectos espirituais e transpessoais. Rosane Carneiro Porto seja essencialmente descompromissa-
modo decisivo em dire.ção à.quilo que (Yontef, 1998, p. 177) da, mas é um processo de descobrir-e-
desejamos [... ] a awareness plena leva REFERÊNCIAS BIBUOGRÁRCAS
inventar à medida que prosseguimos,
fJ'G.'N, J.; SHEPHERO, 1. L (orgs.). A obordagem gestáltko e
a um contato claro na fronteira entre Em síntese. observamos que a Gestalt-tera- engajados e aceitando o que vem.
testemunha ocular da terapia. 2.. ed. Rio de Janeiro:
eu e o meio ambiente. [... ) lnterrup- pia inicialmente descreve a energia como pro- Zahar, 1981 . (PHG, 1997, p. 182)

O!CIONÁRIO DE GESTALT-HRAPIA DICJONÁRIO DE GESTALT-TERAPIA


WJL ..
~-~'= 86 87

O conceito de espontaneidade vem ga- estar excitado ou não ser criativo - por- A espontaneidade, como atitude, pode con- A descrição da função da fronteira
nhando, por meio de seu desenvolvimento, que a espontaneidade é iminente-mente tagiar-se de sí mesma e a si mesma. Seu fluir está quase completa, mas temos de
a conotação de uma atitude subjetiva expres- isso -, mas no sentido de uma unidade intrínseco é uma expressão de saúde, que per- acrescentar ainda mais dois fenôme-
sa por uma conduta caracterizada por natu- anterior (e posterior) à criatividade e mite Vlver em fluida auto-regulação organísmíca. nos: estética e propriedade. Os pólos
ralidade e neutralidade conceituai. Esponta- à passividade, contendo ambas. (.. ,] Assim, o terapeuta gestáltíco treina, em sua ati- do comportamento estético possuem
neidade é um modo suave de olhar a nova os extremos de espontaneidade são por vidade profissional e em sua vida a es- sorte semelhante à dos assuntos mo-
realidade, urna força vital que não se um lado a deliberação e por outro o re- pontaneidade desenvolvendo seu auto-suporte rais: tudo que é lindo pertence ao fo.
conter e emerge para descrever o que a rea- laxamento. (PHG, 1997, p. 182) - uma atitude que engloba uma confiança básica terior da fronteira, e tudo o que é feio,
lidade produz nos sentidos. "Espontaneidade e intrinseca em seus recursos - e íavorecen- ao exterior. A palavra alenlã. para feio
é apoderar-se. crescer e incandescer com o É destacar a influência que do uma atitude espontânea com aqueles com é haesslich, odioso. Amor e beleza são
que é interessante e nutritivo no ambiente" teve o teatro para Perls desde sua juventude. quem trabalha: seus seja na terapia in- quase idênticos.
(PHG. 1997, p. 45). É uma manifestação da No livro Escarafunchando Fritz ( 1979), ele faz dividual ou grupal, e os grupos nes- [... ) Talvez maís fácil de entender seja
totalidade interna relacionada de forma fluida menção à metodologia do diretor de teatro e sa abordagem. A tem sua o sentimento de propriedade dentro da
com o mundo, uma atitude em que a unida- seu professor Max Reínhardt, "primeiro sua forma, seu selo, nessa atitude espontânea; fronteira. Tudo que está dentro da fron·
de do ser se expressa alijando toda a criativo que conheceu· (Perls. 1979, p. 322). portanto, a espontaneidade é uma das conquis- teira é "meu'; me pertence. Tudo que
mentação descritiva e privi- que o influenciou na especial ênfase dada ao tas fundamentais a serem "lr:mr=icb,~ está fora é seu, não-meu, sejam coisas
legiando a integração de todas as dimensões espontâneo na Gestalt-terapia. ou atitudes. {Perls, 1979, p. 331-2)
Fernando De Lua:a'
do indivíduo ante o que aparece como fenô- A espontaneidade é apontada como uma
meno exterior e interior num mesmo tempo maneira de funcionar na qual vitalidade, fres- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Porém, a "estética" representa para
e espaço vividos.É fluír. é respeito ao que cor; naturalidade e auto-suporte se conjugam NAAAN,o, C. l.n weya y la navísimo Gestnlt. Santiago do Chi- a abordagem mais do que um concei-
le: Cuatro Vientos, 1990.
surge como figura, é em sua má- harmonicamente. O papel "confrontatívo", to ou um construto teórico, como no caso do
Pfru.s, F. S. Escarafunchando Fritz: dentro e fora da lato de
xima expressão de naturalidade, criatividade, na forma peculiar que lhe confere a Gestalt, conceito de "fronteira de contato·. Estética para
lixo. São Paulo: SummúS, 1979.
indiferença e liberdade. é também uma das da espon- Prn1.s. E S.; HHl'ffiJJNf, R.; GOClOMAAJ, P. (1951). Gestnlt· ;,hrsrn:aoPm gestállíca constitui uma proprieda·
Soiomon Friedlãnder, em sua obra Indife- taneidade. terapia. São Paulo: Summus, 1997. de e um valor inerentes ao desenvolvimento de
rença criativa, promove uma visão dos even- Pol.STliR. E.; f'otsrER, M. Templo guestciitica. Buenos Aires:
Cláudio Naranjo ( l 990, p. 1O) considera sua história, como também às relações existen-
tos opostos como a qual que a e o processo 1 Amorrorru. 1980
tes entre as partes que compõem a
contribui para a noção de espontaneidade, de tico "[... ] descansam, par parte do '"'''"rn"' de sua teoria. Entre essas, com certeza, encon-
VERBETES RELACIONADOS
forma integrada com o pensamento de Paul nos dois fatores transr)eS·soaus de tomada de Auto-regulação organismka, Consciência, Doença. saúde tramos na da Gestait uma referência
Goodman, por quem é considerada uma ex- consciência e espontaneidade, enquanto o 1F e cura, fluidez. lndííerença criatí11a, Organismo. Suporte,
Totalidade
exemplar. (2001, p,
pressão ou atitude intermediária entre o ativo terapeuta contribui com o estímulo e apoio
e o passivo. da expressão genuína e reforço negativo do A psicologia da Gestalt cresceu da in-
patológico[...)". O sistema terapeuta-cliente vestigação experimental e fenomeno-
ESTÉTICA
O espontâneo é tanto ativo quanto é afetado par aquilo que, como necessidade, lógica da percepção visual e devemos
passivo, tanto desejoso de fazer algo Em uma de suas referências so· reconhecer essa influência espedfica.
lhe é figura no presente, manifestando-se a
quanto disposro a que lhe façam algo; bre a palavra "estética", Fritz Perls ( 1979) are· Os primeiros psicólogos da Gestalt
espontaneidade no momento do encontro.
ou melhor, está numa posição eqüidis- !aciona ao conceito de "fronteira de contato". focalizavam os princípios do ver[ ..,],
O espontâneo é, então, uma figura geral.
t.lnte dos extremos (nem passivo, nem Uma manifestação que canalizar ao
Diz ele: Por exemplo, eles estavam interessados
ativo), uma imparcialidade criativa; terapeuta aquilo que surge no aqui e agora da em figura-fundo, linhas, formas, con-
um desinteresse niio no sentido de não relação díalógica. tornos, proximidade, profundidade,

OICiONÁRlO DE GESTALT-TEf\,VIA DICIONÁRIO DE GESTAL T·TERAPIA


88 89

pontos, cores, planos, movimentos e Zinker (2001. p. 286), em capítulo escrito cultura. Segundo Timothy Leary (in Goffman; desenvolvimento da abordagem fosse esteti-
espaços. A idéia de forma especial- com a colaboração de Shane, mostra-nos que Joy, 2007. p. 1O): camente enriquecido e esse forte
mente a noção de Gestaltqualitãten ou o desenvolvimento de tal visão "não começa -.,,,r.. ,nt.. crr, .. com a arte. Como nos mostra
as qua/idJJdes da forma - era central com uma abstração corno bom e beleza. mas (·-l fwresce sempre e onde quer que L. Perls ( 1994. p. 24):
Resumindo, a psicologia da Gestalt era com valores [.. .]". Ou seja, a qualidade dessa alguns membros de uma sociedade es-
uma teoria psicológica e uma metodo- visão estética associada não so- colham estilos de vida, expressões artís- La terapia tambíén es una arte. Tie-
logia feita sob medida para o estudo mente à fonna como se percebe o mundo, ticas e formas de pensamento e compor- ne más que ver com la arte que con la
da estética. [... j um psicólogo da Ges- mas também ao conteúdo dos valores que tamento que sinceramente incorporam ciencia. Riquiere mucha intuición y
talt não ficaria surpreso ao saber que a orientam esse ponto de vista. o antigo axioma segundo o qual a única sensibilídad y una visión ge11eral, es
palavra aesthetic deriva de uma pala- verdadeira constante é a próprio. mu- algo muy diferente a una orientadón
vra grega que significa «perceber~ Quando pensamos em valores na prátí- dança. A marru da contracultura não é sín sistema. Ser artista supone funcio-
ca da Gestalt-terapia, procuramos afir- uma forma ou estrutura em particular, nar de una manera holística, y ser un
.Além disso. ordem ou organiza- mações do que é mais importante pam mas a fluidez de formas e estruturas, buen terapeuta supone lo mismo.
ção como atributo da consciência na maneira de nós, do que é precioso para nós, daquilo [ ... J com que surge, sofre mutação, se
ru,,-,..,.1,.,ro mundo confere ao nrc»ni<mn a que damos valor, daquilo que é transforma em outras e desaparece.
Ronaldo Miranda Baroosa
qualidade estétJca que vai além nificativo para nós em nosso pensar,
de belo e beleza mais freqüentemente associa- em nosso trabalho e em nossas relações Ainda como nos mostra Frazão (1995. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

das à palavra. Estética, aqui, refere-se à tendên- com os outros. (Zinker, 2001, p. 286) p. 13): fw,zÃo, l. Gestalt-rerapía, psicodromo terapias nc'O-reí-
chíanos no Brasil - 25 OflCS depois, São Paulo:
cia natural do organismo em buscar t O@·rr~-her\
1995.
"aquela 'configuração' que tiver uma organiza-- Assim, o caráter estético dessa visão estará A Gestalt-terapia, desde sempre, esteve GorrMAN, K.: jo,, D Contraculwra a!fa,és dos tempos.
ção mais estável, ordenada, harmoniosa, livre sempre associado a outro elemento de valor, ligada aos movimentos de contracultu- Rio de Janeiro: Edíouro. 2007.
de fatores supérfluos ou arbitrários" qual seja, a ética. A boa forma (estética) da ra. Quando Perls se formou em medici- f'Eru.s, E S. Eswro{undtando Fritz: dentro e fora da lata de
lixo. São Paulo: Summus, 1979
1984, p. 38). A busca é pela melhor configura- Liestart-te1G101a necessita que o olhar do ho- na, em 1920, ele participava ativamente
F'.óru..s, L \Jiviendo er. los úmites. Valência: Promolíbro.
possível, tendo em vista as condições que mem que a pratique esteja eticamente orien- do grupo "Bauhaus: juntamente com 1994.
o campo organismo/meio oferece em dado tado para o mundo e/ou para o outro. Não artistas, poetas filósofos e arquitetos. RHYNE. J. Arte e Gestalt: padrões que convergem. São Pau-
momento, ou seja, a "boa forma·. podemos nos esquecer de que partes dessa Este grupo. políticamente radicat opu- lo: Summus. 2000.
A palavra alemã "Gestalt" já traz em seu herança provêm de outras fontes e influên- nha-se à ordem estabelecida e lutava TA Ges!olt e grupos: uma perspectiva sístêm1co.
li'tLEGEN,
São Paulo: Summus, 1984.
significado, de dificif para o portu- cias que a abordagem também recebeu a por um estilo de vida menos rígido e
ZJNm. J. A busca da elegância em psicoteropia. São Paulo:
um pouco desse sentido. Gestalt pode nsi1·,málk,,. a fenomenologia e o existencialis- menos preso aos códigos vigentes. Summus, 2001.
ser entendida como •forma, figura, estrutura e mo, o pensamento oriental. e em particular o
(Rhyne, 2000, p. 37). Há, pois, próprio processo de desenvolvimento de sua Por isso, não podemos deixar de consí· VERBETES RELACIONADOS
algo de estético já na palavra que representa história. A se desenvolveu, em derar a estreita relação que a Gestalt-terapia Consciência. Existencialismo. Fenomenologia, fronteira
a abordagem. parte, ao longo da segunda metade do século possui com as artes, como uma forte fonte de de contito, Gestaltismo. Holismo, Organismo

Portanto, não parece difícil constatar XX, um período histórico extremamente rico influência estética também. Tanto Fritz quanto
o quanto essa psicológica única• em políticas e socioculturais Laura Perls sempre estiveram envolvidos com
EU-TU E EU-ISSO
(Zinker, 2001, p. 285) contribuiu para o de- que em muito contribuíram para o enriqueci· atividades artísticas teatro, ópera, pintura,
senvolvimento de uma visão de mundo e mento estético dela. Entre esses movimentos, dança. músrca, literatura etc. Sem dúvida, A Gestalt-terapia. por meio de seu alicer-
de homem que hoje embasa teórica e este- um em particular teve grande influência no esse interesse comum por formas criativas ce na psicologia humanista e existencial, re-
ticamente a Gestalt-terapía. desenvolvimento da abordagem a contra- de expressão muito contribuiu para que o mete-nos à consideração da existência como

DICIONÁRIO DE' Gl:ITALT,TERAPIA OI CIONÁRI O DE GE STAL T· TERAPIA


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um espaço onde os homens estão sendo- 'fronteira entre'; mas uma fronteira-de-conta· · promovem dois modos de existência; a rela- mana, para a sobrevivência e o pro-
uns-com-os-outros, onde tecem redes de to, onde a experiência tem lugar, não separa ção ontológica e a experiência objetivante. gresso do homem, embora não possa ser o
relações nas quais confirmam e desenvol- o organismo e seu ambiente; em vez disso O entre é a ontológica na qual sustentáculo ontológico do inter-humano.
vem suas características especificamente hu- limita o organismo. o contém e protege, ao se dá a confirmação dos dois pólos envolvidos Certamente sem o Isso o homem não
manas. A mais radical expressão desse pen- mesmo tempo que contata o ambiente". na éo de da palavra pode existir. Éuma atitude de conhecimento
samento pertence ao filósofo Martin Buber. Nesse sentido, o processo terapêutico proferida pelo ser. Esse intervalo existe entre e de de meios para a consecução
estudioso do misticismo judaico, em ocorre na fronteira de contato entre terapeuta o Eu e Tu e o Eu e Isso. de certos fins, e, assim, tão ética e autêntica
de sua vertente hassídíca9 • Buber enfatiza e cliente, que consagra ou não a singularidade Ao pronunciar o Eu-Tu o homem se dirige como a atitude Eu-Tu. Ela se toma fonte de
que a realidade da relação não ocorre no do indivíduo no contexto relacional, depen- diretamente ao Outro, sem intermediário de ri""""'rl~r~n do humano quando o homem a
homem, mas entre este e o que lhe está de- dendo dos elementos inter-humanos presen- qualquer natureza. isto é, sem nenhum fim ela se subjuga, pautando sua existência unica·
fronte. Na visão buberiaría, o significado do tes, isto é, da integridade e genuinidade da utilitário, movido somente pela reciprocidade mente pelos valores inerentes a essa atitude.
inter-humano não é, pois, encontrado em atitude díalógica assumida pelo terapeuta. do encontro. tum momento de presença. no Pois sendo o Eu do Eu-Isso o sujeito da expe-
um dos parceiros nem nos dois juntos, mas De acordo com o sistema antropológico qual a totalidade de um fala à totalidade do ou- riência, nesse relacionamento o Outro não é
no diálogo que entre eles é estabelecido, no de Buber, o relacionamento do homem com tro, posto que o encontro não se acha pareia· encontrado em sua alterídade. Na experiência
entre vivenciado por ambos. Esse modo de o mundo, que acontece no entre, é caracteri- lizado por nenhum objetivo. Como dito an- do mundo, o Isso está presente ao Eu. porém
compreender a realidade interacional huma· zado por duas atitudes fundamentais ou duas teriormente, a palavra é dirigida diretamente o Eu não está na presença do Isso. "O homem
na recebeu o nome de dialógico ou filosofia palavras-princípio: a palavra-princípio "Eu-Tu'. ao Tu, que é necessariamente singular e único não pode viver sem o Isso. mas aquele que
do diálogo, cuja obra mais significativa é o e a palavra-princípio "Eu-Isso". Essas palavras em sua alteridade. Referindo-se à diretividade vive somente com o Isso não é homem" (Von
pequeno livro desse autor, editado em t 923 referem-se a posições primárias que o ser e imediatiàdade da presença entre Eu e Tu. Zuben 1974, p.
e intitulado Eu e tu ( 1974). humano pode assumir diante das coisas e das sentencia Buber ( 1974, p. 13): "Todo meio é Quanto ao Eu-Tu. por sua natureza de
Em Perls (1979, p. encontramos a pessoas. obstáculo. Somente na medida em que todos abertura ao Outro, é essencial para a realiza,çao
utilização do termo buberiano "Eu-Tu" quan- A palavra-princípio situa o homem no ser, os meios são abolidos acontece o encontro'. da condição humana. para o desenvolvimento
do se refere à necessidade de equilíbrio en· ela é •portadora de ser', isto é, ao pronunciá- Ao pronunciar o Eu-Isso o homem é da humanidade originária do ser do homem,
tre e apoio no exercício la o homem instaura uma esciecfílca rM·P<T<-,ri" movido por um propósito, está visando a possibilitando a revelação do sentido mais ge-
tico: "Uma vez que o paciente sente a es- ontológica em à sua humanidade e uma meta, adquirindo uma experiência, um nuíno da existência. Essa palavra-princípio. ou
sência do aqui-agora e do Eu-Tu ele começa à daquele com quem se relaciona. Ela, conhecimento ou qualquer coisa utilitária, modalidade de atitude, promove a
a compreender seu comportamento fóbico". anuncia o princípio ontológico do homem que não a em si. A intencionalidade das distâncias ontológicas, intima à reciprocida-
Em outra obra, PHG ( 1951) enfatizam que como ser dialogal. do dizer Eu-Isso instaura o mundo do Isso, o de e insL'tui uma posição ética que não apenas
o self não tem consciência de si próprio abs- Na palavra "Eu-Tu" realiza-se o princípio lugar e o suporte da experiência (&fahrung). se dirige ao homem, como se inicia no próprio
tratamente.mas como estando em contato díalógico; e na palavra "Eu-Isso', por sua vez, da utilização ou uso (Gebrauchen). O Eu nessa homem. no qual se encontram a raiz e o funda·
com alguma coisa. Seu Eu é polar com rela- realiza-se o princípio monológico do existen· modalidade conhece o mundo, para impor- menta de sua própria humanidade.
ª um Tu e a um Isso. te. Ambos os princípios são eticamente legíti- se diante dele. ordená-lo, estruturá-lo, ven- As atitudes Eu-Tu e Eu-Isso são, pois, dois
O entre é trazido também por Perls mos. Contudo, corno foi referido antes, esta- modos ontologicamente, e não eticamente.
cê-lo, transformá-lo (Von Zuben, 1974, p.
( 1997, p. 43) na passagem: "Quando diferentes de vivenciar o entre, ou de
belecem ontológicas nos pólos da UV). Conseqüentemente. essa modalidade
nos referimos à 'fronteira' pensamos em uma ser-no-mundo-com-os-outros, como já foi
na primeira, o Eu é urna pessoa eo de relacionamento favorece a construção das
outro é um Tu; na segunda, o Eu é um sujeito atividades científicas e tecnológicas da história lembrado anteriormente. Não é possível,
de experiência e de conhecimento, e o ser da humanidade, sendo, pois, essencial à sua portanto. falar sobre um Eu sem o Tu ou sem
' O hassidismo surgju na Polônia, no século >.'\lll!, Caracte·
que se lhe defronta, um objeto (Von Zuben, sobrevivência e ao seu desenvolvimento. O o Isso, já que são essas as duas possibilidades
riz:ava-se por um esforço de íel"lô\la'Çào da mística juda:k:a
(Von Zuben. 200 J , p. XXXV). p. UI). Portanto. as duas palavras-princípio mundo do Eu-Isso é fundamental à vida hu- da da existência humana.

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92 93

É útil distinguir, com Von Zuben (1974, p. REF~NCIAS 818UOGRÁFICAS Em EIA ( 1942), Perls (2002, p. 123) enfatiza um excitamento crescente, sensrtivo e inte-
'XLVl!I), entre e encontro. O encon- Buern. M. &, e tu. São Pauio: Moraes. 1974. a importância de uma visão holística, mostran- ressado; e, inversamente. aquilo que nào é de
~""" tro é algo atual, acontecendo agora, podendo HYCMR, R. De pessoa o pessoa, São Paulo: Summus.
do a "superioridade da concepção organísmica interesse, presente para nós, não é psicologi-
1975.
ser <:hamado de momento Eu-Tu, enquanto a sobre uma abordagem psicológica ou física". camente real" (PHG. 1997, p. 47). Não pode
HYCNER, R.: J!<CO!lS, L Relação e curo em &,sraJt-terapia.
relação é mais ampla. engloba esse momento São Paulo: Summus, 1997. Com o exemplo de um caso dínico de uma existir urna realidade neutra. Segundo eles, ·o
que pode ou não acontecer: A abre a M = , M. M. A dimensão espiritual da terapia. ·En- pessoa portadora de coronária, faz a interesse e o excitamento da fonnação figura/
possibllldade da latência. dando oportunidade a saio'. ReVJstn V!WZr Ps.colqiia, São Paulo. n. 123, p. correspondência entre ansiedade e exátação: fundo são testemunhos imediatos do campo
27,8, abr. 2003.
um encontro dialógico sempre novo. A pessoa r.rcr:,rnct'nr.lon>ru<>nl<>" (PHG, l 997, p, 48).
Prni.s, E S. Exorafi,nchando Fntz: dentro e fora do lata de
pode se preparar para o encontro. mas. como lixo. São Paulo: Summ1JS, 1979. O quadro de excitação como todos
assinalou Buber. este só acontece pela •graça·. Poo.s, E S.: Hrncru.tNf, R.; GOQDMt,,N, P. (1951). Gestalt- experimentaram é o metabolismo Os excitamentos na fronteira de con-
Nessa alrura é oportuno registrar que o terapia. São Paulo: Summus. 1997.
aumentado, a atividade cardíaco. au· tato emprestam sua energia para a
diálogo não se restnnge à verbal. VON ZvsEN. N. ·1ntroduçã.c,. ln: BuSER, M. Eu Tu. São
Paulo: Moraes, 1974, V-LXXVIII.
mentada, o pulso acelerado, a respira- formação de uma figura-objeto mais
';A. 'palavra falante' de Buber é a palavra em
YONTcr, G. Processo. d,ci/ogo e i1MJreness. Sáa Paulo: Sum- ção intensificada. fsto é excitação, mas nitída esímp/es, aproximando-se dela,
ato. a palavra atuante. Este ato pode se dar
mus. 1998. não ansiedade. [... ] Ansiedade é igual avaliando-a, superando obstáculos,
via silêncio, expressão corporal, mímica, olhar,
à excitação mais suprimento inadc· manipulando e alterando a realidade,
comportamento ou postura assumida diante VERBETES RELACIONADOS quada de oxigênio. [... J A excit.ação até que a situação inacabada esteja
dos eventos da vida. O dialógico refere-se ao l>.Jto-apoío. Consciência. Contato, Dtalógíco. Existência.
é produzida pelo organismo em situa- completa e a novidade assimilada.
transformador do contato inter-huma- Existencíalísmo, Experiência, Fronteira de contato. Frustra-
ção, Gestaltismo. Orgarusmo. Sei( ções que requerem uma quantidade Esse processo de contatar [... ] é, em ge·
no· (Malaguth, 2003).
extraordinária de atividade (princi· ral, uma seqüência contínua de fundos
Especificamente na en-
paimente motora}. [... ] Se a excitação e figuras, cada fundo esvaziando-se e
contramos, inicialmente, referências ao diálo-
EXCITAÇÃO/EXCITAMENTO é desviada de seu alvo reai a atividade emprestando sua energia à figura em
go em Laura Perls. que afirma ter sido mais
Perls, em sua crítica à pela motora se desintegra e é parcialmente formação, que, por sua vez, torna-se
forte e profundamente influenciada por seu
ênfase na importância do instinto sexual, en- usada para colocar em ação os múscu- o fundo para uma figura mais nítida;
encontro pessoal com Martin Buber e Ti!lích
do que pela análise e pela da Ges- contra na Teoria e em \Nílhelm los necessários para restringir a ação o processo inteiro é um excitamento
talt, conforme assinala Hycner ( 1997). Reich o conceito de "excitação" no lugar do motora, para exercer "autocontrole': consciente crescente. A energia vem
Conduindo a referência à psicoterapia, de libido.
f Mas resta bastante excitação[ ... ]. Im- tanto do organismo como do ambien-
pode-se dizer que a atitude está preº pedindo a descarga desta excitação, o te. (PHG, 1997, p. 208)
sente quando, ainda que exercendo interven- Não temos nome para a energia que sistema motor do organismo não des-
ções objetivantes, é priorizada a abertura ao criamos. Bérgson chamou-lhe élan cansa, mas permanece inquieto. {... ] Jean-Marie Robine (2006. p. 99), revisan-
evento relacional, à alteridade do cliente e à vital, Freud chamou-lhe libido ou Muitas vezes, a ansiedade pode ser eli· do e expandindo conceitos em O self desdo-
submissão ao entre (atitude Eu-Tu). A presença instinto de morte (ele tinha duas 1
i
minada e retransformada em excita- brado. contribuí dizendo que:
do Tu está subjacente nessa atitude, na qual o in- energias) e Reich deu-lhe a nome ção. [... J Pode-seaprer1derasuperara
teresse constante pela pessoa do outro é aquilo de organe. Eu chama-lhe excitação, ansiedade pela rel.lxamento dos mús- Para que uma figura possa emergir,
que mobiliza a tarefa terapêutica, mesmo du- porque a palavra coincide com o as- culos do peito e dando vazão à excita- isto é, para que um contato tome for-
rante o relacionamento Eu-Isso, possibilitando pecto fisiológico de excitação. (Perls, (ilo. (Perls, 2002, p. 126-8) ma, é necessário que ela seja energi-
a emergência do momento Eu-Tu. no qual, de in Fagan, 1980, p. 50) zada por seus planos de fundo, que
acordo com Buber, a cura existencial se dá. No livro de PHG ( 195 !). os autores se "alguma coisa brote" e seja susten~
referem ao excitamento como evidência de tadora. [... J A figura é consciência
Marisete Malaguth Mendonça
e Virgínia E Suassuna Martins Costa realidade: "Contato, figura/fundo é perceptual (awarenessJ e o plano de

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El«:ITAÇÍÍO /EXCITAMENTO 94 95 E)(l$ffiJCJA

fundo é não consciência ou consciên- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS "Todo o problema da existência do mundo foi centrando-se apenas no como e agora da
cia marginal, mas simultaneamente ff,C,J,.N, J.; SHEPHERO,
1. L (orgs). Gestalt-terapla: teoria, reduzido à pergunta: Quanto dele existe para o existência''. Finalmente temos a abordagem
técnica e oplícoç6é$. Rio de Janeiro: Zahar. 1980.
organismo e ambiente. indivíduo?" (Perls, 2002, p. 75-6). gestattista, que tenta compreender a exis-
Lofl\EDO, A M. Acaro e o rosto. São Paulo: Escuti, 1994.
Na primeira das "Quatro palestras• (ín Fa- tência de qualquer evento pelo modo como
Fl:?J.S, F. S. {1942), Ego, fome e ~ · São Paulo: Sum-
O conceito de awareness, tão fundamental mus, 2002. gan; Shepherd. 1966)'º que, segundo Fagan ocorre. que procura entender o vir-a-ser
a essa abordagem, "caracteriza-se pelo conta- _ _ _. ·Quatro pálestras". ln: FAGAN, J.: SHa>H!iRD. 1. e Shepherd, constitui "o mais extenso enun- pelo corno, não pelo porquê (Fagan e She-
(orgs.}. Ges!alt-terapía: teotia, técnica e aplicações ciado do pensamento de Perls sobre um certo pherd. 1980, p. 29).
to, pelo sentir (sensação/percepção), pelo ex-
Rio de Janeiro: Zahar, 1973.
citamento e pela de Gestalten. [ ...] número de questões, desde a publicação de h:> se referir ao trabalho com sonhos no
l'ERJS. F. S.; HéHl'RUNE, R; G()()(:)IW;, P. ( 1951 ). Gestolt-
Excitamento abrange a excitação fisiológica as- teropkJ. São Paulo: Summus, 1997. EFA e da obra de PHG -. Perls descreve quatro texto "Gestalt-terap'1a e huma-
sim como indiferenciadas" (Robine, Ro,;,NE, J.-M O se/f desdobtodo. São Paulo: Summus, possibilidades de abordar o estudo do compor- nas" ( 1966). Perls comenta sobre uma suspeita:
2006. tamento: 1) científica; 2) religiosa e filosófica;
2006, p. 33).
3) existencial e 4) Gestalt. Nesse texto. Perls Suspeito que o sonho não seja um de-
VERBETES RELACIONADOS
A excitação é a forma indiferencia- marca uma diferenciação em ao pen- sejo satisfeito, ~em uma profecia do
Ansiedade. A'M?re'leSS, Cootaro, Emoções. Energia. figura
samento existencial, pois. embora entenda que fi,turo. Para mim, é umn mensagem
da e primitiva da emoção, o aumento e fundo. Holismo, Necessidades, Sistema sensooomotor.
Teoria organlsmica este se concentra no que é atual na existência. existenâa/. Esltl diz ao paciente qual
de mobilizaçiío de energia requisitado
ou no que é (Perls se refere à abordagem exis- é a situação de vida e especialmente
para o organismo responder a situações
tencial como "é-ismo"). em uma con- como modificar o pesadelo da existên-
novas. No rectm-=ido, esta resposta
EXISTÊNCIA cepção de existência que ainda uma cia, tornando-se consciente e 11ssumin-
é macÍfil e relativamente indireta e, aos
Em meados dos anos l 920, Perls passa a estrutura causal. do seu lugar 11istóríco na vida. (Perls
poucos, a criança diferencia as partes de
se interessar pelos temas da existência e da ín Stevens, 1977, p. 25)
seu mundo e, gradualmente, transfor-
filosofia existencialista. Seus contatos iniciais se Mas nenhum das existencialistas, com
ma a excitação indiferenciada em ex-
dão por meio de vários autores, embora Bu- a poss{vel exceção de Heidegger, pode Nessa mesma coletânea de autores, no
citação seletiva, referindo-se às emoções
ber e Tíllích pareçam ser os mais influentes. realmente estender sua idéia existen- texto seguinte, de grupo versus te-
específicas. (Lofredo, 1994, p. 146)
Já em seu primeiro livro, EFA ( 1947). quan- cial ao comportamento ontológico rapia 1ndiv1dual', Perls refere-se ao
do trara da questão das formas de abordar a -que uma coisa é explicada através de existencial" como uma srt:uação de paralisia e
Em suma, ritmo, vibração, tremor, afe-
realidade (Capítulo 4), Peris comenta sobre a sua própria existência. Eles ficam per- medo em que o ser humano sente a dificul-
to são formas de expressões da excitação.
importância da questão para os filósofos e or- guntando "por quê?" e, assim, têm de dade de abandonar as formas habrt:uais corn
"Qualquer que seja a excitação necessária
sua visão em tomo de duas escolas: a continuar retrocedendo e procurando
para criar e enfrentar a ela provém uma situação em que "o ambiental não
que afirma a existência do mundo apenas pela apoio: Sartre no comunismo, Buber no
do organismo, e não existe excitação des- está disponível e o paciente é, ou acredita
percepção e a que afirma essa existência inde- judaísmo, Tillich no protestantismo,
necessária" (Perls in Fagan: Shepherd, 1973. ser; de lidar sozinho com a vida" (in
pendentemente dela. Tema por excelência da Heidegger, em pequena medida, no
p. 50). A emoção é a própria linguagem do
filosofia existencial, a relação entre interesse e nazismo, Biswanger, na psicanálise.
organismo, é a "força que energiza todas as
constituição da realidade é discutida por Perls (Fagan e Shepherd, 1980, p. 29) 11 Em ootra passageM de urn texto -do mesroo ano
nossas ações•. Ela modifica a excitação básica Perls comenta: "Todas as escolas do existencialismo
(2002, p. 75-6) nos seguintes termos: ·0s
de acordo com o contexto: a excitação trans- tizam a experiência direta. 1'035 a maiona delas têm uma
instrumentos ela percepção se desenvolvem a No entanto, a Gestalt se diferencia- moldura conceituai. com sua teologia protes-
forma-se em emoção e esta se tante, Buber com seu $.vtre com seu comu-
serviço de nossos interesses; por conseguinte. ria pela dispensa da estrutura causal, con·
nismo e com a psicanálise. A GestaJtAerapia é
transforma em ação sensorial e motora. que
o problema deveria ser. o mundo integralmente pois reconhece t.nto a alivída-
realiza ela necessidade. de cor<:eirual quanto a biológica de Gestalten.
ou apenas na medida em que nossos interes- feitas no Allanta Worbhop in Ges· É, portanto, realmente experien<ial• (in
Steve,i,. i 977, ;,. ! 9),
Marisa Speranza ses estão envolvidos", ao final do que nos diz:

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Stevens, 1977, p. 34). Na seqüência dessa A ênfase da GestalHerapia no "aqui e ago-


continua: EXISTENCIALISMO engloba as de originais e influen-
ra' é a ênfase na importmcia dessa atualidade
No primeiro livro de Gestalt-terapia, a tes autores, desde o século XIX.
da existência, de prestarmos atenção e valori-
Para Freud, o presente induta mais ou obra de PHG de 1951 • não há nenhuma refe- Em termos filosóficos, o existencialismo
zarmos essa atualidade, uma vez que estamos
menos as últimas 48 horas, Para mim, postos no mundo diante da impossibilidade rência ao pensamento fenomenológico e exis-
o presente incluí uma experiência tencial como influênoas nessa nova aborda- Racionalismo e do Positivismo. Podemos ter.
de outra forma de existência que não esta. É
infantil se ela for vividamente recor· gem. Em 1969, quando publica seu segundo assim, como pontos mais ou menos comuns
como diz o próprio Fritz, em uma passagem
dada agora; incluí um ruído na rua, livro, expltcoda. Perls ( 1977) às várias perspectivas existencialistas - além
que talvez seja a que mais sucínra e objetiva-
uma coceira no rosto, os conceitos de defende que o objetivo da Gestatt-terapia dessa contraposição ao Racionalismo e ao
mente define sua concepção de existência:
Freutj e os poemas de Rílke e milhões seria promover o processo de crescimento e Positivismo, e da à ontologia e
"Existência é 'atualidade' (octuality). É tomar-
de outras experiências que, em qual- desenvolver o potencial humano apontando à metafísica tradicionais -, o conhecido rep-
se presente' (ín Stevens, 1977, p. 84).
quer hora e em qualquer grau, saltam apenas um caminho para isto: tornar-se to de J. f' Sartre de que a existência precede
Perls nunca esteve interessado em de-
para dentro da existência, da minha real, aprender a assumir uma posição. desen- a essência... No sentido de que a existência
senvolver aprofundamentos filosóficos em
exístincia no momento. (in Stevens, volver seu centro, compreender a base do não tem um sentido ou valor predefinidos.
1977,p. 34) existencialismo[.. .]" (Per!s, 1977, p. 16). Existimos em intrínseca correlação com o
mo, mas apenas em extrair desses pensa-
Seu aHnhamento com a ps1<:olc>g1a huma- mundo, como dado origináno e nris.r,,;1,,-,,_
mentos o que fosse necessário e criativo
Por fim, em sua obra Esca- nista em oposição ao modelo psicanalítico é vo. Deste existir, criamo-nos, como o que
qLanto aos dilemas humanos: ''.Aqui, não
rafunchando Fritz ( 1979), Perls comenta bre- declarado, apesar dessas apre- somos, e como o que podemos vir a ser. O
estou inclinado a me ocupar com questões
vemente sobre a existência autêntica e, base- semadas, e o pensamento existencialista é sentido, o valor. a potência artística existencial
fiiosóficas mais do que o absolutamente ne-
ando-se em (a filosofia do "como apontado como fundamental para embasá-la. de vir-a-ser, com base em nossa afirmação e
cessário para a solução de nossos problemas
afirma que, "como seres sociais, levamos Em uma passagem dessa obra, Perls ( 1977, criatividade existenciais. em nossa liberdade,
e por certo não estou querendo participar
uma existência 'cofno se'; na qual h.Íum~ P• 33) expõe: •considero a hP<:T;:l'rr.r,nr.,n,~ em nossas escolhas e responsabilidade.
de nenhuma discussão meramente verbal"
coníusão considerável entre realidade, fantasia {Perls, 2002, p, 75). atualmente um dos três tipos de terapia exis- A reinterpretação feita por Franz Brentano
efingimento"(/979,p. 16). tencial. A de Frankl, a terapia do do de intencionalidade confere, tam-
Existência é a realidade fundamental para Dasein, de Biswanger, e a O bém, portanto, um elemento central da con-
o existencialismo, corrente filosófica do século REFERÊNCIAS BIBUOGRÁflCAS que é importante é que a Gestalt-terapia é a cepção da existência e do existencialismo, e
XX que entende a realidade corno rnr,t,n.c,i1,r,. FIG<N, J.; SHEPHEHD, 1, L (orgs.). teoria, primeira filosofia existencial que se em de sua atitude. O princípio de intencionalidade
eia e finitude, ou que tem fim e só pode ,écn,ca e opl1caçll€s. Rio de Janeiro; 1980. si própria". Para ele, "o existencialismo deseja caracteriza particularmente a existência, que
G1AÇó1A JR., O. fêglléno díclOllÓflO de fíloSl'.lf,a contemporâ- se libertar dos conceitos, e trabalhar com o se dá, assim, corno de ser-no-
ser apreendida por alguém no instante atual,
nea. São Paulo: Publifolha, 2006.
pois no instante já não é a mesma. principio da nr,,se,ntffiirrlf·~n· (=reness), com mundo. na qual são intrínsecas a n;;rtiri,n:>r.ãn
ÍléRLs,F. $, (1947). Ego, fome eogressoo. Sao F\illlo; Sum-
A realidade da existência é a contraposição à mus, 2002. a fenomenologia". ea do mundo. A concepção de
realidade das essências metafisicas que, sendo &:IJ/'afimdiando Fritz: dentro e fora d<J lôta de O termo "existencialismo" se refere a um ·intencionalidade" de Brentano é radicalizada
lixa. São Paulo: Surr.mus, 1979. marcante movimento, na filosofia e em vá- no conceito de ser-no-mundo, que caracte-
infinitas e universais, não se desgastam com
O tempo. STE\'fNS, J. O. (org,), Isto é Gesralt. São Paulo: Summus, rios ramos da cultura, que se caracteriza por riza o existencial na perspectiva da ontotogia
permanecendo sempre iguais, inde- 1977.
pendentemente de quem quer que venha a uma compreensão e particulares fenomenológico-existencial hermenêutica de
apreendê-las. Sendo a realidade fundamental, VERBETES RELACIONADOS da existência. Compreensão e concepção M. Heidegger. O existencial se dá, portanto,
então para O existencialismo é a existência que Aqui e agora. Auto-apoio, apoio ambiental e maturação, estas das quais derivam atrtudes existenciais momentaneamente nessa correlação inten-
precede a essência, e não o contrário, corno Camadas da neurose, &isrenáaiismo, Fenomenologia, igualmente particulares, em contraposição à cional, que está para além da dicotomia sujei-
Gestalt, Gestaltísmo, Pré5ente. Psicoterapia de grupo e ontologia, à metafisica e à cultura tradicionais.
quer a metafisica tradicional. worts/Jop, Sonhos
to/objeto e da possibilidade de um sujeito em
Em suas versões modernas, o existencialismo si, ou de um mundo em si .

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DICIONÁRIO DE GESTALT-TERAPIA
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O existencial, vivencial, pode ser entendi- Podemos pensar um plano no qual se Para Sartre, a existência humana é condena- doras de Franz Brentano, que propagou suas
do, na per:.pediva de F. Nietzsche, como for- diferenciem o existencialismo anterior ao sé- ção à liberdade. idéias aos psicólogos da Gestalt, a Husserl e
ça. como especificamente ativo e afirmativo. culo XX e o existencialismo do século XX e No existencialismo filos6fico temos a Heidegger.
Caracteriza-se, dessa forma, como afinnação, posterior. Ou outro plano que marca a distin- ainda as importantes contribuições de Karl M. Wertheirner e K. Goldstein exerceram
corno essencialmente e em si já afirmativo. ção entre existencialismo alemão e existen- ( 1883-1969), de Martin Buber importante influência sobre Perls. sintetizador
A atitude existencial caracteriza-se, portanto, cialismo francês. Em outro plano, podemos ( 1878-1965) e de Paul Tíllích ( 1886-1965 ). da e sobre Carl Rogers. M.
desde Nietzsche, como urna atitude de afir- pensar em existencialismo filosófico. desig- no âmbito do ex,stencíalismo alemão. Buber teve grande influência na
mação da "afirmação", que é a existência. o nado com a expressão de origem alemã de mística judaica - e Tillich - protestante -. das idéias de Ludwig Binswanger e M. Boss,
existencial. Herança da filosofia de Nietzsche "filosofia da Exístensz (Exístenzphílosophie); e dois expoentes do existencialismo religioso. que desenvolvem a Dasein análise. Por inter-
que é também característica dos existencialis- existencialismo literário, e artístico de modo Gabriel Marcel ( 1889-1973), francês, igual- médio de Rollo May e de Abraham Maslow,
mos subseqüentes. e ainda o existencialismo na os,col,o,;ia mente religioso, era católico. Podemos ain- eles fazem transfl.ar da muito do pen-
Soren Kierkegaard teve urna marcante e psicoterapia. Podemos pensar num plano da citar Simone de Beauvoir ( 1908-1986), sarnento e das posturas existenaaís em psico-
influência na dos existencialismos de distinção ainda entre existencialismo re- francesa, e Miguel Unamuno y Jugo ( l 864- logia e para a psicologia humanis-
na medida em que se opôs ao universalismo ligioso e existencialismo não religioso. Entre 1936), espanhol. O chamado pós-moder- ta norte-americana, ou
idealista da filosofia hegeliana para valorizar a eles, naturalmente, interconexões, díferen- nismo também traz influências ;m,,r.rt:mt<>c para Carl e Fritz Perls. Martin Buber,
existência individual. a paixão e a subjetividade e do existencialismo.
como referêncías do verdadeiro. Sua filosofia Na esteira das influências, entre outros, O Expressionismo, movimento das ar- ao nosso modo Eu-Isso de ser, exerce uma
ganha um cunho em,nentemente de F. Nietzsche, de M. Heidegger e de E. tes que se desenvolveu na Alemanha a par- influência muito importante.
tir dos finais do século XIX, grandemente Por fim, Otto Rank, n,,,coti>raque
configurando-se quase como uma Husserl. J. P. Sartre ( 1905-1980) desenvol-
O que não o impediu de produzir importan- ve as suas idéias e passa a ser um dos mais influenciado pela füosofia de F. Nietzsche, desenvolveu suas idéias de acordo com a
tes existenciais que influenciaram significativos representantes do existencialis- tinha um caráter fortemente existencialista. perspectiva níetzsch1a11a. também realizou
todo o existencialismo e, em o exis- mo. Elabora e cunha, como mencionamos, Esse caráter era potencializado pelas duras uma importante conexão entre o existenda-

tencialismo religioso. uma das expressões mais significativas do condições na Alemanha anterior à Primeira hsmo e as psicologías e psícoterapias de Fritz
Os existencialismos se caractenzarn por movimento existencialista: a existência pre- e à Segunda Guerras. Foi um movimento Perlse Carl

temáticas como Ser e ser, ontológico, ôntico, cede à essência ... Inverte desse modo are- que se espalhou da dança e da pintura para Afonso Henrique Lisboa da Fonseca
a condição humana, subjetividade. multiplici- lação que a metafísica tradicional estabelece o teatro, para a literatura, para a escultura,
para a expressão corporal, para a arquitetu- REFERÊNCIAS 818UOGRÁFICAS
dade, processo, o nada, o sofrimento. a finítu- entre essência e existência. E entende que é
ra, para o cinema, e outros ramos da arte e BEt.uFREr, J. lntroduçiio às (iíosof,as da e,astênc1a São Pau-
de, a liberdade, a alterídade, a autenticidade, a com base na responsabilidade de seus atos lo: Duas Cidades. 1976.
escolha, o projeto, a transcendência, a angús· e escolhas conscientes, e nas da cultura.
crn1çe<1üiin- HAA!iNDT, H. ·o que é a filosofia da Exístenz". ln: A dig-
tia, o possível, a afirmação, a condição huma- cias destes. que o homem se cria, de modo Na psicologia e na psicoterapia, o existen- nidade da pofü'ica. Rio de Janeiro: f\elurne Dumará,
cialismo tem também uma influência marcan- 1976.
na, a a aiatividade, a consciência, eminentemente existencial; que à existência
f'Eru.s. E S. GesoolMerapía expficado. São Paulo: Surnmus.
a interpretação compreensiva, o paradoxo ... confere valor e sentido. Sartre definiu e criti- te e decisiva, com o desenvolvimento da psi-
1977.
Essa unidade de idéias, de perspectivas e cou a má-fé como a negação da responsabi- cologia e fenomenológico-exis- Wt41L, J As filosofias da existênda. Lisboa: Europa-Amé-
posturas. de atitudes do existencialismo com- lidade à existência, à liberdade, às escolhas e tencial, que possui como escolas importantes rica. 1962.
porta, também, uma diversidade, e mesmo decisões. Criticou, em particular, o modo de hoje em dia a Gestalt-terapia, a ,,h,-,r,.;1,.rr,,m
rogeriana e a Dasein análise. Essas influên- VERBETES RELACIONADOS
como observamos. Pode- vida de ser-para-outros, que busca uma aco-
cias do existencialismo e da fenomenologia AIM:lreness. Crescimento, Diaiógico, Eu,Tu e Eu-l;so, fo.
mos, desse modo, abordar o existencialismo modação à perspectiva dos outros, se nomeoologia. Ser-no-mundo
segundo cortes diversos. e até contraposi- tificando dessa forma, e comprometendo a em psicologia e psicoterapia se desdobram
ções diversas. subjetividade, para fugir à responsabilidade. desde as concepções fundamentais e funda-

DICIONÁRIO DE GESTALT·TERAPIA
OICIONÁRIO DE GESTALT,HI\APIA
100 101

EXPERIÊNCIA partes, neste momento. não podem signífKar Talvez, por isso, seja tão dítTdl definir o no sentido da mobilização da ronsci-
Édado bastante destaque ao papel da ex- nenhuma outra coisa· (PHG, 1997, p. 221 ). que experiência para a Gestalt-terapia, êncía e da afào do organismo no meio,
periência no livro de PHG de 1951 , no qual Na Introdução da obra de PHG (1997, p. pois essa abordagem é baseada na própria para a efetivação e desdobramento do
os autores expõem: '!4. experiência se dá na 23), lsadore Frornm e Michael Víncent Miller experiência como a realidade concreta da vi- contato, da auto-regulação e do ajusta-
fronteira entre o organismo e seu ambiente, dizem que: ·o local primordial da experiência vência do homem. que se dá na fronteira de mento criativo. (Fonseca, 2005, p. 81)
primordialmente a superlicíe da e os ou- psicológica, para onde a teoria e a prática psi- contato deste com e no meio, sendo o espa-
tros órgãos de respasta sensorial e motora". coterapêuticas têm de dirigir sua atenção, é o ço psicoter.í.pico o momento experimental da Definindo a proposta metodológica da
Mais especificamente: 'i'\ experiência é função próprio contato, o lug'1r onde sei( e ambiente dialógíca em processo. Segundo Peris Gestalt-terapia. partindo desse caráter de va-
desta fronteira .. ." (PHG. 1997, p. 41 ). organizam seu encontro e se envolvem mutua- ( 1981, p. 30): "A psicoterapia, então, deixa de lorização da própria experiência na situação
do PHG ( 1997, p. 41-3): mente". Desse modo, afirmar que a ser uma escavação em termos de terapêutica. Fonseca nos lembra das palavras
experiência psicológica se dá pelo contato e repressões, conflitos edipianos e cenas primá- de PHG (apud Fonseca. 2005, p. 81 ):

As totalidades de experiência não na fronteira do contato. rias, para se tomar uma experiência de viver
induem "tudo'; mas são estruturas Em A abordagem gestáltica e testemunha no presente". A psicoterapia é antes um processo de
unificados definidas, e psicologica- ocular da ( 198 1), Perls apresenta na Fonseca (2005, p. 67), em artigo intitulado situações experimentais de vida que
mente todo o mais, inclusive as pró- 1rm·tv111r,,... um dos mais contundentes e elu- "A experimentação fenomenológico-exístencíal têm um caráter aventureiro como as ex-
prias idéias de organismo e ambiente, cidativos relatos de sua visão da realidade do em Gestalt-terapia", diz que talvez não haja nada plorações do obscuro e do desconhecido,
é uma abstração ou uma construção homem contemporâneo e da proposta da mais característico em termos do sentido que ainda assim sao, ao mesmo tempo,
possívet ou uma potencialidade que e;,,,stalt-t""'"''" diante dessa realidade. da quanto o seu caráter especi- seguras, a ponto de possibilitar que a
se dá na experiência como indício de fica e eminentemente expetimental'. Esse cará- atitude deliberada possa ser relaxada,
alguma outra experiência. Falamos O homem moderno vive m,m estado ter basicamente experimental da Gestalt-terapía
do organismo que se põe em contato de baixo grau de vitalidade. Embo- "[...] funda-se numa disposição para assumir Podemos conceber a Gestalt-terapia como
com o ambiente, mas o contato é que é ra, em geral, não sofra profunda- afi:matívamente o vivido, e o processo herme- um convite á Perls, em Gesta/t-
a realidade simples e primeira. J••• J a mente, pouco sabe, no entanto, da nêutico de seu desdobramento, como referen- terapia ( 1977, p. 80), disse: ·o
experiência é essencialmente contato, verdadeira vida criativa. Tornou-se cial básico de e de afirmação da vida. de que eu como é trabalhar
o funcionar da fronteira entre o orga- um autômato ansioso. [... ] Este livro avaliação e de orientação• 2005, p. como catalisador [...] provocando >it,1<1\<Je~
nismo e seu ambiente !... J. constitui a explorafào de um enfo- 68). Segundo sua Fonseca (2005. nas quais a pessoa possa experimentar. ..".
que relativamente novo à totalidade p. 76) afirma: "A entrega à concretude da exis- Ainda em relação ao papel do psicoterapeu-
Ainda neste livro. o conceito de ·experiên- do tema do comportamento huma- tência faz parte fundamental da hermenêutica ta, ele acreditava que nós, Gestalt-terapeutas,
cia' é novamente discutido em ao no - tanto em sua realidade quanto da Gestalt-terapia. [...J do prívilegiamento das "( ...] pegamos toda a e a espelha-
processo de contato. Eles dizem (PHG, 1997. em sua potencialidade. Foi escrito de uma atitude experimentalmente mos [...] espelhamos [ ...] ~ a parte que está
p. 221 ): "Semelhante awareness só é possível a partir da crença de que o homem oia1021,ca, que se constituí o caráter experimen- viva· (Peris, 1977, p. 80). Quanto à função da
com relação a um todo-e-partes, onde cada pode viver uma vida mais plena e tal da Gestalt-terapia [.. .]". Quanto ao sentido técnica nessa abordagem, encontramos:"(. . .]
parte é experiendada imediatamente como rica do que a maioria vive agora. da própria vivência, esse autor diz: minha técnica evolui cada vez. mais. no sentido
compreendendo todas as outras partes e o [ ... ] O livro tenta juntar a teoria e de nunca, nunca Apenas espelhar
todo, e o todo é exatamente o todo dessas a aplicação prática dessa teoria aos A vivência, o vivida, eminentemente {back-feeding12), provendo uma oportunidade
partes". Explicado de outra forma, encontra- problemas da cotidiano e às técnicas experimentais, e suscetíveis à afirma-
mos: "A experiência não teva em conta quais- psicoterápicas. A teoria em si é base- ção, experímentativa, perspectivativa,
quer outras possibilidades porque é necessá- ada na experiência e na observação na ação, no campo organismo-meu,,
ria e concreta: o concreto é necessário, estas !... ]. (Perls, 1981, p. 11-3) configuram-se no proc.esso do contato

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para a outra pessoa descobrir a si mesma" De uma forma restrita, o experimento é [... i Essa terapia é flexível e ela mes-
(Perls, 1977. p. 168). Esse é o convite que mente sobre sí mesmo e viver a terapia como um método de trabalho da Gestalt- ma uma aventura da vida. O trabalho
a vida, num processo contínuo de conscien- terap1a. Numa visão mais ampla, há múltiplos terapêutico [... J não é "descobrir" o
suas experiências e se experimente, no aqui e É desse contexto que surge a sentidos, pois ele expressa a filosofia holística, que está errado com o paciente e entiúJ
agora, do modo mais espontâneo possível. . Para explicá-lo como um organísmica, fenomenológica, existencialista e "contar a ele': O que é essencial
<>,rr,.-.rír>nríal da abordagem, e às nilo é o terapeuta aprender algo sobre
instrumento para obter maior awareness de si
Patrícia uma (TKha)
mesmo e criar direções mais satisfatórias para suas dimensões cientifica e artística. O proces- o paciente e então ensinar isso a ele,
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS o cliente, Fritz Perls e seus colaboradores es- so de defini-lo é extenso e multifacetado, e se mas o terapeuta ensinar ao paciente
roNSE<:'A. A Gestalt-terapía fenomenológico-ex1stenc1a!. tabeleceram princípios que constituem a ratio- inicia com PHG ( 1980, p. 16), que, recorren- como aprender sobre ele mesmo. Isso
Maceió: Pedang. 2005. do ao latim, formulam em dois momentos a envolve ele estar diretamente aware
nale do experimento ainda atualmente.
i'ERLS, F. S. A aboroogem ges!àitiC<J e testemunha ocL~Cl! do do termo: de como. sendo um organismo vivo,
terapia. Rio de jat"eíro: Zihar, 198, . Em termos de sua pré-história, os funda·
ele realmente funciona. Isso tem como
_ _. Geswlt·teropk} explicada. São Paulo: Summus, mentos começam a ser delineados em EFA.
[... ] experimento deriva de base experiências que sào elas mesmas
1977. de 1942, livro no qual Fritz Perls corstróí a
Ptru.s. E S.; R.; GOODMAN, P. (1951). Gestalt· ri, tentar. Um experimento é a ex- não verbais. (PHG, 1980, p. 17; tra-
HEFFEPJ..INE, transição da psicanálise freudiana para a Ges-
terapia. São Paulo: Summus. i 997. perímentaçào, tentativa ou especial dução nossa)
talt-terapia. Perls prenur'lda novos princípios
e justifica a necessidade de uma nova técnica observação feita para confirmar ou
VERBETI!!S RELACIONADOS A "abordagem clínica" [... ] a antíte-
para a então denominada terapia da concen- refutar algo duvidoso, especialmente
i'>quí e agora, A~ss. Contato. Dialógico, Esponta·
aquilo sob condições determinadas se da abordagem experimental. [... )
neidade, Fror,teíra de contato, Organismo. Parte e todo, tração. Perls (2002, p. 263) diz: "[...] A aplica-
Presente, Self. Sistema sensorxxnotor pelo experimentador. Um ato ou ope- considerando controle das "variá-
ção prática de descobertas cientfficas o
veis" introduzidas pelo settíng cuida-
desenvolvimento de uma nova técnica [... r. ração empreendida a fim de descobrir
Sobre a nova técnica encontramos: algum princípio ou efeito desconhe- dosamente simplificado da situação
EXPERIMENTO cido, ou para testar, estabelecer ou terapêutica comparado com a comple-
ilustrar alguma verdade sugerida ou xidade total do dia-a-dia [... ] numa
A nova técnica... é teoricamente sim-
experimento é apresentada no primeiro capítu- conhecida; é um teste prático; uma atmosfera livre de distrações {... ] o
ples; sua meta é recuperar a "sensação
lo do livro de PHG ( i 980). Parte desse capítulo de nós mesmos'; mas a realização desta prova. [... ] a entrevista terapêutica tempo está aberto para o que vier a
foi dedicada a explicá-lo e, no restante do tex- é experimental de momento-a-mo- acontecer [... j as penalidades costu·
meta é, às vezes, muito dif{cil. Se você
to, bem como em todo o primeiro volume da mento, no sentido de "teste isso e veja meiras para o "mal-comportamento"
está "erradamente" condicionado, se
obra, sua definição aparece entremeada com o que acontece''. O paciente é ensina· estão humanamente acolhidas. Na
você tem hábitos "errados'; será muito
a exposição de aspectos cruciais sobre a teoria do a experienciar a si mesmo. "Ex- medida em que o experimento prosse-
mais dífícíl edificar este estado de coi-
e a prática da nova abordagem, que objetiva- sas do que adquirir hábitos novos. Só peri.enóar" deriva da mesma f ante gue, o paciente ousa mais e mais em
latina experiri, testar, do mesmo ser ele mesmo (... ] quando o settíng
va superar as perspectivas dualistas vigentes na quando vod considerar a aquisição da
jeito que a palavra "experimento': e está organizado com habilidade e as
psk:ologia da época, pela adoção de urna lin- nova técnica que quero demonstrar,
o dicionário dá a ela o mesmo senti- sessões conduzidas com competência.
guagem e uma visão unitárias do homem. com toda a awareness das dificulda-
do que pretendemos aqui, a saber, o (Feris, 1980, p.16)
Os autores se dedicam a explicitar como des que se aproximam, serei capaz
criar um ambiente terapêutico que auxilie o de auxiliá-lo a adquirir o alfabeto de viver presente por meio de um evento
ou eventos. (tradução nossa) É nesse livro a possibilidade de o
diente a se lançar no processo de aprender "sentir" a si mesmo[ ... ]. Nossa técnica
crescimento pessoal e a autodescoberta acon·
a reintegrar partes dissociadas, sensibilizar-se não é procedimento intelectua~ embo-
A proposta implícita - o experimentar é tecerem dispensando a presença de um te-
novamente, testar novos e criativos ajusta- ra não possamos igriorar totalmente o
enunciada pela filosofia da abordagem: rapeuta. No entanto, quando são formuladas
mentos, ser responsivo ao seu aqui e agora, intelecto. (Perls, 2002, p. 264)

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DICIONÁRIO DE GESTALT,TfRAPIA
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menológíca e corno tal experiencial e experi- suporte e depois o correr riscos, depen- tasia [... J com pessoa náo dispontvel
postulam-se alguns dos princípios que consti- mental' (Perls, 1992, p. 149). Continuando: dendo do que pareça mais saliente no encontro com [... J que encontre resis-
tuirão a relação terapêutica em si uma pre- "Como uma Gestalt-terapeuta, prefiro falar momento[ ... ]. tência [... J exploração do desconhecido
sença ativa, porém não diretiva do terapeuta. em estilos como uma maneira unificada de [... ] de aspectos novos de si mesmo [... J
Nesses trechos ficam evidentes as idéias de expressão e comunicação. Em Gestalt-terapia Segundo Zinker ( 1979, p. 108): "[...] a trabalho com sonhos e lição de casa (... J
processo, de respeito pela singularidade e há tantos estilos de terapeutas quanto há de sessão de terapia pode converter-se em uma experiências reais da vida_ (Polster;
possibilidades do díente, sua responsabilida- clientes" (Perls, 1992, p. 133). Para concluir: série de pequenas situações de ,,.,,.,,,,,,r,n;, Polster, 200 I, p. 254-79)
de e O cliente é considerado "[. ..] Gestait-terapía não é nem uma técnica que se entrelaçam ,..,rcr:m,,rarri..,nt,, umas com
seu próprio instrumento de trabalho. específica nem uma de técnicas es- desempenha Zinker (1979, p. 106) destaca algumas
pecíficas[...] a tarefa da terapia é desenvolver 1 urna particular para o díente e contém metas para o
Forneceremos um método pelo qual
você pode conduzir uma investigação
suficiente suporte para a reorganização e re-
1 uma surpresa em potência, uma descoberta
[ ••• J expandirorepertóriodecomporta-
'ª''"''·u,,;u da energia. Os conceitos básicos totalmente inesperada tanto para o cliente
sistemática e reconstrução da sua si- [...] são filosóficos e estéticos mais do que téc-
t como o terapeuta". Esse autor define: mentos da pessoa; criar condições para
tuação presente. O procedimento está
organizada para que cada passo ofere-
rncas" (Perls, 1992, p. 149; tradução nossa em
todo este n;i'"'"'""fc,\.
l
l ( ... J o experimento da Gestalt-terapia
a pessoa se perceber criadora de sua
vida e de sua terapia; estimular uma
ça uma base necessária para o próxi- É por intermédio de ENing e Míriam Pols- ! é uma forma de pensar em voz alta, aprendizagem experimental da pessoa
mo. Você irá ao seu próprio ritmo. Em ter (2001 ), e Joseph 1979), discípulos ' uma concretizafão da própría ima- e elaboração de novos conceitos sobre si
qualquer situação, você não irá um de Perls, que o experimento como método ginação, uma aventura criadora. (... ] mesma a partir de elaborações no plano
passo à frente do que você desejar. [... J terapêutico e corolário de técnicas foi siste- o experimento criativo, se funciona do comportamento, terminar situações
Nós nos comprometemos a fazer nada matizado e explicado no processo da bem, ajuda a pessoa a arriscar uma inacabadas, superar bloqueies no ciclo
a você. Ao contrário, nós damos algu- da sessão ou do 1:ratamento individual, nova maneira de expressar-se, ou pelo consciência-excítação-contato, integrar
mas instruções para que, se você dese- de casais, famílias e grupos. Citando os Polster menos a leva aos limites, a fronteira c.ompreensões intelectuais com expres-
jar, você possa lançar-se numa aventu- (200 1, p. 239): ou ponto a partir do qual ela necessita sões motoras, descobrir polaridades
ra pessoal progressiva, aonde, pelo seu crescer. (Zinker, 1979, p. 106) desconhecidas, integrar forças pessoais
próprio esforço, você poderá descobrir O experimento em Gestalt-terapia é em conflito, [... ] reintegrar sentimentos
algo para o seu self- [... ] organizá-lo wna tentativa de agir contra o beco O casal Polster definiu alguns tipos clássi- e idéias, estimular [... J vigor e compe-
e colocá-lo para uso construtivo para sem saída do falar sobre, ao trazer cos de experimentos: tência, atitude explorativa e responsá-
viver sua vida{ ... ]. (PHG, 1980,p. 9) o sistema de ação do indivíduo para vel consigo mesma.
dentro de consultório. Por meio de [... ] a representação [...] é a dramati-
O desenvolvimento da abordagem, efeti- experimento, o indivíduo é mobiliza- zação de algum aspecto da existência Para esses autores, o experimento acon-
vado pelo próprio Fritz Perls, por Laura Perls do para confrontar as ernergências de do paciente, que ocorre dentro da cena tece num momento determinado da sessão,
e inúmeros Gestalt-terapeutas das eerac(,es sua vida, operando seus sentimentos teraprutica [... ) a representação pode e há regras sobre corno construir um experi-
seguintes, originou cisões, desdobramentos e e ações abortados, numa situação de assumir diversas formas [... J alguns mento, em que momento utilizá-lo, inclusive
algumas ênfases no emprego do experimento. segurança relativa. Desse modo é cria- exemplos [•.. ] situação inacabada do reconhecendo que experimento é algo que
Como lembra Laura Peris ( 1992). é possível da uma emergênda segura na qual a passado distante, do presente, de uma vai se desenvolvendo ao longo da sessão e
haver vários estilos de praticar Gestalt-terapía, exploração aventureira pode ser sus- característica, de uma polaridade [... ] envolve o aquecimento, o estabelecimento
e essas diversas possibilidades se referem à tentada. Além disso, podem ser explo- O comportamento dirigido [... ] uma de vínculo entre terapeuta e diente, a com-
forma de entendimento e compreensão do rados os dois lados do continuum da prática relevante de comportamentos sua situação, do tema, entre mui-
que é "[...] uma abordagem existencial-feno- emergência, enfatizando primeiro o que ela possa estar evitando [... ], a fan- tos outros aspectos.

DICIONÁRIO Ot GESTAl T-HRAPIA DICIONÁRIO OE GESTALT-TERAPIA


E)(J'ERJMENTO 106 107 EXPUIIMENTO

Desde o surgimento da abordagem até sua em função do tema, das necessidades As "técnicas" surgem no contexto da Ftru.s. E S. ( 1942). fg:;. fome e agressão. São Paulo: ~
morte, Fritz Perls desejou criar um método te- do processo do cliente, nos momentos mus. 2002.
rei.ação. Nào há nada de errado com as
rapêutico que alcançasse o maior número de de impasse e no processo da sessão. O Pms. F. S.; HfffEN.INE, R.; Go<:ii::iM,w, P. Ges:alt theropy. 3.
técnicas em si mesmas, desde que não ed. Nova Yorl<; Crown, 1980.
pessoas. o que propiciou algumas distorções experimento é sempre singular, mes- sejam impostas arbitrariamente na PErus. L "Conceptions and mísconceptions of Gestalt the-
quanto ao uso e à compreensão do que é o mo que estejam sendo utilizadas téc- situação. Quando há um certo impas- rapy". Áustria, 1977, Palestra dada na EuropeanAssa-
experimento e à diferença entre a instância do nicas de uso corrente. O que ele tem de ciatioo for Transactional Analysís. Mais tarde pul:,icada
se nas sessões de terapia, é totalmente como "Lívíng at the Bouooary". Gestal1jourooí. Nova
método e a esfera das técnicas. Um experimen- peculiar é o seu manejo. (Salomão in apropriado utilizar uma das muitas Yort. v. 14, n. 3. 1992.
to construído ou fora da relação Groisman, 2003, p. 263-4) técnicas que as terapeutas gestálticos Potsre,, E.; l'oi..mR. M. Gestolt-terapio integrada. São
terapêutica deve ser compreendido como um Paulo: Summus. 2001.
consideram de ajuda através dos anos.
trabalho dirigido baseado nos pressupostos teó- YoNTEF.G. M. Procesm. diálogo e owareness. São Paulo:
f.s técnicas criadas por Fritz nos seminá- (..-] Contudo, é sempre necessário q_ue Summus. 1998.
ricos. Nesse caso, ele é uma proposição técnica rios e '<'.Ori:shops para seu próprio trabalho haja uma relação de confiança que per- ZlNKER. J. EJ proceso crro!Ml en la tempío guestáltíca. Bue-
que visa descortinar as muitas possibilidades de fenomenológico foram reproduzidas por te- mita ao terapeuta usar certas técnicas. nos Aares: Paidós, 1979.
experiência de uma pessoa. A outra perspectiva rapeutas mal treinados, como se fossem o
Sandra Salomão
do experimento ocorre na sessão de pskotera- método da Gestalt-terapia, colocando em ris- VERBETES RELACIONADOS

como um instrumento do método fenome- AjustaméOtO criativo. Aqui e agora, Awareness, Campo.
coa identidade da abordagem, ênfase do REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Concentração. Conscíen~zaçlio, Contato. Crescimen-
nológico, que surge na entre terapeuta é o aspecto relacional, a GRO<SJ"""· M. (org.) Ném do paraisa: perdas e ttonsformo- to. Dialóg,co. Emergência de necessidades. Energia,
e diente, de acordo com a experiência de am- çóes na família. Rio de Janeiro: Núcleo de Pesqrnsas. Existencialismo, Fenomenologia, Ho,smo. Polaridades,
denominada relação dialógíca entre terapeuta
2003, p. 263·4 Situação inacabada. Teoria organísmíca, Terapia e técnica
bos no aqui e agora da sessão. Cada encontro e clientes e o foco da Ol'll1reness é a situação HvcNa<. R.: j1>Coas. L. Relaç<io e cura em GestalHerapío. de concen+.ração
te~utico pode gerar um experimento: que se organiza no aqui e agora da sessão. O São Paulo; ~mus. 1997.
experimento maís básico, portanto, é a pró-
[... J Um experimento [... ] É contato pria relação.
emocúmal com a experiência. Ele pode Corno afirma, em artigo no The u,:c,w,c rv•v
ser composto de muitas técnicas, que na/, Laura Perls ( 1992, p. 13 i;
podem preexistir ou ser construídas na "Nenhuma interpretação é necessária enquanto
cena terapêutica a partir do que está trabalhamos com o que está d:sponível na atual
acontecendo no mamemo. [... ] Cer- presente I.Mf:Jreness do e do terapeu-
ta vez perguntei a Erving e Miríam ta e o que se toma possível com,
Polster quando e como fazer um ex- através dessa sempre crescente =rei1eSS •.
perimento com o cliente. Eles me res- E Gary 'lontef. em seu livro Processo, diálogo e
ponderam: quando ele for o pr6xímo =reness ( 1998, p. 236), completa: ·Av\Oreness
passo. 13 O terapeuta cria inúmeras sí-
tuaçôes que posteriormente se tornam estar em contato atento com o evento mais
"técnicas~ passiveis de serem reutili- importante do campo indivíduo/ambiente com
zadas em outras ocasiões e/ou não. O apoio energético, cognitivo, emocional e senso-
que distingue um experimento de uma nornotortorais [...] a ~ em si mesma é a
técnica é que um experimento surge integração de um problema".
Para finalízar, citamos Hycner ( 1997, p.
,, feita d1.Jf'ante o treinamento em Geswt-terapa
46-7), um dos teóricos da relação dialógica
C()ffl o Qsal Fblster. em

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f
FANTASIA pondêncía entre minha antecipaçãc
Para Perls ( 1979, p. 174), o termo "fanta- imaginária e a situação real possa
sia" ocupa um lugar preponderante na Ges- não ser absoluta, assim como a corres-
•ele [o termo é tão im- pondência entre a palavra 4 árvore" e
portante para nossa existência social quanto a o objeto é sá aproximada, é suficien-
formação da Gestalt para nossa existência bio- temente forte para que eu baseie nela
lógica". Considera pensamento, e minhas ações. (Perls, 1981, p. 27)
fantasia como sinônimos.
Perls três wnas de tomadas de
Entendemos que o pensar inclui um consciência, a saber: a a:msciência de si-mesmo,
número de atividades - sonhar, inta- zona do a do mundo, ou zona externa
ginar, teorizar, antecipar - fazendo o (ZE): e a que está na zona intermediária da fan-
tasia, ou zona desmiltt.arízada (ZDM), rambém
uso máximo de nossa capacidade de
conhecida como "a grande área de maya que
1 manipular símbolos. Para abreviar,
vamos chamar tudo isto de atividade temos conosco, ou seja, existe uma grande área
de fantasia que absorve tanto do nosso exata-
de fantasia, em vez de pensamento.
mento, tanta energia, tanta força vital que sobra
(Perls, 1981, p. 26-7)
muito pouco de energia para estarmos em con-

A atividade fantástica é o uso interno da


tato com a realidade" (Perls, 1977, p. 76).
simbolização. A fantasia sempre se relaciona
Distinguir fantasia (mayo 14) de realidade é
com a realidade, cujo sentido é dado pela pró-
uma das formas do funcionamento saudável,
a confusão entre os dois pode levar à
pria pessoa, ou seja, não se trata da realidade
neurose e, em casos extremos. à psicose.
em si, mas da realidade tal como apreendida
ou antecipada pela própria pessoa.

Eu antecipo, em fantasia, o que acon-


tecerá na realidade e, embora a corres-
110 111

O objetivo da psicoterapia é facilitar o te só no estado de awareness perdem dade, a qual as coisas naturais quando muito Ainda assim. PHG mantêm-se fiéis à visa-
contato mesmo e com o mundo di- essa propriedade? (PHG, 1997, p. 33) representam, porém não a esgotam. da fenomenológica sobre a de inten-
minuindo a fuga para a fantasia como o único O termo "intencionalidade" tenta nominar cionalidade, quando admitem ser a awareness
recurso criativo, dessa forma ampliando sua Eis. então, a primeira ocorrência do ter- essa espontaneidade, sem ·autor· empírico, um acontecimento eminentemente temporal.
awareness. Segundo Perls ( 1977, p. 77): mo "fenomenologia' na literatura da Gestalt- mas com base na qual passamos a represen- Nesse sentido, na terceira parte do segun-
terapia. Fenomenologia aparece aqui como a estas homens. do volume da obra de PHG ( 195 l ), quando
Ao invés de estarmos divididos entre disciplina por meio da qual PHG pretendem mulheres, outros animais. plantas ou coisas descrevem o fluxo de aworeness nos termos
maya e realidade, podemos integrá-los esclarecer em que sentido a noção de oware- inanimadas. Fazer fenomenologia, por conse- de um sistema ao qual denominaram
e, se maya e realidade estiverem inte- ness lança as bases para uma nova concepção guinte, é fazer ver o "primado" dessa intendo· seus autores mencionam que a "classificação,
grados, chamaremos essa integraçiío sobre as fomias de contato entre o homem, nalidade primeira e impessoal. que se mostra descrição e análise exaustivas das estruturas
de arte. A grande obra-de-arte é real o semelhante e o mundo formas essas as desde si antes mesmo de nossos instrumentos do self' constituem ..o terna da feno-
e, ao mesmo tempo, ilusão. quais denominam de sistema sei(. reflexivos dele poderem se apoderar o que (PHG, 1997. p. 184). De acordo
Gladys D'Acri e Sheila Orgler Inspirado no uso que Edmund Husserl deu à justifica Husserl e Heidegger, cada qual a seu com eles, trata-se de entender o se.'f corno a
expressão "fenomenologia", Martin Heidegger modo, terem tentado utilizar uma linguagem "realização do , o que significa dizer
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS que "o presente é uma passagem do passado
estabelece para ela uma nova etimologia. Hei- própria, diferenciada da linguagem natural ou
~ . S. Dtoooário Oxfórd de f,IOSó{ia. Rio de Jane1ro:
( 1989. § 7) explora o fato de o verbo científica. Mais ainda, fazer fenomenologia é em ao futuro, e esses tempos são as
Zahar. 1977.
legein de que o substantivo fazer ver a irredutibilidade desse primado, que etapas de um ato do medida que entra
l'El!Ls, F. S. A abordagem gesuíí11rn e testemunho ocular da
terapia. Rio de Janeiro: Zahar, 1981 . é derivado ser sinônimo de apo-phainesthai, nunca conseguimos dominar, tal qual o tem- em contato com a realidade (é provável que a
Escarafunchar,do Fritz: dentro e (ora da lata de o qual, por sua vez. é composto pelo prefixo po, que não de escoar: Aliás, para todos ""''"'r,i:.nn~ metafisica do tempo seJa primor-
lixo. São Paulo: Summus, 1979.
apo (que significa "fazer ver') ephaínesthaí (que os fenomenólogos, o tempo é a forma íntima dialmente uma leitura do funcionamento do
Ges!alt-rempra explicada. São Paulo: Summu,,
é uma forma verbal reflexiva que significa ·ma- da intencionalidade, (PHG. 1997, p. 180).
nifestar-se desde si"). De onde provém a tra- Ora, a essa espontaneidade que se re- A lacônica. mas crucial, que re-
VERBETES RELACJONADOS dução da expressão "fenomenologia" (legein to vela com base em si mesma tal como ela é conhece, na metafísica do tempo.
A = . Contato, Consciência, Doença. saúde e cura, phaínomena) da seguinte forma: fazer ver, com vivida a cada instante e de maneira 1mr'les•so- o sentido profundo do funcionamento do sei(.
Energia. Excitação/excitamento, Gestalt, Neurose, Psico·
se, Sei[
base em sí mesmo, aquilo que se manifesta, tal al, PHG denominam Q'\VGreness, Já em EFA não deixa dúvidas sobre a feno-
como, com base em si mesmo, se manifesta ( 1942). Perls utilizava o termo "awareness" menológica das que seus autores
(af>OPhaínesthaí ta phainomena). para a forma como Kurt Goldstein pretendem estabelecer. Afinal, a experiência
FENOMENOLOGIA Fenomenologia. nesse sentido. não é o metafisica do tempo é justamente o tema do
sintetizava, transpondo-a para o campo das
No Prefácio à obra de PHG ( l 95 l ). texto estudo do que aparece. mas o fazer ver no organísmicas, a fenomeno- qual se ocupa Husserl em para uma fe·
inaugural da abordagem que leva o mesmo âmbito de nossa experiência aquilo que se lógica de "intencionalidade". O que nomenologia da consciência interna do tempo
nome, seus autores apresentam a orientação manifesta desde si. tal corno se manifesta des- dizer que, à diferença de Husserl e Heide- ( 1893); tema esse que reaparece articulado
geral da que propõem: de si. O que se manifesta desde sí, por sua gger, os fundadores da Gestalt-terapia não com a noção de intencionalidade na obra
vez, não é uma coisa objetivada, já inscrita acreditam ser abandonar o discurso ldeos (1913). a qual, por sua vez, serviu de
[ ... j deslocar o foco da psiquiatria do em nosso código natural. em nossas deflni- natural para descrever os processos inten- base para Goodman propor a redação defi-
fetiche do desconhecido, da adoração es1,aço-1ten10<:.ra1s. As coisas naturais se cionais. Tal como o fenomenólogo Maurice nitiva da teoria do self. segundo ele mesmo
do "inconsciente: para os problemas mostram de acordo com a nossa definição de Merleau-Ponty ( 1945), os fundadores da admitiu em carta dirigida a Wolfgang Kõhler
e a fenomenologia da awareness: que natureza, e não de acordo com elas mesmas. Gestalt-terapia acreditam que a ciência, ela (Goodman apud Stoehr. 1993. p. 80).
fatores operam na awareness, e como Razão pela qual, para a fenomenologia, o ma- mesma, é capaz de apootar o primado dessa No campo da prática dínica. a noção
faculdades que podem operar com éxi- nifestar-se desde si implica uma espontanei- espontaneidade que se revela por sí. de fenomenologia se presta a designar uma

DICIONÁRIO DE GESTALT·TERAPIA DICIONÁRIO D!' GESTALT-TERAPIA


1!2 113

postura de dísponibilidade do terapeuta FIGURA E FUNDO satisfeita. depois que ela recua para o fundo fundo fica perturbada. Encontramos frequente-
em relação àquilo que se mostra na sessão
A de "figura e fundo• em (equilíbrio temporário) e dá lugar à próxima mente ou uma (fixação) ou uma falta de
corno algo "óbvio•, mas não necessariamen-
Gestalt-terapía é uma herança da psicologia necessidade mais importante agora" (PHG, formação da figura (repressão). Ambas interfe-
te ligado a uma causa ou a um agente de-
da conforme afirmam PHG ( 195 1):
1997, p. 35). Aqui, vê-se a clara influência do rem na completação normal de uma Gestalt
terminado. Trata-se dos hábitos inibitórios,
'Rgura/fundo, inacabada e Gestalt holismo de Goldstein na concepção de figura adequada' (PHG, 1997, p. 34). Quando a flui-
dos estados de ansiedade e angústia, das
e íundo para Perls. Na relação figura/fundo, a
motoras e da ordem da linguagem, são os termos que tomam0<; empresta-
figura tem pregnância. brilho, clareza, vivacida- figuras é interrompida, a figura ou Gestalt que
entre outros acontecimentos espontâneos do da psicologia da Gestalt" (1997, p. 34).
de, e se destaca de um fundo difuso e amorfo. não pôde ser completada toma-se uma situa-
e inesperados compartilhados na sessão Wertheímer, Kõhler e Kollka, fundadores da
O fundo diz ao campo perceptual, ção inacabada. Polster e Potster. na obra Ges-
terapêutica. AD terapeuta importa pontuar psicologia da Gestatt, afirmaram que a per-
isto é. a tudo que é relativo ao organismo e talt-t.erapia integrada (2001, p. 52), afirmam
o modo ·como· esses acontecimentos se cepção não se constitui na mera soma de da.
ao meio ambiente. O significado da figura é que as situações inacabadas "buscam a inteireza
mostram desde si na atualidade da sessão, dos sensoriais recebidos passivamente pelo
sempre dado pela relação contextual com o e. quando obtém poder suficiente, o indivíduo
retomem eles do passado, díríiarn-se eles ao indivíduo. Ao contrário, ela é um processo
fundo. Para Perls, a vida saudável propnamen- é assaltado por preocupações, comportamen-
futuro. A fenomenologia é aqui menos uma ativo e sempre se refere a todos (holos) orga-
te dita é a expressão da fluidez no processo to compulsivo. temores, opcessiva e
metodologia de intervenção do que uma ati- nizados sob uma forma ou estrutura de con-
de figura/fundo, no qual as necessi- muitas atividades autoderrotistas"
tude de concentração naquilo que se mostra junto, uma Gestalt. CUJas partes. se tomadas
dades dominantes do organismo são satisfeitas A busca restabelecer a
desde si. separadamente, não apresentam as mesmas
fluidez do processo de fomiação
características do todo. A está
Marcos José e Rosane Lorena Mülíer-Granzotto fala, respira, movimenta-se. censura, por meio da análise das estruturas mternas da
submetida a certas leis (lei da boa forma, lei
REFERÊNCIAS BIBUOGRÁfJCAS
é a expres·
despreza, busca motivos etc.[... ] PYIV'r'1Pr.ri;; presente
do fechamento, lei da semelhança que
são de suas necessidades dominantes' (PHG,
Hfioo:,c,,,., M (1927), Ser e !empo. Petrópolis· Vozes, fazem uma figura emergir de um fundo. o
1989, 1997, p. 36). até que o contato se intensifique, a
qual, ao mesmo tempo, a constituí e a cir-
HvsSER.L, E. ( i 9 !3), ldeas relativos (J wa fenomenologia awareness se ilumine e o comporta-
pura e U/10 filosofia (eoomenológ,ca L 3. ed. México: cunscreve (Koffl<a, 1975).
A relação entre figura e fundo na mento E o mais importan-
1986. A importância do todo em relação às par.
saúde é um processo de emergência te de tudo, a realização de uma Gestalt
(1893). Uções pom uma fi;nomenologia da cons-
era anunciada no pensamento precursor
oênda int.emo do ,empo. Lisboa: imprensa Nacional/ e recuo permanentes, mas significa- vigorosa é a própria cura, porquanto
Casa da Moeda, [s.d.j, que, no século IV a.C, em sua tivos. Assim, a interaçíw entre figura a figura de contato não é apenas uma
MERl.fAlJ,,f>oNn, M. ( 1945} Fenomenologia oa percepçáo. obra Da política. considerava queo todo é, e fundo wrna-se o centro da teoria
São Paulo: Per,;pectiva, l 99~. indicação da integração criativa da
com efeito, necessariamente anterior à parte
f'ERt.S, F. S. (1942). f,go, fóme e agressoo. São Paulo: Sum- [.., J. atenção, concentração, interesse, experiência, mas é a própria integra-
mus, 2002. (apud Engelmann, 2002). Para o
preocupação, excitamento e graça são ção. (PHG, 1997,p.46)
R:R.Ls, F. $.; HE:FFEl'JJNE, R; Gooo,,w.,, P, (1951). Gestalt- importante seria sempre a "forma total", não característicos da formação saudável
teropio, São Paulo: Summus, 1997. os elementos que nunca surgem separados de figura/fundo; enquanto confusão, Os textos tradicionais da ""sblt-t,,r.a.r,ía
SroEHI\ T. ( 1994). Aquí, afloro y lo que 11ene: Pwl Good- do ser ao qual pertencem (Aristóteles apud
man y la ps,coteropio Gestalr en !iempos de clisis mun- tédio, compulsões, fixações, ansie- costumam ocupar-se preferencialmente da
Engeímann, 2002). dade, am11ésias, estagnação e aca-
dld. Santiago do Chile: Cuatro Víentos, 1997. figura que emerge em detrimento do fundo
De acordo com PHG (195t), as nhamento são indicadores de uma que a contextualiza e fornece-lhe significado.
YeRBETEs RElAOOffADos de figura e fundo já estavam presentes em formação figura/fundo perturbada. Po!ster e Polster ( 1976, p. 45), contemporâ-
Ansiedade, Awareness. Contato, Espontmeídade, Ób· EFA ( 1942). subsidiando uma teoria segundo a {PHG, 1997, p. 34) neos de Fritz Perls, afirmavam que o fundo é
v,o, Sei(, Teoria organísrnica, Terapia e técnica de COO·
Centração qual, "na luta pela sobrevivência, a necessida- '[.. ,] difuso e amorfo, e sua função principal é
de mais importante toma-se figura e organiza Na neurose e, de forma mais aguda, na servir de contexto para a percepção da figura.
o comportamento do indivíduo até que a elasticidade da formação figura/ dando-lhe profundidade e relevo. porém sem

OICIONÁRIO Ot GESTAlT·TERAPlA
OICJONÁRIO OE GESTALT-TERAPIA
AGUAA EfUNOO 114 115

despertar interesse por si mesmo•. Estudos no mar, uma onda que se levanta e se faz Terapia guestáltica. Buenos Aires: Amôrrortu, Na teoria da Gestalt-terapia, a
mais recentes vêm implementando o interes- figura, ganhando significado sob o lampejo da experiência da ansiedade é con-
ll:u.EGEN, T. A Gesralt e grupos: uma perspectiva sistilmica.
se pelo fundo, investigando o campo total em awareness. A fluidez da figura/fundo São Paulo: Summus. 1984. siderada como uma constante na
que se dão as experiências vividas. é como a fluidez da onda no mar. A onda personalidade do neurótico, como um
Gestaltistas como lynne Jacobs e Richard (figura), em nenhum momento. perde as ca- VERBETES REI.ACIONADOS dos traços mais marcantes e presentes.
Hycner, por exemplo, têm desenvolvido racterísticas do mar (fundo). Nunca deixa de Ansiedade, Doença, saúde e cura, Excitaçãoíexcítamento. A ansiedade gera imobilidade, uma
Expenêncía Fluidez. Gestalt. Gestaltisrno, Holismo, Ne-
aproximações entre e ateo- ser mar. Radicalizando: a figura é, no fundo. postura de evitação das situações e
cessidades, Neurose, Organismo. Parte e !Ddo, Psicose.
ria da intersubjetividade. Incluindo-me nessa Penso que a imagem onda/mar corsegue Situação inacabada de mau funcionamento, portanto,
nova vertente, penso que a dara compreen- dar conta das complexas do indivíduo do mecanismo holístico natural da
são da abrangência e do significado d.o fundo com a emergência de suas necessidades na his- auto-regulação organismíca. [... J a
é de fundamental importância na investigação FIXAÇÃO (VER MECANISMOS Gestalt-terapia irá considerar que a
tória de sua vida. O mar se encrespa em ondas
da constituição da subjetividade. Focalizando NEURÓTICOS) ansiedade é uma experiência que gera
sob o açort:e dos vertos e sob a influência das
o arcabouço cultural, proponho uma nova fases da lua. Assim, pode ser concebido como paralisação e quebra do fluxo natural
metáfora (onda/mar 15 ) para representar as um sistema que faz parte de outros sistemas. de funcionamento do sujeito. (Lima,
figura/fundo: do meu ponto de vis· FLUIDEZ 2005,p.56)
Nesse sentido. a metáfora onda}mar permite
ta. em se tratando da subjetividade, convém aproximar a da teoria dos sis- Para tratarmos do concerto de "fluidez" na
pensar a experiência vivida (figura) como
temas, ampliando sua como Gestalt-terapía, é imprescindível levarmos em O pensamento holístico também foi ou-
imersa num fundo um enorme caldo cultu- consideração a enorme influência da teona tra importante adotada por Perls
defendia lnérese Teflegen. na obra Gestolt e
ral, formado de crenças; valores, costumes, organísmica de Kurt Goldstein nessa aborda- desde EFA. Ele compreendia que a nossa
grupos: uma perspectiva sistêmica ( 1984).
regras, mrt:os, histórias individuais e coleti- gem. Já em EFA ( 1942). Perls declara a impor- existência é constrt:uída por múltiplas funções
vas etc. -, herança transmitida pelas trocas Maria Gercíieni Campos de Araújo {Gerq) e energias, sendo que "[...] toda mudança
tância da do conceito de organismo
intersubJetivas. Represento essa de Goldsteín na construção de urna nova te- na substância do mundo ocorre no espaço e
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
como urna onda no mar porque considero AlwlJO, M. G. C. de. Subjetividade. •mogínório culwrol e oria psicológica, que se propunha a: a) subs- tempo.[...] tudo está em um estado de fluxo
essa imagem para dar conta da a,-..::,reness, VI Congresso Brasiieírn da Abordagem trt:uír os conceitos por conceitos mesmo a densidade da mesma substância
complexidade da formação figura/fundo nas Gestáltica e IX Encontro Nacional de Gestalt-terapia. muda com diferenças de pressão, gravitação e
organísmicos; b) substituir a psicologia assocía-
Gramado(RS), 2003
experiências subjetivas. cionista pela gestaltista; e) apl ícar o temperatura" (Perls, 2002. p.
M!STÓTELES. Da parte dos arnma,s. 1. V, ó45a. Trad. P.
O mar, repleto de toda sorte de seres Louis (í9Sb). Retrad. de A. Engelmaoo. ·Gesi:alt pensamento diferencial. baseado na indiferen- Es--,a visão de fluidez e permanente mu-
aquáticos. ora com águas transparentes ao ps;s:hology and empirical cootemporaneous scíen- ça criativa de S. Friedlãnder (Perls, 1969. p. dança é uma visão universal. Tudo que é v'ivo se
ce•. Psicologia: téóría e pesquisa. Brasília. v. 18. n.
olhar humano, ora com mais profun- 14; tradução nossa). encontra em mudança. Os seres humanos são
1, 2002.
das e opacas (inconscientes?), ora, ainda. _ _ _ Da política. 1. 1253a. Trad. J. Tricot Re· Pensar o ser humano dentro do ponto sistemas vivos e fluidos. A impossibilidade de
com águas insondáveis, representa o fundo trad. de A. Engelmann. "Gestalt P5ychology and em- de vista organísmico significa assumir que fluir, acompanhando o rrt:mo das mudanças que
(campo perceptual cultural que compõe a pirical cootemporaneous scíence·. Psk-Olc,gia: teoria e ocorrem na vida, é um dos principais sintomas
a auto-regulação é o princípio pelo qual o
pesquisa, Bras,'lia, v. 18, n 1, 2002.
história singular e coletiva do indivíduo). A organismo se atualiza no meio. A auto-regu- daquilo que Peris recorhecia como neurose:
i<()ffKA, K. Prinópios de psicologia da Gestalt. São Paulo:
onda (figura) é ondulação no mar. Ela não G.,ltrix, 1975. lação é"[ ... ) um processo holísticamente na-
se destaca do mar; ela se destaca no mar. f'l,Rl5, E $. Ego. fome e agressoo. Sáo Paulo: Summus, tural do organismo, corno uma potencialida- Fica evidente que quando Fritz Perls
Cada experiência vivida é uma ondulação 2002. de intrínseca do ser humano" (Lima, 2005. se referia ao papel da fluidez, da mu-
r'ERlS, F. S.; HEFFERLINE, R.: GooDl'W,i, P. (1951) Gestalt- p. 55). Quando há uma interrupção no ciclo dança permanente na vida do ser hu-
terapiCJ. São Paulo: Summus, 1997.
,, normal da auto-regulação, o indivíduo expe- mano, ele não estava falando de algo
Po!srr11, E.: f'otsrER. M. Gestait-terapia integrada. São
Paulo: Svmmus, 2001. ríencia ansiedade: interior, uma essência, que se modifi-

DICIONÁRIO DE GESTAlT-TERAPlA DIC.ONÁR!O DE GESTAl T-TERAPIA


fUJlDEZ 116 117

cava, mas sim de um mecanismo na- permanente do homem, encarado como ral. animal e ffsico". E acrescentam: [ ...J"desse uno consigo; sentir-se mal significa alienação,
tural de funcionamento baseado nas um sistema funcionalmente aberto, a Ges- modo, em qualquer estudo de ciências do ho- afastar-se. No sentir-se bem e mal. vemos a
necessidades de permanentes modifi- talt-terapia utilizou-se do conceito de auto- mem. tais como fisiologia humana, ps1Cología função discriminatória do organismo: este é
cações nas ações do sujeito diante do regulação organísmica [ ... ] conceito este tão ou psicoterapia. temos de falar de um cam- o trabalho que na chamamos
seu intercâmbio com o meio circun- importante para a compreensão do homem po• (PHG, 1997, p. 43). A ocorrência dessa de fronteira do
dante. Não é o sujeito que se modifica, como um sistema em permanente fluxo .. : interação organismo/ambiente se dá no que
mas sim o sistema total que envolve (Lima. 2005, p. 208). foi denominado de "fronteira". A fronteira de
a pessoa e o meio ambiente. (Lima, Para fechar este verbete, nada melhor que contato nãoé algo fixo e não pertence nem Rl!FERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
l'tf<l.S, F. $, Ego, fome e agressão, São Paulo: Summus,
2005,p.56) a tão conhecida frase de Heráclito, que diz: ao organismo nem ao meio; é o que os co-
2002,
"Não é possível entrar duas vezes no mesmo necta indissociavelmente. F'Ef<l.S. F. S.; HrnERLINE, R.; GoooMAN. P. (1951). Ges1alt-
Perls acreditava que um dos papéis da rio" (in Costa, 2002, p. 149). Assim como as teropk1, São Paulo: Summus, 1997,
psicoterapia era promover maior fluidez no o ser humano precisa fluir e se renovar Quando diurnos "fronteira" pensa- STEVENS. j. O, ( º'll} Isto é Gestalt, São ?aula: Surnmus,
1977.
funcionamento saudável da pessoa por meio a cada segundo. mos em uma "fronteira entre"; mas
do resgate do seu próprio mecanismo de a fronteira de contato, onde a
Patríoa Lima (Ticna) VERBETES RELACIONADOS
c:;;,,ld,,av organísmica, Um dos princi- experiência tem lugar, não separa o
Contato. Experíênoa. Organismo. Teooa de campo
entraves a esse mecanismo ocorre quan- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS organismo e seu ambiente; em vez
do as necessidades do indivíduo se opõem às COSTA. Alexandre Heráclito - fragmentos cootextualizo- disso limita o organismo, o contém e
dos, Rio de janeiro: Dlel. 2002
necessidades sociais: protege, ao mesmo tempo que contata FRUSTRAÇÃO
LIMA, P. V. A Psicoterapia e mudança - umo rl',flexdo. 2005,
Tese (Doutorado) Instituto de Comunícação. Uni-
o ambiente. Isto é, j ... j a fronteira de
Desde EFA ( 1947) que Fritz Perls faz refe-
A sociedade exige conformidade atra- ver.sidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de contato - por exemplo, a pele sensível
Jane;ro. rências ao termo . considerando-
vés da educação. [... ] A fim de com- - nào é tão parte do organismo como
pactuar com os "deverias" da socieda-
~rus, F. S, ( 194 2), Ego, fome e agressão, Sáo ?aulo Sum·
é essencialmente o órgão de uma re-
º como um dos para embasar a
mus, 2002, ética das nos pensamentos e ações
de, o indivíduo aprende a ignorar seus _ _ _ Ego, hunger ond aggres'iion, Nova York Vint:l· lação especifica entre o organismo e o
humanos (Perls, 2002 p. 94).
próprios sentimentos, desejos e emo- ge Books. 1969, ambiente. (PHG, 1997, p.43)
é uma tensão que faz parte
ções. Então ele também se dissocia de S,r,.'ENS, }. ú (org.} Isto é Gestalt. São Paulo; Summus.
1977. do desenvolvimento das do ser hu-
ser parte integrante da natureza. [... ] Sendo na fronteira que ocorre a expe-
mano com seu contexto social, inclusive da
O resultado desta alienação dos sen- riência do organismo com o seu meio. sem
VERBETI:S RELACIONADOS relação terapêutica. Surge nas do
tidos é o bloqueio de seu potencial e a que o organismo deixe de ser quem é. ao
Ansiedade,Auto-regulaçãoorganísmica, Emoções, Ener- dia-a-dia, no contato com o mundo que nos
distorção de sua perspectiva. (Perls in gia, Gestaltismo, Holismo, lndílereru;a criativa, Necessí- mesmo tempo que se modifica pe!o contato
rodeia, nos momentos em que não conse-
Stevens, 1977, p. 20- 1) dades, Neurose, Saúde, Sistema. Teoria organismica que estabelece com o que não é ele, é nela
guimos ser satísfertos em nossos desejos e
(fronteira) que podemos de que
necessidades: "(... ] a tensão surgida da ne-
A noção de "saúde" compatível com a fonna organismo e ambiente se unem e se
FRONTEIRA DE CONTATO
teoria da Gestalt-terapia é bast.ante diversa separam. É necessário que exista uma função
da noção de saúde preconizada pelas ciên- Em compreende-se o ser que "regule' as identificações e alienações 1t ''Na criança muito pequena. as funções 00 (e. co,n
elas.as frontwas do ego) não estilo ainda des,envoMdas-
cias médicas; ela é "[...] transformada pela humano na perspectiva da teoria de campo, na experiência de fronteira organismo/am- 2002, p. 167), "Afronteiradoegoé:lexlvel,sef0<f11<a
orites: Na pessoa sadia. ela se mo·
idéia de fluidez, sendo o estado saudável do sendo campo compreendido como a íntera- biente. Perls (in Stevens, 1977, p. 53). vai se
pode ser o,nsiderada como
organismo humano um livre fluir de condi- organismo/meio. De acordo com PHG referir ao trabalho em Gestalt-terapia como de

ções sempre mutáveis .. ." (Lima, 2005, p. ( l 951 ). "toda função humana é um interagir um trabalho de fronteira. "Sentir-se bem
207). ·sustentando esta noção de fluidez num campo organismo/ambiente, sociocultu- para o organismo significa identificação, ser

OlCIONÁRIO DE G€STALT- TERAPIA DICIONÁRIO DE GE'STALT-HRAPIA


t 18 119 R.JNÇKl EDISf\JNÇÃO Oi' CONTATO
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l
cessidade de um fechamento é chamada As dificuldades surgem quando a vivência po total tanto de suas próprias ne- difundida. Podemos evidenciar esse princípio
frustração[... ]" (Perls, 1979. p. 107). da frustração gera ansiedade além do que o cessidades e reações às manipulações nas primeiras linhas do tema "fronteira de
indivíduo consegue suportar. "Se, cont1.1do, a do paciente quanto das necessidades contato" presente na obra de PHG. na qual já
Uma relação verdadeiramente satis- persistir além da ansiedade que a e reações do paciente ao terapeuta. E fica que uma função de contato está
fatória e saudável entre quaisquer criança é capaz de suportar, ela se sente muito deve sentir-se livre para expressá-las.
duas pessoas exige de cada uma a 'mal'. [ ...]Acriança sofreu um trauma. que se (Perls, 1985, p. ll 7)
habilidade para misturar simpatia sempre que ocorrer uma frustração A experiência se dá na fronteira en-
com frustração. A pessoa saudável real" (Perls, 2002, p. 95). Porém. cabe ressaltar a importância do uso tre o organismo e seu ambiente, pri-
não desconsidera as necessidades dos Fritz Peris ficou conhecido como um gran- aa€:(lu,.ao da frustração no contato com cada mordialmente a superftcíe da pele e
outros nem permite que as suas se- de e hábil frustrador, e descreve a impori.ânda cliente. "O excessivamente frustrado os outros órgãos de resposta sensorial
jam desconsideradas. (Perls, 1985, da frustração na em con- sofrerá, mas não crescerá. E descobrirá, com e motora. A experiência é funçao des-
p. 117) sonância com seu entendimento do papel da a intuição perspicaz e visão distorcida do neu- sa fronteira, e psicologicamente o que
no desenvolvimento humano. Ele rótíco, todos os tipos de maneiras para evitar é real são as configurações "inteiras"
A vivência da a princípio não considera que. por meio da frustração habili- a frustração de longo alcance que o terapeuta desse funcionar, com a obtenção de
é danosa, sim ser extremamente dosa, o terapeuta proporcionar ao clien- lhe impõe" (Perls, ! 985, p. 120). algum significado e a conclusão de al-
saudável. fundamental para o processo de te a oportunidade de entrar em contato com guma ação. (PHG, 1997, p. 41)
Márcia Estarque Pinheiro
desenvolvimento do ser humano que suas inibições, bloqueios, medos etc., facili-
ao indivíduo. desde viver frustrações, tando a mobilização de seu próprio potencial REFERÊNCIAS BIBllOGRÁflCAS Em ( l 979), no
na medida de sua habilidade para assimilá-las. para lidar com o mundo a seu redor. flcRLS, f: S. A capítulo "/>-é. e Mí-
terapia. Rio de )ane·,ro:
Nesse contexto, o indivíduo pode aprender a riam Polster destacam as qualidades dos ór-
Ego. fome e agressoo. São Paulo: Sum·
superar as situações sociais, em vez de apenas Primeiro, o terapeuta proporciona a
manipulá-las para diminuir seus efeitos (como oportunidade de a pessoa descobrir o &arc,fimchando Fritz: dentro e fora do lota de e como funções de contato. acres-
no caso das neuroses). que necessita [... ]. Então o terapeum lixo. São Paulo: Summus, 1979. centando o falar (que envolve voz e
Gesr.ait-terapia explicada. São Paulo: Summus. gem) e o movimentar-se. Segundo os Polster
deve proporcionar a oportunidade, a
[ ... j cada vez que o mundo adulto situação na qual a pessoa possa cres- (1979, p. 1 "Estes sete processos são as
impede a criança de crescer, cada cer. E o meio é frustrarmos o paciente de contato. É através destas funções
VERBETES RELACIONADOS
vez que ela é mimada por não ser de tal forma que ele seja forçado a de- Jlnsiedade, Auto-apoio. Crescimento. Energia, Necessi-
que o contato pode ser obtido e é através da
frustrada o suficiente, a criança está senvolver seu próprio potencial. (Perls, dades. Neurose corrupção destas funções que o contato pode
presa. Assim, em vez de usar seu po- 1977, p. 61) ser bloqueado ou evitado".
tencial para crescer, ela agora usará
FUNÇÃO E DISFUNÇÃO DE CONTATO tos, é necessário íntegrá-los à idéia de "con-
seu potencial para controlar o mun- [O terapeuta] deve, então, aprender
do, os adultos. Em vez de mobilizar a trabalhar com símpatia e ao mesmo A idéia de "função de contato" surge no tato•, "fronteira de conta.to". considerando-os
seus próprios recursos, ela cria de- tempo com frustração. Pode parecer livro de PHG ( 1951 ). O bioômío "função/dis- como um processo gerador de autoconsciên-
pendências. Ela investe sua energia que estes dois elementos são incompa- função de contato· está muito associado ao cia sobre os modos de a pessoa se sentir no
na manipulação do ambiente para prinópío fisiológico no qual alguns conceitos mundo (ser-no-mundo) e conseqüentemente
tíveis, mas a arte do terapeuta é fundi-
obtenção de apoio. Ela controla os los num instrumento efetivo. Ele deve da Gestalt-terapia se apóiam, na busca de uma perceber seus modos de
adultos, começando a manipulá-los linguagem que a tomasse compreensível aos Os conceitos de "função/disfunção de
ser dura para ser bondoso. Deve ter
ao discriminar seus pontos fracos. seus interlocutores, considerando o contexto contato", como têm sido expostas, repre-
uma percepção abrangente da situa-
(Perls, 1977, p. 55) histórico e cultural no qual a abordagem foi sentam a possibilidade do contato livre. es-
ção totat deve ter contato com o cam-

DICIONÁRIO DE GESTAL T ,TERAPIA DICIONÁRIO DE GESTALT,HRAPIA


120
121 FUNÇÃO IO, FUNÇÃO EGQ...

pontâneo e, portanto. saudável. ou o con- VERBETES RELACIONADOS


limitação e a intensificação do comato A funçào "id" é concernente às pulsões
tato interrompido, represado ou imposto, Al'><){eness, Contato, Existencialismo, Experiência, fe-
nomenologia. Fronteira de contato, Neurose, Ser-no- em andamento, incluindo o compor- internas, à.s necessidades vitais e, espe-
tomando-se uma possibilidade de estabele-
mundo tamento motor, a agressão, a orienta- cialmente, sua tradução corporal [... ]
cimento da neurose. Assim, a função de con-
ção e a manipulação. A Personalida- a função "eu'; pelo contrário, é uma
tato é a abertura por meio dos sentidos para
de é a figura criada na qual o self se função ativa, de escolha ou rejeição de-
vivenciar as trocas com o mundo e a disfun- FUNÇÃO 10, FUNÇÃO EGO, FUNÇÃO transforma e assimila ao organismo, liberada í... ] a função ''personalidade"
ção de contato é o encolhimento. o "embo- PERSONALIDADE
unindo-a com os resultados de um é a representação que o sujeito faz de
tamento• desse fluxo natural. Na psicote-
Esses conceitos surgem na parte dedicada crescimento anterior. Obviamente, si mesmo, suo. auto-imagem, que lhe
rapia, a pessoa pode ampliar sua awareness
à teoria do self na obra de PHG ( 1951 ). En- tudo isso é somente o próprio processo permite se reconhecer como responsável
(conscientização) sobre o próprio processo
quanto o sei( é caracterizado como processo de figura-fundo, e em um e.aso simples pelo que sente ou pelo que faz.
e reconhecer suas escolhas.
abrangente e permanente de campo e de assim não há necessidade de dignificar
Numa versão mais atualizada, faz-se ne-
adaptação criadora, função id, função ego e as etapas com nomes especiais. (PHG, Esses mesmos autores descrevem a va-
cessário um retomo às bases existencial-fe-
função personalidade são descritas como "es- 1997,p. 184) de intensidade ou de das três
nomenológicas para que a idéia de função/
truturas possíveis do sei{" (PHG, 1997, p. 184), conforme os momen-
não gere um erro de conceito", o
como ·aspectos do (PHG, 1997, p. l 83) tos e a necessidade, ou quando o ajus-
que poderá levar o terapeuta a atuar na re-
ou como "os três principais sistemas conceitos em relação ao de self se encontra tamento permanente às sempre
composição de uma função de contato ou na
ego, id e personalidade que em circuns- presente também na crítica a outras linhas flutuantes do meio físico e social é mantido.
correção de uma disfunção, distanciando-se
tâncias específicas parecem ser o sei(" (PHG, teóricas e por exemplo na aflrma- E também fazem referência às perturbações
da proposta genuína da abordagem.
1997, p. 177), com o esclarecimento de que, de que "toda teorização, e em particular desse funcionamento que viriam perturbar a
É importante ressaltar que o grande dife-
diversas de tipos de pacientes e de a introspecção, é deliberada, restntiva e abs- fluidez normal das do pensamento.
rencial da abordagem gestáltica é considerar o
métodos de terapia, essas três estruturas par- trativa; desse modo, ao teorizar sobre o self. do comportarnento no decorrer do ciclo da
contato uma expenêncía vivida e única. com
ciais foram consíderadas nas teorias da psicolo- particularmente a partir de int1'.ospe,:çê,es. é experiênoa. Assim, a psicose sena sobretudo
um sentido peculiar para quem o vivencia,
aronrnal como sendo total do sei{" o Ego que assoma como estrutura central ·uma perturbação da função 'id': a sensibilida-
e é nesse aspecto que está a de
(PHG, 1997, p. 184). Nesse sentido. as três do se/f' (PHG, 1997, p. 186). Do mesmo de e a do às ex,crt:.a.ções
Fritz Perls. Cabe-nos captar sem capturar. ex-
são assim diferenciadas: externas (perceptivas) ou internas
perienciar sem classificar, resgatar sem recu-
perar, acornpanhardo a pessoa em seu fluxo diana ortodoxo, para quem "as enunoações ceptivas) são perturbadas· (Ginger; Gínger,
livre em busca de si mesma.
Enquanto aspectos do self num ato conscientes do paciente neurótico contam 1995. p. 128); e a neurose, peio contrário,
simples espontâneo, <J ld, o Ego e a muito pouco.[... ] Em lugar destes, o teórico seria "uma ou da função
Laura Cristina de Toledo Quadros Personalidade são as etapas principais m,,a,,,-~,, ao extremo oposto e descobre que 'personalidade': a escolha da atitude
REFERÊNCIAS BIBUCIGW!CAS
de ajustamento criativo: o Id é ofundo a parte importante e ativa do aparato 'men- da é difícil ou desadaptada· (Ginger; Ginger,
f'Eru.s. F. S.; Hi:fffRUNE, R.; GooOMAN, P. ( 1951). Gesta/t- determinado que se dissolve em suas tal' é o ld" (PHG, 1997, p. 186). E ainda mais 1995, p. 128).
1:er(lflla. São Paulo: Surnmus, 1997. possibílídad.es, incluindo as excitações enfaticamente na proposição de que "A per- Todavia, não obstante a importância concei-
Pot.sm, E.; ~ M. ín1egrada. Belo orgânicas e as situações passadas ina- sonalidade na qualidade de estrutura do tuai e teórica das três indusive na
Horizonte: lmerlívros, 1979.
cabadas que se tornam conscientes, o é também em parte descoberta-e-in- cooatolo121a, é importante lembrar sua subordi-
ambiente percebido de maneira vaga e ventada no próprio procedimento analítico· ao sentido global de self. Se. por exem-
os sentimentos incipientes que conec- (PHG, 1997, p. 187). plo, a pode ser transparente em
tam o organismo e o ambiente. O Ego O funcionamento •em três modos" do sei( algum momento, é justamente porque ela "é o
é a identificação progressiva com as na gestáltíca é também des- sistema do que foi reconhecido· (PHG, 1997,
possibilidades e a alienação destas, a crito pelos Ginger ( l995, p. 127-8): p. 188), enquanto o self "não é, em absoluto,

DICIONÁRIO OE GESTALT-TERAPIA
DiCIONÁRIO Df GESTAlT-TERAPtA
FUNÇÁO ID. fUNÇÃO EGO .. 122 123 FUNCIONAMENTO SAUDÁVEL E...

transparente [ ...] porque sua consciência de self O organismo persiste pela assimilação Em outras palavras. é a capacidade hu- 1991. p. 30-9}. caracterizando-se pela pre-
é em termos do outro na srtuação concreta" do novo, pela mudança e crescimento. mana de estar sempre criando e recriando sença de cristalizadas, estereotipadas,
(PHG. 1997, p. 188). Então, para efeitos do [ ... } Todo contato é criativo e dinâ- novas formas, vitalizadas e energizadas pelas sem brilho, e fundamental-
trabalho terapêutico em com o mico. Não pode ser rotineiro, estereo- dominâncias espontâneas que emírjam, e de mente disfuncionaís.
sentido do sei( como proposto por tipado ou meramente conservador, destruir ou desconfigurar formas já dísfuncio- Em síntese, pnderíamos dizer que, para
Goodman, podem-se considerar função idJíun- pois precisa lidar com o novo. !... J nais, reconfigurando-as ou ressignificando-as funcionamento saudável é
Podemos portanto definir: psicologia de acordo com a situação. Formas de ser, aquele que ílui criativamente de uma forma-
com base na experiência é o estudo dos ajustamentos criativos. sentir. olhar; tocar, perceber. estar, relacio- flgurai à outra. enqua.rito funcionamento
da situação ou do campo. Mas com o cuidado nar-se, amar. cativar. trabalhar, responder, não saudável é o funcionamento caracterizado
Se11 tema é a transição sempre reno-
por autores como Robine (2003, p. por entraves e que impedem a
vada entre novidade e rotina, resul-
34). que, ponderando sobre as escolhas meto- e conviver, formas de estar consigo e com os fluidez do processo de contato criador consi-
tando em assimilação e crescimento.
dológicas subjacentes, adverte que "aquilo que outros no mundo, de forma sempre fluida, go mesmo. os outros e o mundo.
(... ] Por outro lado, psicopatologia é o
em geral eu nomeio 'eu-mesmo' renovada e criativa. SelmaCio:naj
estudo das interrupções e inibições ou
vezes ser abordado como uma rl,l,>n>nr,~r,cn
acidentes no curso dos ajustamentos
prematura do campo'. Em contrapartida, funcionamento nilo REFERÉNOAS BIBLIOGRÁRCAS
criativos. (PHG, 1951, p. 230-1; tra- OoRNN. S. 'Em que acrcd~amos'· Gcstalt Terap,ajomal.
saudável vai ser o funcionamento
Claudia Bapt,sta Távora dução nossa} Curitiba, 1. p. 30· 9, 1991 . Apresentado no li Encon-
caracterizado por interrupções, ini- tro Nacional de Gestalt·te,apta. Caxa'Tibu. ! 989.
REFERÊNCIAS BIBUOGRÁFICAS bições e obstruções destes processos, Dísporwel em: < http:f1IMNw.gesta1tsp.com.brf >.
De acordo com esse arcabouço concei- fie=.
GINGER, S.; G1NGER. A Gesta!t: uma terapia do contato. com a conseqüente formação de "fi- S. The Ges!olt opprooch and éj/€ ,wmess to theropy.
São Paulo: Summus. 1995. tuai, na Nova ibrlc Sóence ané llehavior Books, :973.
guras" fixas, fracas, confusas, que ao
f'Eru.5, F. S.; HffitruJNE, R.; ~ . P. ( 195 1). Gestalt· P{a;s, F. $.; HEFFERllNE. R.: Gooott<\N, F: Gestalt therapy:
terapia. São Paulo: Summus. 1997.
não se completarem vão dificultando excitementaoogr(JW()i in thehuman petSonohty. Nova
(... ] funcionamento saudável é visto
RosiNE, j.-M. ·oo campo à sítuaçâo' Revis!o de Gestolr. progressivamente as possibilidades de York Deli, 1951
São Paulo, n. 12. 2003. como o fluxo pleno, contínuo e tmergí- contatos vitalizados e vitalizantes com
zado de awareness e formação figura/, o presente. (Ciomaí, 1991, p. 30-9) VERBETES RElACIONAOOS

VERBETES RELACIONADOS noqual,pormeiodefronteiraspermeá- Ajustamento criativo. Assimilação. Aw.:Jf!?rl€SS, Contato.


Crescimento. Doença. saúde e cura, Dominâncias, Ftgura
Agressão, ,<>.;ustamenro criativo, Camp:,, Contato, figura veís e flexíveis, o indivíduo interage ·ooenças" ou •patologias'· seriam então a e fundo, Fluidez. Fronteira de cor.tato. função e disfunção
e fundo, Auidez, Necessidades. Neurose. Self, Situação
inacabada
criativamente com seu meio ambiente, ''recorrência crônica deste tipo de funciona- de contato. Organ·smo
desenvolvendo sensibilidade e recursos mento, com a das
para reconhecer e responder às domi- dificuldades do indivíduo e empobrecimento
FUNCIONAMENTO SAUDÁVEL E nâncias espontâneas que se lhe afigu- de seus contatos com o mundo" (Oomai,
FUNCIONAMENTO NÃO SAUDÁVEL rem, usando suas funções de contato
No livro de PHG, impressiona a dimensão para avaliar e apropriadamente atuar
estética que a fundamentação existencial toma as possibilidades de contatos mutua-
em seus escritos, no sentido dos constantes mente enriquecedores e satisfatórios,
paralelos traçados entre processos artísticos e e de interrompê-los, quando tóxicos
criativos e funcionamento humano saudável, e intoleráveis. Saúde [seria então] a
entre arte e terapia. Essa fé na capacidade prevalbtcia e relativa consttlncia des-
humana de ser o artista sua própria existência te tipo de funcionamento. (Ciornai,
está encunhada no pensamento gestáltico: 1989, p. 30-9}

DICIONÁRIO DE GESTAL T· TERAPIA DICIONÁRIO OE GESTAL T-HRAPIA


g
GESTALT, GESTALT ABERTA, GESTALT veu em relação à psicanálise, sua formação ini-
FECHADA, GESTALT INACABADA'ª cial. Visando abandonar a postura associacío-
da n ista preponderante na ciência da cada
Diante da dificuldade de
vra alemã "Gestalt' para as demais línguas, ado- vez mais encontra na Gestalt um

ta-se no vocabulário da Gestalt-terap1a o temio novo recurso teónco. Perls dedicou a edição
no origina!. fiitz Peris ( 1977. p. 19) escreveu: americana do livro EFA. publicada em 1969, a
Wertheimer, e sobre esse autor ele diz:
Gestalt é uma palavra alemã para a
qual não há tradução e.qtlÍvalente em [... ] Wertheimer formula a teoria da
outra língua. Uma Gesralt é uma forma, Ges:talt desta maneira: "Existem tota-
uma configuração, o modo particular de lidades cujo comportamento não é de·
organi:zaçi.w das partes individuais que terminado pelo de seus elementos indi-
entram em uma composifão. A premis- viduais, mas onde os processos parciais
sa básica da psicowgia da Gestalt éque a são determinados pela natureza intrin-
natureza humana é organizada em par- seca dessas totalidades. A esperança da
tes ou todos. que é vivenciada pelo in- teoria da Gestalt é determínar a natu-
divíduo nestes termos, e que só pode ser reza de tais totalidades''. (2002, p. 61)
entendida como uma função das partes
ou todos dos quais é feita. De fundamental importância para a cria-
ção da abordagem da Gest:alt-terapia foram
A GestalHerapia surge como resposta às incorporados da psicologia da Gestalt a visão
criticas e reformulações que Perls desenvol- não determinista de causa e efeito, a noção
de organização em um todo não divisível em
segmentos particularizados e o conceito de
,e Encont:ram~se no vocabvlário da Gestah.~terapla outros
usos associados à palavra ·Gest,1t', como Gestalt boa,
Gestalt como uma unidade de referência ade-
Gestalt inconclusa. Ge5laJt oculta, Gestalt ír.igíl etc. No en· quada para pensar os todos sobre os quais o
tarito, considero os descritos aqui corno os mais usuais e,
portamo, os que descreverei. da auto-regulação impera.
GESTALT, GESTAlT ABERTA GESli'.lT Fl'Cf !ADA. .. 126 127 Gl'STALT. GESTALT ABERTA. GESTALT FECHADA...

Em 1973, Perls escreveu A a,':x,rd,JVP,m O contato e a fuga são as possibilidades que preencher-se até estar preenchido. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
gestáltico e testemunha ocular da terapia, in- temos para lidar com as situações que se apre- Com satisfação, o desequilíbrio é L1MA, P. V. A f';iwreropía e mudança - uma reflexão. 2005.
duindo em seus primeiros capítulos algumas sentam pela relação com o meio. Quando há Tese {Doutorado) Instituto de Comunicaçâ<,, un;..
anulado, desaparece. O incidente é versidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de
considerações sobre os principais conceitos uma solução para essa necessidade, que surgiu fechado. Assim como o equilíbrio e a janeiro.
dessa abordagem. Nesse livro, Perls ( 1977, p. com base no contato entre o homem e o meio descoberta siio encontrados em todos PE~. F. A abordogem gestólrka e testemunha ocular da
afirma que: externo, dizemos que houve um "fechamento as níveis da existência, também o são terop,o São Paulo: Surnmus, 1977.
de Geslalt" Quando essa solução não for viável. ( 1969). Ego. fome e agressão. São Paulo: Sum-
a frustração, a satisfação e o fecha-
mus, 2002.
Para que o indivíduo satisfaça suas ne- falamos que uma "Gestalt inacabada•. mento. (Perls, 1979, p. 107) Escarafimchando Fritz: dentío e fora do lota <1€
cessíJJ.uies, feche a Gestalt, passe para Mais tarde, em sua obra autobiográfica. l,xo. São Paulo: Summus. i 979.

outro assunto, deve ser a.paz de ma- Peris { 1979, p. 107) trata novamente da idéia As contribuições do pensamento sistêmico
do que seria uma Gestalt. Ele diz: ·creio que da atualidade levam a repensar o conceito de VERBETES RELACIONADOS
nipular a si próprio e a seu meio, pois
à medida que continuarmos, a idéia de Gestalt "homeostase" de um modo diferente da idéia Auto-regulaçâ<) organísmira. Ciclo do contato. Contato,
mesmo as necessidades puramente fisio- Frustração. Gestaltismo. Homeostase, Necessidades.
[. ..] A compreensão da Gestalt é sim- de um mecanismo de equilíbrio: "A
lógicas só podem ser satisfeitas mediante Organismo, Parte e todo, Sistema, S~uação macabada.
ples no caso de uma melodia. Se você transpu- noção de homeostase. valorizada na primei- Totalidade
a interafiw do organismo com o meio.
ser um tema musical de uma escala para outra, con<erto de
o tema permanecerá o mesmo, apesar do fato mais aos siste-
Perls compreendia o processo da auto-re- GESTALTISMO
de você ter mudado todas as notas'. Fica evi- mas humanos que funcionam distanciados do
como cíclico, havendo permanente- equilíbrio" (Uma, 2005, p. 98). Isso possibili- Frederick S. Perls, Fritz em seu primeiro
dente que aquilo que Perls compreende como
mente emergénàa de novas necessidades e uma Gestalt não é a noção de uma estrutura ta uma visão cada vez mais dinâmica daquilo l!Vro, EFA ( 194 2), lançado na África do Sul,
resolução das antigas. Entendemos esse ciclo fixa, estável. Uma Gestalt é algo que transcende entendido como formação e fechamento de o autor ainda era recor-
como o ciclo da Gestalt, que, quando é com- o mero formato que uma configuração assume Gestalten. Sabemos hoje que esse movimen- re aos conceitos da psicologia da Gestalt. ou
pletado de modo satisfatório, resulta em um em determinado momento. O que caracteriza to de abrir e fechar Gestalten é permanente, ,,,,..ct,lltic,mr1 na tentativa de rever e contrapor

fechamento de Gestalt. Em a essa uma Gestalt é um todo, que não está contido ininterrupto e profundamente transformador: suas com o pensamento
nem pode ser explicado pelo simples somató- A cada ciclo novas configurações se apresen- nalítíco da Por intermédio de Kurt
podemos pensar que, quando não
rio das partes que o compõem. tam, novas possibilidades se evidenciam, e
há uma resolução desse ciclo, forma-se uma Goldstein, de quem foi assistente em Frank-
Ainda nessa obra, Perls mostra a interliga- outras, mais antigas, são recicladas.
Gestatt incompleta ou aberta, o que caracteri- furt, Perls na da Ges-
ção entre os conceitos de e "frus- Finalizo este verbete, cujo tema nunca
zaria uma situação inacabada: talt de Kõhler, Koffka e Wertheimer.
das necessidades" com o processo de estará fechado, mas apenas temporariamen-
Goldstein trabalhava com pacientes por-
formação e fechamento das Gestatten. Segun- te interrompido, com um pequeno trecho de
Só descamamos quando a situação tadores de lesões cerebrais tendo como fun-
do suas um poema de Perls ( ! 979. p. 24-5):
estiver terminada e a Gestalt fechada. damentação o gestaltísmo, que. entre outros

[... ) Esta situação agora está fechada, conceitos, postula que a interferência em um
[ ... ] A vida prossegue, fluxo infinita
t\ssim estamos de volta a uma das elemento (parte) não afeta apenas este, mas a
e a próxima situação inacabada pode de Gestalten incompletas!
leis básicas da f ormaçiio de Gestalt totalidade ou o organismo como um todo. Ao
acontecer, o que quer dizer que nossa [... ) Uma imagem se expressando,
vida nada mais é do que um número
- a tensão surgida da necessidade
Uma Gestalt total no papel projetada.
~v·~"'"''' o horizonte da psicologia da Gestalt,
de um fechamento é chamada frus- Goldstein criou a sua própria teoria, denomi-
infinito de situações não terminadas, [... ] Nada de ciência seca
tração, o fechamento é chamado nada "teoria organísmíc:a".
Gestalts incompletas. Logo que acaba- E tampouco de poesia.
satisfação. Satis - suficiente; facere Gestalt surgindo de um fundo ... A psicologia da Gestalt forneceu a Peris
mos uma situação, surge outra. (Perls,
- fazer; fazer com que seja suficiente. Eu vivendo a vida. um corpo conceitua! básico: todo, parte, figu-
1977,p.32)
Em outras palavras, preenchimento, ra, fundo, Gestatt, situação inacabada, insight.
Patrícia lima (Tk:ha)

01é10NÁR10 DE GESTALT·TERAPlA
DICIONÁRIO OE GESTAL T,TERAPIA
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entre outros, o que lhe permitiu contrapor-se na criação de condições que permitam sa- organismo/ambiente. A figura (Ges- GESTALT-PEDAGOGIA
ao assodacionismo e ao mecanicismo que ele tisfazer sua necessidade e desaparecerão tão talt) na awareness é uma percepção, A é uma abordagem
compreendia como a base da psicanálise freu- logo tenham sido atendidas. imagem ou insight claros e vívidos; no pedagógica de proposição relativamente re-
diana da época. No prefácio do livro de PHG ( 195 l ). que comportamento motor, é o movimento cente. Foi proposta inicialmente pelo russo
Em EFA. Perls (2002, p. 61) cita Wer- marca o nascimento da Gestalt-terapia como elegante, vigoroso, que tem ritmo, que radicado na Alemanha. Hilarion Petzold, em
theimer para definir o gestaltismo: "Existem uma abordagem psicológica. os autores resu- se completa etc. 1977. Seus piíncípios estão fundamentados
totalidades cujo comportamento não é deter- mem essa proposta, já apresentada em EFA
na Gestalt-terapia, o que estar funda-
minado por seus elementos individuais. mas
É que o contato com mentados na humanista e na flio-
onde os processos paróaís são determinados [ ... j Na luta pela sobrevivência, a ne-
qualidade associado à fluidez do processo sofia exístencíal, e ter a fenomenologia como
pela natureza intrínseca dessas totalidades. A cessidade mais importante torna-se
de formação figura/fundo gera Na sua metodologia de trabalho.
esperança da teoria da Gestalt é determinar a figura e organiza o comportamento
obra de PHG (1997, p. 46), os autores são é um tenno que foi
natureza de tais totalidades·. do indivíduo até que seja satisfeita,
enfáticos: "[...] a realização de uma Gestalt cunhado por Fritz Perls, seu fundador. em
Em identificação de uma cadeia depois do que ela recua para o fundo
v1occ,n1sa é a própria cura, porquanto a 1950. O trabalho de Perls se constituiu em
causal proposta pelo assoóacio11ismo, o ges- (equilíbrio temporário) e dá lugar à
de contato não é apenas uma indicação da transpor para uma forma de terapia elemen-
taltismo propõe o "como· é constituído um próxima necessidade mais importan-
dado fenômeno: 1nt,eçrraec10 criativa da experiência. mas é a tos que se originaram na psicologia da Ges-
te agora. No organismo saudávei essa
corno acontecem suas 1nn°r-r·P1acn, s própria intf'or·;,r;m" talt. da foram expoentes Kõhler. Kollka
0
mudança de dominância tem melhor
e Wertheimer. Com base em suas experiên-
entre as partes; possibilidade de sobrevivência. (PHG, Para Yontef ( 1998. p. 3 1). Gestalt-terapeu-
cias como Perls foi juntando a
como e em função do que o todo se 1997,p.35) ta contemporâneo, "[... ] o insíght, uma forma
essa proposição inicial idéias, pensamentos e
estrutura desta determinada maneira. de awareness, é uma óbvia ime-
proposições que lhe pareceram pertinentes
O é que o "todo" tem proprie- ,,,,,:tMisrr"' possibilitou a Perls contribuir diata de uma unidade entre elementos. que
dades intrínsecas como conjunto, diferente da na tarefa de compor um corpo teórico que
da Gestalt-terapia. enfatizan- no campo aparentam ser cficn~,·ç,c . Seria uma
soma das partes que o compõem. Portanto. satisfizesse seus anseios de propor uma nova
do o processo"[... ) de formação figurafiundo súbita alteração do campo que, ao
é o modo de organização dos fenômenos. aoorcia,iem psicoterapêutica.
no campo organismo/ambiente" (PHG, 1997, criar uma GestaJt, possibilita a de
fatos, ou comportamentos que Sempre assessorado por sua esposa,
p. 63).
uma Laura. Fritz Peris escreveu livros, dos quais
imoorta, uma vez que esse "todo" sempre Para a Gestalt-terapia, o contato com
carregará sua singularidade, muito Roberto Veras Peres se destacam EFA ( 1947) e a obra de PHG.
awarene:ss gera novas totalidades significa-
diferente de seus elementos individuais. Para sigla cunhada com as iniciais dos três auto-
tivas que possibilitam em si a integração de
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Perls. ainda na mesma obra, interesses es- um problema. A formação de Gestaíten (fi- res: Perls, Hefferline e Goodman ( 1951 ).
Prn,.s, E S {19"12). f:jp. fome e agressiio. São Paulo: Sum-
são determinados por necessidades guras) completas e a qualidade do contato mus, 2002.
específicas, e são decisivos na criação que propicia passam a ser as político e extremamente preocupado com
H"FtP~INE, R.; GOOOWN. P. (f951). Gestalt-
J'rru.s. F. S.;
da realidade subjetiva. Portanto, a realidade condições de saúde mental e de crescimen- terapia. São Paulo: Summus, 1997. as questões ligadas à pedagogia, ao ensino
que importa é a realidade dos interesses. De to. Discorrendo a esse respeito, PHG ( 1997, YoNTH. G. M. Processo, diálogo e <M<Jreness. São Paulo: e à aprendizagem. É provavelmente devido
um fundo indiferenciado, a necessidade do- p. 45) afirmam que: Summus, 1998. a esse fato que o livro tem urna preocupa-
minante do organismo se torna figura, uma ção bastante com o desenvolvimento
VERBETES RELACIONADOS pessoal dos indivíduos e que a Gestalt-te-
realidade subjetiva. contra um fundo indife- f•.. J Contata,
o trabalho que resulta
Assimilação. Awareness, Contato, Oescimento. Doen- rapía tem uma dimensão de aprendizagem,
rente. Para que o indivíduo consiga satisfa- em assimilação e crescimento é a for- ça. saúde e cura, Dominâncias, Figura e fundo. Fluidez,
zer sua necessidade ou fechar a Gestalt, ele mação de uma figura de interesse con- Gestalt. Necessidades, Organismo. Parte e todo. Situação
por parte dos clientes. em seu bojo. Segun-
precisa ser capaz de interagir com o meio, tra um fundo ou contexto do campo inacabada. Teoria organísmic,. lotalídade do Burow: Scherpp ( 1985, p. 22):

.
DICIONÁRIO OE GESTAL T-TERAPJA DICIONÁRIO DE GEHAl T-TERAPIA
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a aprendizagem significativa, VERBETES REI.ACtONADOS


O principal mérito de Paul Goodman Os prindpios Gestalt-pedagógicos 19 de- vez que
que Lilienthal (2004. p. 122) assim descreve: Atualização. Crescimento. Dial6gico, Existencialismo,
reside no fato de ele ter reladonado monstram uma grande preocupação com o Experiência. Fenomenologia, Gestaitismo
pontos de vista na Gestalt-terapia com indivíduo no sentido de que ele possa vir a
questionamentos político-pedagógicos. se desenvolver plenamente do ponto de vis- É no próprio flux.o do sentimento de "es-
A diferença em relação a Perls, que ta pessoal; a Gestalt-pedagogía tem, antes de tar tendo a experiência" que o sujeito se GESTALT-TERAPIA
se dedicava principalmente à prática mais nada. urna grande preocupação com a atualiza e busca significados à experiên-
Gestalt-terapia foi o nome de batismo.
psicoterapêutíca, é que Goodman, utÍ· formação dos indivíduos. A aprendizagem das cia, e não por um trabalho posterior.
decidido por Frederick Perls, para uma nova
lizando-se das perspectivas da Gestalt- disciplinas ocorre a partir do momento em Um aspecto fundamental em saúde e
que desenvolvera, desde 1946, jun-
terapia, criticava a sociedade, em espe- que o aluno se encontre bem consigo mesmo, em educação, a possibilidade de alterar
to com o grupo de intelectuais que se inti-
cial o sistema educacional americano. respeitando-se e sendo respeitado, condição a modo como o sujeito está disposto no
tulava "Grupo dos Sete" From, Paul
que o deixará, naquele momento, nas melho- mundo, abrindo-lhe possibilidade de
Goodman, Paul Weisz.
Foi a partir da fundamentação teórica ini- res de aprendizagem. navas sentidos, se dá pela reflexão na
Ellíot Shapiro, Raiph Hefferline, Laura e Fritz
cial da Gestalt-terapia que Petzold tra.'lspôs os Um professor que desenvolva seu tra- experiência, e não so'1re a experiência.
Perls). A Gestalt-terapía é uma síntese coe-
princípios em prinápíos balho baseado nos princípios anteriormente rente de várias correntes filosóficas, me-
l:ie:stalt-c>edae<'.>2i<:os. tendo sido seguido por descritos certamente tera um comportamen- Por isso. a pode ser
todológicas e formando uma
educadores como Olaf-Axel Burow, Karlheinz to bastante diferenciado do comportamento também à prática de outras áreas
verdadeira filosofia existencial. uma forma
Scherpp, Martin Rubeau, Helmut Quitmann. tradicional. o que implica ele próprio ter muito como fis10terapía, terapia ocupa-
particular de conceber as do ser
Th,js Besems e Suzanne Zeuner, entre outros. bem trabalhados os princípios Gestalt-peda- cional, serviço social, fonoaudiologia, odon-
vivo com o mundo.
gógícos, uma vez que necessitará de habilida- tologia, enfermagem e medicina, como abor-
O novo método foí nomeado, sucessi-
veu-se extraordinariamente nos últimos anos, des que lhe permitam fazer leituras adequadas dagem propiciadora de saúde
vamente, como terapia da concentração: te-
principalmente nos países de língua alemã. de seus alunos e ter uma postura promotora e desenvolvimento, uma vez que tem uma
rapia do aqui e agora; existencial;
No Brasil, apesar de a Gestait-terapia ser uma de crescimento A esta última corres- inequívoca vocação (psico)profilática.
terapia integrativa; terapia experiencial; psico-
abordagem terapêutica divulgada e conhecida, ª postura dial6gica. E é ela o ponto Luiz Alfredo lílíemhal Rnalmente, Fritz Perls su-
apenas mais recentemente a Ge~a.1t-r,er11a. mais importante e controvertido da Gestalt- ' ,estalit-1:!!ra1:>1a· , o que suscitou debates
pedagogia, pois propõe que o professor e a REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
gogia tem despertado o interesse dos profis- com seus colegas, e,
escola abram mão de uma parte de Atwuzzí, M. M. O feS€(lte da fala aurénuco. Campinas:
sionais de saúde e educação. Papirus, 1989. apesar de esse nome ter sido considerado es-
Cabe falar aqui da importância de que o sua autoridade, de forma que a entre trangeiro e esotérico demais. foi o escolhido
Bv,sov,r, O.A Grundlagen ~ Gestaltpooagogik. Dort·
nrr,t<><<rir tenha multa clareza do tipo de rela- e aluno possa se tomar, tanto quan- mund: Veriag Modemes Lerner-. 1988. por Perls, por motivos de provocação e de
ção que estabelece com a matéria que se dis- to possível, uma relação de encontro, ou seja, BuRow. 0.-A; Scherpp, K. Geswíq:,edagogia. São Paulo;
marketing.
uma entre pessoas iguais. É na Summus, J985.
põe a lecionar, que idealmente deve se apro- O termo , portanto, sur-
L1tlfNlW.I., L. A. A Geswl!pedagogía sai às roos para tmba-
ximar tanto quanto possível de urna relação de encontro que as partes poderão se mani- ge em 1951, com o lançamento do lívro Ges-
lhar mm crianças e edw:ndores de rw. 1997. Disser-
dialógíca. fomentando também, tanto quanto festar de forma autêntica, o que significa dar tação (Mestrado em Psicologia Escolar e do Desen- talt therapy - excitement and grawth in human
respostas novas em sentido, mesmo que seu voMmento Humano) - Instituto de Psicologia da USP
possível, a mesma relação entre seu aluno e (lpusp), Universidade de São Paulo (USP). 5:io Paulo. personalicy, escrito por frederick Perls, Paul
a matéria que ele está veiculando. Isso impli- conteúdo explícito o habrtual (Amatuzzí, Goodrnan e Ralph Hefferline 20 •
EdU(<l-siío: uma possibilidade de
ca que esse professor tenha um bom prepa- 1989). Esse tipo de resposta tem possibilida- ação. 2004. Tese (Doutorado em Psicologia
des terapêuticas e educativas enonnes, urna e do Desenvolvimento Humano) - Instituto de Psi-
ro para levar a proposta Gestalt-pedagógica
cologia da USP (lpusp), Uníver,;ídade de São Paulo
adiante. Na Alemanha, os cursos de formação (USP). São Paulo.
em Gestalt-pedagogía têm duração de três 111 Esses prindpios podem ser encontrados em Surow; Scher-
anos, à semelhança dos de Ges:talt-terapia. pp (1985), em 8IJR,w(f988) e em Lilienthal (1997).

DICIONÁRIO DE GESTALT·TERAPIA
DICIONÁRIO DE GESTAl T-TERAPIA
132 133

É difícil encontrar uma definição sumária ou "geográficos" e encontrar assim um territó- tização. Para os psicanalistas, a desa· Em seu aspecto clínico, a Gestalt-terapia
para Gestalt-terapía, já que a própria teoria rio de liberdade e de responsabilidade. parecimento do sintoma é um "l=: se apresenta como uma terapia exístenáal-fe-
propõe uma consáência que não se limite ao Portanto. nessa perspectiva global, holísti- para os gestaltistas, é a consâentiza- nomenológica que objetiva aumentar a O'MJl'e-
âmbito do racional, mas inclui a dimensão cor- ca, a terapia visa à manutenção e ao desen- ção que é assim considerada. (Ginger; ness do cliente, no aqui e agora da relação
poral e sensória; enfatiza a experiência vivida, volvimento de um bem-estar harmonioso, e Ginger, 1995, p. 66} terapêutica. e. para isso, utiliza recursos como
o contato e o diálogo. Impossível reduzir um não à cura, à reparação de qualquer distúrbio, experimentos. fantasias dirigidas,
concerto assim a poucos parágrafos. Dessa que subentenderia uma referência impricíta a A Gestalt-terapía se nutriu, explícita ou e outros, facilitando o desenvolvimento do
forma, foi necessária uma de concei- um estado de ·normalidade", oposta ímpkitamente, da combinação de numerosas auto-suporte, a capacidade de fazer escolhas
tos, organizados sob uma nova Gestalt, para à do espirita da própria GestalHerapia, que correntes filosóficas e terapêuticas de diversas
dar um sentido a este verbete. valoriza o direito à a originalidade fontes: européias, americanas ou orientais. Al- P'ierre Ferraz
irredutível de cada ser. gumas deixaram vestígios mais importantes na
A Gestalt deve seu surgimento às intui- Na prática, esses princípios desembo- Gestalt atual: a fenomenologia. o ex1stencía- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ções geniais e às crises pessoais daquele cam em um método específico de trabalho, lismo e a da Gestalt; a psicanálise, GrNGER, $.; GJNCE!<, A. Gestalt: uma terap;o do CónW(O.

que devemos considerar seu principal uma abordagem fenomenológico-clínica, isto São Paulo: Sumrnus. 1995
as filosofias orientais e a corrente húmanísta.
~s. ES.: HEHESUNE. R.; G:::x:x:x-. F: ( 1951). Ges!<:JIHem-
fundador: Fritz Perls. De fato, ela foi No entanto, ela é mais que uma síntese des- pia. São Paulo: Summus. 1997.
amplamente articulada e formalizada menta do cliente (sua awareness) em cada sas tendências; ela as reconfigurou como uma
por Laura Perls e Paul Goodman, e caso particular e na tomada de consciência nova Gestalt. É uma visão de mundo que pri- VERBETES RELACIONADOS
também por seus primeiros colabora· "intersubjetiva" que está acontecendo entre vilegia a e não os objetos, o processo .A.qrn e agora, A = . Coosáen!i:ração, Contato, Doen-
dores e pelos continuadores de segun- ça, saúde e cura. Experimento, Ex,stenoalís-
em detrimento ao conteúdo. mo. Fenomenologia. Holismo. Responsabrli·
da e terceira "geração" (Isadore From, eventualidades). apoiado em certo número de dade, Terapia e técnica de concentração
Jím Simkin, Joseph Zínker, Ervin e técnicas, às vezes chamadas de exercí-
Miriam Polster etc.). (Ginger; Ginger, cios ou experimentos. "Mas é muito freqüen-
1995,p.44) te que essas técnicas - algumas inspiradas no
psicodrama e várias outras de
Gestalt-terapia é uma psicoterapia que en- outras abordagens (análise transacional, por
fatiza "concentrar na estrutura da con- exemplo) - sejam confundidas com Gestalt
creta; preservar a integridade da concretude por pessoas que ignoram praticamente tudo
encontrando a intrínseca entre fatores a respeito de seus princípios fundamentais"
socioculturais. animais e físicos" (PHG, 1997, (Ginger: Ginger, 1995, p. 19).
p. 50). É uma atitude básica, que se diferencia
ao mesmo tempo da psicanálise e do cornpor- Poder-se-ia dizer que a Gestalt propõe,
t.amentalismo, constituindo urna "terceira via' de certa forma, uma inversão do pro-
original: compreender e aprender; mas. sobre- cesso de cura: em psicanálise, se supõe
tudo, experimentar e promover nosso poder que a consdentízação acarrete uma
criativo de reintegrar as partes dissociadas: ex- modificação do vii-ido, enquanto em
pandir ao máximo nosso campo vivido e nossa Gestalt as modificaçiJes do vivido-por
liberdade de escolha. tentar escapar ao deter- meio da experiência - permitem uma
minismo alienante do e do meio, à mudança do comportamento, acom-
carga de nossos condicionamentos •históricos" panhada de uma eventual consden·

D~CIONÁf\JO DE GESTAlT-TéRAPIA DICIONÁRIO DE GESTALT,TERAPIA


h
HÁBITO Também podem ser reconhecidos como
saudáveis quando, por exemplo, são coo-
Considerada uma resistência não emoao-
oe,ratrvo< e direcionados para a manutenção
nal de suma importância. a do hábito"
do holismo. Laura Perls dizia que "os hábitos
reluta à mudança, Muitas vezes determinado
bons sustentam a vida" 1979. p. 85).
por economia de energia, o hábito le-
Fazem parte de um processo de crescimen-
var ao conflito se não atualizado, tomando-se
to e mudá-los toma-se tarefa difícil quando
assim inadequado, No livro EFA, Perls (2002,
implica do fundo e "investir energia
p, define: "Os hábitos são estratagemas
para ou reorganizar o hábito·
económicos que aliviam as tarefas das
(Perls. 1979, p. 85). No entanto, considerá-
pois a concentração só é possível
los Gestalten é reconhecê-los, em
num item de cada vez. No organismo sau-
dável, os hábitos são cooperativos, dirigidos à prinápio, "como dispositivos econômicos da

do holismo". natureza' (Perls, ! 979, p. 85), Perls


Entendidos como fixações, os hábitos em sua obra autob1ooráfica.
apresentam diferenças em sua dinâmica. É O caráter e a compulsiva são
o sentimento de medo que os mantêm vi- representantes das formas fixadas neuróticas.
vos, mas poderiam ser transformados em Além dos hábitos, as lembranças, as abstra-
reflexos "condicionados". "Esta comr,rP,"11<:3ín as técnicas, as memórias são reconhe-
implica que uma mera análise dos hábitos é cidas como outras formas fixadas. embora
tão insuficiente para quebrá-los quanto as possam assumir urna conotação saudável,
resoluções" (Perls, 2002, p, 159). Em sua É por meio da confluência, quando se dis-
maioria, os hábitos tornam-se parte da per- solve momentaneamente a fronteira de con-
sonalidade, dificultando a mudança de forma tato, que os hábitos são assimilados e passam
tal que as tentativas conscientes são infrutífe- a se tornar parte do fundo. 'Todo hábito não
ras, Algumas circunstâncias contribuem para contatado é uma segunda natureza; faz parte
esses insucessos como a idade avançada, a do corpo. nãodoself (PHG, 1997, p. 234), e
de ambiente. é por isso que as tentativas de mudanças cau-
136 137

sarn mal-estar. pois esses hábitos são incorpo- HIERARQUIA DE NECESSIDADES (VER o século XIX. e, para contrapor-se a esse de consciinâa da impossibilidade de
rados como naturais, independentemente de NECESSIDADES, HIERARQUIA DE modelo, propôs a adoção da teoria de campo aplicação de leis causais, em qualquer
estarem ou não corretos; e. fazendo parte do NECESSIDADES E EMERGÊNCIA DE como a mais adequada. Acreditava que só por contexto, levou os cientistas das áreas
corpo. qualquer tentativa de mudança do há- NECESSIDADES)
meio do conceito de campo a visão da nature- sociais a tentar adaptar estas desco-
bito é sentida como um ataque ao corpo. za ser restituída de seu caráter fluído bertas ao campo das relações sociais e
A neurose é definida como "a perda das e maleável. Para ele, a limitação dos conceitos à formação de subjetividade humana.
funções de ego para a fisiologia secundária21 HOLISMO
mecanicistas teve a função de simplificar os (Lima, 2005, p. 15)
sob a forma de hábitos inacessíveis" (PHG, O conceito de "holismo" é apresentado problemas das ciências e do pensamento da
1997, p. 235). Mobílizá-los em prol do pro- no livro EFA de Fritz Perls, escrito com a co- mas, se não houvesse uma reconside- Considero que o pensamento holístico na
cesso pode ser útil: ':A terapia da neurose[.. .] laboração direta de Laura Peris e publicado dessa visão, a ciência continuaria tratan· 1..:,e~sta11t-1:er,1D1a foi fundamental para que essa
é o processo deliberado de contatar esses originalmente em 1942, no período em que do dos processos da natureza sob urna ótica abordagem rompesse, definitivamente, com
hábitos de exerádos graduados, de o casal residia na África do Sul. É importante reducionista e superficial. O holismo seria o ponto de vista reducionista e mecanicista.
maneira a tomar a ansiedade tolerável" (PHG, comentar que o termo ·holismo" foi tirado do urna tendência sintética do universo em evo- Dessa forma, abre-se a perspectiva para que
1997, p. 235). Quando os hábitos ou qual- livro Halísm and evolution (1926). autor. luir pela formação de todos (wholes). A reali- em dia possamos usufruir das enonnes
quer outra fonna fixada não possuem mais um Jan Smuts, residia também na África do Sul, dade é ordenada e Ar.é mesmo as que o pensamento sistêrníco
emprego no presente, em função da auto-re- exercendo bastante significativas no células são sistemas ajustáveis que funcionam tem trazido às ciências. de modo e mais
organfsrnica, há o do governo daquele país. No entanto. o contato em um modelo de seme- especificamente à psicologia, reafirmando um
conhecimento inútil: "Não é pela inércia, mas de Perls com a obra de Smuts era anterior à lhante aos sistemas sociais. Para Smuts ( 1996, olhar complexo sobre a realidade.
pela função que uma forma e não é sua ida para lá, pois, desde que fora assistente p. 97}: "Matéria e vida consistem, atômica e Patrícia Líma (Tícha)
pela passagem do tempo, mas pela falta de direto de Kurt Goldstein, em 1926, já conhe- celularmente, de unidades estruturais orde-
função que uma forma é esquecida" (PHG. cia e admirava a obra desse autor. Na !ntrodu- nadamente agrupadas em conjuntos naturais REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1997, p. 101). dessa primeira obra de Perls ( 1969. p. 7), que denominamos corpos ou organismos". L1MA.P. V. A Psicoterap,o e mudança- uma refleeoo. 2005.
Tese (Doutorado) Instituto de Comurncação, Uni-
Gladys D'Ao-í ele declara a intenção de utilizar-se do holis- É importante destacar que já no livro EFA ver,;ídade Federol do Rio de Janeiro (UFRJ). Rio de
mo como "uma nova ferramenta intelectual'' ( 1969, p. 33), diferen- Janeiro.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS condizente com a concepção de "campo". Pmts. E S. (1942). hunger and agressíon. Nova York:
ças entre o pensamento holístico de Smuts e
f'ERJ.S, E 5. Ego. fome e agressão. São Paulo: Summus. \lintage Books,
2002.
""''" ,,,,nn Perls. o holismo é urna atitude seu próprio ponto de vista. Ele ressaltava que
SMVTS, ). Holísm and evolution. Nova York: Gestalt Journal.
pela qual nos damos conta de que ·o mundo para Smuts as questões relativas a vida e men- 1996.
_ _. Escarafi.mthando Fritz: dentro e foro da krta de
lixo. São Paulo: Summus, 1979. consiste per se de átomos, mas de te eram enquanto para ele os as-
~ru.s, F. S.; HEFFEIWNÉ, R.; GOODIW'<,?. (1951). Gesrnlt· estruturas que possuem um sentido diferente pectos do corpo, da mente e da alma seriam Vl:RBETES RELACIONADOS
terapia. São ~ulo: Summus. 1997. do que o da mera soma de suas partes" (Peris. fluídé.2, Organismo, Sistema, Toona de campo
os mais relevantes.
1969. p. 28)n. Ele recomendava a leitura do Em minha tese de doutorado, defendi o
VERBETES REI.ACIONADOS
livro de Smuts não só aos das ponto de vista de que:
Auto-regulação organfsmíca, Conflito, Coolluênda, Cres- HOMEOSTASE
cimento, Energia. Figura e fundo, Fronteira de contato. áreas biológicas, mas também àqueles das di-
Gestllt, Hohsmo, Neurose, Organismo, Resistência. Self versas áreas das ciências. A partir da década de 50, conceitos AD considerar o conceito de 'homeost:ase"
Smuts, em sua obra, havia feito uma sé- da física, wmo o de caos, complexi- na teoria Per!s recebeu a influência
ria critica ao modelo cientifico que dominou dade, indeterminação, fluxo, desor- de Kurt Goldstein, precursor da teoria organís-
dem, etc. começaram cada vez mais a míca Esta considerava não apenas as
serem adotados para tratar dos fenô- fisíológícas ou psicológicas, mas o organismo
menos biofógicos e sociais. A tomada como um todo, em suas funções e ações.

DiCIONÁRlO OE GESTAl T-TERAPIA DtClONÁRIO DE GESTAlT-HRAPIA


138 139

Assim, ele chamou de processo de auto-regu- soas aspiram satisfazer, silo como bu- que estiver em primeiro plano em nossa hie- auto-reguladora, ·a doença, as deficiên·
lação organísmica o processo homeostático, no racos da personalidade que devem ser rarquia de necessidades. Isso implica uma esca- cías e excessos somáticos têm um alto valor
qual os seres vivos buscam a satisfação de suas preenchidos. (... ] Costumamos dizer la de valores que apontará qual a necessidade na hierarquia de dominância".
necessidades (auto-realização) de acordo com que a Gestalt-terapia é uma tentativa, dominante. A necessidade pode ser entendida Este conceito também subjaz a todos os
sua com o ambiente. uma proposta de lidar com essas ne- como uma tensão existente no organismo, que demais pressupostos da teoria gestáltica: con-
Perls ( 1985. p. 20) define o processo ho- cessidades, estes desejos, estes buracos tende a sobressair-se (dominância), em busca tato, =reness, fronteira, figura/fundo,
meostático como "aquele pelo qual o organis- que impedem a centragem, a harmo- de Assim. eía organiza a energia dis- campo, sintoma. totalidade orga-
mo mantém o equilíbrio e, conseqüentemente. nia do organismo. ponível no organismo oo sentido de sua satísfa- nismo/ambiente. ajustamento criativo etc.
sua saúde sob condições diversas. A homeos- Quando esta for satisíeita, ela voltará para Cláudia Lins Cardoso
tase é, portanto, o processo através do qual o o fundo e emergirá como necessidade
organismo satisfaz suas necessidades". homeostase e sua importância na teoria da que anteriormente era a segunda na es- REFERÉNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

A homeostase (ou processo de auto-re- abordagem gestáltíca, devem-se considerar as f\ru.s, F. e testemunha ocular da
cala de hierarquia. e assim sucessivamente. Na
terapia. Zahar: 1985.
gulação organísmica) ~nvolve a totalidade do duas necessidades bástcas de todos os seres teoria gestáltica, plena da necessida-
Es<ara/imchando Fritz: de11tro e (ora da lata de
organismo em sua interação com o ambien- vivos, apontadas por PHG ( 1997}: sobrevivên- de implica a capacidade da manipular lixo. Summus, 1979.
te. Abarca todos os tipos de necessidades e cia e crescimento, sendo a primeira prioritária a si mesma e ao mundo, a ftm de retirar dessa Pfl'Ls, E S.; HmEPsONE. R.; Goootv,N, lê (1951). Gestalt·
deficiências: fisiológicas (fome, sede. sono, em relação à segunda. lõdos nós tendemos terapia. São Paulo: Summus, 1997.
interação aquilo que lhe for nutritivo e rejeitar
temperatura corporal. sexo etc.). psicológicas RlB!::Ro, j. f GeswlHeropio: refazendo um caminho. São
ao crescimento. mas, se nossa sobrevivênaa aquilo que lhe for tóxico. PHG (1997, p. 84) Paulo: Summus, 1985.
(amor. auto-estima, entre ou- :,m,~:>r:,r1::i de algum modo. todo o organis- descrevem da seguITTte fonna a hierarquia de
tros). sociais etc Atende à necessidade sobe- mo se mobilizará a fim de manter a vida, de necessidades: VERBETES RELACIONADOS
rana dos seres vivos de Tra- se tomar criativo e encontrar formas de resta- Arustamento criativo. Auto-regJação organismica, Aware-
ta-se de um mecanismo tão importante que belecer seu equilíbrio e, com isso, garantir sua Cada situação inacabada mais pre- ness, Conscíênda, Contato. Crescmento, Doença, saúde
e cura. Domin:incias, Energia, figura e lundo. Fronteira
a qualidade de equilíbrio/desequilíbrio home- sobrevivência Esse é o processo homeostáti- mente assume a dominância e mobi- de contato. Gesta!!, Necessidades, Neurose, Organismo.
ostátíco está íntimamente vinculada àquela de co primeiro. É esse processo de auto-regula- liza todo o esforr;o disponível até que a Polaridade, SeJf, Situação inacabada. Teoria organísmita,
saúde/doença do organismo. Ao considerar- ção organísmica que propicia ao se Totalidade
tare/a seja completada; então torna-se
mos o lato de que estamos. todo o tempo, manter vivo e crescer diante das vicissitudes da indiferente e perde a consciência, e a
experimentando inúmeros desequilíbrios que vida, aínda que por meio de infinitas possibilida- necessidade seguinte passa a exigir
HOTSEAT
originam necessidades diversas e simultâneas, des de Perls ( 1979, p. 78) atenção.[ ... ] Oquepareceespontanea-
concluímos que o processo homeostático se isso ao afirmar que 'qualquer mente importante de fato organiza ·Terapia do hot seat" 23 refere-se a uma si-
realiza de forma perene em nossa vida. equilíbrio constitui uma Gestalt realmente a maior parte da energia tuação na qual o sujeito se vê em evidência
Todas as situações inacabadas são fontes incompleta, uma situação inacabada que do comportamento; a ação auto-re- embaraçosa. por motivo não lisonjeiro. Vale
geradoras de tensão no organismo, levando o organismo a se tomar criativo, a encontrar guladora é mais vívida, mais intensa recordar que foram as primeiras investidas
ao desequilíbrio que deflagra a necessidade de meios e formas de restaurar o equilíbrio". nos trabalhos em psicoterapia.
e mais sagaz.
restabelecimento da homeostase. Diz Ribeiro Outro pressuposto fundamental, intima- Perls, em Gesta/t-terapío explicada ( l 977,
(1985, p. 111): mente vinculado ao conceito de homeostase, p. 11O), apresenta o fenômeno dizendo:
Na abordagem gestáltica, o conceito de
é o de "hierarquia de necessidades". Na me- homeostase também tem relação direta com
Quando um desejo se torna realidade, dida em que sofremos simultaneamente uma Eu uso seis instrumentos para poder
as concepções de sintoma, neurose,
uma nova energia nasce no indivfduo. diversidade de estímulos, os quais geram de- funcionar. Um é a minha habilida-
rapia e reiaçáo terapeuta-cliente, propostas
Desejos e necessidades são quase sem- sequilíbrios de diversas naturezas. o equilíbrio pela abordagem PHG ( 1997. p. 87)
pre estados deficitários a que as pes- homeostático se dará mediante a satisfação sustentam que a neurose é uma experiência

DICIONÁRIO DE GESTALT·HRAPIA DICIONÁRIO DE GESTALT,TERAP\A


140

de; outro é o lenço de papel. E há a e diferenciar o freqüente entendimento de ca-


cadeira quente (hot seat). li para aí deira quente e cadeira vazia como sinônimos; 1
que vocês estão convidados, se quise- compreendo que cadeira quente refere-se à
rem trabalhar comigo. E há a cadeira situação de risco e comprometimento em que

1
vazia, que trará consigo um bocado o diente e o terapeuta estão, ao realizarem o
da personalidade de vocês e de outros experimento. este sim o procedimento básico
- vamos chamar assim, por enquanto da Gestalt-terapia; enquanto cadeira vazia diz
- encontros interpessoais. Então. te- respeito à possibilidade vivida no experimento
nho meus cigarros, agora mesmo estou de colocar; representar ali (na cadeira vazia)
com um muito bom, é um Shaman; quem ou o que emergir durante o trabalho
e o meu cinzeiro. Finalmente, preciso
de alguém com vontade de trabalhar:
alguém com vontade de ficar no agora,
para presentificar o contato.
Traduzido para o português como •cadei-
ra quente" ("berlinda"), hot seat. em espanhol,
10, FUNÇÃO (VER FUNÇÃO
10, FUNÇÃO EGO, FUNÇÃO
realiza uma ______
dít.~re1~c1,~ção
--...:.. , em
opostos apresentam, em seu
fazendo algum trabalho com sonhos. virou "banquillo de los acusados"; no entanto, PERSONALIDADE) contexto específico, uma ~~.t,;!(l.-
Estou à disposição. Quem quer real- ambos os termos sugerem o incômodo, o sí. Permanecendo aten-
mente trabalhar comigo, e não sim- desconfortável. o da Imagi- tos ao centro, podemos adquirir uma
plesmente fazer de mim um palhaço? no que Fritz aproveitou a repetida INDIFERENÇA CRIATIVA. habilidade criativa para ver ambos os
pelos partiápantes de seus grupos e a inte- PENSAMENTO DIFERENCIAL, PONTO lados de uma ocorrência e completar
Graças ao jeito anárquico e não acadêmico grou como clarificadora do contrato de risco ZERO uma metade ínwmpleta. Evitando uma
de Perls faJarH sobre seus conceitos, ocorrem que cliente e terapeuta estabelecem ao inicia-
O ponto de partida para a compreen- perspectiva unilateral, obtemos uma
diversos entendimentos para cada um deles. rem um experimento. no qual desconhecem
são desses conceitos é a obra inicial de Perls. compreensão muito mais profunda da
Com hot seat (cadeira quente) não é diferente. o que farão e se chegarão a uma boa solução;
EFA ( 1947). Nesse livro, Perls apresentou estrutura e da função do organismo.
Alguns autores, como Erving e Miriam Polster típica integração e acolhimento feitos por uma
-;;-mas propostas de mudanças teóricas ao (Perls, 2002, p. 45-6)
(2001). entendem hot seat como uma técnica pessoa bruta e provocativa como Perls.
de trabalho individual feita em situação de gru- pensamento psicanalítico da mas ainda
po; Paulo Barros, no Prefácio da edição brasilei- vinculado à e ao ensino da psicanáli- Perls argumentava que, pela do

ra de Tomar-se presente (ín Stevens. 1976). re- se, dado que a Gestalt-terapia não fora, até pensamento de Friedlander, características ou
REFl:RÍiNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
fere-se a hot seat corno uma téaiica básica da esse momento, criada como uma nova escola eventos que julgamos opostos nada mais são
Gesta!t-terapia: já Graça Gouvêa (2006) afirma psicológica. No entanto, Perls já apontava al- do que múltiplas diferenciações, que ocorrem
que hot seat. ou cadeira vazia, é um trabalho gumas insatisfações e desavenças com o sis- com base em uma mesma matriz de forma-
>. Acesso em: 14 dez. 2006.
de projeção ativa, em que o terapeuta estimula tema de pensamento psicanalítico de Freud. ção. O pensamento diferencial pressupõe
f'tRts, S. GestnlMerapia e;,plrcada. São Pauio: Surr,mus,
o cliente a estabelecer um contato mais direto 1977. Sua intenção era promover uma revisão nele, que, de acordo com algo não diferenciado (o
com as próprias intmjeções.e fantasias, suge- P01.mR, E.: fb.sr,s. M. Ges1alHerap1G im:egrada. São adotando como eixo para isso as duas__çQ_n- "pré-diferente", termo sugerido por Perls), a
Paulo: Summt!S. 2001.
rindo o diálogo do diente com essas mesmas diferenciação em opostos se dá e
STEVENS, J. O. 1ómor-se presente: e>'4)€rimemas de cres- de usualmente
fantasias de forma dramatizada. Vale evidenciar cimento em Gestnlt-terapia. São Pavio: Summus,
1976. chamado , sendo que "a situa-
º campo. é um fator decisivo na sua de-
VERBETES Rl!LACIONADOs terminação" (Peris, 2002, p. 50). O zero tem,
[... ] que todo evento se relaciona com
Aqui e agora. Experimento, /'<;icoterapia de gruJX) e
um ponto urJJ, a partir do qual se ainda. um duplo sentido;
'<Wri:shop. Sonhos

OICIONÁR!O DE GESTAlT-TERAPIA
I N ~ CRIATIVA. PENSAMENTO DIFERENCIAL.. 142 143 •NSTINTODHOME

[... J o de um início e o de um centro. Se ao primeiro capítulo de e agressão'' fazendo nos diálogos com sua esposa. Laura, sua continuação, de um suprimento
temos o campo, podemos determinar (Perls, 1979, p. 96). nos quais procurava a psicanálise de de alimento intelectual, social e si-
os opostos e inversamente, a partir dos Freud, a análise do caráter de Rekh, a teoria milares, do ambiente. Mas quando
Gladys D'Acri e Patríéia Lima (Ticha)
opostos, podemos determinar o campo de campo de Kurt Lewin, a teoria organís- este material exterior não é adequa-
especifico. (... ] A indiferença criativa REFEfltNCIAS BIBUOGRÁFICAS mica de Goldstein, com quem trabalhara, o damente metabolizado e assimilado
não é de forma alguma idêntica a um loFREDO, A A cora e o rosto. São Paulo: Escuta. 1994. holismo de Jan Srnuts, aspectos da fenome- pela personalidade pode prejudicá-
ponto zero absoluto, mas terá sempre PE:Rt.s, F. S. (1947). Ego. (ame e agressão. São Paulo: Sum- la e até mesmo ser fatal para ela. As-
nologia e da filosofia oriental que conhecera
mus. 2002.
um aspecto de equilíbrio. (Lofredo, por meio de Friedlãnder. e os estudos so- sim como a assimilação orgânica é
Bcora/unchando Fritz: dentro e fora da lata de
1994,p.66) lixo. São Paulo: Summus, 1979. bre a da psicologia da Gestalt de essencial para o crescimento animal,
Koflka, Kõhler e Wertheimer: também a assimilação intelectual,
Em seu livro autobiográfico, E.scarafun· VERBETES RELAOONADOS Em seus pnmeiros anos de vida profis- moral e social por parte da persona-
chando Fritz, Perls ( i 979, p. 99) confirma: "O Campo, Organismo Polandade sional, o casal Perls contou também com a lidade se torna o fato central em seu
desenvolvimento e auro-realizaçiio.
:...------=--
=~:..:.::::=-0::..:..::::::.-Um
º ponto a partir do 'tu•~·...:.:.".;'.':~!::::~~~·~·.
convivência e a amizade de Karen Homey e
a indicação de para um trabalho (Feris, 2002, p. 163)
Uma indiferença que é automaticamente cria- INSTINTO DE FOME
em psicanálise didática na África do Sul. Lá,
tiva logo que a principia'. Falta No Novo dicionário Aurélio {1975), a palavra distanciados do ambiente intelectual que pre- h:, esboçar sua teoria, Perls descreve o
de interesse e indiferença criativa não concor- "instinto" refere-se a um impulso ou estímulo valecia na Alemanha. escreveram esse livro instinto de fome: quando a pessoa entra em
dam entre si; contrariamente, esta última é interior que leva os animais a uma ação dirigida que compila as idéias que são a base do que contato com o alimento, "[... ]ata-
plena de interesses direcionados para os dois à conservação ou reprodução da espécie. O posteriormente vina a ser configurado como refa dos dentes é destruir a estrutura bruta do
lados da diferenciação. instinto de conse1Vaçâo é o que impulsiona os a Gestalt-terapia. Nessa obra, Perls volta sua alimento" {Perls. 2002, p. 167). Em seguida
No primeiro capítulo do livro citado, Perls seres vivos a se proteger. cada um a seu modo, para o instinto de fome. que garante afirma: quanto mais a atividade de mor-
utilizou dois exemplos gráficos para explicar de tudo que lhes possa causar dano. "Fome" é a sobrevivência pessoal, em à der é inibida, menos a cnança desenvoíverá a
o pensamento diferencial. No primeiro, ele definida corno apetite de comer. urgên- ênfase que Freud dera, ao elaborar a psicaná- habilidade de enfrentar um objeto, se e quan-
mostra, por meio de desenhos, que, de uma cia de alimento, sofreguidão etc. lise, ao instinto de sexualidade, que estaria a do a exigir" {Perls, 2002, p. 167).
mesma superfície plana, podemos criar um Na Gestalt-terapia, o verbete tem uma serviço de garantir a sobrevivência Continua dizendo que:
buraco. se a cavamos, ou um monte. como especial, está diretamente Na segunda parte do livro, faz um
resultado da terra que foi retirada do bura- relacionado com o sistema de autoproteção tre o metabolismo mental e o metabolismo Quanto maís triturada uma subs-
co. No segundo, ele usa a representação do e adaptação dos seres vivos, em do psicológico, e, ao citar Smuts, expressa a co- tância, maior é a superfície que ela
Tai Gi da filosofia chinesa como um exem- ser humano. No Dícionório de Do- notação que tem a palavra para apresenta à ação química. A tarefa
plo de um dos diversos mitos cosmogênicos rin ( 1978, p. 32) ressalta a palavra "instinto• a Gestalt-terapla. dos molares é destruir os pedaços
que compreendem o início do universo a como "termo usado para uma for- de alimento; a mastigação é o últi-
partir de um estágio de na.".l-,l!IF>1rF>n,ri::i,~n ma de comportamento biologicamente não Qualquer elemento de um caráter mo estágio na preparação mecânica
do qual surge uma progressiva diferenciação [ ...] o termo envolve impulsos e estranho, diferente ou hostil, in- pam o ataque futuro por substâncias
em opostos complementares. A importância reações não aprendidas". troduzido na personalidade, cria qulmicas, fluidos corporais. A me-
desse capítulo é reconhecida por ele, anos O termo "instinto de fome· foi idealizado conflito interno, impede seu funcio- lhor preparação para a digestáo ade-
mais tarde, mesmo após considerar desa- por Peris desde os primórdios da Gestalt-te- namento e pode mesmo acabar de- quada é triturar o alimento numa
tualizado o restante do material dessa obra: rapia, quando, em seu livro EFA, propõe uma sorganizando-a e desintegrando-a massa quase fluida, müturando-a
·Para mim, a orientação da indiferença cria- revisão da psicanálise. Nessa obra introduz completamente. A personalidade, a,mpletamente com saliva. (Perls,
tiva é lúcida. Não tenho nada a acrescentar novos conceitos. frutos da reflexão que vinha coma um organismo, depende, para 2002, p. 168)

DICiONÁRlO DE GESTAL T·TH\APIA DICIONÁRIO OE GESTALT-TERAPIA


INS1'1NTO OE fOME 144
145

No estômago, o alimento já triturado é Dicionário de psicologia, ressalta que Freud INTROJEÇÃO adequadamente metabolizado e assi-
envolvido pelo ácido estomacal e pela pepsi- utilizou o termo ·instinto" como impulsos
na, e, seguindo seu curso pelo sistema Tenno cunhado por Ferenczí em 1909, milado pela personalidade pode preju-
inatos fundamentais:
tivo, o alimento necessário à sobrevivência do foi utilizado por Freud em alguns momen- dicá-la e até mesmo ser fatal para ela.
organismo é assimilado por este, e o restante tos de sua obra, e por outros autores como Assim como a assimilação orgânica é
(... ] o imtinto pode ser descrito como
é descartado. Abraham, Melanie Klein e Lacan, que, todavia, essencial para o crescimento animat
tendo uma origem, um objeto e um
Mais adiante, Peris atribui alguns transtor· o empregavam a fim de designar sentidos dis- também a assimilação íntelectuai
fim. É originado por um estado de ex·
nos neuróticos e psicótícos a difiruldades vin· tintos ou diferentes nuanças. moral e social por parte da persona-
citação ín tema e seu fim é desl.ocar essa
culadas ao metabolismo mental. Afirma: Frederick Perls, em sua primeira obra, lidade se toma o fato central em seu
excitação; desde sua origem até a con-
EFA ( 1942), também se apropria do termo e desenvolvimento e auto-realização.
secução do seu propósito, o instinto se
A fome de alimento mental e emocio- discorda de algumas noções introduzidas por
converte em uma operaçãc menta[ Nós
nal se comporta como a fome física: Freud e Ferenczi, tal como a afirmação de A partir do desenvolvimento dessas no-
o apresentamos como uma certa soma
K. Horney observa corretamente que que ·a introjeção em si mesma pode ser um ções, começam-se a discutir "as conseqüên-
de energia forçando sua passagem em
o neurótico está permanentemente processo normal". Para Perls, "eles ignora- cia assimilação mental
certa direção. (Dorin, 1978, p. 45) e as v;u1~nr,ps
ávido por afeto, mas esta avidez mm· preser·
ca é satísfeita. Um fator decisivo neste de contato, a introjeção, e suas repercus-
Afirma que para a psicanáiise o "[...J Ins-
comportamento do neurótico é que ele o ordena sua destruição" sões (Perls. 2002, p.
tinto de vida é o conjunto de impulsos que
nào assimila o afeto que lhe é ofereci· 2002, p. 194). Inicialmente. Perls apresenta as três fases de
visam à reprodução e à da vida"
do. (Perls, 2002, p. 169) Ainda neste livro, Fritz contribuí com o ~h<.nn·~o do mundo: introJeção total, introJe-
e o "Instinto do refere-se a qualquer ins-
'"esboço de urna teoria da personalidade", o ção parcial e correspondendo aos
tinto assexual"'. em contraposição ao instinto
Portanto, o instinto de fome é para a Ges· '"metabolismo mental", termo utilizado meta- no desenvolvimento do instinto de
de morte, que seria um impulso primário
início de um processo fundamental foricamente para funcionamento psicológico. fome. Na primeira, "a pessoa ou o material
cuja finalidade é destruir unidades e
de interação organismo/meio que promove a e introduz, por meio de sua teoria do desen- :ntrojetado permanece intacto. isolado como
com tendência destrutivo-mascxiuista voltada
adaptação ativa e criativa do indivíduo em re- volvimento alimentar e dental, o instinto de um corpo estranho no sistema"; é o estágio
para fora e tomando a forma de agressão: Ta· da amamentação. Na partes
lação ao que o cerca. PHG ( 1997, p. 42) su- fome, que propõe a mental como
natos· (Dorin. 1978, p. 45).
correlato da alimentar. Dessa for· de uma oersc,nai1Cl,1de
gerem que •em toda e qualquer investigação
biológica, psicológica ou sociológica temos de Myrían Bove Fernandes ma, na Introdução da Parte li, j. C. Smuts (in metáforas. traços caracterc)tój~1cc)s,

partir da entre o organismo e seu Perls, 2002. p. 163) comenta: mos; refere-se ao da mordida. do uso
REFERÊNCIAS 81BUOGRÁFICAS
ambiente", acrescentando a seguir que '[... J dos dentes incisivos. Na terceira. para "obter
ÜOIUN, E Dicionário de psicologia. São Paulo: Melhora-
qualquer que seja a maneira pela qual teori- mentos, 1978. Qualquer elemento de um caráter es- um funcionamento adequado da personali-

zamos sobre impulsos, instintos etc. estamos HoUANt>I, A B. NrNO dicionário do Unguo lbrtuguesa. 1. tranho, diferente ou hostil, introdu· dade é necessário dissolver, analisar esse ego
ed, Rio de Janeiro; Nova fronteira, 1975. zido na personalidade, cria conflito substancial e reorganizar e assimilar suas ener·
nos referindo sempre a este campo interacio-
f'ERLs, E S. Ego, fome e ogressoo, Sáo Paulo: Summus. interno, impede seu funcionamento e (Perls, 2002, p. l 95-7). Corresponde à
nal e não a um animal isolado" (PHG, 1997, 2002.
p. 42-3). Afinnam que o campo organismo/ pode mesmo acabar desorganizando-a destruição, fazendo uso dos dentes molares.
Pel\l.S. F. S.; HEFltRUNE, R.; GooCWN, P Gestolt-terapia.
ambiente huma'1o naturalmente não é apenas São Pauio: Summus, 1997. e desintegrando-a completamente. A pois, quando se desestrutura a comida mental
físico. mas soda!. personalidade, como o organismo, de- ou real, há a e conseqüentemente

Estabelecendo um paralelo entre as vá· VERBETES REI.ACJONADOS pende, para sua continuação, de um o crescimento.

rias abordagens, Dorin (sic New lntroduc· Assími[açâo, Caráter, Cooíl~o. Contato, Fenomenolog',a, suprimento de alimento intelectual, Idealmente, o alimento psicológico ofere-
Gestaltismo. Holismo, Neurose, PsicO'le. Teoria de cam- sociais e similares, do ambiente. Mas
tory lectures. p. 125, Hogarth Press), no cido pelo mundo externo deve ser assimila-
po, Teoria organísmica
quando este material exterior não é do. • como o alimento real. Quando

DICIONÁRIO DE GESTAL T·TERAPIA


DICIONÁR!O DF, GESTALT-TEI\I\PfA
146

esse alimento é absorvido, sem Em Gestalt-terapia integrada ( 1973), os


ou assimilação, quando é engolido por inteiro, Polster acrescentam que ·a tríade impaciên-

m
sem mastigação, chamamos de íntrojeção. eia para engolir aigo rapidarnente, preguiça
de ter de trabalhar duro para conseguir algo
A introjeção, pois, é o mecanismo neu- e ambição por conseguir o máximo possível
rótico pelo qual inccrporamos em nós do modo mais rápido possível - todas estas
mesmas normas, atitudes. modo, de tendências levam à introjeção· (Polster; Pois-
agir e pensar, que niiil são verdadeira- ter. 200 1. p. 91 ).
mente nossos. Na introjeçiio colocamos Finalmente, no trabalho clínico, ao desfa-
a barreira entre nós e o resto do mundo zer a introjeção. liberando a energia mobiliza·
tão dentro de nós mesmos que poum da pela cabe "focar-se em estabele·
sobra de nós. (Perls, 1981, p. 48) cer dentro do individuo um senso de escolhas
MATURAÇÃO (VER AUTO-APOIO, criativos de um campo onde há
disponíveis para ele. e estabelecer seu ixx:Jer
APOIO AMBIENTAL E MATURAÇÃO) ,.,n,rPs•c>r>" (1997, p. 248). Descrevem os
Posteriormente, Perls ( 1951) amplia suas para diferenciar 'eu' e 'eles'" (Polster; Polster;
diferentes 'caracteres' neuróticos como padrões
idéias e diz que, se o sei( perder parte de suas 200 1, p. 89).
est:en!otiioatjos que l;mitam o processo flexí-
funções de ego, identificação e alienação, o in- MECANISMOS NEURÓTICOS
Giadys D'Am vel de dirigir-se criativamente ao novo· (PHG.
divíduo assumirá uma "como se" Em EFA ( l 942), Perls ainda não utiliza o 1997. p 45). Eles dedicam um capítulo para
mantendo uma atitude conformada. infantil e REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
termo "mecanismos neuróticos". e sim "ini·
PERJ.s, F. S. A aoordagem gesráltica e testemunho ocular da tratar dos •caracteres neuróticos·. que se carac-
condescendente em refação ao ambiente, per- essenciais" para referir-se à rç,r,r;,•;s~,...
terapia. Rio de janeiro: Zahar, 1981. terizam uso constante de mecanismos es·
dendo, assim, a oportunidade de desenvolver introjeção, projeção e retroflexão, destaca.'1-
( 1942). Ego, fome e agressão. São Paulo: Sum- te1t~t11:iad,:,s de
sua própria personalidade. Se o indivíduo mus. 2002. do-as também como as principais ,rn~"r""""
os mecanismos neuróticos. Defendem a idéia
f1cRlS, E S.; HmfR!JNÉ, R.; GooDMAN, !> (1951). Gesta!t- Suas idéias de funcionamento do ego nessas
[... J não puder se auto-identificar e terapio. São Paulo: Summus. 1997. de que o não tem um de
inibições essenciais e a importância da relação
alienar o que não é ele em termos de F'ol.mR. E.; POl.mR, M. (1973). Gesta/r,terapiaímegrôda. mecarnsmo, mas, na realidade. uma seqüência
São Paulo: Summus. 2001. e meio já prenunciam o que surgi-
suas próprias necessidades, confronta- de [...] e todo mecanismo e característica
na Gestalt-terapía.
rá um vazio. O ambiente social con- constituem um meio de viver valioso, se pude·
VERBETES RELACIONADOS
\1 rem ao menos continuar a fazer a sua tarefa"
tém toda a realidade que existe, e ele se Assimilação. Energia. função id. fançáo ego. 1
autoconstituí identificando-se com as personalidade. Instinto de tome. Seif. Sistema (PHG. !997, p. 250).
padrões desse ambiente e alienando o O a1ustamento criativo é em si o mecanis-
que são patendalmente seus próprias mo próprio de auto-regulação do organismo
na busca da
padrões. (PHG, 1997, p. 254) satisfa,ção das necessidades emergentes. Para
isso é necessário transpor os impedimentos rência é a aworeness. Estar av..ure se refere
oconidos, transformando-os da melhor for- a estabelecer um contato claro e pleno com
ma possível. sem paralisar diante deles. pois a qualquer evento que ocorra nesta fronteira
"perda de contato com o melo quase sempre homem/meio, considerando a experiência
provoca resultados catastróficos" (Perls, 2002, sensorial, emocional, intelectual, motora etc
p. 309). O bloqueio da <NKJreness é explicado por
No livro de PHG ( ! 951 ). os autores dizem Perls como resultante de repetidos desacor·
que os comportamentos neuróticos são dos entre as necessidades do indivíduo e as

DIC IONÁI\I O DE GESTALT-TERAPIA


148 149

demandas do meio. O homem passa a abrir Posteriormente, Miriam e Erving Polster, pelo
mão de suas próprias necessidades, em nome representantes da segunda de Ges- uso da na terceira pessoa, entre
das exigências externas, muitas vezes pon- Este se inicia com base na percepção de uma talt-terapeutas, descrevem mais um meca- outras. Cabe ao terapeuta
tuadas pelas regras sociais da cultura na qual que deflagrará um processo de 10,À-rl.g!~ª2,. que é entendida como
está inserto. A psicologia anormal é apontada reconhecimento de uma necessidade. Pelo um dos cinco canais príndpa1s de interação assim, a em Pvr,rl"<d"

corno o estudo das interrupções ou inibições funcionamento da awareness do indivíduo resistente. Éuma forma de,..,,_,_..,,_=::--.:...::::::: Syivia Crocker desenvolve a noção de~q;-
que o ajustamento criativo. busca-se, por uma ação no meio, satisfazer ~.1.!;!J.U-.UUL.!.l..~".!..~~ direto
.flexã_o. compreendendo-a como uma combi-
No livro A abordagem gestóitJCa e teste- essa necessidade. Como nem sempre essa No livro Gesta/e-terapia integrada, os Pois- nação de retroflexão e proJeçáo, isto é, fazer
munha ocular da terapia, Perls ( 1981, p. 31) satisfação é possível, a frustração é um dado ter ( 1979, p. 102) afirmam que "a fica ao outro o que gostaria que o outro fizesse a
afirma: "O de homem/meio de- inevitável. sem alvo; ela é mais fraca e menos efetiva·. si. No livro O ddo do contato. Ribeiro ( 1995,
termina o comportamento do ser humano. Se É fundamental para o pleno funciona- Acrescentam que: p. 18) define proflexão como atra-
o relacionamento é mutuamente satisfatório, mento desse ciclo do contato a oossí!Jifüfarl<' vês do qua'i que os outros como
o comportamento do indivíduo é o que cha- de a pessoa lidar de modo Quem usa a deflexão se envolve com eu desejo que eles sejam ou
mamos de normal. Se é de conflito, trata-se a buscar outros rorr,,r""''" seu ambiente mediante acertos e er- como eu mesmo sou, manipulando-os
do comportamento descnto anormal". da necessidade que como figura preg- ros, entretanto, para ele isso geral- a fim de receber deles aquilo de que preciso,
Esse de funcionamento "anormal" tem nante. O excesso de processos frustrantes mente se transforma em muitos er- fazendo o que eles gostam, seja subme-
como característica a recorrente de no ciclo do contato do individuo com o meio ros com apenas alguns acertos na tendo·me a eles, sempre na es-

mecanismos neuróticos entendidos como res- é que leva ao aparecimento de uma íorma maioria acidentais. Assim, ou ele não perança de ter algo em troca".

postas ao estímulos do meio. de sofrimento físico e/ou mental. A frustra- investe energia suficiente para obter Esse autor ainda descreve mais dois pro-

No entanto, Perls destaca: "As psicologias mais ção em si é inevitável, sendo saudável para um retorno razoável, ou a investe sem cessos de "bloqueio de contato", conforme

antigas descreviam a vida humana como um o indivíduo ter flexibilidade o suficiente a fim foco e a energia se dissipa e evapora. opta por chamar: fixação e
conflrto constante entre o homem e o meio" de transcender essa situação' frustrante. O Ele termina esgotado e com pouco re- Define o primeiro corno "o processo através

(Perls, 1981 p. 39). Quanto à Gestalt-tera- torno - arruinado. ( Polster; Polster, do qual me apego excessivamente a pessoas,
a rigidez do indiví-
ele diz: "Por outro lado, nós o vemos [o idéias ou coisas e, temendo surpresas diante
ação 2002, p. 86)
do novo e da realidade, sinto-me incapaz de

dentro da estrutura de um campo constante- explorar que flutuam rapidamente,


Assim como acontece nos demais canais
mente mutáve1" (Peris. 1981 , p. Ou ficando fixado em coisas e emoções, sem
de resistência, a deflexão só se toma um
Na obra de PHG ( 1997) enumeram-se, venficar as vantagens de tal (Ri·
'.::'.-º-~"'·'::"' ''.':'.'..'.':'.~;YOªLossão construídos em problema quando a pessoa a utiliza indiscri-
um processo de interação e contato homem/ inicialmente. cinco mecanismos neuróti-
beiro, 1995, p. 1 já dessensíbíl,zação é o
minadamente.
_meio. Eles não podem ser compreeíiâiaos cos25 básicos: f) confluência: 2) 1ntr·oie•cii,,. e Arme Ginger (1995, p. 256), no 'processo pelo qual me sinto

3) proieção: 4) retroflexão; 5) frio diante de um contato, com dificuldade


como "sintomas" psícopatologicamente des- livro Gestalt: uma terapia do contato. conside-
critos e classificáveis. para me estimular. Sinto uma diminuição
Descrito por Goodman. este último, mais ram a deflexão "uma das 'resistências' ou 'per-
tarde, não será desenvolvido por Perls. No sensorial no corpo, não díferenoando estí-
Os mecanismos neuróticos não são. em das da função do eu' ( ... ] Pode ser; assim, uma
si, nem bons nem maus. livroA abordagem gestáltica e testemunha mulos externos e perdendo o interesse por
fuga do aqui e agora nas lembranças, "''""''"'
sensações novas e mais intensas" (Ribeiro,
como um padrão comportamental recorren- ocular da terapia ( 1981 ), considera apenas considerações abstratas, no que Perls 'mastur-
te é que os torna nÕc1v~, transfo~ando-se os quatro primeiros. 1995, p. 19).
bação mental' (mínd firckíng)".
em mesmos padrões Na clínica, ela pode ser perce- Gladys D· Acri, Patrícia Lima (ficha) e Sheíla Orgler
de funcionamento diante das circunstâncias rhr,rr;,ci;:i ou silêncio excessivo,
15
Esses - c i n c o ~ estão explanados r e ~ e
do meio. É importante ter em mente que ao longo desta obra. pela generalização

DlCIONÁl\10 DE GESTAlT·TERAPIA DICIONÁRIO DE GESTALT·TERAPIA


150 151

REffRÊNOAS BrBUOGRÂFICAS porém, destes esforços, foi a funda- remetida ao mundo. Em outras palavras, a
Assim sendo. não é uma alternativa às teorias
GINGER, S.; G1,....~. A Gesralt uma cerop"' da cartoto. mentação e autonomia das Ciências ;ntencíoralídade designa o rato de que as
psicológicas, como é o caso da Gestalt-tera-
São Paulo: Summus. 1995.
pia, por exemplo. A Gestalt-terapia oferece naturais e morais como ciências de ri- essências não têm existência fora dos atos da
f'Eru.s. f. testemunha ocular da
Wapia. Rio de Janeiro; Zahar, 1981. conteúdos teóricos e práticos à prática dí- gor; e de novas discíplínas puramente consciência que as constituem. Sujeito e mun-
( 1942). Ego, fome e ,:,gressrló. São f\:rulo: Sum- níca. enquanto a fenomenologia dá a base, matemáticas. do se constituem mutuamente. Sendo assim,
mus, 2002. não há ato de consciência sem um •objeto"
os alicerces metodológicos, que podem ser
PEru.s, F. S.; HEFfERl.lM, R.; GooDMAN. P. Gesto!Merap,a. Énesse caminho que a fenomenologia se como correlato (aqui o "objeto• sendo enten-
utilizados tanto pelas teorias psicológicas
São Paulo: Surnmus, 1997.
(como na aplicação à pesquisa) quanto para torna um "método", alicerçado fundamental- E, em contra-
f'otsTER,E.: Pol.sTEI\, M. Gestalt-terapia íntegrrtda. São
Paulo: Surnmus, 2002. as práticas (como encontra- mente em algumas premissas. Em primeiro partida. não há objeto em si. A intencionali-
RiBP.RO. J. P. O cido do conmto Brasi1ia: Ser. ! 995. mos em Bínswanger, ao se propor construir lugar. parte da premissa de que o fenômeno dade o fato de que toda consciência
uma "antropologia fenomenológica", ou seja, se dá por si só. ou "surge·, "se mos· é consciência-de-alguma-coisa, e de que toda
'VERBETES RElACIONADOS uma idéia de homem compatível com a fe- tra". com base nele mesmo. Dessa fe!l:a, para 'coisa" é um objeto-para-uma-consciência.
Ajustamento criativo, Aqui e agora, Auto-regulação orga- nomenologia). A rigor, fenomenologia é uma acessar o fenômeno, deve-se partir da des- Ao ato da consciência, Husserl dá o nome de
nísmíca, A ~ . Campo, Cido do contato, Conflito, noese, e ao seu correlato, noema.
Confluência, Contato. Dersexão, Dessensibilização, Ego. leitura da realidade tal qual ela é. crição. Como salienta Husserl ( 1965, p.
Egotismo. Fixação. Fronteira de contato. frustração, ee,;. "O verdadeiro método segue a natureza das Em termos o método feno-
A fenomenologia surge como uma crí-
tak-terapia, lntnojeção. Necessidades, Organismo, Prolle- ~1ic·,m-;,rl!11 na intencionalidade,
tica aos modelos dominantes de ciência na coisas a investigar, mas não segue os nossos
xão. Projeção, Resistêooa, Ret,oflexão mundo de significados
sua em espeáal à destes ,....,.,,..,.,,=,~it,,c e modelos". No contexto das
- particularmente, o modelo das ciências práticas psi, os melhores exemplos desse as- em correlação a um sujeito que vrve neste
posrtivas para as ditas "ciências do espírito" pecto do método fenomenológico podem mundo. Portanto. os objetos deixam de ser
MÉTODO FENOMENOLÓGICO
(compreendidas atualmente como ciências ser encontrados em Karl Jaspers ( 1997), ao simples e passam a ser "sentidos"
A palavra "método" advém do grego a fenomenologia descritiva à com- ("significados") para determinada subjetivida-
humanas e sociais). A critica se aplica tanto à fi.
µeT.a ("meto") + aõoÇ ("hódos''), e remete a losofia especulativa quanto às demais ciências, dos fenômenos psicopatológicos, de. Em uma perspectiva mais direta. é o que
"caminho", "direção para um objetivo", defi· propondo uma revisão de seus fundamentos, e, posteriormente, em Ludwig Bínswanger refere Perls. numa clássica epígrafe, quando
nível e ordenado. É uma maneira de ( 1973 ), em sua proposição da Daseín análise diz: "Uma rosa que me foi presenteada não
com base na da filosofia no modo
determinado objetivo. O método fenome- corno urna compreensão existencial-analítica é mais uma rosa. Mas é a rosa que me foi
científico de pensar" (Critellí, l 996). A feno-
nológico é um desses caminhos, sendo uma no contexto clínico, como uma "antropologia
menologia, em princípio, parte da dissolução
das perspectivas advindas da fenomenologia de um saber único e estático, de urna "critica fenomenológica" (Spiegelberg, 1972). Tudo isso é possível pelo fato de que. na
pura. Nesse sentido. o método fenomenoló- da razão" (Moura, ! 989), projetando tornar a Igualmente, as diversas perspectivas de vda psíquica, para Husserl (seguindo a filosofia
gico é uma apropriação particular da realida- filosofia uma ·ciência de rigor". Para Husserl pesquisa qualitativa que se alicerçam na feno- de Dilthey). o fato elementar é a vivência ou
de, baseado em premissas da fenomenologia (1965, p. 1): menologia coincidem, em suas me- a experiência vivida A fenomenologia, como
como filosofia. todológicas, ao tomar como primeiro passo "elucidação do puro reino das essências"
Para compreender o sentido do método a descrição. que consiste em apresentar o 2006). começa sua tarefa pela experiên·
É verdade que o ethos dominante da
na fenomenologia é preciso primeiro com- fenômeno tal qual este aparece. Isso é pos- áa sensível, dado que é pelas vivências da cons-
Filosofia moderna coruiste justamente
preendê-la em sua especificidade. A fenome- sível por causa da segunda premissa. que é a ciência se doam
na sua vontade de se constituir como
nologia não dá conteúdos à psicologia. mas intencionalidade. A fenomenologia entende a Por "vivência" designa-se tudo que transcorre,
ciência de rigor; por meio de reflexões
caminhos para que sejam alcançados, ou, nas consciência como um processo ativo (e não a cada momento, no âmbito subjetivo da cons-
criticas, em investigações sempre mais
palavras de Merleau-Ponty ( 1945, p. 1). fe. passivo, receptivo, como as tendências da ciência individual. A palavra "vivência' é um
penetrantes do método, em vez de se
nomenologia •é o ensaio de uma np,,,.,.;.,.,;~ cologia introspeccionista da época), ou seja, neologismo do alemão Erlebnís, do verbo erle·
abandonar irrefletidamente ao im-
direta de nossa experiência tal qual ela é". consciência é ato. e, como tal. está sempre ben ("vivenciar"), e traz em seu bojo a questão
pulso filosófico. O único fruto maduro,

DICIONÁRIO DE GE5TI\LT·TERA.PIA
DICIONÁRIO DE GESTALT-TERAPIA
MITODO FENOMENOlóGICO 152 153 MÊTOOO FENOMENOLéGICQ

da imedíatiadade da experiência, isto é. como a fenomenologia como uma perspectiva es- representadas influência que Conferéndos de Paris. Lisboa: Ed,ções 70, 1992.
anterior a qualquer interpretação. sencialmente ética, da qual inúmeros pen- adveio dos contatos de Laura com os psicó- ldées d1reCTrices pour une p/lénoménologíe et une
hénoménoiogique pures. Paris: Gallirnard,
Para alcançar esse objetivo, ou seJa. para sadores partem para pensar a "existência· gestaltistas alemães em especial de 1985.
atrngír a imediata, é preciso rea- (bastando citar Sartre, Merleau-Ponty e Hei- Wertheímer). Na obra de PHG. observa-se a JAs,ERS. K. !';;ícopàtologra gera!. Rio de Janeiro: Atheneu,
lizar uma operação, denominada vulgarmen- degger como exemplos diretos). n,-,,stp1·inr influência que sofreu Fritz Perls tanto 1997.
te ·redução fenomenológica", e identificada Em suma, o método fenomenológico de Paul Goodmar;, um intelectual completo, Mmfl'IJ-PONTI, M. Phénoménolag1e de io perception. Paris:
Gaihm::m::l, 1945
com a palavra grega trcox/í ("epodre·y•, ser entendido como o procedimento quanto de lsadore From, r;a estudante
MoJAA, C. A R. Critica da razôo na fenomenologia. São
como o meio pelo qual apreendemos me- pelo qual. baseado nessas premissas da fe- de fenomenologia. Essa ~n,·nnri;,1-:io indireta
Paulo: Nova Stella/Ed0sp, 1989.
todicamente nosso eu puro e a vida da cons- nomenologia como crítica (epistemologia) e é significativa. f'ACI,E ( 1972). T!ie (unction of the scíences and rl1e mean-
ciência "na qual e para a qual todo o mundo filosofia. pode-se alcançar o alicerce básico conta as críticas que o próprio Husserl dire- 1ng of moo. Evanston: Northwestem University,
obJetivo é para mim, e é tal como para mim da experiência humana, a sua vivência. Em cionou ao movimento por ter ado- 1972.
é" ! 992, p. 15). É por meio da re- Prnt.s. ~ S. Ego. fome e agre5São. São Paulo: Summus.
um contexto psicoterápico, por exemplo, o tado uma postura naturalista, embora essas
2002.
dução ou da "colocação entre parênteses·, terapeuta lida com as vivências de seu clien- criticas tenham sido de certa forma resgatadas
PEru.s. F S.: HmERUNt, R.; GoooM.AN, P. Gestalt-teraplO
ou, ainda, nas palavras de Husserl (1985), da te, dentro de seu contexto de experiências por Merleau-Ponty. São Paulo: Summus. 1997
"'cc,1oc:aç,,c fora de circuito" do 1á-•,ab1cto. de uma consciência (subjetividade), carrega- ~1·1c,;cuJLwc H. Phenomeno!ogr m psycholog, o~d
.Adnanv
do já-conhecido. do dado, qve se pode aces- atry Evanston: Northwestem University, 1972
das de sentidos que só possuem razão de ser
sar a tal qual ela é, ou abs- em seus vividos. Com isso, pode- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
VERBETES RftAOONADOS
tendo-se de julgamentos. valores, idéias pre- se dizer que o que caractenza um método B<NS'VW,NGfR, L ArtíwJos y conferenoos Madn:
Gredos, 1973. Aqui e agora. Consciência. fenomenología, Gestalt-terapia
estabelecidas, é o fenômeno fenomenológico, na clínica, pode ser
CRJTELLI. O, M, AnafftJca do sentido: urna aproA1maçâo e tnM
em sua essência. Como encontramos noutra associado à ênfase na imediata terpretcçáo do real oricntaçáo fenomenológica. São
famosa do fenomenólogo italiano (que envolve um fluxo temporal de passado, Paulo: Educ/Brasilíense, 1996. MUDANÇA (VER TEORIA PARADOXAL
Enzo Paci ( 1972), "o objetivo da epoche é o presente e futuro, vívidos no aqui-e-agora). DA~T<Gucs, A. O que é fenomenologio.7 São Paulo: Cer1t.au, DA MUDANÇA/MUDANÇA)
desocultamento. O mundo está sempre lá". ro, 2006
e na busca de uma percepção de totalidade
HvssEru., A f,ioso(ra como ciência de rrgor. Coimbra:
Tal qual observamos na clínica: o mundo do (contrariamente à sua frag- A!Jàrrtida. 1965.
cliente está sempre lá. por trás de toda uma
teia de idéias, de valores, de de Na literatura clássica da Gestalt-terapia.
anseios. de as mais diversas. não há referências diretas à fenomenologia.
Da redução chegamos à intersubjetivida- Perls se apropria do método fenomenológi-
de. O mundo dado é também um mundo co indiretamente, via Gestalt Psychologie (a
de SUJeítos que nos são dados. Todo esse chamada "Escola de Berlim• ou ·psicologia da
percurso. que nos remete ao nosso mundo- forma". de Wertheimer, Kôhler e Koflka, que
próprio, ao nosso "campo fenomenológico". torna a fenomenologia como via alternativa
nos dizeres de Kurt Lewin, defronta-nos à ciência empírica clássica), corno podemos
com o outro que se encontra nesse mundo, observar por suas em EFA (2002,
diante de nós. como um correlato da nossa p. 44), ao sugerir a substituição da "psicolo-
consciência, como um conjunto complexo gia da associação pela psicologia da Gest:alt".
de significados. É por isso que consideramos mesmo assim. de forma particular, a partir de
sua experiência com Kurt Goldstein. Outras
leituras indiretas da fenomenologia podem ser

DICIONÁRIO DE GESTALT-TERAPIA DICIONÁRIO Df GfSTAl T-TERAPIA


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disso, "a maior parte de A:ir<Ls. F. S.: HEfft:RLINE, R: Gooot-,,.,.,, P. (1951). Gesta!!·
manter o equilíbrio adequado entre ele e o
terapia. Sáo Pauki: Summus, 1997.
sua existência e sua relação com o que
cai)acicfades de amor e rai- resto do mundo [.. .]".
T. A
TRlffil'N,
desconhece o "nada'; que o angustia
va e indignação• fica bastante comprometida Vale a pena lembrar que o que Perls co-
São Paulo: Surrrnll$, 1984 por não poder defini-lo com clareza.
(PHG, 1997. p. 64). loca sobre as neuroses. em suas últimas fa- quiçá dominá-lo.
Thérêse Tellegen, em seu livro Gestalt VERBETES RELACIONADOS las transcritas de e entrevistas, data 3) Da fenomenologia veio a idéia do
e grupos: uma perspectiva s,stêmica ( 1984}, Auto...-egulação organism,ca, Doença. saúde e cura. fi. da década de 1970. Na época. os critérios self. que, numa seqüência, nos leva a
brinda-nos com contribuições críticas im- guca e fundo, Fronteira de contato, frustração, Gestalt.
Homeostase, Organismo, Sistema, lcooa organism,ca
convencionais de diagnóstico dos transtornos concepção de 4fronteira de contato':
portantes a do modelo biológTCo de neuróticos, e até mesmo psí(:órn:os, esta última uma notável para
Goldstein que foi absorvido por Perls. Ela faz n~,-~rr1Ptrm da 9• Revisão da Classíficação In- entendermos a intersubjetividade.
algumas colocações bem contundentes e
NEUROSE ternacional das Doenças CID-9 e da 3• 4) Dos trabalhos dos psicólogos da
nificativas sobre o limite conceituai desse mo-
Revisão do Manual de Diagnóstico e Esta- Gestalt (Stumpf. Ehrenfe/s, Wer-
delo quando usado para abarcar caclac:1<Ja<jes As pessoas com disfunções neuróticas
tística das Doenças Mentais DSM Ili, mais theímer, K.ofjka e Kohler) i•eio a
complexas do ser humano: "Embora Perls sempre tiveram papel importante no desen·
conservadores que seus sucessores, os atuais "sacada" de que a percepçiío é um
afirme insistentemente que a interação orga- volvimento das psicoterapias. Foram elas, com
CID-! Oe DSM IY. Em Gestalt-terapia explica- processo ativo e criativo, rw qual se
nismo/meio é física, biológica, psicológica e seus sofrimentos e sua consdênoa deles, que,
da, Perls ( 1977, p. 49) define a neurose"[ ...] fazem presentes fortes elementos da
sociocultural, a ,inguagem e os exemplos por clamando por aiuda inquietamente, levaram
como um distúrbio do desenvolvimento•. pessoa que percebe, mais do que do
ele usados freqüentemente se referem ao os profissionais a se mobilizar para descobrir
Em se falando de critérios diagnósticos. objeto da percepç.ão. A Gestalt traz a
que é biologicamente vital" (Teliegen, 1984, p. corno lidar com suas expectativas e necessida-
sob o ponto de vista diníco, não há um crité- óbvia idéia de que mudanças na per-
39; grifos nossos). des. Os criadores da Gestalt-terapia também
rio gestíltíco próprio. O que cepção e no comportamento, mesmo
Tellegen lança perguntas bastante signi- traçaram esse caminho.
traz de diferente é a discordância quanto à li- que voltadas para uma direção éti-
ficativas. que merecem ser estudadas com No livro de PHG ( 1997. p. 118), os au-
mitação do diagnóstico como uma mera iden- ca, estética e funcional de melhora e
seriedade. Questiona-se sobre "a que se re- tores concebem que "a neurose também
sindrômica. crescimento, sào de responsabilidade
fere o termo 'necessidade'", usado por Perls é parte da natureza humana e tem sua an- Em tópicos, apresentam-se as principais maior (e mérito também) do clien-
(Tellegen. l 984, p. 58). Outras perguntas não tropologia". Apontam o quanto a neurose é
contnbuíções para a compreensão das neuro- te. Isso rompe definitivamente com o
sempre uma neurose social, mas sem deixar ses na segundo a or,,;ini7a,r1io modelo alopático de cura como poder
de Gestalt díferendando-se em figura e de levar em conta que a neurose tem um pa· de Buarque, autor deste verbete: de quem "opera a cirurgia'; "pres-
fundo é uma metáfora descritiva válida para pel importante de produzir ajustamentos ne-
creve os remédios': as "vacinas" ou
descrever a complexidade dos acontecimen- cessários para manter as funções de seguran- 1) Do contato de Perls com Wilhelm "suposto saber" e as "interpretaç.oes';
tos da motivação e ação humanas". E se ça do homem em funcionamento: "[...] nas Reich destaca-se a resgate da indivi- unilateralmente.
o modelo {biológico) chega a elucidar o que neuroses, somente essas funções de segu- sibilidade mente-corpo, mais tarde 5) O trabalho com o conteúdo, tão
Petis deseja, que é precisamente a interação rança de supressão, distorção, isolamento, substanciado por Kurt Goldstein 11a frisado por várias nwdalidades da psi-
de fatores físicos, biológicos, psíquicos e so- repetição que parecem 'malucas' [ ...J es- teoria organísmica. canálise, dá lugar ao trabalho com a
cioculturais" (Tellegen, 1984. p. 58). tão funcionando de maneira razoavelmente 2) Das idéias de Martin Heidegger forma. O relato das experiências neu-
Heloisa Costa saudável. São as funções mais respeitáveis de destaca-.se a noção de que os "sinto- róticas foi substituído pela "nova" ex-
,.,.,,,,..,,,,-;,,., e manipulação dentro do mundo, mas neuróticos" e algumas outras perimentação não como repetição des-
REFERÊNCIAS BIBUOGRÁFICAS
especialmente no mundo social (.. .]" (PHG, disfunções não são decorrentes em sas "vivências: e sim como uma nova
fffl..s, F. S. A abordagem gestáfríca e restemunho ocular do
tetapía. filo de Janeiro: Zahar. 1961. 1997, p. 119). Perls(l977, p. 45)acredítava "essência" de questões fisiológicas forma de experimentar seq_üências de
_ _. Gestal!-rerópia explicado. 2. ed. São Paulo. Sum· que "todos os distúrbios neuróticos surgem ou fisiapatológicas. Estes refletem as perc.epção, comportamento e atitude,
mus,lm. da do indivíduo encontrar e questões vividas pelo ser humano em que fluam em direção ao crescimento.

DICIONÁRIO DE GESTALT-TfRAPIA
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6) A genial noção de neurose como contra ªenergia e ação patológica dos Nesses tennos, sua utilização é prove- que representa a realidade tão fielmente
"distúrbio do crescimento" pessoal e sintomas" do cliente. A noção de cura niente de um modelo de estudo das ciências quanto possível, em qualquer momen-
não defeito de personalidade altera, passa a ser atrelada à de crescimento. naturais, que prima por uma visão objetiva do to. Entretantil, ao abrirmos um Adas
na sua essência, a idéia anteriormente Não há cura sem crescimento e não mundo, no qual a psicologia, segundo Fritz encontraremos todcs os tipos de mapa;
vígente de uma estrutura defeituosa há nem um, nem outro, sem o en- Perls, não se adequa, o que deixa claro em alguns dão orientação sobre a geogra-
ou de uma tipologia neurótica. Pre- volvimento e a participação ativa do seu primeiro livro, junto com Hefferline e fia de um pais, outros sobre a situação
valece então a idéia de disfunção, que, ªcliente" como um todo. Goodman, obra de PHG ( 19 5 J ): "Em outras política e etnográfica. [... ] Em outras
pela contextualidade dinâmica e coo- 10) O trabalho com a resistência palavras: não existe a chamada ciência objetiva palavras, a reillida.de em si não existe
tfn ua, não se repete e sim se recria a como fenômeno humano genuíno, a Em Psicologia, mais do que em qualquer para o ser humano. E. algo diferente
cada instante.. É ai que se percebe a ser vivido, compreendido e tornado outra ciência, observador e fatos observados para cada indívíduo, e.ada grupo e cada
pessoa podendo também a cada ins- ativo e criativo. são inseparáveis", ou ainda: cultura. A rwidade é determinada pe-
tante ser trabalhada. Rompe-se o mito las necessidades e interesses específicos
do trauma como acontecimento origi- Assumindo que somos "eventos espa- do individuo. (PHG, 1997, p. 76)
Sérgio Buarque
nal, o bigue-bangue transformador da çn-tempo" dentro dos a1mpos mutá-
psicoterapia numa ªarqueologia» REFERÊNCIAS 818UOGRÁFICAS veis de nossa existência, estou também Como aJXJnta Frazão (in PHG, 1997, p.
7) O trabalho com o experimento como P,Ri..S. F. S l,e,;taf!·térG!Jla São Paulo: Svmmus. de acordo com a tendência atual da I O), na Apresentação à brasileira do
1977.
mostruário do privilégio da forma so- ciéncia. Da mesma forma que Einstein livro de PHG
flcRls, F. S.; Hum<uNE R: GoocMAN P. Gestolt-terap,a.
bre o conteúdo e até a transformação São Paulo: Summus. 1997 . obteve uma nova compreensão cientí-
de um em outro. O experimento passa fica levando o self humano em consi- Em muitos aspectos, Per/s e Goodman
a ser destacado como marro história, VERBETES REI.ACIONADOS deração, também podemos obter nova inovam e antecipam no tempo ques-
da evolução das psicoterapias, não Consciência, Diagnóstico, Doença, saúde e cura. Ex!S!ên- compreensão psicowgica ao entender tionamentos que posteriormente al-
como um procedimento ou técnica a cía, Experimento. Fronteira de cootito. GestalHerapia, a relatividade do comportamento hu- guns psicanalistas se fariam.
Necessdades, Psicose. Res,stência. Responsabilidade,
ser necessariamente realizada em cada Self. Teoria organísmKa. Vivências mano. (PHG, 1997,p.265) Uma das importantes contribuições
sessão terapêutica. da Gesta/t-terapia refere-se à visão
8) A ruptura da maniqueísta noção Na obra de PHG (1997, p. 70) encontra- holística do homem, o qual é concebi-
de normal ou anormal saudável ou NEUTRALIDADE mos: ·se você se concentrar numa percepção do como ser biopsicossocial, sempre em
patológico, atrelada. por sua vez à des- 'próxima', por exemplo o paladar, é daro que ínteraçâo com seu meio, isto é, leva-se
Este termo será tratado, aqui, como uma
construção da rigidez das fronteiras o gosto da comida e sua boca que a em conta não apenas o que ocorre com
das condições idealizadas para o conhecedor
entre neuroses e psicoses, entre proce- ta são a mesma coisa, e. portanto, essa per- a pessoa em sua totalidade, mas tam-
em busca do conhecimento. O questiona-
dimentos terapêuticos para um caso cepção nunca é neutra no sentimento, mas é bém o contexto no qual isto ocorre.
mento da de "11eutralídade" no
e outro ou teorias também para cada sempre agradável ou desagradável, sendo a
que se refere à psicologia e à GestalHerapia,
uma das situações, como coisas essen- insipidez uma forma de desagrado·. A con- A de que poderia existir neu-
como ciência do humano, encontra-se pre-
dalmenre distintas. cepção de Perls de que a não é tralidade na abordagem de qualquer objeto,
sente, explíáta ou implicitamente, em todos
9) O abandono da elaboração de ªes- neutra também é colocada de forma muito demanda das ciências naturais, há muito é
os escritos de Fritz Perls. Em Ferreira ( 1986,
tratégias de cura" ou "projetos tera-
p. 119 l) temos; "Neutralizar (De Neutra! + dara, quando diz: questionada: "Qualquer pessoa que acompa-
pêuticos" focando e.xclusiva e insisten- izar) 1. Declarar ou tomar neutro; 2. Anular; nhe, runda que por alto. aquilo que se anda
temente os ªsintomas~ como se a cura
inutilizar, eliminar; 3. Tomar inertes as pro- Cada teoria, roda filosofia, é um mapa dizendo sobre a ciência, com certeza terá en-
fosse decorrente desse confronte "ener- de onde tiramos orientação para nos- contrado com freqüência a afirmação de que a
priedades de (uma coisa); 4. Tomar-se neu-
gia e boa ação externa" do terapeuta, tral, indiferente, inativo". sas ações. Um mapa adequada éaquele ciência não é neutra• (Oliveira. 2003, p. 161 ).

DfCIONÁRIQ OE GESTALT·HRAPIA DICIONÁRIO DE GESTALT-TERAPIA


Nt::Vl~
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A neutralidade pressupõe uma divisão sujei-


como filosofia e o método fenomenoló-
to/objeto, acredita num observador separado GMc1A-Ro2'A, LA Psico!q;ja eslru111ra/ em Kurt leMn. Rio Nows paradigmas de pensamento e sua íncidên-
gico tal como é empregado em psú:olo- de Janeiro: 'vozes, 1974. ckJ na teoria e prów:a gestálticas. Centro de Es1J.Jdos
do observado romo premissa da objetividade
gia. (Garcia-Roza, 1974, p. 41) OcMIM, M. B. de. 'Considerações sobre a neutralidade da GestaJHerapia (Cegest). Brasília. 2006. Disponí-
científica. "Na concepção clássica da ciência, da cil!ooa· Revista rrons/fonntaçilo. São Paulo, v. 26, vel em: <http:/fwww.cegestorg.br>. Acesso em: 9
a idéia de sujeito perturba o conhecimento" n. 1. p, 161-72. 2003. mar, 2007.
Walter Ribeiro (2006, p. 1), ao lidar com l\ru.s, F. S. fgo, fome e ~ - São Paulo: Surnmvs, D. F. (org.J. Novcrs paradigmas. cultura e sufye·
(Schnítman, t 996, p. 14). ScHNITTW4,
o tema, coloca: 2002. t'vidade. Porto Alegre: Artes Mé<.kas, 1996.
A ciência moderna questiona essa pre-
Prns, r. S.; HEffmJNE, R.; GOOOMAN, P. (1951). Ges1alt- S,MNS, J. O. (org.). Isto é Ge;t::,lt. São Paulo: SurnrrM,
missa; reconhece a interdependência 1Iropía. São Paulo: Summus, 1997. 1977.
Uma das grandes "novidades" para-
to/objeto e as decorrentes dessa
relação:
digmáticas que as dências contem- Rl&1RO. W. Existênoa--tEsséncia: desafios teóricos e práti·
«JS das psícoteropias relacior,o,s. 5.'!o Paulo: Summus, VERBETES RELACIONADOS
porâneas estão propondo é a inclusão 1998 Campo. Gesta!Merapia, Método fenorneoolói1)::o. Rés-
do conhecedor no processo de conhe- ponsabílidlde. Self, Totalidade
Não somos meros reprodutores passi-
cimento. [... J Este paradigma consi-
vos de uma realidade independente de
dera a impossibilidade ontológica de
nossa observação, assim como não te-
neutralidade objetiva, o que afetou a
mos liberdade absoluta para eleger de
arrogância e prepotência daquele que
forma irrestrita a construção da reali-
está no papel de conhecedor:
dade que levaremos a cabo. [... ] Essa
perspectiva permite perguntar sobre os
nos alertava em seu livro Existência--';
conceitos de "verdade~ "objetividade:
Essência: desa{JOs teóricos e das psíco-
"realidade''. Sublinha uma posição
terapias relacionc11S:
ética fundada e enraizada simultane-
amente na responsabilidade por nos-
Esse problema talvez seja maior nas
sas construções do mundo e as ações
abordagens inacabadas por vocação e
queasacompanham [... J. {Schnítman,
1996,p.16) essência, como a que abraçamos e de-
fendemos, cujo paradigma cientifico-
filosófico, além disso, ainda luta com
Tratando-se da psicologia e, especialmen-
resistências cientificístas, essencialis-
te, das abordagens que se baseiam numa
tas, apesar de o modelo desses den-
perspectiva existencial-fenomenológica, essa
tificistas ter sido superado em quase
discussão se intensifica:
todas as frentes científicas, a começar
pela ftsica. (Ribeiro, 1998, p. 23)
t Dentre as muitas divergências en-

t cootradas em psicologia, uma delas


se caracteriza pela oposição entre os Eleonôra Torres f'restrelo

f
•·
defensores do método fenomenológico
e aqueles que o consideram filosófa;o e
IIEFl:RÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FE!Wll\l\, A B. de H. MM, álCJ(l(')(Íno Aurél,o. São P..ulo:
anticientifico. Acreditamos que este Nova fronteira, 1986.
conflito decorre, em grande parte, f'MzAo. l. 'l'ljm;sentação à edição brasileira". ln: f'Ei<Ls, E
da não-distinção entre fenomenología S.; 1-lfm'RuNé, R.; GOODMi>N, P. Gestoit-teropia. São
Paulo: Sommus, 1997.

Dl;IONÁRIO OE GESTAL T-TERAPIA


DICIONÁRIO OE GESTALT·HRAPIA
o
ÓBVIO 'inconsciente' desconhecido ou um sintoma,
Encontramos em f.FA ( 1942) a mas como sendo e1a mesma aquilo o que é
nhsF'fV,1r:\n de Perls (2002, p. 52): "Eu não importante· (PHG, 1997, p. 5 l ).
seria fenomenologista se não Em A e testemunho
enxergar o óbvio, ou seja, a experiência do ocular da terapia, Perls ( 1981. p. 1 diz:
atoleiro. Eu não seria gestaltista se não con- "Não temos que cavar à maneira de Freud.
seguisse entrar nessa experiência de estar no inconsciente mais profundo. Temos que
atolado tendo confiança de que alguma figura nos dar conta do óbvio. Se compreendermos
emergirá do fundo caótico·. o óbvio, tudo está lá, Cada neurótico é uma
Esse conceito assume uma importância pessoa que não vê o óbV!O'.
ímpar no corpo teórico da Gestalt-terapia. Na Introdução da obra de PHG ( 195 t).
quando Perls associa a perda de contato com os autores expõem a proposta de que é fun-
o óbvio, isto é, com a realidade presente e damental para o ps1coterapeuta, na relação
com a experiência concreta como a fonma de com o paciente, trabalhar "[...] com o que
anunáar os sintomas neuróticos, os furos da està mais à superfície .. .' em l/€Z de buscar
personalidade. Essa impossibilidade de não "[...] extrair expedientes do inconsc,ente",
enxergar o óbvio vai se construindo ao longo 'é no óbvio que encon-
da vida de acordo com sucessivas tentativas tramos sua personalidade inacabada; e opa-
de evitar tuclo que confronta com esses ·ru- ciente pode recobrar a vivacidade da
ros" da personalidade, tudo que não se quer elástica figura/fundo somente lidando com o
enxergar. Perls aponta que a conseqüência é a óbvio [.. J (PHG, 1997, p. 36). Baseando-se
neurose manifestada como a impossibilidade nessa importância dada ao trabalho com o
de a pessoa entrar em contato com o óbvio ób,10, eles definem qual seria a proposta da
de cada situação. com aquilo que está no ago- psicoterapia gestàltica:
ra. Dessa forma, na Gestalt-terapia, a impor-
tância de considerar a estrutura da experiên- A terapia consiste, assim, em analisar
cia concreta não é "como uma pista para um a estrutura interna da experitn.cia
166 167

concreta, qualquer que seja o grau de presente da abordagem gestáltica. Stella Res- óbvio de cada situação, deixamos de nos auto- SENNITT. R. O dedír.io do homem pút,1,co - os tiranias da
intimidade. São Paulo: Companhia das Letras. 1993.
contato desta; não tanto o que está níck, em capítulo de sua autoria, defende que: º contato se toma empobrecido e 5TPttNS. J_ O. (org.). Isto é Gesl:,,k. São Paulo: Sommus,
sendo experienciado, relembrado, fei- "R!ra aprendermos sobre nós mesmos, não a CMl'.:lreness, interrompida t9n.
to, dito etc., mas a maneira como o que só temos que ser o fazer, como também te- Patrída Lima (Tkha)
está sendo relembrado é relembrado, mos que nos observar. Psicoterapia deve ser VERBETES RELACIONADOS
ou como o que é dito é dito, com que uma prática de bem corno REFERÊNCIAS BIBUOGRÁf!CAS Aqui e agora, Awareress. Contato. Emoções. Exístên<ia,
figura e fundo, GestalMerapia, Mecanismos neurólíros,
expressão faciat tom de voz. sintaxe, de aut<)-ex:pre:,sao ftrus. F. A abordagem gestóltico e testemunha oculór da
Neurose
terapia. Rio de Janeiro: Zahar, l 981 ·
postura, afeto, omíssiio, consíderação meditação [...] possuem em comum o ele- ( 1942). Ego. fome e agressão. Sáo Paulo: SIJm..
ou falta de consideração para com a mento de permanecer com a do mus. 2002.
outra pessoa etc. (PHG, 1997, p. 46) momento" (p. 297). Gestolr-rerapio expl,wda. São Paulo: Summus, ORGANISMO (VER TEORIA
Na atualidade, os autores das ciências ORGANÍSMICA, ORGANISMO, CAMPO
É importante destacar a importância. na sociais refletem sobre as influências do pro- R.; C-oo(JMAN. p (1951). Gestol!-
f'ERIS. E$.; H!'rFERLIM:, ORGANISMO/AMBIENTE)
terapio. São Paulo: Summus, 1997.
formação pessoal e profissional de Perls. da cesso de e da extrema velocida-
Escola de Teatro de Max Ren- de de desenvolvimento sobre as
hardt. Tooo o trabalho desse dramaturgo es· experiências dos indivíduos. Tem sido dado
tava voltado para a valorização da experiência especial destaque ao empobrecimento que
íntegra! do ator, na qual era fundamental o foco o homem tem vivido em ao contato
na expressão total do personagem, abr:m;;,en- consigo mesmo e, conseqüentemente, com
o(s) outro(s), seu(s) semelhante(s). Podemos
óbvios envolvidos na cena: a postura, o tom pensar que o homem vem desenvolvendo
da voz, o gestual e a intenção experimentada um processo de dessensibilização da própria
em cada momento. Pooemos um experiência, de anestesíamento de suas emo-
pouco dessa influência quando Perls se relere e das sensações do próprio corpo. Cada
ao Gestalt-terapeuta em A abordagem gestálti- vez mais, o homem se distancia de si próprio.
ca e testemunha ocular da terapia: ternos Conforme Richard Sennett ( 1993), a vida pú·
mais facilidade do que os psicanalistas, porque blíca esmaga a privada e o sentido de "íntimo'
vemos a pessoa total à nossa frente; e isso se perde, vivemos como se fôssemos meros
acontece porque usa olhos e reprooutores dos papéis sociais sem ter maior
ouvidos e o terapeuta permanece inteiramen- aprofundamento naquilo que sentimos em
te no agora.[...] A Gestalt-terapia é estar em cada momento.
contato com o óbvio• {Peris, 1981, p. 82). O da experiência do óbvio me pa-
Outro aspecto importante em relação rece de fundamental relevância. Pelo óbvio en-
à valorização da experiênoa do óbvio pela tramos em contato com o momento presente,
Gestait-terapia é a influência do pensamento com o que está conosco, no aqui e agora de
oriental na construção das referências teóricas nossa existência. A neurose está instaurada na
e da prática dessa abordagem. No livro Isto sociedade atual trazendo, como uma de suas
é Gestalt ( 1977), vários autores destacam a principais conseqüências, aquilo que Perls já
grande afinidade entre as práticas rneditativas destacava - o distanciamento de nós mesmos.
a proposta de concentração na experiência Quanclo deixamos de viver o aqui e agora, o

01r10NÁRló OE GESTAlT,TERAPlA
p
PARTE E TODO mos de fundamentação 1mítária sig-
nificam que todo o conteúdo está, por
Mora ( 1982). em seu Dicionário de filoso-
fundamentação, em conexão direta ou
destaca que as parte e todo po·
indireta com qualquer outro conteú-
dem ser reconhecidas no campo da filosofia
do. (Nlora, 1982,p.396)
desde Aristóteles. Este chama de todo "àqui-
lo no qual não falta nenhuma de suas partes
A relação entre parte e todo é um tema cen-
constitutivas e àquilo que contém suas partes
tral para a compreensão da abordagem gestálti-
componentes de maneira que formem uma
ca. Essa fundamentação urntária caracteriza urna
unidade" (Mora, l982, p. 396).
Também Platão discute essas noções e
relação de interdependência estrutura! que se dá
entre parte e todo. ou a forma como um todo
entre •o todo composto de
p,;r.,,..lílrn se configura como uma totalidade.
e "o todo antes das (Mora, 1982, p.
396). Essa distinção engendrou as dificuldades Essa é a definição que mais se aproxima da no-
noções de todo e parte ção alemã de 'Gestalt. (PHG, 1997, p. 33).
que deram origem às diversas rr>nsirl,,r:,rr.P< Frederick Perls, em EFA (2002, p. 61
filosóficas posteriores, entre cépticas e nomi- destaca que essa relação de interdependência
nalistas, ou ainda outras. destinadas a provar estrutural pode ser observada por meio dos
que as partes não têm uma existência real. conceitos da Psicologia da Gestalt (.Wertheímer
Ainda segundo Ferrater Mora, Husserl re- in Biis, 1923; Koffka, 1975; Kóhler; 1959), da
tomará essa questão em sua investigação sobre Teoria de Campo (Lewin, 1965) e do Holismo
o todo e as partes, definindo o todo como {Smuts. 1999). dessa ínterde-
pendênda entre parte e todo foi demonstrada
um conjunto de conteúdos que es- principais autores dessas escolas.
tão envolvidos numa fundilmentaçào As noções de parte e todo estão no cerne
unitária e sem auxílio de outros con- do desenvolvimento da Psicologia da Gest,!t, em
teúdos. Os c.onteúdos de semelhantes que Wertheimerteve o mérito de solucionar um
conjuntos chamam-se partes. O:s ter- dílema da psicologia, a saber; a oposição entre
RAATEnooo

os prindpios explicativos versus a compreensão


(Koffl<a. 1975, p. 32). A generalidade da catego-
ria Gestalt permitiu afirmar a interdependência
170

Com base nessa compreensão da relação


entre parte-todo, a abordagem gestáltka de-
senvolveu uma atitude de atenção ao contex-
que estaríamos conscientes da unidade sub-
entre as funções perceptivas, moto-
171

PENSAMENTO DIFERENCIAL (VER


INDIFERENÇA CRIATIVA. PENSAMENTO
DIFERENCIAL PONTO ZERO)
PAATl: E TOOO

'
ras e de sentimento somente no contato final
entre os aspectos quantitiltrvos e qualitativos to, procurando corrigir o da pers- (PHG, 1997. p. 221-2), quando então o sei{
dos fenômenos, e formular uma que pectiva isolacionista. Assim sendo, segundo pode sentir a sí mesmo na interação entre o
permite natureza, vida e mente (l(offl<a, Perls{l981, p. 99): "O enfoque me PERSONALIDADE, FUNÇÃO (VER
organismo e o ambiente.
1975, p. 692). O valor do trabalho de \t\/erthei- habilitou a buscar a situação total, a examinar a FUNÇÃO ID, FUNÇÃO EGO, FUNÇÃO
Graça GOU11êa PERSONALIDADE)
mer para os fundamentos da Ges1alt:-terapía foi estrutura do campo, a ver o problema em seu
reconhecido por Perls (2002), que lhe dedica a contexto total, e tratá-lo de modo unificado". REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
primeira da obra EFA. Na técnica dínica isso se apresenta como KDfFl(f\, K. Pnndpios de psicologia da Gestalt São Paulo: POlARIDADES, OPOSTOS, FORÇAS
Partindo das proposições de Wertheimer uma terapia de concentração em EFA (Parte Cuttrix, :975. OPOSTAS
(m Elfis, 1923). Koffka ( 1975), em sua obra Ili), entendendo es"..a como uma concentra- KÓHlfR. W 1959. 'Ges'.aft psychology today". ln: Oa:ssics
ín lhe hlSlory of psycho/og,' on internet resource. Deve!- No primeiro capitulo da obra EFA ( 194 2).
Prmdpios de psicologia do Gestalt, apresen- pela qual todas as funções são oped by Christopher D. Green, 'lbrk Univer.áty, lo· Perls fala de pensamento em opostos. reconhe-
ta a integração das de ·quantidade·, dirigidas a um objetivo, e, graças às leis do rcnto. Ontário, 1983. Disponível em: <hrt:p://v,ww.
cendo-o como enraiza-
"ordem" e "significado' por meio da catego- holismo, "somos capazes de nos concentrar ulrgs.br/faced/slornp/eduO l l 35Jkohler2.htm>.
Ar:.e;so em: 12 jul. 2007 (fragmento em f.X)!tuguês): do no organismo humano .. , mas passível de
ria Gestalt, e mostra de que forma, com essa totalmente nos que significam a e disponível em: <http:/Jj:,sycrn::lassícs.yorku.ca/Koh- levar a "dualismos arbitrários e emJívc>eaclos"
noção, o comportamento pode ser entendido completude de uma totalidade incompleta" ler/loday.htm>. Acesso em: 12 jUl. 2007 (fonte on-
ginal em inglês). (Perls, 2002, p. 50). no pensamento
em seu nível molar. Com isso, Koffka também (Perls. 2002, p. 270).
_ _ _ _ _• Psi,:ología da Geswlt. 2. ed. Belo Ho· de Fried!ãnder, propõe: "[. ..] os opostos pas-
faz uma crítica ao behaviorismo, dado que Essa concentração positiva objetiva perma- rízonte: ltataia. 1980. sam a existir pela diferenciação de 'algo não
este se interessaria pelo nível mciecular do nece no campo da. Gestalt incompleta (repri- l.E<MN, K. Teoria de campo em cíêndo s,xiol. São Paulo: diferenciado', para o qual sugiro o termo 'pré-
comportamento, e destaca que a de mida). Segundo Perls (2002, p. 269): ·Perse- Pioneira. 1965.
díferente' O ponto de onde a diferenciação
"Gestalt' enfatiza o nível molar de um com- verando nessa concentração, avançamos em MOSA, j.F. Dicionário de frlost,(,o. Lisboa: Dom Quixote,
1982. começa é usualmente chamado ponto zero"
portamento, isto é, seu significado ou sentido direção ao centro do campo ou 'comnlex,:>':
(Perls, 2002. p. 50).
dentro do campo ambiental. durante este processo encontramos e reorga- Essas idéias, presentes Já nos primórdios da
As noções descritas antes sobre "parte• e nizamos as evitações por exemplo Ego. fome e agressão. São Paulo: Summus. articulação do pensamento de Perls, são reva,
"todo· são claramente aplicadas em EFA. No resistências'. 2002.
lidadas por ele no Prefácio da edição de 1969,
Capítulo 7. no qual o ego é apresentado como Essa técnica de concentração, awareness. F\:RLS, F. S.: HmERLINÊ. R.: GôooMAN, P. Gesrdt·terapia
São Paulo: Summus, 1997. quando reafirma suas formulações anteriores
uma função do organismo total, responsável ou manter-se aware, está fundamentalmen-
5MlJT5. J. e Holism ond evolutioo: the original :rource of a respeito da importância do pensamento em
pela formação de figura/Íundo e. desse modo, te na noção de que a configura- !fie holiS!Jc opproach to l(e. Caiifóma: Sierra Sumise, opostos. valorizando-o corno ferramenta im-
responsável por discriminar (identificar e alie- ção completa de um todo possuí uma 1999. portante no processo terapêutico, no sentido
nar) partes do ambiente para serem assimi- que impele na direção de sua completude ~ M. (1923). ·1.aw; o i ~ ín peí(eplual
de libertar o terapeuta para um trabalho de
ladas ou não ao organismo (Perls, 2002, p. forms'. ln: Eu.ts. W C/ossics 111 lhe hisroly <f ~
ou totalização. melhor qualidade. São suas palavras:
Gf>3 internet reswrce. Developed by Chísropher D.
205-14). E. no capítulo seguinte, quando se Na parte dedicada à teoria do sei(. na Green. 'b1< Uníversity. boolo, Ontário, 1938. Dis-
destacam também as funções integrativas do obra de PHG, os autores apresentam o ponível em: <htlp:/~.yom,.ca,Wertheimer/
Form.b'rr6.htm>. Acesso em: 12 jul. 2007.
[... ] sem perspectiva adequada, um
ego, conectando as ações do organísmo to- modo como uma unidade de figura e fundo terapeuta está perdido desde o início.
tal às suas principais necessidades e evocando desenvolve-se no processo de aiustamento VERBETES RELACIONADOS O uso da melhor técnica ou do con-
aquelas funções do organismo que são neces- criativo. Lembrando que a noção de "uni- Ajustamento oia!ívo, A"'1reness, Campo. Contato . Rgura ceito mais engenhoso não impedirá o
sárias para a da necessidade mais dade" está presente em todo o processo e fundo, Gesmít. Gestalt-terapia. Ha!ísmo. Necessidades, paciente de compensar GS esforços do
.urgente (Perls. 2002, p. 215-23). Orgar,isr=. Resis1ência. Self, léoria de campo. 1erapia e
de contato, mas particularmente destacando terapeuta [... ] Ego, fome e agressão
té<::nica de concentração. To1alidade

DtCIONÁR.lQ DE GfS.TA! LTl=RAPIA


173
172

Escora(uncr,ando Fritz: d<mtro e fora da lato de de ou até com a exclusão da consciên-


facilitará a aquisição dessa perspecti- Em termos de utilização do conceito, po- hxo. São Paulo: Summus. 1979. cia do componente emociona~ tendo
va. Como ela está baseada em pola- demos citar a obra de PHG ( 1951 ). na qual a f'ERts, F. $.: HtfüRtJNt, R: GoooMAN. P. (1951). Ges!aJt- perdido parcialmente «a sensação
ridades e em focalÍ7AfâO, o primeiro questão das pciarídades é retomada no Capí- !erapia. São Paulo: Summus. 1997.
de sí mestl'w» ( a "awareness" senso-
capitulo, embora de leitura difídl, é tulo IX, ·Conflito e autoconquista": o conflito, Z~l<ER.J. Mé·
xico: Paidós. 199 l. motora), experiencia uma situação
importante. (2002, p. 36; grifo nosso) como expressão de pciaridades em antago-
íru:ompleta - um escotoma (ponto
nismo, é apresentado numa versão "criativa",
VERBETES RELACIONADOS cego) para a manifestação psiroló-
Nota-se uma de Perls em corno meio para o crescimento e a expansão
Campo, Conflito. GestaHerapia. Organismo, Ponto gíca da emoção. (Perls, 2002, p. 69;
estabelecer uma distinção: o conceito de •bi- do Isso pode ocorrer desde que a pers- zero. Sei( grifos do autor)
pciaridade'. como característica básica do uni- pectiva dualista seja transcendida e substituída
verso e do ser humano, deve ser distinguido por uma solução que evite a estagnação, a
A Gestalt-terapía aproveita todo o co-
de dualidade, que é a cisão do mundo ou do acomodação, e possibilite o vir-a-ser. PONTO CEGO/ESCOTOMA
nhecimento sobre os "pontos • até
ser humano em duas metades incompatíveis e Joseph Zinker trabalha o tema no capítulo Escotoma {do grego scotoma, escuridão) a nomenclatura, ao demonstrar como uma
mutuamente dissociadas. •polaridades y conflitos" do livro EJ processo
é urna do campo visual que não res- pessoa, quando atingida por certo tipo de
Perls encontra no pensamento de Fried- creatívo en la terapia guestáltico. 991 ,
ponde adequadamente aos estímulos exter- emoção, considerada negativa, toma.se total-
lânder uma validação desse modo simples de p. 161) fala em "muitas integradas
nos. Corresponde a um ponto no interior mente incapaz de analísar o fato com isenção
orientação primária, e em sua autobiografia, e entrelaçadas que se fusíonam entre s( e su-
do olho, descobeito pelo físico francês Edme de julgamento, como se estivesse rmnnl,Pt~-
Escarafunchando Fritz, retoma a questão e re- gere que o trabalho terapêutico busque a am-
Mariotte. em 1668. Esse termo é utilizado mente cega para ele. Apoiada na um,~'""'"'"
conhece a desse pensamerto na pliação do autoconceíto, no sentido de incluir
com freqüência na oftalmologia, demonstran- do fato. a pessoa acaba criando situações real-
filosofia oriental: polaridades egodístônicas e
do que existe um ponto em que a imagem mente prejudiciais a si e aos outros.
tônicas, abrindo espaço para rea,vai11ac<)es
não se forma, conhecido como "ponto cego·. O terapeuta, como está fora do proble-
[ ••• J qualquer coisa se diferencia em já estabelecido, a fim de às novas
configurações do campo. A psicologia, por analogia, utiliza o termo para ma, apresenta a possibilidade de entrar em
opostos. Se somos capturados por uma
Podemos dizer que o conceito de "pola- indicar algo não percebido pelo ser humano. contato com o acontecido e, com de
dessas forças opostas, estamos em uma
ridades· ou polares" tem um papel- Nos primórdios da da Gestalt, por juízo de valor, pode ser maís eficiente no re-
cilada ou, pero menos, desequilibrados.
chave na teoria da Gesta!t-terapia. Na prática, ocasião do estudo da percepção, foram ob- conhecimento do evento e da emoção a ele
Se fa:amos no nada do centro-zero, es-
é sugerido um trabalho que se distancie de servados pontos cegos; para completá-los, a agregada. Mediante um trabalho bem elabo-
tamos equilibrados e temos perspectiva.
uma perspectiva dialética, que privilegia um mente tende a formar figuras, por necessidade rado, possibilita ao cliente o reconhecimento
Mais tarde percebi que este é o equiva-
movimento pendular constante de tese-antí- de fechamento. do que realmente está ocorrendo. O pró-
lente ocidental do ensinamento de Ltw-
tese. /l,o se definir o ponto zero. abre-se um Frederick Perls, em seu primeiro livro, prio ponto de aparece como ponto
Tse. (Perls, 1979, p. 96}
espaço, um campo e urna possibí!idade de EFA ( 1942), refere-se ao escotorna. estuda- cego, impedindo o ser de perceber melhor
equilíbrio e integração entre fo,ças opostas. do por W Stekel, em relação ao indivíduo a figura.
Então, ao conceito de "polaridade" vis-
Em termos práticos, talvez possamos dizer neurótico que, diante de certos problemas, Todas as vezes que há negação de sen-
to sob uma perspectiva dual, Perls, apoiado
que a Gestalt-terapía propõe uma passagem sensações físicas, mas se man- timentos, o corpo, de uma forma ou outra,
no pensamento de Friedlãnder; propõe urna
do •ou isto ou aquilo" para urna possibilidade tém totalmente inconsciente com respeito demonstra o acontecimento, por intermédio
perspectiva que privilegia urna tríade, com a
ampliada e mais integradora do ·rsto e aquilo·. à emoção em pauta. Há, portanto, uma total de áreas perfeitamente conhecidas e outras
introdução de um elemento central o pon-
inconsciência emocional. com restrições que parecem modificar total-
to zero -, que viabiliza a drferenciação dimi- Maria Cecilía Peres dô Sooto
mente a estrutura do evento. A resistência
nuindo o risco do dualismo e apontando na
REFERÊNCIAS BIIIUOGRÁACAS O neurótico não experiencia sensa- ao reconhecimento de uma emoção cria
direção de integração, e não simples oposi-
F'tJlts. F. ( 1942). Ego. fome e agressão. São Paulo: Summus. ções em vez de emoções, mas à custa verdadeiros problemas de relacionamento e
ção de polaridades. 2002.

DICIONÁl\10 OE GESTALT-TEI\APIA
PONTOCEGo/ESCOTOMA

de impossibilidades de percepção de deter-


minados aspectos.
174

realidade a não ser o presente. Nosso


desejo de reter mais do passado ou de
dependendo do lugar que ocupamos no espa-
ço. Essa é a marca da atitude fenomenoíógiai.
175

~1
O conflito entre as demandas do presente
e as exigências do futuro é uma característica
1,,

Um é quando o indivíduo se antecipar o futuro poderia encobrir Segundo Ribeiro ( 1985, p. 79-81 ): 'Presente da condição humana. Todo ato de esperar en-
apresenta como extremamente sensível a completamente este senso de realida- e aqui e agora se [.. .]. O presente volve incerteza. Tanto o prazer quanto a dor
variados problemas, porém é incapaz de de. [..• ] O presente é o ponto zero em e o aqui e agora convivem com o organismo nos ligam ao presente. A apreensão, a ambi-
detectar as reais que o estão aflí- constante movimento dos opostos pas- e com o passado que são uma história, numa ção e o sonho nos projetam no futuro. É um
Tal indivíduo é refém emocional, com sado efuturo. (2002,p.146-151) relação de figura e fundo, de todo e parte. [... ] desafio a continua e r=rl~nt"'
total desconhecimento do que está se pas- O passado e o corpo estão presentes, aqui e para não se paralisar nos c:;,,..t:,>tJ>, ue
sando, no lugar da É um conceito básico da abordagem ges· um dos lados. Quando necessidades inadiá-
agora, na pessoa corno um todo·.
adequada ao fato respostas sensoriais e físi- táltíca, que nos leva à idéia de nrP·<Pr,tífo·,,-•,,... veis estão em o aqui e agora governa as
O presente se movimenta, não pode
cas que atrapalham até mesmo o desenrolar ou awcrreness. No livro de PHG {l 951) as· O que puder ser feito para atender a
ser aprisionado; o é írrecobrável
da terapia. sim se apresenta este concerto: ·o presente essas necessidades, não importando os cus-
e o futuro é incerto. Entretanto, quando
Quando o ser demonstra inc.1pacíd,ide de é a experiência da especificidade em que nos tos futuros. valerá a pena. O enfrentarnento,
nos referimos às vivências, ocorrido
viver a parte emocional da vida, fica cego para tomamos ao nos dissolver em várias possibi- como tomada de consciência, articula a liber-
no passado pode ter força de influência no
a totalidade, como tarto se preconiza na Ges- lidades significativas. e a reforma dessas pos- dade e a responsabilidade pelo que pertence
momento. Assim como um proJeto futuro
talHerapia. sibilidades para produzir uma nova esc,eollic1- a cada pessoa, favorecendo a assunção do
pode interferir consideravelmente nas es-
dade úníca e concreta" ( l 997, p. 114). dístingwndo-se o que é =es-
Elysette Lima da Silva colhas que se faz no cotidiano, o passado,
Culturalmente, somos induzidos a agir sob sidade. e urgência.
o presente e o futuro podem dialogar, ne- Segundo Stevens (1976, p. 106): ·o que
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS a influência do pensar. que se baseia no passa-
e redefinir os termos dessa relação. traz a sensação de força e é a mi-
Koff!'A, K. Princípios de psicoíog,a da Gestalt. São P.ulo: do ou no futuro. Estar presente vai além do
Cu.'tríx, 1975. O presente lúcido não está dissociado do nha vontade de me identificar totalmente com
pensar, induindo a consciência do corpo, do or-
Fb>Ls, F. S. ( 1942). Ego, fome e agressão. S.ID Paulo: Sum- passado e do futuro. as minhas experiências e as minhas ações, tor-
mus, 2002. ganismo, que é o ser-aí. O presente se eviden-
A capacidade de presentificação é um re- nando-me responsável pelo que sinto e pelo
cia pela qualidade de nossa presença. Ainda na
médio para a da consciência. Está que faço".
VERBETES RELACIONADOS obra de PHG (1997, p. 101):
ligada ao prestar atenção a si, aos outros e à O futuro responde à força e à ousadia do
A;,orenes,, Camadas da neurose, Contato, Emoções,
GestalMerapia v:da. É um exercício de honestidade consigo nosso querer. A capacidade de sonhar nutre
Assim que não tenham mais um em-
mesmo, com os sentimentos e as experiên- o nosso presente. A saúde aponta para a ca-
prego presente, o organismo descarta
cias, favorecendo urna do contato oa<:100,de de identificar o que desejamos e de
os efeitos fixados do passado por meio
PORQUÊ (VER SEMÂNTICA, PORQUÊ, com os outros e com a vida. realizar, no tempo, esses desejos, articulando
de sua auto-regulação; o conhecimento
COMO) o que é provável e o que é possível. !lgír no
inútil é esquecido. o caráter se dissolve.
A regra funciona em ambos os sentidos: Quando o tempo presente é rico, re- presente tendo em vista o futuro envolve an-

não é pela inércia, mas pela função que parador, com sentido de totalidade, tecipar conseqüências, delinear um caminho
PRESENTE
uma forma persiste, não é pela passa- as pessoas podem se rever com mais e atuar com coerência, consistência e com
Frederick Pens introduz a do termo gem do tempo, mas pela falta de fu1!fão facilidade e menos dor. Poderão, tal- ampliação de consciência.
·presente" já em seu primeiro livro, EFA: que uma forma é esquecida. vez, até se curar, pois curar-se não ·o valor do presente em relação ao futuro
é função da temporalidade, mas do o desconto do futuro aumenta de forma
O centro temporal de nós mesmos aqui e agora, tal como chega à aware· desproporcional à medida que o momento de
O presente é a fronteira e também a ar·
como eventos espafo-tempo humanos ness do indivíduo. (Ribeiro, 1999, p. saciar uma necessidade ou desejo se avizinha.
ticulação entre o passado e o futuro. Chama-
conscíentes é o presente. Não há outra O remoto convida à espera; o imediato
mos presente o que nos é dado a presenciar, 75-6)

.
DICIONÁRIO DE GESTAlT·TERAPIA DICIONÁRIO OE GESTALT-TERAPIA
176
177

e cobra satisfação - é o afã da natureza prestes dia que, para um funcionamento saudável, era
de é uma das formas de resolução. REFERÊNCIAS BIBUOGRÁflCAS
à repleção· (Giannetti, 2005, p. 59). necessário o desenvolvimento da expressão
No entanto, nao recorhecendo em si próprio E S. Aab<lrdagem gest:áluca e testetrl!,J/lha ocular da
FÍ'Rt.S.
Gláuàa Rezende Tavares das e idéias, e não da projeção. 1erapío Rio de Janeiro: Zahar, 1981 .
sentimentos e ações, o indivíduo vincula-se à
(1942). Ego, fome e agressão. São Paulo: Sum-
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS outra pessoa, resultando numa personalida- mus. 2002.
Um metabolismo mental saudável
GfANNml, E O valor do amanhã. Sao Paulo: Companhia de cindida entre •suas características reais e _ _ . Gesta/Hempia expl,cada. São Paulo: Summus.
das l.e!ra!;, 2005. desenvolvimento na direção da 1977.
o que ele tem consciência a respeito delas.
f'Ellls. F. S. ( 1942). &;o. fotr.e e agressão. São Paulo: Sum- expressão, e não da projeção [... ] A PotmR, E.: f'0!5TER, M. GestalMeropia integrada. São
isto. ele (indivíduo) está intensa-
mus, 2002. projeção é essencialmente um fenô- Paulo: Summus. 2001
f'Eru.s. f. S.: HEJ'WI.IJNE, R.: Goootws, P. (1951). Gesta~· mente consciente dessas características em SrMM. J. O. (org.) Isto é Gesta!! São Paulo: 5ummus,
meno inconsciente. A pessoa que está
reropià. São Paulo; Summus, 1997. outras (Polster; Polster, 2001 , p. 93). 1977.
projetando mfo pode distinguir satis·
RJ&,,o, J. !'! Gestnli.teropia: refazendo trm carrnnho. São "Em geral, são nossas introjeções que nos le-
Paulo: Summus, 1985. fatoriamente entre os mundos inte·
vam ao sentimento de autodesvalorização e VERBETES RELACIONADOS
Gestalt-!erapío de curta duração. São Paulo rior e exterior. Vuualiza no mundo
auto-alienação que produz a projeção ... Pro- Camadas da neurOSé. Coollíto Consdêncía. Emoções,
1999 exterior aquelas partes de sua própria Gestllt-terapia. lntmjeção. Mecanismos neurót,;:;os. Se!f:
STEVENS,J. O. lomor-se presenre: experimentos <.re cre-;;- personalidade com as quais se reema espera se livrar de suas introjeções Sonhos. Zen-budismo
címento em GEitaJt-terapío. São Paulo: Surnmus, ,maginánas que, de fato, não são de todo in-
1976. identificar. (Perls, 2002, p. 230-l)
tm,Pri'>P, e sim aspectos de si mesmo· (Perls,

t 977a, p. 99). PSICOSE


Vl:ftBETES RELACIONADOS À medida que a foi se de·
hjui e agora, Auto-reg,~lação organlsmica, Awareness. !ineando, que "por causa da nossa Recuperar as partes alienadas é o ponto Em Prefácio à de EFA publicada em
Conflito, Consciência, Contato, Emergência de ne.:es- crucial do processo de elaboração e, à me-
sidades, Figura e fundo, Fronteira de contato, Necessi-
atitude fóbica. ou evitando a tomada de 1945, Perls comunica sua esperança em po-
dades, Organismo, Parte e lodo. Ponto zero. Presente, consciência, muito material pertencente a nós dida que o indivíduo que projeta consegue der futurameme contribuir para a compreen-
Responsabilidade, Saúde, V;vêncías
mesmos, que é parte de nós mesmos, tem fantasiar sobre si mesmo, como uma pessoa são do funcionamento das
sido dissociado, alienado, rejeitado" {Perls, com as mesmas características que vê nos
1977a, p. 99). Essas partes alienadas com- outros, permite a expansão de sua identi- No presente momento, estou envolvi-
PRIORIDADE (VER NECESSIDADES,
HIERARQUIA DE NECESSIDADES, põem nosso potencial, porém estariam dispo- dade. Um trabalho em Gestalt-terapia que do num trabalho de pesquisa sobre o
EMERGêNCIA DE NECESSIDADES) níveis como projeções. Perfs achava incrível o expressa essa da éo mau funcionamento do fenômeno fi-
quanto se impossibilitando, assim. de trabalho com sonhos, uma vez que ·assumi- gura/fundo nas psicoses em geral e na
perceber o que realmente está acontecendo. mos que cada parte do sonho é uma proje- estrutura da esquizofrenia em parti-
PROFLEXÃO (VER MECANISMOS Contrária à a projeção. então, é Cada fragmento do sonho, cada pessoa, cular. Ainda é cedo demais para dizer
NEURÓTICOS) coisa. estado de espírito, é uma porção de
designada como um mecanismo neurótico no quais serão os resultados; parece que
qual existe uma "tendência a fazer o meio res· -"---"-- (Perls. in Stevens. l 977a, p. 25; vai resultar em alguma coisa. Espero,
pensável pelo que se origina na própria pes- grifo no original). •No Zen (Budismo) não portanto, que, num futuro niw muito
PROJEÇÃO
soa [.. .). A doença da paranóia. que é carac- se tem a de pintar um único ga- distante, eu seja capaz de lançar algu-
Importante conceito da psicologia e psiquia- terizada pelo sistema altamente organizado de lho enquanto a pessoa não tiver se tornado ma luz sabre esta misteriosa doença.
tria, Perls dedica ao tema um GlpÍtUlo em seu ilusões, é o caso extremo da projeção' (Perls, o galho" (Perls, 1977a, p. 99). Assim, a arte ( Perls, 2002, p. 38)
primeiro íivro EFA (1942), ainda numa perspec- 1981, p. 49). é compreendida como a forma saudável da
tiva psicanalítica, embora já esboçasse sua teoria Basic.amente, o "não deveria' é uma das or<11e<·ão: ·o patológico é sempre a projeção No entanto, os autores que criaram a
da personalidade. o metabolismo mental. formas de incorporação dos introjetos que A projeção total é chamada de expe- Gestalt-terapia abordaram pouco o fenôme-
Nessa época, considerava a gênese da levam o individuo ao conflito, de maneira tal nênda artística" (Perls, l 977a. p. 99). no das e sem explicar suas razões.
projeção aindaobscura, entretantocompreen- que a negação de partes de sua personalída- GladysD"hri Aff! o desfecho do século XX, raros textos

d'iCIONÁRIO DE GESTALT-TERAPIA
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gestáhícos foram produzidos sobre esse im- e com o nosso próprio self, isto é, com a rea- qualquer pessoa em psicótica e é fun- ao enfoque existencial e feno-
portantíssimo tema. disso. a visão da lidade, e em contato com maya27, um sistema damental trabalhar com essas vivências e sob menológico já mencionado. Até porque não
Gestalt sobre as psicoses é tão revolucionária de ilusão essencialmente centrado em tomo esse de contextualidade. Ignorá-las, se têm elementos para pensar que deixar de
quanto sua visão da psicoterapia, do ego, por exemplo, os freqüentes sintomas evitá-las ou tentar anulá-las como iniciativa do valorizar as vivências de uma pessoa, seja
do convívio comunitário etc. de megalomania e inutilidade". terapeuta é ignorar, evitar ou anular uma re- em que condição e organísmica ela
Na teoria da Gestalt-terapia, a elasticidade Diante dessa escassez de material sobre lação criativa, acolhedora e cons- estiver, trate-se de um ato terapêutico ético
da figura/fundo é o ponto inicial o tema , grande parte do conteúdo e producente.
trutiva. Assim, nossa tendência é abandonar a
para compreender a funcíonalídade das neu- deste verbete é de minha responsabilidade e obsoleta idéia de que pessoas psicóticas agem 7) O uso de es-
roses e psicoses. À medida que essa dinâ- fruto da minha experiência. A seguir; preten- sem motivos, que suas condutas não têm sen- pecíficas (antipsicóticos, por exemplo) não se
mica fica perturbada, encontra-se do apresentar, em tópicos, as contribuições tido. nada significam ou nem sequer tenham mencionados nesta
temente ou rigidez (fixação) [a psicose]. ou sob uma perspectiva gestáltica, tendo como que ver com as demais pessoas. abordagem, sendo na medida do
uma falta de formação de figura (repressão) diretriz o olhar fenomenológico clínico com possível. considerar as possibilidades de escla-
4) Cada pessoa em vivência psícótica é
(na neurose]. Ambas interferem na com- ao tema deste verbete. singular e peculiar. Não há duas "psicoses" recimento e do ·cliente· nessas
pletação normal de uma Gestalt adequada" 1) Em Gestalt estão mantidos os "sinais iguais em duas pessoas diferentes. nem mes- escolhas e usos.
(PHG. 1997, p. 34). Goodman (PHG, 1997, e sintomas" que definem as do mo dois "surtos· na mesma pessoa, em 8) Há um mistério; é a ocorrência quase
p. 235) compreendia a psicose como "distúr- ponto de vista psiquiátrico clínico. Não há universal, principalmente nas fases de vivên-
momentos diferentes de sua existência. A
bios das funções de id". "outros sintomas gestálticos" de busca e o trabalho terapêutico com as dife- cias afetivamente mais intensas (clinicamente
Esse material transcrito do livro Gestnlt- Vale salientar que o ponto de vista clínico é renças e singularidades de cada pessoa é mais denominadas agudas). de negação da condi-
terapia explicada ( 1981 ), é de quando, per- apenas um critério de das dis- do sofrimento e de dificuldade de adap-
identificador, reconhecedor. estimulante e
guntado o que teria a dizer sobre a psicose, funções denominadas em conjunto de psico- terapêutico do que a busca das similaridades, tação ao convívio convencional em grupo.
Perls respondeu: ses, que não é usado como parâmetro para
embora estas sejam importantes a ponto de Esse mistério leva à condição de começar
a estruturação de um projeto terapêutico, nunca serem de vista" como refe- considerável parte dos cuídad0$ terapêuticos
Eu tenho muito pouco, ainda, a dizer nem mesmo para nortear o que deve ser com pessoas de modo compul-
rência coletiva.
sobre a psicose_ [.. _J O psic6tico tem necessariamente trabalhado numa sessão. sório, contra suas próprias "vontades" e até
5) O enfoque clínico busca similaridades
uma camada de morte muito gran- Prevalece a diretriz do que se convencionou supostamente colocando-as em oposição a
entre pessoas que sofrem disfunções
de, e esta wna morta não consegue chamar de 'í\qui e Agora·. quem lhes quer melhorar. Os
ticas. O enfoque existencial é mais amplo e
ser alimentada pela força vital. Uma 2) Os "sinais e sintomas" são vistos como compreendem este 'prejuízo do senso críti-
vai até as diferenças e singularidades. Assim,
coisa que sabemos ao certo é que a vivências autênticas e genuínas. do campo co" corno decorrente de ou disfun-
é melhor falar em como adjetivação,
energia vital, energia biológica [..• j, da intersubjetividade, mesmo que aparen- ções de regiões cerebrais o que
do que em psicoses como substantivo. Como
torna-se incontrolável no caso da temente ilógicas e irreais, do ponto de vista nos parece um reducionísmo. Além do que,
adjetivo, o que se qualifica como psicótico é
psicose. {... ) o psícótico nem mesmo positivista ou físico (de Física). O conceito essa questão nos põe diante de um dos mais
um conjunto de situações humanas de grave
tenta lidar com a..< frustrações; ele de •psicose" não se sobrepõe à pessoa que sérios e polêmicos fenômenos do homem:
sofrimento, fragilidade, desestabilização e ris-
simplesmente nega as frustrações e o vivenda. a possibílidade de nos afirmarmos diante do
cos de agravamento. croniflcação e destrui-
se comporta como se elas não existis- 3) Há toda ênfase possível na contex- outro, apesar da discordância que aparen-
ção, com prejuízo inclusive das possibiíidades
sem. (p. 173-5) tualidade dos "sinais e sintomas" vividos por temente os propõem ou impõem, quando
de avaliar essas condições.
6) Respeita-se a organicidade como pos- dele dependemos.
Em seu livro autobíográfko, Escarafun- Palavra indiana que designa-. fibsolia do 'como se·. Maya
deve :ser contrastada <:orTI a realidade, o mundo observávef sível componente da etiologia policausal das 9) Gostaria de citar alguns autores que
chando Fritz, Perls (1979, p. 332} distingue: comum. knbos pode,n estar a quilômetro; de distlncia,
multo contríbu!ram para uma rr.1Tir,r-nõit'l
psicoses, como disfunções. Organicidade a
;~Na saúde estamos em contato com o mundo maior da fenomenologia das pessoas que vi-
ser identificada e cuidada, entretanto sem

DICIONÁRIO DE GE5TALT-TERAPIA DICIONÁRIO 0€ GESTALT-TERAPIA


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vem transtornos psic6tícos. Alguns deles não REFERÊNCIAS BIBUOGRÁl'ICAS Em 1967, Fritz publicou "Terapia de gru- vida temporariamente entre mim e o
se identificaram como fenomenólogos, mas o lm.s, f. S. (1945). Ego. fome e agressão. São Paulo: Sum· po versus terapia individual', texto hoje clás- paciente, mas o resto do grupo é total-
mus. 2002.
foram até certo ponto. Outros se identifica- sico, em que critica a psicoterapia individual, mente envolvido, embora raramente
E:scara(uncliondo Fritz: dentro e foro do kna de
ram como tal, mas não permaneceram mui- lixo. São Paulo: Summus. 1979. questiona a psicoterapia de grupo e propõe como participantes ativos. Na maioria
to tempo com esse olhar (fenomenológico). GeSfn!t-terapía e,.plicoda. São Paulo: Summus. os v.orlrshops de Gestalt-terapia: das vezes, eles agem como uma audíl!:n-
Importantíssimo não perder de vista o que 1977. cit4 que é estimulada pelo encontro a
fizeram: Karl Jaspers, Eugen Bleuier, Ludwig Pws, F, S.; HHFEP.LINE, R.: Gooo,,w,, P. Gesioir.ierapia. 1---l qual é a mensagem que recebemos fazer um pouco da autoterapia silen-
São Paulo: Summus. 1997.
Binswanger, Gregory Bateson, Don Jackman. da terapia de grupo? A terapia de gru- ciosa. (Pers in Stevens, 1977, p. 35)
Rooald Laing, David Cooper. Maxwell Jones, VERBETES RELACIONADOS
po nos diz.: «Sou mais econômica que a
Thomas Szasz, j. Eisend<, fuiler Torrey, John Aqui e agora, Díagnóslito. Fenomenologia, Figura e fun- terapia individual''. A t.erapia indivi- Essas declarações de Fritz revelam muíto
Rosen, Wilson van Dusen, ]an Foudraine, Mi- do, Fnistração. Função id, GestalHer.ipía. Neurose. Saú· dual retruca: "Sim, mas você é menos de sua sobre o trabalho com gru-
de. V:'Vêncía
chel Foucault, Kasanin, entre outros. eficiente''. "Mas'; pergunta a terapia de pos. Inicialmente, percebemos que e!e res-
IO) Mas vale também a partir grupo, «quer dizer que você é eficiente?º tringe as vantagens do trabalho grupal sobre
do momento em que se valoriza a contextuali- PSICOTERAPIA DE GRUPO E Você notará que no meu íntimo estas o incividual pelo fato de ser mais econômico,
dade. que é um redudonismo da "situação no WORKSHOP" duas terapias imediatamente começam além de ser igualmente ineficiente. Entretanto,
munco", quer se em função desta. a brigar e a entrar em conflito. Du- a "economia" do trabalho grupal não se limita
Devemos lembrar que a Gestalt-tera- ao seu preço, geralmente mais barato, mas ao
há uma dinâmica homem-meio mesmo rante algum tempo, tentei-resolver este
pia iniciou sua prática corno
que suponhamos a existência de confiiro em Gestalt-terapia, pedindo a fato de poder mais facilmente ser usuln;klo
individual e, apenas posteriormente, passou por um maior número de pessoas e de tratar
tícos e orgânicos-que é contínua e continua- meus pacientes que se submetessem a
a aplicar suas propostas aos grupos, a ponto
mente mutável. Que a forma e os conteúdos ambas [... ] ultimamente, entretanto, de questões mais ampias e compatíveis com a
de vir a ser conhecida por alguns como uma
vivenciados por cada pessoa e que são disfun- eliminei totalmente as sessões indivi- realidade sociocultural. Sua ineficiência e su-
eminentemente grupal. Confor-
cionais, q~e ser chamados de duais, exato nos casos de emergência, perficialidade também são de-
me Shepard (1977. p. 57), um dos biógra-
ticos hoJe, não o foram no passado recente De fato, cheguei à conclusão que toda pendendo da disponibilidade dos participantes
•·j·.:,· fos de Fritz Perls, as primeiras referências ao
j; ou remoto em determinadas culturas. e que terapia individual é obsoleta e de11e- de se
seu trabalho com grupos datam do período
provavelmente, menos em parte, não o ria ser substítutda por workshops, de e da habilidade fao litadora e cooperativa do

l serão amanhã. Eque os erros.


distorções do mau uso do diagnóstico como
e
de dez anos ( 1946-19 56) em que viveu em
Nova York: "Fritz ainda recorria ao divã, mas
GestalHerapia. Em meus workshops
agora integro o trabalho individual e
osi,coteranet.Jta. A profundidade da psicotera-
pia grupal requer maior confiança, tempo e
começava a utilizar cada vez mais os encon-
instrumento humano de cuidado e crescimen- grupal Entretanto, isto somente tem habilidade, pois lidamos com as atualidades
tros de cara a cara [... ]. assim como a ex-
to não devam ser usados como arma contra resultado com ogrupo se o encontro do existenciais dos vários participantes.
plorar no campo da terapia de grupo". Seu
ele, e sim a favor de seu melhoramento. Seria terapeuta com o paciente individual Fritztambém destacava, em seus workshops,
trabalho mais sistemático com grupos parece
dentro do grupo for efetivo. (Perls in a prioridade da relação interindividua! em:re o
corno destruir as psicoterapias em função de efetivar-se no início da década de 19 50, tam-
Stevens, 19n, p. 29) psicoterapeuta e o participante grupal sobre
seus usos indevidos, praticados por alguns. bém em Nova York, quando fundou. com a
qualquer outra. Essa é uma perspectiva isola-
Que se houver a viabilidade histórica de criar- esposa, Laura, o primeiro instituto de Ges-
Mais adiante, acrescenta: cionista e concentradora. várias vezes criticada
mos sociedades efetivamente inclusivas e to- talHerapia. no qual ofereciam grupos de ca-
por ele mesmo em outros profissionais. Perls
lerantes, teremos oportunidades de convívio pac:rtai;ão de psicoterapeutas.
[... ] Em meus workshops de Gestalt,
menos disfuncional e menos patogênico.
quem sentir necessidade pode traba- e facilitadora do grupo (que freqüentemente
'* Algumas des1el wrbetes focam por mim m,du,. lhar comigo. Estou disponívet mas sobrepuja as do psicoterapeuta),
zídas com o de propon:iorw maior fluidez e melho,-
«::imp<eensáo ao rexro aqui apresernado. não faço nada. Uma dupla é desenvol- e deixava de aproveitar as qualidades poten-

O!CIONÂRlO f)F t':f:'-TAI T_T&'RA.PIA n,1r10NÁRIO OI= (':;FSTAl T~TERAPIA


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dais do grupo como vivência comunitária, dia- [... ] a Gestalt-terapia foi muitas ,·ezes Partindo de uma perspectiva de grupo propiciando sua e inclusão na comu-
16gica e cooperativa. erroneamente igualada a um estilo e indívídualmente orientado, essa limitação foi nidade ou totalidade grupal
Por outro lado, avançou numa perspecti- pontv de vista específicos sobre tem- cada vez mais reconhecida e, conseqüente- Sem dúvida, os grupos como comunida-
va comunitária e cooperativa com a fundação pia de grupo. O estilo que Fritz usou mente. foram sendo propostas mudanças na des de aprendizagem cooperativa não são
da comunidade de Cowíchan, no Canadá (da nos últimos dez anos de sua vida era concepção dos grupos gestálticos. Os grupos uma males. Entretanto,
qual infe!izmente pouco usufruiu por conta estritamente um modelo de trabalho de modelo um-a-um passaram a ser perce- são uma forma efetiva de atuação para psicó-
de sua morte. em 1970). criando um espaço um-a-wn com o terapeuta no grupo bidos corno muito tensionantes e extensos educadores. e outros
propício à vivência psicoterápica e ao trabalho (modelo da "cadeira quente"), com para que a experiência rntrapessoal fosse assi- profissionais comprometidos com a transfor-
conjunto, visando à manutenção e ao cuida- os outros participantes como meros milada e muitos participantes, mais mação social, a fim de facilitar a essas comuni·
do das necessidades coletivas: "A divisão entre do que uma cura para suas neuroses. dese- dades humanas, os grupos, a cn1r.,;c1;,n·rm1c;in
observadores [... ]. Os modelos de re-
a e os será superada O javam apenas conhecer-se um pouco mais e de sua alienação e vitímação à manipulação
lação com o grupo eram como os raios
principal é o espírito de comunidade propicia- se relacionar melhor entre si. Kepner ( 1980, consumista e às de dominação. Ou
de uma roda, com o terapeuta no cen-
do pela terapia vamos chamá-la assim por p. 15) conclui que 'este tipo de processo de seja, quando bem conduzido por facilitadores
tro e toda interação passando por ele.
enquanto. na falta de uma expressão melhor• grupo,[...] entre outras coisas. reforça o culto conscientes desses riscos e perigos, podem vir
(Yontef, 1987, p. 12-3}
(Peris, 1977, p. 106). do indivíduo, e cria no relacionamento entre a ser formas de resistência às tenàências so-
Posteriormente, reconheceu parcialmen- membros e líderes uma dependência do lí- ciais desagregadoras. O trabalho
a morte àe Perls, em
te os limites de sua proposta de trabalho gru- der· (grifos do original). toda nossa afeto, dedicação, estudo
1970, a proposta de trabalho com grupos em
pal: "Basicamente, o que eu estou fazendo é Com base nessas constatações. nasceu o e conhecimento acerca dos seres humanos e
Gestalt-terapia vivenciou uma crise, poís:
uma terapia individual em contexto de grupo, modelo de crescimento que incluía dos fenômenos caracteristicos aos grupos e à
mas não se limita a isto. Muitas vezes, o que exrienên(:1as de aprendrzagem e mudança sua realidade sócio-histórica concreta.
[ ... Jembora a teoria básica da Gestalt-
acontece num grupo acontece por acontecer" cológica. A ênfase passou. cada vez mais, dos Portanto, devemos ter claro que
(f'erls, 1977, p. 105). terapia enfatize o contato e o apoio,
indivíduos aos relacionamentos ,nt,,m,,~"'ª'"
isto é, o auto-suporte para o contato
Ainda no tocante à critica à prática de Fritz dentro do grupo. Entretanto, nesse modelo, o [ ... j encami11har o processo grupal em
com grupos, podemos destacar as palavras de e a relação interpessoais, a falta de
líder ainda mantém um papel central durante o direção à realização do projeto grupai
Yontef ( 1987. p. 9). que questionou sua pro- clareza e consistência da definição fre-
processo grupal, e os membros tendem a sair básico, a sua raziw de ser explícita (o
posta e atitude em aos participantes qüentemente conduziram à confusão
dessas experiências com a crença de que é su- que não exclui a existência de objetivos
de seus grupos: teórica e prática. O auto-suporte era
ficiente expressarem-se e serem responsáveis implícitos concordantes 011 conflitantes
fmlüentemente discutido de uma ma- com a tarefa básica) requer uma série de
por si mesmos com o fim de criar uma vida
[ ••• J A awareness cândida e ingênua do neira que o wnfundia com a auto-su- decisões. Épreciso estabelecer quem par-
pessoal, uma família, uma equipe de trabalho
paciente e o comportamento resultante ficíéncía, e pregava-se uma atitude ou uma comunidade melhores. Essa crença é ticipa. como se estruturam os trabalhos
dessa awareness parcamente desenvol- excessivamente negativa com relação não apenas ingênua, mas disfundonal, porque e qual o tipo de intervençães que podem
vida eram freqüentemente considera- a qualquer indicio de conflumcia. Isso negligencia a realidade do meio social em que favorecer a produtividade do grupo. São
dos com desrespeito e suspeita. [...] A obscureceu a importância da interde- estamos insertos (Kepner. 1980, p. 15-6). decisões que devem se nortear sobretudo
terapia era muitas vezes encarada não pendência e cooperação no funciona- Nesse contexto, deve-se destacar o papel pela c.orrespondmcia com a tarefa e s6
como uma aventura cooperativa do te- mento sadio e normal. Essa confusão do grupo como instância humana, como me- secundariamenre por reorlas e técnicas.
rapeuta e do paciente, mas, sim, como pode ter sido instigada pela negação diador entre a particularidade indrvidual e a to- (Tellegen, 1984, p. 76)
uma aventura entre adversários. de Fritz e de outros Gestalt-terapeu- talidade social, bem como, dentro do grupo.
tas de sua interdependência.. (Yontef, o papel do psicoterapeuta como facilitador de Creio que o grande dado novo a respeito
Conseqüentemente, 1987, p. 8) atitudes cooperativas entre os participantes, do processo de grupo gestáltico é a confiança
184

no poder do grupo como outro co-facilitador F'Eru.s, F. S. Gestalt·teropia explicada. 3. ed. São Paulo:
Summus, 1977.
que interfere, intervém. interrompe e trans-
( 1967). "Terapia de grupo versus terapia índ,'ví-
forma. assumindo um papel que. de início, é

r
ln: STEVENS, J.O. (org.). Isto é Gesta/t. São Paulo:
privativo do líder. mas. pouco a pouco, trans- Summus. 19n. p. 29-36.
forma-se em um fundo disponível às necessi- Sourz, W C Oprazer. Exponsoo da càflSdêncía humaoo.
dades grupais e em um eletivo facilitador de Rio de Janeiro: Imago, 1974.
uma verdadeira comunidade de aprendiza- Ncoterapio pelo encontro. São Paulo: Atlas,

gem cooperativa.
SHEl>A?D, M. Ritz Perls - la terapia guestóltica. Buenos J,u.
res: Paídós, 1977.
Goorges Daniel lanía Bloc Boris
T,LI.EGEN, TA Ges!alt e grupos: u m a ~ SIS[êmíca.
REFER@NCIAS 81BUOGRÁFICAS São Paulo: Summus. 1984.

foNsocA, A H. L da. Grupo (up:ídode. ritmo e fom,o. íllNITF. G M •Gemt:-1.erapia 1986: uma polêmica". Thé
Procesro de ?rtlfXJ e facilitação na psíctJlogío humanista. Gestalt joomal. Trad. de L F. E Ribeiro. v. X. n. 1, p.
1-17, primavera 1987. RESISTÊNCIA E EVITAÇÃO o que se evita e em que circunstâncias algo
São Paulo: Agora, i 988.
é evitado. As mesmo quando não
i<EPNl'R, E. "Gesta~ group process" ln: fm,e, B.: RONALL, Mesmo antes de a GE~tlt-1:er,mía
R (o,gs.). Beyood the hot = t Gestalt w VERBETES RELACIONADOS são saudáveis, são porque repre-
sagrar como uma abordagem n<;i,cat"r:irn,;i
group. Nova York Brunner;Ma:rel, Awarel1€SS, Cadeit'á quente. Coníluêncía. Contato. Cura, sentam a melhor maneira que o indivíduo
Gesta!t-terapia. Necessidades. Resistência Fntz Perls. um de seus criadores. emprega
o termo "evítação" para indicar a fuga ou es- encontrou para agir em determinada situação.
rnsa ao contato com alguém ou com alguma Entretanto. elas conduzem a crista-
coisa. Ele defende que 'a neurose é carac- lizados de funcionamento, sendo utilizadas
terizada por diversas formas de sempre da mesma forma em seme-

principalmente a de contato' {Perls. lhantes. mas não iguais, sem discriminação de


2002, p. 39). Em outro momento, na mes- quando elas são úteis e não são. Sem
ma obra, ele destaca que a e a ca- qualquer mecanismo de evi-
racteristica principal da neurose [ ...]" (Perls, tação, embora seja um ajustamento criativo,
2002. p. 268). Nas duas o vocábulo não que a
em tem uma conotação referida à sidades e, dessa forma. traz sofrimento.
psicopatologia. Contudo, a evitação pode ser ·Esses mecanismos de defesa ou de evíta-
vista também como uma forma de autopre- ção do contato ser saudáveis ou pato-
servação: 'Tudo que ameaça enfraquecer o conforme sua intensidade. sua malea-
todo ou partes da personalidade é sentido bilidade, o momento em que intervêm e, de