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UNIVERSIDADE FEDERAL DE LAVRAS

DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA
SETOR DE ENGENHARIA DE ÁGUA E SOLO

Caixa Postal 3037 - TELEFAX (035) 3829-1481


CEP 37200-LAVRAS-MG

IRRIGAÇÃO E DRENAGEM I

Parte 1

NOTAS DE AULA

Prof. ELIO LEMOS da SILVA

2014
GNE-120 IRRIGAÇÃO E DRENAGEM I Prof. ELIO LEMOS da SILVA

1 INTRODUÇÃO

A disciplina GNE-120 Irrigação de Drenagem I, tem como objetivo


apresentar e discutir informações básicas sobre as técnicas de irrigação e de
drenagem. Muitas das informações são apresentadas e discutidas em tópicos
dentro de disciplinas já vistas, como: Física do solo, Agrometeorologia,
Fisiologia vegetal e Hidráulica, além de Física, Química, Cálculos, Topografia,
e etc. Alguns conceitos são revistos como forma de agrupar informações
interessantes para compreensão dos fundamentos da irrigação e da drenagem.
Na primeira parte do curso, mais ou menos um terço do tempo, são discutidos
conceitos da relação água-solo-planta, tais como retenção de água pelo solo,
infiltração e consumo de água pelas plantas. São conceitos relacionados com
intervalo entre irrigações, taxa de aplicação de água, quantidade de água na
irrigação e formas de aplicação de água. Em seguida, nas demais partes da
disciplina, serão apresentados os métodos de irrigação e de drenagem.
Antes da apresentação dos assuntos do programa, vamos definir irrigação,
drenagem e comentar sobre a importância da disciplina para os cursos
envolvidos.

-Irrigação: Reposição artificial da água ao solo de acordo com a sua


capacidade de infiltração e de retenção, fazendo voltar o teor de água capaz de
manter a cultura na sua atividade vegetativa satisfatória à uma produção
econômica..
A irrigação não pode ser considerada isoladamente, mas sim como parte
de um conjunto de técnicas utilizadas para garantir a produção econômica de
determinada cultura com adequados manejos dos recursos naturais.

-Drenagem agrícola: Remoção do excesso de água, no perfil ou na


superfície do solo, a uma taxa de acordo com as características físicas do solo e
exigência da cultura.

Importância da agricultura irrigada ( vantagens da irrigação):


-Seguro contra as secas;
-Melhor produtividade das culturas;
-Melhor qualidade do produto;
-Maior eficiência no uso de fertilizantes;

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Agricultura irrigada versus agricultura de sequeiro: Figura 1


Evolução da área irrigada no Brasil: Figura 2
Irrigação no mundo : Tabela 1

FIGURA 1 Comparação da produtividade de áreas irrigadas e não irrigadas,


no Brasil. Fonte: ABIMAQ (2002)

FIGURA 2 Evolução da área irrigada no Brasil (1950 a 2003).


Fonte: Christofidis (2007).

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TABELA 1 Irrigação no mundo:


Área Irrigada % da Área
Posição País
(milhões de ha) Irrigada/Cultivada
1 Índia 59 30
2 China 54 32
3 EUA 22 10
4 Paquistão 18 78
5 Irã 7.5 39
6 México 6.5 21
7 Indonésia 4.8 34
8 Tailândia 4.7 16
9 Turquia 4.5 12
10 Espanha 3.7 16
11 Egito 3.3 100
12 Brasil 3.2 5
13 Japão 2.7 63
14 Itália 2.7 25
15 Austrália 2.7 -
Outros países (estimado) 63.9 -
260
Fonte: Mantovani et al. (2006), adaptado de Christofifis(2002)

Para atualização, acesse


http://www.brasil.gov.br/economia-e-emprego/2013/04/agricultura-irrigada-impulsiona-
ganhos-de-produtividade-nas-cinco-regioes-do-pais

2 RELAÇÕES DE MASSA E VOLUME DOS


CONSTITUINTES DO SOLO

Para a compreensão das relações água-solo-planta, é necessário que se


domine os conceitos básicos do solo como um sistema trifásico, definidos pelas
relações de massa e de volume dos constituintes físicos. Tais conceitos serão
apresentados a seguir, na forma de revisão.

Apresentamos no diagrama da Figura 3 abaixo:

M: massa total ou massa úmida;


Mar: massa de ar contida na amostra de solo;
Ma: massa de água contida na amostra;
Ms: massa de sólidos ou massa seca

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V: volume total da amostra;


Var: volume de poros livres de água;
Va: volume de água;
Vs: volume dos sólidos;

Relações de volume Relações de massa

Var Ar Mar

Vp
Va Ma
Água

M
V

Vs Ms
Sólidos

FIGURA 3. Representação esquemática do solo como um sistema trifásico

Como exemplo de determinação, usaremos os seguintes dados de um solo


hipotético:
Ma = 20,00 g
Ms = 80,00 g
Var = 14,0 cm3
Vs = 36,0 cm3

2.1 Densidade global (ρ


ρg)

A densidade global, densidade aparente, ou simplesmente densidade do


solo, é a relação entre a massa do solo seco e o seu volume total. Deste modo:

ρg = M s (1)
V

com dimensão M L-3 , normalmente expressa em g/cm3 ou Mg/m3

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Com os dados do solo hipotético considerado anteriormente, tem-se:

80 g
ρg = 3
⇒ ρ g = 1,14 g / cm 3
70cm

A densidade global é bastante variável dada à sua dependência da textura,


estrutura e grau de compacidade do solo. Seu valor pode atingir de 1,3 g/cm3 a
1,8 g/cm3 em solos arenosos e de 1,1 g/cm3 a 1,5 g/cm3 em solos argilosos.

2.2 Densidade de partículas (ρ


ρp)

A densidade de partículas ou densidade real é definida pela relação entre


a massa do solo seco e o volume das suas partículas, minerais e orgânicas,
constituintes. Assim:

ρp = Ms (2)
Vs

com dimensão M L-3 , normalmente expressa em g/cm3.


Com os dados do exemplo tem-se:
80 g
ρp = 3
⇒ ρ p = 2,22 g / cm3
36cm

A densidade de partículas é função da natureza mineralógica das


partículas do solo, portanto, é valor quase constante para os solos aráveis. Em
geral, para solos com baixo teor de matéria orgânica, o valor de ρp está entre
2,6 g/cm3 e 2,7 g/cm3. É uma informação útil na determinação do volume total
de poros de um solo.

2.3 Porosidade total ( P )

A porosidade total, é o nome dado à relação entre o volume de vazios e o


volume total do solo e é expressa por:

V −V s
P= (3)
V

na dimensão L3 L-3 ou em percentagem.


A porosidade total, em percentagem, pode também ser calculada por:

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 ρg 
P = 1 −

 × 100

(4)

ρ p 

Com os dados do solo hipotético considerado acima, tem-se:

70cm 3 − 36cm 3
P=
3
= 0,486 cm3 de poros/ cm3 de solo ou P=0,486 cm3/cm3 ; P=
70cm
48,6% ou simplesmente P=0,486.

 1,14 g / cm 3 
ou P = 1 −

 × 100

⇒ P = 48,65%
 2,22 g / cm 3 

Os valores de P geralmente estão na faixa de 0,30 a 0,60 cm3/cm3 ( 30% a


60%). Solos arenosos são normalmente menos porosos do que os solos de
textura fina, embora o tamanho médio de seus poros individuais seja maior (nos
solos arenosos). O volume total de poros nos solos argilosos varia bastante
como função de agregação, expansão e contração, dispersão, e compactação. A
porosidade total ou volume total de poros não dá indicação alguma da
distribuição de tamanhos de poros.

2.4 Umidade com base em peso (U)

U representa a relação entre a massa de água (Ma) e a massa de solo seco


(Ms). É também chamado de “teor gravimétrico de água no solo” ou umidade
gravimétrica. É expressa por:

Ma
U= (5)
Ms

com dimensão M M-1 ,podendo ser expressa em percentagem.

Com os dados do exemplo tem-se:

20 g
U= = 0,25g de água / g de solo seco
80 g
ou simplesmente U=0,25 g/g ou U=25%

Este resultado mostra que uma amostra úmida de 125 g contem 25 g de água.
Portanto, é preciso que se tenha cuidado na interpretação de resultados de
umidade com base em peso.

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2.5 Umidade com base em volume ( θ )

θ expressa a relação entre o volume de água e o volume total da amostra.


Representando a massa específica da água por ρa, a umidade com base em
volume pode ser expressa por:

Ma
θ = Va =
ρa
(6)
V V

Às vezes, há dificuldade em se determinar o teor de água do solo com


base em volume, mas com o auxílio da densidade do solo e da umidade com
base em peso seco, pode-se determinar com relativa facilidade por:

θ = U ⋅ ρg (7)

com dimensão L3 L-3 ou percentagem.

O solo do exemplo apresenta:


20cm3 3 3
θ= = 0,286 cm /cm ou θ = 28,6% com base em volume.
70cm3

Com a equação 7, tem-se:


, g / cm3 = 0,285cm3/cm3
θ = 0,25g / g × 114

A expressão da umidade do solo com base em volume parece ser mais


adequada do que em peso, adaptando-se melhor ao cálculo da quantidade de
água de irrigação, ou da água retirada pela evapotranspiração ou drenagem.

2.6 Grau de saturação (G)

O grau de saturação expressa a relação entre o volume de água e o


volume total de poros no solo, ou seja,
V θ
G = a ou G = (8)
Vp P

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G pode ser expresso de forma adimensional, representando porém o volume de


água por volume de poros, ou em percentagem.
O solo dos exemplos acima apresenta
0,286cm 3 agua / cm 3 solo
G= = 0,588cm 3 agua / cm 3 poros ou G = 0,588.
3 3
0,486cm poros / cm solo

Este resultado nos diz que 58,8 % dos poros do solo estão ocupados por água.

2.7 Lâmina ou armazenamento (AL)

Tradicionalmente, quantidades de água são medidas através de uma


altura, ou lâmina, expressa em mm. Os dados de chuva sobre um certo local,
por exemplo, é dado em mm por ano. Consumo de água por uma cultura e
irrigação também são expressos em mm. Como no caso de chuva, irrigação e
evapotranspiração, a altura de água armazenada pelo solo também se expressa
em mm e independe da área.
Para se ter o valor do armazenamento de água em lâmina, em um
determinado instante, deve-se conhecer os valores de umidade, a diferentes
profundidades no solo, expressos com base de volume ( Figura 4). O gráfico
θ(z)t é denominado perfil de umidade.
Utilizando-se de cálculo superior, o armazenamento de água pode ser
obtido pela expressão:

AL = ∫ θ ⋅ dz (9)
0

em que, z é a variável que representa a profundidade no solo e que varia de 0


(superfície) até L ( profundidade de interesse); dz representa um infinitesimal de
z, isto é, um acréscimo de espessura tão pequeno quanto se queira.

A integral da função θ (z) representa a área sob a curva entre os


intervalos considerados, mostrados na Figura 4.

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θ
0 (cm3/cm3)

AL

L
z
(cm)
θ(z)t

FIGURA 4 Representação esquemática da determinação do armazenamento

Devido, na maioria das situações, não se dispor de um modelo


matemático que represente θ como função de z, a equação 9 pode ser
simplificada, utilizando-se diferenças finitas, método representado na Figura 5,
obtendo-se:
AL = θ ⋅ L (10)

em que θ é o valor médio da umidade do solo no intervalo 0-L. Desta forma,


quanto maior o número de amostragens entre 0 e L, tanto melhor o valor médio
e o resultado da Equação 10 se aproxima do valor real representado pela
equação 9. Este processo consiste em transformar a figura irregular limitada
pelo perfil de umidade em um retângulo em que um dos lados representa a
umidade média até à profundidade L.

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θ
cm3 /cm3)

AL

L
z (cm)
θ(z)t

FIGURA 5 Representação esquemática da determinação do armazenamento


por diferenças finitas

A dimensão de AL será a mesma de L visto que θ é adimensional. Como é


tradição representar lâmina por mm, a espessura da camada de solo considerada,
L, deve ser expressa em mm.

3 ESTADO ENERGÉTICO DA ÁGUA NO SOLO

Ao lado da umidade do solo, o estado energético da água é


provavelmente a mais importante característica da física do solo. A diferença de
energia potencial entre dois pontos num sistema isotérmico é a causa
determinante do movimento da água dentro do solo, pois, é expontânea a
tendência na natureza, de os corpos se transferirem de um ponto de energia
potencial alta para outro de menor energia potencial. A diferença de energia
potencial determina a direção do fluxo e a quantidade de trabalho disponível
para promover o fluxo. O termo “potencial”, portanto, vem de energia potencial
da água no solo.
O conhecimento do estado relativo de energia da água no solo, que
chamaremos de potencial total da água no solo, em cada ponto no seio do solo,
permite-nos calcular as forças atuantes sobre a água do solo em todas as
direções, bem como calcular quão distante a água do solo está do ponto ou
estado de equilíbrio ( estado de energia potencial uniforme em todo o sistema).

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Diferenças de energia entre dois estados são classicamente medidas


através do trabalho que é realizado quando se passa de um estado para outro. O
potencial total da água no solo (ψ) representa o somatório de trabalhos
realizados quando uma unidade infinitesimal de massa ou de volume de água
em estado padrão é levada isotérmica, isobárica e reversivelmente para o estado
considerado no solo.
Não discutiremos aqui os detalhes da base termodinâmica do conceito de
potencial total da água no solo. O interessado neste embasamento teórico pode
encontrar o assunto em, dentre vários outros autores, Libardi (2008).

3.1 Estado Padrão de Energia

O estado padrão de energia ou potencial de referência é o estado


energético de um reservatório hipotético de água pura e livre (livre da influência
da matriz ) num dado referencial de posição, à mesma temperatura que a
solução do solo e à pressão de uma atmosfera-padrão ( 101,325 kPa ). A este
estado, atribui-se arbitrariamente o valor máximo do potencial da água como
sendo zero (ψ 0 = 0 ).

3.2 Unidades de potencial

O potencial da água é normalmente expresso em termos de energia por


unidade de massa ( J kg-1), energia por unidade de peso ( J N-1) ou energia por
unidade de volume ( J m-3) . Energia por unidade de peso resulta em altura ou
coluna d’água, conhecida por carga hidráulica, normalmente expressa em mca (
metro(s) de coluna d’água) ou cmca (centímetro(s) de coluna d’água). Sendo
J = N ⋅ m , o potencial da água com base em volume pode ser expresso em termos
de força por unidade de área ( N m-2), pressão, em pascal, Pa.
O uso de energia por unidade de volume pode causar alguma confusão
pela tendência em fazer nos pensar em pressão como a única causadora do
movimento da água no solo. Isto não é correto porque o potencial da água no
solo resulta da adição de diferentes formas de potencial com diferentes efeitos
sobre o possível movimento da água.
Recomenda-se o uso de Pa (Pascal), ou seus múltiplos ( kPa , MPa),
como unidade de energia com base em volume (pressão), entretanto, ainda é
comum o uso de outras unidades tais como bar, atm, ou mesmo a antiga lbf/in2
(psi). A tabela seguinte mostra as principais formas de expressão de pressão e
de energia com base em massa (carga hidráulica) com os correspondentes
fatores de conversão para kPa (quilopascal):

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multiplique por para obter


2
x psi (lbf/in ) 6,895 y kPa
x atm (atmosfera) 101,325 y kPa
x kg/cm2 98,067 y kPa
x cbar (centibar) 1,0 y kPa
x bar (bar) 100,0 y kPa
x cmca (centímetro de coluna 0,0979 y kPa
d’água)
x mca ( metro de coluna d’água) 9,79 y kPa

3.3 Componentes do potencial total da água no solo

O valor do potencial da água no solo em qualquer ponto depende não


somente de sua pressão hidrostática mas também de outros fatores físicos
adicionais, ligados à interação entre a água e o sistema, tais como elevação,
concentração de solutos, temperatura, a possível existência de um campo
magnético, etc. O valor de ψ é portanto a soma das contribuições separadas
destes vários fatores. Assim:

ψ =ψ +ψ +ψ +ψ + ... (11)
g p m os

em que ψg é o componente gravitacional, ψp o componente de pressão, ψm é


componente matricial e ψos o componente osmótico. A reticência (...) representa
todos os demais fatores teoricamente possíveis, tais como: temperatura, campo
elétrico, etc., e que são considerados desprezíveis.

3.3.1 Componente gravitacional (ψ


ψg ou z )

O componente ou potencial gravitacional da água, ψg, em diferentes


pontos no solo é determinado pela elevação do ponto considerado em relação a
um nível de referência arbitrário. É costume situar o nível de referência em um
ponto conveniente dentro da camada de solo ou abaixo do perfil em estudo, de
maneira que ψg possa ser sempre tomado como positivo ou igual a zero. Por
outro lado, se a superfície do solo é escolhida como nível de referência, como é
freqüentemente feito, então o potencial gravitacional para todos os pontos
abaixo da superfície será negativo com relação àquele nível de referência. É

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preciso lembrar que a escolha do nível de referência é arbitrária e que uma vez
escolhido precisa ser mantido em todos os cálculos de um dado problema. Em
termos de energia por unidade de volume, o potencial gravitacional é portanto
determinado por

ψ =γ
g a
⋅z (13)

3.3.2 Componente de pressão (ψ


ψp ou H )

O potencial de pressão representa a pressão hidrostática atuando sobre o


ponto considerado.
No solo, o potencial de pressão é positivo somente em condição de
saturação e corresponde ao potencial de submergência, determinado por

ψ p = γa ⋅ H (14)

em que H é a altura piezométrica ou profundidade de submergência determinada


com uso de piezômetro e γ a o peso específico da água.
O piezômetro consiste de um tubo com abertura somente em suas
extremidades, introduzido no solo até a profundidade onde se deseja conhecer o
potencial de pressão da água. As técnicas de instalação de piezômetro no solo
fazem parte dos estudos de caracterização da necessidade de drenagem sub-
superficial.

3.3.3 Componente matricial (ψ


ψm ou h )

Toda vez que um solo não estiver saturado, nele existe ar e, portanto
existem interfaces água/ar (meniscos) que lhe conferem o estado de tensão
(pressão negativa). Assim a água no solo, via de regra, encontra-se sob tensões.
A expressão do potencial total da água no solo (Equação 11) apresenta ψp e ψm,
porém, é bom frisar que estes dois componentes não existem ao mesmo tempo;
a água no solo saturado estará sob pressão (ψp) e no solo não saturado ela estará
sob tensão (ψm).
A tensão, valor absoluto do potencial matricial, é resultante da afinidade
da água com a matriz do solo, devida às forças adsortivas e de capilaridade
oriundas das forças coesivas e adesivas que se desenvolvem dentro e entre as
três fases do solo.
O potencial matricial da água em diferentes pontos no solo é determinado
diretamente com tensiômetro. Este dispositivo consiste de uma cápsula de

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cerâmica porosa conectada a um manômetro (vacuômetro) através de um tubo


de PVC ou acrílico. Quando colocado no solo, a água contida na cápsula tende a
entrar em equilíbrio com a tensão da água no solo ao seu redor. Qualquer
mudança no teor de água do solo e consequentemente em seu estado de energia,
será transmitido à água no interior da cápsula, sendo indicada rapidamente pelo
vacuômetro. A cápsula do tensiômetro funciona como uma membrana semi-
permeável, permitindo a livre passagem de água e íons, não permitindo a
passagem de ar e partículas de solo. Teoricamente, o tensiômetro poderia medir
tensões de até 101,3 kPa; na prática, porém, só é possível medir até 80 kPa
aproximadamente. Acima desta tensão o ar penetra no instrumento através dos
poros da cápsula, a água começa a passar do estado líquido para o estado de
vapor e as medições perdem precisão.
O valor de ψm do solo ao redor da cápsula, de um tensiômetro com
manômetro de mercúrio, do tipo representado na Figura 6, é dado por:

ψ m = −12 ,6 h + h1 + h 2 (15)

em que h corresponde à elevação do Hg no manômetro, h1 é a distância da


superfície livre do Hg no reservatório (cubeta) à superfície do solo, e h2 a
profundidade de instalação do tensiômetro. Com as medições em cm, o valor de
ψm é obtido em cmca.

FIGURA 6 Representação esquemática de um tensiômetro com


manômetro de coluna de mercúrio

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Para tensiômetros com manômetro mecânico, esquematizado na Figura 7,


o valor de ψm é dado por:

ψ = − l + 0,098 c (16)
m

em que l é a leitura do manômetro em cbar ou kPa e c o comprimento do


tensiômetro (distância da cápsula ao manômetro) em cm. O ψm é obtido em
kPa.

borracha de tampa
vedação reservatório
manômetro

tubo de PVC ou
acrílico

cápsula porosa

FIGURA 7 Representação esquemática de um tensiômetro com


vacuômetro mecânico

Para tensiômetros com manômetro digital (tensímetros), esquematizado na


Figura 8, o valor de ψm , também em kPa, é dado por:

ψ = l + 0,098 c (17)
m

em que, semelhante ao tensiômetro com vacuômetro mecânico, l é a leitura do


manômetro em cbar ou kPa e c o comprimento do tensiômetro (distância da
cápsula ao manômetro) em cm. O ψm é também obtido em kPa.

Alguns tensímetros são lidos em mbar, como o representado na Figura 8,


portanto, é interessante lembrar que -156 mbar = -15,6 cbar = -15,6 kPa

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sensor
tampa de borracha
flexível
ar
tubo de acrílico
transparente leitor digital
agulha
hipodérmica
tubo de PVC ou
acrílico

água

cápsula
porosa

FIGURA 8 Representação esquemática de um tensiômetro com


vacuômetro digital (tensímetro)

3.3.4 Componente osmótico (ψ


ψos)

O componente osmótico aparece pelo fato da água no solo ser uma


solução de sais minerais e a água padrão ser pura.
Pode-se estimar ψos medindo-se a concentração salina da água do solo e
utilizando a equação de van’t Hoff:

ψos = − R ⋅ T ⋅ C (18)

em que R é a constante geral dos gases ( R = 0,082 ⋅ atm ⋅ l ⋅ mol −1 ⋅ K ), T é a


temperatura em Kelvin e C a concentração salina média em Molaridade
(M= mol ⋅ l −1 ). Com estas unidades, o valor de ψos é obtido em atm.
Para solos não salinos, com C menor que 10-3M, o valor de ψos é
desprezível.
Para solos salinos, o valor de ψos pode ser facilmente determinado em
função da condutividade elétrica do extrato de saturação(CEe), visto que:

ψ os = − 36 ⋅ CE e (19)

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em que CEe é expresso em dS/m a 25 0C ( deci-Siemens por metro, para


temperatura de 25 0C ) e o resultado de ψ os obtido em kPa.

4. RETENÇÃO DE ÁGUA NO SOLO

As primeiras películas de água, fortemente atraídas pela superfície da


partícula de solo, são retidas sob enorme tensão (adesão). À medida que se
afastam da superfície da partícula, as forças de atração entre a água e o sólido
diminuem até que, a certa distância, a água não é mais retida porque a força da
gravidade supera as forças de retenção. Essa água fica sujeita à movimentação
por efeito da gravidade e pela atração de películas de água adjacentes com
espessuras menores. Assim, quando o solo está próximo da saturação, é fácil
remover uma certa quantidade de água e, à medida que a umidade do solo vai
diminuindo, torna-se mais difícil a sua remoção. Portanto, à cada valor de
umidade , ou espessura da película d’água, corresponde um valor de potencial
matricial.
A representação gráfica da umidade versus potencial matricial denomina-
se curva característica ou curva de retenção de um solo e varia de solo para solo
e para o mesmo solo (variação entre camadas) se algum atributo físico ou
químico variar. O gráfico não é linear, sendo que para pequenas variações de
umidade, o potencial matricial varia muito. Devido a isto o gráfico é sempre
apresentado na forma semilogarítmica, isto é, θ versus log 10 ψ m .
A maior parte da água no solo está retida à baixas tensões ( de 0 a 100
kPa de tensão) que depende principalmente do efeito de capilaridade e
distribuição do tamanho de poros, sendo portanto, grandemente afetada pela
estrutura do solo. A retenção de água na faixa de altas tensões é devida à
capacidade de adsorção do solo e é menos influenciada pela estrutura do solo e
mais pela textura e superfície específica.
Representando o potencial matricial (ψm) como função da umidade do
solo (θ), a curva característica adquire, de modo geral, a seguinte forma:

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-ψm

θ (cm3 / cm3)

FIGURA 9 Representação da forma geral de curvas de retenção

A figura acima mostra uma curva com variações mais acentuadas para o
solo arenoso. A maioria dos poros nestes solos apresenta tamanho relativamente
grande, e, uma vez esvaziados, à sucção relativamente baixa, restará apenas
pequena quantidade de água.
Em solo argiloso, a distribuição dos poros, com respeito ao tamanho, é
muito mais uniforme, o que determina a adsorção de maior quantidade de água,
motivo pelo qual é mais gradual o decréscimo do teor de água motivado pelo
aumento da sucção (tensão).
De maneira geral, as curvas características de retenção são determinadas
experimentalmente para cada solo ou horizonte de um solo por processo de
esvaziamento dos poros, chamado de processo de secamento. Utiliza-se de
instrumentos especializados de laboratório que constituem-se, de acordo com a
tensão avaliada, de funil de placa porosa e de extratores de Richards ( de placa
ou de membrana). O interessado na revisão da metodologia pode consultar
Klute (1986).
O uso de equações de retenção está substituindo o uso dos gráficos por
permitir a inclusão de informações em aplicativos computacionais para o
manejo da irrigação a partir de dados de tensão da água no solo. Os dados de
umidade como função do potencial matricial podem ser ajustados ao modelo de
Mualem-van Genuchten (Genuchten, 1980), dado pela equação

[
θ = θ R + (θ S − θ R ) ⋅ 1 + (α ⋅ ψ m )n ]
−m
(20)

em que θ é umidade ; θR é a umidade residual; θS é a umidade de saturação;


ψ m é o potencial matricial, também representado por h); α representa o inverso

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da sucção mínima necessária para o início da remoção de água dos macroporos;


n e m são parâmetros de ajuste do modelo. Os valores de θ são expressos em
cm3/cm3.
O valor de m varia de 0 a 1 e relaciona-se com n, de acordo com Mualem
(1980 ) por
1
m=1− (21)
n

Como exemplo, apresentamos a seguinte equação obtida a partir dos


pares de dados de umidade volumétrica e tensão, obtidos por Silva (1982).
[
θ = 0,110 + 0,375 ⋅ 1 + (0,032 ⋅ ψ m ) ]
1, 754 −0, 430
r2=0,9924 (22)

em que se considerou a umidade correspondente à tensão de 1,5 MPa (


aproximadamente 15000 cm c a), como a umidade residual. O ajuste dos dados
ao modelo foi feito por método gráfico e tentativa visual, com uso de planilha
eletrônica. Existem programas especificos para o ajuste de modelos de retenção
que facilitam o trabalho na obtenção da equação. Um destes programas,
desenvolvido por Dourado-Neto et al. (1996) com apoio financeiro da FAPESP
(Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), é o SWRC ver. 3.00
beta., que pode ser obtido, via internet, da página
www.esalq.usp/departamentos/lpv/soft.htm

5– FLUXO DE ÁGUA NO SOLO

Como vimos anteriormente, o estado energético da água , ao lado da umidade


do solo, é provavelmente a mais importante característica da física do solo. A
diferença de energia potencial entre dois pontos num sistema isotérmico é a
causa determinante do movimento da água dentro do solo, pois, é espontânea a
tendência na natureza, de os corpos se transferirem de um ponto de energia
potencial alta para outro de menor energia potencial. São duas as condições
necessárias para que haja movimento da água em um meio: permeabilidade do
meio e força promotora do movimento. O solo como meio poroso já satisfaz

20
GNE-120 IRRIGAÇÃO E DRENAGEM I Prof. ELIO LEMOS da SILVA

uma das condições de movimento. A outra condição é a diferença de energia


que relacionada com a distância entre pontos resulta em força.

5.1 Quantificação do fluxo de água no solo

O modelo mais simples para quantificação do movimento da água no solo,


saturado ou não, é o de Darcy - Buckingham que num sistema unidirecional
pode ser representado por:

∆Ψ
q = −K (h). (23)
∆x

em que q é o fluxo (L.T-1), K(h) é condutividade hidráulica como função do


∆Ψ
potencial matricial e ∆x é o gradiente de potencial total. ∆ψ é a diferença de

potencial total expressa em carga hidráulica (centímetro de coluna d’água) e ∆x


a distância entre dois pontos considerados na quantificação do movimento.
Fluxo ou densidade de fluxo, q, corresponde ao volume de água (L3) que passa
por unidade de área (L2) na direção x, na unidade de tempo (T) e pode ser
matematicamente representado por:

V
q= (24)
A. t

Por exemplo, se numa coluna de solo saturado de seção de 20 cm2 atravessa um


volume de 8,0 cm3 de água num tempo de 50 segundos, o valor do fluxo será de

8,0cm3
q= =0,008cm/s = 288 mm/h
20cm 2 ⋅ 50 s

A condutividade hidráulica representa a capacidade do solo em transmitir água


no seu meio, ou seja, entre os seus poros. Depende da textura e estrutura do solo
que combinados definem tamanho de poros, e das características físicas da água
que é função da temperatura. Em um mesmo solo o fluxo é maior quando a água
for mais quente; isto porque, a água mais quente apresenta viscosidade menor.
A condutividade hidráulica de um solo é função da combinação de todas as
características físicas do sistema solo-água. Quanto maior for a umidade de um
determinado solo, maior será sua condutividade hidráulica. A condutividade
hidráulica de um solo é portanto máxima quando o solo estiver saturado ( ψm ou

21
GNE-120 IRRIGAÇÃO E DRENAGEM I Prof. ELIO LEMOS da SILVA

h =o) e a diminuição da umidade promove uma redução exponencial no seu


valor, isto é, para uma pequena redução na umidade do solo, o valor da
condutividade hidráulica reduz muito. Como a retenção da água no solo também
é função da umidade, a condutividade hidráulica pode ser representada como
função da retenção ou potencial matricial, pela equação de Gardner

K ( h ) = K 0 ⋅ e α ⋅h (25)

em que Ko e α são parâmetros de ajuste dependentes do solo e h é o potencial


matricial. Observe que para solo saturado (h = 0), a condutividade hidráulica é
igual a Ko.
Existem vários métodos para determinação da condutividade hidráulica do solo.
Para solos saturados os métodos são relativamente mais simples do que aqueles
requeridos para solos não saturados. Os pesquisadores recorrem aos trabalhos
de Física de Solos onde se encontram adaptações aos diversos métodos
existentes para determinação da condutividade hidráulica de solo não saturado.
Recentemente um método que tem sido bastante recomendado é o do
“Infiltrômetro de Tensão” que é de operação simples e permite determinação
relativamente rápida dos parâmetros Ko e α da Equação 25. Uma descrição
desse infiltrômetro pode ser vista em Silva e Godinho (2002)
A determinação do gradiente de potencial total em fluxo não saturado é feita
com uso de tensiômetros instalados em pontos de interesse no solo. Se se
deseja, por exemplo, determinar o fluxo de água que deixa a zona das raízes de
uma cultura, por percolação, instala-se um tensiômetro um pouco acima e um
segundo tensiômetro um pouco abaixo da profundidade limite. Determina-se o
potencial matricial (h) e o gravitacional (z) em cada ponto para se ter o
potencial total, conforme Equação 11 que pode ser representada, para solo não
saturado e não salino por :
Ψ= h+z (26)

em que h representa ψm , potencial matricial, e z corresponde ao potencial


gravitacional ψg.
A diferença entre os valores de potencial total dividida pela distância
entres os dois pontos considerados corresponde ao gradiente de potencial total
∆Ψ . Para fluxo horizontal, ∆ψ = Ψ direita − Ψ esquerda e para fluxo vertical
∆x
∆ψ = Ψ cima − Ψ baixo .

22
GNE-120 IRRIGAÇÃO E DRENAGEM I Prof. ELIO LEMOS da SILVA

5.2 Infiltração da água no solo

Infiltração é o termo usado para definir o processo de entrada de água no solo,


geralmente em sentido descendente, através de toda ou parte da superfície, sob
pressão atmosférica. A capacidade de infiltração relacionada com a taxa de
suprimento de água, determina a quantidade de água que irá entrar no solo e a
quantidade que poderá escoar ou acumular na superfície.
Infiltrabilidade é o termo que define a capacidade de infiltração de um
determinado solo. A infiltrabilidade é uma característica do solo apenas e é
afetada basicamente pelo seu conteúdo inicial de água, pela condutividade
hidráulica da camada superficial, pelo tempo decorrido desde o início da
irrigação, pela declividade da superfície e pela presença de camadas
retardadoras no perfil.
A diferença entre taxa de infiltração (fluxo de entrada de água no solo) e
infiltrabilidade, está relacionada com a taxa de suprimento de água. Quando a
taxa de suprimento é menor ou igual à infiltrabilidade, o fluxo será igual à taxa
de suprimento e não haverá portanto escoamento nem acúmulo de água na
superfície. Quando a taxa de suprimento supera a infiltrabilidade, o fluxo de
entrada no solo será igual à infiltrabilidade e haverá escoamento ou acúmulo de
água na superfície. O dimensionamento dos sistemas pressurizados de irrigação,
desde a aspersão convencional, pivô-central ou a microirrigação, requer o
conhecimento da infiltrabilidade do solo com objetivo de se evitar
principalmente as perdas por escoamento superficial.

5.2.1 Equações de infiltração

Diversas equações podem ser usadas para descrever a infiltração da água no


solo. Dentre essas equações algumas têm embasamento físico, outras são
deduzidas de maneira impírica. A variabilidade dos parâmetros de solo
envolvidos nas equações tem levado ao uso mais generalizado de equações
empíricas na avaliação da capacidade de infiltração do solo. Das equações
empíricas, a mais utilizada para fins de irrigação é a Equação de Lewis,
erroneamente atribuida a Kostiakov, segundo Swartzendruber (1993)

i = a ⋅tn (27)
em que:
i é a infiltrabilidade (fluxo) no instante t, (L.T-1);
t é o tempo decorrido desde o início da infiltração, (T);

23
GNE-120 IRRIGAÇÃO E DRENAGEM I Prof. ELIO LEMOS da SILVA

a e n são parâmetros de ajuste da regressão, sendo (-1<n<0)

Integrando a Equação 27, no intervalo de tempo 0-t, tem-se a equação da


infiltração acumulada
a
I= ⋅ t n +1 (28)
n +1

em que I é a lâmina (L) infiltrada desde o início do processo de infiltração até o


tempo t, (infiltração acumulada).
a
Fazendo A= e N= n + 1 , a equação 28 pode ser expressa por
n +1

I = A⋅tN (29)

Para determinar o tempo t necessário para infiltrar uma lâmina de irrigação I, a


equação 29 pode ser modificada ficando:
1
I N
t =  (30)
A

A intensidade máxima de aplicação pode ser determinada pela infiltrabilidade


média (im), determinada por

im = A ⋅ t n (31)

em que t deve ser aquele obtido pela Equação 30, isto é, t é o tempo mínimo
necessário para aplicar a lâmina de irrigação sem haver acúmulo ou escoamento
de água na superfície do solo. Outro critério usado para cálculo da intensidade
máxima de aplicação é o da infiltrabilidade básica (ib). A ib, corresponde à
condutividade hidráulica da superfície do solo quando saturada e representa a
capacidade de infiltração mínima do solo. Como garantia de que não irá haver
escoamento, o projetista escolhe o aspersor ou emissor de maneira a se ter taxa
de aplicação menor ou igual à infiltrabilidade básica ib, que é estimada a partir
dos parâmetros A e N por:

N −1
 − 0,01  −2
N
ib = A ⋅ N   (32)
 A ⋅ N(N − 1) 

em que ib tem a mesma dimensão de i, isto é, LT-1

24
GNE-120 IRRIGAÇÃO E DRENAGEM I Prof. ELIO LEMOS da SILVA

Consideremos, como exemplo, uma lâmina de irrigação de 30mm, e equação de


infiltração acumulada I = 6,0 t 0,46, com I em mm e t em minutos. A taxa máxima
de aplicação de água para esta situação poderá ser:

a) pelo critério da infiltrabilidade média (im):

im = 6,0 t –0,54
1 1
I N  30  0, 46
em que t =   =   = 33,1 minutos.
 A  6,0 
portanto,

im = 6,0 (33,1) –054 = 0,91 mm/min = 55 mm/h

b) pelo critério da infiltrabilidade básica (ib):

A= 6,0
N= 0,46

0, 46 −1
 − 0,01  0, 46− 2
Portanto, ib = 6,0 ⋅ 0,46  = 0,48 mm/min = 29 mm/h
 6,0 ⋅ 0,46(0,46 − 1) 

5.2.2 Determinação da infiltrabilidade de um solo


A avaliação da capacidade de infiltração pode ser feita por diversos métodos,
entretanto, a seleção do mais adequado depende principalmente do tipo de
irrigação a ser usado. Para irrigação por aspersão, onde predomina fluxo
vertical, o método que mais se adapta para determinação dos parâmetros das
equações de infiltração acumulada e infiltrabilidade é o “simulador de chuva”.
Pode-se também usar, para irrigação por aspersão, o “infiltrômetro de cilindro”
por representar bem o fluxo vertical. Para irrigação por gotejamento, o método
ideal é o “gotejador infiltrômetro” ou o “infiltrômetro de disco”, por
considerarem fluxo multidirecional de água no solo. O método do cilindro
infiltrômetro, com modificação, também pode ser usado para determinação da
infiltrabilidade básica para aplicação em irrigação por gotejamento.

25
GNE-120 IRRIGAÇÃO E DRENAGEM I Prof. ELIO LEMOS da SILVA

Método do “Cilindro infiltrômetro”

Material:
• - cilindro de chapa de até 2mm de espessura, com diâmetro e altura de
30 cm;
• - plástico;
• - cronômetro;
• - régua milimetrada;
• - água limpa;
• - provetas de 1000 ml.

Instalação:
Mantenha a superfície do solo o mais natural possível removendo apenas
galhos, pedras ou qualquer outra coisa que possa dificultar a instalação do
cilindro. O cilindro deve ter a borda inferior cortante na forma de bisel para sua
fácil penetração no solo. Introduza o cilindro, uniformemente, na vertical, sem
bater dos lados no cilindro (utilize algum artifício que permita essa introdução
uniforme). A profundidade de instalação deve ser de pelo menos 20 cm de
maneira a garantir um fluxo vertical na camada superficial do solo. Forre a área
interna do cilindro com plástico de maneira a impedir infiltração antes de iniciar
as medições ou utilize um saco plástico com volume conhecido de água. Prenda
uma régua na parede interna do cilindro ou prepare algum dispositivo que
permita acompanhar a variação da água durante o processo de infiltração.

Medições:

a) Para determinação da equação infiltração acumulada

Estabeleça inicialmente um critério de acompanhamento das leituras que pode


ser fixando intervalo entre leituras na régua ou fixando leituras no cronômetro.
Consegue-se maior precisão fixando intervalo de leitura na régua. O ideal é que
se tenha cronômetro com pelo menos 20 “laps” de memória de registro. Faça a
primeira leitura (em milímetros) na régua , dispare o cronômetro e retire o
plástico o mais rápido possível. Tente fazer a segunda leitura na régua o mais
rápido possível, sem se preocupar com o intervalo previamente estabelecido
entre leituras, lendo no cronômetro o tempo transcorrido entre as leituras (ou
simplesmente apertando a tecla “lap” para ler depois). Observe a variação entre
a leitura inicial e a leitura atual não deixando que passe dos 20% da inicial.

26
GNE-120 IRRIGAÇÃO E DRENAGEM I Prof. ELIO LEMOS da SILVA

Caso a variação esteja já próxima dos 20%, faça reposição de volume conhecido
de água de maneira que, com a reposição, a altura d’água volte para a altura
inicial. A reposição deve ser feita após um registro de leituras (régua e
cronômetro), mesmo que não tenha ainda havido a variação inicialmente
estabelecida na régua. As primeiras três ou quatro leituras exigem mais atenção
devida a infiltrabilidade ser mais rápida no início do processo, principalmente
se o solo estiver seco. As demais leituras são mais tranqüilas, porém, deve se
observar sempre a variação para provável reposição de água. O teste é feito
durante pelo menos uma hora com pelo menos dez leituras para posterior
determinação da equação de infiltração acumulada e estimativa da ib.

b) Para a infiltrabilidade básica (ib)apenas

As medições são bem mais simples para determinação da infiltrabilidade básica


apenas. Não é preciso acompanhar a infiltração em intervalos de tempo desde o
início do processo de infiltração; basta encher o cilindro com água e deixar
infiltrar várias vezes e depois acompanhar a variação da infiltração com o tempo
usando régua e cronômetro. Faça pelo menos três medições seguidas para
certificar se a infiltração já se tornou constante. Caso tenha tornado constante, a
variação de lâmina infiltrada por unidade de tempo já representa a
infiltrabilidade básica. Caso a variação ainda não tenha se tornado constante
com o tempo, encha mais uma vez o cilindro e repita a avaliação. Neste
processo não precisa de plástico nem proveta. Deve-se ter cuidado ao colocar
água dentro do cilindro para não erodir o solo.

Exemplo:
Estão apresentados na Tabela 2 os dados, obtidos de um teste de infiltração,
para determinação da equação de infiltração acumulada.
Ajusta-se os dados das duas últimas colunas de maneira a obter infiltração
acumulada (I) como função do tempo acumulado (t) obtendo-se uma equação do
tipo da Equação 29.
Conforme mostra a Figura 11, a equação de Infiltração Acumulada é
I = 8,2 ⋅ t 0,44 , com t em minutos e I em mm. Por derivação tem-se a a equação da
−0,56
infiltrabilidade i = 3,6⋅ t , com t em minutos e i em mm/min. A infiltrabilidade
básica é determinada pela Equação 32, lembrando que os parâmetros dessa
equação são aqueles da equação de infiltração acumulada, A e N.

27
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TABELA 2: Exemplo de dados de campo de um teste de infiltrabilidade


usando cilindro infiltrômetro .
Leituras
∆t (min:seg) Régua (mm) T (min) I (mm)
0 98 0 0
0:12 94 0,2 4
0:45,8 90 0,96 8
1:42,2 85 2,66 13
3:12,5 80(99) 5,87 18
3:30,0 95 9,37 22
6:05,0 90 15,45 27
7:24,8 85 22,86 32
8:06,4 80(99) 30,97 37
8:20,8 95 39,32 41
13:21,8 90 52,68 46
13:30,5 85 66,19 51
15:05,6 80(99) 81,29 56
14:06,0 95 95,39 60
18:52,5 90 114,26 65
20:12,6 85 134,47 70

0,4369
y = 8,2146x
80
Inf. Acumulada (I)

2
R = 0,9998
60
40
20
0
0 50 100 150
tempo (min)
FI
GURA 10: Representação gráfica da infiltração acumulada como função do
tempo decorrido desde o início do processo de infiltração

28
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6 A ÁGUA NA PLANTA

A necessidade de fornecimento adequado de água para um bom crescimento e


desenvolvimento dos vegetais decorre das múltiplas funções que ela
desempenha na fisiologia das plantas, pois, segundo os fisiologistas,
praticamente todos os processos metabólicos são influenciados pelo conteúdo
de água. A água na planta tem função como constituinte, como via de
transporte, como reagente e na turgescência celular.

6.1 Potencial de água

O estado energético ou potencial total da água nos diversos órgãos da planta é


uma propriedade dinâmica afetada pelo balanço entre a perda de vapor d’água
pelas folhas para a atmosfera e a absorção de água pelas raízes. As taxas de
transpiração, de fotossíntese e de crescimento são afetadas pelas alterações no
estado de água das folhas. O potencial de água tem se destacado como uma
medida fundamental da quantidade de água na planta. Os valores absolutos de
potencial são confiáveis como indicadores do estresse hídrico, entretanto, é
necessário que se pondere com cuidado o seu uso, uma vez que a adaptação
evolutiva e fisiológica ao meio ambiente podem influenciar, marcadamente, o
nível de potencial no qual o estresse se estabelece. O potencial de água na
planta, assim como no solo, é a soma algébrica dos componentes potenciais
originados dos efeitos de pressão (ψp), de solutos (ψs) e matricial (ψm).
O componente matricial (ψm) é bem próximo de zero em folhas saturadas com
água. Em algumas espécies, o ψm não tem significado numérico até que muita
água dos tecidos seja perdida (50%). Assim, exceto quando o tecido estiver bem
desidratado, os componentes matriciais de interesse serão na maioria dos casos
os de pressão e de solutos (Klar, 1984 ).
Vários pesquisadores tem realizado trabalhos com o objetivo de determinar os
parâmetros de potencial hídrico para as diversas culturas para que,
posteriormente, sejam utilizados como indicadores do momento de irrigação.
Em trabalho conduzido por Bordovsky et al. (1974) foi observado que os
maiores índices de eficiência de uso da água, foram obtidos em tratamentos nos
quais o momento de irrigar, foi definido pelo potencial de água na folha e pelo
índice de stress diário. Esses resultados permitiram concluir que o potencial de
água na folha, como indicador do momento de irrigação, pode ser mais
adequado que o potencial de água no solo.

29
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6.2 Absorção e caminho da água na planta.

A transpiração, a entrada e a condução da água desde as raízes até a superfície


de transpiração, são processos inseparavelmente ligados ao equilíbrio hídrico.
Devido às enormes quantidades de água perdidas pela transpiração, a absorção
contínua desse líquido é essencial para o bom desenvolvimento e mesmo para a
sobrevivência das plantas.
Para que se dê a absorção de água do solo pelas plantas, é necessário que se
estabeleça um gradiente, de maneira que o potencial de água nas raízes seja
inferior ao potencial da água no solo. A absorção de água pela raiz ocorre
através dos pêlos absorventes e pelas células mais ou menos suberizadas que
formam o córtex da maior parte do sistema radicular. A absorção se dá quanto
maior for a superfície radicular e quanto mais negativo for o potencial hídrico
dentro das células das raízes em relação ao potencial do solo. A Figura 11
mostra um corte de raiz, indicando o movimento da água do solo para o xilema.
No interior da planta o fluxo ocorre como uma resposta a um gradiente de
potencial total estabelecido pela evaporação da água pelas células adjacentes às
extremidades superiores dos vasos e é limitado por resistências que diferem nas
diferentes partes do sistema condutor. Essas resistências se relacionam com os
comprimentos e diâmetros de vasos individuais, número relativo de vasos (em
caules e pecíolos), e depois que a água passou para o estado de vapor, a
resistência é ditada pelas aberturas variáveis dos estômatos.

FIGURA 11: Esquema de corte da raiz, indicando o movimento da água do solo


para o xilema. A-através das paredes celulares (apoplasto); B-

30
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através do protoplasma via plasmodema (simplasto); C-através do


vacúolo (transcelular)

No aspecto puramente físico, a planta funciona de forma semelhante a uma


bomba hidráulica, pois utiliza as diferenças de sucção de água entre o solo e a
planta e lança-a na atmosfera circundante. Neste processo, o estado físico da
atmosfera circundante é dominante, isto é, é fonte de energia para o processo de
movimentação da água do solo para a atmosfera passando pelo interior da
planta. A energia, proveniente do ar aquecido ou da radiação solar sobre a
superfície das plantas, gera um diferença de pressão de vapor entre o ar e as
plantas. Quando a sucção exercida pelo ar quente é menor do que a sucção da
umidade na planta, o movimento de água em seu interior cessa, os nutrientes da
solução do solo deixam de ser absorvidos pelo sistema radicular e,
consequentemente, a planta não desenvolve.

7 EVAPOTRANSPIRAÇÃO E COEFICIENTES DE CULTURA

A quase totalidade das perdas de água pelas plantas se dá na forma gasosa, pelo
processo de transpiração. À semelhança da evaporação, dá-se sempre que a
pressão de vapor da água na folha for maior do que a pressão de vapor da água
na atmosfera. Entretanto, no caso da transpiração, há a resistência adicional
oferecida pelo sistema biológico à difusão do vapor d’água.
A maior parte da transpiração se realiza através dos estômatos por constituirem
a via de escape que oferece a menor resistência à difusão gasosa. Calcula-se que
de 80 a 90% da perda total de vapor de água pela planta provém da transpiração
estomática, ou seja, dá-se através de uma superfície que representa apenas 1,0 a
2,0% da área da folha.
O comportamento das diferentes espécies de plantas em relação à transpiração é
bastante variável. Existem plantas, como numerosas parasitas, que perdem água
à semelhança de uma superfície livre, pois os estômatos permanecem abertos o
dia todo. Outras plantas, como o feijoeiro por exemplo, diminuem a abertura
dos estômatos por volta do meio dia, provocando redução da transpiração nesse
período. Existem plantas que fecham completamente os estômatos ao redor do
meio dia. Plantas como as cactáceas fecham os estômatos durante o dia. Nestas,
a transpiração estomática é praticamente nula durante o dia devido ao

31
GNE-120 IRRIGAÇÃO E DRENAGEM I Prof. ELIO LEMOS da SILVA

fechamento dos estômatos; perdem água de acordo com o poder evaporante do


ar e espessura das cutículas.
Estudos têm mostrado que a produção de uma cultura é diretamente
proporcional à sua taxa de transpiração. Como um fator importante no balanço
de energia, a transpiração representa uma medida significativa do rendimento da
cultura. Para realizar o processo de transpiração, as plantas transportam a água
do solo e a lançam na atmosfera. Neste processo, a água é utilizada como meio
de transporte de sais minerais da solução do solo para o tecido da planta, onde é
utilizada na fotossíntese. Os carboidratos são translocados, em solução, e
armazenados em diversos órgãos, tais como: sementes, raízes ou tubérculos
Evapotranspiração corresponde à saida de água de uma área vegetada
decorrente dos processos de transpiração das planta e evaporação direta da
superfície do solo ou da superfície da planta que ocorrem simultâneamente.
Assim, o termo evapotranspiração, usualmente representado por ET, é utilizado
para descrever o processo total de transferência de água de uma superfície de
solo vegetado para a atmosfera.
As plantas reduzem a taxa de ET, automaticamente, quando a taxa de absorção
d’água do solo, pelo sistema radicular, torna-se menor que a taxa de
transpiração. Elas fecham seus estômatos à medida que o teor relativo de água,
no tecido da folha diminui. Esse fechamento dos estômatos inibe a entrada de
CO2 no interior das folhas restringindo o processo de fotossíntese e,
consequentemente, o crescimento celular. Portanto, uma redução na
transpiração significa, também, uma redução na produção. Existe, então, uma
estreita relação do intercâmbio de CO2 e de O2 com o fluxo de vapor d’água
liberado para a atmosfera. Neste sentido, as plantas com altas taxas de consumo
de água, devido principalmente ao componente transpiração da ET, apresentam,
também, altas taxas de absorção de CO2 durante a fotossíntese. Assim, elevados
consumos de água significam, implicitamente, alta produtividade fotossintética.
Em busca da produtividade máxima é que se procura manter o solo em
condições de umidade que permitam a taxa ideal de absorção de água do solo
pelas plantas. Logo após uma irrigação ou chuva, a taxa de ET atende à
demanda evaporativa do ar. Com o esgotamento da água do solo a taxa de
evapotranspiração tende a diminuir sendo esta tendência dependente da cultura,
da magnitude da demanda evaporativa do ar e da capacidade de retenção de
água pelo solo. O conhecimento das características de retenção de água pelo
solo e da intensidade de consumo de água pela cultura, é fundamental aos
projetos de sistemas de captação, armazenamento de água e planejamento da
irrigação. Quanto melhor for o conhecimento do valor da ET, melhor será o
manejo da irrigação e a quantificação da água a ser aplicada.

32
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7.1 Evapotranspiração máxima da cultura (ETm)

A determinação da evapotranspiração máxima de uma cultura visa a reposição


da água retirada do solo pela irrigação com objetivo de se ter produção máxima.
Pode ser feita de modo direto, pelo balanço hídrico do solo e por lisímetro, ou
indiretamente pela relação que existe entre evapotranspiração máxima da
cultura (ETm) e evapotranspiração de referência (ETo).

7.1.1 Coeficientes de cultura (Kc)


Devido às dificuldades de sua determinação de forma direta, a
evapotranspiração máxima de uma cultura ,ETm, tem sido estimada
indiretamente a partir da evapotranspiração de referência (ETo) por meio de
coeficientes de cultura (Kc), pela expressão

ETm = ET0 × K c (33)

A FAO ( “Food and Agriculture Organization”) tem publicado valores de Kc


para uma série de culturas anuais a partir de informações obtidas no mundo
todo. Tais valores são apresentados para quatro períodos caracterizados da
seguinte forma:

Período I – do plantio até 10% do desenvolvimento vegetativo.


Período II – desde o final do estádio I até o início do florescimento.
Período III – desde o final do estádio II até o início da maturação.
Período IV – desde o final do estádio III até a colheita.

O coeficiente de cultura para o período inicial (Período I) é função


basicamente da evaporação do solo que depende do teor de água na sua
superfície. Os valores de Kc tabelados para esse período inicial parecem ter sido
determinados para um intervalo de irrigação de cinco a sete dias. Para intervalos
menores entre irrigações, que indicam solo mais úmidos, os coeficientes Kc no
período inicial são mais elevados podendo chegar a 0,8 com intervalo de dois
dias entre irrigações. A Tabela 3 , extraida de Doorenbos e Pruitt (1977) e
Doorenbos e Kassam (1979), apresenta alguns exemplos de coeficientes de
cultura.
A partir de tabelas de Kc, é possível traçar curva de Kc bastando para isto
conhecer a duração em dias de cada período vegetativo. Pode-se também ajustar
uma equação de Kc como função de dias após emergência, índice de área foliar
ou graus-dia de desenvolvimento, que possibilita a inclusão das informações de

33
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Kc em programas de manejo de irrigação.

TABELA 3: Coeficiente de cultura (Kc) em diferentes períodos de


desenvolvimento, em função da umidade relativa do ar e
velocidade do vento, para diversas culturas.
Períodos de desenvolvimento
Cultura I* II III IV
Alface 0,50 – 0,60 0,70 – 0,80 0,95 – 1,05 0,90 – 1,00
Batata 0,40 – 0,50 0,70 – 0,80 1,05 – 1,20 0,70 – 0,75
Cebola 0,40 – 0,60 0,70 – 0,80 0,95 – 1,10 0,75 – 0,85
Cenoura 0,50 – 0,60 0,70 – 0,85 1,00 – 1,15 0,70 – 0,85
Feijão 0,30 – 0,40 0,65 – 0,75 0,95 – 1,05 0,90 – 0,95
Melancia 0,40 – 0,50 0,70 – 0,80 0,95 – 1,05 0,65 – 0,75
Milho 0,30 – 0,50 0,70 – 0,85 1,05 – 1,20 0,80 – 0,90
Pimentão 0,40 – 0,50 0,60 – 0,65 0,95 – 1,10 0,80 – 0,90
Soja 0,30 – 0,40 0,70 – 0,80 1,00 – 1,15 0,70 – 0,80
Tomate 0,40 – 0,50 0,70 – 0,80 1,05 – 1,25 0,60 – 0,65
Trigo 0,30 – 0,40 0,70 – 0,80 1,05 – 1,20 0,65 – 0,70
Primeiro número: sob alta umidade relativa (UR> 70%) e vento fraco ( u < 5
m/s)
Segundo número: sob baixa umidade relativa (UR < 70%) e vento forte ( u >
5m/s)
* Kc para intervalo de irrigação de 5 a 7 dias

Vejamos, por exemplo, como traçar a curva de Kc como função de dias


após emergência, para a soja , pelo método FAO, a partir dos seguintes dados:

Período Duração média (dias) Kc


I 30 0,3
II 35 0,7
III 60 1,0
IV 30 0,7

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O primeiro passo do método FAO para o traçado da curva de Kc (Figura 12)


consiste em plotar a duração de cada período de desenvolvimento. Em seguida
plota-se o Kc para o período I traçando uma linha horizontal passando pelo
valor de Kc em toda a extensão desse período; plota-se o Kc para o período III
traçando-se uma horizontal passando pelo valor de Kc em toda a extensão do
período e, em seguida, plota-se o valor de Kc para o período IV no final do
período. Observe que foi “pulado” o período II. Liga-se por uma reta o final da
linha que corta o Kc no período III com o Kc plotado no final do período IV e o
início da linha do Período III com o final da linha que corta o Kc do período I.
As linhas assim traçadas representam a variação de Kc no ciclo de acordo com o
método FAO descrito por Cuenca (1989).

Kc
1,2

1,0

0,8

0,6

0,4

0,2 I II III IV
35 dias 60 dias 30 dias
30 dias

Dias após emergência (D)


plantio

FIGURA 12: Exemplo de aproximação linear de curva de Kc pelo método FAO


para cultura da soja

35
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7.1 Evapotranspiração de referência (ETo)

A FAO também estabeleceu o conceito de evapotranspiração da cultura de


referência (ETo) em publicação mundialmente conhecida como “Guidelines for
Crop Water Requirements” (Publicação FAO-24), de autoria de Doorenbos e
Pruitt (1977). No Brasil, este conceito tem sido amplamente adotado e utilizado
por engenheiros, pesquisadores e extensionistas, como afirmam Sediyama et al.
(1998). O conceito de ETo tem a ver com a grama, em crescimento ativo e
mantido à altura uniforme de 0,08 a 0,12 m. Representa, portanto, uma extensão
da definição original de Penman (1948) para a evapotranspiração potencial
(ETp).
Houve em de maio de 1990, em Roma, um encontro de pesquisadores da área de
evapotranspiração, promovido pela FAO. Neste encontro, estiveram presentes
14 especialistas de sete países, tendo em vista vários objetivos, dentre eles o de
analisar os conceitos e procedimentos de metodologias de cálculos da ETo,
enfatizando o estabelecimento de um critério que atendesse à nova definição da
cultura de referência e do método que viabilizasse a estimativa da ET para essa
referência. Atualmente, procura-se definir a cultura de referência com base
numa cultura hipotética, a qual traz enormes vantagens relativamente às culturas
rasteiras em crescimento (grama, no Brasil), que são tradicionalmente utilizadas
em pesquisas, não apenas pela diversidade de manejo como, também, pela
necessidade de caracterizar as condições de clima local associadas à fenologia
dessas culturas.
A nova ET0 , comumente aceita pelos pesquisadores, é a taxa de
evapotranspiração de uma cultura hipotética, com uma altura hc de 0,12m,
resistência aerodinâmica ao calor sensível e tranferência de vapor (rc) de 70 sm-1
e albedo (α) de 0,23. Essa ET0 assemelha-se, mais intimamente, à ET de uma
superfície extensa, coberta com grama de altura uniforme, em crescimento ativo
e cobrindo, completamente, a superfície do solo e sem restrição de umidade.
Estimativas das necessidades de água pelas culturas são fundamentalmente
importantes para o planejamento e manejo de áreas irrigadas. Assim, as
informações sobre a evapotranspiração de referência, que permitem estimativas
da evapotranspiração das culturas, tornam-se ferramentas importantes no estudo
de áreas irrigadas. A escolha inadequada de um método para estimativa da ET,
bem como a adoção de valores de ET não representativos dos períodos de
crescimento da planta, em função das condições climáticas, podem conduzir a
prejuízos irreversíveis à planta, além de influenciar a eficiência do sistema de
irrigação, em razão do dimensionamento inadequado desse sistema.

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7.1.1 Métodos de Estimativa da ETo


São vários os métodos usados para estimativa da evapotranspiração de
referência usados por cientistas, engenheiros e pesquisadores da área de
irrigação. O método sugerido pela FAO ou Método Penman-Monteith-FAO,
segundo Jensen et al. (1990), associa conceitos de balanço de energia e
transporte de massa e é apresentado na disciplina Agrometeorologia. Allen
(1994) afirma que a equação de Penman-Monteith-FAO, proporciona bons
resultados tanto em termos horários como em termos de 24 horas ou quando se
deseja calcular a ETo mensal a partir de dados médios mensais.
Com base na relação que existe entre a evaporação a partir de uma superfície de
água livremente exposta e a transpiração de plantas tem-se usado tanques
evaporímetros para estimar a perda de água por uma cultura. Na evaporação de
uma superfície de água livremente exposta como num tanque integram-se os
efeitos dos diferentes fatores climáticos que influenciam o processo de
evapotranspiração das culturas. São vários os tipos de tanques evaporímetros
que podem ser usados. O mais comum deles é o Tanque USWS Classe A, ou
simplesmente Tanque Classe A (Figura 13).

FIGURA 13: Tanque Classe A da Estação Climatológica da UFLA (Foto do


autor)

A relação entre a evapotranspiração de referência ETo e a evaporação da água


no Tanque Classe A, ECA, é dada pela seguinte expressão:

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ETo = K p ⋅ ECA (34)


em que Kp é o coeficiente de tanque que depende da umidade relativa do ar, da
velocidade do vento e da cobertura do solo ao redor do tanque. Valores de Kp
podem ser obtidos na Tabela 4 ou pela equação abaixo, segundo Cuenca e
Jensen (1988), para tanque circundado por grama.

2
K p = 0,475 − 2,40 × 10 −4 (U 2 m ) + 5,16 × 10 −3 (UR ) + 1,18 × 10 −3 (d ) − 1,60 × 10 −5 (UR )
2 2 2
− 1,01 × 10 −6 (d ) − 8,0 × 10 −9 (UR ) (U 2 m ) − 1,0 × 10 −8 (UR ) (d )

em que:
U2m = velocidade do vento a 2,0 m da superfície do solo [km d-1]
UR = umidade relativa média do ar [%]
d = distância mínima com vegetação ao redor do tanque [m], d ≤ 1000

Se a velocidade do vento é medida em altura diferente de 2,0 m, ela deve ser


corrigida para valor equivalente ao vento a 2,0 m aplicando a “lei do perfil
logarítmico” pela seguinte expressão:

0, 2
 2,0 
U 2m = U z   (36)
 z 

em que:

U2m = velocidade equivalente a 2,0 m de altura [km d-1]


Uz = velocidade do vento medida na altura z [kmd-1]
z = altura de instalação do anemômetro [m]

Dispositivos com superfície evaporante que permitem estimar a demanda


climática de evaporação da água têm sido também usados em irrigação. São os
atmômetros que diferenciam-se quanto ao material , formato e cor da superfície
evaporante e consistem em uma cápsula porosa, recoberta com um material
especial de cor verde, interligada a um reservatório de água destilada por um
tubo de sucção (Figura 14). O nível da água é lido através de uma escala
graduada em milímetros fixada na parede do reservatório. A variação no nível
da água no reservatório indica a quantidade de água evaporada que relacionada
a um coeficiente de calibração vai representar a evapotranspiração de referência
ou da cultura com a qual se fez a calibração. Os atmômetros são normalmente
mais baratos que tanques evaporímetros, ocupam bem menos espaço e são de
manejo relativamente mais simples.

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TABELA 4: Coeficiente Kp para o Tanque Classe A para níveis de umidade relativa média
e velocidade do vento

Tanque circundado por grama Tanque circundado por solo nu


UR (%) Baixa Média Alta Baixa Média Alta
<40% 40-70% >70% <40% 40-70% >70%
Vento Posição Posição do
(km d-1) do tanque**
tanque* (m)
(m)
<175 1 0,55 0,65 0,75 1 0,70 0,80 0,85
10 0,65 0,75 0,85 10 0,60 0,70 0,80
100 0,70 0,80 0,85 100 0,55 0,65 0,75
1000 0,75 0,85 0,85 1000 0,50 0,60 0,70
175-425 1 0,50 0,60 0,65 1 0,65 0,75 0,80
10 0,60 0,70 0,75 10 0,55 0,65 0,70
100 0,65 0,75 0,80 100 0,50 0,60 0,65
1000 0,70 0,80 0,80 1000 0,45 0,55 0,60
425-700 1 0,45 0,50 0,60 1 0,60 0,65 0,70
10 0,55 0,60 0,65 10 0,50 0,55 0,65
100 0,60 0,65 0,70 100 0,45 0,50 0,60
1000 0,65 0,70 0,75 1000 0,40 0,45 0,55
>700 1 0,40 0,45 0,50 1 0,50 0,60 0,65
10 0,45 0,55 0,60 10 0,45 0,50 0,55
100 0,50 0,60 0,65 100 0,40 0,45 0,50
1000 0,55 0,60 0,65 1000 0,35 0,40 0,45
Fonte: Cuenca (1989)
* distância entre o tanque e solo nú
** distância entre o tanque e vegetação

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FIGURA 14: Atmômetro de um experimento na UFLA (Foto de Evangelista,


A.W.P.)

8 ÁGUA DISPONÍVEL

A capacidade da planta em absorver água do solo para atender a demanda


atmosférica por evaporação depende do seu estádio vegetativo, de sua sanidade
fisiológica e da força de retenção da água pelo solo que é função principalmente
da textura e da estrutura do solo. Têm-se usado tradicionalmente o termo “Água
Disponível Total” (ADT) ou “Intervalo Hídrico” para definir a capacidade do
solo em reter água entre os limites capacidade de campo (limite superior) e
ponto de murcha permanente, na camada de solo explorada pelas raízes da
cultura de interesse. Dessa forma, a ADT pode ser expressa por:

ADT = (θCC − θ PMP ) × Z (37)

em que:

ADT = Água Disponível Total, [mm]

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θCC = umidade do solo na capacidade de campo, [ cm3/cm3]


θPMP = umidade do solo no ponto de murcha permanente, [ cm3/cm3]
Z = profundidade efetiva do sistema radicular [mm]

A profundidade efetiva das raizes tem sido considerada como sendo a espessura
da camada de solo de contém 80% das raízes. Depende do estádio vegetativo da
cultura e das condições físicas e químicas do solo. A Tabela 5 traz valores de Z
para algumas culturas em estádio final de crescimento, sem restrição física ou
nutricional de desenvolvimento. Deve se ter cuidado no uso dos dados
apresentados em tabelas fazendo-se as devidas correções de acordo com as
condições locais de solo e tipo de fornecimento de água.
A profundidade efetiva antes de alcançar o valor máximo pode ser
estimada, segundo Martin et al. (1992), por:

(
Z = Zi + Kc Z f − Zi ) (38)

em que:

Zi = profundidade da semeadura ou profundidade inicial das raizes


[m]
Kc = coeficiente de cultura (Tabela 3)
Zf = profunidade efetiva no final do crescimento [m], Tabela 5

A Água disponível tem sido expressa também em mm/m. A determinação


posterior da ADT, em mm, é feita simplesmente multiplicando a informação
dada em mm/m pela profundidade efetivas das raízes em metro. Existem
publicações que dão a ADT expressa em mm/m como função da textura do solo.
Esse tipo de informação serve para se ter uma idéia da diferença em capacidade
de retenção de água entre a capacidade de campo e o ponto de murcha nos
diferentes tipos de textura de solo. Daker (1976) apresentou uma tabela de água
disponível , segundo Israelsen e Hansen (1965), (Tabela 6), que tem sido usada
até hoje por muitos projetistas brasileiros. Os riscos de erros no uso desse tipo
de tabela são grandes porque a retenção de água depende, além da textura do
solo, da estrutura , do tipo de argila, da concentração e tipo de sais presentes no
solo e da matéria orgânica.

41
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TABELA 5: Profundidade efetiva de raízes de algumas culturas


CULTURA Profundidade Fonte
efetiva (m)
Alface 0,3 – 0,5 Hoffman et al. (1992)
Banana 0,5 – 0,8 Doorenbos e Kassan (1979)
Batata 0,3 – 0,6 Marouelli et al. (1996)
Café 0,6 – 0,8 Daker (1976)
Cebola 0,3 – 0,6 Marouelli et al. (1996)
Cenoura 0,4 – 0,6 Marouelli et al. (1996)
Citrus 0,6 – 0,9 Stewart e Nielsen (1990)
Couve 0,3 – 0,5 Marouelli et al. (1996)
Feijão 0,5 – 0,7 Doorenbos e Kassan (1979)
Melão 0,5 – 1,2 Marouelli et al. (1996)
Melancia 0,5 – 1,2 Marouelli et al. (1996)
Milho 0,8 – 1,0 Doorenbos e Kassan (1979)
Morango 0,2 – 0,3 Hoffman et al. (1992)
Pimentão 0,3 – 0,5 Doorenbos e Kassan (1979)
Soja 0,8 – 1,5 Hoffman et al. (1992)
Tomate 0,3 – 0,6 Marouelli et al. (1996)
Trigo 0,6 – 0,9 Doorenbos e Kassan (1979)
Videira 0,8 –1,0 Stewart e Nielsen (1990)

TABELA 6: Água Disponível Total em função da textura do solo

Textura do Solo ADT (mm/m)


Grossa 60 – 80
Moderadamente grossa 90 – 150
Média 140 – 200
Moderadamente fina 160 – 220
Fina 180 – 230
Adaptada de Daker (1976)

42
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8.1 Água Disponível Real (ADR)

O limite inferior da ADT nunca deve ser atingido pois representa água retida
com tamanha força que é impossível de ser absorvida pela maioria da plantas.
Mesmo antes do solo atingir o ponto de murcha a planta precisa gastar energia
extra para retirar água do solo, energia que poderia estar sendo usada para o
crescimento ou produção. Várias pesquisas têm mostrado que diferentes
espécies ou mesmo diferentes cultivares têm capacidades diferentes em retirar
água do solo sem reduzir crescimento ou produção. Portanto, apenas parte da
chamada Água Disponível Total é facilmente disponível para a cultura. A esta
parte da ADT, dá-se o nome de “Água Facilmente Disponível” ou Água
Disponível Real que é expressa por:

ADR = ADT × f (39)

em que f é o fator de disponibilidade ou fração de esgotamento da água do solo


que representa a fração da ADT que a planta consegue retirar do solo sem gastar
energia extra, ou seja, sem reduzir a transpiração e consequentemente sem
reduzir a fotossíntese. Um valor de f, por exemplo, de 0,4, significa que, do total
de água retida no solo entre a capacidade de campo e o ponto de murcha, a
planta deverá retirar apenas 40% para não ter redução na sua produção de massa
ou de frutos, os outros 60% ficam retidos no solo. Os valores de f são
determinados experimentalmente e têm sido apresentados em tabelas como
função da evapotranspiração máxima ETm para grupos de culturas de acordo
com a sensibilidade à força de retenção de água pelo solo. As Tabelas 7 e 8,
extraidas da publicação FAO-33 (Doorenbos e Kassan ,1979), dão os grupos de
culturas e valores de f como função da ETm para várias culturas de interesse:
O momento da irrigação pode ser definido em função do teor de água, no solo,
indicador do limite inferior da Água Disponível Real. Dessa forma, a ADR pode
também ser expressa por:
( )
ADR = θ CC − θ ∗ × Z (40)

em que θ* é o teor crítico de água (umidade crítica) definida como função de f


ou como função do potencial matricial crítico da água no solo (ψm*). O ψm*
representa a força de retenção de água pelo solo a partir da qual (potenciais
menores) a planta tem dificuldade em absorver água. O valor de θ* é obtido na
curva ou equação característica de retenção a partir do valor sugerido de ψm*
para as diferentes culturas (Tabela 9).

43
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TABELA 7: Grupos de culturas de acordo com a capacidade de esgotamento


de água do solo

GRUPO CULTURAS

1 Batata , Cebola e Pimentão

2 Banana, Ervilha, Repolho, Tomate e Uva

3 Abacaxi, Alfafa, Amendoim, Citros, Feijão, Girassol, Melancia


e Trigo

4 Algodão, Cana-de-açúcar, Milho, Soja, Sorgo e Tabaco


Fonte: Doorenbos e Kassan (1979)

TABELA 8: Fator de disponibilidade de água do solo ( f ) para grupos de


culturas e evapotranspiração máxima.

GRUPOS DE ETm, mm/dia


CULTURAS
2 3 4 5 6 7 8 9 10
1 0.50 0.425 0.35 0.30 0.25 0.225 0.20 0.20 0.175
2 0.675 0.575 0.475 0.40 0.35 0.325 0.275 0.25 0.225
3 0.80 0.70 0.60 0.50 0.45 0.425 0.375 0.35 0.30
4 0.875 0.80 0.70 0.60 0.55 0.50 0.45 0.425 0.40
Fonte: Doorenbos e Kassan (1979)

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TABELA 9: Potencial matricial da água no solo crítico para diferentes culturas


(ψm*)
Cultura Potencial matricial Fonte
crítico (ψm*) [kPa]
Alface -40 Sammis (1980)
Batata -40 Marouelli (1996)
Cebola -45 Carrijo et al. (1990)
Cenoura -30 Silva et al. (1982)
Citrus -100 Stolzy et al. (1963)
Couve -70 Pew (1958)
Feijão -200 Stewart & Nielsen (1990)
Melão -75 Pew & Gardner (1983)
Milho -50 Taylor (1965)
Morango -30 Haise & Hagan (1967)
Tomate salada -100 Silva & Simão (1973)
Videira -50 Haise & Hagan (1967)

9 DOTAÇÃO DE REGA

Entende-se por dotação de rega a quantidade de água necessária para a irrigação


de maneira a repor o consumo da cultura (ETm). Entre os valores de consumo
da cultura nas suas diferentes fases tem-se o maior valor que permitirá calcular,
em função da área total irrigada, a vazão mínima necessária para o projeto.
Considera-se nos cálculos da dotação de rega , as perdas que ocorrem no
processo de reposição. Essas perdas podem ser devidas à condução (perdas por
vazamentos ) e à forma de aplicação da água (perdas por evaporação, deriva e
escoamento superficial) e são portanto associadas à eficiência do método de
irrigação.

9.1 Turno de Rega (TR)

O turno de rega, ou intervalo em dias entre duas irrigações sucessivas numa


mesma parcela, depende do método de irrigação a adotar. No sistema
convencional de irrigação por aspersão, por exemplo, o turno de rega é

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calculado considerando todo o reservatório do solo, ou seja, considerando a


Água Disponível Real (ADR). Para pivô-central o intervalo entre as irrigações é
função mais do consumo diário da cultura sem muita consideração do solo como
reservatório de água. A irrigação localizada (gotejamento e micro-aspersão) é
caracterizada por intervalos pequenos entre irrigações de maneira a manter a
umidade do solo sempre próximo de uma condição ideal para a planta, ou seja, o
mais próximo possível da capacidade de campo.
A determinação do TR para aspersão convencional é feita considerando também
o manejo do equipamento, podendo ser TR fixo ou TR variável de acordo com a
distribuição e cobertura do equipamento no campo.
O TR fixo é calculado por:

ADR
TR = (41)
ET ∗m

em que:

ADR= Água Disponível Real (mm)


ET*m= Evapotranspiração máxima da cultura na sua fase de exigência
máxima por água ( mm/dia)
TR = Turno de Rega (dias)

A determinação da ADR da equação acima é feita considerando a profundidade


efetiva máxima do sistema radicular da cultura (Z).

9.2 Dotação de rega para TR fixo

Para intervalo fixo entre irrigações, a reposição de água é feita com lâminas
crescentes, de acordo com o estádio vegetativo. Para isto, é necessário “encher o
reservatório”, isto é, fazer uma irrigação de pré-plantio de maneira a levar a
umidade da camada de solo correspondente à profundidade efetiva final do
sistema radicular para capacidade de campo (capacidade máxima de retenção
de água). A partir da capacidade de campo (“reservatório cheio”) faz-se a
reposição a cada TR dias do consumo de água ocorrido no período. Portanto, a
quantidade de água necessária para cada irrigação ou lâmina bruta de irrigação
é determinada por:

 TR × ETm 
LBI =   − Pe (42)
 Ei 

46
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em que:
TR = Turno de rega (dias)
Etm = Média da Evapotranspiração máxima da cultura desde a irrigação
anterior (mm/dia)
Ei = Eficiência da irrigação (%/100)
Pe = Chuva efetiva ocorrida desde a última irrigação (mm)

Existem três formas básicas de expressar a dotação de rega para fins de projeto:
a) pela quantidade total de água necessária no ano ou no ciclo da cultura; b) pela
quantidade de água por irrigação dando o número de irrigações no ano ou no
ciclo da cultura e o turno de rega; c) pela vazão contínua unitária q ( L/s.ha ).

9.3 Vazão contínua unitária

Esta forma de expressar a dotação de rega permite avaliar a área máxima


possível de ser irrigada (em função da vazão de outorga) e a necessidade ou
não de se construir reservatório (em função da jornada de trabalho e da vazão
mínima necessária). É determinada considerando-se o maior valor estimado para
ETm e a eficiência do método de irrigação a ser utilizado (Ei). Dessa forma a
dotação de rega pode ser estimada por:

ETm∗
q = 0,116 × (43)
Ei

em que:
q = vazão contínua unitária [ L/s.ha]
ET*m = ETm máxima [mm/dia]
Ei = Eficiência de irrigação [%/100]

Consideremos como exemplo uma situação de projeto com os seguintes dados:


ETm máxima = 5,5 mm/dia; Eficiência do método de irrigação Ei = 85%; Área
do projeto A= 15 ha. A vazão mínima necessária (Qnec) poderá ser calculada
por:

Qnec = q × A (44)

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Portanto, com os dados do exemplo, teremos uma Qnec = 11,2 L/s. Esta vazão
corresponde à vazão contínua (24 horas por dia) mínima necessária para atender
a demanda por água na fase de maior consumo pela planta. A vazão de captação
é obtida considerando a jornada diária de trabalho (J) e é obtida por:

24
Q c = Q nec × (45)
J

em que J é expressa em horas por dia. Considerando como exemplo uma


jornada de trabalho de 15 horas por dia, a vazão de captação Qc do exemplo
acima será de 18,0 L/s. Caso a fonte de água tenha vazão menor que a vazão de
captação, porém maior que a vazão mínima necessária, será necessário construir
reservatório. Deduz-se que, caso a fonte não tenha a vazão mínima necessária,
não adianta construir reservatório, a solução é reduzir a área total do projeto.
A vazão do sistema de irrigação e o tempo para aplicação da lâmina necessária
serão determinados de acordo com a infiltrabilidade do solo e dos dados
técnicos do aplicador de água (aspersor, gotejador ou microaspersor). As
considerações para escolha de um aspersor ou mesmo do método de irrigação,
serão ainda discutidas nesta disciplina.

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