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Introdução à Sintaxe do Hebraico Bíblico

BRUCE K. WALTKE E M. O’CONNOR

p iv Introdução à Sintaxe do Hebraico Bíblico, Bruce K. Waltke e Michael P. O’Connor. © 2006,


Editora Cultura Cristã. Publicado em inglês com o título: An Introduction to Biblical Hebrew
Syntax. © 1990, Eisenbrauns Inc. Publicação em português autorizada pela Eisenbrauns Inc.
Todos os direitos são reservados.

1ª edição – 2006

3.000 exemplares

Tradução

Adelemir Garcia Esteves

Fabiano Antônio Ferreira

Roberto Alves

Revisão
Fabiano Antônio Ferreira

Roberto Alves

Tarcízio José de Freitas Carvalho

Editoração

OM Designers

Capa

Magno Paganelli

Conselho Editorial

Cláudio Marra (Presidente), Alex Barbosa Vieira, André Luiz Ramos, Francisco Baptista de
Mello, Mauro Fernando Meister, Otávio Henrique de Souza, Ricardo Agreste, Sebastião Bueno
Olinto, Valdeci da Silva Santos.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Waltke, Bruce K.

W237i Introdução à sintaxe do hebraico bíblico / Bruce K. Waltke e Michael P. O’Connor,


[tradução Fabiano Antônio Ferreira, Adelemir Garcia Esteves e Roberto Alves]. São
Paulo: Cultura Cristã, 2006.

784p.; 21,5×27,9 cm.

Tradução de An Introduction to Biblical Hebrew Syntax

ISBN 85-7622-141-1

1. Hebraico – Sintaxe e Gramática. 2. Antigo Testamento – Linguagem e Estilo.

I.Waltke, B.K. II.Título.

CDD – 492.4

EDITORA CULTURA CRISTÃ

Rua Miguel Teles Jr., 394 - CEP 01540-040 - São Paulo - SP

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Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas

Editor: Cláudio Antônio Batista Marra

pv em memória de

W. J. Martin
25 de maio de 1904

Broughshane, Co. Antrim

21 de março de 1980

Cambridge

p vii Sumário

Abreviaturas e Siglas

Apresentação

Prefácio

Introdutório

1. Língua e Texto

2. História e Estudo da Gramática Hebraica

3. Conceitos Básicos

4. Unidades Gramaticais

Substantivos

5. Padrões Substantivos

6. Gênero

7. Número
8. Função Nominativa e Orações sem Verbo

9. Função Genitiva

10. Função Acusativa e Assuntos Relacionados

11. Preposições

12. Aposição

13. Definibilidade e Indefinibilidade

Adjetivos, Numerais, e Pronomes

14. Adjetivos

15. Numerais

16. Pronomes Pessoais

17. Demonstrativos

18. Interrogativos e Indefinidos

19. Relativos

Graus Verbais

20. Introdução ao Sistema Verbal

21. O Sistema de Graus Verbais

22. Grau Qal

23. Grau Niphal

24. Grau Piel

25. Grau Pual

26. Grau Hithpael

27. Grau Hiphil

28. Grau Hophal

Conjugações Verbais e Orações

29. Introdução às Conjugações

30. Conjugação de Sufixo (Perfectiva)

31. Conjugação de Prefixo (Não-Perfectiva)


32. Waw + Conjugação de Sufixo

33. Waw + Conjugação de Prefixo

34. Jussivo, Imperativo e Coortativo

35. Infinitivo Absoluto

36. Infinitivo Construto

37. Particípios

38. Subordinação

39. Coordenação e Advérbio Oracionais

40. Exclamações e Perguntas Polares

Glossário

Bibliografia

Índices

p viii Abreviaturas e Siglas

Termos Gramaticais
abs. absoluto

bis duas vezes

C consoante

C termo construto

c. comum

col. coletivo

cstr. construto

SNEA semítico noroeste antigo

f(em). feminino

foc. marcador focal


G termo genitivo

impfv. imperfectivo

inf. abs. infinitivo absoluto

inf. cstr. infinitivo construto

m(asc). masculino

non-pfv. não-perfectivo

pf. perfeito

pfv. perfectivo

pl. plural

pleo pronome pleonástico

Pred predicado

S sujeito

s(ing). singular

V vogal

V verbo

* forma não-atestada

** forma impossível

~/≅ aproximadamente igual a

Versões e Traduções
AV Authorized Version

LXX Septuaginta

TM Texto Massorético

NAB New American Bible (1970)

NIV New International Version (1973)

NJPS New Jewish Publication Society Version (1982)

RSV Revised Standard Version (1932)

Sam Pentateuco Samaritano


Bibliografia
BL Hans Bauer e Pontus Leander. 1922. Historische Grammatik der hebräischen
Sprache des Alten Testaments.

GAHG Wolfgang Richter. 1978–80. Grundlagen einer althebräischen Grammatik

GB [Wilhelm Gesenius-] Gotthelf Berg-strässer. 1918–29. Hebräische Grammatik.

GKC [Wilhelm Gesenius-] Emil Kautzsch, trad. A. E. Cowley. 1910. Gesenius’ Hebrew
Grammar.

Joüon Paul Joüon. 1923. Grammaire de l’hébreu biblique.

LHS Ernst Jenni. 1981. Lehrbuch der hebräischen Sprache des Alten Testaments.

MPD P. Swiggers e W. Van Hoecke.1986. Mots et Parties du Discours.

SA/THAT Statistischer Anhang to Ernst Jenni and Claus Westermann. 1971–76.


Theologisches Handwörterbuch zum Alten Testament.

UT Cyrus H. Gordon. 1965. Ugaritic Textbook.

p ix Apresentação

Apresentar esta obra de Waltke e O’Connor na sua tradução para a língua portuguesa é
uma honra imensa. Quando a indiquei para tradução e os trabalhos foram iniciados, não tinha
idéia de quanto tempo e esforço seriam necessários até que pudéssemos tê-la entregue ao
estudioso da língua hebraica no Brasil. Não se trata da tradução de um livro simples, mas de
uma obra que, além de volumosa, apresenta complexidade nas relações internas com vários
índices fundamentais ao seu bom uso.

A necessidade desta obra específica em língua portuguesa é incontestável. Os estudos da


língua hebraica no Brasil andam por lentos e tortuosos caminhos. Há poucas décadas havia
apenas as mais básicas gramáticas de hebraico disponíveis para nossos estudantes. Houve,
naturalmente, um desenvolvimento na área, e nos últimos anos encontramos várias novas
gramáticas publicadas em língua portuguesa, pelo que damos graças a Deus. Há menos de dez
anos que o primeiro dicionário Hebraico-Português de porte razoável tomou seu lugar em
nossas bibliotecas. Essas publicações, básicas para o estudo da língua hebraica, encontram
agora o suporte de uma obra de grande peso, que tornou-se um manual de referência ao
redor de todo o mundo, ainda que os próprios autores reconheçam o limite da mesma quanto
às discussões de exceções, e daí a necessidade de outras obras clássicas como Gesenius,
Kautzsch e Cowley ou Jüon-Muraoka, que esperamos sejam um dia traduzidas para o
português. Até então, nenhuma obra do porte de Waltke e O’Connor foi publicada em nosso
vernáculo para o estudo do hebraico.

A Introdução à sintaxe do hebraico bíblico é normalmente descrita como uma gramática


intermediária. Para o estudante dedicado da língua, seu uso torna-se possível a partir do
segundo ano de estudos e acrescenta informações fundamentais na construção da
compreensão da língua. As qualidades didáticas da obra são inúmeras. Entre elas, destacamos
o próprio uso da linguagem. Os autores se esmeram em explicar a terminologia usada, tanto
no texto quanto nas notas de rodapé, permitindo ao estudante noviço uma leitura mais fácil.
Encontram-se na obra mais de 3.500 exemplos do uso específico relativo aos temas dos
capítulos e seções. Além dos exemplos e suas traduções estarem no texto, as notas de rodapé
apontam vários outros exemplos no texto na Bíblia Hebraica Stuttgartensia (BHS) e também as
discussões acadêmicas em artigos, livros e comentários são apontadas, abrindo o caminho
para o estudo avançado de cada uma das questões apresentadas. As referências cruzadas são
inúmeras, tanto nas notas quanto nos índices finais de Tópicos, Autores, Palavras Hebraicas e
Citações das Escrituras. A inserção de uma bibliografia separada por tópicos aponta os
caminhos para a pesquisa avançada.

Ainda que após a publicação do livro (1990) as pesquisas na língua hebraica tenham
avançado, abrangendo o estudo de novas categorias lingüísticas e metodologias, a obra de
Waltke e O’Connor continua a ser reimpressa, por seu porte e valor inestimáveis. Essa é, sem
sombra de dúvida, uma obra que todo estudioso do Hebraico Bíblico deve ter em sua
biblioteca.

DR. MAURO FERNANDO MEISTER

D.LITT. UNIVERSIDADE DE STELLEMBOSH

ÁFRICA DO SUL

p xi Prefácio

O Escopo e o Propósito deste Livro


Uma Introdução à Sintaxe do Hebraico Bíblico é, em dois sentidos, uma gramática
intermediária da língua da Bíblia Hebraica. Em primeiro lugar, é uma gramática projetada para
estudo por aqueles que já dominaram os fundamentos da língua e possuem uma boa
compreensão de sua fonologia e morfologia, como também um vocabulário funcional. Em
segundo lugar, coloca-se entre um estudo básico e a vasta lista de literatura de pesquisa, uma
ferramenta para preparar leitores para pesquisar esse corpo de escritos enquanto acessam o
grande e difícil corpus de Escrituras Hebraicas antigas. Este volume é apresentado tanto como
um livro-texto quanto como uma obra de referência e estudo. Não existe em português
qualquer gramática intermediária ou avançada atualizada de hebraico bíblico e esta falta tem
sido reconhecida há muito tempo. Tentamos apresentar tanto um corpo de conhecimento
(provendo, como seja, as “respostas certas”) quanto uma amostra de abordagens analíticas e
descritivas (sugerindo as “perguntas certas”). A gramática hebraica introdutória é, em grande
parte, uma questão de morfologia, e a abordagem das classes de palavra ou dos termos do
discurso que temos adotado deveria seguir um programa introdutório desse tipo. A teoria das
classes de palavra tem uma respeitável antigüidade e, como resultado de pesquisa recente na
organização do léxico, um futuro esplêndido. Esperamos que o arcabouço seja conservador o
suficiente para ser amplamente acessível, mas suficientemente sério para permitir-nos escapar
de algumas das confusões de gramáticas mais antigas de hebraico. A terminologia nova foi
introduzida com cautela.

As gramáticas de referência estão disponíveis. Todo estudante avançado do texto hebraico


precisa ter a gramática de Gesenius, Kautzsch e Cowley à mão para conferir uma variedade de
detalhes em um amplo e bem informado arcabouço. Este volume não busca substituir GKC ou
obras compatíveis disponíveis em outros idiomas. Não tratamos de todas as exceções e
anomalias. Pelo contrário, o livro busca ser usado tanto antes quanto em paralelo a tais obras,
apontando para as pesquisas de gerações mais recentes de eruditos, tanto em detalhes
quanto na estrutura do arcabouço global e reconsiderando as visões dos trabalhos mais
antigos à luz dessas pesquisas.

Como uma gramática pedagógica, este volume não busca apenas descrever a sintaxe do
hebraico bíblico, mas prover alguma profundidade explicativa para a descrição. Os estudantes
emergem de um curso introdutório de hebraico prontos para começar a confrontar o texto, e
este volume situa-se entre os livros que podem ajudá-los. Entre esses livros, esperamos que
este tenha um lugar distintivo. Gramáticas de referência e léxicos avançados, se consultados
rapidamente, tendem a fragmentar a visão do leitor acerca dos problemas, enquanto que
comentários tendem a estreitar demasiadamente o foco. Estudos gramaticais especializados às
vezes são forçados a discutir excessivamente uma tese ou cobrir todos os dados muito
rapidamente.

p xii Como uma ferramenta de leitura e exegese, este volume busca estimular a atenção
às dificuldades de um texto em uma língua escrita do mundo antigo de uma cultura diferente.
Um programa muito breve de estudo de hebraico pode ser desencaminhador ou até mesmo
perigoso. O domínio fácil pode fazer os estudantes acreditarem que compreenderam um
texto, quando tudo que eles realmente conseguiram foi simplesmente a memória de uma
tradução recebida pronta. As distorções decorrentes do uso da língua hebraica como a chave
para a compreensão de uma mentalidade estrangeira não fazem parte de nosso programa,
pois a erudição atual superou tais concepções. Mas o hebraico permanece uma língua
estrangeira para falantes nativos de português ou outras línguas européias. Esta gramática
busca ajudá-los a perceber o caráter desse estrangeirismo, principalmente com respeito à
interação entre sintaxe e semântica. Preocupamo-nos com o que as formas do hebraico
significam, como esses significados podem ser apropriados e, incidental e principalmente por
meio de exemplos, como esses significados podem ser vertidos para o português.
A primeira base deste estudo é a grande tradição de gramática hebraica falante-nativa
associada com a comunidade judaica medieval. Esta tradição foi passada durante séculos e
supriu a tradição européia moderna canonizada por Wilhelm Gesenius, no primeiro quarto do
século 19. A segunda base é o estudo lingüístico moderno, com suas raízes contemporâneas a
Gesenius e suas primeiras flores contemporâneas à edição da gramática de Gesenius,
atualmente impressa em inglês (1910). Esta gramática apóia-se sobre estas duas bases, ora
mais em uma, ora mais em outra. O objetivo deste volume não é a inovação; de fato, muitas
novidades não seriam apropriadas. Ainda que o corpo enorme de eruditos interessados na
Bíblia Hebraica tenha produzido muitos materiais novos, e cada nova visão ou conceito
reposiciona e reforma todas as outras facetas da gramática, isso tudo ocorre ligeiramente.
Então, é seguro dizer que qualquer leitor achará algo novo aqui, e é mais seguro dizer que
cada leitor achará algo com que discordar.

Embora esta não seja uma sintaxe exaustiva da Bíblia Hebraica, ela provê uma avaliação
completa do assunto e utiliza um corpo rico e diversificado de erudição. Por exemplo, os
estudos importantes de F. I. Andersen, Ernst Jenni e Dennis Pardee estão aqui, pela primeira
vez, trazidos para um exame da gramática hebraica; outros estudos são avaliados, e ainda
outros são citados somente de passagem. Como David Qimḥi, freqüentemente somos
respigadores seguindo os ceifeiros. Algumas das distorções que podem ser achadas na
literatura são criticadas. A bibliografia não somente dirigirá os estudantes às obras que usamos
aqui, mas também às obras de referência e aos estudos em fonologia e morfologia hebraicas,
assuntos não tratados aqui. Temos provido uma bibliografia básica de estudos de hebraico
bíblico, porque nenhuma ferramenta assim está atualmente disponível.

Embora visemos a ajudar os estudantes na apreciação e avaliação da literatura secundária,


não estamos diretamente interessados em tais avaliações. Não pudemos usar e citar a extensa
gama de materiais como gostaríamos, mas a quantidade é considerável. Muitas literaturas
novas apareceram durante os anos em que estivemos trabalhando. Em casos em que apenas
detalhes de nossa exposição foram afetados, pudemos melhor incorporar as novas
descobertas e visões. Em assuntos maiores, freqüentemente fomos incapazes de revisar e
reformar tanto quanto gostaríamos, em resposta a uma variedade de gramáticas introdutórias
recentes, como também a contribuições eruditas maiores como, por exemplo, a obra de
Shelomo Morag sobre o hebraico de Qumran, o ensaio de p xiii Jaakov Levi sobre Die
Inkongruenz im biblischen Hebräisch e a monografia de John Huehnergard sobre ugarítico.
Artigos do novo jornal de Hans-Peter Müller, Zeitschrift für Althebraistik, somente nos
alcançaram nos últimos estágios de nosso trabalho.

Algumas outras bases do volume são dignas de nota. Dados comparativos de línguas
semíticas foram utilizados para iluminar e prover perspectivas. Entretanto, não pressupomos
conhecimento algum de outras línguas. Tendo em vista nossas duas bases primárias, este uso é
inevitável. Os gramáticos de hebraico mais antigos falavam tanto o árabe quanto o hebraico;
assim, a tradição começa com uma tendência comparativa. A decifração do cuneiforme e o
desenvolvimento de gramáticas modernas de acadiano afetaram a interpretação de cada
faceta do verbo hebraico. Ao lado do árabe e do acadiano, as grandes línguas faladas
originalmente ao sul e ao leste do hebraico, estão as outras línguas do Levante antigo,
parentes mais íntimas do hebraico – moabita, amonita e púnico-fenício, como também a
língua mais antiga de Ugarite e as aparentadas mais distantes línguas aramaicas. A citação de
dados de semítico comparativo é restringida, mas em nosso julgamento é sempre crucial para
o argumento à mão. Semelhantemente cruciais são dados comparativos do português e de
outras línguas européias. A análise por contraste de línguas é agora comum no ensino
moderno de línguas. Tal informação serve para lembrar os estudantes como a própria língua
deles e outras correlatas funcionam. Nem todos os estudantes têm um amplo e firme
embasamento em lingüística – este livro não pressupõe familiaridade alguma com este
assunto – e o português pode ser tomado como um ponto de referência fixo e atraente. O uso
de dados de língua portuguesa serve, pelo menos em parte, para expor os pré-entendimentos
dos leitores de língua portuguesa. Realmente, à luz de uma língua “exótica” como o hebraico,
o português também passa a ser uma língua “exótica”. No labor da leitura ou da tradução, a
língua receptora não é mais “natural” ou “correta” que a língua de origem.

A forma do livro é irregular, pois não buscamos equilibrar exatamente os vários aspectos
do hebraico ou dividir os materiais em porções iguais. Uma compreensão própria do grau Piel
ou da conjugação prefixa requer o uso de conceitos e noções que podem parecer teóricos
demais. O capítulo sobre preposição, em contraste, pode parecer demasiadamente léxico.
Certos tópicos não são tratados completamente: os advérbios, especialmente as partículas
negativas, não recebem a atenção focalizada que eles podem receber, não obstante há
referências pertinentes ao longo do livro. O trabalho de escrita de cada livro deve ser limitado
ou pelo menos deve ser chamado a uma pausa.

O Uso Deste Livro


A estrutura deste volume é grandemente tópica e lógica, em vez de pedagógica. Os
professores e estudantes são livres para abordar o material como preferirem e fazer
adaptações apropriadas aos seus próprios programas e circunstâncias. Depois da seção de
abertura, qualquer das quatro seções restantes pode ser abordada; as várias tabelas de
conteúdo e o índice tópico devem facilitar a averiguação de dados cruzados. Em cada uma
dessas seções, certos capítulos requerem exposição conceitual, enquanto outros exigem
revisão e consideração dos exemplos em contexto. Provemos muitos, muitos exemplos em
citação completa ou expandida, com glosas (não traduções). Os exemplos são todos da Bíblia,
com três ou quatro exceções, onde fica claro que está sendo feita uma imitação p xiv
moderna de hebraico bíblico. Os estudantes são estimulados a ler os exemplos citados aqui e
eventualmente conferi-los (e os outros exemplos citados nas notas) no contexto bíblico.
Porque às vezes os exemplos são resumidos e abreviados, eles não refletem necessariamente
o texto real. As versões dadas aqui tendem a apresentar um equivalente dinâmico, às vezes
complementado por uma glosa mais literal refletindo o ponto gramatical em discussão –
entretanto, o termo lit. às vezes é usado imprecisamente. Poucas palavras hebraicas são
deixadas sem glosa, e versões de excerto bíblico podem variar de seção em seção do livro. As
versões portuguesas não são estritamente uma ajuda ou uma cola – os leitores deveriam
tentar explicar (ou melhorar) nossas sugestões, freqüentemente tiradas de versões modernas,
e deveriam considerar possíveis alternativas. Adições interpretativas são dadas entre
colchetes, enquanto outras adições, incluindo informação gramatical, aparecem entre
parênteses. Geralmente não são usadas elipses finais em texto hebraico. O versículo é disposto
em linhas onde tal arranjo não requereria nenhum espaço extra. Aspas simples (‘ / ’) são
usadas para glosas e versões, aspas duplas (“ / ”) para citações e termos técnicos.

A abordagem de toda a obra em um curso de um ano de duração envolveria a dedicação


de, aproximadamente, uma semana para cada um dos vinte e oito capítulos ou pares de
capítulos, deixando para uma rápida revisão ou estudo extraclasse os capítulos 1–3, 5, 15–19 e
combinando 11 e 12, 24 e 25, e 27 e 28. Alguns professores podem preferir saltar seções
individuais e reorganizar o material de outras formas. Nós prevemos a preparação de uma
versão mais resumida desta gramática, talvez equipada com exercícios e chave, sendo mais
satisfatória para um curso breve, e solicitamos comentários de usuários deste volume. Os
professores experientes sabem que a gramática se torna importante para os alunos somente
quando eles são levados a usá-la. Em qualquer formato, o estudo gramatical intermediário ou
avançado deveria ser acompanhado da leitura das obras-primas de prosa bíblica, como as
histórias de José e de Rute, bem como de alguns dos poemas bíblicos principais, como o Salmo
100 e o Cântico de Ana. Durante tais leituras, os alunos deveriam aplicar os princípios
esboçados aqui e começar a usar a gramática tanto para referência quanto para estudo
aprofundado. O breve glossário cobre principalmente termos gramaticais, principalmente os
sujeitos à confusão e aqueles improváveis de ser achados em outras obras de referência; em
nenhum sentido ele pretende competir com o texto do livro.

Os índices cobrem quatro campos: tópicos, autoridades modernas citadas, palavras


hebraicas e passagens bíblicas. Usado com as tabelas de conteúdo do capítulo, o índice de
tópicos deve guiar os estudantes a qualquer discussão relevante aqui.

O texto bíblico geralmente é citado da Biblia Hebraica Stuttgartensia (1977), embora em


alguns casos preferimos a evidência das margens massoréticas (Qere) ou outros manuscritos
massoréticos, ou o Pentateuco Samaritano, ou citamos um texto refletido nas versões antigas
ou numa emenda. Para as leituras do Qere perpétuo, usamos a forma longa de Jerusalém e o
pronome feminino da terceira pessoa do singular, onde apropriado; deixamos o Tetragrama
sem pontuação. Casos nos quais variamos da BHS são raros: este volume não serve como
substituto para uma introdução aos problemas de crítica textual. Ao citar o texto hebraico,
algumas das leituras mais anômalas do Códice de Leningrado são retidas (por exemplo, 1Sm
9.21 e Rt 3.9, com BHS contra o texto da mais antiga Biblia Hebraica de 1937 [BH3]; Gn 32.18,
com BHS e BH3 contra outras p xv edições), porém algumas são substituídas silenciosamente
por um texto padrão (por exemplo, um soph pasuq que é perdido no Leningrado, mas
informado para outros textos pela BHS, como em Êx 20.3). (Com base em sua autópsia da
edição fac-símile Makor de 1971 do Leningrado, J. Alan Groves, do Seminário Teológico
Westminster, informanos que a variante de Gn 32.18 provavelmente é um erro tipográfico em
BH3 e BHS). Os acentos massoréticos são dados em alguns casos, e a sílaba tônica, quando não
é final, é marcada. Athnach e sop pasuq (mas não silluq), principais divisores do versículo, são
determinados a partir do texto, e a sílaba tônica é indicada com o marcador<. Os divisores de
versículo dão um senso de forma global a um versículo e são dados mesmo onde a marca de
sílaba tônica também é encontrada. Esta redundância reflete as bases fonológicas e sintáticas
misturadas da acentuação massorética. O acento é mostrado apenas como uma característica
da palavra; somente o acento principal é apresentado; grupos tônicos constituídos de várias
palavras não são assim realçados. Na citação de itens lexicais com ocorrência única, formas
atestadas são normalmente dadas, em vez de formas de dicionário; em alguns casos de listas,
athnach é usado em vez de sop pasuq para mostrar que uma forma é pausal. Algumas vezes o
divisor de versículo do TM é retido, embora a glosa mostre que acreditemos que uma
transposição é necessária. Methegh é dado a partir da BHS ou quando for necessário, embora
nem todos os casos possíveis sejam providos. As transliterações seguem os sistemas agora
amplamente aceitos dos principais jornais eruditos, menos em duas características: e virado (ə)
é usado para shewa e e com marca breve (ĕ) para hateph seghol; e as matres lectionis de
vogais breves plenas não são escritas entre parênteses. Este sistema padrão, baseado como
está em uma reconstrução duvidosa de fonologia hebraica, não é perfeito, mas é funcional e
deveria ser familiar a todo estudante. Em geral, o hebraico é apresentado em caracteres no
texto e em transliteração nas notas, mas alguma variação será encontrada em ambas as
posições. Tomamos a liberdade de usar o asterisco único (para marcar formas lingüísticas não-
atestadas ou primitivas:*yaqtul) e o asterisco duplo (para marcar formas que seriam
impossíveis em hebraico: **yaqtal). Os sinais diacríticos são omitidos de palavras que indicam
paradigmas, tão freqüentemente quanto possível, desde que ainda preservem a clareza (Piel,
não Piʿēl).

Reconhecimentos
Ambos os autores desejam aproveitar esta oportunidade para agradecer aos seus
professores: Waltke foi treinado por T. O. Lambdin, F. M. Cross e o falecido G. Ernest Wright de
Harvard; e O’Connor por C. R. Krahmalkov, D. N. Freedman e G. E. Mendenhall de Michigan.
Todo o estudo de graduação é um empenho colaborativo, e queremos aproveitar esta
oportunidade para agradecer nossos condiscípulos, agora, com freqüência, colegas e
conselheiros. Nossos editores estiveram envolvidos de perto com o projeto durante mais de
oito anos, e James E. Eisenbraun trabalhou em cada aspecto do livro, na grande tradição de
eruditos-editores. Ambos os autores assumem a total responsabilidade pela obra.

FILADÉLFIA

ANN ARBOR

p xvi Nota à Terceira Impressão Corrigida


Foram corrigidos erros tipográficos e algumas passagens truncadas ou mal escritas
retificadas como resultado da vigilância de revisores e outros colegas, incluindo David W.
Baker (Ashland, Ohio), Adele Berlin (College Park, Maryland), Walter R. Bodine (Dallas), C. John
Collins (Spokane), Edward L. Greenstein (Cidade de Nova York), Frederic C. Putnam (Hatfield,
Pensilvânia), Leona Glidden Running (Berrien Springs, Michigan), e Mark F. Willson (Juazeiro do
Norte, Ceará, Brasil). Nossos agradecimentos a eles.

1° DE DEZEMBRO DE 1990

Nota à Quarta Impressão Corrigida


Continuamos sendo gratificados pela recepção generosa outorgada a este livro. Uma vez
mais, estamos contentes em corrigir erros e em emendar infortúnios mostrados por alunos do
Seminário Teológico Westminster (Filadélfia) e Regent College (Vancouver), por revisores, por
outros colegas e amigos, incluindo Ralph L. Bogle (Ann Arbor), James H. Charlesworth
(Princeton), Terence Collins (Manchester), Peter T. Daniels (Chicago), John Huehnergard
(Cambridge, Massachusetts) e W. G. E. Watson (Edimburgo).

Vancouver

St. Paul

7 DE ABRIL DE 1993

Nota à Sétima Impressão Corrigida


A oportunidade para revisar este volume não surgiu e, assim, o material bibliográfico,
especialmente, permanece desatualizado. Uma segunda edição iria, e esperamos, breve irá
usufruir muitos estudos eruditos que têm sido apresentados e publicados na última década.
Continuamos fazendo pequenos ajustes ao longo da gramática e estamos felizes por agradecer
aos colegas e estudantes por sua atenção contínua.

Vancouver e Orlando

Washington, D.C.

24 DE JUNHO DE 1999

p1 Introdução
1 Língua e Texto

2 História do Estudo da Gramática Hebraica

3 Conceitos Básicos

4 Unidades Gramaticais

p3 1
Língua e Texto
1.1 Introdução

1.2 Hebraico como uma Língua Semítica

1.3 História do Hebraico

3.1 Pré-História

3.2 Hebraico Bíblico e Congêneres

3.3 História Posterior do Hebraico

1.4 Sincronia/Diacronia

4.1 Estudos Literários e Gramática

4.2 A Pesquisa Recente

1.5 História do Texto Bíblico

5.1 Introdução

5.2 Período Primitivo (até 400 a.C.)

5.3 De 400 a.C. até 100 d.C

5.4 De 100 até 1000 d.C.

1.6 O Texto Massorético

6.1 Característica

6.2 Consoantes

6.3 Vocalização

6.4 Acentuação

1.1 Introdução

a A língua hebraica tem sido usada desde os tempos de Moisés (a era arqueológica
conhecida como Idade do Bronze Tardio II, 1400–1200 a.C.) até o presente. O assunto desta
gramática, o Hebraico Bíblico – empregamos o termo para designar tanto o hebraico usado na
composição da Escritura como o do Texto Massorético (abreviado TM) – esteve em uso desde
aquela época, passando pelos períodos exílico, pós-exílico e do Segundo Templo. Este espaço
de tempo corresponde em grande parte à Idade Imperial (Império Neo-Babilônico, 625–540;
Império Persa, 540–330; Império Helenístico, 330–360; Império Romano, 60 a.C.–330 d.C.).
Num período de mais de três milênios, a língua hebraica experimentou muitas mudanças; na
verdade, mesmo num período de várias gerações qualquer língua sofre alterações. O
português falado hoje no Brasil não é a língua de Camões ou mesmo a de José Bonifácio. O
português de Pedro Álvares Cabral e, mais ainda, o português antigo do trovador D. Dinis
(1261–1325 d.C.) são, para nós, virtualmente p 4 línguas estrangeiras. O intervalo entre a
literatura bíblica mais primitiva, como a Canção de Moisés (Êx. 15) ou a Canção de Débora (Jz.
5), e os livros mais tardios da Bíblia, como Ester ou Crônicas, é o mesmo que nos separa de D.
Dinis. Em contraste com a história da maioria das línguas, a língua hebraica tem exibido uma
notável uniformidade com o passar do tempo. Um falante de hebraico bem educado pode ler
e entender literatura hebraica de todos os períodos, desde as porções mais antigas da Bíblia
Hebraica até o hebraico moderno.

b Para entender a natureza do hebraico bíblico é necessário conhecer tanto o pano de


fundo da família do texto quanto a história do hebraico em geral (1.2–3), como também a
história do texto bíblico na qual ele foi registrado até o período dos massoretas, que
padronizaram todos os aspectos de sua transmissão (1.5). O trabalho deles é tão fundamental
para a produção de uma gramática hebraica que merece um tratamento separado (1.6). A
compreensão da história do texto e do trabalho dos massoretas provê discernimento acerca
de alguns problemas com que um lingüista se depara ao tentar escrever uma gramática do
Texto Massorético. Também nos ajuda a explicar porque as variações não são tão marcantes
quanto poderíamos esperar, haja vista a diversidade geográfica, política e cultural na história
primitiva das tribos de Israel, sua bifurcação em dois reinos em sua história subseqüente e sua
existência posterior na diáspora e no exílio. A tensão entre sincronia e diacronia é fundamental
no estudo do hebraico bíblico (veja também 3.4). A visão sincrônica considera uma língua em
um único ponto no tempo. Uma visão sincrônica do português atual, por exemplo, deveria
estar baseada no modo em que a língua é usada por uma variedade de falantes, falantes de
todas as áreas do mundo onde o português é falado nativamente, ou usado como uma língua
comum em documentos oficiais (conforme o papel do aramaico em 2 Rs 18.26 e Ed 4.7), ou
por eruditos ou comerciantes. Tal estudo também poderia considerar os usos escritos da
língua, jornais, revistas (populares e literárias), gênero e ficção importantes, como também
relatórios e documentos. Um estudo diacrônico do português necessariamente se apoiaria
mais em fontes escritas do que em orais. Como, neste caso, as fontes tornamse menos
familiares, o estudo precisaria dedicar mais atenção em qualificá-las e também avaliar seu tipo
de linguagem. Idealmente, uma análise lingüística do hebraico bíblico deveria representar a
língua diacronicamente pela descrição de seus vários estágios sincrônicos; somente podemos
analisar amplamente a língua hebraica a partir deste enfoque. Em uma seção separada (1.4),
mostramos as limitações de tal abordagem quando aplicada ao Texto Massorético.

p 5 1.2 Hebraico como uma Língua Semítica

a O hebraico pertence à família de línguas semíticas, ao grupo lingüístico historicamente


predominante no sudoeste da Ásia, na região geralmente conhecida como Oriente Próximo ou
Oriente Médio. A família semítica é, em si mesma, parte do phylum de línguas afroasiáticas, o
maior grupo de língua que abarca os continentes da África e da Ásia.
b A família semítica é atestada primariamente na área relativamente compacta do Oriente
Próximo. Porém, precisar a razão da existência de cada membro da família é uma tarefa
complexa, principalmente devido à enorme extensão de tempo ao longo da qual eles são
usados e a multiplicidade de influências na região. As línguas formam um grupo
lingüisticamente coeso comparável ao das línguas românicas da Europa, as descendentes
modernas do Latim: francês, espanhol, catalão, português, italiano, romeno, e outras. Há dois
ramos maiores na família: o semítico oriental e o semítico ocidental. Apenas uma língua
pertence ao subgrupo semítico oriental, a saber, o acadiano, a língua dos babilônios e assírios
da Mesopotâmia. Registros em acadiano, no sistema de escrita cuneiforme, têm relevância
histórica, literária e lingüística para os estudos bíblicos. O grupo semítico ocidental inclui o
semítico noroeste, o árabe e o semítico sul. O árabe do norte é a língua do Qurʾân (Corão) e da
religião islâmica; o grupo semítico sul inclui as várias línguas árabes do sul e as línguas etíopes.
O etíope clássico, ou geez, não é mais falado; as principais línguas semíticas da terra da Etiópia
são o amárico e o tigrina. As línguas semíticas do noroeste incluem as línguas cananéias, o
hebraico bíblico e seus congêneres imediatos, e as línguas aramaicas, importantes no mundo
bíblico. Cerca de dois por cento da Bíblia Hebraica foram escritos em aramaico. O termo
“línguas semíticas clássicas” é usado para referir-se às grandes línguas literárias pré-modernas,
ao hebraico, ao siríaco (uma língua aramaica), ao geez, ao árabe, e às vezes ao acadiano; p 6
todas estas são bem atestadas por períodos significativos de tempo. As principais línguas
modernas são o árabe (falado em uma variedade de dialetos e usado comumente em uma
forma padrão), amárico, tigrina e o hebraico moderno.

c Textos do terceiro milênio do sítio de Tell Mardikh na Síria (antiga Ebla) estão escritos
tanto em sumeriano como em uma língua semítica. A afiliação desta língua não é clara: alguns
eruditos asseveram que ela se aproxima das formas mais primitivas do acadiano, enquanto
outros a vêem primordialmente como uma língua semítica do noroeste. Ainda outros eruditos
asseveram que o eblaico (ou eblaito) precede à divisão semítica leste-oeste. Por causa da
complexidade dos modos nos quais o sistema de escrita cuneiforme era usado em Ebla, só um
estudo prolongado solucionará o debate.

d As semelhanças entre as línguas semíticas e as várias línguas da África foram percebidas


há muito tempo. A família maior ou phylum foi chamada de hamito-semítica, com base na
idéia de que o phylum teve duas partes distintas; na realidade, ele tem cinco (ou seis). O termo
afro-asiático é agora padrão; também é encontrado afrasiano, lisrâmico e eritreano. Duas
famílias afro-asiáticas são norte-africanas em termos de localidade: o egípcio, a língua agora
extinta do Egito antigo (conhecida em suas fases posteriores como cóptico), e o berbere, um
grupo de línguas usadas principalmente na Argélia e no Marrocos. Ainda é controversa a idéia
de que haja uma íntima relação dentro das famílias afro-asiáticas, egípcia e semítica. Na África
sub-saariana é encontrada a família chádica (na Nigéria, Chade e países vizinhos; a língua
principal é o hauçá) e a família cusítica-omótica (na ponta do crescente da África, i.e., a Etiópia
e a Somália; as línguas cusíticas principais são o oromo e o somali). Numerosos aspectos do
desenvolvimento das línguas semíticas podem ser elucidados por meio de referência ao
contexto afro-asiático maior.

1.3 História do Hebraico


1.3.1 Pré-História

a Uma das grandes ironias da arqueologia siro-palestina é que tem sido encontrada
documentação imensamente maior para o que se pode chamar de a pré-história do hebraico
bíblico do que propriamente para a história da língua no tempo em que a Escritura estava
sendo registrada. O uso desta documentação é difícil, tanto pelo fato de as fontes serem
variadas como por se espalharem por toda a extensão do antigo Oriente Próximo. Estes
materiais estão registrados em uma variedade de escritas. Em alguns casos, um único nome
pessoal contribui como evidência de importância comparável à de um texto literário inteiro.
Um exame destes materiais, melhores designados por semítico noroeste p 7 antigo (ENWS),
está além do objetivo desta gramática, mas uma revisão cronológica das fontes principais pode
ser útil.

Tal revisão torna possível evitar as perguntas de quantas línguas (ou dialetos) exatamente
estão envolvidas e como elas estão exatamente correlacionadas.

b Terceiro Milênio Tardio (2350–2000). Vestígios de ENWS são achados em textos


cuneiformes sumerianos e acadianos procedentes de uma variedade de locais, talvez em Ebla
inclusive.

c Período Babilônico Antigo (2000–1600). Nomes pessoais na língua amorita são


encontrados em textos procedentes da Babilônia Central, do reino de Mari (no vale do Médio
Eufrates) e de outros locais sírios. Os textos de Mari, escritos em acadiano, também exibem
vocabulário comum de origem amorita. Nomes amoritas também ocorrem numa série de
Textos de Execração da época da décima segunda dinastia egípcia (ca. 2000–1750).

d Bronze Médio Tardio – Bronze Tardio Posterior (1600–1400). A prova documental deste
período é escassa, limitada aos textos denominados proto-sinaíticos, escritos na forma mais
primitiva do alfabeto linear. Estas inscrições, encontradas nos muros de Serābîṭ el-Khādem,
uma área de mineração de turquesa na região do Sinai, geralmente é datada em cerca de
1475, embora alguns eruditos propuseram uma data posterior. Sinais alfabéticos foram
achados em jarros de Gezer, datados do mesmo período, e foram achados alguns pequenos
textos na Palestina.

e Bronze Tardio II (1400–1200). Há um pequeno número de inscrições alfabéticas


siropalestinas no período Bronze Tardio II, mas o lugar de honra para estudos de ENWS se
deve a materiais de Amarna e Ugarite. A cidade egípcia de Amarna legou-nos as
correspondências enviadas aos Faraós Amunhotpe III e o seu filho Akhenaten, entre 1400 e
1350, sendo a maior parte delas oriunda da última metade do período. Estas cartas estão
escritas em uma forma de acadiano fortemente influenciada pelo cananeu nativo ou por
línguas do ENWS dos escribas, empregados dos reis menos importantes das cidades-estado
siro-palestinas. Elas também contêm glosas cananéias.

Ugarite era uma das maiores dentre os reinos insignificantes da região. Ela não somente
preservou textos escritos em acadiano, mas também escritos na língua nativa, o ugarítico. Os
caracteres destes textos são do tipo alfabético, mas, diferentemente dos caracteres dos textos
proto-sinaíticos e dos textos correlatos ancestrais dos alfabetos europeus, a escrita ugarítica é
em forma de cunha. Textos escritos em caracteres do tipo do alfabeto ugarítico foram achados
em Ras Ibn Hani, um sítio perto de Ugarite, e em outros sítios na Síria palestina.

p 8 1.3.2 Hebraico Bíblico e Congêneres

a O hebraico bíblico é a língua da Escritura Hebraica. A história desta língua está em parte
atrelada à história da transmissão textual (1.5). Outros fatores que apontam para uma análise
diacrônica da língua merecem um tratamento separado (1.4). Uma variedade de línguas e
dialetos mais ou menos com relação próxima ao hebraico foi registrada na ocasião em que a
Escritura Hebraica estava sendo escrita. A Idade do Ferro (1200–540 a.C.) forma uma bacia
conveniente na história das línguas siro-palestinas. Entretanto, o significado do ano 1200 não
deveria ser exagerado: o hebraico bíblico mais primitivo tinha muitas coisas em comum com o
cananeu ugarítico e com o de Amarna.

b O material lingüístico extrabíblico da Idade do Ferro é principalmente epigráfico, quer


dizer, textos escritos sobre materiais rígidos (cerâmica, pedras, paredes, etc.). Os textos
epigráficos do território israelita estão escritos em hebraico, numa forma da língua que pode
ser chamada de hebraico inscricional; este “dialeto” não é extraordinariamente diferente do
hebraico preservado no texto massorético. Infelizmente, ele é escassamente atestado.
Semelhantemente limitados são os materiais epigráficos nos outros dialetos sulcananeus,
moabita e amonita; o edomita é tão parcamente atestado que não estamos seguros em
afirmar que ele é um dialeto sul-cananeu, ainda que isso pareça provável. De maior tamanho e
interesse é o corpo de inscrições em cananeu central, aqueles escritos na língua fenícia de Tiro,
Sidon e de Biblos, e nas línguas do ramo púnico e neo-púnico das colônias fenícias ao norte da
África. Um corpo especialmente problemático de material é o do muro de Deir Alla, com
inscrições que se referem a um certo profeta Balaão (ca. 700 a.C.); estes textos têm
características do cananeu e do aramaico. W. R. Garr propôs recentemente que todos os
dialetos da Idade do Ferro sejam considerados como formando uma cadeia que realmente
inclua também as formas mais antigas do aramaico.

Em um extremo lingüístico da cadeia dialetal está o fenício padrão, e na outra


extremidade está o aramaico antigo. Dos dialetos conhecidos, o amonita era o
que mais se aproximava do fenício padrão. O edomita estava relacionado com
o fenício e com o hebraico. Neste continuum dialetal, o hebraico situa-se mais
próximo do fenício padrão do que do aramaico antigo. O moabita estava mais
intimamente relacionado ao hebraico, mas também possuía traços distintivos
do aramaico. O dialeto de Deir Alla compartilhava algumas características com
o hebraico (e com o cananeu), mas a maior parte de seu inventário fonológico
e morfológico era derivada do aramaico antigo. Finalmente, o aramaico antigo
situa-se no término do continuum.

p 9 Afiliação lingüística é um assunto comparativamente secundário em relação aos restos


epigráficos da Idade do Ferro. Eles são uma rica fonte de informação sobre morfologia, sintaxe
e uso literário da língua cananéia, qualquer que seja o modelo da estrutura dialetal aceito.

1.3.3 História Posterior do Hebraico


a As Escrituras Hebraicas estão profundamente harmoniosas em si mesmas e, por causa do
seu papel focal na comunidade judaica, elas serviram para unificar aquela comunidade. Este
uso da Escritura preservou a língua contra as forças estimuladoras da diversidade e de uma
mudança drástica. A série inteira das fontes para a língua hebraica – estendendose da Escritura
até os escritos da Mishná, dos Midrashim e da poesia medieval – retém um certo grau de
uniformidade lingüística. A maior influência foi o texto bíblico. Aqui está uma amostra de um
uso relativamente livre de pasticho bíblico em uma carta pública escrita pelo rabino
renascentista, médico e professor, Judah Messer Leon (na tradução foram incluídas as
referências bíblicas):

Eu ouvi que o pranto rodeia os limites [Is 15.8] de Bolonha, aumentaram em


largura de andar para andar [Ez 41.7] nas congregações cheias [Sl 68.26], Em
sua casa de oração [Is 56.7] minha glória foi tornada em vexame [Sl 4.2] por
homens sanguinários e fraudulentos que não chegarão à metade de seus dias
[Sl 55.23]. É um inimigo que me afronta [Sl 55.12], e todo o povo presenciou os
trovões [Êx 20.15].

O autor reclama aqui que “uma difamação aviltante de um inimigo… foi espalhada ao
longo de toda a comunidade judaica de Bolonha. Ele foi exposto à infâmia pública até na casa
de adoração divina por pessoas destrutivas e enganosas que, conseqüentemente, estão sob a
maldição de uma vida encurtada”. Esta passagem é um exemplo do estilo de meliṣa ‘adorno’;
há outros modos nos quais os autores hebreus de todas as épocas impregnaram seus escritos
com a linguagem da Escritura e de outras fontes.

b A primeira fase na história pós-bíblica do hebraico é desconhecida pela tradição. Os rolos


e fragmentos de manuscritos achados ao redor do Mar Morto, principalmente no sítio de
Qumran, incluem, além de textos bíblicos e antologias, um grande número de textos
contemporâneos em hebraico. Os textos datam de cerca de 200 a.C. a 135 d.C. e alguns deles
precedem a descoberta de Qumran. Desde que os textos de Qumran são freqüentemente
próximos ao texto bíblico em termos de assunto, lidando com o comportamento cúltico, por
exemplo, e o louvor divino, o hebraico desses textos é de interesse especial.

p 10 c Na tradição judaica pós-bíblica, a primeira obra importante, a Mishná, lida com a


discussão e a resolução de problemas que envolvam a aplicação da lei religiosa; foi compilada
em meados do segundo século d.C. O hebraico mishnaico é a língua da Mishná e de vários
documentos contemporâneos relacionados. Os dois Talmudes, o babilónico (‫בלִי‬
ְ ‫ ) ַּב‬e o
palestino (‫למִי‬
ְ‫ש‬ַּ ‫)י ְרּו‬, suplementam a Mishná e contêm materiais em hebraico mishnaico,
como o fazem também o Tosefta e os Midrashim halákhicos (exposições legais). Uma parte
deste material foi registrada durante (ou reflete) a idade em que o hebraico mishnaico era
uma língua falada na Palestina (até 200 d.C.?), e outra é posterior. O hebraico mishnaico não é
um descendente direto do hebraico bíblico, mas um dialeto distinto com sua pré-história
própria e grandemente desconhecida.

d Durante o período que vai desde o início do século 3 d.C. até o fim do século 19, o
hebraico estava em uso contínuo como uma língua religiosa, isto é, como uma língua de
oração e adoração, como também de discussão científica e legal-religiosa. Todos os judeus
educados (i.e., judeus homens) estavam até certo ponto familiarizados com ele. A língua só era
usada em situações orais limitadas, mas extensivamente por escrito; seu vocabulário foi
aumentado a partir de formas anteriores da língua, mas seus outros aspectos tenderam a
permanecer estáveis.

e Essa forma de hebraico moderno medieval primitivo serviu de base para a língua
moderna, a língua falada na comunidade judaica emigrante da Palestina do final do século 19.
Ela cresceu continuamente desde então e, hoje, é a língua oficial do Estado de Israel. Os
estudiosos de hebraico bíblico se interessam por ela como uma língua de pesquisa e como
uma fonte de informação sobre mudanças fonológicas e morfológicas. Muitos aspectos da
sintaxe da língua moderna revelam influências não-semíticas. A complexidade da interação de
várias fases do hebraico na língua moderna a toma atrativa para estudantes de lingüística
histórica em geral.

p 11 1.4 Sincronia/Diacronia

1.4.1 Estudos Literários e Gramática

a O estudo de hebraico bíblico não é nem sincrônico, focalizado claramente na língua num
certo ponto do tempo, nem diacrônico, dirigido às mudanças que a língua sofre com o passar
do tempo. Vários fatores chocam-se com a pergunta de como ver o corpus bíblico em relação à
extensão de tempo durante o qual ele foi escrito. De um modo mais amplo, dois fatores
principais nos interessam: a incerteza sobre o tempo de composição e a complexidade de
fatores na produção e transmissão do texto. (Uma variedade de outros fatores merece estudo;
há sinais de que a fala dos homens difere da fala das mulheres; a fala, se dirigida a um jovem
ou a um ancião, pode variar a partir de um certo padrão. Mesmo a linguagem oral
freqüentemente difere de uma prosa narrativa e há traços de variação dialetal com base em
regiões em ambos os casos.)

b Se considerarmos apenas a datação das seções em prosa das Escrituras Hebraicas, os


problemas podem ser vistos claramente. Muito da prosa é material anônimo e não-datado, e a
extensão de várias alegadas unidades dentro da massa de prosa é obscura. Até que ponto os
três livros que formam o cerne do Pentateuco deveriam ser considerados juntos? E até que
ponto eles deveriam ser vistos com Gênesis e Deuteronômio? As histórias de Elias e Eliseu
exibem importantes diferenças do material de arquivo que as precedem e as sucedem – como
podemos esclarecer essas diferenças? Estas são questões para cursos introdutórios na
Escritura; o importante aqui é observarmos que os críticos bíblicos comumente discordam
sobre datação, autoria, unidade e extensão das obras de prosa bíblica. Estes problemas
também ocorrem no estudo do verso, datado e não-datado, do Saltério, dos livros sapienciais
e no corpus profético.

c Julgamentos acerca destes assuntos literários são precisamente julgamentos, decisões


refletidas baseadas em suposições e investigações. Em relativamente poucos assuntos os
julgamentos estão suficientemente bem fundamentados para fornecer convicção ao
gramático, especialmente levando em conta fatores que serão mencionados abaixo. A maioria
dos julgamentos inquestionáveis envolve datação relativa; por exemplo, todos os eruditos
concordam que Crônicas é posterior (e em algum sentido se baseiam nisto) ao Pentateuco e
aos Profetas Anteriores.

d Há três processos de distorção relacionados que estão envolvidos na produção e na


preservação do texto: arcaização, modernização e uniformização. A arcaização envolve a
escrita ou o ajuste de um texto que é copiado ou editado, de tal modo que pareça ou soe
antiquado. Freqüentemente a arcaização se trai ao utilizar formas mais velhas ou construções
de modo errado. É importante distinguir uso arcaico de uso arcaizante. A versão inglesa da
Bíblia Authorized Version está cheia de arcaísmos, quer dizer, palavras e estruturas que não
estão mais em uso no inglês do século 17, quando foi escrita, mas p 12 que foram trazidas dos
três primeiros quartos do século 16, quando os antecedentes da AV foram escritos. Há um
imenso abismo entre o inglês moderno primitivo, como é chamado o inglês da AV e o de
Shakespeare, e o inglês atual. O escritor moderno ou pregador que deseje parecer com a
linguagem da AV está engajado em arcaização. Este escritor moderno às vezes errará usando
uma forma inadequada, por exemplo, ou só usando alguns tiques estilísticos do inglês da AV.

e Usualmente é difícil distinguir arcaísmos e arcaizações. O estudo mais recente sobre


arcaização em prosa bíblica está, em parte, baseado nos tipos de julgamentos literários aos
quais nos referimos anteriormente. Robert Polzin distingue o hebraico bíblico clássico (CBH),
descrito com base num corpus incluindo partes do Pentateuco e os Profetas Anteriores, do
hebraico bíblico posterior (LBH), o corpus que inclui Esdras-Neemias, Ester e as partes não-
sinóticas de Crônicas. Polzin argumenta que Ester é escrito numa forma arcaizante de LBH e
que os Rolos do Mar Morto não-bíblicos levam o processo de arcaização ainda mais adiante.
Ester e os Rolos do Mar Morto revelam-se como arcaizações, em lugar de arcaicos, pela
presença de características de LBH, aramaísmos (o aramaico era mais amplamente usado que
o hebraico depois do Exílio) e até mesmo características proto-mishnaicas.

f Modernizar é o oposto de arcaizar, a tendência para substituir formas e construções mais


antigas pelas da fala atual. Esta tendência também esteve operante entre os transmissores da
Escritura. Gillis Gerleman voltou-se para Crônicas, como fez Polzin, porém Gerleman examinou
as seções sinóticas de Crônicas. Ele achou que o autor/compilador usou um tipo de texto
modernizado do Pentateuco, um tipo no qual as construções antiquadas do original foram
substituídas pelas construções atuais do tempo do Cronista. A tradição textual representada
pelo Pentateuco Samaritano reflete uma modernização ulterior do texto.

g Os problemas lingüísticos de arcaização e modernização são complementares. Um texto


resultante de arcaização registra a obra de um autor/compilador que tenta usar formas de
linguagem que não são as suas próprias; os resultados destes esforços podem confundir o
lingüista que investiga essas formas de linguagem. Um texto resultante de modernização
registra a obra de compiladores/copistas que tentam fazer um texto antigo parecer ou soar
corrente. Se o lingüista descreve o texto atualizado como se este estivesse refletindo sua
forma primitiva, a descrição errará em não levar em consideração as mesmas mudanças na
língua de que os compiladores/copistas estavam muito conscientes.

h Além de arcaização e modernização, o processo de uniformização pode ocorrer em um


texto, nivelando características e padrões incomuns. Os transmissores do texto recebido da
Escritura tenderam a nivelar o texto em um padrão mais ou menos comum. Esta operação
distorce a evidência relativa à gramática da literatura como foi primeiramente escrita. Algumas
uniformizações, especialmente do tipo fonológico, teriam ocorrido de p 13 modo
completamente inconsciente; discutiremos abaixo a credibilidade do Texto Massorético (1.6).
Outros aspectos de uniformização são completamente conscientes, como por exemplo, os que
envolvem escolha de palavras. A uniformização morfológica situa-se entre os extremos
consciente e inconsciente. Um exemplo de inglês americano pode esclarecer este assunto.
Lingüisticamente, os estudantes destreinados registrarão particípios falados e gerúndios como
terminando em -ing (in), seja ou não seja a nasal pronunciada como velar (n) ou dental (n). Eles
escrevem o -ing porque sabem as convenções de ortografia da língua escrita e também sabem
que “a queda do g” é uma “ação imprópria”, embora o g freqüentemente caia na língua falada.
O nivelamento morfológico, semelhantemente, pode ter sido estimulado na transmissão do
texto da Bíblia Hebraica. Os transmissores do tipo de texto representado pelo Pentateuco
Samaritano uniformizaram-no numa extensão maior do que aquela representada pelo TM.

i A análise lingüística do hebraico é, como Chaim Rabin coloca a questão, “mais um corte
transversal do que uma análise sincrônica”. Ele escreve:

É um outro problema se…uma gramática que distingue as diferentes états de


langue [estados/fases da língua] poderia ser escrita na prática. No momento,
muitos livros bíblicos ainda são de data disputada, totalmente à parte dos
debates sobre quais porções de livros datáveis são adições posteriores… O
corpus indisputado durante cada período é muito pequeno para uma análise
estrutural efetiva.

Os processos de arcaização, modernização e uniformização têm tanta relação com os


problemas gramaticais quanto as questões literárias mais tradicionais.

j Se considerarmos a poesia, o problema de datação fica ainda mais complicado. Tradições


poéticas podem transcender as barreiras cronológicas, nacionais e dialetais. Por isso, a poesia
hebraica posterior pode conter paralelos com os textos ugaríticos não encontrados na poesia
hebraica mais primitiva. Cyrus Gordon colocou a questão da seguinte forma: “A tradição
poética de Canaã atravessa o tempo e o espaço em Canaã do mesmo modo como a tradição
épica homérica atravessa o tempo e o espaço entre os gregos, a despeito de serem eles jônicos
ou áticos, anteriores ou posteriores”.

1.4.2 A Pesquisa Recente

a Apesar das dificuldades que temos discutido, vários eruditos têm procurado considerar o
problema de datação do texto bíblico em solos lingüísticos. Discutiremos brevemente três
projetos recentes como exemplos de tal estudo, um baseado em fontes externas comparadas
ao texto bíblico e dois dependentes em grande parte de comparações bíblicas internas. Tais
estudos históricos sérios têm sido menos comuns do que muitas reflexões anedóticas.

p 14 b W. J. Adams Jr. e L. LaMar Adams baseiam sua obra em um número limitado de


elementos gramaticais e buscam determinar como esses elementos mudaram ao longo de um
período. Eles usam como seu controle 470 linhas tiradas de 27 textos não-hebraicos e
documentos com relação próxima, variando desde a Pedra Mesha em moabita (por volta de
850 a.C.) até a Regra da Comunidade de Qumran (1QS; cerca de 200 a.C.). Com base na
amostra de controle, os Adams sugerem que tanto Rute como Obadias devem ser
determinados em uma data pré-exílica.

c A obra de Robert Polzin sobre prosa hebraica já foi mencionada (1.4.1). Os dois dados de
Polzin, como vistos, são (a) Hebraico Bíblico Clássico ou Primitivo (CBH), baseado nas porções
Yahwista e Elohista do Pentateuco, a História da Corte de David (2Sm 13–1Rs 1) e o arcabouço
de Deuteronômio, os quais mostram uma “notá-vel homogeneidade gramatical/sintática”, e
(b) Hebraico Bíblico Posterior (LBH), melhor mostrado nas partes não-sinóticas de Crônicas. O
projeto de Polzin é a datação do chamado Documento Sacerdotal do Pentateuco, incluindo
quatro cordões principais, Pg (o texto básico), Ps (o suplemento), Pt (o código de lei principal),
e Ph (o código de lei mais primitivo conhecido como o Código de Santidade). Polzin focaliza
corpos maiores de material, Pg e Ps. Ele percebe que Pg exibe algumas características de HBP,
mas retém mais características de CBH, enquanto Ps mostra mais características de LBH.
Assim, ele propõe que, tipologicamente, as fontes P principais se si-tuam, em termos de data,
entre o CBH e o LBH, e que Pg é anterior a Ps. A relação entre datação tipológica, que
necessariamente é datação relativa (“A e B foram escritos antes de C e D”) e datação absoluta
é um assunto diverso da linha principal de argumentação de Polzin.

d O terceiro projeto que mencionaremos, de David Robertson, preocupa-se com a poesia


hebraica e é semelhante em propósito à obra dos Adams. Robertson focaliza sua análise sobre
o arcaico versus arcaização e considera a assim chamada poesia primitiva, a poesia do
Pentateuco e os Profetas Anteriores, como também Habacuque 3 e o Livro de Jó. O corpo de
características a ser esperado na poesia primitiva é estabelecido com base na poesia ugarítica
e no material do ENWS presente na correspondência de Amarna (veja 1.3.1e). O hebraico
poético padrão é descrito com base no material profético datado do oitavo século e depois.
Fundamentado em características morfológicas e sintáticas, uma variedade de poemas se
assemelha ao material primitivo: Êxodo 15, Deuteronômio 32, Juízes 5, 2Samuel 22 (= Salmo
18), Habacuque 3 e Jó. Todos, menos o primeiro, revelam formas poéticas padrão e
paradigmas, e cada qual pode ser então o p 15 resultado de arcaização no uso de formas mais
antigas ou de composição durante um período transitório de história lingüística.

e Vários pontos emergem destes estudos. O primeiro é que estudos de datação relativa e
absoluta são empreendimentos diferentes. A datação relativa situa-se logicamente antes da
datação absoluta; virtualmente, qualquer data absoluta requer uma data relativa, enquanto
que o contrário não é verdade. Em geral, datas absolutas não podem ser derivadas de
evidência lingüística. O segundo ponto importante é que existe material abundante sobre
datação, tanto dentro do corpus bíblico como fora dele.

f O aspecto mais importante destes estudos é o seu caráter estatístico. O hebraico da


Bíblia é suficientemente homogêneo, de modo que diferenças devem ser localizadas em uma
base estatística. A sofisticação de tal estudo não está nas estatísticas; metodologias estatísticas
avançadas são geralmente elaboradas para lidar com corpos de evidência muito diferentes
daqueles que a Bíblia apresenta. A sofisticação está mais precisamente na discriminação
lingüística daquilo que é levado em conta do que na formulação dos argumentos resultantes.
O hebraico da Escritura, ainda que esteja longe de ser uniforme, é essencialmente uma
língua única. Na poesia mais antiga, subsistem formas arcaicas, conhecidas do ugarítico. Certos
materiais pós-exílicos diferem de textos mais recentes. O volume da Bíblia Hebraica, posterior
a Êxodo 15 e anterior a Ester, apresenta uma única gramática, embora variável. O corpus final
editado da Escritura Hebraica foi preparado para e compreendido por uma audiência comum.

1.5 História do Texto Bíblico

1.5.1 Introdução

a O lapso de tempo decorrido entre a composição e a edição das Escrituras Hebraicas e os


manuscritos massoréticos medievais fizera com que os fundamentos da gramática do hebraico
bíblico sempre chamassem a atenção. No início do período moderno, alguns eruditos
estiveram propensos a rejeitar o TM indiscriminadamente, às vezes infelizmente, por ser obra
de judeus. Estes ataques vis anti-semíticos desapareceram há muito tempo, mas a suspeita
sobre o TM permaneceu. A consideração séria da história do texto deveria ajudar a dispersar
qualquer desconfiança subjacente e conduzir a um conservadorismo cauteloso no seu uso.

b A história do texto pode ser dividida, a partir dos tipos disponíveis de evidência e no
destino do texto, em quatro períodos: (a) do tempo de composição a ca. 400 a.C., (b) de 400
a.C. a ca. 100 d.C., (c) de 100 d.C. a 1000, e (d) de 1000 até o presente. Desde que o texto (e
conseqüentemente a base para a gramática do hebraico bíblico) foi unificado durante o
terceiro período, e ao quarto pertencem principalmente as modificações secundárias dentro
da tradição massorética e a impressão do texto, limitamos nosso exame aos primeiros três.

p 16 1.5.2 Período Primitivo (até 400 a.C.)

a Nenhum manuscrito existente da Bíblia Hebraica pode ser datado antes de 400 a.C. pelas
disciplinas da paleografia ou da arqueologia (nem mesmo com ajuda da física nuclear). Práticas
escribais anteriores a este período devem ser inferidas de evidências internas na própria Bíblia
e de práticas escribais conhecidas no antigo Oriente Próximo na ocasião em que foram escritos
os livros. Estas duas fontes sugerem que os escribas variadamente buscavam tanto preservar
como revisar o texto.

b Tendência de preservar o texto. O fato de que a Escritura persistentemente sobreviveu


às condições mais deletérias ao longo de sua longa história demonstra que infatigáveis
escribas insistiram em sua preservação. Os livros foram copiados à mão por gerações em
papiros altamente perecíveis e em peles de animais, no clima relativamente úmido e hostil da
Palestina; o clima seco do Egito, tão favorável à preservação de tais materiais, propicia um
contraste vívido. Além disso, as perspectivas de sobrevivência de textos eram incertas numa
terra que servia como uma ponte para exércitos em constante disputa entre os continentes da
África e da Ásia – uma terra cujos povos eram objeto de saques em sua história primitiva e de
captores em sua história posterior. Que nenhum outro escrito israelita, como o Livro dos
Justos (Livro de Jasher) (p.ex., 2Sm 1.18) ou o Livro da História do Reis (p.ex., 2Cr 16.11),
sobreviveu deste período, indiretamente sugere a determinação dos escribas em preservar os
livros que se tornaram canônicos. Os adversários da Bíblia Hebraica às vezes incluíram
audiências que buscavam matar seus autores e destruir as suas obras (cf. Jr 36). Desde o
tempo de sua composição, porém, ela capturou os corações, mentes e lealdades dos fiéis em
Israel, que a guardaram em segurança, freqüentemente pondo em risco suas próprias vidas.
Tais pessoas insistiram na transmissão precisa do texto.

c Além do mais, a própria Bíblia (cf. Dt 31.9 ss.; Js 24.25, 26; 1Sm 10.25; etc.) e a literatura
do antigo Oriente Próximo mostram que no tempo das composições bíblicas mais primitivas
havia uma mentalidade que favorecia a canonicidade. Esta mentalidade nutriu uma
preocupação por cuidado e precisão na transmissão dos escritos sagrados. Por exemplo, um
tratado hitita (da Idade do Bronze Tardio), assemelhando-se muito de perto a partes da Torá,
contém esta ameaça explícita: “Quem quebra [este tablete] ou faz qualquer um mudar o teor
do tablete —… que os deuses, os senhores do juramento, o destruam”. Igualmente, uma das
Estelas Sefire (ca. 750 a.C.) registra, “Quem… diz: ‘Eu apagarei algumas d[as palavras do
tratado]’… esse homem, sua casa e tudo o que está nela serão transtornados pelos Deuses, e
ele [será] virado de cabeça para baixo, e esse (homem) não adquirirá um nome”. Novamente,
na conclusão do famoso Código de Hamurabi (ca. 1750 a.C.), são lançadas maldições contra
aqueles que tentassem alterar o Código. Indubitavelmente esta psicologia era um fator que
inibia os escribas israelitas de multiplicar variantes textuais.

p 17 d Além disso, práticas escribais através do antigo Oriente Próximo refletem uma
atitude conservadora. W. F. Albright observou que “O estudo prolongado e profundo do
grande número de milhares de documentos relativos ao antigo Oriente Próximo prova que
documentos sagrados e profanos foram copiados com maior cuidado do que aquelas cópias
escribais feitas nos tempos greco-romanos”. Para verificar esta declaração, basta
considerarmos o cuidado com que foram copiados os textos das Pirâmides, os Textos de Coffin
e o Livro dos Mortos, muito embora nunca se pretendeu que fossem vistos por outros olhos
humanos. K. A. Kitchen chamou a atenção à ostentação de um escriba egípcio num colofão de
um texto datado em ca. 1400 a.C.: “[O livro] está completado de seu começo ao seu fim, tendo
sido copiado, revisado, comparado e verificado sinal por sinal”.

e Tendência para revisar o texto. Por outro lado, escribas, tencionando ensinar as pessoas
por meio da disseminação de um texto compreensível, sentiram-se livres para revisar a escrita,
a ortografia (i.e., grafia) e gramática, de acordo com as convenções de seu próprio tempo.
Albright disse: “Um princípio que nunca deve ser perdido de vista quando lidamos com
documentos do antigo Oriente Próximo é que, em vez de deixar arcaísmos óbvios na grafia e
na gramática, os escribas geralmente revisavam documentos literários e outros
periodicamente. Esta prática foi seguida com regularidade particular por escribas do
cuneiforme”. As muitas diferenças entre as porções sinóticas da Bíblia Hebraica sugerem
fortemente que aqueles que estavam investidos com a responsabilidade de ensinar sentiam-se
livres para revisar os textos (cf. 2Sm 22 = Sl 18; 2Rs 18.13–20.19 = Is 36–39; 2Rs 24.18–25.30 =
Jr 52; Is 2.2–4 = Mq 4.1–3; Sl 14 = 53; 40.14–18 = 70; 57.8–12 = 108.2–6; 60.7–14 = 108.7–14;
Sl 96 = 1Cr 16.23–33; Sl 106.1,47–48 = 1Cr 16.34–36; e os paralelos entre Samuel–Reis e
Crônicas). Estas formas variantes são melhor apropriadas como textos finais mutuamente
dependentes, às vezes envolvendo variantes literárias primárias, como também secundárias e
variantes transmissionais.
f A língua e o desenvolvimento da escrita. Da correspondência de Amarna, dos textos
ugaríticos e de outras evidências, podemos inferir com confiança razoável que antes do
período de Amarna (ca. 1350 a.C.) o hebraico possuía vogais breves finais que diferenciavam
casos com substantivos (veja 8.1) e distinguiam várias conjugações prefixadas (veja 29.4). A
gramática preservada pelos massoretas, porém, representa um períod posterior, depois destas
vogais terem caído.

g Da evidência epigráfica, parece que em seus estágios primitivos o texto foi escrito no
alfabeto proto-cananeu, como é encontrado em Serâbîṭ el-Khâdem. Em uma fase posterior
teria sido registrado nos caracteres hebraicos (um descendente dos caracteres proto-
cananeus), e ainda depois na forma dos caracteres aramaicos (um outro descendente dos
caracteres proto-cananeus, às vezes chamados de “caracteres quadrados”) conhecidos como
caracteres judaicos.

h A epigrafia também nos permite reconstruir a história da ortografia do texto. Antes de


1000 a.C., a prática fenícia do consonantismo fonético (ou seja, representar apenas p 18
consoantes) foi percebida. Logo após os arameus tomarem emprestado o alfabeto dos fenícios
(ca. 11° – 10° séculos a.C.), eles começaram a indicar as vogais finais usando consoantes que
eram homogêneas a elas, isto é, yod para ī final, waw para ū final e he para os sinais restantes.
(No TM às vezes he é usado para ō como também para ā esta ortografia arcaica foi substituída
em grande parte por waw para ō.) Consoantes usadas para indicar vogais são conhecidas como
matres lectiones (‘mães da leitura’). O mesmo sistema para a representação de vogais finais foi
usado em moabita e em hebraico do 9º século em diante. Em textos aramaicos, o sistema de
representação vocálica foi estendido esporadicamente às vogais mediais depois do 9º século.
Foi começado depois disso em hebraico. O processo coincidiu com as contrações de ditongos
em aramaico e hebraico (por exemplo, *aw > ô como *yawm > yôm), e como resultado yod e
waw adquiriram valores novos: yod para ê < ay, e waw para ô < aw; he depois passou a
representar apenas a vogal â. Eventualmente, outras vogais mediais longas vieram a ser
notadas, com yod usado para - ī/ē - e waw para -û/ō - (o último do histórico - ā - longo).

1.5.3 De 400 a.C. até 100 d.C.

a As mesmas tendências para preservar e revisar o texto, rotuladas por S. Talmon como
centrífugas e centrípetas, manifestam-se nos manuscritos e versões existentes no tempo da
formação do cânon e da padronização final do texto consonantal.

b Tendência para preservar o texto. A presença de um texto típico entre os textos bíblicos
de Qumran (ca. 100 a.C. a 130 d.C.) semelhante àquele preservado pelos massoretas, cujo
manuscrito primitivo existente data de ca. 1000 d.C., dá testemunho do empreendimento dos
escribas posteriores preservando o texto fielmente. Este tipo de texto deveria existir antes do
tempo de Qumran, e suas muitas formas arcaicas dão forte razão para acreditar que foi
transmitido num círculo de escribas dedicados à preservação do texto. Os estudos de M.
Martin mostram que os Rolos do Mar Morto revelam uma tendência escribal conservadora em
seguir o exemplar tanto no texto como na forma.
c De acordo com a tradição rabínica, os escribas tentaram manter o texto “correto”. O
próprio TM preserva alguns remanescentes do cuidado escribal primitivo com a preservação
do texto: (1) as quinze marcas extraordinárias que condenam as letras hebraicas assim
marcadas como espúrias ou então simplesmente chamam atenção para alguma característica
textual peculiar, (2) as quatro letras suspensas que podem indicar mudança escribal
intencional ou erro escribal devido à distinção defeituosa de guturais, e (3) talvez os nove nuns
invertidos que aparentemente marcam versículos considerados como tendo sido transpostos.

p 19 d Tendência para revisar o texto. Alguns escribas, “os revisores autorizados do


texto”, algum tempo depois do retorno do cativeiro babilônico, alteraram os caracteres, O
alfabeto hebraico foi substituído pelo alfabeto aramaico, o que ajudou na divisão de palavras
pela peculiaridade das formas das cinco letras finais; eventualmente uma forma distintamente
judaica da escrita aramaica evoluiu. Esta forma é chamada freqüentemente de “caractere
quadrado”. O processo de inserção das matres lectionis também continuou. Alguns poucos
manuscritos de Qumran estão em uma forma arcaica de escrita hebraica conhecida como
paleohebraico, mas a maioria dos textos bíblicos de Qumran e os posteriores estão na escrita
judaica. Há três classes de problemas de escrita: (a) aqueles que surgem de letras que se
assemelham umas às outras na escrita hebraica, mas não na escrita judaica, (b) aqueles que
surgem da transição entre os caracteres, e (c) aqueles que surgem de letras que se
assemelham umas às outras na escrita judaica. Problemas da classe b são o resultado direto de
mudança de caracteres, enquanto que os de classe a são um subproduto oculto dele. Devemos
acrescentar que os caracteres têm certas semelhanças constantes (‫ ר‬e ‫ ד‬são responsáveis pela
confusão em ambas as escritas) e eles mesmos assumem formas diferentes com o passar do
tempo e em várias mídias (por exemplo, pedra, papiro, barro).

e Mais significativamente, os escribas alteraram o texto por razões tanto filológicas quanto
teológicas. Eles o modernizaram substituindo formas e construções hebraicas arcaicas por
formas e construções de uma época posterior. Eles também uniformizaram o texto
substituindo construções raras por outras de ocorrência mais freqüente e suplementaram e
esclareceram o texto pela inserção de adições e interpolações de glosas oriundas de passagens
paralelas. Além disso, eles substituíram vulgaridades por eufemismos, alteraram os nomes de
falsos deuses, removeram as frases que amaldiçoavam a Deus e salvaguardaram o nome
divino sagrado ou tetragrammaton (YHWH), ocasionalmente substituindo formas no texto
consonantal.

f Conclusões. Como resultado destas mudanças intencionais, juntamente com as mudanças


não-intencionais (erros no sentido restrito), emergiram variadas recensões. Estas são
comprovadas pelo Pentateuco Samaritano e um texto típico similar em Qumran sem suas
leituras sectárias, por outros textos típicos variados entre os Rolos do Mar Morto, e pelas
versões antigas – a Septuaginta grega (LXX), e recensões e surrecensões (R, Áquila, Simacus,
Teodósio e Orígenes) baseadas nela, a Peshitta em Siríaco, a Vulgata em latim, e outros. A
relação entre textos típicos e textos genuínos em geral não é simples: alguns livros tiveram
mais de uma forma final e recensões se seguiram umas p 20 às outras. Localizar os tipos em
textos traduzidos pode ser particularmente difícil; a tradução de partículas é freqüentemente
uma ferramenta diagnóstica básica. O estudo destes materiais é designado por crítica textual.
1.5.4 De 100 até 1000 d.C.

a Padronização do texto. O testemunho rabínico reflete um movimento que se afasta de


uma pluralidade de recensões, em direção a uma estabilização do texto próxima ao começo do
primeiro século. As sete regras de hermenêutica bíblica compiladas por Hillel, o Ancião, (fl.
século 1º d.C.) na época de Herodes exigiu um texto inviolável, sacrossanto e autorizado. Os
comentários exegéticos e os princípios hermenêuticos dos tannaim (professores dos primeiros
dois séculos d.C.), notavelmente Zacarias ben ha-Kazzav, Nahum Gimzo, Rabino Akiva e Rabino
Ismael, pressupõem que neste período um único texto estável tinha atingido autoridade
incontestável acima de todos os outros. Justino Mártir (por volta do 2º século) reclamou que
os rabinos tinham alterado a venerável LXX para remover um braço essencial da propaganda
cristã, o que também demonstra que os rabinos desejavam um texto autorizado. Uma
recensão do Antigo Testamento grego (R) encontrada em Naḥal Ḥever, na região do Mar
Morto, e datada por seu editor, D. Barthélemy, em 70–100 d.C., confirma a reclamação de
Justino, em certo sentido. Barthélemy demonstrou que esta recensão serve como testemunha
do texto usado por Justino para debate. O caráter recensional do texto (também conhecido
como texto kaige) é evidente a partir do fato de que todas as modificações do texto grego
tradicional podem ser explicadas por uma preocupação em modelá-lo mais exatamente de
acordo com o texto hebraico que finalmente se cristalizou como massorético. (A convicção de
Justino de que as mudanças foram feitas somente por causa de controvérsia seria descartada.)
Barthélemy também notou que, ao lado de centenas de variantes deste tipo, há também
registros nos quais a recensão parte tanto da LXX quanto do TM, sugerindo que nestes
exemplos o texto hebraico no qual a recensão é baseada diferiu do texto hebraico recebido.

b O testemunho rabínico, combinado com a evidência de manuscritos, dá testemunho da


existência de um texto hebraico oficial como fonte legal logo após a destruição do Templo (70
d.C.), nos dias do Rabino Akiva. O domínio de um texto como esse usado pelos massoretas é
atestado amplamente pelos rolos bíblicos hebraicos descobertos em Masada (ocupada em 66–
73 d.C.) e em Wadi Murabbaʿat, como também pelo texto de Naḥal Ḥever (ocupado em 132–
35 d.C.). Nestes rolos faltam em grande parte até mesmo as variantes secundárias achadas nas
grandes recensões do Antigo Testamento grego atribuídas por tradição a Áquila (baseado em
R; ca. 120 d.C.), Simacus (ca. 180 d.C.) e p 21 Teodósio (ca. 180 d.C.). Estas versões gregas
menores eram tentativas suplementares para tornar a tradução grega da Bíblia mais próxima
do texto hebraico aceito por volta do século 2º d.C. Suas variantes, como também a maioria
daquelas encontradas na literatura rabínica posterior, nos Targuns (traduções aramaicas) e em
Jerônimo (a Vulgata Latina), não representam uma tradição vívida, mas são de igual modo
sobrevivências antedatando à recensão oficial ou corrupções secundárias após sua aceitação.
Com efeito, a evidência combinada apóia essencialmente o ponto de vista de Paul Lagarde de
que os manuscritos hebraicos medievais da Bíblia descenderam de um rolo mestre único
datado (não antes do que) no 1º século depois de Cristo.

c Assim, no curso do 1º século d.C., a mentalidade escribal havia mudado da posição de


preservação e esclarecimento do texto para a posição de preservação e padronização do texto.
Por volta de 100 d.C., os rabinos tinham concordado com uma recensão que, no caso do
Pentateuco, é conservadora e disciplinada. Sua adoção como texto oficial efetivamente
destruiu todas as linhas variantes da tradição no Judaísmo estabelecido. Possivelmente, a
necessidade de estabilizar o Judaísmo por meio de uma forte aderência à Lei depois da queda
de Jerusalém incitou estes esforços. Este texto não era, como Paul Kahle teorizou no início
deste século, o começo de uma tentativa para unificar um cânon que finalmente só foi fixado
no tempo de Maimônides (século 12 d.C.), depois de uma luta longa e amarga entre as escolas
rabínicas.

d A atividade dos massoretas (ca. 600 a 1000 d.C.). Entre 600 e 1000 d.C., escolas
constituídas de famílias de estudantes judeus surgiram na Babilônia, Palestina e notavelmente
em Tiberíades, no Mar de Galiléia, para salvaguardar o texto consonantal e registrar – por
meio de anotações diacríticas acrescentadas ao texto consonantal – as vogais, as cantilações
litúrgicas e outras características do texto. Até estes esforços, tais características
acompanhavam o texto oralmente. Estes estudiosos são conhecidos como masoretas ou
massoretas, designação possivelmente derivada da raiz (pós-bíblica) msr ‘passar, transmitir’.
No afã de conservar o texto, eles o cercaram colocando nas margens observações atinentes à
sua forma externa. Nas margens laterais eles usaram abreviações (Masorah parvum), nas
margens superior e inferior deram explicações mais p 22 detalhadas e contínuas (Masorah
magnum), e no fim (Masorah finalis), proveram classificação alfabética de todo o material
massorético. Somadas a essas anotações feitas diretamente no texto, preservaram
relativamente poucas variantes dentro da tradição consonantal pela inserção de uma leitura
no texto, chamada Kethiv, e outra na margem, chamada Qere. Outras leituras alternativas são
indicadas na margem por Səbir, uma palavra aramaica que significa ‘suposto’.

e Às vezes os massoretas podem ter usado daghesh em lugares inesperados para chamar a
atenção para leituras incomuns. Com a ajuda de sugestões providas pelas versões antigas, a
Masorah e outros códices, E. A. Knauf explicou o uso do Códice de Leningrado do daghesh em
‫( ָקצִיר‬Gn 45.6) como uma maneira de chamar a atenção para a aparente contradição com Gn
8.22; em ‫אבִי ֶֶּ֫מלְֶך‬
ֲ (Gn 26.1) como um dispositivo para insinuar a idéia, devido ao texto prévio,
que estamos lidando aqui com um outro Abimeleque, e em ‫( תֵּ אתֶ ה‬Mq 4.8) como uma marca
para sinalizar que a pontuação era incerta.

f Das três escolas rivais, uma no oriente e duas no ocidente, cada uma com seu próprio
sistema de notação diacrítica, a escola Tiberiana prevaleceu. A obra mais importante da escola
é um códice modelo preparado por Aaron ben Asher em cerca de 1000 d.C.; este códice foi
preservado na velha sinagoga de Aleppo até imediatamente após a Segunda Guerra Mundial,
quando foi removido para Jerusalém. O estudo contemporâneo do TM está baseado em uma
variedade de textos ligeiramente posteriores e similares ao Códice de Aleppo, notavelmente o
Códice de Leningrado. O estudo moderno anterior estava estabelecido em manuscritos
medievais posteriores e nas primeiras Bíblias impressas. Uma reimpressão fotográfica do
Códice de Aleppo está disponível, e uma edição da Bíblia baseada nele está em preparação em
Jerusalém. As edições geralmente disponíveis do TM só diferem dele em certos materiais
fonológicos secundários, envolvendo alguns acentos e algumas vogais reduzidas, e a
pontuação de umas poucas formas excêntricas.

1.6 O Texto Massorético


1.6.1 Característica

a A história apresentada acima coloca em nítido relevo duas características fundamentais


do TM. Primeiramente, ele preserva uma das várias recensões que emergiram na era pós-
exílica. Em segundo lugar, ele é um texto composto, consistindo de (a) um texto p 23
consonantal original, freqüentemente escrito sem matres lectiones, (b) letras vocálicas, (c)
adições massoréticas dos pontos vocálicos e (d) marcas acentuais ou de cantilação. Vejamos
cada um destes pontos mais de perto.

1.6.2 Consoantes

a Não se pode acentuar em demasia que, embora o alfabeto para a preservação das
consoantes estivesse em evolução durante os dois primeiros períodos descritos acima (1.5.2–
3), o registro massorético consonantal seja arcaico. A evidência do material epigráfico,
especialmente no que tange ao hebraico inscricional e aos congêneres do hebraico bíblico da
Idade do Ferro, põe este assunto fora de dúvida. A menos que o texto tivesse sido transmitido
fielmente, tanto o trabalho de filólogos de semítico comparativo como o dos eruditos bíblicos
que tentam datar o texto (veja 1.4.2) seriam impossíveis.

b Não obstante, os escribas não só mudaram o alfabeto (essencialmente, a forma das


consoantes), mas ocasionalmente as próprias consoantes. Eles agiram assim tanto
intencionalmente, uniformizando-o e modernizando-o (1.4.1), como não intencionalmente. As
mudanças não intencionais são de dois tipos: erros no sentido mais estrito do termo e
enganos. Podemos classificar os primeiros como problemas com o TM como registrado e os
últimos como problemas com o TM como um registro.

c Problemas com o TM como registrado. Todos os críticos textuais concordam que o TM


contém erros em todas as suas camadas compostas. Variantes textuais verdadeiras raramente
envolvem matérias de preocupação direta do gramático, e a discriminação entre tais variantes
é uma tarefa mais crítica do que puramente lingüística. Erros desta sorte são ou visuais ou
auriculares. Eles são bem conhecidos daqueles que já fizeram muitas cópias à mão. Um escriba
pode omitir uma palavra ou grupo de palavras, às vezes por nenhuma razão e às vezes por
razões visuais. Uma seqüência repetida de letras (idênticas ou quase idênticas) pode fazer com
que o olho salte da primeira ocorrência para a segunda (haplografia); freqüentemente em
hebraico, as repetições provocadas envolvem palavras com letras finais semelhantes
(homoioteleuton), embora letras iniciais semelhantes possam produzir o mesmo efeito
(homoioarkhton). Similarmente, um escriba pode repetir uma palavra ou grupo de palavras
(ditografia), um outro tipo de erro visual. Erros auriculares são também de interesse lingüístico
porque podem reveler mudanças fonológicas, levando, por exemplo, à formação de
homônimos dentro da língua. Porém, tais lapsos do ouvido são difíceis de ser estudados.

d Problemas com o TM como um registro. Já chamamos a atenção para a tendência de


modernizar e uniformizar o texto. Certos problemas surgem porque a tradição não
acompanhou o ritmo das mudanças lingüísticas. Um exemplo extraído do inglês pode
esclarecer este tipo de problema. Em manuscritos contendo inglês medieval posterior, a letra y
e a letra agora obsoleta þ (“thorn”, para th) tornaram-se semelhantes, e a palavra “the” era
escrita de tal maneira que podia ser confundida com ye ou ye. Esta forma breve foi retida em
formas primitivas de impressos, mas os leitores dos manuscritos e dos primeiros livros
impressos sabiam que o artigo era “the” e não “ye”. Confusões modernas desta forma breve
levaram à palavra pseudo-arcaica “ye”, encontrada em letreiros de p 24 lojas, por exemplo,
‘Ye Olde Junke Shoppe’. Assim, após centenas de anos desde o desaparecimento da letra ϸ da
ortografia inglesa, muitas pessoas bem educadas acreditam que o inglês um dia teve um artigo
pronunciado ‘ye’.

e Tais complexidades morfológicas também afetam o hebraico. O formante gramatical


arcaico chamado mem enclítico, de função incerta (veja 9.8), foi geralmente reinterpretado
pelos escribas posteriores como um marcador de plural; a ortografia foi revisada para fazer a
adaptação, então o ‫ –מ‬se tornou (entre outras coisas) ‫–ים‬, e a tradição oral foi remodelada.

f As letras vocálicas do TM. Observamos acima que as letras vocálicas foram introduzidas
posteriormente nos textos antigos, primeiramente apenas para vogais finais longas e
posteriormente para vogais mediais longas. Estas letras foram adicionadas esporádica e
inconsistentemente. O TM reflete todos os estágios desta prática. F. M. Cross e D. N.
Freedman colocam a questão da seguinte forma:

Embora esforços persistentes foram feitos para padronizar a ortografia da


Bíblia, eles não lograram êxito completo, e a clara evidência dos primeiros
estágios do desenvolvimento da grafia hebraica foi preservada no texto.
Assim, a Bíblia Hebraica que a tradição nos legou é, na realidade, um
palimpsesto; subjacente ao texto visível, foi registrada a variedade de
costumes ortográficos das gerações mais antigas.

A ausência de letras vocálicas, especialmente no período mais primitivo do texto,


indubitavelmente foi uma fonte de ambigüidades e pode ter contribuído para o erro textual.
Por exemplo, a seqüência de letras no TM de Êx 15.3

‫יהוה איש מלהמה‬


‫יהרה שמו‬
originalmente deve ter aparecido da seguinte forma:

‫יהואשמלהמיהושמ‬
É fácil constatar que um escriba cujo apego à tradição oral fosse fraco, por exemplo,
pudesse ler ‫ שֵּם‬em vez de ‫שמֹו‬
ְ ou fizesse uma divisão errada da seqüência ‫יהוא‬, escrevendo
‫הּוא‬ e transferindo o ‫י‬ para a palavra prévia. (O espaçamento de palavras ou, mais
comumente, os divisores de palavras, não era regularmente usado na escrita alfabética
primitiva.) Em Êx 15.1, o TM apresenta a seqüência ‫גָא ֹה גָָאה‬, enquanto que o Pentateuco
Samaritano registra ‫;גוי גאה‬ a revisão ortográfica errônea é responsável em parte pela
variação samaritana.
1.6.3 Vocalização

a A relativa uniformidade do hebraico bíblico resulta primariamente de dois fatores:


apresentação amplamente consonantal da língua através de sua história pré-massorética e sua
representação pelos massoretas tiberianos. A representação consonantal, com ou sem matres
lectionis, efetivamente “cobre” variações vocálicas em ambos os níveis, sincrônico p 25 e
diacrônico. Os fonemas consonantais, aqueles representados pela maioria das letras, são
precisamente aqueles mais estáveis e não tendentes à mudança, ao passo que os fonemas
vocálicos, aqueles mais suscetíveis à mudança, não são graficamente representados à parte do
uso limitado das letras vocálicas. Ainda mais significativamente, a tradição tiberiana esforçou-
se por rechaçar a variação com o intuito de produzir um texto normativo. Nossa expectativa de
que as vogais sofreram mudanças internas em ambos os sistemas fonológico e morfológico
pode ser verificada. Contudo, a vocalização do TM representa essencialmente uma tradição
antiga e confiável. Aqui também devemos exibir a tensão que uma vez mais leva à postura de
conservadorismo cauteloso ante o TM.

b Evidência de mudança. O tipo de mudança fonológica que ocorreu no hebraico bíblico


antes que ele fosse padronizado no TM pode ser ilustrado a partir do inglês. Em bases
históricas, a palavra ‘wind’ deveria ser pronunciada wand, para rimar com ‘find’ e ‘bind’, mas
desde o século 18, ‘wind’ tem sido pronunciada wand, para rimar com ‘thinned’ e ‘sinned’.
Tendo em vista que a forma mais antiga ocorre na poesia (e de fato é preservada no uso
poético muito tempo após o seu desaparecimento da língua falada), os leitores podem
facilmente reconstruir sua forma, mesmo se forem ignorantes no que tange ao
desenvolvimento histórico da palavra.

c A fonologia hebraica mostra duas mudanças para as quais o TM provê evidência


posterior. Uma afeta o a breve em sílabas fechadas no início de palavras; no TM, a em tal
posição é trocado por i, mas, no tempo da LXX, a troca não havia ocorrido. Assim, temos na
‫שמְשֹון‬
LXX (e em outros lugares) Sampsōn, mas no TM ִ ; na LXX, a irmã de Moisés é Mariam
(de onde vem Maria), mas o TM a chama de ‫מ ְִרי ָם‬. A segunda mudança envolve anaptixe,
inserção de uma vogal para quebrar um agrupamento consonantal; a vogal usada em hebraico
usualmente é seghol, e os substantivos que exibem este tipo de mudança são chamados de
segholados. O processo aconteceu depois de Áquila e de Orígenes, que registram os
segholados na forma CVCC, e antes de Jerônimo e do TM, que usaram a forma CVCVC. Assim,
Orígenes tem sethr (σεθρ) para o TM ‫ ֵֶּּ֫סתֶ ר‬, enquanto Jerônimo tem aben e qedem, mais ou
menos igual ao TM ‫ ֶֶּ֫אבֶן‬e ‫ ֶֶּ֫קדֶ ם‬.

d O a > i trocado em sílabas fechadas no início de palavras e os segholados derivados de


anaptixes são desenvolvimentos claramente diretos. Outra evidência que indica que o TM
reflete desenvolvimentos pós-bíblicos é complexa. Algumas questões envolvem (a) a
diferenciação de wə wa (Orígenes difere do TM), (b) a dupla pronúncia das letras
“begadkephat” (a evidência externa é confusa) e (c) o valor ou valores de qâmes. Nestes casos
e em outros assuntos menores, o tratamento no TM está aberto ao escrutínio.
e Além de mudanças acidentais na transmissão da tradição oral, a corrupção do texto
consonantal pode estimular a tradição oral correspondente a ajustar-se à nova leitura. No
Salmo 73.7, o TM diz ‫יָצָא ֵּמ ֵֶּּ֫חלֶב עֵּינ ֵּ֑מֹו‬, que parece significar ‘Os olhos deles saem (ou
tornam-se protuberantes?) da (i.e., por causa da?) gordura’; às vezes isto é tomado como ‘A
gordura tapa seus olhos’ (assim traduz a NJPS). As versões sugerem, todavia, que a leitura
original era ‫עונמו‬, ou seja, ‫עֲֹונָמֹו‬, ‘Suas iniqüidades saem da gordura’, a saber, ‘Suas
iniqüidades procedem de (corações engordados)’. A confusão de ‫ו‬e‫י‬é p 26 um lugar
comum; após um erro como este cometido aqui, a tradição oral ajustou-se a ele, produzindo a
leitura do TM com ‘olho’ como um sujeito do verbo ‫‘ יצא‬sair’.

f Durante os estágios mais fluidos do texto, podemos também esperar confusão entre
formas verbais tais como I-yod, onde o yod inicial em um nível puramente gráfico é ambíguo
entre as conjugações prefixos e sufixos. Pares do TM como ‫שב‬
ָ ָ‫י‬ e ‫שב‬
ֵּ ֵּ ‫י‬ ou ‫י ָדַּ ע‬ e ‫י ֵּדַּע‬
requerem atenção cuidadosa. O artigo definido “oculto” em preposições inseparáveis também
ilustra o problema (cf. ‫ לְָאדָ ם‬em Gn 2.20).

g A validade do TM. A tradição massorética, incluindo os pontos vocálicos, representa os


sistemas gramaticais globais durante o período quando a literatura bíblica estava sendo criada.
Podemos dizer que, a despeito dos problemas que temos revisto, devido a um corpo
considerável de evidência, tudo indica que a função de transmissão da tradição foi levada a
sério e que os dados lingüísticos do TM não poderiam ter sido fraudados.

h Sobre os labores que culminaram nos manuscritos tiberianos, considere a seguinte


passagem talmúdica que evidencia a preocupação pela exatidão:

Está escrito: “Porque Joabe e todo o Israel permaneceram ali até que ele
tivesse cortado todos os varões em Edom [1Rs 11.16]”. Quando Joabe veio
perante Davi, Davi disse-lhe: “Por que agiste assim?” Ele respondeu: “Porque
está escrito: ‘Tu apagarás os machos [‫ ]זְכַּר‬de Amaleque [Dt 25.19]’ ”. Davi
disse: “Mas nós lemos ‘a memória [‫ ְֶּ֫זכֶר‬no TM] de Amaleque’ ”. Ele replicou:
“Eu fui ensinado a dizer ‫”זְכַּר‬. Ele [Joabe] então foi ao seu mestre e perguntou:
“Como tu me ensinaste a ler?” Ele replicou: “‫”זְכַּר‬. Logo após ele puxou sua
espada e ameaçou matá-lo. “Por que estás fazendo isto?”, perguntou o
professor. Ele respondeu: “Porque está escrito: ‘Maldito aquele que faz a obra
da Lei negligentemente’ ”.

Esta anedota sugere que se esperava dos mestres em Israel que eles passassem fielmente
a vocalização recebida.

i Um corpo complexo de evidências indica que o TM não poderia, de um modo sério ou


sistemático, representar a reconstrução ou fraude dos dados. A primeira pista de que os
massoretas e seus predecessores eram preservadores e não inovadores está na história do
hebraico. Ao tempo da comunidade de Qumran, o hebraico bíblico não era mais uma língua
falada; o hebraico mishnaico e o aramaico eram as línguas vernaculares da Palestina. Os
escribas estavam lidando com material lingüístico que eles entendiam bem, p 27 mas não
podiam usar com espontaneidade, da mesma forma que não podemos falar o português da
época de D. Dinis.

j Alguns dos estudantes antigos posteriores da Escritura foram cuidadosos o suficiente com
o texto bíblico para preservar sinais com que estavam lidando, ao trabalharem com um texto
próximo ao TM. O grego rude de Áquila reflete o hebraico tão de perto quanto possível; em
sua miscelânea ele provê freqüentemente palavras hebraicas e formas de vocalização
próximas àquelas do TM (exceto para os segholados; veja 1.6.3c); mesmo as palavras raras são
dadas em uma forma próxima às do TM.

k Jerônimo (346–420) é outro estudante cuidadoso do texto hebraico de seu próprio


tempo, não estando fora do conservadorismo piedoso de Áquila, mas muito fora do zelo
filológico: “Quase que desde o berço”, ele conta, “gastei meu tempo entre os gramáticos,
retóricos e filósofos”. A obra de Jerônimo, com sua maior parte escrita após ele ter aprendido
hebraico, apóia o TM. Mais impressionante aqui é o contraste entre sua versão anterior do
saltério, baseada na LXX, e a posterior, baseada no hebraico. Com freqüência, a LXX representa
o mesmo texto consonantal do TM, mas não com a mesma vocalização. Considere o Salmo
102.24–25a. As consoantes do TM são:

‫ ענה בדרְך כחו‬Qere] ‫[כחי‬


‫קצר ימי׃ אמר אלי‬
No Salmo 101.24, a LXX registra:

ἀπεκρίθη αὐτῳ ἐν ὁδῷ ἰσχύοζ ἀυτοῦ

τὴν ὀλιγότητα τῶν ἡμερῶν μου ἀνάγγειλόν μοι.

Ele lhe respondeu no caminho de sua força:

A brevidade de meus dias apresenta-me.

que é traduzido no saltério galicano:

Respondit ei in via virtutis suae:

Paucitatem dierum meorum nuntia mihi.

Estas duas versões refletem um texto hebraico como este, tomando as duas últimas palavras
da primeira linha como uma cadeia construta:

‫ָע ֶָּ֫נה[ּו] בְדֶֶּ֫ ֶרְך כ ֹחֹו‬


‫קֹצֶר יָמַּי ֱאמ ֹר אֵּ לַּי‬
Em seu saltério posterior, “Juxta Hebraeos”, Jerônimo traduz:
24
Adflixit in via fortitudinem meam
adbreviavit dies meos
25
Dicam, Deus meus.…

p 28 Ele quebrou minha força no caminho,

ele abreviou meu dias.

Eu disse: Meu Deus …

Esta versão corresponde ao TM,

‫ ִענָה בַּדֶֶּ֫ ֶרְך כֹחִי‬24


‫ְקצַּר י ָמָ ָֽי׃‬
… ‫ אֹמַּר אֵּ לִי‬25
O texto da LXX difere do TM em (a) registra ʿnh (Qal) ‘responder’, em vez de ʿnh (Piel)
‘humilhar’, (b) tomando bdrk kḥy/w como um construto, (c) a vocalização de qṣr, ʾmr, e ʾly,
como também na (d) divisão das linhas poéticas. Nosso ponto aqui não é que o TM e Jerônimo
estejam corretos, embora provavelmente eles estejam, mas que eles concordam. A
vocalização errada e freqüentemente improvável que a LXX faz do TM sugere que foi realizada
por judeus alexandrinos que não possuíam uma tradição de vocalização fixa e confiável.

l Complementando as evidências antigas para a validade geral do TM, há evidência


moderna, sistemática e incidental. Em geral, a gramática do TM ajusta-se admiravelmente ao
arcabouço da filologia semítica, e este fato garante o trabalho dos massoretas. Quando na
década de 1930 Paul Kahle anunciou sua teoria de que os massoretas fizeram inovações
massivas, Gotthelf Bergsträsser observou sarcasticamente que eles devem ter lido a gramática
semítica comparativa de Cari Brockelmann para ter alcançado formas tão completamente
alinhadas com reconstruções históricas. Mais ainda, há numerosos padrões individuais de
divergências dentro do TM que refletem traços fonológicos e morfológicos de hebraico
conhecidos de outras fontes. Contudo, além disso, numerosas singularidades isoladas no TM
foram confirmadas por materiais só descobertos neste século.

m A evidência mostra que a língua do TM representa a gramática do hebraico usado


durante o período bíblico. Nossa posição em relação ao TM está baseada em confiança
cautelosa. O erro deve ser demonstrado em vez de assumido; e o ônus da prova repousa sobre
o crítico.

1.6.4 Acentuação

a Valendo-se da tradição oral, os massoretas acrescentaram ao texto os sinais acentuais


que dão direções para sua execução. O canto, quer dizer, a entonação do texto com pausas
apropriadas, acrescenta dignidade, solenidade, beleza e clareza à leitura. Cada sinal representa
grupos de notas mediante as quais as palavras do versículo são cantadas. A maneira de leitura
do texto ainda pode ser ouvida nas comunidades judaicas de nossos dias. As cantilenas
tradicionais antigas dos católicos romanos, dos gregos ortodoxos p 29 e das igrejas sírias
estão relacionadas. Todos utilizam uma “nota de recitação básica” (e motivos ou tropos
relacionados) que comporta o tamanho de cada cláusula. O sistema de acento pontua o texto
e é, então, uma característica muito importante em sua análise sintática; apesar do termo
acento, o sistema não se refere primariamente ao grau de intensidade ou duração das
palavras. Esta característica da gramática hebraica é tão importante para a compreensão que
as fontes judaicas medievais prestavam mais atenção a ela do que ao estabelecimento da
pronúncia correta de palavras.

b Os acentos no TM são de dois tipos: disjuntivos e conjuntivos. Os acentos disjuntivos,


intitulados eufemisticamente “senhor ou mestre” por eruditos mais antigos, marcam o
comprimento das pausas desde as finais até as várias nuanças de pausas menores; os
conjuntivos, intitulados “servo ou escravo”, controlam o texto até o disjuntivo. De acordo com
o estudo abrangente dos acentos por W. Wickes, os disjuntivos marcam uma contínua
“dicotomia” do verso, quer dizer, eles dividem unidades maiores, começando com o próprio
verso (marcado por silluq fechando o verso), e indo sucessivamente em semi-unidades
menores seguindo uma base sintática (ou lógico-sintática). Uma unidade que termina com um
disjuntivo de um grau é dividida em metades, e suas metades por sua vez são divididas em
unidades menores por outros sinais disjuntivos, até que o verso inteiro esteja dividido em
simples palavras ou grupos de palavras unidas por conjuntivos. Israel Yeivin agrupa os acentos
disjuntivos principais como segue: “Geralmente atnaḥ divide o verso, zaqef as metades dos
versos, pashṭa ou revia a unidade que termina com zaqef. e assim por diante”.

c Os sinais acentuais no TM também preservam a tradição. O Talmude menciona ‫ּפסקי‬


‫“ טעמים‬as pausas de ṭəʿamîm’ que eram aprendidas como uma parte normal do aprendizado
do texto. De acordo com S. Morag, alguns sinais de pontuação foram acrescentados ao texto
antes dos sinais vocálicos, e E. J. Revell sugere que a pontuação foi a primeira característica
depois que o texto consonantal se tornou estabilizado na tradição bíblica judaica. Revell
encontrou a evidência mais antiga para o sistema de acento hebraico no espaçamento de um
texto primitivo da Septuaginta (século 2º d.C.) que corresponde quase exatamente aos acentos
na Bíblia Hebraica. Ele postula a existência de um sistema de acentos “siro-palestino” primitivo
que marcava a sintaxe de um texto de modo simplificado, que concorda na maior parte com o
sistema mais complexo do TM; formas pausais do TM representam uma manifestação do
sistema mais simples. O estudo formidável de Morag sobre as tradições da comunidade
judaica iemenita também p 30 reabre a questão da validade do sistema massorético de
entonação do texto. A variedade de pronúncias entre as várias comunidades judaicas sinaliza
que se deve ser cauteloso na absolutização de qualquer sistema acentual, embora o extremo
de negligenciar a filologia tradicional não seja justificado. No momento, é melhor considerar os
acentos como uma testemunha primitiva e relativamente confiável para uma interpretação
correta do texto.
p 31 2
História do Estudo da Gramática Hebraica
2.1 Começos (século 10 d.C.)

2.2 Estudos Judaicos Medievais (séculos 11 a 16)

2.1 Período Criativo (1000–1150)

2.2 Período de Disseminação (1150–1250)

2.3 Período de Declínio (1250–1550)

2.3 Estudos Hebraicos Cristãos (séculos 16 ao meado do 18)

3.1 Primeiros Estágios (1500–1550)

3.2 Desenvolvimento (1550–1750)

2.4 O Método Comparativo (meado do século 18 ao meado do século 19)

2.5 O Método Histórico-Comparativo (meado do século 19 ao meado do século 20).

2.1 Começos (século 10 d.C.)

a Próximo ao meado do século 10 d.C., Saadia ben Joseph (882–942) iniciou o estudo
lingüístico do hebraico com dois livros escritos em árabe. Este versátil erudito judeu,
geralmente conhecido como Saadia Gaon, após seus serviços como deão ou gaon da academia
judaica de Sura, na Babilônia, é mais famoso por causa de sua tradução da Bíblia Hebraica para
o árabe. Seu Agron (Vocabulário) lida com a lexicografia e o Kutub al-Lugha (Livros sobre a
Língua [Hebraica]) trata da gramática. As obras de Saadia foram p 32 totalmente perdidas há
muitos séculos, mas o conhecimento delas chegou até nós por seus sucessores, especialmente
por meio dos escritos de Abraham ibn Ezra, que reverenciava Saadia como o primeiro
gramático de hebraico e “o principal porta-voz de todos os tempos” de tais estudos. Profiat
Duran conta-nos que Saadia escreveu três obras de gramática que não sobreviveram no seu
próprio tempo. As obras de Saadia foram lidas e estudadas durante o brilhante período
criativo da gramática hebraica e serviram para transferir a atenção dos intelectuais judeus dos
estudos talmúdicos para os estudos lingüísticos. Os eruditos modernos ainda o consideram
como o pai de nossa disciplina. As obras gramaticais de Saadia apresentaram vários elementos
que são básicos para qualquer gramática moderna, por exemplo, os paradigmas para os graus
verbais Qal e Hiphil além de cuidadosas distinções entre várias classes de som. O que motivou
Saadia dar à luz nossa disciplina?

b A pré-história dos estudos gramaticais hebraicos é escassa. É verdade que nos materiais
talmúdicos e midráshicos os rabinos fizeram observações gramaticais ocasionais, por exemplo,
que a terminação‫ –ָָ ה‬em formas como ‫ ִמצ ְֶַּּ֫ריְמָה‬e ‫ ֶּ֫חּוצָה‬indicam direção e se colocam no
lugar de um ‫ ל‬prefixado, como em ‫מצ ְֶַּּ֫רי ִם‬
ִ ‫ש ְל‬
ָ e ‫לְחּוץ‬, e que ‫ כִי‬tem quatro significados
diferentes: ‘se’, ‘para que não’, ‘de fato’ e ‘porque’. Além disso, uma quantidade considerável
de material gramatical é encontrada em Sefer Yeṣirá, uma obra cabalística do início da era
medieval. Mas estes comentários esporádicos não proveram nem base e nem motivação para
a obra de Saadia e de seus sucessores. Pelo contrário, o impulso para a descrição das regras da
língua hebraica adveio dos seguintes fatores: (1) o argumento de que a gramática é básica para
a compreensão da literatura escriturística, (2) a ameaça da seita caraíta, (3) a obra fundacional
dos massoretas, (4) o exemplo das gramáticas árabes e (5) o contínuo uso literário do
hebraico, especialmente na poesia devocional. Vamos considerar cada um destes fatores em
detalhes.

c Os primeiros gramáticos judeus defenderam sua atividade com o argumento filosófico e


teológico de que o conhecimento apropriado das Escrituras Hebraicas depende da gramática;
ela é a ferramenta exegética básica. David Tene observou:

Por volta do fim do primeiro milênio d.C., escrever acerca de temas lingüísticos
tornou-se um novo fenômeno na literatura judaica, considerada por muitas
pessoas importantes como vã e sem sentido. Portanto, em suas introduções,
os autores [de obras gramaticais] discutem os fatores que os estimulavam a
escrever suas obras lingüísticas. Eles buscavam provar a seus leitores que é
uma incumbência imposta aos judeus proceder à investigação de sua língua, e
seus argumentos incluem os seguintes pontos: (1) a língua é o meio de todo
discernimento e a lingüística é o meio de toda a investigação e sabedoria; (2) o
cumprimento dos mandamentos depende do entendimento da palavra escrita
e, por sua vez, o próprio entendimento da língua é impossível sem o auxílio da
lingüística.

Tais argumentos ainda são convincentes e inevitáveis para qualquer comunidade que
constrói sua fé sobre uma escritura.

p 33 d A seita caraíta, que apareceu por volta do fim do século 8º rejeitava as tradições
rabínicas e insistia no estudo diligente das próprias Escrituras como sendo a base para o
Judaísmo. O movimento, que fez sérias incursões na academia judaica da Babilônia, incitou
tanto amigos como adversários a um estudo mais aprofundado do texto bíblico e sua língua.
Saadia, como cabeça dessas academias, estava diretamente envolvido e na liderança do
contra-ataque rabínico. Mais especificamente, o caraísmo incitou-o a escrever Kitāb al-Sabʿîn
Lafẓa al-Mufrada (O Livro das Setenta Palavras Isoladas), um breve ensaio lexicográfico em
árabe que trata de algumas das hapax legomena da Bíblia.

e Os massoretas, cuja obra havia culminado no século 10 com a escola de Ben Asher em
Tiberíades, estavam preocupados não em descrever a língua, mas com o registro do texto.
Todavia, sua atividade de vocalização do texto e de comentário do mesmo na massorá auxiliou
na preservação de um corpo essencialmente oral de tradição e formou a base para as
primeiras descrições gramaticais. Concernente à relevância do texto pontuado, Tene escreve:
É bastante surpreendente que o aparecimento inicial da literatura lingüística
dos judeus surgisse tão tarde. Há, contudo, acordo geral de que em semítico,
este tipo de discurso metalingüístico não poderia ter começado antes da
invenção dos pontos vocálicos.

Acerca das contribuições mais específicas dos massoretas para a gramática hebraica,
Yeivin observa:

Algumas das terminologias usadas na massorá foram apropriadas pelos


gramáticos. Termos como masculino, feminino, singular, plural, os nomes das
letras, as vogais e os sinais de acento, e outras características da pontuação…
foram todos usados pelos massoretas e apropriados pelos gramáticos… Desde
que os massoretas compararam todas as ocorrências de palavras particulares,
suas listas formaram a base para as observações gramaticais sobre mudanças
no padrão vocálico: tanto as mudanças condicionadas, tais como mudanças de
formas em situações contextuais ou pausais, mudanças em palavras com ou
sem maqqef, com ou sem artigo definido, com waw simples ou waw
consecutivo, etc., como as variações não-condicionadas na vocalização da
palavra.

Os massoretas tinham uma teoria lingüística sofisticada, mas com uma expressão
subdesenvolvida; os gramáticos, dando o passo de fazer a teoria explícita, foram capazes de
avançá-la porque poderiam avaliar lacunas e inconsistências.

p 34 f As gramáticas árabes dos eruditos muçulmanos proveram um impulso imediato e


um modelo para um trabalho similar com a língua hebraica. A influência dos gramáticos árabes
sobre Saadia Gaon, que escreveu em árabe, é clara. Como eles, por exemplo, ele classifica as
palavras da língua em três divisões: substantivos, verbos e partículas. Embora o hebraico fosse
o foco de seu estudo, o árabe era a língua da ciência no século 10° no Oriente Próximo, no
Norte da África e na Espanha. Na segunda metade deste século frutífero, alguns estudos
lexicais hebraicos produzidos na Espanha foram escritos em hebraico, mas a maior parte das
obras gramaticais durante os próximos dois séculos foi escrita em árabe.

g Finalmente, na introdução de Agron, Saadia informa seus leitores que, estando


perturbado pelo estilo de vários poetas religiosos contemporâneos, autores de piyyûṭîm, e
pela confusão de categorias gramaticais em seus poemas, ele elaborou sua obra para guiar os
escritores hebreus de seus dias no correto uso da língua.

h Um outro pioneiro em lingüística hebraica é Menaḥem ibn Saruq (ca. 910–ca. 970), que
leu os comentários de Saadia. Ele escreveu a Maḥberet, primeiro dicionário completo de
hebraico e a primeira obra lingüística a ser escrita em hebraico. Ela foi severamente criticada
em questões lingüísticas por um discípulo de Saadia, Dunash ben Labraṭ (ca. 920–990), cuja
família veio de Bagdá, embora ele mesmo tenha nascido em Fez e tenha se instalado em
Córdoba. Dunash e Menaḥem mediaram o aprendizado de Saadia e outras características do
judaísmo babilônico para a Espanha. Leslie McFall convincentemente observa: “A erudição
judaica na Espanha deveu não apenas sua pronúncia (sefardita), mas seus começos ao
judaísmo babilônico”.
2.2 Estudos Judaicos Medievais (séculos 11 a 16)

2.2.1 Período Criativo (1000–1150)

a O período que se estende desde o século 10 até ao meado do século 12 é designado por
David Tene como o “período criativo”. Yehuda Ḥayyuj (ca. 940–ca. 1010), um discípulo de
Menaḥem, expôs científica e sistematicamente a teoria de que todas as palavras hebraicas
têm uma raiz trirradical, uma noção que ele adatou dos gramáticos árabes. Os gramáticos
estavam agora na posição de formular regras de pesquisa para entender fenômenos como o
num assimilado e o dagesh compensatório, bem como as várias características dos verbos
fracos, aqueles com uma ou mais das letras ‫א ה ו י‬ na raiz. Foi Ḥayyuj que adotou o
incômodo ‫ּפעל‬ como verbo paradigmático, oriundo das gramáticas árabes, e introduziu a
designação dos três radicais da raiz por Pe (primeiro radical), Ayin (segundo radical) e Lamedh
(terceiro radical).

b Os sucessores de Saadia prosseguiram seus estudos com zelo e profundidade, como


ilustrado pela famosa literatura de “objeções” e “réplicas” entre o brilhante gramático p 35
Jonah ibn Janāḥ (Abūal-Walīd Marwān ibn Janāḥ, ca. 990–1050) e o estadista, militar poeta
Samuel ha-Nagid (993–1056). William Chomsky recapitulou a controvérsia:

Samuel ha-Nagid, aparentemente despertado pela crítica de Ibn Janāḥ acerca


de algumas opiniões de seu professor, Yehudah Ḥayyuj, enviou um mensageiro
de Granada a Saragossa, lugar de residência de Ibn, incumbido da tarefa de
desafiar Ibn Janāḥ para um duelo oral acerca de alguns assuntos gramaticais e
da exposição pública da “falácia” de suas teorias. Ao chegar em Saragossa, o
mensageiro hospedou-se na casa de… um amigo de Ibn Janāḥ. Uma recepção
pública foi preparada em honra ao visitante, para a qual Ibn Janāḥ foi
convidado. Este último, sem suspeitar do principal propósito da reunião,
aceitou o convite. Durante a recepção, o visitante começou a persuadir Ibn
Janāḥ gradual e sutilmente para uma discussão. Algumas das questões
levantadas por ele foram prontamente resolvidas e adequadamente
respondidas por Ibn Janāḥ. Mas outras se seguiram e Ibn Janāḥ, por estar
despreparado para este bombardeio de perguntas, ficou estonteado e
prometeu respondê-las em alguma ocasião futura.

Assim ele fez e enviou sua resposta ao visitante. Este último, todavia,
desdenhosamente observou que seria mais sábio para Ibn Janāḥ reter sua
réplica até que o livro de Nagid fosse publicado, onde iria encontrar críticas
ainda mais severas apontadas contra ele. Ibn Janāḥ recusou-se a fazer isto. Ele
publicou sua réplica na forma de livro e a chamou de Kitab at-Taswiya [O Livro
de Reprovação]. Após a publicação do ataque de Nagid contra ele, Ibn Janāḥ
revidou com um violento contra-ataque em um livro que ele intitulou Kitab at-
Tashwir [O Livro da Vergonha].

c A sofisticação da gramática hebraica neste tempo pode ser percebida pelos assuntos que
estavam sendo discutidos: o Qal passivo, um tema examinado independentemente em tempos
modernos por Böttcher e Barth (veja 22.6), o uso do termo Inphial para formas Niphal
transitivas, etc. Tene escreve sobre essa literatura: “O estudo da língua nunca atingira
distinções tão requintadas e refinadas como aquelas encontradas na controvérsia que se
desenvolveu em tomo das obras de Ḥayyuj na época de Ibn Janāḥ e Samuel ha-Nagid”. Acerca
das últimas obras de Ibn Janāḥ, escritas em árabe como todos os seus livros o foram, a mais
importante é Kitâb al-Tanqīḥ (Hebraico, Sepher ha-Diqduq, O Livro da Investigação,
Detalhada). Este consiste de duas partes: Kitāb al-Lumaʿ (gramática) e Kitāb al-Uṣūl (um
dicionário). Tene fala com entusiasmo exagerado sobre o grande Kitāb:

Esta obra em duas partes, com escritos de Ḥayyuj e as obras menores de Ibn
Janāḥ, forma a primeira descrição completa do hebraico bíblico, e nenhuma
obra similar – comparável em objetivo, profundidade e precisão – foi escrita
até os tempos p 36 modernos. Esta descrição constitui o auge do pensamento
lingüístico em toda literatura [gramatical medieval].

Ele resume assim o assunto: “Os autores deste período são os grandes criadores da
lingüística hebraica”.

2.2.2 Período de Disseminação (1150–1250)

a O século que se seguiu à metade do século 12 foi um período de disseminação,


diretamente estimulado pelas tribulações políticas de 1148, acarretadas pelas conquistas
almôadas do sudoeste da Espanha. Intelectuais judeus, exilados na Itália e no sudoeste da
França, trouxeram consigo as obras de Ḥayyuj, Ibn Janāḥ, Samuel ha-Nagid e outros. Estas
obras foram tanto adaptadas como traduzidas. O erudito viajante Abraham ibn Ezra (1089–
1164), por meio de seus escritos copiosos, notavelmente comentários e obras gramaticais,
popularizou as idéias dos gramáticos espanhóis e em geral trouxe os benefícios da ciência
árabe para as comunidades judaicas européias deserdadas do povo judeu espanhol. Em Roma,
por volta de 1140, ele produziu sua gramática em hebraico, a primeira, baseada em fontes
árabes.

b Os labores de adaptação culminaram nas obras da família Qimḥi: Joseph, o pai (ca.
1105–1170) e seus filhos Moses e David (1160–1235). Na introdução à seção de seu Sepher
Mikhol (Compendium), tratando de gramática hebraica, David comparou-se a um “respigador
seguindo os ceifeiros”, cuja tarefa era compilar e apresentar, de modo simples e sucinto, as
volumosas descobertas de seus predecessores. Ele selecionou seu material tão
ponderadamente e o apresentou tão eficazmente, que sua obra eclipsou e, eventualmente,
substituiu as obras mais originais e profundas de Ibn Janāḥ e serviu como padrão autorizado
até o século 19. A posteridade abraçou suas obras com tal consideração que um ditado
mishnaico foi adaptado a elas: ‫אם אין קמחי אין תורה‬, ‘Se não há Qimḥi, não há Torah’.
Somos devedores a Joseph e David Qimḥi pela formulação do atual padrão de vogais longas e
breves em sílabas fechadas e abertas e do relacionamento destas com os shewas mudo e
vocálico; o sistema de graus verbais (binyanim), como é compreendido hoje, foi primeiro
elaborado por eles.

p 37 c David Tene avaliou este período de disseminação como segue:


Embora os trabalhos de adaptação e tradução obviamente fossem apenas uma
pequena contribuição original ao pensamento lingüístico, seria difícil avaliar a
importância dessa atividade literária. Foram os tradutores e adaptadores que
salvaram a lingüística hebraica do esquecimento e fizeram-na um ramo
permanente na história da literatura judaica. Eles também traduziram para o
hebraico termos gramaticais árabes… e fixaram um modo de exposição de
assuntos gramaticais e lexográficos… que subsistiram até os nossos dias no
estudo e ensino da língua hebraica e na exegese hebraica bíblica.

2.2.3 Período de Declínio (1250–1550)

a No final da Idade Média, como o centro intelectual e demográfico do povo judeu


transferiu-se para longe do Oriente Próximo, assim também os estudos de gramática hebraica
assumiram um elenco europeu. Modelos latinos substituíram os modelos árabes. Embora as
obras gramaticais deste período sejam geralmente inferiores, elas não são desinteressantes.
Os gramáticos árabes trataram o domínio da língua como algo preponderante, incluindo não
apenas lingüística, mas também a retórica (a ciência da persuasão) e a poética como partes da
gramática. As escolas européias, em contraste, agruparam gramática, retórica e lógica como
três ciências co-iguais da língua (as trivia, em oposição às ciências naturais e técnicas, as
quadrivia).

b Na obra Maʿaseh Ephod (1403) de Profiat Duran (1360–1412), a mudança filosófica é


evidente: Duran clama por uma base mais teórica para a gramática, opondo-se ao caráter
mecânico de Mikhol. O modelo imediato da língua latina é importante para Abraham de
Balmes (ca. 1440–ca. 1523). Sua obra Miqneh Abram procura construir uma ponte entre as
tradições gramaticais árabes e latinas. Ela é a primeira obra que divide a gramática hebraica
em fonologia, morfologia e sintaxe. Ela reúne as pesquisas prévias concernentes à
concordância dos pronomes em gênero e número, à regência verbal, à combinação dos
substantivos com outros substantivos, à concordância do substantivo (sujeito) e do verbo
(predicado), e a possíveis combinações com auxílio de partículas. De todas as obras medievais
depois de Ibn Janāḥ, a de Balmes pode ser considerada a mais original. A tradição gramatical
judaica medieval morreu com Elijah Levita, que, como veremos, passou sua herança para mãos
cristãs.

p 38 2.3 Estudos Hebraicos Cristãos (século 16 a meados do século 18)

2.3.1 Primeiros Estágios (1500–1550)

a A literatura lingüística sobre o hebraico do século 10° até o século 15 foi um território
exclusivamente judaico. Com as transformações na cultura européia associadas ao
reavivamento do aprendizado clássico e à reforma da igreja cristã, a gramática hebraica
transferiu-se para os eruditos cristãos. O novo interesse da igreja no que ela chamava de o
Antigo Testamento foi uma das razões para que os judeus perdessem o interesse. Alegando
que Mikhol marca o fechamento da “Era de Ouro” da filologia hebraica medieval, William
Chomsky escreve:
A maioria dos eruditos judeus das gerações subseqüentes considerou o estudo
de gramática como um desperdício de tempo e alguns até consideravam tal
estudo como uma heresia. Mesmo o estudo da Bíblia começou a ser reputado
como de importância secundária e estava gradualmente diminuindo a uma
proporção tal que um rabino alemão do século 17 reclamou que havia certos
rabinos em sua geração “que nunca tinham visto um texto da Bíblia durante
toda sua vida”.

Quando os judeus reentraram ao campo do estudo gramatical, o contexto havia mudado


vastamente. O filósofo Baruch Spinoza (1632–1677), “o maior pensador a escrever um tratado
sobre a língua hebraica”, escreveu seu Compendium grammatices linguae hebraeae em latim e
com uma consciência tal da Escritura Bíblica que teria sido incompreensível aos seus
predecessores.

b O interesse em gramática hebraica desenvolveu-se entre os eruditos cristãos na primeira


parte do século 16. O humanista Johann Reuchlin estabeleceu o estudo de gramática hebraica
no mundo cristão europeu no seu livro Rudimenta linguae hebraicae (1506), como também
por meio de sua imensa reputação pessoal. O interesse na Escritura que delegou poder ao
estudo de hebraico foi renovado com a era de Reuchlin e seu cuidado pelo retorno às fontes
antigas e pela reforma da igreja.

c Embora os escolásticos da Idade Média Alta e Tardia não acreditassem que a Escritura
tivesse um sentido único e simples, como os reformadores acreditavam, alguns deles
sustentavam p 39 que seu sentido fundamental deve ser averiguado em todos lugares
conforme os princípios da gramática e do discurso humano; só então outros sentidos serão
considerados. Nicholas de Lira (m. 1349) foi criterioso ao insistir em que todos os sentidos
pressupõem o sentido histórico e gramatical como seu fundamento e norma. Seguindo Hugo
de São Vitor (m. 1141) e outros eruditos da escola vitorina, Nicholas reclamou que o sentido
histórico tinha se tomado muito obscurecido em virtude da prática generalizada de ignorá-lo
em favor da exegese mística. Esses escolásticos recapturaram o pensamento de Agostinho e
especialmente de Jerônimo – que tinha estudado hebraico com rabinos judeus em Israel há
quase mil anos – pela influência de eruditos judeus, especialmente Rashi.

Embora o estudo do hebraico fosse freqüentemente negligenciado, é uma distorção não


comprovada fazer de Nicholas de Lira um completo excêntrico, sem lugar na Idade Média.
Beryl Smalley criticou a opinião de que Lira fora o primeiro a ficar sob influência judaica e fora
assim um proto-reformador:

O conhecimento cristão da rabínica na Idade Média costumava ser


subestimado. Pensava-se que Rashi aparecera pela primeira vez em
comentários latinos com Nicholas de Lira no início do século 14. Sua influência
sobre Lira foi classificada não como tipicamente medieval, como de fato o foi,
mas como um fator na Reforma:

Si Lyra non lyrasset [“Se Lira não tivesse tocado,

Lutherus non saltasset Lutero não teria dançado”.]


Esta dicton absurde [“cantiga tola”]… foi… refutada.

d A despeito dos vários contatos entre eruditos judeus e cristãos durante o período
medieval, nenhum nome se destaca na história dos “estudos hebraicos cristãos entre Jerônimo
e Johann Reuchlin”. Reuchlin é uma figura completamente humanística. Sua breve Rudimenta
não se baseia tanto na obra Mikhol de David Qimḥi como na obra elementar de Moses Qimḥi,
Mahalakh Shebile ha-Daʿat (A Jornada nas Veredas do Conhecimento), a primeira gramática
hebraica impressa (Soncino, 1489). O valor de Reuchlin não repousa no conteúdo de sua
gramática simples, mas nos seus esforços pioneiros e em sua atividade planejada. Lutero
aprendeu hebraico usando ou a obra Mikhol de Qimḥi ou as Rudimenta de Reuchlin. Conrad
Pellicanus (1478–1556), um monge dominicano que aprendeu hebraico por si mesmo sob as
mais árduas circunstâncias, efetivamente escreveu a primeira obra de gramática hebraica em
latim (1503 ou 1504). Pellicanus ensinou o reformador suíço Wolfgang Capito (1478–1541)
que, por sua vez, ensinou João Calvino.

p 40 2.3.2 Desenvolvimento (1550–1750)

a Entre os fatores que incitaram o trabalho iniciado efetivamente por Reuchlin estavam a
expansão da imprensa e as controvérsias na igreja. O erudito judeu itinerante Elijah Levita
(1468–1549) exerceu um papel especial. Seus livros incluem um comentário sobre a gramática
de Moses Qimḥi (1504), sua própria gramática (1517) e seus estudos sobre a massorá (1538).
Seu contato pessoal com eruditos cristãos foi também importante; entre seus alunos estava
Sebastian Münster (1489–1552), professor em Basle de 1529 em diante, que traduziu suas
obras para o latim. Levita transportou o grande lastro de filologia judaica medieval com o selo
quimḥiano para as universidades cristãs.

b O século 16 foi o primeiro grande século de estudo gramatical moderno. Perto do fim do
século, John Udall produziu a primeira gramática hebraica em inglês (1593), uma tradução da
gramática de Pierre Martinez escrita em latim (1567). Em tempo, a busca humanística pelo
hebraico cedeu lugar a interesses teológicos; cadeiras vieram a ser ocupadas por homens com
treinamento teológico.

c No capítulo 29, discutindo com mais detalhes os desenvolvimentos na compreensão do


sistema verbal hebraico, teremos novamente a oportunidade de olhar a história dos estudos
gramaticais hebraicos. Necessitamos apenas observar aqui o seguinte: durante os dois
primeiros séculos de estudos hebraicos cristãos, de Reuchlin à época da escrita das
Institutiones (1737) de Albert Schultens, a vasta maioria das gramáticas hebraicas fez pouco
para avançar o estudo científico da língua.

2.4 O Método Comparativo (meado do século 18 ao meado do século 19)

a No início brilhante dos estudos gramaticais hebraicos, lexicógrafos e gramáticos criativos


compararam o hebraico bíblico com as línguas cognatas com as quais eles estavam
familiarizados, como também com formas posteriores do hebraico. Por exemplo, Yehuda ibn
Quraysh (início do século 10°), um contemporâneo de Saadia, tentou em seu Riṣâla (Relatório)
uma comparação sistemática de palavras do hebraico bíblico com palavras aramaicas, com
palavras hebraicas usadas na Mishná e com palavras árabes; Dunash ibn Tamim (ca. 900–960)
lidou com as relações estreitas entre os vocabulários árabe e hebraico. Com a transferência
dos centros de aprendizagem da Arábia para a Europa, onde os eruditos se comunicavam em
latim, a maior parte destes estudos se perdeu.

b Entre os séculos 16 e 18, eruditos cristãos retomaram independentemente o estudo das


línguas “orientais” que não o hebraico, línguas que chamamos hoje de semíticas. Esses
eruditos acrescentaram o siríaco e o etiópico clássico ao árabe e ao aramaico. Como Barr
observou: “O material estava sendo reunido para uma abordagem filológica mais inclusiva e
abrangente do que a que tinha sido possível aos filólogos judeus medievais”. Esses estudos
pavimentaram o caminho para o erudito holandês Schultens (1685–1750), p 41 que em suas
Institutiones (1737) colocou a gramática hebraica sobre o novo fundamento da filologia
semítica comparativa. Nesta perspectiva, o hebraico não é mais considerado como a primeira
língua, da qual as outras línguas orientais divergiam, mas como uma língua semítica entre
outras. Barr avalia assim a obra de Schultens:

Schultens enfatizava com exagero revolucionário o alcance da mudança


efetuada pelo novo conhecimento. Longe de aceitar a visão tradicional de que
o árabe (como outras línguas) era uma forma degenerada do hebraico,
Schultens manteve que o hebraico era apenas um dialeto semítico, enquanto
que tal dialeto mais puro e mais claro seria o árabe.… Mas, a despeito do
elevado valor conferido ao árabe por Schultens, seu uso dele foi infeliz e longe
de ser recomendável, mesmo do ponto de vista de um arabista. Contudo, ele
marcou o início de uma época que continuou no meado do século 20, na qual
uma das principais formas de estudo lingüístico erudito era o uso de línguas
cognatas para a elucidação de dificuldades em hebraico.

c Essa nova abordagem encontrou mais expressão em N. W. Schröder (1721–1798) e mais


substancialmente em Johann David Michaelis, professor de línguas orientais e teologia em
Göttingen. A nova abordagem também produziu um novo tipo de hebraísta. Barr comenta:

Agora, esperava-se do hebraísta acadêmico que ele fosse um orientalista. Isto


significava que ele não apenas deveria ter o conhecimento do árabe, mas
também uma consciência da nova informação trazida pelos viajantes advindos
do Oriente acerca dos costumes, dos ambientes físicos da vida, e agora – em
sua primeira forma rudimentar – da arqueologia.

d O gramático cujo trabalho desfrutou a mais larga aceitação e influência tanto em seu
próprio tempo como desde então foi (Heinrich Friedrich) Wilhelm Gesenius (1786–1842),
professor em Halle. Seu léxico, Thesaurus linguae hebraicae (publicado de 1829 a 1858), foi
sucessivamente revisado e alcançou proporções clássicas na 17° edição, editada por Frants
Buhl (1921). Uma edição anterior foi usada como a base para o dicionário de inglês de Francis
Brown, Samuel Rolles Driver e Charles A. Briggs (1907). A gramática de Gesenius, Hebräische
Grammatik (1813) passou por muitas transformações profundas. Ele produziu 13 edições e
Emil Kautzsch fez as 7 seguintes. Os editores posteriores da obra de Gesenius tiveram de levar
em consideração o vasto conhecimento de línguas e literatura do antigo Oriente Próximo que
estava sendo descoberto pelas pás de arqueólogos infatigáveis e sua decifração por lingüistas
brilhantes. A gramática de Gesenius ainda permanece como a obra de referência padrão hoje,
com numerosas emendas e revisões, e em várias edições.

p 42 2.5 O Método Histórico-Comparativo (meado do século 19 ao meado do


século 20)

a O impulso para uma abordagem histórico-comparativa da gramática hebraica veio do


estudo da família de línguas indo-européias, que inclui a maioria das línguas da Europa e
muitas línguas da Ásia. A descoberta de correspondências regulares entre grego, latim e seus
parentes românicos (francês, espanhol, italiano e outros), e as línguas germânicas, incluindo o
inglês, foi seguida pelo trabalho sobre o sânscrito. O rastreamento de correspondências pelos
eruditos foi um dos principais fatores no desenvolvimento da filologia histórico-comparativa.
Tornou-se claro que duas línguas relacionadas podem evoluir de uma única língua anterior e
que o desenvolvimento histórico a partir de um estágio anterior, por de suas transformações
evolucionárias nos estágios posteriores, às vezes pode ser demonstrado. Resumindo, a filologia
comparativa foi substituída pela filologia histórico-comparativa. Esta significativa realização da
erudição do século 19 foi aplicada à família semítica. O estudo histórico-comparativo das
línguas semíticas alcançou proporções monumentais na obra em dois volumes de Carl
Brockelmann, Grundriss der vergleichenden Grammatik der semitischen Sprachen (1908; Guide
to Comparative Grammar of the Semitic Languages) e na obra de Gotthelf Bergsträsser,
Einführung in die semitischen Sprache (1928; tradução para o inglês, Introduction to the Semitic
Languages, 1983).

b Pela comparação do hebraico com outras línguas semíticas e pelo trabalho com a
evidência interna do próprio hebraico tornou-se possível remontar aos primeiros estágios da
língua e traçar vários desenvolvimentos posteriores – mishnaico, medieval e, eventualmente,
hebraico moderno. Esta abordagem revolucionária do hebraico apareceu primeiro nas
gramáticas de Justus Olshausen (1861) e Bernhard Stade (1879). Ela alcançou proporções
clássicas na sintaxe de Eduard König (1897), na gramática de Hans Bauer e Pontus Leander
(1922), na 29° revisão da gramática de Gesenius por Gotthelf Bergsträsser (1918) e na
gramática de Rudolf Meyer (1966).

p 43 c Durante o século 19, eruditos judeus retornaram à corrente principal de trabalhos


lingüísticos hebraicos, reentrada esta “facilitada pelo fato de os estudos [hebraicos] não-
judaicos tornarem-se novamente mais humanísticos e menos atrelados à teologia”. Uma figura
notável nessa reentrada foi S. D. Luzzato (1800–1865), erudito e poeta (como Saadia Gaon e
outros gramáticos medievais). Como nossa disciplina cresceu nos últimos duzentos anos, ela
reuniu, embora de um modo reduzido, judeus e todos os ramos diversos de cristãos.

d Mais recentemente, em especial desde a década de 1940, a abordagem histórico-


comparativa do hebraico proveu solo para a contribuição da lingüística moderna, que
considera o grande erudito suíço Ferdinand de Saussure como seu pai. Neste século [20], os
lingüistas descritivos e os estruturalistas esclareceram os métodos pelos quais a língua é
estudada e os modos de interação de suas partes componentes. Os eruditos bíblicos terão de
enfrentar os horizontes em contínua expansão na filologia comparativa e o número
continuamente crescente de fontes antigas do hebraico bíblico.

p 44 3
Conceitos Básicos
3.1 Introdução

3.2 Significação

2.1 Semiótica e Semântica

2.2 Gramática e Palavras

2.3 Polissemia e Contexto

3.3 Níveis de Análise

3.1 Sons

3.2 Morfemas

3.3 Sintagmas

3.4 Discurso e Texto

3.5 Abordagens Analíticas

3.4 Variação

3.5 Compreensão

3.1 Introdução

a Do mesmo modo como as Institutiones de Schultens (1737) fixaram o estudo gramatical


de hebraico sobre o fundamento da filologia semítica comparativa, assim o erudito suíço
Ferdinand de Saussure (1857–1913) fixou o estudo de língua em geral sobre o fundamento de
lingüística, a qual toma toda linguagem como seu objeto de estudo. O caráter de qualquer
língua semítica sobressai mais claramente quando é estudado à luz de todas as línguas
semíticas, e o caráter de qualquer língua torna-se mais aparente à luz das línguas em geral. Um
lingüista observa cientificamente paradigmas e propõe teorias pertinentes às línguas em geral,
habilitando o especialista em qualquer língua dada para interpretar melhor os seus dados.
Atualmente, o hebraísta erudito deve ser tanto semitista como lingüista. Neste capítulo,
tentaremos estabelecer algumas noções fundamentais. Nos capítulos que se seguem,
ocasionalmente relacionamos teorias lingüísticas aos diversos pontos de gramática hebraica
que estiverem sendo discutidos.

b A Lingüística é uma disciplina em si mesma e, como em qualquer ciência dinâmica e em


desenvolvimento, os eruditos com freqüência não concordam acerca da melhor maneira de
sistematizar os dados. Nosso objetivo aqui é prático; restringimo-nos a pontos da teoria que
gozam de um amplo consenso entre os lingüistas e que são mais pertinentes ao nosso estudo.
Três grandes temas do estudo lingüístico serão abordados. O primeiro envolve a língua em
relação ao mundo real; a língua tem certas propriedades que a permite p 45 descrever e
referir-se ao mundo real. O segundo tema é a estrutura da língua em si mesma e os vários
níveis usados para analisá-la; os níveis e as unidades relevantes ao estudo sintático em
particular são tratados mais adiante no capítulo 4. O terceiro tema é a variação, a diferença e a
mudança interna numa única língua ou num grupo de dialetos correlatos; a variação pode
estar atrelada a muitas facetas diferentes da língua e pode refletir muitos aspectos diferentes
do uso lingüístico. Concluindo, retornamos à questão da língua e do mundo e refletimos sobre
o processo de compreensão.

3.2 Significação

3.2.1 Semiótica e Semântica

a Linguagem é um meio por meio do qual um falante comunica algo no mundo de


experiência ou pensamento a um ouvinte. Saussure referiu-se àquilo que será comunicado
como significado (francês signifié) e à parte do sistema de comunicação correlativa a ele como
significante (francês signifiant). Semelhantemente, o lingüista francês Emile Benveniste sugere
que a língua repousa sobre dois tipos de entidades: as entidades semióticas (isto é, os signos) e
as entidades semânticas (as portadoras de sentido). Os signos são entidades distintivas e
combináveis dentro de um sistema específico: sons (fonemas) dentro do sistema fonológico,
palavras e partes de palavras (morfemas) dentro dos sistemas lexicais, e padrões gramaticais
(sintagmas) dentro do sistema sintático. Os signos tornam-se unidades semânticas quando
estão atrelados ao significado. De fato, signos e significados são dois aspectos da língua como
os dois lados de uma moeda: eles não podem ser separados no exercício da língua, porque a
língua é som significativo. Os elementos da língua constituem um código consistindo de signos
que apontam para um sentido: usando termos psicológicos, podemos dizer que a língua
envolve imagens e conceitos, tanto quanto guardemos em mente que as imagens e os
conceitos são mediados por meio de palavras.

b Os lingüistas usam outros termos para descrever o caráter dual ou a dupla articulação da
língua, além de signifiant/signifié e as entidades semióticas/entidades semânticas. Louis
Hjelmslev formulou a diferença envolvendo expressão e conteúdo. Outros pares correlatos
incluem sentido versus referência e sistema (intralingüístico) versus referente
(extralingüístico). Não importa como os dois aspectos da língua são vistos, o discernimento de
Saussure de que há dois aspectos é básico. Semelhantemente básica é p 46 sua observação
de que o relacionamento entre os dois aspectos é em extremo arbitrário: não há nada acerca
da substância mel que a leve a ser chamada de ‫( דבש‬em hebraico) ou honey (em inglês) ou
miel (em francês) ou mi-t’ang (em chinês). Na verdade, Saussure acreditava que a ligação entre
significante e significado era inteiramente arbitrária, mas esta visão é provavelmente muito
exagerada.

3.2.2 Gramática e Palavras

a A língua pode ser analisada em categorias mais amplas de palavras (lexis) e suas relações
(gramática). A gramática envolve o conjunto fechado de sistemas determinados por signos
intralingüísticos, o código; palavras freqüentemente são signos que apontam para a realidade
extralingüística. Um código de língua, ou gramática, consiste de, pelo menos, três sistemas:
sons, formas e sintagmas (i.e., relacionamentos de palavras umas com as outras no fluxo de
um enunciado). O conjunto de palavras não é “fechado”, mas “aberto”, embora não seja
infinito. Novas palavras podem ser cunhadas e novos sentidos podem surgir, de acordo com
padrões mais ou menos estabelecidos. Em geral, os falantes não estão livres para reconstruir a
gramática, mas estão livres para escolher as palavras que representam sua experiência. M. A.
K. Halliday refere-se à gramática como determinista, em contraste com o vocabulário, que é
probabilista.

b Uma forma de ver a oposição gramática/lexis está baseada nas classes de palavras.
Nessa concepção, há duas classes de palavras, a maior, classe aberta de palavras com
referência extralingüística versus a menor, classe fechada de “palavras gramaticais”; estas são
às vezes chamadas de “vocábulos plenos” versus “vocábulos formais”. Vocábulos plenos
incluem substantivos, tais como “árvores”, “tios”, “dentes”, “animais”; verbos, tais como
“crescer”, “correr”, “morder”, “vagar”; qualificadores, tais como “grande”, “bom”, “saudável”,
“perigoso”; e conectores, tais como ‘para cima’, “para baixo’, ‘sobre’, ‘através’. Assim, por
exemplo, as orações “A vaca saltou sobre a lua” e “A porca pisoteou o quarto” compartilham a
mesma gramática: as mesmas formas significativas (e.g., o artigo definido, a terminação –ou
para o tempo passado) e a mesma sintaxe significativa (sujeito + predicado + frase adverbial),
mas as palavras apontam para experiências totalmente diferentes. Palavras de código
intralingüístico podem ser ilustradas por ‘to’ na oração inglesa ‘He wanted to run’ (Ele queria
correr) e ‘did’ em ‘I did not go’ (Eu não fui). O falante não escolhe livremente tais palavras; elas
pertencem ao código. A distinção entre vocábulos formais e palavras plenas não é absoluta;
para alguns propósitos, o vocábulo ‘not’, na última oração, pode ser considerado um vocábulo
p 47 formal, enquanto que para outros propósitos pode ser melhor vê-lo como um vocábulo

pleno. Em hebraico, palavras como ‫ ַּה‬, ‫ ֲאשֶר‬e ‫ֶאת‬ pertencem ao sistema e recebem um
melhor tratamento numa gramática do que num léxico.

c Os lingüistas discordam sobre a extensão em que gramática e lexis são verdadeiramente


distintas. O argumento de que elas são distintas pode ser encapsulado em um exemplo de
Noam Chomsky, ‘Idéias verdes incolores dormem furiosamente’. O sentido intralingüístico ou
gramatical é impecável (sujeito nominal ‘idéias’, com adjetivos qualificativos ‘incolores’ e
‘verdes’, predicado plural ‘dormem’ e advérbio ‘furiosamente’), mas sua referência ao mundo
extralingüístico é inexistente, de modo que a oração é sem sentido. Chomsky argumenta que
se uma oração pode ser gramatical e ainda ser semanticamente anticonvencional, então os
componentes semânticos e sintáticos de uma língua são separados. Os termos sentido e
referência auxiliam na explicação do que está errado no exemplo de Chomsky. Referência
envolve o relacionamento entre os elementos lingüísticos e a esfera não-lingüística. Sentido
envolve as relações de conexão entre os elementos lingüísticos; ele se preocupa apenas com a
esfera lingüística. Nestes termos, a oração de Chomsky tem sentido, mas é não-referencial.
Quer este argumento seja ou não aceito, ainda permanece o caso em que o sistema gramatical
de uma língua pode ser estudado proveitosamente em seus próprios termos.

3.2.3 Polissemia e Contexto

a “A língua é um uso infinito de meios finitos”, disse o pensador alemão Wilhelm von
Humboldt. O material que pode ser “introduzido” na língua é interminável – é impossível
nomear um número finito que não pode ser ultrapassado – mas o código usado para
comunicar este material é finito. O código de uma língua não é nada simples, mas é muito mais
sofisticado do que a maioria dos outros sistemas semióticos como, por exemplo, os dos gestos
faciais ou dos modos de vestir. A despeito desta sofisticação, a língua usa um número pequeno
de recursos.

b Desde que o código da língua seja finito, os elementos do código devem ser usados em
uma variedade de maneiras. Com freqüência, um signo tem mais de um significado e, por isso,
é chamado polissêmico. No inglês falado, /tu/ é polissêmico; três significados p 48 principais
podem ser distinguidos na pronúncia –to, two e too. Considere as seguintes orações, cada uma
delas usando a palavra ‘com’.

1. Eu comi sorvete com meu amigo.

2. Eu comi sorvete com torta.

3. Eu comi sorvete com minha colher.

Nas primeiras duas orações, a preposição significa ‘junto com’, em um caso significando
‘em companhia de’ e em outro ‘em associação com’; no terceiro caso ela significa ‘por meio
de’. O mesmo fenômeno ocorre com outros tipos de entidades gramaticais. Por exemplo,
Beekman e Callow analisaram mais de trinta sentidos para o genitivo grego.

c Um léxico tenta descobrir a polissemia de uma palavra apontando seus possíveis


significados em uma língua, enquanto que uma gramática auxilia a revelar a polissemia das
formas e dos paradigmas gramaticais pela citação de seus sentidos potenciais. Não há
separação absoluta entre léxico e gramática, e os leitores precisam aprender onde localizar
mais eficientemente os tipos de informação de que precisam. Nossa gramática focaliza as
Escrituras Hebraicas e os capítulos seguintes oferecem um paradigma pelo qual o leitor pode
testar os possíveis sentidos de uma forma gramatical da mesma maneira que um léxico
capacita o leitor a examinar vários sentidos de uma palavra.

d Enquanto a polissemia satisfaz a uma exigência elementar da língua, isto é, economia,


ela exige um preço. A língua pode ser ambígua (i.e., um enunciado pode estar aberto a várias
interpretações), ou estar sujeita a equívocos (i.e., o ouvinte pode ser forçado a hesitar sobre os
sentidos pretendidos) ou mesmo ser mal entendida (i.e., o ouvinte pode chegar a uma
conclusão errônea acerca do sentido pretendido pelo falante). Mesmo os enunciados que o
falante considera perfeitamente claros podem ser problemáticos, como cada um de nós sabe
de experiências diárias. Tais enunciados exigem interpretação, o processo por meio do qual o
ouvinte vem a conhecer o significado do falante. Na vida cotidiana, interpretação envolve
simplesmente dar uma olhada no ambiente ao redor, mas à medida que aumenta a distância
entre falante/escritor e ouvinte/leitor, assim aumenta a complexidade do processo
interpretativo. Na base, contudo, o processo interpretativo sempre envolve o que Paul Ricoeur
chamou de “sensibilidade ao contexto”. O contexto inclui não apenas o ambiente lingüístico
das palavras reais, mas também o comportamento do falante e do ouvinte, a situação comum
a ambos e, finalmente, o horizonte da realidade circundante à situação da fala. Desde que
estejamos escrevendo uma gramática de textos literários, estamos restritos em nosso
conhecimento dessas facetas mais amplas de contexto; nosso recurso primário é recorrer às
características formais da língua, embora sejamos obrigados a manter na memória outro tanto
do restante do contexto quanto possamos reconstruir.

p 49 e A necessidade de determinar o significado de formas lingüísticas por meio de


considerações contextuais é essencialmente um subproduto de um sistema semiótico
polissêmico. A língua mesma faz muito do trabalho de interpretação para nós, pelo fato de ela
pressupor uma “lei de pertinência semântica”, que requer que entidades semânticas se
harmonizem de tal modo que se tornem compreensíveis juntas. Como os elementos de um
enunciado seguem-se um ao outro numa linha temporal, eles escondem significados não
pretendidos; somente por seus significados harmoniosos é que os elementos “fazem sentido”.
Por exemplo, a palavra inglesa “before” pode ter um valor temporal ou espacial na oração ‘I
sang before Queen Elizabeth’. Na oração, ‘I sang before Queen Elizabeth in Buckingham Palace’
(‘Eu cantei perante a Rainha Elizabete no Palácio Buckingham’), ‘before’ refere-se a espaço; no
período, ‘I sang before Queen Elizabeth adressed the parliament’ (‘Eu cantei antes que a
Rainha Elizabete se dirigisse ao parlamento’), ‘before’ refere-se a tempo, como no período ‘I
sang before Queen Elizabeth, and after we both had sung we sat down together for tea’ (‘Eu
cantei antes da Rainha Elizabete e, depois de ambos termos cantado, sentamo-nos juntos para
tomar chá’). Desde que polissemia e contexto sejam constituintes essenciais da língua,
assumimos que determinantes contextuais normalmente estejam disponíveis. Na
apresentação paradigmática dos possíveis significados de uma forma, assumimos que o
significado em um dado caso seja claro a partir de outras entidades semânticas no contexto.

3.3 Níveis de Análise

a A língua é composta de uma hierarquia de níveis. Sons, palavras e elementos de


palavras, frases e orações são sucessivamente níveis mais complexos. As interações e
estruturas dentro de cada nível são diferentes em tipo e extensão daquelas nos outros níveis.
Uma redução vocálica, por exemplo, é distinta em caráter da formação de uma frase no
construto. Os três níveis mencionados são aqueles tradicionalmente reconhecidos na
gramática ocidental e sua sucessora, a lingüística moderna. Sons são estudados sob os títulos
de fonética e fonologia. A morfologia trata dos elementos da palavra e de palavras como
unidades gramaticais, em formação (‘montar’ versus ‘montou’), derivação (‘montador’ < mont
+ ador) e flexão (‘montei’ < mont + ei). A sintaxe é o estudo de níveis mais elevados – frases,
orações, períodos e outros. Os elementos ou unidades são maiores em cada nível sucessivo.

b Esta divisão tripartida, embora tradicional, não é a ideal nem do ponto de vista de um
lingüista nem do ponto de vista de um semitista. O lingüista em geral tem duas objeções.
Primeira, os blocos de construção ou unidades de fonologia são arbitrários: sons em si mesmos
não têm significado algum e esse fato separa o estudo de sistemas de sons do estudo de
outras realidades lingüísticas. Segunda, a análise do domínio sintático é difícil: deveria ser dada
atenção primariamente a frases, ou a orações e períodos ou a blocos de enunciados maiores
(i.e., discursos ou textos)? Somente o estudo de blocos de enunciados maiores permite-nos
explicar, por exemplo, aspectos de referência temporal e narrativa ou funções retóricas (p. ex.,
expressões lingüísticas de subserviência ou sarcasmo).

c As objeções do semitista apontam para as mesmas áreas problema que as do lingüista


em geral, mas por razões diferentes. Primeira, o entendimento tradicional da morfologia p 50
é baseado em seqüências combináveis de elementos de palavra, como em inglês ‘bridemaids’
< [[[bride + POSSESSIVO] + maid] + PLURAL]. O hebraico, como as outras línguas semíticas, usa
paradigmas vocálicos tanto quanto combinações seqüenciais e, portanto, sua morfologia é
mais diversa. Em particular, com freqüência a morfologia hebraica está intimamente
entrelaçada com a fonologia, em aspectos que a avaliação tradicional não permite. Segunda, o
semitista observa, o domínio da língua acima do nível da frase é muito mais difícil de subdividir
em hebraico e em outras línguas semitas do que a fórmula tradicional reconhece. O período,
por exemplo, é difícil de ser isolado e definido e, assim, as gramáticas tendem a tratar as
orações detalhadamente, com alguma referência a uns poucos tipos de períodos complexos.

d Apesar desses dois conjuntos de objeções, a divisão tripartida é um esquema útil, não
obstante reconhecida por todos os gramáticos como uma estrutura conveniente e às vezes
reveladora. Discutiremos os três níveis básicos mencionados e então voltaremos brevemente
ao trabalho realizado sobre um nível discursivo ou textual. Ao término deste exame, adotamos
algumas abordagens que atravessam os níveis lingüísticos e revelam o que eles têm de
comum.

3.3.1 Sons

a O sistema mais básico do código lingüístico envolve os sons em si. Um som produzido
pelo aparelho fonador pode ser chamado fone, e os sons são estudados na ciência da fonética.
De grande interesse para o lingüista é o conjunto de sons realmente usados por uma
determinada língua, o conjunto de fonemas, e os modos pelos quais eles são usados; o
conjunto destes padrões de usos é chamado a fonologia de uma língua, tal como o estudo dos
padrões.

b Um fonema é um som ou uma unidade de fala que faz uma diferença, isto é, ele pode
distinguir uma palavra de outra. As palavras inglesas ‘pit’ e ‘pin’ diferem apenas nos sons
finais, o t e o n; assim, dizemos que t e n são fonemas em inglês. O par de palavras ‘bit’ e ‘pit’
mostram que b e p são fonemas em inglês; um par assim é chamado de par mínimo. Para
muitos falantes do inglês americano ‘pen’ e ‘pin’ são distintos, e para esses falantes as duas
vogais ε e I são fonêmicas. Para muitos outros, contudo, ‘pen’ e ‘pin’ soam iguais, e apenas a
vogal I é usada. Observe que estes falantes usam a vogal I em palavras como ‘rent’, ‘sent’ e
‘went’, onde o primeiro grupo de falantes usa a vogal de ‘pen’; não há problema com estas
palavras, como às vezes há com os pares ‘pen’/‘pin’, porque não existem palavras que tenham
um mínimo contraste com ‘rent’, ‘sent’ e ‘went’.

c O fonema não é um som como ele é produzido na garganta e na boca de um falante, mas
antes uma abstração baseada em como os falantes usam o som nas palavras de uma língua.
Fonemas, os sons mínimos significativos em uma língua, não existem como tais; eles são o
conjunto de sons que produzimos e ouvimos em nossa língua, independentes de obstáculos
tais como ruído de fundo ou idiossincrasia. Os falantes de uma língua podem variar
tremendamente e ainda conseguir entender um ao outro, porque cada qual intuitivamente
conhece o sistema de som da língua e interpreta o fluxo da fala em termos desse sistema.

d Mencionamos fontes de variações sonoras, como as variações da fala pessoal e variações


dialetais (o dialeto pen/pin do inglês americano e o dialeto pen ≅ pin/pin). p 51 Há uma outra
fonte de variação, o ambiente lingüístico do som; tal variação é chamada de condicionada e as
variantes são chamadas de alofones. Por exemplo, a maioria dos falantes de inglês pensa em
sua língua como tendo um único som k. Mas, na verdade, o k de ‘key’ e de ‘kin’ difere do k de
‘ski’, ‘skin’, ‘sick’ e ‘sock’. (Coloque seu dedo na frente da sua boca e sinta a diferença na
aspiração que o seu ouvido não está treinado a detectar, e observe que apenas o primeiro
conjunto é seguido de um sopro de ar, o resultado da aspiração). Embora os dois tipos de k
sejam foneticamente diferentes, falantes de inglês os consideram como sendo “o mesmo
som”, porque no sistema da língua inglesa k iniciando uma sílaba é sempre aspirado, enquanto
que k após s ou ao fim de uma sílaba é sempre não-aspirado; essa diferença fonética nunca é
associada a um contraste de sentido, isto é, nunca é fonêmica. Em contraste, o turco distingue
k aspirado (escrito k’) e k não-aspirado, e assim k’alb ‘cão’ é distinto de kalb ‘coração’.

e Semelhantemente, a variação das “letras begadkepat” do hebraico (os assim chamados


sons “duros” e “brandos”) pode ser analisada como alofones, pelo fato de a forma que ocorre
em determinado contexto ser previsível a partir do ambiente fonético, especificamente se for
precedida de uma vogal ou consoante. Baseado nisso, as letras begadkepat nunca conduzem a
um contraste de significado; observe que b/v (~ hebraico ‫ב‬/‫)ב‬, d/ð (‫ד‬/‫)ד‬, p/f (‫ּפ‬/‫ )פ‬e t/th
(‫ת‬/‫ )ת‬são todos pares de fonemas contrastantes em inglês.

f As maiores complexidades da fonologia hebraica envolvem as vogais da língua. Um


conjunto complexo de regras reduz vogais em alguns ambientes e alonga-as em outros;
algumas regras inserem vogais (anaptixe) e extinguem outras (síncope). A forma mais
completa deste conjunto de regras pertence à forma massorética tiberiana do hebraico bíblico,
mas muitas das regras refletem processos mais antigos. A fonologia do hebraico não é tratada
em qualquer extensão nesta gramática; é um assunto de importância grandemente secundária
para o exegeta, que não deve, contudo, negligenciar a leitura própria do texto em voz alta.

3.3.2 Morfemas
a Um fonema é um som que serve para contrastar significados e o nível fonêmico de
análise é o mais básico; o nível acima é o morfêmico. Um morfema é uma unidade mínima de
fala que é recorrente e significativa. Ele pode ser uma palavra (‘formiga’, ‘rinoceronte’) ou um
afixo a uma palavra (p. ex., o prefixo negativo in-, como em ‘inesperado’, ‘indisponível’ ou o
sufixo plural –s, como em ‘livros’, ‘botas’). Um morfema livre pode figurar sozinho, por
exemplo ‘mar’, ‘azul’; um morfema aglutinado não pode ser usado por si próprio, como no
caso dos afixos. Alguns morfemas têm várias p 52 formas e estas são chamadas alomorfes ou,
com menos freqüência, simplesmente morfes. Por exemplo, a palavra ‘felizmente’ contém dois
morfes: feliz e o sufixo formador de advérbio –mente.

b Os alomorfes de um morfema único podem ser muito distintos foneticamente. Por


exemplo, o sufixo plural regular inglês consiste de –s (como em ‘hats’), –z (como em ‘lids’), –IZ
(como em ‘forces’). Os alomorfes podem ser condicionados por um ambiente específico: o
sufixo plural –s é surdo após fonemas surdos, como em ‘caps’, ‘bits’, ‘wicks’, etc.; –z sonoro
após fonemas sonoros, como em ‘scabs’, ‘bids’, ‘wags’, etc.; e –IZ após uma sibilante ou som s,
como em ‘senses’, ‘censuses’, ‘lances’, etc. (Há também alguns alomorfes históricos, tais como
–en em ‘oxen’, ‘brethren’, e – e – em ‘men’, ‘women’.) O morfema prefixal in– significando
‘não’ aparece como in– em ‘incontável’, i– em ‘iletrado’, im– em ‘impróprio’ e ir– em
‘irrelevante’. Similarmente, em hebraico os alomorfes do morfema plural são – îm, –ê, –ôt,
etc.; o morfema do Qal perfeito consiste de vários alomorfes com padrões infixos vocálicos:
CāCaC, CāCǝC + sufixo vocálico, CǝCaC + sufixo consonantal, como em ‫קטַּל‬
ָ , ‫ ָק ְטלָה‬, ‫ ְק ַּטלְתֶ ם‬.
c Assim como os sons são a realidade e os fonemas as unidades lingüísticas funcionais,
formando um complexo inseparável, assim os alomorfes e os morfemas são inseparáveis.
Saussure expressou a distinção entre morfemas e alomorfes em termos de forma e substância.
Como todas as unidades gramaticais, o morfema é um elemento de “forma’, necessariamente
relacionado à sua realização “substancial”.

d Os morfemas significando o código gramatical são formas aglutinadas mais


freqüentemente em hebraico do que em português. Por exemplo, os morfemas significando
definitividade, o infinitivo, a relação genitiva, etc., são todas formas presas em hebraico, ao
passo que em português os artigos são as palavras separadas ‘o, a, os, as’, e a relação
possessiva é mostrada pela preposição ‘de’.

3.3.3 Sintagmas

a Um sintagma é um arranjo ordenado e unificado de palavras ou elementos de palavras


no fluxo linear da fala. Quando dois ou mais elementos na palavra, frase ou construção
idiomática ocorrem juntamente com um modo distintivo, como na frase verbo + partícula
‘voar sobre’ ou na combinação adjetivo + substantivo ‘pobre Natã’, eles podem ser chamados
de sintagma. Sintagmas frasais podem ser usados na construção de orações, períodos ou
unidades maiores. Estruturas sintagmáticas maiores podem ser vistas como envolvendo
encaixes, as posições ocupadas por uma palavra, frase ou oração em uma estrutura. As vagas
que tais elementos ocupam em relação uns aos outros em sintagmas podem ser significativas.
Contraste, por exemplo, as orações ‘O cachorro mordeu o homem’ e ‘O homem mordeu o
cachorro’. Em hebraico o predicado e os p 53 adjetivos atributivos são discriminados por
precederem ou seguirem o substantivo. A ordem de palavras do português tende a ser mais
fixa do que em hebraico. A chave para a ordem de palavras em hebraico envolve uma relação
básica, requerendo que o elemento regente (regens) geralmente preceda o regido (rectum).
Assim, em hebraico geralmente a partícula relacional precede (e por isso é chamada de
preposição) o objeto (‫מֹוָאב‬ ‫) ִבשְדֵּ י‬, o possuído precede o possuidor (‫הָאִיש‬ ‫)שֵּם‬, o
substantivo precede os adjetivos atributivos (‫אבִּיֹות‬
ֲ ֹ‫מ‬ ‫ )נָשִים‬e o verbo precede o sujeito
(‫אלִי ֶֶּ֫מלְֶך‬
ֱ ‫) ֶּ֫ ַּוּיָמָת‬.

3.3.4 Discurso e Texto

a A maioria dos lingüistas toma o período como limite superior de seu campo de estudos,
consignando a consideração de unidades maiores a folcloristas ou críticos literários. Os
semitistas, como observado antes, tenderam a focalizar a oração. Assim, o estudo da sintaxe é
tido como o estudo do uso de palavras, frases ou orações individuais. Porém, recentemente,
muitos teoristas têm expresso insatisfação com essa limitação. Em parte eles têm sido
estimulados por um desejo de estudar sistematicamente certas facetas do uso lingüístico que
filósofos, antropólogos e críticos literários têm observado. Esses eruditos têm visto que a
determinação contextual ou enunciativa do sentido de uma oração segue certos padrões.
Polidez, por exemplo, tem consequências lingüísticas distintas e, argumenta-se, a lingüística
deveria ser capaz de descrevê-las. Em parte, aqueles que rejeitassem os limites padronizados
em lingüística seriam motivados por um desejo de elucidar problemas de referência: o sistema
de pronomes, por exemplo, não pode ser examinado propriamente em períodos isolados, mas
apenas em uma série de períodos.

b A análise de discurso ou a lingüística de texto é um campo relativamente novo de estudo


baseado nesses esforços para ir além do período. Robert Longacre coloca vigorosamente o
caso para a gramática discursiva:

Nos trabalhos anteriores, a análise de discurso era reputada como uma opção
aberta ao estudante de uma determinada língua, contanto que ele estivesse
interessado, e contanto que ele tivesse um bom começo na estrutura de níveis
mais baixos (palavra, frase, oração). Mas… todo trabalho… sobre níveis mais
baixos está carente em perspectiva e encontra uma frustração inevitável
quando os níveis mais altos – especialmente discurso e parágrafo – não foram
analisados. Alguém pode descrever a morfologia verbal de uma língua, mas
onde se usar uma determinada forma? … Alguém pode descrever as
permutações lineares do predicado, do sujeito e do objeto, mas que fatores
controlam a ordenação alternativa de palavras? Alguém pode recitar a lista de
conjunções que figuram no início de orações, mas onde se usar qual? … Para
resolver estes e outros problemas precisa-se da perspectiva de discurso.

Devido a essas considerações, a análise de discurso não emerge como uma


opção ou um luxo para os estudantes sérios de uma língua, mas como uma
necessidade.
p 54 À luz dessas reivindicações, devemos defender cautelosamente o caminho mais
tradicional seguido por esta gramática. Inquestionavelmente, uma frase ou um período é
apenas uma parte de um discurso maior, mantido junto por elementos gramaticais que Ihe
dão unidade e coerência, e determinam a forma gramatical de suas frases e períodos. Uma
gramática inclusiva deveria dispor os sistemas de tal modo que o discurso inteiro fizesse
sentido. Não obstante, contentamo-nos aqui com a escrita de uma gramática mais modesta,
por razões lógicas e práticas. A razão principal é que frases e orações compreendem em si
mesmas a maioria dos elementos dos sistemas gramaticais de uma língua.

c Se levássemos a análise de discurso à sua conseqüência final, só poderíamos escrever


“com precisão” uma gramática de um texto literário inteiro; no contexto bíblico, isso
significaria um livro inteiro. A hierarquia dos elementos constituintes de uma gramática seria,
em ordem descendente de grau: livro, perícope ou seção, parágrafo, período, oração, frase,
palavra e morfema. Para os nossos propósitos, uma gramática dessa magnitude não é
prudente.

d A oração ou o período é um rompimento lógico na graduação de hierarquias porque os


elementos envolvidos nos sistemas que relacionam entidades semânticas acima desse nível
são qualitativamente diferentes daqueles envolvidos na escrita de uma gramática mais
tradicional. Por exemplo, Wilbur Pickering, em sua análise discursiva, investiga hierarquia
(perspectiva de esboço), coesão (perspectiva linear), proeminência (perspectiva temática),
estilo (perspectiva social) e estratégia (perspectiva pragmática). Esses elementos de discurso
merecem tratamento separado, mas ainda não está claro que uma explicação estritamente
lingüística seria melhor do que um tratamento mais prosaico e menos formal, como poderia
ser achado em um comentário avançado sobre um texto bíblico. Em um dos estudos
gramático-textuais mais atrativos de hebraico bíblico, Wolfgang Schneider pretende descrever
a língua não com base no período, mas com base em textos (que ele entende serem estruturas
coerentes de períodos). Ele enfatiza aqueles fenômenos lingüísticos que incorporam relações
textuais, analisando-os em três grupos diferentes: (1) formas que se referem a outras palavras
(p.ex., sufixos pronominais), (2) formas que se referem a uma relação entre orações
(conjunções) e (3) formas que se referem a relações entre segmentos de textos (ele chama
essas formas de signos macrossintáticos; p. ex., ‫ַּויְהִי‬ discursivo-inicial). Como E. Talstra
percebe, as p 55 observações de Schneider não são novas em si mesmas; o que é nova é a
maneira em que os fenômenos são organizados, de acordo com a função no texto. Schneider
distingue signos anafóricos (os que se referem ao que está atrás, p. ex., a maioria dos
pronomes pessoais em hebraico), signos catafóricos (os que se referem ao que está à frente, p.
ex., pronomes interrogativos) e os signos dêiticos (os que se referem à situação de
comunicação, apontando para fora do discurso, p. ex., pronomes demonstrativos). Todos estes
signos são tratados na presente gramática num arcabouço mais tradicional; é mérito do
trabalho de Schneider trazê-los juntos em sua função comum de apontamento e distinguir
entre eles com base na orientação (apontando para trás, apontando para frente e apontando
para fora), de um modo não possível em uma gramática tradicional.

e Resistimos aos vigorosos clamores dos gramáticos discursivos em parte pelas razões
teóricas e práticas mencionadas antes: a maior parte da sintaxe pode ser e tem sido descrita
com base em frase, oração e período. Além do mais, é evidente que a análise do discurso
hebraico está em sua infância. Como um infante, ela oferece pouca ajuda para muitos
problemas de gramática que ainda não têm sido bem compreendidos. Muitos tradutores,
pensamos ser justo dizer, agem instintivamente ao interpretar as conjugações hebraicas. Os
gramáticos de hebraico só recentemente vieram apreciar morfemas tão diversos como o
“marcador de objeto” ‫את‬ e o mem enclítico. Além disso, nenhuma gramática moderna
começou ainda a reunir a riqueza de estudos individuais que têm sido realizados em um
arcabouço mais tradicional; assim, não é surpresa que alguns estudantes pouco saibam acerca
das funções de caso, e alguns comentaristas cometam erros notórios em suas interpretações
de preposições. Para nossos propósitos, portanto, estamos felizes em ficar com as bases mais
tradicionais do que com as da gramática discursiva.

3.3.5 Abordagens Analíticas

a Cada um dos níveis lingüísticos envolve unidades ou elementos. Para analisar como um
dado nível funciona, os tipos de unidades devem ser isolados. Em fonologia os sons são
reconhecidos e as características principais atreladas a eles – tom, altura ou intensidade – são
descritas. A morfologia estuda as classes de palavras e os processos formativos associados a
elas. A sintaxe dedica-se aos tipos de frases, orações e períodos.

b Uma vez que o tipo de unidade em um determinado nível é estabelecido de um modo


preliminar, o próximo estágio de análise pode ser experimentado. No trabalho de gramáticos e
lingtüistas antes do século 19, este estágio tendia a ser comparativo, pelo menos
implicitamente. Uma língua (na Europa mais freqüentemente o latim) servia como modelo e
outras línguas eram descritas como desvios daquele modelo. Por volta do fim do século 19 as
insuficiências de tal abordagem tornaram-se óbvias, resultado de trabalhos sobre uma
variedade de línguas. Na obra de Saussure emergiu uma alternativa ao estudo comparativo e
histórico anterior. O estruturalismo lingüístico está baseado na idéia de que uma língua pode
ser descrita em seus próprios termos: sem sua história e à parte de comparações com outras
línguas, correlatas ou não. Numa visão estruturalista, as unidades num dado nível gramatical
são consideradas como um sistema, em relação umas às outras.

c Os anos após a morte de Saussure foram grandes anos para os lingüistas e as


metodologias estruturalistas foram elaboradas em vários contextos e com diferentes p 56
ênfases. Assim, a escola dos alunos de Saussure em Genebra dedica-se a um conjunto de
problemas de forma distinta que a escola de Praga, literariamente orientados, ou os
antropologicamente dominados da escola americana. A diversificação do estruturalismo
lingüístico conduziu a metodologias estruturalistas em outros campos, e por um tempo nos
anos 60 e início dos anos 70 (século 19), o estruturalismo parecia um modelo provável para o
domínio das “ciências humanas”, capaz de unificar antropologia, psicologia e crítica. Claude
Lévi-Strauss, um antropólogo francês, estudou mitos e sistemas de mitos a partir de uma base
lingüisticamente informada; vários caracteres e ações míticos são vistos como unidades
compondo uma “língua de mito”.

d O papel do estruturalismo foi alterado nos anos recentes. Nas “ciências humanas” o
estruturalismo é visto, um pouco incorretamente, como antiquado, e novas abordagens são
chamadas de “pós-estruturalismo”. Lingüistas, em contraste, têm visto os métodos
estruturalistas como ferramentas que podem capacitá-los a voltar a uma abordagem anterior
com uma reserva imensamente aumentada de dados. Agora é possível usar uma base
comparativa na avaliação de uma dada língua, onde a base não é meramente o latim ou
algumas línguas, mas uma amostra amplamente representativa de toda língua. Nem todas as
línguas têm sido estudadas, sem dúvida, mas o suficiente tem sido descrito em detalhes, de
modo que poucas surpresas são esperadas. Estudos em línguas universais e tipologias
lingüísticas, cujos caminhos foram abertos por Joseph H. Greenberg, têm assumido
recentemente um papel destacado em lingüística.

e Como foi observado antes, a essência do método estruturalista é uma abordagem


sistemática em um determinado nível ou em outro domínio. Assim fazemos perguntas do tipo:
como diferem as unidades? Como opera o contraste? Como são usadas as oposições? As
formas nas quais as respostas são elaboradas são os modos pelos quais os vários
estruturalismos são diferenciados. Um conceito principal é a ausência de marca: em uma
oposição emparelhada, um membro do par é considerado não-marcado (i.e., mais simples,
menor, mais “óbvio”, mais “natural”), enquanto que o outro membro é considerado marcado.
No sistema sonoro português há um contraste surdo/sonoro para consoantes e cada um dos
pares p:b, t:d, k:g tem um membro não-marcado surdo (p, t, k) e um membro marcado sonoro
(b, d, g). A sonoridade (vibração das cordas vocais) é a “marca” dos membros marcados. A
morfologia portuguesa contrasta singular e plural e cada um dos pares porta/portas,
livro/livros, peixe/peixes tem um membro não-marcado singular (porta, etc.) e um membro
marcado plural (portas, etc.); a terminação plural é a “marca” dos membros marcados. Nos
casos em que o significado usual dessa marca é irrelevante, a marca pode assumir outros
significados. A forma plural ‘águas’ não tem um sentido plural ordinário; ao contrário, ela
usualmente tem um sentido de grande quantidade de água num ambiente natural (‘as águas
do São Francisco’, ‘as águas do Jordão’). As p 57 formas plurais marcadas são maiores em
termos físicos e mais complexas em termos semânticos, usualmente (embora nem sempre)
com o significado “plural”. O hebraico tem um duplo conjunto de contrastes de marcação para
número. O singular é não-marcado em oposição ao plural, e singular e plural juntos são não-
marcados em oposição ao dual. Este duplo esquema pode ter uma representação direta: o
singular ‫ יֹום‬é monossílabo, o plural ‫ יָמִים‬é dissílabo e o dual ‫ י ֹ ֶַּּ֫מי ִם‬é trissílabo. A marcação
não é sempre tão simples, e a marca nem sempre é um traço ou elemento acrescentado. Em
termos de unidades lingüísticas maiores, a estrutura de uma oposição marcada é
freqüentemente difícil de elaborar. Os gramáticos medievais de hebraico viram os sistemas de
graus como divididos entre Qal ‘leve’ e os graus derivados ou ‘pesados’. Essa é uma oposição
de marcação, visto que todos os graus derivados têm alguma marca adicional. Contudo, não é
óbvio que conclusões lingüísticas resultam dessa concepção.

f Uma das bases da teoria da marcação é encontrada no léxico. A forma não-marcada de


uma palavra, que pode ser flexionada, é a forma de dicionário ou citação. Em um léxico de
inglês alguém se volta para ‘day’ a fim de investigar as formas days e day’s, e para ‘daze’ para
investigar dazed e dazes. Em léxicos de hebraico baseados em palavra (aqueles nos moldes de
Koehler-Baumgartner), a forma de citação da palavra é básica, enquanto que nos léxicos
tradicionais de semítico (incluindo os dicionários de hebraico de Gesenius), as palavras são
categorizadas adicionalmente por formas de citação das raízes. É importante não confundir as
formas usadas em léxicos com as formas reais não-marcadas, visto que os léxicos assumem
uma variedade de soluções conciliatórias entre a representação mais econômica das palavras e
as necessidades práticas de usuários. Além disso, podemos dizer que a idéia da forma não-
marcada de uma palavra cresceu independente da idéia da forma de citação; as convenções de
pronúncia, também, tiveram sua função na estruturação do conceito de marcação.

3.4 Variação

a A língua varia ao longo dos mesmos parâmetros como os outros aspectos da cultura
humana, isto é, ela varia através do tempo, de acordo com o contexto geográfico, social e p 58
político, e junto com idade, gênero e relacionamento entre usuários. Variação histórica é o
tipo mais óbvio: nosso português não é o de Camões e o hebraico moderno não é a língua de
Ezequiel. Discutimos alguns aspectos da história do hebraico no capítulo 1, e lá aludimos à
oposição sincrônica/diacrônica. Na visão de Saussure, o estudo de um determinado estado da
língua num dado tempo (estudo sincrônico) é um empreendimento diferente do estudo da
relação de vários estados de uma língua (estudo diacrônico). Como argumentamos antes, uma
variedade de problemas toma difícil um estudo estritamente sincrônico ou diacrônico do
hebraico bíblico. A despeito da padronização e homogeneidade refletida no texto bíblico, é
possível apreciar aspectos de mudança histórica dentro dele. Desde a Segunda Guerra
Mundial, lingüistas perceberam muitos outros tipos de variação no uso lingüístico, e esses,
também, podem ser relevantes para o estudo do hebraico.

b Mudanças ao longo do tempo e variações devidas a outras circunstâncias refletem


diversidades numa comunidade de falantes. Algumas mudanças, chamadas “variações livres”,
refletem variações espontâneas ou não-sistemáticas, que surgem à medida que os falantes
usam uma língua. Todas as outras formas de mudança, no final das contas, refletem variações
condicionadas lingüística ou culturalmente. Algumas mudanças refletem analogias no interior
do sistema: se o plural de ‘rato’ é ‘ratos’, uma criança pode pluralizar ‘cão’ como ‘cãos’. A
forma ‘rooves’, em analogia a ‘loaves’, adquiriu aceitação no inglês americano, e ‘have went’
às vezes substitui ‘have gone’. Em termos culturais as palavras saem de uso à medida que as
coisas que elas nomeiam se tomam sem importância; a forma inglesa ‘jesses’ (português
‘pioses’) é usualmente vista em Shakespeare, em vez de ser ouvida hoje com referência a
gaviões e falcões. Por outro lado, coisas novas trazem palavras novas: uma instituição alemã
conduziu ao empréstimo de ‘kindergarten’ para o inglês, e o vocabulário musical português é
grandemente de origem italiana (‘soprano, piano, pianíssimo’). A mudança social é refletida
em novos usos como ‘gay’ e cunhagens tais como ‘dono de casa’ e ‘criança chave de trinco’. A
tecnologia está sempre mudando: o velho vocabulário de hidrologia (‘açude, regueira da calha
da azenha, roda d’água’) praticamente desapareceu; um novo vocabulário das fábricas
apareceu (‘náilon, mistura algodão-poliéster, pressão permanente’). O comércio também é um
fator: ‘musselina’ (cf. Mosul) e ‘escalônia’ (cf. Asqelon) vieram do Oriente Médio para a
Europa.

c As tradições poéticas (e em extensão menor todas as tradições literárias) preservam


vocabulário antigo e formas gramaticais que têm sido perdidas na fala ordinária e em prosa
clara. Os recursos léxicos e morfológicos tendem a ser maiores. Os fatos p 59 lingüísticos
interagem de maneiras complexas com outros traços estruturais do verso hebraico. É
importante ver a gramática na poesia, no contexto da gramática hebraica. Noções soltas de
um vocabulário especial e gramática de poesia são lingüisticamente desinformadas.

d A maior fonte de variação lingüística é a geografia, embora a variação geográfica


freqüentemente, também, seja determinada igualmente por outros fatores. É habitual
designar sistemas lingüísticos geograficamente distintos de dialetos e falar de uma língua
como sendo um grupo de dialetos mutuamente inteligíveis. A distinção terminológica não
deveria ser tomada tão seriamente: línguas e dialetos sobrepõem-se e engrenam-se de vários
modos. Alguns tipos de inglês não são inteligíveis uns aos outros, mas uma tradição comum de
escrita os mantém juntos. A priori poderíamos esperar que uma área geográfica do sul da
Palestina fosse lingüisticamente diversa nos tempos antigos, particularmente devido ao fato
de os instrumentos de padronização não terem sido ainda bem desenvolvidos. Algumas
evidências inscricionais suportam essa expectativa, como o faz o texto bíblico em pequeno
grau. A maior parte do hebraico bíblico está, de fato, no dialeto de Jerusalém, e pouco
material permanece para preencher a geografia dialetal das áreas circunvizinhas.

e A própria Bíblia dá testemunho de diferenças regionais entre os israelitas em Juízes 12.


Os efraimitas na Cisjordânia não podiam pronunciar šibbolet do mesmo modo que os gileaditas
na Transjordânia. A variante efraimita sibbolet foi usada como um marcador lingüístico: se um
gileadita suspeitasse que alguém era efraimita, deveria testar aquela pessoa apontando para
uma espiga de milho (ou talvez um ribeiro; šibbolet significa ambas as coisas) e perguntando
como ele a chamava. O uso dos efraimita custaria a vida do falante. Há igualmente evidência
de uma ruptura norte-sul (cf. 1.4.1). Traços de hebraico não-jerusalemita podem ser
encontrados em passagens bíblicas associadas com o reino do norte; tais passagens podem
referir-se a nortistas (as histórias de Elias), ou mesmo a fenícios (Sl 45); podem citar nortistas
(Amós), ou podem ser atribuídas a nortistas (Oséias). O estudo lingüístico de tais passagens é
auxiliado por materiais epigráficos tanto provenientes de Israel como da Fenícia.

f Outras fontes de variações lingüísticas parecem ter deixado alguns poucos traços na
Bíblia, e estudos posteriores podem ser frutíferos. Primeiro, urbano versus rural: a fala não-
urbana é freqüentemente mais conservadora do que a dos moradores da cidade,
especialmente a elite ou os grupos instruídos. Segundo, homem versus mulher, e empregado
versus patrão: as situações sociais diferentes dos gêneros e das classes podem afetar suas
falas. Terceiro, jovem versus idoso: o desenvolvimento histórico da língua é ordenado pouco a
pouco na fala de todos os falantes como eles a dominam e amadurecem em seu uso. O estudo
destes e de outros tipos lingüísticos de variação na Bíblia é complicado por questões de gênero
e uso literário.

p 60 g Falamos de gramática do hebraico bíblico como um único sistema porque as


variações e dialetos parecem existir dentro de uma única língua, e nenhum traço de
diversidade dessa língua é surpreendente à luz de nosso conhecimento das línguas modernas.
Falantes de dialetos do inglês americano que distinguem as vogais de ‘pin’ e ‘pen’ não têm
praticamente qualquer dificuldade para entender falantes que não as distinguem, como os
Apalaches, os Ozarques e muitos do extremo sul. As linhas que separam variação, dialeto e
língua são vagas porque variações acumuladas levam à formação de dialetos, e dialetos
divergentes levam à formação de uma língua. Outros fatores culturais desempenham seus
papéis na situação de mundo real. Efraimitas e Gileaditas, apesar de suas pronúncias
diferentes, comunicavam-se uns com os outros em uma língua comum. Falantes do português
brasileiro exibem ricas variações em suas expressões lingüísticas e em suas expressões
literárias; porém, comunicam seus pensamentos e experiências por meio de uma língua
comum. Da mesma forma os falantes encontrados nas escrituras hebraicas comunicaram suas
mensagens a uma audiência comum, a despeito de algumas variações. Aqueles que
compartilham a mesma cultura e oportunidade tendem a conservar uma estrutura lingüística
comum. Nosso propósito nesta gramática não é focalizar variações dentro do hebraico bíblico,
mas focalizar os sistemas comuns; não duvidamos de que a gramática de qualquer corpo de
material ou autor seria reveladora.

3.5 Compreensão

a No andamento deste capítulo examinamos diversos conceitos básicos de lingüística


moderna. Aqui consideramos dois pares de conceitos e brevemente tocamos na questão por
trás da gramática e exegese, a questão de como as pessoas entendem umas as outras além da
“barreira” de línguas diferentes. Essa questão está presente na conjuntura de todas as ciências
humanas.

b Um par nos moldes saussurianos, desenvolvido pela análise lingüística, é o sintagma e o


paradigma. O termo sintagma já foi apresentado. A palavra paradigma é familiar em seu
sentido ordinário de uma lista ordenada de formas flexionais; o uso saussuriano é levemente
diferente. Em seus termos, relações entre elementos lingüísticos no fluxo linear da fala (i.e., o
arranjo de fonemas e morfemas como ocorrem no ato da fala) são sintagmáticas; relações
entre itens lingüísticos não presentes nesse arranjo ordenado no ato da fala são
paradigmáticas. As duas categorias representam dois modos basicamente diferentes de
organização de material lingüístico. Por exemplo, podemos distinguir uma seqüência ou
relação sintagmática do tipo “substantivo + adjetivo atributivo” em hebraico. As categorias
paradigmáticas envolvidas aqui são a classe dos substantivos e a classe dos adjetivos
atributivos. Considere estes grupos:

Substantivos Adjetivos

Atributivos

‫אִיש‬ ‫ִעב ְִרי‬

‫בַּת‬ ‫טֹוב‬

‫ָגמָל‬ ‫נָבָל‬
‫דָ בָר‬ ‫ִראשֹון‬

p 61 Cada grupo é uma amostra das classes paradigmáticas, e desde que as classes sejam
aquelas especificadas na relação sintagmática “substantivo + adjetivo atributivo”, todas as 16
combinações possíveis deveriam estar sintagmaticamente disponíveis. As frases com ‫בַּת‬
devem requerer que o adjetivo esteja no gênero feminino. Não podemos estar certos de que
frases não-atestadas seriam efetivamente boas em hebraico; ‫ָגמָל נָבָל‬ poderia parecer
redundante – não são todos os camelos tolos? Tal julgamento seria uma matéria de semântica.

c Os eruditos há muito suspeitaram de que um período pode ter traços que são básicos a
ele, embora não estejam aparentes na forma superficial. Noam Chomsky distinguiu entre
“estrutura superficial” e “estrutura profunda”. Ele definiu a estrutura superficial de um
período como a seqüência linear de elementos; a estrutura profunda, que não precisa ser
idêntica à estrutura superficial, é vista como uma representação de relações gramaticais mais
abstrata. A distinção entre estes dois níveis da língua tem sido responsável pela enorme
quantidade de pensamento lingüístico desenvolvido sob o título de gramática gerativo-
transformacional e vários desenvolvimentos mais recentes.

d M. A. K. Halliday observou que os dois conjuntos de distinções que acabamos de


examinar são similares. O lado sintagmático do uso da língua é revelado na estrutura
superficial, que Halliday chama de “cadeia”; para ser verdadeiro, Halliday propôs que toda
estrutura é superficial, e que toda “escolha”, consideração sistemática da paradigmática, é
profunda. A estrutura da língua, então, seria o dispositivo para conceber no plano físico, a
representação seqüencial, as escolhas feitas de forma não-seqüencial, uma gramática abstrata
profunda.

e Estas oposições – sintagmático/paradigmático, estrutura superficial/estrutura profunda,


cadeia/escolha – são partes de teorias maiores e mais sofisticadas de como a língua funciona.
Elas nos permitem esboçar uma visão do problema transcultural, o problema de como a
comunicação atravessa a linha divisória lingüística. Tomemos uma formulação do problema. O
trabalho de pesquisa do antropólogo Bronislaw Malinowski na Polinésia o levou a pensar que a
“tradução” de termos e textos da língua de uma cultura para a língua da outra é impossível.
Absolutamente falando isto é verdade, porque tanto a realidade extralingüística como a
expressão intralingüística dela estão condicionadas sócio-culturalmente. Contudo, no nível
mais profundo da língua parece haver um vínculo comum entre as pessoas, que as capacita a
comunicar-se umas com as outras e tornar objetivas suas diferenças sócio-culturais. Esse
vínculo está baseado em parte nos elementos comuns da gramática da estrutura profunda.
Malinowski não foi um antiuniversalista. Ele escreveu: “Seria absurdo e intelectualmente
pusilânime desistir logo de início de qualquer busca por forças profundas que devem ter
produzido [as] características comuns universalmente humanas da língua”. Mais
recentemente, Chomsky foi mais objetivo em sua defesa do estudo de uma gramática
universal. John Lyons explana:

p 62 Há poucos anos, a maioria dos lingüistas teria rejeitado a possibilidade


de construir uma teoria universal de categorias gramaticais. As coisas não são
mais assim. Como Chomsky salientou: “o trabalho moderno… mostrou uma
grande diversidade nas estruturas superficiais das línguas”, mas “as estruturas
profundas, para as quais a universalidade é reivindicada podem ser muito
distintas das estruturas superficiais de períodos como elas realmente
aparecem”. Segue-se que “as descobertas da lingüística moderna… não são
incompatíveis com a hipótese dos gramáticos universais”. Uma vez mais a
famosa afirmação de Roger Bacon acerca da gramática universal está sendo
citada com aprovação pelos lingüistas: “A gramática é substancialmente a
mesma em todas as línguas, embora ela possa variar acidentalmente”.

Desde que haja muitas coisas e experiências no domínio extralingüístico que as pessoas
compartilham universalmente, a visão medieval de Bacon talvez não seja surpreendente.
Assim, em parte por causa das propriedades universais da língua em sua dimensão mais
profunda, abstrata e não-física, nós, como falantes e leitores do português, estamos aptos
para entender hebraico.

p 63 4
Unidades Gramaticais
4.1 Introdução

4.2 Palavra

2.1 Definição

2.2 Classes de Palavra

4.3 Frase e Oração

4.4 Sujeito

4.1 Expressões do Sujeito

4.2 Sujeito Indefinido

4.5 Predicado

4.6 Modificadores
6.1 Modificadores Adjetivos

6.2 Modificadores Adverbiais

4.7 Nominativo Absoluto e Vocativo

4.8 Período

4.1 Introduçáo

a A teoria gramatical tradicional opera com duas unidades fundamentais: a palavra e o


período. Os lingüistas associam a palavra com unidades mínimas de significado chamadas
morfemas (veja 3.3.2). Os gramáticos comumente reconhecem frases e orações como situadas
entre a palavra e o período. Estas cinco unidades estão relacionadas por via de composição.
Uma unidade tem um “grau superior” se é composta de outras unidades; as unidades se
distribuem em graus decrescentes: período, oração, frase, palavra e morfema. Uma forma
lingüística particular pode situar-se em vários graus: freqüentemente um morfema é uma
palavra, isto é, com freqüência as palavras são monomorfêmicas. Uma palavra pode até
mesmo ser uma oração ou um período. Em 2 Reis 4, Eliseu instrui a Geazi para aproximar-se da
Sunamita e dizer:

‫שְך‬
ֵּ ‫ ֲהשָלֹום לְָך ֲהשָלֹום ְלאִי‬Vai tudo bem contigo? Teu marido vai bem? O
menino vai bem?

‫ ֲהשָלֹום ַּל ֶָּּ֫ילֶד‬2 Reis 4.26

A mulher responde com uma única palavra,

‫(שָלֹום‬Todos vamos) bem.

2 Reis 4.26

p 64 Essa resposta pode ser considerada uma palavra, uma oração (do tipo reduzido tratado
abaixo), e um período simples. Esse elemento de sobreposição entre as unidades é bastante
útil na análise. Desde que unidades superiores dependem de unidades inferiores, vamos
apresentá-las em ordem ascendente. Já tendo esclarecido a noção de morfema, começaremos
neste capítulo com a palavra.
4.2 Palavra

4.2.1 Definição

a A palavra é a unidade da língua consistindo de um ou mais sons falados (ou sua


representação escrita) que pode soar como um enunciado completo ou pode ser separada dos
elementos que a acompanham no enunciado por outras unidades do mesmo tipo; palavras são
compostas de um morfema ou vários morfemas. Neste último caso, os morfemas são
freqüentemente combinados em uma palavra por critérios de ligação. Por exemplo, em
português, a perda do acento primário que distingue pára-quedas de para quedas. Alguns
morfemas estão sempre ligados ou presos e nunca ocorrem isolados; isto se aplica aos prefixos
em hebraico – por exemplo, em ‫שב ְָרה‬
ָֽ ָ ‘ela quebrou’, o sufixo ‫‘ – ָָ ה‬ela’ está preso a uma
forma de uma raiz verbal. Em outros casos, os morfemas podem ocorrer isolados. Alguns
morfemas estão unidos pela perda do acento ou próclise (apoio adiante, i.e., de uma palavra
sobre a outra); diz-se que a palavra que perde o acento é proclítica. A próclise é marcada no
TM por maqqeph, como em ‫‘ עַּל־ ְּפנֵּי‬sobre a face de’ (Gn 1.2). A próclise é comum com as
preposições monossilábicas e as partículas, por exemplo, ‫אֶל‬, ‫עַּל‬, ‫עַּד‬, ‫עִם‬, ‫מִ ן‬, ‫ ּפֶן‬e a negativa
‫ַאל‬. As palavras são discriminadas na fala por tonicidade, acento ou entonação, e na escrita
por espaços. Pensa-se que as palavras representem um conceito indivisível, ação ou
sentimento; tal definição imaginária é demasiadamente imprecisa para ser útil.

b Palavras podem ser definidas fonológica ou gramaticalmente. Por exemplo, down é


fonologicamente a mesma palavra nas orações “He ran down the Hill” (Ele correu colina
abaixo) e “She stroked the soft down on his cheek” (Ela alisou a parte macia debaixo da
bochecha dele); gramaticalmente as ocorrências envolvem duas palavras que têm significados
diferentes (i.e., representam uma relação espacial e uma entidade, respectivamente) e entram
na língua em funções contrastantes e combinatórias distintas; os dois downs não podem ser
sintaticamente permutados um com o outro. A homofonia de duas palavras é grandemente
acidental para o estudo gramatical básico. Gramaticalmente as palavras funcionam por
referência a uma realidade extralingüística ou por servir como parte de um código
intralingüístico (3.2.2).

4.2.2 Classes de Palavra

a Palavras podem ser classificadas de acordo com o modo como elas funcionam (i.e., de
acordo com sua distribuição) nas unidades superiores, frase, oração e período. Essa
classificação refere-se às relações sintagmáticas entre os diversos tipos de palavras e os p 65
diversos tipos de ordens de palavras possíveis em unidades superiores. Em português, ‘o
cachorro preto’ (artigo + substantivo + adjetivo) é uma frase aceitável, mas ‘cachorro preto o’
(substantivo + adjetivo + artigo) não é aceitável. Similarmente, a combinação de palavras nas
orações seguintes é aceitável:

O cachorro preto morde cruelmente.

O chimpanzé marrom come entusiasticamente.


O vento forte soprou furiosamente.

Por outro lado, ninguém encontrará orações como estas entre os usuários da língua
portuguesa:

Cachorro o morde preto.

O entusiasticamente chimpanzé come marrom.

O forte soprou vento furiosamente.

Mordeu comeu abriu.

O artigo ‘o’ ocorre a algumas palavras e não a outras, e as mesmas espécies de restrição são
impostas a outras palavras. Ao observar palavras que possam ocorrer em ambientes
comparáveis, podemos agrupá-las em classes. De um modo formal, podemos agrupar as
palavras destas orações como:

Classe T: o

Classe W: preto, marrom, forte

Classe X: cachorro, chimpanzé, vento

Classe Y: morde, come, soprou

Classe Z: cruelmente, entusiasticamente, furiosamente

b Tradicionalmente, os gramáticos chamam a classe T “o artigo”, a classe W “o adjetivo”, a


classe X “o substantivo”, a classe Y “o verbo” e a classe Z “o advérbio”. Tal sistema formal de
categorização produz grupos de classes de palavra. Palavras pertencentes a uma classe de
classe de palavras podem ser analisadas em subclasses semânticas. Por exemplo, ‘cachorro’ e
‘chimpanzé’ podem ocorrer nos verbos ‘morder’ e ‘comer’, mas não em ‘soprou’, enquanto
que ‘vento’ pode ocorrer nos verbos ‘soprou’ e não em ‘morder’ e ‘comer’ (exceto
metaforicamente). Sobre o fundamento de distribuição podemos analisar a classe dos
substantivos em Substantivos (a) classe e Substantivos (b) classe. Não tencionamos aqui
esgotar as classes possíveis nas quais palavras possam ser categorizadas, mas explicar como é
feita tal categorização tanto no campo formal como no semântico.

c Os gramáticos têm abstraído valores irreais para essas classes; por exemplo, diz-se que a
classe dos substantivos significa normalmente pessoas, lugares e coisas; a classe dos adjetivos
atribui uma qualidade ao substantivo, etc. Subclasses semânticas são, também, descritas de
acordo com valores irreais. Membros do Substantivo (a) classe citada acima pertencente à
classe de “substantivos animados”, enquanto que o exemplo do Substantivo (b) classe é um
“substantivo inanimado”. O modo pelo qual classes de palavras são imaginariamente rotuladas
é matéria distinta dos procedimentos lingüísticos usados para isolar as classes; os rótulos
podem ser em si mesmos enganadores. Por “classes de palavra” queremos dizer ambos, as
classes às quais as palavras pertencem em bases distribucionais formais e o abstrato, noção
comum pertencente à classe. Em p 66 hebraico, os termos principais do discurso são o
substantivo e o verbo; os adjetivos pertencem à classe dos nomes, juntamente com os
substantivos; os advérbios são uma classe pequena. As categorias de preposição e conjunção
se sobrepõem; estas duas, juntamente com alguns advérbios, são com freqüência
simplesmente chamadas de partículas. A classe de exclamações e interjeições, por exemplo,
‫‘ הֹוי‬ai’, ‫‘ ָח ִֶּ֫לילָה‬longe com isto!’, ‫‘ נָא‬eu rogo’, ‘por favor’ é de menor importância.
d As classes de palavras têm definições misturadas, em parte baseadas em fatores
semânticos ou referenciais e em parte baseadas em várias características formais. Não existe
qualquer esquema universal único das classes de palavras, tampouco qualquer conjunto de
associações entre as classes de palavras e os sintagmas, mais complicados do que as frases.
Visto que a sintaxe, como a estamos apresentando aqui, é o estudo sistemático de como as
palavras são usadas, alguns aspectos da história da classificação de palavras são dignos de
serem mencionados. O sistema de classe de palavras remonta aos tempos helenísticos (sua
continuidade com os modelos do antigo Oriente Próximo permanece inexplorada) e, embora
os papiros gramaticais do Egito mostrem que os sistemas assumiram muitas formas diferentes,
a tradição o atribui a Dionísio Traxe (ca. 100 a.C.). O esquema completo reflete tanto o
pensamento filosófico estóico clássico como o posterior, mas Dionísio e os autores dos papiros
são mais propriamente gramáticos do que filósofos. Há uma base tríplice: o grego onoma ‘a
nomeação’, rhēma ‘a fala’ e syndesmos ‘a ligação’; sob estes três títulos podemos arranjar as
oito categorias de Dionísio:

Classe Classe de palavraa

nomeação 1. nome (i.e., substantivo)

2. interjeição

3. advérbio

a fala 4. fala (i.e., verbo)


5. particípio

a ligação 6. preposição

7. conjunção

8. pronome

A primeira categoria inclui tanto os substantivos como os adjetivos, enquanto # 8 cobre os


artigos além dos pronomes. Se substantivos e adjetivos estão separados, e verbos e partículas
combinados, esse esquema, da era helenística, se aproxima daqueles ainda em uso em muitas
gramáticas de ensino das línguas européias.

e Os gramáticos medievais do árabe e do hebraico usaram apenas três classes de palavras,


correspondentes aos três títulos gerais acima: árabe ism ‘nome; substantivo”; fiʿl ‘ato; verbo’,
p 67 e ḥarf (plural ḥurūf) ‘movimento; partícula’. Esse esquema mais simples não deve ser
aceito como um indicador de que as línguas semíticas não possuem áreas problemáticas como
as línguas européias clássicas, mas simplesmente que seus gramáticos ergueram um
fundamento mais próximo ao chão. Algumas das áreas problemáticas repercutidas no hebraico
podem ser mencionadas. Primeira, os substantivos próprios (nomes) parecem diferentes em
caráter dos outros substantivos (latim, nomina) e, dentre estes, os substantivos são diferentes
dos adjetivos (embora menos diferentes do que na maioria das línguas européias); além disso,
números parecem um tipo especial de adjetivo. Segundo, algumas formas verbais são usadas
como substantivos (substantivos verbais, i.e., os dois infinitivos e os particípios). Em alguns
aspectos, os adjetivos se comportam mais como verbos do que como substantivos:
substantivos (e pronomes) são determinados em si mesmos enquanto que verbos e adjetivos
são apenas determinados em relação a substantivos ou substantivos equivalentes; eles se
referem a acidentes (no sentido filosófico). Terceiro, a maioria das partículas é invariável na
forma, mas algumas variam, e poucos nomina e verbos são invariáveis. Algumas partículas
referem-se ao contexto imediato (p. ex., advérbios), enquanto outros se referem a contexto do
discurso mais ampios (p. ex., conjunções). Se tivermos essas considerações em mente, será
fácil ver como a lista tradicional européia se desenvolveu e, também, será fácil apreciar a
classificação de Wolfgang Richter para o hebraico:

Verbo

substantivo verbal (infinitivo; particípio)

nome (substantivo; adjetivo; numeral)

nome próprio
pronome

partícula (advérbio; preposição; conjunção; palavra modal, p. ex., negativa; artigo;


interjeição)

f Não é nosso propósito defender uma lista particular, mas, antes, ressaltar a utilidade de
uma abordagem centrada em classe de palavras a despeito de suas origens mescladas. Essas
origens poderiam ser encobertas ou superaradas, se indicadores estritamente formais fossem
encontrados para substituir os fatores referenciais. Não fizemos assim porque o peso do
testemunho tradicional é parte de nossa segurança, de que as classes de palavras facilitam o
mapeamento e a compreensão da sintaxe. E ainda, porque o referencial histórico de termos
como “substantivo” e “verbos” permanece, a dificuldade de mudar da classe de palavras para
o sintagma surge indefinidas vezes. Acreditamos que a alternativa seja uma gramática na qual
os elementos se combinem suavemente em sintagmas, mas os próprios elementos não são
reconhecíveis aos leitores sem uma preparação especial (em geral) no novo e limitado
arcabouço teorético. Um arcabouço estritamente sintagmático (ou estritamente
paradigmático) seria pouco razoável e, suspeitamos, menos acessível para “trabalhar sem
dados” (na frase de T. O. Lambdin).

g Um inconveniente de uma abordagem conservadora da sintaxe centrada em classe de


palavras é que ela pode levar a uma fragmentação da organização (tentamos evitar isto p 68
tanto quanto possível) e à perda de generalizações e regularidades. A abordagem tende a
separar e isolar os fenômenos sintáticos, o que de algum modo é o oposto de uma gramática
discursiva. Certos fenômenos que abreviam diversas categorias não recebem o tratamento
devido. Coerência ou concordância é o traço que mantém juntas frases e orações, a base de
todos os padrões sintagmáticos. Flexão é o traço que cria a diversidade de formas verbais e
(em menor extensão) nominais, a base dos padrões paradigmáticos. Uma gramática de
hebraico que tenha começado com concordância e flexão seria uma gramática muito diferente
da que escrevemos.

4.3 Frase e Oração

a Uma frase é, em certo sentido, um grupo de palavras usadas como um equivalente a


uma classe de palavra única. Considere a oração de um exemplo anterior, ‘O chimpanzé
marrom come entusiasticamente’, ao lado da oração, ‘O chimpanzé marrom come com zelo’;
‘com zelo’, um grupo de palavras, segue o mesmo padrão distribucional e tem o mesmo valor
gramatical que ‘entusiasticamente’, no sentido de que ambos modificam um verbo. Então,
assim como ‘entusiasticamente’ é um advérbio, ‘com zelo’ é uma “frase adverbial”. Na oração,
‘O cachorro com pêlo felpudo morde cruelmente’, o grupo de palavras ‘com pêlo felpudo’ tem
a mesma função do adjetivo ‘preto’ na oração ‘O cachorro preto morde cruelmente’.
Chamamos um grupo de palavras com função de adjetivo de “frase adjetiva”.
Semelhantemente, há frases nominais, frases verbais, etc.

b Um outro sentido diferente de frase também é proveitoso. Neste sentido, uma frase
inclui uma palavra regente e ela a tudo rege. Uma frase preposicional é uma preposição e seu
objeto; uma frase participial é um particípio e as palavras que ele rege, seja no construto ou
por meio de uma preposição; e uma frase construta inclui todos os substantivos numa cadeia
construta.

c Observamos no Capítulo 3 que a língua serve como um meio ou código pelo qual um
falante comunica pensamentos ou experiências a uma audiência. Uma oração designa um
enunciado no qual o falante faz um comentário sobre um tópico. O tópico é chamado “o
sujeito” e o comentário “o predicado”. O sujeito é expresso por um substantivo ou um
equivalente; o predicado de uma oração verbal é um verbo ou um equivalente, enquanto que
o de uma oração não-verbal é um complemento substantivo.

d Uma oração é uma combinação sintática de um sujeito e de um predicado. O sujeito ou


o predicado pode ser composto, como em ‘O cachorro e o chimpanzé morderam cruelmente’
(sujeito composto) ou ‘O cachorro mordeu e comeu sua vítima cruelmente’ (predicado
composto) ou ‘O cachorro e o chimpanzé morderam e comeram suas vítimas cruelmente’
(sujeito composto e predicado composto). Cada um destes enunciados consiste de um único
tópico e de um único comentário acerca dele. Em contraste, o p 69 período ‘O cachorro
estava comendo sua vítima quando o chimpanzé chegou’ consiste de duas orações; o
enunciado contém dois tópicos separados (sujeitos), cada qual com seu próprio comentário
(predicados). As duas orações juntas constituem um período, um termo que discutiremos
abaixo. Quando um período consiste de apenas uma oração, ele é chamado de “período
simples”; quando ele consiste de mais de uma oração, ele é chamado de período “composto”
ou “complexo”, dependendo de como as orações dentro do período estão ligadas (38.1).

e Além do sujeito e do predicado a oração pode incluir modificadores de qualquer um


destes elementos, e conjunções podem mostrar a relação de uma oração com outras orações
ou períodos. Modificadores ou complementos podem ser necessários (nucleares) ou passíveis
de omissão (periféricos); podem ser adjetivos ou adverbiais.

4.4 Sujeito

4.4.1 Expressões do Sujeito

a Um substantivo, um substantivo equivalente ou uma construção nominal complexa pode


expressar o tópico. Uma classe de palavras, que não seja um substantivo, mas que exerce em
uma oração a função de um substantivo, é chamada de substantivo equivalente. Abaixo temos
exemplos de substantivo ou substantivo equivalente exercendo a função de sujeito gramatical.

(1) Substantivo (8.3)

1. ‫ ְו ַּהנָחָש ָהי ָה עָרּום‬Ora a serpente era sagaz.


Gn 3.1

(2) Pronome (16.3.2)


2. ‫וְהּוא י ִ ְמשָל־בְָך‬E ele te governará.
Gn 3.16

(3) Adjetivo (14.3.3)

3. ‫ ָחכָם י ֵָּרא ְוסָר מ ֵָּרע‬O


(que é) sábio é cauteloso e
desvia-se do mal.

Pv 14.16

(4) Particípio (37.2)

4. ‫ ַּה ֵּמתָ ה ָתמּות‬O que quer morrer, morra.


Zc 11.9

(5) Infinitivo absoluto (35.3.3)

5. ‫ֹלא־טֹוב‬
֑ ‫ָאכ ֹל דְ בַּש ה ְַּרבֹות‬Comer muito mel não é bom.
Pv 25.27

(6) Infinitivo construto (36.2)

6. ‫ ַּה ְמעַּט ַּקחְתֵּ ְך אֶת־אִישִי‬Achas pouco o me teres levado


o marido? (lit., Foi o teu roubar
de meu marido…?)

Gn 30.15

7. ‫ ְואִם ַּרע ְבעֵּינֵּיכֶם ַּלעֲב ֹד אֶ ת־‬Se servir YHWH vos parece mal…
‫יהוה‬Js 24.15

p 70 (7) Advérbio
8. ‫ה ְַּרבֵּה נָפַּל מִן־ ָהעָם‬Muitos caíram das tropas.
2Sm 1.4

b Construções nominais complexas – frase nominal, frase preposicional, oração – também


podem expressar o sujeito. (1) Em frases nominais, dois ou mais substantivos são ligados por
um dos seguintes modos:

(a) aposição, a justaposição assindética de dois ou mais substantivos com um único referente
extralingüístico

9. ‫ ַּויְהִי ּאיש ֵּלוִי גָר ְבי ְַּרכְתֵּ י הַּר־‬Houve um homem levita,


‫ ֶאפ ְֶַּּ֫רי ִם‬peregrino nos longes da região
montanhosa de Efraim.

Jz 19.1

(b) hendíade, a justaposição de dois substantivos com um único referente, com ou sem a
conjunção; compare com # 10 a expressão portuguesa ‘agressão e lesão corporal’.

10. ‫שמַּע בָּה‬


ָ ֶּ֫ ִ ‫ ָחמָס וָש ֹד י‬Violência e destruição ressoam
nela.

Jr 6.7

(c) coordenação (um sujeito composto), a coordenação de vários substantivos com referentes
diferentes

11. ‫ ַּוּי ִתְ ַּחבֵּא הָָאדָ ם ְו ִאשְתֹו‬Ohomem e sua mulher se


esconderam.

Gn 3.8

(d) relação construta

12. ‫שנֵּיהֶם‬
ְ ‫וַּתִ ָּפ ַּק ְחנָה עֵּינֵּי‬Os olhos de ambos se abriram.
Gn 3.7
(2) Uma frase preposicional usada como um sujeito geralmente é uma frase partitiva,
introduzida por ‫‘ מִן‬de’, tanto em frases deste tipo como ‘(algo) de’ ou após um negativo ‘(nem
mesmo um) de’.

13. ‫ ַּוּי ִז ִמדָ מָּה אֶל־ ַּהקִיר‬E um pouco do sangue dela


respingou na parede.

2Rs 9.33

(3) Uma oração freqüentemente ocorre como um sujeito de um verbo de relato,


conhecimento, ou outra atividade mental.

14. ‫ּו ְלשָאּול ֻהגַּד כִ ָֽי־נִ ְמלַּט ָדוִד‬Foi anunciado a Saul que Davi
fugira.

1Sm 23.13

4.4.2 Sujeito Indefinido

a Às vezes o tópico de uma oração não tem em vista referência particular a pessoa (s). Em
tais casos de sujeito indefinido, a língua portuguesa, exigindo em sua estrutura p 71
superficial que um substantivo ou seu equivalente expresse o sujeito, provê um “falso” sujeito,
seja ele um substantivo (p. ex., ‘homens’, ‘povo’), um pronome (‘eles’, ‘seu’), ou um adjetivo
(‘único’); nenhum destes tem um referente extralingüístico em vista.

Os homens lutam e morrem pela liberdade.

Eles me contaram que você se acidentou.

Você pode ter esperança e aguardar.

Único à procura de chuva.

Em hebraico, sujeitos indefinidos podem ser expressos por formas ligadas do pronome na
terceira pessoa com um verbo finito; se um particípio é usado em tal construção, ele
usualmente está no plural. O verbo finito pode estar no singular ou no plural, ativo (cf. 22.7)
ou passivo; a construção plural ativa é a mais comum.

(1) Pronome na terceira pessoa do singular, forma verbal ativa

1. ‫שמָּה ָבבֶל‬
ְ ‫עַּל־כֵּן ק ָָרא‬Portanto alguém chama seu
nome Babel (ou, homens ou
pessoas chamam-na Babel).
Gn 11.9

(2) Pronome na terceira pessoa do singular, forma verbal passiva

2. ‫וְֹלא יּוכַּל ל ְִרא ֹת ֶאת־ ָה ֶָּ֫א ֶרץ‬Ninguém poderá ver a terra.


Êx 10.5

3. ‫ָאז הּוחַּל ִלקְרא ֹ ְבשֵּם יהוה‬Nesse tempo o povo começou a


invocar o nome de YHWH.

Gn 4.26

(3) Pronome na terceira pessoa do plural, forma verbal ativa

4. ‫כִי מִן־ ַּה ְבאֵּר ַּההִיא יַּשְקּו‬Porque daquele poço eles


‫ ָהעֲדָ ִרי֑ ם‬davam de beber aos rebanhos
Gn 29.2

(4) Particípio Plural

5. ‫שיָך ְו ֶאת־ ָב ֶֶּ֫ניָך‬ ֶ ֶּ֫ ָ‫ ְו ֶאת־כָל־נ‬Eles levarão a todas as tuas


ְ ‫מֹו ִצאִים אֶל־ ַּה ַּכ‬mulheres e a teus filhos aos
‫שדִ ים‬
babilônios.

Jr 38.23

A construção impessoal (na qual o tópico é a condição expressa pelo predicado) é tratada em
22.7a.

4.5 Predicado

a O predicado é aquela parte do enunciado que faz um comentário acerca do sujeito. O


termo pode ser usado amplamente para o comentário inteiro, incluindo tanto o verbo ou
equivalente, ou alternativamente a cópula ‘ser’ (expressa ou não) com um complemento (um
substantivo ou adjetivo) mais palavras modificadoras; ou ele pode ser usado mais estritamente
para excluir palavras modificadoras. Vamos considerar os tipos possíveis de predicação sem
referência a palavras modificadoras.
p 72 b Numa oração verbal o predicado é um verbo.

(1) Verbo finito

1. ‫וַּּיֶּ֫ אמֶר אֱֹלהִים‬E Deus disse …


Gn 1.3

(2) Infinitivo absoluto (35.5.2)

2. ‫ז ְַּרעְתֶ ם ה ְַּרבֵּה ְו ָהבֵּא ְמעָט‬Tendes semeado muito e


recolhido pouco

Ag 1.6

(3) Infinitivo construto (36.3.2)

3. … ‫ ֶַּּ֫יעַּן ַּהכְאֹות לֵּב־צַּדִ יק‬porque tendes desanimado (lit.,


‫ּו ְל ַּחז ֵּק י ְדֵּ י ָרשָע‬golpeado o coração de) o
justo… e encorajado (lit.,
fortalecido as mão de) o ímpio.

Ez 13.22

Indicadores quase-verbais são partículas denotando existência.

4. ‫י ֵּש ג ֹאֵּל ָקרֹוב ִמ ֶֶּ֫מנִי׃‬Háum resgatador mais


chegado do que eu.

Rt 3.12

c Numa oração não-verbal (ou nominal) não existe marcador verbal de predicação. O
hebraico, como muitas outras línguas, incluindo o latim e o grego clássico, pode predicar um
adjetivo ou substantivo diretamente, sem uma cópula (i.e., alguma forma de ‫היה‬, que
corresponde ao verbo ‘ser’). Em línguas onde a cópula pode ser opcional, ela é usualmente
requerida se o comentário é feito no tempo passado ou no tempo futuro, em contraste com o
tempo presente (ou em algum modo diferente do indicativo), ou se a situação deve ser
realçada. A função principal da cópula é então marcar na estrutura superficial o tempo, o
modo ou o aspecto. John Lyons observa:
[Qualquer verbo equivalente a] “ser” não é ele mesmo um constituinte de
estrutura profunda, mas um “falso verbo” semanticamente vazio gerado pelas
regras gramaticais de [certas línguas] para a especificação de certas distinções
(usualmente “carregadas” pelo verbo) quando não há outro elemento verbal
qualquer que porte estas distinções. Orações que são temporais, modais e
aparentemente “não-marcadas”… não necessitam de “falso” portador.

A oração não-verbal é comum em hebraico. As unidades gramaticais seguintes podem servir


como predicados na estrutura profunda de um período; diz-se que elas “complementam o
sujeito” de uma oração não-verbal.

(1) Substantivo (“predicado nominativo”; 8.4)

5. ‫עֵּד ַּהגַּל ַּהז ֶה‬Este montão é uma


testemunha.

Gn 31.52

6. ‫מ ְַּר ְגלִים ַּאתֶ ם‬Vós sois espiões.


Gn 42.9

p 73 (2) Adjetivo indefinido (“predicado adjetivo”; 14.3.2)

7. ‫צַּדִ יק ַּאתָה‬Tu és justo.


Jr 12.1

(3) Pronome (16.3.3, 17.4.1)

8. ‫ ְו ֶַּּ֫נחְנּו מָה‬Quem somos nós?


Êx 16.7

(4) Advérbio

9. ‫שם‬
ָ ‫כִי ֶֶּ֫זבַּח ַּהיָמִים‬O sacrifício anual está lá.
1Sm 20.6
(5) Frase preposicional adverbial

10. ‫ ֶָּ֫לנּו ַּה ֶָּ֫מי ִם‬A


água é nossa (lit., a água é
para nós).

Gn 26.20

11. ‫ֹלא ב ֶַָּּ֫רעַּש יהוה‬YHWH não estava no terremoto.


1Rs 19.11

4.6 Modificadores

4.6.1 Modificadores Adjetivos

a Um modificador adjetivo é uma construção que qualifica um substantivo ou seu


equivalente. Tal construção é “adnominal” (para o substantivo), em contraste com uma
construção que modifica um verbo (ad-verbial, “para o verbo”). Há muitos modos nos quais
formas nominais podem ser qualificadas na estrutura superficial. Considere, por exemplo,
estas frases, todas com formas atestadas em hebraico (embora nem todos os equivalentes são
atestados).

adjetivo: deuses estrangeiros

construto: deuses de estranhos

aposição adjetiva: deuses, os estrangeiros

hendíadis: deuses e estrangeiros

frase preposicional: deuses em estranhos

aposição adverbial: deuses (com referência a) estranhos

oração relativa: deuses que são estrangeiros


oração relativa: deuses pertencentes aos estrangeiros

A expessão preferida dentre essas em hebraico é a constructa, ‫( אֱֹלהֵּי ַּהנֵּכָר‬Gn 35.2, etc.).
Uma dessas formas ou construções pode ser escolhida quer por razões de estilo, quer por
ênfase, ou devido a fatores lingüísticos. Aqui estão alguns exemplos de construções adjetivas:

(1) Adjetivo

1. ‫… ְו ָה ַּלכְתָ ַאח ֲֵּרי אֱֹלהִים ֲאח ִֵּרים‬e (se) vós sequis outros
deuses

Dt 8.19

p 74 (2) Particípio

2. ‫יהוה אֱֹל ֶֶּ֫היָך אֵּש א ֹ ְכלָה‬YHWH vosso Deus é um fogo


consumidor.

Dt 4.24

(3) Sufixo pronominal

3. ‫ש ְתָך ּונְשֵּי־ ָב ֶֶּ֫ניָך‬


ְ ‫ּו ָב ֶֶּ֫ניָך ְו ִא‬Vossos filhos e vossas esposas e
as esposas de vossos filhos

Gn. 6.18

(4) Estado construto

4. ‫ ִבנְאֹות דֶֶּ֫ שֶא י ְַּרבִי ֵֶּּ֫צנִי‬Ele me faz deitar em pastos de


relva.

Sl 23.2

(5) Aposição adverbial (“acusativo de limitação”; 10.2.2)


5. ‫ ַּהכ ְֻרבִים זָהָב‬o querubim áureo (lit., o
querubim com referência a
ouro)

1Cr 28.18

(6) Aposição

6. ‫ו ֶַּּּ֫י ֹאמֶר ֶַּּ֫קי ִן אֶל־ ֶֶּ֫הבֶל ָאחִיו‬Caim disse a Abel seu irmão …
Gn 4.8

(7) Hendíadis

7. ‫שכָן‬
ְ ‫ב ְֶּ֫א ֹהֶל ּו ְב ִמ‬Comuma tenda como minha
habitação (lit., uma tenda e
habitação)

2Sm 7.6

(8) Oração relativa (com ou sem pronome relativo)

8. ‫ ְוכָל־ ֲאשֶר ב ֶָּ֫א ֹהֶל י ִ ְטמָא‬Etodo aquele que estiver na


tenda será imundo.

Nm 19.14

9. ‫וַּתִ תֵּ ן גַּם־ ְלאִישָּה ִעמָּה‬E ela deu também (um pouco)
ao seu marido (que estava) com
ela.

Gn 3.6

10. ‫ ְואִיש ֹלא־ַאכ ְִרית לְָך‬Todo dentre vós que eu não


cortar (lit., um homem [que] eu
não cortar pertencente a vós)

1Sm 2.33
4.6.2 Modificadores Adverbiais

a Um modificador adverbial é uma construção que modifica um verbo ou seu equivalente.


Há vários tipos de construções adverbiais.

b Quando um substantivo modifica um verbo, diz-se que ele está na “função acusativa”,
uma construção tratada no Capítulo 10. Basta aqui notar que há dois tipos principais de
acusativo: objeto direto e adverbial.

1. ‫ ַּוּיִב ְָרא אֱֹלהִים ֶאת־הָָאדָ ם‬Deus criou hāʾādām (objeto


direto).

Gn 1.27

p 75 2. ‫ ַּרק ַּה ִכסֵּא ֶאגְדַּ ל ִמ ֶֶּ֫מ ָך‬Somente com respeito ao trono


(adverbial) eu serei maior do
que tu.

Gn 41.40

Um infinitivo construto (36.2.1) pode ser usado como um objeto direto, como um
complemento verbal ou numa frase preposicional.

3. ‫ֹלא ֵּאדַּ ע צֵּאת וָב ֹא‬Eu não sei (como) sair, nem
como entrar (objetos).

1Rs 3.7

4. ‫אּולַּי אּוכַּל נַּכֶה־בֹו‬Talvez eu poderei derrotá-los


(complemento).

Nm 22.6

5. ‫ ְב ִפגְעֹו־בֹו הּוא י ְ ִמ ֶֶּ֫תנּו‬Quando


ele o encontrar (frase
preposicional), ele será posto à
morte.

Nm 35.19
Um infinito absoluto (35.3.3) pode ser usado como um objeto direto ou como um advérbio.

6. ‫ ִל ְמדּו הֵּיטֵּב‬Aprendei a fazer o bem


(objeto).

Is 1.17

7. ‫ְבּורת חֲמֹור י ִ ָקב ֵּ֑ר סָחֹוב‬


ַּ ‫ק‬Ele terá o enterro de um
‫שלְֵּך‬ ְ ‫ ְו ַּה‬jumento – será arrastado fora e
jogado para fora (advérbios).

Jr 22.19

Outros tipos de modificadores adverbiais são estes:

(1) Advérbios (Cap. 39)

8. ‫ֹלא ת ֹאכַּל ִמ ֶֶּ֫מנ֑ ּו‬Tu não deves comer dela.


Gn 2.17

(2) Partículas (Cap. 40)

9. ‫גַּם־בָרּוְך י ִ ְהי ֶה‬Realmente ele será abençoado.


Gn 27.33

(3) Frases preposicionais (Cap. 11)

10. ‫עַּל־גְחֹנְָך תֵּ לְֵּך‬Tu rastejarás sobre o teu ventre.


Gn 3.14

(4) Orações subordinadas (Cap. 38)

11. ‫ ֲאשֶר אִם־ ֶָּ֫צדַּ ְקתִ י ֹלא ֶא ֱענֶה‬Embora


eu fosse inocente, eu
não (lhe) responderia.
Jó 9.15

Em alguns casos um verbo pode modificar outro verbo sem estar em uma oração subordinada;
o verbo ‫ שוב‬freqüentemente é usado nesta função quase-auxiliar (39.3.1).

p 76 12. ‫ ַּו ֶָּּ֫ישָב י ִ ְצחָק ַּוּיַּחְּפ ֹר ֶאת־ ְבאֵּר ֹת‬EIsaque reabriu os poços (lit.,
Isaque voltou e abriu …).

Gn 26.18

4.7 Nominativo Absoluto e Vocativo

a Nas orações que consideramos até agora, o sujeito e o predicado dividiam a oração entre
si. Algumas orações simples contêm outros elementos, o nominativo absoluto, que não tem
equivalente no português regular, ou o vocativo.

b A construção nominativa absoluta serve para destacar ou focalizar um elemento da


oração principal; ela pode servir dentro de um contexto para contrastar este elemento com
um item comparável em outra oração. Esta construção (ou família de construções) possui
muitos nomes; ela é chamada de construção casus pendens, construção focal e construção
comentário de tópico (os termos “tópico” e “comentário” são usados aqui de um modo
ligeiramente diferente daquele em que os temos usados). Considere a oração ‫תָ מִים דֶֶּ֫ ֶרְך‬
‫‘ ָהאֵּל‬O caminho de Deus é perfeito’; aqui o sujeito é ‫ דֶֶּ֫ ֶרְך הָאֵּ ל‬e o predicado ‫תָ מִים‬, numa
oração não-verbal. O papel de ‫האֵּל‬ ָ na oração não é tão proeminente quanto na oração similar
com um nominativo absoluto, ‫האֵּל תָ מִים דַּ ְרכֹו‬ ָ ‘Quanto a Deus, seu caminho é perfeito’ (Sl
18.31). Aqui o sujeito é ‫דַּ ְרכֹו‬, e o predicado ‫תמִים‬ָ ; o nominativo absoluto, ‫ ָהאֵּל‬, fica fora da
oração, como uma entidade absoluta. A relação entre o absoluto e a oração é assinalada pela
posição inicial do absoluto e pelo pronome na oração que se refere a ele (neste exemplo ‫ ֹו‬de
‫ ;)דַּ ְרכֹו‬este pronome, chamado de (o-x) pronome pleonástico, é opcional.
c O absoluto pode estar associado como possuidor do sujeito da oração, como no Salmo
18.31, onde ‫האֵּל‬
ָ é o “possuidor” de ‫דַּ ְרכֹו‬, ou no caso seguinte:
1. ‫שקָה נַּפְשֹו ְבבִתְ כֶם‬
ְ ‫שכֶם ְבנִי ָ ָֽח‬
ְ Quanto a meu filho Siquém, sua
alma está enamorada
fortemente de vossa filha.

Gn 34.8
O absoluto pode também estar associado como possuidor do objeto direto da oração.

2. ‫שתְ ָך ֹלא־תִ ק ְָרא אֶת־‬


ְ ‫ש ַָּרי ִא‬Quanto a Sarai tua esposa, não
‫שמָּה ש ָָרי‬ ְ chamarás seu nome Sarai.
Gn 17.15

O absoluto pode referir-se ao objeto direto da oração ou ao objeto direto de uma frase
preposicional na oração.

p 77 3. ‫ָאנֹכִי בַּדֶֶּ֫ ֶרְך נָ ֶַּּ֫חנִי יהוה‬Quanto a mim, YHWH guiou-me


(objeto) no caminho.

Gn 24.27

4. ‫ ֶּ֫ש ֹ ֶרש יִשַּי ֲאשֶר ע ֹ ֵּמד ְלנֵּס ַּעמִים‬Quanto à raiz de Jessé que está
‫ ֵּאלָיו גֹוי ִם י ִדְ ֑רשּו‬posta por estandarte para os
povos – as nações recorrerão a
ela (objeto preposicional).

Is 11.1

5. ‫ ַּה ִמטָה ֲאשֶר־ ָע ִֶּ֫ליתָ שָם ֹלא־‬Quanto à cama a que subiste,


‫תֵּ ֵּרד ִמ ֶֶּ֫מנָה‬tu não
descerás dela (objeto
preposicional).

2Rs 1.4

No # 5 a oração ‫ אשר‬inclui um advérbio pleonástico, ‫שם‬. Uma razão diferente da ênfática no


uso da construção absoluta é sugerida pelos ## 4–5: ela permite que uma parte
gramaticalmente complexa de uma oração possa ficar independente, aumentando assim a
clareza. Por razões semelhantes um sujeito complexo pode ser trocado ou pode ser deslocado
para preceder a oração, às vezes sendo separado dela por uma conjunção, como no # 6.

6. ‫כִי ְמעַּט ֲאשֶר־ ָהי ָה לְָך ְל ָפנַּי‬No tocante ao pouco que tinhas
‫ ַּוּיִפְר ֹץ לָר ֹב‬antes da minha vinda, (ele) foi
aumentado grandemente.
Gn 30.30

d A construção vocativa, familiar no português, é semelhante ao nominativo absoluto,


sendo um elemento da oração diferente do sujeito e do predicado. Os vocativos ficam em
aposição ao pronome de segunda pessoa, expressa ou não-expressa, e pode ocorrer tanto em
orações não-verbais como em orações verbais.

7. ‫צַּדִ יק ַּאתָ ה יהוה‬Tu és justo, YHWH.


Jr 12.1

8. ‫ש ֶַּּ֫ב ְע ָת‬
ְ ִ‫ ֲאדֹנִי ַּאתָ ה נ‬Meu senhor, tu juraste…
1Rs 1.17

9. ‫שעָה ַּה ֶֶּ֫מלְֶך‬


ִ ֶּ֫ ‫הֹו‬Salva-me, ó rei!
2Sm 14.4

Após um vocativo, uma frase modificadora ou oração, regularmente usa-se o pronome de


terceira pessoa (como também no árabe clássico) e não o pronome de segunda pessoa como
em português e em outras línguas.

10. ‫שמְעּו ַּעמִים ֻכלָם‬


ִ Ouvi, ó povos, todos vós (lit.,
todos eles)!

Mq 1.2

4.8 Período

a O período tem sido tradicionalmente definido como “um pensamento completo


expresso em palavras”. Tal definição é falha de dois modos. Primeiro, ela define o período
apenas em p 78 termos imaginários e não em termos descritivos, ou seja, ficamos
impossibilitados de decidir a partir da estrutura superficial quando um pensamento está
completo. Segundo, ela não distingue um período de um discurso maior do qual ele é uma
parte; alguém poderia dizer que um discurso inteiro é um “pensamento completo expresso em
palavras”. Os lingüistas têm experimentado a mesma dificuldade que os gramáticos
tradicionais na abordagem desse problema: “Deve-se admitir”, escreve F. I. Andersen, “que, a
despeito da constante discussão, nenhuma definição segura de período foi concluída com êxito
em lingüística teórica”.

b Uma forma de desenvolver um critério descritivo para definir o período leva em


consideração as melodias e os acentos tônicos que acompanham suas palavras. Um período
declarativo em português é marcado por uma entonação descendente no seu término; a
entonação é ascendente no fim de um período interrogativo. Sinais melódicos são expressos
na escrita pelos sinais de pontuação (pontos finais, pontos de interrogação, pontos de
exclamação, etc.). Tal abordagem é de uso limitado em hebraico bíblico, porque o sistema de
acentuação massorética – embora pretendesse separar relações de palavra na cantilação –
não coincide precisamente com as unidades gramaticais.

c Em sua obra sobre o hebraico, Andersen estabeleceu a definição, “Uma sentença é uma
construção gramaticalmente auto-suficiente”, isto é, “As funções gramaticais de todos os
constituintes em um período podem ser descritas em termos de relações com outros
constituintes no mesmo período”. Esta definição é semelhante à nossa noção de período como
a unidade que comporta o “maior grau” em análise de composição. Mas a definição de
Andersen ainda não está teoricamente satisfatória; ele mesmo reconheceu mais tarde: “A
integralidade gramatical… pode demonstrar ser tão difícil de estabelecer como a integralidade
de pensamento”.

d O lingüista americano Leonard Bloomfield ofereceu uma definição semelhante com


algumas ilustrações interessantes. Ele definiu um período como “uma forma lingüística
independente, não inclusa em virtude de qualquer construção gramatical em qualquer forma
lingüística maior”. Ele exemplificou esta definição com o seguinte enunciado: ‘Como vai? Está
um ótimo dia. Você vai jogar tênis esta tarde?’, comentando, “Qualquer que seja a relação
prática que possa haver entre estas três formas, não há qualquer arranjo gramatical unindo-as
em uma forma maior: o enunciado consiste de três períodos”. Contudo, ao definir o período
como a maior unidade de descrição gramatical ainda é insuficiente porque, de fato, o período
é um constituinte do discurso, uma forma gramatical maior.

e Definições como estas têm a vantagem de definir o período como uma unidade
lingüística composta de unidades lingüísticas identificáveis e menores. Mais particularmente,
podemos definir um período como uma forma lingüística composta de uma ou mais orações.
Se há múltiplas orações, elas estão ligadas por conjunções, p 79 significando que, juntas, elas
compõem uma unidade gramatical, embora devamos permitir que o discurso seja mantido
coeso por padrões de “conjunções macros-sintáticas”, da mesma maneira que por padrões de
“conjunções microssintáticas”, que ligam orações dentro de um período (Cap. 38). Uma
definição completa de período, que não empreenderemos oferecer, deveria incluir uma
declaração de como ele difere do enunciado macrossintático de discurso.

f Definimos um período como uma unidade lingüística não tão grande como um discurso,
porém maior do que aqueles elementos gramaticais que não podem existir
independentemente, mas são sintaticamente dependentes uns dos outros dentro dessa
unidade lingüística maior, a saber, a oração, a frase, a palavra e o morfema.
g Os períodos podem ser incompletos. Algumas das unidades menores, incluindo uma
unidade maior, são deixadas para ser inferidas do contexto; na estrutura superficial de um
enunciado, as palavras que precisam “ser supridas” para torná-lo numa construção típica são
chamadas de elididas. As palavras são prontamente supridas do contexto circundante (no
enunciado ou na situação) e dos sistemas gramaticais conhecidos como característicos da
língua. Às vezes a conjunção que liga tanto orações como períodos é elidida; outras vezes um
dos outros elementos de uma oração é elidido, como o sujeito ou o predicado.

h Um período pode ser coextensivo com uma única oração, caso em que ele é um período
simples, ou pode consistir de duas ou mais orações, caso em que ele é composto ou complexo.
Considere, por exemplo, o enunciado,

1. ‫ש ָראֵּל‬
ְ ִ ‫ ַּוּי ַּ ֲע ִֶּ֫בדּו ִמצ ְֶַּּ֫רי ִם ֶאת־ ְבנֵּי י‬Os egípcios faziam os Israelitas
‫ ְב ֶָּ֫פ ֶ ָֽרְך׃‬servirem com aspereza.
Êx 1.13

Este é um período simples consistindo de elementos gramaticais que não podem existir à parte
de sua relação sintática um com o outro e que, juntos, constituem um enunciado unificado.
Seus constituintes dependentes menores são (deixando de lado o waw inicial):

‫מצרים‬o substantivo que expressa o sujeito

‫ויעבדו‬o verbo que expressa o predicado

‫את־בני יששראל‬a frase substantiva que modifica o verbo


(objeto direto)

‫בפרך‬uma frase preposicional adverbial

A última destas é uma frase preposicional, a terceira é uma frase substantiva; as outras duas
são simples palavras.

i A seguir temos um período composto.

2. ‫ּו ְבנֵּי יִש ְָראֵּל ּפָרּו ַּוּיִש ְְרצּו ַּוּי ְִרבּו‬Os israelitas foram

‫ ַּו ַּּי ָֽ ַּעצְמּו ִבמְא ֹד מְא ֹד‬poderosamente frutíferos e


fecundos, e aumentaram muito
e se tornaram fortes.

Êx 1.7

Neste período os quatro verbos, com o sujeito único e o modificador adverbial único, seguem
um ao outro apenas com as conjunções a uni-las. O período seguinte é complexo.

p 80 3. ‫ ַּו ֶָּּ֫יקָם ֶֶּ֫מלְֶך־חָדָ ש עַּל־ ִמצ ְֶָּ֫רי ִם‬Um novo rei se levantou sobre
‫ ֲאשֶר ֹלא־י ָדַּ ע ֶאת־יֹוסֵּף‬o Egito, que não conhecera
José.

Êx 1.8

A segunda oração, ‫ ֲאשֶר ֹלא־י ָדַּ ע ֶאת־יֹוסֵּף‬, está subordinada à primeira; é uma oração
relativa modificadora do sujeito da oração principal, ‫ ֶֶּ֫מלְֶך־חָדָ ש‬.

p 81 Nomes
5 Paradigmas Nominais

6 Gênero

7 Número

8 Função Nominativa e Orações sem Verbo

9 Função Genitiva

10 Função Acusativa e Assuntos Relacionados

11 Preposições

12 Aposição

13 Definibilidade e Indefinibilidade
p 83 5
Paradigmas Nominais
5.1 Raiz, Afixo, Paradigmas

5.2 Diversidade de Paradigmática

5.3 Paradigmas Simples

5.4 Paradigmas com Alongamento Medial

5.5 Paradigmas com Reduplicação

5.6 Paradigmas com Prefixação

5.7 Paradigmas com Sufixação

5.8 Excursus: Intercâmbio de Consoantes

5.1 Raiz, Afixo, Paradigmas

a A maioria das palavras em hebraico inclui uma raiz, uma seqüência de consoantes a
associadas a um significado ou a um grupo de significados. A maioria das raízes é
triconsonantal (ou trirradicais); raízes médio-fracas (e às vezes outras raízes fracas) são
consideradas biconsonantais. A raiz é uma abstração baseada nas formas e nas palavras que
efetivamente ocorrem, e seu significado é, também, uma abstração baseada no campo
semântico das palavras da forma como são usadas. O sistema de raízes é parte do
conhecimento que o falante possui da língua, mas as abstrações resultantes não devem ser
exageradas, especialmente em bases semânticas. As palavras que realmente ocorrem sempre
têm prioridade sobre tais abstrações. Somente os pronomes e algumas partículas ficam
inteiramente fora do sistema de raízes.

b A raiz pode ser modificada para formar uma palavra com um afixo; pode ser um prefixo
(antes da raiz), um sufixo (após a raiz), um infixo (no interior da raiz), ou alguma combinação
destes. Os afixos formam vários paradigmas verbais e nominais, e cada palavra representa um
paradigma formativo. O termo grau é usado às vezes para descrever uma forma de raiz
consonantal com um afixo, da qual outras palavras podem ser derivadas.

p 84 c A raiz ‫‘ חבר‬ligar, unir’ pode ser usada na ilustração destes aspectos. A seguir
temos uma dúzia de palavras.

1. ‫ ָ ָֽחבְרּו‬eles (foram) unidos


2. ‫ ָחבֵּר‬associado

3. ‫ ֶֶּ֫חבֶר‬companhia

4. ‫ ִחבַּר‬ele uniu (algo a outra coisa)

5. ‫ ַּחבָר‬parceiro

6. ‫ ֲח ֶֶּ֫ב ֶרת‬consorte

7. ‫ ֶחב ְָרה‬associação

8. ‫ח ֹ ֶֶּ֫ב ֶרת‬coisa unida

9. ‫ ַּמ ְח ֶֶּ֫ב ֶרת‬ligação

10. ‫ ְמ ַּחב ְָרה‬braçadeira

11. ‫ ֶחבְרֹון‬Hebrom

12. ‫ ֶחבְרֹונִי‬hebronita

Nas primeiras três formas, a raiz é complementada por vogais infixas (e no # 1 sufixada); nas
duas seguintes, a consoante medial da raiz é também alongada (ou duplicada). As formas ##
6–10 levam um sufixo feminino; ## 9–10 têm um mem prefixado adicional. As formas ## 11–12
têm um sufixo –ôn e a última forma tem um sufixo –î adicional. Há outras formas que derivam
da raiz ḥbr. A raiz nunca ocorre isolada de um paradigma de afixos; o significado ‘ligar, unir’ é
derivado de vocabulário atestado.

d Alguns dos paradigmas usados nesta dúzia de palavras são paradigmas verbais; tais
paradigmas tendem a ser consistentes e regulares num grau superior àqueles usados para
formar nomes (substantivos e adjetivos). O paradigma verbal CāCaC, (ou C1āC2aC3 ou ‫) ָקטַּל‬
denota uma situação completa ou perfectiva, por exemplo, ‫שבַּר‬ ָ ‘ele quebrou’, ‫שמַּר‬ ָ ‘ele
guardou’, ‫‘ ָגנ ַּב‬ele furtou’, ‫‘ ָאז ַּל‬foi-se’; assim ‫חבְרּו‬
ָֽ ָ ‘eles (foram) unidos’. O paradigma verbal
C1iC2C2ēC3 funciona de modo semelhante, por exemplo, ‫כבֵּר‬ ִ ‘ele honrou’, ‫‘ ִסּפֵּר‬ele recontou’,
‫‘ גִדֵּ ל‬ele causou o crescimento’; assim ‫‘ ִחבַּר‬ele uniu (algo)’. (A relação entre o primeiro
paradigma, Qal, e o segundo paradigma, Piel, será discutido adiante, 24.1).

e Nomes individuais são compostos de vogais e consoantes em uma unidade menos


divisível, e assim, paradigmas nominais são menos predizíveis em termos de sentido.
Novamente, constatamos que nomes são criados com muito menos freqüência do que verbos,
e os significados de tais paradigmas são assim uma parte menos ativa do conhecimento de um
falante da língua. Em alguns casos, um paradigma no hebraico bíblico pode resultar de vários
paradigmas oriundos de estágios anteriores da língua, que assumiram a mesma forma por
causa das mudanças fonológicas. Alguns paradigmas de nomes podem estar correlacionados
com significados específicos ou gamas de significados em uma base regular; esses paradigmas
são o assunto deste capítulo.

f O sistema de raízes e afixos é o coração da morfologia hebraica. O morfema raiz é uma


constante neste sistema; os morfemas verbais afixos, também, são elementos consistentes. Os
morfemas ou paradigmas usados para formar nomes são muito mais variáveis. No entanto,
eles são uma parte importante da gramática. Combinado com um conhecimento de
aproximadamente quatrocentas raízes usadas freqüentemente na Bíblia Hebraica, esses
paradigmas podem contribuir para a construção de vocabulário. “Se soubermos o significado
de uma raiz e as regras de inflexão e morfologia”, escreve G. B. Caird, “usualmente é possível
descobrir por nós mesmos o significado de formas cognatas [isto p 85 é, formas provenientes
da mesma raiz]”. Nomes geográficos e de pessoas, como # 11 acima, e formas derivadas, como
# 12, constituem uma área especial do léxico.

g Os morfemas nominais estão sujeitos a todas as leis da fonologia hebraica. Assim, o


paradigma CôCēC, usualmente associado com o particípio Qal ativo, tem a forma CôCēC se
nenhum sufixo o segue, mas possui a forma CôCəC diante de um sufixo vocálico. Por exemplo,
‫קֹוטֵּל‬, masculino singular; ‫קֹו ְטלָה‬, feminino singular; e ‫קֹו ְטלִים‬, masculino plural. Em poucos
casos, as formas masculina e feminina, que parecem ser um paradigma, são melhor
consideradas separadamente.

5.2 Diversidade Paradigmática

a A riqueza e a complexidade das associações semânticas dos paradigmas nominais


hebraicos podem ser ilustradas ao considerar o importante paradigma CôCēC em suas
manifestações distintas do simples uso participial. Benjamin Kedar-Kopfstein propôs um
esquema elaborado para classificar os sentidos desse paradigma; consideraremos apenas uma
parte de suas descobertas.

b Há uma classe de substantivos, Kedar-Kopfstein alega, na qual o paradigma ô- ē “carece


de valor morfêmico” (# 1) ou “denota objetos” (## 2–4).

1. ‫ע ֵֹּרב‬corvo

2. ‫הֹומָה‬parede

3. ‫יֹובֵּל‬chifre de carneiro

4. ‫שרק‬
ֵּ videira

c Vários grupos de nomes usando esse paradigma não possui qualquer vínculo com uma
raiz verbal no Qal. De fato, em alguns nomes, onde o paradigma “indica o titular de um ofício
ou profissão”, nenhuma raiz de verbo cognato é usada (## 5–6).

5. ‫כֹוהֵּן‬sacerdote

6. ‫נֹוקֵּד‬criador de ovelhas

Em outro grupo de nomes, também bastante associado a profissões, cada nome é


denominativo em sua origem, isto é, é derivado de outro nome; neste caso, a forma qôtēl
“denota uma pessoa que se ocupa com o objeto indicado” pelo nome básico (## 7–8).

7. ‫בֹו ֵּקר‬boiadeiro < ‫ ָבקָר‬gado

8. ‫חֹבֵּל‬marinheiro < ‫ ֶֶּ֫חבֶל‬corda


Outra classe de formas CôCēC, também incluindo alguns termos do campo profissional, é
derivada de raízes atestadas como verbos, mas não usadas no Qal (## 9–10).

9. ‫נֹוקֵּש‬caçador de aves< ‫נקש‬Niphal, Piel,


Hithpael

10. ‫סֹכֵּן‬mordomo < ‫סכן‬Hiphil

p 86 d Outra categoria principal de nomes qôtēl inclui aqueles que podem ser associados
com verbos usados no Qal. Todavia, esses nomes não são simplesmente particípios Qal,
porque “eles não mais descrevem o exercício real de uma atividade, mas se tornaram
denotações fixas rotulando um sujeito baseados em um traço distintivo que é durável e
objetivamente observável”. Alguns desses são, como acima, os nomes de ocupações (## 11–
16), enquanto outros descrevem um papel social individual (## 17–20). Um subgrupo correlato
é usado para abstrações (## 21–22).

11. ‫א ֵֹּרג‬tecelão < ‫ָארג‬


ַּ tecer

12. ‫בֹנֶה‬construtor, < ‫ ָבנָה‬construir


lapidário

13. ‫ג ֹדֵּר‬fabricante de< ‫גָדַּר‬cercar


cercas

14. ‫זֹונָנ‬prostituta < ‫זָנָה‬prostituir-se

15. ‫חֹובֶר‬adivinho < ‫ ָחבַּר‬unir, ser unido


(compilador de
feitiços)

16. ‫חֹז ֶה‬vidente < ‫ ָחז ָה‬ver

17. ‫גֹאֵּל‬redentor, < ‫גַָאל‬redimir


protetor
familiar

18. ‫יֹלֵּד‬pai, progenitor < ‫יָלַּד‬agüentar,


procriar

19. ‫יֹונֵּק‬lactente < ‫יָנַּק‬mamar

20. ‫יֹושֵּב‬habitante, < ‫יָשַּב‬habitar


governador

21. ‫אֹבֵּד‬destruição < ‫ָאבַּד‬perecer

22. ‫רֹאֶה‬visão < ‫ ָרָאה‬ver

e Kedar-Kopfstein observa dois outros grupos relacionados a essa categoria principal. Os


nomes de um grupo “denotam um traço permanente do sujeito em termos de caráter ou
comportamento” (## 23–26), enquanto os do outro grupo denotam um traço claramente
temporário, por exemplo, uma ocupação sazonal (## 27–30).

23. ‫אֹוי ֵּב‬inimigo < ‫ָאי ַּב‬ser hostil

24. ‫(ב ֹ ֵּט ַּח‬além de)< ‫ ָבטַּח‬confiar


confiante

25. ‫בֹעֵּר‬bruto < ‫ ָבעַּר‬ser bruto

26. ‫בֹו ֵּצ ַּע‬cobiçoso < ‫ ָבצַּע‬roubar

27. ‫בֹוצֵּר‬vindimador < ‫ ָבצַּר‬amputar


28. ‫ז ֵֹּר ַּע‬semeador < ‫ז ַָּרע‬semear

29. ‫ח ֵֹּרש‬lavrador < ‫ח ַָּרש‬lavrar

30. ‫קֹוטֵּף‬colhedor < ‫ ָקטַּף‬colher

f Esse pequeno resumo de esforços para descrever um paradigma principal (as formas
poderiam ser consideradas em outras perspectivas) deve deixar claro quão intrincado pode ser
o sistema nominal hebraico. Porém, fica também claro que a maioria desses usos não-
participiais da forma qôṭēl está vinculada ao sentido participial básico: apenas seis dos trinta
exemplos citados (## 1–4, 21–22) afastam-se drasticamente do sentido de “alguém que faz
algo”. Ao mesmo tempo, o sentido de “atividade” é com freqüência semanticamente
inapropriado – um yôšēb ‘habitante’ não é simplesmente alguém que p 87 realiza o ato de
habitar (yâšab) –, ou impossível morfologicamente – não existe o verbo *ḥābal ‘manipular
cordas’, para produzir ḥōbēl ‘(manipulador de cordas) marinheiro’.

g Neste capítulo, a meta é mais modesta do que o estudo de Kedar-Kopfstein e outros


semelhantes. Pode-se afirmar que o paradigma qôṭēl é formador de nomes que se referem a
profissões, exista ou não a raiz (cf. # 5), ou ocorra como um verbo (cf. # 7) ou no Qal (cf. # 9).
Semelhantemente, a distinção entre profissões permanentes e temporárias pode ser ignorada.
Os usos excêntricos (## 1–4) também podem ser omitidos. A apresentação feita aqui,
portanto, será em um nível elevado de abstração. As formas e significados gerais de
paradigmas nominais são o foco, em lugar de uma taxionomia de todos os paradigmas
atestados.

h Os paradigmas nominais listados nesse capítulo são categorizados como substantivais ou


adjetivais; a classe nome em hebraico não distingue rigidamente adjetivos de substantivos. O
termo substantivo é usado para referir-se a uma classe semântica semelhante de nomes, isto
é, palavras que se referem a pessoas, lugares ou coisas; infelizmente o termo nominal é
ambíguo. Palavras adjetivais são, grosso modo, aquelas que descrevem um estado ou
condição; o hebraico, mais freqüentemente do que o português, usa verbos para descrever
condições. Em termos sintáticos, substantivos e adjetivos exercem funções comparáveis (veja
4.4.1). Nem todos os paradigmas são igualmente comuns. Paradigmas com reduplicação, por
exemplo, são raros, mas podem ser proveitosamente estudados por causa de seu caráter
distinto. Os paradigmas principais são semanticamente mais diversos, bem como mais
comuns.

5.3 Paradigmas Simples


a O paradigma qāṭēl é geralmente adjetival (## 1–3; veja, também, 22.3–4); ele também
ocorre com substantivos, especialmente os referentes às partes do corpo (## 4–5).

1. ‫יָבֵּש‬seco

2. ‫ ָעי ֵּף‬exausto

3. ‫שלֵּו‬
ָ desinteressado

4. ‫י ֵָּרְך‬coxa (superior)

5. ‫כָתֵּ ף‬braço superior

b O paradigma qôṭēl/qāṭēl é usado em substantivos que se referem a profissões ou


ocupações (p. ex. veja 5.2). Uma contrapartida portuguesa é o sufixo –or/–eiro, por exemplo,
‘ator, pescador, conselheiro, banqueiro’. Outros particípios ativos diferentes do Qal podem
designar uma profissão. Isto é mais comum com os particípios do Piel (## 6–7; cf. 24.5c) e Poel
(# 8).

p 88 6. ‫ ְמ ַּלמֵּד‬professor

7. ‫מ ְַּרגֵּל‬espião (espia)

8. ‫ ְמחֹקֵּק‬comandante

c O paradigma qātîl amolda tanto adjetivos (## 9–11) como substantivos. O paradigma é
usado para termos profissionais, alguns de sentido passivo (## 12–14), alguns estativos ou
ativos (## 15–17), embora as distinções não devam ser forçadas. As palavras para certas
atividades da agricultura, também empregam esse paradigma (## 18–22).

9. ‫ ָצעִיר‬pequeno
10. ‫נָקִי‬puro

11. ‫ ָענִי‬pobre

12. ‫ָאסִיר‬prisioneiro (=uma limitação)

13. ‫ ָמשִי ַּח‬ungido

14. ‫ ָּפלִיט‬refugiado

15. ‫ ָּפקִיד‬supervisor

16. ‫נָגִיד‬líder

17. ‫נָבִיא‬profeta

18. ‫ָאסִיף‬colheita

19. ‫ ָבצִיר‬vindima

20. ‫זָמִיר‬poda de videira

21. ‫ח ִָריש‬aragem
22. ‫ ָקצִיר‬colheita de grão

d O paradigma qātûl/qātūl é, como o qôtēl, uma forma participial, designando o objeto da


ação verbal, por exemplo, ‫‘ כָתּוב‬o que está escrito’; como o qôtēl, o qātûl tem muitos outros
usos, faltando a muitos um sentido passivo. O paradigma é usado tanto para adjetivos (## 23–
25) como para substantivos (## 26–28). O feminino pode mostrar duplicação no radical final
(## 26; cf. 5.5b). Nomes abstratos com este paradigma freqüentemente são plurais (7.4.2).

23. ‫בָצּור‬inacessível

24. ‫עָצּום‬forte

25. ‫עָרּום‬astucioso

26. ‫ ֲא ֻחז ָה‬possessão (fem.)

27. ‫חָרּוץ‬decisão

28. ‫י ָעּוש‬caçador de ave

e A forma qātôl/qātōl é usada para adjetivos (## 29–35).

29. ‫ָאי ֹם‬terrível

30. ‫ ָמתֹוק‬doce

31. ‫נָק ֹד‬manchado


32. ‫עָגֹול‬redondo

33. ‫עָמ ֹק‬profundo

34. ‫עָק ֹב‬montanhoso; enganoso

35. ‫צָה ֹב‬áureo

f O paradigma feminino qətālâ comumente designa sons e ruídos (## 36–41).

36. ‫ ֲאנָחָה‬suspiro

37. ‫ ֲאנָקָה‬gemido

38. ‫י ְ ָללָה‬uivo

39. ‫נְָאקָה‬gemido

40. ‫ ְצ ָעקָה‬grito

41. ‫שְָאגָה‬urro

p 89 5.4 Paradigma com Alongamento Medial

a A forma qattāl, com alongamento ou duplicação, é outra que freqüentemente significa


ocupação, profissão ou mesmo ação repetida (## 1–6).

1. ‫ ַּגנָב‬ladrão
2. ‫דַּ ּי ָן‬juiz

3. ‫ ַּחטָא‬pecador

4. ‫ח ָָרש‬artífice

5. ‫ּפ ָָרש‬eqüestre

6. ‫ ַּצּי ָד‬caçador

b Adjetivos referindo-se a defeitos físicos ou mentais usam o paradigma qittçl (## 7–14).

7. ‫ ִאטֵּר‬inválido

8. ‫ ִאלֵּם‬mudo

9. ‫ ִגבֵּן‬corcunda

10. ‫ח ֵֵּּרש‬surdo

11. ‫ ִעּוֵּר‬cego

12. ‫ ִעקֵּש‬perverso

13. ‫ ִּפ ֵּס ַּח‬manco


14. ‫ק ֵֵּּר ַּח‬calvo

Três desses termos ocorrem juntos em Êxodo 4.11 (## 8, 10, 11).

c Palavras qattîl (como aquelas em outros paradigmas com alongamento medial e uma
segunda vogal longa) freqüentemente indicam posse de uma qualidade de um modo
“intensivo”. Isto é improvável porque se baseia na noção duvidosa de que a duplicação “afia” a
raiz em um modo semanticamente direto (24.1). Basta dizer que qattîl é, a um mesmo tempo,
adjetival (## 15–17) e uma espécie de substantivo qātîl (## 18–19; no # 18, cf. 5.3 #12).

15. ‫ ַּאבִיר‬forte

16. ‫ע ִָריץ‬terrificante

17. ‫צַּדִ יק‬justo

18. ‫ ַּאסִיר‬prisioneiro

19. ‫ס ִָריס‬eunuco

5.5 Paradigmas com Reduplicação

a Os dois paradigmas comuns de reduplicação são usados para adjetivos. A reduplicação


pode envolver apenas C3, como em qatlâl (## 1–2). O segundo e o terceiro radicais são
reduplicados na forma qətaltāl, usada por vários adjetivos (## 3–5), e especialmente comum
em palavras que expressam cores (## 6–8).

1. ‫ ַּר ֲענָן‬exuberante, verde

2. ‫ש ֲאנָן‬
ַּ seguro
3. ‫ ֲה ַּפ ְכּפְַּך‬torto

4. ‫ ֲח ַּל ְקלַּקֹות‬incertezas (fem. pl.)

5. ‫ּפְתַּ לְת ֹל‬tortuoso

6. ‫ ֲאדַּ ְמדָם‬avermelhado

7. ‫י ְַּרק ְַּרק‬esverdeado

8. ‫שח ְַּר ֶּ֫ח ֹ ֶרת‬


ְ enegrecido

p 90 b De acordo com T. N. D. Mettinger, 36 nomes apresentam o paradigma feminino C 3


reduplicado qətūllâ. Ele analisa o grupo como apresentando três subgrupos. Os nomes
concretos denotam o resultado ou produto de um ato (## 9–11). Os abstratos incluem termos
legais (## 11–14; cf. 5.3 # 2b) e termos para “valores” num sentido mais abrangente (## 15–
17). Finalmente, os coletivos são termos para corporações de pessoas (## 18–20).

9. ‫ ֲא ֻלמָה‬gavela

10. ‫ ֲא ֻסּפָה‬coleção, fechaduras

11. ‫ ְקוֻצֹות‬cachos

12. ‫בְכ ָֹרה‬direito do primogénito

13. ‫ ְג ֻאלָה‬direito de redenção


14. ‫י ְֻרשָה‬possessão

15. ‫ ְסגֻלָה‬bolsa privada

16. ‫ע ֲֻרבָה‬segurança, penhor

17. ‫ ְּפ ֻעלָה‬salários, recompensa

18. ‫ ֲאגֻדָה‬bando, tropa

19. ‫( ֲעבֻדָה‬um corpo de) escravos

20. ‫ ְּפ ֻקדָ ה‬autoridades governantes

5.6 Paradigmas com Prefixação

a O hebraico bíblico emprega uma variedade de prefixos que servem para modificar o
sentido das raízes. A maioria dos prefixos são elementos usados tanto em paradigmas
nominais como em verbais, incluindo ʾ, h, y, m, t e ʿ. Stanley Gevirtz tem sustentado que “o que
estas parecem ter em comum umas com as outras é uma força dêitica, demonstrativa,
definidora ou especificadora”. Nem todos os prefixos são igualmente comuns ou importantes.

b O prefixo mais comum é m, usado em substantivos de lugar (## 1–3), termos


instrumentais (## 4–5) e abstrações (## 6–9).

1. ‫ ִמדְ בָר‬pastagem, estepe

2. ‫מָקֹום‬lugar
3. ‫מֹושָב‬assembléia (< yšb)

4. ‫ ַּמפְתֵּ ַּח‬chave

5. ‫ ַּמ ֲא ֶֶּ֫כלֶת‬faca (fem.)

6. ‫שּפָט‬
ְ ‫ ִמ‬julgamento

7. ‫מ ְַּראֶה‬aparência

8. ‫מ ְַּרָאה‬visão (fem.)

9. ‫ ַּמ ְמ ָלכָה‬reino, reino (fem.)

Na maior parte destes exemplos, a vogal da primeira sílaba prefixada é a (## 2–5, 7–9); nas
outras é i. A primeira sílaba de # 3, mô-, é contração de maw-; o ô é visto também nas formas
Niphal, Hiphil e Hophal de yšb e em várias outras formas verbais com waw- inicial. Nos
exemplos femininos citados, a forma masculina correspondente pode tanto não ocorrer (## 5,
9) como ter um sentido diferente (# 8, cf. # 7).

c Um nome t-prefixal geralmente designa a ação do verbo do qual é derivado (## 10–12). A
maioria destes nomes, incluindo os exemplos, é derivada de raízes w-inicial.

p 91 10. ‫תֹו ֶֶּ֫חלֶת‬expectação (fem.; < yḥl)

11. ‫תֹו ֶַּּ֫כחַּת‬argumento (fem.; < ykḥ)

12. ‫תֹודָה‬ação de graças (fem.; < ydy)


d Nomes com prefixo m, t e y freqüentemente se parecem relacionados em termos de
sentido. Jacob Barth defendeu, em seu estudo clássico sobre formação de nomes, que certos
pares de nomes m e t (## 13–15) e mesmo um par y e t (# 16) e um par m e y (# 17) não
possuem sentidos significativamente diferentes.

13. ‫תַּ ְרבִית מ ְַּרבִית‬interesse, crescimento (< rby)

14. ‫תִ ְקוָה ִמ ְקוֶה‬esperança (< qwy)

15. ‫תַּ ֲח ֻלאִים ַּמ ֲח ֻלי ִים‬doença (< ḥly/ʾ)

16. ‫תְ שּועָה י ְשּועָה‬salvação (< yšʿ)

17. ‫ ֶַּּ֫יעַּן ֶַּּ֫מעַּן‬por causa de, porque

Gevirtz adverte contra esse tipo de obscurecimento semântico, tanto no âmbito geral do
som, que postula que onde exista diferença em forma há uma diferença em significado,
quanto no âmbito de seu estudo das palavras.

Ambos os termos ‫ יַּעַּן‬e ‫מעַּן‬


ַּ (‫ ) ְל‬significam ‘propósito, intenção’, …; mas o
primeiro freqüentemente carrega um sentido causativo, enquanto que o
último não. Os termos ‫לי ִים‬
ֻ ‫ מַּ ָֽ ֲח‬e ‫ תַּ ֲח ֻלאִים‬derivados de ḤLʾ/Y, significam
‘enfermidade(s), doença (s)’, mas a forma mqtl refere-se a enfermidade
resultante de ferimentos (2Cr 24.25), ao passo que a forma tqtl refere-se à
enfermidade resultante de saques devido à fome (Jr 14.18; 2Cr 21.19). Ambas
as formas ‫אוָה‬ ֲ ‫ ַּ ָֽת‬e [‫ ]מאוה‬significam ‘desejo’, mas a forma tqtl geralmente
significa ‘apetite físico’ (Nm 11.4; Sl 78.29–30; 106.14; Jó 33.20), enquanto que
a forma mqtl, na expressão ‫מַּ ָֽ ֲא ַּוּי ֵּי ָר ָ ֑שע‬ “os desejos do homem ímpio’, em
paralelo com ‫זְמָמֹו‬ ‘seu plano, dispositivo’, pareceria significar ‘esquema,
enredos, maquinações’, tendo referência a ‘apetite mental’.

e Uma parada glótica prefixada é usada em vários adjetivos (## 18–20), bem como em
certas formas substantivas (## 21–22).

18. ‫ַא ְכז ָב‬enganoso


19. ‫ַא ְכז ָר‬cruel

20. ‫אֵּיתָ ן‬perene (< ytn?)

21. ‫ ֶאז ְרֹו ַּע‬braço

22. ‫ ֶא ְצבַּע‬dedo

O ‫ א‬usado em nomes como ## 21 e 22 parece refletir um esforço para remodelar a raiz, talvez
em parte por causa da sibilante inicial; a palavra ‘braço’, por exemplo, também ocorre na
forma mais comum ‫זְרֹו ַּע‬. Este ‫א‬ prefixado é, portanto, chamado ou de protético (i.e.,
prefixado) ou de prostético (i.e., dando um poder adicional).

p 92 f Gevirtz sugeriu que ‫ ע‬indica especificação ou força como um elemento da raiz. Ele
compara raízes similares com e sem ʿ: gnn ‘cobrir’ e ʿgn ‘fechar-se fora’, qwr ‘cavar’ e ʿqr
‘desenterrar’, rwy ‘estar saturado’ e ʿry ‘derramar’ (≠ ʿry ‘estar despido’). Particularmente
notáveis são as raízes que ocorrem tanto com ‫ א‬como com ‫ע‬, ʾgm ‘estar triste’ e ʿgm ‘afligir’;
ʾṭr ‘fechar’ e ʿṭr ‘cercar’. Pares relevantes de nomes incluem

23. ‫ ִא ֶּ֫ ֶּולֶת‬tolo ‫ ֶָּ֫עבֶל‬injustiça

24. ‫ ֵּאזֹור‬cinto ‫ ֲעז ָָרה‬documento anexo,


tribunal exterior

25. ‫ַארבֶה‬
ְ locusta ‫עָר ֹב‬enxame de
moscas

O elemento ʾaleph/ʿayin, nesses casos, é parte da raiz, tal qual existe no hebraico bíblico. O
elemento ʿayin também é encontrado em alguns quadriliterais designando animais, nos quais
ele pode funcionar como um prefixo, como os outros tratados aqui (## 26–30).
26. ‫ ֲע ַּטלֶף‬morcego

27. ‫ ַּע ְכבָר‬rato

28. ‫ ַּע ָכבִיש‬aranha

29. ‫ ַּעכְשּוב‬víbora

30. ‫ ַּעק ְָרב‬escorpião

5.7 Paradigmas com Sufixação

a Os paradigmas com sufixação que serão apresentados aqui são geralmente


denominativos, isto é, eles formam nomes a partir de outros nomes, em lugar de raízes
verbais.

b O sufixo mais comum é -ôn ~ -ān. Ele pode ser usado para adjetivos (## 1–3),
substantivos abstratos (## 4–6) e diminutivos (## 7–8).

1. ‫ ַּקדְ מֹון‬ocidente < ‫ ֶֶּ֫קדֶ ם‬leste

2. ‫חִיצֹון‬exterior < ‫חּוץ‬lado de fora

3. ‫ ִראשֹון‬primeiro < ‫ר ֹאש‬cabeça

4. ‫ּפִתְ רֹון‬solução

5. ‫זִכָרֹון‬memorial
6. ‫ק ְָרבָן‬oferta

7. ‫אִשֹון‬pupila (do olho) < ‫אִיש‬pessoa

8. ‫ ַּצּוָרֹון‬colar < ‫ ַּצּוָאר‬pescoço

A ‘pupila’ ou ‘menina’ do olho é designação para a pessoa pequena vista refletida nele, tanto
em hebraico como em latim (pupillus, de onde provém o termo português ‘pupilo’). A
terminação -ôn é comum em nomes de lugar (p.ex., ‫ ) ֶחבְרֹון‬e a terminação –ûn de Jesurum
(Yeshurun - ‫)יְשֻרּון‬, um termo poético para Israel (cf. ‫‘ יָשָר‬reto’), e Zebulun (‫ )זְבֻלּון‬estão
relacionadas.

c O sufixo -î estabeleceu-se no uso do inglês em formas como ‘Israeli’, ‘Saudi’ e ‘Farsi’. No


hebraico, ele serve para formar adjetivos a partir de substantivos (## 9–11), incluindo nomes
(## 12–14). Nomes com o sufixo -î são chamados de gentílicos ou étnicos.

p 93 9. ‫ ַּרגְלִי‬infantaria (-< ‫ ֶֶּ֫רגֶל‬pé


soldado)

10. ‫נָכ ְִרי‬estranho < ‫ ֶּ֫נ ֹכֶר‬estranheza

11. ‫תַּ חְתִ י‬mais baixo < ‫תֶַּּ֫ חַּת‬abaixo

12. ‫ ִעב ְִרי‬hebraico < ‫ ֵֶּּ֫עבֶר‬éber

13. ‫מֹוָאבִי‬moabita < ‫מֹוָאב‬moabe

14. ‫גִלֹונִי‬gilonita < ‫גִֹלה‬giló


d Nomes abstratos denominativos são formados com o sufixo -ût e menos
freqüentemente, com -ît.

15. ‫יַּלְדּות‬infância < ‫ ֶֶּ֫ילֶד‬criança

16. ‫ ַּמלְכּות‬realeza, reino < ‫ ֶֶּ֫מלְֶך‬rei

17. ‫שא ִֵּרית‬


ְ remanescente < ‫שְָאר‬resíduo

e O sufixo -ām é usado para formar advérbios (## 18–20; 39.3.1h).

18. ‫יֹומָם‬de dia < ‫יֹום‬dia

19. ‫ ִחנָה‬graciosamente < ‫חֶן‬graça

20. ‫ ֵּריקָם‬em vão < ‫ ֵּריק‬vazio

5.8 Excursus: Intercâmbio de Consoantes

a A estrutura fonológica do hebraico bíblico está fora de nossa esfera, mas uma faceta dela
merece menção, associada ao estudo de paradigmas. Consoantes ocasionalmente
intercambiam-se na formação de palavras em hebraico e formas muito intimamente
vinculadas podem realmente assumir formas ligeiramente diferentes. Há três grupos de
intercâmbios importantes para o hebraico bíblico: as guturais, as líquidas (l e r) e as nasais (m e
n), e outras consoantes.

b O intercâmbio do ʾaleph e do yod inicial é atestado em ʾš para a forma padrão yš (2Sm


14.9) e ʾśrʾl para a forma padrão yśrʾl (1Cr 25.2, cf. v. 14). Observe, também, a forma
alternativa do nome divino ‫הי ֶה‬
ְ ‫( ֶא‬Os 1.9; cf. Êxodo 3.12,14). Outros intercâmbios de guturais,
embora comuns em formas posteriores da língua, são raros no hebraico bíblico.

c As comutações líquido-nasais são mais bem conhecidas por duas formas do nome
Nebuchadnezzar (p.ex., Jr 29.1) e Nebuchadrezzar (p.ex., Jr 21.2). Os três sons l, n e r
ocasionalmente surgem em formas intimamente vinculadas, por exemplo, liškâ e niškâ,
‘quarto’; mazzālot e mazzārot, ‘constelações’; lḥṣ e nḥṣ, ‘pressionar, urgir’. Aloysius Fitzgerald
colecionou exemplos de outras dessas variantes em textos poéticos; ele alega que em tais
casos o poeta “está usando uma forma dialetal que se encaixa melhor no padrão sonoro de
sua linha” do que faria uma forma padrão.

p 94 d Outros intercâmbios são atestados para sibilantes (ʿlṣ, ʿls, ʿlz, ‘exultar’; ṣḥq e śḥq
‘sorrir’), velares (sgr e skr, ‘fechar’) e bilabiais (plṭ e mlṭ, ‘escapar’).

e Metátese, isto é, a transposição de elementos de uma palavra, é parte da morfologia


regular do Hithpael (veja 26.1.1b). Ela também afeta algumas raízes que aparecem em duas
formas: a comum ‫ש ְלמָה‬
ַּ ‘manto’ e a etimologicamente correta ‫ש ְמלָה‬
ִ , com o mesmo
significado; a comum (e etimologicamente correta) ‫‘ ֶֶּ֫כבֶש‬carneiro jovem’ e ‫‘ ִכ ְבשָה‬ovelha-
cordeiro’, ao lado de ‫שב‬
ֶ ‫‘ ֶֶּ֫כ‬carneiro jovem’ e ‫שבָה‬
ְ ‫‘ ִכ‬cordeiro’.

p 95 6
Gênero
6.1 Introdução

6.2 Estudo do Gênero

2.1 Visões Antiga e Medieval

2.2 Visões Modernas

6.3 Perspectivas Comparativas

3.1 Gênero na Língua

3.2 Gênero em Semítico e Hebraico

6.4 Gêneros de Inanimados e de Não-Animados

4.1 Nomes com Gênero Zero-Marcado

4.2 Nomes Femininos com Gênero Marcado

4.3 Gênero Duplo (Comum de Dois Gêneros)

6.5 Gênero de Animados

5.1 Díades Naturais

5.2 Nomes Epicenos


5.3 Prioridade do Masculino

6.6 Concordância

6.1 Introdução

a Gênero é uma categoria de muitas línguas e desempenha um papel importante na


estrutura do hebraico. Como um aspecto da morfologia, o gênero afeta tanto a sintaxe quanto
o léxico; no léxico, o gênero é uma faceta da semântica, isto é, o modo pelo qual o mundo ao
nosso redor é representado em palavras. Como as outras línguas semíticas, o hebraico
distingue formalmente dois gêneros, masculino e feminino; a distinção é usada para nomes
(tanto substantivos quanto adjetivos), pronomes e verbos. O sistema formal em nomes
envolve uma classe não-marcada de formas masculinas e uma classe grandemente marcada de
formas femininas.

p 96 b Na teoria lingüística uma oposição envolve marcação se um membro tem em si

algo extra ou incomum para distingui-lo dos outros (3.3.5e). Por exemplo, na oposição ‫ֶֶּ֫מלְֶך ׃‬
‫ ַּמ ְלכָה‬, o gênero de ‫ ֶֶּ֫מלְֶך‬não é mostrado por qualquer dispositivo evidente, enquanto que o
gênero de ‫לכָה‬ ְ ‫ ַּמ‬é mostrado pela terminação ‫ָָ ה‬-; ‫ ֶֶּ֫מלְֶך‬é o membro não-marcado ou zero
(Ø)-marcado do par, enquanto que ‫לכָה‬ ְ ‫ ַּמ‬é o membro marcado. No hebraico, em geral, o
gênero masculino é não-marcado, enquanto o feminino é marcado. O membro não-marcado
pode ter o mesmo valor que o seu oposto e assim os nomes masculinos não-marcados podem
referir-se ao feminino. O membro marcado de um par lingüístico atrai mais atenção do que o
não-marcado e assim, no estudo do gênero, pode parecer que estamos lidando com o
“problema” do feminino, mas na realidade estamos preocupados com o sistema gramatical
masculino: feminino.

c Os nomes femininos singulares no hebraico podem ter uma variedade de terminações: –


â (# 1) é a mais comum, com –at (# 2) sua forma construta e –t (# 3) e –et (# 4) que são
também usadas. Alguns nomes com referentes femininos são zero-marcados (# 5).

1. ‫ ַּמ ְלכָה‬rainha (abs.)

2. ‫ ַּמ ְלכַּת‬rainha (cstr.)

3. ‫ב ְִרית‬pacto (abs., cstr.)


4. ‫גְדֶֶּ֫ ֶרת‬muro (abs., cstr.)

5. ‫אֵּם‬mãe (abs., cstr.)

A terminação -â (o he é uma mater lectionis) e as terminações com t estão todas


relacionadas na base. O –â surgiu como uma variante pausai de –at; –t e –et são variantes
morfológicas de –at. Referimo-nos a todas essas terminações como o sufixo –at, contrastando-
as ao sufixo Ø ou marcador de ‫ָאב‬, ‫ אֵּם‬e nomes semelhantes.

d A marcação do gênero há muito tem atraído o interesse dos estudantes de línguas.


Examinaremos as visões de alguns comentaristas antigos, medievais e modernos antes de
voltarmo-nos a um estudo comparativo do gênero como um fenômeno lingüístico. Tendo
estabelecido que gênero e sexo são fenômenos distintos, e que a forma –â/–at originalmente
sinalizava modificação de uma forma-Ø oposta, estaremos mais capacitados para examinar o
funcionamento real do sistema de gêneros do hebraico.

6.2 Estudo do Gênero

6.2.1 Visões Antiga e Medieval

a A tradição gramatical ocidental, começando pelos gregos, especulou sobre o gênero.


Protágoras, um sofista influente do século 5º a.C., mereceu o reconhecimento por ter p 97
sido o primeiro a classificar os três gêneros em grego: masculino, feminino e neutro.
Aristóteles (384–322 a.C.) prosseguiu ao listar as terminações típicas de cada gênero, assim
classificando os nomes de acordo com suas inflexões ou acidentes. Os gramáticos inovadores e
criativos da escola sofista anteciparam as terminações dos lingüistas modernos pela
observação de dois princípios no campo do gênero: (1) o gênero formalmente marca a
concordância entre palavras em alguns tipos de frases e em outros grupos sintáticos, e (2) a
correspondência entre gênero (lingüístico) e sexo (natural) é apenas parcial. Após os sofistas
primitivos, os gramáticos gregos preocuparam-se grandemente com as taxionomias. Os
acréscimos romanos à lingüística grega foram de pouca importância; é importante destacar
que Sextus Empiricus (final do século 2º d.C.) observou que o gênero de alguns nomes diferiam
de um dialeto para outro.

b Os verdadeiros herdeiros dos gramáticos gregos foram os árabes. Os primeiros


gramáticos árabes, nos séculos 8º e 9º d.C., foram estritamente descritivos e taxionômicos.
Eles demarcaram os gêneros em formas masculinas e femininas, reconhecendo que o feminino
é o membro marcado do par. Eles essencialmente classificaram os nomes nos seguintes
grupos:

(1) o verdadeiro feminino: nomes animados que denotam fêmeas, com ou sem
terminação (p. ex., baqarat- ‘vaca’ e ʾum (mãe)
(2) o feminino metafórico: nomes inanimados, com ou sem terminação feminina (p. ex.,
dawlat- ‘estado, governo’ e yad ‘mão’)

(3) o feminino morfológico: nomes usados exclusivamente para - referir-se a machos e


tratados como masculinos, mas possuindo uma terminação feminina (p. ex., khalifat-
‘califa’)

Categorias semelhantes podem ser estabelecidas para o hebraico bíblico.

6.2.2 Visões Modernas

a Em contraste com as abordagens estritamente descritivas dos primitivos gramáticos


gregos e árabes, os lingüistas dos séculos 18 e 19 foram extensivos em especulação e breves
em análise descritiva. Os alemães Herder e Adelung tentaram explicar a origem e a função do
gênero, focalizando os gêneros atribuídos a objetos inanimados. Esses estudiosos pensaram
que os assim chamados povos primitivos individualizaram os objetos, ordenando-os em um
dos dois gêneros baseados no sexo, de acordo com as características do objeto. Objetos
considerados como fortes, grandes, ativos, etc., eram p 98 tidos como masculinos, e objetos
considerados como sendo suscetíveis, delicados, passivos, etc., vieram a ser femininos. Esta
abordagem infundada foi comumente aceita por sucessivas gerações de lingüistas, passando
dos livros do último século 18 para muitos livros eruditos do século 19. Um estudioso escreveu
sobre os povos “primitivos” como crianças e assim observa:

Desta fonte [i.e., imaginação] é derivada o sistema inteiro de gêneros para


coisas inanimadas, que foi talvez inevitável naquele primitivo estágio infantil
da inteligência humana…

b Uma autoridade notável em gramática árabe, W. Wright, semelhantemente observou:

A imaginação vívida do semita concebia todos os objetos, mesmo aqueles que


são aparentemente sem vida, como dotados de vida e personalidade. Deste
modo, para eles existem apenas dois gêneros, como existem na natureza
apenas dois sexos.

Tais noções estão subjacentes à maioria das grandes gramáticas hebraicas, as de Gesenius,
Gesenius-Kautzsch-Cowley, Joüon e outras. Paul Joüon, por exemplo, observa:

Excetuando o dos seres vivos, o gênero é metafórico: certos substantivos são


masculinos, por analogia com os seres machos; outros são femininos, por
analogia com os seres fêmeos.

Tão inadequada é esta opinião que ele acrescenta diretamente:

É necessário confessar, por fim, que o que determinou o gênero sempre nos
escapa.

O assunto do gênero de inanimados não foi o único estímulo para a má teorização entre os
estudiosos. Carl Brockelmann, por exemplo, tendo mostrado, cria ele, que não havia
terminação feminina alguma evidente no semítico primitivo, prosseguiu concluindo que as
fêmeas eram altamente consideradas naquela cultura, que pode ter tido uma organização
realmente matriarcal.

c M. H. Ibrahim, deplorando a pesada dependência destes eruditos da fantástica


especulação extralingüística, conclui:

Esses gramáticos que têm escrito acerca dos povos primitivos e de suas
primitivas línguas foram como os antropólogos “de poltrona” do século 19,
que escreveram acerca desses povos sem quaisquer contatos com eles e com
sua cultura.

p 99 Os antropólogos ajudaram a reformar as idéias européias dos povos pré-industriais


(“primitivos” ou “selvagens”) e os afastaram da estereotipagem fácil. Ao mesmo tempo, os
lingüistas modernos retomaram ao seu próprio ponto de partida, a língua, por meio da
consideração do fenômeno lingüístico.

d Os lingüistas modernos concordam que o gênero gramatical serve apenas para denotar
diferenças sexuais entre os seres animados. A função primária dos vários sistemas de gênero é
sintática; gênero é um dos sistemas de concordância que conecta palavras relacionadas dentro
de uma oração. É de importância secundária que os chamados formativos “femininos”
designam o gênero natural nos seres viventes.

6.3 Perspectivas Comparativas

6.3.1 Gênero na Língua

a A descrição do gênero como é usada numa variedade de línguas sugere que o gênero
gramatical não denota primariamente sexo em seres animados e traços “análogos” dos
inanimados. Em vez disso, gênero é primariamente uma matéria de sintaxe. Os argumentos
lingüísticos relevantes são diversos; reunidos, eles apontam na direção de uma noção
propriamente lingüística de gênero.

b Tipologicamente, as línguas podem ser divididas em aquelas que possuem as classes


nominais e as em que há ausência delas. As classes nominais mais comuns são os gêneros, que
podem ser em número de três (masculino, feminino e neutro) ou dois (masculino e feminino).
Outros sistemas de classes nominais distinguem animados de inanimados, ou nomes contáveis
(como ‘livro’, ‘mulher’, ‘árvore’) de nomes não-contáveis (como ‘povo’, ‘água’, ‘sal’). As línguas
que usam gênero incluem a maioria das línguas indo-européias e semíticas; dentre as que não
usam estão o turco, o chinês e o basco. Assim, em nenhum lugar o turco – nem mesmo em
seus pronomes – distingue gramaticalmente gêneros, ao passo que o francês, como o
hebraico, forçosamente situa todos os seus nomes ou no gênero masculino ou no feminino.
Notando esse contraste, James Barr mostra que seria absurdo supor que os turcos eram
inconscientes no tocante às diferenças sexuais ou que a gramática prova “os lendários
interesses eróticos” do francês! Não é verdade que os falantes de uma língua com um sistema
de dois gêneros pensem em todos os objetos como macho ou fêmea; antes, como F. R. Palmer
argumenta, “é simplesmente o fato que a gramática de suas línguas meramente divide todos
os nomes em duas classes”.
c O erro da idéia de que o gênero está fixado a um objeto de acordo com certas qualidades
concebidas é ilustrado em seguida pela comparação dos gêneros de palavras numa língua e em
outra. Por exemplo, nas línguas neolatinas ‘sol’ é masculino e ‘lua’ é feminino, mas em alemão
a situação é inversa. Na verdade, mesmo para nomes animados o traço referencial pode ser
enfraquecido ou estar ausente. Assim, há nomes em francês que, ainda que femininos quanto
à forma, referem-se a homens, por exemplo, la sentinelle ‘a sentinela’, la vigi ‘o guarda
noturno’. Em francês, a maior parte dos termos p 100 ocupacionais é feminina, mesmo se a
pessoa referida for do sexo masculino. Por outro lado, alguns nomes que designam profissões
são masculinos (le professeur, le médicin), ainda que o referente seja feminino; assim, a
seguinte oração é possível em francês: Le professeur est enceinte, ‘A professora está grávida’.

d Em alemão também encontram-se conflitos de sexo. É engraçado que Rübe ‘nabo’ é


feminino, enquanto Mädchen ‘menina’ é neutro. Mark Twain preparou este diálogo em A
Tramp Abroad (Uma Caminhada no Estrangeiro):

Gretchen: Wilhelm, onde está o nabo?

Wilhelm: Ela foi para a cozinha.

Gretchen: Onde está a linda e realizada moça inglesa?

Wilhelm: Ela (neutro, inglês it) foi à ópera.

Na verdade, o gênero neutro Mädchen é determinado pelo sufixo -chen; o nome base é
feminino, die Magd. Outro tipo de conflito de gênero-sexo surge quando adjetivos indicando
sexo ocorrem com nomes de gêneros “opostos”. Em francês ‘o rato’ é la souris, e ‘o rato
macho’ é la souris mâle, isto é, ‘o rato (feminino) macho’!

e Foi Karl Brugmann, no final do século 19, quem mais drasticamente modificou a visão de
seus predecessores sobre gênero. De fato, ele reverteu completamente a prioridade de gênero
gramatical e sexo daquela visão de lingüistas anteriores. Ele defendeu a tese de que o gênero
gramatical, que originalmente não tinha nada a ver com sexo, guiou a imaginação poética em
personificações míticas.

Em todos os casos que vêm (são chamados) à consideração aqui [o período


histórico das línguas indo-européias] o gênero gramatical da palavra, tão longe
como podemos julgar, é o mais antigo [i.e., mais antigo que as
personificações]. A imaginação usou esse gênero e permitiu-se ser guiada por
ele.… Quando [os povos primitivos ou os poetas] personificavam um conceito
sem vida em um ser vivo, era a forma gramatical do nome que, por meio do
impulso psicológico de analogia,… decidia a direção definida do gênero - se
deveria ser masculino ou feminino.…

Seus estudos encontraram confirmação limitada em algumas áreas. Por exemplo, os russos
personificam os dias da semana como macho ou fêmea na base do gênero gramatical do dia.
Semelhantemente, os poetas hebreus às vezes personificaram inanimados de acordo com o
gênero, por exemplo, ‫ ָח ְכמָה‬é Senhora Sabedoria, anfitriã (Pv 9.1–6), irmã (7.4), mediadora
(1.20–33). Equilibrando as coisas, contudo, é melhor ver o gênero gramatical e o sexo natural
dos seres animados como sistemas coordenados, nenhum controlando o outro.

f Uma visão mais ampla dos sistemas de gênero deriva dos estudos de línguas com outros
sistemas de classes nominais; estes incluem as línguas bantas, algumas línguas p 101
sudanesas e algumas línguas do Cáucaso e da Austrália. As classes nominais nessas línguas não
têm relação alguma com o sexo natural. Por exemplo, em suaíle, há classes de animados, de
coisas redondas e pequenas, de coisas compridas e finas, e assim por diante; cada classe é
formalmente indicada por um prefixo e concorda com seus adjetivos modificadores e com os
verbos. Desde que ali haja apenas uma correspondência limitada entre as classes formais e
seus “significados”, os lingüistas classificam-nas meramente por seus acidentes. Gênero nas
línguas indo-européias e semíticas parece ser um caso especial de classificação nominal; como
C. F. Hockett diz, “Gêneros são classes de nomes refletidas no comportamento de palavras
associadas”. Destas observações comparativas podemos ver que os gêneros gramaticais não
“atribuem” sexo a objetos inanimados e apenas o designam imperfeitamente em objetos
animados; é principalmente um traço sintático, seja o nome animado ou inanimado, não um
traço estritamente referencial-semântico.

6.3.2 Gênero em Semítico e Hebraico

a Esses fatos básicos do gênero hebraico podem ser revistos antes de tentarmos discutir as
operações do sistema. Os gêneros gramaticais são parte do sistema de rudimentos hebraicos,
isto é, as marcações de gênero mostram que certas partes da fala concordam com outras
partes da fala.

b Um ser feminino pode ser gramaticalmente marcado apenas na área de objetos


animados (p. ex., ‫‘ ּפָר‬touro’ e ‫‘ ּפ ָָרה‬vaca’). “Nomes de gênero” lexicalmente opostos podem
ser usados para designar cada membro da díade macho-fêmea (p. ex., ‫‘ ָאב‬pai’ e ‫‘ אֵּם‬mãe’).
Formadores de femininos plurais são encontrados com nomes denotando seres machos (p. ex.,
‫‘ ָאבֹות‬antepassados, pais’). Por outro lado, formadores de masculinos plurais aparecem com
nomes denotando seres fêmeas (p. ex., ‫‘ נָשִים‬mulheres’).

c Não há “razão” porque nomes inanimados estão num gênero gramatical particular.
Contraste ‫‘ הָר‬monte’ e ‫‘ גִ ְבעָה‬monte’. Alguns nomes inanimados mostram dois gêneros (p.
ex., ‫‘ דֶֶּ֫ ֶרְך‬caminho’ ‫‘ אֲרֹון‬tórax’). O mesmo significado pode ser associado a dois nomes não-
animados que diferem apenas em gênero (p. ex, ‫ נָקָם‬e ‫קמָה‬ ָ ְ‫נ‬, ‘domínio, vingança’). Nomes
femininos não-animados podem designar um coletivo (e.g., ‫‘ גֹולָה‬exílio’), ou um componente
simples de um coletivo (p. ex., ‫אנִּי ָה‬ ֳ ‘navio’, contraste ‫‘ ֳאנִי‬frota’, tanto masculino como
feminino).

d O formador feminino é usado para formar números usados com nomes masculinos (p.
ex., ‫בנ ִים‬
ָ ‫‘ שְלשָה‬três filhos’).
p 102 e Estudos comparativos revelam certos paradigmas de gênero. O hebraico (como as
línguas semíticas geralmente) conforma-se a esses paradigmas. Se o gênero serve
principalmente à função sintática de concordar, como ele adquiriu qualquer valor semântico
nas línguas semíticas? Ele teve um “significado original”? C. Brockclmann, por causa de alguns
sistemas de classes nominais apresentados acima, pensava que os gêneros gramaticais nas
línguas semíticas originalmente não tinham nada a ver com o sexo natural. Ele associou os
sistemas de gêneros semíticos aos sistemas de classes em outras línguas e sugeriu que a
terminação feminina, juntamente com outras terminações menores, reflete um traço de um
sistema mais antigo de classe nominal no semítico. Diversos eruditos têm teorizado que as
classes nominais representadas pelos gêneros formam simplesmente classes de formas
básicas (ora masculinas) e derivadas (ora femininas).

f E. A. Speiser pensava que o que é agora o formador feminino em semítico começou como
um elemento acusativo na família maior de línguas hamito-semíticas ou afro-asiáticas. Essa
idéia tem sido rejeitada; o valor permanente de seu estudo do problema permanece em sua
alegação de que o “feminino’ significava originalmente palavras derivadas com alguma
modificação especial da raiz básica. Ele observa que em todas as línguas semíticas –(a)t havia
não apenas um, mas pelo menos quatro valores semânticos: (1) formar uma abstração a partir
de um adjetivo, numeral ou verbo (p. ex., ‫‘ ָרעָה‬mal’ de ‫‘ ַּרע‬mau’); (2) formar um coletivo a
partir de um particípio (p. ex., ‫‘ א ְֹרחָה‬caravana’ de ‫ח‬ ַּ ‫‘ א ֵֹּר‬viajante’); (3) construir uma
singularidade (nomen unitatis) de um coletivo (e.g., ‫שע ֲָרה‬ ַּ ‘[um único] cabelo’ a partir de
‫שעָר‬ ֵּ ‘cabelo’); (4) construir um diminutivo ou semelhante (p. ex., ‫‘ יֹו ֶֶּ֫נקֶת‬broto’ a partir de
‫‘ יֹונֵּק‬planta jovem’; cf. 6.4.2f). A “versatilidade notável” de um formativo que poderia marcar
um nome coletivo ou um nomen unitatis levou Speiser a concluir:

É essa inconsistência aparente que fornece a pista necessária para a avaliação


da função principal de –(a)t. Isso não era para marcar classificação inferior, ou
para formar nomes abstratos, coletivos, diminutivos, ou coisa semelhante,
mas é claramente para construir raízes derivadas com alguma modificação
especial do significado original.

Com o tempo –at veio a ter a especialização definitiva do feminino com objetos animados.
Outras características como forma, tradição e associações com outras palavras, contribuíram
para a atribuição do gênero de um nome.

6.4 Gênero de Inanimados e de Não-Animados

a Não há gênero “natural” para (objetos) inanimados e não-animados (abstratos). Os


gramáticos mais antigos que buscavam explicar o gênero gramatical em uma tal base p 103
estavam iludidos com sua correlação de fenômenos lingüísticos e não-lingüísticos. Nós
analisamos estes nomes de acordo com o fato de eles terem um Ø ou um –at formativo.

6.4.1 Nomes com Gênero Zero-Marcado


a Nomes com um formativo gênero-Ø podem ser tratados no hebraico ora como
masculinos ora como femininos, embora a maioria deles seja masculino. Com raras exceções,
nenhum valor semanticamente homogêneo pode ser atrelado à atribuição de gênero. Há,
contudo, três campos semânticos nos quais o padrão gênero merece estudo: nomes referindo-
se a partes do corpo, nomes de lugares e termos figurativos.

b Nomes referindo-se a partes do corpo tendem a ser femininos (## 1–17).

1. ‫ ֶּ֫א ֹז ֶן‬orelha

2. ‫ ֶא ְצבָע‬dedo

3. ‫ ֶֶּ֫בטֶן‬barriga

4. ‫ ֶֶּ֫ב ֶרְך‬joelho

5. ‫ז ְרֹו ַּע‬braço

6. ‫י ָד‬mão

7. ‫י ֵָּרְך‬coxa

8. ‫ ָכנָף‬asa

9. ‫כָף‬palma

10. ‫ ְלהִי‬queixo

11. ‫לָשֹון‬língua
12. ‫ ֶַּּ֫עי ִן‬olho

13. ‫ ֵּצלָע‬lado

14. ‫ ֶֶּ֫ק ֶרן‬corno, chifre

15. ‫ ֶֶּ֫רגֶל‬pé

16. ‫שֹוק‬perna

17. ‫שֵּן‬dente

A exceção notável é ‫( שַּד‬masc.) ‘mama’ (veja Os 9.14).

c O gênero de nomes de lugares é complicado pelo fato de que os termos que designam
nome de lugar freqüentemente terem perdido seus nomes principais (o processo gramatical
de “decapitação”), enquanto que o nome principal continua a controlar o gênero da frase. A
decapitação é comum em português – dizemos ‘Rio’ para ‘Estado do Rio de Janeiro’, ‘Brasil’
para ‘República Federativa do Brasil’. Em línguas com sistemas de gênero gramatical, a
redução quase invariavelmente afeta esses sistemas. Os primeiros gramáticos de árabe
notaram que um termo genérico (como ‘cidade de…’, ‘reino de…’, ‘rio de…’, ‘montanha…’) em
construto com um nome de lugar determina o gênero da frase e mesmo que o genérico não
tenha sido expresso, seu gênero ainda controla o termo, por exemplo, dijlat ‘Tigre’ é feminino
na forma, mas é considerado como masculino, uma vez que a expressão completa é nahr dijlat
‘rio de Tigre’ e nahr é masculino. A omissão do nome no construto (decapitação) é comum em
árabe. Assim, a maior parte dos nomes de cidade é feminina porque madinatu ‘cidade’ é
feminino.

d A situação do hebraico é similar. Como o árabe nahr, o termo hebraico ‫ נָהָר‬é masculino,
como pode ser visto no # 18; embora ‫ּפ ְָרת‬ pareça ser feminino, o pronome em # 19 é
masculino, seguindo (‫נְהַּר )־ּפ ְָרת‬.
18. ‫ ַּהנָהָר ַּהגָד ֹל נְהַּר־ּפ ְָרת׃‬o grande rio, o rio Eufrates
Gn 15.18

19. ‫ ְו ַּהנָהָר הָ ְָֽרבִיעִי הּוא פ ְָרת׃‬o quarto rio era o Eufrates


Gn 2.14

p 104 De novo, ‫ ֲא ָמנָה‬, embora feminino na forma, estabelece concordância com os


modificadores masculinos devido à omissão de ‫נָהָר‬, que é masculino.

20. ‫הֲֹלא טֹוב ֲא ָמנָה‬Não é Amaná melhor?


2Rs 5.12 Qere

Outro substantivo principal é ‫ ;בֵּית‬assim ‫ בֵּית־ ֶֶּ֫לחֶם‬em Miquéias 5.1 e ‫אל‬


ֵּ ‫ בֵּית־‬em Amós 5.5
são ambos masculinos. Bases femininas incluem ‫מ ֶֶּ֫לחֶת‬
ְ ‫ ַּמ‬e ‫ ֶֶּ֫א ֶרץ‬, e qualquer das duas poderia
explicar o tratamento de ‫בבֶל‬
ָ como feminino em Gênesis 11.9 e Isaías 21.9, uma vez que ‫ָבבֶל‬
é chamada tanto de ‫מ ֶֶּ֫לחֶת‬
ְ ‫( ַּמ‬Gn 10.10) como de ‫( ֶֶּ֫א ֶרץ‬Jr 50.28). Semelhantemente, ‫ אַּשּור‬é
feminino em Ezequiel 32.22 (cf. Is 7.18). Observe os femininos em Êxodo 12.33; 1 Samuel
17.21; 2 Samuel 8.2, 24.9. Em alguns casos um nome de lugar parece variar em gênero; isto é
provavelmente um sinal de que a base subjacente varia. Assim ‫ י ְהּודָ ה‬é masculino em Isaías
3.8, talvez devido à base ‫בֵּית‬, mas é feminino em Isaías 7.6, devido à base ‫ ֶֶּ֫א ֶרץ‬. De modo
semelhante, ‫ אֱדֹום‬é masculino em Números 20.20 (devido a ‫)בֵּית‬, mas feminino em Jeremias
49.17 (devido a ‫) ֶֶּ֫א ֶרץ‬. Em alguns casos o uso não é inteiramente claro: ‫ י ְהּודָ ה‬é
provavelmente feminino em Lamentações 1.3 devido a ‫עִיר‬, em vez de ‫ ֶֶּ֫א ֶרץ‬, ou o nome de
lugar aí pode referir-se, por metonímia, aos habitantes do lugar. Desde que ‫ עִיר‬é feminino e,
portanto, nomes de cidades são reputados como femininos, os poetas de Israel foram levados
a personificar cidades como mulheres, por exemplo, ‫בַּת־ ָבבֶל‬, ‘Filha de Babilônia’ (Is 47.1) e
‫ש ַּליִם‬
ָ ‫בַּת י ְרּו‬ ‘Filha de Jerusalém’ (Is 37.22; veja 6.3.1, 9.5.3h). Acerca deste método de
atribuição de gênero, Ibrahim comenta: “Isso explica de um modo simples por que a milhares
de nomes de países, rios, cidades, montanhas, etc. são atribuídos um gênero ou outro”. Há
exceções a este padrão, no qual o nome de lugar determina o gênero da frase; por exemplo, ‫גַּן‬
é usualmente masculino, mas a frase ‫גַּן־עֶדֶ ן‬ é feminina (Gn 2.15); ‫ֶֶּ֫גפֶן‬ é provavelmente
masculino em Oseías 10.1 por causa da referência ali a ‫יִש ְָראֵּ ל‬.
e Uma terceira área semântica onde há um claro padrão para nomes Ø-marcados envolve
uso figurativo, uma área também importante para nomes femininos em –at. Onde o sentido
literal de um termo é feminino, o figurativo pode ser masculino:‫ ֶַּּ֫עי ִן‬, feminino (em hebraico),
porém masculino ‘superfície de gravação, faceta’ (Zc 3.9, 4.10); ‫שֵּן‬, feminino (em hebraico)
‘dente’, porém masculino ‘dente (de um garfo)’ (1Sm 2.13), ‘ponta (de uma rocha)’ (1Sm 14.4,
5).

6.4.2 Nomes Femininos com Gênero Marcado

a Vários grupos importantes de nomes não-animados e inanimados são morfologicamente


femininos. Estes incluem os abstratos, coletivos e singularidades, bem como infinitivos e certos
nomes figurativos. (Sobre o “falso” pronome feminino, veja 6.6d.)

b Nomes abstratos podem estar no singular (## 1–8) ou no plural (## 9–11). Os abstratos
singulares e mais freqüentemente os plurais podem ser usados adverbialmente (10.2.2e), por
exemplo, ‫קָשֹות‬ ‫ ַּוי ְדַּ בֵּר‬, ‘ele falou coisas duras’ (i.e., ele falou duramente)’ (Gn 42.7; cf. Is 32.4
para # 10; cf. 39.3.1).

p 105 1. ‫ ֱאמּונָה‬firmeza

2. ‫נֶ ֱא ָמנָה‬uma coisa certa

3. ‫ְבּורה‬
ָ ‫ג‬força

4. ‫טֹובָה‬bondade

5. ‫יְש ָָרה‬retidão

6. ‫נְכֹונָה‬firmeza

7. ‫תְ כּונָה‬arranjo

8. ‫ ָרעָה‬mal
9. ‫נְדִ יבֹות‬coisas nobres

10. ‫צָחֹות‬coisas claras

11. ‫ ָקשֹות‬coisas duras

Nem todos os nomes abstratos são femininos (e.g., ‫ ֶַּּ֫חי ִל‬, ‘poder’, ‫כָבֹוד‬, ‘glória’, ‫טֹוב‬ ‫ו ָָרע‬
‘bem e mal’ [Gn 2.9]).

c Os coletivos, designações inclusivas de um número de coisas ou pessoas,


freqüentemente apresentam o sufixo -at (## 12–14). Às vezes é incerto se uma forma é um
caso de personificação ou um coletivo (## 15–16).

12. ‫א ְֹרחָה‬caravana

13. ‫גֹולָה‬exílio

14. ‫דַּ לָה‬povo pobre

15. ‫א ֶֶּ֫יבֶת‬inimigo

16. ‫שבֶת‬
ֶ ֶּ֫ ‫יֹו‬habitante

d Componentes simples de uma unidade coletiva freqüentemente aparecem com o sufixo


–at; este tipo de forma é designado de nomen unitatis ou singularidade.

17. ‫ ֳאנִּי ָה‬navio ‫ ֳאנִי‬frota


18. ‫ ִצצָה‬, ‫נִצָה‬flor ‫צִיץ‬, ‫נֵּץ‬grinalda

19. ‫שע ֲָרה‬


ַּ (um) cabelo ‫שעָר‬
ֵּ cabeleira

20. ‫ִירה‬
ָ ‫(ש‬um) cântico ‫שִיר‬cântico, canto

Por outro lado, encontra-se ‫‘ דָ גָה‬cardume (coletivo)’, mas ‫(‘ דָ ג‬um) peixe’. Algumas formas,
por exemplo, ‫שנ ָה‬ַּ ‫‘ שֹו‬lírio’, ‫ ְל ֵּבנָה‬tijolo’, etc., são singularidades para as quais o coletivo não
é atestado. (A forma masculina ‫ שּושָ ן‬é um ‘lírio’ metafórico, uma decoração arquitetural).

e O infinitivo pode ser tratado como feminino.

21. ‫הַּ ָֽנְ ַּקלָה בְעֵּ ָֽינֵּיכֶם הִתְ חַּתֵּ ן ַּב ֶֶּ֫מלְֶך‬Parece-vos
coisa de somenos
ser genro do rei?

1Sm 18.23

Em alguns casos ele é tratado com masculino.

22. ‫ִי־רע ָומָר ָעזְבְֵּך … אֱֹל ֶָּ֫הי ְִך‬


ַּ ‫כ‬Quão mau e quão amargo é
deixares … o teu Deus.

Jr 2.19

f Um sentido figurado pode, também, ser denotado por -at.

23. ‫יֹונֵּק‬lactente/criança ‫יֹו ֶֶּ֫נקֶת‬lactente, broto


(masc.)

24. ‫י ֵָּרְך‬quadril (fem.) ‫י ְַּרכָתֶַּּ֫ י ִם‬lados


(de uma
construção, etc.)

25. ‫ ֵֶּּ֫מצַּח‬testa ‫ ִמ ְצחָה‬perneira, greva


p 106 6.4.3 Gênero Duplo

a Alguns nomes não-animados têm formas tanto masculinas como femininas. Embora
esses assim chamados duplos possam ter diferentes conotações, é melhor não se apoiar muito
sobre suas distinções de gênero; ambas as formas significam essencialmente a mesma coisa.
Mordechai Ben-Asher compilou 117 nomes não-animados possuindo tanto formas masculinas
como femininas, incluindo cinco pares coletivo/nomen unitatis (6.4.2d). (Ele exclui casos onde
não há relação alguma entre formas semelhantes, e.g., tôrâ/tôr, ou onde a relação é dúbia,
e.g., ʾādamâ/ʾādām). Desses, 61 são nomes abstratos e 56 são concretos. Esses pares incluem
todos os tipos de significados: nomes abstratos (## 1–2), partes do corpo (## 3–4), termos da
agricultura (## 5–6), palavras ligadas ao vestuário (## 7–8) e pares de palavras com inicial ma–
/mi– (## 9–12; veja 5.6), sete das quais são derivadas das raízes com –waw medial (## 11–12).
Ele não encontra qualquer diferença positiva em termos de sentido entre os pares, exceto dos
poucos casos de coletivos/nomina unitatis (# 6 e talvez # 3).

1. ‫שמָה‬
ְ ‫ ַּא‬/ ‫ ָאשָם‬culpa

2. ‫ נְ ָקמָה‬/ ‫נָקָם‬domínio, vingança

3. ‫ ֶאב ְָרה‬/ ‫ ֵֶּּ֫אבֶר‬pinhão

4. ‫ גֵּוָה‬/ ‫גֵּו‬costas

5. ‫ ֶח ְלקָה‬/‫ ֵֶּּ֫חלֶק‬território

6. ‫ ִצצָה‬/ ‫צִיץ‬grinalda

7. ‫ ֲאפֻדָ ה‬/ ‫אֵּפֹוד‬éfode

8. ‫ֲגֹורה‬
ָ ‫ ח‬/ ‫חֲגֹור‬cinto
9. ‫ מַּתָ נָה‬/ ‫ ַּמתָ ן‬presente

10. ‫ ִמ ְמ ֶֶּ֫כ ֶרת‬/ ‫ ִמ ְמכָר‬mercadoria

11. ‫ָגֹורה‬
ָ ‫ מ‬/ ‫ ָמגֹור‬terror

12. ‫ מְחֹולָה‬/ ‫ ָמחֹול‬dança

Em cinco casos ele descobriu que uma das formas ocorre num estilo poético ou elevado e a
outra em um estilo ordinário prosaico (## 13–17).

prosaico elevado

13. ‫ֲא ֵּפלָה‬ ‫ ֶּ֫א ֹפֶל‬escuridão

14. ‫גַּן‬ ‫ ַּגנָה‬jardim

15. ‫ֶּ֫חשְֶך‬ ‫שכָה‬


ֵּ ‫ ֲח‬/ ‫שכָה‬
ְ ‫ ָח‬trevas

16. ‫צְדָ קָה‬ ‫ ֶֶּ֫צדֶק‬justiça

17. ‫ ֶּ֫שבַּע‬/ ‫שבָע‬


ָ ‫ש ְבעָה‬
ִ / ‫ש ְבעָה‬
ָ dança

O duplo ‫ענ ָה‬


ֵּ ‫ש‬
ְ ַּ‫ּומ‬ ‫שעֵּן‬
ְ ‫ ַּמ‬é usado como uma hendíade para ‘todo tipo de sustento’ (Is 3.1).

6.5 Gênero de Animados


6.5.1 Díades Naturais

a Algumas díades naturais do tipo macho-fêmea são designadas por palavras não
relacionadas, nenhuma das quais é marcada por gênero.

p 107 1. ‫אִיש‬homem ‫אִישָה‬mulher

2. ‫ָאב‬pai ‫אֵּם‬mãe

3. ‫תֶַּּ֫ י ִש‬bode ‫עֵּז‬cabra

4. ‫חֲמֹור‬asno ‫ָאתֹון‬mula

5. ‫א ֲִרי‬, ‫ַארי ֵּה‬


ְ leão ‫ ָלבִיא‬leoa

Os nomes em outras díades são designados por pares Ø-marcados: –at.

6. ‫ ַּאּי ָל‬cervo ‫ ַּא ֶֶּּ֫ילֶת‬, ‫ַאיָלָה‬cerva

7. ‫ ֵֶּּ֫עגֶל‬bezerro ‫ ֶעגְלָה‬novilha

8. ‫ ֶֶּ֫עלֶם‬rapaz ‫ ַּע ְלמָה‬moça

9. ‫ּפָר‬touro, boi ‫ּפ ָָרה‬vaca

6.5.2 Nomes Epicenos

a Nomes usados para um referente macho ou fêmea animado ou para um grupo


misturado são chamados epicenos. Por exemplo, na frase ‫‘ ד ֹב שַּכּול‬uma ursa roubada de
seus filhos’ (Os 13.8), ainda que o substantivo e o adjetivo sejam masculinos na forma, uma
ursa está em vista (cf. também Is 49.15). Os nomes epicenos em português incluem ‘ovelha’
(em contraste com ‘ovelha / carneiro’), ‘secretária’ (em contraste com ‘secretário /
secretária’), ‘cão’ (em contraste com ‘cadela, cão fêmea’ / cão macho’). Em hebraico um
epiceno pode ser de ambos os gêneros; um epiceno feminino singular pode formar um
epiceno masculino plural.

masculino

1. ‫ ֶֶּ֫אלֶף‬gado (col.)

2. ‫ד ֹב‬urso

3. ‫זְאֵּב‬lobo

4. ‫ ֶֶּ֫כלֶב‬cão

feminino

5. ‫ַאר ֶֶּ֫נבֶת‬
ְ lebre

6. ‫ ֲחסִידָ ה‬cegonha

7. ‫יֹונָה‬pomba

8. ‫נִ ְמלָה‬formiga

De acordo com o sentido, às vezes nomes epicenos gramaticalmente masculinos são


modificados com formas femininas, por exemplo, ‫ְג ַּמלִים מֵּינִיקֹות‬ ‘camelas de leite’ (Gn
32.15), em contraste com ‫אים‬
ִ ‫ָב‬ ‫‘ ְג ַּמלִים‬camelos que vinham’ (Gn 24.63). Semelhantemente,
‫‘ ְוהַּצ ֹאן ְו ַּה ָבקָר עָלֹות‬o gado miúdo [i.e., ovelhas e cabras] e vacas de leite’ (Gn 33.13; cf. 1Rs
5.3 para ‫בקָר‬ ָ , Gn 30.39 para ‫)צ ֹאן‬. O nome epiceno mais notável é ‫ – אֱֹלהִים‬o hebraico
(como outros dialetos cananeus) não possui palavra alguma distinta para ‘deusa’.

p 108 9. ‫ ַּו ֵֶּּּ֫ילְֶך שְֹלמ ֹה אַּ ָֽח ֲֵּרי ַּעש ְֶּ֫ת ֹ ֶרת‬Salomão seguiu a Astarote,

‫אֱֹלהֵּי צִד ֹ ִנ֑ים‬deusa dos sidônios.


1Rs 11.5

6.5.3 Prioridade do Masculino

a Os gramáticos falam do gênero masculino como “o gênero anterior” porque sua forma
refere-se a seres femininos.

1. ‫זָכָר ּונְ ֵּקבָה ב ָָרא א ֹתָ ם׃‬Macho e fêmea os criou


(masc.).

Gn 1.27

2. ‫ ַּויְנַּשֵּק ְל ָבנָיו ְו ִלבְנֹותָ יו ַּוי ְ ֶָּ֫ב ֶרְך‬Ele beijou seus filhos e suas
‫ ֶאתְ ֶ ֑הם‬filhas e os abençoou (masc.).
Gn 31.54

3. ‫ ְואִיש אֹו ִאשָה כִי־ ִי ָֽ ְהי ֶה בֹו ֶּ֑֫ ָנגַּע‬Quando


o homem (ou a
mulher) tiver praga sobre ele …

Lv 13.29

4. ‫ֹלא־ת ֲעשֶה כָל־ ְמלָאכָה ַּאתָ ה‬ ָֽ ַּ Tu (masc.) não farás nenhum


‫ּו ִבנְָך ּובִתֶֶּ֫ ָך‬trabalho, nem tu, nem o teu
filho, nem a tua filha.

Êx 20.10

Esta prioridade do gênero masculino é devida em parte ao caráter profundamente


androcêntrico do mundo da Bíblia Hebraica. Como Clarence Vos mostra, este ambiente deve
ser chamado um “mundo de homem”. A prioridade do gênero masculino nestes exemplos é
devida não apenas à precedência do não-marcado (masculino) sobre o marcado (feminino); é,
também, devida em parte à religião de Israel, que, embora permita ou reconheça nābîʾe
nəbîʾâ, há lugar somente para um sacerdote, e não uma sacerdotisa, em contraste com as
outras religiões da região.

b As formas gramaticais para Deus são masculinas e as representações de Deus são


principalmente masculinas. Ainda que Deus use uma comparação a uma mulher parturiente (Is
42.13), no entanto há um forte consenso entre os eruditos de que Deus é considerado como
assexual. “Se sexo deve ser aplicado à divindade de Israel, ela seria monossexual, e isto é uma
incompletude ou uma contradição de termos”. Este consenso encontra apoio explícito em
Deuteronômio 4.15–16:

Vós não vistes aparência alguma no dia em que o YHWH vos falou em Horebe…
para que não… façais para vós alguma imagem esculpida na forma de ídolo,
semelhança de homem ou de mulher.

p 109 Um fato que provê apoio inferencial é o uso de ambos os sexos de uma vítima sacrificial
como oferta a Deus. No antigo Oriente Próximo era costume sacrificar animais machos a
deuses (machos) e fêmeas a deusas. No culto de Israel tanto machos como fêmeas de uma
espécie eram sacrificados a Deus (cf. Lv 3.1; 4.23,28). Ninguém pode mudar ou remover as
representações masculinas figuradas de Deus sem distorcer o texto da Bíblia.

6.6 Concordância

a O gênero gramatical envolve três sistemas distintos: morfologia, significado com


referência a uma realidade extralingüística e sintaxe. Em hebraico, a morfologia básica opõe o
masculino Ø-marcado ao feminino em –at, embora existam muitos nomes Ø-marcados com
referência fêmea. Em termos semânticos, o sufixo –at essencialmente marca palavras
derivadas, palavras com modificação especial das alternativas não-marcadas, embora o sufixo,
também, sirva como a designação da fêmea natural de animados. A função principal da marca
de gênero é manter juntas as partes do enunciado por concordância na mesma oração ou
discurso.

b Às vezes a forma gramatical de um nome difere de seu significado semântico, por


exemplo, um nome coletivo como ‫‘ מֹו ֶֶּ֫לדֶ ת‬descendentes’ (fem.) ou um nome abstrato como
‫‘ ק ֹ ֶֶּ֫הלֶת‬pregador’ (fem.) pode ter um referente masculino. Quando surgem tais conflitos numa
língua, a concordância pode seguir o gênero gramatical (como acontece, p. ex., em italiano ou
em francês), ou ela pode seguir a orientação semântica do nome; o hebraico prefere esse
último curso, às vezes chamado de constructio ad sensum (“construção de acordo com o
sentido”). Assim nós encontramos ‫‘ ָהי ָה ק ֹ ֶֶּ֫הלֶת ח ָָכ֑ם‬O pregador foi sábio’ (Qohelet 12.9).
Além disso, um nome feminino coletivo singular pode ser construído com um verbo plural
porque o referente do nome está no plural; no segundo exemplo ‘terra’ é usada para
‘habitantes’ por metonímia.

1. ‫שא ִֵּרית ְּפ ִלשְתִ ים‬


ְ ‫וְאָ ָֽבְדּו‬E o resto dos filisteus perecerá.
Am 1.8

2. ‫ ְוכָל־ ָה ֶָּ֫א ֶרץ ֶָּ֫באּו ִמצ ְֶַּּ֫ריְמָה‬Etodas as terras vinham ao


Egito.

Gn 41.57

3. ָ‫ּומֹו ַּל ְדתְ ָך ֲאשֶר־הֹו ֶַּּ֫לדְ ת‬Mas a tua descendência, que


֑‫ַאח ֲֵּריהֶם לְָך יִהְיּו‬gerarás depois deles, será tua.
Gn 48.6

c A concordância em gênero pode, também, caducar quando (como freqüentemente é o


caso) o verbo precede o sujeito; o sujeito pode ser feminino singular ou plural e o verbo pode
ser masculino singular.

p 110 4. ‫נֶעְתַּ ם ֶּ֫ ָ ֑א ֶרץ‬A terra está abrasada.


Is 9.19

5. ‫תַּ חְתֶֶּ֫ יָך יֻצַּע ִרמָה‬Por baixo de ti, uma cama de


gusanos (fem. coletivo).

Is 14.11

6. ‫ ַּויַּעֲב ֹר ה ִָרנָה ַּב ַּמ ֲחנֶה‬Fez-se ouvir um pregão pelo


exército.

1Rs 22.36

7. ‫ ְוחָש ֲע ִתד ֹת ֶָּ֫למֹו׃‬E o seu destino (lit., coisas


preparadas) se apressa em
chegar.

Dt 32.35

8. ‫י ִתְ נַּגְפּו ַּרגְלֵּיכֶם‬Vossos pés tropeçam.


Jr 13.16

O verbo precedente pode, também, ser um masculino plural, como em # 9; desde que haja
casos de um verbo masculino plural seguindo um nome feminino plural, como em # 10, tem
sido sugerido que ambos os tipos de discórdia refletem um evitar verbos femininos plurais.

9. ‫אִם־יֵּצְאּו בְנֹות־שִילֹו‬Saindo as filhas de Silo …


Jz 21.21

10. ‫ ְוע ֵָּריכֶם יִהְיּו ח ְָרבָה׃‬As vossas cidades serão


desertas.

Lv 26.33

Exemplos como # 10 são muito menos comuns do que casos de discordância gramatical nos
quais o verbo precede o sujeito.

d Finalmente podemos mencionar casos nos quais não há qualquer antecedente


verdadeiro para um pronome – e por falar nisso, qual é o gênero de uma situação ou uma
ação? Tal pronome falso ou impessoal é normalmente feminino (cf. 4.4.2).

11. ‫שיתָ ז ֹאת‬


ִ ֶּ֫ ‫כִי ָע‬Visto que fizeste isso.…
Gn 3.14; cf. 3.13, 2.23

12. ‫ּובָּה ֵּאדַּ ע‬Por meio disto conhecerei.


Gn 24.14

Para outros exemplos, veja Êx 10.11, Números 14.41 e Isaías 43.13; cf. 1 Crônicas 21.10. Tal
tipo vago de pronome pode ser masculino, como na frase trivial ‫כז ֶה‬
ָ ‫ְו‬ ‫‘ כָז ֹה‬assim e assim’ (1Rs
14.5 e outras) e no seguinte exemplo.

13. ‫ ְוז ֶה־לְָך הָאֹות‬E isto será o sinal para ti.


Êx 3.12
p 111 7
Número
7.1 Introdução

7.2 Singular

2.1 Contáveis e Coletivos

2.2 Classes Nominais

2.3 Repetição

7.3 Dual

7.4 Plural

4.1 Contáveis, Coletivos e Extensões

4.2 Abstratos e Semelhantes

4.3 Honoríficos e Semelhantes

Introdução

Os padrões de uso de número parecem refletir o mundo real tão de perto que
discrepâncias entre várias línguas podem parecer desconcertantes. Em português nos
referimos a um agregado de criaturas voadoras com um plural, ‘pássaros’, mas o hebraico usa
o singular ‫ ;עֹוף‬em contrapartida, o português usa um singular para referirse à ‘face’ humana,
mas o hebraico usa um plural, ‫ ָּפנִים‬. Tais discrepâncias existem porque nenhuma faceta da
língua espelha o mundo diretamente. Número é uma categoria gramatical, como gênero, e
assim, é parte de um sistema maior de uma determinada estrutura gramatical e lexical. Além
disso, o uso de número revela até mesmo mais claramente o fato de que uma língua faz parte
de uma cultura e é, por isso mesmo, moldada por aquela cultura. Vamos considerar este
segundo ponto mais detidamente, tendo em vista que ele é crucial no processo de
compreensão de uma língua.

As culturas expressam percepções coletivas da realidade diferentemente e, portanto,


representam o mundo de diversos modos. O hebraico, por exemplo, representa as partes do
corpo diferentemente rotuladas em português como ‘mão’ ou ‘braço’ por ‫י ָד‬, um termo que
denota aquela extensão que vai do ângulo do cotovelo até às pontas dos dedos;
adicionalmente, ele subdivide essa porção e refere-se à subdivisão inferior como ‫כָף‬, a porção
que vai do pulso às pontas dos dedos. O português não tem uma palavra que corresponda
precisamente à palavra hebraica ‫ ;י ָד‬e o hebraico não tem palavra correspondente à palavra
portuguesa ‘antebraço’. As palavras numa língua raramente coincidem precisamente em
objetivo e em conteúdo com as palavras “correspondentes” em outra língua. A herança
cultural dos falantes os faz perceber a realidade de um modo um pouco diferente daquele de
falantes em outras culturas. O estudo lingüístico não pode ser p 112 divorciado da
antropologia e da sociologia. É um fato cultural e lingüístico que o falante de português,
concebendo ‘face’ como um nome contável, manifesta esta percepção por meio de um
singular, enquanto que o falante do hebraico clássico provavelmente o percebia como uma
massa e o representava por um plural.

c As línguas, também, podem diferir em seu uso do número gramatical por causa das
diferentes percepções do que é contado como “um objeto” e do que é contado como “mais de
um objeto” (i.e., um contável), o que é contado como um coerente “grupo de objetos” (i.e.,
um coletivo), ou como uma indistinguível “massa de material” (i.e., uma massa, p. ex.,
‘manteiga’); essas percepções auxiliam na moldagem da estrutura lexical de uma língua. Por
exemplo, o inglês trata ‘grape’ (uva) como um contável (Will you have some grapes? [Será que
vai ter algumas uvas?]), mas ‘fruit’ (fruta) como um coletivo (Will you have some fruit? [Será
que vai ter um pouco de fruta?]); o russo trata essas palavras de um modo exatamente
inverso. Assim, também, o português trata ‘pássaros’ como contável, mas o hebraico referese
a eles como um coletivo.

d Além disso, o número gramatical de um nome é determinado pela estrutura lexical da


língua, e assim ele não representa diretamente o pensamento ou a experiência do falante. Por
exemplo, a estrutura lexical do português exige que ‘férias’ sejam representadas como um
plural (‘As férias dele foram tranqüilas’), mas ‘trigo’ como um singular (‘O trigo está no
celeiro’). Não podemos pressupor que os falantes de português pensem em ‘férias’ como
plural e em ‘trigo’ como singular; isto é simplesmente falso. Uma velha piada exibe esta falta
de correspondência:

Professor: “Calças” é singular ou plural?

João: Por favor, senhor, singular em cima e plural embaixo.

‘Calças’ é de fato um nome plural invariável, como outras peças de vestuário em inglês (pants,
pajamas), bem como nomes de ferramentas em inglês (pliers, scissors, glasses), em português
(óculos). O hebraico, também, possui substantivos plurais invariáveis.

e A diferença culturalmente determinada mais notável entre o uso do número em


hebraico e em inglês envolve os honoríficos. Muitas línguas européias (p. ex., francês, italiano,
russo, alemão) sistematicamente usam formas plurais com referentes singulares, para
expressar honra ao referente. Por exemplo, na segunda pessoa do singular, o alemão usa tanto
Sie, plural gramatical para expressar respeito, e du, singular gramatical para indicar intimidade.
O inglês, por não possuir esse paradigma lingüístico e cultural, usa o singular.

f O número gramatical assim não representa direta e necessariamente um “pensamento”.


Ele é mais um sistema lingüístico específico – e cultural. Não devemos ficar surpresos se o
número gramatical em hebraico nem sempre pode ser representado diretamente em
português. Uma vez que o número possa ser usado de modos muito p 113 diferentes dentro
de uma língua, e desde que ele seja determinado em parte pelo significado da palavra, nossa
discussão tocará em muitas facetas da sintaxe e do léxico.

g O hebraico, como outras línguas semíticas, usa três números: singular, dual e plural. Nas
seções seguintes analisaremos e mostraremos os usos destes números.

7.2 Singular

a O hebraico usa o singular gramatical para os contáveis, para os coletivos e para a classe
de nomes em geral. Nomes singulares podem ser repetidos em várias construções.

7.2.1 Contáveis e Coletivos

a Com os contáveis o singular serve para enumerar um objeto. Com entidades que o
hebraico conta como “um objeto” ou “mais de um objeto”, o singular normalmente enumera o
referente como um indivíduo. Substantivos contáveis são os mais comuns.

1. ‫שתִי‬
ְ ‫ ָהבָה אֶת־ ִא‬Dê-(me) minha mulher.
Gn 29.21

2. ‫ ְו ָה ֶָּ֫א ֶרץ הָ ָֽי ְתָ ה ֶּ֫ת ֹהּו ו ֶָּ֫ב ֹהּו‬E a terra era sem forma e vazia.
Gn 1.2

3. ‫ ַּוּי ִ ְמ ָצ ֵֶּּ֫אהּו אִיש‬Um homem o encontrou.


Gn 37.15

b Com os coletivos o singular designa um grupo. Algumas palavras em hebraico, como


‘folhagem’, ‘gado’ e ‘laranjal’ em português, são tratadas como coletivos e representadas pelo
singular. Como observado acima, o português e o hebraico diferem em sua distribuição de
contáveis e coletivos. Os coletivos ocorrem em ambos os gêneros gramaticais. Um coletivo
singular sempre concordará em número com as outras palavras na oração sintaticamente
relacionadas a ela (Cf. português ‘Um cardume de baleias se aproxima da praia’ e ‘O povo
sempre espera dias melhores’); assim, um substantivo coletivo singular sempre regerá um
verbo singular. Nós distinguimos entre palavras em hebraico que são convencionalmente
coletivas (i.e., palavras que quase sempre são representadas no singular) e aquelas que são
não convencionalmente coletivas (i.e., palavras que são freqüentemente representadas pelo
plural, mas por razões contextuais podem ser representadas por um coletivo).
c Os coletivos convencionais são freqüentemente naturais, observe os três coletivos neste
exemplo.

4. ‫ ַּתָֽדְ שֵּא ָה ֶָּ֫א ֶרץ דֶֶּ֫ שֶא ֵֶּּ֫עשֶב ַּמז ְִֶּ֫רי ַּע‬Produza a terra relva, ervas que
‫ ֶֶּ֫ז ַּרע‬dêem semente.
Gn 1.11

Outro coletivo vegetal é ‫‘ ּפ ְִרי‬fruto’. Coletivos animais incluem ‫‘ עֹוף‬pássaros, a espécie alada’,
‫ֶֶּ֫רמֶש‬ ‘rastejador-rasteiro, a espécie de corredores-a-pequenos-passos’, ‫ש ֶרץ‬
ֶ ֶּ֫ ‘enxame,
espécie p 114 ziguezagueante’,‫‘ ְב ֵּהמָה‬gado’, ‫‘ ִרמָה‬vermes’. Um coletivo humano é ‫טַּף‬
‘crianças’. Coletivos inanimados incluem ‫‘ ֶֶּ֫רכֶב‬carruagem’, ‫מעָה‬ְ ִ‫‘ ד‬lágrimas’, ‫‘ צִיצִת‬borlas,
franjas’.

d Os coletivos não-convencionais são freqüentemente humanos, por exemplo, ‫ נֶפֶש‬em


Gênesis 12.5.

5. ‫ַּל־איש וְַאל־‬
֑ ִ ‫שּפ‬
ְ ִ ‫שח ָאדָ ם ַּוּי‬
ַּ ִ ‫ ַּוּי‬Com isso, o gênero humano se
‫תִ שָא ָלהֶם‬abate, e os homens se aviltam;
portanto, não lhes perdoarás.

Is 2.9

6. ‫מַּה־נַּ ֲעשֶה לַּנֹותָ ִרים ְלנ ִ ָ֑שים כִי־‬Como obteremos mulheres para
ְ ִ‫נ‬os restantes ainda, pois foram
‫ש ְמדָ ה ִמ ִבנְיָמִן ִאשָה׃‬
exterminadas as mulheres dos
benjamitas?

Jz 21.16

7. ‫ ַּט ְּפכֶם נְשֵּיכֶם ְוג ְֵּרָך‬os


vossos meninos, as vossas
mulheres e o estrangeiro

Dt 29.11

8. ‫וַּ ָֽיְהִי־לִי שֹור ַּוחֲמֹור צ ֹאן ְו ֶֶּ֫עבֶד‬Tenho bois, jumentos,

ִ ‫ ְו‬rebanhos, servos e servas.


‫שפ ָ ְ֑חה‬
Gn 32.5
Casos não-humanos incluem ‫( ֶֶּ֫אבֶן‬em Jó 28.3) e ‫( עֵּץ‬em Gn 3.8).

7.2.2 Classes Nominais

a Como o português, o hebraico pode usar o artigo com um substantivo singular para
indicar uma classe particular ou grupo; cf. ‘O leão é o rei dos animais’. Tal substantivo singular
tem um vasto referente, cada membro do grupo. O hebraico pode usar o singular com este
significado mesmo sem o artigo, especialmente em poesia. Este uso do singular é encontrado
em enumerações, após ‫ כ ֹל‬e outros termos de quantidade, com nomes gentílicos e varias
expressões.

b Em enumerações os substantivos singulares seguem o numeral.

1. ‫שנַּי ִם ֶֶּ֫מלְֶך‬
ְ ‫ּושְלשִים ּו‬32 reis
1Rs 20.1

2. ‫ ֶֶּ֫אלֶף ֶֶּ֫גפֶן‬1.000 vinhas


Is 7.23

3. ‫שת ֲא ָלפִים ָמ ָ ֑של‬


ֶ ‫ש ְֶּ֫ל‬3.000 provérbios
1Rs 5.12

4. ‫שתֵּ ים ֶעש ְֵּרה ַּמ ֵּצבָה‬


ְ ‫ּו‬12 colunas
Êx 24.4

5. ‫ַארבַּע מֵּאֹות נַּע ֲָרה בְתּו ָָ֔לה‬


ְ 400 moças
Jz 21.12

6. ‫שמֹנֶה מֵּאֹות ָחלָל‬


ְ 800 feridos
2Sm 23.8
p 115 O substantivo de grupo também é freqüente com ‫כ ֹל‬, “tudo, todo”.
7. ‫ְכּורָך‬
ְ ‫כָל־ז‬Todo homem
Êx 34.23

8. ‫ ַּאתֶ ם נִ ָצבִים הַּּיֹום ֻכ ְלכֶם ִל ְפנֵּי‬Vós estais, hoje, todos perante


‫ֵּיכֶ֣ם‬
ֶ ‫ֵּיכ֑ם ָראש‬ ֶ ‫יהוה אֱֹלה‬YHWH vosso Deus: os cabeças de
vossas tribos, vossos anciãos e
‫ז ִ ְקנֵּיכֶם וְשֹט ְֵּריכֶם כ ֹל‬ ִ os vossos oficiais, todos os
‫ש ְבטֵּיכֶם‬
(outros) homens de Israel.
‫אִיש יִש ְָראֵּל‬
Dt 29.10

9. ‫ ַּויְצַּו ּפ ְַּרע ֹה ְלכָל־עַּמֹו לֵּאמ ֑ ֹר‬Então, ordenou Faraó a todo o


‫כָל־ ַּהבֵּן ַּהּי ִלֹוד ַּהי ְֶּ֫א ֹ ָרה‬seu povo, dizendo: A todos os
filhos que nascerem aos
‫שלִי ֶֻּ֫כהּו ְוכָל־ ַּהבַּת ְתחַּּיּון׃‬ ְ ַּ‫ת‬hebreus lançareis no Nilo, mas
a todas as filhas deixareis viver.

Êx 1.22

Outros termos de quantidade podem reger um singular.

10. ‫ר ֹב יֹועֵּץ‬Uma multidão de conselheiros


Pv 11.14

Os substantivos gentílicos (5.7c) são convencionalmente representados no singular (veja nove


exemplos em Gn 15.19–21).

11. ‫שבֶט‬
ֵּ ֶּ֫ ‫ ְולָראּו ֵּבנִי ְו ַּלגָדִ י ְו ַּל ֲחצִי‬Falou Josué aos rubenitas, e aos
‫ש ַּע‬ֶ ‫ ַּה ְמנ ֶ ַּ֑שה ָא ַּמר י ְהֹו‬gaditas, e à meia tribo de
Manassés, dizendo:

Js 1.12

O substantivo singular de classe é encontrado, também, numa variedade de outras expressões.


12. ‫רֹעֵּה צ ֹאן ֲעבָדֶֶּ֫ יָך‬Teus servos são pastores.
Gn 47.3

13. ‫ ָכשַּל כ ֹ ַּח ַּה ַּסבָל ְו ֶה ָעפָר ה ְַּר ֵּ ֑בה‬Oscarregadores já estão


cansados, e ainda há muito
entulho.

Ne 4.4

14. ‫כִי־גָ ַּמר ח ִ ָ֑סיד‬Porque já não há homens


piedosos.

Sl 12.2

Estas orações são análogas às afirmações genéricas em português.

7.2.3 Repetição

a Substantivos singulares podem ser repetidos dentro de uma curta extensão para uma
variedade de propósitos: para expressar distribuição, diversidade ou ênfase. A referência geral
a tais tipos de expressões é plural, embora o português não use o plural para frases
comparativas.

b Um singular pode ser repetido para um sentido distributivo, seja assindeticamente (## 1–
2) ou sindeticamente com ‫( ו‬## 3–5) ou com uma preposição (## 6–8); nesses tipos de p 116
frases os membros componentes do agregado são escolhidos. Tais construções podem ser
representadas em português com ‘cada’ ou ‘todo’. Com palavras temporais uma repetição
distributiva escolhe os membros diacronicamente (cf. 15.6).

1. ‫שנָה׃‬
ָ ‫שנָה‬
ָ ano após ano
Dt 14.22

2. ‫ ַּויְהִי כְדַּ ב ְָרּה אֶל־יֹוסֵּף יֹום י֑ ֹום‬Ela falou a José dia após dia
(ou, todos os dias).

Gn 39.10
3. ‫דֹור־וָדֹור‬todas as gerações
Dt 32.7

4. ‫ ַּלעֲשֹות כ ְִרצֹון אִיש־ ָואִיש׃‬de acordo com o desejo de


cada homem.

Et 1.8

5. ‫יֹום וָיֹום‬dia após dia


Et 3.4

6. ‫שנָה‬
ָ ‫שנָה ְב‬
ָ ano após ano
Dt 15.20

7. ‫ב ֶַּּ֫ב ֹקֶר ב ֶַּּ֫ב ֹקֶר‬Cada


manhã (manhã após
manhã)

Ex 16.21

8. ‫ ְול ֶַּּ֫ב ֹקֶר ל ֶַּּ֫ב ֹקֶר‬Todas as manhãs


1Cr 9.27

c Um substantivo singular pode ser repetido sindeticamente para formar uma oração
indicando diversidade.

9. ‫ֹלא־י ִ ְהי ֶה לְָך ְככִיסְָך ֶֶּ֫אבֶן ו ֶּ֫ ָ ָ֑אבֶן‬Na tua bolsa, não terás pesos
‫גְדֹולָה ּו ְק ַּטנָה׃‬diversos, um grande e um
pequeno

Dt 25.13

10. ‫ ְבלֵּב ָולֵּב י ְדַּ ֵֶּּ֫ברּו׃‬Eles


falam com um coração
dúplice (i.e., com engano).
Sl 12.3

11. ‫ ְו ַּלעֲד ֹר בְֹלא־לֵּב ָולֵּב׃‬Ajudar sem coração dobre.


1Cr 12.34

Expressões semelhantes podem ser usadas para ênfase (cf. 7.4.1).

12. ‫זָהָב זָהָב … ֶֶּ֫כסֶף ֶּ֫ ָ ֑כסֶף‬ouro puro… prata pura.


2Rs 25.15

13. ‫בַּדֶֶּ֫ ֶרְך ַּב ֶֶּ֫ד ֶרְך א ֵֵּּלְ֑ך‬Permanecerei


constantemente
na estrada principal.

Dt 2.27

A expressão de uso corrente ‫מעָט‬


ְ ‫‘ ְמעַּט‬pouco a pouco’ é similar (veja Êx 23.30, Dt 7.22).

p 117 7.3 Dual

a O hebraico, como outras línguas (p. ex., grego clássico, sânscrito e certas línguas eslavas),
possui o dual morfológico, usado principalmente para fazer referência a dois objetos
emparelhados. Nem todas as formas duais têm uma referência dual; algumas servem como
formas plurais. O equivalente português mais próximo ao dual hebraico é provido por
expressões como ‘um par de’ (p. ex., ‘um par de meias’) ou ‘ambos’ (p. ex., ‘ambas as mãos’).
Da mesma forma que estes equivalentes em língua portuguesa, o dual hebraico é usado para
referir-se a certos objetos que ocorrem em pares (p. ex., ‘um par de tacos’, ‘um par de
brincos’) e mesmo para referir-se a objetos que são de fato singulares (p. ex., ‘um par de calças
compridas’, ‘um par de óculos’, etc.). O hebraico, também, usa o dual para referir-se a
fenômenos distintos daqueles comparativamente marcados em outras línguas. Os usos do dual
podem ser analisados de acordo com os referentes dos termos: pares naturais e conjunto de
expressões de tempo e medida. Poucas palavras morfologicamente duais deixam de exibir
traços semânticos ou sintáticos do dual.

b Pares naturais no dual geralmente envolvem partes em pares do corpo humano ou


animal, ainda que nem todas elas ocorram no dual.

1. ‫ָאז ְ ֶַּּ֫ני ִם‬2 ouvidos


2. ‫י ָדֶַּּ֫ י ִם‬2 mãos

3. ‫ ְכנָ ֶַּּ֫פי ִם‬2 asas

4. ‫ ַּכ ֶַּּּ֫פי ִם‬2 palmas

5. ‫ ְל ָח ֶַּּ֫יי ִם‬2 bochechas

6. ‫ ָמתְ ֶַּּ֫ני ִם‬lombos

7. ‫עֵּי ֶַּּ֫ני ִם‬2 olhos

8. ‫ק ְָר ֶַּּ֫ני ִם‬, ‫ק ְַּר ֶַּּ֫ני ִם‬2 chifres

9. ‫ ַּרגְ ֶַּּ֫לי ִם‬2 pés

10. ‫שפָתֶַּּ֫ י ִם‬


ְ 2 lábios

Outros objetos que ocorrem em pares, associados com partes emparelhadas do corpo, podem
ser referidos com o dual, por exemplo, ‫ע ֶַּּ֫לי ִם‬
ֲ ַּ‫(‘ נ‬um par de) sandálias’. O plural de uma palavra
que forma um par natural dual é, muitas vezes, o dual morfológico.

11. ‫ ְוכָל־ב ְִר ֶַּּ֫כי ִם‬Todo joelho


Ez 7.17, 21.12

12. ‫כָל־י ָדֶַּּ֫ י ִם‬Toda mão


Is 13.7, Ez 21.12

13. ‫שֵּש ְכנָ ֶַּּ֫פי ִם‬Seis asas


Is 6.2

14. ‫ש ְבעָה ע ֶּ֑֫ ֵַּּני ִם‬


ִ Seteolhos (viz. Facetas
esculpidas)

Zc 3.9

Como o último exemplo mostra, o sentido metafórico de um par natural pode ser pluralizado
com o dual. Com freqüência, porém, tal uso metafórico mostrará um plural morfológico
regular.

p 118 15. ‫י ָדֶַּּ֫ י ִם‬2 mãos ‫י ָדֹות‬manivelas

16. ‫ ַּכ ֶַּּּ֫פי ִם‬2 palmas ‫כַּּפֹות‬solas; panelas

17. ‫עֵּי ֶַּּ֫ני ִם‬2 olhos ‫ ֲעי ָנ ֹת‬fontes

18. ‫ק ְַּר ֶַּּ֫ני ִם‬2 chifres ‫ק ְָרנֹות‬chifres


(de um animal) (de um altar)

19. ‫ ַּרגְ ֶַּּ֫לי ִם‬2 pés ‫ ְרגָלִים‬tempos

c A forma dual de certas unidades de medida e de tempo contáveis ocorre; os substantivos


relevantes apresentam na maioria dos casos um paradigma singular-dual-plural completo.

20. ‫ַּאמָה‬ ‫ ַּא ָמתֶַּּ֫ י ִם‬2 côvados ‫ַּאמֹות‬


21. ‫יֹום‬ ‫ּיֹו ֶַּּ֫מי ִם‬2 dias ‫יָמִים‬

22. ‫מֵָּאה‬ ‫מָאתַּ י ִם‬200 ‫מֵּאֹות‬

23. ‫ַּּפעַּם‬ ‫ ַּּפ ֲע ֶַּּ֫מי ִם‬duas vezes ‫ְּפ ָעמִים‬

24. ‫שנָה‬
ָ ‫שנָתֶַּּ֫ י ִם‬
ְ 2 anos ‫שנִים‬
ָ

d Por razões históricas complexas, poucos substantivos possuem morfologia dual, mas não
se comportam de modo algum como duais. Os dois mais comuns são plurais: ‫‘ ֶַּּ֫מי ִם‬água’ e
‫ש ֶַּּ֫מי ִם‬
ָ ‘céus’; ambas as palavras têm raízes finais fracas (‫מי‬, ‫)שמי‬, e suas formas plurais
coincidem com o dual usual. A alguns outros termos têm sido atribuídas etimologias ‘duais’
fantasiosas: ‫שתֶַּּ֫ י ִם‬ ְ ‫(‘ נְ ֻח‬duplos?) grilhões de bronze’, ‫‘ ָצה ֳֶַּּ֫רי ִם‬meio-dia (hora da dupla
sombra?)’, ‫‘ ע ְַּר ֶַּּ֫בי ִם‬noite (tempo entre o dia e a noite?) e ‫מצ ְֶַּּ֫רי ִם‬
ִ ‘Egito (composto de alto e
baixo Egito)’. Um punhado de topônimos possui formas duais de significação nada óbvia:
‫ֶאפ ְֶַּּ֫ריִם‬ ‫ק ְִרי ָתֶַּּ֫ יִם‬
‘Efraim’, ‘Quiriataim’ e a Qere de ‘Jerusalém’, ‫י ְרּושָ ֶַּּ֫ליִם‬ (a Kethiv é
aparentemente ‫שלֵּם‬ָ ‫)י ְרּו‬.

7.4 Plural

a Considerando que o inglês em grande parte restringe seu uso do plural para enumerar os
contáveis, o plural hebraico é usado com muitos significados diferentes. Ele possui uma
variedade de usos básicos, principalmente com substantivos contáveis e coletivos, e um
conjunto especial de sentidos com substantivos abstratos. Os plurais honoríficos são
importantes por razões teológicas e literárias.

b Alguns pontos de morfologia são dignos de nota. A terminação plural padrão -îm tem
dominado muitas das ocorrências do mem enclítico (veja 9.8); assim, alguns casos nos quais
uma forma plural parece difícil podem, na verdade, estar errados. A terminação plural
hebraica -îm (também encontrada no fenício) raramente é substituída por -în (padrão no
aramaico e no moabita). Isto ocorre em muitas passagens poéticas, como também nos livros
posteriores, por exemplo, ‫אח ִֵּרין‬
ֲ ‘outro’ (Jó 31.10), ‫‘ ִאּי ִן‬ilhas’ (Ez 26.18), ‫‘ ִחטִין‬trigo’ (Ez 4.9),
‫‘ ַּחּיִין‬vida’ (Jó 24.22), ‫‘ יָמִין‬dias’ (Dn 12.13), ‫‘ מִדִ ין‬vestes’ (Jz 5.10), ‫‘ ִמלִין‬palavras’ (Jó 4.2),
‫‘ ְמ ָלכִין‬reis’ (Pv 31.3), ‫‘ ִעּי ִין‬pedregulho’ (Mq 3.12), ‫‘ צִדֹנִין‬Sidônios’ (1Rs 11.33), ‫ָרצִין‬
‘corredores’ (2Rs 11.13), ‫ממִין‬ ֵּ ‫‘ שֹו‬desolado’ (Lm 1.4). As terminações plurais são quase
sempre externas à forma singular, mas há alguns sinais do uso de mudanças na base para
formar plurais, como nas outras línguas semíticas. Estas incluem: (1) o alongamento-base da
sílaba -ōh- encontrado no plural de substantivos biradicais (sing. ‫‘ אֵּל‬deus’, pl. ‫ ;אֱֹלהִים‬a rara
alternativa singular, ‫אֱֹל ַּּה‬, é provavelmente p 119 uma formação secundária; sing. ‫ָאמָה‬
‘serva’, pl. ‫( ;) ֲאמָה ֹת‬2) talvez uma base variante nos plurais de substantivos segolados (sing.
‫‘ ֶֶּ֫מלְֶך‬rei’, pl. ‫ ;) ְמ ָלכִים‬e (3) as geminações plurais de substantivos de raízes geminadas (‫הַּר‬
‘monte’, pl. regular ‫ה ִָרים‬, ‫ה ֵָּרי‬, geminação pl. ‫ה ֲַּר ֵּרי‬, apenas em poesia; ‫‘ הֵּץ‬seta’, pl. ‫הצִים‬ ִ ,
mas ‫צ ֶֶּ֫ציָך‬ ָ ‫‘ ח ֹק ; ֲח‬decreto’, pl. ‫ ֻח ִקים‬, mas ‫‘ עַּם ; ִח ֲקקֵּי‬povo’, pl. ‫ ַּעמִים‬, ‫ ַּעמֵּי‬, mas também
‫ ֲע ָממִים‬, ‫ ; ַּע ְממֵּי‬dois substantivos raros mostram apenas geminações plurais: ‫‘ צֵּל‬sombra’
produz ‫ללִים‬ ָ ‫ ְצ‬e ‫‘ תְֹך‬dano’ produz ‫)תְ ָככִים‬.

7.4.1 Contáveis, Coletivos e Extensões

a O uso mais comum do plural é para referir-se a mais de um ou dois de um substantivo


contável.

1. ‫כְדָ ְרל ֶָּ֫ע ֹמֶר ְו ַּה ְמ ָלכִים ֲאשֶר ִאתֹו‬Quedorlaomer e os reis que
estavam com ele

Gn 14.5

2. ‫הָיּו ש ֶֶָּ֫רי ָה ְכ ַּאּיָלִים‬seus


príncipes ficaram sendo
como corços

Lm 1.6

3. ‫ ְואֵּת כָל־קִירֹות ַּה ֶַּּ֫בי ִת ֵּמסַּב‬Todas as paredes, tanto no mais


‫ ָקלַּע ּפִתּוחֵּי ִמ ְקלְעֹות כְרּובִים‬interior da casa como no seu
exterior, lavrou, ao redor,
‫ְטּורי צ ִ ִ֑צים‬ֵּ ‫וְתִ מ ֹר ֹת ּופ‬entalhes de querubins,
palmeiras e flores abertas.

1Rs 6.29

Esses plurais podem ser repetidos por ênfase (cf. 7.2.3c).

4. ‫ ַּוּי ִ ְצבְרּו א ֹתָ ם ֳח ָמ ִרם ֳחמ ִָר ֑ם‬Ajuntaram-nas em montões e


montões
Êx 8.10

5. ‫עָשה ַּה ֶַּּ֫נחַּל ַּהז ֶה ֵּגבִים ֵּגבִים׃‬Farei,


deste vale árido (wadi),
cisternas.

2Rs 3.16

6. ‫הֲמֹונִים הֲמֹונִים ְב ֵֶּּ֫עמֶק ֶהחָרּו֑ ץ‬Multidões, multidões no vale da


Decisão!

Jl 3.14

b O plural de um substantivo coletivo singular pode indicar composição, isto é, que a


coletividade foi decomposta (cf. 6.3.2f). Assim, para os seguintes nomes de vegetais o singular
refere-se ao produto em seu estado natural, ao passo que o plural refere-se ao material
ajuntado, medido, cozinhado ou cozido. (Com base na teoria de que vegetais são para comer-
se, etc., isto é às vezes chamado de plural de resultado.)

7. ‫ִחטָה‬ ‫ ִחטִים‬trigo

8. ‫ֻכ ֶֶּ֫ס ֶמת‬ ‫ ֻכ ְסמִים‬espelta

9. ‫ֵֶּּּ֫פשֶת‬ ‫שתִ ים‬


ְ ‫ ִּפ‬linho

10. ‫שְע ָֹרה‬ ‫שְע ִֹרים‬cevada

p 120 11. ‫בִימֵּי ְקצִיר־ ִחטִים‬nos dias da ceifa do trigo


Gn 30.14

Geralmente o sangue humano em seu estado natural é chamado ‫;דָ ם‬ depois que ele foi
derramado, a forma plural é usada.
12. ‫קֹול דְ מֵּי ָא ִֶּ֫חיָך צ ֹ ֲעקִים ֵּאלַּי‬O sangue de teu irmão clama a
mim.

Gn 4.10

O sangue animal é sempre grafado no singular.

c Plurais de extensão indicam que o referente do substantivo é inerentemente amplo ou


complexo; a qualidade plural é o resultado não de uma multiplicidade contável, mas de uma
multiplicidade que, no entanto, é percebida como real. O plural pode ser variável; a palavra
portuguesa ‘água’ designa a maioria das quantidades desde as menores até às maiores, mas
aquelas quantidades verdadeiramente enormes tomam o plural ‘as águas dos Grandes Lagos’
(de Foz do Iguaçu). Muitos plurais de extensão são invariáveis; alguns exemplos da língua
portuguesa referem-se a partes do corpo, literal (‘intestinos’) ou metafórico (‘cérebros,
inteligências, olhares’), enquanto outros se referem a entidades não-animadas complexas
(‘cinzas, conteúdos, sedimentos, degraus’) e alguns abstratos (‘agradecimentos, indenizações,
patrocínios’). Em hebraico algumas partes do corpo são sempre plurais, por exemplo, ‫ָּפנִים‬
‘face’ e ‫ֲחֹורים‬
ִ ‫‘ א‬costas’; ‫ָארים‬
ִ ‫‘ ַּצּו‬pescoço’ é muito mais comum do que o singular. Também
pluralia tantum são duas palavras referindo-se a áreas ao redor de uma pessoa enquanto esta
se reclina, ‫‘ מ ְַּראֲשֹות‬área ao redor da cabeça’ e ‫מ ְרגְלֹות‬
ַּ ‘área ao redor dos pés’.
13. ‫ו ְָר ִֶּ֫איתָ ֶאת־אֲח ָ ֹ֑רי ּו ָפנַּי ֹלא‬Tu me verás pelas costas; mas a
‫י ֵָּראּו׃‬minha face não se verá.
Êx 33.23

d Do mesmo modo como o português contrasta ‘água : águas’, assim também o hebraico
contrasta‫(‘ י ָם‬um) mar’ e ‫‘ יַּמִים‬mar(es), superfície do mar, etc.’; o termo relativo ‫ַּמ ֲע ַּמקִים‬
‘profundezas’ é sempre plural. Uma região que atravessa um limite ou corpo de água é ‫ ֵֶּּ֫עבֶר‬,
enquanto que ‫עב ְֵּרי נָהָר‬
ֶ (Is 7.20) é a ‘região do outro lado do (Grande) Rio’, Trans-Eufrates.
Este paradigma não deve ser procurado em todos os lugares; tanto ‫ מ ְֶרחָק‬como ‫חקִים‬ ַּ ‫מ ְַּר‬
referem-se a ‘distância’.

e Substantivos complexos inanimados são referidos às vezes como formas plurais, por
exemplo, ‫ א ֹ ָהלִים‬significa ‘habitação, acampamento’ (bem como ‘tendas’), como acontece
com ‫כנ ִים‬
ָ‫ש‬ְ ‫ ִמ‬e com ‫שכָנֹות‬ ְ ‫ ; ִמ‬as formas singulares de ambas tendem a ser reservadas para
um sentido religioso especial, a saber, ‫ ֶּ֫א ֹהֶל‬para a Tenda (da Congregação) e ‫שכָן‬ְ ‫ ִמ‬para o
Tabernáculo. Compare também ‫כבִים‬ ָ‫ש‬
ְ ‫ ִמ‬para ‘cama’, ao lado de ‫שכָב‬ ְ ‫‘ ִמ‬cama’ (mas
também ‘o ato de deitar’).
7.4.2 Abstratos e Semelhantes

a Um substantivo abstrato é freqüentemente expresso por um plural, que pode ter


significado originalmente manifestações concretas diversas de uma qualidade ou de um
estado. Estes plurais são construídos freqüentemente com os paradigmas qātūl e qittûl (veja
5.3d, 5.4). O singular de plurais abstratos é raramente atestado. Tais plurais podem referir-se a
qualidades.

p 121 1. ‫אִיש ְמדַּ בֵּר תַּ ְהּפֻכֹות‬homem cuja fala é perversa (lit.,
homem que diz coisas
perversas)

Pv 2.12

2. ‫אִיש ֱאמּונֹות ַּרב־ב ְָר ֑כֹות‬Um homem fiel será ricamente


abençoado.

Pv 28.20

3. ‫כִי ֹלא עַּם־בִינֹות הּוא‬Porque este é um povo sem


entendimento.

Is 27.11

b Outros substantivos abstratos especificando qualidades incluem ‫‘ אֹונִים‬força’ (Is 40.26),


‫‘ ַּבטֻחֹות‬segurança’ (Jó 12.6), ‫‘ ִמ ְב ַּטחִים‬segurança’ (Is 32.18, Jr 2.37; sing. freqüente), ‫הַּּוֹות‬
‘mal, destruição’ (Sl 5.10), ‫‘ חֲמּודֹות‬excelência’ (Dn 9.23), ‫חמַּדִ ים‬ ֲ ‫‘ ַּמ‬desejável’ (Ct 5.16),
‫‘ ח ֲָרפֹות‬vergonha’ (Dn 12.2), ‫‘ דֵּ עֹות‬conhecimento’ (1Sm 2.3, Jó 36.4; sing. ‫ דֵּ עָה‬quatro
vezes), ‫‘ י ְשּוע ֹת‬salvação’ (Is 26.18; Sl 18.51, 28.8, 42.6, 44.5; sing. freqüente), ‫מֵּיש ִָרים‬
‘justiça’ (Is 33.15), ‫ממְר ִֹרים‬
ַּ ‘amargura’ (Jó 9.18), ‫‘ ַּמ ְמתַּ קִים‬doçura’ (Ct 5.16), ‫שעִים‬ ֻ ‫ש ֲע‬
ַּ
‘delícias’ (Pv 8.30).

Substantivos abstratos podem também se referir a estados ou condições.

4. ‫ש ֵּרת משֶה‬
ָ ‫ש ַּע בִן־נּון ְמ‬
ֻ ‫י ְהֹו‬Josué, filho de Num, ajudante
‫ ִמ ְבח ָֻריו‬de Moisés desde a sua
juventude.

Nm 11.28
5. ‫וְהּוא ִאשָה ִבבְתּו ֶֶּ֫לי ָה י ִ ָקח׃‬Ele só poderá casar-se com uma
virgem.

Lv 21.13

6. ‫בֶן־ז ְ ֻקנִים הּוא ֑לֹו‬porque era filho da sua velhice


Gn 37.3

Outros substantivos de estado incluem ‫‘ כְלּוֹלת‬compromisso’ (Jr 2.2), ‫ְעּורים‬


ִ ‫‘ נ‬juventude’ (Is
54.6), ‫‘ ַּסנְו ִֵּרים‬cegueira’ (Gn 19.11), ‫‘ עֲלּומִים‬juventude’ (Sl 89.46), ‫ש ֻכלִים‬
ִ ‘desfiliação’ (Is
49.20).

c Uma série repetida de ações ou um comportamento habitual pode ser designado por um
plural e esse termo pode ter um sentido abstrato: o ‫תַּ נ ְחּומִים‬ ‫( כֹוס‬Jr 16.7) é ‘um cálice’ não
de atos repetidos de conforto, mas ‘um cálice de consolação’, um cálice que dá ‘consolação’ ao
ser bebido.

7. ‫קַּח־לְָך ֵֶּּ֫אשֶת ז ְנּונִים‬toma uma mulher de


prostituições

Os 1.2

8. ‫שנַּת‬
ְ ‫כִי יֹום נָ ָקם לַּיהו֑ ה‬Porque YHWH tem um dia da

‫שִלּומִים ל ְִריב צִּיֹון׃‬vingança, um ano de


retribuições pela causa de Sião.

Is 34.8

Outros substantivos abstratos baseados em ações incluem ‫‘ ָא ֳהבִים‬fornicação’, ‫חֲנּוטִים‬


‘embalsamamento’, ‫כּפ ִֻרים‬
ִ ‘expiação’, ‫‘ ִמ ֻלאִים‬instalação’, ‫‘ ּפִתּוחִים‬gravura’.

p 122 7.4.3 Honoríficos e Semelhantes

a Relacionado aos plurais de extensão e de referência abstrata está um grupo de plurais


intensivos. Neste uso (às vezes chamado de pluralis majestatis) o referente é um singular
individual, que é, todavia, tão completamente caracterizado pelas qualidades do substantivo
que um plural é usado. Dois dos grandes monstros na Bíblia são designados com plurais
intensivos.
1. ‫ש ֶַּּ֫ב ְרתָ ָראשֵּי תַּ נִינִים עַּל־‬
ִ Tu esmagaste sobre as águas a
‫ ַּה ֶָּ֫מי ִם׃‬cabeça dos monstros marinhos.

‫ ַּאתָ ה ִר ַּצצְתָ ָראשֵּי ִל ְוי ָ ָ֑תן‬Tuespedaçaste as cabeças do


Leviatã.

‫תִ תְ ֶֶּ֫ננּו ַּמ ֲאכָל ְלעַּם ְל ִצּי ִים׃‬Tu


o deste por alimento aos
povos, às (?) bestas.

Sl 74.13–14

2. … ‫ ִהנֵּה־נָא ְבהֵּמֹות‬Contempla agora Behemoth…

… ‫ ִהנֵּה־נָא כ ֹחֹו ְב ָמתְ נָיו‬Eis que sua força está nos seus
lombos…

‫ֵּי־אל‬
֑ ֵּ ‫הּוא ֵּראשִית דַּ ְרכ‬Ele é obra-prima dos caminhos
(?) de Deus

Jó 40.15,16,19

Relacionado a esta intensificação está um tipo de generalização pela qual uma espécie inteira
de animais é designada por uma forma plural.

3. ‫ ְועַּל־ ֶַּּ֫עי ִר בֶן־ ֲאת ֹנֹות׃‬sobre um jumento, um


jumentinho, cria de jumenta.

Zc 9.9

4. ‫דֹומֶה דֹודִ י ִל ְצבִי א ֹו ל ְֶּ֫ע ֹפֶר‬O meu amado é semelhante ao


‫ ָה ַּאּי ִָל֑ים‬gamo ou ao filho da gazela.
Ct 2.9
b Estes usos animais são obscurecidos por plurais similares usados em referência ou em
direção a seres humanos ou a Deus, os usos honoríficos. A maioria dos plurais honoríficos na
Bíblia envolve o Deus de Israel e o mais comum destes é ‫אֱֹלהִים‬, usado cerca de 2.500 vezes.
Quando usado para referir-se ao Deus de Israel, este termo usualmente concorda no singular
(‫צָדִ יק‬
‫‘ אֱֹלהִים‬um Deus justo’, Sl 7.10); Quando usado para referir-se a vários deuses, ele
concorda no plural (‫‘ אֱֹלהִים אֲ ח ִֵּרים‬outros deuses’, Êx 20.3; cf. Êx 12.12).

5. ‫וַּּי ֹאמֶר ֵּאלָיו ָהאֱֹלהִים ַּבחֲֹלם גַּם‬Respondeu-lhe Deus num


‫ָאנֹכִי י ָדֶַּּ֫ עְתִ י‬sonho: Sim, eu sei.
Gn 20.6

Outros plurais honoríficos usados para o Deus de Israel incluem ‫‘ קְדֹושִים‬Santo’ e ‫אֲדֹנִים‬
‘Senhor’.

p 123 6. ‫וְדֶַּּ֫ עַּת קְדֹשִים בִינָה׃‬Oconhecimento do Santo é


entendimento.

Pv 9.10

7. ‫יהרה … הּוא אֱֹלהֵּי הָ ָֽאֱֹלהִים‬YHWH … é o Deus dos deuses e o


‫ ַּו ֲאדֹנֵּי ָה ֲאד ֹ ִנ֑ים‬Senhor dos senhores
Dt 10.17

8. ‫יהוה ֲאד ֵֶֹּּ֫נינּו‬YHWH … é nosso Senhor.


Sl 8.2,10

9. ‫הֹודּו ַּל ֲאדֹנֵּי ָה ֲאד ֹ ִנ֑ים‬Rendei


graças ao Senhor dos
senhores.

Sl 136.3

O singular ‫ ָאדֹון‬é usado para referir-se a Deus somente na frase ‫ה ֶָּ֫א ֶרץ‬
ָ ‫כָל־‬ ‫( ָאדֹון‬Js 3.11, 13,
etc.).
c Seres humanos podem ser referidos com plurais honoríficos, principalmente ‫ְב ָעלִים‬
‘Senhor’ (não ‘marido’) e ‫אֲדֹנִים‬ ‘senhor’. Estes plurais ocorrem geralmente com sufixos,
sendo o primeiro apenas com sufixos de terceira pessoa do singular.

10. ‫י ָדַּ ע שֹור ק ֵֶֹּּ֫נהּו ַּוחֲמֹור אֵּבּוס‬O boi conhece o seu possuidor,
‫ ְב ָעלָי֑ ו‬e o jumento, a manjedoura de
seu dono.

Is 1.3

11. ‫הַּ ָֽ ָח ְכמָה תְ ַּחּי ֶה ְב ָע ֶֶּ֫ליהָ׃‬A sabedoria preserva a vida do


seu possuidor.

Ec 7.12

12. ‫ ֲאד ֵֶֹּּ֫נינּו ַּה ֶֶּ֫מלְֶך־ ָדוִד ִה ְמ ִליְך ֶאת־‬Nosso senhor, o rei Davi,
‫שְֹלמ ֹה׃‬constituiu rei a Salomão.
1Rs 1.43

d Um uso relacionado ao plural honorífico envolve particípios usados para referir-se a


Deus (## 13–15) ou a seres humanos (## 16–17). Estas referências divinas mostram
preferência com o verbo ‫( עשה‬veja # 13 abaixo e Is 22.11; 54.5; Sl 149.2).

13. ‫ ַּאּי ֵּה אֱלֹו ַּּה ע ָ ֹ֑שי‬Onde está Deus meu Criador?
Jó 35.10

14. ‫יהוה לִי בְעֹז ָ ְ֑רי‬YHWH está comigo como meu


Ajudador.

Sl 118.7

15. ‫ש ֶַּּ֫מי ִם וְנֹוטֵּיהֶם‬


ָ ‫בֹורא ַּה‬
ֵּ Ele
que criou os céus e os
estendeu

Is 42.5
16. ‫שבֶט ְו ֶאת־מ ְִרימָיו‬
ֵּ ֶּ֫ ‫ ְכ ָהנִיף‬como
se a vara brandisse os
que a levantam

Is 10.15

17. ֑‫ ְו ַּאתְ ָהי ִיתְ בְעֹכ ְָרי‬Tu és minha perturbadora.


Jz 11.35

e A palavra‫‘ ָאדֹון‬senhor’ pode ser usada no singular ou no plural para referir-se a um


senhor divino ou humano; como outros termos honoríficos, ‫ ָאדֹון‬pode ser usado com um
sufixo pronominal de primeira pessoa, ‫אֲדֹנ ִי‬, plural ‫אֲדֹנ ַּי‬. Como pode esta última forma estar
relacionada à forma similar ‫אֲדֹנ ָי‬, usada mais de 400 vezes com referência ao p 124 Deus de
Israel? O que é a terminação – āy? O debate tem sido considerável. Alguns eruditos pensam
que o título é uma forma sufixada de primeira pessoa do singular do substantivo plural ‫;אֲדֹנ ִים‬
como tal, a forma é um honorífico plural, um plural de majestade significando ‘meu Senhor’.
Esta interpretação faz excelente sentido em passagens nas quais os servos e adoradores de
YHWH dirigem-se a ele. Ela, também, encontra apoio pelo fato de que as formas sufixadas de

primeira pessoa, tanto do singular como do plural (‫אֲדֹנ ִי‬, ‫)אֲדֹנַּי‬, são usadas somente com
referência a pessoas (cf. Gn 23.6; 19.2). Outros defendem que o –āy é um aformativo
substantival que denota ênfase pelo reforço da raiz e o termo significa ‘Senhor por excelência,
Senhor de tudo’. Diversos argumentos apóiam esta opinião. ‫ אֲדֹנָי‬ocorre em passagens nas
quais Deus fala de si mesmo e onde adequadamente a referência a ‘meu Senhor’ é improvável
(p. ex., Ez 13.9; 23.49; Jó 28.28). O termo também ocorre em passagens nas quais o falante
humano é plural, fazendo com que um sufixo singular pareça incongruente (Sl 44.24).

f O sentido ‘Senhor de tudo’ encaixa-se em todos os textos. Há um dado ugarítico para


apoiar a existência de um –y (= āy?) aformativo, com um sentido enfático ou intensificador. Os
primeiros tradutores bíblicos não verteram o termo com um pronome; a Septuaginta, por
exemplo, tem kyrios ‘senhor’, não kyrios mou ‘meu senhor’. ‫ אֲדֹנ ָי‬parece ser um epíteto divino
quando usado em conjunção com YHWH ou como um paralelo a ele.

18. ‫שבְתְ ָך ָּפ ֶַּּ֫עלְתָ יהו֑ ה‬ִ ‫מָכֹון ְל‬YHWH, tu fizeste um lugar para a
‫ ִמ ְקדָ ש ֲאדֹנָי כֹונְנּו י ָדֶֶּ֫ יָך׃‬tua habitação, um santuário, ó
Senhor, que as tuas mãos
estabeleceram.

Êx 15.17
Concluímos, portanto, que embora ‫ אֲדֹנ ָי‬possa significar ‘meu Senhor’ em algumas passagens
nas quais fala-se com Deus (p. ex., Gn 15.2), mais provavelmente significa ‘Senhor de tudo’ em
todos os outros lugares.

p 125 8
Função Nominativa e Orações sem Verbo
8.1 Caso / Função

8.2 Remanescentes do Sistema de Caso

8.3 Função Nominativa

8.4 Ordem de Palavras em Orações Sem Verbo

4.1 Orações de Identificação

4.2 Orações de Classificação

8.1 Caso / Função

a Os sistemas de flexão ou acidentes numa língua servem para indicar os modos pelos
quais palavras em frases, orações e períodos se relacionam umas com as outras. A flexão
nominal em muitas línguas inclui as categorias de número e gênero e já vimos alguns dos
modos como estas categorias funcionam no léxico e na sintaxe do hebraico bíblico. Outro
sistema de flexão nominal, o caso, é encontrado em línguas correlatas e foi usado em formas
mais primitivas do hebraico bíblico; embora o hebraico bíblico não use casos, este sistema
provê um arcabouço conveniente para o estudo dos substantivos em hebraico.

b Um sistema de casos é um sistema de funções nominais; palavras no mesmo caso têm a


mesma função nominal. Sistemas de casos moderadamente elaborados distinguem cinco ou
seis funções; tais sistemas são encontrados no grego, latim e turco. Algumas linguagens,
notadamente o finlandês, têm sistemas bem mais complexos. O inglês tem um sistema de
casos simples, diferenciando para o substantivo um caso comum (‘tiger’) e um caso genitivo ou
possessivo (‘tiger’s’). Alguns pronomes têm dois casos, mas vários possuem três.

p 126 subjetivo
(nominativo) eu ele ela nós ele o (a) qual

objetivo

(acusativo) me o a nos os quem

possessivo

(genitivo) meu dele dela nosso deles de quem

O sistema de casos do semítico clássico é como o do inglês ao distinguir algumas vezes dois e,
em outras, três casos. Este sistema é encontrado no acádio e no árabe clássico, pois
desapareceu na grande maioria dos dialetos árabes modernos. Existe abundante evidência
para o sistema de casos no semítico noroeste antigo (1.3.1), no ugarítico e nas glosas
cananéias das cartas de Amarna.

c No sistema semítico clássico geralmente há três terminações de casos no singular


(chamados trípticos) e dois no plural e no dual (chamados dípticos).

singular plural dual

nominativo –u –ū –ā

genitivo –i –ī – ay

acusativo –a

Assim, a forma do hebraico primitivo *malk- ‘rei’ (posterior mélek) seria flexionada
aproximadamente desta forma:

singular plural dual


nominativo malku mal(a)kū malkā

genitivo malki mal(a)kī malkay

acusativo malka

Durante os últimos séculos do segundo milênio, o sistema de casos desapareceu. As vogais


breves finais da flexão do caso singular desapareceram e a terminação do genitivo-acusativo
dual e plural (ou oblíquo) associou-se a um –m final, produzindo as terminações do hebraico
clássico, dual –aym > –áyim e plural –īm. Há vários remanescentes do sistema de casos
encontrados na Bíblia, a maioria deles em nomes (8.2).

d O hebraico bíblico é uma língua sem um sistema de casos, embora geralmente seja útil
encarar vários aspectos do seu uso nominal num arcabouço de casos. Numa análise descritiva
formal do hebraico bíblico não podemos falar propriamente de casos. Contudo, de uma
perspectiva histórica, comparativa e sintática, podemos diferenciar três “casos” distintos, isto
é, conjuntos de funções sintáticas de um substantivo: nominativo, genitivo e acusativo. É nesse
último sentido que empregamos os termos “caso” e “função”.

p 127 8.2 Remanescentes do Sistema de Casos

a Alguns resquícios do sistema de casos ainda sobrevivem na Bíblia Hebraica.

b A antiga terminação – ū do nominativo plural pode ser vista no nome de lugar ‫ּפְנּואֵּל‬
‘face de Deus” (Gn 32.32); a forma ultrapassada ‫( ְּפנִיאֵּל‬Gn 32.31) pode conter uma antiga
terminação do genitivo-acusativo plural. Os significados dos nomes semelhantemente na
forma‫( בְתּואֵּל‬Gn 22.22), ‫( לְמּואֵּל‬Pv 31.1) e ‫( נְמּואֵּל‬Nm 26.9) são desconhecidos, como
também são ‫( חֲמּוטַּל‬2Rs 23.31) ~ ‫חמִיטַּל‬
ֲ (2Rs 24.18 Kethiv).
c A antiga terminação genitiva singular é preservada e alongada nas formas sufixadas de
algumas palavras monossilábicas referentes a membros de família: ‫( ָאב‬pai), mas ‫‘ ָא ִֶּ֫ביָך‬teu
pai’; ‫‘ ָאח‬irmão’, mas ‫‘ ָא ִֶּ֫חיָך‬teu irmão’; ‫‘ חָם‬sogro’, mas ‫ה‬
ָ ‫‘ ָח ִֶּ֫מי‬seu (dela) sogro’. ‫ ֲאבִי‬e ‫ֲאחִי‬
também servem como primeiro elemento em nomes pessoais compostos; nesses casos o î
pode ser uma vogal marcadora de caso ou o pronome de pessoa do singular: ‫אבִי ֶֶּ֫מלְֶך‬
ֲ ‘o/meu
pai é rei’ e assim também ‫ ֲאבִינָדָ ב‬, ‫ ֲאחִי ֶֶּ֫מלְֶך‬, ‫ ; ֲאחִי ֶַּּ֫מעַּץ‬cf. ‫‘ ַּמ ְלכִי־ ֶֶּ֫צדֶ ק‬meu rei é justo’ e
‫‘ ַּגב ְִריאֵּל‬o/meu homem é Deus’.
d É possível que a terminação acusativa possa ainda ser vista em algumas formas, por
exemplo, ‫ֶַּּ֫לילָה‬ ‘noite’ e ‫ֶַּּ֫א ְרצָה‬ ‘terra’. Esses provavelmente são os enfraquecidos
remanescentes do sufixo he direcional (10.5). Os gramáticos costumavam derivar esse sufixo
da antiga terminação do acusativo, mas a evidência advinda do ugarítico exclui hoje essa
explicação.

e Um fenômeno obscuro com freqüência associado ao sistema de casos é apresentado


pelos sufixos de conexão (litteræ compaginis), as debatidas e inexplicadas terminações –î e –ô
geralmente encontradas num substantivo no construto (veja 9.2). O segundo destes é muito
raro, mas o ḥireq compaginis ocorre numa variedade de passagens, quase todas poéticas. Se
estas terminações fossem ser tratadas como terminações de casos, o –î seria o genitivo e o –ô
seria acusativo (< a) ou nominativo (< u). Nenhum desses paradigmas emerge dos dados; se
algo pode ser dito, o ḥireq compaginis é mais comum em substantivos servindo como uma
função nominativa e formas similares em Amarna sugerem que o î não é uma terminação
genitiva. O ḥireq ocorre tanto em formas masculinas (## 1–3) quanto em femininas (## 4–6) no
construto.

1. ‫ ְבנִי ֲאת ֹנ֑ ֹו‬O potro do asno dele.


Gn 49.11

p 128 2. ‫עֹזְבִי הַּצ ֹאן‬que abandona o rebanho


Zc 11.17

3. ‫ש ֹ ְכנִי ס ְֶנ֑ה‬o habitante na sarça


Dt 33.16

4. ‫גְנֻ ָֽבְתִ י יֹום ּוגְנֻ ָֽב ִ ְִ֖תי ֶּ֫לָ ָֽיְלָה׃‬que


fosse roubado de dia ou
roubado de noite

Gn 31.39

5. .‫עַּל־דִ ב ְָרתִ י ַּמ ְלכִי־ ֶֶּ֫צדֶ ק׃‬segundo a ordem de


Melquisedeque

Sl 110.4

6. ‫שּפָט‬
ְ ‫ ְמ ֵּל ֲאתִ י ִמ‬ela, que estava cheia de justiça
Is 1.21

A terminação, também, ocorre antes de frases intimamente ligadas, preposicionais (## 7–10) e
adverbiais (# 11).

7. ‫נֶ ְאדָ ִרי ב ַּ֑כ ֹ ַּח‬gloriosa em poder


Êx 15.6

8. ‫ ַּר ֶָּ֫בתִ י בַּגֹוי ִם‬Ela


que foi grande entre as
nações

Lm 1.1

9. ‫ש ֶָָּ֫רתִ י ַּב ְמדִ נֹותי‬uma princesa entre as


províncias

Lm 1.1

10. ‫אֹס ְִרי ַּל ֶֶּ֫גפֶן עִיר ֹה‬amarrando o seu jumentinho à


vide

Gn 49.11

11. ‫ח ֹ ְצבִי מָרֹום ִקבְרֹו‬que lavras a tua sepultura em


lugar alto

Is 22.16

Mesmo em textos poéticos, essas formas são distribuídas irregularmente; observe os dois
exemplos em Gênesis 49.11 e os três exemplos no versículo de abertura de Lamentações.

8.3 Função Nominativa

a A função nominativa inclui quatro papéis: o sujeito (tanto de orações verbais como de
orações sem verbo; veja 4.4), o predicado nominativo (de orações sem verbo), o nominativo
absoluto e o vocativo (em qualquer tipo de oração; veja 4.7). Um substantivo ou um
substantivo equivalente pode preencher esses papéis.
1. ‫ש י ֶַּּ֫אנִי‬
ִ ‫ ַּהנָחָש ִה‬A serpente (SUJEITO) me
enganou.

Gn 3.13

2. .‫יהוה ַּהצַּדִ יק‬YHWH (SUJEITO) é o que está no


que é justo (PREDICADO
NOMINATIVO).

Êx 9.27

p 129 3. ‫שעָה ַּה ֶֶּ֫מלְֶך׃‬


ִ ֶּ֫ ‫הֹו‬Salva(-me), ó rei (VOCATIVO)
2Sm 14.4

4. ‫הָ ָֽ ִאשָה ֲאשֶר נָ ֶַּּ֫תתָ ה ִע ָמדִ י הִיא‬A mulher (NOMINATIVO ABSOLUTO)


‫נָ ָֽתְ נָה־לִי מִן־ ָהעֵּץ‬que tu puseste comigo – ela
(SUJEITO) me deu da árvore.

Gn 3.12

b Para orações verbais a ordem básica das palavras do hebraico é verbo + sujeito (VS). Esta
ordem de palavras verbo-primeiro usualmente ocorre onde uma oração não tem material
introdutório (# 5), onde uma oração começa com uma construção waw-relativa
(tradicionalmente “waw-consecutivo”) (# 6) ou onde uma oração começa com materiais
adverbiais (# 7).

5. ‫דָ ְבקָה נַּ ְפשִי ַאח ֶ ֲ֑ריָך‬Minha alma apega-se a ti.


Sl 63.9

6. ‫ו ֶַּּּ֫י ֹאמֶר אֱֹלהִים‬E disse Deus…


Gn 1.3

7. ‫ַאחַּר הַּדְ ב ִָרים ָה ֵֶּּ֫אלֶה ָהי ָה דְ בַּר־‬Depois destes acontecimentos,


‫יהוה אֶל־ַאב ְָרם‬veio a palavra de YHWH a Abrão.
Gn 15.1
Após um waw-disjuntivo (39.2.3) a ordem das palavras é normalmente waw + substantivo (ou
seu equivalente) + verbo.

8. ‫ש ֶַּּ֫מי ִם ְו ֵּאת‬
ָ ‫ֱֹלהים ֵּאת ַּה‬ ֑ ִ ‫((ב ָָרא א‬criou Deus os céus e a terra.) A
‫ ָה ֶָּ֫א ֶרץ׃) ְו ָה ֶָּ֫א ֶרץ ָהי ְתָ ה ֶּ֫ת ֹהּו‬terra, porém, estava sem forma
e vazia.
‫ו ֶָּ֫ב ֹהּו‬
Gn 1.1–2

9. ‫ ְוהָָאדָ ם י ָדַּ ע ֶאת־ ַּחּוָה ִאש ְ֑תֹו‬Coabitou hāʾādām com Eva, sua
mulher.

Gn 4.1

Quando duas orações em contraste são ligadas por um waw-adversativo, uma espécie de
waw-disjuntivo, o sujeito sempre vem antes em ambas.

10. ‫הּוא י ְשּופְָך ר ֹאש ְו ַּאתָ ה‬Ele te ferirá a cabeça, e tu lhe


‫תְ שּו ֶֶּ֫פנּו ָעקֵּב׃‬ferirás o calcanhar.
Gn 3.15

11. ‫ַאב ְָרם יָשַּב ְב ֶא ֶרץ־כ ֶּ֑֫ ְָנעַּן וְלֹוט‬Abrão


habitou na terra de
‫יָשַּב ְבע ֵָּרי ַּה ִככָר‬Canaã;
e Ló, nas cidades da
campina.

Gn 13.12

c Em orações sem verbo (ou nominais), um substantivo ou seu equivalente é justaposto ao


sujeito para indicar uma predicação.

12. ‫ֵּי־נ ֹ ַּח‬


֑ ‫שְלשָה ֵֶּּ֫אלֶה ְבנ‬São eles os três (SUJEITO) filhos
de Noé (PREDICADO).

Gn 9.19
As regras que regem a seqüência do sujeito e do predicado merecem um tratamento separado
(8.4).

p 130 d O vocativo (ou nominativo de endereço) designa aquele a quem o falante está
dirigindo uma declaração. É mais claramente identificável onde o falante coloca um
substantivo definido em aposição a um pronome de segunda pessoa (# 13) ou a um imperativo
(# 14).

13. ‫בֶן־מִי ַּאתָ ה ה ֶּ֑֫ ַָּנעַּר‬De quem és filho, jovem?


1Sm 17.58

14. ‫ש ָ ֑מעּו ְו ַּה ִעו ְִרים‬


ְ ‫ ַּהח ְֵּרשִים‬Surdos, ouvi, e vós, cegos,

‫ ַּה ִֶּ֫ביטּו‬olhai…
Is 42.18

8.4 Ordem de Palavras em Orações Sem Verbo

a A ordem do sujeito (S) e do predicado (Pred) em orações sem verbo varia


tremendamente. Na investigação dos paradigmas principais seguimos o estudo de Francis I.
Andersen. A compreensão dos diversos paradigmas oracionais depende de uma variedade de
fatores. O primeiro é a definibilidade do predicado e do sujeito. Se o predicado é definido, ele
identifica um sujeito definido (sobreposição total de S e Pred); se ele é indefinido, ele classifica
um sujeito definido (sobreposição parcial). Falando grosso modo, uma oração de identificação
tem a ordem S–Pred e uma oração classificadora tem a ordem inversa, apesar de que, se o
predicado é um substantivo com um sufixo, a ordem torna-se menos previsível. Os outros
fatores estão atrelados ao contexto gramatical: primeiro, se a oração é independente (se for,
ela está em contraste com o que a precede, i.e., é disjuntiva ou não) ou se é subordinada a
outra oração; e segundo, a oração é declarativa (faz um afirmação), interrogativa (faz uma
pergunta), ou precatória (expressando um pedido)? A ordem de palavras em orações
subordinativas é muito menos previsível do que em orações independentes, como é a ordem
de palavras em orações precatórias. As interrogativas tendem, no todo, a seguir o mesmo
padrão das declarativas. A maior parte das estruturas tratadas aqui é sobre orações
declarativas independentes.

8.4.1 Orações de Identificação

a Numa oração de identificação sem verbo (“Quem ou o que é o sujeito?”), as duas partes
da oração usualmente ocorrem na ordem sujeito-predicado.

1. ‫ִיא־צ ֹעַּר‬
ֶּ֫ ‫ה‬Esta é Zoar.
Gn 14.2

p 131 2. ‫ ֲאנִי יהוה׃‬Eu sou YHWH.


Êx 6.2

3. ‫הּוא מֹשֶה וְַאהֲרֹון׃‬São estes Arão e Moisés.


Êx 6.27

4. ‫שמֹות ָה ֲאנָשִים ֲאשֶר‬


ְ ‫ ֵֶּּ֫אלֶה‬São estes os nomes dos homens
que …

Nm 13.16

5. ‫ִישֹון‬
֑ ‫שֵּם הָ ָֽ ֶאחָד ּפ‬O nome do primeiro (rio) é o
Pisom.

Gn 2.11

Embora substantivos sufixados ocasionalmente apresentem exceções a essa ordem, eles


freqüentemente a seguem. (O exemplo # 7 é uma interrogativa, também na ordem S–Pred.).

6. ֑‫הּוא ֲאדֹנִי‬Ele é meu senhor.


Gn 24.65

7. ‫ ֲחז ֶה ֲאחִיכֶם ַּה ָקט ֹן‬É este o vosso irmão mais


novo?

Gn 43.29

Como os exemplos sugerem, um pronome é sempre o sujeito dessas orações.

b É possível que uma oração sem verbo possua três, em vez de duas partes; a relação
entre o sujeito e o predicado pode ser produzida pelo que geralmente é chamado de pronome
pleonástico ou falso (pleo), pessoal ou demonstrativo.
8. ‫ ֵּעשָו הּוא ֱאדֹום‬Esaú (, ele) é Edom.
Gn 36.8

O pronome é aqui chamado pleonástico (i.e., redundante) uma vez que a oração ‫עשָו‬
ֵּ ‫ אֱדֹום‬é
gramatical. Desse modo, a oração é estruturada S–pleo–Pred. De outra maneira, a predicação
pode estar associada a ‫אֱדֹום‬ ‫הּוא‬, como S–Pred, enquanto que ‫ ֵּעשָו‬é considerado como um
nominativo absoluto (tópico sentencial ou marcador de foco; Foc; cf. 4.7 e 16.3.3). Essa análise
sugeriria a glosa ‘Quanto a Esaú, ele é Edom’; a estrutura seria então Foc–S–Pred.

p 132 9. ‫יהוה אֱֹל ֶֶּ֫היָך הּוא עֹבֵּר ְל ָפ ֶֶּ֫ניָך‬YHWH,


teu Deus, (ele) é o que
passa adiante de ti.

Dt 31.3

10. ‫סֹורר ּומ ֶֹרה‬


ֵּ ‫ ְב ֵֶּּ֫ננּו ז ֶה‬Este nosso filho, (ele) é rebelde
e contumaz.

Dt 21.20

11. ‫ ַּאתָ ה ז ֶה ְבנִי ע ָ ֵּ֑שו‬Tu és meu filho Esaú.


Gn 27.24

8.4.2 Orações de Classificação

a Numa oração de classificação sem verbo em que o predicado se refere a uma classe geral
da qual o sujeito é um membro, as duas partes da oração geralmente ocorrem na ordem
predicado-sujeito. As orações de classificação respondem à pergunta, “Como é o sujeito?” (O
exemplo # 6 contém uma frase partitiva, min + um plural, significando ‘um dos’ objetos ou
indivíduos nomeados; cf. 4.4.1b.)

1. ‫ ֵּכנִים ֲא ֶַּּ֫נחְנּו‬Nós somos honestos.


Gn 42.11

2. ‫ ָטמֵּא הּוא׃‬Ele é impuro.


Lv 13.36

3. ָ‫שר־דִ ֶַּּ֫ב ְרת‬


ֶ ‫טֹוב־הַּדָ בָר ֲא‬O que propuseste fazer é bom
‫( ַּלעֲשֹות׃‬lit. boa é a coisa que…).
Dt 1.14

4. ‫מְעֹנָה א ֱֶֹּ֫להֵּי ֶֶּ֫קדֶ ם‬O


eterno Deus é um lugar de
habitação.

Dt 33.27

5. ‫ַארי ֵּה י ְהּודָה‬


ְ ‫גּור‬Judá é um filhote de leão.
Gn 49.9

6. ‫ ִמּיַּלְדֵּ י ָה ִעב ְִרים ז ֶה׃‬Este é um menino dos hebreus.


Êx 2.6

Se o predicado contém uma forma sufixada, esta ordem também pode ser usada.

7. ‫ָאחִי הּו֑ א‬Ele é meu irmão.


Gn 20.5

8. ‫ ֵֶּּ֫אשֶת ִבנְָך הִיא‬Ela é mulher de teu filho.


Lv 18.15

A ordem predicado-sujeito também é favorecida se o sujeito é um infinitivo.

p 133 9. ֑‫ֹלא־טֹוב הֱיֹות הָָאדָ ם ְלבַּדֹו‬Não é bom que o homem esteja


só (lit., O ser do homem por ele
mesmo não é bom).

Gn 2.18
10. ‫הֲלֹוא טֹוב ֶָּ֫לנּו שּוב ִמצ ָ ֶּ֫ ְָֽריְמָה׃‬Não nos seria melhor voltarmos
para o Egito?

Nm 14.3

11. ‫שבֶת ָבהָר ַּהז ֶה׃‬


ֶ ֶּ֫ ‫ ַּרב־ ָלכֶם‬Tempobastante haveis estado
neste monte.

Dt 1.6

b Se o chamado pronome pleonástico é usado numa oração de classificação, o sujeito


precede o predicado, e o pronome o segue (i.e., S–Pred–pleo). Nesta análise parece que o
pronome pleonástico inverte a estrutura oracional usual. Se, porém, tomamos o “sujeito”
aparente como um nominativo absoluto ou marcador focal e o chamado pronome pleonástico
como o verdadeiro sujeito, a ordem básica das orações classificatórias é preservada: Foc–
Pred–S.

12. ‫אִיש ר ֹאש ְלבֵּית־אֲב ֹתָ יו הּוא׃‬Quanto a cada homem (FOCO),


ele é cabeça de sua família
ancestral (PREDICADO) ou Cada
homem é cabeça de sua família
ancestral.

Nm 1.4

13. ‫ש ֶרץ הַּש ֵֹּרץ עַּל־ה ֶּ֫ ָ ָ֑א ֶרץ‬


ֶ ֶּ֫ ‫ ְוכָל־ ַּה‬E quanto a todo enxame de
‫שקֶץ הּוא‬ ֶ ֶּ֫ criaturas que povoam a terra
(FOCO), (ele) (SUJEITO) é uma
abominação (PREDICADO) ou
Todo enxame de criaturas que
povoam a terra é uma
abominação.

Lv 11.41

A construção nominativa absoluta serve aqui, como freqüentemente, para esclarecer


construções potencialmente complexas (veja 4.7).
c Assim, a ordem básica das orações classificatórias sem verbo é Pred–S. Diversos fatores
podem inverter esse padrão, particularmente o contraste com o material precedente e o uso
de um particípio no predicado.

d Se uma oração de classificação coloca-se em contraste a (# 14) ou em disjunção com (#


15) a que precede, então a ordem é S–Pred.

14. ‫הֹו ֶַּּ֫אלְתִ י לְדַּ בֵּר אֶל־ ֲאדֹנָי וְָאנֹכִי‬Eis que me atrevo a falar ao
‫ ָעפָר ָו ֵֶּּ֫אפֶר׃‬Senhor, mas eu sou pó e cinza.
Gn 18.27

15. ‫ ְו ָהי ָה ַּכ ֲאשֶר י ִָרים מֹשֶה י ָדֹו‬Quando Moisés levantava sua
mão,

‫שר יָנִי ַּח י ָדֹו‬


ֶ ‫ש ָר ֵּ ֑אל ְו ַּכ ֲא‬
ְ ִ ‫ ְוגָבַּר י‬Israel
prevalecia; quando,
‫ ְוגָבַּר ֲע ָמלֵּק׃ וִידֵּ י מֹשֶה ְכבֵּדִ ים‬porém, ele abaixava sua mão,
Amaleque prevalecia. Ora, as
mãos de Moisés estavam
pesadas!

Êx 17.11–12

e A ordem de palavras S–Pred também é encontrada se a oração for declarativa e o


predicado contiver um particípio que, ainda que modifique o sujeito, é usado de uma maneira
essencialmente verbal (37.6).

p 134 16. ‫קֹול דְ מֵּי ָא ִֶּ֫חיָך צ ֹ ֲעקִים ֵּאלַּי מִן־‬A voz do sangue de teu irmão
‫ ָה ֲאדָ מָה׃‬está clamando da terra a mim.
Gn 4.10

17. ‫ ֲע ָמלֵּק יֹושֵּב ְב ֶֶּ֫א ֶרץ ה ֶּ֑֫ ֶַּנגֶב‬Amaleque habita na terra do


Neguebe.

Nm 13.29

Essa regra não se aplica se a oração é predicativa (o particípio passivo é comum, ## 18–20) ou
se o particípio é agentivo (# 21, cf. 5.2; cf Nm 35.16).
18. ‫ָארּור ְכ ֶָּ֫נעַּן‬Maldito seja Canaã.
Gn 9.25

19. ‫ָארּור ָהאִיש ֲאשֶר ַּי ָֽ ֲעשֶה ֶֶּ֫פסֶל‬Maldito o homem que fizer
‫ּו ַּמ ֵּסכָה‬imagem de escultura ou de
fundição.

Dt 27.15

20. ‫ְַאר ֶֶּ֫תָך׃‬


ְ ‫בָרּוְך ַּטנְאֲָך ּו ִמש‬Bendita a tua cesta e a tua
amassadeira.

Dt 28.5

21. ‫מ ְַּר ְגלִים ַּאתֶ ם‬Vós sois espiões.


Gn 42.9

No exemplo seguinte, o padrão S–Pred é usado para ambas as orações contrastantes; essa
exceção provavelmente reflete a necessidade de chamar a atenção para o contraste.

22. ‫א ְֹר ֶֶּ֫ריָך ָארּור ּו ְמב ֲָר ֶֶּ֫כיָך בָרּוְך׃‬Maldito


seja o que te
amaldiçoar, e abençoado o que
te abençoar.

Gn 27.29

f Além dessas exceções ao padrão Pred–S para orações classificatórias, existem alguns
tipos de predicados que parecem neutralizar os padrões de ordem de palavras. Qualquer
ordem pode ser esperada se o predicado for um numeral (## 23–25), um advérbio (## 26–27)
ou uma frase preposicional (## 28–33).

23. ‫ ַּע ֻמדֵּ יהֶם ֲעש ָָרה‬As colunas serão dez.


Êx 27.12; cf. Êx 27.14,15,16;
38.10,11,12
24. ‫ ֶעש ְִרים ג ֵָּרה הּוא׃‬Ele é de vinte geras.
Nm 18.16

25. ‫ָארכַּּה‬
ְ ‫תֵֶּּ֫ שַּע ַּאמֹות‬Seu
comprimento é de nove
côvados.

Dt 3.11; cf. Gn 6.15, 24.22; Êx


25.10

26. ‫ּו ְפנֵּיהֶם ֲאח ַֹּרנִית‬E seus rostos estavam para trás
(i.e., eles estavam virados para
trás).

Gn 9.23

p 135 27. ‫ששַּי וְתַּ ְלמַּי‬


ֵּ ‫ ְושָם ֲאחִימָן‬E Aimã, Sesai e Talmai estavam
ali.

Nm 13.22

28. ‫ְַארבַּע־מֵּאֹות אִיש עִמֹו׃‬


ְ ‫ו‬E há quatrocentos homens com
ele.

Gn 32.7

29. ‫וַּיהוה ִאתֶָּ֫ נּו‬E YHWH é conosco.


Nm 14.9

30. ‫ ַּהנִסְתָ ר ֹת לַּיהוה‬Os segredos pertencem a YHWH.


Dt 29.28

31. ‫ַארבַּע מֵּאֹות ִ ֑איש‬


ְ ‫ ְועִמֹו‬E há quatrocentos homens com
ele.

Gn 33.1
32. ‫ ְו ִאתֹו ָא ֳהלִיָאב‬E Aoliabe está com ele.
Êx 38.23

33. ‫שבָתֹון ּובַּּיֹום‬


ַּ ‫בַּּיֹום הָ ִָֽראשֹון‬Ao primeiro dia haverá

‫שבָתֹון׃‬ ְ ‫ ַּה‬descanso, e ao
ַּ ‫שמִינִי‬ oitavo haverá
descanso.

Lv 23.39

g Os problemas propostos pelo Shema (Dt 6.4) são numerosos. Após o imperativo e o
vocativo iniciais, ‫שמַּע יִש ְָראֵּ ל‬
ְ ‘Ouve, ó Israel’, seguem-se quatro palavras. A despeito de
como estejam construídas, concorda-se que nenhuma passagem próxima comparável ocorre.
A solução mais simples é reconhecer duas orações sem verbo justapostas: (a) ‫יהוה אֱֹל ֵֶּּ֫הינּו‬
‘YHWH é o nosso Deus’ (oração de identificação, S–Pred); (b) ‫‘ יהוה ֶאחָד‬YHWH é um’ (oração
classificatória, S–Pred, com um numeral; cf. # 23). Poucos eruditos favorecem esta análise
gramatical. Andersen toma … ‫ יהוה יהוה‬como um predicado descontínuo, com as outras
duas palavras como um sujeito descontínuo ‘Nosso único Deus é YHWH, YHWH’. Outros propõem
análises que consideram as duas primeiras palavras como sujeito (i.e., ‘YHWH nosso Deus é um
YHWH’) ou as três primeiras palavras (i.e., ‘YHWH, nosso Deus, YHWH é um’) ou mesmo a primeira

palavra sozinha. É difícil afirmar se ‫ אחד‬pode servir como um adjetivo que modifica ‫יהוה‬. E é
ainda menos claro o que o predicado ‫אחד‬ ‫ אלהינו יהוה‬significa, embora alguns eruditos o
classifiquem adverbialmente (‘YHWH é nosso Deus, só YHWH’). Como Gerald Janzen observa, “o
Shema não se conforma exatamente a qualquer paradigma de oração nominal padrão” e
qualquer discussão adicional cai totalmente fora da esfera da gramática.

p 136 9
Função Genitiva
9.1 Funções de Modificação do Substantivo

9.2 Estado Construto


9.3 Sintaxe da Relação Construto-Genitiva

9.4 Usos da Relação Construto-Genitiva

9.5 Espécies de Genitivo

5.1 Genitivo Subjetivo

5.2 Genitivo Adverbial

5.3 Genitivo Adjetival

9.6 Estado Construto diante de Frases e Orações

9.7 Determinação e Perífrase

9.8 Mem Enclítico

9.1 Funções de Modificação do Substantivo

a Um substantivo no nominativo em uma oração verbal pode ser um sujeito (relacionado


ao verbo) ou um vocativo (relacionado à oração como um todo); todas as partes principais
numa oração sem verbo são nominativas. É possível formar uma oração completa usando
apenas substantivos no nominativo.

1. ‫יהוה דִ ֵּ ֑בר‬YHWH (SUJEITO) falou.


Is 1.2

2. ‫ש ֶַּּ֫מי ִם‬
ָ ‫שמְעּו‬
ִ Ouvi, ó céus (VOCATIVO).
Is 1.2

Muitas estruturas frasais e oracionais requerem que substantivos (ou pronomes) exerçam
outras funções. Um grupo dessas funções envolve substantivos que têm uma relação direta
com o verbo; esse grupo ad-verbial é chamado de acusativo.

3. ‫ ָבנִים גִדֶַּּ֫ לְתִ י‬Eu


(SUJEITO) tenho criado filhos
(ACUSATIVO)

Is 1.2
Na gramática portuguesa, o papel acusativo mostrado em Isaías 1.2 é chamado de objeto
direto, isto é, o acusativo é o objeto da ação do verbo e seu status não é mediado (p. ex., por
uma preposição).

p 137 b O outro grupo de modificações envolve outros substantivos, aqueles que não são
nem sujeitos e nem modificadores do verbo; esse grupo (em sua maioria) ad-nominal é
chamado de genitivo. Esse é, mais freqüentemente, o caso de um substantivo relacionado com
outro substantivo.

4. ‫נִ ֲאצּו ֶאת־ ְקדוש יִש ְָראֵּל‬Eles (SUJEITO) rejeitam o Santo


(OBJETO) de Israel

Is 1.4

5. ‫ש ֶַּּ֫בעְתִ י ע ֹלֹות אֵּילִים‬


ָ Eu estou farto dos ʿōlôt (OBJETO)
de carneiros (GENITIVO).

Is 1.11

Um pronome pode preencher também o espaço do genitivo numa oração.

6. ‫י ָדַּ ע שֹור ק ֵֶֹּּ֫נהּו‬Oboi (SUJEITO) conhece o seu


(GENITIVO) possuidor (OBJETO).

Is 1.3

O objeto de uma preposição também está no genitivo; é a preposição (ou frase preposicional)
que está diretamente relacionada ao verbo.

7. ‫ ְוהֵּם ֶָּּ֫פשְעּו בִי׃‬Eles (SUJEITO) se rebelaram


contra (PREPOSIÇÃO) mim
(GENITIVO).

Is 1.2

c Assim, além de um papel nominativo, um substantivo pode assumir um dos dois papéis
(ou grupo de papéis): ele pode modificar o verbo (acusativo) ou outro substantivo (genitivo).
Há uma importante similaridade com a qual estas e outras relações compartilham: o elemento
modificado (ou base) usualmente precede o modificador (ou dependente). Assim em … ‫ידע‬
‫קנהו‬, o verbo precede o objeto que o modifica; em ‫ישראל קדוש‬, ‘O Santo’ é qualificado
por ‘de Israel’. Da mesma forma, esta relação afeta outras áreas da sintaxe hebraica, por
exemplo, um substantivo (o modificado) usualmente precede um adjetivo atributivo
(modificador): ‫ְצּורה‬
ָ ‫עִיר נ‬ ‘uma cidade, sitiada’ > ‘uma cidade sitiada’ (Is 1.8). A relação
modificado-modificador (ou definido-definidor) às vezes é descrita com os termos latinos
regens (‘governador, regente, cabeça’) para o elemento modificado e rectum (‘coisa regida’)
para o modificador. O português freqüentemente usa a ordem regens-rectum (verbo antes do
objeto; o genitivo possuído-possuidor, p. ex., ‘O Santo de Israel’); ele pode usar também uma
seqüência modificador-modificado (p. ex., ‘falso profeta’, ‘longo caminho’). Outras línguas
exibem uma sintaxe similar à do hebraico (cf. francês ‘une ville assiégée’, LXX grega ‘pólis
poliorkoúmenē’, árabe ‘madīatin muḥāsaratin’).

p 138 9.2 Estado Construto

a Na língua anterior ao hebraico bíblico, a relação genitiva era indicada por um marcador
vocálico final, – i no singular e – ī no plural. Porém, após a perda do sistema de casos (8.1), o
substantivo no genitivo era deixado não-marcado. Agora, se um substantivo precedesse um
substantivo no genitivo, esse substantivo freqüentemente viria a ser marcado; tal substantivo
“pré-genitivo” encontra-se no estado construto. A formação do construto é uma questão de
som e ritmo: para ligar o pré-genitivo ao genitivo, o pré-genitivo pode ser abreviado.

b O estado construto é uma forma de substantivo ou um equivalente nominal que pode


servir a qualquer função sintática ou caso.

1. ‫ּוזֲהַּב ָה ֶָּ֫א ֶרץ ַּההִיא טֹו֑ ב‬E o ouro


(CONSTRUTO:NOMINATIVO) dessa
terra é bom.

Gn 2.12

2. ‫בְתֹוְך ַּהגָן‬no meio (CONSTRUTO:GENITIVO)


do jardim

Gn 2.9

3. ‫שמ ֹר ֶאת־ ֶֶּ֫ד ֶרְך עֵּץ ַּה ַּחּי ִים׃‬


ְ ‫ ִל‬Para guardar o caminho
(CONSTRUTO: ACUSATIVO) de [i.e.,
que conduz para] a árvore
(GENITIVO:CONSTRUTO) da vida

Gn 3.24
c O estado construto é freqüentemente indicado por um enfraquecimento do acento na
palavra. Isto pode levar a mudanças vocálicas (p. ex., ‫דָ ֶָּ֫בר‬ ‫דְ בַּר־אֱֹלהִים‬
‘palavra’, mas
‘palavra de Deus’). O construto pode ser marcado por um acento conjuntivo (p. ex., ‫ח‬ ַּ ֶ֣‫וְרּו‬
‫‘ אֱֹלהִים‬o espírito de Deus’, Gn 1.2) ou mais raramente por um methegh+ maqqeph (p. ex.,
‫‘ מֶ ָֽלְֶך־צ ֹר‬rei de Tiro’, 2Sm 5.11). Em alguns exemplos uma terminação distintiva marca a
forma (cf. 8.2e).

singular dual plural

masculino absoluto Ø – áyim – îm

construto Ø –ê –ê

feminino absoluto – â, – t ou Ø – ātáyim, – táyim – ôt

construto – at, – t – (ət)ê, – tê – ôt

9.3 Sintaxe da Relação Construto-Genitiva

a A função genitiva abrange dois papéis: o objeto de uma preposição e um substantivo


regido por outro substantivo; sufixos pronominais podem preencher ambos os papéis. O
funcionamento dos sistemas preposicionais do hebraico são estudados no Capítulo 11. A classe
das relações substantivo-substantivo é o tema principal deste capítulo (9.5). Discutiremos,
também, várias construções correlatas, nas quais as frases preposicionais (## 1–2) e as orações
inteiras (## 3–4) ficam no papel genitivo e, por isso, são precedidas por formas construtas
(9.6).

p 139 1. ‫ ֶּ֫ח ֹסֵּי בֹו׃‬os que se refugiam nele


Na 1.7

2. ‫כְַאחַּד ִמ ֶֶּ֫מנּו‬como um de nós


Gn 3.22
3. ‫מְקֹום ֲאשֶר יֹוסֵּף ָאסּור שָם׃‬O lugar onde José estava preso
Gn 40.3

4. ‫ ִק ְרי ַּת ָחנָה דָ ִו֑ד‬a cidade onde Davi acampou


Is 29.1

b A maioria das cadeias construtas em hebraico bíblico envolve dois termos, construto ou
base (C) e genitivo ou absoluto (G). Se a base envolve dois ou mais substantivos em vez de um,
todos, com exceção do primeiro, vêm após o genitivo, geralmente ligados à base por um sufixo
pronominal.

5. ‫ּו ָפ ִֶּ֫ניתָ אֶל־תְ ִפלַּת ַּעבְדְ ָך ְואֶל־‬E atenta para a oração e súplica
‫תְ ִחנָתֹו‬de teu servo (lit., a oração de
teu servo e sua súplica)

1Rs 8.28

Há exceções a essa regra; essas exceções construtas geralmente ocorrem em verso ou em


prosa elevada.

6. ‫ ִמ ְבחַּר וְטֹוב־ ְלבָנֹון‬a fina flor e o melhor do Líbano


Ez 31.16

Se o rectum ou modificador envolve dois ou mais substantivos, o construto é usualmente


repetido com cada genitivo.

7. ‫ש ֶַּּ֫מי ִם וְאֹלהֵּי‬
ָ ‫יהוה אֶלֹוהֵּי ַּה‬YHWH, Deus dos céus e terra
‫(ה ֶּ֫ ָ ָ֑א ֶרץ‬lit., Deus dos céus e Deus da
terra)

Gn 24.3

Contudo, o construto pode reger uma frase nominal coordenativa. Quanto mais proximamente
vinculados estejam os genitivos, maior a probabilidade de eles formarem esse tipo de frase.
8. ‫בְה ֹנֹות י ָדָ יו ו ְַּרגְלָיו׃‬seus dedos polegares e os
dedos grandes dos seus pés (os
dedos principais de suas mãos e
de seus pés)

Jz 1.6, cf 1.7

9. ‫ש ֶַּּ֫מי ִם ָו ֶָּ֫א ֶרץ׃‬


ָ ‫קֹנֵּה‬criador dos céus e terra
Gn 14.19

10. ‫שיָך‬
ֶ ֶּ֫ ָ‫ ֶֶּ֫נפֶש ָב ֶֶּ֫ניָך ּובְנ ֹתֶֶּ֫ יָך ְו ֶֶּ֫נפֶש נ‬a vidade teus filhos e de tuas
‫שיָך׃‬ ֶ ֶּ֫ ְְׄ‫ ְו ֶֶּ֫נפֶש ִּפ ַּלג‬filhas,
e a vida de tuas
mulheres, e a vida de tuas
concubinas

2Sm 19.6

p 140 c É possível a dependência estender-se além de duas (classes de) entidades; o


genitivo de um construto pode ser o construto de outro substantivo, etc.

11. ‫לֵּב ָראשֵּי עַּם־ה ֶּ֫ ָ ָ֑א ֶרץ‬o coração dos príncipes do povo
da terra

Jó 12.24

Neste exemplo há três relações construto-genitivas, ‫לב ראשי‬, ‫ ראשי עם‬e ‫עם־הארץ‬,
fundidas numa única cadeia. Tais cadeias não são comuns, sendo preferidas as construções
perifrásticas (9.7). A relação entre o construto e o absoluto que o acompanha é forte e
ordinariamente nada intervém.

d Quando um elemento gramatical tal como uma preposição (9.6b), um mem enclítico
(9.8) ou um he direcional se coloca entre o construto e o genitivo, o resultado é chamado de
uma cadeia construta quebrada. Outros elementos intrusivos encontrados em poesia hebraica
incluem formas construtas – k (# 12), ‫( את‬# 13), sufixos pronominais (# 14) e formas verbais (#
15).

12. ‫ ְבעֵּי ֶֶּ֫ניָך ֲאדֹנָי‬aos teus olhos, senhor (assim


está no TM; melhor; aos olhos
do senhor)
Ëx 34.9

13. ‫ִיחָך‬
֑ ֶֶּ֫ ‫ ְל ֵֶּּ֫ישַּע ֶאת־ ְמש‬para salvação de teu ungido
Hc 3.13

14. ‫כִי תִ ְרכַּב עַּל־סּו ֶֶּ֫סיָך מ ְַּרכְב ֹתֶֶּ֫ יָך‬Quando tu cavalgaste sobre
‫י ְשּועָה׃‬teus cavalos, teus carros de
vitória.…

Hc 3.8

15. ‫ְחּו־ש ְכמָה‬


֑ ֶ ‫דֶֶּ֫ ֶרְך י ְַּרצ‬Eles
cometem assassinato na
estrada de Siquém (lit., Na
estrada, eles cometem
assassinato, para Siquém).

Os 6.9

F. I Andersen rejeita o TM de # 12, que classifica gramaticalmente ‫ אדני‬como um vocativo,


porque “essa não é a forma usual com que Moisés se dirige a Yahweh” e “a oração seguinte
mostra que a fala ocorre na respeitável terceira pessoa, não na segunda”. D. N. Freedman
sugere que a base da frase no # 14 “provavelmente será encontrada na associação de mrkbtyk
e o precedente swsyk, como elementos coordenados numa frase composta introduzida por ʿl e
controlada por yšwʿh.”

p 141 9.4 Usos da Relaçāo Construto-Genitiva

a Dois substantivos justapostos podem formar uma frase construta em hebraico. Na


estrutura construto + genitivo, o genitivo modifica o construto, assim como na estrutura
substantivo + adjetivo atributivo, o adjetivo modifica o substantivo. Há três construções
inglesas aparentemente similares à frase construta hebraica, que pode ser útil rever: (a)
compostos substantivo-substantivo (‘windmill, ashtray, figtree, pigpen’), (b) ’s-genitivos
(Mose’s brother, Isaiah’s sign’), (c) genitivos perifrásticos (‘word of God, length of years). No
primeiro caso, a semelhança é superficial: a relação em hebraico de construto + genitivo é
essencialmente uma ligação inflexional, enquanto que o sistema inglês é muito menos
fecundo. Os dois genitivos ingleses são marcadamente análogos e dentre os dois, o genitivo
perifrástico é mais similar, visto que nele a palavra base vem primeiro; no ’s-genitivo (como em
compostos do tipo substantivo-substantivo) a palavra base vem em segundo lugar. Os
genitivos perifrásticos ingleses, na verdade, mostram a mesma complexidade de sentido
característica das cadeias construtas hebraicas. A frase ‘love of God’ (amor de Deus) ( ‫ַא ֲהבַּת‬
‫ )אֱֹלהִים‬é ambígua em ambas as línguas; ela tanto pode significar ‘O amor de Deus (por
alguém)’ ou ‘o amor (de alguém) por Deus’. Este exemplo ilustra a importância de se
estabelecer os possíveis significados do caso genitivo, às vezes chamado de “espécies de
genitivo”.

b Nas próximas seções estabelecemos uma classificação tradicional destas espécies, pela
qual apresentaremos as várias noções significadas por esta construção polissêmica (veja 3.2.3).
Por qual procedimento os gramáticos estabelecem essas classes de sentidos? E como um leitor
pode identificar as funções de um genitivo num texto específico? Nossa análise de
procedimento para identificação e classificação do genitivo (e outras construções gramaticais)
divide-se em três partes.

c Para explicar o procedimento, primeiro voltamos à distinção entre estrutura superficial e


estrutura subjacente (veja 3.5). Estruturas profundas possíveis são opções gramaticais
alinhando os elementos de uma situação. Em certas circunstâncias, alguém pode falar da idéia
de que Deus ama as pessoas com a oração prosaica ‘Deus ama as pessoas’; em outras
circunstâncias, alguém pode usar uma frase genitiva, ‘o amor de Deus pelas pessoas’ ou
mesmo ‘o amor de Deus’. As três estruturas de superfície são muito diferentes, mas elas
compartilham um alinhamento comum. É possível abrandar a ambigüidade na estrutura de
superfície através de decomposição; construções de superfície ambíguas, ou seja, construções
que podem estar associadas com estruturas profundas, são mais explícitas. No caso do
genitivo, isto pode ser feito pela reformulação da frase de construção genitiva numa oração ou
numa construção adjetiva. Assim, por exemplo, o ‘amor de Deus’ pode ser reformulado por
orações tendo Deus como o sujeito (‘Deus ama [algo ou alguém]’) ou como o objeto (‘[alguém
ou algo] ama Deus’) ou por uma frase adjetiva (Deus [-caracterizado por] amor’).
Semelhantemente, ‘a palavra de YHWH’ pode ser reformulada ou como ‘a palavra falada por
YHWH’ ou ‘YHWH falou a palavra’; em ambos os casos, YHWH é o agente. ‘Teus votos’ (cf. Sl
56.13) é equivalente a ‘votos que tu fizeste’, uma construção que esclarece que ‘tu’ qualifica o
‘fizeste’ p 142 implícito. Assim o genitivo ambíguo da estrutura de superfície pode ser
transformado em análogos gramaticais não ambíguos. Freqüentemente, uma vez que a
estrutura de uma frase hebraica tenha sido encontrada por uma decomposição, o genitivo
ambíguo pode ser mais bem traduzido em português por uma construção que não se apóie
sobre o geralmente rígido e ambíguo ‘de’; tais são as traduções, como as utilizadas na NVI, que
são citadas no que se segue.

d Tais decomposições pressupõem que o analista conheça tanto as opções gramaticais


disponíveis para substituir as estruturas de superfície ambíguas como seus usos. As opções são
aprendidas essencialmente do mesmo modo que alguém aprende o(s) sentido(s) de uma
palavra, a saber, inferindo a partir do uso. No caso de uma língua escrita com uma longa
tradição de estudo, o gramático pode fazer um uso crítico de uma respeitável herança.
Leitores de uma língua escrita devem constantemente estar alertas contra a aplicação
inadvertida de categorias conhecidas de sua própria língua à língua que estiver estudando.

e Continuamos o processo de decomposição pela atribuição de um rótulo semântico


abstrato (e um pouco arbitrário) aos vários tipos de genitivo, por exemplo, “genitivo de
autoria”, “genitivo objetivo”, “genitivo atributivo”. Nós, também, lhes atribuímos um rótulo
gramatical. Um genitivo pode ser analisado tanto como um sujeito (ou agente), quanto como
um modificador, e tanto como adverbial quanto adjetival.

f Vamos elucidar o procedimento de identificação do uso de uma frase genitiva pelo


contraste dos usos da frase portuguesa ‘amor de Deus’ nas orações: ‘Como o amor de Romeu
conquistou Julieta, assim o amor de Deus conquista pecadores’ e ‘Como o amor do dinheiro
inspira alguém, assim o amor de Deus inspira outros’. Como falantes do português sabemos
que ‘amor de alguém’ pode significar tanto ‘alguém amou [alguém]’ ou ‘[alguém] amou
alguém’. Aqui o amor de Romeu é um genitivo de agente (ou genitivo de sujeito), enquanto
que na segunda oração ‘amor do dinheiro’ deve ser um genitivo objetivo (ou adverbial). As
conjunções comparativas ‘como … assim’ mostram que ‘amor de’ está sendo usado do mesmo
modo em ambas as metades de cada oração; portanto, na primeira oração ‘amor de Deus’ é
um genitivo de agente (ou genitivo de sujeito) e na segunda um genitivo objetivo (ou
adverbial).

g Vamos agora considerar a mesma frase em outra oração: ‘Romeu amou Julieta com as
brasas queimando como fogo, com o amor de Deus, com a avidez da sepultura’. Aqui a
pertinência semântica sugere que o ‘amor de Deus’ significa ‘Deus [-caracterizado por] amor’,
um genitivo atributivo (ou adjetival). Como essa oração sugere, a criatividade entra em cena
ao introduzir novos usos e sentidos de formas. A criatividade não é absoluta, uma vez que
todos os falantes são controlados pelo que Otto Jespersen chamou de uma “latitude de
correção”. Para comunicar um falante deve ser regido pelos significados estabelecidos e
públicos dos lexemas, morfemas e estruturas gramaticais. Lewis Caroll imaginativamente
descreveu a tensão entre o significado público das palavras e dos morfemas versus o uso
particular deles.

“Há glória para você!” “Eu não sei o que você quer dizer com ‘glória’ ”, disse
Alice. Humpty Dumpty sorriu desdenhosamente. “Claro que não sabe – até
que eu lhe diga. Eu queria dizer que ‘há um argumento interessante imbatível
para você!’ ”. “Mas ‘glória’ não significa ‘um argumento interessante
imbatível’ ”, Alice objetou. “Quando eu uso uma palavra”, disse Humpty
Dumpy, num tom bastante desdenhoso, “ela significa exatamente o que eu
escolhi que ela significasse – nem mais nem menos”. p 143 “A questão”, disse
Alice, “é se você pode fazer as palavras significar coisas tão diferentes”. “A
questão”, disse Humpty Dumpty, “é quem será o senhor – isso é tudo”.

O gramático e o lexicógrafo estão do lado de Alice.

9.5 Espécies de Genitivo

a A frase genitiva ou cadeia construta substantivo-substantivo é “imensamente versátil e


difícil de trabalhar”. Os tipos principais de cadeia construta podem ser distinguidos: subjetivo,
adverbial e adjetival. No que se segue, C designa o construto, a base, ou o primeiro termo da
cadeia e G o genitivo, absoluto, ou segundo termo.
9.5.1 Genitivo Subjetivo

a Nos diversos tipos de frases genitivas subjetivas, o termo genitivo tem um papel de
sujeito subjacente, como em inglês ‘the boy’s leaving’ (a partida do menino) implicando ‘The
boy left’ (O menino partiu). Em hebraico um genitivo subjetivo pode ter uma estrutura
basicamente verbal ou possessiva/qualitativa.

b Num genitivo de agência, G realiza a ação descrita por C (ativo, ## 1–3; passivo, # 4).

1. ‫לָתֵּ ת נִ ְקמַּת־יהוה ְב ִמדְ י ָן׃‬para


executar niqmâ de YHWH
contra Midian

Nm 31.3

2. ‫שנְַאת יהוה א ֹתֶָּ֫ נּו‬


ִ ‫ ְב‬porque YHWH nos aborrece
Dt 1.27

3. ‫ִשראֵּל‬
ָ ‫בְַא ֲהבַּת יהוה ֶאת־י‬porque YHWH ama a Israel
1Rs 10.9

4. ‫ ֻמכֵּה אֱֹלהי ִם‬ferido por Deus


Is 53.4

c Uma forma particular de agência está incluída na fala e na escrita e o genitivo de autoria
denota que G escreveu, falou ou, de outra maneira, originou C.

5. ‫דִ ֶַּּ֫ב ְרתִ י דְ ב ָ ָ֑רי‬Eu tenho dito minhas palavras.


Gn 24.33

6. ‫ ָהי ָה דְ בַּר־יהוה ֵּאלָיו‬A palavra de YHWH veio a ele.


Jr 1.2

7. ‫דִ ב ְֵּרי לְמּואֵּל‬As palavras segundo Lemuel


Pv 31.1
8. ‫ ַּמשְַאת מֹשֶה‬O imposto determinado por
Moisés

2Cr 24.6

p 144 d Um agente ou autor é animado; o análogo inanimado ao papel do agente é o do


instrumento. Um genitivo de instrumento envolve a relação G é o instrumento de C. (Veja
9.5.2d.)

9. ‫ֹלא ַּח ְללֵּי־ ֶֶּ֫ח ֶרב וְֹלא ֵּמתֵּ י‬não mortos pela espada nem
‫ ִמ ְל ָחמָה׃‬mortos por meio da guerra
Is 22.2

10. ‫ ַּמ ֲחלִיק ַּּפטִיש‬ele que poli com um martelo


Is 41.7

11. ‫ש ֻרפֹות ֵּ ֑אש‬


ְ ‫ע ֵָּריכֶם‬Suas cidades são abrasadas com
fogo

Is 1.7

12. ‫ ְטמֵּא־ ֶֶּ֫נפֶש‬impuro


por (razão de contato
com) um cadáver

Lv 22.4

e Um genitivo subjetivo não pode envolver nem o agente e nem o instrumento, mas uma
motivação ou intenção. Num genitivo subjetivo abstrato, G denota uma ação verbal afetando
C. (A frase ‫חמָה‬
ָ ‫ִמ ְל‬ ‫ ֵּמתֵּי‬em # 9 pode pertencer a esta classificação).
13. ‫ש ֶַּּ֫לחְתָ ֶאת־אִיש־ח ְֶרמִי ִמּי ָ֑ד‬
ִ você
tem libertado o homem
que eu tinha determinado que
deveria morrer (lit., homem da
minha dedicação consagrado
para a morte)
1Rs 20.42

14. ‫ ְועַּל־עַּם ֶעב ְָרתִ י ֲאצ ֶֶַּּּ֑֫ונּו‬Eu os envio contra o povo que
incorre em meu furor (lit., um
povo de meu furor)

Is 10.6

15. ‫שבְנּו כְצ ֹאן ִט ְבחָה׃‬


ַּ ֶּ֫ ‫נֶ ְח‬Nós
somos considerados como
ovelhas para o matadouro (lit.,
como ovelhas de sacrifício)

Sl 44.23

16. ‫ ַּוּיַּנְחֵּם אֶל־ ְמחֹוז ֶח ְפצָם׃‬E ele os guiou ao porto


desejado (para o porto do seu
desejo).

Sl 107.30

O sentido do abstrato pode ser passivo, caso em que C é afetado por C.

17. ‫מְכ ֹר ֹתֶַּּ֫ י ְִך ּומֹלְד ֹתֶַּּ֫ י ְִך ֵּמ ֶֶּ֫א ֶרץ‬Tua linhagem e teu nascimento
‫הַּ ָֽ ְכנַּ ֲע ִנ֑י‬procedem da terra de Canaã
Ez 16.3

f Um genitivo temporal envolve uma ação verbal G associada com um tempo C


(freqüentemente ‫)יֹום‬.

18. ‫יֹום מְהּומָה ּומְבּוסָה ּומְבּוכָה‬O Senhor YHWH Ṣbʾwt tem um

‫לַּאדֹנָי יהוה ְצבָאֹות‬dia de alvoroço, de


atropelamento e terror (i.e., O
Senhor … trará alvoroço, etc.,
em um dia determinado).

Is 22.5
p 145 19. ‫ ְו ַּה ְקדִ שֵּם לְיֹום ה ֲֵּרגָה׃‬Destina-os
para o dia de
matança (i.e., eles serão mortos
em um determinado dia).

Jr 12.3

g Em contraste com o caráter basicamente verbal dos tipos de genitivo que acabamos de
esboçar está a qualidade não-verbal de outros genitivos subjetivos. Num genitivo possessivo, G
possui ou tem C; as relações envolvidas podem ser muito diferentes.

20. ‫ ֵּבית יהוה ְו … בֵּית ַּה ֶֶּ֫מלְֶך׃‬o templo de YHWH e a casa do


rei

1Rs 9.10

21. ‫ּוזֲהַּב ָה ֶָּ֫א ֶרץ ַּההִיא טֹו֑ ב‬O ouro dessa terra é bom
Gn 2.12

22. ‫ ָח ְכ ַּמת שְֹלמ ֹה‬a sabedoria de Salomão


1Rs 5.10

h Um genitivo de possessão inalienável refere-se a algo intrinsecamente próprio ao seu


possuidor, principalmente as partes do corpo. (O exemplo # 22 pode pertencer a esta
classificação).

23. ‫דְ מֵּי ָא ִֶּ֫חיָך‬o sangue de teu irmão


Gn 4.10

24. ‫ל ְִרח ֹץ … ַּרגְלֵּי ָה ֲאנָשִים‬lavar … os pés dos homens


Gn 24.32

i Se relações humanas estão envolvidas, o genitivo é próprio de relação; essas ligações


podem envolver tanto parentescos quanto outras estruturas sociais.
25. ‫י ַּ ֲעז ָב־אִיש ֶאת־ָאבִיו ְו ֶאת־ ִא ֑מֹו‬Um homem deixará seu pai e

‫שתו‬ ְ ‫וְדָ בַּק ְב ִא‬sua


mãe e se unirá à sua
mulher.

Gn 2.24

26. ‫ ְבנִי ַּ ֑אתָ ה‬Tu és meu filho


Sl 2.7

27. ‫מֹשֶה ֶֶּ֫עבֶד־יהוה‬Moisés, o servo de YHWH


Js 12.6

28. ‫שכִיל ַּעב ִ ְ֑די‬


ְ ַּ ‫י‬Meu servo agirá sabiamente.
Is 52.13

29. ‫ִשראֵּל‬
ָ ‫נִ ֲאצּו ֶאת־ ְקדֹוש י‬Eles rejeitaram o Santo de Israel
Is 1.4

j O genitivo de qualidade denota que G tem a qualidade de C; tais frases usualmente


envolvem pessoas.

p 146 30. ‫ ַּויְהִי ַּכנָהָר שְלֹו ֶֶּ֫מָך ְוצִדְ ָקתְָך‬Tua paz teria sido como um rio,
‫ ְכגַּלֵּי ַּהּי ָם׃‬tua justiça como as ondas do
mar.

Is 48.18

k A referência inanimada de um genitivo partitivo é geralmente uma substância que pode


ser dividida: G é dividido em (partes, incluindo) C.

31. ‫ ַּוּי ִ ַּקח מֹשֶה ֲחצִי הַּדָם‬Moisés tomou a metade do


sangue.

Êx 24.6
9.5.2 Genitivo Adverbial

a Os diversos tipos de genitivos adverbiais incluem o objeto, direto ou indireto, da ação


verbal subjacente, como em português ‘a captura do rei’, implicando ‘alguém capturou o rei’.
Em hebraico, genitivos adverbiais podem ser classificados de acordo com a relação existente
entre o verbo e o objeto.

b No genitivo objetivo, o genitivo é o objeto (direto) da ação verbal essencial, isto é, grosso
modo, C faz G.

1. ‫שכֵּי הֶ ָֽעָֹון‬
ְ ֹ ‫מ‬os que puxam pela iniqüidade
Is 5.18

2. ‫ ַּמצְדִ יקֵּי ָרשָע‬os que justificam o culpado


Is 5.23

c No genitivo de efeito a relação entre C e G é do tipo diretamente causativo, isto é, grosso


modo, C causa G.

3. ‫רּו ַּח ָח ְכמָה ּובִינָה‬o espírito de sabedoria e


entendimento (i.e., o espírito
que causa sabedoria)

Is 11.2

4. ‫ ֻק ֶַּּ֫בעַּת … הַּתַּ ְר ֵּעלָה‬o cálice que causa cambaleio


Is 51.17

5. ‫מּוסַּר שְלֹו ֵֶּּ֫מנּו‬o castigo que nos trouxe a paz


Is 53.5

d A relação entre o genitivo e o verbo implícito pode ser do tipo usualmente mediado por
uma preposição; o genitivo de um objeto mediado envolve a relação C faz para / por / com G.
p 147 6. ‫ש ֻבעַּת יהו֑ ה‬
ְ o juramento a YHWH
1Rs 2.43

7. ‫ ָעלַּי אֱֹלהִים נְדָ ֶריָך‬Eu estou debaixo de teus votos


para ti, ó Deus.

Sl 56.13

8. ‫ ֲח ָמסִי ָע ֶֶּ֫ליָך‬A minha injustiça me seja feita


sobre ti.

Gn 16.5

9. ‫ְַארתְ ָך‬
ְ ‫ֹלא תִ ְהי ֶה תִ פ‬a honra não será tua (i.e.,
determinada a você)

Jz 4.9

10. ‫עַּד־מֶה כְבֹודִ י ִל ְכ ִלמָה‬Até quando a glória


[depositada] sobre mim servirá
como um opróbrio?

Sl 4.3

11. ‫ ֶֶּ֫א ֶרץ זָבַּת ָחלָב ּודְ בָש׃‬uma terra fluindo com leite e
mel

Dt 6.3

e Um genitivo especial deste tipo é o genitivo de vantagem (ou desvantagem), no qual G é


o recipiente ou beneficiário de uma ação favorável (ou desfavorável) denotada por C.

12. ‫נִ ְקמַּת הֵּיכָלֹו׃‬niqmâ por causa de seu templo


Jr 50.28
13. ‫ ֵֶּּ֫אבֶל יָחִיד‬lamentando por um filho único
Am 8.10

14. ‫ ֲחמַּס ָא ִֶּ֫חיָך‬violência contra seu irmão


Ob 10

15. ‫ ֵֶּּ֫אי ַּמת ֶּ֑֫ ֶמלְֶך‬medo devido a um rei


Pv 20.2

16. ‫ ֶֶּ֫לחֶם ַּה ֶֶּּ֫פחָה‬o pão devido ao governador


Ne 5.14

17. ‫כִי־אִיש ִמ ְלחֲמֹות ֶּ֫תעִי ָהי ָה‬Hadade-Ezer foi experiente em


‫הֲדַּ דְ ָ ֑עז ִר‬batalhas contra Toi (i.e., *Um
homem de guerras que tinham
sido lutadas contra Toi foi
Hadade-Ezer).

2Sm 8.10

f O genitivo de localização designa que G é a localização ou o alvo de C; estes genitivos são


alternativos às várias construções preposicionais. Se a frase se refere a uma localização, a
construção preposicional básica é usualmente composta de ‫ב‬
ְ e não existe qualquer verbo de
movimento implícito.

p 148 18. ‫שבֵּי גִבְעֹון‬


ְ ‫י‬os que moram em Gibeão
Js 9.3

19. ‫ ִג ְבעַּת ִבנְיָמִין‬Gibeá em Benjamin


1Sm 13.2
20. ‫ש ְלחַּן אִי ֶָּ֫זבֶל׃‬
ֻ ‫א ֹ ְכלֵּי‬Comendo à mesa de Jezabel
1Rs 18.19

21. ‫שכֶר ַאגְמֵּי־ ֶָּ֫נפֶש׃‬


ֶ ֶּ֫ ‫כָל־עֹשֵּי‬Todosos assalariados estarão
doentes em espírito

Is 19.10

Se a frase se refere a um alvo, há um verbo de movimento, explícito ou implícito.

22. ‫שעַּר־עִירֹו‬
ַּ ֶּ֫ ‫ ָבאֵּי‬que entram no portão de sua
cidade

Gn 23.10

23. ‫קְרֹבַּי‬os que vêm perto de mim


Lv 10.3

24. ‫ ָבאֵּי מֹועֵּד‬quem venha ao banquete


Lm 1.4

25. ‫ ֶּ֫ש ֹ ְכבֵּי ֶֶּ֫קבֶר‬Estado na tumba


Sl 88.6

26. ‫שבֵּי ֶֶּּ֫פשַּע‬


ָ ‫ ְל‬Os que se convertem do pecado
Is 59.20

27. ‫דֶ ֶרְך עֵּץ ַּה ַּחּי ִים׃‬ocaminho para a árvore da


vida

Gn 3.24
28. ‫יֹורדֵּ י־בֹור‬
ְ os que descem à cova
Is 38.18

É difícil sustentar uma rígida distinção entre o alvo e a localização.

9.5.3 Genitivo Adjetival

a Em frases genitivas adjetivais, o construto e o genitivo modificam um ao outro, um


especificando as características do outro. Em português, estruturas semânticas comparáveis
muitas vezes envolvem adjetivos ou, menos freqüentemente, substantivos compostos;
genitivos geralmente não são usados. Contudo, exemplos não são raros: ‘um homem de
muitos talentos’, cf. ‘uma mulher multitalentosa’; ‘um casaco de lã’, cf. ‘uma camisa de
algodão’; ‘a cidade de Laquis’, cf. ‘a área de Bete-Seã’. As expressões hebraicas de atribuição,
substância e sociedade de classe freqüentemente usam construtos.

p 149 O maior grupo de genitivos adjetivais refere-se a uma característica ou qualidade de


alguma coisa. O tipo mais comum desses é o genitivo atributivo, no qual C é caracterizado por
G; em português, tais frases são freqüentemente traduzidas com G como um adjetivo de C.

1. ‫ּו ִבגְדֵּ י ה ֶַּּ֫ק ֹדֶש‬vestuários sagrados


Êx 29.29

2. ‫גִבֹות ֶַּּ֫חי ִל‬guerreiro valoroso


Jz 11.1

3. ‫ ַּמ ְלכֵּי ֶֶּ֫חסֶד‬reis misericordiosos


1Rs 20.31

4. ‫ ַּא ֶֶּּ֫ילֶת ֲא ָהבִים‬Corça amada


Pv 5.19

5. ‫ ְונָ ַּתתִ י לְָך … אֵּת כָל־ ֶֶּ֫א ֶרץ‬Eu darei a ti… toda
a terra de
ָ ‫ ְכ ֶַּּ֫נעַּן ַּל ֲא ֻחז ֵּת‬Canaã como uma
‫עֹול֑ם‬ posse de
perpetuidade (i.e., como uma
possessão perpétua)
Gn 17.8

6. ‫מ ֹאזְנֵּי ֶֶּ֫צדֶ ק ַא ְבנֵּי־ ֶֶּ֫צדֶ ק … י ִ ְהי ֶה‬Balanças de retidão, pedras de

‫ל ֶ ָ֑כם‬retidão… tu terás (i.e., use


balanças honestas).

Lv 19.36

7. ‫ ְבעִיר אֱֹל ֵֶּּ֫הינּו הַּר־ ָקדְ שֹו׃‬nacidade de nosso Deus, no


seu santo monte

Sl 48.2

Relacionado de um modo próximo a esse genitivo atributivo está o uso do genitivo em


expressões idiomáticas convencionais de formas construtas de ‫‘ אִיש‬homem’ (## 8–9), ‫ֶַּּ֫בעַּל‬
‘senhor, possuidor’ (## 10–12), ‫‘ בֶן‬filho de’ (## 13–14), ou seus equivalentes femininos ou
plurais, com algum tipo de substantivo no caso genitivo para representar a natureza,
qualidade, caráter ou condição de (uma) pessoa(s). Essas locuções suplementam o escasso
estoque de adjetivos em hebraico. As expressões idiomáticas em inglês preferem que essas
construções sejam traduzidas por um adjetivo.

8. ‫אִיש הַּדָ מִים ְואִיש ַּה ְב ִל ֶָּּ֫יעַּל׃‬Fora


daqui, fora, homem de
sangue (lit., homem de sangue,
homem de Belial)

2Sm 16.7

9. ‫ָאנ ֹכִי‬
ֶּ֫ ‫ֹלא אִיש דְ ב ִָרים‬Eu nunca fui um homem
eloqüente (lit., homem de
palavras).

Êx 4.10

10. ‫ ִהנֵּה ֶַּּ֫בעַּל ַּהחֲֹלמֹות ַּה ָלז ֶה בָא׃‬Aqui vem aquele sonhador (lit.,
o possuidor de sonhos).

Gn 37.19
p 150 11. ‫ ַּבקְשּו־לִי ֵֶּּ֫אשֶת ַּב ֲעלַּת־אֹוב‬Ache-me uma mulher, uma
possesora de um espírito (ou,
uma mulher que é um médium).

1Sm 28.7

12. ‫ ְוהֵּם ַּב ֲעלֵּי ב ְִרית־ַאב ְָרם׃‬Eles eram aliados de Abrão (lit.,
possuidores de uma convenção
de Abrão).

Gn 14.13

13. ‫כִי בֵּן־ ֶָּ֫מוֶת הּוא׃‬Ele é um filho de morte (i.e., Ele


tem que morrer).

1Sm 20.31; cf. 1Rs 2.26

14. ‫אִם י ִ ְהי ֶה ְלבֶן־ ֶַּּ֫חי ִל‬Se ele for um filho de virtude
(i.e., Se ele se mostrar um
homem digno)…

1Rs 1.52

Mais especificamente ‫ בֶן‬é usado em expressões de idade.

15. ‫וְַאב ְָרהָם בֵּן־מְַאת ש ָָנ֑ה‬Abraão tinha agora cem anos


de idade

Gn 21.5

16. ‫שנָה י ִ ְהי ֶה ל ֶ ָ֑כם‬


ָ ‫שֶה … זָכָר בֶן־‬O animal que você escolhe deve
ser um… macho de um ano.

Êx 12.5

Expressões semelhantes indicam a relação de um indivíduo com uma classe de seres.


17. ‫בֵּן־ָאדָ ם‬Ó Filho do homem (i.e., Ó,
humano)

Ez 2.1, etc.

18. ‫ ְבנֵּי־ ָהאֱֹלהִים‬filhos de Deus (i.e., seres


divinos)

Jó 1.6

19. ‫ ְוק ַָּרבְתָ מּול ְבנֵּי עַּמֹון‬e chegarás até defronte dos
filhos de Amon (i.e, os
amonitas).…

Dt 2.19

Num genitivo atributivo, um sufixo pronominal é afixado ao genitivo, mas usualmente modifica
toda a cadeia.

20. ‫הַּר־ ָקדְ שִי‬minha santa colina


Sl 2.6

21. ‫אֶֹלהֵּי צִדְ קִי‬meu Deus íntegro


Sl 4.2

22. ‫ש ֶֶּ֫עָך‬
ְ ִ ‫וַּתִ תֶ ן־לִי ָמגֵּן י‬Tu
me deste teu escudo de
vitória (não o escudo de tua
salvação, AV)

Sl 18.36

p 151 23. ‫תְ פִילָה ְלאֵּל ַּחּי ָי‬uma oração para o meu Deus
vivo (não o Deus da minha vida)

Sl 42.9
c Num genitivo atributivo, C é caracterizado por G; a relação oposta é também encontrada,
no genitivo epexegético, em que G é caracterizado por C. Muitas frases epexegéticas podem
ser traduzidas pelos genitivos –de; observe a frase ‘duro de coração’, cf. ‘desumano’. O sentido
pode também ser transmitido pela glosa ‘igualmente’, ou ‘com referência a’, por exemplo,
‘duro com referência aos pescoços deles/delas’; este é o significado do termo “epexegético.”

24. ‫עַּם־ ְקשֵּה ֶּ֫ע ֹ ֶרף‬povode dura cerviz (lit., duro-


de-pescoço)

Êx 32.9

25. ‫ ְו ַּהנַּע ֲָרה טֹבַּת מ ְַּראֶה מְא ֹד‬A


moça era muito bonita (lit.,
boa de aparência).

Gn 24.16 Qere

26. ‫ ַּויְהִי יֹוסֵּף יְפְה– ֶּ֫ת ַֹאר‬José era formoso


de aparência
(ou, bem delineado).

Gn 39.6

27. ‫ ַּהּפָרֹות ָרעֹות ַּהמ ְַּראֶה‬as vacas que eram feias (lit.,
ruins de aparência)

Gn 41.4

28. ‫שכֶל וִיפַּת ֶּ֫ת ַֹאר‬ ֶ ֶּ֫ ‫ ְו ָה ִאשָה טֹובַּת־‬A mulher era muito prudente e
‫ ְו ָהאִיש … ַּרע ַּמ ֲע ָללִים‬bonita de aparência, mas o
homem era… mau em suas
ações.

1Sm 25.3

29. ‫שפָתֶַּּ֫ י ִם‬


ְ ‫ ְטמֵּא־‬impuro de lábios
Is 6.5

30. ‫ ֶֶּ֫א ֶרְך ַּא ֶַּּּ֫פי ִם‬paciente (lit., comprido como as


narinas, as fontes de raiva)
Êx 34.6

Essa representação simétrica dos genitivos atributivos e epexegéticos não devem obscurecer o
fato de que os atributivos são muito mais comuns.

d Os tipos restantes de genitivos adjetivos envolvem uma grande variedade de relações.


Três delas podem ser chamadas genitivos de substância, a saber, de material, de tópico e de
medida. O genitivo de material indica o material de que algo é feito ou com o qual é cheio, a
saber, C é feito de G.

31. ‫ ִמז ְבַּח ֲא ָדמָה‬um altar de terra


Êx 20.24

32. ‫ִי־ח ֶרש‬


֑ ֶָּ֫ ‫ ְכל‬um vaso de barro
Nm 5.17

33. ‫שבֶט ב ְַּר ֶז֑ל‬


ֵּ ֶּ֫ um cetro de ferro
Sl 2.9

34. ‫ ְכלֵּי ֶכסֶף‬vasos de prata


1Rs 10.25

p 152 35. ‫לְשֹון זָהָב‬cunha de ouro


Js 7.21

36. ‫ ַּוּי ִ ַּקח יִשַּי חֲמֹור ֶֶּ֫לחֶם וְנ ֹאד ֶַּּ֫יי ִן‬Assim
Jessé levou um burro
carregado com alimento e um
odre de vinho.

1Sm 16.20

e O genitivo tópico especifica o tópico de um discurso ou algo equivalente, a saber, C é


acerca de G.
37. ‫ ַּמשָא ב ֶ ָ֑בל‬oráculo acerca de Babilônia
Is 13.1

38. ‫שמַּע צ ֹר‬


ֵּ ֶּ֫ a notícia acerca de Tiro
Is 23.5

39. ‫ז ַּ ֲעקַּת סְד ֹם ַּועֲמ ָֹרה‬o clamor contra Sodoma e


Gomorra

Gn 18.20

f Num genitivo de medida, uma contagem é especificada juntamente com o termo


contado, a saber, G é medido em C. Além de números, quantificadores gerais como ‫‘ כ ֹל‬todo’
e ‫‘ ר ֹב‬multidão’ são freqüentes em tais genitivos, como são as medidas em si.

40. ‫שת יָמִים‬


ֶ ‫ש ְֶּ֫ל‬três dias
Gn 40.18

41. ‫ ֶַּּ֫מי ִם עַּל־ ְּפנֵּי כָל־ה ֶּ֫ ָ ָ֑א ֶרץ‬havia


água em toda (a
superfície) da terra.

Gn 8.9

42. ‫אֵּל … ַּרב־ ֶֶּ֫חסֶד ֶו ֱא ֶמת׃‬um Deus… abundante em


misericórdia e verdade

Êx 34.6

43. ‫ֹלג ה ָ ַּ֑שמֶן‬o (comum) logue de óleo


Lv 14.12
g Quatro tipos adicionais de genitivos envolvem classes e a inter-relação de uma classe
com um indivíduo ou de uma classe (a super ordenada) e de uma subclasse (a subordinada).
No genitivo de espécie, a classe designada pelo construto (C) é reduzida a uma subclasse (i.e.,
“espécies”) indicada por G. Assim, no # 45 o construto inclui todos os trabalhadores e o
genitivo serve para marcar um grupo individual de trabalhadores, ‘aqueles que trabalham em
madeira’.

44. ‫ֵּי־ג ֹפֶר‬


ֶּ֫ ‫ ֲעצ‬madeira de Gôfer
Gn 6.14

45. ‫ח ָָרשֵּי עֵּץ‬trabalhadores em madeira


2Sm 5.11

46. ‫תְ ֵּאנֵּי ַּה ַּבכֻרֹות‬figos


das primeiras frutas (lit.,
figos temporãos)

Jr 24.2

p 153 47. ‫ ֻעגַּת ְר ָצפִים‬bolos assados em pedras


quentes

1Rs 19.6

48. ‫ ֲא ֻחז ַּת־ ֶֶּ֫קבֶר‬local de enterro


Gn 23.4

49. ‫ ֶֶּ֫ז ַּרע מ ְֵּרעִים‬uma ninhada de malignos


Is 1.4

h No genitivo de associação, o indivíduo G pertence à classe de C; embora ‘de’ seja bem


estabelecido em traduções de tais frases, ele é quase sempre exigido em português.

50. ‫נְהַּר־ּפ ְָרת‬Rio Eufrates


Gn 15.18
51. ‫ ֶֶּ֫א ֶרץ ִמצ ְֶַּּ֫רי ִם‬a terra [do] Egito
Êx 7.19

52. ‫גַּן־ ֵֶּּ֫עדֶן‬o jardim [do] Êden


Gn 2.15

53. ‫בְתּולַּת יִש ְָראֵּל‬a virgem [de] Israel


Am 5.2

54. ‫מְקֹום ּפְֹלנִי ַאלְמֹונִי׃‬tal e tal lugar


1Sm 21.3

i Em outros genitivos de classe, o elemento subordinado (C) precede o elemento super


ordenado (G). No genitivo de gênero e no genitivo superlativo, o individual está no construto e
a classe mais ampla à qual ele pertence é o genitivo. No genitivo de gênero, C pertence à classe
de G.

55. ‫ַּף־רגְלָּה‬
ַּ ‫כ‬a planta de seu pé
Gn 8.9

56. ‫צ ֹאן ָאדָ ם‬rebanhos de homens


Ez 36.38

57. ‫ ֶּ֫א ֹהֶל בֵּיתִ י‬minha casa de tenda


Sl 132.3

58. ‫ּו ְכסִיל ָאדָ ם בֹוז ֶה ִאמֹו׃‬Um bobo de um homem (i.e.,


um homem tolo) menospreza a
sua mãe.
Pv 15.20

59. ‫ ֲעלִיֹלת דְ ב ִָרים‬trama envolvendo palavras (i.e.,


qualquer calúnia)

Dt 22.14

p 154 60. ‫ …וְֹלא־י ְִראֶה בְָך ע ְֶרוַּת דָ בָר‬de forma que ele não veja em
ti alguma forma de indecência
(i.e., qualquer coisa indecente)

Dt 23.14

j Semelhante é a construção usada para o genitivo superlativo. Um superlativo pode


envolver duas realizações de um único substantivo, a primeira um singular construto e a
segunda um plural genitivo; ou dois substantivos diferentes podem ser usados.

61. ‫ ֶּ֫ק ֹדֶ ש ָקדָֽ שִים‬mais santo


Êx 29.37

62. ‫ ֶֶּ֫עבֶד ֲעבָדִ ים‬um servo dos servos (i.e., um


servo desprezível)

Gn 9.25

63. ‫ִירים‬
ִ ‫שִיר ַּהש‬o Cântico dos Cânticos (i.e., a
Canção mais escolhida)

Ct 1.1

64. ‫אֱֹלהֵּי ָהאֱֹלהִים ַּו ֲאדֹנֵּי ָה ֲאד ֹ ִנ֑ים‬o Grande Deus e o Supremo
Senhor

Dt 10.17

65. ‫ ִמ ְבחַּר ְקבָדֵֶּּ֫ ינּו‬a mais escolhida de nossas


sepulturas

Gn 23.6

66. ‫ ְקט ֹן ָבנָיו‬o mais moço de seus filhos


2Cr 21.17

k Esta discussão pode ser resumida pela divisão dos genitivos adjetivais em duas classes.
No primeiro grupo o construto é o elemento modificado, e o genitivo o modificador:

atributivo C é caracterizado por G ‫הַּר־ ָקדְ שֹו‬## 7, 20

material C é feito de G ‫שבֶט ב ְַּרז ֶל‬


ֵּ ֶּ֫ # 33

tópico C é acerca de G ‫ ַּמשָא ָבבֶל‬# 37

espécie C é especificado por G ‫ח ָָרשֵּי עֵּץ‬# 45

associação C é associado com G ‫ ֶֶּ֫א ֶרץ ִמצ ְֶַּּ֫רי ִם‬# 51

O construto é o modificador e o genitivo é o elemento modificado no segundo grupo:

epexegético G é caracterizado por C ‫ֵּה־ע ֹ ֶרף‬


ֶּ֫ ‫ ְקש‬# 24

medida G é medido em C ‫שת יָמִים‬


ֶ ‫ש ְֶֹּ֫ל‬# 40

gênero G é especificado por C ‫ ְכסִיל ָאדָ ם‬# 58


superlativo G é especificado pelo ‫ְקט ֹן ָבנָיו‬
melhor

(ou o maior) de C # 66

p 155 9.6 Estado Construto diante de Frases e Orações

a O caso genitivo é costumeiramente uma característica de um único substantivo ou


pronome, mas, como mencionado antes, dois substantivos podem estar associados como um
no encaixe genitivo, após um construto (9.3b). É também possível que frases preposicionais e
mesmo orações inteiras se situem após um construto; estes componentes são então tratados
como um único substantivo (cf. 4.4.1).

b Uma frase preposicional situa-se com mais freqüência após um particípio construto, um
uso semelhante ao genitivo de objeto direto; numa frase comum a preposição é omitida
(9.5.2), enquanto que nestas construções ela é mantida.

1. ‫ָל־חֹוסֵּי בֹו׃‬
ֶּ֫ ‫כ‬Todos os que nele se refugiam.
Sl 2.12

2. ‫שבֵּי ְב ֶֶּ֫א ֶרץ ַּצ ְל ֶָּ֫מוֶת‬


ְ ֹ ‫י‬os
que habitavam na terra da
sombra de morte

Is 9.1

3. ‫שדֶָּ֫ י ִם׃‬
ָ ‫גְמּולֵּי ֵּמ ָחלָב עַּתִ יקֵּי ִמ‬Aos desmamados de leite e aos
que foram afastados dos seios
maternos

Is 28.9

Outros substantivos podem ficar no construto antes de uma frase preposicional; ‫ֶַּּ֫אחַּד‬
regularmente rege uma frase partitiva com ‫מִן‬.

4. ‫ש ְמחַּת ַּב ָקצִיר‬


ִ Alegram-se no tempo da ceifa
Is 9.2
5. ‫ ַּהאֱֹלהֵּי ִמקָר ֹב ֶָּ֫אנִי … וְֹלא‬Acaso, sou Deus apenas de
‫אֱֹלהֵּי מ ֵָּרח ֹק׃‬perto… e não também de
longe?

Jr 23.23

6. ‫ ַּקח־נָא ִאתְ ָך ֵּאת־ַאחַּד‬Toma agora contigo um dos

‫ ֵּמ ַּהנְע ִָרים‬servos


1Sm 9.3

c Uma oração pode situar-se após um substantivo construto. Às vezes o construto tem
uma força preposicional. Por exemplo, ‫ ֶַּּ֫אחַּר‬é um substantivo significando ‘parte posterior’,
porém, ocorre mais freqüentemente em um plural construto, como uma preposição apenas
(‫‘ ַאח ֲֵּרי‬depois’; 11.2.1), ou com outras preposições (‫‘ מֵַּאח ֲֵּרי‬depois de, por detrás’; 11.3.3),
ou como uma conjunção (‫אשֶ ר‬
ֲ ‫ַאח ֲֵּרי‬, veja, p. ex., Dt 24.4; cf. Cap. 38.7); assim, ‫ ַאח ֲֵּרי‬está
bem estabelecida como uma preposição. Semelhantemente, ‫ י ָד‬na frase ‫בי ָד‬ ְ , embora seja um
substantivo construto, pode ser considerado parte de uma preposição complexa. Em casos
oracionais em que o substantivo construto não pode ser considerado uma preposição ou parte
de uma preposição, orações relativas são mais comuns, ainda que ocorram outros tipos de
orações subordinadas.

p 156 dEncontramos, também, orações relativas após construtos usados


preposicionalmente; nestes três exemplos, a oração relativa é assindética (ou acéfala, i.e.,
carece de um pronome relativo).

7. ‫וְַאח ֲֵּרי ֹלא־יֹו ִֶּ֫עלּו ָה ֶָּ֫לכּו׃‬eles seguiram após (desses que)


não podem agir.

Jr 2.8

8. ‫שלָח׃‬
ְ ִ‫שלַּח־נָא ְבי ַּד־ת‬
ְ Envie (tua mensagem) pela mão
daquele (a quem) tu hás de
enviar.

Êx 4.13
A oração relativa pode ser usada após um substantivo construto sem força preposicional
alguma; # 10 usa um pronome relativo.

9. ‫ ִק ְרי ַּת ָחנָה דָ ִו֑ד‬a cidade (onde) David


estabeleceu

Is 29.1

10. ‫ ַּוּי ִתְ ֵֶּּ֫נהּו אֶל־בֵּית ה ֶַּּ֫ס ֹהַּר מְקֹום‬E o


lançou no cárcere, o lugar

‫ֲסּורים‬
֑ ִ ‫ִירי ַּה ֶֶּ֫מלְֶך א‬
ֵּ ‫שר־ ֲאס‬ ֶ ‫ ֲא‬no qual os presos do rei
estavam encarcerados.

Gn 39.20 Qere

e O construto também pode ser usado antes de orações não-relativas, se for ( ‫)אחרי‬
preposicional ou semi-preposicional (‫)כל־ימי‬.

11. ‫ַאח ֲֵּרי נִ ְמכַּר‬Depois de haver-se vendido


Lv 25.48

12. ‫וְֹלא־ ָפ ֶַּּ֫קדְ נּו מ ְֶּ֫אּומָה כָל־יְמֵּי‬Não encontramos nenhuma


ָ ‫הִתְ ַּה ֶַּּ֫לכְנּו ִאתָ ם ִבהְיֹותֵֶּּ֫ נּו ַּב‬falta em todos os dias-em-que-
‫שדֶ ה׃‬
convivemos com eles, quando
estávamos no campo.

1Sm 25.15

Também é possível para um construto sem força preposicional situar-se antes de uma oração
não-relativa. Essa construção é extremamente rara.

13. ‫ְהֹוש ַּע‬


֑ ֵּ ‫תְ ִחלַּת דִ בֶר־יהוה ב‬O começo de palavra de YHWH
por meio de Oséias

Os 1.2

9.7 Determinação e Perífrase


a O tema da determinação (definibilidade/indefinibilidade) será tratado em detalhe no
Capítulo 13, mas um aspecto dele deve ser mencionado aqui. Em hebraico, a definibilidade de
um substantivo e de seus modificadores concorda entre si. Com adjetivos atributivos e
demonstrativos isto é exibido pelo uso do artigo tanto no p 157 substantivo como no adjetivo:
‫שמִיני‬
ְ ‫‘ הַּּיֹום ַּה‬oitavo dia’, ‫‘ הַּּיֹום ַּהזֶה‬este dia’. Numa cadeia construta, o construto nunca
poderá ser prefixado com o artigo. A definibilidade do genitivo especifica a exatidão da frase.
Se o genitivo é indefinido, a frase é indefinida.

1. ‫אִיש ִמ ְל ָחמָה‬um soldado (lit., um homem de


guerra)

Js 17.1

2. ‫ַּר־שקֶר‬
ָ ֶּ֑֫ ‫דְ ב‬Uma mentira (lit., uma palavra
de falsidade)

Pv 29.12

Se o genitivo é definido, a frase é definida; o genitivo pode ser definido por levar o artigo ou
um sufixo ou porque é um nome.

3. ‫ ְבנֵּי ַּה ֶֶּ֫מלְֶך‬filhos do rei (ou, praticamente,


os filhos do rei)

2Sm 9.11

4. ‫ ֵֶּּ֫אשֶת־ָא ִֶּ֫ביָך‬mulher
de teu pai (ou
praticamente a esposa de seu
pai)

Lv 18.8

5. ‫ ִג ְבעַּת ִבנְיָמִין‬Gibeá em Benjamim


1Sm 13.2

6. ‫אֱֹלהֵּי יִש ְָר ֵּאל‬Deus de Israel (ou


praticamente, o Deus de Israel)
1Rs 8.15

A ambigüidade do português ‘o filho do rei’ poderia, também, teoricamente obter a frase


hebraica comparável: o referente é único ou um entre outros? Se o referente não é único (i.e.,
se o rei tem outros filhos) e isto precisa ser deixado claro, o português usa uma frase como
‘um filho do rei’. O hebraico não pode usar um construto com um artigo definido em tais
circunstâncias, mas, em vez disto, recorre ao uso de um genitivo perifrástico com lamed (para
o uso em orações sem verbo, veja 8.4.2).

7. ‫ ָר ִֶּ֫אתִ י בֵּן ְליִשַּי‬Eu conheço um filho de Jessé.


1Sm 16.18

8. ‫ ִמז ְמֹור לְדָ ִו֑ד‬um salmo de Davi


Sl 3.1

b A perífrase pode ser usada em expressões genitivas sob outras circunstâncias. Ela pode
ser usada onde uma frase construta seria também aceitável.

9. ‫הַּצֹפִים ְלשָאּול‬Os guardas de Saul


1Sm 14.16

p 158 O l perifrástico é usado também em casos nos quais uma cadeia construta precisa ser
qualificada (notavelmente por causa da necessidade de clareza sobre a definibilidade, como no
# 7 acima e no # 10 abaixo) ou manter-se concisa.

10. ‫שדֶ ה ל ְֶּ֫ב ֹעַּז‬


ָ ‫ ֶח ְלקַּת ַּה‬a porção de um campo
pertencente a Boaz

Rt 2.3

11. ‫עַּל־ ֵֶּּ֫ספֵּר דִ ב ְֵּרי ַּהּיָמִים ְל ַּמ ְלכֵּי‬no Livro dos Anais dos reis
‫יִש ְָראֵּל׃‬israelitas
1Rs 14.19
Em expressões de contagem a cadeia construta inclui a unidade e a coisa contada; se esta
última é qualificada, isto deve ser feito por um genitivo perifrástico em l. A maioria destas
expressões envolve datas.

12. ‫ ַּב ֲח ִמשָה ָעשָר יֹום ל ֶַּּ֫ח ֹדֶש‬no décimo quinto dia do mês
Lv 23.6

O genitivo perifrástico é usado em datas mesmo se a palavra ‫ יֹום‬for omitida.

13. ‫ְַאר ָבעָה ָעשָר ל ֶַּּ֫ח ֹדֶש‬


ְ ‫ב‬no décimo quarto dia do mês
Lv 23.5

c Outra forma de genitivo perifrástico envolve ‫‘ ֲאשֶר לְ־‬o qual/que pertence a’.
14. ‫אֵּין מ ְִרעֶה לַּצ ֹאן ֲאשֶר ַּל ֲעבָדֶֶּ֫ יָך‬nãohá pasto para o gado
miúdo de teus servos (i.e.,
nosso gado pequeno).

Gn 47.4

Uma construção comparável envolve o raro pronome relativo ‫ש‬


ֶ e produz a combinação ‫שֶל‬, a
partícula genitiva do hebraico pós-bíblico. Esta forma é usada duas vezes na Bíblia.

15. ‫ש ִלשְֹלמ ֹה‬


ֶ ‫ ִהנֵּה ִמטָתֹו‬Eis que é a liteira de Salomão
(lit., sua liteira que pertence a
Salomão)

Ct 3.7

16. ‫שלִי ֹלא נָ ֶָּ֫ט ְרתִ י׃‬


ֶ ‫כ ְַּרמִי‬Eu
não vigiei minha vinha (lit.,
meu vinhedo que pertence a
mim).

Ct 1.6

9.8 Mem Enclítico


a Diversas evidências externas têm levado os eruditos a reconhecerem uma partícula m no
texto bíblico, geralmente associada com o genitivo. Seja qual for a forma que a p 159 partícula
tenha tomado (–m após uma vogal; ou –mi ou –ma em todos os outros casos), parece que ela
foi usada ao final de uma palavra. Apenas o mem consonantal está preservado; uma vez que
seu significado perdeu-se no correr da extensa transmissão textual, o mem confundiu-se com
outros morfemas comuns formados com o mem, tais como o sufixo masculino plural –îm, o
sufixo pronominal –ām, a preposição inseparável min, etc. Como resultado, ele deve ser
detectado no Texto Massorético por irregularidades e anomalias associadas ao mem final ou
inicial.

b O mem enclítico é usado de modo bastante diversificado em línguas cognatas de modo a


certificar que as formas mais antigas de semítico devem ter conhecido mais do que uma forma
dessa construção. No hebraico ele tem às vezes uma força enfática, enquanto que em outras
vezes ele serve como um morfema para indeterminação. Ele é visto em relação com quase
todas as partes do discurso, incluindo verbos, substantivos, sufixos pronominais, advérbios,
etc. Mais comuns são os seus usos no meio de uma cadeia construta. O mem enclítico é
comum na poesia.

c Os exemplos mais fáceis de serem vistos são os que envolvem evidências externas. Aqui
estão duas formas de uma linha de verso extraídas do Salmo 18 e de 2 Samuel 22, textos
paralelos.

1a. 2Sm 22.16 ‫ַּוּי ֵָּראּו ֲא ִֶּ֫פיקֵּי י ָם‬

1b. Sl 18.16 ‫ַּוּי ֵָּראּו ֲא ִֶּ֫פיקֵּי ֶַּּ֫מי ִם‬

O primeiro texto perdeu o seu mem enclítico, enquanto que o segundo acoplou-o a ‫ים‬,
produzindo uma leitura diferente (mas não implausível). A linha é melhor lida assim:

1c. ‫ ַּוּי ֵָּראּו ֲא ִֶּ֫פיקֵּי־ם י ָם‬As


profundezas do mar foram
vistas.

O Pentateuco está preservado não apenas nas várias traduções antigas, mas também em um
texto samaritano; examinemos uma frase extraída de uma narrativa em prosa.

2a. Gn 14.6 / TM ‫ְו ֶאת־הַּח ִֹרי ְבה ְַּר ָרם ש ִ ֵּ֑עיר‬

2b. Gn 14.6 / Sam ‫ואת־החרי בהררי שעיר‬


A leitura mais adequada não é nem o TM, com o estranho sufixo – ām ‘deles’, nem o
samaritano, com a leitura simplificada omitindo o m (uma leitura também encontrada na LXX,
na Vulgata e no Texto Peshitta). Em vez disto, deveríamos ler:

2c. ‫שעִיר‬
ֵּ ‫ ְו ֶאת־הַּח ִֹרי ְבה ְַּר ֵּרי־ם‬Eo horita, nas montanhas de
Seir.

p 160 No TM de Deuteronômio 33.11, uma linha do poema contém um substantivo absoluto


seguido pelo que poderia ser o seu genitivo. O samaritano, ao contrário, contém um construto.
A melhor leitura seria

3. ‫ ְמחַּץ ָמתְ נֵּי־ם ָקמָיו‬Fere os lombos dos seus


inimigos (lit., aqueles que se
levantam contra ele).

Dt 33.11 emendado

Em outros casos, o uso hebraico de forma geral provê um guia confiável para a detecção do
mem enclítico.

4. ‫(אֱֹלהֵּי־ם )> יהוה־אֱֹלהִים‬YHWH Deus dos Exércitos


‫ ְצבָאֹות‬Sl 59.6 emendado

5. ‫[וְאֹלהִים ַּמ ְלכֵּי מ ֶּ֑֫ ִֶקדֶ ם( ַּמ ְלכֵּי־ם‬Tu,] ó Deus, és o Rei Antigo.
>)‫ ֶֶּ֫קדֶ ם‬Sl 74.12 emendado

6. ‫ ִרבֵּי־ם ַּעמִים )> ז ְכ ֹר ֲאדֹנָי‬:(Lembra-te, ó Deus, de tudo,


ְ ‫ח ְֶרּפַּת ֲעב ֶ ָ֑דיָך‬como teus servos foram
‫ש ֵּאתִ י ְבחֵּיקִי‬
escarnecidos, como trago em
‫ָל־רבִים ַּעמִים‬
ַּ ‫כ‬meu coração todas as injúrias
das nações.

Sl 89.51 emendado

7. ‫א ֲֻרבֹות־ם > כִי־א ֲֻרבֹות ִממָרֹום‬As janelas dos céus estão


‫( מָרֹום) נִפְתֶָּ֫ חּו‬abertas
Is 24.18 emendado

p 161 10
Função Acusativa e Assuntos Relacionados
10.1 Função Acusativa

10.2 Espécies de Acusativo

2.1 Acusativo Objetivo

2.2 Acusativo Adverbial

2.3 Duplo Acusativo

10.3 A Partícula ‫את‬

3.1 Com o Acusativo

3.2 Nos Demais Lugares

10.4 Aspectos do Uso de ‫ל‬

10.5 ‫ ה‬Direcional

10.1 Função Acusativa

a Como o genitivo, o acusativo é uma função de modificação ou dependência: substantivos


usados com outros substantivos ou preposições estão no genitivo, enquanto substantivos que
estejam modificando verbos estão no acusativo. Esta função adverbial pode envolver
receptores ou objetos de ação verbal, às vezes onde possui marcação definida com a partícula
‫ ֶאת‬.
1. ‫ ָבנִים גִדֶַּּ֫ לְתִ י‬Eu tenho criado filhos
(ACUSATIVO).
Is 1.2

2. ‫עָ ְ ָֽזבּו ֶאת־יהוה‬Eles abandonaram YHWH


(ACUSATIVO).

Is 1.4

A função pode também envolver outras especificações de ação verbal.

3. ‫נ ֶָּ֫ז ֹרּו ָאחֹור׃‬Eles voltaram para trás


(ACUSATIVO).

Is 1.4

b Considerando que o genitivo pode ser identificado por sua associação com uma
preposição ou com um substantivo no caso construto, o caso acusativo não pode ser
distinguido regularmente pela forma. Mesmo a distinção entre verbos transitivos (que podem
ser qualificados por um objeto direto acusativo) e intransitivos (que usualmente não o são)
não é proveitosa; acusativos adverbiais podem estar associados com ambos os tipos de verbos.
A partícula ‫ ֶאת‬geralmente é usada com o acusativo definido; mesmo p 162 esta partícula
sendo útil, seu valor é limitado na identificação do acusativo por três razões: ela é usada
apenas com substantivos que são definidos, pode ser usada com o nominativo e raramente é
usada em poesia.

c Outras dificuldades são criadas pela ordem de palavras relativamente livre do hebraico,
especialmente no verso. Enquanto o português distingue o sujeito de um verbo de seu objeto
por uma ordem fixa de palavras (veja que contraste em ‘João golpeou José’ e em ‘José golpeou
João’), o acusativo hebraico não é consistentemente ordenado com relação ao verbo. Por
exemplo, ‫אִיש־דָ ִמים ּומִ ְרמָה י ְתָ עֵּב יהוה‬ (Sl 5.7) pode tanto significar ‘um homem
sanguinário e traiçoeiro detesta YHWH’ como ‘YHWH detesta um homem sanguinário e
traiçoeiro’. Os exegetas não podem decidir quanto ao sentido utilizando quaisquer sinais
estritamente gramaticais pertencente à oração. Neste exemplo a linha precedente do poema
aponta claramente na direção do segundo sentido.

d Apesar dessa falta essencial de indicadores formais, a presença do acusativo, o sentido e


os usos ainda podem ser identificados considerando o hebraico no contexto de outras línguas
semíticas que marcam o acusativo com a terminação –a (8.1.c) e ao considerar os padrões do
próprio hebraico. O acusativo semítico é histórica e descritivamente o caso adverbial (para o
verbo); ele associa um substantivo ou seu equivalente com um verbo a fim de modificá-lo de
acordo com o sentido do substantivo. Como sempre, é problemático abstrair “o significado” de
uma construção a partir de seus muitos usos particulares. Não obstante, abstrações são úteis e
mesmo necessárias na construção de sentido do fenômeno lingüístico. À luz de seus muitos
usos exibidos na próxima seção, podemos fazer um melhor sentido do acusativo hebraico
emoldurando a generalização que é a função adverbial.

10.2 Espécies de Acusativo

a No capítulo precedente descrevemos alguns aspectos do processo pelo qual os usos de


uma forma gramatical são classificados (9.4). Essencialmente, os gramáticos tentam classificar
os usos mais amplamente por considerações sintáticas e mais particularmente por
considerações semânticas. Não se pode estabelecer uma delimitação estrita entre sintaxe e
semântica; por exemplo, o uso de um acusativo objetivo direto reflete um sentido transitivo de
um verbo, enquanto a distinção entre acusativos adverbiais de lugar e de p 163 tempo é, em
grande medida, mas não inteiramente, lexical. Os gramáticos às vezes distinguem entre
adjuntos e complementos, o primeiro significando um constituinte opcional de uma sentença e
o último um constituinte obrigatório. O acusativo objetivo direto é chamado de complemento
e o acusativo adverbial de adjunto. Por exemplo, na oração ‘Deus plantou um jardim’, ‘jardim’
é um constituinte obrigatório porque ‘Deus plantou’ tem sentido incompleto. Por outro lado,
‘para Adão’ na oração ‘Vieste para Adão’ é um adjunto, um constituinte opcional. Novamente,
não é possível uma delimitação estrita.

b Nas seções seguintes, os usos do acusativo como um objeto verbal ou receptor de ação
(10.2.1) são distinguidos dos acusativos adverbiais (10.2.2). As construções acusativas duplas
são tratadas por último (10.2.3).

10.2.1 Acusativo Objetivo

a Os verbos podem governar uma variedade de tipos de objetos, de modo que a extensão
de objetos associados a um verbo particular é no fundo uma característica do verbo. A
classificação do acusativo objetivo está, portanto, baseada em várias categorizações de verbos.
A maioria dos verbos que rege um acusativo objetivo é (a) fientiva (i.e., eles descrevem ações
em vez de condições) e (b) transitiva (i.e., o efeito do verbo se transfere/atravessa para algo).
Os objetos de tais verbos podem sofrer a ação (objetos diretos; cf. ‘Ele plantou tomates’) ou
criados (objetos produzidos; cf. ‘Ele cultivou tomates’). Alguns objetos estão virtualmente
subentendidos no verbo usado (cf. ‘Ele chorou lágrimas’) – estes são objetos internos –
enquanto alguns objetos são complementares ao verbo (cf. ‘Ele vestiu roupas’).

b A própria categorização dos verbos hebraicos é uma tarefa mais complexa do que
indicada até aqui, por duas razões. Primeira, a transitividade é apenas um aspecto do esquema
de regência de um verbo; outros modificadores além dos acusativos objetivos são relevantes.
Segunda, a transitividade é expressa variavelmente; objetos diretos e preposicionais podem
ser igualmente usados em diferentes tipos de orações. Considere, associado a estes pontos, as
seguintes orações:

1. She gave at home. Ela deu em casa.


2. She gave up. Ela desistiu.

3. She gave some pages. Ela deu algumas páginas.

4. She gave the book to them. Ela lhes deu o livro.

5. She gave him the books. Ela lhe deu o livro.

6. She gave away the books. Ela se desfez dos livros.

p 164 O verbo ‘to give’ (dar) pode ser simplesmente transitivo, apenas (# 3), com uma
partícula (# 6), ou com um objeto preposicional (“indireto”) (# 4). Mas ele também pode ser
usado com um objeto não explícito (# 1) ou com dois (# 5) ou com uma partícula (# 2).
Complexidades como estas, combinadas com o status do hebraico bíblico como língua escrita,
tornam difícil traçar um esquema completo dos tipos de acusativos hebraicos. Tanto as
semelhanças como as diferenças no governo verbal entre o hebraico e o inglês (português),
também, complicam nossa tarefa, e dedicaremos atenção para insistir em algumas das
distinções entre as duas línguas.

c O acusativo objetivo direto é o recipiente da ação de um verbo transitivo.

7. ‫ָָאדם‬
֑ ָ ‫ ַּוּי ִ ַּקח יהוה אֱֹלהִים ֶאת־ה‬E YHWH Deus tomou Adão.
Gn 2.15

8. ‫ ֱהבִי ֶַּּ֫אנִי‬me trouxe


Ez 40.2

Ambos os verbos hebraicos ‫ לקח‬e ‫ הביא‬são transitivos, como o são os verbos portugueses
‘tomar’ e ‘trazer’. Na prosa, o objeto direto, se definido, pode ser regido por ‫את‬. Compare # 9
e # 10.

9. ‫ ַּוּיַּסְֵּך ֶאת־נִס ְ֑כֹו‬E ele derramou a sua libação.


2Rs 16.13

10. ‫בַּל־ ַּאסִיְך נִ ְסכֵּיהֶם‬E não derramará as suas


libações.

Sl 16.4

Freqüentemente um verbo transitivo hebraico não corresponde a um transitivo português que


pode apropriadamente ser usado para comentá-lo ou traduzi-lo.

11. ‫וַּתֵֶּּ֫ לֶד ֶאת־ ֶַּּ֫קי ִן‬Ela deu à luz a Caim.


Gn 4.1

12. ‫ּופִי־ ִמ ְרמָה ָעלַּי ּפ ֶּ֑֫ ָָתחּו‬Eles falaram contra mim com
línguas mentirosas (lit.: abriu…
uma boca de mentiras).

Sl 109.2

Em contrapartida, muitos verbos transitivos portugueses não têm correspondentes em


hebraico.

13. ‫נָגַּע ְבכַּף־ ֶֶּ֫י ֶרְך יַּעֲק ֹב‬Ele tocou a juntura do quadril
de Jacó.

Gn 32.33

14. ‫ ַּוּי ִ ְבחַּר ְבז ְַּרעֹו ַאח ָ ֲ֑ריו‬E ele escolheu a sua
descendência após dele.

Dt 4.37

p 165 d Dentro do sistema sintático hebraico, um mesmo verbo pode variar. Alguns
verbos podem reger tanto acusativos objetivos diretos (substantivos, # 15; ou pronomes, # 16)
quanto objetos preposicionais (# 17), sem qualquer diferença considerável no sentido.
15. ‫שר ִצּוָה אֱֹלהִם ֶאת־נֹחַּ׃‬
ֶ ‫ ַּכ ֲא‬como Deus ordenara a Noé
Gn 7.9

16. ‫שר־ ִצ ֶּ֫ ָּוהּו יהוה׃‬


ֶ ‫כְכ ֹל ֲא‬Tudo o que YHWH lhe ordenou
Gn 7.5

17. ‫ ַּויְצַּו יהוה אֱֹלהִים עַּל־הָָאדָ ם‬E YHWH Deus ordenou Adão…
Gn 2.16

Assim, ṣwy Piel pode reger (1) um objeto direto, seja ele (a) um substantivo (# 15) ou (b) um
pronome (# 16), ou (2) um objeto pela preposição ‫( עַּל‬# 17). O verbo ydʿ ‘conhecer’ pode
reger ou um objeto direto (# 18) ou um objeto com l (# 19), como pode hrg ‘matar’ (## 20–21)
e ʾrk Hiphil ‘alongar’ (## 22–23).

18. ‫י ָדַּ ע שֹור ק ֵֶֹּּ֫נהּו‬O boi conhece seu dono.


Is 1.3

19. ֑‫ ַּאתָ ה י ָדֶַּּ֫ עְתָ ְל ִא ַּּולְתִי‬Tu conheces minha loucura.


Sl 69.6

20. ‫כִי ְב ַּאּפָם ֶָּ֫ה ְרגּו אִיש‬Nasua ira mataram uns


homens.

Gn 49.6

21. ‫ג־כעַּש‬
֑ ָ ֶּ֫ ‫ ֶל ֱאוִיל יַּה ֲָר‬O ressentimento mata um tolo.
Jó 5.2

22. ‫עַּל־מִי … תַּ ֲא ִֶּ֫ריכּו לָשֹו֑ ן‬Contra quem … deitais para


fora (lit., alongais) (tua) língua?
Is 57.4

23. ‫עַּל־ ֶַּּ֫גבִי … ֶהא ֱִֶּ֫ריכּו ְל ַּמ ֲענִיתָ ם׃‬Nas


minhas costas … eles
alongam os seus sulcos.

Sl 129.3 Qere

As formas niphal às vezes regem um objeto direto (cf. 23.2, 4).

24. ‫ ְבנֵּי– ְב ִל ֶַּּּ֫יעַּל נַּ ֶַּּ֫סבּו ֶאת– ַּה ֶַּּ֫בי ִת‬Os homens malvados cercaram
a casa.

Jz 19.22

25. ‫ ַּו ִּי ָֽ ָלח ֲֶּ֫מּונִי ִחנָם׃‬Eles me atacam sem causa.


Sl 109.3

p 166 e Para alguns verbos, por exemplo, ngʿ ‘tocar’, ykl ‘superar’, um pronome pode
comportar-se como um objeto preposicional (## 26, 28), ou como um objeto sufixado (i.e.,
direto) (## 27, 29), sem qualquer diferença apreciável de sentido.

26. ‫ ָל ֶַּּ֫געַּת בְָך׃‬para prejudicá-lo


2Sm 14.10

27. ‫ֹלא נְגַּ ָֽעֲנֶּ֫ ּוָך‬não o prejudicamos.


Gn 26.29

28. ‫ֹלא י ָכ ֹל לֹו‬Ele não o pôde dominar


Gn 32.26

29. ‫י ְ ָכל ִ ְ֑תיו‬Eu o superei


Sl 13.5
Quando um verbo tem significados diferentes ou nuanças de acordo com a frase preposicional
ligada, o uso de um pronome sufixado pode resultar em ambigüidade. Por exemplo, ‫את‬ ‫אחז‬
‘pegar, apoderar-se de’ (# 30) contrasta com ‫‘ אחז ב‬segurar firmemente’ (# 31); o # 32 é
ambíguo.

30. ‫וַּּי ֹאחֲזּו א ֹתֹו‬Eles o agarraram


Jz 1.6

31. ‫ ְוי ָדֹו א ֹ ֶֶּ֫חז ֶת ַּב ֲעקֵּב ֵּעשָו‬sua mão segurou o calcanhar de
Esaú

Gn 25.26

32. ‫וַּּי ֹאחֲזֶּ֫ ּוהּו ְפ ִלשְתִ ים ַּויְנַּ ְקרּו ֶאת־‬Então os filisteus o capturaram
‫ )?(עֵּינָי֑ ו‬/ agarraram-no (?) e
arrancaram os seus olhos.

Jz 16.21

f O acusativo objetivo produzido é o resultado ou o efeito da ação de um verbo transitivo.

33. ‫תַּ דְ שֵּא ָה ֶָּ֫א ֶרץ דֶֶּ֫ שֶא‬produza a terra vegetação.


Gn 1.11

A ‘vegetação’ não é paciente da ação do verbo (compare com ‫אֶת־ז ְַּרעֲָך‬ ‫‘ תִ ז ְַּרע‬Tu semeias a
tua semente’, Dt 11.10); ela resulta mais precisamente das ações que o verbo descreve. O
verbo e o objeto produzido freqüentemente derivam da mesma raiz; este tipo de objeto é
chamado de acusativo produzido cognato. (Como o exemplo de Dt 11.10 deixa claro, nem
todos os acusativos cognatos descrevem um objeto produzido).

34. ‫ ְו ָהי ָה בְעַּ ָֽנְנִי ָענָן עַּל־ה ֶּ֫ ָ ָ֑א ֶרץ‬Quando


eu trouxer nuvens
sobre a terra…

Gn 9.14
p 167 35. ‫חֲֹלמֹות יַּחֲֹלמּון‬Eles terão sonhos.
Jl 3.1

36. ‫[בְרֹוק ֶָּ֫ב ָרק‬O Deus,] despede relâmpagos


Sl 144.6

g Um acusativo interno é uma expressão da ação verbal; ele geralmente não possui artigo
e pode seguir ou preceder o verbo. Ele se assemelha em sentido tanto a um infinitivo absoluto
(35.3.1) quanto a diversos acusativos adverbiais (10.2.2). Um acusativo interno pode ser um
acusativo cognato.

37. ‫הִתְ ַּאּוּו תַּ א ֲָו֑ה‬Eles


apeteceram com uma
apetência (ou, vorazmente).

Nm 11.4

38. ‫ּפָר ֹ ַּח תִ פ ְַּרח ְו ָתגֵּל ַאף גִילַּת‬florescerá abundantemente,


jubilará de alegria e exultará
(lit.: floresça viçosamente e
grande-mente regojize).

Is 35.2

39. ‫ ֶָּּ֫פחֲדּו ֶּ֑֫ ָפחַּד‬Eles apavorados com medo (lit.:


foram subjugados com medo).

Sl 14.5

Um cognato interno pode ser usado em uma comparação.

40. ‫ְבּורת חֲמֹור יִק ֵּ ָ֑בר‬


ַּ ‫ק‬Ele será enterrado como um
jumento (lit.: com o enterro de
um jumento).

Jr 22.19
41. ‫אִם־כְמֹות כָל־הָ ָָֽאדָ ם י ְ ֻמתּון‬Se estes morrerem uma morte
‫ ֵֶּּ֫אלֶה ּו ְפ ֻקדַּ ת כָל־הָ ָָֽאדָ ם י ִ ָּפקֵּד‬natural (lit.: como a morte de
todas as pessoas) ou se eles
‫ֵּיהם‬
֑ ֵּ ‫ ֲעל‬experimentarem uma punição
natural (lit.: haverá punição
sobre eles uma punição de
todas as pessoas)…

Nm 16.29

Um acusativo interno não-cognato carrega consigo um qualificador (cf. português ‘Ela escreve
à boa mão (com habilidade)’). Tal acusativo freqüentemente envolve um verbo ou expressão
junto ao qual o órgão de expressão é mencionado.

42. ‫ ְוק ְָראּו … קֹול גָדֹול‬E eles clamam… com uma


grande voz.

Ez 8.18

43. ‫ ְוכָל־ ָה ֶָּ֫א ֶרץ בֹוכִים קֹול גָדֹול‬Toda a terra estava lamentando
em alta voz.

2Sm 15.23

p 168 h Um acusativo complementar especifica o substantivo associado a um verbo


intransitivo sob certas condições. Diversas classes de verbo tomam um complemento
acusativo. Verbos de plenitude e desejo pode ser tanto transitivo como intransitivo, por
exemplo, ‫ָמלֵּא‬ pode significar ‘encher (transitivo)’ no Qal como também ‘ser/estar cheio
(intransitivo)’ tanto no Qal como no Niphal.

44. ‫י ְדֵּ יכֶם דָ מִים ָמ ֵֶּּ֫לאּו׃‬Vossas mãos estão cheias de


sangue.

Is 1.15

45. ‫וַּתִ ָמלֵּא ָה ֶָּ֫א ֶרץ א ֹתָ ם׃‬E a terra estava cheia deles.
Êx 1.7
46. ‫אּולַּי י ַּ ְחסְרּון ֲח ִמשִים ַּהצַּדִיקִם‬Talvez faltem cinco justos para

‫ ֲח ִמשָה‬cinqüenta.
Gn 18.28

47. ‫ ְוש ַָּרץ ַּהי ְא ֹר ְצפ ְַּרדְ עִים‬O Nilo ficará repleto de rãs.
Êx 7.28

48. ‫ש ֶַּּ֫בעְתִ י ע ֹלֹות‬


ָ Eu tenho mais que suficiente
‘ôlôt.

Is 1.11

Verbos para vestir, doar ou tirar roupas podem levar um complemento.

49. ‫ ָלבְשּו כ ִָרים הַּצ ֹאן‬Os campos estão cobertos de


rebanhos.

Sl 65.14

50. ‫ ְלבַּש ְבגָדֶֶּ֫ יָך‬Traja as tuas vestes.


1Rs 22.30

51. ‫שלִים ֶָּ֫אז ְרּו ֶָּ֫חי ִל׃‬


ָ ‫ ְונִ ְכ‬Os que tropeçaram foram
cingidos de força.

1Sm 2.4

52. ‫וְהּוא עֹטֶה מ ִ ְ֑עיל‬E ele está usando uma capa.


1Sm 28.14

53. ‫ ַּו ֶַּּּ֫יעַּט ַּכ ְמעִיל ִקנְָאה׃‬E ele se cobriu de zelo como de
um manto.

Is 59.17
54. ‫ ַּו ִֶּּ֫י ְפשַּט גַּם־הּוא ְבגָדָ יו‬Eletirou também as suas
vestes.

1Sm 19.24

55. ‫שטְתִ י ֶאת־ ֻכ ָתנְתִי‬


ַּ ‫ ָּפ‬Eu tirei as minhas vestes.
Ct 5.3

i O assim chamado “acusativo dativo” envolve um objeto direto pronominal onde um


objeto preposicional (viz., um “dativo”) seria esperado. Muitos exemplos estão mencionados
acima no tratamento de acusativos objetivos diretos; o padrão mencionado para ykl e p 169
ngʿ (## 26–29), também se obtém para outros verbos. O verbo ntn leva a preposição l para
substantivos indicando o beneficiário (a pessoa para quem o objeto é dado; # 56) e às vezes
pronomes (# 57), mas um pronome indicando o beneficiário pode estar sufixado diretamente
ao verbo (# 58).

56. ‫ ְונָ ַּתתָ ה ֶאת־ ַּה ְל ִוּי ִם לְַאהֲר ֹן‬E darás os Levitas para Aarão e
‫ּו ְלב ָָנ֑יו‬para sua descendência.
Nm 3.9

57. ‫שלָל‬
ָ ‫שָך ְל‬
ְ ‫ ְונָ ַּתתִ י לְָך ֶאת־נַּ ְפ‬Eu darei para você a vida como
despojo.

Jr 45.5

58. ‫שי ִת ַּב ִמ ְל ָחמָה‬


ַּ ֶּ֫ ‫שמִיר‬
ַּ ‫מִי־י ִתְ ֵֶּּ֫ננִי‬Oh, se ele (indefinido) me desse
(i.e., Oh que eu tivesse) sarças e
espinheiros diante de mim para
a batalha!

Is 27.4

O verbo z ʿq normalmente leva a preposição ʾel diante de um substantivo ou pronome


indicando o destinatário (## 59–60), mas o destinatário pode estar expresso com um pronome
sufixado (# 61).
59. ‫שמּואֵּל אֶל־יהוה‬
ְ ‫ ַּוּיִזְעַּק‬E clamou Samuel a YHWH.
1Sm 7.9

60. ‫ ְונִזְעַּק ֵּא ֶֶּ֫ליָך ִמצ ָָרתֵֶּּ֫ נּו‬Clamaremos a ti em nossas


dificuldades.

2Cr 20.9

61. ‫ ַּוּיִזְע ֶָּ֫קּוָך‬Eles clamaram a ti.


Ne 9.28

Outros “acusativos dativos” ocorrem com verbos menos bem documentados.

62. ‫שנִי׃‬
ֵּ ֶּ֫ ָ‫ֹלא תִ נ‬Tu não serás esquecido por
mim.

Is 44.21

63. ‫הֲצֹום ַּצמְתֶֻּ֫ נִי ֶּ֫אנִי׃‬Jejuastes para mim!?


Zc 7.5

64. ‫בִעּותֵּ י אֱלֹו ַּּה ַּיָֽע ְַּר ֶּ֫כּונִי׃‬Osterrores de Deus estão


arregimentados contra mim.

Jó 6.4

10.2.2 Acusativo Adverbial

a Além dos acusativos objetivos, os verbos podem reger vários acusativos adverbiais; esses
detalhes característicos da ação verbal (e outros mais), incluindo tempo, lugar, condição,
modo e especificação. Em termos gerais, esses acusativos são adjuntos em vez de
complementos para o verbo (10.2).

b O acusativo de lugar especifica uma localização. Ordinariamente, a localização sem


movimento pode ser especificada por uma frase preposicional com b ou l, mas um acusativo
pode ser usado. Os verbos yšb ‘habitar’ (## 1–2), gwr ‘residir’ (## 3–4) e škb ‘morar’ (# 5) são
encontrados com acusativos de lugar, visto que são verbos sem referência de localização
específica (## 6–7).

p 170 1. ‫וְהּוא יֹשֵּב ּפֶתַּ ח־ה ֶָּ֫א ֹהֶל‬Enquanto ele estava assentado
na entrada de sua tenda

Gn 18.1

2. ‫שבֶת ֶָּ֫בי ִת׃‬


ֶ ֶּ֫ ‫ ָל‬Para
que possa habitar num
santuário

Is 44.13

3. ‫מִי י ָגּור ֶָּ֫לנּו אֵּש אֹו ֵּכלָה‬Quem de nós habitará no fogo


consumidor?

Is 33.14

4. ‫ֹלא יְג ְֻרָך ָרע׃‬O mal não pode morar com


você.

Sl 5.5

5. ‫ ְו ִהנֵּה ִאשָה ש ֹ ֶֶּ֫כבֶת מ ְַּרגְֹלתָיו׃‬Evê, que uma mulher estava


aos seus pés!

Rt 3.8

6. ‫ש ֶַּּ֫מי ִם‬
ָ ‫שמַּע ַּה‬
ְ ִ‫ ְו ַּאתָ ה ת‬Então
ouve [Ó Deus] dos (i.e.,
no) céus.

1Rs 8.32

7. ‫ ֲהי ֵּש בֵּית־ָאבִיְך מָקֹום‬Haverá um quarto na casa de


teu pai?

Gn 24.23
O alvo do movimento (ou atividade dirigida) é usualmente marcado com uma preposição, mas
pode aparecer como um acusativo de lugar.

8. ‫שדֶה‬
ָ ‫ ְוצֵּא ַּה‬Saia ao campo.
Gn 27.3

9. ‫ ַּוּי ֶָּ֫ב ֹאּו ֶֶּ֫א ֶרץ ְכ ֶַּּ֫נעַּן‬E vieram à terra de Canaã.


Gn 45.25

10. ‫אֹוצַּר יהוה י ָבֹוא‬Irão à tesouraria de YHWH.


Js 6.19

Por analogia, o acusativo também é usado para o lugar de onde alguém parte.

11. ‫הֵּם ָיָֽצְאּו ֶאת־ ָהעִיר‬Tendo eles saído da cidade


Gn 44.4

As construções com acusativo de localidade (## 12, 14) e com o direcional –āh (## 12, 13) às
vezes são intercambiáveis.

p 171 12. ‫ְֹלמ ֹה כִי־‬


֑ ‫ ַּו ֵֶּּּ֫ילְֶך ֶַּּ֫גתָ ה … ַּוּיֻגֵּד ִלש‬E ele (Simei) foi para Gate… e
‫ש ְמעִי … גַּת‬ ִ ‫ ָהלְַּך‬isto foi falado a Salomão que
Simei tinha ido… para Gate.

1Rs 2.40–41

13. ‫ְהֹור ְדתֶ ם ֶאת־שֵּיבָתִ י ְבי ָגֹון‬


ַּ ‫ו‬Fareis descer as minhas cãs até
‫ש ְֶּ֫אֹולָה׃‬o Sheol com tristeza.
Gn 42.38

14. ‫ְהֹור ְדתָ ֶאת־שֵּיבָתֹו בְדָ ם‬


ַּ ‫ו‬Tu farás que as suas cãs desçam
‫שְאֹול׃‬o Sheol com sangue.
1Rs 2.9

A extensão local de uma ação verbal pode também aparecer como um acusativo de lugar.

15. ‫ ֲחמֵּש ֶעש ְֵּרה ַּאמָה ִמ ְל ֶַּּ֫מ ְעלָה‬E as águas subiram a uma

‫גָ ָֽבְרּו ה ֶּ֑֫ ַָּמי ִם‬profundidade de quinze


côvados.

Gn 7.20

16. ‫ ַּוּי ִּפ ֹל מְֹלא־קֹו ָמתֹו ֶַּּ֫א ְרצָה‬Ele caiu completamente


estendido no chão.

1Sm 28.20

17. ‫וְהּוא־ ָהלְַּך ַּב ִמדְ בָר דֶֶּ֫ ֶרְך יֹום‬Ele foi ao deserto, jornada de
um dia.

1Rs 19.4

c O acusativo de tempo especifica um tempo. Ele pode referir-se ao tempo no qual uma
ação se realiza.

18. ‫עַּתָ ה ֶא ָספֶה יֹום– ֶאחָד ְבי ַּד־‬Ora, ainda algum dia perecerei
‫שָאּו֑ ל‬pela mão de Saul.
1Sm 27.1

19. ‫שנָה ַּאתָ ה מֵּת‬


ָ ‫ ַּה‬Este ano tu vais morrer.
Jr 28.16

20. ‫שיחָה‬
ִ ֶּ֫ ‫ ֶֶּ֫ע ֶרב ו ֶָּ֫ב ֹקֶר ְו ָצה ֶַָּּ֫רי ִם ָא‬Noite,
manhã, e meio-dia que
eu clamo em angústia.

Sl 55.18
Ele pode, também, referir-se à duração de uma ação.

21. ‫ ְו ָעפָר ת ֹאכַּל כָל־יְמֵּי ַּח ֶֶּּ֫ייָך׃‬Comerás pó todos os dias de


tua vida.

Gn 3.14

22. ‫שת יָמִים תַּ עֲב ֹד‬


ֶ ‫ש‬
ֵּ ֶּ֫ Durante seis dias trabalharás.
Êx 20.9

23. ‫יָמִים ַּרבִים ֵּיָֽשְבּו‬Eles viverão muitos dias.


Os 3.4

d O acusativo de condição especifica uma característica do sujeito ou do objeto do verbo


no momento da ação verbal ou em relação àquela ação. Este tipo de acusativo, seja ele
subjetivo, adjetivo ou particípio, é indefinido. Ele pode referir-se ao sujeito de uma oração.

p 172 24. ‫ ַּוּיֵּצֵּא ה ִָראשֹון ַאדְ מֹונִי‬E o primeiro saiu ruivo.


Gn 25.25

25. ‫ ֶּ֫באתִ י הַּּיֹום ִראשֹון‬Eu vim hoje como o primeiro.


2Sm 19.21

26. ‫ש ְע ֶָּ֫יהּו עָרֹום ְוי ֵּ ָ֑חף‬


ַּ ְ ‫ ָהלְַּך ַּעבְדִ י י‬Meu
servo Isaías andou nu e
descalço.

Is 20.3

27. ‫שמֹנַּת יָמִים י ִמֹול ָלכֶם כָל־‬


ְ ‫ּובֶן־‬Todo macho entre ti, quando
‫זָכָר‬tiver oito dias, será
circuncidado.

Gn 17.12
Ele pode referir-se ao objeto de uma oração.

28. ‫שלָה‬
ֵּ ‫ ְו ָלקַּח הַּכֹהֵּן ֶאת־ ַּהז ְר ֹ ַּע ְב‬E o sacerdote tomará a espádua
quando estiver cozida.

Nm 6.19

29. ‫חָם ִה ְצ ַּט ֶַּּּ֫ידְ נּו א ֹתֹו‬Nós


o empacotamos quando
ainda estava quente.

Js 9.12

30. ‫הּוא י ְשּופְָך ר ֹאש‬Ele te esmagará a cabeça.


Gn 3.15

31. ‫ּהר ֶַּּ֫אנִי יהוה א ֹתְ ָך ֶֶּ֫מלְֶך עַּל־‬


ְ YHWH indicou-me que tu hás de
‫א ֲָרם׃‬ser rei sobre a Síria.
2Rs 8.13

32. ‫שמַּע מֹשֶה ֶאת־ ָהעָם בֹכֶה‬


ְ ‫וַּּי‬Moisés ouviu o povo
lamentando.

Nm 11.10

O acusativo de condição pode discordar do seu referente em gênero ou em número.

33. ‫ת ִֶּ֫כיתָ ֶאת־כָל־אֹיְבַּי ֶּ֑֫ ֶלחִי‬Golpeie todos meus inimigos na


mandíbula.

Sl 3.8

e O acusativo de maneira descreve o modo pelo qual uma ação é realizada; este acusativo
também não leva artigo.
34. ‫וְֹלא ֵּ ָֽתלְכּו רֹומָה‬Não andareis orgulhosamente
Mq 2.3

35. ‫שכֶם ֶאחָד׃‬


ְ ‫ ְל ָעבְדֹו‬sirvam de comum acordo
Sf 3.9

36. ‫שּפְטּו ְבנֵּי ָאדָם‬


ְ ִ‫מֵּיש ִָרים ת‬Julgais com retidão os filhos dos
homens?

Sl 58.2

p 173 37. ‫נֹוראֹות נִ ְפ ֵֶּּ֫ליתִ י‬


ָ Eu fui feito de modo
assombrosamente maravilhoso

Sl 139.14

O acusativo de limitação especifica a extensão da realização de uma ação.

38. ‫ ֶּ֫ע ֹ ֶרף יִפְנּו ִל ְפנֵּי ָֽא ֹיְבֵּיהֶם‬Elesviraram os seus pescoços


(i.e., viraram as suas costas)
diante dos seus inimigos

Js 7.12

O acusativo de especificação descreve uma característica de um substantivo no estado


absoluto; o acusativo é indefinido. Esse uso acusativo é semelhante a certos padrões genitivos.

39. ‫שקָל ִלמְנ ֹרֹות ַּהזָהָב‬ ְ ‫ּו ִמ‬e o peso para os candeeiros de
‫ ְונֵּר ֹתֵּ יהֶם זָהָב‬ouro (GENITIVO) e suas lâmpadas
de ouro (ACUSATIVO)

1Cr 28.15

40. ‫ ְו ַּאתָ ה מַּ ָֽ ֲחסִי־ע ֹז׃‬Tu és meu refúgio forte.


Sl 71.7
O acusativo de especificação pode ser usado numa comparação.

41. ‫ ַּכבִיר ֵּמא ֶָּ֫ביָך יָמִים׃‬mais poderosos do que seu pai


com respeito a dias (i.e.,
homens até mais velhos que
seu pai)

Jó 15.10

Freqüentemente o hebraico não permite que se decida se um substantivo especificador é um


acusativo, um genitivo ou um apositivo.

42. ‫ ִאטֵּר י ָד־יְמִינ֑ ֹו‬Impedido


de / na sua mão
direita (ACUSATIVO ou GENITIVO)
(i.e., mão esquerda)

Jz 3.15

43. ‫שְלש ְסאִים ֶֶּ֫ק ַּמח‬Três medidas de farinha


(ACUSATIVO ou APOSIÇÃO)

Gn 18.6

10.2.3 Acusativo Duplo

a Alguns verbos são dupla ou complexamente intransitivos e podem ter mais do que um
objeto associado a eles. Tais verbos são muito mais comuns em hebraico do que em
português, mas considere estas orações:

1. Eles o (OBJETO1) fizeram rei (OBJETO2).

2. Eles a (OBJETO1) pensaram uma profetiza (OBJETO2).

3. Eles o (OBJETO1) provaram um tolo (OBJETO2).

p 174 Como esses exemplos sugerem, uma transitividade complexa freqüentemente está
associada a noções de causalidade e julgamento, noções atreladas em hebraico aos graus Piel
e Hiphil. Muitos dos exemplos aqui usam verbos nesses graus, enquanto outros refletem
outras diferenças entre os léxicos hebraico e português.
b Comecemos com acusativos duplos não associados com as formas Piel-Hiphil. Um
acusativo duplo de objeto direto + objetos “dativos” é encontrado com verbos de fala (šʾl, ʿny,
ṣwy, ## 4–8), como também com verbos de doação (ntn, zbd, ## 9–10). O objeto “dativo”
geralmente é um pronome. (Nos exemplos abaixo, a marca | é usada para separar os dois
acusativos quando estes forem adjacentes na glosa portuguesa.)

4. ‫ש ְּפטֵּי־ ֶֶּ֫צדֶ ק‬
ְ ‫ְָאלּונּו ִמ‬
ֶּ֫ ‫יִש‬Eles me perguntam | somente
para decisões.

Is 58.2

5. ‫שא ֵֶּּ֫לּונּו שֹו ֵֶּּ֫בינּו דִ ב ְֵּרי־‬


ְ ‫כִי שָם‬Aqueles que nos levaram

‫שִיר‬cativos exigiram de nós |


canções.

Sl 137.3

6. ‫ ַּו ֶַּּּ֫יעַּן ַּה ֶֶּ֫מלְֶך ֶאת־ ָהעָם ָק ָ ֑שה‬E


o rei respondeu ao povo |
severamente (lit.: uma coisa
severa).

1 Rs 12.13

7. ‫שר דִ בֶר יהוה‬


ֶ ‫ ַּוי ְ ַּצּוֵּם אֵּת כָל־ ֲא‬E ele ordenou-lhes | tudo que

‫ ִאתֹו‬YHWH lhe falou.


Êx 34.32

8. ‫ ִמצְֹותָ יו ֲאשֶר ָאנֹכִי ְמ ַּצּוֶָך‬Seus mandamentos que eu


tenho ordenado a ti

Dt 6.2

9. ‫ ֶֶּ֫א ֶרץ ַּה ֶֶּ֫נגֶב נְ ַּתתֶָּ֫ נִי‬Tu me deste | a terra do Negev.


Js 15.19

10. .‫זְבָדֶַּּ֫ נִי אֱֹלהִים א ֹתִ י ֵֶּּ֫זבֶד טֹוב‬Deus tem me presenteado |


com um precioso presente.
Gn 30.20

c Verbos de criação e de designação com freqüência regem dois acusativos.

11. ‫ ַּוּי ִיצֶר יהוה אֱֹלהִים ֶאת־הָ ָָֽאדָ ם‬E YHWH Deus formou o homem
‫ | ָעפָר מִן־ ָה ֲאדָ מָה‬do pó da terra.
Gn 2.7

12. ‫שת׃‬
ֶ ‫כָל־ ֵּכלָיו ָעשָה נ ְֶּ֫ח‬Todos os utensílios os fez de
bronze.

Êx 38.3

13. ‫עַּמּודָ יו ֶָּ֫עשָה ֶֶּ֫כסֶף‬Ele fez seus postes | de prata.


Ct 3.10

14. ‫שלֵּמֹות תִ ְבנֶה ֶאת־ ִמזְבַּח‬


ְ ‫ ֲא ָבנִים‬Edificarás o altar de YHWY com
‫יהוה‬pedras toscas.
Dt 27.6

p 175 Os acusativos também podem ser coisa feita + coisa refeita.

15. ‫ ְועָשּו א ֹתֹו עֻג֑ ֹות‬E o fazia (maná) | nuns bolos.


Nm 11.8

16. ‫שהּו ֶֶּּ֫פסֶל‬


ֵּ ֶּ֫ ‫ ַּוּי ַּ ֲע‬E
a fez (a prata roubada) |
numa imagem.

Jz 17.4

17. ‫ ַּוּי ִ ְבנֶה ֶאת־ ָה ֲא ָבנִים ִמז ְ ֵּב ַּח‬Ele edificou as pedras | num
altar
1Rs 18.32

Este par pode envolver termos abstratos.

18. ‫ש ֶֶּ֫ב ָה לֹו צְדָ קָה׃‬


ְ ‫ ַּוּי ַּ ְח‬Ele creu nisso (a fé de Abraão) e
lhe foi imputado como justiça.

Gn 15.6

Verbos de designação regem como acusativos pessoa designada + graduação.

19. ‫ ָו ֶָּּ֫ישֶם ֶאת־ ָבנָיו ש ֹ ְפטִים‬Ele fez dos seus filhos | juízes.
1Sm 8.1

20. ‫ֹלא תְ שִי ֶֻּ֫מנִי ְקצִין עָם׃‬Não me faça | o príncipe do


povo.

Is 3.7

21. ‫ ָו ֶאתֵּ ן א ֹתָ ם ָראשִים‬E eu os designei | cabeças.


Dt 1.15

Semelhantemente, verbos de nomeação regem pessoa nomeada + nome.

22. ‫שמֹו ֵּעשָו׃‬


ְ ‫ ַּוּיִק ְְראּו‬E chamaram o seu nome | Esau.
Gn 25.25

d Alguns verbos regem um acusativo duplo de objeto direto + meio, seja ele instrumento
(## 23–25) ou meio (# 26).

23. ‫אִיש ֶאת־ָא ִֶּ֫חיהּו י ֶָּ֫צּודּו ֵֶּּ֫ח ֶרם׃‬Cada


um caça a seu irmão |
com uma rede.

Mq 7.2
24. ‫ ְו ִה ֵֶּּ֫כיתִ י ֶאת־ ָה ֶָּ֫א ֶרץ ֵֶּּ֫ח ֶרם׃‬Eucastigo a terra | com uma
maldição.

Ml 3.24

25. ‫וַּּי ֵֹּרם אֱֹלהִים חֵּץ‬Deus atira contra eles | com


setas.

Sl 64.8

26. ‫שמֶן‬
ֶ ֶּ֫ … ‫שחֲָך אֱֹלהִימ‬
ָ ‫ ְמ‬Deus o ungiu… | com óleo.
Sl 45.8

Com verbos de cultivo, o objeto direto é a área plantada e o meio é a colheita.

27. ‫ ַּוּי ִ ָט ֵֶּּ֫עהּו ש ֵֹּרק‬Ele


a plantou | com vides
escolhidas.

Is 5.2

p 176 28. ‫ ַּוּיִז ְָר ֶֶּ֫ע ָה ֶֶּ֫מלַּח׃‬Ele a semeou | com sal.


Jz 9.45

e Os acusativos duplos usados com os verbos Piel-Hiphil seguem padrões similares (24.1,
27.1). Em diversos casos os acusativos envolvem o objeto do predicado de causalidade, a
pessoa paciente (que sofre a ação) (pelo sujeito primário) + o objeto do outro predicado
verbal, o objeto paciente (que sofre a ação) (pelo sujeito subjacente, a pessoa que sofre a
ação).

29. ‫ ַּוּיַּאֲכִ ָֽלְָך ֶאת־ ַּהמָן‬Ele te sustentou | com o maná


(lit.: ele te fez comer maná).

Dt 8.3
30. ‫שקִינִי־נָא ְמעַּט־ ֶַּּ֫מי ִם‬
ְ ‫ ַּה‬Dê-me | um pouco de água para
beber.

Jz 4.19

31. ‫ה ְֶר ֶָּ֫אנּו … ֶאת־כְב ֹדֹו‬Ele nos mostrou … sua glória.


Dt 5.21

32. ‫ְַאר ֶֶּ֫אָך ֶאת־ ָהאִיש‬


ְ ‫ו‬mostrar-te-ei | o homem.
Jz 4.22

33. ‫וְנֹודִֶּ֫ יעָה ֶאתְ כֶם דָ ָ ֑בר‬E nós vo-lo ensinaremos | uma
lição.

1Sm 14.12

34. ‫וְהּוא יַּנְחִיל א ֹתָ ם ֶאת־ ָה ֶָּ֫א ֶרץ‬Ele lhes fará que herdem a
terra.

Dt 3.28

Os acusativos duplos podem referir-se ao objeto do predicado de causalidade (pessoa ou coisa)


+ o meio ou o complemento do outro predicado verbal.

35. ‫ ַּוי ְ ַּמלְאּו ֶאת־ ְכלֵּיהֵּם בָר‬Eles encheram as suas bolsas |


com grãos.

Gn 42.25

36. ‫ ָו ֲא ַּכ ְל ְכלֵּם ֶֶּ֫לחֶם ָו ֶָּ֫מי ִם׃‬Eu os sustentei | com comida e


água.

1Rs 18.13

37. ‫שבִי ַּע ֶָּ֫לחֶם׃‬


ְ ‫ ֶאבְיֹו ֶֶּ֫ני ָה ַּא‬O seu pobre eu fartarei com
comida.

Sl 132.15

38. ‫ ְוכָבֹוד ְו ָהדָר תְ ַּעט ְֵֶּּ֫רהּו׃‬Tu o coroaste | com glória e


honra.

Sl 8.6

39. ‫א ֲַּר ֶָּּ֫יוְֶך דִ ְמעָתִי‬Euo rego | com minhas


lágrimas.

Is 16.9

Verbos de vestir-se (ou despir-se) podem reger um objeto direto pessoal + objeto
complementar.

p 177 40. ‫ ַּוּי ַּ ְלבֵּש שָאּול ֶאת־דָ וִד ַּמדָיו‬Saul vestiu a Davi | com suas
vestes.

1Sm 17.38

41. ‫שיטּו ֶאת־יֹוסֵּף ֶאת־ ֻכ ָתנְתֹו‬


ִ ֶּ֫ ‫ ַּוּי ַּ ְפ‬Tiraram a José | da sua túnica.
Gn 37.23

10.3 A Partícula ‫את‬

a A partícula ‫ את‬é um dos morfemas mais difíceis do hebraico bíblico. Parte da dificuldade
é morfológica: a partícula ‫את‬ ֵּ /‫ אֶת־‬é homônima de ‫ ֵּאת‬/‫אֶת־‬, a preposição ‘com’, exceto com
os sufixos pronominais. Com estes a partícula principal é ʾōt–/ ʾet– (‫א ֹתִ י‬, ‫א ֹתְ ָך‬, ‫א ֹתֹו‬, ‫אתְ כֶם‬
ֶ,
‫ א ֹתָ ם‬/ uma vez ‫ אֹותְ הֶם‬/ raramente ‫ ֶאתְ הֶם‬, etc.), enquanto a preposicional preponderante é
ʾitt– (‫אתִ י‬
ִ , ‫ ִאתְ כֶם‬, etc.) O resultado dessa semelhança é a confusão entre as duas palavras que
pode ocorrer.

b Outra dificuldade é a questão sintática. Há duas abordagens para a descrição da função


da partícula. (1) A tradição a chama de nota acusativa ou “sinal do acusativo” e
essencialmente enumera as ocorrências que não se ajustam a esta regra. (2) Os gramáticos
mais recentes consideram-na um marcador de ênfase usada mais freqüentemente com
substantivos definidos no papel de acusativo. As perceptíveis ocorrências com o nominativo
são mais problemáticas – elas devem ser negadas, retificadas ou algo assim, ou deverão ser
explicadas? O último caminho parece ser o melhor, embora a dificuldade do problema não
possa ser negada: “Nenhuma partícula jamais suscitou tão vasta e tão contraditória discussão
do que a nota acusativa”. A. M. Wilson, no fim do século 19, concluiu a partir de um estudo
exaustivo de todas as ocorrências dessa debatida partícula, que ela possuía uma p 178 força
intensiva ou reflexiva em algumas de suas ocorrências. Muitos gramáticos seguiram sua
orientação. Baseado neste ponto de vista, ‫את‬ é uma partícula enfática enfraquecida,
correspondendo ao pronome ‘self’ do inglês em locuções como ‘He, himself (NOMINATIVO), kept
the law’ (Ele, ele mesmo, guardou a lei) e ‘He kept the law itself (ACUSATIVO)’ (Ele guardou a
própria lei). Ela assemelha-se ao grego autos e ao latim ipse, ambos às vezes utilizados para
ênfase e, como eles, ela pode ser omitida do texto sem obscurecer a gramática. Essa
explicação do significado da partícula harmoniza-se bem pelo fato de que a partícula é usada
no hebraico mishnaico como um demonstrativo e é encontrada quase exclusivamente com
substantivos definidos.

c Poderia ser debatido que ‫ את‬tenha sido originalmente um sinal do acusativo com verbos
ativos e que no desenvolvimento histórico da língua ele foi reinterpretado como o sujeito de
uma construção passiva equivalente. Assim, por exemplo, ‫ִירד‬
ָ ‫יָלַּד חֲנֹוְך אֶת־ע‬ “Enoque
gerou Irade” é equivalente a ‫ִירד‬
ָ ‫ֶאת־ע‬ ‫ ַּוּי ִ ָּולֵּד ַּלחֲנֹוְך‬, “A Enoque nasceu-lhe Irade” (Gn 4.18).
Isto deu a origem, o debate continuaria, ao tipo de construção conhecida como ergativa, na
qual a marcação morfológica do sujeito de um verbo intransitivo seria a mesma do objeto
direto de um verbo transitivo. Assim, uma paráfrase portuguesa ergativa hipotética de ‘João a
moveu’ seria ‘a movida por João’. O passo conclusivo, alguém concluiria no debate, é que
mesmo esse traço da construção passiva original se perdeu. Tal desenvolvimento é atestado
no movimento do indo-ariano primitivo para o hindi e o persa moderno. A reconstrução
também acharia suporte nas línguas semíticas p 179 cognatas, nas quais a terminação do caso
acusativo às vezes é encontrada com o sujeito de verbos passivos e é derivada da falta de
concordância gramatical entre o sujeito plural e o verbo singular. A teoria ergativa deve ser
rejeitada porque não leva em consideração o amplo uso de ‫ את‬em outras construções no
hebraico bíblico.

10.3.1 Com o Acusativo

a A partícula enfática é usada mais freqüentemente para marcar o objeto direto definido
de um verbo transitivo.

1. ‫ ַּוּיִטַּע יהוה אֱֹלהִים גַּן … ַּו ֶָּּ֫ישֶם‬E YHWH Deus plantou um

‫שָם ֶאת־הָָאדָ ם‬jardim… e colocou Adão ali.


Gn 2.8
2. ‫וְֹלא־י ָכ ֹל עֹוד ְל ָהשִיב אֶת־ַא ְבנֵּר‬Ele não pôde responder a
‫דָ ָ ֑בר‬Abner.
2Sm 3.11

3. ‫ ַּו ֶַּּּ֫יעַּש אֱֹלהִים ֶאת־ ַּחּי ַּת ָה ֶָּ֫א ֶרץ‬Deus fez os animais selvagens.
Gn 1.25

Numa série de objetos diretos definidos, se a partícula for usada em um membro da série, ela
geralmente será usada em cada membro (# 4); ocasionalmente o ʾt inicial numa série anula os
objetos subseqüentes (# 5).

4. ‫ ַּוּי ַּכּו ֶאת־ ַּה ְכנַּ ֲענִי ְו ֶאת־ ַּהּפ ְִרז ִי׃‬Feriram os cananeus e ferezeus.
Jz 1.5

5. ‫ ַּוּי ִתֵּ ן יהוה ֶאת־ ַּה ְכנַּ ֲענִי ְו ַּהּפ ְִרז ִי‬YHWH deu os cananitas e
‫ ְבי ָ ָ֑דם‬ferezeus em suas mãos.
Jz 1.4

Pronomes com ʾt são definidos.

6. ‫גַּם־א ֹתְ כָה ה ֶַָּּ֫רגְתִ י וְאֹותָ ּה‬Eu, agora, certamente te teria

‫ ֶה ֱח ִֶּ֫ייתִ י׃‬matado, porém a ela eu teria


poupado.

Nm 22.33

7. ‫ּו ְל ַּקחְתֶ ם גַּם־ ֶאת־ז ֶה ֵּמעִם ָּפנַּי‬Se agora também tirardes este
de mim …

Gn 44.29

8. ‫שלַּח‬
ְ ‫ֶאת־מִי ֶא‬ Quem enviarei?
Is 6.8

p 180 Construções com ‘todo’ e números, também envolvem uma determinação lógica.

9. ‫ ַּוּיִב ְָרא אֱֹלהִים ֶאת־הַּתַּ נִינִם‬E Deus criou as grandes


‫ ַּהגְד ִ ֹ֑לים ְואֵּת כָל־ ֶֶּ֫נפֶש ַּה ַּחּי ָה‬criaturas do mar e todos os
seres viventes que rastejam.
‫הָר ֹ ֶֶּ֫משֶת‬
Gn 1.21

10. ‫ ַּקח־נָא ִאתְ ָך ֶאת־ַאחַּד‬Leva contigo um dos servos.


‫ ֵּמ ַּהנְע ִָרים‬1Sm 9.3

11. .‫שבַּע ְכבָש ֹת תִ קַּח ִמּי ִ ָ֑די‬


ֶ ֶּ֫ ‫ ֶאת־‬Tomarás estas sete cordeiras de
minha mão.

Gn 21.30

O marcador relativo ‫אשֶר‬


ֲ é regido por ‫ את‬quando utilizado como um pronome (## 12–13) e
quando utilizado para introduzir uma oração iniciada com ‘que’ (## 14–15).

12. ‫שחְתָ לִי אֵּת ֲאשֶר־אֹמַּר‬ַּ ‫ּו ָמ‬e eu te farei saber o que hás de
‫ ֵּא ֶֶּ֫ליָך‬fazer, e ungir-me-ás a quem eu
te disser.

1Sm 16.3

13. ‫ ַּו ֵֶּּּ֫ידַּ ע ֵּאת ֲאשֶר־ ָעשָה־לֹו בְנֹו‬E ele soube o que lhe fizera o

‫ ַּה ָקטָן׃‬filho mais novo


Gn 9.24

14. ָ‫שכַּח ֵּאת ֲאשֶר־ ִה ְק ֶַּּ֫צפְת‬


ְ ִ‫ַאל־ת‬não vos esqueçais de que muito
‫ ֶאת־יהוה‬provocastes à ira a YHWH
Dt 9.7
15. ‫ש ֶַּּ֫מעְנּו ֵּאת ֲאשֶר־הֹובִיש יהוה‬
ָ Temos ouvido que YHWH secou
‫ ֶאת־מֵּי י ַּם־סּוף‬as águas do mar Vermelho
Js 2.10

T. Muraoka observou que, estatisticamente, há um uso mais elevado de ‫ את‬em 1 Samuel 1–8
(apenas 8 das 116 ocorrências do objeto direto definido não a possuem) do que em Gênesis
12–20 (22 de 86 exemplos não a possuem). Ele não encontrou qualquer razão para sua
omissão; compare os exemplos a seguir.

16. ‫ ְוהַּדֶֶּ֫ לֶת ָסגַּר ַאח ֲָריו׃‬Ele fechou a porta após si


Gn 19.6

17. ‫ ְו ֶאת־הַּדֶֶּ֫ לֶת ָס ֶָּ֫גרּו׃‬E fecharam a porta


Gn 19.10

A partícula ‫ את‬raramente é prefixada a um acusativo de objeto direto indefinido. Esse uso


anômalo pode ser explicado devido a uma tentativa de realçar a função acusativa.

18. ‫ ְו ִהשִיג ָלכֶם דֶַּּ֫ י ִש ֶאת־ ָבצִיר‬A debulha se estenderá até


‫(ּו ָבצִיר יַּשִיג ֶאת־ ָז ַּ֑רע‬i.e., até última ou próxima) à
vindima, e a vindima, até à
sementeira.

Lv 26.5

p 181 19. ‫ ְו ָהי ָה אִם־נָשְַּך ַּהנָחָש ֶאת־אִיש‬E se a serpente (i.e., uma


serpente) morder qualquer
um…

Nm 21.9

20. ‫תִרד ֹף׃‬


ְ ‫ ְו ֶאת־קַּש יָבֵּש‬Perseguirás a palha seca?
Jó 13.25
c A partícula é usada com muito menor freqüência com outros substantivos acusativos.
Quanto a outros acusativos objetivos, ‫ את‬tende a não ocorrer com acusativos internos, mas é
encontrada com acusativos complementos (## 21–22) e “acusativos dativos” (## 23–26).

21. .‫ּו ָמלְאּו בָתֵּ י ִמצ ְֶַּּ֫רי ִם ֶאת־ ֶהעָר ֹב‬E as casas dos egípcios se
encheram de moscas.

Êx 8.17

22. ‫ ַּוּי ִ ָמלֵּא ֶאת־ ַּה ָח ְכמָה‬E era cheio de sabedoria.


1Rs 7.14

23. ‫וְָא ַּיָֽבְתִ י אֶת־אֹי ְ ֶֶּ֫ביָך‬Eu


serei um inimigo de seus
inimigos.

Êx 23.22

24. ‫ש ְבטֵּי‬
ִ ‫הֲדָ בָר דִ ֶַּּ֫ב ְרתִ י ֶאת־ַאחַּד‬Eu falei alguma palavra com
ָ ‫י‬algumas das tribos de Israel?
‫ִשראֵּל‬
2Sm 7.7

25. ‫ש ָּפטַּי אֹותָם‬


ְ ‫וְדִ ֶַּּ֫ב ְרתִ י ִמ‬Pronunciarei meus juízos a eles.
Jr 1.16

26. ‫ ֲאדַּ בֵּר אֹותָ ְך׃‬Falarei contigo.


Ez 3.22

A partícula é usada esporadicamente com acusativos adverbiais, de lugar (## 27–28), de tempo
(## 29–30) e de limitação (## 31–33).

27. ‫י ָדַּ ע ֶלכְתְ ָך ֶאת־ ַּהמִדְ בָר ַּהגָד ֹל‬Ele te assistiu em tua jornada
‫ ַּה ֶז֑ה‬por meio deste imenso deserto.
Dt 2.7

28. ‫הֵּם ָיָֽצְאּו ֶאת־ ָהעִיר‬Tendo eles saído da cidade …


Gn 44.4

29. ‫ש ְבעַּת ַּהּי ִ ָ֑מים‬


ִ ‫ ַּמצֹות ֵּיָָֽאכֵּל ֵּאת‬Pão
sem fermento deve ser
comido por sete dias.

Êx 13.7

30. ‫ ָו ֶאתְ נַּּפַּל ִל ְפנֵּי יהוה אֵּת‬Prostrei-me, perante YHWH

‫ַאר ָבעִים הַּּיֹום‬ ְ quarenta dias.


Dt 9.25

31. ‫ַּתְכ֑ם‬
ֶ ‫ּונְ ַּמלְתֶ ם ֵּאת ְבשַּר ע ְָרל‬Circuncidareis no que diz
respeito à carne de seu
prepúcio.

Gn 17.11

32. ‫שכַּב הַּצָ ָֽה ֳֶָּ֫רי ִם׃‬


ְ ‫וְהּוא שֹכֵּב ֵּאת ִמ‬E estando ele deitado a dormir,
ao meio-dia.

2Sm 4.5

33. ‫ת־רגְלָיו׃‬
ַּ ‫ ָחלָה ֶא‬Ele ficou doente dos seus pés.
1Rs 15.23

p 182 10.3.2 Nos Demais Lugares

a A partícula ‫ את‬é prefixada a substantivos na função nominativa em orações com verbo e


sem verbo, geralmente em casos envolvendo enumerações ou aposições (12.1). Ela é
raramente utilizada em outras construções.
b Em orações verbais ‫את‬ pode marcar o sujeito de verbos ativos transitivos (# 1) e
intransitivos (## 2–5) e de verbos passivos (## 6–8). O uso com transitivos é extremamente
raro; os outros dois usos são mais comuns.

1. ‫ ְו ֶאת־ ְמ ָל ֵֶּּ֫כינּו … ֹלא עָשּו‬Os nossos reis … não guardaram


ָ (TRANSITIVO) tuas leis.
‫תֹור ֶּ֑֫ ֶתָך‬
Ne 9.34

2. ‫ּובָא ָהא ֲִרי ְו ֶאת־הַּדֹוב ְונָשָא שֶה‬Quando veio (INTRANSITIVO) um


leão ou um urso e tomou uma
ovelha …

1Sm 17.34

3. ‫שמֹנָה ָעשָר ֶֶּ֫אלֶף‬ ְ ‫ ַּוּיִּפְלּו ִמ ִבנְיָמִן‬Caíram (INTRANSITIVO) de


‫ ִ ֑איש ֶאת־כָל־ ֶֶּ֫אלֶה ַאנְשֵּי־ ֶָּ֫חי ִל׃‬Benjamim dezoito mil homens,
todos estes homens valentes.

Jz 20.44

4. ‫ ְו ֶאת־ ַּהב ְַּרז ֶל נָפַּל אֶל־ה ֶּ֑֫ ַָּמי ִם‬O


ferro (do machado) caiu na
água.

2Rs 6.5

5. ‫ ֶאת־עַּמּוד ֶה ָענָן ֹלא־סָר‬A coluna de nuvem não se


apartou (INTRANSITIVO).

Ne 9.19

6. ‫ִירד‬
ָ ‫ ַּוּי ִ ָּולֵּד ַּלחֲנֹוְך ֶאת־ע‬E Irade nasceu (PASSIVO) a
Enoque.

Gn 4.18

7. ‫ ְב ִה ֶּ֫ ָּולֶד לֹו ֵּאת י ִ ְצחָק בְנֹו׃‬Quando lhe nasceu (PASSIVO)


Isaque, seu filho.
Gn 21.5

8. ‫ ַּוּיֻגַּד ל ְִר ְבקָה ֶאת־דִ ב ְֵּרי ֵּעשָו‬Foram


contadas (PASSIVO) as
palavras de Esaú para Rebeca.

Gn 27.42

O verbo existencial ‫‘ ָהי ָה‬ser’ e as duas partículas existenciais ‫‘ י ֵּש‬há’ e ‫‘ אֵּין‬não há’ pedem
regência verbal ordinária, com um sujeito nominativo. O verbo ‫( היה‬com ‫‘ ל‬pertencer a’; ##
9–10) e ambas as partículas (## 11–12) têm sujeitos ou substantivos em aposição aos sujeitos
marcados com ‫את‬.

9. ‫ ְואִיש ֶאת־ ֳקדָ שָיו לֹו יִהְי֑ ּו‬Como para toda pessoa, as suas
ofertas lhe pertencem

Nm 5.10

10. ‫שנֵּי הַּגֹוי ִם ְו ֶאת־שְתֵּ י‬ְ ‫ ֶאת־‬As duas nações e as duas terras
‫ ָהא ֲָרצֹות לִי תִ ְה ֶֶּ֫יינָה‬serão minhas.
Ez 35.10

11. ‫ ֲהי ֵּש אֶת־ ְל ָבבְָך יָשָר‬Reto é o teu coração?


2Rs 10.15

p 183 12. ‫ ְואֵּין־ ֶאתְ כֶם ֵּאלַּי‬Tu não te voltaste para mim
Ag 2.17

c Com orações sem verbo, ‫ את‬pode ser usada para marcar o sujeito (# 13) ou o predicado
(# 15) ou ambos (# 17), ou um substantivo em aposição a eles (## 14, 16).

13. ‫ ַּה ְמעַּט־ ֶָּ֫לנּו אֶת־עֲֹון ּפְעֹור‬Acaso,não nos bastou a


iniqüidade de Peor (SUJEITO)?

Js 22.17
14. … ‫ ְוז ֶה ֲאשֶר ֹלא־ת ֹאכְלּו מ ֶ ֵּ֑הם‬Mas estas são as (aves) que tu
‫אֵּת כָל־ע ֵֹּרב ְלמִינֹו׃‬não podes comer de … qualquer
espécie de corvo (SUJEITO
APOSITIVO)

Dt 14.12, 14

15. ‫כָל־ ֶהע ִָרים ֲאשֶר תִ תְ נּו ַּל ְל ִוּי ִם‬Todas as cidades que dareis aos
‫שמֹנֶה עִי֑ ר ֶאתְ הֶן‬ ְ levitas serão quarenta e oito
ְ ‫ַאר ָבעִים ּו‬
cidades e os seus arrabaldes
‫( ְו ֶאת־ ִמג ְְרשֵּיהֶן׃‬PREDICADO).

Nm 35.7

16. ‫ ֵּהמָה ַּה ָּפנִים ֲאשֶר ָר ִֶּ֫איתִ י עַּל־‬Eram as suas aparências como a
֑ ָ ‫נְהַּר־ ְכבָר ַּמ ְראֵּיהֶם ו‬dos rostos que eu tinha visto
‫ְאֹותם‬
junto ao rio Quebar (PREDICADO
APOSIÇÃO).

Ez 10.22

17. ‫ ְואֵּת הֶ ָֽע ִָרים ֲאשֶר ִתתְ נּו ַּל ְל ִוּי ִם‬As cidades (SUJEITO) que dareis
‫ ֵּאת שֵּש־ע ֵָּרי ַּה ִמ ְקלָט‬aos levitas, seis serão cidades
de refúgio (PREDICADO).

Nm 35.6

d Os dois usos restantes de ‫ את‬são raros. Ela pode ser usada para marcar um nominativo
absoluto (tópico oracional ou marcador focal; veja 4.7, 8.3).

18. ‫ ֶאת־כָל־ ָה ֶָּ֫א ֶרץ ֲאשֶר־ ַּאתָ ה רֹאֶה‬Porque toda essa terra que vês,
‫לְָך ֶאתְ ֶּ֑֫ ֶננָה‬eu a darei, a ti.
Gn 13.15

19. ‫ ְוגַּם ֶאת־ ַּמ ֲעכָה ִאמֹו ַּויְס ִֶֶּ֫ר ָה‬e até a Maaca, sua mãe, depôs
ָ ‫ ִמ ְגב‬da dignidade de rainha-mãe.
‫ִירה‬
1Rs 15.13

20. ‫ ְו ֶאת־חֻקֹותַּ י ֹלא־הָ ָֽלְכּו ָבהֶם‬E não andaram nos meus


estatutos

Ez 20.16

Como muitos exemplos têm mostrado, ‫ את‬pode marcar um substantivo em aposição (12.1) a
um nominativo; é usada pelo menos uma vez diante de um substantivo em aposição a um
objeto preposicional.

21. ‫ ַּויְמ ְָררּו אֶת־ ַּחּי ֵּיהֶם ַּבעֲב ֹדָה‬Assim lhes fizeram amargar as
‫ ָקשָה … אֵּת כָל־עֲב ֹדָ תָ ם‬vidas com dura servidão … em
todos os seus trabalhos

Êx 1.14

10.4 Aspectos do Uso de ‫ל‬

a A preposição l, como as outras preposições monográficas b e k, serve a uma ampla p 184


variedade de funções (cf. 11.2.10). Ela marca local ‘para, em direção a’ e ‘em, perto’, bem
como referências temporais análogas; é a preposição de transformação ‘em’ e pertencendo ‘a’
e ela marca orações de propósito (‘a fim de que’). Ela pode também ser usada de modo
análogo a ‫את‬, prefixada a substantivos que não caem dentro de seu alcance preposicional
usual, em geral substantivos em enumerações ou em aposições.

b Como ‫את‬, ‫ ל‬é usada para marcar o objeto direto definido de um verbo transitivo
(cf.11.2.10, ##58–60).

1. ‫ז ְכ ֹר לְַאב ְָרהָם ְלי ִ ְצחָק ּו ְליִש ְָראֵּל‬Lembra-te de Abraão, de Isaque


‫ ֲעבָדֶֶּ֫ יָך‬e de Israel, teus servos.
Êx 32.13

2. ‫ ְרפָא נָא לָּה׃‬Rogo-te que a cures.


Nm 12.13
3. ‫שחֵּת ָלעִיר‬
ַּ ‫ ְל‬para destruir a cidade
1Sm 23.10

4. ‫ ַּכ ֶַּּ֫מי ִם ַּלּי ָם ְמ ַּכסִים׃‬como as águas cobrem o mar


Is 11.9

Ela raramente é utilizada para marcar um objeto direto indefinido.

5. ‫ג־כעַּש‬
֑ ָ ‫לֶ ָֽ ֶאוִיל יַּה ֲָר‬O ressentimento mata um tolo.
Jó 5.2

c O sujeito de um verbo pode ser marcado com l; o verbo pode ser intransitivo ou passivo.

6. ‫ ְלכָל־עֹבֵּר ָעלָיו י ִ֑ש ֹם‬Todo aquele que por ela passar


pasmará (INTRANSITIVO).

2Cr 7.21

7. ‫ּפֶן י ְ ֻבלַּע ַּל ֶֶּ֫מלְֶך ּו ְלכָל־ ָהעָם‬para que não seja destruído o
‫ ֲאשֶר ִאתֹו׃‬rei e todo o povo que com ele
está (PASSIVO)

2Sm 17.16

Outro uso de l é quando ocorre no final da oração, em que há um substantivo complexo. No #


8 o substantivo com l está na última parte do sujeito, enquanto que em # 9 a frase com l está
em aposição a um objeto preposicional (cf. 11.2.10, ## 62–64).

p 185 8 .‫ ַּוּי ִתְ נַּדְבּו ש ֵָּרי הָָאבֹות ְוש ֵָּרי‬Então, os chefes das famílias, os
‫ִשראֵּל ְוש ֵָּרי ָה ֲא ָלפִים‬ ָ ‫ש ְבטֵּי י‬ ִ príncipes das tribos de Israel, os
capitães de mil e os de cem e
‫ ְו ַּהמֵּאֹות ּו ְלש ֵָּרי ְמ ֶֶּ֫לאכֶת ַּה ֶֶּ֫מלְֶך׃‬até os intendentes sobre as
empresas do rei.

1Cr 29.6
9 ‫ִם־שרי ָה ֲא ָלפִים‬
ֵּ ‫ ַּוּי ִ ָּועַּץ דָ וִיד ע‬Consultou Davi os capitães de
‫ ְו ַּהמֵּאֹות ְלכָל־נָגִיד׃‬mil, e os de cem, com cada
príncipe.

1Cr 13.1

10.5 ‫ ה‬Direcional

a Antes da decifração dos textos ugaríticos (1.3.1) os gramáticos supunham que o sufixo
átono hebraico –āh, significando “direção”, representava uma sobrevivência da terminação –a
do caso acusativo original. Descobriu-se, porém, que o ugarítico tinha tanto uma terminação
acusativa –a como um sufixo adverbial –h, como o sufixo hebraico chamado “he-local” ou “he-
direcional”. Com base nessa evidência é certo que o he direcional hebraico não é um
sobrevivente do antigo acusativo, mas um sufixo adverbial distinto. Em linhas gerais, como o
sufixo adverbial inglês ‘–ward’, esse sufixo denota alguns sentidos semelhantes àqueles
designados pelo caso acusativo; ele difere daquele caso, no qual ele pode ocorrer com
substantivos regidos por uma preposição, ao enfatizar claramente a noção de direção.

b O he direcional pode indicar a direção para a qual uma ação está dirigida. O caso mais
simples desse tipo de he direcional é a palavra ‫ ֵֶּּ֫הנ ָה‬.

1. ‫ ָהבֵּא ֶאת־ ָה ֲאנָשִים ה ֶּ֫ ָ ַּ֑בי ְתָ ה‬Leve


estes homens para
(minha) casa.

Gn 43.16

2. ‫ש ֶַּּ֫מי ְ ָמה‬
ָ ‫ ַּהבֶט־נָא ַּה‬Olhe para os céus.
Gn 15.5

O he direcional pode romper uma cadeia construta (9.3d).

3. ‫ ַּוּיָבֵּא ָהאִיש ֶאת־ ָה ֲאנָשִים ֵֶּּ֫ביתָ ה‬O varão levou os homens para a
‫יֹוסֵּף׃‬casa de José.
Gn 43.17
Menos freqüentemente, o he ocorre numa frase preposicional indicando a direção a partir da
qual uma ação é dirigida.

p 186 4. ‫שבִים ִמ ָב ֶֶּ֫בלָה‬


ָ ‫ ְכלֵּי בֵּית־יהוה מּו‬Eis que os utensílios da casa de
YHWH voltarão em breve de
Babilônia.

Jr 27.16

O sufixo he também é usado em frases preposicionais referindo-se a um local.

5. ‫וְדָ וִד ְב ִמדְ בַּר־ז ִיף ב ֶַּּ֫ח ֹ ְרשָה׃‬Davi esteve no deserto de Zife,
em Horesa.

1Sm 23.15

6. ‫ ְוכָל־בֵּית שְָאן ֲאשֶר ֵֶּּ֫אצֶל‬E a toda a Bete-Seã, que está


‫צ ְָר ֶַּּ֫תנָה‬junto a Zaretã
1Rs 4.12

c Finalmente, a partícula pode marcar uma progressão avançada no tempo.

7. ‫שמ ְַּרתָ ֶאת־ ַּה ֻחקָה הַּז ֹאת‬ ָ ‫ ְו‬Portanto,


guardarás esta
‫לְמֹוע ָ ֲ֑דּה ִמּיָמִים י ָ ִֶּ֫מימָה׃‬ordenança
no determinado
tempo, de ano em ano.

Êx 13.10

p 187 11
Preposições
11.1 Introdução
1.1 Perspectiva “Nominal”

1.2 Perspectiva de “Partícula”

1.3 Perspectiva “Semântica”

11.2 Semântica das Preposições Simples

2.1 ‫אחרי‬ ~ ‫אחר‬

2.2 ‫אל‬

2.3 ‫אצל‬

2.4 ‫את‬

2.5 ‫ב‬

2.6 ‫בין‬

2.7 ‫בעד‬

2.8 ‫יען‬

2.9 ‫כ‬

2.10 ‫ל‬

2.11 ‫מן‬

2.12 ‫עד‬

2.13 ‫על‬

2.14 ‫עם‬

2.15 ‫תחת‬
11.3 Preposições Compostas e Complexas

3.1 Preposições Complexas e Substantivos

3.2 Preposições Complexas como Advérbios

3.3 Preposições Compostas

11.4 Aspectos da Sintaxe das Preposições

4.1 Verbos com Acusativo ou Objetos Preposicionais


4.2 Preposições com Objetos Múltiplos

4.3 Ambigüidade Suposta e Elipse

11.1 Introdução

a Preposições são termos relacionais que se colocam diante de substantivos ou de


subsatantivos equivalentes (incluindo certas formas verbais) e, assim, formam frases (4.3b);
frases preposicionais são usadas dos mais variados modos. A classe das preposições é p 188
uma classe fechada, isto é, um grupo de palavras mais ou menos pequeno e bem definido,
diferente, por exemplo, da classe aberta dos verbos, que é grande e (numa língua viva)
prontamente expansível.

11.1.1 Perspectiva “Nominal”

a As preposições hebraicas podem ser consideradas sob diversas perspectivas. Algumas


delas são derivadas de substantivos e seu comportamento pode ser visto em termos de papéis
ou funções nominais. Nessa perspectiva, as preposições são tomadas como substantivos no
acusativo adverbial, regendo substantivos no genitivo. Pelo menos algumas preposições
hebraicas em suas formas arcaicas terminavam em a, a terminação histórica do caso acusativo,
e foram usadas no estado construto; o substantivo regido por elas ficavam no caso genitivo
(veja 9.3). Vestígios de tal história ainda podem ser vistos em formas construtas como ‫ ַאח ֲֵּרי‬e
a preposição complexa ‫‘ ִל ְפנֵּי‬diante da face de’ > ‘diante’ (veja 11.3.1); as línguas cognatas
também apóiam esta concepção. A redução de formas construtas nominais está relacionada
ao estado átono de muitas preposições, escritas como prefixos ou como proclíticos (com
maqqeph, p.ex., ‫)על־‬. Acerca dessa visão “nominal” das preposições há uma ênfase na íntima
relação entre frases preposicionais e os verbos que as regem; como outros papéis acusativos, a
preposição é fundamentalmente adverbial. Preposições e expressões nominais (ou quase
nominais) de várias origens suplementam o caso acusativo para tornar mais precisa a relação
entre o verbo e os substantivos que elas modificam (veja 10.2, 11.4.1). A perspectiva
“nominal” sobre preposições provê uma visão limitada. Várias preposições não possuem raiz
nominal alguma, e, mais importante, as preposições como termos relacionais funcionam
diferentemente dos substantivos (ou de qualquer subclasse de substantivos).

11.1.2 Perspectiva de “Partícula”

a Por outra perspectiva, as preposições hebraicas pertencem à ampla classe das partículas.
Algumas preposições também se comportam como advérbios ou conjunções, dois outros
grupos de partículas. Como muitas partículas, algumas preposições hebraicas p 189 ficam do
lado de fora do sistema de raízes. De fato, a complexidade morfológica das preposições
merece um estudo separado. Ela apresenta três características.
b A primeira destas envolve a oposição das preposições simples (p.ex., ‫ מִן‬e ‫)עַּל‬, as
preposições compostas, que são compostas de duas (ou mais) preposições simples (p.ex.,
‫ ; ֵּמעַּל‬11.3.3), e as preposições complexas, constituídas de uma preposição + um substantivo
(p.ex., ‫בי ַּד‬
ְ ‘por, através’ e ‫‘ בְתֹוְך‬no meio de’; 11.3.1).
c A segunda característica dessa complexa classe de palavras é a diversidade de
estructuras associadas às preposições simples:

1. Cə, as preposições prefixadas (ou uniliterais) ‫ב‬


ְ , ‫ ְכ‬, ‫ ; ְל‬estas são escritas como prefixos
aos substantivos que elas modificam.

2. CVC, as preposições proclíticas ‫עַּד־‬, ‫עַּל־‬, ‫אֶל־‬, ‫ ;מִן־‬estas com freqüência são unidas
aos substantivos que elas modificam com um maqqeph.

3. CVC < CVyC, ‫בֵּין‬.

4. CVCVC < CVCC, p.ex., ‫ ֵֶּּ֫אצֶל‬, ‫תֶַּּ֫ חַּת‬.

5. Outras, p.ex., ‫ַאח ֲֵּרי‬.

d A terceira característica complexa é o uso de formas variantes, especialmente com


pronomes sufixados. As preposições que são derivadas de geminados exibem a esperada
duplicação com um sufixo (‫עִם‬, mas ‫עמִי‬
ִ ; ‫אֶת־‬, mas ‫) ִאתִ י‬, e aquelas que estão de algum modo
relacionadas a substantivos plurais levam terminações plurais (‫אֶל־‬, mas ‫אלַּ־‬
ֵּ ; cf. masculinos
‫עַּד‬, ‫עַּל‬, ‫תֶַּּ֫ חַּת‬, ‫ ;ַאח ֲֵּרי‬masculino ‫ בֵּינֵּי‬ou feminino ‫ בֵּינֹות‬com sufixos plurais). Há uma classe a
mais de formas variantes, um grupo imprevisível. As variantes podem estar associadas ao mem
enclítico (9.8), mas o paradigma de uso de variantes permanece sem explicação, juntamente
com o fato de que as variantes são usadas principalmente em poesia, uso que geralmente é
arcaico.

forma forma variante variante variante forma


regular variante solitária usada com regular
com sufixo com
sufixo sufixo

‫ְב‬ ‫בְמֹו‬ sim não — ‫ ֶָּ֫בנּו‬, etc.

‫ְכ‬ ‫כְמֹו‬ sim sim ‫כ ֶָּ֫מֹוהּו‬ ‫ ָכהֶם‬, etc.


‘como
ele’
‫ְל‬ ‫למו‬ sim sim ‫‘ לָמֹו‬para ‫ ָלהֶם‬, ‫לֹו‬,
ele, eles’ etc.

‫מִן‬ (‫ממֵּי‬
ִ ?) não sim ‫ִמ ֶֶּ֫מנּו‬ ‫ ֵּמהֶם‬, etc.
‘dele, de
nós’

‫ִמנִי‬ sim não —

Mesmo as regularidades nesta tabela são enganadoras: variantes alongadas de ‫ כ‬e ‫ מן‬são
regularmente usadas com sufixos, mas a forma alongada de ‫ ל‬é observada apenas em ‫לָמֹו‬, p
190 que é usada em dois sentidos diferentes, ‘para ele’ (como se fosse ləmô + pronome –ô) e
‘para eles’ (como se fosse lə + pronome –hem/–am). A forma variante mais alongada é usada
apenas em Jó (quatro vezes).

11.1.3 Perspectiva “Semântica”

a Nas duas perspectivas sobre preposições que descrevemos, as palavras são vistas, por
um lado, como substantivos essencialmente em papéis acusativos adverbiais e, por outro lado,
como partículas morfologicamente diferentes. Numa terceira perspectiva, é a semântica das
preposições que é enfatizada. Qual o significado da relação entre o substantivo que a
preposição rege e a oração na qual a frase preposicional ocorre? A relação vai em duas
direções; considere esta oração:

‫ש ֶַּּ֫לי ִם ְב ֶֶּ֫עצֶם הַּּיֹום ַּהז ֶה׃‬


ָ ‫ ָסמְַּך ֶֶּ֫מלְֶך־ ָבבֶל אֶל־י ְרּו‬O
rei de Babilônia se atira contra Jerusalém
neste dia.

Ez 24.2

Para descrever os significados das preposições, dois conjuntos subordinados de relações


devem ser observados: (1a) ʾl + seu objeto (um lugar) e (1b) b + seu objeto (um tempo), como
também (2a) smk ʾl e (2b) smk b. Infelizmente, às vezes tem sido dada maior atenção ao
primeiro conjunto de relações do que ao segundo. Para algumas preposições, o primeiro
conjunto pode ser mais importante, mas esse dificilmente é o caso para todas elas. A
tendência de focalizar a preposição apenas em relação a seu objeto tem sido exacerbada pelo
mau uso recente de dados comparativos, principalmente os extraídos do ugarítico. Apesar de
os paradigmas da forma verbo + preposição + objeto não serem plenamente atestados em
hebraico como gostaríamos, as preposições não devem ser tratadas como “curingas”
filológicos. É “a tarefa de um dicionário, em geral, especificar os usos de paradigmas
complexos, acima de tudo quando associados a alguns verbos”, mas continua sendo função de
uma gramática prover um arcabouço dentro do qual um dicionário possa ser usado
apropriadamente.

b A parte principal deste capítulo ocupa-se com esse arcabouço, ou seja, as preposições
simples mais importantes (11.2). Após debater as preposições compostas e complexas (11.3),
algumas características sintáticas das preposições são apresentadas (11.4).

11.2 Semântica das Preposições Simples

a Preposições são termos de relação, e sua grande importância está na notável economia
com que conseguem expressar tantas relações diferentes. O número de tipos de p 191 relação
é abundante, embora as relações de lugar e de tempo sejam as de maior importância, e as
formas de relações posicionais e temporais são as mais desenvolvidas. Outros tipos
importantes de relação, freqüentemente sinalizados por preposições, incluem origem,
instrumento, agente, interesse, causa e alvo.

b Mesmo um exame apenas das interrelações de usos espaciais das preposições hebraicas
revela a complexidade do sistema, as lacunas, as sobreposições no léxico, e os diversos modos
em que os termos relacionais estão delineados. Os sentidos espaciais das preposições podem
referir-se tanto a posição quanto a movimento. Se marcarmos com flechas as preposições que
descrevem principalmente o movimento e deixarmos as outras não-marcadas, podemos
esboçar muitas das preposições espaciais num diagrama simples.

c Todavia, o sentido espacial ou referência de uma determinada preposição não é um valor


absoluto; ela é sempre regida pelo verbo (ou predicado) de uma oração e, mais amplamente,
pela perspectiva da qual uma ação é vista. Dennis G. Pardee ilustra o ponto:

‘Ele o tomou da mesa’ = [em francês] il l’a pris sur la table … Devemos assumir
que sur em francês é ambíguo, significando tanto ‘sobre’ quanto ‘de (origem)’?
Tal reivindicação não seria viável e nenhum falante nativo aceitaria a
permutabilidade entre sur e de [como em de Paris ‘(oriundo) de Paris’] ou
depuis [como em depuis le matin ‘a partir da manhã, desde a manhã’]. A
explicação se apóia na perspectiva do falante: o português expressa a
separação causada pelo ato mediante o uso da preposição ‘de’ (oriundo de),
enquanto que o francês olha para a posição do objeto antes de a ação ter
ocorrido.

Semelhantemente, em acadiano, a preposição ina usualmente tem o sentido de ‘em’, mas na


oração ina našpakim ilteqe ‘ele (o) tomou do celeiro’ a preposição tem um sentido ablativo.

p 192 d A maioria das preposições tem um sentido espacial, o que é conveniente


considerar como ponto de partida. A partir desta noção outros sentidos, referindo-se a
relações lógicas e temporais, podem ser desenvolvidos. O papel do sentido espacial deve ser
qualificado: o uso, não a etimologia, define o sentido. As preposições têm significados
distintos. Embora seus campos semânticos se sobreponham, nenhum par exibe completa
permutabilidade. Contudo, devido à sobreposição de sentido, é possível que às vezes a escolha
entre combinações verbo-preposição essencialmente similares fosse principalmente uma
questão estilística.

e Idealmente, os significados das preposições devem ser classificados de acordo com suas
combinações idiomáticas com verbos específicos, no intuito de salvaguardar-se de
alongamentos impróprios do significado de uma preposição. Não se deve assumir que um
falante de hebraico teria categorizado seus significados de acordo com equivalentes
portugueses. Todavia, o significado da preposição é, em grande medida, consistente e
apreensível, mesmo com as variações devidas aos sentidos dos verbos usados com ela. Um
estudo preciso e exaustivo dos pares hebraicos do tipo verbo-preposição pertence a um
dicionário ou a livros de vocabulário avançado, como observado antes. O propósito desta
gramática é fornecer um panorama básico da maioria das preposições simples e de seus
significados, sem inventariar os verbos associados a cada uma delas. O estudante deve
considerar as glosas usadas nos exemplos seguintes como guias e continuar aberto a outras
interpretações possíveis das combinações do tipo verbo-preposição.

f Das quinze preposições simples discutidas aqui, todas, exceto duas ( ‫ ֶַּּ֫יעַּן‬, ‫) ְכ‬, têm um
sentido espacial. Os sentidos espacial e temporal são geralmente observados primeiro, e
outras relações relevantes em seguida.

11.2.1 ‫ַאחַּר ~ ַאח ֲֵּרי‬

a Esta preposição é usada de duas formas, uma aparentemente singular, e a outra com a
terminação –ê, aparentemente plural. A forma singular também é usada como um advérbio, e
a plural como um substantivo. A preposição tem o sentido posicional ‘atrás de, depois de’ (# 1)
e um sentido metafórico posicional ‘(andar) após’ > ‘(comportar-se) como, à maneira de,
conforme a norma de’ (# 2). O sentido temporal é ‘depois, posterior’ (## 3–4), e o sentido
lógico principal refere-se a interesse, vantagem, ou desvantagem (‘após, para, contra’; ## 5–6).
Há um sentido derivado, que se origina na geografia p 193 básica do corpo em hebraico:
exatamente como o lado ‘direito’ (‫ )יָמִין‬do corpo é ‘sul’ (‫)יָמִין‬, assim o lado ‘detrás de’ ‫ ַאחַּר‬é
o lado remoto ou ‘oeste’ (# 7).
1 .‫ ִהנֵּה־ז ֶה עֹומֵּד ַאחַּר כָתְ ֵֶּּ֫לנּו‬Eis que ele está detrás da nossa
parede.

Ct 2.9

2. ‫ ַּו ֵֶּּּ֫ילְֶך ַאחַּר חַּט ֹאת י ָָר ְבעָם‬Porque


foi após (ou, andou à
maneira de) os pecados de
Jeroboão.

2Rs 13.2

3. ‫ַאחַּר הַּדְ ב ִָרים ָה ֵֶּּ֫אלֶה‬depois destas coisas


Gn 15.1

4. ‫ַאח ֲֵּרי ִהּפ ֶ ָָֽרד־לֹוט ֵּמעִמֹו‬depois que Ló se separou dele


Gn 13.14

5. ‫וְַאחַּר כָל־י ָרֹוק י ִדְ רֹוש׃‬E anda à procura de tudo o que


está verde.

Jó 39.8

6. ‫ַאח ֲֶֶּ֫ריָך ר ֹאש ֵּה ִֶּ֫ניעָה‬Ela (filha de Jerusalém) meneia


a (sua) cabeça para ti.

2Rs 19.21

7. ‫ ַּוּיִנְהַּג ֶאת־הַּצ ֹאן ַאחַּר ַּה ִמ ְדבָר‬Ele levou o rebanho para o lado
ocidental (ou distante) da
estepe.

Êx 3.1

11.2.2 ‫אֶל‬
a O maqqeph está quase invariavelmente presente com esta preposição. Há uma forma
alongada ‫אלֵּי־‬
ֱ , e é a partir desta que as formas sufixadas parecem derivar: ‫ ֵּאלַּי‬, ‫ ֵּא ֵֶּּ֫לינּו‬, etc. O
sentido locativo contingente (‘a, por, perto de’; # 1) é menos importante do que os sentidos
envolvendo movimento; ʾl marca uma direção (‘para’; ## 2–3), um alvo ou um fim (‘para
dentro’; # 4), ou um limite ou um grau (‘até onde, até; # 5, metafórico). Um grupo de sentidos
lógicos é “dativo” (cf. 11.2.10d): ʾl marca um dativo simples (‘para’ o recipiente de presente ou
um endereço; ## 6–7), um dativo ético de interesse, vantagem, ou desvantagem (para, contra;
## 8–11), e um dativo normativo (de acordo com; # 12). Outro grupo é comitativo, que são os
sentidos de companhia (‘com’; # 13) e soma (‘em adição a’; # 14); as preposições comitativas
pessoais (‘com alguém’) são ‫ אֵּת‬e ‫עִם‬. A preposição ʾl também pode ser usada como uma
especificação (‘por causa de’; # 15).

1. ‫ ַּוּי ִ ְמצְאּו א ֹתֹו אֶל־ ֶַּּ֫מי ִם ַּרבִים‬Eles o acharam junto às grandes


águas.

Jr 41.12

p 194 2. ‫וַּתֶָּ֫ שָב ֵּאלָיו אֶל־הַּתֵּ בָה‬tornou a ele para a arca


Gn 8.9

3. ‫ ִלהְיֹות עֵּי ֶֶּ֫נָך פְתֻ חֹות אֶל־ ַּה ֶַּּ֫בי ִת‬que os teus olhos estejam
‫ ַּחז ֶה‬abertos em direção a este
templo

1Rs 8.29

4. ‫הַּתֵּ ָ ֑בה‬-‫ב ֹא … אֶל‬Vá… para dentro da arca.


Gn 7.1

5. ‫ש ָּפטָּה‬
ְ ‫ש ֶַּּ֫מי ִם ִמ‬
ָ ‫כִי–נָגַּע אֶל־ ַּה‬O seu juízo chega até aos céus.
Jr 51.9

6. ‫ ְונָתַּ ן ֵּא ֶֶּ֫ליָך אֹות אֹו מֹופֵּת׃‬E ele te der um sinal ou


prodígio.

Dt 13.2
7. ‫ ַּוּיִק ְָרא אֶל־ ֲעבָדָ יו וַּּיֶּ֫ אמֶר‬E ele chamou (aos) os seus
‫ ֱאלֵּיהֶם‬servos e lhes disse…
2Rs 6.11

8. ‫ ַּו ֵֶּּּ֫ילְֶך אֶל־נַּפְשֹו‬E ele fugiu por sua vida.


1Rs 19.3

9. ‫ֵּיכ֑ם ּו ָפ ִֶּ֫ניתִ י ֲאלֵּיכֶם‬


ֶ ‫כִי ִהנְנִי ֲאל‬Eu
estou preocupado convosco
e me voltarei para vós [com
favor].

Ez 36.9

10. ‫אֵּין נַּ ְפשִי אֶל־ ָהעָם ַּה ֶז֑ה‬Eu não tenho coração para este
povo.

Jr 15.1

11. ‫ ִלסְּפֹות עֹוד עַּל חֲרֹון ַאף־יהוה‬para acrescentar ainda mais a


‫אֶל־יִש ְָראֵּל׃‬ira de YHWH contra Israel
Nm 32.14

12. ‫ִיהֹוש ַּע‬


֑ ֻ ‫אֶל־ּפִי יהוה ל‬de acordo com a palavra de
YHWH a Josué

Js 15.13

13. ‫וְֹלא־תֶ ֶחטְאּו לַּיהוה ֶלאֱכ ֹל אֶל־‬Não pequeis contra YHWH,


‫ה ָ ַּ֑דם‬comendo [carne] com sangue.
1Sm 14.34

14. ‫הֹו ֶַּּ֫ספְתָ ָח ְכמָה וָטֹוב אֶל־‬Tu somaste sabedoria e riqueza


além do relatório que eu tinha
‫ש ֶָּ֫מעְתִי׃‬
ָ ‫שמּועָה ֲאשֶר‬
ְ ‫ ַּה‬ouvido (i.e., Tu és mais sábio e
mais rico do que eu tinha
ouvido).

1Rs 10.7

15. ‫ ַּוּי ִ ֶָּ֫נחֶם יהוה אֶל־ה ָָרעָה‬YHWH estava aflito em relação à


calamidade.

2Sm 24.16

11.2.3 ‫ֵֶּּ֫אצֶל‬

a Esta preposição tem um sentido posicional ‘ao lado de, junto a’ (## 1–2).

1. ‫ ְוהַּתֹו ֵּק ַּע בַּשֹופָר ֶא ְצלִי׃‬E a pessoa que tocava a


trombeta estava ao meu lado.

Ne 4.12

p 195 2. ‫שכַּב ֶא ְצלָּה‬


ְ ‫שמַּע ֵּא ֶֶּ֫לי ָה ל‬
ָ ‫וְֹלא־‬Ele se recusou a deitar (lit., ele
não a ouviu sobre deitar) ao
lado dela.

Gn 39.10

11.2.4 ‫אֶת‬

a O formato desta preposição em formas sufixadas é ʾitt– (e.g,‫ ִאתִ י‬, ‫ ) ִאתֶָּ֫ נּו‬e assim ela
contrasta com a escrita da partícula ‫את‬
ֵּ , que tem as formas ʾōt– (p.ex., ‫א ֹתִ י‬, ‫ )א ֹתֶָּ֫ נּו‬e ʾet–
(p.ex., ‫תכֶם‬
ְ ‫ ; ֶא‬veja 10.3). O sentido básico é comitativo (‘com’); ela pode marcar
acompanhamento (companhia, comunhão; # 1), interesse (companhia, literal ou metafórica,
com o intuito de ajuda; ## 2–4), ou o complemento de verbos de trato, fala e ação (## 5–7). O
objeto de ʾt também pode ser uma adição (‘junto a, ao lado de, em adição a’; # 8). A
preposição tem um sentido espacial intimamente relacionado a este último (‘próximo de’; # 9);
compare a forma portuguesa ‘ao lado de’, como em ‘Há um templo ao lado do palácio’ e ‘Há
um sacerdócio ao lado da monarquia’. O possessivo pode ser marcado com ʾt (‘ter’; # 10).
1. ‫ ְו ַּאתָ ה ּו ָב ֶֶּ֫ניָך ִאתְָך‬tu e teus filhos contigo
Nm 18.2

2. ‫מִי ִאתִ י ִ ֑מי‬Quem é (está do meu lado)


comigo? Quem?

2Rs 9.32

3. ‫וַּיהוה ִאתֶָּ֫ נּו‬YHWH


é (está do nosso lado)
conosco.

Nm 14.9

4. ‫ ָק ִֶּ֫ניתִ י אִיש ֶאת־יהוה׃‬Adquiri um homem com o


auxílio de YHWH.

Gn 4.1

5. ‫ ַּו ֲאנִי ִהנְנִי ֵּמקִים ֶאת־ב ְִריתִ י‬Eu estou confirmando minha
‫ ִאתְ ֶכ֑ם‬aliança convosco.
Gn 9.9

6. ‫דִ בֶר… ִאתֶָּ֫ נּו ָקשֹו֑ ת‬Ele… falou severamente


conosco.

Gn 42.30

7. ‫יָאֵּר ָּפנָיו ִאתֶָּ֫ נּו‬E faça resplandecer o seu rosto


sobre nós.

Sl 67.2

8. ‫ֹלא תַּ עֲשּון ִא ִ ֑תי‬Nãofareis deuses para colocá-


los ao meu lado.

Êx 20.23
9. ‫ ְב ַּצ ֲע ֶַּּ֫ני ִם ֲאשֶר ֶאת־ ֶֶּ֫קדֶ ש׃‬em Zaananim, que está junto a
Quedes

Jz 4.11

10. ‫מָה ִאתֶָּ֫ נּו׃‬Que temos (à mão)?


1Sm 9.7

p 196 11.2.5 ‫ב‬


ְ

a Esta preposição, a segunda mais comum em hebraico, ocorre tanto na forma simples ‫ְב‬
como forma alongada ‫ ;בְמֹו‬esta última não leva sufixos. A diversidade de sentidos de ‫ ב‬é algo
digno de nota.

b Os sentidos espaciais são básicos. A preposição b marca localização dentro de ou em um


ponto (# 1), sobre uma superfície (# 2), dentro de uma área (# 3) e em meio a um domínio (#
4). Ela marca, com verbos de movimento, tanto alvos (‘em, para dentro de’; # 5) e áreas que
são passadas através de (# 6).

1. ‫ ַּוּי ֶ ֱאהַּב ִאשָה ְב ֶַּּ֫נחַּל ש ֵּ ֹ֑רק‬Ele amou uma mulher em Nahal


Soreque.

Jz 16.4

2. ‫ ַּוּיִזְבַּח יַּעֲק ֹב ֶֶּ֫זבַּח ָבהָר‬Jacó


ofereceu um sacrifício na
montanha.

Gn 31.54

3. ‫שע ֶ ֑ ֶָּ֫ריָך‬
ְ ‫וְָא ַּכלְתָ ָבשָר … ְבכָל־‬Comerás a carne… dentro de
todos os teus portões.

Dt 12.15

4. ‫אֹודְ ָך ָב ָעמִים‬Cantar-te-ei entre as nações.


Sl 57.10

5. ‫ ַּה ָבאִים ַאח ֲֵּריהֶם ַּב ָּי֑ם‬que os haviam seguido no mar


Êx 14.28

6. ‫שדֶ ה‬
ָ ‫מִי־ ָהאִיש ַּה ָלז ֶה הַּהֹלְֵּך ָב‬Quem é aquele homem que
‫ ִלק ְָראתֵֶּּ֫ נּו‬vem pelo campo ao nosso
encontro?

Gn 24.65

c Usada temporalmente, b pode marcar um tempo vigente em, a ou quando (## 7–9). Ela
pode ainda, marcar uma ação simultânea à do verbo principal; a ação simultânea é mostrada
por um infinitivo (36.2.2b) numa oração circunstancial.

7. ‫ ְבכָל־עֵּת אֹהֵּב ה ֵּ ָ֑ר ַּע‬Amigo


é aquele que ama em
todos os tempos.

Pv 17.17

8. ‫שמָם׃‬
ְ ‫בְדֹור ַאחֵּר יִמַּח‬Em (o tempo de) uma futura
geração sejam seus nomes
extintos.

Sl 109.13

9. ‫ ֶעז ְָרה ְבצָרֹות נִ ְמצָא מְא ֹד׃‬Queajuda ele tem sido em (o


tempo de) tribulação.

Sl 46.2

d Diversas circunstâncias podem ser marcada com b, tanto física (beth comitantiæ; ## 10–
12) como mental (## 13–14); tais frases freqüentemente são vertidas para o português p 197
com um advérbio. Ambas, instrumentos (não-animados; ## 15–16) e agentes (animados),
simples (# 17; observe o Niphal) e adversativo (# 18), levam b. A preposição pode reger o
material com o qual um ato é realizado (# 19) e o preço (beth pretii) pago (# 20) ou o padrão
monetário utilizado (# 21).
10. ‫ש ֶַּּ֫ליְמָה ֵּב ַּחי ִל ָכבֵּד‬
ָ ‫וַּתָ ב ֹא י ְרּו‬Ela entrou em Jerusalém com

‫מְא ֹד‬uma grande caravana.


1Rs 10.2

11. ‫נָתַּ ן בְקֹולֹו‬Ele


trovejou (lit., ele anuncia
com sua voz).

Sl 46.7

12. ‫בֹכִים בְקֹול ָג֑דֹול‬chorando alto (lit., chorando


em alta voz)

Ed 3.12

13. ‫ש ֑שֹון‬
ָ ‫ּושְַאבְתֶ ם־ ֶַּּ֫מי ִם ְב‬Vós tirareis água alegremente
(lit., em alegria).

Is 12.3

14. ‫ ִב ְבכִי י ָב ֹאּו ּובְתַּ חֲנּונִים אֹובִילֵּם‬Virão com choro, e em súplicas


os levarei.

Jr 31.9

15. ‫שבֶט י ַּכּו‬


ֵּ ֶּ֫ ‫ ַּב‬Eles golpeiam com a vara.
Mq 4.14

16. ‫וַּתִ ָבקַּע ָה ֶָּ֫א ֶרץ בְקיֹלָם׃‬Aterra foi sacudida pelo seu
clamor.

1Rs 1.40

17. ‫שֹפְֵּך דַּ ם הָָאדָ ם בָָאדָ ם דָ מֹו‬Se alguém derramar o sangue


‫יִש ֵּ ָ֑פְך‬do homem, pelo homem se
derramará o seu
Gn 9.6

18. ‫י ָדֹו בַּכ ֹל ְוי ַּד כ ֹל ֑בֹו‬Sua mão será contra todos, e a
mão de todos, contra ele.

Gn 16.12

19. ‫ ַּריְצַּף ֶאת־ק ְַּרקַּע ַּה ֶַּּ֫בי ִת ְב ַּצלְעֹות‬E cobriu o piso da casa com

‫בְרֹושִים׃‬tábuas de cipreste.
1Rs 6.15

20. ‫וַּתַּ ֲעלֶה וַּתֵּ צֵּא מ ְֶר ָכבָה … ְבשֵּש‬Uma carruagem foi importada

‫(מֵּאֹות ֶֶּ֫כסֶף‬lit., subiu e saiu) … por


seiscentos siclos (sheqels) de
prata.

1Rs 10.29

21. ‫שקֶל‬
ֶ ‫ש ָקלִים ְב‬
ְ ‫שת‬
ֶ ‫ ֶכסֶף ֲח ֵּמ‬cinco siclos (sheqels) de

‫הַּק ֹדֶ ש‬dinheiro, segundo o siclo do


santuário.

Nm 18.16

p 198 e Outros usos circunstanciais de b também são comuns. O beth de especificação


serve para qualificar o domínio com referência ao que prevalece da ação verbal (## 22–24). Há
dois tipos intimamente ligados: o beth de norma (‘à maneira de’; # 25) e o beth estimativo,
especificando a extensão contra a qual uma opinião é sustentada (cf. ‘O melhor menininho de
todos’; # 26) O beth de identidade (beth essentiæ) marca a capacidade com a qual um ator se
comporta (‘como, servindo como, na capacidade de’; ## 27–28) O beth causal marca a razão
ou a força impulsionadora de uma ação (# 29); às vezes torna-se difícil distingui-lo de seus usos
circunstanciais comuns.

22. ‫עַּל־ַאחַּת מִכ ֹל ֲאשֶר־י ַּ ֲעשֶה‬Em qualquer de todas estas


‫הָָאדָ ם ַּלחֲט ֹא ָב ֵּהנָה‬coisas em que uma pessoa
possa pecar (lit., faça por
pecado) com respeito a estas
ações
Lv 5.22

23. ‫ש ַּמחְתָ ְבכָל־הַּטֹוב‬


ָ ‫ ְו‬Alegrar-te-ás em todo o bem …
Dt 26.11

24. ‫ ַּוּיִגְוַּע כָל־ ָבשָר … בָעֹוף‬E expirou toda carne … a saber,


ֶ ֶּ֫ ‫ּו ַּב ְב ֵּהמָה ּו ַּב ַּחּי ָה ּו ְבכָל־ ַּה‬aves, gado, feras e répteis.
‫ש ֶרץ‬
Gn 7.21

25. ‫עַּל־כֵּן ֶא ְבכֶה ִב ְבכִי י ַּ ְעז ֵּר‬Pelo que prantearei, como Jazer
(lit., como o pranto de Jazer).

Is 16.9

26. ‫ָארּום בַּגֹוי ִם‬Eu sou exaltado entre as


nações,

‫ָארּום ָב ֶָּ֫א ֶרץ׃‬Eu sou exaltado na terra.


Sl 46.11

27. ‫ ָוא ֵָּרא אֶל־ַאב ְָרהָם … בְאֵּ ל‬Eu apareci a Abraão …como El

ַּ Shaddai.
‫ש ָ ֑די‬
Êx 6.3

28. ‫יהוה לִי בְעֹז ָ ְ֑רי‬YHWH está comigo, (servindo


como) meu Ajudador.

Sl 118.7

29. ‫שחִית ַּב ֲח ִמשָה ֶאת־כָל־‬


ְ ַּ‫הֲת‬Destruirás toda a cidade por
‫ה ִ ָ֑עיר‬causa dos /devido aos cinco?
Gn 18.28

f Um grupo de relações estritamente gramaticais permanece. Em frases nominais, b pode


marcar um distributivo (#30) ou um partitivo (# 31). A preposição b marca o objeto p 199 de
uma variedade de verbos (veja 10.2.1); estes incluem verbos de extensão, toque; segurança
(sobre; # 32), golpe (em), alcance (a), enchimento (com); de exercício de autoridade sobre (#
33); de percepção pelos sentidos (especialmente a visão, # 34) e de emoção (notavelmente
confiança; # 35); e de fala (# 36).

30. ‫יֹום בְיֹום‬dia após dia


2Cr 30.21

31. ‫ּובַּל־ ֶא ְלחַּם ְב ַּמנְ ַּעמֵּיהֶם‬E não me permita comer


(algumas) de suas iguarias.

Sl 141.4

32.