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O ESPÍRITO ESTE DESCONHECIDO ................................................ 1


INTRODUÇÃO ...................................................................................... 2
Prefácio ................................................................................................. 3
CAPITULO I ............................................................................................ 7
Física e Metafisica.................................................................................... 7
CAPITULO II ......................................................................................... 19
0 espaço e o tempo do Espírito............................................................... 19
CAPITULO III ....................................................................................... 25
As linguagens de descrição na Física .................................................. 25
CAPITULO IV ....................................................................................... 35
0 espaço-tempo complexo .................................................................... 35
CAPITULO V ......................................................................................... 44
0 elétron portador do Espírito ............................................................. 44
CAPITULO VI ....................................................................................... 56
Uma evolução neoteilhardiana ............................................................ 56
CAPITULO VII ...................................................................................... 62
Observação do Espírito dentro da Matéria ........................................ 62
CAPITULO VIII .................................................................................... 82
As ramificações eternas de nosso Espírito .......................................... 82
CAPITULO IX ....................................................................................... 88
Mecanismos do Espírito e parapsicologia .......................................... 88
CAPITULO X ......................................................................................... 97
0 funcionamento do Espírito como fenômeno da Física .................... 97
CAPITULO XI ..................................................................................... 110
Reflexão, Conhecimento, Amor e Ação ............................................ 110
CAPITULO X11 ................................................................................... 120
Reivindicação para uma o evolução copernicana ................................. 120
CAPITULO X111 ................................................................................. 125
Uma Cosmologia neognóstica: evolução da Matéria ........................... 126
CAPITULO XIV................................................................................... 140
Uma Cosmologia neognóstica: evolução do Espírito ........................... 140
CAPITULO XV .................................................................................... 150
0 Matricialismo .................................................................................... 150
CAPITULO XVI................................................................................... 163
0 Futuro desconhecido ......................................................................... 163
Fim ..................................................................................................... 172

O ESPÍRITO ESTE DESCONHECIDO


2

JEAN E. CHARON

Esta obra é dedicada a todas as pessoas que refletem sobre o mistério


do nosso corpo e de nossa consciência e, mais amplamente, sobre as
relações do Espírito com a Matéria, na escala do Universo inteiro.

Pela primeira vez, encontra-se sustentadas, de maneira científica, as


numerosas manifestações do Espírito como os fenômenos
parapsicológicos ou as intervenções do inconsciente.

“O Espírito, este desconhecido” é um convite para se descobrir a


essência do Homem e do Universo.

INTRODUÇÃO

"Devemos libertar o homem do cosmo criado pelo gênio dos físicos e


dos astrônomos, cosmo esse no qual está mergulhado desde a Renascença.
Apesar de sua beleza e de seu tamanho, o mundo da matéria inerte é muito
estreito para ele. Da mesma forma, o nosso meio econômico e social não é
feito à nossa medida. Não podemos aderir ao dogma de sua realidade
exclusiva. Sabemos que não estamos inteiramente confinados, que nos
estendemos em outras dimensões além do continuum físico... O
espírito do homem se estende, além do espaço e do tempo, em um outro
mundo. E deste mundo, que é ele mesmo, ele pode, se tiver vontade,
percorrer os ciclos infinitos. O ciclo da Beleza, que contemplam os sábios,
os artistas e os poetas. 0 ciclo do Amor, inspirador do sacrifício, do
heroísmo, da renúncia. 0 ciclo da Graça, suprema recompensa daqueles
que buscaram com paixão o princípio de todas as coisas ... É necessário
nos levantar e nos colocar em marcha. Nos libertar da tecnologia cega.
Realizar, em sua complexidade e em sua riqueza, todas as nossas
potencialidades“.
Alexis Carrel

"Chegou o momento de nos darmos conta de que uma interpretação,


mesmo positivista, do Uni- verso deve, para ser satisfatória, cobrir o
interior e o exterior das coisas - o Espírito assim como a Matéria. A
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verdadeira Física é a que conseguirá, qualquer dia, integrar o Homem total


em uma representação coerente do mundo."

Pierre Teilhard de Chardin

Prefácio

Sou o que chamam de um físico teórico; isto quer dizer que me


interesso pela descrição das leis que governam a natureza. Minhas
pesquisas estão dirigidas às teorias ditas "unitárias", que são as teorias que
se esforçam para unificar as diferentes leis observadas, demonstrando que
elas formam casos particulares de uma lei mais geral, válida para todos os
fenômenos, e que designaremos, em razão do nome, de lei unitária.
Esse tipo de pesquisa leva a analisar o menor tanto como o maior, as
partículas ditas "elementares" tanto como o cosmo em seu conjunto, pois,
se tal lei unitária existe, ela deve ser válida, isto é verificável, em todas as
escalas dimensionais.
Quando olho meu trabalho e minhas publicações desses últimos vinte
anos, não tenho certeza, entretanto, de ter sido um físico, ou em todo caso,
um físico no sentido que se dá a este termo no contexto científico
contemporâneo. Supõe-se que o físico tradicional, em princípio, se
interesse exclusivamente, durante sua pesquisa científica, pelas
propriedades da matéria considerada "inerte". Realmente, ele reconhece,
como todo mundo, que existem fenômenos onde o "físico" não atua
sozinho, fenômenos onde intervém também o que chamamos de
psiquismo, ou a consciência, ou o pensamento. Mas estes fenômenos são
da competência dos psicólogos, ou a rigor, dos biologistas.
A Física, tal como se define neste fim do século XX, parece considerar
um "ponto de honra" não misturar o psicológico ao físico, o que (pelo
menos é o que ela acredita) lhe permite se vangloriar de ser uma ciência
"exata".
Ora, refletindo, sempre estive, no curso de minhas pesquisas sobre esta
matéria chamada "inerte", em busca dos primeiros traços de fenômenos
psíquicos, isto é, procurando o Espírito dissimulado sob a matéria. Aliás,
sempre me senti pouco à vontade diante do Programa "Reducionista" dos
físicos de nossa época, que se esforçam voluntariamente para construir
uma Física deixando o Espírito de fora.
E creio ter tido razão. Explico nesta obra como, no curso destes últimos
anos, pude enfim mostrar que, para perceber de modo completo e
satisfatório a estrutura e as propriedades de certas partículas elementares,
é necessário fazer intervir um espaço-tempo particular, apresentando
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todas as características de um espaço-tempo do Espírito, ladeando o da


matéria bruta. Exponho, aqui, os diferentes aspectos e as conseqüências
desta Física neognóstica.

Por que chamamos a esta Física de "neognóstica"? Não fui eu quem a


designou assim e, além disso, já havia escrito aproximadamente metade
deste livro quando descobri que, contrariamente ao que pensava, esta
tendência de não mais separar completamente Matéria e Espírito na
descrição científica do Universo já existia e estava se aprofundando há
alguns anos. Este "movimento", se se pode qualificar assim esta nova
orientação das idéias científicas, parece ter nascido principalmente em
Princeton e em Pasadena nos Estados Unidos nos anos de 1970 1. Os mais
eminentes físicos e astrônomos estiveram presentes nesta origem. A eles
se uniram biologistas, médicos e psicólogos. E, mais recentemente ainda,
teólogos.
A Gnose foi, no primeiro século de nossa era, um sistema filosófico
onde os participantes (os gnósticos) pretendiam ter um conhecimento
direto de Deus. Esta atitude se caracterizava pelo fato de que ela queria
apoiar tal doutrina, não sobre simples crendices, mas sobre os dados
científicos da época. Nesta filosofia existiam notadamente seres
portadores de Espírito, intervindo no comportamento da matéria,
chamados eons.
Os novos gnósticos de Princeton e Pasadena guardaram da antiga
filosofia, a idéia de que aquilo que chamamos Espírito é indissociável de
todos os fenômenos que vemos no Universo, sejam físicos sejam
psíquicos. Devemos, portanto, ao menos em principio, ser capazes de ter
um conhecimento "científico" do Espírito, isto é, de fornecer uma
descrição em termos científicos com o risco de, se necessário, renovar a
própria linguagem científica. Mas, precisamente por permitir ao Espírito
ascender à condição de fenômeno "científico", os neognósticos recusam,
desde o principio, colocar o Homem no centro do fenômeno pensante;
quando o Homem afirma "eu penso", enfatizam eles, ele deveria dizer, de
forma mais correta, "ele pensa", ou "ele domina um pensamento no
espaço", do mesmo modo que o físico diz "ele domina um campo
magnético no espaço" ou que o homem da rua anuncia "chove". Em outros
termos existe uma realidade profunda, presente em todo o Universo, que é
capaz de fazer "nascer" o pensamento no espaço, no mesmo sentido em
que um elétron é capaz de fazer nascer em torno de si um campo elétrico
no espaço. Desde então, o pensamento está presente em toda parte, tanto
no mineral, no vegetal, no animal como no Homem. É ele, notadamente,
que transparece no comportamento dos organismos vivos, mesmo que se
trate apenas de uma simples bactéria.
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De fato, enquanto esta concepção neognóstica não der prova, de acordo


com a linguagem científica, de que ela corresponde a uma realidade
"ajustada" aos fenômenos científicos observados e descritos, ela será
apenas uma aproximação para chegar ao Conhecimento.
Mas isto, por si mesmo, já é fundamental; pois, mesmo que não seja
suficiente abrir uma janela para descobrir imediatamente todos os detalhes
da paisagem, se a janela permanecer fechada, jamais veremos alguma
coisa. Ora, a atitude atual dos neognósticos é exatamente esta, e ela não
ambiciona, no momento, ser outra coisa: ser uma nova janela para
considerar o Universo do Espírito e da Matéria, e tentar descrevê-lo em
linguagem científica sem deixar de considerar ao mesmo tempo um e
outro. Ou, exprimindo de outra forma, ser uma nova linguagem científica
para formular o Conhecimento; ser um esforço de "Psicossintese", dirão
ainda os neognósticos.

Esta nova atitude em relação ao Conhecimento apresenta alguns outros


aspectos, que vale a pena enfatizar.
Há, primeiro, a adoção de um ponto de vista relativamente "modesto"
para considerar o que chamamos o saber humano. Dentro de cada homem,
há individualidades microscópicas que pensam, que sabem, que
transportam o Espírito dentro do Universo, e que podemos chamar,
segundo os antigos gnósticos, de eons2. Estes conhecem o saber humano,
visto que são eles que "pensam" este saber. Mas este saber ultrapassa
largamente o saber humano, tal como somos capazes, por exemplo, de o
formalizar em uma linguagem qualquer; os eons sabem, notadamente,
como criar a vida. 0 saber humano atual é somente esta parte minúscula
do saber total dos eons que pode ser expresso através da linguagem
humana, levando em conta as numerosas convenções próprias das
sociedades humanas.
Outra conseqüência, aliás em relação com a precedente: é absurdo e
inexato crer que nosso irmão humano que não fez o que chamamos de
"estudos", ou ainda nosso irmão animal ou vegetal, "seja um ignorante".
Afirmá-lo é um pouco como se, considerando dois cientistas de alto nível,
disséssemos que um é ignorante porque, ao contrário do outro, não sabe
jogar bridge. Em relação ao conjunto do saber dos eons, esta é uma
atitude antropocentrista e inaceitável: querer de todo modo que nosso
parco saber humano individual possa nos tornar, de alguma maneira,
superior ao outro. 0 Homem deve guardar, no mundo, seu modesto lugar
de "macaco sem pêlo", não tanto porque não saiba mais do que o macaco
no reino das sociedades animais, mas principalmente porque, no reino do
Universo cosmológico, não há certeza de que os eons do macaco não
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saibam mais do que os seus próprios eons. Portanto, nada de tentativas de


hierarquia degradante a respeito do saber e, tampouco, nada de Mestre.
A noção de "Mestre", com efeito, é ainda mais proscrita entre os
neognósticos que entre os próprios eons; estas individualidades imortais
que vivem a aventura espiritual do Universo, não conhecem de maneira
absoluta os objetivos e as "regras do jogo" do Universo; eles somente são
capazes, como veremos, de aumentar, sem cessar, "a ordem" 3 do
Universo, inventando regras do jogo cada vez mais complexas, sem saber
jamais se novas regras não farão entrever um novo objetivo. Os
neognósticos, que conseguiram de uma maneira geral salvaguardar sua
alma de criança, ilustram esta invenção de regras para um novo jogo de
cartas, que parece expandir-se rapidamente nos campus do Oeste
americano. 0 jogo se chama "Elêusis"; cada jogador, por sua vez, inventa
regras do jogo, que escreve, para verificação, em um papel escondido dos
outros jogadores. Depois coloca uma carta sobre a mesa; os outros
jogadores respondem escolhendo cuidadosamente uma carta de sua mão. 0
vencedor de cada partida é designado por aquele que inventou a regra, e
este vencedor recolhe, então, todas as cartas da rodada. No fim, conta-se o
número de pontos das cartas recolhidas por cada um, segundo uma tabela
conhecida somente pelo inventor do jogo. Aquele que primeiro
"compreendeu" as regras do jogo é (geralmente) o que possui o maior
número de pontos e é declarado o vencedor. É particularmente instrutivo
notar que muitos jogadores ganham tendo "imaginado" regras diferentes
daquelas que constituem o regulamento "oficial" editado pelo inventor do
jogo. 0 mesmo se dá ao nível do Espírito na Natureza: os eons não são
obrigados a falar uma linguagem "oficial" para evoluir em um sentido que
marque um progresso no plano do psiquismo. E, inversamente, os
"oficiais" não são, entre os humanos, os mais capazes de fazer progredir o
psiquismo.
Ainda outra conseqüência da atitude neognóstica: se ninguém deve
procurar para si um Mestre, muito menos ninguém deve se considerar
um Mestre; portanto, nada de "proselitismo',,'. Somos todos pesquisa-
dores, ninguém conhece, desde o principio, a regra que é preferível para
fazer o Espírito progredir, e nenhum "nível psíquico" do Espírito permite
descobrir o objetivo definitivo da aventura espiritual do Mundo. Portanto
ainda, nada de religião "humanista", pretendendo conhecer onde se
encontra "o Bem" do Homem. Como observa Raymond Ruer4: "para os
neognósticos é, no fundo, uma questão de honestidade. Eles acham
leviano, e mesmo criminoso, fazer experimentações na pele humana.
Pode-se permitir ensaios e erros na sua própria vida. Não se tem o direito
de aparentar saber o que convém aos outros, que sabem melhor do que
nós".
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0 que convém enfatizar é que a atitude neognóstica, que busca organizar


em torno de um "imenso povo de eons", e não em torno do Homem, a
aventura espiritual do Universo, não consiste em concluir que o Homem é,
com todo o resto do mundo, de alguma forma "manipulado" no plano do
Espírito por este povo de eons, com a conseqüência de não participar
verdadeiramente de seu próprio destino. Não são os eons que "pilotam"
meu próprio espírito "Eu" sou estes próprios eons, no sentido de que em
cada um dos eons que entram no meu corpo está presente o que eu chamo
de meu "Eu", isto é minha pessoa. A atitude neognóstica não faz do
Homem um "fantoche" cujos cordões outros puxariam, mas sugere que
nossa pessoa participe diretamente de toda a aventura espiritual do
mundo, uma aventura que tem suas raízes na origem de nosso Universo, e
que terminará com ele ... caso o Universo deva terminar um dia (o que os
eons - que têm a sabedoria de saber que o futuro será aquilo que eles
tiverem escolhido fazer - não segredaram, parece, a ouvido algum).

0 presente trabalho se dirige a todos que refletem sobre o mistério de


nosso corpo e de nossa consciência, e mais globalmente às relações do
Espírito com a Matéria, na escala do Universo inteiro. Creio pro-
fundamente que nossas civilizações humanas estão à procura - porque têm
extrema necessidade dela - de uma atitude que permita a cada um melhor
se situar na imensa aventura cosmológica, colocando em harmonia o que
elas sabem com o que sentem.
A Nova Gnose, nasceu de uma reunião de aspirações tão diversas
quanto as que encontramos nos campus ou nas comunidades hippies de
Berkeley, nos astrônomos e astrofísicos dos montes Palomar e Wilson, nos
físicos de Princeton; a qual hoje interessou um grande número de
biologistas e médicos e, mais recentemente ainda, um número crescente
de pessoas da Igreja; e que, depois dos dois últimos anos, começa a se
expandir progressivamente para fora dos Estados Unidos; a Nova Gnose,
como eu dizia, talvez seja uma atitude digna de ser explorada.
De resto, como sempre, nosso companheiro inseparável, o Tempo, será
o único juiz.
Jean E. Charon

CAPITULO I

Física e Metafisica

0 Espirito inseparável das pesquisas na Física. - Newton, o alqui-


mista. - Voltaire e Valéry: ateus espiritualistas. - Ciência criativa e
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ciência de descoberta. - A pesquisa científica e o "grande público". -


As diversas linguagens para descrever a Natureza.

"Eis que ele me antecedeu, novamente, deixando este mundo estranho.


Isto não significa nada. Para nós, físicos crentes, esta separação entre
passado, presente e futuro guarda somente o valor de uma ilusão, por mais
tenaz que ela seja."
Quando Albert Einstein, em 21 de março de 1955, escreveu esta carta à
irmã e ao filho de seu amigo de sempre Michele Besso, falecido alguns
dias antes, para ele também restava um pouco menos de um mês de vida
para dizer adeus a este "mundo estranho".

Talvez, de uma maneira disfarçada, o problema da Morte esteja no


centro desta obra. Pois a Morte não é, pensando bem, quem nos revela o
Espirito sob a Matéria? E se acabo de citar Einstein no limiar de sua
própria morte é porque, creio, a linguagem da Física é atualmente
apropriada para encetar um diálogo com a Morte, para procurar situá-la no
quadro da evolução geral do nosso imenso universo.
Por que a Fisica, e não a Biologia, ou ainda a Teologia? Porque a
Morte, como todos os grandes problemas da Metafisica, somente pode ser
situada em relação aos limites daquilo que constitui o nosso Universo, na
escala do maior e na escala do mais pequeno. E é a Fisica que se propõe a
nos fornecer um conhecimento do cosmo em seu conjunto assim como do
átomo. Mas, paradoxalmente, enquanto a Física é sem dúvida a mais apta
para esclarecer os problemas metafísicos, os físicos se recusam, há perto
de três séculos, a ver a Metafísica penetrar em sua linguagem e em seu
campo de experiência; como se estes problemas fossem indigitos do
conhecimento "científico"; ou ainda, como se as questões que formam os
temas da Metafísica não fossem, finalmente, aquelas para as quais o
Homem deseja mais ardentemente obter elementos de resposta.
Direi, mais adiante, como os trabalhos de Albert Einstein o levaram ao
limiar de um dos problemas essenciais apresentados ao Homem: o da
natureza daquilo que chamamos "nosso espirito", em oposição à matéria
de nosso corpo. E direi, também, como minhas próprias pesquisas em
Fisica, em prosseguimento aos trabalhos de Einstein, me permitiram
continuar esta análise do Espirito, para mostrar, finalmente, que a
aventura do nosso Espirito é tão "eterna" quanto o próprio Universo, no
passado assim como no futuro.
Mas, como me disponho a falar aqui de um problema fundamental da
Metafisica na linguagem da Física, espero primeiro, exprimir sem
desvios, o que penso da -atitude geralmente hostil dos fisicos diante dos
temas da Metafisica.
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Antes, podemos questionar se os principais temas da Metafisica têm


alguma relação com os problemas estudados pela Fisica. 0 Conhecimento,
a existência do mundo exterior, a substância e a forma, o problema da
vida e da morte, a alma e o corpo, o problema de Deus, todos estes objetos
de investigação tradicionais da Metafisica são susceptiveis de entrar no
campo das pesquisas da Fisica? A resposta a esta questão será afirmativa
ou não, se aceitarmos ou não considerar a análise do Espírito como objeto
de estudo da FÍsica. 0 problema da natureza e dos mecanismos do Espirito
é, com efeito, sem nenhuma dúvida, o problema central de toda a
Metafisica, do qual derivam todos os outros objetos de reflexão (o
Conhecimento, a vida, a morte, a Matéria, Deus ... ). A Fisica e a
Metafisica formam, portanto, duas disciplinas complementares,
encarregadas de aumentar nosso conhecimento do Universo se, e somente
se, Matéria e Espirito são inseparáveis nos métodos de pesquisa e nas
linguagens destes dois ramos do Conhecimento.
Ora, como poderiamos racionalmente impedir que a Fisica progredisse
através de uma análise não só da Matéria mas também do Espirito? Desde
que as investigações dos fisicos se voltam para o mais pequeno, ou ainda
para o maior, para estas particulas misteriosas que formam a essência da
Matéria, ou ainda para nosso Universo em seu conjunto, então as palavras
de Santo Agostinho se tornam hoje sempre mais verdadeiras: "0 mundo é
tal como ele nos parece, feito de coisas que não aparecem". E Teilhard de
Chardin observava igualmente que "atingindo o extremo de suas análises,
os fisicos não sabem mais se a estrutura que eles alcançaram é a essência
da Matéria que eles estudam ou, então, reflexo de seu próprio
pensamento".
Neste caso, como não reconhecer como urna evidência atual que o
Espírito é, com efeito, parte integrante do domínio de investigação da
Física, do mesmo modo que a Matéria, visto que não há descrição possível
da Matéria que não faça intervir, em primeiro plano, os mecanismos
estruturais do nosso próprio Espírito?
Esta importância dada ao Espírito no estudo dos fenômenos "físicos”
que acontecem no Universo, na verdade, nunca foi contestada na
Antiguidade e mesmo até o fim do século XVII. Para se convencer, é
suficiente lembrar Descartes que nos declara em suas Meditações:
"Assim, toda a Filosofia é como uma árvore cujas raizes são a Metafísica,
o tronco é a Física e os galhos que saem deste tronco são todas as outras
ciências". E Newton, de quem se quis fazer o modelo do ,”cientista", isto
é, do sábio apenas preocupado com as certezas associadas aos fatos
observáveis, na verdade (corno demonstram belos estudos recentes sobre
Newton ) orientou toda sua vida para os problemas do Espírito: ele
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escreveu mais páginas sobre a alquimia e sobre o que hoje chamaríamos


de parapsicologia do que sobre a óptica e a gravidade.
Observemos, um instante, os conceitos de Newton, cujos escritos, se os
analisarmos não buscando "ver somente o que queremos ver", são a prova
de que o pai da teoria da gravidade sempre defendeu conceitos de essência
espiritualista, bem longe das idéias puramente mecanicistas-positivistas
que quiseram lhe atribuir. Uma aproximação surpreendente
(compreenderemos melhor este aspecto quando discutirmos a análise
moderna sobre a natureza do Espírito) é a que Newtori faz entre o Espírito
e a luz. "Não seria possível, escreve Newton em sua óptica, que os corpos
e a luz se transformem uns nos outros? E não sería possível que os corpos
recebam a maior parte de seus princípios ativos das partículas de luz que
entram em sua composição? Admitido isto, visto que a luz é o mais ativo
de todos os corpos que conhecemos, e visto que esta luz faz parte de todos
os corpos compostos pela natureza, por que não seria ela o principio
regente de todas as suas atividades?" E Newton distingue, então, dois
tipos de luz: uma luz fenorriênica, que seria a que se entende pelo sentido
comum do termo, isto é, a que vemos; e uma luz nuniênica, que seria uma
luz virtual, intervindo mais particularmente nos mecanismos do ser vivo, e
portadora do que chamamos Espírito. Veremos, no decorrer desta obra,
que se trata de uma intuição extraordinária de Newton sobre o aspecto
"espiritual" da Matéria, aspecto que se confirmará como repousando sobre
trocas "virtuais" de fótons de luz. Segundo observa P. M. Rattensi : "as
reflexões de Newton parecem indicar que no fim de sua vida ele concebeu
que o objetivo da pesquisa alquimista consistia no restabelecimento do
corpo de luz e pensou que isto poderia ser demonstrado através de
operações realizadas em laboratório". Assim, Newton, durante toda sua
vida, considerou o Espírito como de natureza diretamente acessível à
experiência, e portanto, do domínio das investigações da Física. Por outro
lado, ele viu na luz, que é sem dúvida alguma um fenômeno bem físico, a
direção privilegiada para a qual, lhe parecia, deviam se orientar estas
investigações.
Além disso, é necessário enfatizar que Deus (igualmente no centro da
reflexão metafisica) está sempre presente na obra de Newton. Certamente,
Newton irá propor suas célebres leis sobre o movimento dos astros, o que
permitirá, por volta dos meados do século XIX, ao matemático Pierre-
Simon de Laplace mostrar que os astros podiam, de acordo com estas leis,
se mover de modo estável, sem nenhuma interferência de Deus. Mas o
próprio Newton nunca formulou, ou mesmo sequer sugeriu, tal
possibilidade; pelo contrário, defendia o ponto de vista da necessidade
constante da presença de Deus no Universo. Para Newton, Deus
intervinha na natureza por intermédio do Espírito (a luz nuniênica). Esta
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natureza, escreveu Newton, "age sempre sem trégua, até o seu último
termo, e depois cessa; pois, desde o começo, era para ele coisa certa que
ela poderia se aperfeiçoar no seu curso e que chegaria, enfim, a um
repouso sólido e total, ao qual, para este efeito, ela tendia com todo o seu
poder". Assim, Newton tem também a convicção de um sentido definido
da evolução do Universo, de uma "flecha" do tempo, como alvo desta
evolução, com um estado do Universo que nos lembra o "ponto õmega" de
Teilhard de Chardin. Mas voltaremos a falar sobre isto.
Apesar desta profunda complementaridade entre Física e Metafisica na
obra de Newton, paradoxalmente, é a partir de Newton que se produzirá
uma clivagem cada vez mais profunda entre Física e Metafisica, isto é,
entre as pesquisas sobre a Matéria e as pesquisas sobre o Espírito.

Para isto, como relembra muito propriamente a análise de Jean


Zefiropulo e Catherine Monod, far-se-á "Newton oscilar entre o que ele
foi e o que dele fizeram, ocultando algumas de suas pesquisas e mesmo
dispersando uma grande parte de sua obra".

Os argumentos são bastante complexos, mas pode-se, entretanto,


distinguir algumas correntes principais.
Primeiro, há a enérgica reação da Renascença contra o aristotelismo,
reinando sobre o pensamento intelectual há dois mil anos. Ora, lutar
contra Aristóteles e seu sistema do mundo seria restabelecer o
beliocentrismo de Aristarco, perfeitamente demonstrado agora, pelas leis
da atração de Newton; e seria, também, restabelecer o velho atomismo de
Demócrito, segundo o qual "nada mais existe a não ser o átomo e o
espaço vazio, tudo o mais é apenas comentário". Finalmente, seria
explicar todo o nosso Universo através de movimentos de átomos se
deslocando segundo leis imutáveis, explicadas matematicamente.

Assim, não teríamos necessidade de Deus, nern do Espírito para tomar


conhecimento do que se passa no mundo. 0 próprio pensamento seria
"segredado" por certos movimentos dos átomos, somente a Matéria sendo
a substância essencial. Propositalmente esqueceríamos que, entretanto,
Demócrito havia proposto seus átomos como conservando uma existência
independente do Espírito, visto que também "a alma é constituida de
átomos particulares, finos e unidos". Mas teríamos necessidade de
eliminar da Ciência tudo o que não se manifestasse na Natureza através
do movimento de partículas puramente materiais segundo leis
conheciveis (senão conhecidas). E acaso poderíamos escolher um porta-
bandeira deste novo enfoque científico melhor do que Newton, pois foi
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ele quem descobriu, depois de Kepler, as leis fundamentais que explicam


a trajetória das estrelas, dos planetas ... e das maçãs?

Não podemos negligenciar a parte benéfica que provocou este retorno ao


positivismo puramente materialista para aumentar nosso conhecimento
das coisas. Depois dos desnorteios do período da Idade Média, seria útil
que o conhecimento se esforçasse para progredir pésquisando leis
confirmáveis experimentalmente. Mas seria, sem dúvida, ir muito longe
ao se esquecer da presença do Espírito nesta evolução da natureza; não
seria simplesmente porque, apesar de tudo, e como o notava tão
propriamente o filósofo Georges Berkeiey desde Newton, "as coisas só
existem na medida em que são percebidas"; e por que outros meios
poderiam elas ser percebidas, em última análise, senão pelo Espírito, pelo
nosso espírito?

Dentre as circunstâncias que contribuíram para deturpar o processo de


pensamento verdadeiro que presidiu às leis e às descobertas newtonianas,
é necessário ver também o fato de que, no principio, aqueles que eram os
mais ardorosos defensores de Newton (contra as teses cartesianas mais
em voga, então, entre os cientistas) foram principalmente ateus que, para
melhor afastar Deus das explicações da Ciência, não hesitaram em
expulsar igualmente tudo o que se referia ao Espírito.
Entre estes estava Laplace, que nós já mencionamos anteriormente;
também, especialmente na França, Voltaire e um pouco mais tarde
Auguste Conite e seu positivismo; igualmente, no nosso século, Paul
Valéry e as teses marxistas. Todos se ocuparam em "refutar Deus", e
mais amplamente em minar a credibilidade da Metafisica, julgando suas
especulações como "logomaquias vazias e estéreis".

Voltaire foi a Londres em 1727 assistir aos funerais de Newton e trouxe


um exemplar, em inglês, de seus Principia. Ficou imediatamente
seduzido pelo sistema do mundo newtoniano, e foi o primeiro a difundir,
na França, a obra de Newton . Mas difundiu o pensamento newtoniano
insistindo, como Laplace, sobre a abertura que ele oferecia para uma
compreensão de um mundo puramente mecanicista, sem nenhuma
necessidade de uma intervenção divina. Isto foi compreendido como se a
noção do Espirito fosse supérflua e pudesse ser, em todo caso,
definitivamente afastada das concepções da Fisica: estava ai uma
deformação do pensamento de Voltaire, pois se ele desejava a "morte de
Deus", por outro lado, não preconizava a morte do Espirito. Com efeito,
não afirmou ele, como conseqüência lógica de seu racionalismo, a
existência de uma "sensibilidade" da Matéria, que não é muito diferente
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da "psique elementar", com que Theilhard proporá, em nossa época, dotar


cada corpúsculo de Matéria, visando a apoiar sua concepção espiritualista
do Mundo?

0 caso de Paul Valéry é mais particular. Ele nos exibe sarcasmos,


algumas vezes extremamente violentos, contra a Metafisica, e mais
amplamente contra qualquer tese de natureza espiritualista. "Os espiritos
com suas mesas e seus ectoplasmas, escreveu, têm o mérito imenso de
colocarem sob sua verdadeira forma grosseira, clara e insensata, o que os
espiritualistas, as pessoas com alma, dissimulam para si próprios sob um
véu de palavras, metáforas e expressões ambiguas". Mas, nas 6.000
páginas manuscritas de seus Cadernos, que redigia no dia-a-dia, e que
atualmente começam a ser objeto de publicações, descobrimos que
Valéry esteve toda sua vida preocupado com a estrutura e com o
funcionamento do Espirito, cuja descrição desejava compreender na
linguagem da Fisica e das Matemáticas. 0 estudo do Espírito não é,
portanto, especificamente do dominio tradicional da Metafisica? E
haveria uma descrição "não espiritualista" do que chamamos Espirito? A
leitura mais atenta dos Cadernos nos explica, entretanto, esta aparente
contradição. Valéry se recusa a reconhecer que existe uma realidade
independente da Matéria que se chama Espírito; sua pesquisa sobre
mecanismos do espírito está orientada para a descoberta de uma estrutura
particular das partículas de matéria, assim como para as transformações
no tempo desta estrutura; estas explicariam um fenômeno físico de
essência puramente material e mecanicista, que seria a função-espirito
ligada ao comportamento da Matéria. Apostemos, entretanto, que, desde
que se torne possível falar do Espirito na linguagem da Física, todos os
grandes problemas tradicionais da Metafisica se apresentarão com uma
acuidade aumentada, e que será necessário dizer o que se tornam, nesta
nova linguagem, a Vida, a Morte, o mundo exterior, Deus. Em resumo,
apesar do que pensa Valéry, conseguir falar do Espírito na linguagem da
Física, como ele o deseja, é introduzir em pé de igualdade todos os temas
da Metafisica no campo das pesquisas da Física. Em uma análise
posterior, Valéry e eu estamos, portanto, de acordo; mas, à primeira
leitura, os ataques de Valéry à Metafisica, sem dúvida, contribuíram para
retardar o nascimento de uma Física interdisciplinar.

Sejam Laplace, Voltaire, Conite, Valéry ou os marxistas, o mais grave


reparo que se lhes pode fazer é sua posição dogmática, que consiste em
recusar ao Espírito de ser objeto de pesquisa... simplesmente porque não
existiria "alguma coisa" chamada Espírito que fosse possível descrever
independentemente desta outra coisa chamada Matéria. "Pobre
14

presunçoso, você vê uma planta que vegeta e diz vegetação, ou mesmo


alma vegetativa, escreve Voltaire; mas, por favor, o que você entende por
estas palavras? Esta flor vegeta, mas há um ser real que se chama
vegetação?"

E Valéry se excede: "seria interessante vaguear pelo cérebro, ali não


encontrariamos um estado de alma".

Quanto aos marxistas, recusando a evidência, ao mesmo tempo lógica e


experimental, segundo a qual nossa única prova irrefutável da existência
do mundo é a percepção espiritual que temos dele (como enfatizava
Berkeley), eles afirmam, ao contrário, que percebemos o mundo porque
ele existe. Como estes marxistas, tão apaixonados por razões
"científicas", poderiam fazer a prova científica de sua afirmação, visto
que toda experiência que temos do mundo exterior, em última análise, se
apresenta como pensamentos, isto é, Espírito?

Para os positivistas, a Matéria é, portanto, principal, e o Espírito é


somente uma "emergência" da Matéria, sem existência independente.
Neste caso, como o notou Auguste Conite, resta à Metafisica ser reduzida
a uma "reflexão sobre as ciências da Matéria" - ou não ser.

Entretanto, toda a História nos mostra que os dogmas tiveram uma


existência apenas provisória. E poder-se-ia verificar que o Espírito
aparece finalmente como uma realidade tão "tangivel" quanto a Matéria;
do mesmo modo que as pedras no céu, isto é, os meteoritos, se tornaram
realidade, contrariamente à advertência dogmática de Laplace, segundo a
qual "não poderiam cair do céu ... visto que não havia pedras no céu".

Em todo caso, é isto o que a presente obra pretende demonstrar, a fim de


tirar um certo número de conseqüências das respostas atuais às questões
fundamentais que são objeto da Metafisica.

Entretanto, penso que existem outras razões além das que foram retiradas
do contexto histórico que, ainda na nossa época, fazem com que pareça
dificil aceitar como objetos científicos de pesquisa os grandes temas da
Metafisica.

Rivaud, um historiador da filosofia, escrevia em 1948: "Os únicos


filósofos verdadeiramente qualificados da idade moderna são os físicos,
os químicos ... que, partindo do estudo minucioso dos fatos particulares,
ousaram formular hipóteses de caráter geral".
15

É verdade. Em todo caso, para os físicos, não se trata unicamente de


formular hipóteses de âmbito geral para serem qualificados de filósofos, e
ainda menos de metafisicos. A Metafisica exige muito mais do que um
esforço de pesquisa: ela exige qualidades de criação, e posso afirmar, por
freqüentá-los de longa data, que bem poucos físicos de nossa época são o
que chamamos de criadores; em sua maioria, porque são "especialistas"
em assunto determinado, são apenas simples analistas.

Retomemos o que considero uma das melhores definições da Metafisica,


para percebermos quanto poder criador exige esta disciplina do
Conhecimento:

"A Metafisica existe desde que o espirito, em busca de uma unidade total,
se decide a encher as lacunas que o quadro 'científico' do Universo
oferece, graças a uma 'flexibilidade' tirada de sua própria essencia, a um
'principio' (tomado por empréstimo de sua experiência interna ou
externa), que ele considera verdadeiramente básico".

A Metafisica aparece, através desta definição, enfatizando suas estreitas


relações não somente com o enfoque científico, mas também com o
enfoque artistico e ainda com o pensamento religioso. Certamente, o
fisico pode formular princípios gerais, ou leis, que dão a aparência de
universalidade às suas descobertas. Mas não faz, necessariamente, ainda,
uma obra metafisica. Ele faz, precisamente, algumas "descobertas"; isto
é, descobre o mundo como se levantasse um véu, como se este mundo
preexistisse a seu esforço, e que seu ato de físico não tivesse mudado
nada nele, nada lhe tivesse acrescentado. Ora, não é, de modo algum, que
neste ato de "descoberta" vemos, ao mesmo tempo, o espírito do físico e
o espírito do metafisico, reunidos ambos para alcançar um progresso no
conhecimento profundo das coisas. Na simples descoberta há apenas uma
generalização de um certo número de fatos de experiência para um
número maior de fatos de experiência (ou de fatos sobre os quais será
possível experimentar). No ato metafisico de criação, o pensador, ao
contrário, age por si mesmo, ele vai buscar no fundo do seu inconsciente
uma "flexibilidade" ainda não formulada, como observa François
Grégoire na sua definição da Metafisica; e é somente em seguida que
considera a maneira pela qual esta flexibilidade chegou a completar
harmoniosamente a visão que ele possuía da Natureza. Este é um enfoque
que se aproxima bastante do enfoque do artista ou do religioso, cada um
“metamorfoseando" nossa visão do Universo e, através de sua criação,
executando um passo novo para o conhecimento do mundo. Esta
16

sensação bastante forte de que existe uma distinção fundamental entre o


ato criador e o ato de descoberta, somente pode ser, creio eu,
verdadeiramente percebida sob seu aspecto autêntico por aqueles que
experimentaram na vivência um e outro destes dois atos. Albert Einstein
descreveu esta situação em uma fórmula que embaraçou alguns fisicos:
"Uma teoria pode ser verificada pela experiência, mas não existe nenhum
caminho que leve da experiência para a criação de uma teoria". Um
pintor ou um músico compreendem isto perfeitamente. Mas então vocês
irão dizer à comunidade científica que a teoria que lhes oferecem é uma
obra de artista! Serão logo relegados ao rol de fantasistas! Serão tratados
de "metafisicos" e, creiam-me, é um qualificativo que não os deixará
mais ... e, pouco a pouco, todas as portas "oficiais" lhes serão fechadas.
Mas não será porque é necessário ser-se bem pequeno para saber transpor
estas portas?

Seja como for, fazer Metafisica é também ser capaz de dar prova de um
espírito de criação, e não somente de um espírito de descoberta, no
sentido que acabamos de indicar. E os cientistas que conheci, no decurso
destes últimos vinte anos, raramente me pareceram possuir uma
imaginação suficiente para serem capazes de "criar". A maioria deles são
bons "funcionários" da Ciência. Esta observação levou Albert Einstein a
afirmar que "o templo da Ciência ficaria bem vazio se dele retirássemos
todos os que não fazem verdadeiramente Ciência".

De minha parte estou convencido de que, se os cientistas contemporaneos


recusam, instintivamente, a penetração dos temas da Metafisica nas suas
pesquisas, apesar de serem tão fundamentais para o Homem, em parte é
porque são "incapazes de filosofar"; porque são incapazes de imaginar e
de criar; e, finalmente, porque a reflexão metafisica lhes é inacessivel.

A primeira vez que estive na televisão francesa foi há cerca de quinze


anos, por ocasião da publicação de trabalhos sobre teoria fisica. Eu me
recordo de ter ficado chocado com o fato de o jornalista cientista que me
interrogava orientar nossa entrevista muito mais para as conseqüências
metafisicas dos meus trabalhos do que para o seu conteúdo propriamente
do dominio da Fisica, que era o objeto de minhas publicações. Tendo ele
percebido que minhas pesquisas abordavam o problema do Universo, em
seu conjunto, vi-me interrogado sobre a criação do nosso Universo, seu
destino no futuro, sobre a existência de Deus ...

Este jornalista, como todo bom colaborador da televisão, durante toda a


entrevista, tinha a preocupação de me fazer falar sobre o que interessava
17

ao público. E tinha razão: naturalmente, não era o aspecto altamente


técnico e especializado dos meus trabalhos que interessava ao público,
mas a parte metafisica associada a eles. De que serviria um programa de
televisão usando uma linguagem hermética e, portanto, sem interesse
para o telespectador?

Naturalmente, o meu propósito aqui não é discutir qual a melhor


utilização para um veículo de comunicação como a televisão. Este
episódio tem o sentido de insistir no fato de que o "grande público" se
interessa pela Ciência sobretudo através de suas conseqüências
"metafisicas". Para ele pouco, ou quase nada, importam as técnicas
usadas para atingir a Lua ou Marte, o que lhe interessa é saber "se a vida
existe lá". Os mecanismos biológicos do cérebro não o deixam
indiferente, mas ele gostaria mais de saber até onde chegaram os estudos
dos fenômenos parapsicológicos, isto é, a possibilidade (com evidentes
conseqüências metafisicas) de cérebros se comunicarem a distancia, sem
o apoio dos métodos tradicionais de comunicação. Andrômeda está a dois
milhões de anos-luz; bem, mas isto não diz grande coisa ao público; ele
desejaria, ao contrário, saber se as particularidades da teoria da
Relatividade, que fazem "envelhecer" menos depressa quando se vai
muito depressa, permitirão ao Homem alcançar os planetas habitados da
galáxia de Andrômeda, e, mais amplamente, se este enorme Universo,
que percebemos à volta de nós, é ou não acessível ao Homem (ao menos
em seu principio, com técnicas de propulsão melhoradas). A descoberta
dos vestígios dos primeiros hominideos, há algumas centenas de milhares
de anos, interessa ao nosso "grande público"; mas é a possível existência
de civilizações tão evoluidas quanto as nossas em um passado distante,
vindas talvez de “outros lugares", que o fascina e ele gostaria que os
cientistas o esclarecessem sobre isso.

Ora, os "cientistas" raramente falarão ao público sobre tais assuntos


"metafisicos", simplesmente porque suas pesquisas não são autorizadas
pelos donos da ciência "oficial" a serem orientadas para tais assuntos
metafisicos. Ainda uma vez, os grandes temas metafisicos não podem ser
objeto de pesquisa científica.

Pessoalmente, acho esta atitude escandalosa. Primeiro, porque o "grande


público", que deseja legitimamente esclarecimentos (senão respostas)
sobre as questões metafisicas, é, na verdade, quem financía, com seu
próprio trabalho, a pesquisa científica. Além disso, o grande público não
tem o direito de ver inscritos, nos programas de pesquisa, os temas que
mais lhe interessam? Portanto, quem pode estar autorizado a considerar
18

esse público como uma criança incapaz de saber o que gosta de comer? E
antes de tudo, com que direito decidiríamos privá-lo do conhecimento
que gostaria de receber?

Que me compreendam bem: não pretendo que não deva haver pesquisas
teóricas ou aplicadas sobre assuntos especializados, escolhidos por
cientistas "sérios e oficiais", cujos resultados, por natureza, permanecerão
incompreensíveis para a maior parte do meu querido "grande público".
Mas pretendo que o que interessa a esse público deveria também ser
considerado por aqueles que comandam os programas da pesquisa
científica. Muitos pesquisadores, e mesmo alguns dos melhores, estariam
dispostos a enfrentar tais ternas metafisicos em bases cientificas.
Solicitem ao meu amigo Rémy Chauvin, professor na Faculdade de
Ciências de Estrasburgo, para colocar em ação uma equipe de jovens
pesquisadores sobre a parapsicologia; ou a Guérin, astrônomo em
Meudon, para organizar, em bases científicas, uma pesquisa sobre a
possibilidade de visitantes extraterrestres; rapidamente, eles utilizarão os
créditos que vocês colocarem à disposição deles, com prudência e
"cientificamente".

Se olhamos esse problema de um outro ângulo, reconhecemos que os


cientistas se prejudicam a si próprios recusando a "colaboração" do
grande público soberano em suas pesquisas. "Soberano", ele o é sempre,
esse público, e eu diria por construção: pois, mais uma vez, é ele quem
deve pagar de seu bolso todas as despesas do Estado, inclusive

27
a pesquisa científica. Sêneca já havia enfatizado que "nada de importante
e de durável pode ser realizado sem o apoio da população". E não são os
cientistas do projeto Apolo, que necessitaram de enormes somas de
dinheiro para colocar o Homem na Lua, que desmentirão Séneca; pois
sabem que foi o esforço de propaganda para fazer o público americano
participar desse projeto que proporcionou à N.A.S.A. os créditos
necessários a este maravilhoso empreendimento, marcando urna etapa na
história da humanidade terrestre.
Esta advertência de Sêneca é mais verdadeira do que nunca em relação
à Ciência contemporânea. Se nossos ministros, nossos deputados e nossas
comissões científicas oficiais atualmente decidem, na maioria das vezes,
limitar os créditos para as pesquisas aplicadas, em detrimento das
pesquisas teóricas, é, em parte, porque nosso grande público não está, na
verdade, interessado diretamente na pesquisa teórica, pois não lhe
mostram as ramificações metafisicas. A pesquisa aplicada fará de nós,
19

portanto, apenas simples consumidores de bens materiais, e paciência se a


principal caracteristica e a vocação essencial do Homem na evolução é,
entretanto, como já observava Pascal, ser um íçanimal pensante".

Abrir para a Metafisica as portas da Fisica é, primeiro, exigir dos fisicos


que sejam capazes de refletir filosoficamente; é dar curso livre à
imaginação e à criação na pesquisa; e é, também, saber que os problemas
verdadeiramente "importantes" para o Homem devem ser igualmente
enumerados pelo "Senhor Todo o Público".
Há já bastante tempo nossos físicos se preocupam um pouco mais, sem
precisar esconder-se, com o aspecto "espiritual" da matéria que estudam.

CAPITULO II

0 espaço e o tempo do Espírito

Um espaço-tempo novo: o do Espírito. - A memória. - Um espaço em


neguentropia não decrescente. - As partículas "eternas" portadoras
do Espírito. - Morte, eis a sua derrota! - Nosso "Eu" tem suas raízes
em um eterno passado e se prolongará em um eterno futuro.

Já lembrei que sou um físico teórico. Isto significa que procuro definir as
leis básicas dos fenômenos psíquicos e elaborar o que habitualmente
chamamos "modelos" destes fenômenos. Isto implica principalmente a
pesquisa de modelos do que chamamos as partículas elementares: que são
os "tijolos" menores que constituem toda a matéria de nosso Universo; são
os "átomos" de que nos falava Demócrito cinco séculos antes da nossa era.
Um modelo dessas partículas é uma descrição da substância, da forma, das
dimensões, dos mecanismos internos e das propriedades externas dessas
partículas.
No outro extremo da escala das dimensões, o físico teórico se interessa,
também, por um modelo mais amplo: o do nosso Universo no seu
conjunto; qual é a sua forma, quando começou, para onde evolui, quais
são suas dimensões no espaço e no tempo...
Como vemos, não é tão estranho que esse tipo de objeto de pesquisa
conduza diretamente e de maneira natural a reflexões metafísicas: por
exemplo, qual é o lugar do Espírito nesse modelo do Universo em seu
conjunto? Pois, um modelo do mundo incapaz de nos dizer o que quer que
seja sobre este lugar do Espírito, entretanto tão presente e de maneira tão
evidente no comportamento animal ou humano, não seria bastante
incompleto (para não dizer bastante imperfeito)? E visto que este Espírito
se manifesta especialmente na região do espaço ocupada pelo nosso
20

próprio corpo, não deveríamos fornecer igualmente um modelo das


partículas elementares (que constituem o nosso corpo) que seja capaz de
mostrar como o Espírito se situa em face desta matéria elementar?
Eu me proponho explicar aqui como as minhas pesquisas em Física, em
continuação aos trabalhos de Albert Einstein, sobre a Relatividade geral,
me permitiram propor modelos de partículas elementares que respondem a
questões interessando não somente a Física, mas também a Metafísica, no
sentido de que descreverão, na linguagem da Física, a estrutura de uma
matéria "contendo" um espaço do Espírito.
No principio, meus trabalhos para precisar a estrutura das partículas
elementares não estavam, de modo algum, orientados para a Metafísica.
Mas, no decorrer dos anos de 1975-1976, pude mostrar que algumas das
partículas elementares, portanto partículas estáveis (isto é, com duração
de vida praticamente indefinida), continham, como envolvido por uma
carapaça de matéria (explicaremos tudo isso), um espaço-tempo novo,
diferente do espaço que estamos habituados a considerar. A primeira
imagem grosseira que podemos propor aqui (e não me privarei, nestas
páginas, de fornecer imagens para que os não iniciados na Física
compreendam o que quero dizer, não desagradando aos "senhores de preto
"), a imagem, como dizia, que me parece ser conveniente aqui é a das
partículas comparáveis a bolhas de sabão que flutuariam em nosso
espaço-tempo ordinário; mas, no interior destas minúsculas bolhas de
sabão, existiria um espaço-tempo de natureza especial.
Antes de retornarmos mais detalhadamente sobre este novo espa-
ço-tempo, desejo dar rapidamente suas propriedades essenciais, para
demonstrar o interesse "metafísico" que ele apresenta.
Enquanto nosso tempo ordinário progride, de maneira irreversível, do
passado para o futuro: o novo tempo, fechado nas nossas "bolhas de
sabão", é um tempo cíclico com período muito curto. Isto quer dizer que
se o espaço desta bolha registrou um fato no tempo t, o mesmo fato tornará
a ser presente no espaço da bolha dentro de um tempo ligeiramente
posterior t + T2. Este tempo novo é, portanto, idêntico ao que prevalece
nos fenômenos onde a memória intervém. Com efeito, quando nos
lembramos por um instante de um fato passado, é que este fato, gravado
em alguma parte do que chamamos nossa memória, volta a aparecer
novamente no presente do nosso espírito, neste instante. 0 tempo
particular de nossas bolhas de sabão, que por esta razão chamarei de
tempo do Espírito (por oposição ao nosso tempo ordinário, que chamarei
de tempo da Matéria) continuamente traz de volta os fatos passados para
o instante presente, colocando-os à nossa disposição para transforiná-los
em um ato de memória do passado.
21

Isto não é tudo. 0 espaço de nossas bolhas de sabão, e não apenas o seu
tempo, igualmente apresenta uma grande analogia com o que se espera de
um espaço próprio dos fenômenos espirituais. Com efeito, todos sabem
que os fatos que acontecem no nosso espaço ordinário, o espaço da
Matéria, obedecem a um famoso principio chamado "segundo principio da
termo dinâmica", pelo qual os fenômenos físicos não podem se
desenvolver fazendo decrescer sua entropia. Explicando sucintamente, isto
quer dizer que a energia utilizável no espaço do nosso Universo diminui
continuamente à medida que o tempo passa e que, em um dado momento,
teremos consumido toda a energia disponível no Universo (o qual terá,
então, uma temperatura uniforme em todos os seus pontos). Em outras
palavras, se convencionamos dizer que um objeto qualquer está "morto"
quando não podemos dele retirar mais nenhuma energia, nós diremos que
nosso Universo da Matéria está fadado, cedo ou tarde, a uma morte certa.
Pois bem, nossas bolhas de sabão encerram um espaço onde as coisas se
passam ao contrário: neste espaço, a quantidade de informações
acumuladas só pode aumentar. Como, por outro lado, existe uma
equivalência entre informação e entropia negativa (ou neguentropia),
podemos afirmar que, no espaço de nossas bolhas de sabão, a entropia só
diminui (isto é, a neguentropia só aumenta), contrariamente ao que
acontece no espaço ordinário, o espaço da Matéria. Mas, então, este
espaço não é especificamente um espaço do Espírito? Pois é isto o que
notamos, desde que se pode diagnosticar a presença do Espírito em um
fenômeno da natureza, principalmente entre as estruturas vivas ou
pensantes. Em resumo, desde que ela é portadora do que chamamos
Espírito, a estrutura "se instrui pela experiência", e de maneira
irreversível, dada a irreversibilidade da memória. Este fenômeno de
instrução crescente, ou em todo caso nunca decrescente, não é devido à
presença, na estrutura viva ou pensante, destas "bolhas de sabão"
contendo este espaço do Espírito particular, onde a informação cresce à
medida que o tempo decorre?
Em resumo, meu trabalho sobre as partículas elementares em Física me
mostrou que algumas destas partículas encerram um espaço e um tempo
do Espírito, coexistindo com o espaço e o tempo no qual toda a Física,
desde Aristóteles, tem se esforçado para descrever a Matéria e sua
evolução. Então, até agora, sempre acreditamos na existência de um
espaço-tempo "simples", mas eis que se descobre um espaço-tempo onde
cada uma das dimensões é "dupla": existe um espaço-tempo do Espírito ao
lado do espaço-tempo tradicional da Matéria.

Albert Einstein, no princípio do nosso século (1905), já havia


acrescentado um progresso considerável à Física, mostrando que o espaço
22

e o tempo eram intimamente solidários um com o outro, a ponto de se


comportarem verdadeiramente como se eles pudessem se transformar um
no outro. Tal transformação pode ser ilustrada pelo fato de que, depois de
Einstein, a Física teve de afirmar (e pudemos verificar
experimentalmente) que se envelhecia menos depressa quando se
atravessava mais rápido uma dada distância de espaço.

Mas eis que surge, atualmente sobre a noção de espaço-tempo, uma nova
revolução necessária para se ir mais longe no conhecimento, não
dissociando mais como antes os aspectos físicos e espirituais dos
fenômenos naturais. Desta vez se trata de constatar que o espaço-tempo
não é de natureza "simples", mas de natureza "complexa". E este novo
espaço-tempo pode ser, então, decomposto em um espaço-tempo do
Espírito e um espaço-tempo da Matéria, justapostos um ao outro. 0
espaço-tempo do Espírito, até agora, passara desapercebido dos físicos,
pois só se descobre sua existência no interior de certas minúsculas
partículas elementares que entram na constituição da Matéria.

Estas partículas espirituais são "estáveis", isto é, a Física constata que


(salvo "acidente" excepcional que provoque sua desintegração) a duração
da vida destas partículas é comparável à duração da própria vida inteira do
Universo. Isto é extremamente importante pelas suas conseqüências
metafísicas. Pois se, por um lado, estas partículas encerram um espaço que
não pode jamais perder seu conteúdo informacional, visto que, como já
dissemos, a neguentropia do espaço do Espírito só pode evoluir crescendo;
e se, por outro lado, estas partículas têm uma duração de vida
praticamente "eterna", então todas as informações que, durante nossa vida
humana, armazenamos nestas partículas espirituais entram na constituição
de nosso corpo vão subsistir além de nossa morte corporal, praticamente
pela eternidade. Se convencionamos chamar Deus o principio de
eternidade, então o que acabamos de dizer nos permite afirmar que Deus,
enquanto Espírito ligado ao princípio de eternidade, "existe" e, de resto,
que cada um de nós é "consubstancial" com Deus.

Outras conseqüências, também fundamentais "metafisicamente", surgem à


luz das idéias precedentes. Como nosso corpo é, com efeito, construído de
partículas que, por serem eternas, datam praticamente do "começo do
mundo", o nosso próprio espírito se enraíza em toda a História passada do
mundo. Este espírito que chamamos "nosso" vive o que vive o próprio
Universo, cada um de nós possui um "Eu" coextensivo à eternidade do
tempo, no passado assim como no futuro.
23

Este "Eu", escrevi: é aqui um ponto primordial sobre o qual voltaremos


longamente. Pois, não há dúvida, segundo o que estes estudos no campo
da Física teórica nos sugerem para o "modelo" do espaço tempo do
Espírito, em se dizer que o que chamamos de nossa pessoa, isto é o nosso
espírito, se encontra "disseminado", esfarelado, diremos, entre os bilhões
de partículas elementares que formam nosso corpo. Esta era, dela nos
lembramos, a tese de Pierre Teilhard de Chardin. Minhas pesquisas sobre
o plano da Física demonstram que não é lógico sustentar como plausível
esta concepção teilhardiana. 0 que devemos dizer, ao contrário, é que cada
uma das partículas que formam nosso corpo possui em si mesma o
conjunto da informação que caracteriza, por seu conteúdo, o que
chamamos de "nosso" espírito, nossa pessoa, nosso "Eu". Em resumo,
reencontraríamos aqui, mas no plano do Espírito, o que os biologistas
puderam experimentalmente constatar no que concerne à "bagagem
genética". Sabemos que cada uma das células de nosso corpo possui os
mesmos cromossomos, que esta célula pertence à ponta de nosso dedo ou
ao nosso encéfalo. Não parece haver nenhuma dúvida, na biologia
moderna, que os cromossomos são portadores da maior parte da
informação manifestada, através do seu comportamento, pelo ser vivo ou
pensante.

0 que os meus trabalhos parecem ter demonstrado é que seria necessário ir


ainda mais longe no plano do elementar... e ir, na verdade, até às
partículas chamadas precisamente de "elementares" (isto é indivisíveis),
tais como a Física as estuda. É cada uma destas partículas físicas
compondo os cromossomos que conteria a totalidade da informação que
associamos habitualmente ao conjunto do jogo cromossômico, em um
dado indivíduo. É mesmo possível (senão provável) que esta informação
esteja contida, igualmente, em sua totalidade, em cada uma das partículas
que formam a substância inteira da célula (núcleo, citoplasma, membrana)
e não somente nos cromossomos.

Isto não significa, bem entendido, que cada partícula de nosso corpo não
se diferencia de sua vizinha, sob o ponto de vista de seu conteúdo
informacional. Com efeito, já dissemos, cada partícula possui uma
"história" que remonta a todo o passado do Universo; isto significa que
cada partícula viveu uma experiência diferente da de sua vizinha, antes de
participar com ela da mesma estrutura complexa viva ou pensante,

Morte, eis a sua derrota! Desde que situamos nossa pessoa, nosso "Eu", no
lugar que parece caber-lhe após uma investigação suficientemente
avançada sobre as partículas elementares da Física, então não há mais para
24

nós verdadeira Morte, do mesmo modo que não há verdadeiro


Nascimento. Nós vivemos no plano espiritual aquilo que vive o próprio
Universo. Portanto, será através dos "modelos cosmológicos" da Física,
descrevendo a evolução do conjunto do nosso Universo no tempo e no
espaço, que nós seremos informados (ao menos em parte) sobre a aventura
do invólucro material que encerra o Espírito, nosso espírito. Em seguida,
restará procurar saber o sentido e a direção da aventura do próprio
Espírito; e não apenas do seu invólucro material. Nós nos esforçaremos
para explicar isto nas páginas seguintes.

Primeiro quis dar uma visão de conjunto das implicações metafísicas de


minhas pesquisas em Física. Proponho-me retornar sobre estas pesquisas,
mais detalhadamente, nos próximos capítulos, a fim de demonstrar
melhor, justificando-os "cientificamente", os mecanismos e as
propriedades do Espírito.

Entretanto, não se trata de empregar neste livro a linguagem do físico. 0


domínio no qual trabalho comporta um formalismo matemático
extremamente árduo, que suplantaria o conhecimento dos meus leitores,
mesmo que eles tivessem uma formação científica. Isto o digo sem
nenhuma pretensão, a razão disso é simplesmente porque este formalismo
matemático é bastante especializado e, de fato, pouco utilizado pelos
próprios físicos contemporâneos. Este formalismo é essencialmente uma
extensão daquele de que se serviu Einstein para a Relatividade geral. Mas
é necessário relembrar que esta teoria é apenas esboçada no âmbito das
Faculdades e Universidades. Esta situação é mais especialmente
verdadeira na França. Enquanto existem centenas de manuais franceses
associados ao ensino da Mecânica quântica, podemos contar nos dedos de
uma só mão os cursos básicos escritos sobre a Relatividade geral. Einstein
sempre lastimou, enfaticamente, durante sua vida, esta desafeição dos
"grandes mestres" para com a Relatividade geral, pouco ensinada
comparativamente à Mecânica quântical. Nestes últimos quinze anos, um
grande esforço de recuperação foi, entretanto, feito no estrangeiro, onde
os cientistas têm consciência de que os progressos em Física se realizarão
através de um "cerrar fileiras" sobre a obra de Einstein. Na França, espera-
se ainda ... e creio que não poderia encontrar no nosso país mais do que
cem leitores capazes de compreender completamente o formalismo da
Relatividade complexa.

Portanto, nesta obra, vou exprimir-me em uma linguagem que os


cientistas, pejorativamente, qualificam de "vulgarização". Eu o farei,
entretanto, com bastante cuidado para não deformar o espírito (senão a
25

forma) dos resultados tais como são expressos na linguagem puramente


científica.

Aliás, meu editor Albin Michel aceita publicar, simultaneamente com esta
obra, meu próprio trabalho científico (Théorie de Ia Relativité complexe),
dirigido somente aos especialistas da Física teórica. Assim, os leitores que
desejarem poderão encontrar nele as bases científicas das concepções e
dos resultados que exporei mais simplesmente aqui.

CAPITULO III

As linguagens de descrição na Física

Descartes e a descrição por "figuras e movimentos". - A relatividade


einsteiniana do tempo e do espaço. - A geometrização da Física. - 0
probabilismo é incompatível com uma geometrização completa da Física?
- Uma nova revolução necessária sobre os conceitos de espaço e de
tempo, para neles incorporar o Espírito.

Demonstrar que há um certo "Espírito" associado às partículas


elementares da Física, é reconhecer este "Espírito" na descrição que
propomos quer do conteúdo, quer do comportamento da partícula. Como o
comportamento da partícula não pode ser motivado ou justificado a não
ser pela interação de seu conteúdo com o mundo exterior, é finalmente
este conteúdo que devemos procurar descrever em primeiro lugar. Então é
necessário que, para esclarecer este problema da eventual natureza
espiritual das partículas, forneçamos uma descrição da estrutura das
partículas. Diremos, por exemplo, que a densidade da matéria ou a
temperatura da radiação estão distribuídas de tal ou qual modo no volume
de espaço ocupado pelo "corpo" da partícula.

Mas a Física está agora, desde há um pouco mais de meio século, diante
de uma dificuldade fundamental no que concerne a qualquer tentativa de
descrição da estrutura de uma partícula. Com efeito, a Física declara desde
1925 que a "descrição" da partícula, no sentido que acabamos de definir, é
simplesmente impossível por princípio. Não é possível estabelecer um
"rosto" para a partícula, exprimindo-nos da mesma forma como o
faríamos, por exemplo, para o rosto humano. Para descrevê-lo poderíamos
dizer "que ele tem um nariz, uma boca situada no meio e sob dois olhos,
que sua forma é oval e enfeitada por duas orelhas, uma de cada lado, etc.".
26

Para um físico contemporâneo não tem mais sentido uma descrição


geométrica semelhante para falar do aspecto e do conteúdo de uma
partícula. Em contraposição, podemos descrever a partícula atribuindo-lhe
características de tipo "subjetivo", isto é, sob forma de opiniões motivadas
relativas à observação, opiniões baseadas em grande parte em convenções
de linguagem imaginadas pelo observador humano. Diremos, por
exemplo, que esta partícula é "estranha", que ela não tem "cor" mas que
tem "encanto", etc. Estes termos não foram inventados aqui para ilustrar a
minha afirmação; os termos estranho, cor, encanto são efetivamente
qualidades dadas pelos físicos modernos às partículas elementares; e estes
termos substituem a "descrição" dos físicos.

Como então fomos obrigados, parece-nos, a dar à descrição científica esta


forma tão distanciada da que sempre foi, até o começo deste século? É o
que desejamos explicar primeiro, para demonstrar claramente como
seremos em seguida conduzidos, de maneira natural, a introduzir a
existência de um espaço-tempo do Espírito, justaposto ao espaço-tempo
tradicional, o da Matéria.

Desde que o Homem é capaz de pensar, parece que ele sempre considerou
possível descrever o mundo em torno de si como uma "substância"
presente no espaço e evoluindo no tempo. Podemos representar
geometricamente esta distribuição da substância no espaço e no tempo.
Assim, a arte pré-histórica nos mostra, sobre os muros das cavernas de
Lascaux, por exemplo, representações de animais traçadas pelo Homem,
há muitas dezenas de milhares de anos: a "substância" representada aqui é
a carne do animal e o desenho simboliza a maneira pela qual esta carne é
repartida no espaço; algumas vezes, muitas posições sucessivas dos passos
no tempo são igualmente representadas no mesmo desenho, o que
demonstra bem a idéia de poder representar geometricamente as coisas
como formas evoluindo no tempo.

No princípio do século XVII, Renê Descartes confirmava ainda esta


possível descrição "geométrica" da natureza. Para Descartes, o mundo é
capaz de ser inteiramente representado por "figuras e movimentos"; por
outro lado, ele introduz a noção de "sistema de referência", ao qual
relacionaremos, para melhor descrevê-lo, o fenômeno geométrico.
Suponhamos, por exemplo, um objeto com a forma de um pião girando
sobre si mesmo no chão de um quarto. Escolheremos, como sistema de
referência, as três arestas concorrentes obtidas pelo encontro de duas
paredes do quarto e do chão. Poderemos, em seguida, descrever de
maneira precisa o movimento do pião indicando como variam, no decurso
27

do tempo, as distâncias de cada ponto do pião até às três arestas das


paredes e do chão, que chamaremos eixos do sistema de referência
escolhido. Poderemos descrever desta maneira, por exemplo, o balanço
bastante conhecido do pião enquanto ele gira, e também a queda ao chão
no momento em que pára de girar. Resumindo, como o desejava
Descartes, o fenômeno "rotação do pião" pode ser, graças a este sistema
de referência, descrito de maneira precisa em termos de "figuras e
movimentos".

Albert Einstein, no princípio do nosso século, apresentará dois


melhoramentos sucessivos a esta descrição dos fenômenos físicos.

Primeiro, em 1905, ele mostra que não é suficiente escolher um


referencial para descrever corretamente o fenômeno; também é necessário
prestar atenção ao fato de que as dimensões da forma representada
dependem da velocidade desta forma, tal como a avaliamos no referencial.
Esta forma tem, com efeito, tendência a se "deformar" na direção de sua
velocidade. Assim, uma régua de cem centímetros de comprimento,
deslocando-se na direção de sua maior dimensão, no sistema de referência
escolhido, mede um pouco menos de 1 metro. Este efeito, curioso à
primeira vista, não é sensível a pequenas velocidades; mas se torna
importante quando nos aproximamos da velocidade da luz (300.000
quilômetros por segundo). Julguemos: nossa régua de 100 cm não tem
mais do que 43,6 cm quando ela se desloca na direção do seu
comprimento a 90% da velocidade da luz; a mesma régua mede somente
14,1 cm a 99% da velocidade da luz; e esta régua teria dimensões nulas se
ela pudesse deslocar-se à veloci;dade exata da luz.

A que se deve este efeito de "encurtamento"? Einstein nos explica, na sua


Relatividade restrita de 1905, que é devido ao fato de que o tempo e o
espaço não são independentes um do outro, como os homens sempre
pensaram até então. Esta interdependência aparece desde que interfiram
velocidades, pois uma velocidade é um espaço percorrido por unidade de
tempo. Se acreditamos, até 1905, em um espaço e um tempo "absolutos",
e, portanto independentes um do outro, é que o efeito do "encurtamento"
não se manifesta de maneira apreciável à observação, a não ser para as
velocidades próximas à da luz. E o princípio do nosso século XX é
precisamente a época em que as experiências sobre objetos viajando no
espaço a velocidades próximas à da luz se tornaram possíveis e se foram
desenvolvendo. É relativamente "coMUM93, por exemplo, chegar a fazer
medições experimentais na Física sobre elétrons circulando a 90 por cento
da velocidade da luz; ora, este efeito de esmagamento do espaço na
28

direção da velocidade da luz, como acabamos de ver, tem por


conseqüência a redução dos comprimentos para menos da metade a uma
tal velocidade. Desde 1905, pudemos verificar milhões de vezes que este
efeito de encurtamento previsto por Einstein aconteceu, e temos, portanto,
certeza de que não se trata de nenhuma especulação do nosso grande
físico, mas sim de um efeito real.

Notaremos que este efeito tem profundas implicações filosóficas. Assim,


quem ainda não se perguntou se o Homem será capaz um dia, com o
progresso da técnica, de chegar a planetas de estrelas bem afastadas do
nosso Sol? A galáxia de Andrômeda, por exemplo, comporta bilhões de
sóis, e também bilhões de planetas girando em torno destes sóis. Mas
infelizmente, estes planetas de Andrômeda estão terrivelmente longe, e
são necessários perto de dois milhões de anos para que a luz saída da
Terra chegue lá. Se o espaço fosse absoluto, isto é, se nossa distância até
Andrômeda não dependesse da velocidade com a qual se chega lá, então
deveríamos concluir que o Homem não poderá jamais visitar nossos
eventuais irmãos pensantes que habitam estas terras longínquas, quaisquer
que sejam os progressos da técnica; com efeito, mesmo à velocidade da
luz, seriam necessários dois milhões de anos para chegar até Andrômeda,
o que é incompatível com as simples dezenas de anos da vida humana.
Mas o espaço, e portanto as distâncias, não são absolutos, como o
sabemos desde 1905. E um cálculo simples mostra que, a 99 por cento da
velocidade da luz, somente seriam necessários 28.000 anos para
chegarmos à Andrômeda: 283 anos a 99,999999 por cento da velocidade
da luz ... e somente 2,8 anos se conseguirmos, um dia, construir um
foguete (por que não?) que se desloque a 99,9999999999 por cento da
velocidade da luz. Notemos que tal velocidade não é tão inacessível como,
à primeira vista, parece: acelerando continuamente, no decorrer da
viagem, na aceleração à qual somos constantemente submetidos pela
gravidade terrestre quando estamos na Terra, será necessário perto de um
ano para nos aproximarmos muito perto da velocidade da luz. Quem pode
predizer onde se deterá a técnica humana? 0 "encurtamento" das
distâncias com a velocidade leva a afirmar que não existe nenhuma razão
de princípio nos impedindo de esperar que todo nosso imenso Universo
será, um dia, acessível às viagens do Homem no cosmo. Aqui, ainda,
vemos a Metafísica invadindo a Física, para desagrado de alguns
"cientistas"!

Dez anos depois de ter mostrado que tempo e espaço eram tão
dependentes um do outro, Albert Einstein "recomeçava" sua contestação
das idéias admitidas há milênios sobre o tempo e o espaço. Defendia, em
29

1915, com a sua Relatividade geral, que o espaço não era de modo algum
este quadro "vazio" que se imaginava simplesmente como contendo os
fenômenos físicos; o espaço era a própria "substância" que constitui a
essência dos fenômenos.

Pode-se fazer uma idéia da modificação de perspectiva que isto implicava,


comparando-se os fenômenos físicos com atores representando no palco
de um teatro. Até aqui estávamos persuadidos de que estes atores eram
seres de carne e osso tendo uma existência independente do espaço do
palco no qual se movimentavam e declamavam seus papéis. Ora, com
Einstein, aprendemos rápido que estes personagens são produzidos por
uma radiação laser e por alto-falantes distribuídos no palco, e não têm
portanto nenhuma existência independente de todos os dispositivos
audiovisuais que são parte integrante do palco.

Na Relatividade geral, de maneira semelhante, os fenômenos não têm


nenhuma existência independente do espaço, pois eles são constituídos
com o próprio espaço, e sua "substância" é do espaço. Mas, continua
Einstein, o espaço é capaz de possuir "curvaturas", isto é, formas, e são
estas formas que desenham a aparência que conhecemos dos fenômenos
físicos.

Em resumo, vemos com Einstein o desejo de Descartes completamente


satisfeito: tudo é feito com a forma da extensão. Assim, uma partícula
elementar, por exemplo, será apenas uma região do espaço
particularmente curva na minúscula região onde esta partícula se localiza.
As ondas eletromagnéticas, a gravitação e, mais amplamente, todos os
fenômenos físicos conhecidos seriam, do mesmo modo, regiões curvas e
em movimento do espaço, um pouco como as ondas do oceano. Portanto,
com Einstein, temos o triunfo da geometria na Física; todo nosso Universo
é apenas constituído por formas geométricas de uma substância única
chamada espaço; ou, mais precisamente, espaçotempo visto que, desde a
Relatividade restrita de 1905, tempo e espaço não eram mais
independentes um do outro.

Seria isto uma simples visão do espírito? De modo algum; e todas as


experiências feitas desde 1915 para confirmar a Relatividade geral jamais
contradisseram a interpretação einsteiniana dos fenômenos físicos
considerados como do espaço com curvas em movimento (isto é, do
espaço-tempo com curvas). No decurso destes últimos quinze anos, as
aplicações deste ponto de vista foram particularmente produtivas em
astrofísica, permitindo especialmente explicar a estrutura das estrelas
30

muito densas: pulsares, quasares, buracos negros. Teremos ocasião de


voltar a estes resultados.

É necessário notar que, ainda aqui, as implicações filosóficas, ou melhor


dizendo metafísicas, da descoberta de Einstein são extremamente
fundamentais. Com efeito, graças à Relatividade geral tornou-se possível
falar em termos científicos do nosso Universo como um todo. A idéia
admitida atualmente, em astrofísica, é que o espaço do nosso Universo é
"fechado". 0 espaço em seu conjunto, com efeito, seria ligeiramente
curvo, de tal modo que, se tivéssemos a possibilidade de nos deslocar no
Universo sempre "em linha reta" (isto é, segundo uma trajetória sem
nenhuma "curvatura", por menor que ela seja), acabaríamos por retornar
ao ponto de partida. Em resumo, esta descoberta da curvatura de conjunto
do nosso Universo assemelha-se a que foi feita na época de Cristóvão
Colombo no fim do século XV, segundo a qual nossa Terra, também, era
curva em seu conjunto e possuía uma forma geral de aparência esférica.
Na Terra, como em todo o Universo, retornamos ao ponto de partida
caminhando continuamente para frente, em linha reta. Certamente, a idéia
de um Universo fechado sobre si mesmo requer reflexão, e os argumentos
contra Einstein para tentar desacreditar seu ponto de vista foram
numerosos. Contra a Terra esférica, também se dizia que era absurdo,
visto que neste caso os humanos deveriam andar "de cabeça para baixo"
em relação aos antípodas, e cairiam portanto no vazio do espaço que
circunda a Terra. Os argumentos contra o Universo em curvatura
traduzem aproximadamente o mesmo espírito ou, mais exatamente, a
mesma ignorância.

Voltaremos longamente sobre esta propriedade do espaço de poder se


curvar, a ponto de se fechar sobre si mesmo, como acontece para o
conjunto de nosso Universo. Veremos, com efeito, que algumas partículas
da Física, os elétrons, são minúsculos microuniversos formados de um
espaço-tempo particular, fechado ele também em torno de si mesmo. Este
espaço-tempo será o do Espírito.

Mas, antes disso, devemos falar ainda um pouco sobre o "drama" da


Física, em 1925, quando foi introduzida a noção de "probabilismo". 0
probabilismo induzia a pôr de alto a baixo todo o belo edifício
einsteiniano, propondo "geometrizar" completamente a Física. Vejamos
isto mais de perto.

Em 1925, os físicos se baseavam tanto em trabalhos teóricos


(Schrõdinger, de Broglie, Heisenberg... ) corno em experimentais
31

(difração dos elétrons), para constatar que era impossível obter, de uma
partícula, informações precisas concernentes à sua posição e à sua
velocidade, de uma só vez. Não é útil retornarmos aqui, detalhadamente,
sobre esta etapa importante do conhecimento em Física; indicaremos,
simplesmente, o essencial das conclusões a que chegaram os físicos.

Se se obtinham, no decurso de uma experiência em Física, informações


para localizar exatamente, em um instante dado, a posição de um elétron,
por exemplo, então não se podia saber nada de sua velocidade neste
mesmo instante; esta velocidade poderia ter qualquer valor entre zero e a
velocidade da luz. Inversamente, se se conseguia medir exatamente, em
um instante dado, a velocidade de um elétron, então não se podia saber
nada mais sobre sua posição no espaço, que podia muito bem ser aqui ou a
centenas de lugares daqui. Resumindo, tornava-se impossível falar da
"trajetória" de uma partícula como um elétron, isto é, proibido tentar uma
representação exata de sua posição e de sua velocidade em um sistema de
referência dado (ou, de uma outra maneira, de falar de suas posições
sucessivas no espaço em função do tempo).

Isto era muito grave para a esperança de "geometrização" completa da


Física preconizada por Einstein; pois, com efeito, geometrizar a Física é,
precisamente, poder descrever exatamente, em cada momento, a forma
geométrica do espaço. Um elétron em movimento, por exemplo, está na
Relatividade geral de Einstein descrito num referencial dado como uma
forte curvatura bem localizada do espaço (uma minúscula "saliência" do
espaço) se deslocando no correr do tempo. Portanto, considera-se que esta
"saliência" vai percorrer uma trajetória precisa: o que está em flagrante
contradição com as conclusões dos físicos de 1925, que declaram que não
há mais nenhum sentido em se falar da "trajetória" de um microobjeto
como um elétron, pois esta trajetória não pode, em nenhum caso, qualquer
que seja o dispositivo experimental escolhido, ser um fenômeno
"observável". E, naturalmente, é necessário construir as teorias físicas
com o auxílio de conceitos que permitam verificar a teoria, isto é, que
levem à experiência, ao observável.

Portanto, quais são os novos conceitos que os físicos de 1925 vão propor
para construir a Física? Primeiro, vão proscrever, como acabamos de
notar, a possibilidade de descrever a estrutura de uma partícula como
descreveríamos, por exemplo, o rosto e o corpo humano. Tal descrição
supõe, com efeito, um conhecimento preciso da situação dos pontos que
constituem a estrutura da partícula no decorrer do tempo, isto é, supõe a
possível existência de uma "trajetória" de cada um dos pontos da
32

estrutura; e isto está proibido daqui por diante. Os defensores da teoria


quântica (como chamaremos a seguir este novo enfoque em Física),
entretanto, admitirão que a partícula, um elétron, por exemplo, possa ser
um objeto mínimo corpuscular, visto que ele se manifesta como um
corpúsculo nas observações (o choque de um elétron sobre a tela da
televisão, por exemplo, é localizado como um "ponto" sobre a tela). Os
teóricos quânticos recusarão com energia que se dê um "rosto" a este
elétron, isto é, que se tente dizer como ele é feito. Em outras palavras,
mais uma vez, nada de descrição "geométrica" para falar dos fenômenos
físicos.

A propósito, os teóricos quânticos vão introduzir, em Física, um elemento


extremamente novo, totalmente desconhecido até então: proporão uma
onda puramente subjetiva (a famosa onda psi), que não será mais
representante do próprio objetivo físico estudado, mas serão as
informações que se é capaz de conhecer, a todo instante, sobre este objeto
físico. Estas informações, pelas razões que acabamos de dar, não são
nunca dados precisos que contêm, ao mesmo tempo, a posição e a
velocidade de uma partícula. Estas informações exprimem somente a
probabilidade de encontrar, em um dado momento, a partícula neste ou
naquele ponto do espaço.

Dizíamos, e é necessário insistir, que esta onda psi, portadora das


informações "probabilísticas" que temos sobre o fenômeno estudado, é
subjetiva, no sentido de que ela não pode e não deve, em nenhum
momento, ser considerada um fenômeno "objetivo" que ocupa lugar no
espaço e no tempo onde se movimenta o que chamamos a Matéria. A onda
psi é comparável a um registro de informações que se distribuiria aos
automobilistas para lhes indicar a quantidade provável de veículos nas
diferentes estradas em tais e tais horas do dia. A densidade real dos
veículos, em tal lugar e em tal momento, constitui o fenômeno objetivo
que se localiza no espaço e no tempo; as probabilidades contidas no
registro de informações, ao contrário, não têm nenhum caráter objetivo;
elas se referem a avaliações estatísticas estabelecidas pelo espírito desse
observador que é o Homem. Em outros termos, se a onda psi com
característica probabilística dos físicos devesse ter um caráter "objetivo"
qualquer, certamente isto não poderia ser, em todo caso, no espaço-tempo
onde evolui a Matéria (os automóveis neste caso acima), mas em um
espaço-tempo diferente, que poderíamos chamar de espaço-tempo das
informações probabilísticas, ou melhor ainda, de espaço-tempo do
Espírito. Naturalmente, voltaremos a este ponto de vista.
33

Entretanto, Einstein não abandonaria, tão facilmente, sua esperança de


"georn etriz ação" da Física. Todo o resto de sua existência, entre 1925 e
1955, será consagrado a lutar contra o enfoque puramente probabilístico
da Física. Einstein pensará sempre que se trata lá de uma descrição
incompleta, no sentido em que uma probabilidade de observação é uma
descrição menos completa do que a que consiste em dar às coisas, a cada
instante, uma forma geométrica e um movimento preciso. E, para
Eínstein, o objetivo da Física deverá ser o de descrever em termos de
formas e de movimentos.

Mas, contra Einstein, os físicos quânticos se tornaram sempre mais


numerosos. Com a morte do grande físico, em 1955, quase todos os
pesquisadores em Física estimavam que, apesar do seu enfoque
considerável no domínio da Relatividade, Einstein teria, finalmente, se
enganado nos últimos trinta anos de sua vida, desejando
desesperadamente agarrar-se a uma Física determinista, tendo como
objetivo a geometrização completa dos fenômenos do espaço-tempo.

Tendo a causa sido entendida, a Física permanecerá probabilística? Não


há certeza nenhuma; nestes últimos vinte anos, pudemos assistir a esforços
renovados, em todos os países do mundo, para tentar completar a
descrição probabilística, ou pelo menos, para tentar retomar um
verdadeiro ponto de vista determinista, como antes de 1925.

No meu entender, o progresso deve hoje realizar-se muito menos por uma
contestação do probabilismo do que por um esforço de discernir por que,
em um referencial de espaço-tempo, somos incapazes de representar com
uma exatidão total, isto é, sem indeterminação, ao mesmo tempo a posição
e a velocidade de uma partícula. Esta tentativa não deve ser feita, no
espírito, com a pretensão de mostrar que podemos num tal referencial
contornar a dificuldade e obter as informações exatas e simultâneas que
desejamos. Isto seria desconhecer as bases extremamente sólidas sobre as
quais se apóia a Teoria Quântica. Em revide, não é proibido questionar se
o referencial espaço-tempo escolhido para descrever todos os fenômenos
físicos é bem apropriado para nos fornecer a totalidade das informações
possíveis e simultâneas sobre os fenômenos observados.

Para ilustrar este ponto, suponhamos que o espaço comporta uma outra
dimensão além das três (altura, largura e comprimento) tradicionalmente
atribuídas ao nosso espaço físico. Para perceber suas conseqüências,
suponhamos que escolheríamos somente referenciais com duas dimensões
para descrever os objetos de nosso espaço físico, que possui, como
34

sabemos, três dimensões. Isto significaria que deveríamos nos limitar a


descrições de objetos tridimensionais sob a forma de "cortes", através de
superfícies bidimensionais. Certamente, multiplicando os cortes,
poderíamos ainda, sem dúvida, fazer uma idéia do objeto tridimensional:
mas com que riscos de dificuldades na linguagem! Por exemplo, se o
objeto é um cilindro, um corte plano poderá nos fornecer um círculo, um
outro corte plano um retângulo: como um objeto pode ser, perguntaremos,
ao mesmo tempo círculo e retângulo? 0 problema de um objeto ao mesmo
tempo onda e corpúsculo não se parece com o precedente?

E as coisas seriam mais ambíguas ainda se a dimensão que falta não fosse
do tipo espaço, mas do tipo tempo. Assim, suponhamos que o tempo físico
não seja inteiramente constituído pelo tempo t ,,ordinário", aquele que nos
serve para avaliarmos os movimentos da matéria, mas também de um
outro tempo V, justaposto ao tempo ordinário t. Então, nada permitiria
pensar que o movimento real de um objeto no espaço pudesse ser descrito
como uma trajetória contínua em função do único tempo t. Se, no mesmo
instante t, o objeto é igualmente capaz de se deslocar em função de V,
então se torna impossível prever exatamente o movimento deste objeto no
espaço físico, dando-se somente sua posição e sua velocidade iniciais em
função do tempo t; naturalmente faltam os mesmos dados iniciais em
função do tempo t’.

Resumindo, devemos nos perguntar se não é uma estrutura do espaço-


tempo mais complexa do que a imaginada até então pelos nossos cientistas
que justificará o probabilismo estrito da Física atual, isto é, um
probabilismo que não é possível considerar como de origem estatística.

E esta estrutura mais complexa, a Teoria Quântica não nos coloca no


caminho para descobri-Ia? Não é necessário pesquisar em que espaço-
tempo (mais "complexo" que o de Einstein e também que o da Teoria
Quântica) a onda psi terá uma existência "objetiva"? Visto que a onda psi
é portadora de informaçoes para o espírito humano, este espaço-tempo
complementar do espaço-tempo "ordinário" não deve ser um espaço-
tempo do espírito?

Em outras palavras, é questionando novamente, depois de Einstein, o


problema da natureza e da estrutura do espaço e do tempo que, talvez,
pudéssemos realizar um novo passo em Física. Mas, pelo que acabamos
de ver, tal passo só poderia ser dado com a condição de termos, desde o
início, consciência de que será necessário fazer constar na descrição dos
fenômenos físicos tanto o Espírito quanto a Matéria.
35

É o que vamos examinar, agora, mais detalhadamente.

CAPITULO IV

0 espaço-tempo complexo

Matéria e Espírito unificados em um espaço-tempo complexo. - 0 "ponto"


do espaço-tempo tradicional é um domínio extenso. - Os "buracos negros"
como prova da complexidade do espaço e do tempo. - Diário de viagem
através de um buraco negro. - 0 espaçotempo dos buracos negros
memoriza e ordena os acontecimentos, assim como faz o Espírito.

Devo confessar entretanto aos meus leitores que, pessoalmente, não me


propus, no início das minhas pesquisas, alcançar um progresso em Física,
buscando deliberadamente fazer participar o Espírito nas minhas
descrições dos fenômenos ao lado da Matéria.

0 problema que me havia proposto inicialmente, como um físico-teórico,


era construir uma teoria unitária dos fenômenos físicos, isto é, uma teoria
unificando o conjunto dos fenômenos físicos observados, mostrando que
cada um deles constituía apenas um caso particular de uma grande lei
geral (a lei unitária). Mas, entretanto, não havia excluído, a priori, a
possibilidade de que, se conseguisse formular uma tal lei unitária, então
uma das conseqüências desta lei seria a de nos fornecer alguma luz sobre
a natureza e os mecanismos do Espírito. Pois, finalmente, não é o próprio
Espírito o princípio unificante de todos os fenômenos observados? Pois
bem, na verdade, foi o que aconteceu.

No decorrer dos meus anos de pesquisa, convenci-me, pouco a pouco, de


que o meio mais lógico para tentar uma unificação dos fenômenos físicos
era "ampliar" de alguma forma o quadro de referência habitual do espaço
e do tempo. Aliás, esta idéia, à luz da reflexão, era também, sem dúvida, a
mais "natural": quando queremos fazer uma síntese entre fenômenos
aparentemente sem relação direta um com o outro, é necessário preencher
o "nada" que os separa com alguma coisa; um método é criar um espaço-
tempo mais largo, capaz de conter os diversos fenômenos considerados,
colocando-os em relação..Ê com tais exemplos que percebemos
claramente o sentido profundo da afirmação de Einstein, já citada,
segundo a qual "uma teoria pode ser verificada Pela experiência, mas não
existe nenhum caminho que leve da experiência à criação de uma teoria".
36

0 físico deve, ao menos nas suas diligências iniciais, fazer uma verdadeira
criação, isto é, retirar as premissas da sua teoria de sua própria intuição e
não dos fatos experimentais, que não permitirão ao Conhecimento avançar
um passo, se tomarmos estes fatos pelo que acreditávamos que eram na
origem das pesquisas. Estou intimamente persuadido de que a Física
alcançou seus maiores progressos, contrariamente ao que pretendem em
geral, renegando os fatos experimentais (que não são jamais "fatos" no
absoluto, mas interpretações baseadas somente numa parte dos dados que
a Natureza coloca ao alcance dos nossos sentidos).

Portanto admiti que, para caminhar para a unificação dos fenômenos, era
necessário postular que existiam dois espaços-tempos justapostos,
constituindo um espaço-tempo mais geral, no qual, então, os fenômenos
apareceriam unificados. Guiado pelos trabalhos de Einstein sobre a
Relatividade geral, que faziam intervir o tempo como uma dimensão
"imaginária", admiti que as quatro dimensões (três de espaço e uma de
tempo) de meu espaço-tempo generalizado eram, cada uma, desdobradas
entre uma parte "real" e uma parte "imaginária". Em Matemática, quando
falamos de números "desdobrados", chamamolos de números complexos.
As dimensões do meu espaço-tempo generalizado são, portanto, no
sentido matemático, dimensões complexas; daí o nome de Relatividade
complexa que dei à teoria que desenvolvi explorando as propriedades
deste espaço-tempo generalizado.

Não tenho intenção de abordar aqui os detalhes da teoria matemática das


grandezas ditas "complexas". Não é objeto desta obra. Mas, para que o
leitor não-iniciado possa fazer uma idéia do que é necessário entender por
"complexo", fornecerei uma imagem.

Tomemos uma moeda deitada sobre uma mesa. Só percebemos o lado da


"cara" da moeda. Podemos traduzir este fato dizendo que o lado da face é
"real", posto que é visível. Um garotinho (seis a doze meses segundo as
experiências do psicólogo Piaget) pensará, na maioria das vezes, que esta
peça tem um só lado, visto que só um lado é apreendido diretamente pelos
seus sentidos. Entretanto, como adultos, podemos fazer um esforço de
imaginação e declarar que esta peça possui igualmente um lado "coroa",
escondido pelo contato com a mesa. Entretanto, como não o vemos,
podemos qualificá-lo de "imaginário". Isto não impede que, mesmo que
ele não seja visível, sua existência pareça certa para a maioria dos
observadores. Se, portanto, admitimos a existência destes dois lados da
peça, um lado coroa e um lado cara, a despeito de vermos apenas um,
37

poderemos caracterizar esta opinião anunciando que a peça tem um


anverso e um reverso, ou ainda dizendo que a peça é complexa.

Dizer que as dimensões do tempo e do espaço são complexas é análogo


(mas, bem entendido, não idêntico) a dizer que o tempo e o espaço têm
um direito e um avesso. Portanto, não seria realmente exato dizer que com
um espaço-tempo "complexo" teremos "dobrado" as dimensões do espaço-
tempo "ordinário" (que seriam então oito em vez de quatro): o que é
correto dizer é que iremos construir uma teoria física em um espaço-
tempo, onde o direito e o avesso desempenharão ao mesmo tempo o papel
das três dimensões do espaço e da dimensão do tempo.

Mas existem indícios na Física atual que permitiriam entrever os


primeiros sinais de uma tal "complexidade" do espaço-tempo apreendida
pelos nossos sentidos?

De repente, como já disse, a existência de uma tal complexidade me


parece muito evidente, considerando as duas "faces" do nosso Mundo
sensível que são a Matéria e o Espírito. Mas, "antes disso", isto é, antes do
início da teoria, foram razões muito mais prosaicas que me apareceram
como indícios de uma complexidade do espaço-tempo. Selecionarei aqui
duas dessas razões, que são, talvez, as principais.

Primeiro, o fato de que a Física contemporânea, desde a Teoria Quântica


de 1925, muitas vezes é levada a dar um conteúdo físico a um ponto de
espaço-tempo; ou antes, a um ponto-acontecimento de espaço-tempo,
visto que tal ponto é feito de um ponto "matemático" de espaço (isto é, de
volume nulo) associado a uni instante do tempo (isto é, de duração nula).
Tal "conteúdo físico" atribuído ao ponto-acontecimento aparece
principalmente no que chamamos Teoria Quântica dos campos, onde cada
ponto do campo é considerado como um pequeno oscilador independente,
possuindo certa quantidade não nula de uma grandeza chamada ação 1.
Como é possível "manter" uma quantidade física que, por sua própria
definição, deve necessariamente ocupar um volume não nulo de espaço,
em um ponto matemático que, igualmente por definição, é sem volume?
Problema análogo para algumas partículas, como o elétron, por exemplo:
colocamo-nos em dificuldades para interpretar as observações se
admitimos que o elétron não é assimilável a um ponto matemático,
ocupando, portanto, um volume nulo de espaço; tomemos uma partícula
que possui uma massa não nula, e ficamos com a obrigação, a fim de não
contradizer a experiência, de "instalar" esta massa não nula em um
volume nulo de espaço!
38

A idéia mais simples que sugere uma tal situação é que a massa se
esconde "em algum outro lugar" que não o espaço-tempo ordinário que
consideramos, e onde situamos o ponto matemático de espaço tempo.
Estaríamos aqui, parece, como diante de um muro opaco onde, entretanto,
perceberíamos um ponto minúsculo filtrando um raio de luz. Que
concluir, senão que atrás do lado aparente do muro existe um espaço
contendo luz, e um minúsculo buraco no muro (um ponto) nos permite
perceber esta luz. Em Física, o aspecto pontual de uma partícula dotada de
massa como o elétron poderia ter uma explicação análoga: a massa do
elétron está situada em um espaço "justaposto" ao nosso espaço ordinário.
Ignoramos este novo espaço quando falamos do elétron através das
equações que o descrevem, pela simples razão de que não escolhemos,
para esta descrição, um referencial contendo dimensões representáveis
neste novo espaço.

Estas reflexões simples, sem dúvida nenhuma, guiaram minhas pesquisas


desde o início dos meus trabalhos. Alguns não hesitarão em considerar
estas reflexões "simplistas" e, portanto, não utilizáveis em matéria
científica. Não os seguirei nesta linha, pois minha experiência me mostrou
que, muitas vezes, a idéia "mais simples" é a mais útil, entretanto a mais
difícil de distinguir no princípio de qualquer pesquisa, obscurecido como
está naquele momento o nosso espírito pelos pressupostos inevitáveis que
tem para julgar de toda a situação. Aristóteles nos lembrava que "os
Homens, diante das idéias simples, são como os morcegos diante da luz:
cegos".

Mais recentemente (no início de 1973), uma outra razão, mais "técnica"
desta vez, forneceu-me novos indícios para justificar a existência de um
espaço-tempo complexo.

Todos conhecem, hoje em dia, as analogias que a Natureza apresenta


quando comparamos os fenômenos nas duas extremidades da escala de
suas dimensões: o átomo, com seus minúsculos elétrons girando em torno
do núcleo, parece-se com o sistema solar, com os planetas girando em
torno do sol central; as partículas elementares pesadas, como o nêutron,
por exemplo, que entra na constituição de todos os núcleos atômicos
(salvo o do hidrogénio), têm grandes semelhanças com o que chamamos
em astrofísica pulsares, que são estrelas terminando sua existência, e cuja
densidade é precisamente da ordem de grandeza da densidade dos
nêutrons; como os nêutrons, os pulsares giram rapidamente em torno de
39

um de seus eixos e possuem um campo magnético bipolar; enfim, como os


nêutrons, os pulsares estão em pulsação radial.

Tinhamos assim o direito de esperar ver este espaço-tempo complementar


do espaço-tempo da Matéria, se ele existe e exerce um papel nas
partículas elementares como pensamos, de mostrar também sua existência
na escala cósmica.

Ora, encontramos este espaço-tempo novo, efetivamente, intervindo ein


astrofísica. É o espaço-tempo que os astrofísicos encontram no que
chamam "buracos negros",

Os buracos negros e seu estudo tornaram-se um dos temas centrais da


astrofísica contemporânea, sobretudo desde que nossos radiotelescópios
nos permitiram pensar que havíamos identificado um na Constelação do
Cisne. 0 que é, pois, um buraco negro?

As estrelas nascem, vivem e morrem, do mesmo modo que os Homens.


Dizemos que uma estrela se aproxima de sua morte quando seu fogo
interior, alimentado pelas reações termonucleares que acontecem no
interior do corpo estelar, termina por se apagar porque todo o seu
combustível se queimou. Durante sua "agonia", as estrelas se comportam
diferentemente uma da outra. Se sua massa ultrapassa 3,4 vezes a massa
do nosso Sol, elas começam a tomar-se estrelas explosivas, expulsando
uma parte de sua matéria periférica (supernova). Quando sua massa é
reduzida a menos de 3,4 vezes a do nosso Sol, elas se apagam
progressivamente. Em todos os casos, no decorrer deste período final de
"extinção", elas "murcham" para se tornar, primeiro, anãs brancas, ainda
relativamente muito quentes. Depois, ainda perdem calor, diminuindo
sempre seu raio. Seu movimento de rotação sobre si mesmas vai se
acelerando, levando-se em conta o fato de que seu diâmetro diminui.
Quando sua densidade é da ordem de grandeza da da matéria nuclear, elas
se tornam o que chamamos pulsares, isto é, objetos que possuem massa de
ordem igual à do Sol, mas medem apenas alguns quilômetros de diâmetro.
Estes pulsares estão em pulsação radial, com um período principal
geralmente da ordem do segundo. Reconhecemos estas pulsações através
dos breves sinais de radiação eletromagnética que o pulsar nos envia a
cada contração. Mas esta energia eletromagnétíca dissipada no espaço é
tirada da rotação do pulsar, e o período de pulsação, portanto, aumenta
lentamente. Em um certo momento se produz, então, uma "exaustão
gravitacional": a velocidade de rotação do pulsar sobre si Mesmo torna-se
muito mais fraca para que as forças centrífugas e a pressão
40

eletromagnética venham compensar as forças de contração gravitacional;


o pulsar tem seu raio que diminui ainda mais rapidamente, e a estrela
exaure-se. É provável que, no decorrer desta fase final, os próprios
nêutrons, esmagados uns contra os outros, terminem por fundir-se em um
só magma de enorme densidade.

Consideremos que é aí que aparece o que chamamos um "buraco negro"


(black hole). A gravitação na superfície da estrela que se exauriu, com
efeito, vai aumentando sem cessar, visto que as forças gravitacionais sobre
a superfície variam com o inverso do quadrado do raio. Como o espaço se
curva tanto mais quanto mais forte é a gravitação, chega um certo nível de
achatamento (isto é, um certo raio da estrela) para o qual o espaço se
curva a ponto de se fechar sobre si mesmo. Então estamos diante não de
apenas um mas de dois universos: nosso grande Universo, que tem seu
próprio espaço fechado sobre si mesmo, com um raio de milhões de anos-
luz; depois, vindo como que a se justapor a este espaço, à maneira de uma
bolha que se forma sobre o couro de uma enorme bola, um "ovo" como
que gerado pelo nosso próprio Universo, um espaço que forma um todo
em si mesmo, com o qual (como iremos ver) nosso Universo terá apenas
um "ponto" de contato: assim identificamos um buraco negro.

Por que este nome de buraco negro? Porque, precisamente, este


espatempo do buraco negro tornou-se um outro espaço-tempo que não o
nosso, aliás com propriedades bastante diferentes. E, especialmente, uma
propriedade essencial: mesmo se esta estrela exaurida, este microuniverso
feito de um espaço-tempo distinto, contivesse luz, ou neutrinos, ou
partículas, ou tudo o que se possa imaginar, agora é impossível por
qualquer razão que seja sair dessa bolsa que acaba de nascer e é feita de
um espaço-tempo distinto. Em resumo, nenhum dos nossos sentidos,
nenhum dos nossos aparelhos científicos, tanto os atuais como os do
futuro, poderá discernir o que quer que seja do conteúdo do buraco negro.
Este conteúdo caiu, verdadeiramente, no negro absoluto. Daí o nome de
um tal objeto.

Mas então, vocês poderiam dizer, se este buraco negro é tão negro que
nada pode dele sair, como poderia ele assinalar sua presença se está
condenado a permanecer "pontilhado", como um objeto eternamente
inobservável de nosso Universo? Podemos mesmo afirmar que ele
apresenta ainda alguma relação com o nosso Universo?

Estudos teóricos aprofundados1 sobre os buracos negros mostram que ao,


desaparecer, apresentando somente um ponto de contato com o nosso
41

Universo, o buraco negro deixa, entretanto, traços atrás de si, sob a forma
de uma forte curvatura local no espaço de nosso próprio Universo,
convergindo como um funil para o ponto do desaparecimento do buraco
negro. Isto faz com que a matéria do nosso Universo, passando perto do
buraco negro, tenha tendência a cair no fundo deste funil, se ela não tiver
velocidade suficiente para escapar. 0 fenômeno é aqui totalmente
comparável ao que se dá em torno do "olho" de um redemoinho. É o
imenso turbilhão que provoca o bura co negro que permite detectar a
presença de um buraco negro (como o recentemente descoberto na
Constelação de Cisne); as partículas carregadas que caem no funil emitem
ao girar, ao mesmo tempo que se aproximam do fundo, uma forte radiação
X, que traduz a presença de um buraco negro para os observadores
afastados, tais como nós.

Devemos então dizer que o buraco negro vai sempre aumentar sua massa
ao absorver a matéria que passa em sua vizinhança, visto que ele "toma
sem nunca devolver"? A resposta é uma das mais "lindas" histórias da
Relatividade: posto que, quanto mais o espaço-tempo se curva em torno
de uma estrela, mais os fenômenos, para nós que os contemplamos da
Terra, longe da zona curva, nos parecem vagarososs, longe de nos parecer
cair cada vez mais rápido no fundo do funil, à medida que ela se aproxima
deste fundo, a matéria vai nos parecer, na Terra, ao contrário, sempre
diminuir sua velocidade ao se aproximar do fundo do funil. E demonstra-
se que, na verdade, será necessário um tempo infinito para que ela atinja
este fundo, de tal sorte que não a veremos nunca desaparecer no buraco
negro. Aliás, é isto que explica o fato de o buraco negro ser um espaço
"fechado": desde que ele se fechou, não vemos nada nele entrar, nada sair
dele. Somente fenômenos do tipo de "turbilhões" em torno do "olho"
pontual do buraco negro nos indicam que há "perigo" de aproximação,
pois nos arriscamos a sermos colhidos para sempre pelo turbilhão!

Mas se chegássemos realmente a cair neste turbilhão, atingiríamos


finalmente o olho do buraco negro, ou então, corno se constata da Terra
ser-nos-ia necessário um tempo infinito para atravessar este olho?

Nós passaríamos, responde a Relatividade (e aí está o "lindo" da história),


e passaríamos mesmo muito rapidamente; pois se, da Terra, temos a
impressão de uma diminuição de velocidade à aproximação do olho, isto
não é verdadeiro se consideramos o fenômeno avaliando-o com o tempo
apropriado, isto é, medindo o envelhecimento do viajante enquanto ele
desce no olho do redemoinho. 0 viajante vai efetivamente 44entrar" no
buraco negro a uma grande velocidade ... e se encontrar diante de um
42

espaço e de um tempo bem diferentes daqueles que acabou de deixar! É


sobre este espaço-tempo do buraco negro que falaremos agora, pois
veremos que é aqui, embora ainda na ponta dos pés, que veremos apontar
o nariz do Espírito, ou melhor, o de um espaçotempo do Espírito.

Desde que transpusemos o olho do buraco negro, constatamos (segundo os


estatutos teóricos 1 das equações da Relatividade) que o tempo e o espaço
habitualmente considerados em nosso Universo de repente invertem seus
papéis. As dimensões do espaço novo se tornam do tipo tempo (isto é, se
comportam como nosso tempo), enquanto que a dimensão do novo tempo
se torna do tipo espaço (isto é, se comporta como nosso espaço). Tudo
isto, tão espantoso quanto possa parecer, é bem visível nas equações que
chamamos "a métrica da Relatividade". Ainda uma vez, não temos
intenção de entrar aqui nos detalhes matemáticos, e me esforçarei para
expor as principais conseqüências "palpáveis" para um explorador não-
matemático que teria realmente penetrado no novo espaço-tempo, que
chamaremos, para distingui-lo do espaço-tempo ordinário (ou espaço-
tempo da matéria), espaço-tempo do buraco negro.

Primeiro, este espaço do buraco negro tem um comportamento


extravagante. Escutemos Wheeler:

"0 explorador em seu foguete tinha sempre a possibilidade de fazer meia-


volta antes da passagem pela entrada do buraco negro. Bem diferente é a
situação desde que ele passou esta entrada. Agora, seu movimento no
espaço representa o escoamento do tempo. Jamais será possível ao
explorador comandar o seu foguete a fazer meia-volta. Este poder
invisível do mundo que arrasta cada um de nós, feliz ou infelizmente, dos
20 para os 40 anos e dos 40 para os 80 anos, arrastará o foguete no espaço,
sem esperança de volta pelo caminho já percorrido (do mesmo modo que
não podemos voltar ao passado, no tempo). Nenhum ato humano, nenhum
motor de foguete, nenhuma força poderá parar o tempo. Com tanta certeza
como as células morrem, como o relógio do nosso explorador marca os
"minutos cruéis", também com tanta certeza, sem nunca parar no caminho,
o foguete avança sem cessar para frente."

E, devemos acrescentar ainda, o foguete transpõe assim o espaço, sem


poder jamais parar sobre uma espécie de 1imite" do espaço. Com efeito se
chamamos R o raio do buraco negro, como se trata de um universo
"fechado", demonstra-se que o viajante terá voltado à vizinhança do olho
do buraco negro depois de ter percorrido a distância ,n R (e não 2 iz R,
como seria no caso de um círculo). 0 próprio tempo do nosso explorador
43

retomará então seu curso desenvolvendo, sob os olhos do viajante, o


mesmo espaço. Em outros termos, o viajante é aqui prisioneiro num
universo cíclico onde, periodicamente, a cada "volta" do buraco negro, ele
viverá os mesmos acontecimentos.

Eis que nos lembramos, mas numa escala de tempo muito mais fraca, o
que os cosmologistas relativistas prevêem geralmente para o nosso próprio
Universo: ele está atualmente em expansão, mas se contrairá em seguida,
depois se dilatará novamente, e assim por diante; nós assistiríamos,
portanto, assim (nós, ou nossos "duplos" sucessivos) a "eternos retornos".

Mas, atenção! Os estudos relativistas do espaço-tempo dos buracos negros


fazem aparecer uma diferença essencial entre o escoamento do tempo nos
buracos negros e o escoamento do tempo no nosso Universo. 0 tempo se
escoa no buraco negro em sentido inverso ao do nosso próprio tempo. Em
outras palavras, os fenômenos físicos no buraco negro se desenvolvem
regredindo no tempo.

Eis um resultado notável, e que não pode deixar de ter consequencias


importantes. A mais significativa é, sem dúvida, esta: nosso Universo de
Matéria vê os fenômenos se desenrolarem em entropia crescente (isto é, os
fenômenos só podem diminuir sua "ordem" ao evoluir); a evolução em um
universo onde o tempo mudou de sinal conduziria, ao contrário, a
fenômenos se desenrolando em entropia decrescente 1. E, acabamos de
ver, eis o que acontece efetivamente no espaço-tempo do buraco negro: os
fenômenos vão aqui se ordenando sempre um pouco mais.

Na linguagem da teoria da informação isto significa em nosso espaço da


Matéria, o de nosso próprio Universo, um sistema isolado só pode evoluir
com alguma perda de informação sobre o estado do sistema. Ao contrário,
no espaço de um buraco negro, um sistema isolado evoluirá permitindo
obter sempre mais informações sobre seu estado.

Estamos visivelmente, diante de conclusões de uma importância tal que


não hesitarei em qualificá-la de "dramática".

Pois, que vemos se destacar como características essenciais do espaço-


tempo de um buraco-ntgro, segundo o que acabamos de descobrir como
conclusões dos estudos relativistas?

Primeiro, um espaço onde a informação só pode se enriquecer (ou, ao


menos permanecer constante) à medida que o tempo se escoa. Um espaço
44

que é capaz, graças a estas informações, de aumentar sem cessar sua


"ordem" 1. Um espaço que se distingue, portanto, sempre mais do nosso
espaço da Matéria, onde a evolução se opera com degradação contínua da
informação e da ordem. Um espaço que apresenta, finalmente, as
características do que chamamos o espaço do Vivo, o espaço encerrado na
membrana de uma célula viva, por exemplo, que é também um espaço
onde a observação faz aparecer claramente uma evolução em neguentropia
crescente. E, sem dúvida também, o espaço do Pensante, o espaço da
memória que é, ele também, um espaço onde a informação só pode ir
crescendo (ao menos em regime de funcionamento "normal").

E isto não é tudo. Vimos que estamos diante de um espaço-tempo cíclico".


A informação estocada neste espaço, a que foi registrada a cada segundo,
sem poder jamais se perder, no curso do desenrolar do tempo, vai voltar e
estar, portanto, novamente, na paisagem de informações do nosso
explorador, depois que ele tiver completado uma volta inteira no espaço
do buraco negro. Mas isto não é simplesmente o mecanismo da memória;
as informações são registradas sem cessar e podem, em seguida, ser
relembradas em um instante posterior, como no curso de uma certa "volta
do tempo" passado para o instante vivido, isto é, para o presente.

Sem conseguirmos, um dia, projetar qualquer luz sobre o Espírito, não


deveremos, paradoxalmente, reclamar esta luz dos buracos negros!

Mas é conveniente retornar agora às nossas partículas elementares, pois,


não somos naturalmente feito$ de buracos negros, mas de partículas
materiais, e essencialmente de prótons, de nêutrons e de elétrons. Os
buracos negros, entretanto, nos interessaram muito especialmente porque
iremos ver que uma destas partículas elementares que formam nosso
corpo, o elétron, possui uma estrutura que a representa como um
"tnicroburaco negro", uma "geometria" contendo um espaço-tempo
inteiramente semelhante ao dos buracos negros. Um espaço-tempo do
Espírito, finalmente.

CAPITULO V

0 elétron portador do Espírito

0 espaço-tempo do elétron é comparável ao dos buracos negros. -


Lembrete das concepções atuais das partículas "elementares". - A
partícula "cava" o espaço como o faz um buraco negro. - 0 espaço
"fechado" do elétron, e suas interações virtuais "à distância". - 0 elétron
45

é portador de um espaço "espiritual". - As provas do psiquismo, ao nível


das partículas. - As comunicações entre o Homem e o Espírito da
Matéria. - Representação simbólica de Matéria e Espírito no Universo.

Assim, o que acabamos de ver? Essencialmente que, quando a Matéria se


concentra a ponto de ter o equivalente de uma massa tão grande quanto a
do nosso Sol, dentro de uma esfera com um raio da ordem de somente um
quilômetro (posto que o nosso Sol tem 700.000 quilômetros de raio),
neste caso, a atração gravitacional na superfície da estrela superdensa se
tornava tão forte que se criava no espaço uma espécie de "bolso" no qual
a estrela se encontra encerrada. Fato extremamente interessante para o
que nos preocupa aqui é que o espaço e o tempo no interior deste "bolso"
são diferentes de nosso espaço e de nosso tempo ordinários. Esta
diferença se traduz, de um lado, por um 14 retorno" do tempo, isto é, pelo
fato de que o espaço retoma, a intervalos regulares, o conjunto de seus
estados passados (fenômeno análogo a uma memorização, portanto uma
reminiscência do passado); e, de outro lado, a evolução dos fenômenos
neste espaço se efetua em neguentropia crescente, e não em entropia
crescente, como no caso em nosso próprio espaço, o que permite
aproximar os fenômenos de um tal espaço dos que nos proporcionam ver
o Vivo ou o Pensante.

A questão que colocamos, agora, é a seguinte: sabemos que o que


chamamos de partícula "elementar", em Física, um elétron ou um próton,
por exemplo, é formada igualmente de matéria extremamente densa,
precisamente da ordem de grandeza da densidade que encontramos nos
buracos negros; neste caso, não haveria algumas dessas partículas (senão
todas) que teriam, também, cavado um "bolso" em nosso espaço e
encerrado em seu interior este estranho espaço-tempo que reconhecemos
nos buracos negros, tão estranho que somos inclinados a qualificá-lo de
"espaço-tempo do Espírito"? Em resumo, para sermos breves, algumas
das partículas elementares conhecidas não seriam "rnicroburacos
negros"?

Se a resposta fosse afirmativa, visto que sabemos que tais partículas


entram na composição de nosso corpo, estaríamos, sem dúvida, no
caminho que lança uma ponte entre a Matéria e o Espírito.

Mas, como estamos aqui no terreno da Física, devemos justificar esta


resposta não simplesmente através de conclusões hipotéticas, por mais
sugestivas que sejam, mas através de deduções precisas.
46

Atualmente, creio que esta resposta é, efetivamente, aos olhos da Física,


uma resposta afirmativa; as partículas elementares que chamamos léptons
carregados, dos quais o elétron é o único representante “estável" (isto é,
com uma duração de vida praticamente infinita), seriam "microburacos
negros" encerrando este espaço-tempo do Espírito que começamos a
descrever. Demonstrei este resultado, na linguagem do físico, na obra que
estou publicando ao mesmo tempo que esta, chamada a Teoria da
Relatividade Complexa.

É possível traduzir igualmente este resultado em linguagem "ordinária"?


Tomarei de empréstimo a resposta ao grande matemático Henri Poincaré.
Ele foi, em seu tempo, examinador nos concursos das Grandes Escolas.
Quando um estudante cobria vários quadros-negros com sinais
matemáticos, ele lhe pedia que deixasse o giz, se afastasse um metro do
quadro, se voltasse para ele, e lhe dissesse na linguagem de "todo o
mundo" o que havia tentado demonstrar matematicamente. E bomba na
nota do estudante, se fosse incapaz de satisfazer a este teste!

Creio, igualmente, que a Física não vale nada se não for capaz de ser
também uma Física popular; neste sentido entendo uma Física traduzível
em linguagem acessível a todos. E me proponho tentar, eu mesmo, o teste
de Poincaré, deixando que meu leitor julgue.

Comecemos por relembrar algumas idéias simples, mas fundamentais,


sobre o que a Física chama partícula elementar.

Podemos representar a partícula de Matéria


como formada por uma região muito pequena
mas de densidade muito forte (a região
ocupada precisamente pela matéria da
partícula) boiando em nosso espaço de
aparência "vazia", que nós todos conhecemos.
A região de forte densidade pode ser chamada
de espaço forte, pois não podemos penetrar facilmente neste espaço. Ao
contrário, nossa experiência nos mostra que podemos facilmente nos
deslocar no espaço "vazio" que rodeia a partícula. Entretanto, é mais
exato qualificar este espaço de “gravitacional" do que de "vazio", pois a
partícula exerce em torno de si, no espaço onde bóia, uma atração que
tende a fazer com que uma outra partícula se aproxime espontaneamente
dela. Esta atração é chamada pelos físicos de “interação gravitacional";
sua existência prova que o espaço que envolve a partícula, que
poderíamos julgar vazio, não é tão vazio assim, visto que contém
47

qualquer coisa que emana da partícula de matéria e que atrai para ela os
objetos circunvizinhos.

0 que acontece no espaço gravitacional quander, como é o caso para uma


estrela ou para um planeta, acumulamos um número muito grande de
partículas, umas ao lado das outras, como o faríamos com um enorme
saco de bolas de bilhar, por exemplo?

Posto que uma só partícula já atrairia os objetos materiais em sua direção,


os bilhões de partículas que formam a estrela vão atrair muito mais
fortemente os objetos da vizinhança; quanto mais numerosas forem as
partículas, isto é, quanto maior for a massa total, a força de atração sobre
um objeto dado será também maior. Na Relatividade geral de Einstein,
onde o fenômeno é descrito geometricamente, dizemos que a estrela
"curva" tanto mais o espaço que a
rodeia quanto maior é sua massa; do mesmo modo como se o espaço
gravitacional fosse uma

tela elástica horizontal esticada


e que a estreia viesse, com sua
massa, fazer uma
"concavidade" na tela (ver o
esquema acima). Qualquer objeto material seria, numa tal representação,
atraído pela estrela precisamente porque ele teria tendência de rolar sobre
a tela deformada, para cair no fundo da "concavidade" criada no espaço
pela estrela.

Para uma dada massa de


estrela, a curvatura do espaço
na vizinhança da superfície
da estreia (isto é, no lugar
onde a atração é máxima) é
tanto maior quanto o raio da
estreia é menor, como resultado da lei de Newton.

0 esquema acima nos mostra como evolui a curvatura do espaço à medida


que o raio da estrela diminui por contração gravitacional, Em um certo
momento, o espaço "adere" literalmente na superfície da estreia, o que
quer dizer que o espaço se "fechou" em torno da estrela, encerrando-a em
uma espécie de bolso. Estamos, então, diante de um buraco negro, e
48

explicamos no capítulo precedente como o espaço e o tempo não tinham


mais, no interior do buraco negro, as propriedades que lhes atribuímos
em nosso espaço "ordinário".

0 que acabamos de ver é a maneira pela qual se deforma o espaço


gravitacional quando uma massa da ordem de grandeza da das estrelas se
contrai sempre cada vez mais, para chegar finalmente a um buraco negro.

Em lugar do espaço gravitacional, consideremos, agora, o espaço forte da


forma como vimos que existe no interior de uma partícula elementar. Um
tal espaço forte corresponde, ele também, a uma curvatura do espaço-
tempo: mas esta curvatura está aqui bem localizada, pois ela termina na
fronteira da matéria, em vez de se prolongar até o infinito, como era o
caso na curvatura do espaço gravitacional.

Existem dois tipos principais de partículas de matéria, distinguindo-se um


do outro pela maneira como vai se operar a curvatura do espaço: os
hádrons e os léptons carregados.

Como iremos ver, nos hádrons o espaço está simplesmente curvado; nos
léptons carregados, ao contrário, à semelhança dos buracos negros, ele
está tão curvado que se fechou sobre si mesmo, transformando-se em um
espaço-tempo de um tipo diferente do de nosso espaço-tempo "ordinário".

Os hádrons podem ser esquematizados geometricamente como uma


espécie de um minúsculo turbilhão criado no espaço.

Este turbilhão tem a forma de um "dedo de luva", relativamente profundo,


deformando fortemente o espaço em uma região microscópica (na
verdade, em um diâmetro da ordem de um milésimo de bilhonésimo de
milímetro). 0 que é aqui característico é que a curvatura do espaço se
detém nas próprias bordas do turbilhão, e não há nenhum efeito à
distância, contrariamente ao que acontecia com a curvatura do espaço
gravitacional. Assim, a curvatura do espaço forte só se faz sentir sobre os
objetos exteriores (uma outra partícula, por exemplo) se estes objetos se
aproximarem muito perto do "turbilhão". Se estes objetos se aproximam
em grande número, somente alguns, os que atingirem a borda do
turbilhão, sentirão os efeitos de deformação do espaço'. Enfim, para que
49

esta imagem esteja ainda mais de acordo com o modelo matemático dos
hádrons, seria necessário acrescentar que o turbilhão possui uma fronteira
que está em pulsação radial. Naturalmente, há continuidade, como vemos
no esquema, entre o espaço forte onde se localiza o hádron e o espaço
"exterior" na fronteira do hádron, que é o espaço gravitacional. A pulsação
radial do espaço forte induz, de resto, uma onda no espaço gravitacional
em volta do hádron, e esta onda não é senão o "campo" gravitacional do
hádron.

Os hádrons possuem massas muito diversas, contando-se por dezenas,


geralmente com "durações de vida" muito curtas (bem inferiores ao
bilionésimo de segundo). Entre os hádrons, somente o próton e o nêutron,
quando este está no interior dos núcleos atômicos, têm durações de vida
infinitas (isto é, são "estáveis").

Além dos hádrons, a Física contemporânea reconhece um (e só um) outro


tipo de partícula de matéria: este tipo corresponde aos léptons carregados,
que são todos portadores da mesma carga elétrica elementar. Os léptons
carregados são em número de dois (contrariamente aos hádrons que são
muito numerosos): o múon e o elétronl. Somente o elétron possui uma
duração de vida quase eterna. É ele que vai nos interessar aqui muito
particularmente, pois é ele o portador do Espírito.

No decorrer de minhas pesquisas 1, pude mostrar que o elétron deforma o


espaço à sua volta à maneira de um buraco negro, no sentido de que o
espaço "se fecha" completamente", como vemos representado no esquema
abaixo:

A imagem mais fiel é, talvez aqui, a de uma bolha de sabão pousada sobre
uma mesa plana e rígida: o elétron é a bolha e possui somente um ponto
de contato com nosso espaço-tempo habitual, que está representado pela
mesa rígida (curvatura fraca ou nula). Como para o hádron, devemos notar
aqui que a curvatura do espaço está limitada ao próprio elétron, pois não
há efeito de curvatura se prolongando para fora das fronteiras do elétron. 0
elétron forma um verdadeiro universo por si só, cujo espaço está
completamente isolado do espaço exterior. Nenhum objeto pode penetrar
nesse espaço ou dele sair, é um espaço "fechado".
50

Mas então, se este micro universo eletrônico está completamente


"fechado", como pode interagir com o exterior, com o resto do Universo?
E, mais simplesmente, como pode interagir com os outros elétrons
presentes no Universo, interações cuja experiência mostra bem a
existência (repulsão eletrostática entre dois elétrons, por exemplo)?

A resposta se apóia aqui sobre uma idéia emitida, há já alguns anos, pelo
físico americano Richard Feynmann, idéia que foi perfeitamente
confirmada pelas minhas próprias pesquisas sobre a estrutura do elétron.

0 micro universo eletrônico não está vazio (senão o espaço que o encerra
não estaria curvado); ele contém, como nosso próprio Universo, Matéria e
radiação. E contém, principalmente, o que chamamos radiação "negra",
uma espécie de gás de fótons tendo todas as velocidades e todas as
direções, e definindo uma temperatura T, dita temperatura da radiação
negra do espaço. Para o nosso próprio Universo, esta temperatura da
radiação negra enchendo o espaço é da ordem de três graus absolutos ( -
270 graus Celsius), e ela diminui progressivamente com o tempo, à
medida e na proporção que aumenta o raio do nosso Universo em
expansão. Para o microuniverso eletrônico, a temperatura da radiação
negra do espaço é muito mais elevada. Meus trabalhos mostraram que ela
variava entre 70 milhões e 650 bilhões de graus, enquanto que o
microuniverso eletrônico sofre, ele também, expansões e contrações
sucessivas ... mas com um período de pulsação radial 1011 vezes mais
fraca do que a do nosso próprio Universo!

Eis aqui como intervém a repulsão entre dois elétrons:

Um fóton negro de um dos elétrons vai trocar sua velocidade 11 com a de


um fóton negro do outro elétron, tendo a mesma velocidade absoluta que o
primeiro fóton, mas de sinal contrário. 0 processo está esquematicamente
representado acima. Feynmann dirá que há troca de fótons "virtuais", o
que significa que nada passou realmente de um elétron para outro;
estamos, portanto, diante de uma verdadeira interação "à distância", que se
51

produz entre fótons negros correspondentes dos dois micro universos


eletrônicos.

0 efeito global desta troca de fótons virtuais, como a representamos no


esquema, é que cada elétron está submetido a uma força que tende a
afastá-lo do outro elétron. Este é o princípio da repulsão eletrostática entre
os dois elétrons.

Este tipo de interação "à distância" entre dois elétrons vai ter, no contexto
filosófico onde nos colocaremos logo mais, uma importância muito
grande. Com efeito, veremos que esta radiação contida no micro universo
eletrônico não permanece sempre uma pura radiação "negra": ela é capaz
de aumentar,' sem cessar, sua ordem (os físicos dirão “aumentar sua
neguentropia"), coletando uma informação cada vez mais rica, informação
que se traduz, precisamente, por certos estados definidos da radiação
encerrada no universo eletrônico.

De resto, o elétron vai ser capaz de trocar esta informação à distância com
outros elétrons, seguindo um princípio idêntico ao utilizado na interação à
distância puramente eletrostática. Esta troca de estados informacionais
entre elétrons vai representar, duvida-se disso, um papel essencial, visto
que se trata, na verdade, de trocas de natureza 14espiritual", na medida em
que a informação deve ser considerada como um "produto" espiritual.

Notaremos que, da mesma forma que um elétron sofre a influência


eletrostática de um outro elétron, qualquer que seja a distância entre eles
(a influência, entretanto, variando como o inverso do quadrado da
distância), do mesmo modo a troca de informações entre dois elétrons, isto
é, a troca espiritual, poderá acontecer qualquer que seja a distância. Não
vemos aparecer aqui as primeiras bases verdadeiramente científicas dos
fenômenos telepáticos?

Resumindo: o elétron forma, portanto, uma individualidade autônoma,


possuindo um espaço e um tempo próprios. E este espaço-tempo
eletrônico é, como vimos para os buracos negros, diferente de nosso
espaço-tempo ordinário. 0 elétron é um verdadeiro micro universo; possui
um tempo cíclico que lhe permite reencontrar os estados passados do
espaço pelo qual é constituído; e, de resto, os fenômenos neste micro
universo se desenvolvem em neguentropia crescente, isto é, aumentando
sem cessar seu conteúdo informacional. Em breves palavras, o elétron
contém em si mesmo um espaço-tempo do Espírito.
52

Mas, então, perguntar-nos-emos imediatamente, se o elétron é portador de


um espaço "espiritual", como aconteceu que não o tenhamos percebido há
muito mais tempo? Por que o elétron, considerado isoladamente, não tem
um comportamento que faça aparecer imediatamente suas qualidades
espirituais?

A própria questão trai o antropocentrismo espontâneo do Homem diante


de toda situação que a Natureza lhe apresenta. Pois, não somente não há
objeção real à concepção de partículas dotadas de psiquismo, mas ainda
tudo que percebemos à nossa volta mostra-nos o psiquismo disseminado
nas coisas, quaisquer que sejam a pequenez ou o estado de fracionamento
sob os quais consideramos estas coisas.

Primeiro, precisamos nos livrar imediatamente da idéia de que a


obediência estrita das partículas de matéria às leis puramente físicas seja
um argumento contra um psiquismo eventual associado a elas. Tomem o
maior pensador da nossa Terra, transportem-no de avião e, quando
estiverem a 2.000 metros de altitude, joguem-no para fora; vocês
constatarão que ele obedece estritamente às leis da gravitação, "apesar" de
seu psiquismo. Semelhantemente, não podemos criticar um elétron
"espiritual" por ele obedecer às leis do eletromagnetismo quando se
encontra mergulhado em um campo elétrico ou magnético.

Para saber se um objeto é ou não dotado de psiquismo, para nós, humanos,


parece que existem apenas duas maneiras disponíveis: ou nos
comunicamos com este objeto através de uma linguagem apropriada, ou
observamos como este objeto se comunica com os outros objetos
próximos.

Se suponho (como voltarei a falar mais tarde) que os elétrons que formam
meu corpo são não apenas portadores do que chamo "meu" espírito, mas
constituem mesmo, de fato, meu próprio espírito, então não há,
naturalmente, nenhuma dificuldade em reconhecer que meu "Eu", isto é,
meu espírito, se comunica com meus elétrons. Existe aqui identidade entre
meu "Eu" e meus elétrons.

Se agora coloco o problema do Homem se comunicando com outros


elétrons que não os de seu próprio corpo., estamos diante da questão geral
das relações do Homem com a Natureza. É bem certo que, nos fenômenos
de telepatia, estamos diante de uma comunicação direta, sem o
intermediário da linguagem habitual, entre dois espíritos diferentes. Isto
poderia ser perfeitamente explicado por uma comunicação direta entre
53

meus próprios elétrons, portadores do "meu" espírito e os elétrons do


outro, portadores do "seu" espírito.

E por que limitar a telepatia à comunicação a distância entre dois


personagens humanos? Muitas pessoas, que não dão a impressão de ter
um espírito "desorientado" em seu comportamento habitual, dirão que elas
se comunicam, sem o intermediário de nenhuma linguagem, com um
animal, um vegetal, ou até mesmo um mineral. Alguns índios da América
afirmam que as árvores "falam". Certamente, esta faculdade de poder se
comunicar com toda a Natureza não é sentida por todo o mundo com a
mesma intensidade: os fenômenos telepáticos não são, é certo, tão
imediatamente e comumente sentidos quanto os fenômenos gravitacionais.
Esta é uma razão para negar em bloco sua existência? 0 que nos falta para
aceitar estes fenômenos como possíveis não é tanto conseguir colocá-los à
disposição de cada um, mas sobretudo poder tornar sua possibilidade
"explicável" no quadro dos nossos conhecimentos científicos atuais. É o
primeiro passo nesta direção que nos esforçamos para dar aqui..

Mas vamos mais à frente desta interrogação sobre as possibilidades de


comunicação direta do Homem com o "espírito" que reside na Natureza,
seja ele Homem, animal, vegetal ou mineral. E coloquemo-nos a questão:
os elétrons nos oferecem "espetáculos" indicando que eles se comunicam
entre si para "criar" alguma coisa nova, isto é, para desenvolver a
informação do sistema que formam entre si; ou dito de uma outra maneira,
para fazer evoluir o sistema ao qual eles pertencem em neguentropia
crescente? Pois é isto, e nada mais do que isto, finalmente, que faz a prova
de elétrons dotados de um certo psiquismo: é ver os elétrons constituírem
entre si, sem nenhuma ajuda vinda do exterior, um sistema que evolui
aumentando sua ordem, isto é, também seu conteúdo informacional.

Então, agora, para responder verdadeiramente, só temos o embaraço da


escolha entre os fenômenos que a Natureza nos exibe continuamente.
Podemos citar, naturalmente, o conjunto dos fenômenos vivos, por mais
elementares que sejam. Estes fenômenos nos mostram o elementar capaz
de se organizar, se concentrar para se dispersar em seguida e ir para
lugares precisos, criar "máquinas" que terão a aparência da liberdade,
escapando das leis entrópicas que governam uma matéria que não obedece
a não ser às nossas leis "físicas" conhecidas, leis das quais o psiquismo é
de propósito completamente excluído. Toda forma de vida, desde o vírus
até o Homem, não é ela um exemplo gritante que traduz esta aptidão do
elementar de se organizar por si próprio, com uma ciência que nós
mesmos seríamos incapazes de fazer? Não é suficientemente claro que,
54

em certos momentos, esta livre iniciativa permitindo escapar a passividade


relativa das leis físicas conhecidas, é tomada pelo elementar? Como
devemos considerar esta criação maravilhosa do organizado a partir do
caos, senão como uma prova evidente do psiquismo da Matéria?

Poderemos ainda pretender, entretanto, que não são as partículas


elementares individuais da Física, mas já do organizado, que realiza esta
"ordenação" dos fenômenos que caracterizam a Vida. Mas esta atitude
nada mais é do que a que consiste em confundir o limite de aumento dos
nossos microscópios com o limite elementar de organização onde já se
manifesta a iniciativa da Vida. Por menores e fragmentários que sejam os
elementos materiais que consideramos no corpo de uma célula viva,
ficamos constrangidos a dizer que vemos estes elementos agirem, ao
mesmo tempo isoladamente e em associação, para sempre melhor
"organizar" o meio. E todas as experiências sobre a síntese preferencial
dos componentes que entram na matéria viva a partir dos elementos
minerais, como, por exemplo, o hidrogênio, o metano, o amoníaco e o
vapor d'água sob iluminação ultravioleta, demonstram perfeitamente, hoje,
este poder de organização que transparece desde as partículas ditas
"elementares".

Uma análise aprofundada no plano da Física parece poder me permitir


afirmar que o conteúdo informacional indispensável a estas "criações"
executadas pela matéria elementar se situa nesta partícula de aparência
banal que chamamos elétron. Porque o elétron encerra em seu próprio
micro universo um espaço capaz de acumular a informação e de torná-la
disponível para cada pulsação de seu ciclo à maneira de um verdadeiro
fenômeno de "reminiscência", é por isso que ele possui a faculdade de
"pilotar" operações complexas, comunicando-se e agindo juntamente com
os outros elétrons do sistema que busca organizar.

Certamente, ainda uma vez, é necessário que os elétrons estejam reunidos


em um meio apropriado para que se torne visível aos nossos olhos este
comportamento psíquico. Se não me dão um meio qualquer de traçar
sinais sobre uma superfície qualquer, sou igualmente incapaz de provar
que sei escrever. Mas, desde que os elétrons estão face a face nesse meio
apropriado, então trocam entre si interações que não podemos qualificar
de outra forma a não ser como interações psíquicas. Chamamos assim as
interações que fazem evoluir o meio para estados sempre mais ordenados,
contrariamente ao que vemos quando esta matéria elementar não dispõe
de materiais necessários que lhe permitam intervir, ou melhor, manifestar
para nossos olhos "míopes" seu psiquismo. Seria necessário não querer
55

ver, para não chegar, hoje em dia, a tais conclusões. Isto já era verdadeiro
há vinte anos, depois das convincentes exposições de Teilhard sobre o
assunto; mas é ainda mais verdadeiro hoje, quando já é possível localizar
este espaço-tempo particular encerrado na Matéria eletrônica, que é ao
mesmo tempo a origem e o suporte do psiquismo.

Assim podemos, agora, fazer uma idéia de representação puramente


geométrica do Universo. Se queremos fazer unia tal abstração, para
descrição, de toda a linguagem matemática, podemos nos arriscar a dar a
imagem que segue.

0 Universo parece-se a um imenso oceano, constituído da água que o


forma e do ar sobre sua superfície. Esta superfície tem, portanto, um
"direito" na água, um "avesso" no ar. 0 espaço-tempo situado na água é o
espaço-tempo da Matéria; o espaço-tempo situado no ar é o espaço-tempo
do Espírito.

A superfície deste oceano é agitada continuamente por ondas leves, que


representam o aspecto ondulante do espaço gravitacional.

Neste oceano, percebemos também enormes turbilhões de água, cavando


funis na superfície do oceano: são as estrelas. Olhando melhor,
constatamos que estes imensos turbilhões são produzidos por bilhões de
minúsculos turbilhões, que são as partículas de matéria (hádrons). Quanto
mais o diâmetro dos grandes turbilhões vai diminuindo, mais a rotação é
rápida e mais o turbilhão se afunda no oceano, corno um redemoinho.
Para diâmetros suficientemente pequenos se produz um novo fenômeno: a
embocadura do turbilhão se fecha, aprisionando ar ao mesmo tempo; o
turbilhão então tornou-se quase invisível, deixando sobre a superfície
apenas um vestígio, como uma grande vasilha: estamos diante de um
buraco negro.

Enfim, sobre este imenso oceano da Matéria, vogam igualmente


minúsculas bolhas de ar, encerradas em uma fina película de água: são os
elétrons. Nós os vemos, de tempos em tempos, vir nadar sobre as paredes
dos turbilhões, grandes ou pequenos (os átomos). É Espírito que bóia
sobre a Matéria.

Os fótons e os neutrinos, estas partículas que não contêm nenhuma


matéria (massa nula), e por isso não "curvam" a superfície do oceano,
podem nos aparecer como múltiplas pequeninas manchas multicoloridas,
56

correndo entre as diferentes curvaturas da superfície da água,


estabelecendo assim "comunicações" entre estas diferentes ondulações.

A aventura do Universo é, portanto, ao mesmo tempo, uma aventura da


Matéria e uma aventura do Espírito. Mas, quanto mais o tempo passa,
mais esta aventura parece querer se organizar para proveito do Espírito e
em detrimento da Matéria. Como se, pouco a pouco, sob os raios de um
sol brilhante, a água se transformasse em vapor, para finalmente deixar
espaço para uma multidão de bolhas irisadas, esvoaçando sempre mais
alto, em direção aos céus.

CAPITULO VI

Uma evolução neoteilhardiana

Comparação às concepções teilhardianas. - A evolução segundo a lei de


complexidade-consciência de Teilhard. - 0 elétron "espiritual" contém, na
verdade, nosso "Eu" inteiro. - A aventura espiritual do Mundo está
centralizada no elementar….. e nós somos este elementar.

Já citamos muitas vezes Pierre Teilhard de Chardin quando se tratou da


associação entre a Matéria e o Espírito. Mas poderíamos voltar bastante
mais para trás na História. Thales, fundador da Escola de Mileto, na Jônia,
no século VI antes de Cristo, já afirmava que "todas as coisas estão cheias
de deuses", o que era uma outra maneira de exprimir que uma espécie de
psique, uma emanação dos deuses, complementa sempre a substância
material e a conduz aos fins que só os deuses conhecem. Empédocles, na
mesma época, antes de se jogar no Etna, por sua vez, professava que o
Amor e o ódio são, desde o início, os motores que animam toda a matéria.
0 Amor e o ódio, não estamos aqui em presença de qualidades de natureza
espiritual? Anaxágoras sustentava que os grãos de matéria se movem
graças ao "noûs", que é novamente uma espécie de psique ou de Espírito.

Depois da Idade Média, idéias análogas foram retomadas pelos maiores


físicos: Descartes com seus "espíritos animais", ou Leibniz com seus
"mônadas", ou ainda Newton com as suas inumeráveis pesquisas em
"alquimia" (que os racionalistas que o seguiram quereriam tornar
esquecidas, como já enfatizamos anteriormente). Mais perto de nós,
encontramos Bergson, com seu "ímpeto vital". Mas ninguém melhor do
que Pierre Teilhard de Chardin me parece ter sabido dar a esta idéia de
57

uma "psique" associada aos corpúsculos elementares de matéria, uma


forma convincente para o próprio espírito científico.

Teilhard não era físico, mas sim antropólogo. Portanto, não tentou apoiar
sua convicção sobre pesquisas da Física teórica, concernentes à estrutura
das partículas elementares. Mas soube abordar este problema com uma
lógica bastante científica, passando do geral para o particular, através de
um estudo minucioso da evolução do Universo inteiro, do mineral ao
Vivo, e do Vivo ao Pensante.

E a conclusão de Teilhard, que citaremos novamente, é esta': "Nós somos


logicamente levados a conjeturar, em todo corpúsculo de matéria, a
existência rudimentar (em um estado infinitamente pequeno, isto é,
infinitamente difuso) de alguma psique".

Portanto, para Teilhard, já existe alguma coisa, como a que chamamos


Espírito, nos elementos mais simples da Matéria, isto é, nos prótons, nos
nêutrons e nos elétrons que entram em toda Matéria durável. Mas esta
"alguma coisa" é tão tênue, tão difusa em relação ao Espírito tal como o
percebemos, por exemplo, através do pensamento humano, que ele só
pode ser considerado como um "germe"; é este germe que, com o tempo,
dará em seguida a árvore, as folhas, as flores e os frutos. E esta progressão
acontecerá, gradualmente, através dos bilhões de anos de toda a evolução,
com transposições de "limiares" onde o Espírito, bruscamente, passa uma
etapa diferenciante, que penetra em uma nova fase, sem medida comum
com a precedente. Teríamos assim o limite que separa a matéria orgânica
da matéria mineral, com o aparecimento da primeira célula viva. Depois,
no decorrer da progressão do Vivo, assistiríamos à transposição de um
novo limite, com o aparecimento do Pensante. Somente com o Homem é
que Teilhard saudará a chegada do Pensamento no Universo'. Teilhard
imagina para o futuro um ser "ultrapensante", como continuação evolutiva
lógica do Homem. Este desenvolvimento progressivo do Pensante
convergiria, finalmente, para um estado do Universo de pura
espiritualidade, que ele chama de "ponto Omega": o que não é senão um
outro nome que Teilhard dá ao Deus dos Cristãos.

Portanto, para Teilhard, como progride o Espírito da Matéria? Através de


uma multidão de tentativas infrutíferas, frutos não apenas do acaso
somente mas também desta psique elementar associada a toda partícula; a
Matéria edificaria estruturas cada vez mais complexas, com o objetivo de
fazer crescer sempre mais o Espírito, ou melhor, de fazer crescer o
que.Teilhard chama de a "consciência" das coisas criadas. Haveria,
58

segundo Teilhard, como que uma grande lei de complexidade-consciência:


algumas estruturas complexas, geralmente produzidas pela reunião de
estruturas mais simples, arrumadas pela Matéria no decorrer do tempo,
teriam por efeito produzir uma espécie de "ressonância" desta psique
própria a cada partícula e assim intensificariam o Espírito de cada
partícula do corpo de Matéria, ao menos no tempo durante o qual ela
continua a pertencer à estrutura complexa. Isto pode ser ilustrado, por
exemplo, com a passagem da matéria inerte para a matéria contida em
uma célula viva. A reunião dos elementos que compõem a célula viva
provoca, de súbito, um ser todo novo, cuja consciência sofreu uma brusca
intensificação em relação à consciência que possuía a matéria inerte.
Então, a consciência do conjunto se reflete em cada um dos elementos
materiais que formam o conjunto: a ponto de sermos obrigados a dizer que
cada um dos elementos materiais de uma célula viva não é mais da
matéria inerte, mas da matéria "viva". Mas retirem este elemento de
matéria viva do meio encerrado dentro da membrana da célula, expulsem-
no do "sistema", e ele retornará ao nível difuso da psique elementar, cuja
presença Teilhard reconhece, desde o começo do mundo, em cada
partícula isolada de Matéria.

Uma outra ilustração de como progride a consciência ao mesmo tempo


que a complexidade, é a de que Teilhard nos fala para o futuro da
evolução humana, no decorrer do qual o Homem passará do nível
pensante para o nível ultrapensante. Vemos, com o progresso das técnicas
de comunicação, uma tendência de colocar a totalidade da informação
disponível sobre a Terra à disposição de cada homem; de resto, não é
proibido pensar no momento em que a ação individual de cada um poderá
se incorporar de maneira harmoniosa na ação do conjunto da humanidade.
Em resumo, podemos admitir que nossa humanidade terrestre, onde cada
um "puxa" ainda um pouco do seu lado (é o mínimo que podemos dizer),
verá, um dia, se conjugarem todos os esforços para participar dos mesmos
objetivos "nobres". Então, estará criada sobre a Terra uma Humanidade
(com H maiúsculo), que constituirá um verdadeiro novo ser evolutivo em
relação a cada uma das células vivas de seu corpo.

Mas, acrescenta Teilhard, se esta Humanidade é verdadeiramente um novo


ser evolutivo, isto se reconhecerá pelo fato de que ela será psiquicamente
"ultrapensante", isto é, que disporá, através do esforço conjugado dos
pensamentos que funcionam em harmonia com todos os elementos
humanos, de um pensamento mais "consciente" (mais elevado, mais
eficaz) que o do Homem de "antes da Humanidade". E, por uma espécie
de reflexão do Todo para o Um, o homem individual que compõe esta
59

Humanidade disporá, então, na medida em que ele pertencer a esta


Humanidade, destas qualidades ultrapensantes de que soube dar prova a
Humanidade considerada como um todo.

Seguindo Teilhard, eu mesmo, durante muito tempo, defendi este modelo


de evolução, baseado na lei de complexidade-consciência. Entretanto,
hoje em dia, tenho um ponto de vista bastante diferente, conseqüência de
minhas próprias pesquisas sobre a estrutura do Espírito no interior da
Matéria, e vou explicá-lo aqui.

Primeiro, há qualquer coisa logicamente chocante, olhando melhor, na


idéia teilhardiana segundo a qual o que é "menos consciente" seria capaz,
com a ajuda do tempo, de criar alguma coisa "mais consciente". Parece-
me, que teríamos antes tendência de pensar exatamente o contrário. Bem
sei que é possível fazer intervir o acaso: a Matéria elementar, com sua
minúscula psique, estaria "a espera" de uma estrutura ocasional
satisfatória; se as leis físicas permitissem tal estrutura "favorável", mesmo
que fosse por um instante, então a psique elementar seria capaz de se
lembrar dos "planos" desta nova estrutura para lhe dar logo uma "duração
de vida" prolongada, e depois para reproduzi-Ia no futuro? Isto parece em
princípio aceitável; mas, a um exame mais minucioso, somos
constrangidos a reconhecer que as leis físicas, por si só, mesmo com a
ajuda do acaso, não têm tendência de deteriorar a informação (isto é,
também a consciência) contida na Matéria. Queremos admitir que, se
supomos que o problema está resolvido, isto é, se uma estrutura mais
complexa e mais consciente se realiza pelos jogos do acaso, então tal
estrutura é capaz de "fazer filhotes", e de dar um passo à frente na
evolução para mais consciência. Mas não vemos como o elementar
poderia resolver o problema de criar uma pnmeira vez (ou mesmo
simplesmente reconhecer) uma estrutura mais consciente do que ele
mesmo.

Tomemos o exemplo da criação de uma Humanidade ultrapensante pelos


homens atuais; enquanto esta Humanidade ainda não existe, os homens
são apenas seres pensantes (e não ultrapensantes). Não vejo absolutamente
como, na prática, cada um de nós poderia transpor bruscamente um limiar
e tornar-se-ia ultrapensante, simplesmente porque conseguimos constituir,
todos os homens juntos, um sistema harmonioso sobre este planeta.
Acredito, muito mais facilmente que, se deve existir um progresso no
pensamento humano, ele será, primeiro, conquistado progressivamente no
decorrer do tempo por cada um de nós, principalmente com o
desenvolvimento da instrução, ou com engrenamento de certos enfoques
60

espirituais que permitem utilizar melhor as possibilidades potenciais de


nossas faculdades psíquicas. Depois, em seguida, e somente em seguida,
quando uma grande parte de nós tivermos, enfim, nos tornado "sábios",
quando todos nós tivermos adquirido estas qualidades de espírito que
mereceriam o nome de ultrapensantes, então seremos talvez capazes,
todos juntos, de constituir um novo ser, com funcionamento harmonioso,
que chamaremos Humanidade (com H maiúsculo).

Resumindo, hoje em dia creio que, contrariamente ao que dizia Teilhard, é


mais "natural" pensar que a evolução enriquece sempre mais o espírito do
elementar, e que é somente quando as qualidades do psiquismo elementar
(isto é, quando o conteúdo informacional do elementar) tiverem atingido o
nível "neguentrópico" suficiente é que então ele será capaz de edificar
uma nova estrutura complexa, que constituirá uma nova "ferramenta" para
aumentar ainda o ritmo de aquisição e a qualidade das informações (isto é,
para aumentar sempre mais rapidamente seu nível neguentrópico).

Por que esta mudança de perspectiva em relação a Teilhard é


particularmente importante? Porque, finalmente, com Teilhard, o
elementar não é nada na evolução: desde que os elementos materiais que
pertencem a uma célula viva saem da membrana celular, então, nos diz
Teilhard, eles perdem todas as qualidades de consciência próprias do
Vivo, as qualidades que possuíam enquanto pertenciam ao corpo celular.
A consciência do elementar retorna à minúscula "psique difusa" que o
elementar possuía, segundo Teilhard, desde a origem do mundo...
esperando participar novamente do corpo de um outro ser vivo. Em suma,
toda a aventura espiritual do mundo é aqui polarizada e levada por este
ínfimo número de estruturas organizadas e com vida tão curta, como
dizemos, sobre a Terra, dos homens. Mesmo admitindo, como faço, aliás,
voluntariamente, que o fenômeno humano não está limitado à nossa Terra,
mas amplamente difundido em todo o Universo, não posso impedir de me
sentir pouco à vontade diante desta concepção do "Homem portador de
toda a aventura do Universo". E estaria, também, bem pouco à vontade se
os Homens, ou os seres pensantes ou ultrapensantes de outros planetas,
fossem cem ou mil vezes mais numerosos por estrela, do que o que
constatamos no nosso sistema solar.

A aventura do Universo não pode ser centralizada neste ser frágil e


efêmero parecendo-se com um Homem. 0 Homem faz parte desta
aventura, mas ele não pode ser considerado o eixo. Tal atitude me parece,
refletindo, ser ainda urna atitude antropocentrista, resultante da miopia do
olhar que lançamos habitualmente sobre o mundo. A aventura espiritual
61

do Universo só pode ser centralizada em torno da elevação do Espírito


daquilo que constitui, de maneira visível ou invisível, praticamente a
totalidade do que existe no Universo; ela pode, de resto, ser centralizada
nos seres ou nos objetos que "vivem" no tempo uma duração de acordo
com a escala da duração de vida do próprio Universo inteiro. Resumindo,
só existe a Matéria, e mais precisamente as partículas elementares de
Matéria, que são suscetíveis de serem séria, lógica e cientificamente
consideradas como capazes de serem "portadoras" do destino espiritual do
universo.

Acrescentaria, se ainda eu devesse duvidar da conclusão precedente, que o


ponto de vista de Teilhard, que coloca o mais organizado (e não o
elementar) no centro da aventura espiritual do Universo, é incompatível
com uma parte importante dos resultados que obtive no plano da Física,
que demonstram que o elétron possui todas as qualidades requeridas para
ser a partícula portadora do Espírito no Universo.

Estes resultados confirmam, certamente, a convicção teilhardiana de uma


psique associada às partículas elementares de Matéria. Mas estes mesmos
resultados nos dizem também que o micro universo eletrônico possui um
espaço cujo conteúdo informacional não pode regredir (evolução em
neguentropia não decrescente). Isto quer dizer que esta matéria que entra
na constituição de uma estrutura viva, ou pensante, e que possui, durante a
curta duração de vida desta estrutura, a "consciência" da estrutura viva ou
pensante total, não pode retornar simplesmente à sua "psique difusa"
inicial, no momento da morte do sistema ao qual ela pertenceu na duração
de uma vida. 0 que é adquirido pelo elementar sob o ponto de vista
informacional, sob o ponto de vista da "consciência" do mundo, é
adquirido para sempre; nada poderá provocar uma regressão de
consciência do elementar após o que chamamos a morte da estrutura
complexa organizada. 0 elementar, desejaria alguém, não poderia, assim
como não podemos nós, em nosso espaço da Matéria, fazer a lei da
entropia crescente correr ao inverso; da mesma forma como nós não
podemos inverter o sentido do tempo.

Visto que compreendemos bem e aceitamos este ponto de vista, então, e


somente então, começamos a compreender também como se eleva
progressivamente o nível psíquico do conjunto do Universo; isto acontece
no decorrer das "sucessivas experiências vividas" da matéria elementar,
que participa, por períodos mais ou menos breves, aqui no mineral, ali no
vivo, lá no pensante, e que não esquece jamais o conteúdo informacional
adquirido durante estas sucessivas experiências vividas.
62

Então, estamos de acordo com Teilhard para dizer que este conteúdo
informacional das partículas de Matéria, em aumento constante em cada
partícula e na escala do Universo inteiro, permite a esta Matéria dar
nascimento a estruturas sempre mais complexas permitindo, como vimos,
aumentar sem cessar o ritmo de aquisição da informação, e a qualidade
desta informação; e, portanto, por um retorno das coisas, aumentar ainda
sempre mais o estado neguentrópico de cada partícula elementar.

0 Homem, e aqui também concordo com Teilhard, é sem dúvida a


"máquina" que permite ao elementar, ao menos na nossa Terra, a
aquisição da informação mais elaborada e, talvez, também em ritmo mais
rápido. Mas a aventura espiritual do Universo, naturalmente, está bem
longe de haver chegado ao seu final; e não sabemos se a "maquina" mais
sofisticada de amanhã, para aumentar o Espírito do mundo, terá ainda uma
cabeça humana; sabemos menos ainda de que forma se reveste o Espírito
"superior" em outros cantos do cosmo, a milhões ou bilhões de anos-luz
de nosso "detrito" terrestre.

E não vejo porque nos consideraríamos desobrigados de entender tratar


nosso indivíduo humano como "máquina"; o que realmente nos constitui é
o nosso Espírito, e este é que está todo inteiro, repetimo-lo, contido em
cada um dos bilhões de elétrons que entram no nosso corpo.

É o que queremos explicar agora.

CAPITULO VII

Observação do Espírito dentro da Matéria

Nosso Espírito indissociável de nosso corpo. - A transposição de nossa


morte corporal. - A célula viva e os cromossomos. - A duplicação celular
e a reprodução sexuada. - Aquele que faz é "mais consciente" do que
aquele que é feito. - "0 Bom Deus não joga ao acaso".

Eu sou. Se sei que eu sou é, sem dúvida, porque, como o observou


Descartes, tenho certeza de que penso.

Entretanto, outro problema completamente diferente é saber o que este


"Eu", atualmente pensante, foi no passado, antes do meu nascimento, se é
que ele já existia sob alguma forma. Também é ainda um outro problema
63

saber se este "Eu" será no futuro alguma coisa, depois da minha morte
corporal.

Para conseguirmos refletir melhor sobre estas duas últimas questões, seria
conveniente começar por responder claramente a esta primeira
interrogação: quem sou? Quem é esta entidade que batizo com o nome de
"Eu", ou que chamo ainda de meu "Eu"? Pois, se quero pesquisar o que se
tornará este "Eu" além da minha morte, é necessário que comece dizendo
o que é este "Eu" durante minha vida.

Procuremos abordar, de maneira sistemática, as respostas possíveis a esta


questão prévia.

Podemos afirmar que meu "Eu" é alguma coisa situada na região do


espaço ocupado pelo meu corpo. Este "Eu", a bem dizer, meu Espírito,
meu pensamento, onde poderia estar situado, durante minha vida, senão
dentro do meu corpo? Em todo caso, esta seria a resposta que somos
levados a dar, tendo em conta nossos conhecimentos neste fim do século
XX. Como a região de espaço que meu corpo ocupa coincide, ademais,
com a "matéria" do meu corpo, sou mesmo obrigado a afirmar que meu
"Eu" é indissociável da matéria que forma o meu corpo. Crer na existência
de um Espírito "puro", que seria nosso "Eu", e que teria uma forma
"etérea" totalmente independente de nosso corpo, isto é, da matéria de
nosso corpo, já era dificilmente aceitável nos séculos passados, mas ainda
o seria muito menos nos dias atuais. Antigamente, propunham que nosso
"Eu", isto é, nossa "alma", estivesse particularmente localizada em tal ou
qual parte de nosso corpo: na glândula pineal, no coração, no encéfalo.
Atualmente, a biologia e a psicologia parecem antes achar que cada parte
de nosso corpo, o artelho, o coração, o braço ou o encéfalo, estaria
associada de alguma maneira à nossa vida espiritual e contribuiria para
compor nosso "Eu". A resposta deve ser considerada aqui, mais ainda do
que para qualquer outra questão, como provisória. Mas o que
estabeleceremos, no momento, é que "até prova em contrário", devemos
associar nosso "Eu" a toda ou parte da matéria que forma nosso corpo,

Mas se este "Eu" não tem nenhuma existência sem os materiais que
formam nosso corpo, não podemos visualizar racionalmente para este
"Eu" uma existência qualquer após a nossa morte, a não ser que ao menos
alguns dos edifícios materiais de nosso corpo, mais precisamente os que
na nossa vida estavam associados ao nosso "Eu", persistam depois de
nossa morte.
64

Ora, o que resta do nosso corpo depois da nossa morte?

Se pensamos nas partículas elementares, tais como os prótons ou os


elétrons, podemos dizer que toda a matéria do nosso corpo se conserva
depois de nossa morte; a Física nos confirma que tais partículas são
"estáveis", isto é, têm praticamente uma duração de vida infinita. Em
contraposição, se devêssemos dizer que nosso "Eu" não tem nenhuma
existência possível sem ser suportado pelo menos por algumas das
estruturas complexas que formam nosso corpo, durante nossa vida,
seríamos obrigados a concluir que nada subsiste de nosso "Eu" depois de
nossa morte. Mesmo nossos cromossomos, esta "bagagem" genética que
se transfere de uma geração a outra, são fortemente modificados durante
essa "corrida de revezamento" (veremos isto mais detalhadamente a
seguir), e não poderiam suportar seriamente a idéia de que nosso "Eu",
este que conhecemos hoje, prolongue sua existência para depois de nossa
morte.

Então, finalmente, a única "aposta" que possamos fazer para responder à


infinita necessidade de eternidade própria a cada um de nós, é que é
dentro destas partículas elementares microscópicas, que são os elétrons ou
os prótons de nosso corpo vivo, que é necessário buscar e discernir o
Espírito, o nosso Espírito.

Além disso, seria necessário ainda entender e examinar como nosso "Eu"
estaria presente nesta multidão de elétrons ou de prótons que formam
nosso corpo. Com efeito, um homem de 60 quilos, por exemplo, contém
um número de elétrons que corresponde a um 4 seguido de 28 zeros! É o
conjunto destes elétrons, colocados lado a lado, que seria necessário para
justificar nosso "Eu"? Neste caso, uma vez mais não restaria nada deste
"Eu" depois de nossa morte, visto que, com o tempo, estes elétrons se
dispersarão bem depressa pelos quatro cantos do planeta. Ou então, ao
contrário, alguns, senão todos, dos bilhões de elétrons de nosso corpo
vivo, seriam eles individualmente portadores do nosso "Eu" completo?
Neste caso, nosso "Eu", depois de nossa morte, não só não desapareceria
mas, ao contrário, teria se multiplicado e continuaria, até a eternidade, sua
aventura espiritual, participando ocasionalmente de outras existências
vivas ou pensantes, por vezes bem longe do nosso berço terrestre, tendo o
Universo inteiro por moradia.

Mas, antes de prosseguirmos nossa investigação sobre nosso "Eu"


eletrônico, asseguremo-nos de que os cromossomos de nosso corpo não
são suficientes, como havíamos anunciado, para assegurar a perenidade de
65

nosso "Eu". Para isso, relembremos o essencial de nossos conhecimentos


atuais sobre os cromossomos.

Todo nosso corpo é formado por uma imensa reunião de células vivas.
Descrevendo as coisas de uma maneira extremamente simplificada,
podemos dizer que cada célula é formada de um núcleo que bóia dentro de
uma substância líquida que chamamos citoplasma, e o conjunto está
encerrado no interior de uma membrana. Cada célula forma, portanto, uma
unidade individualizada. Em função dos nossos propósitos, passaremos a
nos dedicar agora, com alguns detalhes, ao núcleo de cada célula.

Se fosse necessário comparar a célula viva com um ser organizado como o


Homem, e mais especialmente com a organização geral do sistema
nervoso humano, diríamos o seguinte: como sabemos, o sistema nervoso
humano se decompõe em dois: o sistema nervoso cérebro-espinhal - que
comanda as funções de relação e que está sob a dependência da vontade -
e o sistema nervoso neurovegetativo que regula e coordena as atividades
de nosso corpo sem que tenhamos necessidade de intervir (respiração,
movimento cardíaco, digestão. . .). Grosso modo, o sistema cérebro-
espinhal está associado ao encéfalo (em termos vulgares, cérebro) e o
sistema neurovegetatívo ao bulbo raquidiano e às cadeias ganglionares
disseminadas em todo o corpo. Bem-entendido, estes dois sistemas estão
estreitamente ligados um ao outro, mas não podemos deixar de atribuir
uma supremacia ao sistema cérebro-espinhal, que compreende o encéfalo.
0 cérebro sempre foi considerado corno a parte essencial do potencial
humano. Utilizando esta imagem para a célula, diríamos, então, de bom
grado, que o núcleo da célula está para a célula, assim como o cérebro está
para o corpo humano. É o núcleo, e seu conteúdo, que preside à
coordenação de todo o funcionamento celular. Se retiramos o núcleo de
uma célula, esta desacelera sua atividade, encarquilha-se, toma-se incapaz
de se alimentar, e termina por morrer; do mesmo modo, se retiramos a
quase totalidade do encéfalo de um ser humano, ele pode subsistir ainda
algum tempo, mas se torna incapaz de qualquer atividade e morre
rapidamente.

0 que há, portanto, dentro do núcleo que o torna tão importante? É mais
ou menos como o encéfalo para o Homem: podemos dizer o que vemos
em uma análise microscópica. Mas daí a pretender que se veja o suficiente
para começar a compreender, ou mesmo pretender que se perceba o
essencial, há um passo bem grande.
66

Dois estados muito diferentes do núcleo devem, primeiro, ser


distinguidos: o estado que ele toma no momento em que a célula se
desdobra e o estado "em repouso" (o da intercinese, como o chama o
biologista), entre duas duplicações celulares.

Examinemos, primeiro, o estado de intercinese. 0 núcleo está, então,


completamente envolvido pelo citoplasma. No interior do núcleo
percebemos uma ou duas massas densas, os nucléolos. 0 resto do núcleo é
feito de cromatina, que é a substância que se transformará em
cromossomos quando da divisão celular. Esta cromatina se assemelha, em
alguns lugares, a pequenos grãos ou filamentos, os cromocentros. 0 núcleo
é limitado externamente por uma membrana, a membrana nuclear.

A parte essencial do núcleo é, sem dúvida, a cromatina. Seu principal


constituinte é o ADN (ácido desoxirribonucléico). 0 ADN está presente
em todos os núcleos, mas não se encontra em nenhuma outra parte da
célula. Enquanto a maior parte dos outros constituintes da célula são
"usados" pela atividade celular e renovados sem cessar por empréstimo do
meio exterior, o ADN da célula, ao contrário, jamais se modifica: é o
invariante celular. E sabemos que importância se deve dar àquilo que se
conserva em todos os fenômenos, mais especialmente em fenômenos tão
complexos como os do ser vivo.

Como sabemos que o ADN do núcleo nunca é renovado? Para isto


empregamos um método muito usado, desde há alguns anos, em todos os
estudos biológicos: utilizamos o que chamamos de precursores marcados.
Quando queremos ver se uma célula fabrica um corpo A no decorrer de
sua atividade e onde se dá essa fabricação no corpo celular,
acrescentamos, no meio exterior onde ela bóia, uma molécula B, que
utiliza a célula para realizar a síntese de A. Dizemos que B é um precursor
de A, visto que A utiliza B para sua síntese. Mas vamos igualmente
"marcar" B, isto é, tornar B radioativo (o que pode ser realizado por
técnicas de "bombardearnento" nuclear). Uma molécula radioativa emite
continuamente partículas carregadas, ou de radiação, que são capazes de
impressionar uma chapa fotográfica. Compreendemos, então, corno as
operações celulares se tornarão, assim, visíveis. A célula se alimenta de B
radioativo, se serve de B para fabricar o corpo A do qual tem necessidade;
e se filmamos toda a operação, vamos poder seguir o traçado de B na
célula (graças à sua radioatividade) e ver claramente onde B vai, e como
ele participa da síntese do corpo A. Depois, prosseguindo por um tempo
maior, eventualmente, veremos o corpo A, agora radioativo, sendo
67

"consumido" pela atívidade celular e os resíduos radioativos lançados para


o meio exterior.

Fornecendo à célula um precursor marcado que serve especificamente à


síntese do ADN, constatamos então que, mesmo se injetamos este
precursor no citoplasma ou no núcleo, a célula não se utiliza dele: isto
quer dizer que ela não sintetiza o ADN no decorrer de sua existência.
Como, por outro lado, podemos medir a quantidade de ADN no núcleo
(da ordem de um milhonésimo de milhonésimo de grama) e constatamos
que esta quantidade é constante, concluímos que a célula não consome
nem fabrica o ADN: esta substância é realmente o invariante celular.

Esta qualidade aproxima, ainda um pouco mais, o núcleo do encéfalo


humano e, mais amplamente, do sistema nervoso; sabemos, com efeito,
que todas as células do corpo se renovam no decorrer da vida, salvo,
entretanto, as células do tecido nervoso; conservamos estas mesmas
células durante toda nossa vida de adulto.

Um novo ADN somente será sintetizado pela célula no momento do


desdobramento celular,- pois será necessário, então, que a célula-mãe
tenha suficiente ADN para poder prover as duas células-filhas. Mas, como
o veremos, o ADN das células-filhas será uma cópia exata do ADN da
célula-mãe, de tal sorte que podemos dizer que a invariância do ADN
parece se conservar mesmo de uma geração a outra.

A cromatina não contém apenas o ADN, mas também outras substâncias,


e principalmente o ARN (ácido ribonucléico) que serve para transmitir as
ordens do ADN ao resto da célula, e para informar ao ADN o que se passa
na célula. Mas somente o ADN formará os cromossomos no momento do
desdobramento celular e somente o ADN carrega o potencial genético.

0 nucléolo, ou os nucléolos quando são muitos, contêm numerosas


substâncias: sua concentração em matéria seca é de 40 a 80 por cento,
enquanto que o conjunto da célula não contém mais do que 10 a 25 por
cento de matéria seca, sendo o resto água. Nos nucléolos encontramos
urna quantidade considerável deste ARN que desempenha o papel de
mensageiro entre o ADN e a célula. Contrariamente ao ADN, o ARN dos
nucléolos é consumido e se renova sem cessar, o que é necessário se deve
desempenhar o papel de mensageiro. Isto é constatado, mais uma vez,
alimentando a célula com um precursor marcado pelo ARN.
68

A membrana nuclear que envolve o núcleo é uma parede resistente que se


opõe, por exemplo, à passagem de uma microagulha que apoiamos sobre
ela. Examinando-a, mais detalhadamente, constatamos que é formada de
duas folhas superpostas perfuradas por numerosos poros que permitem a
circulação de substâncias entre o núcleo e o citoplasma. A folha externa,
geralmente, termina em uma rede de canalizações situada no citoplasma, o
retículo endoplásmico.

Uma característica que salientamos mais especialmente em relação ao


núcleo é sua fragilidade diante de todo contato com o meio exterior
diferente do citoplasma. Se extraímos o núcleo de uma ameba, mesmo por
uma fração de segundo, e o colocamos em seguida no citoplasma, ele
perdeu todas as suas propriedades: não exerce mais nenhuma ação sobre a
atividade da arneba, que aliás o considera como um corpo estranho e o
expulsa. Não conhecemos uma fórmula de citoplasma "artificial", onde
poderíamos conservar um núcleo isolado. Tudo se passa como se a
"informação", que permite ao núcleo conferir à célula suas propriedades
vivas, escapasse desde o momento em que retiramos o núcleo do
citoplasma. Isto significa que a membrana celular encerra um espaço com
"topologia" particular, capaz de "confinar" a informação contida no
núcleo? Teremos que voltar à possibilidade de uma topologia particular do
espaço no interior da célula, a qual desempenha um papel essencial no
funcionamento do ser vivo.

Expressamente, um dos papéis do ser vivo parece ser "cada vez mais"
fazer vivos. Há como uma competição entre a matéria inerte e a matéria
viva: o vivo parece ter, entre suas tarefas, de açambarcar sempre mais a
substância inerte para transformá-la em substância viva.

A maneira que parece mais simples para realizar esta tarefa é, para a
célula viva, absorver, através de sua membrana, matéria inerte emprestada
do meio exterior, fazer dela elementos úteis para compor seus próprios
organitos e, quando tudo está pronto, se desdobrar; a célula-mãe dá
nascimento a duas células-filhas idênticas. 0 vivo, assim, se multiplicou
por dois. Se cada célula faz outro tanto, e suponho que o meio exterior
possa fornecer os materiais inertes necessários, isto vai muito rápido, pois
o crescimento do vivo se faz, assim, em progressão geométrica. Uma
célula leva, geralmente, um tempo da ordem de uma hora para completar
esta operação de desdobramento. 0 peso médio de uma célula se aproxima
de um milionésimo do grama. Se, partindo de uma só célula inicial, a
duplicação poderia, assim, acontecer em todas as horas, teríamos, em
quarenta horas, cerca de uma tonelada de células vivas. Neste ritmo
69

desenfreado, seriam necessários menos de cinco dias para que o peso do


vivo fosse igual ao peso total de nossa Terra!

Bem-entendido, uma tal transformação do inerte em vivo não é possível


pois, como já vimos, a célula precisa, para se desdobrar, encontrar no seu
meio exterior os alimentos necessários à síntese da substância viva; na
prática, uma seqüência de cultura de células rapidamente esgota os
recursos de seu meio ... e a duplicação se interrompe.

Então, visivelmente, a tarefa do vivo não consiste simplesmente em se


esforçar para se multiplicar o mais rapidamente possível: o vivo procura
melhorar suas estruturas para lhe ser possível uma adaptação melhor ao
meio exterior; o vivo procura também, sem dúvida, atingir um objetivo
mais distante, ele participa de toda evolução cósmica e traz sua própria
contribuição a esta evolução. 0 vivo não é uma substância passiva, é uma
substância "que busca"; e buscar, para o vivo, é fabricar novas estruturas
vivas, as células-filhas não sendo apenas uma simples réplica da célula-
mãe, mas se tornando uma associação das características de muitas
células. Para criar assim, sem cessar, novo do vivo, a célula inventou a
fecundação ou reprodução sexuada. Uma célula-mãe e uma célula-pai se
associam para construir células que não serão nem inteiramente análogas
às da mãe, nem inteiramente análogas às do pai; é uma nova "tentativa" de
vida utilizando uma versão original, onde estão integrados certos
caracteres do pai e certos caracteres da mãe.

0 simples desdobramento celular leva o nome de mitose. 0 processo de


fecundação se chama miose. Iremos estudar sucessivamente estas duas
atividades da célula viva.

Podemos fazer uma "cultura" de células vivas colocando algumas delas


em um meio que contém as substâncias necessárias à sua vida, e mais
especialmente ao seu desdobramento. Se vocês pegarem algumas folhas
que apodrecem no solo no fim do outono e as colocarem em um prato
fundo recobrindo-as com água, descobrirão, geralmente depois de alguns
dias, que o líquido do prato, examinado com um microscópio médio,
pulula de pequenos organismos, que se deslocam rapidamente, muitas
vezes paramécios. Isto quer dizer que existiam alguns destes organismos
vivos sobre as folhas mortas recolhidas e que eles se multiplicaram
rapidamente no meio criado pelas folhas em decomposição na água do
prato.

Procuremos ver o filme desta multiplicação celular.


70

Primeiro, há um período, chamado intercinético, durante o qual a célula se


contenta em reunir os materiais necessários ao seu desdobramento; ela
estoca matéria e fontes de energia. 0 microscópio não revela grande coisa
neste período; a célula respira, se alimenta, correntes circulam no seu
citoplasma, mas suas estruturas fundamentais (núcleo, nucléolo, retículo
endoplasmático, etc.) permanecem inalteráveis. Depois, ao cabo de um
momento e com a condição de ter podido encontrar no seu meio exterior
os elementos de abastecimento necessários, a célula está pronta, está
pronta para se desdobrar, para se transformar em duas células iguais a ela
mesma.

Olhemos atentamente para o núcleo; é aí que as coisas acontecem.


Sabemos que o núcleo continha um nucléolo rico em ARN e cromatina
rica em ADN. Esta cromatina, que até aqui se apresentava como grãos
fechados dispersos dentro do núcleo, começa a se transformar. Os grãos se
alinham e formam pequenos segmentos; estes segmentos se juntam e um
certo número de filamentos individualizados de cromatina se desenham
dentro do núcleo. Os filamentos são os cromossomos, que vão
desempenhar um papel essencial no desdobramento celular.

Durante este tempo, dois pequenos pontos no limite da visibilidade, os


centríolos, que se avizinham do núcleo (mas fora dele), começam a se
separar deslizando ao longo da membrana nuclear e vão se localizar nos
dois pólos opostos da pequena esfera constituída pelo núcleo. Os dois
centríolos vão desempenhar o papel de "radares", que vão pilotar os
cromossomos no decorrer de seu movimento e, finalmente, cada um vai
atrair para si metade dos cromossomos.

Mas concentremos nossa atenção sobre o núcleo. Os cromossomos, que


até então estavam alinhados um pouco em desordem dentro do núcleo,
começam a se enrolar em hélice sobre si mesmos; se encolhem, se
encurtam, engrossando. Há um ponto de seu comprimento em que o
enrolarnento helicoidal se aperta muito particularmente, dando ao
filamento cromossômíco um aspecto estrangulado neste lugar; este ponto
leva o nome de centrômero; é ele que será capturado no campo do "radar"
dos centríolos; é ele que é o elemento-piloto sobre o qual agem os
centríolos para manipular cada um dos cromossomos.

Eis, agora, a membrana nuclear que se funde no citoplasma; o nucléolo


faz outro tanto. Os cromossomos parecem boiar livremente no citoplasma,
não há mais núcleo. Na verdade, os cromossomos não estão livres; corno
71

havíamos notado, estão estreitamente submetidos à ação dos dois


centríolos, que se afastam pouco a pouco um do outro, cada um dos
centríolos emigrando para os dois pólos diarnetralmente opostos do
citoplasma, perto da membrana celular.

Esquema geral da mitose. 0 centrômero está representado por um


pequeno círculo branco sobre os cromossomos. Salvo em H, o contorno
celular está omisso. A: núcleo intercinético; B e C: dois estados da
prófase; D: pró-metáfase; E: placa equatorial; F: anáfase; G: telófase;
H: estreitamento e reconstrução. (De acordo com Robertis et coll.,
General Cvtology, Saunders, Filadélfia, 1960.)

Vemos como raios que emergem de cada um dos dois centríolos, os raios
emitidos por um vindo convergir para o outro, o conjunto formando um
luso (nome que se dá a esta configuração) no interior do citoplasma. Os
cromossomos se agitam, cada centrômero se encaminha para um dos raios
do fuso, "prendendo" assim o cromossomo pelo centrômero a um raio. Ao
mesmo tempo, constatamos que cada fila~ mento cromossômico está
fendido longitudinalmente, partindo-se em dois filamentos paralelos
reunidos no centrômero. Na verdade, os cromossomos já estavam fendidos
assim, isto é, eram constituídos de dois meios cromossomos (ou
72

cromatídios) desde o princípio da duplicação celular; mas distinguimos


melhor os dois cromatídios quando, como atualmente, começam a se
separar suavemente um do outro.

Os cromossomos estão, curiosamente, dispostos em um mesmo plano,


perpendicular à reta que une os dois centríolos, bem no meio do corpo
celular. Este plano se chama a placa equatorial. Cada centrômero está
sobre um raio e os cromossomos estendem seus braços para o exterior da
célula.

Começamos a perceber, então, que a membrana da célula, que até aqui


não se tinha modificado em nada, é a sede de um borbulhamento cada vez
mais pronunciado. Grossas bolhas se formam, estouram, a parede se fecha
novamente, recomeça a borbulhar, e assim por diante.

É o momento em que a verdadeira divisão celular vai começar a efetuar-


se. Cada metade de cromossomo se põe bruscamente a deixar a placa
equatorial, uma metade emigrando para um centríolo e a outra metade
para o segundo centríolo, em cada extremidade do corpo celular. Cada
metade de cromossomo é como que "rebocada" pelo seu centrômero, ele
mesmo enfiado em um raio que atravessa o citoplasma e liga um centríolo
ao outro.

À medida que os cromossomos convergem para eles, os centríolos


parecem afastar-se, a célula vai se alongando no sentido do movimento
dos cromossomos. 0 cacho de cromossomos, agora, está convergindo para
cada um dos centríolos. A membrana celular está em ebulição intensa. Ela
começa a se estreitar na região central vazia, desenhando um algarismo
oito cada vez mais pronunciado. Durante este tempo, os cromossomos
perdem seu contorno definido: incham e se entrelaçam uns nos outros.
Aos poucos, uma nova membrana nuclear vai se desenhando em torno de
cada um dos dois jogos de cromossomos; novamente aparece um nucléolo
no núcleo em formação.

Eis que, agora, os cromossomos se dissolvem totalmente dentro destes


dois núcleos novos; vemos somente cromatina indiferenciada, como antes
do princípio do desdobramento. Durante este tempo, a membrana celular
terminou de se romper no estrangulamento do oito, e as duas células
completamente constituídas se separam totalmente uma da outra. A
célula-mãe deu nascimento a duas célulasfilhas inteiramente
independentes, mas réplicas fiéis da célula de onde saíram. As duas filhas,
73

entretanto, são menores do que a mãe; vão crescer ao se alimentar, e


depois elas também, por sua vez, se dividirão.

Acabamos de assistir a uma multiplicação celular. A célula decide se


dividir para produzir duas células idênticas.

Já tivemos oportunidade de assinalar que, no mecanismo de toda célula


viva, há uma substância, localizada no núcleo, que desempenha o papel de
um regente de orquestra, comandando todos os processos: é o ácido
desoxirribonucléico, ou abreviando, o ADN. 0 que talvez seja mais
chocante na divisão celular, é a engenhosidade que empregará a célula-
mãe em repartir exatamente sua herança de ADN entre as duas células-
filhas. Comecemos por constatar esta divisão eqüitativa, antes de refletir
sobre suas conseqüências.

E, primeiro, o que é o ADN? Sabemos que é o essencial da substância que


constitui os cromossomos. Durante os últimos vinte e cinco anos, os
biologistas têm-se preocupado especialmente com a estrutura do ADN,
visto que todo o patrimônio hereditário da célula parece implícito nesta
estrutura. 0 prêmio Nobel de Medicina de 1962 foi atribuído aos
americanos Watson e Crick, cujas pesquisas de análise espectral pela
difração dos raios X permitiram fazer uma idéia da constituição do ADN.

0 ADN é uma molécula geralmente muito longa, que pode ser visualizada,
em uma primeira aproximação, como uma corda que seria trançada com
dois cordões, formando um enrolamento helicoidal de cada um dos dois
cordões. Os dois cordões são idênticos, e cada um deles é constituído por
moléculas de fosfato e de açúcar ligadas umas às outras: um fosfato, um
açúcar, um fosfato, um açúcar, etc. Além disso, é necessário que também
imaginemos os dois cordões como suportes de uma estranha escada de
corda (visto que os suportes estão torcidos em hélice), que comportaria
barras; estas barras vêm agarrar-se às moléculas de açúcar, uma barra indo
de uma molécula de açúcar de um suporte a uma outra molécula de açúcar
do outro suporte. As barras são construídas de duas maneiras diferentes,
por substâncias que chamamos de bases azotadas: uma barra será feita de
uma molécula de adenina ligada a uma molécula de timina; a outra barra
será feita de uma molécula de guanina ligada a uma molécula de citosina.
0 que é importante notar é que estas quatro bases azotadas não podem
jamais ligar-se entre si a não ser de duas maneiras:

adenina - timina
guanina - citosina
74

A o lado:

Estrutura helicoidal do ADN. A linha vertical


indica o eixo da fibra. As duas fitas representam
as duas correntes construídas pelos grupos de
fosfato e de açúcar. Os bastões horizontais
figuram os pares de base atando as duas correntes
uma à outra. (Esquema de Watson e Crick, de
acordo com CI. Vendrely.)

Embaixo:

Esquema da molécula do ADN e sua reprodução.


Por convenção: adenina; -< = timina;

guanina; --C = citosina. Um fragmento de


molécula completa à esquerda. Para simplificar,
não representamos a disposição em dupla hélice da molécula. A metade
da molécula (no centro) contém todas as informações para reconstituir a
molécula inteira (à direita).
75

Não podemos nunca, por exemplo, ter uma barra feita de adenina e de
citosina.

As barras de nossa escada helicoidal são muito numerosas (geralmente


milhões). Para simplificar, chamemos os dois tipos de barras: negra e
vermelha. A "mensagem" hereditária, de que seria portadora a molécula
do ADN, conteria então, segundo as concepções atuais, na maneira pela
qual estão arrumadas entre si estas barras diferentes, algo parecido a um
alfabeto morse que utiliza dois sinais: um longo e um curto. A sucessão
negra-negra-vermelha-negra, por exemplo, teria geneticamente uma
significação; e esta significação seria diferente da sucessão negra-
vermelha-vermelha-negra. Em todo o comprimento desta escada de corda
helicoidal, que é uma molécula de ADN, se inscreveria, portanto, uma
"mensagem", da qual a célula se servirá para dirigir todos os mecanismos
do metabolismo celular.

Como a célula vai se arranjar para reproduzir exatamente este


encadeamento dos elementos em uma outra molécula de ADN, no
momento da duplicação da célula? Naturalmente, é necessário que isto
seja feito com grande cuidado, pois devem existir milhões de barras na
escada de corda, e as colocações delas devem ser rigorosamente as
mesmas na escada original e na nova escada que vai ser fabricada. Como
evitar que aconteça algum erro?

A maneira pela qual a célula opera é maravilhosa na sua simplicidade. 0


problema é refazer uma outra escada de corda. Começamos, portanto, por
sintetizar todas as substâncias químicas que serão necessárias para fazer
uma nova escada e as colocamos em reserva (fosfatos, açúcares e as
quatro bases azotadas). Depois a célula separa os dois suportes da
molécula de ADN, cortando ao meio cada barra, entre as duas bases
azotadas que constituem cada barra. Agora, portanto, transformamos a
escada de corda da molécula de ADN em duas meias escadas. Então,
recorremos às substâncias químicas armazenadas na célula para
reconstruir uma escada completa a partir de cada metade de escada. Mas,
como a base azotada que representa a metade de uma barra não se pode
associar quimicamente a não ser a uma só das três outras bases azotadas
(por exemplo, a adenina somente com a timina e nunca com a guanina ou
citosina), cada meia barra vai se reconstruir exatamente como ela estava
76

na escada original, antes do corte das barras; com efeito, não existem
outras maneiras para a barra se completar, pois não há escolha e nunca
podemos nos enganar; ou existe a barra certa (isto é, igual à de antes do
corte) ou não existe barra nenhuma.

Dessa maneira, cada meia escada é capaz de reconstruir exatamente a


escada completa original. Se havia uma mensagem inscrita na escada
original, a mesma mensagem será exatamente inscrita nas duas escadas
filhas, fabricadas pelo corte de cada barra da escada-mãe.

É evidente que a descrição precedente é bastante esquematizada. Pudemos


verificar através dos raios X que a molécula de ADN possuía a estrutura
em escada de corda helicoidal. Pudemos verificar também que,
alimentando a célula com precursores radioativos marcados para a síntese
de uma das bases azotadas, cada escada-filha era constituída por metade
da escada-mãe original e por metade de bases azotadas novamente
sintetizadas. Mas ainda restam grandes mistérios nesta duplicação da
molécula de ADN. Um deles é o seguinte: como se separam os dois
suportes da escada de corda, no momento em que as barras se cortam em
duas, sabendo-se que estes suportes estão enrolados em espiral bem
fechada um em volta do outro? É necessário que os dois suportes "se
desenrolem" para que possamos separá-los. Ora, isto exige que os suportes
girem um em volta do outro (como quando desfazemos uma trança ou
uma corda trançada) em um ritmo da ordem de 10.000 a 20.000
revoluções por minuto, na maioria dos casos! Além disso, e isto não
simplifica o problema, no momento de sua duplicação, parece que a maior
parte das moléculas de AI)N não apresentam a forma de uma corrente
linear, mas antes de uma corrente circular, fechada sobre si mesma.
Imaginem, portanto, esta molécula como uma corda trançada com dois
suportes, cujas extremidades teríamos ligado; e procurem agora ver como
separar os dois suportes sem cortar a corda! Isto é um verdadeiro "truque
de prestidigitação" realizado pelo vivo, cuja explicação ainda nos escapa
completamente.

0 que guardaremos é o fato de que a célula se dispõe (como,


detalhadamente, é muito difícil de dizer) para reconstituir exatamente a
molécula de ADN inicial nas duas células-filhas que resultam da
duplicação celular. Não apenas cada molécula nova de ADN terá a mesma
estrutura geral, mas será ainda composta exatamente de metade do antigo
ADN, que já "viveu" na célula, e de metade de AI)N recentemente
sintetizado, fabricado a partir de substâncias que a célula pode encontrar
no meio exterior. Isto, acrescido do fato de que, como já vimos no
77

decorrer do processo de duplicação, dois cromossomos, cópias um do


outro, se dirigem, sem jamais se enganarem, um para uma célula-filha e o
outro para a outra célula-filha, nos leva a concluir que a primeira
preocupação da multiplicação celular é assegurar uma herança em AI)N
rigorosamente idêntica para cada uma das duas células-filhas.

A duplicação celular é o processo que permite a todo ser vivo organizado,


isto é, constituído pela reunião de um número imenso de células,
"crescer", e, portanto, ao ser humano passar de seu estado inicial de óvulo
fecundado por um espermatozóide (primeira célula) para um corpo
humano adulto. Evidentemente, vem acrescentar-se ao processo de
duplicação celular um fenômeno de diferenciação celular, que faz com
que as células, à medida que são criadas, vão se reagrupar segundo um
plano bem definido, formando os órgãos, o aparelho circulatório, o
sistema nervoso, etc.

0 que desejaríamos bem salientar aqui, é o mecanismo maravilhoso que


parece presidir a esta edificação de um ser organizado. Não podemos nos
impedir de pensar que o Espírito, e não somente a Matéria, deve intervir
nesta edificação. As leis físicas, próprias da Matéria bruta, repetimo-lo
mais uma vez, podem, se as deixamos agir livremente, degradar a ordem
do sistema inicial. Ora, este sistema inicial é para o Homem um óvulo
fecundado por um espermatozóide; quanto ao sistema final, se o tomamos
no instante do nascimento, é esta máquina extraordinariamente complexa
e diferenciada que é um bebe humano. Como admitir que simples leis
físico-químicas conduziram a este resultado? Assistimos, sem dúvida
nenhuma, à obra altamente organizada de objetos microscópicos que
possuem um espírito comparável, e talvez mesmo bastante superior, ao
nosso próprio espírito. A "consciência" do organizado, já dissemos, não
nos parece poder ser superior à "consciência" daquele ou daqueles que
criaram o organizado. Pretender o contrário me parece tão absurdo como
querer afirmar que uma calculadora tem mais espírito do que o Homem
que a inventou e realizou. A calculadora pode ser um instrumento para
servir o espírito; não pode ser mais "espiritual" do que aquele que criou o
instrumento.

Mas eis aqui uma criança que acaba de nascer e que cresceu para ser agora
um adulto. Ela possui, desde sua concepção, alguma coisa que chamamos
seu "Eu", isto é, seu próprio Espírito, que irá, como seu corpo, se
modificando. Entretanto, no decorrer de sua vida, este ser terá o
sentimento indubitável da continuidade de seu "Eu", sentimento
justificado pela sensação profunda de ser hoje o mesmo que ontem vivia
78

nele. Mas este ser sabe igualmente que, cedo ou tarde, está predestinado a
morrer; teria ele algumas razões para crer que o que fazia seu "Eu" se
perpetuará no tempo, além desta morte?

Se deve haver uma chance para esta persistência da alma, podemos pensar
primeiro que esta chance se dará no plano da matéria cromossômica,
graças ao fenômeno conhecido pelo nome de reprodução sexuada. Isto nos
assegura, com efeito, que é provavelmente na matéria que forma os
cromossomos que seria mais lógico associar o Espírito, isto é, o "Eu", de
um indivíduo humano. Ora, uma parte desta matéria cromossômica é
transmitida pelos pais aos seus descendentes. Haverá uma chance para que
o Eu dos pais prossiga, desta maneira, sua existência além da morte
corporal? Tentemos ver, através de uma descrição sumária, como se opera
a duplicação dos cromossomos paternos, no decorrer da reprodução
sexuada (chamada de miose pelos biologistas).

0 problema é associar duas células (uma chamada de pai, a outra de mãe),


através de seus cromossomos, principalmente, de modo a fabricar uma
célula-criança. A célula-criança deverá ter o mesmo número de
cromossomos que cada uma das duas células dos pais. É necessário,
portanto, antes da fusão e para que a célula-críança não tenha duas vezes
mais cromossomos, que cada uma das células dos pais abandone metade
de seus cromossomos. Isto vai exigir um estado intermediário onde,
portanto, deverão existir células vivas com menos da metade de
cromossomos que a normal (células haplóides). Como o caráter "vivo"
exige um certo número de propriedades empregadas pelos cromossomos,
isto significará que podemos já ter todas estas propriedades que fazem o
ser vivo somente com a metade dos cromossomos dos pais. Dizendo de
outro modo, isto significa que os cromossomos dos pais são feitos de dois
grupos homólogos, cada um dos quais é suficiente para produzir urna
célula viva (então com metade de cromossornos). Como a célula dos pais
é ela mesma produto de uma reprodução sexuada, os dois grupos de seus
cromossomos homólogos não podem ser dados senão um pelo pai, o outro
pela mãe.

Representemos, agora, de modo preciso, uma dessas células parentes, a


célula do pai, por exemplo. Ela possui, portanto, 2n cromossomos no total,
ou n pares de cromossomos homólogos, n cromossomos lhe foram dados
pelo pai e n cromossomos (os homólogos), pela mãe.
79

Esta célula deve fabricar, a partir daí, uma célula que tenha somente n
cromossomos e que será útil na operação de fecundação com uma outra
célula semelhante.

0 que vai fazer a célula? Podemos dizer que vai, no decorrer de uma dupla
escolha que vamos explicar, fazer intervir na elaboração de novos
cromossomos destinados à criança que vai nascer, ao mesmo tempo:

• as características cromossômicas do avô e da avó (crossing-over);

• as características emprestadas diretamente do meio exterior no qual vive


a célula (complementação das escadas do ADN).

Em um primeiro tempo, os cromossomos homólogos da célula vêm se


colocar lado a lado (ver o esquema), como se este Espírito que preside,
sem dúvida, a operação quisesse fazer uma comparação das características
cromossômicas homólogas, antes de fazer uma escolha.

Esquema geral da miose.

(Segundo Robertis et coll., General Cytology, Saunders, Filadélfia,


195O.)
80

Depois, cada cromossomo vai se cortar em dois, no sentido do seu


comprimento, como já explicamos no decorrer da duplicação celular. Mas,
enquanto que, durante esta duplicação, as duas metades do cromossomo se
separam para se tornar, em seguida, um jogo cromossômico estritamente
idêntico ao jogo dos pais das duas células-filhas, na reprodução sexuada
observamos uma espécie de reajustamento dos filamentos cromossômicos:
os cromossomos se cortam em partes diferentes, depois as pontas cortadas
vêm se reagrupar de maneira a formarem associações diferentes das que
compunham os cromossomos iniciais. Explicando melhor, antes de
transmitir à sua criança seus cromossomos, o pai começa por escolher
entre os cromossomos do avô e da avó da criança que vai nascer o que lhe
parece ser o mais desejável (subentendido, desejável para o objetivo que
tem a evolução no momento da escolha). Do mesmo modo, a mãe começa
preparar os cromossomos de sua criança, escolhendo os "melhores
fragmentos" dos cromossomos do avô materno e da avó materna da
criança. Estas "escolhas" acontecem durante uma rápida operação de
"cavalgamento" dos cromossomos, que chamamos de crossing-over.

Quando termina o processo de cavalgamento, assistimos à duplicação por


separação das duas metades dos novos cromossomos, assim
lIcaprichados" pelo espírito da Natureza.

Mas, eis que agora vão atuar os elementos do meio exterior à célula. Com
efeito, os cromossomos que se separam compreendem somente metades
das escadas helicoidais de ADN. Como explicamos durante a duplicação
celular, a célula deverá completar as escadas de ADN enquanto faz a
duplicação. Os materiais necessários para completar a escada são
necessariamente tomados de empréstimo ao ADN sintetizado pela célula,
a partir de seu meio exterior (do qual ela "se alimenta"). Assim, na medida
em que os materiais provenientes do exterior são portadores de uma certa
"experiência" espiritual, os novos cromossomos completos da criança que
vai nascer terão acesso a esta experiência. Notaremos a importância
fundamental deste fenômeno: sem ele poderíamos considerar que o jogo
cromossômico da criança é feito da substância dos cromossomos da
mesma espécie animal; com esta associação dos elétrons do meio exterior
aos cromossomos da criança, são as outras espécies animais, e também o
vegetal e o mineral, que podem participar na evolução de uma dada
espécie.

Como se espantar, então, com as maiores ou menores afinidades da


criança em relação a este ou aquele animal, ou vegetal, ou mineral! Ainda
81

uma vez, ficamos maravilhosamente confundidos diante dos métodos


simples, mas eficazes, utilizados pela Natureza (seria melhor escrever o
"Espírito" da Natureza). Esta Natureza se arranja para obter a participação
de tudo o que existe no espaço e no tempo a fim de "evoluir", isto é, para
se aproximar cada vez mais do objetivo que a evolução se propõe
(objetivo sobre o qual retornaremos).

A duplicação da célula do pai tendo sido assim efetuada, fazendo intervir


uma "dupla escolha", agora resta preparar os espermatozóides que deverão
ter apenas a metade do número de cromossomos das células normais; com
efeito, será necessário que, durante a fecundação, venham juntar-se aos
cromossomos do espermatozóide os cromossomos do óvulo materno 1,
que igualmente só contêm a metade dos cromossomos de uma célula
normal da mãe.

As duas células provenientes da dupla escolha vão, então, realizar


simplesmente uma duplicação celular normal, resultando em quatro
espermatozóides.

0 processo de preparação dos óvulos acontecerá da mesma maneira na


mãe: a partir de uma dupla escolha durante a primeira duplicação, depois
de uma segunda duplicação, obteremos a divisão de uma célula normal
materna em quatro óvulos, tendo cada um menos metade de cromossomos
do que a célula "normal" inicial.

Novamente, então, acontecerão duas escolhas independentes. Primeiro,


dos quatro óvulos preparados pela mãe da criança a nascer, três serão pura
e simplesmente eliminados: não achamos aqui que seja o acaso que
presida esta eliminação. Com efeito, assistimos a urna escolha de óvulo: é
o mais bem "aquinhoado", levando em conta o concurso de materiais do
meio exterior, que será retido para a fecundação.

Eis portanto, neste instante preparatório da fecundação, os


espermatozóides que se dirigem desabaladamente para o óvulo, um pouco
como a multidão de zangões da colméia, um belo dia, voando aos céus
para conquistar a abelha-rainha. 0 óvulo está envolvido por uma geléia
transparente, na qual um grande número de espermatozóides vem afundar,
primeiramente, a cabeça. Uma nova escolha acontecerá, executada pelo
óvulo; pois não é o "primeiro a chegar" dos espermatozóides que será aqui
o primeiro atendido, materializando a fecundação: é o óvulo que vai emitir
para um dos espermatozóides que está debatendo a cabeça na geléia uma
espécie de pseudópode (cone de atração); isto fará aparecer uma ranhura
82

na membrana do óvulo e permitirá assim a penetração do espermatozóide


"eleito". Quem ousará negar seriamente que, ainda aí, é o "Espírito"
contido no óvulo a fecundar, e não o acaso, que interveio para escolher
entre os milhares de espermatozóides "pretendentes" o que se combinará
de maneira mais favorável com as características cromossômicas do
óvulo? Relembremo-nos de Albert Einstein e de sua célebre frase: "0 bom
Deus não joga ao acaso".

CAPITULO VIII

As ramificações eternas de nosso Espírito

0 que se torna meu Espírito depois de minha morte? - 0 "acaso" incapaz


de substituir o Espírito nos processos evolutivos. - As provas biológicas e
"lógicas" de que meu "Eu" inteiro é levado por cada um dos elétrons de
meu corpo. - Mas meu "Eu" cósmico é mais rico do que o "Eu" consciente
correspondente à minha presente vida vivida. - Estaremos reunidos para
sempre com os nossos ancestrais e com os nossos descendentes.

Ainda não respondemos à questão que nos propusemos primeiro: no


decorrer deste maravilhoso fenômeno da reprodução sexuada, no qual um
certo número de meus cromossomos vão fornecer sua substância para
constituir os cromossomos de meu filho ou de minha filha, há alguma
coisa do meu "Eu" que vai passar?

Se este "Eu" fosse mantido, como fizéramos a hipótese anteriormente,


pelo conjunto dos meus cromossomos, então somente uma fração deste
"Eu" irá para meus filhos; e uma parte menor ainda irá para os meus netos;
e quase nada do meu "espírito" será, além da minha morte, transplantado
para os meus bisnetos.

0 cálculo é simples de fazer. Visto que, no decorrer da reprodução


sexuada, meu filho não recebe cromossomos idênticos aos meus, mas uma
"mistura" dos cromossomos que vêm de seu pai e dos que vêm de sua
mãe, devemos dizer que o "Eu" de meu filho será diferente do meu.
Certamente, podemos admitir que aparecerão caracteres mais ou menos
"semelhantes" aos de meu "Eu", mas isto não será de modo algum
idêntico. Mesmo no caso de uma partenogênese, isto é, de uma
reprodução a partir de um óvulo fecundado 1, vimos que a duplicação
contínua, que se efetua ao nível celular enquanto "cresce" o ovo
fecundado, utiliza materiais do meio exterior; estes materiais têm sua
83

própria história no passado no plano "espiritual", o que acarreta que a


criança de uma partenogênese só pode ser considerada "espiritualmente"
idêntica à mãe.

Resumindo, penso que nos casos mais favoráveis, somente 50 por cento
do nosso "Eu" poderia ser transportado aos nossos descendentes de
primeira geração . A segunda geração terá, então, menos de 25 por cento
do nosso "Eu", a terceira menos de 12,5 por cento ... e a décima, menos de
1 por mil. Nestas condições, é claro que não podemos pretender que nosso
"Eu" nos sobreviva no futuro, se tal sobrevivência deva ser assegurada
pelo transporte de nossas estruturas cromossômicas; nosso "Eu" irá se
extinguindo rapidamente (o que são 10, 100, 1.000 gerações em face dos
tempos na escala cósmica!), e não teremos finalmente representado nada
na aventura universal mas apenas nos limitado à nossa efêmera vida
terrestre.

Mas são as estruturas cromossômicas, ou qualquer coisa ainda mais


simples, e portanto também mais durável, que assegura a perenidade do
nosso "Eu"?

Parece que é suficiente olhar atentamente como se processa a reprodução


de uma célula viva para se obter uma resposta.

Com efeito, já vimos que no período chamado "intercinese", no qual a


célula não está ocupada em se multiplicar mas em simplesmente acumular
os materiais para preparar sua próxima duplicação, os cromossomos se
dissolvem completamente no núcleo, para fornecer a cromatina. Portanto,
não é razoável pretender que é a disposição geométrica dos elementos
químicos uns em relação aos outros, tais como estão na estrutura
cromossômica, que "mantém" meu "Eu", já que a célula arrasa estas
estruturas cromossômicas durante a ocorrência da intercinese, ao passo
que o que chamamos nosso "Eu" deve se beneficiar de uma necessária
continuidade. Se os cromossomos reduzidos a migalhas, como se
apresentam na cromatina do núcleo, são capazes, no momento da
duplicação, de construir novamente as estruturas cromossômicas, é que
existe na simples cromatina uma substância "mais consciente" que os
próprios cromossomos acabados. Se vocês olharem uma calculadora e
constatarem que ela pode ser posta em pedaços sucessivamente, depois
reconstruída, vocês serão constrangidos a reconhecer que há, atrás deste
jogo de construção um espírito maior do que o da própria calculadora
acabada, visto que, quando esta última é reduzida a mil pedaços, é
84

necessário que ,,alguém" reorganize estes pedaços, numa ordem certa, a


fim de obter novamente uma calculadora "que funcione".

Mas, dirá ainda o cético, a cromatina é, em maioria, constituída de


moléculas de ADN, substância especial cujo papel essencial vimos nos
processos vivos. Não é, então, a molécula de ADN que leva o Espírito,
graças à sua forma geométrica, e esta reunião bem definida de "barras" da
molécula, que faz o conjunto desta parecer-se com alguma mensagem
codificada? É interessante reler sobre este assunto um texto de Diderot,
que coloca em relevo este fato: um edifício molecular qualquer, seja qual
for a sua complexidade estrutural, não será nunca um "vivo" se não for
constituído por outras coisas que objetos inertes (isto é, se eles mesmos já
não forem "vivos"). Em uma carta para Sophie Volland, em 15 de outubro
de 1759, Diderot escrevia: "Supor que colocando ao lado de uma partícula
morta uma, duas ou três partículas mortas formaremos um sistema de
corpo vivo, me parece um absurdo muito grande, ou eu não me conheço.
A partícula A colocada à esquerda da partícula B não tinha a menor
consciência de sua existência, não sentia nada, estava inerte e morta; e eis
que a que estava à esquerda colocada à direita, e a que estava à direita
colocada à esquerda, o conjunto vive, se conhece, se sente! Isto não pode
ser. 0 que faz aqui a direita ou a esquerda?"

Os biologistas mecanicistas (também chamados "reducionistas"), que


proliferam, no meu entender, em grande número na nossa época, deveriam
meditar sobre este texto de Diderot. Ele é simples, existe há mais de dois
séculos mas, entretanto, me parece "imbatível". É necessário fazer o
Espírito intervir desde o nível elementar se queremos começar a
compreender o Vivo.

Agora podemos duvidar bem menos desta conclusão lógica, apoiada sobre
tudo o que nos mostra o Vivo no trabalho, de que descobrimos o espaço-
tempo do Espírito, encerrado em cada elétron. Todo processo puramente
mecanicista, que admite que os atos e as estruturas ordenados vivos
poderiam ser obra do acaso, agindo no quadro das alterações físicas
habituais próprias da Matéria, só pode permanecer incompreensível e é,
aliás, contrário ao que nos diz precisamente a Física sobre a evolução da
Matéria em um sistema deixado ao acaso: o sistema só pode "degradar"
sua ordem. A ordem somente pode nascer da própria ordem. Somente um
espaço "ordenado" pode ser "ordenador" da Matéria, e dar nascimento a
estruturas e evoluções ordenadas dela mesma. 0 Espírito não poderá nunca
ser explicado como uma "secreção" da Matéria, por mais complexa que
esta seja. Atrás de cada obra prima é necessário um arquiteto.
85

Resta-nos agora um último passo, e ele é importante. Seja, admitamos


pois por enquanto, que a aventura principal do Espírito no Universo é, em
primeiro lugar, a aventura dos bilhões de elétrons que povoam o Universo
e que são capazes de estocar a informação no espaço-tempo particular que
encerram, depois ordenar sempre mais esta informação, a fim de utilizá-la
especialmente durante as sínteses, cuja eficácia e complexidade deixam
atônitos os melhores técnicos de nossas civilizações ditas, entretanto,
"avançadas". Parece certo que estas sínteses não constituem o fim da
evolução; podem ser somente um meio para atingir este fim; do mesmo
modo os foguetes que não constituem um fim em si mesmos, mas somente
um meio de atingir pontos afastados do cosmo. Antes de nos
interrogarmos sobre este fim da evolução na escala cósmica, supondo que
ele exista, formulemos uma questão de importância: como nosso "Eu", o
dos Homens, isto é, nosso Espírito, se compara ao Espírito destes elétrons,
que certamente vimos atuando em tarefas complicadas e que nos
ultrapassam espiritualmente, tarefas, entretanto, muito diferentes daquelas
sobre as quais se exerce habitualmente nosso espírito: criar máquinas para
melhorar nosso bem-estar, lutar contra a fome e a ignorância, conservar a
saúde, atingir terras longínquas ... para citar apenas algumas de nossas
"nobres" tarefas (elas não são naturalmente todas tão nobres assim, não
tenho nenhuma necessidade de convencer disso o meu leitor).

A única resposta lógica para esta questão me parece ser afirmar que nosso
"Eu" e suas preocupações entram no campo de consciência dos elétrons de
nosso corpo e, provavelmente, de cada um destes elétrons. Com efeito, de
que serviria a estes elétrons nos ter fabricado como uma máquina capaz de
possuir um "Eu", uma máquina capaz de ser uma "pessoa" e não
simplesmente um autômato, se este "Eu" não trouxesse por sua vez algum
proveito aos próprios elétrons. Afinal de contas, Pascal tinha razão em
observar que o Homem é um "animal pensante" e nossa vocação mais
profunda é, sem nenhuma dúvida, pensar. Cada um de nós deveria retirar
do pensamento sua experiência vivida, pois, qualquer que seja nossa ação
na vida, tudo se resume finalmente para nós em refletir sobre a ação
passada e preparar a ação seguinte. Mas este pensamento, que nos dá o
sentimento profundo de existir, é precisamente ele que "sonda" sem cessar
o meio exterior e informa nossos elétrons. É explorando a informação
vivida pelo Vivo, inclusive o Homem, que a aventura eletrônica
progredirá e se aproximará cada vez mais do seu objetivo. Portanto, é
necessário que este "Eu" que conhecemos, que chamarei de "Eu
consciente", seja um subconjunto do estoque de informações de que
dispõe a matéria elementar eletrônica ao entrar no nosso corpo. Digo um
86

subconjunto, pois o conjunto das informações de que dispõem nossos


elétrons forma um "Eu" cósmico, que é com certeza infinitamente maior
que o que colocamos a crédito do nosso “Eu consciente". Vimos antes que
possuímos muito poucas informações que permitem ao elementar criar as
estruturas vivas; nossos melhores pesquisadores ainda estão no bê-a-bá.
Também é visível que os elétrons dispõem de informações extremamente
especializadas, próprias para assegurar cada uma das funções do nosso
corpo, cujos mecanismos nos escapam desde que descemos do nível
macroscópico para nível microscópico. Aliás, estes conhecimentos seriam
em grande parte não indispensáveis, e mesmo inúteis, para nossa própria
sobrevivência que está assegurada, independentemente da da nossa
vontade pelos múltiplos conhecimentos de que dispõe, silenciosamente, o
elementar em ação dentro do nosso corpo.

Mas se o elementar possui mais informações do que o nosso "Eu"


consciente, ele recebe, contudo, a cada instante, as informações que este
"Eu" consciente percebe e é para recebê-las que criou uma máquina que
chamamos Homem. Ainda uma vez, não se trata de pensar aqui que a
informação própria ao nosso "Eu" poderia "se dispersar" nos bilhões de
elétrons que formam nosso corpo, onde um elétron particular só teria, por
sua vez, conhecimento de um fragmento microscópico. A informação
própria do nosso "Eu" deve permanecer inteira, não deve ser despedaçada,
ou então ela nada vale, nada é. Tornem uma tragédia de Shakespeare,
distribuam uma frase para cada um dos seres humanos do planeta e vejam
se isto é útil, de alguma forma, para que qualquer terráqueo possa fazer
uma idéia da informação contida na obra do grande escritor!

Não, é o nosso "Eu" inteiro que é um subconjunto da informação contida


em cada uma das partículas elementares que formam nosso corpo. Senão
em todas, ao menos em bilhões delas. Mesmo admitindo que somente as
partículas que entram na composição do ADN de nossas células possuem
cada uma a informação própria sobre nosso "Eu", dado que a quantidade
de ADN de cada célula humana é da ordem de milionésimo de
milionésimo do grama, haveria perto de cem bilhões de elétrons
"espirituais" portadores de nosso "Eu" em cada uma das células de nosso
corpo. E as células do nosso corpo se contam naturalmente aos bilhões.
Temos em nós, provavelmente, tantos elétrons portadores do nosso "Eu"
quantas estrelas e planetas há no firmamento. Ainda aqui a Natureza nos
põe em face de números imensos, tanto na escala da Matéria -como na do
Espírito. E se esta imensidão é capaz de ser harmoniosa é porque cada
unidade possui seu papel no todo, como cada nota em uma sinfonia, cada
músico em uma orquestra.
87

Entretanto, há ao mesmo tempo qualquer coisa de estranho e de fascinante


nestes "grandes números", tais como os encontramos quase em toda parte,
a partir do momento em que perscrutamos um pouco atentamente nosso
Universo. Assim, não podemos nos impedir de "sonhar" quando
calculamos que há mais elétrons em um centímetro cúbico de ar do nosso
planeta do que há estrelas em todo nosso Universo.

Mas não há uma misteriosa "razão de ser" dissimulada atrás destes


grandes números? É urna interrogação que foi bastante sentida, de
maneira intuitiva, pelos neognósticos de Princenton e Pasadena e eles a
traduziram por "numeração paradoxal". Com efeito, eles procuraram dar a
conhecer, tanto em seu meio quanto por publicações e em tom de "gracejo
sério", algumas conseqüências puxadas pela existência dos grandes
números, conseqüências que devemos aceitar, pois, apesar de sua
aparência paradoxal à primeira vista, elas resultam de deduções e de
cálculos perfeitamente "científicos", e não podemos de modo algum
colocá-las em dúvida. Eis um exemplo.

César foi assassinado, como sabemos, no ano 44 antes de Cristo. No


instante de sua morte exalou, como cada um de nós neste momento
crítico, um "último suspiro"; isto quer dizer que, naquele instante, ele
expulsou para a atmosfera, pela última vez, em torno de um litro de ar que
estava circulando em seus pulmões. Ora, eis a questão: será que
respiramos ainda agora, em cada uma de nossas inspirações, e qualquer
que seja nosso lugar neste planeta, alguns dos elétrons que entravam nas
moléculas de ar que compunham o "último suspiro" de César? Se
supomos, como é cientificamente aceitável, que o último litro de ar de
César ao morrer foi uniformemente diluído em todo o ar de nosso planeta
no decorrer do tempo, e isto em uma altura da atmosfera da ordem de cem
quilômetros acima do solo, inteiramente ao redor da Terra, então um
cálculo bastante simples mostra que a resposta é: "Sim, nós respiramos
atualmente algumas dezenas destes elétrons cesarianos em cada uma de
nossas inspirações".

Mas então, se estes elétrons tiveram tempo, quando de sua curta estada no
corpo de César, de levar alguma coisa do Espírito de César, então o
grande tribuno não é para nós totalmente desconhecido, nós
"comungamos" de alguma forma com um pouco dele, por intermédio do
nosso "Eu" cósmico, a cada uma de nossas inspirações!
88

0 mesmo tipo de cálculo pode ser feito em relação aos elétrons do nosso
corpo. Admitamos que somente os elétrons que entram na composição do
nosso ADN sejam portadores do nosso "Eu". Depois de nossa morte, os
elétrons se dispersarão progressivamente, no decorrer do tempo, no
interior e em volta de nossa Terra. Suponhamos estes elétrons, alguns anos
depois de nossa morte corporal, uniformemente dispersados numa esfera
contendo toda nossa Terra e numa camada atmosférica de uma espessura
da ordem de cem quilômetros. Calculamos, então, facilmente, ainda uma
vez, que cada centímetro cúbico desta esfera contém alguns dos elétrons
portadores do nosso "Eu", e que fizeram, por um momento, parte do nosso
ADN celular. Portanto, nossos descendentes absorverão, em cada uma de
suas inspirações do ar atmosférico, alguns dos elétrons portadores do
nosso “Eu". E isto enquanto durar a nossa Terra.

Melhor ainda: em cada centímetro cúbico do espaço da nossa Terra virão


"se reencontrar", depois de um tempo suficiente, durante uma espécie de
"comunhão" uns com os outros, os "Eu" de meus ancestrais, meu próprio
"Eu", e os "Eu" dos meus descendentes! Nós que nos conhecemos não
seremos nunca separados! Nós nos reuniremos não tanto pelos nossos
corpos, cujos elétrons não constituem, no centímetro cúbico considerado,
mais do que uma minúscula parcela: mas nos reuniremos, o que é
essencial, no plano do Espírito, posto que cada elétron que pertenceu ao
nosso corpo (ou ao menos ao nosso ADN) é portador do nosso "Eu"
inteiro. Nossos "Eu" se encontram assim reunidos e em comunicação um
com o outro até a eternidade! Quem recusará perceber a profunda
significação metafísica desta constatação?

Portanto, para isso, será necessário idealizarmos uma "pluralidade" do


nosso "Eu". E penso que, depois de alguma reflexão, deveríamos mesmo
aceitar esta pluralidade, pois ela constitui, sem dúvida, o primeiro passo
para compreender nosso verdadeiro lugar no Universo, para nos
libertarmos desta esmagadora opressão de um Universo, cuja escala das
dimensões no tempo e no espaço não tem uma medida comum com a
nossa vida terrestre cotidiana. Nossa profunda consciência, graças a esta
pluralidade das partículas eternas que a contêm, pertence a toda esta
imensidão do tempo e do espaço. Morte contra a Natureza, talvez tenha
chegado a sua derrota!

CAPITULO IX

Mecanismos do Espírito e parapsicologia


89

Uma experiência imaginária de comunicação telepática com a múmia de


Ramsés II. - As bases científicas da parapsicologia. - Primeira abordagem
"analógica" dos mecanismos do Espírito. - Nossa "reencarnação" em
novas vidas. - Retorno sobre nosso "Eu" consciente, nosso "Eu"
inconsciente e sua união no nosso "Eu" cósmico.- Criação e raciocínio. -
Vocês sabem que as árvores falam?

Assim, o que diferencia minhas conclusões das de Pierre Teilhard de


Chardin é essencialmente o fato de que, enquanto Teilhard via o Espírito
de um ser organizado, como um Homem, por exemplo, repartido no
conjunto dos corpúsculos elementares que formam este ser, creio, ao
contrário, que, com toda a lógica, devemos pensar que o nosso Espírito,
nosso "Eu", está contido inteiro dentro de cada um dos elétrons de nosso
corpo, ou ao menos dentro dos bilhões de elétrons que pertencem ao nosso
corpo (os que participam principalmente da edificação das moléculas de
ADN).

Quero ilustrar esta mudança radical de ponto de vista com um exemplo,


que propositalmente será um pouco "caricatural", pois é importante que
meu leitor conceba verdadeiramente o que implica esta mudança de
perspectiva em considerar o Espírito.

Ramsés II era um faraó da XIX.a dinastia, que reinou de 1301 a 1235


antes de Cristo, há portanto mais de três milênios. Este faraó particular
nos interessa pois, como sabemos, foi descoberto seu túmulo no fim do
último século, e no interior dele seu corpo mumificado. Atualmente, todos
podem ver Ramsés II mumificado no museu do Cairo, ou quando de sua
passagem por qualquer outro museu do mundo, em Paris ou em Nova
York, por exemplo.

Parece que as viagens que lhe são impostas, de uma maneira certamente
inesperada para ele pelo nosso século XX, não trazem proveito nenhum
aos restos do célebre faraó, e que os danos constatados em sua múmia
entre a descoberta de seu túmulo e hoje não são negligenciáveis,
comparados aos dos 3.000 anos que precederam. Mas nosso problema não
é este: é suficiente para nós podermos afirmar que, com a múmia de
Ramsés II certamente estamos em face de uma matéria que "viveu" em um
corpo humano há uns 3.000 anos, e que deve, portanto, conter um bom
número dessas partículas elementares de matéria que participaram do
corpo e do espírito de Ramsés II vivo. Estes elétrons, que levaram o
Espírito inteiro do grande faraó egípcio, são mostrados aos visitantes dos
90

museus; e estes visitantes estariam certamente interessados em aprender


que, escondidos sob os restos em perdição da múmia, estão lá, bem perto
deles, alguns corpúsculos de matéria capazes de lhes revelar o pensamento
de sua majestade defunta.

Parecemos tomar isto em tom de gracejo, tanto essa idéia, à primeira vista,
se mostra surpreendente, levando em conta nossos dogmas atuais de
pensamento sobre a Morte. Mas, na realidade, não gracejamos: é
exatamente (ou quase) a conclusão lógica à qual sou conduzido, se levo
em conta as pesquisas sobre a presença do Espírito nas partículas
elementares. Aprofundemos este assunto, conservando o exemplo de
nosso faraó.

Ramsés II, como cada um de nós, nasceu, viveu e morreu. Durante sua
vivência, o Espírito que ele mostrou, isto é, o que chamamos seu "Eu" no
capítulo precedente, estava contido inteiro nos bilhões de elétrons que
entravam na composição de seu corpo. Estes elétrons, nós o vimos, tinham
sua própria história, que ascendia a bem antes do nascimento do faraó;
cada um dos elétrons de Ramsés II possuía a memória da experiência
vivida de seus pais, avós .... e assim por diante até a um passado que se
aproxima da origem do próprio Universo. Nestes elétrons estava inscrita,
portanto, uma experiência vivida haurida não somente do mundo humano,
mas também do mundo animal, do mundo vegetal e do mundo mineral.

Aliás, os elétrons de Ramsés II, insistimos igualmente nisto possuíam um


Espírito que ultrapassava de muito o Espírito associado ao "Eu"
consciente do faraó, se limitamos este à memória dos acontecimentos
vividos pelo faraó somente durante sua existência terrestre. Os elétrons
faraônicos são mais "sábios" do que o "Eu" consciente do faraó; eles
eram, principalmente, enquanto Rarasés vivia, capazes de fazer funcionar
esta máquina ultracomplexa que foi o corpo humano de Ramsés,
recorrendo a conhecimentos milenares. 0 "Eu" consciente de Ramsés,
aquele que lhe permitiu se conduzir "acertadamente" no meio de sua corte,
era praticamente destituído deste saber milenar.

É por este pequenino "Eu" consciente, entretanto, que nos interessamos


aqui. Ele estava contido em cada um dos bilhões de elétrons de Ranisés 11
vivo. Mas, todo Homem é mortal: e eis que o grande faraó, mumificado,
será colocado para sempre na sua suntuosa tumba mortu ria, na
concavidade da pirâmide.
91

Para sempre, não, pois cerca de 3.000 anos mais tarde, retiraram Ranisés
desse repouso que ele acreditava que fosse eterno, para mostrá-lo em
espetáculo a uma multidão de pessoas estranhas.

Entrementes, bilhões de elétrons que seu Espírito continha escaparam de


seu túmulo, apesar das bandagens e dos muros espessos da pirâmide. Pois
estes elétrons são objetos tão pequenos que é bastante difícil retê-los. Os
elétrons que escaparam foram flutuar nas vastas planícies do Nilo e,
durante estes 3.000 anos, foram provavelmente participar de outras
numerosas estruturas organizadas, tais como minerais, vegetais, animais ...
ou mesmo humanas.

Entretanto, podemos esperar ter sido retida ainda, entre as bandagens


milenares, uma boa quantidade dos elétrons do Ratrisés 11 que viveu.
Novamente, é a lei dos grandes números que aparece: se o Espírito de
Ranisés tivesse sido contido apenas dentro de algumas dezenas ou
centenas de elétrons, a cbance de ter conservado ao menos um na sua
múmia até o século XX seria mínima, sem dúvida; mas, como já
observamos anteriormente, perto de cem bilhões destes elétrons estavam
dentro do ADN de cada uma das células do corpo do faraó. Podemos
esperar, portanto, que alguns milhões deles, ao menos, ainda estejam
presentes nos restos mostrados nos museus.

Estamos, agora, portanto, diante da grande questão: se estes elétrons são


os mesmos que ditavam ao faraó as ações que ele realizava desde o seu
levantar matinal, não podemos esperar uma "comunicação" com eles para
aprender alguma coisa das idéias deste nobre personagem, que acreditava
ser igual aos deuses?

Diremos, durante os próximos capítulos, de que forma é constituída esta


"memória" do faraó dentro do espaço-tempo do Espírito que compõe cada
elétron. Diremos também como se comunicam entre si, no plano
"espiritual", os elétrons que compõem um corpo humano vivo. No
momento, nos contentamos em notar que esta memória é uma espécie de
radiação eletromagnética "codificada". Entrar em comunicação com o
Espírito de Ranisés II, tal como subsiste nos restos que vemos, é chegar a
"ler" esta radiação codificada, encerrada ainda hoje nos elétrons do faraó.

Isto certamente não é uma operação fácil, do mesmo modo que não foi
fácil aos astrônomos detectar, depois ler, e por fim interpretar, as ondas de
rádio provindas das estrelas do céu, que também nos contam a história do
Universo. Antes de poder ler estas ondas, os físicos tiveram que adquirir
92

um grande número de conhecimentos sobre eletro-magnetismo e sobre as


características dos sinais eletromagnéticos emitidos pelas estrelas.

Em relação às ondas que levam o Espírito, no interior das estruturas


eletrônicas, o problema parece árduo à primeira vista: com efeito, como já
dissemos, estas ondas estão num espaço "fechado", no sentido que damos
a esta palavra na Relatividade geral; não existe nenhuma possibilidade de
fazer sair o que quer que seja deste espaço fechado. Vimos, entretanto,
que trocas de informações entre este espaço eletrônico fechado e nosso
espaço (o da Matéria) poderiam ser estabelecidas por meio de interações
"virtuais", o que quer dizer que poderão mudar alguma coisa "à distância"
neste espaço fechado, com a condição de mudar alguma coisa
correspondente, simultaneamente, no nosso espaço da Matéria. A simples
interação eletrostática entre dois elétrons (dois espaços "fechados"
independentes) é explicada assim, por exemplo, na Física contemporânea,
por um tal processo de ação "à distância". É assim, igualmente, que
acontece o processo de comunicação "espiritual" entre dois elétrons, e
retornaremos a este assunto, mais detalhadamente, um pouco mais à
frente.

Então, considerando que nossa Ciência e nossas técnicas nos permitem


comunicar diretamente, um dia, por meio de um receptor de rádio de um
tipo novo, com os elétrons do grande Ramsés, imaginaremos uma outra
possibilidade, teoricamente à nossa disposição, para tal comunicação:
utilizaremos os receptores que são os nossos próprios elétrons, para nos
comunicar com os elétrons de Ramsés por meio de uma espécie de
processo telepático, que nos revelará, assim, alguns dos "sonhos" de
Ranisés II.

Já falei dos "sonhos" de Ramsés. Pois se queremos prosseguir este


raciocínio em toda sua lógica (deixando de lado, deliberadamente, todos
os problemas "técnicos"), podemos esperar em não discernir através dessa
comunicação telepática senão aquilo que Ramsés II vivo percebia através
de seus sonhos. Por quê? A resposta requer que precisemos um pouco,
desde já, o estado em que se encontra o Espírito de Ramsés, quando ele se
manifesta somente através dos elétrons encerrados nos seus restos mortais.

Podemos comparar o espaço espiritual contido nos elétrons com um


imenso quadro coberto de pequenas lâmpadas. Durante a vida normal,
pela interação à distância entre os elétrons dos corpos vivos, este quadro
pisca sem cessar, acendendo e apagando algumas lâmpadas, criando uma
mensagem (um pensamento) que, por sua vez, permitirá uma ação sobre o
93

meio exterior. Diremos, tomando emprestado aqui a terminologia da


Física, que no decorrer da vida consciente este quadro está em estado de
"excitação". Ao contrário, durante o sono profundo, a excitação entre os
elétrons se interrompe, o quadro pára quase que completamente de piscar,
e diremos que ele está no seu estado "fundamental". Neste último, as
lâmpadas permanecem sempre prontas a piscar, mas não são mais
"excitadas" pelas interações com os elétrons vizinhos, e é por isso que elas
permanecem no seu estado fundamental, de uma certa forma em repouso

Entretanto, há o sonho. Ele é produzido por "auto-excitações", como se


algumas lâmpadas do quadro estivessem particularmente quentes e
sofressem um "auto-acendimento", favorecendo um nivelamento da
temperatura sobre a superfície do quadro. A pessoa que sonha recebe,
então, idéias mais ou menos coerentes, voltando mais ou menos longe
sobre o seu passado, mas sobretudo influenciadas naturalmente pela
experiência consciente vivida mais próxima.

Penso que, na Morte, os elétrons daquilo que foi nosso corpo estão em um
estado semelhante ao do sono profundo. Cada elétron está praticamente
entregue a si mesmo, com pouca ou nenhuma comunicação com os
elétrons exteriores, vizinhos ou afastados. Enquanto não participam de
uma outra vida, os elétrons permanecem neste estado fundamental,
entregues a um pensamento puramente interior, que corresponde mais a
uma "reorganização" do conteúdo espiritual do que a uma aquisição de
novas informações, Salvo ...

Salvo, entretanto, se intervém, no meio exterior dos elétrons post-mortem,


o que podemos chamar um "médium". Este pode, por exemplo, ser um
homem. Ele é capaz de se colocar "em ressonância" com o leve piscar do
quadro espiritual dos elétrons, no seu estado post-mortem de sono
profundo. 0 espírito do médium "lê" este piscar e comunica-se diretamente
com o que pode exprimir o morto, no seu estado de sono profundo. É um
pouco como se o médium colocasse a mão sobre o quadro de lâmpadas
dos elétrons da pessoa que dorme, provocasse assim o acender das
lâmpadas mais facilmente excitáveis (as mais "quentes"), e encontrasse,
em seguida, sua mão marcada nos lugares onde as lâmpadas se
acenderam, tornando-se, portanto, capaz de "ler" o impresso do sonho
provocado na pessoa que dorme.
Poderíamos proceder assim para adivinhar alguns trechos dos pensa
mentos de Ramsés II. Com o fim de sua vida corporal, seus elétrons
passaram para o estado fundamental correspondente ao do sono profundo.
Nosso médium do século XX seria capaz, entretanto, de entrar em
94

ressonância com o que resta de atividade "sincrônica" em todos os


elétrons restantes do corpo mumificado de Ramsés. No decorrer da
intervenção mediúnica, o "Eu" de Ramsés vai reviver por um instante,
como vive nosso próprio "Eu" no decorrer de um de nossos sonhos,
liberando alguns dos elementos de sua experiência vivida, sob uma forma
mais ou menos simbólica, mais ou menos coerente.

Eis, portanto, o que o meu leitor deve entender, quando afirmo que nosso
"Eu" está contido inteiro nos bilhões de elétrons que participam da
Matéria do nosso corpo.

0 que acabamos de dizer deve ser tomado estritamente ao pé da letra. Na


verdade, utilizei imagens para melhor "visualizar" o que queria exprimir.
Mas estas imagens devem ser consideradas, efetivamente, como uma
linguagem simbólica, para exprimir uma realidade bem "real", isto é,
tendo uma existência física objetiva.

Desta linguagem simbólica devemos principalmente guardar este fato


fundamental: a Morte não é o fim de nossa participação nos processos do
Universo. A aventura espiritual do morto prossegue, quando os elétrons de
seu corpo, depois de terem permanecido mais ou menos tempo neste
estado de sono profundo ao qual aludimos há pouco, "renascem"
participando da matéria de um outro ser organizado vivo, nos reinos do
vegetal, do animal ou do Homem. Então é, de alguma forma, uma
"reencarnação" do "Eu" em um novo ser vivo. No decorrer destas
sucessivas vidas, nada da experiência espiritual anterior é esquecido. Pois,
lembremo-nos disso, o conteúdo informacional encerrado no espaço-
tempo do Espírito não pode diminuir quantitativamente, a evolução do
estado espiritual está em neguentropia não decrescente. Isto significa que
o conteúdo informacional pode parar de crescer por um momento
(persistência no estado fundamental), mas que, cedo ou tarde, ele
terminará aumentando novamente (reencarnação em uma nova vida).

Assim o elétron tendo participado sucessivamente de uma árvore, de um


homem, de um tigre, depois de novo de um homem, sempre "se lembrará"
de suas experiências vividas no passado. Ele terá em si mesmo as
experiências vividas enquanto árvore, enquanto homem nº 1, enquanto
tigre, e também enquanto homem nº 2, no qual participa no presente
instante. Mas, entendamos bem, cada um dos elétrons que constituem este
homem nº2 terá uma experiência vivida no passado diferente; somente
esta parte da experiência, limitada no tempo, vivida pelo homem nº2
durante sua própria existência, do seu nascimento até o presente instante,
95

será repartida por todos os elétrons de seu corpo. Aliás, é precisamente


porque todos os elétrons do meu corpo têm em comum a memória da
mesma parte da vida, da "minha" vida, que esta memória comum vai
brilhar mais intensamente na minha consciência do que a memória das
minhas vidas precedentes, que são tão numerosas quanto as de cada um
dos elétrons do meu corpo, mas também todas diferentes uma das outras.
Chamei anteriormente Eu consciente esta parte da memória que todos os
elétrons do meu corpo possuem. Mas meu "Eu total", que chamei de Eu
cósmico, é muito mais rico em informações do que este "Eu consciente":
ele compreende também uni Eu inconsciente, que tem suas raízes bem
antes do meu nascimento, no passado e nos espaços mais longínquos do
Universo inteiro. 0 "Eu inconsciente" compreende a memória das
experiências individuais vividas por cada um dos elétrons de meu corpo,
com exclusão da memória comum a todos estes elétrons, que constituem
meu "Eu consciente".

Estou convencido de que urna parte da memória inconsciente, em certas


condições, pode "propagar-se" lentamente até a memória consciente; ou,
exprimindo-nos de outra maneira, que nosso "Eu consciente" pode chegar
a formular, na sua própria linguagem (a da minha vida de Homem), dados
provenientes de nosso "Eu inconsciente". Creio 1 que este processo de
propagação do inconsciente para o consciente está associado ao que
chamamos a criação, em oposição ao raciocínio, que retira suas
informações somente da memória do "Eu consciente"'. Creio também que
nosso "Eu consciente" pode não somente se comunicar com nosso "Eu
inconsciente", mas também com as informações memorizadas nos elétrons
exteriores ao nosso corpo, aqueles que estão encerrados no corpo "dos
outros", em tudo aquilo que faz o nosso mundo. chamado "exterior".

Mas, naturalmente, é mais cômodo se comunicar com um grupo de


elétrons que dizem todos a mesma coisa, falando em coro sobre sua vida
em comum, do que se comunicar com um só elétron do grupo, que conta
sua experiência pessoal vivida. É porque também, como notei, o médium
ao interrogar a múmia de Ramsés despertará, sem dúvida, mais facilmente
com uma centelha de vida "sonhada" a experiência vivida pelo próprio
Ramsés, visto que o grande número dos elétrons presentes sob as
bandagens possuem a memória de uma vivência comum, a vivência do
personagem chamado Ramsés 11. Isto não exclui, bem entendido, as
"interferências" do médium com as lembranças trazidas das vidas
anteriores de Ramsés.
96

Sob o efeito do que chamamos Reflexão, nosso "Eu consciente" pode, sem
dúvida, tornar-se algumas vezes, por um breve instante, muito mais
"permeável" a trocas com o Espírito contido no nosso "Eu inconsciente".
Isto corresponderia a uma brusca elevação do nível neguentrópico do
nosso "Eu consciente", portanto, também do nível de todos os elétrons que
trazem consigo o nosso "Eu cósmico" (que participam todos do "Eu
consciente"). Não devemos ver aí a brusca mudança de estado do nosso
nível de consciência, fruto da Reflexão (da Meditação), de que nos
falaram os profetas e os sábios?

Notaremos, em todo caso, que este processo de súbita intensificação do


nível de consciência, se ele pode existir, é ainda uma operação de Amor.
São os elétrons do nosso corpo que subitamente se tornam capazes de ter
entre si uma "linguagem" comum e que "falam" todos juntos a linguagem
do nosso "Eu consciente".

Assim, existe uma interação de "Amor interno", entre os elétrons do nosso


corpo, ao lado de uma interação de "Amor externo", entre nossos elétrons
e os "dos outros”.

Uma segunda conclusão que devemos ter em mente, generalizando os


resultados precedentes, é que as mesmas faculdades que fazem que certos
humanos sejam "médiuns" deveriam também permitir provar o caráter
pensante de tudo o que existe à nossa volta, do mineral ao humano.
"Vocês sabem que as árvores falam?" diz um poema hindu. Deste lado do
mundo, somente as crianças, os sábios ... e os loucos ainda são capazes de
ter este conhecimento "amoroso" da Natureza inteira. Um texto muito
bonito de Pierre Emmanuel, em um livro recente, exprime melhor do que
eu poderia fazê-lo as qualidades de médium que possuímos no
nascimento, no mais profundo de nós mesmos, mas a "civilização" atual
está tentando impedir sua manifestação:

"Eu, Homem, eu pequena pessoa, escreveu Pierre Emmanuel, eu me


integro na gênese universal: tal é o ato de fé, simples e exaustivo, neste
nós-mesmos maior do que nós. Esta experiência é na maioria das vezes
obscura, porque nós, nas nossas civilizações da superfície, embotamos,
irremediavelmente o sentido interior. 0 uso dos nossos sentidos se torna
confinado aos limites da nossa experiência social, cada vez mais
estereotipada. Quanto à sensibilidade geral e à imaginação que a sustém,
toda nossa formação nos conduz a deixá-las incultas, rechaçá-las em vez
de integrá-las e orientar sua energia. Ternos somente um conhecimento
abstrato do elementar: nossa intuição do vivo é muito fraca, quer se trate
97

do animal ou da planta. Alguns, dotados de simpatia instintiva, podem


fazer amizade com a raposa, abraçar um carvalho para retirar sua força,
ou, apalpando 'a crosta das pedras', preparar a entrada de um instrumento.
Mas a maioria fica no exterior, não somente dos seres e das coisas, mas de
suas próprias sensações. Falta-nos esta forma de amor quotidiano,
ilimitado, que é a ligação com a realidade universal, com a unanimidade
dos elementos, Amar o ritmo de crescimento da planta, a forma e a curva
do vento, as leis de composição da duna e da turfeira; perceber no olhar
do animal a alteridade misteriosa, ressentida às vezes de maneira tão
pungente, e que é como um ) julgamento da nossa separação em relação à
natureza, como uma interrogação ou um apelo infinitamente discreto disto
lá, não é uma experiência autêntica da realidade que nos ultrapassa, um
saber interno, um instinto do ser-necessário à ciência, como a carne ao
espírito? É necessário terminar com a alienação que o homem moderno se
impõe, negando qualquer valor à subjetividade, à imaginação e à magia,
exilando, amputando, recusando os poderes cósmicos da alma humana e
caçoando dela. Se nossa experiência fosse mais física e nossa presença
total mais ativamente comprovada, o corpo apareceria com sua aura de
inteligência. 0 conhecimento, quaisquer que sejam a sua ordem e objeto,
seria vivido como um imenso sistema de focos incontáveis cujas ondas, se
encontrando, formariam o batimento de um só coração “.

CAPITULO X

0 funcionamento do Espírito como fenômeno da Física

Estrutura do elétron espiritual. - Papel do "spin" nos mecanismos


espirituais. - Enriquecimento neguentrópico do espaço eletrônico. - Já
existe o instrumento matemático de descrição do Espírito. - 0 elétron sabe
estocar e utilizar a energia. - 0 carbono assimétrico e a topologia do
Vivo. - Louis Pasteur: um precursor de gênio.

Somos, novamente constrangidos a falar um pouco "tecnicamente".


Porque este problema da descrição da estrutura do que chamamos Espírito
é muito importante, como vimos, pelas conseqüências esboçadas durante
os capítulos precedentes, para que eu deixe de dizer aqui algumas palavras
sobre a maneira como vejo, no plano dos conhecimentos científicos, isto
é, na linguagem da Física, o processo de funcionamento do Espírito, indo
um pouco mais além deste "quadro de mil luzes piscando", de que me
utilizei acima para imaginar as operações espirituais.
98

Para seguir no tempo o processo de enriquecimento contínuo do Espírito


no elétron e dizer também como ele se torna capaz de alargar seu campo
de ação na proporção do seu desenvolvimento espiritual, conduzindo-o do
mineral ao Homem, depois, sem dúvida, a estados mais "conscientes"
ainda no futuro, consideraremos primeiro um elétron do "começo do
mundo”, quando seu Espírito era o mais "pobre" possível e seguiremos a
sua evolução. Pois como Aristóteles já havia notado, "para ver as coisas
claramente, é necessário tomá-las no seu começo".

Este elétron do "começo do mundo" é precisamente o elétron que


consideramos na Física atual, com suas propriedades puramente físicas,
onde o Espírito não está absolutamente ausente (vamos constatá-lo), mas
é, sem dúvida, comparável a esta "psique extremamente difusa", de que
Teilhard dotava cada partícula de Matéria.

É este elétron da Física que descrevi na minha Teoria da Relatividade


complexa. É um minúsculo objeto esférico "fechado", com
aproximadamente um milésimo de bilhonésimo de milímetro. Devemos
tomar aqui o termo "fechado" no sentido entendido pelos físicos da
Relatividade geral: um espaço independente do nosso próprio espaço, da
Matéria, onde nenhuma comunicação direta pode acontecer entre espaço
da Matéria e o espaço interior do elétron (espaço do Espírito), o qual
possui um tempo cujo sentido é inverso relativamente ao nosso, como já
explicamos. Vimos, entretanto, e vamos aí voltar, que podem existir
comunicações "virtuais" entre o espaço da Matéria e o espaço do Espírito,
ou ainda entre dois espaços do Espírito, pertencentes a dois elétrons
diferentes.

0 espaço do elétron está em pulsação contínua em um ritmo em tomo de


1023 (1 seguido de 23 zeros) períodos por segundo. Enquanto seu raio
cresce e decresce assim durante uma pulsação 1, a densidade da matéria
contida no elétron oscila entre os enormes valores de 1.000 bilhões e 1
milhão de bilhões de gramas por centímetro cúbico. Estas densidades
parecem muito grandes, mas são as que caracterizam não somente as
partículas elementares mas também certas estrelas superdensas observadas
de fato pelos astrônomos, corno, principalmente, os pulsares.

Esta grande densidade no espaço eletrônico é concomitante com


temperaturas muito altas, que, durante a pulsação do elétron, variam entre
100 bilhões e 1.000 bilhões de graus. Estas temperaturas, que nos parecem
enormes na nossa escala humana, são igualmente as que constatam os
99

astrofísicos em certas estrelas particularmente densas. Estas temperaturas


são materializadas por uma radiação eletromagnética presente no espaço,
que se assemelha a um verdadeiro gás de fótons3 .

Esta radiação é chamada de "radiação negra" e é caracterizada pelo fato de


as energias e as velocidades dos fótons terem todos os valores e todas as
direções possíveis, como as partículas de um gás fechado dentro de um
frasco. 0 termo "negra" significa precisamente que as partículas não
podem sair do espaço onde estão encerradas.

Independentemente dos fótons encontramos, no corpo do espaço


eletrônico, partículas que, como o fóton, possuem uma massa própria
nula, e que chamamos neutrinos. Estes neutrinos se distinguem
essencialmente dos fótons, pelo fato de que o que chamamos seu "spin"
ser somente metade do dos fótons.

É preciso nos demorarmos um pouco sobre esta característica chamada de


"spin", pois vamos ver que ela desempenhará um papel fundamental nos
mecanismos do Espírito.
Cada partícula estudada pelos físicos comporta, entre os números inteiros
ou semi-inteiros que servem para descrever suas prioridades, um número
particularmente importante que chamamos o spin. Apesar do fato de que,
atualmente, os físicos não gostam de fornecer imagens "visualizadas" dos
conceitos que manipulam, a idéia que fazem do spin é a mesma de
Uhlenbeck e Goudsmidt, que "inventaram" o spin em 1925: as partículas
se assemelham aos planetas ou às estrelas, elas giram em torno de um de
seus eixos, como um pião; daí o nome de 4~spin", que significa,
precisamente, em inglês "girar como um pião".

Mas, diferentemente dos planetas, das estrelas e dos piões, que podem
girar em qualquer velocidade para uma dada massa, as partículas estão
sujeitas a girar somente em certas velocidades precisas, que dependem da
massa da partícula. É necessário que sua energia de rotação, multiplicada
pelo seu período de rotação 1, seja sempre múltiplo da metade de uma
quantidade que desempenha um papel fundamental na Natureza, e que
chamamos constante de Planck. Chamamos spin este produto da energia
pelo período', e dizemos que o spin de uma partícula pode,
conseqüentemente, ter os valores 1/2, 1, 3/2, 2 . . ., quando exprimimos o
spin tendo por unidade a constante de Planck (dividida por 2 7).

0 spin oferece esta particularidade de que não parecemos ser capazes de


poder determinar, de maneira absoluta, a partir do seu valor, o sentido de
100

rotação da partícula girando sobre si mesma como um pião. Assim,


peguem um pião, olhem-no por cima, e constatem, por exemplo, que ele
gira no sentido dos ponteiros de um relógio. Se vocês o olharem agora por
baixo, constatarão que o mesmo pião gira em sentido inverso ao dos
ponteiros de um relógio. Por causa desta particularidade, a descrição de
um fenômeno físico permanecerá a mesma, e as leis de conservação da
impulsão-energia permanecerão exatamente as mesmas se, considerando
um sistema formado de uma só partícula, dizemos que ela gira no sentido
dos ponteiros de um relógio (diremos, convencionalmente, por exemplo,
que seu spin é + 1), ou no sentido inverso dos ponteiros de um relógio
(spin – 1).

Não será a mesma coisa, entretanto, se considerarmos um sistema


formado por muitas partículas. Ilustremos ainda um pouco isto, por meio
de dois piões em rotação, de eixos paralelos. Se decido atribuir
convencionalmente ao sentido de rotação do primeiro pião o spin + 1, e
constato em seguida que o segundo gira no sentido inverso do primeiro,
então não tenho mais escolha sobre o sinal do spin do segundo pião: devo
dizer que seu spin é - 1. Do mesmo modo, se os dois piões giram no
mesmo sentido, poderia (convencionalmente) dizer que os dois têm o spin
+ 1, ou o spin - 1, mas nunca dois spins de sinais contrários.

Exprimimos tudo isto em Física dizendo que, quando consideramos um


sistema formado de muitas partículas, deve haver aí uma conservação do
spin total, qualquer que seja a convenção de sinal do spin escolhido para
designar o spin de qualquer uma das partículas. Assim, se duas partículas
giram no mesmo sentido, o spin total pode ser +2, ou -2, já que,
considerando a primeira partícula, decidimos que seu spin era + 1, ou - 1.
Se elas giram em sentido contrário, o spin total deverá ser zero, qualquer
que seja a convenção de sinal na primeira partícula. Aliás, uma vez
definido o spin total do sistema, o valor desse spin total do sistema não
pode mais mudar, salvo se o sistema interage com uma ou muitas outras
partículas situadas fora do sistema.
101

Por que tudo isto tem importância nos mecanismos espirituais? Porque,
como nos lembramos, comparei anteriormente o funcionamento do
Espírito com um quadro de luzes que piscam. Ora, as lâmpadas são aqui
os fótons da radiação encerrada no interior do elétron, e o piscar de uma
lâmpada é traduzido fisicamente pela mudança, no decorrer do tempo, do
sinal do spin de um fóton: de + 1 (imagem da lâmpada acesa) ele se torna
- 1 (lâmpada apagada), ou vice-versa6.

A conservação do spin total no espaço fechado de um elétron nos indica


então que, sem a contribuição de uma energia ou de uma impulsão
exterior, será possível ao elétron mudar simultaneamente os sinais dos
spins de um número par de fótons da radiação negra contidos no elétron,
contanto que os fótons que compõem este par tenham spins iguais mas de
sinais contrários, pois este processo não mudará o spin total e não exigirá
nenhuma energia. Podemos dizer que o elétron é "livre" para escolher à
vontade o sinal do spin de um par de seus fótons negros e para inverter
estes spins quantas vezes quiser no decorrer do tempo. Estamos aqui como
diante de dois piões em rotação de sentidos contrários, nos quais,
bruscamente, os sentidos de rotação teriam o direito de ser invertidos. Isto
não seria possível com dois piões reais sem a contribuição de energia, pois
os piões têm uma massa que não é nula. Em contraposição, é possível para
os fótons, que possuem massa própria nula.

A mudança do sinal do spin por pares de fótons, no interior de um mesmo


elétron,. é o processo normal de funcionamento espiritual "sobre si
mesmo" do elétron, entretanto inobservável do exterior, pois o espaço do
elétron é fechado 1. Aqui o elétron funciona "livremente" sobre as
próprias informações que possui, mas não pode haver enriquecimento da
informação do elétron, visto que não há contribuição de informações do
meio exterior. Notemos, aliás, também que não pode haver perda de
informações, pois o espaço do elétron está aqui em neguentropia
constante.

Mas eis que o elétron E, cujo mecanismo espiritual estudamos, vai poder
agora se comunicar com o espaço exterior, da seguinte maneira: no espaço
exterior (que pode ser ou o espaço da Matéria, ou o espaço do Espírito
fechado dentro de um outro elétron), um fóton, e somente um, muda o
sinal de seu spin; este spin passa, por exemplo, de + 1 para 0 se o fóton
exterior desaparece. 0 processo vai ser autorizado pela lei de conservação
do spin total se um dos fótons do espaço do elétron E, de spin - 1, por
exemplo, passa simultaneamente para o spin - 22. Outra possibilidade
102

ainda: o fóton de um elétron vizinho de E passa do spin + 1 para o spin +


2, enquanto que, simultaneamente, um fóton do elétron E passa do spin - 1
para o spin -2. Em cada um destes casos podemos verificar, pela simples
adição dos spins em causa, que há conservação do spin total9.

Mas, neste processo de comunicação com o exterior, notamos então que o


elétron E enriqueceu sua informação e fez crescer sua neguentropia. De
simples radiação negra, de que o elétron E "do começo do mundo" era
composto na origem, com todos seus fótons de spin + 1 ou - 1, passamos
agora para um elétron E que possui um de seus fótons no estado de spin -
2, em vez de - 1: esta marca distintiva é alguma coisa que aparece
claramente como a aquisição de uma informação suplementar, antes
mesmo que a tenhamos justificado em linguagem científica. Entretanto,
encontramos esta justificação científica, desde o século passado, nos
trabalhos de Helmholtz. Ele mostrou, com efeito, a equivalência existente
entre a ação de um sistema, considerado em valor absoluto, e a
neguentropia deste sistema. Ora, no processo que acabamos de assistir no
elétron E, cujo spin aumentou, em valor absoluto, de uma unidade, há
também aumento da ação do elétron de uma quantidade igual a uma
unidade da constante de Planck; portanto, também, de acordo com
Helrnholtz, um aumento da neguentropia do elétron; e portanto, enfim,
aumento da informação estocada pelo elétron10.

Somos então, uma vez mais, testemunhas dos procedimentos maravilhosos


estabelecidos com precisão pela Natureza: ligando-se sempre mais ao
"Outro", comunicando-se cada vez mais com o mundo exterior que o
envolve (e chamaremos um pouco mais tarde estes dois tipos de ligação,
respectivamente, de Amor e de Conhecimento), o "Um" aumenta sua
neguentropia, isto é, aumenta finalmente suas faculdades espirituais (sua
"consciência"). Quem é, portanto, este imenso Arquiteto, que soube fazer
que ser espiritualmente mais é também projetar mais nosso Amor para os
outros?

E assim, permutando cada vez mais com seu meio exterior, o espaço de
nosso elétron E "do começo do mundo" vai se tornar sempre mais
consciente, mais neguentrópico. Até o momento em que esta consciência
se tornará suficiente para "inventar" máquinas que intensificarão ainda,
em qualidade e em quantidade, suas trocas com o mundo que a envolve.
Assim, veremos a evolução de nosso Universo conduzir do caos inicial,
feito de partículas elementares isoladas, aos elementos químicos, depois
ao vegetal, depois ao animal e depois ao Homem. Isto, falando somente de
nossa Terra: onde estão os outros planetas do mundo, nós o ignoramos
103

quase completamente. Mas é certo que a marcha para frente da evolução,


para sempre mais Espírito no Universo, é uma marcha cada vez mais
rápida, que deveria levar sempre para mais perto de um estado de
neguentropia quase infinita, de espiritualidade total. Não é este estado
último que Teilhard gostava de chamar o "ponto Omega"?

Onde está a Física para descrever matematicamente estes estados dos


spins superiores (2, 3 ... n), que seriam suscetíveis de capturar os fótons
encerrados no espaço do elétron?

Curiosamente, podemos dizer que todo o formalismo geral para tal


descrição já existe". ]É na França, aliás", que estudamos particularmente
estes estados de spin superior dos fótons, considerando-os como "fusões"
de spins mais simples: o spin 1 fabricado na fusão de dois estados de 1/2
spin, o spin 2 por quatro estados de spin 1/2 ou 2 estados de spin 1, e
assim por diante. 0 interessante é notar que as equações que descrevem o
estado do spin 'múltiplo' contêm as descrições dos estados mais
elementares de que é composto o múltiplo. Assim, o spin 2 contém não
somente ondas específicas características deste estado de spin 2, mas
ainda as ondas ordinárias de spin 1, isto é, a radiação eletromagnética
habitual. Percebemos assim, ainda melhor, como o crescimento do spin
corresponde a um verdadeiro crescimento da informação, os novos estados
não fazendo de modo algum desaparecer os antigos, mas ajuntando
somente novos estados mais complexos.

De qualquer maneira, o que é importante guardar é que não estamos


completamente no "escuro" para descrever matematicamente os
sucessivos estados espirituais do espaço-tempo do elétron/O instrumento
matemático de cálculo, como na maioria das vezes na história das ciências
em Física, já está disponível. Ele foi criado, é verdade, com um objetivo
bem diferente daquele para o qual o destinamos aqui, isto é, a descrição de
estados "espirituais" no espaço eletrônico fechado; mas ele se encontra
agora, bem à mão, para nos ajudar a progredir no conhecimento do
Espírito. 0 que nos mostra, mais uma vez, que o caminho da Física é
coberto de intenções metafísicas, mesmo se estas intenções não são
visíveis numa primeira vista d'olhos ...

Vimos assim como se enriquece espiritualmente o elétron comunicando-se


com o seu meio exterior. Mas este enriquecimento do Espírito deve
conduzir a uma ação verdadeira do elétron e deve ser associado ao que
chamaremos mais adiante de uma Ação do elétron. Mais Espírito, é
verdade, mas mais Espírito para aumentar sempre mais o ritmo de
104

"subida" do Espírito, construindo novas máquinas próprias para esta


intensificação do Espírito no Universo. Tivemos, nas páginas anteriores,
uma primeira visão (retornaremos a ela) dos meios utilizados pelo elétron
para obter proveito dos processos espirituais de Reflexão, de
Conhecimento e de Amor: resta-nos ver como o elétron vai saber utilizar o
fruto deste enriquecimento espiritual para agir. Para agir, e principalmente
para construir novas "máquinas de pensar", o elétron é como nós: precisa
dos meios de locomoção e da energia.

Como o elétron vai resolver estes dois problemas essenciais? Com efeito,
ele vai, como iremos ver, ao mais simples e obterá assim a solução dos
dois problemas de uma só vez.

Primeiramente, de que dispõe o elétron no interior de sua própria


estrutura, sob o ponto de vista de fonte de energia?

Vimos que o elétron dispõe de uma radiação eletrornagnética negra com


temperatura muito alta, de muitos bilhões de graus. Mas o microuniverso
do elétron está "fechado" e esta radiação não pode sair do corpo do elétron
11. 0 elétron vai então utilizar esta radiação interior para fazer trocas
virtuais de impulsão de seus fótons com as impulsões dos fótons de seu
meio exterior, isto é, os fótons do nosso espaço-tempo da Matéria. Já
examinamos (capítulo V) o princípio desta troca de impulsões do elétron
com o exterior, através de fótons chamados "virtuais" (diagramas de
Feynmann), quando percebemos a interação eletrostática entre partículas
carregadas eletricamente. Notaremos que, desde que esta troca de fótons
virtuais com o meio exterior é possível, o elétron resolveu então o seu
problema de deslocamento e de utilização da energia exterior. 0 elétron
dispõe, com efeito, no seu próprio espaço, de fótons que possuem todas as
direções e todas as energias 11: supondo que os fótons do meio exterior
sejam, igualmente, fótons “negros", isto é, tendo também todas as direções
e todas as energias, então será suficiente que o elétron saiba fazer uma
escolha conveniente do fóton de seu espaço que ele quer trocar
virtualmente com o exterior, para assegurar seu deslocamento na direção e
na velocidade desejada; o mesmo procedimento lhe permitirá "pilotar"
determinado fóton exterior, para fazê-lo produzir os efeitos que deseja,
provocar uma reação química, por exemplo.

0 problema do armazenamento de energia está, também, resolvido: se o


elétron é capaz de provocar as reações químicas que deseja "pilotando" os
fótons de seu meio exterior, será suficiente para ele abastecer sua
vizinhança de elementos químicos capazes de se dissociarem sob a ação
105

dos fótons libertando energia. Isto pode ir desde as reações químicas


chamadas "exotérmicas" (isto é, que libertam calor), até verdadeiras
reações nucleares, que fazem intervir a transmutação sob radiação dos
núcleos atômicos (fusão e fissão)15.

Mas falta ainda o problema essencial, que condiciona tudo o mais: como o
elétron pode dispor na sua vizinhança de uma radiação "negra"? A
resposta é clara: a radiação "negra" existe desde que possamos definir no
espaço uma certa temperatura. 0 elétron deverá então criar, no espaço que
o cerca, uma "membrana", de maneira a isolar localmente sua vizinhança
do espaço exterior; ele se esforçará, em seguida, para fazer "subir" a
temperatura do espaço interior até a membrana, provocando, por exemplo,
as reações químicas exotérmicas, de que falamos.

Não estamos fazendo aqui uma petição de princípio?

Pois, para que o elétron ponha sua membrana protetora frente a frente do
meio exterior, é necessário, primeiro, que possa agir, isto é, dispor de uma
radiação negra exterior com temperatura suficiente... isto é, de uma
membrana que isole localmente sua vizinhança do espaço exterior.

Isto quer dizer que o elétron deverá utilizar, no começo, estruturas


químicas já existentes, que sejam capazes de reter a radiação, e mais
especialmente uma radiação do tipo da radiação negra.

Dizendo de outra maneira, a primeira membrana que deve ser utilizada


pelo nosso elétron do "começo do mundo" deve ser não uma membrana
material, produzida pela aglomeração conveniente de partículas,de
matéria (como a membrana celular ou nuclear, por exemplo), mas uma
membrana "espacial", causada pela configuração do próprio espaço.
Deverá ser uma membrana produzida pela topologia do espaço. E é
exatamente isto que o elétron vai fazer: ele vai utilizar, como primeiro elo
do Vivo, uma estrutura química particular, que chamamos de carbono
assimétrico e que tem a propriedade de modificar de maneira "natural" a
topologia do espaço. Para explicar melhor, diremos primeiro algumas
palavras sobre o que é necessário entender por "topologia" do espaço.

Tomemos uma folha de papel milimetrado, que colocaremos estendida à


nossa frente sobre a mesa.
106

Esta folha representa o que podemos chamar de um espaço com duas


dimensões, visto que é uma superfície sem espessura.

Nesta folha, podemos desenhar, por exemplo, um triângulo retângulo,


como ilustrado na figura (A) acima. Se sabemos um pouco de geometria,
poderemos verificar que este triângulo retângulo demonstra bem o
teorema de Pitágoras, segundo o qual a soma dos quadrados dos dois lados
do ângulo reto é igual ao quadrado do terceiro lado, a hipotenusa.

Agora, curvemos ligeiramente a folha de papel, como na figura (B), como


se quiséssemos formar um cilindro de papel com esta folha. Esta operação
é fácil, e podemos fazê-la sem amarrotar a folha de papel. 0 triângulo
retângulo desenhado sobre a folha também se curvou ligeiramente,
enquanto dávamos à folha este início de forma cilíndrica. Mas, como o
notamos, o triângulo não se deformou no espaço de duas dimensões (o
espaço da superfície da folha); seus ângulos e seus lados permaneceram
inalterados, os dois lados do ângulo roto ficaram rigorosamente
perpendiculares entre si e o teorema de Pitágoras se verifica
rigorosamente.

Com efeito, se fôssemos observadores de duas dimensões somente (das


sombras, por exemplo), alojadas na superfície da folha, todas as medidas
que poderíamos fazer sobre esta superfície não nos permitiriam descobrir
se nosso espaço de duas dimensões possui a forma 14plana", como é
representada por (A), ou a forma ligeiramente encurvada de (B). Nos dois
casos, é a geometria euclidiana habitual, aquela que postula que duas
paralelas não se encontram nunca, que prevaleceria em todas as nossas
medidas executadas sobre a folha de papel. Entre (A) e (B) a diferença
não se encontra na geometria da folha, mas na sua topologia. Dizemos que
os dois espaços euclidianos (A) e (B) têm topologias diferentes: (A)
possui uma topologia plana, (B) uma topologia cilíndrica.
107

Entretanto, em vez de encurvar ligeiramente a folha, como (B), fizéssemos

um verdadeiro cilindro (C) fechado, com as bordas coladas uma na outra,


então um observador sobre a folha
Faixa de Möbius
poderá adivinhar, por meio de medidas, que seu espaço não é plano e tem,
talvez, uma topologia cilíndrica. Com efeito, este observador constatará,
agora, que existem certas direções de seu espaço (o círculo materializado
por uma seção do cilindro) onde, depois de ter caminhado
suficientemente "sempre para frente", ele retornará ao ponto de partida;
isto não poderia acontecer nunca se a topologia de seu espaço euclidiano
fosse plana. Notemos que ele não poderia, entretanto, garantir que sua
topologia "não plana" é cilíndrica: entre as superfícies euclidianas, com
efeito, existem outras além do cilindro que possuem "retas" que se
fecham. Um exemplo é a célebre faixa de Mõbius (acima), que se obtém
colando uma sobre a outra as duas extremidades de uma faixa de papel,
depois de virar uma de suas bordas sobre si mesma 180 graus.

Topologias como as do cilindro ou da faixa de Möbius oferecem a


propriedade interessante de confinarem melhor a radiação do que uma
topologia plana; com efeito, os fótons da radiação sempre se propagam no
espaço em "linha reta": se o espaço só tivesse duas dimensões, os fótons
fariam, nestes espaços onde certas linhas retas são fechadas sobre si
mesmas, como nosso viajante de há pouco, eles também retornariam
sempre ao seu ponto de partida, isto é, permaneceriam confinados numa
pequena região do espaço considerado, em vez de escapar para o infinito,
como em uma topologia plana. Como enunciamos anteriormente, certas
topologias do espaço (o cilindro ou a faixa de M8bius, por exemplo)
podem, portanto, desempenhar o papel de uma verdadeira membrana
"espacial", capaz de reter os fótons de luz ou de calor em uma região
relativamente estreita.

Uma vantagem importante de saber confinar o espaço modificando a


topologia, e não a geometria, é que a modificação topológica não reclama
nenhuma energia particular se permanecemos, como antes da deformação,
na geometria euclidiana. Como veremos logo adiante, sobre o exemplo do
carbono assimétrico, uma topologia de retas "fechadas" pode ser
108

engendrada pela simples disposição dos elementos químicos que


constituem uma molécula, uns em relação aos outros. 0 que "custa"
energia, com efeito, é quando desejamos "curvar" o espaço, no sentido da
Relatividade geral, isto é, fazer com que este espaço não mais satisfaça a
geometria euclidiana. Passa-se aqui como acontece com uma folha de
borracha elástica: enrolemo-la em forma de cilindro, isto exigirá apenas
um esforço bem fraco; ao contrário, tentemos recobrir exatamente, com
esta folha de borracha, a superfície de uma esfera (espaço não-euclidiano);
será necessário puxar "energicamente" a folha em alguns pontos e
comprimir "energicamente" a folha em outros, a fim de fazer que sua
elasticidade se desempenhe; logo, isto reclamará muita energia. Nossos
elétrons pensantes, eles também, desejam fazer economias de energia:
para confinar o calor ao seu redor, eles preferem utilizar a topologia do
espaço, permanecendo em geometria euclidiana. E como sabemos que a
Natureza oferece configurações químicas que encerram um espaço onde
certas direções estão "fechadas", eles terão a grande idéia de utilizá-las:
vão construir a Vida sobre carbonos assimétricos. Expliquemo-nos.

É possível reconhecer que uma região do espaço possui uma topologia


não-plana, como uma topologia cilíndrica ou uma faixa de Möbius, por
exemplo? Em outros termos, se enviamos luz através do nosso próprio
espaço, cuja topologia é geralmente "plana" (ou quase), e que esta luz
atravessa uma pequena região do espaço com uma topologia "não-plana",
será possível percebê-lo analisando a luz na saída desta região de
topologia não-plana?

A resposta é afirmativa. Entretanto será necessário utilizar, na experiência,


luz "polarizada". Não entraremos aqui nos detalhes experimentais 11. Será
suficiente notarmos que se traçamos uma reta sobre nossa folha de papel
milimetrado enquanto ela está plana e que em seguida enrolamos esta
folha para fazer um cilindro, de tal maneira que a reta traçada não esteja
nem em uma seção do cilindro, nem seja paralela ao eixo do cilindro,
então a reta se tornou uma espécie de espiral, semelhante ao enrolamento
helicoidal de uma mola. Se fótons de luz se propagam segundo esta reta
"espiralada", sua direção de polarização poderá ser esquematizada por
urna perpendicular à folha em cada ponto onde se encontra o fóton a cada
instante. Vemos, então, facilmente que esta direção de polarização vai
virar em um certo ângulo enquanto o fóton, que entrou por uma ponta da
espiral, sairá pela outra ponta, tendo atravessado, assim, a pequena região
de espaço com topologia cilíndrica. Em resumo, se notamos que um
objeto qualquer de nosso espaço ordinário é capaz de fazer virar a direção
de polarização da luz 11, então diremos que este objeto encerra um
109

Moléculas-imagens de carbono assimétrico (analina)

microespaço de topologia não-plana, e provavelmente de topologia


cilíndrica ou de faixa de Möbius.

Ora, tais "objetos", capazes de fazer virar a direção de polarização de um


fóton polarizado incidente, existem de maneira natural, são as moléculas
químicas chamadas carbonos assimétricos. Uma tal molécula de carbono
possui o que os físicos chamam de dissimetria molecular, isto é, a
propriedade de existir sob duas formas, apresentando-se como imagens,
uma da outra, em um espelho; uma das formas faz virar a direção de
polarização dos fótons que a atravessam para a direita (carbono direito), a
outra para a esquerda (carbono esquerdo). Representamos, acima, as duas
moléculas-imagens da analina. Notamos que elas não são sobreponíveis
uma à outra, exatamente como não são geralmente sobreponíveis um
objeto e sua imagem no espelho.

0 Vivo vai procurar confinar a energia térmica, que lhe é, como vimos,
indispensável para sua "ação", utilizando nas suas estruturas carbonos
assimétricos, que encerram, entre seus quatro "braços", minúsculas
regiões do espaço onde a topologia não é plana, mas contém "retas"
fechadas sobre si mesmas. Constatamos, com efeito, que todo organismo
Vivo, qualquer que seja, é constituído de carbonos assimétricos de um só
tipo, somente carbonos direitos ou somente carbonos esquerdos (a
utilização dos dois ao mesmo tempo anula, evidentemente, todo o efeito
de confinamento da radiação). A analina, que representamos, é um dos
vinte ácidos aminados que a célula viva ou os vírus utilizam para fabricar
suas longas cadeias de proteínas. Ora, como esta escolha, entre os
materiais oferecidos pela Natureza, de carbonos assimétricos, poderia ser
explicada se, em um nível de organização ainda mais simples que a cadeia
de proteínas, não houvesse um objeto mais elementar capaz de fazer uma
escolha? Pretendemos aqui que esta escolha acontece já ao nível dos
elétrons, graças ao espaço-tempo espiritual que cada elétron encerra em si
mesmo. Para sua "ação", isto é, para executar os movimentos específicos
110

do vivo, o elétron precisa dispor em torno de si, como explicamos, de um


meio com temperatura suficiente. Ele facilitará a criação e o confinamento
deste meio "quente, utilizando, para abrigar as estruturas que edifica,
carbonos assimétricos. Um único carbono não faz mais do que virar
levemente o plano de polarização da radiação: mas nas cadeias carbonadas
muito longas, como as das proteínas vivas, os elétrons poderão dispor de
microrregiões do espaço capazes de confinar completamente a radiação
negra, com a ajuda de uma verdadeira membrana topológica.

Neste espaço de topologia não-plana, como vimos, uma linha reta se torna
uma hélice espiralada. Uma cadeia reta qualquer tomará, portanto, neste
espaço, uma forma geral helicoidal. Ora, que forma possuem as cadeias de
ADN ou ARN, segundo os estudos que valeram aos biologistas Watson e
Crik o prêmio Nobel de Medicina em 1962? Exatamente a forma de um
enrolamento helicoidal. Este resultado, se ainda fosse necessário, nos
mostra que o carbono assimétrico e suas propriedades de modificar a
topologia do espaço constituem sem dúvida o "primeiro elo" do Vivo, o
primeiro material de que o elementar tem necessidade e se utiliza para
construir suas "máquinas de evolução".

É interessante notar que Louis Pasteur teve, desde a sua época, a intuição
da interpretação, que somos levados a dar hoje em dia para a observação
das dissimetrias moleculares na matéria viva. Em uma carta a Raulin, de 4
de abril de 1871, Pasteur escrevia: "Você sabe que creio em urna
influência cósmica dissimétrica que preside naturalmente, constantemente,
a organização molecular dos princípios imediatos essenciais à vida, e que
em conseqüência as espécies dos reinos da vida estão, nas suas estruturas,
nas suas formas, em relação com os movimentos do Universo".

Para Louis Pasteur, corno já encontramos nos maiores físicos e


biologistas, a reflexão metafisica é inseparável da criação científica mais
elevada e constitui um motor possante para fazer progredir o
Conhecimento. Sem desagradar aos senhores cientistas!

CAPITULO XI

Reflexão, Conhecimento, Amor e Ação

As quatro interações do elétron com o mundo exterior e com o Espírito do


outro. - Descrição na linguagem da Física. - 0 enriquecimento
informacional e o crescimento neguentrópico do espaço do elétron pelo
111

Conhecimento e pelo Amor. - 0 Amor é um processo telepático. - Uma


Física neognóstica.

Praticamente terminamos com a exposição "técnica"; agora tentaremos


resumir os "poderes psíquicos" do elétron e as características destes
poderes.

Vimos, portanto, que o elétron possuía, ao mesmo tempo, propriedades de


reflexão interior e de comunicação exterior.

Posto que o elétron é um microurtiverso fechado, mergulhado no nosso


espaço-tempo da Matéria, suas propriedades só podem se manifestar sob
duas formas: no próprio seio do espaço eletrônico (Reflexão), ou através
de ações "à distância" com o universo exterior. Esse segundo caso se
subdivide em comunicações à distância com nosso espaço-tempo habitual,
o da Matéria (Ação e Conhecimento), ou em comunicações à distância
com outros elétrons (Amor). Iremos examinar, sucessivamente, estas
propriedades diferentes do microuniverso eletrônico.

A reflexão interior, que doravante chamaremos Reflexão, se refere aos


processos que se desenvolvem unicamente no interior do elétron. Já vimos
como opera esta Reflexão: os fótons interiores do elétron, que constituem
a radiação negra do microuniverso eletrônico, podem aos pares mudar o
sinal de seu spin, modificando assim o estado da "memória" do elétron. 0
spin + 1 de um fóton se torna - 1, enquanto que, simultaneamente, um
outro fóton do espaço eletrônico passa do spin - 1 para o spin + 1. A
mesma coisa acontece nos fótons de spin superior a 1. Como o spin está
associado a um sentido de rotação do fóton sobre si mesmo, vemos que
esta operação corres

131

ponde a transformar, simultaneamente, cada um destes elementos de um


par de fótons de spins opostos em sua própria imagem no espelho: daí o
nome de Reflexão.

Notaremos em que ponto o processo de memorização central das


calculadoras se inspira em tal mecanismo; aí, também, tudo é memorizado
em elementos magnéticos (análogos aos fótons negros do elétron)
suscetíveis de tomar dois estados magnéticos "espelhos" (análogos aos
spins + ou -), que designamos simbolicamente, em geral, por 0 e 1. Toda a
112

"Reflexão" da calculadora vai consistir em inverter, nos lugares


apropriados da memória, estes estados magnéticos, onde os 0 se tornam 1
e vice-versa. Do mesmo modo, toda a Reflexão eletrÔnica vai consistir
em fazer passar os estados de spin existente em um dado instante de + a -,
ou vice-versa, em certos pontos precisos do espaço eletrônico. Não
devemos, certamente, nos admirar com tal analogia entre o funcionamento
da calculadora e o da Reflexão eletrônica (e, mais em geral, da Reflexão
do Vivo): como enfatizava meu amigo o psicanalista Pierre Solié 1, "você
pensa que teríamos podido descobrir as leis do átomo que o físico nos
ensinou, se este mesmo físico não fosse ele próprio constituído destes
mesmos átomos? E pensa você que, no funcionamento do que chamamos
nossa psique, o menor átomo do nosso organismo não tem também sua
palavra a dizer?" Se demos à calculadora a estrutura que conhecemos, é
porque esta estrutura foi Inventada", em última análise, pelos elétrons
pensantes que habitam os corpos humanos; e estes elétrons pensantes
sugeriram, como o mais eficaz, para ajudar com a calculadora o
pensamento humano, reproduzir um mecanismo análogo ao pensamento
eletrÔnico, que já deu provas através de uma experiência de bilhões de
anos 1. Quando, entrando um pouco mais no detalhe do conhecimento em
Física contemporânea, conhecemos as estreitas ligações existentes entre o
spin de uma partícula e seu estado magnético (momento magnético),
somos obrigados a constatar que a analogia entre o pensamento eletrônico
e o "pensamento" da calculadora é tão grande que o elétron não terá
necessidade de dar prova de muita imaginação para "sugerir" os princípios
da calculadora!

Entretanto, há dois aspectos importantes que distinguem o mecanismo da


Reflexão eletrônica do mecanismo do ordenador: a Reflexão eletrÔnica
não exige nenhuma energia; e, por outro lado, a Reflexão eletrônica é livre
(ela "opta").

Detalhemos sucessivamente estes dois aspectos. As trocas de sinais

1 Pierre SOLIÉ, Médicines Initiatiques, edições EPI, 1976.

2 10 a 15 bilhões de anos, se assim datamos com os cosmologistas


contemporâneos o "começo" provável de nosso Universo.

132

dos spins opostos de dois fótons, neste gás de fótons que preenche o corpo
eletrônico, não exigem nenhuma energia, nenhuma impulsão. Aliás, isto é
113

absolutamente necessário, pois o elétron é um universo "fechado", cuja


energia própria deve permanecer continuamente invariável 1. É também o
que experimentamos no decorrer do funcionamento da nossa própria
reflexão interior: ela também não reclama nenhuma energia. Na verdade,
o trabalho intelectual consome energia; mas se trata de um processo de
produção de calor animal, que não tem nada a ver com o que é essencial
no funcionamento do pensamento. Os jejuns prolongados ou as greves de
fome nunca impediram ninguém de pensar, muito ao contrário.

E é sem dúvida porque a Reflexão eletrônica não reclama para funcionar


nenhuma energia, que ela é também um pensamento livre, capaz de
"optar", isto é, de escolher os pares de fótons nos quais vai provocar a
inversão dos spins. ,

Não é possível, entretanto, compreender bem o processo segundo o qual


se opera esta escolha, se não nos lembrarmos de que o espaço~ tempo
eletrônico possui um tempo que se escoa ao inverso do nosso, o tempo
habitual próprio da Matéria. Levando em conta este fato, o espaço
eletrônico está, como vimos, em neguentropia não decrescente,
contrariamente ao espaço da Matéria que está em entropia não
decrescente.

Iremos ilustrar o mecanismo e o papel da Reflexão em um exemplo.


Consideremos uma mesa de bilhar com muitas bolas brancas e uma bola
vermelha. A mesa, circunscrita pelos quatro bordos, é análoga ao espaço
interior no elétron; as bolas representam os fótons interiores no espaço
eletrônico. Tudo o que não for a mesa constitui o mundo exterior; neste,
há principalmente um personagem interessante, armado com um bastão
que chamamos geralmente de taco de bilhar, e que se prepara para se
"comunicar" com a mesa, batendo em certas bolas com o taco.

As bolas brancas formam, no momento, uma porção compacta, em um dos


cantos do bilhar; em outro canto se encontra, sozinha, a bola vermelha.
Eis que agora o personagem exterior (também chamado o "jogador") se
aproxima e bate, com a ponta do taco, na bola vermelha, que vem se
chocar violentamente com a porção de bolas brancas, na outra
extremidade do bilhar. As bolas brancas vão então se dispersar pelos
quatro cantos do bilhar, ricocheteando ao mesmo tempo nos bordos e uma
na outra até, finalmente, parar.
114

Agora, olhemos o filme se desenrolar ao inverso, em um espaço onde o


tempo se escoaria "retornando", como o que acontece no espaço-tempo do
Espírito próprio do elétron.

3 Pretender o contrário, seria afirmar que a massa própria do elétron varia


no tempo, o que é experimentalmente desmentido.

133

As bolas brancas, primeiro, estão imóveis, dispersas em toda a superfície


do bilhar; depois, uma após outra, estas bolas se põem em movimento,
segundo direções bem diferentes que parecem ter livremente escolhido.
Depois de terem rodopiado um momento sobre a mesa, de terem se
chocado muitas vezes contra os bordos, de terem se batido umas nas
outras, eis que, entretanto, todas as bolas brancas vêm se reunir e se
imobilizar numa mesma porção, enquanto parecem afastar deste grupo a
bola vermelha; esta pára, finalmente, em um ponto particular do bilhar, ao
mesmo tempo em que se choca violentamente com um bastão sustentado
por um senhor no exterior do bilhar.

No princípio do desdobramento deste filme "ao inverso", enquanto víamos


apenas o movimento aparentemente "escolhido" pelas bolas no bilhar,
poderíamos acreditar que as bolas eram dotadas de "consciência", e que
elas davam prova disso decidindo livremente seu comportamento. Mas,
desde que vimos o taco e o jogador, não mais nos enganamos:
compreendemos imediatamente que nos passavam um filme ao inverso, e
as bolas voltavam a ser simples objetos materiais.

Mas pensemos em nosso espaço eletrônico: posto que há um I~retorno"


contínuo do tempo neste espaço, o filme está como que "enrolado" sobre
si mesmo; o desenrolamento que acabamos de assistir será "memorizado"
e poderá reproduzir-se novamente em um instante posterior. Com efeito,
será desencadeado quando um objeto exterior, como o taco de bilhar, vier
"comunicar-se" com o espaço do bilhar, colocando-se na vizinhança do
ponto de partida da bola vermelha. Coloquemos, então, o taco sozinho
neste ponto de partida, sem o jogador. No espaço eletrônico, vimos que
não é necessária nenhuma energia para desencadear o desenrolamento do
filme ao inverso e, portanto, o movimento das bolas; só a "estimulação"
provocada pela presença do taco no ponto de partida será suficiente para
que o processo de "reminiscência" do desenrolamento anterior aconteça, e
a bola vermelha vai, finalmente, como antes, chocar-se com a ponta do
taco de bilhar. Mas, atenção! Desta vez não há mais jogador, a bola
115

vermelha vai atirar o taco para fora da mesa, de uma maneira


perfeitamente inexplicável ... salvo se supusermos que o conjunto do que
acontece em cima da mesa de bilhar faz intervirem objetos ,(conscientes",
que escolheram um comportamento ordenado, com a intenção de se
comunicar com um objeto exterior, neste caso, o taco de bilhar.

Vemos, portanto, que o processo da Reflexão, no interior do espaço


eletrônico, supõe primeiro uma experiência memorizada com o meio
exterior; assim, no início, há aquisição de informação proveniente do
exterior. Em seguida, estimulado pelo Conhecimento de uma situação
análoga (o taco do bilhar colocado sozinho no ponto de

134

partida), o espaço eletrônico vai "se lembrar", e utilizar o mesmo processo


que ele registrou no momento da experiência inicial. Mas, desta vez, o
fenômeno terá a aparência de uma Ação do elétron, e urna Ação escolhida
livremente.

Portanto podemos dizer que, estimulada pelo Conhecimento de uma nova


situação criada pelo mundo exterior, e ajudada pela memória do
desenrolar dos fenômenos no interior do espaço eletrônico em uma
situação análoga anterior, a Reflexão prepara uma Ação. Mais
resumidamente, podemos dizer que a Reflexão é o Conhecimento que
&íse reflete" no espaço-tempo do Espírito eletrônico, para se tornar uma
Ação do elétron.

Um aspecto importante da Reflexão é que ela se situa inteiramente


no,espaço eletrônico, portanto, sem crescimento da informação contida
neste espaço: a Reflexão é um processo em neguentropia constante.

0 que chamamos Ação, que é uma segunda propriedade "psíquica" do


elétron, está igualmente em neguentropia constante. 0 objetivo aqui é
puramente motor: trata-se para o elétron de se mover no espaço exterior, o
da Matéria. Já examinamos como funciona este mecanismo: o elétron
provoca uma troca de impulsão linear de seus próprios fótons com os
fótons de uma radiação exterior. A radiação exterior pode ser essa
radiação negra que vimos aparecer nas estruturas chamadas "vivas"; essa
radiação pode ser também aquela que está contida nos outros elétrons da
vizinhança do elétron considerado. Neste último caso, estamos diante do
que os físicos chamam de interação eletrostática entre dois elétrons. Não
116

retornaremos mais detalhadamente sobre estes processos ligados à Ação,


porque já foram estudados anteriormente.

Iremos nos interessar por duas outras propriedades psíquicas do elétron


que, contrariamente à Reflexão e à Ação, acontecem com aumento da
neguentropia do elétron, isto é, aumento de seu conteúdo informacional.
Trata-se do Conhecimento e do Amor. Nos dois casos, a comunicação do
elétron com o exterior se dá não mais através unicamente de trocas de
impulsões lineares entre fótons (como na Reflexão e na Ação), mas
através de trocas de spins entre os fótons do elétron e os fótons exteriores.
Se estes últimos pertencem ao espaço-tempo da Matéria, será um processo
de Conhecimento,, se pertencem a um outro elétron, será um processo que
chamamos Amor.

No Conhecimento, um fóton do espaço exterior desaparece quando cede


sua impulsão, sua energia e seu spin a um fóton do espaço do elétron,
fazendo assim aumentar em valor absoluto o spin total do fóton eletrônico
1. Um fóton exterior de spin + 1 vai, por exemplo,

4 Pois, em virtude da neguentropia não decrescente que manda no espaço


eletrônico, a ação (portanto, a informação) não pode diminuir neste
espaço.

135

desaparecer (retorno ao spin 0), levando o spin + 1 de um fóton do espaço


eletrônico ao spin + 2. Desta vez, há enriquecimento informacional do
espaço eletrônico, o que justifica o termo Conhecimento para qualificar
este processo. Notaremos que o Conhecimento põe em movimento o
elétron, pois ele absorve a impulsão e a energia do fóton desaparecido;
haverá, portanto, a conjugação do Conhecimento com um movimento, isto
é, o que designamos corno uma Ação. Como todo o movimento de
elétrons se traduz na observação por uma impulsão elétrica, isto significa
ainda que o Conhecimento é acompanhado da criação de impulsões
elétricas. É isto que constata a biologia (eletroencefalogramas, impulsões
nervosas ... ) .

Enfim, pode haver troca de spin dos fótons do elétron considerado com
fótons de um elétron vizinho. Designaremos este processo de troca com o
nome de Amor. Por exemplo, teremos um dos elétrons com um de seus
fótons passando do spin + 1 para o spin + 2, enquanto que no elétron
vizinho um fóton passa do spin - 1 para o spin -21, Aqui, não há
117

necessariamente movimento dos dois elétrons que se trocam; em


contraposição, ainda há, como no Conhecimento, aumento da
neguentropia, e mesmo aqui aumento da neguentropia dos dois elétrons ao
mesmo tempo. Podemos, portanto, dizer que o Amor é o processo mais
simples e mais eficaz para aumentar a neguentropia no Universo.

A comunicação pelo Amor exige, entretanto, serem dois, dois a intervir,


dois a aceitar a troca de spin. É necessário que, em cada um dos dois que
intervêm, o espaço eletrônico, isto é, a "memória" gravada neste espaço
eletrônico, possa aceitar tal elevação de spin de um de seus fótons, do spin
1 para o spin 2, por exemplo 1. É necessário, exprimindo-nos de outra
maneira, que haja uma certa compatibilidade estética entre as duas
memórias que vão procurar se juntar para elevar seu conteúdo
informacional, aumentando cada uma sua neguentropia. Cada um é ao
mesmo tempo doador e recebedor, e será necessário, para que o fenômeno
se estabeleça, que as duas novas configurações do Espírito (as memórias
eletrônicas) sejam, de algum modo, "concordantes". Penso que, na escala
do mundo Vivo organizado e não mais

5 Lembremo-nos que deve haver sempre a conservação do spin total.


Notemos que cada elétron, considerado como partícula, passa
simultaneamente, de um do spin - 1/2 para o spin + 1/2, para outro do spin
+ 1/2 para o spin - 1/2. 6 Isto aparece bem quando queremos descrever a
situação em linguagem matemática. Um fóton de spin 2 estabelece em
torno de si um campo mais complexo do que um fóton de spin 1; na
verdade, como também vimos, o spin 2 "contém" o estado de spin 1 e
pode haver compatibilidade de presença entre fótons de spin 1 e de spin 2
no mesmo espaço, no mesmo instante: entretanto, devem ser satisfeitas
certas "condições dos limites", para que haja "aceitação" da passagem de
um fóton do spin 1 para o spin 2.
136
na do elementar, uma certa afinidade devida à filiação (o amor de uma
mãe por seu filho), ou, ao contrário, a uma complementaridade (o amor
entre um homem e uma mulher, onde um "completa" o outro), deve
facilitar esta comunicação entre os elétrons, pelo processo que chamamos
Amor, no nível elementar. Contrariamente ao que geralmente crê o ser
organizado, são na verdade seus elétrons pensantes que prodigalizam o
amor, ou que fazem o amor: o ser organizado não faz mais do que
"veicular" o fenômeno, em uma região limitada do espaço e do tempo.

Certamente é necessário insistir aqui no fato de que o processo de


comunicação pelo Amor, tal como acabamos de descrevê-lo, coloca em
118

evidência que o Amor é também uma certa forma de Conhecimento. Pois,


o que é que vai finalmente se trocar, através do processo amoroso? São os
estados memorizados em cada um dos elétrons. Enquanto na operação de
Conhecimento, que descrevemos acima, o elétron obtém informação sobre
seu meio exterior (o espaço da Maténa), onde ele desenvolve em seguida
suas Ações, no processo do Amor a informação é obtida sobre o Espírito
do outro isto é, sobre espaço espiritual do elétron com o qual se vai fazer
~ma troca de informação.

Sem dúvida, é por esta razão que percebemos, em todo o reino do Vivo,
esta ligação estreita entre a mãe e o filho: através dos laços de Amor que
se estabelecem entre eles, é, na realidade, uma forma de Conhecimento
que passa, o filho vai obtendo informações sobre o conteúdo e o
mecanismo do pensamento materno, enquanto que a mãe aprende,
também, a conhecer seu filho ao amá-lo. Os laços entre o "Eu" mãterno e
o "Eu" do filho são tão estreitos que, na maioria das vezes, a mãe sente as
sensações do filho como se fossem suas próprias sensações: se ele sofre,
ela sofre; se ele está contente, ela está contente; se ele corre perigo, ela
intervém espontaneamente no mesmo instante, por uma espécie de reflexo
instintivo, exatamente como se tratasse de um perigo que seu próprio
corpo estivesse correndo. Isto me parece ser uma razão fundamental para
não separar a mãe do filho, ou mais geralmente para envolver o filho em
um meio afetivo o mais rico possível, elaborado cuidadosamente por laços
de Amor. Existem poucos seres vivos capazes de sobreviver sem a
proteção e o ensinamento que o Amor confere na primeira infância.
Certamente, teríamos necessidade de nos lembrarmos melhor disso, em
nossa época em que se julga que pai e mãe "dão mais lucro" estando fora
do lar, do que permanecendo perto de seus filhos.

Para dizer a verdade, o Amor aparece também como uma espécie de


processo telepático, realizando a comunicação direta entre dois es
137

píritos.,~Ou, mudando a ordem dos dois termos desta proposição, parece


exato dizer que o que chamamos telepatia no nosso nível humano exige,
para se produzir, que uma compatibilidade semelhante à que acompanha o
Amor exista antes, entre os espíritos que desejam se comunicar. Ser
médium, isto é, estar especialmente disponível para uma comunicação
telepática, seria primeiro estar especialmente disponível, frente a frente,
para o estabelecimento de ligações de Amor com o outro. Em resumo, isto
quer dizer que não se é médium "sozinho": aqui também há necessidade
de dois. Não haverá comunicação entre espíritos sem que, primeiro, haja
119

uma grande afinidade de troca entre os espíritos que desejam se


comunicar.

Levando em conta o que acabamos de ver sobre as ligações a distância


capazes de se estabelecer entre pares de espaços espirituais eletrônicos,
não parece pois razoável querer admitir que qualquer um possa se
comunicar espiritualmente à distância com qualquer outro. Aliás, é o que
afirmam aqueles que se propõem estudar "cientificamente" estas
propriedades pouco conhecidas do Espírito 1: a percepção extrasensorial
exigiria, ao mesmo tempo, um emissor e um receptor, tendo ambos
qualidades mediúnicas. Penso que devemos ver na telepatia uma ligação
espiritual análoga às ligações tecidas pelo Amor, que necessitam de um
par de indivíduos capazes de uma tal ligação. Creio, mais sinceramente,
nas ligações entre a mãe e o filho, ou entre Tristão e Isolda, do que
naquelas que pretenderia estabelecer com seja quem for um personagem
que declara possuir qualidades de médium.

Mas se um casal de indivíduos dispõe realmente das qualidades espirituais


que permitem estabelecer entre si comunicações biunívocas que, no plano
do elementar, chamamos Amor, então sim, penso que esta comunicação
pode ter aspectos telepáticos. Nada nos permite de considerar neste caso
como "cientificamente" impossível uma comunicação com um ser humano
desaparecido. Entretanto creio, como já disse, que este último tipo de
comunicação se apresentará um pouco como o reconhecimento das
imagens de um sonho, durante um sono profundo, isto é, um sono onde o
próprio sonho não é solicitado diretamente por sensações provenientes do
meio exterior.

Basendo-me no exemplo da telepatia, não é meu propósito aqui querer


sistematicamente estigmatizar o que Raymond Ruyer 1 chama de
"ingénuo doginatismo cientista", que pretende não querer reconhecer
como "existente" senão o que já foi reconhecido pela Ciência (belo modo
de fazer progredir o Conhecimento!). 0 que quero simplesmente mostrar
aqui é que, desde que aceitamos fazer entrar o Espírito ao lado

7 Penso particularmente no meu amigo, o biologista Rémy Chauvin, que


participou por vários anos das experiências telepáticas do grupo Rhine,
nos Estados Unidos, na Universidade Duke.

8 La Gnose de Princeton, op. cit.

138
120

da Matéria em uma Física "neognóstica", isto é, uma Física que se


preocupa com o lugar do Espírito nos fenômenos naturais, então abrese
amplamente o campo do "possível cientificamente", mesmo que ainda não
seja o "conhecido cientificamente".

No que me concerne, em todo caso, não hesito em dizer que me é


"fisicamente" impossível admitir que o Universo percebido pelo meu
pensamento, que descrevo em uma linguagem necessariamente ainda
forjada pelo meu pensamento, possa ser representado corretamente por
leis físicas, das quais o pensamento estivesse completamente ausente. Isto
me parece concomitantemente ilógico e absurdo. Entretanto penso que o
absurdo deste enfoque "cientista" pode e deve ser demonstrado através do
emprego de fatos, de concepções e da própria linguagem científica. É o
que me esforço por fazer aqui.

139

CAPITULO X11

Reivindicação para uma o evolução copernicana

É necessário parar de pensar em uma evolução do Universo inteiro


centralizada no Homem. - A aventura espiritual cósmica tem raiz em
partículas presentes em todo o Universo cósmico: os elétrons "pensantes"
ou éons. - 0 Homem está, entretanto, presente espiritualmente no povo dos
éons. - Se você é um sábio ...

Se até agora o Homem não aceitou, espontaneamente, colocar um Espírito


comparável ao seu próprio espírito na Matéria é porque, em última
análise, pretendeu atribuir a si próprio um lugar de todo excepcional no
Universo. Como sempre, isto acontece devido a sua inevitável inclinação
para o antropocentrismo.
121

Mesmo quando o "sábio", qualquer que seja a sua época, de Thales de


Mileto a Pierre Teilhard de Chardin, aceitou dar um certo Espírito à
Matéria, sempre considerou este espírito como "elementar", "difuso", sem
medida comum com o Espírito do Homem. Na verdade, o Homem aceitou
a presença dos deuses, isto é, a existência de um Grande Espírito no
Universo: mas sempre foi um Espírito com o qual o Homem era capaz de
dialogar, um Espírito à imagem do do Homem ("Deus criou o Homem à
sua imagem", nos explica o Gênesis). A morte devia conduzir o Homem
"à direita de Deus". As teorias pré-evolucionistas, da Antiguidade a
Darwin, sempre foram teorias "racistas" em relação ao reino dos vivos,
outro que não o reino humano e o Homem estava, espontânea e
obviamente, colocado no alto da criação: como poderia ser diferente se
entre os próprios homens estabeleceu-se uma profunda hierarquia, do rei
ao escravo, do branco ao homem de cor? Com as teorias evolucionistas, a
situação não mudou nada, mesmo quando apresentavam uma atitude
espiritualista: com Teilhard, o Homem permanece sempre como a "ponta
atual" da evolução; entretanto, admite-se a possibilidade de ver este
Homem evoluir, no decorrer do tempo, para o "ultra-humano"; mas
reserva-se sempre, única

141

mente para os descendentes do Homem, a possibilidade de chegar ao lugar


de escolha, no fim dos tempos, à direita de Deus. Devemos compreender
mesmo que o Homem terminará por se confundir com o próprio Deus,
quando atingir o "ponto õmega".

Nisto tudo é o Homem, o Homem, sempre o Homem. Parece que todo este
vasto Universo, com seus planetas espalhados em bilhões de anos-luz,
com suas modificações progressivas que duram há bilhões de anos, teve
por único objetivo a criação deste ser fraco e efêmero, cuja existência
constatamos, depois de somente um instante do tempo cósmico, neste
minúsculo canto do cosmo a que chamamos Terra.

0 Homem lutou obstinadamente para que não lhe tirassem esta ilusão de
que o Universo foi "feito para ele". Sabemos de quantos perderam suas
vidas tentando contestar o lugar do Homem, ou mesmo somente o de seu
habitat, a Terra, em relação ao resto do Universo. Hoje, é verdade, com
nossos meios de investigação astronômica, não é mais possível retirar a
Terra de seu lugar real, um planeta entre bilhões de outros, girando em
torno de uma estrela que não tem nada de particular entre os bilhões de
outras estrelas, tudo isto no interior de uma galáxia que não se apresenta
122

diferente de centenas de bilhões de outras galáxias que povoam o


Universo. Mas ainda tentamos desesperadamente nos agarrar à idéia de
um Homem terrestre que seria a exceção das exceções neste vasto
Universo! Apegamo-nos ainda à idéia de um Universo puramente
mecanicista um pouco por toda a parte, obedecendo somente às leis físicas
... menos aqui, neste minúsculo planeta Terra, onde um ser "altarnente
improvável" teria aparecido e seria capaz, sozinho, de dar sentido ao
Universo inteiro; uma exceção escolhida por Deus, um ser eleito; um ser
praticamente sem "concorrente" na imensidão cósmica.

Entretanto, tudo se torna absurdo e desconcertante a partir do momento


em que desejamos sustentar hoje, com os olhos abertos, tal ponto de vista.
Principalmente, é impossível entrever para o Universo uma significação
suficientemente lógica para satisfazer os critérios atuais do Conhecimento
ou para situar racionalmente o Homem em relação aos outros objetos com
os quais convive, do mineral ao vivo. As próprias relações humanas estão
completamente falseadas por este erro monumental de perspectiva para
nos situar em um lugar mais justo no inventário universal. Segundo o
nosso pensamento, o Homem está bem alto na escala dos seres, então
procuramos utilizar nossa vida terrestre para escalar ainda alguns
degrauzinhos na escada, para sermos os primeiros entre os primeiros e,
paciência, se para chegar aí temos que pisar em alguns seres que partilham
conosco do nosso planeta, humanos ou não: além disso, não está escrito
que, quando mais nos elevamos, mais nos aproximamos de Deus? Então,
por que esta torre de Babel construída sobre o egoísmo, a injustiça e a
destruição?

142

Aquele que "vence" não dá prova de que "pensa melhor"? E Deus não é o
mais elevado em graduação dos que "pensam melhor"?

É verdade que, na nossa época, alguns "intelectuais", parece, tomaram


consciência de que "alguma coisa não ia bem"; propuseram,
sucessivamente, a morte de Deus, depois a morte do Homem, a fim de
recomeçar do zero e reconstruir o Homem sobre novas bases ideológicas.
Mas se trata sempre do Homem como ponta da evolução; e com o
desenvolvimento atual de suas "técnicas", o Homem de hoje está
deslumbrado: quer suprimir Deus, simplesmente porque agora crê que é
grande o suficiente para se arranjar sozinho, para desdenhar de todos os
mitos ancestrais, inclusive o religioso. Não somente o Homem à direita de
123

Deus, mas o Homem no lugar de Deus, o Homem sozinho no Universo, o


Homem único senhor do seu destino 1.

É um absurdo; digo o que sinto. 0 fenômeno cósmico principia e evolui


sobre um terreno que está necessariamente na escala cósmica, tanto no
espaço como no tempo. Na verdade, é o Espírito que está no centro da
aventura universal; mas este Espírito não é privilégio só do Homem. Não
é o Homem que assume mais plenamente as capacidades disponíveis no
Espírito. Não é com o Homem que o fenômeno cósmico conta sua
aventura 2.

Ou melhor, não é somente com o Homem. Na escala do Universo, a


história do Homem não é nem mais nem menos importante do que a da
estrela, da folha da árvore, da bactéria ou do cão. Todos estes seres são tão
"inteligentes", ou, em todo caso, tão "pensantes" uns quanto os outros. E
são também pensantes pois são formados, no plano espiritual dos mesmos
elétrons pensantes, mesmo se estes inventaram "máquinas" muito variadas
para se encaminhar para o objetivo que tem somente uma certa
consistência na escala cósmica: aumentar ao máximo a neguentropia do
Universo inteiro, isto é, sua ordem,

1 Seria necessário relembrar aqui Le Hasard et Ia Necessité de Jacques


MONOD?

2 Um primeiro passo em direção a uma evolução "copernicana", que


coloca o Homem e seu comportamento em um lugar mais justo, é
fornecido pelo livro recente de E. 0. WILSON: Sociobiology, Harvard
University Press, 1975. Wilson partiu do estudo do comportamento dos
indivíduos para concluir, finalmente, que a evolução é uma aventura dos
genes que compõem os cromossomos de todo o reino animal ou vegetal,
sendo o indivíduo um simples "veículo" para esta aventura. Partindo da
Física e indo do estado do elementar para o do organizado, ataquei este
problema da evolução de um "outro ângulo" e concluí que é ainda mais
fundo que se situa o centro da aventura evolutiva, se este centro deve ser
situado no "portador" do Espírito: não no nível dos genes, mas no dos
elétrons, pois são eles e somente eles que são os portadores do Espírito no
Universo. A aventura do Espírito não está mais limitada aos reinos vegetal
e animal, os únicos portadores de genes, mas estende-se ainda ao reino
mineral e mais amplamente à toda a Matéria que participa do nosso
Universo.

143
124

sua ação (no sentido da Física), sua consciência 1. Todas estas palavras
têm um valor semântico equivalente; e vimos que podemos expor não
definições vagas, mas um formalismo tão preciso quanto o da
Relatividade geral ou da Teoria quântica.

Sim, irmão humano, será bem necessário que você se renda à evidência e
abandone uma vez mais seu antropocentrismo. Quando você diz "Eu
penso", já observamos, você deveria dizer mais corretamente "Ele pensa",
da mesma maneira como você diz "chove". Pois o que pensa em você, são
estes bilhões de elétrons que sozinhos encerram um espaço-tempo onde
podem se desenrolar os processos espirituais. Aquele que você vê no seu
espelho é seu contorno de Matéria, e este não pensa; é utilizado pelos seus
elétrons pensantes, para ajudá-los a procurarem para si a energia de que
têm necessidade, e para executarem certas tarefas que lhes permitam
aumentar a quantidade e a qualidade de suas informações. Mas,
naturalmente, estas informações não se referem somente às cotações da
Bolsa, ou às respectivas vantagens das ideologias comunistas ou
capitalistas, ou à hierarquia a estabelecer entre Maorné, Jesus Cristo e
Buda! Seus elétrons pensantes, seus éonS4~ COMO gostaríamos de
chamá-los para distinguir suas propriedades daquelas que os físicos atuais
somente querem reconhecer nesta partícula, seus éons, dizia, pouco se
interessam por estas preocupações especificamente humanas. Têm outros
problemas, problemas que nos parecem bem mais difíceis de resolver e
que reclamam muito mais inteligência: ocupar-se, por exemplo, em fazer
funcionar corretamente a máquina viva e pensante que é o Homem que
eles produziram.

Mas escute ainda, bem-aventurado pequeno Homem! Se você não é este


personagem de Matéria que vê no espelho, entretanto, você é este imenso
povo de éons que o formam, você se confunde espiritualmente com eles,
quando eles pensam é você que pensa, quando eles se enganam é você que
se engana. Sua responsabilidade cósmica não se evapora sob pretexto de
que sua unidade vai se repetir no múltiplo. Ao contrário, eis seu "Eu" que
agora se reproduz em cada um dos éons que participam de seu ser, você é
a "interseção espiritual" de todas estas partículas. Todos estes éons têm
sua própria história, vivem e pensam desde o começo do mundo,
participaram de milhões de "máquinas", habitaram milhões de anos nas
estrelas, viveram os momentos excitantes da criação das primeiras células
vivas, esperaram pacientemente por milhares de anos na rocha,
inventaram a fotossíntese e a
125

3 Veremos mais adiante que este objetivo de aumento da neguentropia é


apenas um meio para "escolher melhor" o que deve ser a evolução.

4 Lembremos que, para os gnósticos, os éons representam o Espírito


emanado da inteligência universal.

144

molécula de ADN, transformaram a topologia do espaço; foram


engenheiros com as enzimas, artistas com as pétalas da rosa. E, de tudo
isto, seus éons se lembram. Mas estes éons, que pensam com você,
também memorizaram sua própria experiência vivida, a que começou
desde o seu nascimento. Têm muito mais memória do que a que você crê
estar associada ao seu "Eu" e também muito mais saber. Cada um dos
elétrons de seu corpo conhece bem o seu "Eu", cada éon do seu corpo
deseja conhecê-lo para aproveitar a sua experiencia vivida, e assim evoluir
espiritualmente ainda um pouco mais alto, para participar melhor ainda da
aventura espiritual cósmica. De você, de seu "Eu", seus éons se lembrarão
por toda a vida deles, eles o levarão consigo na vida futura deles, depois
que os outros homens o declararem "morto". E esta vida futura no corpo
dos éons será muito longa, praticamente tão longa quanto a do próprio
Universo, uma vida eterna.

Mas se você sabe ver, pequeno Homem, se você é um sábio, então você
compreenderá que seu "Eu" se confunde, na verdade, com o pensamento
dos éons que edificaram sua vida; que seu "Eu" possui também raízes num
passado eterno, e que "participará" eternamente, no futuro, como o fez no
passado.

Se você é um sábio, saberá entender o primeiro sopro de vida que se


prepara sob a rocha, conhecerá a alegria do pezinho de erva que se levanta
para o sol no raiar da manhã, ou a euforia da corça que corre nas sendas
da floresta. Você sentirá tudo isto, pois já viveu tudo isto; tudo isto está
inserido para sempre na memória destes microscópicos espaços-tempos do
Espírito que formam seu corpo e levam seu "Eu".

145

CAPITULO X111
126

Uma Cosmologia neognóstica: evolução da Matéria

A Cosmologia própria do Espírito é inseparável da Cosmologia própria da


Matéria. - Os "modelos" atuais do Universo da Matéria. 0 começo, a
expansão, a contração e o fim do Universo. - 0 modelo do Universo
deduzido da Relatividade complexa. - Nascimento dos elétrons e do
Espírito,

Vimos o pensamento eletrônico intervir em quatro tipos essenciais de


interações "espirituais": a Reflexão, o Conhecimento, o Amor e a Ação.
Detalhamos, utilizando os conceitos habituais da Física contemporânea
(principalmente o conceito de spin), os mecanismos correspondentes a
estas quatro interações. Escolhemos, para designar estes quatro processos,
uma terminologia que já possui uma significação para nomear os
processos conhecidos do pensamento humano. Não devemos, repetimo-lo,
espantar-nos com essa analogia entre as operações do pensamento
elementar próprio dos elétrons e o pensamento humano. Meu pensamento
é o mesmo dos meus elétrons pensantes; há mais do que uma analogia, há
identidade. Não há dois tipos de "seres pensantes" no Universo: há os
éons, e é tudo. Podemos dizer "Eu penso" somente à maneira como uma
coletividade de indivíduos humanos pode pretender "pensar": o público
"pensa" que a peça de teatro foi bem encenada; mas o que pensa, aqui, não
é naturalmente o 66 público", mas os indivíduos que formam este público.
Da mesma forma, são os éons do meu corpo que pensam, quando afirmo
que sou eu quem pensa. Nosso comportamento traduz, é verdade, a
presença do pensamento; mas o pensamento que "pilota" nosso
comportamento é o desses bilhões de individualidades que entram na
composição do nosso corpo, que chamamos de elétrons pensantes ou éons.

Desde que queremos reconhecer que o pensamento, na sua essência,


pertence a estes seres imortais que são os éons, a história da evolução

147

do pensamento no Universo se torna, naturalmente, inseparável da história


do conjunto do Universo. É certo que a história humana é sempre
interessante, mesmo que se trate da história dos incas ou da história dos
127

faraós egípcios. Mas o episódio não é toda a história, pois o centro de


perspectiva deve ser, agora, bem diferente. Por exemplo, não é mais
racional querer falar do Homem como "ápice da evolução". É no mundo
dos éons, e somente aí, que podemos descobrir as individualidades que
representam os ápices do pensamento no Universo. Simplesmente porque
o mundo dos seres pensantes é único: é o mundo dos éons.

Então, como tentar discernir esta história do pensamento no nosso


Universo? Podemos, primeiro, voltar-nos para a Cosmológia
contemporânea, pois ela constitui o ramo da Física que se esforça para nos
contar a história do espaço-tempo e do que ele contém, desde o "começo"
até o "fim" do tempo. Mas esta Cosmologia tradicional é a da Matéria
somente e ela nunca se interessou diretamente pela história do Espírito.
Essa aventura do Espírito, entretanto, tem ligações estreitas com a da
Matéria, pois os próprios elétrons portadores do Espírito são feitos de
Matéria. 0 Espírito não pode, portanto, ter nascido senão ao mesmo tempo
que a Matéria e desaparecerá com ela.

Uma Cosmologia neognóstica, como a que procuramos, deve, antes de


tudo, estar em harmonia com os nossos conhecimentos cosmológicos
atuais, concernentes à Matéria sozinha. Mas teremos que examinar, em
seguida, como vem se inserir, nesta Cosmologia da Matéria, uma
Cosmologia do Espírito. Este capítulo relembrará, primeiro, nossas
modemas concepções sobre o nascimento, a vida e a morte de nosso
Universo da Matéria, no seu conjunto.

Na linguagem da ciência deste fim do segundo milênio, é para a teoria de


Einstein que devemos nos voltar para obter uma descrição do Universo no
seu conjunto, ao mesmo tempo que sua evolução no tempo. Entretanto, é
conveniente ressaltar que não é nem a primeira, nem a última Cosmologia,
naturalmente.

Os Homens de todos os tempos "fizeram uma idéia" do mundo onde se


encontravam. Alguns o viram menor, outros maior, estes sem nenhuma
mudança, aqueles em contínua transformação; lá atribuíram 6.000 anos de
"idade" ao nosso Universo, aqui 12 bilhões de anos. Mas, de cada vez,
estas indicações procuraram estar de acordo com o Conhecimento
"científico" da época. De resto, não devemos sorrir de nenhuma destas
representações. Se tivermos vontade, será suficiente pensar no que será
provavelmente a representação que os Homens farão do nosso Universo
daqui a alguns milênios, ou mesmo alguns séculos. Devido ao crescimento
acelerado do conhecimento, assistire
128

148

mos a tais mudanças na linguagem da Ciência, que será certamente inútil


tentarmos sobrepor o "retrato" do Universo que terão nossos descendentes
de uma dúzia de gerações do retrato atual. Então, quando Aristóteles
coloca a Terra no centro do mundo e dispõe, em distâncias crescentes,
nove esferas transparentes e concêntricas representando, sucessivamente,
a Lua, Vênus, o Sol, Marte, Júpiter, Saturno, as estrelas e enfim... o
próprio Deus; ou quando Santo Agostinho dá à Terra a forma do santo
tabernáculo, duas vezes mais comprido do que largo, envolvido de água
por todos os lados, com a ilha do Paraíso fora, e o conjunto recoberto por
um "teto" em forma de meio cilindro; ou quando o grande Kepler crê ter
descoberto a "arquitetura do Universo" através de figuras geométricas
encaixadas umas nas outras, e escreve que "a alegria que me deu a minha
descoberta, não poderia jamais descrevê-la"; é necessário tomarmos
precaução para acreditar que hoje estamos fazendo muito melhor.

É notável, entretanto, constatar que, se não nos deixamos levar pela ilusão
das palavras dos séculos passados que conservam, hoje, sua significação
"ao pé da letra", então transparece alguma coisa de "invariável" na
maioria dos "modelos" cosmológicos dos séculos passados, aí incluídos os
da época atual. Quando as Escrituras nos apresentam, por exemplo, a
gênese do mundo, anunciando que a luz foi criada "no começo", não é
notável aproximar este ponto de vista daquele que os cosmologistas
proclamam hoje, apoiando-se na Relatividade geral de Einstein, no que
concerne ao "começo" do nosso Universo? Ele teria sido, nesta época
longínqua, coberto por uma radiação eletromagnética de alta temperatura,
o que na realidade significa que estava coberto de luz; como as Escrituras,
nossos astrofísicos nos dizem também que a Matéria só foi criada mais
tarde, depois da luz.

Os modelos atuais do nosso Universo no seu conjunto são, sumariamente,


de dois tipos.

0 primeiro tipo propõe que o Universo, depois de ter evoluído um certo


tempo, "repassa" em seguida, ao inverso, as mesmas fases que atravessou;
volta assim, novamente, ao seu estado original, depois recomeça a evoluir
como ele havia feito inicialmente; e assim por diante, até a eternidade.
Este tipo é chamado Universo com evolução cíclica.

Um segundo tipo de Universo parte de um certo estado original, que


chamamos o "começo", depois evolui para estados que não são nunca
129

análogos aos estados anteriores. Dizemos que se trata de um Universo


com evolução irreversível.

Podemos nos espantar que a teoria deixe assim a escolha entre dois tipos
fundamentalmente diferentes de evolução. Poderíamos, também, nos
espantar que, desde sua frágil e minúscula torre de marfim,

149

o Homem já possa dizer tanto sobre a evolução desta coisa imensa que é a
totalidade do nosso Universo.

Dois tipos de modelos parecem possíveis porque os dados astronômicos


não permitiram ainda, através de medições expenmentais, separá-los com
segurança.

A grandeza principal que a teoria fornece, para descrever a evolução do


nosso Universo no decorrer do tempo, é o valor do "raio" do Universo.

A noção do "raio" do Universo se introduz, como já dissemos antes, nas


concepções da Relatividade geral, pois o espaço que abarca este Universo
pode possuir uma certa "curvatura" de conjunto, exatamente como a
superfície esférica da nossa Terra possui uma curvatura de conjunto. Para
o Universo, como para a Terra, é possível falar então do "raio" do espaço
fechado sobre si mesmo 1. A idéia de uma curvatura de conjunto do
espaço de três dimensões é, entretanto, menos simples de conceber para o
nosso espírito do que a curvatura de uma superfície, como é o caso da
Terra e de seu raio. Podemos dizer que o espaço está fechado sobre si
mesmo e está caracterizado por um ',raio" de conjunto, se partindo em um
foguete "sempre para a frente" no espaço que nos envolve chegássemos,
depois de uma viagem muito longa, a retornar ao nosso ponto de partida.

Entendamos bem: esta curvatura de conjunto do nosso Universo é bem


pequena; é este fato que nos leva a crer falsamente que, se puxamos as
duas pontas de um barbante, materializamos assim uma "reta".
Rigorosamente, isto parece falso no espaço do nosso Universo: nosso
barbante está ligeiramente curvo, e é por isto que se nosso barbante fosse
suficientemente longo, as duas extremidades viriam se juntar,
materializando uma "reta" que dá a volta completa do nosso Universo.
Como a luz acompanha exatamente a curvatura do espaço, nosso barbante
materializa ainda um raio de luz que dá a volta ao Universo: o que fazia
Einstein dizer brincando que, olhando direto para a frente, com um olho
130

suficientemente penetrante, deveríamos perceber o corte de cabelos da


nossa nuca!

Mas voltemos ao nosso Universo no seu conjunto. Seu raio, tal como foi
no passado e tal como será no futuro, é conhecido pela teoria de Einstein
apoiada em dados astronômicos experimentais.

Constatamos que este raio aumenta com o tempo, isto é, que o espaço de
nosso Universo é como uma esfera que inchasse sem cessar. É o que
chamamos a "expansão" do Universo. Esta expansão foi pri

1 Os físicos definem, aliás, um raio de conjunto do espaço do nosso


Universo mesmo no caso em que este espaço não seja fechado sobre si
mesmo (espaço hiperbólico). Mas não trataremos aqui desta variação.

150

meiro prevista pela teoria, mas foi também verificada diretamente pela
observação das galáxias do céu, que se afastam efetivamente de nós, e se
afastam tanto mais rapidamente quanto mais longe estão, como
constataríamos pondo pontos (simulando cada um uma galáxia) no couro
de uma bola que estivéssemos enchendo.

Em um Universo cíclico, o raio varia periodicamente entre um valor


mínimo e um valor máximo; a expansão observada atualmente deveria ser
seguida, portanto, de uma compressão do espaço, seguida de uma nova
expansão, e assim por diante. Estas oscilações do raio se prolongariam
eternamente, tanto no passado como no futuro. Entretanto,
convencionamos chamar de "começo" do nosso atual Universo o instante
em que nosso espaço estava mais comprimido e o raio do Universo era,
então, mínimo. Os cosmologistas não estão todos de acordo sobre o valor
do raio do Universo no momento do seu começo: uns dizem que o raio era
da ordem de grandeza do nosso sistema solar (10.000 vezes o raio do
nosso Sol), mas outros falam de um raio muito menor, da ordem do de
uma partícula elementar, ou seja, um raio nulo. Existe um acordo melhor
sobre o raio atual, que estaria compreendido entre 10 e 20 bilhões de anos-
luz. A idade do nosso Universo, isto é, a duração que nos separa do seu
"começo" de compressão máxima, estaria compreendida entre 10 e 18
bilhões de anos. Esta "bifurcação" de idade é ainda relativamente ampla.
Mas não é tão mal, se lembrarmos que não há muito tempo (na verdade,
no século passado) pensávamos que o Universo tivesse sido "criado"
131

somente a alguns milhares de anos, de acordo com os dados da Bíblia que


falava em 6.000 anos!

No caso de o Universo ter uma evolução irreversível, ele teria começado


igualmente, há mais ou menos 15 bilhões de anos, de um estado bastante
comprimido; depois teria "inchado", mas este período de expansão, que
ainda prossegue atualmente, não deveria terminar nunca. 0 raio tenderia
para o infinito em um futuro de duração infinita.

Para tentar escolher entre as duas evoluções possíveis, os astrofísicos se


entregam, atualmente, a elaboradas medições experimentais, procurando,
por exemplo, determinar se a velocidade de "inchação" do Universo tende,
neste momento, a decrescer (neste caso o Universo possui chances de ser
cíclico) ou a crescer (e neste caso estaria, então, em expansão contínua).

Além da modificação do raio, os "modelos" de nosso cosmo indicam


tarpbém como variam, no tempo, a densidade da matéria e a temperatura
da radiação.

A matéria é constituída, principalmente, por bilhões de estrelas e planetas


ocupando o céu e também por imensas nuvens de poeira cósmica. Mas
existem também muitas outras "coisas" no céu, e provável
151

mente (como dizia o Hamiet de Shakespeare), "muito mais coisas do que a


nossa filosofia poderia sonhar". 0 que chamamos de radiação cósmica, por
exemplo, é constituído de numerosas partículas elementares (prótons,
elétrons ... ) sulcando o cosmo em velocidades quase iguais às da luz,
possuindo dessa forma uma enorme energia'. A matéria que ocupa o
espaço apresenta formas muito variadas; é "compacta" como nas estrelas
ou nos planetas, diluída como nas nuvens de pó, ou individualizada como
na radiação cósmica, ela é, entretanto, sempre constituída das mesmas
partículas elementares de Matéria, aquelas que a Física conhece e estuda:
os prótons, os nêutrons, os elétrons, os neutrinos e os fótons. Estas
partículas constituem a única Matéria "estável", isto é, possuem durações
de vida da ordem de grandeza da duração de vida do próprio Universo.
Estas partículas estáveis podem, entretanto, sofrer alguns "acidentes", se
chegam a se bater uma na outra com energias suficientes; neste caso,
podem desaparecer, transformando-se por um instante em partículas
chamadas "instáveis", que têm durações de vida geralmente bem inferiores
ao milionésimo de segundo (às vezes, até do milionésimo do bilionésimo
132

do bilionésimo de segundo!). Mas, finalmente, estas partículas instáveis


desaparecerão para dar novamente nascimento a partículas estáveis.

A observação de uma temperatura que caracteriza o Universo inteiro é


recente. Para que haja possibilidade de se definir uma temperatura do
espaço, é necessário que o Universo esteja cheio de um número suficiente
de fótons interagindo com a Matéria e possuindo, em seguida a estas
interações, todas as direções e todas as energias 1. Durante os últimos dez
anos, pudemos verificar que o conjunto do nosso Universo estava repleto
de um "gás de fótons", cuja temperatura atual é de 2,7 graus Kelvin (ou
seja, da ordem de -270 graus Celsius). Dizendo de outra maneira, faz
muito frio no espaço, mas não é, ainda assim, o frio absoluto (0 grau
Kelvin). Já que nosso Universo "incha" e que um gás se resfria se está
fechado dentro de um volume em expansão, a temperatura do nosso
Universo abaixa sempre, sem parar; isto significa também que, no
passado, esta temperatura era muito mais elevada. Ela depende, na
verdade, do raio do Universo; no começo do Universo, e se supomos para
este momento um raio nulo, a temperatura dos fótons teria sido infinita (o
que é "fisicamente" desprovido de significação). Estimamos,
habitualmente, que o raio original do Universo era pequeno comparado
com o raio atual, mas não

2 0 físico Edward Teller, pai da bomba H, calculou que a energia da


radiação cósmica na nossa própria galáxia, Via-Láctea, é da mesma ordem
de grandeza que a energia representada pela massa de todas as estrelas e
planetas da Via-Láctea. 3 A distribuição das energias em um gás, a uma
dada temperatura, foi fornecida por Maxwell no último século; Planck
precisou esta distribuição para os fótons no começo deste século.

152

completamente nulo; a temperatura do começo do mundo era, então,


provavelmente, da ordem de centenas de milhões de graus. Em resumo, o
Universo, no seu princípio, teria se parecido à explosão de uma imensa
bomba atômica; a temperatura no centro de uma explosão atômica, com
efeito, no instante da explosão, está compreendida entre cem milhões e um
bilhão de graus. Ainda uma vez, os Homens só sabem "copiar" as
maneiras de fazer do Universo!

Estimamos, geralmente, que a Matéria estava totalmente ausente do


espaço do nosso Universo no "começo" do mundo. Esta Matéria teria
começado a se formar, a partir da radiação de fótons, desde os primeiros
133

instantes da expansão. Primeiro, teriam assim nascido os nêutrons, os


neutrinos e os elétrons (positivos e negativos), depois, teriam vindo os
prótons.

Os prótons e os elétrons constituíram os primeiros átomos de hidro-


gênio. Este gás formou, primeiro, uma nuvem única imensa; depois
esta nuvem se separou em bilhões de nuvens menores, que deveriam
constituir a primeira fase de cada uma das galáxias que ocupam hoje
o nosso céu. Chamamos protogaláxias esta etapa original da evolução
das galáxias. Cada protogaláxia, em seguida, se dividiu em bilhões de
enormes "gotinhas", sob o efeito das forças gravitacionais; estas deve-
riam ser a primeira forma das estrelas. A nuvem esférica de hidrogê-
nio que constitui a proto-estrela foi se condensando cada vez mais, por
contração gravitacional, enquanto que a temperatura central da proto-
estrela aumentava ao mesmo tempo que se comprimia o gás de hidro-
gênio. Esta temperatura central se torna logo suficiente para que co-
mecem, no coração da proto-estreia, as primeiras reações termonuclea-
res entre átomos de hidrogénio. A proto-estrela se "acende" e então
nasce uma estrela. No coração estelar, em uma temperatura muito
alta, começaram a se fabricar os diferentes elementos químicos que
conhecemos, mais pesados do que o hidrogénio, durante uma com-
plexifícação crescente d ' a matéria elementar. Estes elementos químicos,
não "combustíveis" à temperatura em que funcionava a estrela, foram
gradualmente ejetados para fora do corpo estelar e formaram, em tor-
no dele, uma vasta nuvem concêntrica. Com a ajuda da gravidade e do
tempo, esta nuvem de elementos químicos se cinde em nuvens esféri-
cas individuais, que vieram a formar os planetas que giram em torno
de cada estrela. E em alguns destes planetas a evolução prosseguiu,
dando origem ao reino vegetal, depois ao reino animal e depois ao
reino humano.

Nós estamos aí, sobre a Terra. É provável que, em alguns outros planetas
do cosmo, a evolução esteja atrasada em relação à evolução terrestre,
porque prevaleceram, por exemplo, condições um pouco diferentes de
temperatura e de pressão, ou porque o "preparo" de dosagem

153

dos elementos químicos se operou de uma outra maneira. Mas é provável


que, do mesmo modo, a evolução em outros planetas esteja mais avançada
do que a nossa. Admitir o contrário seria despropositado, seria sempre esta
eterna propensão ao antropocentrismo.
134

Se há uma questão para qual desejaríamos obter uma resposta do modelo


do Universo, é a do começo do mundo. Pois, como compreender a
evolução posterior, sem ter informações relativamente precisas sobre o
princípio desta evolução? Ora, infelizmente, vimos, os modelos
resultantes da Relatividade geral de Einstein são muito vagos sobre este
estado do Universo no seu começo. Se tratamos rigorosamente as
equações "cosmológicas" fornecidas por esta teoria, caímos, em todos os
casos, sobre um instante chamado "singular", onde o raio do Universo
seria nulo, acarretando uma densidade e uma temperatura ambas infinitas.
Como o zero e o infinito dificilmente têm interpretações no plano físico,
os astrofísicos "acomodam" as equações de Einstein dizendo que, nos
primeiros instantes do Universo, elas não são aplicáveis rigorosamente.
Não vejo porque, então, se estas equações não são válidas "no princípio",
devamos ter confiança nelas depois. Os artilheiros bem sabem que um
erro inicial na direção do tiro só pode ir se ampliando quando se aproxima
do alvo.

É por isso que fiquei particularmente feliz ao constatar, durante minhas


próprias pesquisas, que prolongando, como fiz, a Relatividade geral de
Einstein para uma Relatividade complexa', as equações cosmológicas não
apresentavam mais esta "singularidade" no momento original do
Universo. Na verdade, como tínhamos direito de acreditar numa
Cosmologia neognóstica, obtive dois modelos cosmológicos
complementares um do outro: um descrevendo a evolução do espaço-
tempo da Matéria, e o outro descrevendo a evolução do espaço-tempo do
Espírito. Os dois modelos estão esquematizados à p. 155 através da
variação do raio R de seu espaço-tempo inteiro, no decorrer do tempo t.

0 modelo da Matéria nos mostra que o Universo, no instante original,


estava unicamente ocupado pela radiação negra, como o descobriria
também a Relatividade geral; mas aqui a temperatura é muito mais baixa
do que a obtida em Relatividade geral: somente em torno de 60.000 graus.
0 raio do Universo é, neste instante inicial, 20.000 vezes menor do que o
raio atual, ou seja, da ordem de grandeza das distâncias intergaláticas. Não
há dúvida aqui, como em Relatividade geral, de um "começo" onde o raio
pudesse ser nulo. Quanto à Matéria particular, ela é inexistente no
princípio do mundo (sobre este ponto, a Relatividade geral e a
Relatividade complexa estão de acordo).

Mas a Matéria estava ausente sob forma particular, isto é, sob a forma de
nêutrons, prótons, elétrons e neutrinos; em compensação,
135

4 Jean E. CHARON, Theorie de la Relativité Complexe, op. cit.

154

MODELOS COSMOLóGICOS DA MATÊRIA E DO ESPIRITO


EM RELATIVIDADE COMPLEXA

estava presente sob forma de "curvatura de conjunto" do espaço. Esta


curvatura, com efeito, é equivalente' a uma densidade uniforme de
matéria, que chamamos a densidade cosmológica 1. No instante zero do
Universo, a energia se encontra, portanto, repartida entre a densidade
cosino16gica que acarreta a curvatura de conjunto do espaço e a
densidade de energia eletromagnética da radiação negra que, como
demonstramos em Relatividade, não provoca nenhuma curvatura do
espaço. A Relatividade complexa postula que a soma algébrica destas
duas energias é nula no começo do mundo; mais amplamente ainda,
porque a energia total do Universo deve ser conservada, se ela é nula no
instante zero, ela o será sempre no futuro. As três fases presentes no
espaço universal, a saber, a matéria cosmológica curvando o conjunto do
espaço, a radiação negra dando sua temperatura de conjunto ao Universo
mas não provocando nenhuma curvatura do espaço e a matéria particular
(prótons, nêutrons, elétrons) ocasionando somente curvaturas locais do
espaço, sem modificar a curvatura de conjunto, deverão apresentar um
balanço total de energia algebricamente nulo.

5 Como se demonstra em Relatividade. é A densidade cosmológica inicial


se calcula como sendo de lo- 16 g/CM 3; hoje ela é da ordem de lo- 29
g/CM 3.
136

155

Posto que esta energia é sempre nula, isto nos evitará ter de responder à
pergunta sempre embaraçosa: "Quem criou a energia presente no
Universo?" Ela não teve necessidade de ser "criada", pois ela é no
princípio e permanecerá para sempre rigorosamente nula.

Uma conseqüência notável desta nulidade da energia algébrica total do


Universo é que, no começo do mundo, onde somente a matéria uniforme
cosmológica e a radiação uniforme negra estão presentes, é necessário que
estas duas energias sejam de sinais contrários. Se damos, portanto, um
sinal positivo à energia caracterizada pela temperatura do Universo, temos
de admitir que a matéria cosmológica curvando o conjunto do espaço
representa uma energia negativa e deve ser considerada, portanto, como
da antimatéria. Assim, nossos físicos sempre se perguntaram por que
nossos átomos e nossas moléculas, construídos com a matéria particular,
eram feitos quase que unicamente de matéria, enquanto as equações da
Física mostram que átomos e moléculas de antimatéria são igualmente
autorizados por estas leis e têm uma probabilidade igual de se fabricar. A
resposta é esta: as moléculas de antimatéria são raras porque a matéria
particular que se fabrica desde a origem do mundo deve ser do mesmo
sinal que o do balanço de energia das três fases: matéria cosmológica,
radiação negra e matéria .particular, ou seja, sempre algebricamente nulo.

Vejamos um pouco mais de perto como evolui o conteúdo energético de


cada uma destas três fases a partir do instante zero. 0 universo entra então
em expansão, isto é, seu raio R aumenta. Ora, prova-se que, durante esta
expansão', a densidade cosmológica diminui como o inverso do cubo do
raio R, enquanto que a densidade de energia da radiação negra' diminui
ainda mais rápido, na verdade, como o inverso da potência 4 do raio R. A
conseqüência é que, a fim de manter o balanço global de energia do
Universo nulo, é necessário que "nasça" espontaneamente matéria
particular e, como percebemos, uma matéria particular de energia positiva,
isto é, partículas de matéria e não partículas de antimatéria.

Assim, tanto em Relatividade complexa como em Relatividade geral, as


partículas de matéria que constroem nosso Universo nascem durante uma
transformação da energia da radiação eletromagnética em matéria. Mas os
processos são muito diferentes para explicar este nascimento particular.
Em Relatividade geral é porque a temperatura do Universo no seu
nascimento era muito elevada (da ordem de muitas centenas de milhões de
137

graus) que podemos perceber, nesta época e somente nesta, a criação de


praticamente toda a matéria par

7 Teoria da Relatividade Complexa, op. cit.

8 A radiação negra ocupando todo o Universo se comporta, aqui, como


um "gás de fótons", durante uma expansão adiabática (isto é, falando
estatisticamente na escala do Universo inteiro, sem troca de calor com a
matéria do Universo).
156

pido, pois a expansão faz cair tão depressa a temperatura do Universo


que o físico Georges Garnow calculou que a fabricação de todos os
nêutrons do Universo deve ter acontecido na primeira meia-hora! De-
pois disso, a temperatura do espaço tornou-se muito baixa para
"cozer"
as partículas no forno cósmico. Em Relatividade complexa, este "for-
no" está, desde o princípio, em uma temperatura muito baixa (60.000
graus) para fabricar o menor nêutron. Mas, em compensação, ele vai
usar a sacrossanta lei da conservação da energia no Universo inteiro:
esta vai "forçar" uma criação espontânea de partículas de matéria,
com
uma densidade de criação sensivelmente constante em todos os
pontos
do espaço, a um dado instante. Em resumo, vemos aqui um me-
canismo de criação das partículas de matéria, semelhante ao que
haviam proposto os três físicos Hoyle, Bondi e Gold há uns vinte
anos,
para justificar um Universo "estacionário", sem evolução. Para estes
físicos, as galáxias longínquas, que se afastam de nós em velocidades
tanto maiores quanto mais distantes elas estão, terminam, em uma
distância suficiente, por "sair" do nosso Universo; mas, simultanea-
mente, cria-se por toda a parte matéria ex nihilo, sob forma de partí-
culas, com urna taxa de criação sensivelmente constante em todos os
pontos do espaço, em uma determinada época. A Relatividade com-
plexa conduz a um processo análogo de "criação permanente": mas
sem sacrificar a idéia de evolução, que nos nossos dias parece
repousar
sobre bases extremamente sólidas e, por isso, seria difícil voltar atrás.
Antes que começasse a expansão do Universo, isto é, antes do
que
138

chamamos o começo da evolução, o espaço era estático: o raio era


invariável, só existia a radiação a 60.000 graus, as partículas de maté-
ria estavam totalmente ausentes. Mas o Universo era "instável" sob
esta forma, e bastou a fabricação (talvez a partir da radiação negra
a 60.000 graus, processo pouco provável, entretanto, fisicamente) da
primeira partícula de matéria (um nêutron, sem dúvida, ou um próton
e um elétron), para que se iniciasse o fenômeno de expansão que
cons-
tatamos ainda hoje 1.
A idade do nosso Universo atual, desde o princípio da expansão,
está compreendida entre 10 e 18 bilhões de anos. No decorrer de todo
este período passado, como já dissemos, é o princípio da conservação
da impulsão-energia que regulou. o equilíbrio energético das três
fases:
matéria cósmica, radiação negra e matéria particular. Porque a pri-
meira partícula nasceu da radiação negra existente na origem, o Uni-
verso se pôs em expansão; porque ele está em expansão, sua tempe-

1 Lembraremos que um modelo cosmológico igualmente---eme,pe a"


de evolu,ão,
por um tempo indeterminado, foi proposto pelo abade Lemaltré
desde 1929, a
partir das equações de Einstein. Mas ele se chocava com graves
dificuldades

quando era comparado com os dados experimentais.


157

ratura esfriou; porque ele esfriou "adiabaticamente", se fabrica sem cessar


matéria particular.

A Relatividade complexa, entretanto, nos sugere que esta expansão não é


eterna. A expansão seria reversível. Dentro de alguns bilhões de anos
deveríamos atingir um raio máximo de expansão; entraremos, em seguida,
em uma evolução do raio inverso ao da precedente: o raio do Universo
diminuirá em vez de crescer, e a expansão do Universo será substituída
por uma contração do Universo. No decorrer desta fase de compressão, a
temperatura do Universo irá aumentando, e a conservação da energia
exigirá então que a matéria particular vá progressivamente diminuindo de
massa. Fisicamente, esta "evacuação" da Matéria do nosso Universo
acontecerá sob a forma da criação de "buracos negros", estes novos
espaços-tempos situados "fora" do nosso próprio espaço-tempo da
139

Matéria, dos quais já falamos longamente. Notaremos que estes buracos


negros, onde a matéria atinge densidades enormes, não contêm mais
partículas eletricamente carregadas, mas somente um "magma" de
matéria, onde os próprios nêutrons não se apresentam mais como
partículas "diferenciadas". Pois, como vimos, são os elétrons (e mais
geralmente as partículas carregadas) que são os portadores do Espírito, a
evacuação da Matéria do Universo, por intermédio de um "escoamento"
nos buracos negros, não corresponde a uma "fuga" do Espírito para fora
do nosso Universo; é o contrário que se produz: quanto mais a fase de
contração do Universo se aproxima do momento de contração máxima
(simetria-do momento-origem da expansão em relação ao momento de
expansão máxima), mais o Universo se toma "espiritual", abandonando
sua matéria, para conservar apenas os pares elétron-pósitron, como
veremos no capítulo seguinte.

A relatividade complexa nos fornece também o modelo cosmológico para


o espaço-tempo do Espírito, isto é, para cada elétron (ver o esquema da
pág. 155).

Como dissemos, trata-se de um microuniverso "fechado", em pulsação


cíclica. Uma característica importante deste microuniverso é que ele
regride com o correr do tempo, o que confere ao elétron as qualidades
neguentrópicas, sobre as quais já falamos. 0 raio desse microuniverso
eletrônico é da ordem das dimensões particulares, e seu período de
pulsação é da ordem também dos tempos na escala particular. Enfim, não
devemos esquecer que, relacionado aos referenciais habituais do espaço-
tempo da Matéria, o elétron aparece como pontual: somente utilizando um
referencial com coordenadas complexas é que se pode descobrir, ao
descrevê-la, a estrutura desdobrada do elétron. Lembre
158

mos, por fim, que a temperatura do espaço eletrônico é da ordem de 100


bilhões de graus.

0 elétron pode "nascer" no decorrer de toda uma gama de interações da


escala nuclear. Desde que ele nasce, começa a "bater" como um coração,
com esta pulsação rápida de seu espaço que já descrevemos. Ao mesmo
tempo, no interior deste minúsculo espaço, a radiação começa a se
ordenar; isto quer dizer que a neguentropia deste sistema não pode nunca
decrescer. Ã medida que aumenta sua neguentropia, aumenta também o
que devemos chamar de as propriedades "psíquicas" do elétron. Pouco a
pouco, de simples objeto obediente às interações puramente físicas que ele
140

é no princípio, o elétron vai se tornar um "objeto obediente às interações


físicas que manifestam interaçóes psíquicas". Reconhecemos quatro
interações psíquicas, que chainamos de Reflexão, Ação, Conhecimento e
Amor.

Vamos voltar, no capítulo seguinte, a esta evolução psíquica do elétron e,


mais amplamente, à evolução psíquica do Universo inteiro.
159

CAPITULO XIV

Uma Cosmologia neognóstica: evolução do Espírito

0 Universo "à espera". - 0 Espírito nasceu. - Os "pares" dos elétrons


positivos e negativos. - 0 povo dos éons tem necessidade de "máquinas". -
A evolução como conseqüência do jogo de quatro interações físicas
"deterministas" e de quatro interações psíquicas "livres".

Procuremos, agora, seguir o desenvolvimento do Espírito, desde o


"começo" do mundo; completemos a Cosmologia da Matéria por uma
Cosmologia do Espírito, pois isto é necessário para termos o que
chamamos uma Cosmologia neognóstica.

Entendamos bem que, tudo o que dissemos sobre a evolução da Matéria


na escala do Universo inteiro permanece válido, e o Espírito deve
desenvolver sua evolução em harmonia com a da Matéria. 0 Espírito
sozinho não é capaz de invalidar as leis físicas da Matéria, tais como são
formuladas pela Física; ele pode, apenas, utilizar estas leis para criar
processos particulares, exatamente como o fazemos na escala humana,
utilizando o nosso próprio espírito.

Assim, a densidade média do Universo ou seu raio ou sua temperatura não


podem ser modificados pelo Espírito. Na medida em que o modelo
cosmológico usado para descrever a evolução destas grandezas é válido e
141

repousa unicamente sobre leis físicas bem estabelecidas (como a


conservação da energia), será necessário que o Espírito se desenvolva
respeitando a evolução inexorável destas grandezas associadas à Matéria.

Se nós situamos o instante zero da vida do Universo no momento do


princípio da expansão (como o fazemos geralmente), então a Relatividade
complexa nos ensina, como vimos, que antes do começo o Universo
estava estático, sem expansão. 0 espaço era esférico, fechado, e possuía
um raio de uma dezena de vezes o de nossa Via-Láctea. A Matéria
particular estava inteiramente ausente e o espaço estava

161

ocupado por uma radiação eletromagnética "negra", com uma temperatura


da ordem de 60.000 graus.

0 universo estava "à espera". Como não havia ainda nenhum elétron, não
havia também nem Matéria particular, nem Espírito. A Luz reinava
sozinha, como nos primeiros dias do mundo, na versão bíblica.

Então, como o Universo vai sair desta "espera"? Três possibilidades


parecem poder ser encaradas.

0 que requer menos energia no domínio da criação de partículas é


certamente a criação de um par de partículas elétron + pósitron. A criação
de um par de partículas mais pesadas, como os nêutrons, por exemplo,
requereria perto de 2.000 vezes mais energia. As atuais observações
experimentais em Física nuclear mostram, entretanto, que não mais do que
um par de elétrons do que um par de nêutrons podem 16nascer" a partir de
um gás de fótons a uma temperatura tão fraca quanto 60.000 graus, que é
a que existia no espaço antes do começo do Mundo. De uma outra
maneira, podemos dizer que a probabilidade para que apareça numa tal
radiação a temperatura relativamente baixa um par de elétrons é nula ...
salvo se dispusermos de um tempo infinito para esperar que se produza
enfim uma tal criação. Mas não foi, precisamente, um tempo infinito que
precedeu o "começo" do mundo? Ninguém pode afirmar o contrário, e
esta possibilidade de um Universo "começando" depois que um primeiro
par de elétrons nasceu, a partir da radiação a 60.000 graus, não pode ser
excluída.

Podemos, também, tentar sustentar que esta primeira criação de um par de


elétrons, que na verdade traz o Espírito para o mundo (pois os elétrons são
142

os portadores do Espírito), é uma obra de origem "divina", isto é, um ato


proveniente do exterior de nosso Universo, um ato que devemos aceitar
como operado ex nihilo quando o consideramos do nosso Universo. Mas
uma atitude rigorosamente científica parece proscrever uma explicação
dos fenômenos que fazem apelo a outra coisa do que àquilo que faz parte
do nosso Universo: esta atitude é justificada pelo fato de que, por
definição, convencionamos designar pela palavra "Universo" o todo. Se
temos de levar em conta um ato "exterior", o Universo não é o todo, o que
é contrário à definição escolhida.

Podemos dizer, enfim, que nosso Universo nasceu a partir de um outro


Universo, este também acessível à descrição da Física (o que não é o caso
de um ato "divino"). 0 instante que chamamos o instante zero seria, então,
aquele em que nosso Universo "se desprende" de alguma forma do
Universo maior que lhe deu nascimento, e assume assim sua
individualidade própria. 0 fenômeno seria comparável ao da duplicação
celular: a partir de uma célula-mãe vão se formar duas células-filhas, e
cada uma vai "nascer" a partir do momento em que

162

as duas células-filhas se desprendem uma da outra e se tornam, cada uma,


um microuniverso independente. Se aceitamos tal eventualidade para
nosso Universo, seria necessário dizer que o instante zero corresponde, de
fato, a uma mudança de estado: inseparável de um "maior do que ele"
antes do seu nascimento, "fabricado" por este maior, nosso Universo, em
um certo momento, se "desprendeu" deste maior e obteve uma autonomia
completa. Desde este instante (o instante do começo), ele principiou sua
expansão. E esta, vimos, deve ser acompanhada imediatamente da criação
de matéria particular, e provavelmente de um par de elétrons, pois esta
criação é a que reclama menos energia.

Esta última idéia do possível nascimento de nosso mundo a partir de um


outro mundo, do qual ignoramos tudo, poderia se ver confirmada pelo
estudo dos buracos negros, dos quais já falamos longamente.

Um buraco negro, relembremos, é produzido por uma estrela que se


aproxima de sua morte: a estrela se contrai sempre mais e mais sob o
efeito das forças gravitacionais, até o ponto em que a densidade de sua
matéria se torna da ordem da da matéria num nêutron. Depois,
bruscamente, esta contração se torna tão forte, a curvatura gravitacional
em torno da estrela se torna tão grande, que a estrela "arrebenta" de
143

alguma forma o espaço-tempo da Matéria, para 16nascer" em um novo


espaço-tempo, com características muito diferentes das do nosso espaço-
tempo da Matéria, e que nós chamamos espaço-tempo do Espírito. Quem
nos diz (pois não vemos nada do que se passa dentro do buraco negro, o
que, aliás, justifica o seu nome) que nosso buraco negro que acaba de
deixar nosso Universo de Matéria não é, ele mesmo, posto em expansão
imediatamente, tornando-se um novo Universo, nascido a partir do nosso
e levando consigo os germes do Espírito? Com a expansão do buraco
negro, seus efeitos puramente gravitacionais sobre nosso espaço, na
vizinhança do ponto onde desapareceu, diminuirão mais e mais (devido ao
crescimento do raio do buraco negro). Finalmente, o buraco negro "se
desprenderia" do nosso próprio Universo e se tornaria um outro mundo,
sem nenhuma relação com o nosso. A Morte seria então, para a estrela
também, apenas uma passagem para um "outro" estado e, na verdade, um
novo nascimento.

Em todo caso, não resta nenhuma dúvida de que o estudo dos buracos
negros, nos próximos anos, demonstrando como morrem as estrelas, nos
trará informações sobre este fenômeno que é, talvez, complementar: o
nascimento do nosso próprio Universo.

Eis que acaba de nascer no nosso Universo, no instante do seu começo,


um par de elétrons. 0 Espírito acaba de se acender a partir da luz original,
Pois é o espaço do Espírito, como vimos, que encerram estes dois
primeiros elétrons do mundo.

163

Um Espírito ainda "vazio", entretanto, contendo somente radiação de alta


temperatura não diferenciada, conferindo aos elétrons suas propriedades
puramente físicas, propriedades que os físicos conhecem bem e chamam
propriedades eletromagnéticas.

Mas sabemos que o elétron possui outras propriedades além das


reconhecidas pela Física atual. 0 elétron encerra um espaço com
neguentropia crescente, no qual o Espírito vai pouco a pouco se
desenvolver, fazendo uso das propriedades "espirituais" que descrevemos:
a Reflexão, o Conhecimento, o Amor e a Ação.

Em resumo, ao lado das quatro interações físicas próprias da Matéria


(interações fortes, fracas, eletromagnéticas e gravitacionais), o Espírito vai
dispor de quatro interações psíquicas (Reflexão, Conhecimento, Amor e
144

Ação). As primeiras interações estão em entropia não decrescente, as


segundas estão em neguentropia não decrescente. A aventura do mundo
vai se construir, assim, sobre uma mecânica que vai jogar com a desordem
e a ordem, uma sendo indispensável à existência da outra.

Nossos dois primeiros elétrons não são idênticos: um é positivo


(chamamo-lo pósitron), o outro é negativo (o elétron).

Não podemos deixar de notar a analogia entre este fenômeno da primeira


criação concernente ao Espírito e o que o Homem sempre adivinhou
intuitivamente e exprimiu sobre esta primeira criação. Chame-se Adão e
Eva, ou Yin e Yang, ou positivo e negativo, não são sempre outras
maneiras de "se lembrar", buscando através de nossa memória suas raízes
eternas no passado, que é um par de objetos portadores do Espírito,
complementares um do outro, que assim principiou toda a aventura
espiritual do nosso Universo? Dois objetos que, acabamos de descobri-lo,
não são senão as duas primeiras partículas, o primeiro "casal" espiritual, o
elétron negativo e o elétron positivo.

A partir do momento em que nasceram os dois primeiros elétrons, o


processo de expansão começa; e, então, é a matéria particular que deverá
nascer, de maneira interessante, a partir da diminuição da energia total da
radiação encerrada no universo, como já explicamos anteriormente.

São os nêutrons que aparecem no espaço. Mas estas partículas vão


desaparecer muito rapidamente: com efeito, a experiência mostra que, ao
fim de uns quinze minutos, um nêutron se transforma em um próton p+
(nêutron associado a um pósitron), um elétron e- e um antineutrino -V~

n ---> p+ + e- + ;v

Este processo corresponde, portanto, ao verdadeiro "nascimento"

164

de elétrons negativos, sempre em maior número. Podemos dizer ainda


que o espaço da Matéria é sempre mais completado pelo espaço do
Espírito. Nesse princípio do mundo, é ainda um Espírito praticamente
I~vazio", com certeza, um Espírito que ainda não teve tempo de
memo-
5 rizar e organizar os pensamentos. Mas é, entretanto, um Espírito "po-
145

tencialmente" pronto para se expandir. Um Espírito pronto a se


lançar
na aventura do Espírito.

Nós vemos, então, sempre mais elétrons negativos libertados no


Uni-
verso à medida que o tempo decorre: mas o que acontece aos elétrons
positivos, no plano de sua função na aventura espiritual do Universo,
os quais são capturados desde o seu nascimento pela Matéria bruta,
isto é os nêutrons, para formar prótons?
Visto que os pósitrons (elétrons positivos) também encerram um
espaço-tempo do Espírito, não há nenhuma razão para pensar que sua
função "espiritual" seja essencialmente diferente da dos elétrons.
Aliás,
quando um pósitron se associa a um nêutron para formar um pró-
ton 1, não se deve pensar que esta associação entre Matéria e Espírito
retirará do pósitron suas qualidades "espirituais". 0 que devemos
admitir logicamente corno mais verossímil é que o Espírito se apre-
senta de maneira estável nas duas formas complementares uma da
outra, o elétron e o pósitron (este último "habitando" geralmente o
próton), e que as funções destas duas partículas na evolução do Espí-
rito são, portanto, igualmente complementares no reino do vivo, o
princípio macho e o princípio fêmea.
Na verdade, como já vimos, a evolução do Espírito passará pela
criação de "máquinas", que permitem aumentar sempre mais o ritmo
da aquisição e a qualidade da informação memorizada. Neste princí-
pio, os elétrons precisam dispor de energia, para em seguida
manipular
esta energia. Entre estas "manipulações" estará, principalmente, a
síntese das substâncias químicas ou o confinamento do calor ou, mais
simplesmente, o deslocamento dos objetos uns em relação aos outros.
É preciso, portanto, que os elétrons e os pósitrons possam se
man-
ter no espaço perto das fontes de energia. Para isso eles vão se apro-
veitar das leis físicas: o pósitron pode se ligar a um nêutron, através
do que os físicos chamam de interações fracas, o nêutron aparecendo
como a fonte de energia mais abundante localizada no espaço da Ma-
téria. Em seguida, o próprio elétron se ligará ao próton, também for-
mado pelas interações eletromagnéticas, fornecendo o átomo de
hidro-
gênio (que representa, como sabemos, em torno de 55 por cento do
otal da Matéria do Universo 1). E eis então, com este primeiro átomo
146

Esta associação é regida pelas interações fracas.


2 0 resto é constituído por 44 por cento de hélio, e 1 por cento
somente de átomos
que pertencem a cerca de uma centena de outros elementos químicos
conhecidos.

165
de hidrogénio, o par de elétron dos dois sinais reunidos, com uma reserva
de energia (a matéria do nêutron) à sua disposição para partir para a
conquista espiritual do mundo.

Trata-se de uma reserva de energia enorme, pois é a partir das reações


chamadas de fusão termonuclear entre os átomos de hidrogénio (aí
incluído o hidrogénio "pesado", ou deutério, cujo núcleo comporta um
nêutron suplementar) que a Matéria espiritual vai "acender" as estrelas.
Com efeito, a evolução verá os átomos de hidrogénio leve e pesado se
juntarem em massas esféricas da ordem de grandeza da de uma estrela;
estas massas vão, em seguida, se contrair sob o efeito da atração
gravitacional e, no núcleo central, a temperatura logo se tornará suficiente
para que se efetuem as reações de fusão entre átomos de hidrogénio,
acompanhadas de um grande desprendimento de calor e de formação de
átomos de héliol. Nesta fornalha dos coraçoes estelares (várias dezenas de
milhões de graus), vamos "cozer" novos átomos, mais pesados do que o
hélio, e que formarão, mais tarde, a matéria dos planetas.

Assim vemos que se multiplica, desde as primeiras horas do mundo, o


"povo" dos elétrons pensantes. 0 Universo vai agora evoluir, apresentando
dois tipos de interações: as interações próprias da matéria bruta, que são,
na ordem decrescente de suas intensidades, as interações fortes,
eletromagnéticas, fracas e gravitacionais; e as interações próprias do
psiquismo, que descrevemos e chamamos de a Reflexão, o Conhecimento,
o Amor e a Ação. Uma Física que não deseja ser "reducionista" deve,
necessariamente, levar em consideração estes dois tipos de interações,
pois é bem evidente que eles interferem, ambos, na descrição dos
fenômenos. É esta Física mais completa que nós chamamos de a Física
neognóstica.

0 jogo complementar das oito interações que acabamos de citar se


desvenda mais ou menos na observação dos fenômenos: de um lado
dependendo da interação cuja intensidade é preponderante, e de outro,
147

dependendo do movimento que é a conseqüência desta interação. Esta


última particularidade é muito importante: pois, na verdade, nossas atuais
experiências em Física apenas revelam o movimento, elas não revelam,
diretamente, exista ela ou não, uma atividade de ordem psíquica que
poderia acontecer nas partículas observadas. Do mesmo modo, vocês não
podem observar diretamente os pensamentos que

3 As reações se escrevem:

'~H +'1D -->'2He + radiação

2He + 1,H --- > 42He + e+ + radiação

166

estão na cabeça de um homem mudo, se ele não traduz estes pensamentos


por uma ação, isto é, um movimento.

Para observar um movimento das partículas que poderíamos atribuir como


conseqüência de uma atividade psíquica, é necessário que, por um lado, a
partícula psíquica execute o que nós chamamos uma Ação (isto é, um
movimento "voluntário"); e, por outro lado, que esta Ação não possa ser
justificada como uma conseqüência das interações puramente físicas
sozínhas.

Observando a Natureza agir no nível elementar, encontramos todas as


gradações entre a ação de origem puramente física e a Ação, isto é, o
movimento que igualmente se vale das interações psíquicas.

A evolução do Universo no seu conjunto, considerada sob o ângulo da


Matéria sozinha, e apreendida, como vimos, através de modelos do
Universo retirados das equações da Relatividade geral ou complexa,
aparece como uma ação puramente física; já enfatizamos este fato de que
grandezas como o raio do Universo, ou sua temperatura, ou sua densidade
cosmológica, ou a densidade média das partículas de Matéria, estão odas
sujeitas unicamente ao grande princípio de conservação da impulsão-
energia 1, são grandezas que caracterizam uma ação puramente física da
Matéria.

Do mesmo modo, a interação física mais intensa (interação nuclear forte)


é tão possante, que é pouco provável que o psiquismo possa transparecer
de maneira concomitante.
148

A interação eletromagnética pode deixar perceber o psiquismo se ela não


contém interações puramente eletrostáticas. Estas são, com efeito,
extremamente fortes, e os elétrons são tão bem "pilotados" por ela, que é
extremamente difícil manter no espaço um campo elétrico qualquer. Os
astrofísicos sabem que a neutralidade eletrostática é, na escala cósmica,
um processo que praticamente domina todos os outros. Em compensação,
em um espaço eletrostaticamente neutro, podemos ver aparecer
movimentos (Ações) diretamente atribuíveis ao psiquismo. Para se
convencer, é suficiente pegar um microscópio e olhar a ,'efervescência
ordenada" dos materiais no interior da célula viva. Explicamos como, na
escala do elementar (uma estrutura do ADN, por exemplo), era por uma
ação "a distância" com os fátons de um espaço cuja topologia é capaz de
confinar uma radiação eletromagnética "negra" (isto é, o calor) que se
poderia explicar o movimento voluntário" das estruturas elementares vivas
(o ARN "mensageiro", por exemplo).

0 psiquismo deve, certamente, poder entrar em competição com as


interações chamadas "fracas" da Física; tal competição deverá se tra

, Com esta particularidade suplementar, já o enfatizamos, de que a


impulsãoenergia algébrica total do Universo deve permanecer
constantemente nula.

167

duzir, no observável, por certos "desvios" das leis puramente físicas, como
principalmente as leis de conservação. Observamos, efetivamente, que, no
decorrer das interações fracas, o princípio de conservação da paridade,
que estipula que a matéria bruta deveria ser incapaz de distinguir sua
direita de sua esquerda 1, é violado. Esta observação é tão importante e
espantou tanto os físicos, que valeu o prêmio Nobel de Física aos dois
americanos Lee e Yang (de origem chinesa) que descobriram este efeito
(1957) 1. É bem possível que se a paridade não é conservada nas
interações fracas é precisamente porque vemos aí, diretamente, uma
intervenção do psiquismo dos elétrons. Quando um princípio de
conservação parece violado em Física, é quase sempre porque esquecemos
de fazer intervir alguma coisa no "balanço" do fenômeno; esta "alguma
coisa" é, geralmente, um fator que ainda não foi descoberto. Isto já foi
verdadeiro com a radioatividade chamada "beta", onde víamos se
desintegrarem núcleos de átomos com aparente violação do sacrossanto
princípio da conservação da energia. Isto conduziu à descoberta do
149

neutrino de que não se fazia conta no balanço de energia dos produtos da


radioatividade ... simplesmente porque ignorávamos sua existência. Em
Física "reducionista", queremos obstinadamente ignorar que poderia haver
ações psíquicas ao nível das partículas elementares; também não fazemos
entrar a possibilidade de tais ações nas interações fracas ... e constatamos,
então, que a lei de conservação da paridade é violada. Observar, como o
fazemos, que esta não-conservação da paridade acarreta que simples
elétronsI sejam capazes de "escolher entre sua direita e sua esquerda"
deveria ajudar também nossos reducionistas a tomar consciência do fato
de que há, talvez aí, um assunto onde o psiquismo intervém de alguma
forma: pois, onde há "escolha", não há também psiquismo, por definição?

Há, também, as interações gravitacionais. Estas são extremamente fracas


quando consideramos a interação de duas partículas entre si; mas se
tornam consideráveis desde que estejamos diante de bilhões de partículas
interagindo gravitacionalmente, como é o caso se considerarmos os efeitos
gravitacionais sobre uma partícula de uma estrela ou de um planeta.

Penso que, em um meio de gravitação nula, como um laboratório espacial


em torno da Terra, por exemplo, certas experiências pondo em evidência
ações psíquicas dos elétrons deveriam ser possíveis. Suprimam, na
verdade, as quatro interações físicas (o que não acon

5 Descrevi este fenômeno na obra La Matière et Ia Vie, op. cil.

6 É necessário relembrar que Einstein teve que esperar dezessete anos


pela "consagração" do Nobel.

7 Trata-se de elétrons emitidos por núcleos de cobalto, nas experiências da


física Wu, que confirmou em 1957 as teses de Lee e Yang.

168

tece nunca em um laboratório terrestre, sempre sujeito à gravidade), e toda


aceleração eventualmente observada será então, necessariamente, neste
caso, de origem psíquica. Em todo caso, parece que todo ser vivo,
libertado da coação gravitacional, deveria ter seus elétrons mais "livres"
para fazer o que julgam que deve fazer, no plano psíquico. Se admitimos,
por exemplo, como o fazem alguns médicos e biologistas', e como eu
mesmo estaria inclinado a pensar, que nossos elétrons "sabem" melhor do
que qualquer um como restabelecer o equilíbrio (isto é, a saúde) de um
organismo doente, não se exclui que uma cura de Ierdeza" favoreça este
150

trabalho eletrônico subjacente. E quando acontecerão estas curas de


lerdeza? Seria necessário, talvez, falar um dia com os nossos responsáveis
pela medicina espacial!

Voltaremos a isso no nosso último capítulo sobre a Cosmologia do


Espírito no Universo, para falar do futuro da aventura espiritual. Mas,
antes disso, iremos estudar, mais detalhadamente, que mecanismos fazem
evoluir o Espírito no interior do espaço próprio a cada elétron. Pois é aí,
finalmente, que se situa a Cosmologia do Espírito.
P. SOLIÉ, Médicine Initiatique, op. cit. Também J. ANDREVA DUVAL,

Introduction aux Techniques Osteopathiques, Maloine, 1976.

169

CAPITULO XV

0 Matricialismo

0 Espírito (se ele existe) não conhece o objetivo final do Espírito. -


Linguagem estruturalista e linguagem matricialista. - 0 sinal e o
significado. - As matrizes da linguagem natural. - A Reflexão cria as
linguagens com significação abstrata e os sinais artificiais. - 0 animal
também conhece as linguagens abstratas. - 0 lugar do Homem no contexto
do matricialismo. - Aventura espiritual cósmica e Reencarnação. -
Conhecimento e Amor como meios do Espírito (se ele existe) para
descobrir o objetivo de sua aventura.

0 Espírito em cada elétron aumenta sua "ordem", dizíamos, à medida que


o tempo passa. Aliás, ele não tem escolha: é feito de um espaço onde a
151

ordem não pode decrescer, um espaço em neguentropia não decrescente.


Portanto, vai utilizar suas quatro interações consigo mes~ mo (Reflexão),
com o mundo da Matéria (Conhecimento e Ação) e com os outros (Amor)
para aumentar sua neguentropia. 0 elétron não considera este aumento
contínuo de sua neguentropia como um objetivo em si, isto é, como o
objetívo da evolução, mas como o meio para tentar descobrir o objetivo da
evolução.

Este objetivo é, com efeito, desconhecido para os elétrons pensantes, que


nos constituem como desconhecido para nós mesmos, Se, entretanto, os
elétrons já tivessem descoberto o objetivo final da evolução, não o
saberíamos, pois quando pensamos são eles que pensam, e quando eles
pensam somos nós que pensamos. Na verdade, cada elétron é como nós: à
medida que ele aumenta suas informações memorizadas, crê entrever um
novo objetivo e o leva em conta para modelar suas ações. Por isto é que
podemos falar de uma "aventura" espiritual do Universo, pois o Espírito se
dirige para o que o Espírito tiver escolhido ser, no decorrer de uma
tomada de consciência cada vez mais elevada. É possível que exista, já o
dissemos, um Princípio de eternidade, que conheceria o objetivo para o
qual deveria se dirigir o Universo se, dispondo de um tempo infinito,
contivesse elétrons pensantes cuja neguentropia tivesse se tornado infinita.
Este Principio
171

de eternidade, nós o chamamos geralmente Deus. Mas, neste caso, a


aventura espiritual do Universo é uma busca de Deus, tanto para os
elétrons que povoam atualmente o Universo como para nós.

0 objetivo de cada elétron, portanto, é, primeiro, aumentar sua própria


neguentropia, na esperança de chegar um dia a descobrir o objetivo de
toda a evolução espiritual.

Como o elétron vai "estruturar" sua memória, isto é, seu espaço psíquico,
para aumentar a neguentropia do seu espaço?

0 elétron vai elaborar uma linguagem, segundo um procedimento que


qualificaremos de matricialista, para distingui-lo do estruturalismo, que
parece prevalecer em algumas teorias atuais da linguagem.

Relembremos, primeiro, de uma maneira bastante esquemática os


elementos essenciais da elaboração de uma linguagem.
152

A partir de um sinal reconhecido no mundo exterior, o pensamento é


capaz de associar um significado, que é na realidade diferente do sinal.
Por exemplo, vemos fumaça (sinal) e a ela associamos à idéia de fogo
(significado); vemos nuvens (sinal) e a elas associamos "vai chover "
(significado); vemos impressões de passos humanos no solo (sinal) e a
elas associamos "um homem passou por aí" (significado). A associação
sinal-significado é geralmente seguida de uma ação. Este encadeamento
sinal-significado-ação é reconhecível em todos os seres vivos.

A congeminação pelo pensamento do sinal e do significado constitui uma


linguagem. Os sinais podem ser naturais, isto é, elementos da realidade
exterior, como a fumaça, as nuvens ou as impressões dos passos nos
exemplos acima. Em resumo, é a realidade exterior que nos fala através
dessa linguagem de sinais, desde que sejamos capazes de associar um
sentido, uma significação, a estes diferentes sinais naturais.

Os sinais podem ser, também, artificiais: escrita, sinais luminosos, música,


pintura etc. Neste caso, o significado não é imediato, não se deduz
diretamente de nossa experiência sensível, é necessário acrescentar-lhe
uma convenção, resultante geralmente de um uso social; a convenção
adotada tem por objetivo principal permitir a comunicação côrnoda entre
os membros da sociedade.

Estes diferentes aspectos da linguagem, que se apóiam no funcionamento


do pensamento, nos permitem encontrar para eles uma correspondência no
plano do funcionamento do pensamento no nível ele

1 Não é possível, naturalmente, entrarmos aqui nos detalhes dos estudos


das numerosas e ricas teorias atuais sobre a linguagem e a semântica.
172

mentar dos elétrons pensantes, pois enfatizamos a identidade entre o


pensamento deles e o nosso próprio pensamento.

0 estado do espaço do microuniverso eletrônico pode ser descrito, como já


o dissemos, pelo estado dos spins dos fótons da radiação "negra" que
ocupa este espaço. Vamos representar simbolicamente este estado do
espaço eletrônico, no nível "virgem", onde ele ainda não memorizou nada,
por uma tabela de números:
153

Esta tabela é uma matriz. Cada casa representa um ponto do espaço


eletrônico, em um dado instante. Como existe uma infinidade de pontos
no espaço encerrado no elétron, por menor que seja este espaço, a matriz
correta deveria, portanto, teoricamente comportar uma infinidade de
linhas e uma infinidade de colunas, e ter três dimensões. Aqui, para
simplificar, contentamo-nos em fazer figurar três linhas e três colunas. Em
cada um dos casos, indicamos o estado de spin do fóton da radiação negra
suscetível de estar presente, neste instante, neste ponto do espaço
eletrônico; simbolicamente, marcaremos com um zero as casas onde não
há fótons 1. Na matriz acima, percebemos três fótons em seu estado
fundamental de spin 1, o que poderia ser a descrição do espaço de um
elétron antes de qualquer memorização de informação.

Vejamos agora como vai ser representado um processo de Conhecimento.


Um sinal do mundo exterior ao elétron (espaço da Matéria) se traduz por
um fóton, que é memorizado pelo elétron no momento em que este fóton
tem uma ação "a distância" com o elétron (o elétron o "vê"), fazendo
passar um dos fótons da matriz para o estado de spin 2:

Este novo estado será chamado de estado memorizado. 0 elétron registrou


o sinal, memorizando um novo estado de sua matriz, em alguma parte,
com um 2 em vez do 1 que existia antes do processo de Conhecimento. Na
verdade, o 2 deve ser interpretado aqui como englobando não somente o
spin 2, mas também o antigo estado de spin 1. Nós insistimos, com efeito,
neste aspecto importante que a anã
2 Na verdade, como o notamos, o spin do fóton só pode ser definido pelo
sinal: o sinal 1 deve ser lido aqui como + 1 ou - 1. 0 spin total (soma
algébrica dos spins) deverá ser sempre 1,
173

lise matemática do estado de "spin máximo 2" de um fóton descreve


perfeitamente: o estado de spin 2 contém o estado de spin 1; não é o 2
154

ocupando o lugar do 1, mas o spin 2 se somando ao spin 1 1. Do mesmo


modo, o spin 3 conteria os estados de spin 1, 2 e 3, e assim por diante. Em
outros termos, o elétron tem aqui, na memória, a antiga matriz virgem
compreendendo somente 1 (uns) e 0 (zeros) mais a nova matriz resultante
do processo de Conhecimento, matriz onde um 2 se substitui a um 1 na
matriz virgem, em uma determinada casa:

Suponhamos um novo ato de Conhecimento, semelhante ao precedente:


um sinal do mundo exterior, se traduzindo por um fóton, induz, na
memória do elétron, uma nova ascensão do spin em uma casa, de 1 para 2:

Esta matriz é o estado memorizado do novo sinal. Desta vez, a memória


do espaço eletrônico está "carregada" de quatro matrizes, com as seguintes
significações, em cada instante:

1 A expressão "spin máximo 2" para designar esta "acumulação" dos


estados de spin (o spin 2 contendo o spin 1) foi escolhida por Louis de
Broglie (Theórie Générale des Particules à Spin, Gauthier-Villars, 1954),

174

Não reconheço nenhum sinal Reconheço o primeiro sinal


no meio exterior no meio exterio

Reconheço o segundo sinal Reconheço os dois sinais


no meio exterio no meio exterior
155

E assim por diante. Se os dois sinais precedentes aparecem


simultaneamente no espaço exterior, o estado memorizado será traduzido
pela quarta matriz, diferente das duas matrizes correspondentes a um só
dos dois sinais ou à primeira matriz (ausência de sinal no espaço exterior).

É claro que um sinal do mundo exterior se traduz, geralmente, não apenas


por um só, mas por todo um conjunto de fótons. Há, portanto, uma
correspondência entre a "geografia espacial" dos fótons do mundo exterior
captados pelo elétron e a "distribuição espacial" dos estados memorizados
de spin no espaço do elétron. Assim o lugar relativo dos 2 nas matrizes
precedentes não é indiferente ao significado. Por exemplo, as duas
matrizes:

175

traduzem sinais e significados diferentes, a despeito do fato de que elas


possuem tantos fótons quanto um estado de spin 2. As informações
conhecidas se distinguem, portanto, ao mesmo tempo pelos estados de
spin, como também pela distribuição espacial relativa a estes estados de
spin no interior do espaço eletrÔnico.

Depois deste processo de Conhecimento, o elétron vai ser capaz de uma


operação de Re-Conhecimento. Com efeito, à medida que o elétron
memoriza as diferentes matrizes, elas se gravam no seu espaço. Mas, em
cada urna 1 de suas pulsações repassam todos os estados memorizados, no
decorrer deste mecanismo de "retorno do tempo", do qual o elétron é o
objeto, como já falamos longamente. Assim, em cada pulsação, o elétron
verá "desfilar" as quatro matrizes precedentes, após a memorização dos
dois sinais. Se os mesmos sinais se reapresentam novamente no espaço
exterior, em um instante posterior da vida do elétron, vai haver
coincidência da nova matriz memorizada com uma matriz antiga já
memorizada. 0 elétron vai "reconhecer" esta repetição; gradualmente,
depois de um número suficiente de repetições, o elétron vai dar um
significado à memorização de matrizes "vizinhas" daquelas já
memorizadas, estabelecendo uma correspondência com o conjunto de
sinais exteriores que aparecem em instantes diferentes, mas que
apresentam de cada vez uma certa "semelhança". Este conjunto de
156

matrizes memorizadas será chamado de conjunto significado de um


conjunto de sinais.

Ações poderão ser consecutivas aos estados significados, assim


reconhecidos a partir do mundo exterior ao elétron.

Em resumo, podemos dizer que o Conhecimento, pouco a pouco, permite


ao elétron interpretar, através de significações, o conjunto dos sinais que
percebe "a distância" provenientes do Universo da Matéria. Na verdade é
uma "interpretação", pois as tabelas das matrizes não são evidentemente o
próprio mundo exterior 1, formam apenas uma representação simbólica, à
qual o elétron atribui uma significação.

Mas eis que, através do processo do Amor, o elétron vai poder


compreender diretamente as significações em um outro, entenda-se, em
um outro elétron.

Desta vez o processo "enriqueceu" em matrizes memorizadas um e outro


dos dois elétrons. Ele se estabeleceu como uma espécie de

4 Lembremos que há aproximadamente 1023 pulsações por segundo.

5 É o que observava o pai da semântica geral, Alfred Korzybsky,


enfatizando que "o mapa não é o território" (Seience and Sanity).

176

.'complementação" de um pelo outro'. Depois da operação de troca, cada


um dos elétrons será capaz de dar uma significação a sinais que,
entretanto, ele mesmo ainda não reconheceu no mundo exterior da
Matéria. É um processo que chamamos de "instinto inato" no animal; os
157

pais transmitem ao filho seu conhecimento e sua habilidade. Pois o Amor,


se o considerarmos desde o nível elementar, começa no instante da
fecundação; a criança aprende enquanto cresce no ventre materno, ou
enquanto a mãe choca seus ovos; e o Amor da mãe por seu filho começa,
portanto, bem antes daquilo que costumamos chamar o nascimento 1.

Vejamos, agora, como vai acontecer o processo que chamamos de


Reflexão. Distinguimos dois aspectos desta Reflexão.

No primeiro aspecto, que descrevemos no capítulo X1, a Reflexão é o


processo "espelho" do Conhecimento. 0 sinal exterior provoca, então, uma
significação:

Conhecimento: sinal exterior significação.

A Reflexão permite ao elétron de ele próprio manifestar, através de uma


Ação, o mesmo sinal exterior, a partir da significação memorizada:

6 Notamos que, para que a troca seja possível, é necessário que os dois
elétrons já possuam, antes da troca, uma distribuição espacial
"complementar" dos fótons que se vão trocar. É necessário ser
"esteticamente" complementar para "se aceitar% em uma justa de Amor
(com A maiúsculo), que enriquece espiritualmente um e outro.

7 Aliás, como já disse anteriormente, estou persuadido de que este


Conhecimento
adquirido através do Amor prossegue, ainda, depois do nascimento da
criança.
Isto, tanto nos animais como entre os humanos.
177

Reflexão: significação o manifestação de um sinal exterior


(Ação).

Experimentei por acaso e pela primeira vez uma maçã colhida da árvore
(sinal do mundo exterior); memorizei este conhecimento através de uma
significação (gosto do sabor da maçã). Mais tarde, o sinal exterior que
representa a maçã pendurada no galho da árvore desencadeia em mim uma
reflexão da experiência vivida anteriormente: a significação memorizada
do sabor da maçã me faz a mim mesmo manifestar um sinal exterior (uma
Ação); estendo o braço, por exemplo, para apanhar a maçã da árvore e
comê-la.
158

A reflexão pode, também, apresentar um segundo aspecto, desta vez mais


"sofisticado".

0 elétron dispondo de alguns estados memorizados vai ser capaz, com a


conservação da neguentropia total do seu espaço, de deslocar os estados
de spin uns em relação aos outros no seu espaço, obtendo arrumações
espaciais relativas diferentes dos elementos de suas matrizes de
memorização. Por exemplo, partindo de uma matriz:

a Reflexão vai permitir ao elétron construir as seguintes matrizes:

o que proporciona ao elétron matrizes suplementares, elaboradas pelo


próprio elétron no decorrer do tempo, as novas matrizes se caracterizam
pelo mesmo spin total, mas com uma modificação da distribuição espacial
relativa dos spins, em relação às matrizes iniciais.

Isto vai permitir ao elétron descobrir significações que não correspondem


a nenhum sinal natural observado. Mas este processo, que representa um
funcionamento possível do pensamento, não é ainda uma linguagem. Para
que seja uma linguagem, é necessário

178

fmr corresponder um sinal, então artificial, à significação descoberta.


Aqui, portanto, a significação precede o sinal, a significação é chamada de
abstrata e o sinal, de artificial. 0 sinal poderá, por exemplo, ser
representado por uma Ação particular do elétron, por um movimento. A
observação desta Ação pelo outro (um outro elétron), entretanto, não
corresponderá imediatamente à significação que o sinal é suposto traduzir.
159

Na verdade, existe aí uma parte de convenção; o elétron que inventou uma


significação em seguida a uma Reflexão traduziu esta significação por
meio de um sinal artificial, que escolheu mais ou menos arbitrariamente.
Um outro elétron deverá, portanto, se iniciar nesta linguagem abstrata, por
um processo simultáneo de Conhecimento (leitura do sinal artificial) e de
Amor (leitura do significado abstrato no elétron "inventor").

Podemos ilustrar este processo de Reflexão da seguinte maneira: percebo


um bisão no mundo exterior (sinal); eu o memorizo e lhe atribuo uma
significação (Conhecimento). Mais tarde começa a correr o processo de
Reflexão, invento uma "variação abstrata", a partir do estado memorizado
que corresponde à significação "bisão visto no mundo Vterior"; esta
variação me conduz a desenhar no muro de minha caverna (Ação) a
imagem de um bisão (sinal artificial). Entretanto, este desenho não é
imediatamente interpretado pelos outros (uma criança pequena não o
compreenderá imediatamente, por exemplo). Com efeito, no desenho há
uma parte de "convenção", que o outro e eu devemos aceitar de comum
acordo, a fim de que o outro atribua, também, uma significação (então
abstrata) a este sinal artificial que traduz o desenho do bisão. Mas, desde
que esta convenção for estabelecida entre mim e outro, então meu sinal
artificial ter-se-á tornado o elemento de uma linguagem entre mim e o
outro.

Esta linguagem abstrata parece mais difícil de manejar que a linguagem


natural que nos coloca em relação com a Natureza; entretanto,
constatamos sua existência tanto no Homem quanto entre os animais, ou
os vegetais. E, muitas vezes, quando cremos que uma espécie animal só
dispõe de uma linguagem muito rudimentar, é em grande parte porque,
nós os Homens, somos incapazes de compreendê-la.

A linguagem animal não se apóia, tanto quanto a nossa, na palavra; mas é,


certamente, mais rica no plano dos gritos, dos cantos, das atitudes, das
mímicas, das cores, dos odores ... E, em cada vez, se estabèleceu uma
"convenção social" entre os animais de uma mesma espécie para associar
o significado ao sinal, isto é, para elaborar uma verdadeira linguagem
abstrata.

Seria necessário relembrar aqui as célebres experiências de Karl

179
160

von Frisch com as abelhas 1. Através de movimentos muito precisos,


semelhantes aos de uma dança, uma abelha é capaz de transmitir à
colméia uma mensagem como a seguinte "Vocês encontrarão em uma flor
de ciclâmen, numa direção que faz ângulo sul de 30 graus com a direção
presente do sol, a 600 metros de distância, comida em grande quantidade".

Sublinhamos as palavras-chave, que a abelha elabora e transmite através


de uma linguagem dançada. Quantas vezes vocês obtêm indicações tão
precisas, quando perguntam sobre o caminho a seguir, por exemplo?

Todas as sociedades animais, se bem que em graus diversos, possuem


assim sua linguagem abstrata de comunicação. Geralmente ignoramos, por
exemplo, que dez significações diferentes até o momento foram
reconhecidas nos "gritos" da galinha. E, se a maior parte dos
pesquisadores não distinguem, hoje, mais do que quinze ou vinte
vocalizações diferentes nos macacos uivadores, isto não prova que estas
vocalizações não sejam em realidade muito mais numerosas, tendo cada
uma uma significação (com o risco de estas vocalizações terem passado,
até aqui, desapercebidas dos pesquisadores!).

Isto não quer dizer também que não existam, nos processos psíquicos que
agrupamos sob o nome de Reflexão, diferenças quantitativas entre o
Homem e o animal; reconhecemos de bom grado que a Reflexão humana,
considerando o que podemos hoje conhecer, parece mais rica e com mais
variações do que a Reflexão animal e, evidentemente, que a Reflexão
vegetal ou mineral. Mas isto significa que níveis diferentes de
neguentropia acompanham o processo de Reflexão. A Reflexão no espaço
dos elétrons de uma abelha é, sem dúvida, executada em neguentropia
mais fraca do que no espaço dos elétrons de um Homem; mas,
qualitativamente, são os mesmos tipos de mecanismos que estão à
disposição para estabelecer uma linguagem.

Não tentamos aqui recusar ao Homem uma provável preponderância sobre


o reino animal, sob o ponto de vista do estado neguentrópico de seus
elétrons; mas não encontramos barreira ou limite que interdite de passar
continuamente do mineral para o vegetal, do vegetal para o animal e do
animal para o Homem. A transição se opera através de um enriquecimento
progressivo, no decorrer do tempo, do nível neguentrópico dos elétrons
que pertencem aos diferentes reinos que acabamos de citar. Posso ilustrar
este ponto de vista dizendo que não existe, na minha opinião, maior
diferença entre um macaco e um bebé humano do que entre este bebé
161

humano e um homem adulto. A diferença está no nível neguentrópico dos


elétrons, e nós nos encontramos

' Karl von Frisch obteve o prêmio Nobel de biologia e de medicina em


1973, como recompensa destes trabalhos.

180

psiquicamente tão próximos do macaco quanto da criança pequena. Além


disso, é preciso também sublinhar o fato de que se o Homem parece
superior ao animal na leitura dos sinais artificiais, o animal, em
compensação, parece bem superior ao Homem na leitura dos sinais
naturais,- os animais, como se sabe, são capazes de reconhecer bem
melhor do que nós os prenúncios de uma tempestade ou de um terremoto,
ou capazes de se orientar no espaço, ou capazes de descobrir quais os
produtos naturais que podem curá-los. Esta compreensão da linguagem
natural não vale, sob certos aspectos, a compreensão da linguagem
abstrata? E quem poderia nos garantir que os progressos do Homem na
elaboração das linguagens abstratas, que parece ser acompanhada de uma
"cegueira" parcial em face das linguagens naturais, não é prejudicial ao
futuro humano, que o povo dos elétrons deixará, talvez um dia, de
considerá-la como uma "máquina viável" para atingir seu objetivo? Pois,
quem pode, nas nossas civilizações ditas avançadas, compreender a
linguagem da rocha ou da árvore? Como se o Homem pudesse se permitir
evoluir sozinho, sem se preocupar com as forças subjacentes que atuam
um pouco por toda a parte, no imenso Universo que lhe deu a vida!

Creio que também é estupidez querer forçosamente "hierarquizar no


absoluto" o Homem, o animal, o vegetal e o mineral, do mesmo modo que
tentar hierarquizar no absoluto a calculadora, a televisão e a roda. Todas
estas "invenções" são, em última análise, a obra do Espírito, isto é, as
criações deste grande povo dos elétrons pensantes. Estas "máquinas"
foram inventadas para aumentar a neguentropia de cada espaço eletrônico
e com meios concorrentes para fazer esta operação. A calculadora pode
parecer superior à roda: mas peçam à calculadora para levá-los para casa;
talvez vocês mudem de idéia! E se o animal deve raciocinar tão "torto"
como nós, eu me pergunto o que pensariam do nosso nível psíquico as
aves migradoras, descobrindo que, como o Pequeno Polegar, precisamos
"deixar bolinhas de pão para reencontrar nosso caminho quando estamos
perdidos no grande bosque"!
162

Dito isto, entretanto, creio que os elétrons pensantes, que são o verdadeiro
suporte da aventura espiritual do Universo, efetuam espécies de
"andanças" de uma máquina para outra como se, depois de terem esgotado
ao máximo os meios para aumentar sua neguentropia em uma dada
espécie, decidissem prosseguir a sua carreira numa espécie vizinha.

Creio também, por que não, que existe sem dúvida uma "ordem" segundo
a qual os elétrons efetuam este "giro das espécies" e preparam, como os
artesãos dos séculos passados, a sua "obra-prima", isto é, sua realização
neguentrópica ótima, em uma dada época da
181

aceitos em uma espécie viva caracterizada por elétrons de nível


neguentrópico mais elevado. Enquanto os elétrons não tiverem atingido
,este nível, serão rejeitados e deverão viver ainda uma ou muitas
existências em uma espécie similar àquela que acabaram de deixar.

Está clara, portanto, a utilidade de se esforçar por fazer crescer sua própria
neguentropia durante cada existência vivida, visto que o meio essencial de
progressão do psiquismo, isto é, também da consciência, tanto na escala
do Universo inteiro como na do "Eu" do elétron individual, é fazer crescer
sempre mais a neguentropia do espaço do Espírito.

Então, nós começamos a ver aparecer progressivamente a profunda


significação destas operações que são o Conhecimento, o Amor, a
Reflexão e a Ação. Se sentimos, mais ou menos confusamente, que a vida
"é feita" para dar livre curso, o maior possível, a estas quatro operações, é
que elas correspondem ao eixo fundamental em torno do qual o Universo
enrola sua evolução psíquica para frente: o eixo da neguentropia
crescente.

Portanto, quem duvidará, no mais profundo de si mesmo, de que sua vida


está "bem" utilizada quando ele procura "ser mais" no plano do
Conhecimento e do Amor?

Quem não perceberá, refletindo um pouco e deixando falar o íntimo de


seu ser, que "avança" colocando sua Reflexão e suas Ações a serviço de
mais Conhecimento e de mais Amor?

Será necessário que, cada um de nós, reencontremos um pouco mais esta


"voz interior", que sabe o caminho, pois este caminho é o seu. Mas é
também o nosso. Um caminho que, olhando bem, nos foi proposto por
163

todos os profetas de todas as religiões de nossa Terra. Estes, sem dúvida,


melhor que os outros humanos, conseguiram se exprimir e souberam
traduzir, em uma linguagem humana, a voz do psiquismo universal
interior. Saber escutar os que se exprimem no mais profundo de si
mesmos, antes de falar do mundo exterior, é a palavra do sábio e do
profeta.

183

CAPITULO XVI

0 Futuro desconhecido

Retorno sobre a Cosmologia do Universo do Espírito. - Podemos prever a


evolução "determinista" da Matéria. - 0 Espírito tece sempre mais sua
malha no espaço. - Os "pequenos homens verdes" são, talvez, as partículas
da radiação cósmica. - 0 Universo expele pouco a pouco a Matéria, para
conservar somente o povo dos íons. - Nosso “Eu” e a "última máquina".

Gostaríamos de procurar examinar, neste último capítulo, como evolui o


grande povo dos elétrons psíquicos do Universo, não nos limitando mais,
como acabamos de o fazer, a estudar a evolução psíquica de cada um dos
indivíduos que formam este povo, mas considerando este povo dos íons
como uma coletividade ou, também poderíamos dizer, como um "grupo
social". Em outros termos, quais são as perspectivas de evolução do
psiquismo na escala do Universo inteiro, quais são os objetivos do
Espírito, que "máquinas" o Espírito deverá inventar para progredir ainda
mais? E também, há um fim nesta evolução, e qual é então este fim?

Desde que nos colocamos na escala do universo inteiro, é necessário, a


qualquer preço, que tomemos cuidado, a cada instante, para não cair no
erro corriqueiro do antropocentrismo.
164

Do mesmo modo, também não queremos, sob pretexto de evitar este


antropocentrismo, rebaixar exageradamente o papel do Homem na
História universal. E vimos, no capítulo precedente, que o Homem
representa, sem dúvida, um ser cujos elétrons possuem o mais alto nível
neguentrópico, ao menos na nossa Terra. Mas é sobre o Cosmos inteiro
que nosso olhar deve se dirigir, principalmente para procurar abraçar a
História do mundo, evitando, como enfatizamos às vezes, que as árvores
nos escondam a floresta.

É principalmente sobre o modelo cosmológico, que conta a História da


Matéria, que falaremos primeiro. Pois, já percebemos, não há aventura do
Espírito que possa ser independente da aventura da Matéria.

Que nos diz o modelo cosmológico deduzido da Relatividade complexa,


que prolonga e precisa essas deduções da Relatividade geral de Einstein?
Que na sua primeira fase evolutiva o Universo está em expansão; e que,
durante esta fase, a massa total da Matéria particular (elétrons, prótons ...
), nula no princípio da expansão, torna-se cada vez maior, para atingir seu
[ca1] Comentário: -Reportemo-nos ao
máximo quando o raio do Universo for máximo 1. esquema de evolução do universo do
capítulo XIII.

[ca2] Comentário: Os pósitons estão


Durante toda a duração desta expansão, os pares elétron/pósitron 2 geralmente associados aos nêutrons para
formar os prótons.
aumentam igualmente em número, sumariamente no mesmo ritmo que
aumenta a Massa da Matéria particular.

Estaríamos, atualmente, numa idade do Universo que se situa entre 10 e


18 bilhões de anos, 15 bilhões representando uma aproximação
[ca3] Comentário: Ainda que as
conveniente 3. medições mais recentes pareçam sugerir 10
a 12 bilhões de anos somente. Mas, é
necessário a ser precavido e esperar outras
confirmaç
As medições em curso, sobre o "retardamento" da expansão parecem
indicar que não estamos muito afastados do máximo da expansão.

Depois de ter atingido esta expansão máxima, o Universo vai entrar numa
fase de contração. Ela será tão longa quanto a fase de expansão
(aproximadamente 15 bilhões de anos), e terminará com um retomo do
Universo a um estado estático, de duração indeterminada, durante o qual
não haverá nem contração, nem expansão, exatamente como era antes do
princípio da expansão original.

Como no começo do mundo, esta fase final será caracterizada por uma
energia nula da Matéria particular, com uma ressalva essencial a fazer
entretanto, como veremos, concernente aos pares elétron/pósitron; aliás, a
165

temperatura final do Universo será como no princípio, composta de uma


radiação negra com 60.000 graus.

Todavia, vai existir uma diferença fundamental entre o estado inicial e o


estado final do Universo: enquanto que a energia nula da Matéria estava,
no estado inicial, traduzida por uma ausência completa de partículas tais
como elétrons, nêutrons, etc., a energia nula da Matéria particular, no
estado final, só é nula algebricamente, pois o espaço do Universo está
agora cheio de pares pósitronIelétron; estes, como sabemos, têm energias
iguais, mas de sinais contrários. Dizendo de outra maneira, a fase final
será diferenciada, pois sabemos agora que os pares elétron/pósitron são
portadores do Espírito no Universo; que cada elétron e cada pósitron
contém um espaço onde está inscrita sua história espiritual, uma história
que está memorizada e que ainda está presente no fim dos tempos, no
momento em que o Universo termina a sua última fase de contração.
Portanto, são os nossos próprios "Eu", de nós humanos, que estarão
presentes nesta última fase.

Mas como as partículas "pesadas" de matéria, principalmente os nêutrons,


puderam desaparecer no decorrer da fase de contração, para somente
deixar subsistir urna matéria particular feita de pares elétron/ pósitron?

Durante todo o período de expansão, como já explicamos, a radiação


[ca4] Comentário: -Isto é, sem troca de
inicial contida no espaço se relaxa "adiabaticamente 8"; isto provoca, calor com a matéria do nosso Universo
(estaticamente).
segundo as leis conhecidas concernentes à distensão de gás de fótons, uma
diminuição da energia total do gás; esta deverá ser compensada (para
conservar a energia total do Universo) por um aparecimento de energia
sob uma outra forma: será sob a forma de partículas elementares de
matéria bruta, os nêutrons.

Quase simultaneamente aos nêutrons, vimos, aparecem os pares


elétron/pósitron. Com efeito, a Física nuclear nos indica que um néutron
livre no espaço se transforma, no quarto de hora seguinte ao do seu
nascimento, em um próton (pósitron + nêutron) e um elétron.

Mas, durante o período de contração, se produzirá o fenômeno inverso: o


gás de fótons se comprime, aumenta a sua energia total e, para equilibrar
esta produção de energia, é necessário que energia seja expelida, sob uma
[ca5] Comentário: -Em resumo, é o
forma qualquer, para o exterior do nosso Universo 9. processo inverso da criação ex nihilo da
matéria de Hoyle, Bondi e Gold.

Podemos pensar, primeiro, que expulsão da energia acontece segundo o


processo inverso àquele que assistimos na fase de expansão. Em uma
166

primeira etapa, os prótons se tornam novamente nêutrons, ao se livrarem


[ca6] Comentário: -O antineutrino é
de seu pósitron 10: exigido na reação para assegurar a
conservação do spin total.

P -- N + e+ + -
y

Depois, em uma segunda etapa, os nêutrons desapareceriam para


compensar a energia liberada pelo gás de fótons em compressão
adiabática.

Mas é mais provável, entretanto, que a Matéria seja expelida por um


processo diferente, que vamos explicar.

É necessário notar, com efeito, que, se a reação de criação de prótons a


partir dos nêutrons:
N P + e- + Y
se realiza espontaneamente nas condições "ordinárias" de pressão e de
temperatura, não se dá o mesmo na reação inversa de transformação dos
prótons em nêutrons, com emissão de pósitrons e+, tal como a
descrevemos acima; uma tal reação exige, principalmente, condições de
pressão extremamente elevadas.

Estas condições, encontramo-las na fase final de contração de uma estrela,


no momento em que os átomos da estrela estão tão comprimidos uns
contra os outros que as órbitas eIetrônicas não podem mais subsistir e que
a matéria da estrela está, então, prática e exclusivamente reduzida aos
[ca7] Comentário: É o que chamamo
nêutrons apertados uns contra os outros 7. de uma estrela-nêutrons. Os pulsres são tais
estrelas terminando suas existências.

Admitiremos, portanto, que é no decorrer da formação destas estrelas


feitas unicamente de nêutrons que os pares elétron/pósitron, que entravam
nos átomos, são restituídos ao espaço.

Resta, então expelir do nosso espaço a estrela de nêutrons, a fim de


compensar, como já dissemos, o aumento de energia do gás de fótons em
contração.

Parece que já assistimos a este processo com os "buracos negros". Com


efeito, quando uma estrela fica reduzida, depois de ter queimado todas as
suas reservas de combustível, a seus nêutrons amontoados uns sobre os
outros, ela tem a tendência de se contrair cada vez mais sob a influência
das forças gravitacionais. Isto leva um certo tempo, pois tais estrelas de
[ca8] Comentário: Isto resultaa da
nêutrons têm, geralmente, uma rotação muito rápida sobre si mesmas 12. conservação do momento angular de
rotação durente a contração da estrela.
167

Esta rotação cria forças centrífugas que tentam se opor à contração


gravitacional. Mas a rotação perde progressivamente velocidade, pois
estas estrelas de nêutrons emitem uma radiação eletro magnética, cuja
energia é precisamente tomada de empréstimo à rotação da estrela sobre si
mesma. De tal modo que, pouco a pouco, a estrela de nêutrons continuará
a se contrair ... até o momento em que ela "rompe", literalmente, nosso
espaço da Matéria e se torna um buraco negro, como explicamos
detalhadamente no capítulo IV. A última fase de contração do buraco
negro consiste em se "desligar" do nosso Universo e, em conseqüência,
retirar de nosso Universo a energia correspondente à massa do buraco
negro que desaparece.

Assim se explicaria, o processo físico de eliminação da Matéria de nosso


Universo, que deve necessariamente acompanhar a fase de contração de
nosso Universo.

0 aspecto desta História da Matéria, que nos interessa mais


particulannente no plano da História do psiquismo, é que, no fim deste
período de contração do Universo, não restará mais nenhuma matéria, ao
menos sob a forma sob a qual atualmente consideramos a matéria, isto é, a
forma de um aglomerado mais ou menos importante de partículas
nucleares (nêutrons e prótons). Restarão, somente, pares elétron/pósitron,
boiando em uma radiação negra cuja temperatura deve permanecer
[ca9] Comentário: Não levamos em
constante, com um valor aproximado de 60.000 graus 13. A constância consideração, aqui, o que chamamos de
densidade cosmológica, eu assegura a
desta temperatura impedirá que os elétrons e os pósitrons se recombinem curvatura de conjunto do Universo, e que
valerá aproximadamente 10 -16 g/cm3 no fim
entre si, para dar uma radiação eletromagnética, pois esta radiação do mundo, que era também o seu valor ao
começo.
conduziria a uma elevação da temperatura “negra".

E o que terão se tornado, no momento deste "fim do mundo" os planetas


como a nossa Terra? Eles terão desaparecido bem antes da estrela em
tomo da qual giravam (nosso Sol, por exempio). As teorias atuais sobre o
envelhecimento das estrelas nos indicam, com efeito, que, quando elas se
aproximam de sua fase "final", começam por se dilatar, antes de se
contrair. Prevemos assim que o nosso Sol se dilatará a ponto de, em um
certo momento, chegar a queimar nas chamas de sua superfície
minúsculos objetos como os planetas que o rodeiam. Isto acontecerá para
a nossa Terra quando o raio do Sol tiver sido multiplicado por 100 ... o
que levará, felizmente, ainda uns bilhões de anos.
168

Eis um ponto interessante que parece ter sido adquirido: o "Juízo Final"
não poderá ser sobre seres ainda constituídos de Matéria, pois eles não
existirão mais. Estes seres só poderão ser pósitrons e elétrons. Estas
partículas poderão estar ou sulcando livremente o espaço, ou agrupadas
em pares, girando uma em torno da outra, constituindo o que chamamos
[ca10] Comentário: Os átomos de
um átomo de positrônio 14. positrônio são instáveis no espaço atual:
têm a tendência de se desintegrar
espontaaneamente, produzido radiação.
Mas, no espaço de te4mperatura “negra”
Estes elétrons disporão do meio "térmico" necessário para lhes permitir imposta e constante, como será o caso no
estado final do Universo, os átomos de
executar Atos (isto é, movimentos deliberadamente escolhidos). Com positrônio serão necessariamente estáveis.

efeito, vimos que o processo do Ato eletrônico reclamava ter o elétron


boiando em uma radiação térmica com temperatura suficiente.
Observamos que o Vivo nos dera um exemplo de como os elétrons
"sabiam" criar este meio térmico, modificando a topologia do espaço. No
fim dos tempos, este meio térmico indispensável aos Atos eletrônicos terá
sido criado pela evolução do Universo da Matéria, e os elétrons poderão
dispor dele à vontade, qualquer que seja o ponto do espaço onde
desejarem se localizar. Jamais cessaremos de nos maravilhar com os
"mecanismos" naturais! ,

0 resultado do psiquismo é, portanto, um estado do Universo levado por


um povo de elétrons pensantes ou éons, cujos microuniversos possuirão
uma neguentropia que se elevará continuamente, ao longo de toda vida
"pulsátil" do Universo da Matéria.

Podemos procurar saber, ou melhor adivinhar, como evoluirá o psiquismo


Universal entre a época atual e o estado final do Universo?

Dissemos que os elétrons vão utilizar suas propriedades "espirituais", que


têm por base a Reflexão, o Conhecimento, o Amor e a Ação, tendo como
"intenção" aumentar sempre mais a sua neguentropia para tomar melhor
"consciência" do Universo e para melhor precisar o objetivo final que
desejam adotar.

Vimos que esta evolução neguentrópica passava pela criação de


"máquinas", que chamamos de mineral, vegetal, animal e humano; e ainda
de outras maquinas, sem dúvida, quando em vez de nos limitarmos a
considerar a nossa Terra, englobamos os bilhões de outros planetas que
[ca11] Comentário: Os estudos
povoam o nosso Universo 15. teóricos e experimentais mais recentes
(1977) confirmam que ao menos 20% das
esrelas são rodeados de planetas, como é o
caso nosso Sol.
Nós percebemos algumas leis às quais está submetida a elevação da
neguentropia: como aquela segundo a qual as "máquinas" deveriam juntar
elétrons de níveis neguentrópicos vizinhos. Isto provoca a "reencarnação"
169

dos elétrons em sucessivas existências de personagens "temporais", que


são sociedades de éons capazes de trocar nas melhores condições
Conhecimento e Amor. Toda "máquina", quer a chamemos de mineral,
vegetal, animal ou de humana na nossa linguagem do Homem, é uma tal
sociedade de éons.

0 objetivo atual destas sociedades parece ser procurar se comunicar com o


meio natural exterior, compreendendo também as outras socie.dades de
éons (isto é, outras "máquinas"), a fim de aumentar sempre mais a
neguentropia dos participantes da sociedade (isto é, os éons). Assim,
através de sucessivas existências no interior ' destas sociedades de éons,
onde foram aceitos para a duração de uma vida, cada éon eleva sempre um
pouco mais suas qualidades espirituais, ou seja, seu Espírito. A ascensão
espiritual acontece no plano coletivo ao mesmo tempo que no plano
individual. Não se produz nenhuma "mistura" das qualidades espirituais
no Aecorrer de tal aquecimento geral do Espírito no mundo: cada éon
possui uma história espiritual pessoal, permanece Icele mesmo", com seu
próprio passado, sua própria memória, diferente da de seu vizinho. E, no
entanto, é sempre unindo mais sua "pessoa" à pessoa do outro que o ritmo
de aquisição da neguentropia pessoal sobe. É se tornando mais unido que
o éon se torna mais ele mesmo. 0 povo dos éons aparece como tendo
sabido realizar perfeitamente este objetivo tão procurado da "unidade na
diversidade".

Para inventar suas novas máquinas, para "evoluir", o povo dos éons "se
informa" sobre a situação exterior, estabelecendo por Conhecimento e
Amor ligações não somente no tempo mas ainda no espaço.

As ligações no tempo, vimos, são as da memória, que cada éon possui no


plano individual, e também as ligações no tempo que o Amor permite, no
decorrer do qual cada éon de um par vem trocar fragmentos de sua própria
memória, desde a origem dos tempos, com os fragmentos da memória do
outro parceiro do par.

As ligações no espaço são as que, naturalmente, se estabelecem entre éons


provenientes de lugares muito diferentes de nosso Universo.

Primeiro, sobre nossa Terra. Se queremos nos convencer das trocas que
acontecem entre o psiquismo de nossos próprios elétrons e o psiquismo
dos elétrons de países afastados, é suficiente ver os novos critérios físicos
e espirituais que aparecem em um homem que passa um período
importante de sua vida em um país estrangeiro. Não é raro se ver desenhar
170

na face de um europeu que viveu muito tempo no Oriente os traços que


caracterizam a cara de um asiático,

Mas a vida "eônica" ambiciona estabelecer ligações espaciais em uma


escala muito mais ampla do que somente o nosso planeta. Nossa Terra,
por exemplo, é sem cessar o alvo de bilhões de partículas elementares
carregadas, que atravessam a imensidão do espaço cósmico em uma
velocidade prodigiosa e são chamadas de partículas primárias da radiação
cósmica. Estas partículas são, na maioria, prótons; mas encontramos
também elétrons. Suas velocidades são tão grandes que elas atravessam
distâncias enormes em tempos relativamente curtos. Com efeito, sabemos
que a Relatividade mostrou, e a experiência demonstrou, que quando
viajamos no espaço em velocidades muito próximas à da luz
envelhecemos menos rápido. Um próton que se deslocasse exatamente na
velocidade da luz (que é, como sabemos, o limite superior das velocidades
relativas) não envelheceria na sua viagem, isto é, teria chegado tão
depressa como partido, qualquer que fosse a distância que desejasse
atravessar. Ora, certos prótons da radiação cósmica têm uma velocidade
tão próxima à da luz que veriam escoarem-se apenas algumas horas,
mesmo alguns minutos, até se juntar a nós sobre a Terra, após terem
deixado a galáxia de Andrômeda. As maiores distâncias do Universo são
da ordem de 10.000 vezes a distância de Andrômeda; indo "mais longe",
daríamos a volta em nosso Universo e retornaríamos à Terra. Do mesmo
modo, podemos dizer que, malgrado a imensidão das distâncias cósmicas,
podemos ser "visitados" na Terra por pósitrons ou elétrons vindos do
outro lado do mundo.

Isto toma uma importância fundamental, se pensarmos que estes elétrons e


estes pósitrons são portadores de psiquismo. É, então, o pensamento do
Além que chega até nós com estes "cosmonautas" inesperados.

Mas somos capazes de "compreender" a linguagem destes éons vindos do


Além? Devemos responder afirmativamente, desde que nos lembremos
que nosso "Eu", dos humanos, está contido em cada um dos elétrons que
formam nosso corpo. Nossos próprios éons serão capazes de entender a
voz destes mensageiros do Além, que são feitos como eles e cujo
psiquismo funciona segundo os mesmos mecanismos. Estas trocas entre os
éons terrestres e os éons cósmicos se traduzirão, finalmente, por um
enriquecimento psíquico do nosso próprio "Eu", através de uma
informação que tanto pode vir da grande nebulosa de õrion, como de
Andrômeda, ou deste quasar brilhante nos confins do espaço.
171

Não tenho nada, pessoalmente, contra os "pequeninos homens verdes",


que os defensores dos discos voadores (ou melhor, dos objetos voadores
não-identificados) esperam ver pousar o pé, um dia, sobre a Terra (se é
que ainda não o fizeram). Se existem, como eu mesmo creio, bilhões de
outros planetas habitados por seres pensantes, por que deveríamos
considerar tais visitas como impossíveis, ou mesmo irracionais?
Entretanto, penso que os "pequenos homens verdes" não são, sem dúvida,
o melhor meio que o Universo escolheria para veicular o psiquismo. Visto
que é no nível elementar que encontramos a essência do psiquismo e a
forma psíquica mais própria para viajar muito rápido e para se comunicar
com o "outro", parece evidentemente mais eficaz mandar mensageiros
"eônicos" atravessarem o espaço. Estes chegam até nós em grandes
velocidades, em cada segundo, e são freados nas altas camadas de nossa
atmosfera. Esta frenagem é ocasionada pelas partículas "secundárias", que
vêm em abundância banhar cada metro quadrado do nosso planeta; entre
estas secundárias encontramos, em quantidade, exatamente elétrons e
pósitrons.

Se os autores de ficção científica chegam algumas vezes a "imaginar" a


vida em outros mundos, talvez seja porque algum éon-contador cósmico
veio lhes murmurar, no mais profundo do seu inconsciente, como as
[ca12] Comentário: Parmênides já
coisas acontecem lá 16 havia declarado na Grécia, há vinte e cinco
séculos, que “nada pode ser pensado que
não exista ou possa existir”.

De máquina em máquina, de troca em troca pelo Conhecimento e pelo


Amor com seres pensantes próximos ou longínquos, tanto no tempo como
no espaço, os éons vão, portanto, elevar sempre mais sua neguentropia
pessoal e criar mais máquinas novas, a fim de aumentar em qualidade e
em quantidade sua riqueza informacional.

0 Homem não é mais a "última máquina", como também não foi a


primeira máquina. Toda a Paleontologia nos mostra espécies que nascem e
que, depois de terem subsistido por algum tempo, terminam por
desaparecer. Aqui, o "algum tempo" é, naturalmente, uma duração que
não é irrisória na escala cósmica: contamos em milhões de anos, mais do
que em séculos. Não parece desarrazoado dizer que o povo dos éons
estima, geralmente, que uma máquina esgotou suas possibilidades de
aumentar a neguentropia de seus constituintes depois de uma dezena de
milhões de anos de uso. Neste ritmo evolutivo, uma espécie se renovará
mais de 4.000 vezes durante os 40 bilhões de anos, aproximadamente, da
vida psíquica que separam o princípio da expansão do Universo de seu
estado final.
172

Ao fim de quanto tempo terminará nossa espécie humana atual? Não sei,
mas segundo toda probabilidade, os éons não se contentarão com esta
"máquina humana" até o fim dos tempos, desde agora, prevêem-se para
ela muitas 1imitações".

Que importa! Seja ele ainda ou não hóspede de um ser com forma
humana, nosso "Eu" prosseguirá sua existência em busca de estados
sempre mais "ordenados", sempre mais conscientes, sempre mais
neguentrópicos.

Pois nosso "Eu", desde que o coloquemos em uma situação correta, isto é,
no coração dos bilhões de éons que formam hoje nosso corpo de Homem,
então este "Eu" é tão eterno como o dos éons, e toma enfim seu verdadeiro
lugar no contexto da aventura espiritual cósmica.

Quando procuro perscrutar o meu "Eu" no seu imenso passado histórico,


descubro-o participando do fogo das primeiras estrelas, rastejando na areia
úmida das praias pré-cambrianas, correndo entre as folhagens gigantes das
florestas do Paleozóico, nadando nas águas tépidas do Jurássico inferior,
voando no azul de um céu do Cretáceo. Mas eu o imagino também, no
futuro, como um ser ainda desconhecido, vagando entre as estrelas,
falando uma linguagem que compreenderá a nuvem negra ou o vento
solar, transportado sempre mais alto e mais longe pelo Conhecimento,
sempre mais ávido de Amor pelo outro.

Até o dia em que, todos os nossos "Eu" eônicos reunidos em uma imensa
estrutura mais neguentrópica do que todas aquelas do passado, nós
chegaremos lá onde o tempo parece parar, lá onde toda esta gigantesca
evolução conduziu, finalmente, o Espírito, nas verdes pastagens onde o
Universo retém seu sopro, ouvindo esta música secreta que corre agora
como um canto etéreo, entre as formas movimentadas dos éons deste fim
do mundo.

Então, como dizia Vivekananda, falando da existência de seu Mestre,


talvez o povo dos éons se contentará, enfim, de viver esta grande vida -
deixando aos outros a tarefa de encontrar a explicação.

Orsay, fevereiro 1977.

Fim