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DOM PEDRO JOSÉ CONTI • COLUNA Bispo de Macapá

A força do destino
Certa vez, um comandante de elogiados por todos. Para Jesus Jesus que está visivelmente
exército estava prestes a travar os sofredores, os que são consi- equivocado ou somos nós que
uma batalha com outro exército derados perdedores aos olhos do ainda não entendemos o "hoje"
muito mais numeroso do que o mundo, são "bem-aventurados". da profecia de Isaías, proclama-
seu. Ele conhecia bem os seus Os satisfeitos da vida, ao contrá- da por ele na Sinagoga de Naza-
homens, mas também sabia das rio, são alertados a não se deixar ré? A felicidade que Jesus anun-
dificuldades. Os soldados esta- enganar e iludir. A verdadeira fe- cia não é para poucos, é para to-
vam desanimados e apavorados licidade pode estar na pobreza e dos, a começar pelos pequenos.
com a superioridade inimiga. O nas perseguições. Não depende É um conjunto de novos relacio-
comandante convocou o exérci- da riqueza, do sucesso humano, namentos onde as diferenças, de
to e disse que iria meditar e re- dos aplausos. Jesus não ameaça todo tipo, não distinguem ou
zar, antes de tomar uma decisão. e nem amedronta ninguém. O privilegiam, mas são colocadas
Depois de algum tempo, quando medo não resolve. Ele consola e a serviço do bem comum, da
todos estava na expectativa, o dá esperança aos pobres e aos verdade, da justiça, da paz, da
comandante falou assim: "Ou- pequenos desprezados, mas convivência respeitosa da vida
çam bem a inspiração que eu tive. também tem compaixão dos e da dignidade de todos. Jesus
Aqui tenho uma moeda. Se sair grandes, porque estão errando anuncia uma nova "fraternida-
cara, é porque o destino nos re- tudo: trocam o verdadeiro bem de", aquela dos filhos do mes-
serva uma vitória gloriosa, e en- com os "bens" passageiros deste mo Pai Divino, que ama a todos
tão podemos combater sem mundo. e a propõe como alegria verda-
medo. Se sair coroa, é porque não Nós já sabemos que o verda- deira para todos. A festa somen-
temos chances de vencer. Então deiro bem é o amor de Deus e te para alguns, não é a festa de
será melhor desistir. Jogou a dos irmãos. A cobiça das rique- Deus, não é a festa do amor. Esse
moeda para o alto e saiu cara. Os moeda ao ar. Saiu cara. Lançou sentada as "bem-aventuranças". zas gera as guerras. O medo de é o projeto do Pai amoroso que
soldados ficaram entusiasmados de novo e saiu cara de novo. São diferentes daquelas do evan- passar fome produz o acúmulo Jesus veio nos fazer conhecer.
com o presságio e foram à luta Mostrou então a moeda ao sol- gelho de Mateus, não só pelas e o desperdício dos alimentos Quem consegue imaginar uma
cheios de confiança. Apesar da dado: os dois lados eram iguais. palavras e pelo número, mas em lugar da partilha e da solida- sociedade sem muros, sem cer-
desvantagem numérica, v ence- No evangelho deste Sexto também porque são acompanhas riedade. O sucesso e o poder ge- cas, sem armas, aquelas visíveis ou
ram os inimigos. Ao final, feste- Domingo do Tempo comum, por quatro "ais". Logo, aparecem ram ódio e disputas. Ninguém bem escondidas em nossos cora-
jaram alegres a conquista. Um após a chamada dos primeiros claros os opostos. De um lado: os inveja o pobre, quem passa ções? Poucos sonhadores? Ou pro-
dos soldados aproximou-se do discípulos na beira do lago de pobres, os que estão com fome, fome, quem chora e quem é fetas de um mundo novo? Não tem
comandante e comentou orgu- Genesaré, o evangelista Lucas os que choram e os que são odia- amaldiçoado. Todos nós inveja- destino e nem sorte. Jesus não tem
lhoso: "Ninguém pode mudar a começa a explicar em que consis- dos por causa do Filho do Ho- mos os ricos, os gozadores da um plano B. Só tem uma cara: a ga-
força do destino". O comandan- te a "Boa Notícia", que Jesus veio mem. Do outro: os ricos, os saci- vida, os que esbanjam, as estre- rantia da força do Espírito, até o fim
te sorriu e lançou novamente a anunciar aos pobres. Ele nos apre- ados, os que riem e os que são las da fama e dos holofotes. É dos tempos. O amor vencerá.

LUIZ MAURÍCIO B. R. MENEZES • COLUNA


Doutor em Filosofia
pelo PPGLM/UFRJ. Professor

O fantasma do marxismo de Filosofia, Ética e Política


do IFTM

"O marxismo é como um fan- erbach que diz: "os filósofos têm
tasma. apenas interpretado o mundo de
É muito difícil capturá-lo, maneiras diferentes; a questão,
ou melhor, é impossível con- porém, é transformá-lo". Essa
tê-lo". transformação do mundo é a
(Pinochet) "práxis" marxiana ou, também
chamada, filosofia da práxis, que
O que é propriamente o mar- diz que a história se faz dialeti-
xismo? Muito se tem falado so- camente em um constante pro-
bre isso nos últimos tempos, mas cesso de contraposições.
sem propriedade adequada, o Nas palavras do ditador chi-
que leva a certos equívocos. Para leno Augusto Pinochet, que era
evitar isso, resolvemos escrever contra o pensamento marxista, o
essa coluna dando alguns escla- marxismo é como um fantasma,
recimentos mínimos sobre o as- pois ele não pode ser contido. De
sunto para que pelos menos se fato, por mais que se bata contra
tenha maior cuidado ao falar de resumido em duas frases: Odeie Marxismo é a corrente filosó- sendo os demais publicados por o marxismo mais ele se fortalece
algo que se desconhece ou, pelo o indivíduo mais bem-sucedido fica que se propõe a estudar a seu amigo Friedrich Engels. A e volta a atacar. E por que isso
menos, não se conhece tão bem que você. Odeie qualquer pes- obra e as ideias desenvolvidas obra de Marx ganhou grande re- acontece? Marx se imortalizou
assim. soa que esteja em melhor situa- por Karl Marx. Disso podemos percussão por dois grandes mo- entre os pensadores que preten-
Primeiramente, precisamos ção do que a sua". Esse tipo de decorrer diversos estudos que tivos. O primeiro, por fazer uma dem mudar o mundo e torna-lo
dizer o que não é marxismo. Há "definição" não pode ser levado foram feitos ao longo do século minuciosa análise do modo de um lugar melhor. Isso é o que al-
uma vulgarização do termo tan- a sério, pois não faz o mínimo XX e que possibilitou várias in- produção capitalista. Marx pre- guns chamam de transformação
to daqueles que se consideram a esforço nem para explicar o pen- terpretações sobre o que vem a tende provar cientificamente a da realidade ou revolução, inse-
favor quanto contra, basta uma samento marxista nem se utiliza ser o pensamento marxiano. especificidade da exploração do rindo uma outra visão de mundo
pequena busca na internet para de argumentos para refutar suas Marx nasceu na Alemanha em trabalho pelo capital, inserida na tentativa de eliminar a ideo-
se comprovar isso. Em um dos ideias e conceitos. É algo comple- 1818 e tem como principal traba- num modo de produção que leva logia burguesa predominante
sites visitados, havia um anún- tamente nulo, filosoficamente lho "O Capital", obra dividida em ao extremo da "luta de classes" desde a época moderna. Dessa
cio de que poderíamos entender falando, e só serve para contri- três livros. Marx não conseguiu que marca toda a história. O se- forma, o pensamento conserva-
o marxismo "em 1 minuto", eis a buir para a disseminação de con- terminar a publicação dos livros gundo, é pela proposta que o di- dor precisa ser contraposto pelo
"brilhante" definição: "Todo o teúdos equivocados sobre o tema em vida, tendo conseguido pu- ferencia dos demais filósofo ao pensamento revolucionário para
evangelho do marxismo pode ser em questão. blicar apenas o primeiro livro, escrever a sua XI Tese sobre Feu- dar lugar a um novo mundo.

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azeta-a Macapá (AP), Domingo e Segunda-feira, 17 e 18 de fevereiro de 2019 31