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ANTROPOLOGIA CULTURAL E DO DIREITO

PROF Antonia Ladislau de Sousa


Aluno: Alfredo Xenofonte Cardoso
Turma: II Semestre – Noite
Resenha crítica do filme “O último selvagem”

O filme “O último selvagem” de 1992, dirigido por Harry Hook, narra o encontro
de Ishi, o último descendente da tribo norte-americana Yahi, com a sociedade
civilizada da Califórnia no início do século XX. A obra é baseada no livro Ishi –
Between Two Worlds (“Ishi – Entre dois mundos”, em tradução livre), que conta a
história verídica do índio e mostra as transformações que ele sofre ao longo do
processo de integração e assimilação dos modos e costumes da sociedade moderna.
O filme ilustra esse processo através da narrativa centralizada na relação de Ishi com
o antropólogo Alfred Kroeber.

A história de Ishi é essencialmente a história do fim de um ciclo de um povo


nativo (apenas um dentre muitos), vítima da dominação e da usurpação territorial e
cultural do homem branco, enquanto processo histórico ocorrido na América do Norte
a partir do final do século XV.

O cerne da narrativa reside na incapacidade do homem moderno de coexistir


com outros povos sem o pressuposto da superioridade, do direito de dominar e de
desapropriar, tomando sua evolução (científica, tecnológica, civilizatória) como regra,
e rotulando outras formas de existência (e de relacionamento com o mundo) como
primitiva ou atrasada. A história do índio Ishi é meramente um recorte do
encerramento desse processo em relação a um povo específico.

Enquanto obra de ficção, o filme adota um tom de extrema condescendência,


ao mostrar Ishi como um indivíduo passivo, pronto para assimilar toda uma nova
estrutura de comportamento e de ações a ele imposta, sem sinais de resistência.
Ainda que esse tenha sido o caso real, seríamos induzidos a uma reflexão mais
aprofundada acerca do que significam aquelas transformações e as dificuldades que
aquele indivíduo sem povo passa a enfrentar enquanto último de sua linhagem, se a
narrativa focasse na dor dessas transformações. Ao invés disso, o filme dramatiza a
relação pessoal entre ele e o Dr. Alfred, deixando a questão étnica, social e histórica
como um pano de fundo que apenas fornece um contexto com propósito de servir à
narrativa. A função dramática de Ishi parece servir em último grau apenas para trazer
redenção através do arrependimento do homem branco, representada pela figura do
Dr. Alfred Kroeber. Unidimensional, Ishi tem seu arco dramático pautado na sutil busca
pela aceitação do seu “chefe”, como ele mesmo chama o doutor, e da sociedade na
qual agora se insere.

Enquanto caracterização de um processo histórico, novamente o filme falha ao


retratar com passionalidade a personalidade de um cientista enquanto observador do
seu objeto de estudo. Ainda que a relação pessoal tenha sido genuína, novamente
teríamos uma discussão mais pertinente se tivéssemos uma visão crítica de um
personagem observador, ainda que não fosse este o próprio antropólogo Alfred.

A problemática da conservação e da perpetuação da língua, dos costumes e


da própria memória daquele povo, posto que já pertencia ao passado (já que após a
morte de Ishi não mais existiriam), só parece ser percebida pelo co-protagonista ao
final do filme, ao observar os restos mortais de diferentes povos catalogados no
museu, o que deixa pistas indicativas para a falta de relevância que estes povos ditos
primitivos têm para os povos dominantes, mesmo para os indivíduos dentre eles que
os estudam e que, de certa forma, se relacionam com eles.

O filme, no entanto, acaba por trazer uma reflexão acerca do processo histórico
que culmina com a sociedade moderna. A problemática territorial, cultural e,
novamente, da própria memória dos povos que antecederam as dominações que
moldaram a sociedade atual. A discussão que o filme suscita mesmo com seus
defeitos, portanto, tem a sua relevância explícita neste ponto. Ishi representa um
passado que, uma vez que não tem mais volta, precisa permanecer na memória para
que a história não se repita.

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