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Aula 8 – História Moderna II (2018) do homem” são a fundação de todo e qualquer governo.

Atribuía a soberania à nação, e não ao rei, e declarava que


A invenção dos direitos humanos – Uma história. Lynn todos são iguais perante a lei, abrindo posições para o
Avery Hunt. Trad. R. Eichenberg. São Paulo: Cia. das talento e o mérito e eliminando implicitamente todo o
privilégio baseado no nascimento”.
Letras, 2009 [2007].
Caráter UNIVERSAL e não apenas francês. (P14)
Quem é: Historiadora norte-americana, autora de A
nova história cultural (1992) e A invenção da Passo 2: a repercussão mundial da declaração – entre
pornografia (1993), ambos sob sua organização. favoráveis (Price) e contrários (Burke – Reflexões sobre a
Revolução em França, de 1790 – inauguração do
O que faz: estudo histórico da ideia de direitos conservadorismo), no parlamento inglês. Problema – Price e
humanos com base na chamada nova história (baseada Burke haviam, no entanto, apoiado a Revolução Americana.
no culturalismo)
Passo 3: A reescrita – nova declaração – quer comparar, ver
Contrapondo-se aos próprios textos preambulares das
o eco entre os dois documentos.
cartas de direitos humanos que inauguraram os
“direitos dos homens” e, posteriormente, os “direitos Por quase dois séculos, Declaração dos Direitos do Homem e
humanos” – da Declaração de Independência dos EUA do Cidadão encarnou a promessa de direitos humanos
(1776), passando pela Declaração Universal dos universais;
Direitos do Homem e do Cidadão (1789), até a
Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) as 1789: Art. 1 – “Os homens nascem e permanecem livre e
três anexadas ao final do livro –, que consideravam iguais em direitos”.
esses direitos como “naturais” ou “autoevidentes”, a
1948 – Nações Unidas – DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS
historiadora procura desvendar especialmente a
DIREITOS HUMANOS
mudança nos sentimentos, principalmente na Europa
e nos EUA, ao longo do século XVIII, que permite a Art. 1: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em
concessão da crescente importância aos direitos dignidade e direitos”.
individuais até o alcance do status com que passaram
àquelas cartas. IDEIA UNIVERSAL – MAS TINHAM EM MENTE ALGO MUITO
MENOS INCLUSIVO. (TEORIA X PRÁTICA)
Formação de uma “EMPATIA IMAGINADA”
Excluídos: sem propriedade, escravos, negros livres, minorias
Texto – Lynn Hunt, A invenção dos direitos humanos. religiosas e MULHERES.
Introdução, “ossos dos seus ossos” e “Eles deram um
JULGAMENTO DOS FUNDADORES – chamados de elitistas,
grande exemplo”. racistas e misóginos.

INTRODUÇÃO – “Consideramos estas verdades Questão – “Problema” de Lynn Hunt


autoevidentes” Como é que esses homens, vivendo em sociedades
construídas sobre a escravidão, a subordinação e a
Passo 1: começa contando brevemente a história da subserviência aparentemente natural, chegaram a imaginar
declaração. homens nada parecido com eles, em alguns casos, também
mulheres, como iguais? Como é que a igualdade de direitos
“Consideramos estas verdades autoevidentes: que todos os se tornou uma verdade autoevidente em lugares tão
homens são criados iguais, dotados pelo seu Criador de improváveis? (17)
certos Direitos inalienáveis, que entre estes estão a Vida, a
Liberdade e a busca da Felicidade" (Thomas Jefferson – Jefferson – um senhor de escravos/ Lafayette – um
Declaração de Independência, 1776). aristocrata.

Treze anos mais tarde, Jefferson estava em Paris e franceses Passo 4 – “O problema” da pesquisa
queriam redigir uma declaração de seus direitos – Lafayette
ajudado por Jefferson. Mas o trabalho foi, afinal, resultado PISTA - Teor da autoevidência: “visto que”, “sendo fato que”
do trabalho da nova Assembleia Nacional, em 20 agosto
1789. “Como podem os direitos humanos serem universais se não
são universalmente reconhecidos?”
Aprovam o rascunho em 27 agosto de 1789, com 16 dos 24
artigos desejados. Documento “freneticamente ajambrado”. 1948 – Explicação dos redatores: “concordamos sobre os
direitos, desde que ninguém nos pergunte por quê”.
“Sem mencionar nem uma única vez rei, nobreza ou igreja, Jefferson nunca explicou o que queria dizer sua expressão.
declarava que “os direitos naturais, inalienáveis e sagrados Ninguém explicou.
Vários usaram como se fossem “AUTOEVIDENTES” (p24)
CONCLUSÃO: Se explicassem, deixaria de ser
AUTOEVIDENTE. O QUE É AUTOEVIDENTE NÃO SE EXPLICA.
Como OS DIREITOS SE TORNARAM AUTOEVIDENTES?
O QUE PRETENDE O LIVRO: EXPLICAR COMO A AFIRMAÇÃO
VEIO A SE TORNAR CONVINCENTE NO SÉCULO XVIII. P18 Se torna autoevidente (razão + emoção) quando RESSOA
dentro de CADA INDIVÍDUO (apelo emocional).
Para serem humanos, os direitos requerem 3 qualidades
encadeadas: 1 – ser naturais, iguais e universais. REQUER - “CERTO SENTIMENTO INTERIOR”, amplamente
partilhado (25) – Convicção profundamente arraigada,
Foi mais fácil aceitar a primeira (ser natural) do que igual e tinham de ser experimentados por muitas pessoas
universal. (Burlamaqui, Diderot)

Conclusão: “Entretanto, nem mesmo o caráter natural, a Blackstone: “Mas, para que se tornassem membros de uma
igualdade e a universalidade são suficientes. Os direitos comunidade política baseada naqueles julgamentos morais
humanos só se tornam significativos quando ganham independentes, esses indivíduos autônomos tinham de ser
conteúdo político”. Isso porque são “DIREITOS HUMANOS capazes de sentir empatia pelos outros”. (ver-se como
EM SOCIEDADE”. P19 SEMELHANTE)

Na Bill of Rights inglesa, de 1689, não se declarava a ARGUMENTO 1: “Embora consideremos naturais as ideias de
igualdade, a universalidade ou o caráter natural. (p19) autonomia e igualdade, junto com os direitos humanos, elas
só ganharam influência no século XVIII”. (P26)
Passo 5: história do termo – “Origem”.
INVENÇÃO DA AUTONOMIA: No século XVIII, não se
“Direitos humanos” x “direitos do homem” imaginavam todas as “pessoas” como igualmente capazes de
autonomia moral. Duas capacidades relacionadas: a de
Breve história dos termos ajudará a fixar o momento do raciocinar e a independência de decidir por si mesmo.
surgimento dos direitos humanos.
[Crianças, escravos, criados, os sem propriedade e as
mulheres não tinham a independência de status requerida
ESTRATÉGIA DE PESQUISA: para serem plenamente autônomos] P26
1 - Mostra como Jefferson usou os termos (ex. “direitos
humanos” ao falar do tráfico). P20-21. Mas o “poder recém-descoberto da empatia” viu: 1791
governo revolucionário dar direitos iguais aos judeus, em
2 – Mostra termos usados em outros textos de época. 1792 aos sem propriedade, em 1794 aboliu oficialmente a
escravidão.
Expressões eram menos sinônimo de direitos políticos do
que distinção entre humano e divino, humano e animal. OU SEJA: BASE EMOCIONAL CONTINUAVA A SE DESLOCAR
(P27)
Em francês, o termo “direito humano” só apareceu em 1763,
semelhante a “direito natural”, mas não pegou, apesar de ter ARGUMENTO 2: AUTONOMIA E EMPATIA → SÃO PRÁTICAS
sido usado por Voltaire. (P21) CULTURAIS e não apenas ideias, isto é, “tem dimensões
físicas e emocionais”. Dependem da “percepção”
Nos anos de 1760, Franceses passaram a usar “DIREITOS
DOS HOMENS", depois da aparição em O contrato social CITAR: “Os direitos humanos dependem tanto do domínio
(1762), de Rousseau. de si mesmo como do reconhecimento de que todos os
outros são igualmente senhores de si. É o desenvolvimento
Rastreia, então, o termo “direitos dos homens” nas obras de incompleto dessa última condição que dá origem a todas as
Holbach, Raynal, Mercier, etc., nos anos de 1770-1780. desigualdades de direitos que nos têm preocupado ao longo
de toda a história”. (P28)
Condorcet, por outro lado, ligava a história do termo à
Revolução americana. [“De l’influence de la révolution ARGUMENTO 3: A autonomia e a empatia não se
d’Amrique sur l’Europe”, ensaio de 1786]. P23 materializaram a partir do ar rarefeito do século XVIII: elas
tinham raízes profundas. (P28)
Condorcet – Direito à segurança da pessoa, a segurança da
propriedade, a justiça imparcial e idônea e o direito de Há muito, indivíduos se afastando das teias da comunidade,
contribuir para formação de leis. tornando-se agentes cada vez mais independentes tanto
legal, quanto psicologicamente.
Conclusão: quando a linguagem dos “direitos humanos”
apareceu na segunda metade do XVIII, havia a princípio Respeito pela integridade corporal; evolução de noções de
pouca definição desses direitos. (P23) interioridade (alma cristã e consciência protestante), noções
de sensibilidade preenchia o indivíduo. “Todos esses
processos aconteceram durante um longo processo”. (P28)
Capítulo 2 - “Ossos dos seus ossos”: abolindo a tortura
Um avanço repentino:
Autoridade absoluta dos pais sobre filhos foi questionada. Começa com o caso de Jean Calas (acusado de matar o filho
Público começou a ver teatro ou música em silêncio para impedi-lo de se converter ao catolicismo), condenado à
Retratos e pinturas de gênero desafiaram predomínio das roda do suplício.
grandes telas mitológicas e históricas.
Romances sobre vidas comunas. VOLTAIRE usa o caso para escrever panfleto e livro – Tratado
Tortura começou a ser vista como inaceitável sobre a tolerância por ocasião da morte de Jean Calas, no
qual usou pela 1ª vez a expressão “direito humano”. 73
Tudo isso: percepção da separação e do autocontrole dos
corpos individuais, junto com a possibilidade de empatia Esse não foi o tema desde o começo, mas depois se tornou
com os outros. (P29) central: denúncia da tortura judicial – Compaixão natural
leva todo mudo a detestar a crueldade judicial, insistia
OBJETIVO: Voltaire.
1 – QUER ENXERGAR ESSAS MUDANÇAS DE PONTOS DE
VISTA. Novas atitudes sobre a tortura se cristalizaram a partir de
1760
2 – Quer entender a natureza da autoridade política (que
derivaria agora do interior dos indivíduos) a partir de uma Outros países, exemplo da Rússia, já haviam abolido nos
atenção maior à VISÃO DOS CORPOS e das anos de 1770 e 1780 a tortura judicial. (75)
INDIVIDUALIDADES. (30). “Em 1780, a monarquia francesa eliminou o uso da tortura
para extrair confissões de culpa antes da condenação” e em
3 – EXAMINAR A INFLUÊNCIA DE NOVOS TIPOS DE 1788 aboliu o uso da tortura pouco antes da execução para
EXPERIÊNCIAS: imagens e exposições públicas, romances obter nomes dos cúmplices.
epistolares sobre amor e casamento – que ajudaram a
difundir práticas de autonomia e empatia. Inglaterra (1783) – enforcamentos mais humanos, mais
rápidos (plataforma mais alta).
BENEDICT ANDERSON: fala que jornais e romances criaram a 1789 – Governo revolucionário aboliu todas as formas de
“comunidade imaginada” que o nacionalismo requer para tortura judicial.
florescer. 1792 – Guilhotina: execução indolor quanto possível.

CITAR: Vai propor: EMPATIA IMAGINADA – como No final do XVIII – opinião pública parecia exigir o fim da
fundamento dos direitos humanos. É imaginada não no tortura judicial e o fim das indignidades impostas aos corpos
sentido de inventada, mas do sentido de que a empatia dos condenados.
requer um salto de fé, de imaginar que alguma outra
pessoa é como você. P30 Benjamin Rush, médico americano, em 1787, até os
criminosos “possuem almas e corpos compostos dos
INDIVÍDUOS PASSARIAM A SE RELACIONAR (para além de mesmos materiais que o de nossos amigos e conhecidos. São
famílias, associações religiosas ou nações), mas através de ossos dos seus ossos”. (76)
VALORES UNIVERSAIS. P31.
A Bill of Rights, de 1689, proibia o castigo cruel, mas juízes
MÉTODO: VAI OBSERVAR PRÁTICAS E EXPERIÊNCIAS ainda sentenciam a poste de açoites, afogamentos, tronco,
CULTURAIS. pelourinho, o ferro de marcar, esquartejamento, morte na
fogueira.
Pessoa ou individualidade: como um acúmulo de
experiências – como o próprio eu muda ao longo do tempo. Foi somente em 1790 que o parlamento britânico proibiu
queimar mulheres na fogueira. E prática de escarnecer dos
ARGUMENTO CENTRAL: “Ler relatos de tortura ou romances cadáveres durou até 1834. (77)
epistolares teve efeitos físicos que se traduziram em
mudanças cerebrais e tornaram a sair do cérebro como A Bill of Rights não protegia os escravos, já que não eram
novos conceitos sobre a organização da vida social e considerados pessoas com direitos legais.
política”.
Montesquieu inspirado em Beccaria, aristocrata italiano, de
Novo tipo de leitura (visão e audição) criaram novas 24 anos, que escreveu Dos delitos e das penas (1764). 80
experiências individuais (EMPATIA), que por sua vez
tornaram possíveis novos conceitos sociais e políticos (os BECCARIA: rejeitava a tortura, o castigo cruel e a PENA DE
direitos humanos). P32 MORTE. “Contra o poder absoluto dos governantes, a
ortodoxia religiosa e os privilégios da nobreza, ele propunha
Alteração do psicológico – voltar a atenção para o que um padrão democrático de justiça.
acontece dentro das mentes individuais. 32
Beccaria – usou da “nova linguagem do sentimento.
“Crueldade inútil”, instrumentos de um fanatismo furioso. América: multa por delitos contra a propriedade em
vez de chibatadas.
Blackstone (jurista) dirá, então, que lei criminal deveria
sempre “se conformar aos ditados da verdade e da justiça,
Mudança de percepção:
aos sentimentos humanitários e aos direitos indeléveis da
humanidade”. (81) A) Exposição a cadáveres embotava sentimentos,
brutalizava, banalizava. 98
POR QUE ESSAS COISAS NÃO ERAM ÓBVIAS ANTES DA B) Castigo privado e não exposto publicamente.
DÉCADA DE 1760? Criminosos deviam ser reabilitados.

Se a compaixão natural leva todo mundo a detestar a Os estertores da tortura


crueldade da tortura judicial, porque isso não era óbvio Novas visões da elite sobre a dor e a punição
antes da década de 1760? “OPERAÇÃO DE EMPATIA” Reistência de Calas – argumentando inocência –
provocou inversão dos sentimentos da população. O
Necessário: novo interesse pelo corpo humano – corpo se povo sentiu COMPAIXÃO. 99
tornou sagrado por si próprio – autonomia e inviolabilidade.
Beccaria – a dor não poderia ser o “teste da verdade”.
A pessoa autônoma
Fronteiras entre corpos se tornaram mais nítidas depois do
Tortura privada, para ele, causava repulsa, já que o
século XIV. Autocontrole (82) sobre excretos. Cuspir, comer acusado perdia sua “proteção pública” mesmo antes
em tigela comum, dormir numa mesma cama – atos de ser considerado culpado.
repugnantes. Explosões violentas de emoção, etc. ADVENTO
DO INDIVÍDUO - COMPOSTURA, DISCIPLINA E CENTRAL: O próprio Beccaria não faria ligação sobre
AUTONOMIA. suas postulações com a questão dos direitos do
homem. Isso será feito pelo abade MORELLET na
Assistir e ouvir peças e músicas e silêncio: capacidade de introdução da obra de Beccaria no francês (1766).
sentir fortes emoções individuais (paralelo com experiências
religiosas) 83
Método: usar as edições do livro de Beccaria
Teatro: experiências interiores individuais e mais tranquilas.
(bancos para se sentar, silêncio religioso) (introduções, prefácios, traduções).

Casa: quartos de dormir; quartos de uso privado; quartos de Liderando as acusações contra a tortura estavam as
banho; movimento para PRIVACIDADE INDIVIDUAL. muitas traduções, reimpressões e reedições de
Beccaria. 28 edições italianas, 9 francesas antes de
Pintura: retratos de pessoas comuns; a pessoa podia ser 1800. Tradução inglesa de 1767.
heroica meramente em virtude de sua individualidade. Cada
pessoas era um indivíduo distinto, singular, separado e
QUESTÃO: uma coincidência que ao caso Calas tivesse
original. (89)
sucedido o tratado definidor sobre a reforma penal?
Pintores cada vez mais queriam: FRANQUEZA E A Beccaria seria uma “petição indireta em favor de
INTIMIDADE PSICOLÓGICA. Calas”?

O espetáculo público da dor 2 artigos da Enciclopédia (1765)


A imagem do leitor empático incongruente com a Na segunda metade de 1760, cinco livros sobre
tortura. reforma criminal.

Na visão tradicional, pessoas comuns não sabiam Tortura vai sendo aos poucos ligada aos direitos do
controlar suas próprias paixões. Controlar os homem.
indisciplinados Exemplo: Brissot, 17809, ensaio que comparou
barbárie da tortura na França a “atrocidade de
Castigo exemplar: ostentação da dor no cadafalso era canibais”. PP105-106.
destinada a insuflar o terror nos espectadores e servir
como instrumento de dissuasão. Presenciadas por EMPATIA: Petições judiciais começam a ser escritas na
multidões (Muyart) Era preciso se identificar, mas para 1ª pessoa dos clientes, para desenvolver narrativas
temer. 94 romanescas melodramáticas.
Método: olha petições.
Transformação do modo de entender o castigo: não é
expiação de um pecado, mas o pagamento de uma Conclusão: Campanha pela REFORMA PENAL NA
“dívida” com a sociedade. E pagamento nenhum podia FRANÇA USA VOCABULÁRIO E EXPRESSÕES DOS
ser esperado de um corpo mutilado. DIREITOS DOS HOMENS.
Remodelamento da sensibilidade. Noção dos direitos
As paixões e as pessoas mudou também em reação às circunstâncias políticas
(116)
Benjamim Rush e seu panfleto de 1787: ligou os
defeitos do castigo físico à nova noção do indivíduo “Eles deram um grande exemplo no novo hemisfério;
autônomo, mas solidário. Empatia. vamos dar um exemplo para o universo”, duque
“A sensibilidade é a sentinela da faculdade moral”. francês referindo-se aos americanos.
Castigo público solapava os sentimentos sociais,
quebrava a empatia. Nem americanos, nem franceses: holandeses, alemães
e suíços.
Argumento final: “Tortura legalmente sancionada não
terminou apenas porque os juízes desistiram desse Ideias dos direitos naturais são esboçados na Europa,
expediente, ou porque os escritores do Iluminismo mas circulavam pelo Atlântico – América. E é
finalmente se opuseram a ela. A tortura terminou especialmente devido ao contexto da guerra entre
porque a estrutura tradicional da dor e da pessoa se colonos americanos e a metrópole que há o impulso
desmantelou e foi substituída pouco a pouco por uma para a declaração universalista.
nova estrutura, na qual os indivíduos eram donos de
seus corpos, tinham direitos relativos à individualidade A declaração universalista – passada pela América-
e `a inviolabilidade desses corpos, e reconheciam em retornaria à Europa para influenciar franceses,
outras pessoas as mesmas paixões, sentimentos e Rousseau e em 1789.
simpatias que viam em si mesmos. PRINCÍPIO DA
SIMPATIA. 112 Mostra como ingleses haviam transformado direitos de
caráter universalista em puramente inglês livre. É na
metrópole, segundo Hunt, que se resgata o sendo de
universalidade, abandonado desde 1688 na Inglaterra.

Capítulo 3: “Eles deram um grande exemplo”: Observação: Crítica – não fala na participação do povo
declarando os direitos nessas reivindicações universalistas. Rediker e
Linebaugh mostram como as tradições inglesas, da
Por que os direitos devem ser apresentados numa época da revolução, que envolvia camponeses,
declaração? pregadores religiosos, artesãos e outros – carregavam
essa memória de reivindicações universalistas.
“As campanhas para abolir a tortura e o castigo cruel Nem mostra o papel de trabalhadores, marujos,
apontam para uma resposta: uma afirmação formal e nativos, escravos, forros etc. nesse processo de
pública confirma as mudanças que ocorreram nas circulação de princípios universais, concepções de
atitudes subjacentes”. (113) direitos fundamentais.

Declarações de 1776 e 1789 fizeram mais: abriram Precedentes americanos num contexto de “estado de
panoramas políticos inteiramente novos (114). emergência constitucional” em 1788. Dá a entender
que DECLARAÇÕES NECESSITAM DESSES ESTADOS
História da palavra “Declaração” – Declaration: ligada EMERGENCIAIS, CONFLITUOSOS, nas atmosferas de
ao ato de soberania. crise. 128

Colônias estavam se declarando um Estado em Material:


separado e igual e se apoderando da própria
soberania. A - Lê as listas de queixas, cartas enviadas aos Estados
Gerais de 1789 – o que pediam – uma declaração de
Declaração – DIREITOS INQUESTIONÁVEIS (mais que direitos. Quase todas as listas, de diferentes classes
petição, carta ou bill). sociais, pediam declaração de direitos.

DECLARANDO OS DIREITOS NOS ESTADOS UNIDOS B- Lê correspondência de Thomas Jefferson a Thomas


Paine. [Paine era autor de Comon Sense, o panfleto
No começo, americanos não tinham intenção de se mais importante do movimento da independência
separar da Grã-Bretanha. americana]

Declaração de Independência – como chegam a ela.


P131.
Desafio à antiga ordem: “Num único documento,
portanto, os deputados franceses tentaram condensar
tanto as proteções legais dos direitos individuais como
um novo fundamento para a legitimidade do governo”.
(132)

“Nenhum dos artigos especificava os direitos de grupos


particulares. “Os homens”, “o homem”, “cada homem”,
“todos os cidadãos”, “cada cidadão”, “a sociedade”,
“qualquer sociedade”, ninguém, “nenhum indivíduo”.
Era literalmente tudo ou nada. Classes, religiões e os
sexos não apareciam na declaração.

2º artigo: “O objetivo de toda associação política é a


preservação dos direitos naturais e imprescritíveis do
homem”. 133

“Declarar era mais do que esclarecer artigos de


doutrina: ao fazer a declaração, os deputados se
apoderavam efetivamente da soberania”. 133.

Efeitos da declaração fora da França – formou uma


“linguagem” de todo o mundo.

Debate Burke x Price se espalha pelo mundo.


Crescem número de obras que usam dessa linguagem,
da palavra “direitos”.
Abolindo a tortura e a punição cruel

Seis semanas depois de aprovarem a Declaração, os


deputados franceses aboliram todos os usos da tortura
judicial como parte de uma reforma provisória.

Na esteira da declaração dos direitos, a tortura foi por


fim completamente abolida.

Prisão e trabalhos forçados. Desejo de reabilitação e


reingresso do criminoso na sociedade. Guilhotina.

O condenado era agora um cidadão.

Novo código penal foi apenas uma das muitas


consequências que derivaram da Declaração dos
Direitos do Homem e do cidadão.