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Revista da Associação Cultural de Amizade Portugal-Egipto

Director:
Telo Ferreira Canhão

Número 4

Lisboa, Novembro de 2016


30
Namoro, casamento e divórcio
no antigo Egipto
Telo Ferreira Canhão
Centro de História, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
telofcanhao@gmail.com

Resumo: Heródoto não foi certamente o único a ficar admirado com o que encontrou
no antigo Egipto (II, 35)! Chegar a um país onde a mulher tinha a liberdade de escolher
para marido quem quisesse ou de se separar dele quando entendesse; onde era juridica-
mente igual ao homem (só os Ptolemeus puseram isto em causa); onde era senhora de total
autonomia sem estar submetida a qualquer tutela; onde a prática de relações sexuais antes
do casamento era encarada com normalidade; onde a nudez era natural. Há 4000 anos os
sentimentos eram semelhantes aos de hoje, os lugares de idílio os mesmos e a poesia lírica, 31
ontem como hoje, um dos modos de o expressar. Este não é um novo estudo sobre poemas
de amor, casamento e divórcio, mas pouco mais do que uma sistematização dessas temáticas
pouco conhecidas do público português, em parte possível devido ao facto de os Egípcios
terem desenvolvido uma mentalidade metódica e burocrática.

Palavras-chave: poemas de amor; namoro; casamento; contratos de casamento; divórcio.

Abstract: Herodotus was certainly not the only one to be surprised by what he found in
Ancient Egypt (II, 35)! Coming to a country where women had the freedom to choose whom
they wanted for a husband and divorcing as they pleased; where they were legally equal to
men (only the Ptolemies put this into question); where they had full autonomy without being
subjected to any trusteeship; where the practice of sex before marriage was regarded as
normal; where nudity was natural. 4000 years ago, the feelings were similar to today, the
idyllic places the same and lyrical poetry, yesterday and today, one of the ways of expres-
sing it. This is not a new study on love poems, marriage and divorce, but a little more than a
systematization of these themes mostly unknown by the Portuguese public, partly due to the
fact that the Egyptians have developed a methodical and bureaucratic mentality.

Keywords: love poems; dating; marriage; marriage contracts; divorce.

Tudo o que resta de uma estátua encontrada em Amarna, representando Akhenaton e Nefertiti, são as suas mãos
entrelaçadas. XVIII dinastia, c. 1350 a. C., Neues Museum, Berlim.
«A nossa arrogância, que constantemente recusa aos homens do passado percep-
ções como as nossas…»
Marguerite Yourcenar, Archives du Nord (1977)

«Os seus contributos para o conhecimento humano nos campos da ciência, as-
tronomia, medicina, filosofia, matemática, geometria e engenharia deixam muitos
observadores da civilização do antigo Egipto admirados. (...) é evidente que, apesar
dos seus notáveis monumentos, a grandeza do antigo Egipto não reside na resposta à
pergunta “Como foram as pirâmides construídas?”, mas sim à pergunta “Como foi a
sua sociedade construída?”»
Troy D. Allen, The Ancient Egyptian Family (2009)1

Quando se aborda este tema no antigo Egipto, normalmente só se incide no casamento e


no divórcio. O namoro está quase sempre ausente. E é fácil perceber porquê: ao contrário do
casamento e do divórcio, o namoro parece não ter deixado provas. De uma forma geral os
casamentos eram arranjados pelos pais e pelas famílias dos jovens, julgando-se que o con-
sentimento dos noivos era secundário. Aparentemente o pai da jovem é que lhe escolhia o
marido e dava o consentimento depois de ter negociado com a família do jovem. Não parece
ter havido espaço para namoro, ou se houve não terá tido um conjunto de práticas que tenha
deixado muitos vestígios históricos. Contudo, desde o Império Antigo que temos provas de
32 casais enamorados que, lado a lado em esculturas, relevos e pinturas, passam a mão pelos
ombros ou pela cintura do seu par, ou aparecem de mãos dadas com ele2. São, regra geral,
marido e mulher. Mas percebe-se um certo enlevo, um certo romance, que não é só físico.
Por vezes foi registada também a presença dos filhos junto aos pais, uma forma de exprimir
o resultado da ternura que unia toda a família.
Nada nos diz que os jovens nubentes tivessem peso na decisão de avançar com um ca-
samento, mas, como outros pensam, também não sabemos se alguns dos jovens podiam
efectivamente influenciar os seus pais no sentido de que desenvolvessem esforços para que
o casamento pudesse ser celebrado de acordo com a sua vontade3! Por outro lado, o papel de
igualdade da mulher em relação ao homem na sociedade egípcia, comprovadamente desde
cerca de 2700 a. C., III dinastia4, faz do Egipto um caso único na Antiguidade, onde o poder
dos pais, principalmente o do pai, era antes do mais uma protecção à mulher que, acima de
tudo, era filha, esposa e mãe. Christiane Desroches-Noblecourt diz «que a Egípcia foi – se-
guindo certas regras, desde logo o consentimento paternal – relativamente livre de escolher

1 - T. D. ALLEN, The Ancient Egyptian Family. Kinship and Social Structure, Nova Iorque e Londres: Routledge,
2009, p. 1.
2 - K. MCCORQUODALE, Representations of the Family in the Egyptian Old Kingdom. Woman and marriage,
Oxford: British Archaeological Reports (BAR), 2013, st. 1-19.
3 - Cf. T. DO ESPIRITO, Pharaonique! La vie sexuelle au temps des pharaons: histoire et révélations, Paris: Les
Éditions de l’Opportum, p. 157.
4 - B. S. LESKO, The Remarkable Women of Ancient Egypt, Providence: B. C. Scribe Publications, 1996, p. 29.
o marido.»5 Ou seja, em teoria, a mulher egípcia podia casar com quem quisesse, mas isso
nem sempre acontecia; quer ao nível da realeza quer ao nível das elites, pelo menos, é prová-
vel que tenha havido muitos casamentos arranjados, por força de diversos factores.
Se no Império Antigo a iconografia que referimos consolida esta ideia, no Império Novo
surgem uma série de poemas designados genericamente por «poemas de amor», possivel-
mente canções compostas para serem cantadas com acompanhamento instrumental em fes-
tas, onde esta faceta do relacionamento humano aparece claramente registada. Não há infor-
mação sobre a possibilidade de terem sido exclusivos de intimidades ou alvos de partilhas
mundanas. Independentemente de se desconhecer a sua sonoridade e o seu ritmo, embora
existam pontos de versificação, não é de desprezar esta ideia uma vez que o Império Novo
viveu envolto em festas, onde se exibiam músicos cantando e tocando instrumentos (harpas,
liras, flautas...), e bailarinas rodopiando para entreter os convivas. Este até pode ter sido o
ambiente por excelência de utilização destes poemas, tornando-os conhecidos e desejados,
e por isso possíveis de copiar. Isto para além de continuarem a ser o espelho da alma de
quem primeiro os escreveu, ou o repisar da tradição através do uso repetido por outros cujos
sentimentos, emoções, gostos estéticos ou necessidades, levavam à sua utilização, mesmo
em usos privados.
Aliás, esta ligação com a música explica-se através do carácter emocional da poesia
lírica. A fluidez sonora só por si, sem quaisquer palavras, traduz a essência íntima e difusa
do poeta, normalmente avesso ao vocabulário comum. Deste modo, combinando palavras e
notas musicais segundo ritmos próprios, surge a comunhão perfeita para a comunicação de 33
estados líricos. Fernando Pessoa escreveu, provavelmente em 1913: «A poesia é a emoção
expressa em ritmo através do pensamento, como a música é essa mesma expressão, mas
directa, sem o intermédio da ideia. Musicar um poema é acentuar-lhe a emoção, reforçando-
-lhe o ritmo.»6 E isto é intemporal.
Por outro lado, a criação literária provém sempre de alguém que está inserido numa cul-
tura, num determinado ambiente social e que, ao produzir a sua obra, a condiciona também
com o seu temperamento e o seu carácter. O amor de que a lírica egípcia nos fala é um amor
ardente, são estádios de paixão que se expõem aos nossos olhos. Fala-nos de emoções, de
prazeres e de divertimentos, chegando mesmo à ironia e ao humor. Não sabemos quem eram
os apaixonados, nem quem escreveu os poemas. Não estão assinados. São anónimos. Mas
para cá da criação do demiurgo e da permanente repetição do amor, alguém os terá escrito
pela primeira vez! Não certamente apenas um, mas vários autores. Contudo, a cultura antiga
egípcia não guardou essa memória, pois os egípcios não criavam: usavam repetidamente
o produto da criação inicial. Nem introduziam melhoramentos no que já existia: apenas
viam e usavam de maneira diferente o que até então tinha estado sempre à disposição de
todos. O que sabemos é que tanto o homem como a mulher tomavam a palavra, geralmen-
te em forma de monólogo, mas podendo também alternar as suas intervenções de estrofe

5 - C. DESROCHES-NOBLECOURT, La Femme au Temps des Pharaons, Paris: Éditions Stock/Pernoud, 2000, p. 149.
6 - F. PESSOA, Páginas de Estética e de Teoria Literárias (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf
Lind e Jacinto do Prado Coelho), Lisboa: Ática, 1966, p. 73.
para estrofe, por vezes até na mesma, com
igual liberdade e paixão, o que coincide
com o conhecimento que temos da cultura
e da sociedade do antigo Egipto, onde des-
de sempre o critério da dualidade esteve
presente e a igualdade entre sexos era já
remota no Império Novo, altura em que,
simplesmente, se pode ter acentuado.
É evidente que embora estas obras se-
jam anónimas, reflectem um modo de vida
aristocrático. Não só a escrita estava ao
alcance de uma minoria privilegiada, sem
ser apanágio exclusivo dos homens7, como
os poemas apresentam sinais evidentes da
condição social dos seus autores. Fala-se
em «linho real de primeira qualidade»,
em «casas de campo», nos «meus jardi-
neiros» ou nos «teus escravos». Também
se constata que, de um modo geral, se a
arte egípcia se desenvolveu a par e passo
34 com a religião, a quem se manteve sem-
Amenemipet e a esposa, XIX dinastia, Museu Imhotep pre subserviente, a poesia amorosa egípcia
de Sakara. foi essencialmente secular, independente-
mente da presença de Hathor, Ptah ou Ré e
de outras divindades, prontas a escutar um apelo ou a concederem um favor. Parece ter sido
uma produção literária independente e cultivada por ela própria, pelo simples prazer que
proporcionava. Pela sua qualidade sobreviveu à margem de uma vasta e variada literatura
religiosa que o antigo Egipto possuía, entre a qual os textos de carácter ideológico, onde
se enquadram os hinos aos deuses e aos faraós, outro tipo de obras poéticas onde também
é claramente perceptível a qualidade estética8, e os cantos de harpista, indiscutivelmente
concebidos para serem cantados.
7 - «Os reis confiavam os príncipes e, por vezes, as princesas a preceptores que acolhiam igualmente nas suas aulas
os filhos de alguns nobres escolhidos a dedo. Além disso, a instrução era estritamente reservada aos rapazes. Os
arquivos da cidade dos trabalhadores de Deir el-Medina mencionam que algumas mulheres do povo sabiam ler, ou
escrever, competências que elas deviam certamente aos seus maridos arquitectos, engenheiros ou desenhadores»,
K. FARRINGTON, La Vie dans l’Égypte Antique, Paris: Les Éditions de l’Orxois, 1998, p. 73. «Se em Deir el-Me-
dina capatazes, escribas, relatores, alguns trabalhadores comuns e algumas esposas sabiam ler e escrever, como sa-
bemos ser o caso, isto indica uma percentagem muito maior de alfabetização que John Baines e outros estão prepa-
rados para aceitar. [...] As notas dos escribas enviadas de Deir el-Bahari para as suas mulheres em Deir el-Medina
teriam ficado sem resposta quando os escribas estavam todos a trabalhar, a menos que algumas dessas mulheres
também pudessem ler [e escrever]», L. H. LESKO, «Literature, Literacy, and Literati», em L. H. Lesko (ed.),
Pharaoh’s workers: the villagers of Deir el-Medina, Ithaca e Londres: Cornell University Press, 1994, p. 135.
8 - Cf. P. VERNUS, Chants d’Amour de l’Égypte Antique, Paris: Imprimerie National Éditions, 1992, pp. 101-126.
O namoro

Desde sempre que o namoro é um relacionamento interpessoal que tem por função a
realização emocional e/ou sexual entre duas pessoas que gostam de passar grande parte
do tempo juntas para trocar conhecimentos e afectos, e partilharem novas experiências.
Observa-se um compromisso pessoal e social que, numa relação tradicional, antecede o
noivado e o casamento, servindo para os namorados decidirem se devem ou não assumir
outro tipo de compromisso. Houve épocas e locais em que este relacionamento não im-
plicava qualquer tipo de intimidade, mas não parece ter sido o caso do Egipto faraónico.
Aliás, tal como hoje, o namoro parece ter sido aí algo tão sério que, cimentado pelo
amor, podia continuar depois do casamento; um casal, casado ou não, construiria com
o namoro a base mais duradoura da sua vida, a amizade. E se é possível perceber que
certos casamentos parecem ter sido arranjados, as vertentes emocional e afectiva po-
dem ter estado presentes e desempenhado o seu papel na escolha do ou da parceira. Em
muitas inscrições aparecem várias formas do verbo «amar», meri (m ri), normalmente
em epítetos, referindo-se na maior parte das vezes a pessoas de posição superior como
um oficial, o rei ou um deus. Quando o amor, merut (m rw t), era evidenciado a alguém
de condição inferior, era considerado uma boa acção, uma manifestação maatica. Como
a designação mais comum dos textos do antigo Egipto para referir uma mulher casada
era «sua amada esposa», H m t . f m rt, e o nome de Meret, m rt, «A amada», era frequen-
te entre as egípcias9, é muito provável que se admitisse que o casamento abrangesse 35
o amor, podendo mesmo acontecer entre dois cônjuges que não tivessem um estatuto
social completamente igual10.
E mesmo que o amor e o desejo que brotam dos poemas de amor, que alguns admitem
serem simples «construções do sexo masculino com pouco foco sobre o casamento»11 e
outros «canções de amor que falam de amor sensual entre amantes solteiros»12, possam ser
ficcionados, eles reflectem maneiras de pensar e de agir das gentes da época em que foram
concebidos. Infelizmente a poesia amorosa que actualmente se conhece pertence apenas
às XIX e XX dinastias, isto é, um pouco mais do que os séculos XIII e XII a. C. ocupando
por inteiro o período de esplendor ramséssida13. Concentram-se no Papiro Chester Beatty I,
Papiro Harris 500, Papiro de Turim 1996 e Vaso de Deir el-Medina, havendo ainda alguns
fragmentos poéticos dispersos numa série de óstracos de Deir el-Medina. É uma época
em que a sociedade e a cultura egípcias sofreram um processo de transformação motivado
9 - Nome da mulher de Khuenanupu, o camponês eloquente (cf. T. F. CANHÃO, Textos da literatura egípcia do
Império Médio. Textos hieroglíficos, transliterações e traduções comentadas, Lisboa: Fundação Calouste Gul-
benkian, 2014, p. 363; cf. tb. T. F. CANHÃO, Doze textos egípcios do Império Médio. Traduções integrais,
Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013, p. 103).
10 - Cf. J. TOIVANI-VIITALA, «Marriage and divorce», em E. Frood and W. Wendrich (eds.) UCLA Encyclopedia
of Egyptology, Los Angeles, 2013. http://digital2.library.ucla.edu/viewItem.do?ark=21198/zz002cbdg5, p. 7.
11 - J. TOIVANI-VIITALA, «Marriage and divorce», p. 7.
12 - B. S. LESKO, The Remarkable Women of Ancient Egypt, p. 47.
13 - P. VERNUS, Chants d’Amour de l’Égypte Antique, pp. 14-15.
pela «opulência das conquistas e abertura à influências asiáticas»14, propício à inspiração
lírica, já que era uma sociedade mais mundana, mais ligada ao convívio social e aos praze-
res terrenos, do que no passado. Embora nada nos garanta que não tivesse existido poesia
lírica noutras épocas, a inexistência de achados que o confirmem e o facto de toda a que se
conhece estar escrita em neo-egípcio, apontam para esta circunscrição temporal. Contudo,
os sentimentos e as atitudes parecem vir já de tempos bem mais recuados.
Tanto mais que esta nova forma de vida, principalmente das elites, foi acompanhada de
um acentuado individualismo assente no desenvolvimento de uma consciência pessoal que
fez com que o homem se descobrisse a ele próprio, explorando a sua interioridade e revelan-
do os seus sentimentos e vivências mais subjectivas, isto é, expondo o homem interior. E foi
esta busca que motivou a sua apetência pela exploração de textos sobre o amor. É um homem
novo que se guia pelo seu coração, sede do conhecimento, assumindo-o como o seu próprio
motor e deixando para trás a autoridade real que era quem, inquestionavelmente, dirigia o
homem no Império Antigo e que foi posta em causa no Império Médio, onde a vontade in-
dividual dos seus súbditos já colide com a do rei, que se humaniza e aproxima do seu povo,
continuando a servi-lo mas movido pela sua vontade individual. Como diz Rogério Sousa,
«o nascimento do amor é, portanto, um fenómeno historicamente determinado, estreitamen-
te relacionado com a formação de uma consciência individualista que lança visibilidade dis-
cursiva sobre o homem interior. Estreitamente associada à consciência individual, a noção
de coração conheceu um importante desenvolvimento, sobretudo no plano literário onde se
36 criou o gosto pelas contradições e vicissitudes que este órgão, tornado autónomo e condutor
da vontade humana, induz em cada um.»15 Para nós só não é «o nascimento do amor» mas
o nascimento da capacidade de expressar de forma poética o amor, uma vez que este já nos
aparece implícito em épocas anteriores.
Embora não esqueçamos que, formalmente, são poesias escritas há cerca de 3 200 anos,
julgamos que o seu conteúdo é semelhante ao de qualquer outra poesia amorosa. Em qual-
quer época e com qualquer povo, a poesia lírica é a voz da alma; é a revelação do próprio
eu; é a exposição da interioridade do poeta que se serve do mundo exterior apenas como
elemento de criação lírica após a sua interiorização, utilizando-o como pretexto para expor
as suas emoções, os seus sentimentos, organizando-o através da imaginação criadora. Se
integrar uma componente narrativa, ela apenas servirá para evocar uma situação íntima; tal
como uma componente descritiva só é admissível como lírica, uma vez ultrapassada a sim-
ples inventariação de coisas e seres e transformada em universo simbólico do criador lírico.
Mas para chegar a este ponto é necessário a qualquer um percorrer um caminho de aprendi-
zagem e amadurecimento. Foi o que aconteceu no antigo Egipto: antes da revolução mental e
comportamental do Império Novo, as referências ao amor pura e simplesmente não existem.
Contudo, o sexo foi sempre mencionado e valorizado, constituindo uma das funções vitais
a quem os homens arranjaram forma de continuar a existir no Além. Obviamente com uma
forte carga mágica, mas aparecendo desde os «Textos das Pirâmides» e prolongando-se
14 - P. VERNUS, Chants d’Amour de l’Égypte Antique, p. 16.
15 - R. SOUSA, Os Doces Versos. Poemas de Amor no Antigo Egipto, Fafe: Editora Labirinto, 2001, p. 22.
pelos «Textos dos Sarcófagos» e pelo «Livro dos Mortos», de forma a garantir vigor sexual,
primeiro apenas ao rei no Além, depois, à medida que a morte se foi «democratizando», a
todos os defuntos que pudessem assegurar a eternidade com a construção e manutenção de
um túmulo. Na busca pela compreensão do seu interior, dos seus sentimentos e, libertando-
-se da magia imposta ao sexo, o homem criou um novo género literário assente na experiên-
cia amorosa que acabou por emancipar o amor.
A poesia amorosa do antigo Egipto tem os seus próprios temas e conjuntos de imagens,
recorrendo até a jogos de palavras. Os amantes expõem os seus sentimentos, exprimem
o seu desejo e a sua impaciência usando
comparações artísticas, falando com gra-
ça das suas alegrias, esperanças e decep-
ções. Tal como na poesia lírica de qual-
quer época, a natureza acaba por ter um
papel fundamental no idílio: as aves e as
árvores falam, as flores e os pássaros as-
sistem à paixão dos amantes16; os locais
de encontro têm encantadores ambientes
rústicos ou aquáticos; e com as mais boni-
tas flores e saborosos frutos se constroem
imagens poéticas para descrever o corpo
da amada. Falam de amor e da doença do 37
amor, de encontros e de separações, invo-
cam a noite e até têm o seu herói conquis-
tador, Mehi, que aparenta uma reputação
de um Dom Juan.
A utilização de determinadas palavras
e metáforas dá a indicação do cuidado
literário com que foram redigidos, trans-
formando o que à partida poderia ser mais
prosaico, ou mesmo obsceno, num lirismo
inimaginável. O tempo verbal, refira-se o
passado, o presente ou o futuro, é sempre
o presente, uma vez que a poesia lírica re-
sulta da introspecção da memória, já que,
de uma forma geral, o poema lírico não é Casal, VI dinastia, Staatliche Sammlung Aegyptische,
feito no momento da emoção, mas no da Munique.
16 - O caso mais curioso é o dos três poemas que sobreviveram do Papiro de Turim 1996, onde em vez de ouvirmos
os habituais intervenientes, o amado e a amada, tomam a palavra as árvores do jardim. Três poemas em que
cada um tem por narrador uma árvore diferente, uma romãzeira, uma figueira e um sicómoro, assumindo cada
uma personalidade diferente, e rasgando o silêncio com as suas observações acerca de si e dos idílicos encon-
tros entre enamorados sobre os quais, por discrição, nada relatam do que vêem sob os seus ramos, como refere
o sicómoro (cf. R. SOUSA, Os Doces Versos, pp. 133-138).
sua recordação. O discurso directo na primeira pessoa usado de uma forma geral nestes poe-
mas amorosos, em que os amantes se dirigem directamente à pessoa amada de forma íntima
e transbordante de sensibilidade, por vezes também de sensualidade e de erotismo, é certa-
mente uma marca da época em que os poemas viram a luz. Se por um lado é de considerar
um certo «mundanismo» ramséssida, por outro lado é possível haver uma certa influência
da sensibilidade, do intimismo e do realismo vivido no tempo de Akhenaton e Nefertiti, que
não existiam anteriormente, claramente visíveis na estatuária e no relevo do breve período
amarniano (meados do século XIV a. C.), de que, aliás, não distam muito tempo.
Se numa primeira fase o amor apenas se sente, numa fase subsequente ele manifesta-se,
e essa manifestação resulta tanto mais agradável quanto mais propício for o ambiente onde
ele se possa materializar. Da intimidade do lar às referências campestres, os locais referidos
na poesia amorosa egípcia diversificam-se. No conjunto dos poemas amorosos conhecidos
actualmente, são trinta os diferentes locais que a inspiração lírica egípcia revela na sua
construção. São usados de diversas maneiras, apelando a diferentes tipos de sentimentos ou
emoções. O mais usado é a casa, que é onze vezes mencionada e que, com duas excepções,
é sempre a casa do outro, do ser amado, seja ele ou ela. Ambientes aquáticos, como o rio ou
o lago, são referidos por seis vezes; o campo quatro; o quarto de dormir três; depois, uma
série de locais como, por exemplo, o jardim, um esconderijo, um lugar isolado, uma cama ou
pérgula, são referidos uma ou duas vezes; também aparecem com uma ou duas referências
lugares específicos como Mênfis, Khor, Canal-Iti ou as montanhas. Contudo, no seu conjun-
38 to, as referências campestres surgem com dezoito nomeações. A maioria destes poemas são
sobre dois apaixonados, ou sobre um apaixonado/a que procura ou descobre o seu objecto de
paixão que, aparentemente, não residem sob o mesmo tecto e, portanto, podem ser conside-
rados como namorados ou potenciais namorados.
Quando as paixões eram secretas, ou em embrião, a simples passagem em frente da casa
do amado, trocando com ele um olhar fugaz através da porta entreaberta, é motivo para nos
deliciarmos com um poema de amor do Papiro Chester Beatty I, onde a apaixonada acaba
por verbalizar o desejo de que os seus sentimentos sejam do conhecimento da sua mãe, para
assim obter autorização para os poder gozar livremente. Até apela à deusa Hathor, «A Dou-
rada», que, entre múltiplas atribuições e epítetos, era a deusa do amor e do prazer erótico e
sexual! Percebe-se ainda que embora se pudessem apaixonar livremente pelas escolhas dos
seus corações, os Egípcios respeitavam inteiramente os seus pais, ao ponto de precisarem do
seu consentimento para namorarem e, até, se entregarem aos seus amados:

«Passava eu em frente da sua casa


quando encontrei a porta aberta.
O meu amado estava ao lado da sua mãe,
com todos os seus irmãos e irmãs.
O amor dele arrebatava o coração
de todos os que passassem pelo caminho.
Jovem esplêndido e sem igual,
amado de excepcionais virtudes!
Olhou para mim quando eu passei, e toda eu rejubilei.
Como o meu coração vibrou de alegria
quando tu me olhaste, meu amor!
Se a minha mãe conhecesse o meu coração
teria logo percebido.
Ó Dourada faz com que ela perceba,
para que eu corra para o meu amado!
Hei-de abraçá-lo diante dos seus familiares,
sem chorar diante deles.
Alegrar-me-ei por saberem que tu me conheces.
Vou fazer uma festa para a minha deusa,
− O meu coração parece querer saltar −
para me deixar ver o meu amado esta noite
Que bom o que se está a passar!»17

No poema seguinte, também do Papiro Chester Beatty I, reforça-se a ideia do consenti-


mento dos pais, da família em geral e do apelo a Hathor, mas o caminho a percorrer para ir de
encontro ao amado pode ser desconhecido, ou surgir como uma imagem poética semelhante a
certas visões oníricas, em que uma pessoa está quase a chegar a um sítio sem lá conseguir che-
gar nem acabar o caminho. Não saber concretamente onde mora o amado é motivo de grande 39
agitação, tanto interior como exterior, como se lê no resto do poema. Contudo, o amor arrebata
a jovem de tal maneira que ela já pretende que ele mande uma mensagem à sua mãe, isto é, que
faça o pedido de casamento que, segundo o costume, deveria ter o consentimentos dos pais e
que neste exemplo deveria ser primeiramente formulado à mãe da amada:

«O meu amado perturba-me o coração com a sua voz,


até me pôr doente.
Ele mora junto à casa de minha mãe
mas não saberia ir até ele.
A minha mãe tem razão ao dizer-me:
«Desiste dessa ideia!»
Mas doi-me o coração só de pensar nele
desde que o seu amor me arrebatou.
O meu coração é louco, mas eu sou como ele.
O meu amado não sabe que o desejo abraçar,
como eu queria que ele enviasse uma mensagem à minha mãe!
Meu amado, eu estou-te destinada,´
Pela Dourada das mulheres!
Vem, para que eu contemple a tua beleza.
17 - R. SOUSA, Os Doces Versos, p. 86.
O pai e a mãe ficarão contentes,
e todos te aclamarão em uníssono,
é a ti que aclamarão, ó meu amado!»18

Outras vezes a mensagem surge directa e inequívoca: a chegada do jovem a casa da ama-
da é motivo para grande alegria. Neste extracto de outro poema do Papiro Chester Beatty I,
a emoção não está no local, mas no que aí se encontra:

«Chegado a casa da sua amada,


o seu coração poderá entregar-se à alegria.»19

O desejo e as manifestações de amor tanto podem ser dele como dela, mesmo que sejam
simples anseios, simples desejos de estar com a pessoa amada que não passam de meras
introspecções tendo o coração como interlocutor, como se assinala neste poema ainda do
Papiro Chester Beatty I:

«“Não demores, vai ter com ele”


− diz-me o meu coração
cada vez que penso nele.
Não sejas perverso, meu coração:
40 porque te armas em doido?»20

Pode indiciar o desejo do convite ou o desejo de entrar em casa da amada para estar com
ela. Isto se o próximo exemplo não esconder nenhuma mensagem subliminar, com mais
erotismo do que sensualidade, que os restantes versos deste poema do Papiro Harris 500 em
nada contrariam ao utilizar como imagem lírica a comparação da amada com a sua mansão,
a sua casa de campo, manifestação da uma condição social elevada:

«A mansão da minha amada:


a sua entrada está no coração da casa,
tem os batentes abertos
e o trinco está levantado.»21

Por vezes, a casa da amada surge como um local de difícil acesso e introduz a ideia de
que os caminhos do amor são cheios de escolhos, entre os quais a concorrência, porventura

18 - R. SOUSA, Os Doces Versos, p. 82.


19 - R. SOUSA, Os Doces Versos, p. 90.
20 - R. SOUSA, Os Doces Versos, p. 84.
21 - R. SOUSA, Os Doces Versos, p. 114. Os restantes versos são: «A minha amada está furiosa!/Ah! Se ao menos
eu pudesse ser o porteiro,/era contra mim que ela se enfurecia/eu poderia escutar a sua voz irada/e seria uma
criança com medo dela!»
o ciúme, que, neste caso, se apresentava como um obstáculo muito difícil de ultrapassar,
conforme se depreende do resto do poema do Papiro Chester Beatty I que se segue quando
refere que o apaixonado não estava à altura de Mehi e dos seus amigos «namoradores», que
iam no mesmo sentido que ele pretendia tomar. Não é o caminho que está em causa, mas os
obstáculos que podem surgir nele. Não só a sua posição social parece inultrapassável, pos-
sivelmente um príncipe, como dá a entender que seria alguém bastante conhecido pela sua
faceta de Dom Juan, também difícil de contrariar. Provavelmente um grupo de jovens foli-
ões em busca de aventuras amorosas inconsequentes, liderados por Mehi, a quem o jovem
apaixonado não se quer juntar, já que a sua vontade mais premente é ver a sua bela amada:

«O meu coração queria ver a beleza dela


na sua morada.
Mas no caminho encontrei Mehi no seu carro,
rodeado pelos seus camaradas.»22

Quando a casa é a do jovem apaixonado funciona como uma armadilha, um delicioso


expediente do amado para atrair o objecto da sua paixão fingindo-se doente, que colhemos
no Papiro Harris 500. Mas a doença que o retém é o amor, aparentemente secreto para além
do entendimento dos dois enamorados. A repetição em três versos consecutivos de «E en-
tão», julgamos que possa ter a ver com algum tipo de musicalidade, declamada ou cantada.
41
«Deitar-me-ei em minha casa,
e então fingirei estar doente;
e então os vizinhos entrarão para me ver;
e então a minha amada virá com eles.
Fará dos médicos objectos de escárnio,
pois ela conhece a minha doença.»23

Mas a amada também tem as suas armadilhas para conseguir capturar o jovem enamo-
rado. O seu corpo, os sinais que ele envia e, até, os adereços que usa, são habilmente mano-
brados de modo a laçar o amado como se de uma verdadeira caçada se tratasse, conforme
vemos num poema do Papiro Chester Beatty I. Até o anel pode ser entendido como a marca
final de posse, como acontece com qualquer animal marcado com um ferro em brasa pelo
seu dono:

22 - R. SOUSA, Os Doces Versos, p. 83. Os restantes versos são: «Não sabia como evitar a sua presença:/deveria
passar por ele sem me virar?/Mas o rio era como um caminho,/não sabia onde metia os pés./Ó meu coração, és
completamente louco:/porque queres afrontar Mehi?/Se eu o ultrapasso revelo-lhe os meus sentimentos./”Aqui
estou à tua disposição” − dir-lhe-ei./Então ele aclamará o meu nome/e colocar-me-á entre os eleitos/que se en-
contram sob o seu comando.»
23 - P. VERNUS, Chants d’Amour de l’Égypte Antique, p. 76.
«Como ela sabe atirar o laço, a amada,
Mesmo sem ser filha de um criador de touros.
Ela laça-me com o seu cabelo,
captura-me com o seu olhar,
amarra-me com o seu colar,
a sua marca é o seu anel!»24

A maioria dos poemas não se mostra comprometida com amores secretos ou platónicos,
sendo permitidas as relações sexuais antes do casamento a ambos os sexos. Aliás, é comum
admitir-se que a virgindade não era condição sine qua non para o casamento, não repre-
sentando a sua ausência qualquer desonra. Encontramos no vocabulário do antigo Egipto
palavras como «copular», nek (n k) ou usen (ws n), «engravidar» siui (s iwi) ou «desflorar
uma rapariga» ubá (wbA), igualmente o verbo «abrir» com outros sentidos, mas não havia
palavra para virgindade25, ainda que Christiane Desroches-Noblecourt diga que há contra-
tos de casamento em que «parece que a virgindade era um requisito» que podia ser exigido
à jovem nubente26. Pelo contrário, a porta da casa da amada abre-se ao amado, para lá da
qual os espera uma noite de amor, em versos de duplo sentido onde a organização da própria
casa parece também referir-se à anatomia da amada. A imaginação do autor deste poema
do Papiro Chester Beatty I para além de falar do «seu vestíbulo» alude à sua pérgula, que

42 24 - R. SOUSA, Os Doces Versos, p. 97.


25 - L. M. ARAÚJO, Erotismo e Sexualidade no Antigo Egipto, Lisboa: Edições Colibri, 2012, pp. 221-238 e 259-277.
26 - C. DESROCHES-NOBLECOURT, La Femme au temps des Pharaons, p. 177. Ainda no conto ptolemaico Setne
I, «Setne-khaemuaset e Naneferkaptah», a egiptóloga apresenta um exemplo, que não é um contrato de casa-
mento: «O faraó diz ao chefe da casa real: “Conduzam Ahuri à casa de Naneferkaptah esta noite mesmo. E que
com ela sejam levados todo o tipo de belos presentes”. Eles conduziram-me como esposa à casa de Naneferkap-
tah e o faraó ordenou que me trouxessem um grande dote em ouro e prata, oferecidos por todas as pessoas da
casa real. Naneferkaptah passou um dia feliz comigo; recebeu toda a gente da casa real e dormiu comigo nessa
mesma noite. Ele encontrou-me virgem e conheceu-me uma vez, e outra ainda, pois cada um de nós amava o
outro» (Idem, p. 195). Contudo, a palavra «virgem» pode ter sido aqui introduzida indevidamente. Outros tra-
dutores não usam esta palavra: «Naneferkaptah passou um dia feliz comigo e entretido com toda a gente da casa
real. Ele dormiu comigo nessa noite. Ele achou-me [agradável. Ele dormiu] comigo repetidamente, e cada um
de nós amava o outro». No Papiro Westcar, na história «O marido enganado», a expressão que surge é «passa-
ram um dia agradável/feliz com o homem» (wn.in.sn Hr hrw nfr Hna pA nDs), (M. LICHTHEIM, Ancient Egyp-
tian Literature. A Book of Readings. Vol. III - The Late Period, Berkeley, Los Angeles, Londres: University of
California Press, 1980, p. 128; L. M. ARAÚJO, Mitos e Lendas do Antigo Egipto, Lisboa: Centralivros/Livros
e Livros, 2005, p. 250). A palavra «virgindade» não existia na escrita egípcia, podia-se chegar ao sentido des-
sa condição através de expressões do tipo «que não estejam abertas por ter dado à luz» (nty n wpit.sn m msit),
conforme o Papiro Westcar na história «O passeio de barco», ainda que aí pudesse pretender pressupor-se, so-
bretudo, a apresentação de um corpo perfeito sem qualquer deformação (T. F. CANHÃO, Textos da literatura
egípcia do Império Médio. Textos hieroglíficos, transliterações e traduções comentadas, p. 82; cf. T. F. CA-
NHÃO, «Eroticism and sensuality in Papyrus Westcar», L. M. Araújo e J. C. Sales, Actas do Segundo Congres-
so Internacional para Jovens Egiptólogos, CD, Lisboa: Instituto Oriental, 2009, pp. 567-585; e T. F. CANHÃO,
«Eroticism and sensuality in Papyrus Westcar», em F. Caramelo, Res Antiquitatis. Journal of Ancient History,
vol. II (2011), Lisboa: Centro de História de Além-Mar, Universidade Nova de Lisboa/Universidade dos Açores,
pp. 83-101; texto português/inglês em https://www.academia.edu/Telo Canhão).
faz supor um ambiente de vegetação abundante, apetecível e bem tratada, rematado com o
convite:

«Então deves apresentar-te em casa da tua amada.


Chegas à sua porta
E o seu vestíbulo abre-se.
Como é pródiga a sua pérgula
Que oferece cânticos e danças!
Vinhos e cervejas são servidos à sua sombra.
Poderás perturbar os seus sentidos
E conquistá-la para a sua noite:
Então ela te dirá: «Toma-me nos teus braços!
Ao amanhecer nós ainda estaremos assim.»27

O erotismo que transcende de alguns versos pode tornar-se mais explícito ainda, sem
nunca se tornar grosseiro, libertino ou, simplesmente, brejeiro. Pelo contrário, é sempre
apresentado de forma elegante e poética, como no poema que se segue do Papiro Harris
500. Para reter o amado, a amada mostra-lhe que os encantos do seu corpo são uma ver-
dadeira fonte de abundância capaz de satisfazer todas as necessidades do jovem, que ela
suprime com facilidade através de um convite directo e nada discreto:
43
«(…) Onde queres tu colocar o teu coração?
Só me abraçarás quando chegar a altura.
(…) Se me procuras para acariciar as minhas coxas.
É o meu (…)
Vais-te embora por te lembrares da comida?
És um homem escravo do estômago?
Vais-te embora por causa das roupas?
Eu tenho lençóis!
Vais-te embora por causa da cerveja?
Toma os meus seios!
Eles transbordam de abundância por ti.
Vale mais um dia abraçado a mim
que centenas de milhares de campos!»28

Outras vezes é a amada que vai a casa do amado e se envolve em carícias com ele, como
é o caso do poema do Papiro Harris 500 em que a jovem ao chegar a casa do amado o en-
contra na cama. O quarto de dormir é o local de encontro. Provavelmente após uma ruptura,
como se pode depreender não só da pergunta da andorinha («Já é dia. Onde estás?» com a
27 - P. VERNUS, Chants d’Amour de l’Égypte Antique, pp. 70-71.
28 - R. SOUSA, Os Doces Versos, p. 105.
ideia de «por onde andaste toda a noite?») como também do verso «Dissemos um ao outro:
“Jamais te deixarei!”» Esta decisão deixa-a muito feliz e mais ainda quando ele, com as suas
carícias, lhe dá tanto prazer que a faz sentir-se «a primeira das belas», ou seja, a mais feliz
das mulheres.

«Chama a voz da andorinha,


dizendo: “Já é dia. Onde estás?”
Ó pássaro, pára de me censurar!
Encontrei o meu amado na sua cama,
o meu coração transbordou de alegria.
Dissemos um ao outro: “Jamais te deixarei,
e com a minha mão na tua mão
passearemos em todos os belos sítios”
Ele fez de mim a primeira das mulheres
e não magoou o meu coração.»29

Contudo, é no rio que surgem dois dos mais belos e interessantes poemas de amor do an-
tigo Egipto, ambos do Vaso de Deir el-Medina. O primeiro é uma deliciosa aventura de um
jovem loucamente apaixonado a quem o amor dá forças sobrenaturais e torna invulnerável.
A corrente forte da cheia agitada pelas ondas e repleta de crocodilos do Nilo, que para ele
44 não passam de simples moscas, são obstáculos menores para um coração transbordante de
amor e que mal pode esperar por chegar à outra margem. Até julga caminhar sobre as águas!

«A minha amada está na outra margem


e o rio corre entre nós os dois;
a corrente está forte com a cheia
e o crocodilo espreita nos baixios.
Entro na água e enfrento as ondas,
o meu coração é forte sobre as vagas.
O crocodilo é para mim como uma mosca,
a água é como terra sob os meus pés.
É o seu amor que me dá forças
para vencer os perigos do rio.
O meu coração é capaz de tudo
quando ela está perante mim!»30

O segundo é um lindíssimo poema, porventura um daqueles onde o autor conseguiu


imagens poéticas das mais sensuais e de maior erotismo entre os poemas de amor. A amada
frui do prazer de se mostrar ao amado que, por seu lado, goza o fascínio da visão do vestido
29 - R. SOUSA, Os Doces Versos, p. 124.
30 - L. M. ARAÚJO, Erotismo e Sexualidade no Antigo Egipto, p. 450.
molhado e tranparente (linho da melhor qualidade, «como o das rainhas», seria usado ape-
nas por alguém da elite social) colado ao corpo da jovem. Numa análise hoje dita freudiana,
crê-se que o peixe vermelho poderia ter uma conotação fálica. Por fim, o convite: vem olhar
para mim!

«Meu deus, minha flor de lótus!



O meu desejo é descer
para me banhar diante de ti.
Quero mostrar-te a minha beleza
no meu vestido de linho real
de primeira qualidade,
impregnado de unguentos.

Eu quero entrar na água
e voltar para ti
com um peixe-tilapia vermelho
que tenha um belo aspecto na minha mão.
Quero colocá-lo diante de ti sobre...

Meu amor, vem! Olha para mim!»31 45

Esta poesia, sempre tratada com grande lirismo e graciosidade, apresenta uma interes-
sante convenção: os amantes, aqueles que mantêm uma relação amorosa, tratam-se afectu-
osamente por «irmão» e por «irmã», sem que isso implique qualquer ligação incestuosa 32.
Retrata um ambiente onde a sexualidade é alegre e livre, e o desejo desperta os sentidos, da
visão ao olfacto, do paladar ao tacto, mas onde se percebe que quando o autor é um homem,
ou pelo menos é uma fala atribuível a um homem, ao «irmão», as suas manifestações são
mais ao nível da exposição interior e moral, enquanto a mulher, a «irmã», nas intervenções
que lhe são atribuíveis prefere o lado físico e sensual. Em todo o caso, o amor é a sua fonte
de inspiração, quer tranborde de alegria e felicidade, quer reflita tormentos e dificuldades.
Ainda que possamos interpretar estes poemas como sendo acerca de pessoas que vi-
viam estádios de paixão equiparáveis ao namoro, não há qualquer prova de que antes
do casamento houvesse um período, obrigatório ou não, correspondente a um namoro e,
muito menos, a um noivado. Se no caso de casamentos «arranjados» os noivos podiam
apenas conhecer-se no momento em que iniciavam a vida em comum, terão existido mui-
tos outros em que um período, mais curto do que longo, correspondente ao que possamos
considerar um namoro, terá sido uma realidade. Escolhidas pelos próprios, ou pelos pais
ou outros familiares, segundo os poemas de amor, os contos e as histórias, uma vez todos
31 - P. VERNUS, Chants d’Amour de l’Égypte Antique, p. 88.
32 - O incesto legal foi uma necessidade ocasional do faraó e pouco mais. Cf. p. 55-56.
de acordo parece que havia uma certa necessidade dos noivos se conhecerem bem antes
de ser celebrado o contrato de casamento, mas depois do noivo, ou de alguém por ele, ter
pedido o consentimento aos pais da noiva e destes terem reagido favoravelmente. Uma vez
informados sobre o noivo e a sua origem, a sua profissão e o seu estaturo social, era só
combinar a data da ida do jovem a casa da noiva para celebrar o contrato de casamento. A
ausência de fórmulas propriamente ditas do pedido de casamento e do seu consentimento,
indica que a existirem podiam ser simples acordos verbais. Contudo... Hélène Nutrowicz
apresentou recentemente uma investigação em documentos aramaicos provenientes de
Elefantina, papiros e óstracos, onde se instalou a meio do século VII a. C., nos finais do
Terceiro Período Intermediário, antes do reinado do primeiro rei da XXVI dinastia, Psa-
metek I (664-610 a. C.), uma comunidade
judaico-aramaica que, em alguns casos
conhecidos, se miscigenou com a popula-
ção autóctone, fundindo costumes. Trata-
-se uma série de contratos que, embora
com bastantes lacunas, permitem recons-
tituir o quotidiano das mulheres dessa

46

Ptahkhenuui e esposa, V dinastia, Museu de Belas


Artes de Boston.

época em Elefantina. Esses documen-


tos incluem três contratos de casamento
completos (dois de 449 e um de 420 a. C.),
fragmentos de outros e aquilo que a au-
tora chama de uma «espécie de contrato
de noivado» de que, infelizmente, há um
único exemplar conhecido até ao momen-
to, que nos deixa em aberto a questão:
era um costume judaico introduzido no
Egipto ou um costume egípcio adoptado
pelos judeus? Precedendo o contrato de casamento, parece que tinha como objectivo pôr
por escrito o acordado económico-financeiro que viria a ser consumado pelo contrato
de casamento, prevendo igualmente uma interessante cláusula de não cumprimento. Es-
tipulava a concessão de duas somas, uma que seria dada ao futuro sogro, uma «doação
matrimonial», e outra à noiva para a «tomar como esposa». Pela falta de qualquer delas,
haveria sempre uma indemnização a pagar à parte lesada. E se o noivado se desfizesse
sem que houvesse casamento, o pai da noiva seria sempre indemnizado33. De facto, desco-
nhecido em qualquer outra localidade ou época, poderá ter sido apenas uma questão local
motivada pela comunidade judaica radicada na ilha de Elefantina. E com a afirmação da
investigadora de que este tipo de contrato já constava dos textos bíblicos34, pode mesmo
não ter tido nada a ver com costumes egípcios! A referência deste documento arménio é
B2.5 dos arquivos de Miptahiah.

O casamento

«O casamento é o elo fundamental entre a família e a organização social» assente «na


ternura, amizade e intimidade»35. Segundo nos podemos aperceber num recente trabalho
de Jaana Toivari-Viitala, existem bastantes estudos sobre o casamento e divórcio no antigo
Egipto, embora surjam focados em variadíssimas perspectivas e utilizando diversas meto-
dologias. Alguns centram-se em determinados períodos de tempo, outros em localizações
geográficas, outros, em certas personagens, outros, ainda, nos tipos de fontes materiais 47
disponíveis. Há ainda áreas de estudo que acabam por recolher também informações im-
portantes para estas temáticas, como estudos sobre a mulher, estudos jurídicos, de género
ou de antropologia cultural. E para todos eles a autora dá uma, duas ou mais referências bi-
bliográficas. Contudo, como os materiais de análise, escritos ou artísticos, são normalmente
os mesmos mas tratados de forma muito específica, ela refere que «qualquer análise feita
é inevitavelmente incompleta»36. A nossa exposição também o será. Apenas pretendemos
partilhar, em português, com os interessados pela vida quotidiana no antigo Egipto, os prin-
cipais aspectos do enquadramento social e jurídico do casamento e do divórcio no tempo
dos faraós.
Preocupar-nos-emos com a mulher casada, a esposa, hemet (Hm t), a nebet-per (n bt - pr),
a «senhora da casa» ou a «dona de casa» (no sentido de doméstica e não do de proprietária),
set hemet (s t Hm t), «mulher», hemet tjai (Hm t -TAy), «mulher do homem», senet (s n t), «irmã»,
irit en hemes/en unem (iry t n Hm s /n wn m), «Sala de estar/companheira de comer», remetj
(rmT), «pessoa feminina», hebsut (Hb swt), «esposa(?)/concubina(?)», ankhet en niut (an x t n

33 - H. NUTROWICZ, Destins de femmes a Éléphantine au Ve siècle avant notre ère, Paris: L’Harmattan, Associa-
tion Kubaba, Université de Paris I, 2015, p. 24.
34 - H. NUTROWICZ, Destins de femmes a Éléphantine au Ve siècle avant notre ère, pp. 15-20.
35 - T. D. ALLEN, The Ancient Egyptian Family. Kinship and Social Structure, p. 29.
36 - J. TOIVANI-VIITALA, «Marriage and divorce», p. 2.
n iwt), «aquela que vive na cidade», arriscando alguns a tradução de «cidadã»37. Preocupar-
-nos-emos também com o marido, hai (hAy), cuja denominação alternativa era tjai (TAy).
Além destes termos respeitantes à condição, havia outros que identificavam o casamento
com o lugar, embora muitos deles ainda sejam de difícil interpretação. Por exemplo, a frase
gereg per (grg pr), «para fundar uma casa», parece ter sido utilizada tanto para casamento
como para dote. Tal como ak er per (aq r pr), «entrar em casa de», terá servido para desig-
nar o acto de casar, mas pode também referir-se, literalmente, a entrar numa casa, coabitar
ou ter uma relação sexual ilícita. São também de difícil interpretação frases como hemesi
irem/em-di (Hm s i irm /m - d i), «para se sentar/viver juntos», em-di (m - d i), «(ser/estar) em
conjunto com» e uenem em-di (wn m m - d i), «para comer junto com»38. De facto, a língua
egípcia não tinha palavra para «casamento». Aliás, na realidade nem havia uma estrutura
legal para o casamento. Os contratos de casamento que veremos são tardios e referem-se so-
bretudo às condições materiais da união. O casamento era um assunto do foro privado entre
famílias que assentava sobretudo no direito consuetudinário, isto é, na prática constante de
comportamentos e condutas que assumem valor normativo e não necessariamente escrito:
pedido de casamento, consentimento das famílias e início duma vida em comum. Portanto,
era precedido de um pedido de casamento, aparentemente oral, salvo eventuais excepções
antes referidas, em que o candidato a noivo e um elemento masculino da família da preten-
dida, normalmente o pai, mas na sua falta um tio, um irmão ou o familiar mais próximo do
sexo masculino, discutiam as condições do casamento. Entre ambos era combinado o acordo
48 económico e financeiro que, no dia combinado para a entrada da esposa na casa do marido,
era passado a escrito, constituindo o próprio contrato de casamento.

Aspectos sociais do casamento

Por considerarem o casamento um dos mais importantes pilares da sociedade ideal, os


Egípcios aconselhavam o casamento aos seus filhos. Antes do mais era importante ter casa
própria para aí acolher a futura família, e meios para a sustentar. Quem nos diz isto são os
sábios nas suas instruções ou ensinamentos. As instruções são textos em que um orador se
dirige a um interlocutor, normalmente pai e filho, transmitindo-lhe conselhos e ensinando-
-lhe preceitos baseados na sua experiência de vida. É o único género literário para o qual
se conhece uma designação egípcia: sebait (sebAy t). É um termo que se forma a partir da
raiz sebá (s bA), que significa também «porta», «estrela» e «ensinar»39, o que está perfeita-
mente de acordo com a ideia subjacente a estes textos que deveriam ser actos pedagógicos
37 - Tohfa HANDOUSSA apresenta ainda o seguinte apontamento: «O antigo Egipto utilizava dois termos para de-
signar a mulher; quando se tratava da mulher em geral, usava o termo shmt e o termo hmt para designar a mulher
casada. Damo-nos conta disso ao consultar as imagens, desenhos e pinturas de todas as épocas, assim como os
contratos de casamento da época arcaica.», (T. HANDOUSSA, Mariage et Divorce dans l’Égypte Ancienne,
Paris: Librairie Orientaliste Paul Geuthner, 2009, p. 41).
38 - Cf. J. TOIVANI-VIITALA, «Marriage and divorce», pp. 5-6.
39 - R. O. FAULKNER, A Concise Dictionary of Middle Egyptian, Oxford: Griffith Institute, Ashmolean Museum,
1996, p. 219.
que funcionavam como portas que se abriam para o conhecimento e estrelas destinadas a
guiar a vida daqueles a quem eram dirigidas. O sábio Hordjedef, filho do rei Khufu, da IV
dinastia, escreveu c. 2600 a. C. num fragmento da mais antiga instrução conhecida que
chegou até nós, embora este lugar pioneiro seja normalmente atribuído à Instrução de Ptah-
-hotep: «Quando prosperares ergue a tua casa, toma uma mulher de bom coração, e ela te
dará um filho»40. Logo a seguir, na V dinastia, c. 2300 a. C., o referido Ptah-hotep, vizir do
rei Djedkaré Isesi, secundou-o: «Se tu és um homem de excelência constrói uma casa para
ti»41. E bastante mais tarde, c. 1450 a. C., na XVIII dinastia, o escriba Ani precisou melhor
essa autonomia inerente na sua instrução: «Constrói para ti a tua própria casa e não penses
que a do teu pai e a da tua mãe virão a ser tuas por direito.»42 É uma ideia que se prolonga
ao longo do tempo como base de sustentação do matrimónio.
Contudo, nem sempre ou, pelo menos, nem em todos os sítios, a casa pode ter sido a
primeira preocupação. A situação de sustentabilidade do futuro casal43 e a protecção das
filhas, podem ter sido outras razões. L. Meskell escreve: «Os casais jovens talvez criassem
uma casa de amor, mas isso não significa que eles pudessem viver separadamente da sua
família. Em Deir el-Medina, os jovens casados viviam provavelmente em casa dos pais por
razões ligadas à tradição, por causa das despesas ou devido a problemas de alojamento. O
que sabemos do Egipto romano indica igualmente que os jovens recém-casados viviam em
casa dos seus pais, e que na família nuclear eram frequentes sucessivas mortes.»44 Mas na
mesma folha acrescenta a importante informação: «As casas exumadas em Deir el-Medina
sugerem que alguns viviam não em casa dos seus pais, mas ao lado da sua casa. (...) Um 49
exemplo: Sennedjem morava na casa SW6 e o seu filho Khabekhenet na SW7, ao lado, mas
ignoramos como Khabekhenet pôde aceder à sua propriedade.»45
Embora possam surgir, por vezes, informações isoladas sobre este assunto, não há ne-
nhum texto que nos indique com precisão a idade com que um homem ou uma mulher de-
vessem casar no antigo Egipto. Variando de caso para caso, normalmente os jovens podiam
casar-se a partir da puberdade, as raparigas entre os doze e os catorze anos, e os rapazes dos
dezasseis ou dezassete aos vinte anos. Aliás, os conselhos dos sábios iam no sentido dos ca-
samentos se fazerem o mais cedo possível para poderem criar a prole ainda jovem e a terem
criada para os ajudar em vida e lhes garantirem a eternidade na Duat. O escriba Ani diz ao
filho: «Toma uma mulher enquanto és jovem, ela te dará um filho. Ela cuidará de ti»46. E
acrescenta: «Se ela te der uma criança enquanto ainda és jovem, educa-a para que se torne

40 - M. J. MACHADO, «Casamento», em L. M. Araújo (ed.), Dicionário do Antigo Egipto, Lisboa: Editorial Ca-
minho, 2001, pp. 188-189.
41 - C. JACQ, L’enseignement du sage égyptien Ptahhotep, Paris: Éditions La Maison de Vie, 1993, p. 103.
42 - C. JACQ, A sabedoria viva do antigo Egipto, Venda Nova: Bertrand Editora, 1998, p. 106.
43 - A economia do antigo Egipto era à base de trocas de produtos e serviços, pois não conheciam o dinheiro naquela
época, que só aí foi introduzido pelos Gregos.
44 - L. MESKELL, Vies Privées des Égyptiens. Nouvel Empire [1539-1075], Paris: Éditions Autrement, 2002, p. 116.
45 - L. MESKELL, Vies Privées des Égyptiens. p. 116.
46 - M. J. MACHADO, «Casamento», pp. 188-189.
útil. Que felicidade para aquele que tem uma família grande e que é respeitado por causa de
seus filhos»47. Os casamentos precoces eram também uma forma de evitar filhos ilegítimos.
Mesmo assim, em alguns destes conselhos é referida uma idade, como é o caso da instru-
ção do sábio Ankhchechonki transmitida no Papiro Insinger, do final da Época Baixa que
diz ao filho: «Casa-te com vinte anos para que tenhas filhos enquanto ainda fores jovem»48.
Contudo, embora se pudesse procurar uma jovem no início da seu tempo de fertilidade,
a mulher não deveria ser tão nova que ainda fosse totalmente imatura, sendo uma hemet
khered (Hm t Xrd), isto é, uma «mulher-criança». Ptah-hotep é claro na advertência: «Não
tenhas relações sexuais com uma mulher-criança, porque tu sabes que lutarás contra a água
que está no seu coração. O que está no seu ventre não será consertado; que ela não passe
a noite a fazer o que deve ser rejeitado.»49 E isto não era por ser um acto de pedofilia, mas
por ser um acto inútil, uma vez que a principal função do casamento no antigo Egipto era
assegurar descendência, que era impossível nestes casos. Por outro lado, a violação de uma
mulher − virgem, casada ou viúva − era severamente sancionada50.
Mas não se pense que o casamento no antigo Egipto era um simples meio de procriar. Por
aquilo que vimos antes, parece ter sido também um meio de alegria para o homem e para
a mulher, e a base de ternura na busca da felicidade entre os esposos. Uma relação em que
cada um tinha os seus direitos, mas cujas consequências obrigavam a partilhar deveres e
obrigações de cada um para com o outro e para com os filhos, educando-os e protegendo-os.
De uma forma mais abrangente impunha o espírito maatico, porque ao funcionar como uma
50 ligação entre famílias fazia chegar a todos a amizade e a compaixão, e espalhava a solida-
riedade e a entreajuda. Daí que pudesse ser considerada «uma relação legal que se eleva[va]
acima de todas as relações ilegais que a sociedade reprova[va] e não respeita[va]»51. Não há
melhores quadros ilustrativos destas relações do que as cenas amarnianas com demostra-
ções de carinho entre pais e filhos, ou simplesmente comendo uma qualquer refeição, cenas
do quotidiano de onde sobressaem as ligações de solidariedade familiar. Ou como em todas
as cenas dos túmulos das famílias a lavrar, caçar e pescar, pese embora o facto de serem
cenas tumulares destinadas a enquadrar os defuntos em ambientes idílicos para a vivência
de uma eternidade feliz.
O foco do matrimónio devia assentar no bom relacionamento entre marido e mulher,
conforme podemos constatar nas instruções. Ptah-hotep, no seguimento de uma instrução já
mencionada, escreveu: «Ama a tua esposa com ardor, alimenta-a, veste-a, os unguentos são
um remédio para o seu corpo. Faz feliz o seu coração toda a vida. Ela é uma terra fértil, útil
para o seu senhor. Não te imponhas a ela nos negócios. Afasta-a do poder, contém-na − O

47 - T. HANDOUSSA, Mariage et Divorce dans l’Égypte Ancienne, p. 19.


48 - T. HANDOUSSA, Mariage et Divorce dans l’Égypte Ancienne, p. 19.
49 - C. JACQ, L’enseignement du sage égyptien Ptahhotep, p. 133. A referência à água no coração parece ser uma
forma de referir uma falsa afectividade.
50 - R. SCHUMANN-ANTELME e S. ROSSINI, Les Secrets d’Hathor. Amour, érotisme et sexualité dans l’Égypte
pharaonique, Paris: Champollion, Éditions du Rocher, 1999, p. 73.
51 - T. HANDOUSSA, Mariage et Divorce dans l’Égypte Ancienne, p. 17.
51

Raherka e a sua esposa Meresankh, IV dinastia (frente e costas).

seu olho é a sua tempestade quando ela olha − Isto é o que a mantém em tua casa: se tu a re-
jeitares, vêm as lágrimas! O útero coloca-a nos teus braços. Na sua agitação um canal é feito
para ela»52. E o sábio Ani acrescenta: «Se tu vês que a tua esposa é uma boa esposa, então
pára de lhe dar ordens em casa dela... Não lhe digas onde está um certo objecto... leva-lho,
pois ela colocou-o no seu lugar. Observa o que ela faz em silêncio.»53 Ptah-hotep estende o
bom relacionamento à família, principalmente aos que o merecem que com eles se partilhe
a sua vida: «Satisfaz os teus familiares em quem tens confiança, por meio do que te está

52 - C. JACQ, L’enseignement du sage égyptien Ptahhotep, pp. 103-105; M. LICHTHEIM, Ancient Egyptian Lite-
rature. A Book of Readings. Vol. I - The Old and Middle Kingdoms, Berkeley, Los Angeles, Londres: University
of California Press, 1975, p. 69; S. QUIRKE, Egyptian Literature 1800 BC. Questions and readings, Londres:
Golden House Publications, 2004, p. 95.
53 - T. HANDOUSSA, Mariage et Divorce dans l’Égypte Ancienne, p. 20.
a acontecer: tal é o destino daquele que o
deus favorece.»54
Aparentemente estes conselhos eram
atendidos, conforme lemos numa carta
de uma alta patente militar, que foi re-
colhida por Gardiner e Sethe em 1928,
num conjunto de «Cartas Egípcias aos
Mortos», onde um saudoso marido es-
creve à mulher defunta que insiste em
assombrá-lo: «Casei contigo ainda jo-
vem, tu acompanhaste-me durante as
minhas viagens e as minhas estadias
em todos os postos que ocupei. Nun-
ca te deixei sozinha, nunca feri os teus
sentimentos. Quando estive no exérci-
to, enviei-te chefes militares com bons
presentes, para se prostarem a teus pés.
Nunca te escondi nada ao longo de toda
a tua vida, nunca te lesei enquanto fui
teu senhor, nunca te traí para frequentar
52 outra habitação. Quando me mudei para
o novo posto fiquei sem liberdade de me
deslocar para te vir ver como queria, es-
perei pacientemente como se estivesse
ao teu lado e mandei-te roupa e comi-
da, a ti e não a uma estrangeira. Quando
Sennefer, Sentnai e a filha, XVIII dinastia, templo de adoeceste, trouxe-te o maior dos médi-
Amon-Ré, Karnak. cos que te tratou e fez por ti tudo o que
eu lhe pedi.»55 Nem todas as relações matrimoniais eram abençoadas por um ambiente
de perfeição, como se lê, por exemplo, no conto do Império Antigo o «Marido engana-
do», do Papiro Westcar, ou no Conto dos dois irmãos, do Império Novo, do Papiro do
Museu Britânico 10183 (antes Papiro d’Orbiney). E Ptah-hotep avisa para os perigos
da sedução que já colheu «milhares de homens»: «Se desejas fazer durar uma amizade
numa casa onde tens entrada como senhor, irmão ou amigo, ou em qualquer lugar onde
tens entrada, tem cuidado em não te aproximares das mulheres (tocando-lhes). Não é
bom onde isso se verifica. A visão (daquele que entra numa casa) nunca é suficiente-
mente penetrante para detectar as mulheres. Milhares de homens se desviaram assim
daquilo que lhes é benéfico (deixando-se apanhar na armadilha da sedução). Um curto
instante (de prazer) é semelhante a um sonho, e a morte atingir-te-á por teres conhecido
54 - C. JACQ, L’enseignement du sage égyptien Ptahhotep, p. 107.
55 - T. HANDOUSSA, Mariage et Divorce dans l’Égypte Ancienne, p. 21.
as sedutoras! Quanto àquele que fracassa constantemente cobiçando as mulheres, ne-
nhum dos seus objectivos será alcançado.»56
No antigo Egipto, embora o direito tenha evoluído e variado de época para época, de uma
forma geral as esposas que tivessem tido relacões extraconjugais não eram simplesmente
desprezadas. As adúlteras eram fortemente punidas, sendo repudiadas e perdendo todos os
seus direitos. Pelo menos nos tempos mais recuados, o adultério era considerado um crime
hediondo, podendo a adúltera ser mesmo exposta à morte, pelo menos a crer em alguns
textos literários antigos, como os referidos contos do «Marido enganado»57 e o Conto dos
dois irmãos58, se nos esquecermos que são obras ficcionadas e que pretendem, sobretudo,
expor uma certa moral. Mas, na verdade, a maioria dos documentos conhecidos de vários
tipos, aponta para o facto de no antigo Egipto as esposas se consagrarem exclusivamente aos
seus maridos. Era esposa, senhora da casa e mãe exemplar. Embora tivesse os seus direitos e
assumisse em quase todo o período faraónico um papel de igualdade em relação ao marido,
parece ter desenvolvido um certo respeito ao cônjuge que considerava como seu senhor.
Por isso era sensível ao facto de ele estar um dia inteiro e penoso a trabalhar de sol a sol e
esperava-o ao fim do dia com água para o lavar e uma refeição que lhe tinha preparado.
De uma forma geral, os antigos Egípcios preferiam os casamentos entre pessoas da
mesma posição social. Não há documentos que o consagre especificamente, mas os que
existem mostram que o procuravam fazer, tal como os pais preferiam casar as filhas com
pretendentes que tivessem a sua profissão. Isto pode verificar-se consultando contratos de
casamento. Por exemplo, contratos de casamento de Tebas, da época faraónica como da 53
época ptolemaica, mostram que a maioria dos sacerdotes daí casaram com filhas de outros
sacerdotes. Tal como um príncipe da época arcaica que escolheu para esposa do seu filho
uma filha de um general do exército, e para casar com a sua filha um dos oficiais do mes-
mo exército. Ou, também da época arcaica, a história daquele dependente que trabalhava
numa propriedade do templo de Amon e que quis desposar a filha de um sacerdote do
templo, comprometendo-se a fazer prova de que o seu pai fora sacerdote. O pai da rapa-
riga respondeu-lhe que ela era ainda muito nova para casar e que, enquanto esperassem,
ele próprio que se tornasse sacerdote de Amon, só assim lhe daria a filha em casamento.
E de facto, só depois de provar que seu pai tinha sido sacerdote e dele próprio se tornar
sacerdote, lhe foi dada a rapariga em casamento59.

56 - C. JACQ, A sabedoria viva do antigo Egipto, p. 101.


57 - O amante foi condenado à morte pelo soberano que o ofereceu ao crocodilo, e à adúltera o faraó condenou-a à
morte pelo fogo. No tempo em que ocorreu este conto, no Império Antigo, o castigo era a morte, que só o faraó
podia ordenar; mais tarde, na Época Greco-romana, poder-se-iam resolver estas questões com o divórcio (cf. T.
F. CANHÃO, «Eroticism and sensuality in Papyrus Westcar», pp. 567-585; e em F. CARAMELO, Res Antiqui-
tatis. Journal of Ancient History, pp. 83-101; texto português/inglês em https://www.academia.edu/Telo Canhão).
58 - Excluindo todo o envolvimento mágico, esta morte teve contornos passionais, em que o marido matou a mu-
lher que o tentou trair com o seu próprio irmão e que, uma vez desprezada por este, acusou o cunhado de uma
violação que não acontecera, separando os dois irmãos do excelente convívio que até então existira (cf. L. M.
ARAÚJO, Mitos e Lendas do Antigo Egipto, pp. 199-208).
59 - T. HANDOUSSA, Mariage et Divorce dans l’Égypte Ancienne, pp. 28-29.
54

O funcionário Memisabu, exibindo o título de «conhecido do rei», e sua esposa, IV dinastia.

Há, no entanto, alguns contratos em que isto não se verificou, constituindo a excepção à regra e
mostrando que por vezes existiram casamentos em que o marido e o seu pai eram de condição infe-
rior à da noiva e do seu pai60. Uma observação que Heródoto fez no Egipto a respeito dos criadores
de porcos foi: «Os Egípcios têm os porcos por animais impuros; [...] ninguém quer dar-lhes a filha
em casamento nem casar com as suas filhas, eles casam as suas filhas e tomam mulher em casa
uns dos outros.»61 E se não há qualquer contrato de casamento entre escravos, há pelo menos um do
casamento entre um homem livre e uma escrava. A esposa era escrava mas tinha nesse contrato os
mesmos direitos de qualquer mulher livre (B3.3 dos arquivos d’Ananiah). A sua condição de escra-
va era-o apenas perante o seu senhor, mas ela tinha o direito de se divorciar, de ter propriedades ou
de fazer dos filhos seus herdeiros. Teve dois, um rapaz que era uma criança livre mas que em caso
de divórcio dos pais perdia a liberdade tornando-se escravo do dono da sua mãe, e uma rapariga que
foi liberta em vida da mãe e adoptada pelo filho do dono da mãe62.
Outro hábito praticado nos casamentos do antigo Egipto era a endogamia. Não só a en-

60 - T. HANDOUSSA, Mariage et Divorce dans l’Égypte Ancienne, p. 29.


61 - HERÓDOTO, L’Égypte. Histoires, livre II, Paris: Les Belles Lettres, 1997, p. 65 (II, 47).
62 - H. NUTROWICZ, Destins de femmes a Éléphantine au Ve siècle avant notre ère, p. 47.
dogamia de aldeia como, por vezes, a endogamia de linhagem, isto é, os casamentos consan-
guíneos entre parentes próximos, em particular os incestuosos. Os pais não eram favoráveis
aos casamentos com elementos estranhos ao local onde viviam. O sábio Ankhchechonki
escreveu: «Não cases o teu filho com uma mulher de outra aldeia, para que vocês não se
separem.»63 Os pais preferiam ver os filhos e netos à sua volta, numa família numerosa e
unida, do que perder de vista parte da família sem poderem confirmar a progenitura de al-
guns familiares, promovendo muitas vezes os casamentos com parentes tão afastados quan-
to possível. Porém, o direito consuetudinário permitia mesmo o casamento entre parentes
mais próximos, como era o caso dos primos em primeiro grau. Menos comum, mas docu-
mentado, era o casamento de jovens raparigas com um tio paterno ou materno. Há exemplos
de casos destes em túmulos do Império Novo, um dos quais diz que os dois irmãos do seu
proprietário casaram com as filhas um do outro. Há exemplos também na época ptolemaica.
Contudo eram raros, o que mostra que embora tenham ocorrido alguns casos, não foi um
procedimento que se tenha expandido.
Embora não possa ser considerado endogamia de aldeia, esta mentalidade atingiu até os
reis egípcios, alguns tendo casado com princesas estrangeiras para consolidar relações entre
países, sobretudo nas XVIII e XIX dinastias, mas que não gostavam de dar as suas filhas em
casamento a estrangeiros. É conhecido o caso de Amen-hotep III que, para além da grande
esposa real Tié e das filhas Isit e Sitamon, casou ainda com duas princesas de Mitanni, duas
da Babilónia e uma de Arzauá (zona oeste da Anatólia), mas quando o rei do Mitanni lhe pe-
diu as suas filhas para casar torceu o nariz e respondeu: «Nunca, desde tempos imemoriais, 55
que nenhuma filha do rei do Egipto foi dada a alguém»64. Fora da realeza há pelo menos um
caso, já bastante tardio e com envolvimento persa, que sugere ser a documentação de um
casamento entre pai e filha, mas que segundo Paul John Frandsen tem sido negligenciado
até agora. No Museu do Instituto Oriental de Chicago, a estátua do porteiro-chefe do templo
de Hórus-Khenti-Kheti, Djedhor (nº 10589), de c. 325 a. C., do tempo de Alexandre Magno,
na Segunda Ocupação Persa, tem uma inscrição onde surge o nome da filha e da esposa de
Djedhor que, em 1965, Eric Young julgou serem a mesma pessoa, tendo sido contrariado em
1981 por uma publicação de Elizabet Sherman. Comparadas as duas opiniões e observadas
a estátua e a sua inscrição, mesmo assim apresentando um raciocínio numa parte lógico e
noutra especulativo, Frandsen mantém-se convicto de que primeira opinião é a que parece
mais plausível65.
Já os tão repercutidos casamentos entre irmãos no Egipto faraónico motivados pelo
modo terno de tratamento de «irmã» e «irmão» nos poemas de amor do Império Novo,
ou como prova de amor em contratos de casamento mais antigos com noivos claramente
de famílias diferentes, não terão acontecido apenas no palácio real, condicionados por

63 - T. HANDOUSSA, Mariage et Divorce dans l’Égypte Ancienne, p. 25.


64 - J. FLETCHER, Egypt’s Sun King. Amenhotep III, an Intimate Chronicle of Ancient Egypt’s Most Glorious Pha-
raoh, Londres: Duncan Baird Publishers, 2000, pp. 147-148.
65 - P. J. FRANDSEN, Incestuous and Close-kin Marriage in Ancient Egypt and Persia. An Examination of the Evi-
dence, Copenhaga: Museum Tusculanum Press e CNI Publications, 2009, pp. 40-41.
circunstâncias particulares fundamentadas. Não eram casamentos meramente simbó-
licos, tendo por objectivo o fornecimento de herdeiros legítimos para o trono com a
manutenção da pureza do sangue real: a esposa mais adequada para um rei do Egipto
era a filha de um rei do Egipto, nem que fosse o próprio pai. Entre a população comum
egípcia, um estudo de Jaroslav Černy, publicado em 1954, revelou que não havia evi-
dências para o casamento entre irmãos no Império Antigo; que no Império Médio havia
dois casos «praticamente certos» e outros dois «possíveis, mas pouco prováveis»; e
encontrou um caso muito duvidoso na XX dinastia e um certo na XXII dinastia. Todas
as evidências destes casos apenas provam que os casais eram meios-irmãos e não irmão
e irmã. Verificou também que antes de Tutmés III as esposas não eram chamadas de
«irmãs» pelos seus maridos. Mais tarde, Henry Fischer descobriu outro caso possível
de casamento entre meio-irmãos no Império Médio 66. Depois da década de 70 do século
XX, Ahmed Fakhry encontrou no oásis de Bahareia, no deserto líbio, mais casos de ca-
samentos entre irmãos e irmãs no túmulo do sumo sacerdote de Khonsu, Pedastart, que
casou com uma irmã, e cuja descendência procedeu do mesmo modo, pois a sua filha
mais velha «casou com o seu próprio irmão»67.
Embora escassos, estes casos não deixam de ser evidências. Contudo, Frandsen afirma
que «No Egipto, os casamentos incestuosos no seio da família real atingiram o seu auge
durante o período ptolemaico. (...) É de notar, contudo, que numa sociedade onde o incesto
é praticado na família nuclear, não há discrepância entre o que é lícito para a realeza e para
56 a população»68. Se estava ou não autorizado não se sabe, mas que não se expandiu entre a
população parece ter sido um facto, pois não há qualquer caso documentado. Já do período
romano parecem ser abundantes as evidências respeitantes a casamentos entre irmãos, que
nesta altura tiveram uma ampla disseminação. A situação só é estranha para os judaico-
-cristãos, pois no antigo Egipto não era nada estranha, uma vez que os Egípcios gostavam
de imitar tanto os reis como os deuses! E se os reis o faziam, tinham sido os deuses os pri-
meiros a dar o exemplo logo no mito da criação com os casos de Chu e Tefnut, Geb e Nut,
seguidos de duas das suas mais adoradas divindades, Osíris e Ísis, acompanhados pelos
seus irmãos Set e Néftis. E até podemos falar de adultério, uma vez que, segundo uma das
versões mitológicas e independentemente da causa, Néftis se disfarçou de Ísis para conceber
com Osíris o deus Anúbis.
O que não causa estranheza é o facto de no antigo Egipto se ter praticado a poligamia,
pois ainda hoje vivemos rodeados de casos de poligamia autorizada e justificada em várias
culturas em diversos pontos do globo. Não se sabe se ela era autorizada ou não, e se havia
algum limite ao número de esposas, mas sabemos que era praticada pela realeza, pelas elites
e, por vezes, pela população. Contudo, a sociedade egípcia era tendencialmente monogâmi-
ca, admitindo-se a possibilidade da existência de outras mulheres na família, por casamento

66 - P. J. FRANDSEN, Incestuous and Close-kin Marriage in Ancient Egypt and Persia, pp. 37-38.
67 - P. J. FRANDSEN, Incestuous and Close-kin Marriage in Ancient Egypt and Persia, pp. 38-39.
68 - P. J. FRANDSEN, Incestuous and Close-kin Marriage in Ancient Egypt and Persia, p. 24. Frandsen ainda ex-
plora os difíceis meandros do «Livro dos Sonhos» e das maldições. Por fim fixa-se no Egipto greco-romano.
ou concumbinato, em casos bem determinados como a inexistência de filhos. Nos primeiros
tempos do Egipto faraónico parecem não ter privilegiado a poligamia, mas depois ela foi
sendo praticada e foi aumentando. Não é em textos e na arte que eles surgem documenta-
dos, onde são raríssimos, mas em túmulos. Em túmulos do Império Antigo, na III dinastia,
os casos que há de defuntos com mais de uma mulher apresentam dúvidas se serão todas
suas esposas ou se algumas podem ser filhas ou, até, a sua mãe. Já na IV dinastia temos
as três pirâmides principais de Guiza, duas delas acompanhadas de outras três pirâmides
mais pequenas para as esposas dos reis Khufu e Menkauré. Contudo, pensa-se que uma das
pirâmides pertencentes às rainhas de Khufu seja da rainha-mãe, Hetepherés. Na V dinastia,
um túmulo privado perto do santuário de Menkauré pertencente a um indivíduo de nome
Sésu, indica que teve duas mulheres que aparecem pintadas separadamente cada uma em
seu quarto. Já da VI dinastia temos o túmulo de Meriá com a informação de que teve seis
esposas. Uma, Aiés, recebe presentes e flores dos filhos do marido tendo as outras cinco
mulheres em pé à sua retaguarda. Nesta pintura foi indicado o nome da mãe de cada filho,
mas não há nenhum atribuído a Aiés. Provavelmente foi um caso de amor que a conservou
com o marido, mas a sua esterilidade tê-la-á integrado num sistema poligâmico, aparente-
mente sem perda do lugar de primeira das esposa. Portanto, no Império Antigo, a poligamia
não era um hábito enraizado mas um acto esporádico.
No Império Médio a situação altera-se ligeiramente e há mais informação, mas, com ex-
cepção do caso do túmulo de Akhihotep, em Mir, que teve cinco esposas e um grande número

Grupo familiar: Ukhhotep com as duas esposas e uma filha, XII dinastia, Museu Egípcio do Cairo.
57
de cortesãs, todos os outros casos são de bigamia. Também a estirilidade deve ter sido a causa
destes casamentos de Akhihotep, uma vez que em todas as pinturas do seu túmulo aparece
sempre uma única filha. Em Abido há duas pinturas que mostram que os dois proprietários
desses túmulos tinham duas esposas. Num deles há a confirmação de que viveram ao mesmo
tempo com o mesmo homem, mas no outro não há nenhuma indicação, por isso até pode ter
havido uma substituição devido a divórcio. Neste segundo caso, há a indicação que os dois
filhos do senhor eram filhos de uma delas, não havendo qualquer filho atribuido à outra. Há
ainda o caso do túmulo de Habijeffei, onde um texto fala em «duas donas de casa» mas, embo-
ra se saiba que uma morreu, não se sabe se coabitaram ambas com o marido. Casos de poliga-
mia só há, de facto, um. Todos os outros são de bigamia. Aparentemente a poligamia não era
desejada. E se acrescentarmos a isto a informação dos outros túmulos, de «que os homens pre-
feriam ter uma única mulher e várias concubinas», vemos que «a poligamia não era um direito
consuetudinário e não era muito apreciado pelo povo porque o casamento não era fácil»69.
Era muito mais fácil e barato recorrer a concubinas do que arcar com as responsabilidades e
despesas que o casamento exigia. Nos contratos de casamento estudados por H. Nutrowicz, há
mesmo uma cláusula no documento B3.8, dos arquivos d’Ananiah, que interditava uma segun-
da esposa ou marido: «Mas Iehoiichima não tem o direito de adquirir/não tem direito a outro
marido para além de Ananiah» e «Além de que Ananiah não poderá tomar outra mulher para
além de Iehoiichima»70. Mais uma vez e para já, não é possível generalizar esta questão ao
povo autóctone, mantendo-a localizada em Elefantina e entre a comunidade aramaico-judaica.
58 No Império Novo, em 458 túmulos de notáveis de Tebas, constata-se que só treze tínham
mais de uma esposa, todas com o título de «dona de casa». Só no caso de Nebamon, sabe-
mos que as duas esposas, Ti e Sinsibtu, viviam em casas separadas. Aparentemente, nos
outros casos havia cohabitação. Correm-se as necrópoles tebanas de Dra Abu el-Naga, Deir
El-Bahari, el-Khokha, Assassif, Cheik Abd al-Gurna, Deir el-Medina e Gurnet Murai, e
os casos encontrados são poucos e apresentam duas ou três esposas, excepcionalmente um
homem tem quatro, as quais, com excepção de uma pintura, foram representadas em pin-
turas separadas. Não sabemos a razão da separação, nem porque não aparecem juntas com
o marido. Como interpretar isso? Não foram suas esposas ao mesmo tempo? Foram despo-
sadas uma após a outra? A primeira morreu ou divorciou-se? Ou cada uma tinha uma casa
separada? Em todo o caso são cenas raras que confirmam a poligamia, mas são insuficientes
para atestar que era um hábito generalizado. Ela era conhecida e, excepcionalmente, alguns,
muito poucos, podiam praticá-la, mas a grande maioria não a apreciava. Aparentemente o
direito consuetudinário podia admiti-la, mas não sabemos, por exemplo, se punha limites
ao número de esposas. O que parece certo é que a partir do Império Novo cada esposa pa-
rece viver numa casa independente, conforme se depreende de um texto onde uma mulher
chamada Mutemheb se queixa do marido dizendo que «Ele nunca trouxe ouro quando veio
a minha casa»71, o que vai ao encontro da representação das esposas em separado e em es-
69 - T. HANDOUSSA, Mariage et Divorce dans l’Égypte Ancienne, p. 34.
70 - H. NUTROWICZ, Destins de femmes a Éléphantine au Ve siècle avant notre ère, pp. 66-67.
71 - T. HANDOUSSA, Mariage et Divorce dans l’Égypte Ancienne, p. 38.
paços próprios nas pinturas dessa época, ao contrário das do Império Antigo e do Império
Médio que mostram a família toda junta numa casa comum.
Também parece que todas as esposas se relacionavam bem entre si, e que o marido não
tinha preferência pela primeira esposa em relação às outras, com excepção daquele caso das
seis esposas do Império Antigo em que Meriá preferia Aiés, a primeira esposa, em relação
às outras mulheres. Aparentemente, como não tinha filhos, parece ter sido ela própria a
encorajar o marido a ter outras esposas para solucionar a situação, conforme se depreende
do quadro de harmonia e consideração por ela da parte das outras mulheres e seus filhos.
Posta de lado esta excepção, parece que o marido tinha o mesmo comportamento e equidade
para com todas as esposas. Todas tinhas o título de «dona de casa», e até quando saíam o
faziam em conjunto. Mas, repetimos, ter mais do que uma esposa era a excepção. Podia não
ser proibido, mas era raro porque era caro. As obrigações financeiras do marido para com a
esposa, que duplicavam se fossem duas, triplicavam se fossem três e assim sucessivamente,
parecem ter afastado a maioria dos Egípcios da poligamia. Além disso, como vimos, ter em
conta a atitude da primeira esposa em relação a uma segunda também era de ter em consi-
deração, pois há contratos de casamento onde a liberdade do marido, e até da mulher, era
limitada em relação ao casamento com segundas esposas ou maridos.

Hetepsebek e as duas esposas, Império Novo.

59
Se a poligamia é difícil de documentar e generalizar no antigo Egipto, a poliandria ainda
o é menos. Nem nos casos documentados é possível afirmar que uma mulher viveu ao mesmo
tempo com dois maridos. O exemplo mais comum é o de uma dama que hoje habita o Louvre,
chamada Menket, que surge numa estela na companhia do marido Hor, e noutra estela do mes-
mo museu a mesma Menket aparece na companhia de outro marido chamado Nesumontu. Tal
como este há outros casos, mas nenhum permite afirmar que foram casos de poliandria, pois
não há qualquer prova de vida em comum. Pelo contrário, estelas distintas provam é que um
poderá ter sucedido ao outro, por morte ou divórcio em relação ao primeiro72.
Provavelmente, muitos estão há algum tempo a perguntar porque é que ainda não falá-
mos da festa do casamento. A resposta é muito simples: porque não havia nenhuma ceri-
mónia ou registo formal de casamento num qualquer templo. Os sacerdotes que aparecem
nos documentos são escribas, noivos, ou pais de noivos e noivas, e não estão presentes por
razões religiosas. E se algum rei, ou alto dignitário, deu um banquete por altura do casamen-
to de alguma filha/filho para apresentação do/da pretendente, foram casos isolados e sem
qualquer integração em qualquer costume a que se possa chamar de boda. Alguns eram pre-
cedidos por um namoro, outros não, mas todos tinham o consentimento dos pais, sobretudo
do pai. Tanto quanto sabemos, até ao reinado de Amásis era o rapaz que pretendia casar que
pedia à família desta a rapariga em casamento. Mas, ao contrário do que alguns afirmam,
este era um acto com enquadramento jurídico, um acto da esfera do direito privado, havendo
normalmente lugar a um contrato pré-nupcial e, por vezes, a acordos financeiros comple-
60 mentares exarados por um escriba e por si assinado, bem como por diversas testemunhas,
cujo número variou ao longo do tempo. É, por isso, altura de nos debruçarmos sobre o ponto
de vista jurídico do casamento.

Aspectos jurídicos do casamento

Os primeiros estudos jurídicos sistemáticos sobre os antigos Egípcios foram os de Ja-


cques Pirenne, na década de 30 do século XX. Feitos dinastia a dinastia, tanto para as
instituições públicas como para o direito privado do Império Antigo, mostram-nos como e
quando surgiram determinadas ideias, curiosas evoluções e que nem sempre a mulher foi
considerada igual ao homem. Segundo o investigador belga, os mais antigos documentos
egípcios sobre o direito de família, vindos, por tradição, certamente de épocas bem mais re-
cuadas, encontram-se no fim da V dinastia nos «Textos das Pirâmides» nas frases: «Osíris,
tu és o primeiro filho de Geb, o mais velho, o seu herdeiro.» e «É meu filho, meu querido, o
que primeiro me nasceu, que se senta no trono de Geb, aquele onde Geb está feliz, aquele a
quem ele deu a sua herança perante a grande Enéade divina.»73, segundo as quais o primo-
génito era o herdeiro do pai. Era uma época em que cada cônjuge tinha património próprio
e não existiam bens de família, como se verifica nas autobiografias de altos funcionários

72 - Cf. C. DESROCHES-NOBLECOURT, La Femme au temps des Pharaons, p. 183.


73 - J. PIRENNE, Histoire des Institutions et du droit privé de l’ancienne Égypte. II, La Ve Dynastie, Bruxelas: Édi-
tions de la Fondation Égyptologique Reine Élisabeth, 1934, p. 345.
61

Nefersekheru entre as suas duas esposas, XIX dinastia, Tebas Ocidental.

dos reinados de Unas e de Teti. Num exemplo que J. Pirenne dá da biografia de um homem
chamado Metjen, filho de um escriba judiciário, sab sech (sAb sS) e duma dama que desem-
penhou altas funções no tempo do rei Seneferu, o filho mais velho recebe do pai os seus
bens, «terras com pessoas e gado» mas sem grão ou qualquer bem da casa, enquanto a mãe,
«dispõe livremente dos seus bens para doação ou testamento»74. O direito de família, na sua
forma mais simples constituída por pai, mãe e filhos, era na III e IV dinastias essencialmen-
te individualista, estando o marido e a esposa completamente em pé de igualdade, tal como
os filhos em relação às filhas.
«A evolução considerável do direito de família da III ao fim da V dinastia é seguida
passo a passo nas representações gráficas das mastabas do Império Antigo.»75 Os túmulos
da III dinastia mostram um regime de família individualista, sendo o defunto frequente-

74 - J. PIRENNE, Histoire des Institutions et du droit privé de l’ancienne Égypte. II, La Ve Dynastie, pp. 345-347.
75 - J. PIRENNE, Histoire des Institutions et du droit privé de l’ancienne Égypte. II, La Ve Dynastie, p. 381.
mente representado sozinho. Na IV dinastia, mantêm-se ainda túmulos individuais mas,
regra geral, aparecem as esposas representadas ao lado do marido, embora nem sempre
de igual tamanho em relação a este. Em algumas esculturas e relevos murais surgem já
representações dos filhos. Na V dinastia os filhos são sempre representados mas com
destaque para o primogénito, mesmo que fosse uma filha. As esposas, que começaram
por ser representadas como iguais, vão sendo subalternizadas pelo tamanho reduzido em
relação ao do marido ou assumindo uma posição secundária. Na VI dinastia, tanto a posi-
ção dos filhos como a da esposa tornaram-se um direito e impuseram-se a todos: o direito
do filho mais velho, papel nessa altura nunca representado por uma filha, a secundari-
zação dos restantes e a subalternização da esposa, que vê «a sua anterior independência
jurídica desfazer-se inteiramente ficando sob o poder do marido e, enviuvando, na tutela
do filho mais velho, visto como um tutor, cargo a que o seu filho pode dar continuidade
por testamento.»76 «No fim da VI dinastia, a família não é mais, como na III dinastia, a
reunião de personalidades jurídicas independentes; é uma única célula social colocada
sob a autoridade do pai»77, acarretando igualmente alterações na divisão dos bens que
passam a ser divididos em bens próprios e bens patrimoniais, distinção desconhecida nas
III e IV dinastias.
Actualmente, a história jurídica do antigo Egipto é analisada pelos investigadores
fundamentalmente segundo dois modelos diferentes: uns dividem as épocas do direito
segundo as próprias épocas da história política; outros dividem-na em três grandes ciclos
62 que não correspondem aos da história política. O primeiro ciclo vai da I dinastia à XI
dinastia e subdivide-se em duas partes: da I dinastia à V dinastia, da criação do direito à
sua idade de ouro durante o Império Antigo, onde a tendência individual se impôs; da V
dinastia à XI, a decadência, onde o sistema feudal se foi desenvolvendo. O segundo ciclo
estende-se da XI dinastia ao fim da XXV dinastia com a invasão dos Hicsos, que embora
tivessem originado a divisão entre Império Médio e Império Novo não provocaram qual-
quer alteração do sistema jurídico. Também se divide em duas partes: da XI dinastia à XX
dinastia, período em que o sistema jurídico se desembaraçou das influências do sistema
feudal e evoluiu de novo para um sistema individual «impregnado de uma espécie de
socialismo»78; e da XXI dinastia até ao fim da XXV dinastia, com o regresso e expansão
do sistema feudal. No terceiro ciclo, da XXVI dinastia ao fim do período ptolemaico,
reinou grande confusão. É o período em que se popularizou a língua e a escrita demótica,
que deixou mais de três mil documentos que vão do fim do período faraónico à época
Greco-romana. Os Egípcios submetiam-se ao direito egípcio e os Gregos ao direito gre-
go, as quais entrecruzavam de tal maneira que, no ano 118 a. C., Ptolemeu II Filadelfo
promulgou uma lei «estipulando que a língua de um documento determinava o direito a

76 - J. PIRENNE, Histoire des Institutions et du droit privé de l’ancienne Égypte. III, La VIe Dynastie et le Démem-
brement de l’Empire, p. 351.
77 - J. PIRENNE, Histoire des Institutions et du droit privé de l’ancienne Égypte. III, La VIe Dynastie et le Démem-
brement de l’Empire, p. 354.
78 - T. HANDOUSSA, Mariage et Divorce dans l’Égypte Ancienne, p. 12.
63

Nikaré, a esposa Khuennub e a filha Khuennebti, V dinastia, Museu Metropolitano de Arte de Nova Iorque.

aplicar» sem ter em conta a nacionalidade dos visados: se o documento estivesse redigido
em grego era o direito grego que se aplicava, se estivesse escrito em demótico aplicava-se
o direito egípcio79.
Respeitantes ao casamento no Egipto faraónico há numerosos documentos hieráticos e
demóticos que vão do Época Arcaica aos Ptolemeus e são provenientes de variados locais
como Elefantina, Gebelein, Tebas, Egipto Central, Faium e Mênfis, registando estes últimos
um sistema diferente para descrever o casamento em relação aos primeiros. Variam não só
na forma como o seu conteúdo também é diferente. Isto determina essencialmente três tipos
de contratos de casamento distintos. Em Tebas os documentos dizem que era o marido que
devia pagar um dote à esposa, sep en chemet (s p n sh m t), reflectindo no Alto Egipto o di-
reito consuetudinário. No Baixo Egipto era diferente, encontrando-se dois tipos de contratos

79 - Cf. T. HANDOUSSA, Mariage et Divorce dans l’Égypte Ancienne, pp. 11-12. Parte dos exemplos de contratos
de casamento e de contratos financeiros do antigo Egipto constantes neste artigo foram traduzidos deste livro.
Com a comparação que fizemos de alguns contratos que encontrámos no livro de Griffith indicado mais à fren-
te, introduzimos algumas alterações, nomeadamente ao nível da apresentação das datas e da uniformização dos
contratos. A autora refere ter considerado apenas os contratos de casamento oriundos de Tebas, mas há contratos
provenientes de outras origens (Idem, p. 42).
de casamento: no primeiro com a expressão hed en i er hem (hD n i r Hm t), «dinheiro para
tomar esposa», era claramente a esposa que pagava um dote ao marido, designando-se os
contratos por chu en hemet (sx w n Hm t), os quais garantiam o direito da mulher à proprie-
dade marital. O segundo é uma espécie de acordo financeiro entre os esposos, referindo-se
sobretudo a uma pensão alimentar para a mulher. Estes contratos de renda feitos pelo mari-
do para a esposa eram escritos em demótico e designavam-se por sech en saneh (sX n s an x),
onde o verbo causativo saneh significa «fazer viver», «alimentar».
Até à XXII dinastia não existem contratos de casamento ou, pelo menos, desconhe-
cem-se quaisquer exemplares dessa época, não se sabendo como seriam os contratos de
casamento durante quase todos os dois primeiros ciclos. Alguns investigadores apelam ao
direito consuetudinário para defenderem que o casamento se resumia a um acordo verbal
entre o noivo e o pai da noiva, sem recurso a qualquer outra formalidade. Mas há quem
defenda que os casamentos eram feitos com recurso a documentos escritos porque, segun-
do eles, todas as transações e situações correntes eram feitas por escrito desde o Império
Antigo, fossem vendas, compras, testamentos, heranças ou outros assuntos, requerendo
algumas testemunhas. Até pode ter sido um misto destas duas situações e no princípio não
passar de um acordo amigável entre duas partes, uma declaração pública verbal, possi-
velmente até com testemunhas, um compromisso de vida em comum de baixo do mesmo
tecto; a partir de certa altura, devido ao referido facto de os antigos Egípcios guardarem
registos escritos de todo o tipo das suas actividades, terão começado a registar também
64 por escrito os contratos de casamento. E isto, certamente ao perceberem que eram con-
tratos muito mais importantes do que outros devido às implicações que tinham para toda
a vida na criação de uma família e dos relacionamentos familiares. Sobretudo tendo em
conta a hipótese de falta de reconhecimento de um matrimónio e das implicações que
isso podia determinar para um segundo casamento ou nas heranças dos filhos. Como diz
Barry Kemp, os Egípcios tinham uma mentalidade metódica e burocrática80.
É pois provável que só na segunda parte do segundo ciclo jurídico do antigo Egipto, a
partir da XXII dinastia, se tenha começado a fazer o registo dos contratos de casamento e
respectivos acordos financeiros. Tendo em conta a forma e o conteúdo desses documentos,
é comum integrá-los em duas categorias: a primeira da XXII dinastia à XXVI dinastia; a
segunda dos finais da XXVI dinastia ao final da dinastia ptolemaica, ou seja, o terceiro
ciclo da história jurídica do antigo Egipto, em que os contratos de casamento permanecem
idênticos e onde a XXVI dinastia é uma espécie de charneira, integrando em simultâneo
contratos antigos do ciclo anterior e contratos modernos do terceiro ciclo. Com excepção de
um, todos os exemplos apresentados estão intactos e completos, mostando que este tipo de
contratos permaneceram fiéis ao direito egípcio e à sua tradição hereditária, parecendo não
se ter deixado influenciar pelas leis ptolemaicas.
Dos modelos da primeira categoria há quatro exemplares com a mesma forma, o mesmo
conteúdo e a mesma terminologia dos reinados de Takelot I (de 889 a 874 a. C., XXII di-
nastia), Taharka (de 690 a 664 a. C., XXV dinastia), Psametek II (de 595 a 589 a. C., XXVI
80 - B. J. KEMP, Ancient Egypt. Anatomy of a Civilization, Londres, Nova Iorque: Routledge, 1999, pp. 111-112.
dinastia) e Amásis (de 570 a 526 a. C., XXVI dinastia). Eis um desses contratos redigido em
589 a. C. em escrita hierática anormal, transição entre o hierático e o demótico, sobretudo
no Baixo e no Médio Egipto, o Papiro do Museu do Louvre 7849, de Tebas:

«Ano 5, Mesori [quarto mês de Chemu], dia 21 do faraó v. p. s. Psametek v. p. s. Neste


dia, o choachita Kausenési filho de Esten (?) entrou na casa do choachita P............ filho de
Menekhamon para registar e celebrar o seu contrato de casamento com a mulher Tetenebefe
cuja mãe é ...............; ele diz que a lista de bens que o marido dá à esposa como dote [com-
pensação de mulher] se compõe de 2 deben de prata e 50 medidas de bedet. Diz ainda: “Viva
Amon! Viva o faraó! Pela sua saúde, que Amon o deixe vencer! Se eu repudiar a minha
irmã Tetenebefe, cuja mãe é ..............., que me pertence, sendo eu a causa do seu prejuízo
por ser repudiada ou do meu casamento com outra mulher, excepto pelo grande crime que
é encontrado nas mulheres [adultério], dar-lhe-ei os 2 deben e as 50 medidas de bedet antes
mencionadas, assim como todas as coisas adquiridas que acumulei com ela. Em relação aos
bens que eu herdar dos meus pais, eles reverterão para os filhos do nosso casamento.»
Assinaturas do escriba que registou o acordo e das testemunhas81.

Destaquemos algumas observações:


1º – Nesta época a forma de indicar a data era: ano, mês, dia, nome do faraó. Podia ter
uma ou duas vezes a fórmula v(ida) p(rosperidade), s(saúde), a seguir à designação
de faraó e ao seu nome. O dia podia estar registado ou não. 65
2º – Os outorgantes aparecem a seguir à data, organizados em dois grupos: um primeiro
respeitante ao marido com registo do nome, profissão e paternidade; o segundo à
esposa, com o seu nome e o da sua mãe, tendo sido antes referido o seu pai, com
nome, profissão e função (para redigir o contrato).
3º – Surge a já mencionada expressão ak er per (aq r p r), «entrar em casa de», uma fór-
mula que aparentemente indica o casamento, assinalado igualmente por um dote,
neste caso em «dinheiro», «2 deben de prata», e numa quantidade de trigo, «50
medidas de bedet»82. Constituindo um elemento essencial do contrato de casa-

81 - Psametek II, terceiro rei da XXVI dinastia. Ver M. A. F. Ll. GRIFFITH, The Demotic papyri in the John Rylands
Library, vol. III, Manchester: University Press, 1909, pp. 115-116; T. HANDOUSSA, Mariage et Divorce dans
l’Égypte Ancienne, p. 48. Os choachitas eram sacerdotes/sacerdotisas funerários da necrópole tebana na Época
Baixa, com a função de oferecer comida e bebida aos mortos fazendo libações e oferendas rituais de alimentos
na capela do túmulo do falecido. O termo choachitas é a versão grega de uhaw-mu (wHaw-mw), «Aqueles que
derramam água» que, por vezes, também eram chamados de uen-per (wnw-pr), «Aqueles que abrem o santuá-
rio» (K. D. van HEEL, Mrs. Tsenkor. A Female Entrepreneur in Ancient Egypt, Cairo e Nova Iorque: The Ameri-
can University in Cairo Press, 2014, p. 7).
82 - De uma forma geral, o sistema de pagamentos do Egipto faraónico era por meio de trocas de géneros e ser-
viços, tendo por base as equivalências. Contudo, certos pagamentos, como mercadorias, títulos de crédito ou
«actos jurídicos-vendas, partilhas, heranças», onde era necessário um tipo de pagamento indirecto de tipo
monetário impuseram um sistema de troca de base metálica com unidades de referência: o deben (dbn). Em-
bora usado para aferir valores, não pode ser considerado uma moeda, mas antes uma antiga unidade de peso
egípcia usada para comparar o valor das mercadorias. O deben apresentava-se nas mais diversas formas,
mento, e um dos direitos da mulher para se dar em casamento, o acordo financeiro
está devidamente balizado, sabendo-se claramente as condições em que a mulher
perde o direito a ele.
4º – Depois do casamento a esposa passava a pertencer a um só homem, ao seu marido,
que a podia «repudiar», isto é, divorciar-se, devendo-a compensar se a culpa não
fosse dela. A esposa também se podia divorciar, mas não são bem conhecidas as
causas que a isso levavam.
5º – Embora pouco apreciada e rara, como já dissemos, a possibilidade de poligamia
confirma-se nestes contratos. Quando se diz «por ser repudiada ou do meu ca-
samento com outra mulher» está a aceitar-se pelo menos a bigamia, porque com
esta redacção o segundo casamento pode não surgir depois de um divórcio mas
durante o primeiro casamento. Em qualquer dos casos levava a grandes perdas
por parte do marido com a passagem dos bens adquiridos pelo casal para a pri-
meira esposa e dos herdados para os filhos. Alguns vêem aqui a possibilidade de
o marido poder ficar com todos os seus bens anteriores ao casamento que não
tivessem entrado no contrato. Aparentemente protegia-se a família e a sociedade
dos maridos mais estouvados!
6º – O casamento era um assunto suficientemente importante para necessitar da as-
sinatura do escriba que registou o acordo, hoje chamar-lhe-íamos notário, e das
testemunhas que, segundo a época, variaram, tendo-se iniciado com três, chegado
66 a trinta, mas tendo-se fixado na época dos Ptolemeus em seis. O contrato não era
considerado válido sem as suas assinaturas e o escriba guardava os documentos
podendo fornecer cópias a quem as pretendesse.
Por seu lado, os modelos da segunda categoria, redigidos em escrita demótica, apresen-
tam algumas diferenças de forma e conteúdo, que se mantiveram até ao final do período
ptolemaico. O exemplo escolhido é um contrato do fim da XXVI dinastia, do reinado de
Amásis (570 a 526 a. C.). Embora a data deste contrato tenha perdido o dia, o mês e a esta-
ção, ficou o mais importante no Papiro de Berlim 13614, de Elefantina: o ano de reinado e o
nome do faraó. É possível por isso dizer que é um contrato do ano 536 a. C.

desde pequenas argolas com uma ou mais voltas, barras ou pequenos ponteiros semelhantes a dedos, ou até
mesmo em pedaços informes de metal, em ouro, prata, bronze ou cobre. Por isso, a possibilidade de ser ente-
sourado e constituir riqueza. No Império Novo tinha duas fracções, o chenatj (SnaT), «argola» e o kedet (qdt),
que substituiu a anterior, e nenhum múltiplo. Ao longo do tempo variou de peso e valor, mas os seus princi-
pais pesos foram: no Império Antigo cada deben pesava 13,6 gramas, no Império Médio e no Império Novo
pesava 90/91 gramas. Quanto ao valor, diga-se que no final do Império Médio o ouro valia o dobro da prata
e 10 deben de bronze ou de cobre equivaliam a 1 kedet de prata. Do princípio do Império Médio ao final do
Império Novo houve uma certa estabilidade em que 100 gramas de cobre valiam 1 grama de prata e 2 gramas
de prata valiam 1 grama de ouro. O bedet (bdt) era um tipo de trigo que também era usado para efectuar pa-
gamentos. Na Época Baixa era usado para pagar salários aos trabalhadores de Deir el-Medina (J. P. ALLEN,
Middle Egyptian. An Introduction to the Language and Culture of Hieroglyphs, Cambridge: Cambridge Uni-
versity Press, 1ª ed., 2000, pp. 101-102; D. VALBELLE, A vida no antigo Egipto, Mem Martins: Publicações
Europa-América, 1990, pp. 61-76; B. S. LESKO, «Rank, Roles, and Rights», em L. H. Lesko (ed.), Pharaohs
workers: the villagers of Deir el-Medina, pp. 20-23).
«Ano 34, ......... mês de ............., do faraó Amásis. O escriba disse: o marido (nome),
filho de (nome) e de sua mãe (nome) e a esposa (nome), filha de (nome) e de sua mãe
(nome). Eu tomo-te por esposa no ano 34 ..........., os meus filhos que terei contigo serão
proprietários de tudo o que eu possuo e de tudo o que eu venha a possuir, assim como de
todos os bens que o meu pai e mãe ............ Se eu te repudiar ........... dar-te-ei 2 deben de
prata e 50 medidas de bedet.»
Assinaturas do escriba que registou o acordo e das testemunhas83.

Como no caso anterior destaquemos alguns pormenores:


1º – O local da data deteriorado não permite saber se, como os outros casos apresenta-
dos, estava completa ou perdeu o dia em que foi redigido.
2º – Também aqui se começa por registar separadamente o nome e a filiação dos cônju-
ges, primeiro do marido e depois da esposa.
3º – Surge a expressão «eu tomo-te por esposa».
4º – Não há referência a qualquer dote, provavelmente devido ao estado do papiro.
5º – O acordo financeiro é uma compensação à esposa de «2 deben de prata e 50 medidas
de bedet» em caso de o marido a «repudiar», e um testamento aos filhos resultan-
tes deste casamento, que se tornavam herdeiros universais dos bens adquiridos ou
herdados do pai.
6º – Tal como no anterior caso, o contrato não era considerado válido sem as assinaturas
do escriba que registou o acordo e das testemunhas. 67

Em qualquer dos dois casos antes expostos, parece que o pai da noiva actuava como seu
tutor, sendo ele que assinava o contrato de casamento em nome da noiva.
Depois da XXVI dinastia os costumes alteraram-se, ou por influência dos novos con-
quistadores, os Persas, ou devido a um natural «liberalismo» libertário que surge após
os processos revolucionários, e os contratos dão a entender que os dois jovens que se
queriam casar decidiam entre si sem recurso a intermediários. Uma vez de acordo, um
escriba redigia o contrato de casamento. Os contratos de casamento da época persa eram
redigidos em escrita demótica e tinham diferenças em relação aos anteriores. Mas nem
todos os contratos parecem ser contratos de casamento. Vejamos o caso do Papiro do
Museu Britânico 10120, de Tebas, de cerca de 517 a. C., do reinado de Dario I (521 a 486
a. C.), XXVII dinastia:

«Ano 5, Paofi [segundo mês de Akhet], do faraó Dario. O choachita do vale [de As-
sassif] Petemin filho de Herirem e de sua mãe Tais, disse à mulher Tsen-hor, filha do
choachita do vale Nesmin e de sua mãe Ruru: tu deste-me 3 deben de prata do tesouro
de Ptah, em dinheiro corrente (?) são 2 deben de prata mais 9 2/3, 1/6, 1/10, 1/20, 1/60
kedet do tesouro de Ptah, mais 3 deben de prata. Se eu te repudiar depois de seres mi-
nha esposa, por te detestar, dar-te-ei os 3 deben de prata do tesouro de Ptah, dinheiro
83 - T. HANDOUSSA, Mariage et Divorce dans l’Égypte Ancienne, p. 56.
corrente (?), que tu me deste e também te darei um terço de tudo o que consegui durante
a nossa vida em comum.»
Assinaturas do escriba Zeho que registou o acordo e das testemunhas84.

1º – A data compreendendo o mês, a estação e o ano de reinado do faraó em que foi re-
digido, não compreendendo o dia.
2º – Os outorgantes aparecem a seguir à data, organizados em dois grupos: primeiro referin-
do-se ao marido com nome, profissão e paternidade; o segundo à esposa, com o nome, o
do pai e o da mãe, tendo antes sido referida a profissão e função (para redigir o contrato).
3º – Não aparece a habitual fórmula «Eu tomei-te por esposa» ou qualquer outra.
4º – O dote foram 3 deben de prata, aparentemente dadas anteriormente: «tu deste-me
3 deben de prata».
5º – O acordo financeiro diz que em caso do marido repudiar a mulher lhe devolve as 3
deben de prata e um terço de todos os bens adquiridos durante o casamento.
6º – As assinaturas são do escriba que registou o acordo e de nove testemunhas.
Este contrato não se inicia com a fórmula introdutória habitual dizendo ao que se destina
e a respectiva aprovação. Embora fale dos direitos da esposa em caso de «repúdio», a doação
do dote não está formalizada, nem são referidos os direitos dos filhos. Há apenas um acordo
financeiro entre um homem e uma mulher. Para alguns investigadores, este tipo de contratos
não são verdadeiramente contratos de casamento, preferindo chamar-lhes antes «contratos
68 de vida em comum», embora o seu fim possa ser o mesmo. Ou então enquadram-se já no
tipo dos acordos seguintes, cujo exemplo é apresentado no Papiro de Berlim 3078, de Tebas,
de cerca de 492 a. C., igualmente do reinado de Dario I:

«Ano 30, Tot [primeiro mês de Akhet], do faraó Dario. A mulher Esenkhebi filha do
choachita do vale Khepekhrat e de sua mãe Teteamon, disse ao choachita do vale Ieturu,
filho de Pechutefnakhti (?) e de sua mãe H........... Tu tomaste-me hoje como esposa e deste-
-me 1 kedet de prata do tesouro de Ptah como dote. Se eu te repudiar como marido por te
detestar e me apaixonar por outro homem além de ti, eu dou-te 1/2 kedet de prata do tesouro
de Ptah, somado ao 1 kedet do tesouro de Ptah que tu me tinhas dado como dote. Não terei
direito a nenhum bem ou a nenhuma propriedade obtidos enquanto estive contigo. Não ha-
verá necessidade de recorrer a qualquer formalidade judicial.»
Assinaturas do escriba que registou o acordo e das testemunhas85.

84 - M. A. F. Ll. GRIFFITH, The Demotic papyri in the John Rylands Library, p. 116; T. HANDOUSSA, Mariage et
Divorce dans l’Égypte Ancienne, p. 60. A economia monetária começou apenas com os Persas e, de forma gene-
ralizada, com os Gregos. «E se antes dos Lágidas não havia dinheiro do Estado, os templos fundiam lingotes em
prata, que sem dúvida não foram cunhadas como moedas, mas tinham a marca do tesouro do deus que garantia
o título, quer dizer a porção de metal precioso. Assim, os contratos demóticos fazem referência ao dinheiro do
tesouro de Ptah.» G. HUSSON e D. VALBELLE, L’État et les Institutions en Égypte des premiers pharaons aux
empereurs romains, Paris: Armand Colin, 1992, pp. 323-324.
85 - M. A. F. Ll. GRIFFITH, The Demotic papyri in the John Rylands Library, p. 117; T. HANDOUSSA, Mariage
et Divorce dans l’Égypte Ancienne, p. 62.
1º – A data compreendendo o mês, a estação e o ano de reinado do faraó em que foi re-
digido, sem ter novamente o dia.
2º – Seguem-se os outorgantes organizados em dois grupos: um primeiro referente à
esposa com registo do nome, nome e profissão do pai e o nome da mãe; o segundo
ao marido, onde surge o seu nome, a profissão e o nome do seu pai e o da sua mãe.
3º – Desta vez a fórmula é: «Tu tomaste-me, hoje, como esposa».
4º – O dote é 1 kedet de prata.
5º – O acordo financeiro diz que em caso da mulher repudiar o marido lhe devolve 1/2
kedet de prata que ele lhe tinha dado, mas renuncia a todos os direitos sobre o que
teria a receber dos bens do marido.
6º – As assinaturas do escriba que registou o acordo financeiro e de quatro testemunhas.
Nos termos em que surge, este contrato não levanta grandes dúvidas: não é um contrato de
casamento mas um acordo financeiro entre uma mulher e um homem, provavelmente anexo a
um contrato de casamento que terá sido celebrado anteriormente conforme se percebe pela ex-
pressão «Tu tomaste-me, hoje, como esposa», muito diferente de «Eu tomei-te por marido» ou
«Eu tomei-te por esposa», as fórmulas que num contrato de casamento assinalam quem faz o
pedido de casamento e quem dá a aprovação. Como temos vindo a ver, os Egípcios conheciam
o divórcio, que era uma prerrogativa do marido, para o qual a mulher e os filhos se precaviam
nos contratos de casamento incluindo um acordo financeiro que tinha em vista o caso de a
esposa ser «repudiada». Contudo, fazendo valer a igualdade jurídica de que gozavam, algumas
mulheres anexavam ao contrato de casamento um acordo para poder agir em relação ao mari- 69
do da mesma forma, salientando a parte financeira do acordo. A razão de fazer um contrato à
parte e não incluir uma cláusula destas no contrato de casamento é desconhecida.
Depois da «primeira ocupação persa», registam-se também dois contratos de casamento.
O primeiro é da XXX dinastia, do ano de 365 ou 364 a. C., do reinado de Nectanebo I (380-
360 a. C.), o Papiro de Lonsdorfer I, de Edfu.

«Ano 15, Paofi [segundo mês de Akhet], do faraó Nectanebo. O sacerdote (nome), filho
de (nome) e sua mãe (nome), disse à mulher (nome), filha de (nome) e da sua mãe (nome). Eu
tomei-te por esposa e dei-te 1/2 deben de prata, o que corresponde a 5 kedet e a 2,5 chenatj;
quer dizer 1/2 de um deben como dote para ti. Se eu te repudiar por te detestar ou por casar
com outra mulher, dar-te-ei 1/2 deben em prata além do dote antes mencionado, o que faz
1 deben. Dar-te-ei igualmente um terço do que recebi contigo de renda para as crianças
resultantes do nosso casamento. Os nossos filhos serão os únicos herdeiros dos meus bens
presentes e futuros. Eis a lista dos teus bens que trouxeste para minha casa:

Uma peruca de cabelos artificiais 4,0 k


Um vestido 2,5 k
Tranças de cabelo artificial 1,5 k
Um vestido 1,0 k
Um espelho de bronze 1,0 k
Um massa (palavra desconhecida em egípcio antigo) 1,0 k
Uma barra em prata 2,0 k
Total 13,0 k

O valor total de todos estes objectos que trouxeste contigo para o domicílio conjugal é de
10/14 debens em prata. Enquanto permaneceres no domicílio conjugal estes objectos estarão
contigo, quando deixares o domicílio conjugal, eles irão contigo. Se me repudiares por me
detestares dar-me-ás metade do dote que eu te dei e que foi antes referido.»
Assinaturas do escriba que registou o acordo e das testemunhas86.

1º – A data apresenta o mês, a estação e o ano de reinado do faraó em que foi redigido.
2º – Os outorgantes aparecem a seguir à data, organizados em dois grupos: um primeiro
referente ao marido com registo do nome, profissão e paternidade; o segundo à es-
posa, onde surge o seu nome, o do seu pai e o da sua mãe.
3º – A fórmula é: «Eu tomei-te por esposa», no pretérito.
4º – O dote foi 1/2 deben em prata.
5º – O acordo financeiro em caso de divórcio por parte do marido duplica o dote, ou seja,
devolve-lhe o dote e dá-lhe outro tanto de compensação. Se for a esposa a divorciar-
-se é ela que tem que dar ao marido metade do dote recebido. Também as crianças
deste casamento são mencionadas e como herdeiras universais de todos os bens do
70 pai presentes e futuros.
6º – Entre os contratos já vistos, este é o primeiro que refere o enxoval da noiva, isto é,
a lista de objectos que ela introduziu no domicílio conjugal, com referência ao valor
de cada um e ao valor da totalidade dos bens.
7º – As assinaturas são do escriba que registou o acordo e de oito testemunhas.

Papiro demótico com um contrato de casamento da XXX dinastia, 380-343 a. C., pouco antes da conquista do
Egipto por Alexandre Magno. Museu Metropolitano de Arte de Nova Iorque.
Dimensões: alt. 41,3. cm; comp. 167 cm; alt. área escrita 4,2 cm.

86 - T. HANDOUSSA, Mariage et Divorce dans l’Égypte Ancienne, pp. 65-66. O nome do primeiro papiro fica a
dever-se ao nome do seu proprietário inicial que o comprou no Cairo em 1911, o banqueiro Nikolaus Lonsdor-
fer. O do segundo papiro deve-se ao facto de ter sido adquirido pelo americano Edward Drummond Libbey, um
industrial da área do vidro que fundou em 1901 o Museu de Arte de Toledo, Ohio.
É um contrato de casamento realizado entre marido e esposa, sem que haja a interme-
diação de qualquer tutor. Tem a fórmula tradicional de pedido e aceitação «Eu tomei-te por
esposa», o dote e a já comentada frase que admite tanto o divórcio como a poligamia: «Se
eu te repudiar, porque eu te detestei ou por casar com outra mulher». Além disso, a possi-
bilidade de qualquer das partes poder solicitar o divórcio é clara, por incompatibilidade ou
por bigamia, havendo sempre lugar a uma compensação de ambas as partes mas menor em
relação à mulher. Excepção feita ao enxoval da noiva que será sempre dela. Também os fi-
lhos do casamento podiam ver aqui um testamento segundo o qual eram os únicos herdeiros
dos bens do pai.
O segundo é de 337 a. C., do reinado do destemido Khababach (338-336 a. C.), já daque-
la que alguns chamam de XXXI dinastia, outros de «segunda ocupação persa», o Papiro
Libbey, de Tebas. Este egípcio assumiu-se como faraó e, como tal, foi considerado pelos
Egípcios, como aqui se comprova, desejosos de o ver triunfar87. Diz o contrato:

«Ano 1, Athir [terceiro mês de Akhet], do faraó Khababach. A mulher (nome), filha de
(nome) e de sua mãe (nome), disse ao sacerdote do templo de Amon em Lucsor, o protector
do templo (nome), filho de (nome) e de sua mãe (nome). Tu tomaste-me por esposa e deste-
-me 1/2 deben de prata como dote. Se eu te repudiar depois de seres minha esposa por te
detestar e preferir outro homem a ti, devolver-te-ei a metade do dote que me deste e renun-
ciarei ao meu direito ao terço dos bens adquiridos enquanto vivi contigo. No dia em que me
disseres “gostaria de ter uma cópia deste contrato noutro papiro”, eu dar-ta-ei citando cada 71
parágrafo inscrito no contrato mencionado acima, terminá-la-ei com a assinatura de dezas-
seis testemunhas e confiar-ta-ei.»
Assinaturas do escriba que registou o acordo e de oito testemunhas88.

1º – A data inclui o mês, a estação e o ano de reinado do faraó em que foi redigido.
2º – Os outorgantes aparecem a seguir à data, organizados em dois grupos: o primeiro
referente ao marido com registo do nome, profissão e paternidade; o segundo à es-
posa, onde surge o seu nome, o do seu pai e o da sua mãe.
3º – A fórmula é: «Tu tomaste-me por esposa».
4º – O dote foi 1/2 deben em prata.

87 - Pouco se sabe sobre este faraó egípcio. Khababach foi um destacado resistente egípcio contra os Persas
que, depois da fuga de Nectanebo II, verdadeiramente o último faraó egípcio, e simultaneamente ao sobe-
rano persa Arsés, se terá assumido como faraó e tentado impedir a segunda fixação persa, embora Maneton
não se tenha referido a ele. A eventual XXXI dinastia (343-332 a. C.) teria sido composta pelos monarcas
persas Artaxerxes III (343-338 a. C.), Arsés (338-336 a. C.) e Dario III (335-332 a. C.), tendo durado cerca
de dez anos. Contudo, deve ter-se em conta uma interrupção ou, pelo menos, uma governação bipartida de
cerca de dois anos em que Khababach, ingloriamente, afrontou os Persas. Ainda assim marcou pontos nos
corações egípcios dando-lhes alguma esperança, pois sabe-se que nesse breve período de tempo terá con-
seguido controlar o Baixo Egipto (L. M. ARAÚJO, Os Grandes Faraós do Antigo Egito, Lisboa: A Esfera
dos Livros, 2011, pp. 227-228).
88 - T. HANDOUSSA, Mariage et Divorce dans l’Égypte Ancienne, p. 68.
5º – O acordo financeiro em caso de divórcio por parte da esposa em relação ao marido
obriga-a a compensar o marido com metade do dote recebido e a renunciar ao terço
a que teria direito de todos os bens adquiridos pelo casal durante o casamento. Os
filhos estão omissos.
6º – As assinaturas são do escriba que registou o acordo e de oito testemunhas.
Mais uma vez estamos perante um acordo entre um homem e uma mulher, a quem o
primeiro dá autorização para se divorciar dele e determina as condições que ela tem que
cumprir nessa circunstância, sem que seja verdadeiramente um contrato de casamento mas,
como já antes dissemos, um acordo financeiro anexo a um contrato de casamento. Curioso
o facto de o marido não ter recebido uma cópia deste contrato, que só receberá se o solicitar.
Se o fizer as testemunhas passam para o dobro.
Vejamos por fim dois contratos de casamento da época ptolemaica. O primeiro consta
do Papiro Rylands nº 10, de Tebas, sendo de 315 a. C., mais propriamente do último rei da
dinastia macedónica (332-304 a. C.), Alexandre IV (316-304), filho do fundador Alexandre
Magno, que antecedeu a dinastia ptolemaica (304-30 a. C.):

«Ano 2, Hathor [terceiro mês de Akhet], do faraó Alexandre, filho do deus Alexandre.
O carpinteiro do templo de Amon, Petekhons, filho de Zufakhi e de sua mãe Estefni disse
à mulher Taési, filha de Petemenopi e de sua mãe Esertais. Eu tomei-te por esposa e dei-te
2 deben de prata, o que corresponde a 10 chenatj e mais 2 deben de prata como dote. Eu
72 dar-te-ei por dia 6 medidas de bedet e dar-te-ei em cada ano 1 deben de prata e 2 kedet para
as tuas roupas, o que faz 6 chenatj, e mais 1 deben de prata e 2 kedet para as tuas roupas.
Dou-te também 2 medidas de óleo de rícino por mês, o que faz 24 medidas de óleo por ano.
Tudo isto te será dado como alimentação e vestuário. Se eu te repudiar por te detestar ou
porque tomei uma segunda esposa, dar-te-ei 10 deben de prata, o que faz 50 chenatj, e mais
10 deben. O nosso filho mais velho será proprietário de tudo o que eu possua e venha a pos-
suir como bens imobiliários, propriedades, terrenos, rendas, servidores assim como tudo o
que eu tenha de prata, cobre, vestuário, rebanhos de camelos, burros, animais da quinta e
igualmente o mobiliário da minha casa. Eu te darei anualmente a pensão acima mencionada.
Tu tens o direito de reclamar os atrasos em tudo o que te dou como vestuário e alimentação.
Dou-te tudo isso anualmente, sem que tenhas que recorrer a formalidades judiciais, em
qualquer morada em que tu residas.»
Assinado por P..............., filho de Useruer, que registou o acordo e por dezasseis teste-
munhas89.

1º – A data inclui o mês a estação e o ano de reinado do faraó em que foi redigido.

89 - M. A. F. Ll. GRIFFITH, The Demotic papyri in the John Rylands Library, vol. III, Manchester: University Press,
1909, pp. 114-115; T. HANDOUSSA, Mariage et Divorce dans l’Égypte Ancienne, p. 70. A tradução apresenta-
da por Handoussa não especifica a quantidade de medidas e de peças. A autora diz mais à frente a este respeito:
«os números apresentados neste papiro não estão bem visíveis e por isso não são legíveis», (Idem, p. 76). Gri-
ffith fez a sua leitura e refere que há hipótese de outras leituras.
2º – Seguem-se os outorgantes organizados em dois grupos: o primeiro referente à es-
posa com registo do nome, nome e profissão do pai e o nome da mãe; o segundo
ao marido, onde surge o seu nome, a profissão e o nome do seu pai e o da sua mãe.
3º – A fórmula é: «Eu tomei-te por esposa».
4º – O dote é de 2 deben em prata.
5º – O divórcio por parte do marido obriga-o a compensar a esposa com 10 deben de
prata. Faz do filho mais velho o herdeiro universal do pai mas não há nenhuma re-
ferência aos outros filhos, não se sabendo se ficariam a cargo do pai ou da mãe e se
receberiam alguma herança.
6º – Pela primeira vez nestes exemplos surge uma pensão alimentar em que o marido
fica encarregue de vestir e alimentar a esposa mensal e anualmente, viva ela com ele
ou em casa própria, e mesmo depois de divorciada.
7º – As assinaturas são do escriba que registou o acordo e das dezasseis testemunhas que
assinaram no reverso do papiro.
Para terminar, apresentamos aquele que costuma ser o modelo de contrato matrimonial
do final do período ptolemaico. É o Papiro de Turim nº5 ou Papiro Turim 6076, de 152 a. C.,
no tempo de Ptolemeu VI Filometor (180-164 a. C e 163-145 a. C.), depois de ter regressado
a Alexandria, apoiado por Roma onde se tinha refugiado por usurpação temporária do trono
pelo seu irmão Ptolemeu Neótero90.

«Ano 19, Mesori [quarto mês de Chemu], dia 5, do faraó Ptolemeu e da sua irmã Cleó- 73
patra. O intendente da necrópole de Djamet91 e sacerdote de Hathor (nome), filho de (nome)
e da sua mãe (nome), disse à mulher (nome), filha de (nome) e de sua mãe (nome). Eu tomei-
-te como esposa e dei-te 10 deben de prata como dote. Eis a lista do enxoval que trouxeste
contigo para minha casa:

Valor em deben de prata 175


Uma peruca de cabelos artificiais 30
Outra peruca de cabelos artificiais 40
Um cofre 100
Um vestido 70
Uma bracelete 20
Um vaso de flores grande 125

90 - Por ter apenas 5 anos de idade quando herdou o trono, Ptolemeu VI Filometor governou em co-regência
com a mãe, Cleópatra I, de 180 a. C. até à morte desta em 176 a. C. Em 170 a. C. associou ao trono o seu
irmão Ptolemeu Neótero (o futuro Ptolemeu VIII Evérgeta II) e a sua irmã-esposa Cleópatra II. Em 171,
atingiu a maioridade e foi coroado faraó em Mênfis, assumindo as rédeas do poder. É a partir desta ce-
rimónia que o tempo do seu reinado é contado (cf. J. C. SALES, Ideologia e Propaganda Real no Anti-
go Egipto Ptolomaico, Lisboa: Fundação Caloute Gulbenkian e Fundação para a Ciência e Tecnologia,
2005, pp. 53 e 261).
91 - Djamet ou Tjamet, em demótico; Djeme ou Djemi, em copta; e Medinet Habu, em árabe. O local onde se situa
o templo funerário de Ramsés III, um templo de Amon e, a sul, o palácio de Malkata de Amen-hotep III.
Um vaso de flores pequeno 20
Duas jóias em pedras preciosas 20
Quatro mãos talismãs 35
Um almofariz 70
Uma caixa de cobre 50
Um instrumento de música pequeno 30
Cobre 25
Um cofre em ouro 100
Dois anéis ----
Total 910 peças

O valor total do enxoval que trouxeste para minha casa é de 910 deben de prata. Eu comprovo
tê-lo recebido por inteiro das tuas mãos. O meu coração alegra-se de o ter recebido. Se permane-
ceres no domicílio conjugal este enxoval ficará contigo, se o abandonares ele é igualmente teu.
Tu és a utilizadora e eu serei o guardião. Se eu te repudiar por te detestar ou porque tomei uma
segunda esposa, dar-te-ei 100 deben de prata, mais o teu enxoval antes mencionado, dando-te
assim 1010 deben de prata. Se tu decidires deixar o domicílio conjugal, dar-te-ei o enxoval men-
cionado ou o seu valor. Os filhos que tiver contigo partilharão os meus bens presentes e futuros
em herança com os meus outros filhos, sem discordarem nem litigiarem contra ti.»
Assinaturas do escriba que registou o acordo e das testemunhas92.
74
1º – A data compreendendo o dia e o mês, a estação e o ano de reinado do rei e da rainha
em que foi redigido.
2º – Seguem-se os outorgantes organizados em dois grupos: o primeiro referente ao
marido com registo do nome, nome e profissão do pai e o nome da mãe; o segundo
à esposa, onde surge o seu nome e o nome do pai e o da mãe.
3º – A fórmula é: «Eu tomei-te por esposa».
4º – O dote é de 10 deben em prata.
5º – O acordo financeiro em caso de divórcio do marido em relação à esposa obriga-o
a compensá-la com 100 deben de prata; se for a esposa a sair de casa levará só o
enxoval com que entrou. Os filhos do casal dividirão equitativamente com os outros
filhos do pai os bens deste.
6º – Este contrato tem uma lista detalhada do enxoval da noiva, isto é, a lista de objectos
que ela introduziu no domicílio conjugal, com referência ao valor de cada um e ao
valor da totalidade dos bens.
7º – As assinaturas são do escriba que registou o acordo e das testemunhas.

Os contratos do período ptolemaico são idênticos aos dos períodos anteriores, tendo
sempre alguns elementos fundamentais que lhe conferem autenticidade e um carácter legal:

92 - T. HANDOUSSA, Mariage et Divorce dans l’Égypte Ancienne, pp. 71-72.


Recto e verso de um papiro demótico com um contrato de casamento, colecção do Museu da Universidade da
Pensilvânia.

A - O pedido, a aprovação e a conclusão do casamento são assinalados pelas expressões:


«(nome) disse à mulher (nome): eu tomo-te por esposa». O segundo elemento define
a aceitação em relação ao primeiro.
B - O dote, que varia com o tempo mas mantém uma certa estabilidade entre pessoas
socialmente idênticas, é essencial, marcando uma certa independência financeira da
noiva, embora pudesse ser-lhe dado no acto do casamento ou posteriormente, na to-
talidade ou em parte. Por vezes podia-o ser apenas no momento da conclusão do con-
trato. Contudo, é possível que os casos de atraso de pagamento dos dotes pudessem
estar geograficamente localizados, já que os exemplos conhecidos são exclusivos de
Edfu e Elefantina.
C - Em certas circunstâncias, que ainda não percebemos bem quais, talvez pelo facto
do contrato de casamento ser omisso em alguns aspectos ou para dar mais direitos 75
à esposa, havia lugar à realização de um acordo financeiro anexo aos contratos de
casamentos.
D - A partir do período ptolemaico passa a haver também uma pensão alimentar, um
segundo compromisso jurídico, inscrito no contrato de casamento, que até então era
uma obrigação natural do marido, já patente numa instrução de Ptah-hotep por nós
citada. Também ela variou tal como o dote, mas a base era: anualmente a alimenta-
ção, o vestuário e os metais, sobretudo a prata; mensalmente o óleo; e diariamente
os cereais.
E - A relação aos bens que a esposa trazia para o casamento só surge em alguns casos da
época faraónica, mas na época ptolemaica todos os contratos de casamento depois de
171 a. C. têm uma lista destas. Aí não só são descritos os objectos como indicado o
seu valor que, de uma forma ou de outra, serão levados pela esposa em caso de divór-
cio. São sobretudo bens próprios da esposa para seu uso pessoal, cabeleiras, vestidos,
jóias, guarda-jóias, espelhos, produtos de beleza, bem como alguns presentes até de
familiares por altura do casamento como peças de mobiliário ou metais como o co-
bre, o bronze, a prata e o ouro.
F - Com o acordo financeiro a esposa assegura os seus direitos em caso de divórcio,
garantindo o dote e os seus bens, ou o valor equivalente, uma compensação pela se-
paração e acesso a parte dos bens do marido, um terço era o mais comum, mas podia
chegar à metade. Normalmente eram os bens adquiridos durante o casamento. Havia
também uma espécie de testamento dos bens que o pai tinha ou viesse a ter, a favor
dos filhos equitativamente, ou fazendo do filho mais velho herdeiro universal do pai.
Era quase sempre garantido em cada contrato que eram os filhos daquele casamento
e não de outros casamentos. Para haver partilha equitativa com os filhos de outro/os
casamento/os, deveria ficar escrito no contrato isso mesmo.
G - Para além de ter os seus direitos bem marcados nos acordos entre as famílias, os côn-
juges ao casar não mudavam de nome nem juntavam o seu ao do outro, como acontece
em grande parte das sociedades em épocas mais recentes. A mulher continuava a ser
identificada pela sua própria genealogia: «fulana tal», «filha de fulano», «filha de fu-
lana»; tal como o marido: «fulano tal», «filho de fulano» e «filho de fulana».
H - Todos estes contratos de casamento ou financeiros são assinados pelo escriba que os
redigiu, mas também por um número variável de testemunhas.
I - Frases como «e isto sem haver necessidade de recorrer a formalidades judiciais»,
«dou-te tudo isso anualmente, sem que tenhas que recorrer a formalidades judiciais,
em qualquer morada em que tu residas» e «sem discordarem nem litigiarem contra
ti», indiciam também que os divórcios obrigavam a recorrer com alguma frequência
aos tribunais.
Embora o pudessem ter, a maioria das mulheres não tinha uma carreira profissional,
pelo que economica e socialmente a sua posição era mais frágil. Isto, provavelmente, não
só as encorajava a tentar manter o casamento por mais tempo, como a fortificarem a sua
76 condição financeira em caso de divórcio. Uma última constatação: estes são apenas alguns
exemplos, havendo muitos mais, mas todos eles foram casamentos feitos ou em Akhet (5),
na estação da Inundação em que as actividades agrícolas estavam mais ou menos paradas,
ou já no fim de Chemu (2), na última «semana» do Verão, cujas principais actividades do
campo eram a ceifa e o armazenamento, provavelmente já concluídas nessa última semana.
Aparentemente, parece que também no antigo Egipto havia uma época propícia ao enlace
matrimonial: maioritariamente em qualquer dos meses da estação de Akhet, entre meados
de Julho a meados de Novembro, e alguns imediatamente antes, no fim do último mês de
Chemu, de meados de Junho a meados de Julho. Em Peret, na época mais trabalhosa, a das
sementeiras, de meados de Novembro a meados de Março, não aparece nenhum casamento.
Mas todos os casais que resolviam juntar-se no Egipto tinham um contrato de casamento
ou um acordo financeiro? Claro que não: a maioria não os deveria ter porque não tinham
condições financeiras para os ter. Simplesmente juntavam-se.

Aspectos do divórcio

Se podemos ver no casamento uma fonte de felicidade que proporcionava estabilidade


e conforto aos antigos Egípcios, uma estrutura social central da sua cultura que fornecia
um quadro normativo para a produção de herdeiros legítimos que garantiam a eternidade
através do culto funerário, na verdade era necessário haver uma conjugação de factores para
que tudo desse certo. Para além de um casamento poder chegar naturalmente ao fim devido
ao falecimento de um dos cônjuges, havia razões como a infertilidade, defeitos físicos, a
infidelidade ou, simplesmente, o fim do amor, ou outra incompatibilidade tal que tornasse
impossível a continuação da vida comum entre esposos. Embora tenhamos a ideia de que as
normas sociais no antigo Egipto parecem ter encorajado os casais a ficar juntos, os divór-
cios e os segundos casamentos existiram. Não sabemos exactamente se o divórcio estava
limitado a certos casos ou se era autorizado sem condições, apenas sabemos que os Egíp-
cios realizavam o divórcio quando se tornava necessário acabar com um casamento. Uma
legislação que, com breves excepções na sua história, não obrigava a esposa a suportar uma
vida em comum, sem respeito ou tratamento digno por parte do marido, dando-lhe o direito
de decidir sobre o seu futuro, mostra que a mulher egípcia tinha um lugar privilegiado não
só no antigo Egipto como em toda a Antiguidade, e, até, na actualidade. Ela podia mesmo
recorrer aos tribunais denunciando má conduta por parte do marido para que lhe fossem
impostas sanções, conforme vemos no Óstraco Bodlian 25393, mas não sabemos se o juiz
podia dissolver o casamento e declarar o divórcio.
Na realidade não se conhecem verdadeiramente as causas do divórcio no antigo Egipto. Ape-
nas podemos fazer deduções partindo de outros documentos. Os contratos de casamento e as ac-
tas de divórcio nada dizem em relação a isto. Para uns, a maior causa de divórcio no antigo Egipto
foi o adultério, sobretudo feminino. O marido podia expulsar a mulher do lar conjugal sem qual-
quer indemnização. Se atendermos à literatura, a adúltera até podia ser condenada à morte como
acontece nos já referidos contos o «Marido enganado» e o Conto dos dois irmãos, que, como jul-
gamos, eram exageros de dramatização que tinham em vista o papel educativo da literatura. Na 77
verdade, os novos casamentos aconteciam independentemente do número de uniões anteriores,
experiências negativas e, até, da idade. Embora qualquer dos cônjuges pudesse pedir o divórcio,
verificamos que em Deir el-Medina havia grande disparidade de género entre os divorciados ou
que ameaçavam pedi-lo: doze homens e apenas três mulheres94. Se aconteciam era porque, ao
contrário do que diz a literatura, os intervenientes não eram mortos, tanto mais que o adultério
nem sempre foi um delito punível. Por exemplo, uma ligação de um homem casado com uma
mulher solteira normalmente não tinha qualquer consequência, e o contrário era normalmente
mais visto como um abuso de propriedade do que como um crime em si, pois o comportamento
sexual dos Egípcios não era conduzido por um código moral rígido e a honestidade, a descrição e
a fidelidade pendiam mais para o lado da mulher. Além disso, o exemplo vinha dos deuses! Não
se fez Néftis passar por Ísis para gerar com Osíris Anupu95?
É evidente que havia vários graus de liberdade para os casais tendo por base o seu es-
tatuto, a sua situação económica, a sua personalidade ou, até, a política local. Podia ainda
acontecer, como é relatado no Papiro do Museu Britânico 10416, que um grupo de popu-
lares locais resolvessem fazer justiça pelas próprias mãos, «nós vamos bater-lhe, a ela e a
essas pessoas», a respeito da punição de uma mulher acusada de durante oito meses ter tido
uma ligação incestuosa com o pai com conhecimento da mãe. Aparentemente familiar da
93 - T. HANDOUSSA, Mariage et Divorce dans l’Égypte Ancienne, p. 98 e nt. 20.
94 - L. MESKELL, Vies Privées des Égyptiens. Nouvel Empire [1539-1075], Paris: Éditions Autrement, 2002, p. 120.
95 - J. C. SALES, As Divindades Egípcias, Lisboa: Editorial Estampa, 1999, pp. 160-161.
mulher, talvez seu filho, o autor diz ainda: «Se o coração desse homem te deseja, que vá a
tribunal com a sua esposa, que faça juramento e que volte para tua casa»96. É também uma
prova de que o incesto, pelo menos entre pais e filhos, não era bem aceite no seio da popula-
ção. Entre a indiferença e a morte encontravam-se as mutilações, as bastonadas, o desterro e
os trabalhos forçados: uma adúltera «arriscava em geral a mutilação do nariz e o seu amante
bastonadas»97. O Papiro Deir el-Medina 27 refere-se a um marido que surpreendeu a esposa
in flagranti e levou o amante ao juiz, que o fez jurar que não se aproximaria mais daquela
mulher, caso contrário cortar-lhe-iam o nariz e as orelhas98. Na Núbia um outro amante foi
desterrado e noutro caso houve uma condenação a trabalhos forçados nas pedreiras99.
Para outros, a maior causa seria a esterilidade100 que, com o panorama alimentar e de
saúde que sabemos ter existido no antigo Egipto, poderá ter sido uma causa importante.
Aliás, os defensores desta razão dão como exemplo o Papiro do Museu Britânico 10508,
da época arcaica onde se lê: «uma mulher não deve ser repudiada mesmo que não consiga
gerar uma criança»101. A terceira causa mais apontada é o que hoje se designa por incompa-
tibilidade entre cônjuges, ou seja, aquelas coisas que cada cônjuge descobre sobre o outro,
onde podemos incluir a violência doméstica102, que mesmo sendo mínimas, podem servir
para encobrir questões maiores. É o caso relatado por Spiegelberg, Wenty ou Černy, que
consta do Papiro da Biblioteca Nacional 198 II (Paris), da XX dinastia, provavelmente do
ano 12 do reinado de Ramsés IX103, uma carta proveniente de Deir el-Medina, dum marido
que querendo divorciar-se depois de vinte anos de casado sem qualquer pretexto para tal,
78 argumentou que a sua esposa estava míope. É obvio que a verdadeira causa era o desamor
96 - L. MESKELL, Vies privées des Égyptiens. Nouvel Empire [1539-1075], p. 121.
97 - R. SCHUMANN-ANTELME e S. ROSSINI, Les Secrets d’Hathor. Amour, érotisme et sexualité dans l’Égypte
pharaonique, Paris: Champollion, Éditions du Rocher, 1999, p. 73.
98 - R. SCHUMANN-ANTELME e S. ROSSINI, Les Secrets d’Hathor, p. 72.
99 - R. SCHUMANN-ANTELME e S. ROSSINI, Les Secrets d’Hathor, p. 73.
100 - E aqui não é possível saber se nos estamos a referir a infertilidade, a dificuldade em gerar filhos, se a esterili-
dade, a incapacidade de gerá-los. No mínimo podemos dizer «aquelas mulheres que em tempo útil não engravi-
daram», sendo lato senso o termo «tempo útil». E, aparentemente, não nos referimos à infertilidade masculina
porque com outras mulheres esses homens puderam ter filhos.
101 - T. HANDOUSSA, Mariage et Divorce dans l’Égypte Ancienne, p. 104.
102 - De facto não há provas de que houvesse «violência doméstica» mas no tempo da ocupação grega e, depois, da
ocupação romana, há papiros de carácter jurídico que dão a conhecer casos de violência contra mulheres que
podem ter estado relacionados com os seus casamentos: no Papiro Lille II 24 = Papiro Enteux. 79 (218 a. C.)
fala-se de violência física e verbal que uma mulher grega sofreu por parte de uma mulher egípcia; o Papiro Lille
II 42 = Papiro Enteux. 83 (221 ou 222 a. C.) apresenta um caso de violência física, verbal e económica entre
duas mulheres egípcias; no Papiro Tebtunis III 800 = Papiro Judicial I 133 (153 ou 142 a. C.), refere violência
física e emocional de uma mulher que bateu noutra mulher grávida resultando que a vítima podia perder a crian-
ça e a própria vida; e no Papiro Oxy. II 237 (221 a. C.) surge o caso de violência económica e psicológica de
uma mulher e de seu pai sobre as propriedades que eram dela e que o seu marido não lhe devolvia e ela queria-
-as de volta (M. PARCA, «Violance by and against women in documentary papyri», em H. Melaerts e L. Moo-
ren, Le Rôle et le Statut de la Femme en Ègypte Hellénistique, Romaine et Byzantine, Lovaina: Peeters, p. 284).
103 - http://www.trismegistos.org/tm/detail.php?tm=139318;
http://www.wepwawet.nl/dmd/scripts/dmdobj.asp?id= P.%20Bibliotheque%20Nationale%20198,%20II.
que, com a expressão «se eu te repudiar por te detestar», surge frequentemente nos contratos
de casamento e, portanto, talvez seja esta até a causa principal de divórcio no antigo Egipto:
aqueles que não suportavam mais a vida em comum.
O divórcio era considerado como uma dissolução do casamento, separando-se o casal li-
vremente e cada um partindo para outra vida, podendo refazê-la com outros parceiros da sua
escolha. O divórcio era declarado pelo marido à esposa, salvo se o contrato de casamento

79

Recto e verso de um papiro de uma acta de divórcio em escrita demótica, Museu da Universidade de Filadélfia.

permitisse também essa oportunidade à esposa, segundo uma fórmula própria usada pelos
homens ao longo da época faraónica e até ao fim do período ptolemaico: khaa (er bener), XAa
(r bnr), «para jogar (fora)», «repudiar». Quando era a mulher a acabar com o casamento, a
palavra usada era sem (sm), «para ir (embora)», conforme vimos no Papiro de Berlim 3078 e
no Papiro Libbey, pois, tal como para casamento, também não havia palavra para divórcio. A
partir da XXX dinastia, caso fizesse parte do acordo, passou a registar-se no contrato de casa-
mento o direito da esposa se divorciar, conforme a última frase do Papiro Lonsdorfer I. Ambas
as expressões reflectem as condições de vida no fim de um casamento: a mulher é expulsa ou
deixa o lar conjugal. Por vezes, indicações adicionais informam com quem ficam os filhos104.
Além disso, podemos perceber também que as obrigações financeiras, que iam desde a
perda de importâncias consideráveis da fortuna pessoal de cada um até à sua perda total,
tornavam o divórcio difícil para o marido decidir de ânimo leve se deveria ou não abando-
nar a esposa. No caso de ser a mulher a declarar o divórcio, nunca teria a perda total do seu
pecúlio: perdia metade ou não perdia nada, apenas não lhe acrescentava qualquer bem do
marido. Mas os Egípcios eram muito pragmáticos vendo aqui, provavelmente, muito maior
104 - Cf. J. TOIVANI-VIITALA, «Marriage and divorce», pp. 8-9.
facilidade para o homem refazer a sua vida do que a mulher! Por vezes, também, quando
eram divórcios de comum acordo cada um saía com o que trouxera para o casamento, po-
dendo ainda a esposa vir a receber a sua pensão alimentar e de roupa.
Mas se o que consta dos contratos de casamento são meras autorizações para se poder
exercer o divórcio, o repúdio da esposa não era feito com a simples pronunciação oral de uma
fórmula, havendo mesmo lugar a um documento escrito que a libertava do casamento e lhe
possibilitava arranjar outro marido, redigido no momento do divórcio e a que podemos chamar
uma acta de divórcio. Ele confirmava o divórcio entre os cônjuges não sendo necessário men-
cionar aí os direitos da esposa e os deveres do marido, já inseridos no contrato de casamento,
nem mesmo as causas do divórcio, que, aparentemente, ficava apenas no conhecimento do
casal. Que avanço, senhores! Não é um acordo mas apenas uma confirmação de facto. Um
documento de dissolução do casamento e fim dos direitos de cada cônjuge sobre o outro. Tanto
quanto se sabe, desde o Império Médio que o divórcio era visto pelos Egípcios como um meio
legal de reconhecimento social da dissolução do casamento, mas poucos destes documentos
chegaram até nós. Apenas uma dezena deles, todos escritos em demótico e praticamente todos
com o mesmo texto base e variações mínimas, tipo minuta, encontrados nas regiões de Tebas
e Gebelein. Para além da inexorável passagem do tempo, todas as dificuldades financeiras le-
vantadas no contrato de casamento podem ser uma razão para se terem encontrado tão poucas
actas de divórcio, e só entre 542 e 100 a. C., quando no mesmo período de tempo foram en-
contrados cinco vezes mais contratos de casamento. O mais antigo é o Papiro de Berlim 3079,
80 de 542 a. C., o ano 28 do reinado de Amásis (570-526 a. C.), na XXVI dinastia. Eis um deles:

«(nome) diz à mulher (nome): eu abandono-te como esposa. Eu repudio-te, eu afasto-me


de ti, eu não tenho mais direitos sobre ti enquanto esposa. Sou eu que te digo: arranja outro
marido para ti; eu não te impedirei de ires onde quiseres para te casares. Não tenho o direito
de te dizer nunca mais que és a minha mulher se te vir com outro homem. A partir deste
momento, eu não tenho nenhuma reclamação em relação a ti enquanto minha esposa, eu não
intentarei nenhum procedimento contra ti.»
Assinaturas do escriba que registou o acordo e das testemunhas105.

Em relação a este texto base assinalam-se duas excepções: no Papiro do Museu Britâ-
nico 10070, de 232 a. C., o ano 17 do reinado de Ptolemeu III Evérgeta I (246-221 a. C.), o
marido confirma à esposa que se divorcia e diz que lhe lega algumas propriedades. Contu-
do, a lista das propriedades não está redigida no documento de divórcio, mas em dois outros
documentos também do Museu Britânico (Papiro do Museu Britânico 10079B e Papiro do
Museu Britânico 10079C)106, redigidos pelo mesmo escriba no mesmo dia do documento de
divórcio. Poderá isto ser entendido como uma dissolução «litigiosa» uma vez que, ao con-
trário de todos os outros, houve necessidade de acrescentar a este documento um parágrafo
inusitado do foro económico? O segundo caso encontra-se no Papiro de Turim 6049, de 114
105 - T. HANDOUSSA, Mariage et Divorce dans l’Égypte Ancienne, p. 99.
106 - T. HANDOUSSA, Mariage et Divorce dans l’Égypte Ancienne, p. 101 e nts. 27 e 28.
a. C., o ano 3 do reinado de Ptolemeu IX Sóter II (116-110; 109-107; e 88-80 a. C.) e é um pa-
rágrafo deveras curioso: «Tu deste-me a satisfação de, graças ao teu contrato de casamento,
me teres dado os filhos que tive contigo». Esta afirmação encontra-se no documento de di-
vórcio, marcando o que, aparentemente, poderá ter sido um contrato de casamento destinado
apenas a dar descendentes ao marido que, eventualmente, tinha uma primeira esposa estéril.
Cumprido este segundo contrato de casamento não havia razões para continuarem juntos,
provavelmente por causa do grande amor que o esposo teria pela primeira mulher. Ou seja,
uma mente essencialmente monogâmica que abraçou a bigamia só pela necessidade cultural
de assegurar a descendência e, portanto, a eternidade. No que diz respeito às testemunhas
que assinavam estes documentos, a sua quantidade varia entre quatro, a maioria, oito e
dezasseis testemunhas. O único exemplo que há deste último caso diz respeito ao referido
Papiro do Museu Britânico 10070, cujo número de testemunhas pode ter sido provocado
pela inclusão da cláusula económica.
Depois do divórcio era a esposa que deixava o lar conjugal, que, de modo geral, per-
tencia ao marido. Mas também acontecia o contrário. Em muitos casos o casal vivia numa
casa comprada ou construída pelo pai da noiva por altura do seu casamento, como vemos
no Óstraco Petrie 61, do Império Novo, ou numa parte da sua de que a fizera proprietária,
exactamente para evitar que fosse lançada na rua em caso de divórcio. São vários os exem-
plos que mostram que, além de partilharem todos os seus bens com os filhos, era comum
os pais terem esta atitude para com as filhas, exactamente para evitarem que fossem ex-
pulsas do domicílio conjugal por causa de um divórcio. Mas há também um documento do 81
Império Médio que nos diz que um marido deu à sua mulher uma casa que tinha herdado
de um irmão e que ninguém tinha o direito de a desapossar dela107. Contudo, a vida fora
do casamento não era nada fácil. Muitas vezes, se não tivessem o apoio dos filhos ou dos
pais, podiam cair na pobreza e insegurança. Na necrópole tebana, se encontramos esposas
enterradas com os seus maridos, como é o caso do arquitecto Kha e da sua esposa Merit, há
muitos mais exemplos de túmulos só com mulheres, sobretudo no alto da necrópole de leste
reservada aos adultos, possivelmente celibatárias e divorciadas.
Podemos dizer que no antigo Egipto, para além de ser respeitada enquanto esposa e mãe,
a mulher era protegida pelo direito. Não só tinha o estatuto de esposa legítima através do
contrato de casamento, como os seus interesses financeiros estavam aí assegurados através
do dote e do acordo financeiro, além de poder ter ainda uma pensão de alimentos e vestuá-
rio, tendo o marido a obrigação de a manter enquanto fosse sua esposa. Garantia igualmente
o futuro dos filhos, que herdavam os bens do pai, estando o seu futuro também garantido
caso se divorciasse, pois não só recuperava o dote e os seus bens pessoais como ainda tinha
uma ou mais compensações. O que se pensa de facto, com base em diversos tipos de docu-
mentos, por exemplo, os contratos do reinado de Nectanebo I, de Dario e, sobretudo, o de
Khababach, é que o casamento constituía um sistema financeiro comum em que dois terços
pertenciam ao marido e um terço à mulher, sendo ela parte integrante e fundamental desse
sistema e não se podendo dizer que dependesse do marido. Ela possuía os seus próprios
107 - T. HANDOUSSA, Mariage et Divorce dans l’Égypte Ancienne, p. 103.
82 Mastaba de Sennefer, Guiza: uma separação iconicamente documentada.

bens e rendimentos, para além dos bens da família e decidia sobre eles livremente, podendo
vendê-los ou dá-los em herança a quem bem entendesse, filhos, irmãos ou outros. Mas,
curiosamente, não era herdeira legal do marido, que apenas lhe podia fazer doações ou re-
gistar propriedades em seu nome. Só os filhos eram herdeiros legítimos. Há até o caso de um
marido que, na Época Baixa, como não tinha filhos adoptou a mulher para que ela pudesse
ser sua herdeira108, pois no Egipto, tal como noutros locais do Próximo Oriente, «crianças,
mulheres, homens livres e escravos podiam ser adoptados»109.
Uma prova de uma mulher no pleno gozo dessa liberdade surge numa recente e interes-
sante publicação de Koenraad Donker van Heel sobre uma mulher chamada Tsen-hor, «A
irmã de Hórus», escrita com base em 34 papiros que esta empreendedora mulher e a família
deixaram, e que hoje estão espalhados por museus em Londres, Paris, Turim e Viena110.
Nascida em Tebas (Karnak) c. 550 a. C. e falecida c. 490 a. C., viveu nos reinados de Amá-
sis II, Psametek III, Cambises II e Dario I, e teve sempre firme controlo sobre toda a sua
vida. Era filha de um homem chamado Petemin e da sua segunda mulher Ituru. Também
casou duas vezes: primeiro em 535 a. C. com Inaros, de quem teve o filho Peteamon-hotep
que deve ter falecido antes de atingir um ano de idade; e em 517 com Psenese, para quem

108 - T. HANDOUSSA, Mariage et Divorce dans l’Égypte Ancienne, p. 106.


109 - H. NUTROWICZ, Destins de femmes a Éléphantine au Ve siècle avant notre ère, p. 192.
110 - K. D. VAN HEEL, Mrs. Tsenhor. p. 1.
também devia ser um segundo casamento, com quem teve um filho, Ituru, e uma filha Ruru
(Papiro Museu Britânico EA10120A). Faziam parte da Associação Tebana de Choachitas,
uma profissão muito comum em Tebas na Época Baixa, da qual são conhecidos registos
entre 542 e 538 a. C. (Papiro do Louvre E7840), que confirmam que eram muito bem pa-
gos, tendo por base contribuições regulares e permanentes que se «eternizavam», porque
passavam por inteiro para quem o sacerdote oficiante de cada defunto passasse a função e a
obrigatoriedade de manter esse culto anteriormente contratado.
A própria filha Ruru, seguindo os passos da mãe Tsen-hor, em 497 a. C. assinou um
contrato com um alto oficial do templo de Amon em Karnak, para fornecer pela eternidade
alimentos à dama Tadi-ipuer tendo recebido para isso quatro aruras111 de terra, que é uma
área muito grande (Papiro do Louvre E3231A). O pai de Tsen-hor já recebera, em 556 a.
C., onze aruras por um contrato semelhante (Papiro do Louvre 10935) e a dama Tsen-hor
administrou, conjuntamente com os seus três irmãos, o negócio de serviços funerários da
família, comprou escravos e propriedades, integrando-se no que poderíamos chamar uma
classe média alta, designando-se nos contratos por «choachitas do vale (de Assassif)», «cho-
achitas da necrópole de Djeme» ou «choachitas do oeste de Tebas»112. Embora tivessem uma
função religiosa, no fundo eram essencialmente agricultores e criadores de gado (Papiro
Turim 2128). Ao seu primeiro marido Inaros, que provavelmente também era choachita, não
sabemos o que aconteceu, mas em relação ao segundo marido, Psenese, sabemos que além
de ser igualmente choachita, tinha a mesma idade da esposa e os seus próprios negócios.
Foram feitos vários testamentos que iam sendo actualizados, mas no final ambos fizeram 83
dos filhos do casal os herdeiros equitativos dos seus bens, sem nunca os misturarem, nem
pôr em causa os bens daqueles a quem tinham que garantir a eternidade. Tsen-hor foi esposa
e mãe, teve dois casamentos, não se sabendo se o primeiro terminou em viuvez ou divórcio,
foi proprietária de casas, terras e escravos, sendo produtora agrícola e trabalhando profissio-
nalmente na necrópole como choachita, tendo mantido sempre a sua independência jurídica
e o controlo absoluto dos seus bens.

111 - A arura é uma medida de superfície do antigo Egipto equivalente a 100 côvados quadrados, em conversão para
uma medida actual são 0,28 hectares. Assim, 400x0,28=112 hectares, ou seja, 11200 ares, isto é, 1120000 metros
quadrados (J. P. ALLEN, Middle Egyptian. An Introduction to the Language and Culture of Hieroglyphs, p. 99).
112 - Esta ideia da fundação familiar para manter na família os próprios bens familiares terá surgido no Império
Antigo e, mais adiante, talvez por falta de herdeiros, passaram a existir famílias cujo negócio era administrar
o culto funerário de quem para isso os contratassem e lhes fizessem doações. Para perpetuar o culto funerá-
rio surgiram na IV dinastia os bens de mão-morta, bens fundiários provenientes de doações de fiéis que fi-
cavam «eternamente» na posse de quem ficasse encarregue desse culto. Chamavam-se de mão-morta porque
não transitavam por herança no falecimento do titular. Primeiro eram entregues a um colégio de sacerdotes
funerários e, depois, ainda na IV dinastia, surgiram as fundações familiares funerárias, o que permitiu manter na
família os lucros dessa actividade. O pai entregava ao filho mais velho a administração do feudo funerário como
chefe do seu culto apenas por disposição na acta de criação da fundação e todos os irmãos eram sacerdotes desse
culto submetidos ao primogénito. Nenhum tinha qualquer direito de posse sobre os bens, nem os podiam doar
ou fazer herdar parcelarmente a ninguém, mas podiam deixar a sua parte indivisa a quem lhe sucedesse na fun-
ção (J. PIRENNE, Histoire des Institutions et du droit privé de l’ancienne Égypte. II, La Ve Dynastie, pp. 364).