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O CONTO DO CAMPONÊS ELOQUENTE

NA LITERATURA DO ANTIGO EGIPTO

Por TELO FERREIRA CANHÃO


Doutorando da Faculdade de Letras
da Universidade de Lisboa

O Conto do Camponês Eloquente chegou até nós através de quatro manuscritos sobre
papiro: Papiro Ramesseum A ou Papiro Berlim 10499 (R), Papiro Berlim 3023 (B1), Papiro
Berlim 3025 (B2) e a frente do Papiro Butler ou Papiro BM 10274 (Bt). Existem ainda alguns
pedaços dos dois primeiros manuscritos designados genericamente por Papiro Amherst (A), sen-
do o Papiro Amherst I constituído pelos fragmentos A-E de B1 e o Papiro Amherst II pelos
fragmentos F-G de B2. Escritos em egípcio hierático, todos parecem ser cópias diferentes de um
original, provavelmente perdido. Aliás, a existência de cólofon em B2 assegura com toda a cer-
teza que não se trata de um manuscrito original. A relação entre os diferentes papiros parece ser
a que Parkinson determinou após aturada análise filológica e que reproduzimos no esquema que
se segue 1; ,  e  estão dados como desaparecidos. As diferenças que apresentam são, funda-
mentalmente, pequenas variações de estilo e erros de copista, deliberados ou não, tanto em
determinativos como em palavras, ou mesmo, em frases completas.

Arquétipo ()

B1 Bt B2 R

As primeiras publicações destes papiros são ainda do século XIX: B1 e B2 foram publi-
cados em 1859 por Lepsius 2, Bt em 1892 por Griffith 3 e A em 1899 por Newberry 4. O papiro
Bt tinha tido já em 1864 uma publicação parcial feita por Goodwin 5. Em 1908 surgiu uma
importante publicação de R, B1 e B2, fotografados, transcritos para hieróglifos e traduzidos por
Vogelsang e Gardiner 6. Em 1922, Gardiner reviu o texto destes três manuscritos introduzindo
diversas correcções 7. Para além da obra de 1908 ser marcada pela sua excepcional qualidade,
estes destaques surgem, sobretudo, pelo pioneirismo, pois a lista de publicações respeitantes a

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estes papiros não se esgota aqui, sendo, até, muito vasta.
Das publicações mais recentes destacamos três: duas de R. B. Parkinson, que fez a leitu-
ra dos papiros em egípcio hierático e publicou o texto integral transcrito para egípcio hieroglífico
no livro The Tale of the Eloquent Peasant 8 e a tradução em língua inglesa na obra The Tale of
Sinuhe and other Ancient Egyptian Poems, 1940-1640 BC; a terceira de P. Le Guilloux, Le Con-
te du Paysan Éloquent. Texte hiéroglyphique, translittération et traduction commentée 9. A 3 de
Abril de 2003, acrescenta-se, foi apresentada e defendida pelo autor destas linhas, em língua por-
tuguesa, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, uma
dissertação de mestrado em História das Civilizações Pré-Clássicas (Área de Egiptologia), intitu-
lada «O meu caminho é bom». O Conto do Camponês Eloquente. Texto hieroglífico, translitera-
ção, tradução comentada e análise de uma fonte documental 10.
Ainda que só R tenha a proveniência identificada, acredita-se que todos os papiros
foram encontrados na região de Tebas, o que, em caso algum, atesta que o original tenha sido aí
criado. Proveniente da zona do Ramesseum, R foi encontrado em 1896 por J. E. Quibell numa
caixa depositada num túmulo dos finais do Império Médio, localizado sob os armazéns do tem-
plo funerário de Ramsés II. Não foi um achado isolado, pois estava acompanhado de mais vinte e
três papiros, a maior parte de carácter mágico-medicinal, que constituíram uma forte sugestão
para identificar a actividade do seu proprietário, confirmada por parte do mobiliário funerário
que os acompanhava. O mau estado em que se encontrava fê-lo passar pela University College
de Londres para restauro e actualmente encontra-se em Berlim, nos Staatliche Museen. Sendo
uma montagem de diversos fragmentos que, em conjunto, formam um rolo que mede 8,2 cm de
altura por 240 cm de comprimento, é de um papiro de excelente qualidade, muito fino sem ser
transparente, apresentando uma cor amarela acastanhada com algumas partes bastante escuras e
grandes áreas completamente perdidas. São ainda conhecidos três outros fragmentos, dois dos
quais bastante pequenos (I – 3,4 cm x 2,5 cm e II – 3,0 cm x 2,2 cm), atingindo o terceiro 20 cm
de comprimento. Provavelmente o original estender-se-ia por mais de quatro metros 11.
Como em todos os papiros, a face que corresponde ao interior é o recto, onde as fibras
eram dispostas horizontalmente, e a exterior o verso, com as fibras colocadas verticalmente. É
um texto palimpsesto, não sendo perceptível o que estaria anteriormente registado. Apresenta
229 linhas do Conto do Camponês Eloquente no recto e 203 linhas da Aventura de Sinuhé no
verso, parecendo terem sido redigidas pelo mesmo escriba. O texto no recto surge depois de uma
margem de 2,5 cm à direita, sendo escrito da direita para a esquerda e apresentando-se maiorita-

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riamente em «páginas» de colunas de linhas horizontais. As primeiras linhas apresentam o início
do Conto, inexistente em B1 e B2. A uma primeira coluna com sete longas linhas, segue-se a
lista de vinte e sete produtos que o camponês transportava nos burros, apresentada em quatro
colunas verticais com os diferentes bens escritos horizontalmente (7 + 7 + 7 + 6), formando os
determinativos de cada um uma subcoluna à esquerda de cada coluna principal. Num total de
trinta e uma, vinte e sete são colunas largas de linhas horizontais e quatro são colunas de leitura
vertical integradas na continuidade do texto. As palavras lêem-se de cima para baixo mas os hie-
róglifos lêem-se da direita para a esquerda. Entre as colunas oito e nove há uma linha vertical
isolada e duas entre as colunas treze e catorze. Exceptuando as colunas totalmente perdidas de
que nada sabemos (colunas 21-22 e 28-29), as restantes apresentam sete ou oito linhas cada, fal-
tando linhas ou parte delas em algumas. Escrito com tinta preta, é o papiro que apresenta maior
quantidade de passagens a tinta encarnada, que assinalam o início dos discursos e das petições. É
mais arrumado, mais elegante e com caracteres mais anguloso do que B1 e B2.
B1 e B2 pertenceram até 1843 à Colecção Athanasi, altura em que foram adquiridos
com outros objectos e papiros pelo Königliche Preussische Museum, mais tarde os Staatlichen
Museen de Berlim. A origem egípcia exacta destes papiros não ficou registada, havendo apenas
conjecturas que apontam para a sua provável descoberta num túmulo tebano, uma vez que, sem
que se conheça qualquer localização precisa, é sabido que o grego Giovanni d’Athanasi (1798-
1854) realizou a maior parte das suas recolhas de antiguidades egípcias em Tebas e arredores 12.
Hoje são, também, propriedade dos Staatlichen Museen.
B1, outro rolo escrito de ambos os lados, apresenta o texto escrito da direita para a
esquerda em «páginas» de largura variável. Não é um texto corrido do princípio ao fim, havendo
«páginas» com linhas verticais e outras com colunas de linhas horizontais, variando o seu núme-
ro entre oito e treze linhas por «página». Mede 16 cm de altura por 390 cm de comprimento, ao
que se devem acrescentar os fragmentos A-E de A I, cinco pedaços deste papiro que, no conjun-
to, atingem cerca de 27 cm de comprimento e se encaixam perfeitamente no seu início. Actual-
mente de cor castanha escura, apresenta a segunda página do verso descolorida num tom mais
amarelado; tem também algumas partes mais finas e transparentes do que outras, sendo o verso a
face mais deteriorada e irregular, o que revela não só a passagem do tempo mas também uma
maior superfície palimpsesta. Parte dos palimpsestos é mesmo legível, sugerindo alguns investi-
gadores que o papiro terá tido inicialmente um texto médico e só depois terá sido limpo e prepa-
rado para receber o texto actual 13.

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Suporta 326 linhas, as primeiras 285 no recto e as restantes no verso, antecedidas pelas
dezoito linhas verticais de A I. Estas, muito incompletas, apresentavam falhas entre si, mas o seu
restauro levou Parkinson a efectuar uma nova numeração de linhas, diferente da realizada por
Vogelsang e Gardiner. Em todo o caso, estão ausentes o princípio e o fim do Conto. Ainda que a
maior parte tenha sido apagada, subsistem por vezes nas duas faces algumas linhas horizontais
de orientação e alinhamento. No total sobrepunham-se seis linhas distando 3,2 cm umas das
outras, de modo a que as duas exteriores originassem margens iguais, uma superior e outra infe-
rior, criadas para prevenir possíveis deteriorações das extremidades do papiro e que, de maneira
geral, não foram utilizadas. Foi usada basicamente tinta preta, aparecendo esporadicamente a
tinta encarnada. Os caracteres são mais cursivos na escrita horizontal do que na vertical, onde
são mais regulares e elegantes; também o verso é mais cursivo do que o recto. O texto começa
logo após a lista de produtos que o camponês carrega no seu burro para ir comerciar. É visível
ainda parte da última coluna dessa lista (B1, 14) que parece ter sido organizada verticalmente em
duas colunas, com os produtos dispostos horizontalmente e os seus determinativos formando
subcolunas; é provável que, por comparação com R, faltem no início treze linhas. Termina no
final da oitava petição, faltando a nona e a conclusão, num número de linhas mais difícil de
determinar, mas que, comparando com B2, poderão ser cinquenta e uma.
B2 é igualmente um rolo com duas faces que mede 295 cm de comprimento e 15 cm de
altura. O texto, escrito só em colunas orientadas da direita para a esquerda, ocupa apenas o recto.
No verso há somente uma pequena área escrita equivalente a três colunas do recto, possivelmen-
te não mais do que um simples apontamento ou memorando do escriba 14. É um papiro mais
grosseiro e irregular que B1, apresentando-se mais escuro e menos transparente, havendo no
entanto em relação aquele papiro maior variação de tonalidade nas diversas «folhas». As marcas
de palimpsesto são insignificantes, indicando apenas pequenas correcções e não a existência de
qualquer texto anterior.
Compõe-se de 142 colunas, às quais até 1991 eram acrescentadas quatro linhas incom-
pletas dos dois pequenos fragmentos F-G de A II (F – 3 cm x 5 cm; G – 3 cm x 6,5 cm), que em
Outubro de 2000 estavam reduzidas a apenas três linhas incompletas (F – 1,7 cm x 4,5 cm; G – 3
cm x 6,5 cm) 15. Inexplicavelmente entre estas duas datas, o fragmento F sofreu uma amputação
parcial, tendo desaparecido o conjunto completo que constituía a primeira daquelas quatro
linhas. O facto dos conjuntos F e G não se entrosarem directamente e pertencerem à parte do
papiro em falta, o que para além de levantar grandes problemas de restauro os torna desprezíveis

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tanto para a inteligibilidade do Conto como para as dimensões de B2, não é razão para escamo-
tearmos esta perda recente de um pedaço do património universal.
Para além desta questão, B2 apresenta-se mais deteriorado do que o anterior, com bas-
tantes falhas verticais e as extremidades tão danificadas que não é possível determinar quantas
linhas faltam nos dois lados ou mesmo se o início do Conto estaria completo nesta versão. Além
da introdução, carece das cinco primeiras petições e de uma parte da sexta, mas, apesar do seu
estado, é o papiro que consigna a nona petição e a conclusão, inexistentes nos restantes. Escrito
com tinta preta, inclui três pequenas passagens a encarnado. Comparada a caligrafia, os arranjos
espaciais e algumas opções gráficas, Parkinson está seguro de que não se trata de um trabalho do
mesmo escriba de B1 16.
A I e II devem o seu nome ao facto de terem pertencido à colecção de Lord Amherst de
Hackney (1835-1909) 17, desconhecendo-se onde e quando os terá adquirido. Parkinson corrobo-
ra a ideia avançada por Newberry de que a hipótese mais provável é terem sido adquiridos em
1861 quando Amherst adquiriu a Colecção Lieder no Cairo, onde permaneceu entre 1825 e 1862
18
. Em 1912 foram comprados pela Biblioteca Pierpont Morgan de Nova Iorque, actual proprietá-
ria. Foram comprovadamente identificados por Newberry e Griffith como fragmentos de B1 e
B2 19. Deste modo, embora se desconheça o percurso efectuado desde que se separaram daqueles
papiros até chegarem aos actuais detentores, a sua origem mais provável é Tebas.
Bt foi adquirido por Samuel Butler (1774-1839) em 1835, quando a terceira Colecção
Salt foi postumamente vendida 20. O respectivo catálogo afirma que a sua origem é Tebas 21

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sabido que os agentes de Henry Salt (1780-1827) se concentraram sobretudo no Ramesseum,
em Luxor e em Karnak 23. Em 1840 foi adquirido pelo Museu Britânico (BM), ainda hoje o seu
proprietário, cujos arquivos confirmam a proveniência tebana 24. É um rolo de papiro fino e
transparente, castanho claro no recto e mais amarelado no verso, com a superfície mais danifica-
da que os anteriores. Hoje, após um restauro das suas margens, mede 72 cm de comprimento por
13,7 cm de altura, mas, provavelmente, na origem teria cerca de 15 cm de altura. Qualquer das
faces apresenta traços palimpsestos, mostrando o recto, ainda que ilegíveis, vestígios de um texto
escrito em linhas horizontais.
Embora Parkinson afirme que foi no recto que se preservaram quarenta linhas do início
do Conto 25, as fotografias que recebemos do Museu Britânico, referenciam-nas no verso e não
temos dúvidas que o texto das fotografias faz parte do Conto do Camponês Eloquente. Depois de
uma análise mais atenta às duas informações, julgamos que a razão está do lado de Parkinson,

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havendo um erro de indexação na fotografia. O texto está escrito da direita para a esquerda e
começa na já referida lista de produtos, organizados do mesmo modo que em R e B1: em colunas
onde as palavras se lêem de cima para baixo mas os hieróglifos são lidos da direita para a
esquerda com os determinativos a formar subcolunas separadas. São duas colunas contendo a
primeira onze produtos e a segunda apenas três. As restantes vinte e seis são linhas verticais de
hieróglifos. Comparando com R, devem ter-se perdido cerca de 20 cm de papiro com o início do
texto. Escrito totalmente com tinta preta, apresenta um único signo a encarnado, aparentemente
uma correcção posterior à execução do texto. Tendo em conta as características dos signos e da
tinta, pouco espessa e pouco aderente em zonas onde se encontra mais sumida, há no entanto
outras correcções que parecem ter sido introduzidas pelo escriba enquanto escrevia o texto. No
verso foi registado um texto distinto do Conto que, aparentemente, é também um discurso que
envolve um queixoso 26. O mau estado do suporte e a fraca qualidade da tinta, acrescidos do facto
de ser escrito num cursivo pouco cuidado, tornam a sua leitura difícil.
Estudos epigráficos e, sobretudo, filológicos, permitiram datar estes papiros do Império
Médio: B1, B2 e Bt da XII dinastia e R, o único que foi descoberto num contexto datado, da XIII
dinastia 27. Com R, B1 e B2 reconstitui-se todo o Conto, permanecendo apenas algumas lacunas
pontuais que não impedem a sua cabal compreensão. Bt serve, sobretudo, para, por comparação,
esclarecer algumas dúvidas.
O Conto do Camponês Eloquente é um dos textos literários mais longos do Antigo
Egipto e, também, o mais completo e copiado de todos 28. Ainda hoje, tão distante da longínqua
época em que foi escrito e apreciado, constitui uma excelente peça literária da qual sobressaem
momentos de grande beleza. O cálamo do escriba facultou a imortalidade a um dos mais admirá-
veis conjuntos criativos de oratória da Antiguidade, onde a dramatização e a ironia se cruzam
permanentemente em quadros temáticos variados, repassados por uma crescente emotividade. A
riqueza de conteúdo mostra claramente os objectivos que presidiram à sua criação: o enquadra-
mento dos princípios fundamentais que consubstanciam a ideia de maat no Egipto faraónico 29, a
personificação da ordem cósmica e social estabelecida pelo demiurgo e mantida permanentemen-
te pelo faraó nos rituais diários e pelos Egípcios através de um comportamento exemplar. Como
lhe chamou Assmann, é um autêntico «Tratado sobre maat» 30.
Fazendo parte de um diversificado acervo de textos funerários, religiosos, científicos,
mágicos, literários, etc., foi pensado e escrito na língua popular do Império Médio — o médio
egípcio —, que vigorou do Primeiro Período Intermediário 31
ao reinado de Amen-hotep III, no

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Império Novo 32. Materializou-se na escrita hierática, que foi criada ainda no Império Antigo
para facilitar a execução da escrita hieroglífica e transformada em instrumento administrativo,
comercial, religioso, científico e literário pelas as necessidades do quotidiano; foi uma escrita
usada em qualquer tipo de suporte, principalmente em papiros e óstracos, só sendo ultrapassada
pelo aparecimento da escrita demótica, já depois do final do Império Novo. O desenvolvimento
da escrita cursiva, que dispensava o trabalho artístico e demorado dos pictogramas, confinou a
escrita hieroglífica quase só a contextos monumentais e religiosos, sobretudo a relevos esculpi-
dos na pedra. De qualquer modo, com maior ou menor dificuldade e em função do período histó-
rico ou do tipo do cursivo, é possível transcrever signo a signo qualquer texto hierático para o
sistema hieroglífico.
O facto deste conto ter sido reconhecido pelos próprios coevos como uma obra literária
clássica, leva-nos a procurar integrá-lo no respectivo género da literatura egípcia antiga, entendi-
da esta em sentido restrito e não em sentido lato ou abrangente. Ou seja, afastando à partida o
conceito de uma literatura que abarcaria toda a produção escrita reconhecida como património
literário do Antigo Egipto, e fixando-nos apenas na produção que, independentemente do con-
teúdo e por força da sua qualidade estética, foi considerada trabalho de primeiro plano pela pró-
pria crítica egípcia da época. Através dela os escribas legaram-nos valores e conhecimentos, pen-
samentos e crenças tão ou mais importantes do que tudo aquilo que os seus empreendimentos de
carácter mais visível nos podem transmitir. Isto, sem escamotear o facto destas afirmações assen-
tarem na certeza de só ter chegado até nós uma pequena parte da produção literária egípcia.
Além disso, o que chegou são vestígios fragmentados pelo tempo ou pela barbárie dos homens,
cuja reconstituição só tem sido possível através de diferentes cópias do mesmo texto, por vezes,
ainda, agravada por pertencerem a diversas épocas.
Apesar de variada, a literatura egípcia que conhecemos pode organizar-se em cinco
géneros: ensinamentos, literatura das ideias, lírica, textos ideológicos e contos 33. Estes últimos
são textos narrativos compostos por escribas de grande talento e constituem uma das expressões
mais importantes da literatura egípcia no elenco das obras literárias do Antigo Egipto. À partida
não eram destinados ao povo mas a uma elite apreciadora da arte de composição e da língua; a
sua excepcional qualidade também os tornava dignos de servirem pedagogicamente, como exer-
cícios de leitura e caligrafia, aos jovens destinados à profissão de escriba. São obras com temáti-
cas variadas que G. Lefebvre organiza em seis grupos (mitológicos, anedóticos, filosóficos, psi-
cológicos, maravilhosos e contos-moldura), aos quais, contrapondo narrativa de acontecimentos

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fictícios a narrativa de fundo histórico, acrescenta o grupo dos romances que incluem textos ins-
pirados em factos reais 34. O Conto do Camponês Eloquente enquadra-se nos contos-moldura 35,
género em que o conto é apenas uma parte secundária da totalidade da obra literária, mas que
não pode ser separado do todo. Neste caso constitui a introdução e a conclusão, completando-se
a obra com um conjunto de petições, identificadas no texto como tendo sido proferidas no tempo
de Nebkauré Kheti, provável rei da IX ou da X dinastia, por volta de 2170-2007 a. C.
Entre a narrativa introdutória e a narrativa conclusiva, o Conto apresenta um conjunto
de nove petições que um camponês, Khuenanupu, dirige ao grande intendente Rensi, um dos
mais altos funcionários da administração faraónica, cujo cargo na XII dinastia estava hierarqui-
camente logo abaixo do faraó. As preocupações com a fragilidade do Estado surgem de forma
evidente. São nove exercícios da mais viva e colorida oratória expressando uma série de ideias
que, numa abordagem directa e clara, pretendiam chamar a atenção para «a necessidade de asse-
gurar que o Estado satisfizesse as expectativas do homem comum» 36. Numa leitura mais profun-
da, o objectivo seria sensibilizar e até vincular de novo a nobreza provincial — nomarcas e res-
tantes funcionários locais — ao poder divino da realeza, bastante abalado pela onda de indivi-
dualismo em curso no final do Império Antigo e no Primeiro Período Intermediário, reposicio-
nando o poder real no topo da hierarquia e restabelecendo no reino a ordem divina: Maat. Daqui
que também sejam designados por «discursos sobre maat» 37.
A narrativa e os discursos são coerentes e complementares: a primeira apresenta a acção
que permite expor o conceito de maat e denunciar o mau funcionalismo, temas amplamente
desenvolvidos nas petições; os segundos sustentam um acontecimento que de outro modo seria
perfeitamente banal. Esta coerência está também patente na temática apresentada. Na introdução,
por exemplo, Khuenanupu pede à mulher para medir o grão para a viagem, indicando-lhe com
precisão as quantidades pretendidas. Depois, ao longo dos discursos, constata-se o emprego repe-
tido da metáfora do grão aplicada à maat, que deve ser «bem medida». A harmonia entre as par-
tes observa-se também no estilo, onde encontramos homogeneidade filosófica do princípio ao
fim do texto. E porque as diversas evidências são notórias nos quatro papiros, tem sido conside-
rado como muito provável que o arquétipo da obra tenha sido concebido por uma única pessoa 38.
A narrativa divide-se claramente em duas partes: introdução e conclusão. Na introdução
apresentam-se os intervenientes e ocorre a acção que conduz a uma situação de injustiça; na con-
clusão é solucionado o pleito, do qual se inferem as lições morais subjacentes aos bons e aos
maus comportamentos, premiando uns e castigando outros. Por seu lado, as nove petições têm

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como finalidade a reposição da justiça. A este propósito há duas interessantes questões que se
prendem com o significado que os Egípcios atribuíam aos números. O número 3 e os seus múlti-
plos simbolizavam a pluralidade, à qual se associavam todas as tríades da religião egípcia, enca-
beçadas pelas três divindades solares Ré, Khepri e Amon, podendo, a partir daí, surgirem outros
conceitos: quando essas tríades eram compostas por divindades que representavam pai, mãe e
filho, pode dizer-se que simbolizavam sistemas harmónicos fechados (Osíris, Ísis e Hórus ou
Amon, Mut e Khonsu); ou tensão, quando agrupavam divindades rivais (Ísis, Hórus e Set). Por
sua vez o número 9, resultando da multiplicação do número três por si próprio, aparecia vulgar-
mente associado às enéades, grupos de nove divindades como a Enéade de Heliópolis, ou aos
Nove Arcos, os inimigos do Egipto, representando o conceito de grande número e significando,
portanto, grandiosidade. Por isso, o facto de se tratar de nove petições é mais um aspecto rele-
vante que, em nosso entender, introduz na obra um certo pendor simultaneamente mágico e reli-
gioso. E ainda com um duplo sentido: não só motivar para o cumprimento de maat e desmotivar
os prevaricadores, mas também demonstrar a tomada de consciência do autor que, muito prova-
velmente, percepcionava o facto de estar a produzir uma obra de qualidade superior para atingir
os seus objectivos. O jogo da magia dos números é tão claro, que os pontos onde o desenvolvi-
mento do texto evidencia maior dramatismo coincidem exactamente com os finais da 3ª, 6ª e 9ª
petições. Aliás, ao longo do Conto, surgem diversas questões relacionadas com os números. Um
outro exemplo pode ser a 5ª petição, a mais curta de todas e que funciona na estrutura do conto
como charneira: quatro petições para cada lado e ponto da situação simples, completo e explíci-
to. Ora o 4, normalmente associado aos quatro pontos cardeais, significava a totalidade e a per-
feição. Não sendo um texto mágico nem religioso, parece-nos claro o envolvimento nas teias da
magia, sem deixar de perseguir também objectivos religiosos, como aliás acontecia praticamente
em tudo no Egipto faraónico.
Num arrojo de inspiração, certamente com a ideia de cativar os ouvintes, os monólogos
são enquadrados num enredo: a moldura. O camponês Khuenanupu 39 desloca-se do Uadi Natrun,
no deserto líbio, rico em lagos salgados, ao Vale do Nilo, para trocar os seus produtos por outros
de que necessita. No caminho é agredido e roubado por Nemtinakht, filho de um proprietário
local, Iseri, dependente do grande intendente Rensi. Não conseguindo resolver o caso no local,
dirige-se a Neninesu 40 para apelar ao próprio Rensi, que fica impressionado com a qualidade do
seu discurso. De tal modo que apresenta o caso ao rei, dizendo claramente em B1, 106-107 que o
camponês é «bom orador na realidade» (nfr mdw n wn mAa). É a única passagem onde aparece a

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expressão, nfr mdw, ou seja, bom orador, com o sentido de ser possuidor de uma oratória con-
vincente, isto é, eloquente. Uma vez que não foram os antigos Egípcios que deram ao texto o
nome que hoje lhe é atribuído, estamos em crer que foi esta expressão que inspirou o seu título
nos nossos dias. Devido ao agrado do rei pela qualidade do seu discurso, vê-se então obrigado a
fazer repetidos apelos à justiça, que só com a intervenção do monarca acaba por lhe ser concedi-
da. Por fim é-lhe apresentada a razão que presidiu à demora da justiça, compensada a sua verti-
calidade e teimosia, e castigados os que o tinham maltratado e despojado dos bens, isto é, foi
restabelecida a ordem, ou seja, maat.
As comparações a um falcão (B1, 206), a um carniceiro (B1, 207), a uma cidade sem
governador, a um barco sem capitão (B1, 220-222), ao cálamo (B1, 336), etc.; as antíteses, «Tu,
sombra, não ajas como a luz do sol!» (B1, 254), «Não sejas lento, tu não és rápido!» (B2, 104),
etc.; os jogos de palavras, «Se não tens nada, ela não tem nada; se não há nada contra ela, não há
nada contra ti; se tu não actuares, ela não actua.» (B1, 151-152), etc.; até mesmo as alegorias, por
exemplo, quando fala da mentira que parte em viagem, que se perde e não consegue atravessar o
rio na barca (B2, 98-99), são procedimentos utilizados pelo orador como recursos estilísticos da
sua notável eloquência, que sublinham a riqueza literária do autor do texto, certamente uma per-
sonalidade muito culta 41.
A personagem foi concebida, em primeiro lugar, como um extraordinário litigante,
detentor de grande maleabilidade de argumentação: tanto lisonjeia Rensi, «Tu és Ré, senhor do
céu.» (B1, 171); como o repreende, «A piedade passou ao teu lado!» (B1, 148); o insulta, «Tu
roubas: não é benéfico para ti.» (B1, 323-324); lhe pede compaixão, «Destrói a minha miséria.
Olha eu estou oprimido pelas lágrimas!» (B1, 101); ou justiça, «Castiga aquele que deve ser cas-
tigado e ninguém será como tu na tua rectidão.» (B1, 178-179). Utilizando de um modo geral
uma linguagem muito simples, por vezes elabora frases que parecem autênticos provérbios ou
máximas populares, «Não faças planos para o amanhã antes de ele chegar! Ninguém sabe os
males que há nele!» (B1, 214-215), «Corrigir é rápido, o mal dura muito tempo.» (B1, 139-140).
Sem prejuízo do que dissemos, por outro lado também nos deparamos com algumas afirmações
mais obscuras e impenetráveis. Devido ao equilíbrio do conjunto, estamos em crer que isso se
deve mais a pequenas deteriorações dos papiros, e, sobretudo, àquilo que ainda se desconhece da
cultura do Egipto faraónico, do que propriamente a limitações do autor.
Através de momentos de brilhante oratória, acompanhamos um texto tão bem estrutura-
do quanto simples é o estilo que serve uma temática tão complexa. Provavelmente terá sido a

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fórmula encontrada para conciliar duas personagens culturalmente antagónicas: o instruído Rensi
com o «inculto» Khuenanupu. Alterna momentos de grande emotividade com outros de transpa-
rente humor, apresentando uma imaginação de alto nível embora repetindo, por sistema, palavras
e ideias-chave; faz um claro apelo ao mundo divino para estabelecer a hierarquia do poder entre
os homens, apresentar o caos de um mundo imperfeito em que vivem e colocar a verdade e a
justiça absolutas apenas ao alcance dos deuses; sobe progressivamente de tom numa exposição
que utiliza temas fáceis e ilustrativos para vincular a sua ideologia, tais como o náutico que surge
sete vezes, o da balança, seis, o do crocodilo, quatro, o da caça e da pesca, três, etc. 42, para dis-
correr sobre a verdade e a mentira, a justiça e a injustiça, a luta entre o bem e o mal, em suma,
sobre maat. Na obscuridade paira sempre a figura superior e paternal do faraó. Ainda que o
expediente para o nascimento da obra, tal como acontece com Khufu nos contos Westcar ou
Seneferu no Conto Profético 43, enraíze na falta de distracção e no aborrecimento do rei, aspectos
nada consentâneos com a época em que vivia, nunca é posta em causa a magnificência régia, não
só porque durante o tempo em que Khuenanupu esteve retido o rei velou pelo seu sustento e da
família, mas também pelo facto do desfecho da causa ter tido o seu beneplácito.
Longe de ser uma obra literária nascida do prazer de bem escrever, isto é, arte pela arte,
é um texto que revela o conhecimento de diversas linguagens por parte do seu verdadeiro autor,
facto que lhe confere o estatuto de um autêntico «homem de letras». Tanto há provérbios e ditos
populares que tentam aproximar a figura do camponês à realidade social a que pertenceria, como
se sucedem metáforas de grande erudição que denunciam um conhecimento superior, próprias
daqueles cuja educação foi seriamente cuidada; passa-se de um conjunto de ideias ao alcance de
qualquer popular, como a temática náutica ou a utilização equilibrada de uma balança, para epi-
sódios de erudição totalmente desajustada em relação a um camponês, como é o caso dos que
advogam a jurisprudência ou a moral. Por isso, o texto está repleto de termos técnico-jurídicos.
Por outro lado, as denúncias de corrupção e de inércia, o modo violento e ofensivo com
que por vezes se dirige ao grande intendente, o juiz que o vai julgar, não são próprios do com-
portamento típico do estrato popular egípcio antigo. É evidente que tendo em conta a sua prove-
niência, também é possível imaginar o camponês como um estrangeiro no Egipto, o que na mon-
tagem do conto lhe poderá ter dado uma certa imparcialidade para julgar pessoas e instituições,
ainda que isso revele que tem conhecimentos linguísticos e culturais iguais ou superiores à maio-
ria dos autóctones. Assim como também não é vulgar a sua capacidade oratória, a sua exposição
tão organizada e, de um modo geral, a beleza da linguagem utilizada. Como afirmámos, o tema

11
principal, presente do princípio ao fim, é a natureza e prática de maat. A mensagem do texto
enquadra-se perfeitamente no conhecimento que temos do Egipto desta época: repor maat, a ver-
dadeira base da sociedade civilizada. Por isso, para além do envolvimento mágico e religioso, é
também um tratado filosófico, legal e político; um longo trabalho de reflexão sobre a prática
jurídica e sobre as dicotomias Verdade/Mentira e Justiça/Injustiça. Discorre acerca da ideia abs-
tracta da maat, comparando-a a conceitos a ela associados ou opostos, presentes nas exemplifi-
cações de bons e maus procedimentos como a verdade, a bondade ou a generosidade, a mentira,
a maldade ou a avidez; denuncia o mau funcionamento do aparelho jurídico, avançando hipóte-
ses de solução; mantém latente a ideia da omnipresença do rei, que, por fim, com as instituições
a funcionar segundo a ordem preestabelecida, recupera o poder usurpado à figura real durante o
atribulado Primeiro Período Intermediário. É por isso, também, um texto de propaganda política,
pois, para além de promover a concepção de maat, deixa clara a existência de uma estreita liga-
ção entre esta e o rei, isto é, o Estado, reforçando a ideia de poder teocrático do Egipto.
Vimos então que, do ponto de vista formal, o Conto do Camponês Eloquente é compos-
to por uma curta história que enquadra nove discursos ou petições, a que Lichtheim chama de
«discursos poéticos» e «do mais alto calibre», acrescenta Perry 44, que variam de extensão, mas
que, na generalidade, são longos e intercalados por alguns desenvolvimentos, que Parkinson
designa por «interlúdios» 45. É, pois, um misto de narrativa e de oratória, apresentado de forma
poética. Cada uma destas formas é marcada estruturalmente por determinados elementos grama-
ticais: nas partes narrativas o autor utiliza abundantemente a forma verbal sDm.in.f 46, flexão sufi-
xal indirecta usada como passado narrativo, normalmente associada ao verbo Dd, para mudar de
interlocutor (Dd.in sxty pn – «este camponês disse»); em menor escala aHa.n sDm.n.f 47, já não
associada ao verbo Dd mas a outros verbos, para assinalar a concretização de certas acções (aHa.n
xA.n.f – «então ele pesou») e, ainda, a construção nominal especial infinitivo + pw + ir(w).n.f (hAt
pw ir(w).n sxty pn – «este camponês desceu») 48. A parte poética, as petições 49, caracteriza-se
por uma maior percentagem de frases nominais, o que justifica uma maior quantidade de frases
curtas que se podem apresentar como versos, facilmente organizáveis em estâncias 50. O emprego
de pequenas frases que sobrevivem autónomas é de certo modo fictício, apenas ganhando visibi-
lidade nas traduções modernas, pois a maioria faz parte de períodos gramaticais mais longos ou
de extensos períodos de conteúdo métrico-estilístico 51. As nove petições são introduzidas siste-
maticamente por duas frases de características narrativas: «Então, este camponês veio apelar-lhe
uma X vez, e disse» (iw in rf sxty pn r spr n.f X nw sp Dd.f).

12
Os discursos de Khuenanupu revelam-se ao nível da mais bela oratória, não só pelo seu
valor artístico, como pela forte mensagem sobre a qual, por vezes, o camponês reflecte filosofi-
camente, ou, mais frequentes, onde mostra as consequências de aderir ou não a esse ideal de vida
e verdadeira natureza da justiça: maat. Em nosso entender é um texto claramente doutrinário,
como se vê, por exemplo, nas passagens B1, 99-102, nas quais maat é definida em termos legais,
deixando claro qual deve ser o comportamento de um juiz e como deve presidir a um julgamento
justo (a viagem no «Lago da Justiça»); ou em B1, 160, B1, 168-169, B1, 252-255 e B1, 268-270,
onde se insiste na imagem protectora do juiz, defensor dos mais fracos, cuja prática de maat se
opõe ao comportamento do ambicioso, do ávido, como se observa em B1, 96-97, B1, 148 e B1,
321-323. A prática da maat é claramente entendida como oposta ao conceito de «mentira» em
B1, 190-191, B1, 213-214, B1, 228-229 e B1, 272-273. Há também extensas passagens do seu
discurso em que dá claras instruções aos juízes sobre a maneira de se conduzirem em conformi-
dade com maat ou, simplesmente, do que devem evitar para cumprirem maat em B1, 128-134,
B1, 242-246, B1, 265-270, B2, 103-112. Para além da ideia metafísica subjacente ao conceito de
maat, ela representa todo um enquadramento de vida que os Egípcios, em particular os ricos e
poderosos, tinham por obrigação aplicar à sua existência, especialmente, à sua vida profissional.
Referindo-se à actual designação da capital do período heracleopolitano, Mokhtar vin-
cula a sua opinião ao Conto, erradamente posicionado na literatura do Primeiro Período Interme-
diário, e afirma com propriedade: «Com brevidade, podemos dizer seguramente que a importân-
cia de Ihnâsya na história adveio, antes do mais, da literatura que floresceu durante a sua supre-
macia e que mostrava um alto sentido de valores morais e humanismo, de justiça social e iguali-
tarismo, de piedade e teoria democrática religiosa e, finalmente, da alta qualidade da sua escrita»
52
. Na verdade, a classificação tout court de conto-moldura no caso do Conto do Camponês Elo-
quente é bastante redutora. Se estruturalmente pode ser assim designado, as suas petições tanto
se enquadram na literatura das ideias, como nos textos ideológicos ou nos ensinamentos 53.

1
R. B. PARKINSON, The Tale of Sinuhe and Other Ancient Egyptian Poems, 1940-1640 BC, Oxford, University
Press, 1997, p. xxix.
2
C. R. LEPSIUS, Denkmaeler aus Aegypten und Aethiopien, Abth. VI, 1859, pl. 108-110, 113-114.
3
F. LL. GRIFFITH, «Fragments of Old Egyptian Stories from the British Museum and Amherst Collections», em
P.S.B.A. 14 (1892), London, The Society of Biblical Archæology, pp. 451-472.
4
P. NEWBERRY, The Amherst Papyri: Being an Account of the Egyptian Papyri in the Collection of the Right Hon.
Lord Amherst of Hackney…., London, Bernard Quaritch, 1899, pl. 1.
5
C. W. GOODWIN, «Lettre à F. Chabas sur un fragment hiératique se rattachant au papyrus de Berlin Nº II» em
e
François Chabas, Mélanges égyptologiques II série, Chalon-sur-Saône, J. Dejussieu Editeur, 1864, pp. 249-266.
6
F. VOGELSANG & A. H. GARDINER, Literarische Texte des Mittleren Reiches IV: Die Klagen des Bauern. Hiera-
tische Papyrus aus den Königlichen Museen zu Berlin 4, Leipzig, J. C. Hinrichs, 1908.

13
7
A. GARDINER, «The Eloquent Peasant» em JEA 9 (1923), London, The Egypt Exploration Society, pp. 5-25.
8
R. B. PARKINSON, The Tale of The Eloquent Peasant, Oxford, Griffith Institute, Ashmolean Museum, 1991.
9
P. LE GUILLOUX, Le Conte du Paysan éloquent. Texte hiéroglyphique, translittération et traduction commentée.
Cahiers de l’Association angevine d’Egyptologie Isis, nº 2, Angers, 2002.
10
T. F. CANHÃO, «O meu caminho é bom». O Conto do Camponês Eloquente. Texto hieróglifo, transliteração, tra-
dução comentada e análise de uma fonte documental, Lisboa, dissertação de mestrado em História das Civiliza-
ções Pré-Clássicas (Área da Egiptologia), F.C.S.H. da U.N.L., 2003.
11
R. B. PARKINSON, The Tale of The Eloquent Peasant, p. xxiii.
12
Ibidem, p. x; E. PERRY, A Critical Study of the Eloquent Peasant. Dissertation: Johns Hopkins University, Ann
Arbor: University Microfilms, 1986, p. 21; N. and H. STRUDWICK, Thebes in Egypt, New York, Cornell University
Press, 1999, p. 211; R. W. DAWSON; E. P. UPHILL; M. L. BIERBRIER, (Third revised edition), Who Was Who in
Egyptology, The Egypt Exploration Society, London, 1995, p. 21.
13
R. B. PARKINSON, The Tale of The Eloquent Peasant, p. xiii.
14
Ibidem, p. xix.
15
A primeira data refere-se à publicação da obra de R. B. Parkinson, The Tale of The Eloquent Peasant, e a segun-
da à carta e envio das fotografias da Pierpont Morgan Library para o autor deste trabalho.
16
R. B. PARKINSON, The Tale of The Eloquent Peasant, p. xxi.
17
R. W. DAWSON; E. P. UPHILL; M. L. BIERBRIER, Who Was Who in Egyptology, p. 14.
18
R. B. PARKINSON, The Tale of The Eloquent Peasant, p. x.
19
Ibidem, pp. x-xi; E. PERRY, A Critical Study of the Eloquent Peasant, pp. 69-70.
20
R. W. DAWSON; E. P. UPHILL; M. L. BIERBRIER, Who Was Who in Egyptology, pp. 77-78.
21
R. B. PARKINSON, The Tale of The Eloquent Peasant, p. xi.
22
Henry Salt, cônsul de Inglaterra no Egipto, reuniu três importantes colecções de peças egípcias tendo como cola-
boradores nas investigações e recolha de antiguidades nesse país o grego de Lemnos, Giovanni Athanasi, e o ita-
liano Giovanni Belzoni. A maior parte das suas colecções encontram-se no Museu Britânico (1ª e 3ª colecções –
1083 peças a segunda) e no Museu do Louvre (2ª colecção – 4014 peças) (R. B. PARKINSON, The Tale of The
Eloquent Peasant, p. xxxiii; J. VERCOUTTER, À la recherche de l’Egypte oubliée, Paris, Gallimard, 1998, pp. 66-
67; R. W. DAWSON; E. P. UPHILL; M. L. BIERBRIER, Who Was Who, pp. 370-371).
23
J. VERCOUTTER, À la recherche de l’Egypte oubliée, pp. 69-75.
24
R. B. PARKINSON, The Tale of The Eloquent Peasant, p. xi.
25
Ibidem, p. xxi.
26
Ibidem, p. xxii.
27
G. LEFEBVRE, Romans et Contes Égyptiens de l’Époque Pharaonique, Paris, J. Maisonneuvre, 1988, p. 45 ; R. B.
PARKINSON, The Tale of The Eloquent Peasant, pp. xxv-xxviii.
28
A par com o conto mitológico do Império Novo, Hórus e Set (G. LEFEBVRE, Romans et Contes Égyptiens, p. 45).
29
Concordamos com Dakin que, depois de apelar a diversos exemplos de acepções possíveis, conclui que embora a
raiz da palavra seja «verdade», é um conceito tão complexo que não há nenhuma possibilidade de a reduzir a uma
só tradução (A. N. DAKIN, «Of the untranslatability of Maat and some questions about the Tale or The Eloquent
Peasant», em C. J. Eyre, (ed.), Procedings of the Seventh International Congress of Egyptologists, Leuven, 1998,
p. 297). Aliás, a própria grafia deste termo varia de autor para autor. No que respeita apenas à questão de se
escrever com maiúscula ou com minúscula, assumimos a ideia de conceito «compacto» e até uma certa dificulda-
de devido à distância temporal e à impossibilidade de afirmar quem terá surgido primeiro, se a noção abstracta se
a pessoa divina (J. NUNES CARREIRA, Filosofia Antes dos Gregos, Mem Martins, Publicações Europa-América,
1994, p. 74), mas apresentaremos o conceito como um substantivo comum, distinguindo-o da deusa Maat, que
surgirá como substantivo próprio.
30
J. ASSMANN, Maât, p. 36.
31
A divisão da história do Egipto Antigo em impérios, os períodos de estabilidade, intercalados por períodos inter-
mediários, épocas de grande instabilidade e anarquia, é uma divisão original egípcia e não dos modernos egiptó-
logos (M.-A. BONHÈME; A. FORGEAU, Pharaon. Les Secrets du Pouvoir, Paris, Armand Colin Éditeur, 1988, p.
43).
32
A partir do Império Novo a língua passou a ser o médio egípcio tradicional, actualmente considerado o egípcio
clássico.
33
Os ensinamentos são textos em que um orador se dirige a um interlocutor, normalmente o filho, transmitindo-lhe
conselhos e ensinando-lhe preceitos baseados na sua experiência de vida. É o único género para o qual se
conhece uma designação egípcia: sebait (sbAyt) – ensinamentos, instruções. É um termo que se forma a partir da

14
raiz seba (sbA), que significa também «a porta», «a estrela» e «ensinar», o que está de acordo com a ideia subja-
cente a estes textos, que deveriam ser actos pedagógicos que agiriam como portas que se abriam para o conhe-
cimento ou como estrelas que guiariam a vida daqueles a quem eram dirigidas. A literatura de ideias compreende
textos onde se debatem ideias ou expõem teses. Podem assumir diversas formas como cartas, diálogos, lamenta-
ções ou máximas. Na lírica os textos celebram os prazeres terrenos, por vezes vividos com tanta intensidade que
a demonstração de tão grande apego à vida e às suas delícias é também sintoma de cepticismo nas crenças de
sobrevivência para além da morte. Agrupam poemas de amor e outros escritos como os cantos de harpista. Dos
textos ideológicos fazem parte a «propaganda» monárquica, hinos, bênçãos que passaram a ser considerados
obras literárias após lhes terem sido reconhecidas as suas excepcionais qualidades, alguns merecendo a atenção
de escribas que os copiavam em exercícios de cópia ou ditado, em alguns casos numerosas vezes, seduzidos
pelos seus atractivos literários, tornando-os assim verdadeiros clássicos da literatura egípcia (P. VERNUS, Chants
d'Amour de l'Égypte Antique, Paris, Imprimerie Nationale Éditions, 1992, pp. 13-14; R. O. FAULKNER, A Concise
Dictionary of Middle Egyptian, Oxford, Griffith Institute, Ashmolean Museum, 1996, p. 219).
34
Os textos que Lefebvre considera histórias romanceadas são A Aventura de Sinuhé e A Desventura de Uenamon.
Nos contos mitológicos inclui a Lenda do Deus do Mar (Astarté) e as Aventuras de Hórus e de Set, em que as per-
sonagens principais são deuses e se envolvem em aventuras e peripécias impossíveis de realizar pelos mortais;
nos contos anedóticos faz constar a Luta de Apopi e de Sekenenré, A Tomada de Joppe e a Princesa de Bakhtan
por se basearem não em acontecimentos históricos mas em pequenos acontecimentos anedóticos verificados em
determinadas épocas; nos contos filosóficos aparece Verdade e Mentira, uma alegoria em que o bem, a Verdade,
triunfa sobre o mal, a Mentira; nos contos psicológicos temos a primeira parte do Conto dos Dois Irmãos em que,
na presença do marido, uma mulher calunia um jovem por quem está apaixonada; nos contos maravilhosos inclui
a segunda parte do referido conto, e ainda O Náufrago, os contos do Papiro Westcar, O Príncipe Predestinado e O
Pastor que viu uma deusa, contos onde a magia assume papel de destaque, criando ambientes em que o maravi-
lhoso é a pedra de toque que prende a atenção dos leitores e dos ouvintes. Refira-se, contudo, que o maravilhoso
não é exclusivo destes contos: ele é praticamente inseparável do conto egípcio. Com excepção dos contos-
moldura (onde, além do Conto do Camponês Eloquente, ainda se integra o Conto profético), de uma forma ou de
outra, mais ou menos vincadamente, todos os outros contos dos diferentes géneros têm a sua quota de maravilho-
so (G. LEFEBVRE, Romans et Contes Égyptiens, pp. VII-IX).
35
Ibidem, p. VII. W. K. SIMPSON inclui este conto na parte da sua obra intitulada «Narrativas e Contos da Literatura
do Médio Egipto», em The Literature of Ancient Egypt, New Haven - London, Yale University Press, 1973, p. 31; e
LICHTHEIM inclui-o na «Literatura Didáctica» do Império Médio, em Ancient Egyptian Literature. A Book of read-
ings. Vol. I - The Old and Middle Kingdoms, Berkeley / Los Angeles / London, University of California Press, 1975,
p. 169.
36
B. J. KEMP, «El Imperio Antiguo, el Imperio Medio y el Segundo Período Intermedio (c. 2686-1552 a.C.)», em B.
G. Trigger; B. J. Kemp; D. O'Connor; A. B. Lloyd, Historia del Egipto Antiguo, Barcelona, Crítica, 1997, p. 151.
37
J. ASSMANN, Maât, p. 35. Acrescente-se, no entanto, que há dois outros contos, ambos do Império Novo, particu-
larmente importantes para o estudo de Maat: Verdade e Mentira e Aventuras de Hórus e de Set (M. LICHTHEIM,
Maat in Egyptian Autobiographies and Related Studies, Fribourg / Göttingen, Biblical Institut of the University of
Fribourg, Fribourg, University Press Fribourg / Vandenhoeck & Ruprecht, OBO 120, 1992, p. 80).
38
R. B. PARKINSON, «Literary form and the Tale of the Eloquent Peasant» em JEA 78 (1992), London, Egyptian
Exploration Society, p. 166.
39
s pw wn Xw.n-inpw rn.f significa literalmente: «existia um (homem) cujo nome era ―aquele que Anúbis protegeu‖». É
a única vez que aparece expresso o nome do camponês, servindo esta ligação com Anúbis, divindade protectora
associada à morte e à necrópole, para moldar o seu carácter. Depois será sempre referenciado por «o campo-
nês». Este tipo de construção gramatical nas frases de predicado nominal ou pronominal, pronominal no caso ver-
tente (rn.f), surgiu com frequência no Império Médio para nomear pessoas. Neste conto aparecerá ainda nos casos
de Meret (R 1.2), Nemtinakht (R 6.5) e Iseri (R 6.6). Uma outra questão prende-se ao facto de alguns autores, ten-
do em conta a origem do camponês, o tratarem por «oasiano». Contudo, chamamos a atenção para o facto de a
palavra camponês ser cheti (sxty), um substantivo nisbé formado a partir do substantivo chet (sxt), que significa
campo. E disto não há dúvida porque é sempre bem visível nos papiros hieráticos o caracter G. M20 com que se
escreve a palavra camponês em egípcio antigo. Além do mais, as palavra oásis e pântano, de onde poderia deri-
var a ideia, têm vocábulos próprios, uhat (wHAt) e sech (sS), em nada semelhantes à palavra que se lê nos papiros.
(R. B. PARKINSON, The Tale of The Eloquent Peasant, p. 1; A. DE BUCK, Egyptian Readingbook, Chicago (Illi-
nois), Ares Publishers Inc., 1982, p. 88; A. GARDINER, Egyptian Grammar, Oxford, Griffith Institute, Ashmolean
Museum, 3ª ed., 1994, pp. 100-102 e 454-455; A. GARDINER, «The Eloquent Peasant» p. 7; G. LEFEBVRE, Ro-
mans et Contes Égyptiens, p. 47; M. LICHTHEIM, Ancient Egyptian Literature, I, p. 182; E. PERRY, A critical Study
of the Eloquent Peasant, p. 100; R. O. FAULKNER, A Concise Dictionary of Middle Egyptian, p. 219).
40
Neninesu [nni-nsw], «a criança real» — mais tarde Henennesu [Hwt-nni-nsw], «a casa da criança real», donde o
copta Hnès, depois o árabe Ehnás, nome da capital do 20º nomo do Alto Egipto, capital dos reis das IX e X dinastias.
Esta cidade (apelidada na época greco-romana de Heracleópolis Magna) faz hoje parte do markaz de Beni-Suef (G.
LEFEBVRE, Romans et Contes Égyptiens, p. 48; M. LICHTHEIM, Ancient Egyptian Literature, I, p. 183; R. B.

15
PARKINSON, The Tale of Sinuhe and Other Ancient Egyptian, p. 76).
41
G. LEFEBVRE, Romans et Contes Égyptiens, p. 44-45.
42
Ibidem, p. 43.
43
Ibidem, p. 42.
44
M. LICHTHEIM, Ancient Egyptian Literature, I, p. 169; E. PERRY, A critical Study of the Eloquent Peasant, p. 60.
45
R. B. PARKINSON, «Literary form and the Tale of the Eloquent Peasant», pp. 164-165.
46
A. GARDINER, Egyptian Grammar, pp. 344-345; G. LEFEBVRE, Grammaire de l’Égyptien Classique, Le Caire,
Imprimerie de l’Institut Français d’Archéologie Orientale, 2ª ed., 1955, pp. 145-147; J. P. ALLEN, Middle Egyptian.
An Introduction to the Language and Culture of Hieroglyphs, Cambridge, Cambridge University Press, 1ª ed., 2000,
pp. 301-303.
47
A. GARDINER, Egyptian Grammar, pp. 391-394; G. LEFEBVRE, Grammaire, pp. 164-166; J. P. ALLEN, Middle
Egyptian, p. 303.
48
A. GARDINER, Egyptian Grammar, p. 312; G. LEFEBVRE, Grammaire, pp. 208 e 306; J. P. ALLEN, Middle Egyp-
tian, p. 168.
49
Analisando diversas secções do Conto, Perry demonstra que a parte poética foi deliberadamente pensada recor-
rendo a vários expedientes como, por exemplo, repetições ou alternâncias de determinadas palavras ou constru-
ções gramaticais onde, por vezes, nos apercebemos de algumas cadências sonoras na pronunciação das pala-
vras, mostrando o seu autor um «verdadeiro talento literário», como se verifica através do seguinte exemplo de
nove linhas organizadas em três grupos:
B1 194 – m sbn imperativo negativo Não te desvies
B1 194 – irr.k Hmw sDm.f quando manobrares o leme.
B1 194-5 – Sdi Hr nfryt imperativo Puxa a corda do leme.
---
B1 195 – m iTi imperativo negativo Não agarres
B1 195 – irr.k r iTw sDm.f quando agires como um ladrão.
B1 196 – n wr is pw wr im awn-ib negativa + substantivo 1 + Não é certamente um grande,
+ is + pw + subst. 2 o grande que é ganancioso.
---
B1 196-7 – tx pw ns.k subst. 1 + pw + subst. 2 A tua língua é o pêndulo,
B1 197 – dbn pw ib.k subst. 1 + pw + subst. 2 o teu coração os pesos,
B1 197-8 – rmnw.f pw spwty.ky subst. 1 + pw + subst. 2 os teus lábios são os seus
braços [comparação com a
balança].
(E. PERRY, A critical Study of the Eloquent Peasant, pp. 48-60, 329-331).
50
Lichtheim apresenta-nos a sua versão do Conto segundo uma organização mista de prosa e de poesia; Parkinson
apresenta-o totalmente numa estrutura poética; e Lefebvre somente numa estrutura em prosa (M. LICHTHEIM,
Ancient Egyptian Literature, I, pp. 169-182; B. R. PARKINSON, The Tale of Sinuhe and Other Ancient Egytian, pp.
58-75; G. LEFEBVRE, Romans et Contes Égyptiens, pp. 47-69).
51
G. FECHT, «Bauerngeschichte» in LÄ I (recto) (1975), Wiesbaden, Otto Harrassowitz, col. 640.
52
M. G. MOKHTAR, Ihnâsya El-Medina (Herakleopolis Magna). Its importance and its role in pharaonic history, Le
Caire, Institut Français d’Archéologie Orientale du Caire, 1983, p. 121.
53
Assmann inclui os diferentes tipos de discursos egípcios sobre maat na literatura sapiencial, que subdivide em
ensinamentos e lamentações. Os primeiros eram pensados e escritos em função de uma determinada pessoa,
dizendo respeito a pessoas individuais a quem se augurava uma vida em conformidade com maat; os segundos
eram colectivos, referindo-se a toda a sociedade que dependia de maat. É neste segundo grupo que integra o
Conto do Camponês Eloquente que, entre outros nomes, é também conhecido por Lamentações do Camponês (J.
ASSMANN, Maât, p. 35-36).

DEU 19 PÁGINAS NA REVISTA CADMO (Nº 14)

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