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Leon Trotski

Inicialmente próximo dos mencheviques e em seguida bolchevique. Como Comissário de


Guerra dirigiu o Exército Vermelho à vitória na guerra civil russa e sobre a invasão
imperialista da Russa Soviética. Ajudou a criar e dirigiu a Oposição de Esquerda a Stalin.
Desenvolveu a teoria da Revolução Permanente e fundou a 4ª Internacional.

Questões do Modo de Vida


A época do “militantismo cultural” e as suas tarefas
1923

Escrito em: 1923.


Fonte: Titulo Original: Les questions du mode de vie, Léon Trotsky. Lisboa: Edições Antídoto,
edição: n°44 1° edição: Maio 1979.
Tradução: A. Castro.
Transcrição: Rogério Freitas; Anibal Brito; Adnelson Araujo; Otávio Aranha e Emerson Monte
membros do GETROTSKY- Grupo de Estudos Trotsky.
Direitos de Reprodução: © Edições Antídoto. Gentilmente cedidos pela Associação Política
Socialista Revolucionária.

Índice
Introdução
Prefácio da segunda edição
Prefácio da primeira edição
O homem não vive a não ser de política (vide nota)
O jornal e o seu leitor
A atenção deve incidir sobre os detalhes
Para construir o modo de vida é preciso conhecê-lo
A Vodka, a igreja e o cinema
Da Antiga à Nova família
A família e os ritos
As atenções e a delicadeza como condições necessárias para relações harmoniosas
É preciso lutar por uma linguagem depurada

Anexo
Perguntas e respostas sobre o modo de vida operário (Não consta neste documento)

Nota: Na edição impressa existe uma divergência no nome desse capítulo: a) no índice: "O homem
não vive a não ser de política"; b) no capítulo: "O homem não vive só de política" - mantivemos no
sítio os dois títulos.
Introdução

Quando em 1923 são publicadas As questões do modo de vida, Trotsky é


ainda comissário do povo para o exército e a marinha, é ainda o segundo
personagem da vida política da Rússia dos sovietes. Quem ignore o que é a
situação da Rússia nessa época, pode admirar-se de ver Trotsky dispender tempo
com questões na aparência secundárias: comportamento humano na sociedade,
alcoolismo, relações familiares, emancipação das mulheres, correcção da
linguagem cotidiana, etc. Explicam alguns a atenção que Trotsky dispensou às
―pequenas coisas‖ pelos traços do seu caráter: exactidão e meticulosidade; mas
estas explicações não vão até ao fundo da questão. Se em 1923 Trotsky considera
necessário por o acento nestes problemas é porque a situação na Rússia pós-
capitalista dos primeiros anos da N.E.P. (Nova Política Economica) conferiu a estes
problemas caráter essencial.

A N.E.P., ou Nova Economia Política, foi adoptada pelo X° Congresso do


partido (8-16 de Março de 1921). Surge na sequência do chamado período do
―comunismo de guerra‖, caracterizado além do mais pelo afundamento quase total
das forças produtivas, pela política de requisições forçadas nos campos para
permitir a sobrevivência nas cidades, pelo total desaparecimento do sector
privado, pequenas ou grandes fábricas, por efeito da fuga dos antigos
proprietários. Esta situação conduz à colectivização, com frequência não desejada,
de todos os sectores da economia russa. A N.E.P. põe fim à política das
requisições. Autoriza a reconstituição do sector privado na indústria e no
comércio. Encara a criação de sociedades de economia mista, associando capitais
privados estrangeiros a capitais do Estado. Os primeiros resultados desta nova
política são positivos. A agricultura desenvolve-se e atinge rapidamente uma
produção igual a dois terços da de antes da guerra. As cidades, que grande parte
da população tinha abandonado para se refugiar nos campos, começam a
renascer. Pela primeira vez após a revolução a produção tende a aumentar. A
melhoria das condições de vida torna-se real.

Mas a N.E.P. – economicamente inevitável nas condições que eram as de 1921


– está, ao mesmo tempo, cheia de ameaças para a revolução. Permite o desigual
enriquecimento dos camponeses, chegando rapidamente à constituição de uma
categoria de camponeses ricos, os "kulaks" (Burguesia rural, que utilizava

sistemáticamente em suas fazendas o trabalho assalariado.), cujos domínios se vão


alargando, e que empregam cada vez mais camponeses pobres, ou ―Biedniaks‖,
como operários assalariados. Nas cidades, assiste-se a uma verdadeira mutação
no seio da classe operária. Os quadros operários do antigo partido bolchevique
tinham sido dizimados pela guerra civil. O esgotamento físico, as doenças, as
missões e os cargos longínquos dispensaram e reduziram esse primeiro núcleo de
revolucionários proletários. Constituiu-se uma nova classe operária. Esta, saída do
campesinato pobre e desprovida de toda a tradição política proletária, mostra-se
por isso particularmente sensível á influência da nova burguesia engendrada pela
N.E.P., que rapidamente se apresentará aos olhos das massas como um modelo
de ―modo de vida‖ totalmente estranho aos ideais revolucionário. Este modo de
vida, com o seu luxo gritante e o seu gosto pelo lucro terá um papel
profundamente desmoralizador em todas as camadas sociais desfavorecidas da
Rússia dos sovietes e particularmente na classe operária urbana em contacto com
os novos burgueses, que são os "Nepmen" (Empreendedor privado, comerciante,
especulador do primeiro período da Nova Política Economica) , e com os antigos quadros
administrativos e técnicos que houve que voltar a utilizar por ter faltado o tempo
para formar outros novos.

No plano estritamente econômico, a N.E.P. também não foi um sucesso total.


A indústria ligeira, na qual os ―privados‖ investiram de preferência a fazê-lo na
industria pesada por os lucros serem naquela mais rápidos, progride mais
depressa em detrimento desta última que, no essencial, se manteve como sector
do Estado. A alta dos preços dos produtos da indústria ligeira torna-os inacessíveis
à grande massa dos camponeses. É a chamada crise ―das tesouras‖. Depois de se
terem alinhado, os preços industriais e os preços agrícolas passam a afastar-se.
Esta crise reforça por um lado os fenômenos de autarquia local nos campos; incita
as indústrias do Estado, ou ―indústrias vermelhas‖, a diminuir as suas despesas e
a aumentar a sua produtividade, tendo como efeito imediato a estagnação dos
salários e o crescimento do desemprego. O desequilíbrio entre os salários e os
preços torna-se cada vez mais gritante.
Há que ter também em conta a situação internacional. Em 1923, existe na
Alemanha uma situação revolucionária explosiva, mas, no fim desse ano, a
revolução alemã está esmagada, enquanto que a revolução búlgara de Setembro
de 1923 termina em catástrofe. Estes acontecimentos dão-se no seguimento da
liquidação da República dos Sovietes na Hungria, em Agosto de 1919, do revés da
greve geral italiana m Agosto de 1922 e da subida de Mussolini ao poder em
Outubro de 1922. A revolução russa encontra-se isolada no plano internacional.
No plano interno, tem que defrontar-se com um perigo que Lenine tinha
pressentido logo após Outubro: o ascenso da burocracia. É esse mesmo perigo
que Trotsky denunciará na sua carta de 8 de Outubro de 1923 ao Comitê Central,
na qual escreve:

―A burocratização do aparelho do partido desenvolveu-se em incríveis


proporções pelo emprego do método de selecção (dos quadros) pelo
secretariado. Criou-se uma larga camada de militantes, com entrada
no aparelho governamental do partido, que renunciacompletamente às
suas próprias opiniões de partido ou, pelo menos, à sua aberta
expressão, como se a hierarquia burocrática fosse o aparelho que cria
a opinião do partido e as suas decisões‖.

Esta mesma idéia será retomada e expressa a 15 de Outubro de 1923 por


uma grupo de 46 militantes, certos dos quais dos mais eminentes dirigentes do
partido e veteranos da guerra civil. Essa será a ―Carta dos Quarenta e Seis‖, na
qual será dito:

―O regime que foi posto em vigor no partido é absolutamente


intolerável. Mata toda a iniciativa no partido, submete-o a um
aparelho de funcionários permanente que inegavelmente funciona em
período normal mas que inevitavelmente se arrasta em período de
crise e ameaça ir para a bancarrota total em face dos sérios
acontecimentos que se preparam‖.

É este aparelho que esmagará a oposição, levando em 23-26 de Outubro de


1926 à exclusão de Trotsky do ―bureau‖ político, à adopção da ―teoria estalinista
de construção do socialismo num só país‘‖ e à construção do Estado soviético por
métodos burocráticos e autoritários, que Trotsky e os ―Quarenta e Seis‖ tinham
denunciado. É em relação a todo este contexto, que apenas podemos esboçar nas
linhas que precedem, que se deve ler As questões do modo de vida.

A revolta de Kronstadt tinha sido esmagada enquanto se desenrolava o X


Congresso que ia decidir da instauração da N.E.P. Nesse mesmo ano de 1921, o
país conhecia diversas insurreições. Com freqüência, como em Kronstadt, há
comunistas ao lado dos insurrectos, que, na maioria, ou são camponeses ou são
operários recentemente vindos do campo. Já vimos que a guerra civil, as doenças,
as diversas tarefas revolucionárias, tinham dizimado a classe operária inicial,
aquela que tinha feito Outubro. A vanguarda russa sofreu igualmente o efeito do
esgotamento da vaga revolucionária européia do pós-guerra. A Internacional
Comunista levou aliás isso em conta ao modificar a sua táctica durante o seu III
Congresso (22 de Junho/12 de Julho de 1921), ao, decidir empreender, antes de
qualquer nova acção revolucionária de envergadura, a conquista da classe
operária internacional.

Também a classe operária russa, saída das mutações pós-revolucionárias,


deve – como aliás as insurreições de Kronstadt e outras o mostraram – ser
conquistada para as idéias da revolução. As greves ―selvagens‖ dos anos 21 e 22
puseram em evidência o baixo nível de consciência das massas russas privadas da
sua vanguarda revolucionária. É preciso, segundo Trotsky empreender com
urgência uma acção em produndidade, uma acção cultural no mais amplo sentido
do termo, inseparável da acção de educação proletária, para chegar a uma
tomada de consciência pelas massas dos objectivos da revolução, a uma
transformação dessa consciência, extirpando dela todos os aspectos negativos
herdados do regima pré-revolucionário. Esta acção, que será oficialmente
designada na Rússia por Pérestroika Byta, ou Reconstrução do modo de vida,
constitui o objectivo principal de Trotsky ao escrever As questões do modo de
vida. Face a influência desagregadora da N.E.P., a criação de um ―homem novo‖ é
uma questão urgente. Face ao ascenso da burocracia, é preciso poder opor-lhe o
mais rapidamente possível já não uma massa amorfa e incapaz de tomar em mãos
os seus próprios assuntos mas um novo proletariado consciente dos seus
interesses como classe. Face ao peso dos hábitos e das tradições nos quais os
inimigos da revolução se apóiam: religião, alcoolismo, subordinação das mulheres,
é preciso desenvolver nas massas outros valores, propor-lhes outras idéias. É
preciso, enfim, tomar consciência de que a construção a longo prazo de uma
sociedade exige, para a erguer fora dos métodos burocráticos e autoritários, uma
larga participação das massas, passando pelo que então se chamava na Rússia
uma ―revolução cultural‖, da qual a Reconstrução do modo de vida era um dos
instrumentos. Ao escrever os artigos que constituem As questões do modo de
vida, Trotsky opunha ao esquema estalinista de construção do socialismo, uma
outra via. Para ele como para todos os marxistas, não bastava começar por criar
em primeiro lugar industria pesada, seguida de uma industria ligeira, assentar as
bases econômicas, para que automaticamente e de qualquer modo surjam as
superestruturas ideológicas. É esta versão do socialismo que Estaline defenderá
nas Questões do Leninismo.

Para Trotsky, é ao mesmo tempo que devem ser edificadas as bases


econômicas e as relações sociais inseparáveis do novo modo de produção.

Esta vontade de agir, simultaneamente, sobre as bases econômicas e sobre as


relações de produção, logo sobre o modo de vida, é característica do período pré-
estalinista, do período dos anos 20. Os escritores, poetas e artistas reagrupados
no seio do L.E.F. (Frente de Esquerda da Arte, definem o ―byt‖ (o modo de vida)
como sua ―nova frente‖. Aos seus olhos, a arte deve tornar-se um instrumento de
transformação social, incitando à prática de novas relações sociais. Para eles, ao
contrário daqueles que lhes sucederão durante o período do ―realismo socialista‖
estalino-idanovista, não se trata de representar, por exemplo, uma sociedade
ideal liberta de todo o conflito e povoado por heróis do trabalho, por mães-
heroínas, por famílias sem problemas, por brigadas de elite, seguindo com
entusiasmo e sem discutir as directivas do representante infalível do Partido.
Trata-se de utilizar a literatura, a poesia, a arte, o desenho, a arquitetura, para
agir directamente sobre o comportamento humano e o transformar.

Essas preocupações são em particular evidentes no domínio do habitat. Se a


arquitetura, o urbanismo, a implantação territorial dos estabelecimentos humanos
do passado dão a imagem da sociedade abatida e reflectem as antigas relações
sociais, então uma nova arquitetura e um novo urbanismo à escala de todo o
território devem ser imaginados de modo a permitir a expansão das novas
relações sociais, a ajudar à sua transformação, prefigurando o futuro. Mais tarde,
pelo fim dos anos 20, já quando demasiado tarde, dirigentes políticos como You
Larine, economistas como L. Sabsovitch, sociólogos como M. Okhitovitch e
arquitectos como M. La. Guinzburg, irão propor formas concretas de uma nova
implantação socialista da humanidade à escola de todo o território. Tentarão
definir o que Sabsovitch chamará o ―novo modo de vida socialista‖, baseado na
coletivização de funções até então delineadas no seio da célula familiar, facilitando
a libertação das mulheres das penosas obrigações domésticas e favorecendo
também largas permutas e contactos sociais. Para isso, partirão das primeiras
experiências sobre o tema ―viver diferentemente‖ realizadas no seio das massas
no princípio dos anos 20 e que Trotsky descreve no capítulo intitulado "Da antiga à
nova família".

É acerca dessas primeiras experiências de vida colectiva que Trotsky disse que
deviam constituir os ―germens da vida nova‖. (Rostki novi jyzni). É também a
partir dessas primeiras experiências que os arquitectos e os urbanistas imaginarão
mais tarde as ―casas comunais‖ e os esquemas descentralizados de um novo
habitat socialista. Trotsky demonstrou que e essa ―vida nova‖, que é objecto
fundamental do socialismo, só pode ser edificada tendo em conta a relação
dialéctica que existe entre o desenvolvimento das forças produtivas e aquilo que
chama a ―esfera da moral‖. (Capítulo: Hábitos e Costumes).

As novas relações de produção e as novas relações entre os homens e entre


os sexos, que constituem o fundamentos das verdadeiras ―experiências sociais‖
realizadas durante os anos 20, ilustram um aspecto mal conhecido mas essencial
da ditadura do proletariado, não apenas como ―conceito‖ mas como prática social
viva que toca todos os aspectos da vida quotidiana das massas. É através do
alargamento e generalização dessas experiências que se podia esperar atingir
novas formas de funcionamento democrático da sociedade, com as próprias
massas a ocuparem-se dos seus problemas ao nível da fábrica, da exploração
agrícola, da ―escola comum‖, do bairro, da região. Estariam então melhor
preparados para se oporem vitoriosamente às

―poderosas forças que desviam o Estado soviético do seu caminho


(...e que) emanam dum aparelho que nos é fundamentalmente
estranho e que representa uma mescla de sobrevivências burguesas e
tzaristas ―coberta apenas de um verniz soviético‖ que (14) mergulha o
país na opressão‖. (Lenine, Obras Completas, tomo 36, PP. 620-623).

A ―reconstituição do modo de vida‖, se não tivesse sido bloqueada logo após o


seu início, teria podido constituir uma arma eficaz na luta contra a burocracia
estalinista. Foi para evitar essa catástrofe, que já se perfilava no horizonte, que
Trotsky publicou em 1923 As questões do modo de vida.

Na nossa época fala-se muito, em certos grupos e em certas publicações, de


―mudar de vida‖ e de ―viver diferentemente‖ desde já. Aqueles que preferem fugir
da sociedade e combatê-la, que se afastam para ―viver diferentemente‖ em
efêmeras comunidades constituídas em quintas ou aldeias abandonadas e que por
vezes acreditam situar-se na linha da ―reconstrução do modo de vida‖ soviético,
hão-de compreender, sem lerem As questões do modo de vida, que nada
conseguem. Verão que, para Trotsky, a ―Vida Nova‖ é inseparável da
transformação das relações de produção e, portanto, do próprio modo de
produção num processo dialéctico global. É precisamente nessa necessária relação
dialéctica que se situa a actualidade das idéias avançadas por Trotsky em As
questões do modo de vida perante certas concepções contemporâneas que opõem
o carro à frente dos bois.

Toda uma geração poderá hoje pensar que é só a partir de Maio de 68 que
certas correntes do movimento operário reflectiram sobre os problemas da vida
quotidiana: relações ócio/trabalho, condição feminina, família, gestão pelas
massas dos equipamentos colectivos, habitações de novo tipo, urbanismo e
quadro de vida. Poderá crer que só no fim de toda uma série de etapas: eleições,
Programa comum, democracia ―avançada‖, conducentes a um socialismo
indefinido, é que essas questões, conquanto essenciais, poderão ser abordadas.
Em As questões do modo de vida, Trotsky mostra que, na Rússia, foi logo no dia
imediato ao ato da Revolução que foram encaradas, apesar da miséria material e
da impreparação cultura, sob a forma de autênticas ―experiências sociais‖. Os
textos que apresentamos a seguir, que são inéditos, foram escritos há cerca de 50
anos. Seria absurdo buscar neles receitas acabadas para o futuro. A situação da
França e hoje poucas relações tem com a da Rússia de antes de 1917, quer se
trate do modo de vida ou de outros aspectos. Sabe-se hoje que se a libertação das
mulheres passa pela sua libertação econômica, essa é decerto uma medida
necessária mas não suficiente. Também os problemas da família, da habitação,
etc., se apresentam hoje em termos diferentes daqueles em que Trotsky os
colocava em 1923. Contudo, as abordagens por ele desenvolvidas podem ainda
permitir evitar certo número de erros, alguns dos quais já foram cometidos e
outros podem sê-lo ainda. E é essencial lembrar hoje que após a revolução e a
tomada do poder pela classe operária, sem deixar de encarar as etapas ligadas às
possibilidades materiais e culturais, o poder soviético pôs na ordem do dia não
apenas a elevação decalcada do modelo burguês, não apenas a colectivização dos
meios de produção e de troca mas o que então se chamava ―reconstrução do
modo de vida‖ inclusivamente nos seu detalhes aparentemente mais
insignificantes e mais íntimos.

***
Estes textos foram traduzidos por Joelle Aubert-Yong com base na 2ª edição
das Questões do modo de vida, publicada em Moscovo em 1923 pelas edições do
Estado (Gosizdat). Em 15 de Janeiro de 1925 Trotsky demitia-se das suas funções
de comissário do povo para o exército e a marinha; em 23-26 de Outubro de 1928
seria excluído do bureau político; em 15 de Novembro de 1927 seria excluído do
partido; em 16 de Janeiro de 1928 seria deportado para Alma-Ata; seria expulso
da URSS em 10 de Fevereiro de 1929 e assassinado em Coyoacan (México) em 20
de Agosto de 1940.

Anatole Kopp

Prefácio da segunda edição

Esta segunda edição, em relação à primeira, apresenta-se consideravelmente


aumentada: em parte por artigos que directamente se relacionam com as
questões do modo de vida, e principalmente por artigos muito recentes. Expresso
aqui o meu reconhecimento aos camaradas que responderam ao meu apelo
quando lhes pedi que me enviassem as suas observações, as suas propostas e
outros materiais sobre o tema do modo de vida. Estou longe de ter utilizado todos
esses materiais. Mas o trabalho não está terminado. E, de resto, não pode deixar
de ter um carácter colectivo, de amplitude cada vez maior.

Algumas cabeças iluminadas tentam, tanto quanto sei, opor as tarefas


relativas à cultura do modo de vida às tarefas revolucionárias. Semelhante
abordagem não pode deixar de ser definida como um grosseiro erro político e
teórico. Num artigo sobre a cultura proletária (Pravda, n° 207), escrevemos:

―Qualquer que seja a importância e a necessidade vital do nosso


militantismo cultural, este está ainda colocado por inteiro sob o signo
da revolução cultural e mundial. Tal como antes, somos soldados em
campanha. Trata-se do nosso dia de folga. Que é preciso utilizar para
lavar a roupa, cortar e pentear o cabelo e, antes de mais, limpar e
olear a própria baioneta. O nosso trabalho cultural resume-se
unicamente a por um pouco de ordem nos nossos assuntos, entre
duas campanhas. Os combates mais importantes estão ainda por vir;
estão talvez mesmo já próximos. A nossa época não é ainda a da nova
cultura; não passa da sua antecâmara‖.

Quanto mais o nosso trabalho econômico e cultural atinja um caracter


sistemático e prático, mais poderemos resolver com êxito as importantes tarefas
que se nos apresentam. A segunda vaga não será em nenhum caso uma simples
repetição da primeira, mas exigirá de nós, em todos os domínios, uma preparação
e uma qualificação incomparavelmente superiores. Impor-se-à então antes de
mais uma compreensão mais profunda, por parte das massas trabalhadoras, das
perspectivas construtivas que só a revolução mundial triunfante pode totalmente
oferecer-nos em toda a sua amplitude. 9 de Setembro de 1923

Prefácio da primeira edição

Para melhor se compreender o livro, é preciso contar a sua história em duas


palavras. Pareceu-me que faltava na biblioteca do partido uma pequena brochura
que, sob a forma mais popular, mostrasse ao operário e ao camponês médio o elo
que une certos factores e certos fenômenos da nossa época de transição, e que,
apontando para uma justa perspectiva, serviria de arma para a educação
comunista. Para comprovar esta idéia, dirigi-me ao secretário do comitê de
Moscovo, camarada Zelensky, e pedi-lhe que reunisse uma pequena assembléia
de agitadores, durante a qual seria possível permutar os nossos pontos de vista
acerca dos meios e dos métodos literários da nossa propaganda.

A reunião ultrapassou de imediato os limites do projecto inicial. Os problemas


relativos à família e ao modo de vida apaixonaram todos os participantes. No
decurso das três sessões que em conjunto duraram dez a doze horas, pode-se,
quando não resolver, pelo menos aflorar e em parte aclarar os diferentes aspectos
da vida operária numa época de transição, bem como os nossos meios de acção
sobre o modo de vida operário.

Entre a primeira e a segunda sessão e sob proposta dos participantes,


formulei de forma escrita perguntas às quais alguns responderam também por
escrito; por outro lado, algumas dessas respostas foram o resultado de pequenas
assembléias ao nível de bairro. As nossas conversações com os agitadores do
comitê de Moscovo foram estenografadas. São esses estenogramas e esses
inquéritos que constituem a base da presente obra. Esse material é, por certo,
extremamente insuficiente. Além disso, depressa foi preciso refazê-lo. Mas o meu
objectivo não consistia em esclarecer sob todos os ângulos o modo de vida
operário, a sua evolução e os meios de agir sobre eles, mas fundamentalmente
em apresentar o problema do modo de vida operário como objecto digno dum
estudo atento.

O pequeno livro que aqui se submete ao leitor não é de modo nenhum a


brochura popular cuja idéia foi o ponto de partida deste trabalho. Procurarei ainda
redigir essa brochura, caso as circunstâncias m‘o permitam. A presente obra
destina-se em primeiro lugar aos membros do Partido, aos dirigentes sindicais,
das cooperativas e dos organismos culturais.

Em anexo encontram-se os extractos mais interessantes e mais importantes


dos questionários e dos estenogramas da nossa reunião. O leitor fará talvez bem
começando por ler esse anexo. Evitará assim certas dificuldades de compreensão
que poderiam resultar do facto de que, para economizar tempo e espaço, omiti
certas citações e certas chamadas.

L. Trotsky
4 de Julho de 1923

I - O Homem Não Vive Só de "Política"

Esta idéia muito simples, é preciso que a compreendamos duma vez por todas
e que nunca a esqueçamos na nossa propaganda oral ou escrita. Cada época tem
a sua divisa. A história pré-revolucionária do nosso partido foi uma história de
política revolucionária. A literatura de partido, as organizações de partido tudo se
encontrava submetido à palavra de ordem de "política" no sentido mais estreito do
termo. A revolução e a guerra civil aumentaram ainda mais a acuidade e a
intensidade das tarefas dos interesses políticos. Durante esse período, o partido
reuniu nas suas fileiras os elementos politicamente mais ativos da classe operária.
No entanto, as conclusões políticas fundamentais desses anos são claras para a
classe operária no seu conjunto. A repetição mecânica dessas conclusões nada lhe
trará de novo; antes poderá desvanecer na sua consciência as lições do passado.
Após a tomada do poder e a sua consolidação em seguida à guerra civil, as nossas
tarefas fundamentais deslocaram-se para o domínio da construção econômica e
cultural, tornaram-se mais complexas, parcelaram-se, adquiriram um caráter mais
detalhado e, ao que parece, mais "prosaico". Mas, ao mesmo tempo, as nossas
lutas anteriores, com o seu cortejo de esforços e de sacrifícios, não encontrarão
justificação senão na medida em quê consigamos enunciar corretamente e
resolver as tarefas particulares, do dia a dia, aquelas que dependem do
"militantismo cultural".
Com efeito, o que é que a classe operária exatamente ganhou, o que é que
obteve no decurso das suas anteriores lutas?

1. A ditadura do proletariado (por intermédio de um Estado


operário e camponês dirigido pelo partido comunista).
2. O Exército Vermelho, como apoio material da ditadura do
proletariado.
3. A nacionalização dos principais meios de produção sem a qual a
ditadura do proletariado seria uma forma vazia, sem conteúdo.
4. O monopólio do comércio externo, condição necessária da
construção socialista perante um envolvimento capitalista.

Estes quatro elementos, cuja conquista é definitiva, constituem a armadura de aço


de todo o nosso trabalho. Graças a isso, graças a essa armadura, cada um dos
nossos êxitos no domínio econômico ou cultural - quando êxito real e não
imaginário - tornou-se necessariamente um elemento constitutivo da construção
socialista.

Em que consiste hoje a nossa tarefa, que devemos nós aprender em primeiro
lugar, em que sentido devemos tender?

Precisamos aprender a bem trabalhar - com precisão, com limpeza, com


economia. Temos necessidade de desenvolver a cultura do trabalho, a cultura da
vida, a cultura do modo de vida. Após uma longa preparação e graças à alavanca
da insurreição armada, derrubamos a supremacia dos exploradores. Mas não
existe alavanca que possa de um só golpe elevar a cultura. Um lento processo de
auto-educação da classe operária e paralelamente do campesinato, é aqui
necessário. O camarada Lênin, num artigo sobre a cooperação, evoca essa
mudança de direção da nossa atenção, dos nossos esforços, dos nossos métodos:

"... Somos forçados - diz ele - a reconhecer uma transformação radical do


nosso ponto de vista sobre o socialismo. Essa transformação radical
provém de que outrora nós colocávamos, e devíamos colocar, o centro de
gravidade da nossa atividade no combate político, na revolução, na
conquista do poder, etc.. Hoje, esse centro de gravidade variou a tal
ponto que se deslocou para um trabalho organizacional, pacífico, cultural.
Estaria pronto a dizer que, para nós, o centro de gravidade se deslocou
para o militantismo cultural, se não existissem nem as relações
internacionais nem a obrigação de defender a nossa situação à escala
internacional. Mas se nos abstrairmos disso e nos limitarmos às relações
econômicas internas, então hoje o centro de gravidade reduz-se
(1)
efetivamente ao "militantismo cultural" ."

Assim, só o problema da nossa situação internacional nos desvia do


militantismo cultural, e isso apenas em parte como em seguida veremos. O fator
principal da nossa situação internacional é a defesa nacional, isto é, o Exército
Vermelho. Ora, nesse domínio fundamental, as nossas tarefas relacionam-se ainda
uma vez mais, em nove décimos, com o militantismo cultural; elevar o nível do
exército, levar a bom termo a sua completa alfabetização, ensinar-lhe a utilizar os
guias, os livros e as cartas, habituá-lo ao asseio, à exatidão, à pontualidade, à
observação. Não há remédio milagroso que permita resolver imediatamente esses
problemas. No fim da guerra civil, quando abordávamos uma nova fase da nossa
atividade, a tentativa de criar uma "doutrina militar proletária" foi a expressão
mais clara e a mais gritante da incompreensão das tarefas da nova época. Os
orgulhosos projetos que visam criar uma "cultura proletária" em laboratório,
procedem da mesma incompreensão. Nesta busca da pedra filosofal, o nosso
desespero perante o nosso atraso une-se a uma crença no milagre, que é ela
própria um sinal desse atraso. Mas não temos nenhuma razão de desesperar e é
mais do que tempo de nos libertarmos dessa crença nos milagres, dessas práticas
pueris de curandeiros, do gênero "cultura proletária" ou doutrina militar proletária.
Para robustecer a ditadura do proletariado é necessário desenvolver um
militantismo cultural quotidiano, o único a garantir um conteúdo socialista para as
conquistas fundamentais da revolução. Quem não tenha compreendido isso,
representa um papel reacionário na evolução do pensamento e do trabalho do
partido.

Quando o camarada Lênin afirma que as nossas tarefas de hoje não são tanto
políticas como culturais, é necessário entendermo-nos sobre a terminologia a fim
de não interpretar erradamente o seu pensamento. Num certo sentido, a política
domina tudo. O conselho do camarada Lênin de transferir a nossa atenção do
domínio político para o domínio cultural, é um conselho político. Quando um
partido operário, em tal ou tal país, decide que é necessário num dado momento
colocarem em primeiro plano as exigências econômicas e não as políticas, essa
decisão tem um caráter "político". É perfeitamente evidente que a palavra
"política", é utilizada aqui em dois sentidos diferentes: em primeiro lugar num
sentido largo, materialista-dialético, englobando o conjunto das idéias diretivas,
dos métodos e dos sistemas que orientam a atividade da coletividade em todos os
domínios da vida social; em segundo lugar, num sentido estreito, especializado,
caracterizando uma certa parte da atividade social, intimamente ligada à luta pelo
poder e oposta ao trabalho econômico, social, etc.. Quando o camarada Lênin
escreve que a política é economia concentrada, encara a política no sentido largo,
filosófico. Quando o camarada Lênin diz: "um pouco menos de política, um pouco
mais de economia", encara a política no sentido estreito e especializado do termo.
As duas acepções são igualmente válidas visto que legitimadas pelo uso. Importa
apenas compreender bem do que se fala em cada um dos casos.

A organização comunista é um partido político no sentido amplo, histórico, ou,


se prefere, filosófico do termo. Os outros partidos atuais são políticos unicamente
no sentido em que fazem (pequena) política. Se o nosso partido transfere a sua
ação para o domínio cultural, isso de modo nenhum significa que enfraqueça o seu
papel político. Historicamente, o papel dirigente (isto é, político) do partido,
manifesta-se precisamente nessa deslocação lógica da sua atenção para o domínio
cultural. Só após longos anos de atividade socialista, conduzida com êxito no
interior e garantida no exterior, é que o partido poderá libertar-se pouco a pouco
(2)
da sua carapaça "partisan" para se confundir com a comunidade socialista. Mas
isso está ainda tão longe que se torna inútil antecipar sobre o futuro... No
imediato, o partido deve conservar totalmente as suas características
fundamentais: coesão ideológica, centralização, disciplina, e, correlativamente,
combatividade. Mas precisamente essas inestimáveis qualidades de "espírito de
partido" comunista não podem manter-se e desenvolver-se se não se satisfazem
as exigências e as necessidades econômicas e culturais de forma mais completa,
mais hábil, mais exata e mais minuciosa. Em conformidade com essas tarefas, que
devem desempenhar hoje um papel preponderante na nossa política, o partido
reagrupa, distribui as suas forças e educa a jovem geração. Por outras palavras, a
grande política exige que na base do trabalho de agitação, de propaganda, de
repartição de forças, de instrução e de educação, sejam hoje colocadas tarefas e
exigências econômicas e culturais e não exigências "políticas" no sentido estreito
do termo.

***

A poderosa unidade social que representa o proletariado surge em toda a sua


amplitude nas épocas de luta revolucionária intensa. Mas no interior dessa
unidade, observamos ao mesmo tempo uma incrível diversidade e mesmo uma
grande heterogeneidade. Do pastor obscuro e inculto ao maquinista altamente
especializado escalona-se toda uma variedade de qualificações, de níveis culturais,
de hábitos de vida. Cada camada social, cada oficina de empresa, cada grupo, é
constituído por indivíduos de idade e caráter diferentes, de passado diversificado.
Se não existisse essa diversidade, o trabalho do partido comunista no domínio da
educação e da unificação do proletariado seria de todo simples. Mas, pelo
contrário, o exemplo da Europa prova-nos quanto esse trabalho é na realidade
difícil. Pode dizer-se que quanto mais a história de um país, e portanto a própria
história da própria classe operária, é rica, mais reminiscências, tradições e hábitos
nela se encontram; quanto mais os grupos sociais nela são antigos, mais difícil é
realizar a unidade da classe operária. O nosso proletariado quase não tem história
nem tradições. Isso facilitou sem dúvida a sua preparação para a Revolução de
Outubro. Mas, em contrapartida, isso torna mais difícil a sua construção após
Outubro. O nosso operário (com exceção da camada superior) ignora
inclusivamente os hábitos culturais mais elementares (desconhece, por exemplo, o
asseio e a exatidão, não sabe ler nem escrever, etc.). O operário europeu adquiriu
pouco a pouco esses hábitos no quadro do regime burguês: é por isso - vê-se nas
camadas superiores - que está tão fortemente ligado a esse regime, com a sua
democracia, a sua liberdade de imprensa e outros bens do mesmo gênero. Entre
nós, um regime burguês tardio quase nada deu ao operário; foi justamente por
isso que, na Rússia, o proletariado pôde romper e derrubar mais facilmente a
burguesia. Mas é também pela mesma razão que o nosso proletariado, na sua
maioria, é obrigado a adquirir hoje, isto é, no quadro de um governo socialista
operário, os mais simples hábitos culturais. A história nada dá gratuitamente: se
faz um desconto numa coisa, sobre política, vai recuperá-lo por outro lado, sobre
a cultura. Quanto mais fácil foi (relativamente, entenda-se) ao proletariado russo
fazer a revolução, tanto mais lhe será difícil realizar a construção socialista. Mas,
em compensação, a armadura da nossa nova sociedade, forjada pela revolução e
caracterizada pelos quatro elementos fundamentais citados no princípio deste
capítulo, imprime um caráter objetivamente socialista a todos os esforços
conscientes e nacionais no domínio da economia e da cultura. O operário, em
regime burguês, sem o querer e sem mesmo o saber, enriquece a burguesia e
enriquece-a tanto mais quanto melhor trabalha. No Estado soviético, o operário
consciencioso, mesmo sem nisso pensar nem com tal se preocupar (se é sem-
partido e apolítico) realiza um trabalho socialista, aumenta os meios da classe
operária. Está aí precisamente todo o sentido da Revolução de Outubro, que a
N.E.P. em nada modificou.

Existe um enorme número de operários sem partido, profundamente


dedicados à produção, à técnica, à máquina. Deve falar-se com reserva do seu
"apolitismo", isto é, da sua ausência de interesse pela política. Nos momentos
difíceis e importantes da revolução estiveram ao nosso lado. Na sua grande
maioria, Outubro não os assustou, não desertaram nem traíram. Quando da
guerra civil, numerosos dentre eles estiveram na frente e outros trabalharam para
equipar o exército. Depois regressaram ao trabalho pacífico. Chamou-se-lhes
apolíticos, e não sem fundamento, porque colocam o seu trabalho ou o seu
interesse familiar mais alto do que o interesse político, pelo menos durante os
períodos "calmos". Cada um deles quer tornar-se um bom operário, aperfeiçoar-
se, elevar-se a um nível superior, tanto para melhorar a situação da sua fábrica
como devido a um amor próprio profissional legítimo. Cada um deles, como já
dissemos, realiza um trabalho socialista mesmo que não tenha fixado isso como
objetivo. Mas o que nos interessa a nós, partido comunista, é que esses operários-
produtores tenham uma clara consciência da ligação existente entre a sua
particular produção quotidiana e os fins da construção socialista no seu conjunto.
Os interesses do socialismo estarão assim melhor garantidos e esses produtores
individuais retirarão disso uma satisfação moral bastante maior.

Mas como chegar a isso? É difícil sustentar com este tipo de operários
questões de política pura. Já escutou todos os discursos. Não se sente atraído pelo
partido. O seu pensamento só desperta quando está junto da sua máquina e, de
momento, aquilo que não o satisfaz é a ordem que existe na oficina, na fábrica, no
trust. Esses operários procuram ir tão longe quanto possível na sua reflexão; são
freqüentemente reservados; vê-se sair das suas fileiras os inventores autodidatas.
Não é de política que se lhes deve falar, não é pelo menos isso que os apaixonará
ao primeiro contato, más, em compensação, pode e deve falar-se-lhe de produção
e de técnica.

Um dos participantes na reunião dos agitadores moscovitas, o camarada


Koltsov (do bairro de Krasnáia Presnia) sublinhou a enorme falta de manuais, de
livros de estudo, de obras sobre especialidades técnicas ou outras profissões
particulares. Os velhos livros estão esgotados; aliás, alguns dentre eles
envelheceram no plano técnico, enquanto que no plano político estão geralmente
impregnados dum servil espírito capitalista. Quanto aos novos manuais, existe um
ou dois no máximo; é difícil encontrá-los porque foram editados em momentos
diferentes por empresas ou serviços diversos, fora de todo o plano geral. Não são
sempre tecnicamente válidos: são com freqüência demasiado teóricos e
acadêmicos; enquanto que, politicamente, estão em geral não referenciados, não
sendo no fundo mais do que a tradução de obras estrangeiras. Temos necessidade
de uma série de novos manuais de algibeira: para o serralheiro soviético, para o
torneiro soviético, para o eletricista soviético, etc.. Estes manuais devem adaptar-
se à nossa técnica e à nossa economia atuais, devem ter em conta a nossa
pobreza assim como as nossas imensas possibilidades, devem visar a desenvolver
na nossa indústria métodos e hábitos novos muito mais racionais. Devem ainda,
numa medida mais ou menos larga, evidenciar as perspectivas socialistas do
ponto de vista das necessidades e dos interesses da própria técnica (é aqui que se
localizam os problemas de normalização, de eletrificação, de economia
planificada). Em tais obras, as idéias e as conclusões socialistas devem integrar-se
na teoria prática de tal ou tal setor de atividade. De modo nenhum devem ter
caráter de agitação supérflua e inoportuna. É enorme a procura para essas
edições, devido à carência de operários qualificados, e ao desejo, por parte dos
próprios operários, de elevar a sua qualificação. Essa procura acentua-se pela
baixa de produtividade registrada no decurso da guerra civil e imperialista. Temos
aqui uma tarefa extremamente importante e útil a realizar.

Não se pode certamente ignorar quanto é difícil redigir esses manuais. Os


operários, mesmo os altamente qualificados, não sabem escrever livros. Os
escritores especializados que abordam certos problemas ignoram com freqüência
os seus aspectos práticos. Finalmente, entre estes, poucos há que possuam um
pensamento socialista. No entanto, este problema só pode encontrar uma solução
combinada e não "simples", isto é, rotineira. Para escrever um manual, é preciso
reunir um grupo de três pessoas (troika) formado por um escritor especialista,
tecnicamente informado, que conheça - ou que seja capaz de conhecer - o estado
do ramo correspondente da nossa produção, por um operário altamente
especializado nesse domínio, de espírito inventivo, e por um escritor marxista,
com formação política e com alguns conhecimentos no campo da técnica e no da
produção. Quer se utilize esta solução ou outras análogas, permanece a
necessidade de pôr em marcha uma biblioteca exemplar de obras técnicas
destinadas às oficinas, convenientemente encadernadas, de formato prático e
pouco dispendiosas. Semelhante biblioteca desempenharia um duplo papel:
favoreceria a elevação da qualificação do trabalho e por conseqüência o êxito da
construção socialista; ajudaria, ao mesmo tempo, a reunir um grupo de operários-
produtores extremamente válidos para a economia soviética no seu conjunto e,
portanto, para o partido comunista.

Sem dúvida que não se pode ter por limite único uma série de manuais de
estudo. Se nos detivemos de forma tão detalhada sobre esse particular problema
foi porque ele nos oferece, ao que parece, um exemplo bastante evidente da nova
abordagem ditada pelos problemas do período atual. A luta pela conquista
ideológica dos proletários "apolíticos" pode e deve ser conduzida por meios
diversificados. É preciso editar semanários ou mensários científicos e técnicos
especializados por sector de produção; é preciso criar sociedades científicas e
técnicas destinadas a esses operários. É com vista a eles que, numa boa metade,
deve orientar-se a nossa imprensa profissional se de fato não quer ser uma
imprensa destinada unicamente ao pessoal dos sindicatos. Mas o argumento
político mais convincente para os operários desse tipo consistirá em cada um dos
nossos êxitos práticos no domínio industrial, em cada organização real do trabalho
na fábrica ou na oficina, em cada esforço ponderado do partido nessa direção.

Pode formular-se da maneira seguinte o ponto de vista político do operário-


produtor que presentemente nos interessa e que raramente exprime as suas
idéias: "quanto à revolução e ao derrube da burguesia, nada há a opor, houve
razão em fazê-lo. Não temos necessidade da burguesia. Não temos também
necessidade dos representantes mencheviques ou outros. No que respeita à
"liberdade de imprensa?"- isso não é de tanta importância e não é esse o fundo do
problema. Mas como ides vós resolver o problema da economia? Vós, comunistas,
haveis tomado a direção dos negócios. Os vossos fins e os vossos planos são
válidos, sabemo-lo, é inútil repeti-lo, houvemo-los, estamos de acordo, damo-vos
o nosso apoio, mas, vejamos, como ides resolver praticamente esses problemas?
Até ao presente, não vale a pena escondê-lo, aconteceu-vos com freqüência pôr o
dedo onde não era devido. Sabemos que não se pode agir bem à primeira, que é
preciso aprender, que os erros são inevitáveis. Sempre assim sucede. E visto que
suportamos os crimes da burguesia, suportaremos tanto mais os erros da
revolução. Mas isso não durará eternamente. Entre vós, comunistas, existe gente
diferente entre si, como aliás também entre nós sucede, pobres pecadores: certos
há que estudam realmente, fazem conscienciosamente o seu trabalho, diligenciam
chegar a um resultado econômico prático, enquanto que outros se limitam à
pantominice. E os pantomineiros são muito prejudiciais, porque o trabalho se lhes
escapa por entre os dedos ...". Este tipo de operário, eis o que ele é: torneiro,
serralheiro ou fundidor zeloso, hábil e atento ao seu trabalho; não é entusiasta, é
antes politicamente passivo, mas reflete, tem espírito crítico; é por vezes um
pouco cético, mas mantém-se sempre fiel à sua classe; é um proletário de valor. É
em direção a este tipo de operários que o partido deve atualmente dirigir os seus
esforços. O nosso grau de implantação nessa camada social - na economia, na
produção, na técnica - será o índice mais seguro dos nossos êxitos em matéria de
militantismo cultural, encarado no seu sentido mais amplo, no sentido leninista do
termo.

Dirigir os nossos esforços para o operário consciencioso, de modo nenhum


contradiz, claro está, a tarefa primordial do partido que consiste em enquadrar a
jovem geração do proletariado, porque esta jovem geração se desenvolve em
condições precisas; forma-se, fortalece-se e endurece-se resolvendo determinados
problemas. A jovem geração deve, antes de mais, ser uma geração de operários
especializados, altamente qualificados, amantes do seu trabalho. Deve adquirir
consciência de que a sua produção serve ao mesmo tempo o socialismo. A atenção
dispensada à aprendizagem, o desejo de adquirir uma alta qualificação,
aumentará, aos olhos da juventude, a autoridade dos "velhos" operários, que,
como já se disse, permanecem na maioria fora do partido. Ao mesmo tempo que
dirigimos os nossos esforços para o operário consciencioso e hábil, devemos
também aplicar-nos em educar a juventude proletária. Sem isso, seria impossível
seguir em frente, rumo ao socialismo.

Notas:

(1) É útil lembrar aqui a definição do "militantismo cultural" que dou nos meus "Pensamentos
sobre o Partido":
"Ao nível da sua realização política, a revolução parece ter-se "dispersado"#8221 em tarefas
particulares: é preciso reparar as pontes, ensinar a ler e a escrever, baixar o preço de custo da
fabricação das botas nas fábricas soviéticas, lutar contra a imundície, prender os escroques, levar a
eletricidade aos campos, etc. Alguns grosseiros intelectuais de espírito invertido (é decerto a razão
pela qual se consideram poetas e filósofos), falaram já da revolução com grandiosa
condescendência. Aprende-se, dizem eles, a vender (como é patusco) e a coser os botões (deixai-
nos rir). Mas deixemos esses tagarelas palrar no vazio. Realizar um trabalho puramente prático e
quotidiano no domínio da economia e da cultura soviéticas - mesmo no do comércio de retalho - de
modo nenhum significa ocupar-se de "coisas mínimas" e não implica necessariamente mentalidade
mesquinha. Coisas mínimas sem grandes coisas é o que mais abunda na vida humana. Mas em
história não se fazem nunca grandes coisas sem pequenas coisas. Mais exatamente: as pequenas
coisas, numa grande época, quando integradas numa grande obra, deixam de ser "pequenas
coisas".
Entre nós, trata-se da construção da classe operária, que, pela primeira vez, constrói para si e
segundo o seu próprio plano. Esse plano histórico, ainda extremamente imperfeito e confuso, deve
englobar no seu conjunto criativo único todos os elementos, mesmo os mais insignificantes, da
atividade humana.
Todas as tarefas menores e isoladas - até ao comércio soviético de retalho - são parte integrante
da classe operária dominante que procura ultrapassar a sua fraqueza econômica e cultural.
A construção socialista é uma construção planificada de grande envergadura. Através do fluxo e
refluxo, dos erros e das viragens, dos meandros da N.E.P., o partido persegue o seu plano, ensina
a cada um a ligar a sua atividade particular à obra geral, que exige hoje que se cosam os botões
com cuidado e que amanhã pedirá que se morra corajosamente sob a bandeira do comunismo.
Devemos exigir, e exigimos, da parte da nossa juventude, uma especialização superior e
aprofundada; deverá pois se libertar do principal defeito da nossa geração, que blasona de tudo
conhecer e de tudo saber fazer; mas tratar-se-á de uma especialização ao serviço do plano geral,
pensado e aceite por cada um em particular.

(2) Em russo: "partijnost".


II - O jornal e seu leitor

O aumento numérico do partido bem como o desenvolvimento da sua


influência sobre os sem-partido, por um lado, e a nova etapa da revolução que
hoje abordamos, por outro, explica que o partido se defronta, ao mesmo tempo,
com problemas novos mas também com antigos problemas que aparecem sob
nova forma, inclusive no domínio da agitação e da propaganda. Precisa-se
reexaminar muito atentamente os instrumentos e os meios da nossa propaganda.
Serão eles suficientes em volume, isto é, abarcarão todos os problemas que é
preciso esclarecer? Terão tomado uma expressão adequada, acessível ao leitor e
capaz de o interessar?

Este problema entre outros foi examinado pelos vinte e cinco agitadores e
propagandistas moscovitas reunidos em assembléia. Os seus pontos de vista, as
suas opiniões, as suas apreciações, foram estenografadas. Espero que poderei em
breve editar todo esse material. Os nossos camaradas jornalistas encontrarão aí
um grande número de amargas censuras, e devo confessar que, na minha opinião,
a maior parte delas são justificadas. A questão da organização da nossa agitação
escrita, e em primeiro lugar da nossa agitação jornalística, é demasiado
importante para que se deixe em silencio seja o que for. É preciso falar
francamente.

Há um provérbio que diz: ―É o uniforme que faz o general ...‖. É preciso pois
começar pela técnica jornalística. Esta é por certo melhor do que em 1919-1920,
mas mostra-se ainda extremamente defeituosa. Devido à falta de cuidado na
paginação e ao excesso de tinta, o leitor cultivado, e com mais razão aquele que o
não é, terá dificuldade em ler o jornal. Os jornais de grande tiragem destinados às
largas massas operárias, como o ―Moscovo trabalhador‖ ou ―Gazeta operária‖, são
extremamente mal impressos. A diferença de um exemplar para outro é muito
grande: umas vezes, quase todo o jornal é lisível, outras vezes não se
compreende quase metade. É por isso que a compra dum jornal se assemelha a
uma lotaria. Tomo ao acaso um dos últimos números da ―Gazeta operária‖.
Examino o ―canto das crianças‖: ―O conto do gato inteligente ...‖. Impossível lê-lo,
de tal modo a impressão é defeituosa; e isso destina-se a crianças! É preciso dizer
francamente: a nossa técnica em matéria de jornais é a nossa vergonha. Apesar
de nossa pobreza, apesar de nossa imensa necessidade de instrução, pagamos
com freqüência o luxo de sujar a quarta parte quando não mesmo a metade duma
folha de jornal. Um tal ―farrapo‖ não pode deixar de irritar o leitor; um leitor
pouco informado cansa-se disso, um leitor cultivado e exigente range os dentes e
despreza abertamente aqueles que assim troçam dele. Porque existe exactamente
alguém que escreve esses artigos, alguém que os pagina, alguém que os imprime,
e no fim de contas o leitor, não obstante todos os seus esforços não consegue
decifrar metade. Que vergonha e que infâmia! Quando do último congresso do
partido, dedicou-se atenção particular ao problema da tipografia. E põe-se a
questão: até quando vamos nós suportar tudo isto?

―É o uniforme que faz o general ...‖. Vimos já que uma impressão defeituosa
impede por vezes que se penetre no espírito de um artigo. Mas falta ainda saber
proceder a disposição do material, à paginação, às correcções, que são entre nós
particularmente mal feitas. Não é raro encontrar erros de impressão e enormes
gralhas, não só nos jornais mas também nas revistas científicas, em especial na
revista ―Sob a bandeira do marxismo‖. Leão Tolstoi disse um dia que os livros
eram um instrumento para difundir a ignorância. Esta afirmação de grande senhor
desdenhoso é, sem dúvida, totalmente enganosa. Mas, infelizmente, justifica-se
em parte... se se considera as correcções de que carece a nossa imprensa. E isso
também não se pode continuar a suportar! Se a imprensa não dispõe dos quadros
necessários, de correctores-revisores cultivados que conheçam o seu trabalho,
será então necessário aperfeiçoar no conjunto os quadros existentes. É preciso
dar-lhes cursos de apoio bem como cursos de instrução política. Um corrector
deve compreender o texto que corrige, caso contrário não será um corrector mas
um involuntário propagador da ignorância; a imprensa, diga o que disser Tolstoi,
é, e deve ser, um instrumento de educação.

Observemos agora um pouco mais de perto o conteúdo do jornal.

Um jornal serve antes de mais de elo de ligação entre os indivíduos; dá-lhes a


conhecer o que se passa e aonde. O que dá alma a um jornal é uma informação
actual, abundante e interessante. Nos nossos dias, o telégrafo e a rádio
desempenham um papel muito importante na informação jornalística. É por isso
que o leitor habituado a um jornal e familiarizado com a sua leitura se precipita
antes de mais sobre a rubrica dos ―comunicadores‖. Mas para que os telegramas
ocupem o primeiro lugar num jornal soviético é necessário que apresentem factos
importantes e de interesse sob uma forma compreensível para a massa dos
leitores. Não é isso, porém, o que sucede. Nos nossos jornais, os comunicadores
são compostos e impressos por uma forma semelhante à da ―grande‖ imprensa
burguesa. Quando se segue quotidianamente os comunicados de certos jornais,
tem-se a impressão que os camaradas que se ocupam dessa rubrica, ao
paginarem os novos telegramas, já esqueceram de todo o que tinham publicado
na véspera. O seu trabalho não apresenta em absoluto nenhuma sequência lógica.
Cada telegrama assemelha-se a um estilhaço que ali caiu por acaso. As
explicações que se lhe referem têm um caráter fortuito e frequentemente
irreflectido. Quando muito, ao lado do nome de tal ou tal político burguês
estrangeiro, o redactor da rubrica limita-se a mencionar entre parêntesis: ―lib.‖ ou
―cons.‖. O que significa: liberal ou conservador. Mas como três quartas partes dos
leitores não compreendem essas abreviaturas, tais esclarecimentos apenas podem
confundi-los ainda mais. Os comunicadores que, por exemplo, nos informam do
que se passa na Bulgária ou na Roménia, passam habitualmente por Viena,
Berlim, Varsóvia. Os nomes destas cidades, citados no início do telegrama,
confundem totalmente a massa de leitores, completamente ignaros em geografia.
Por que cito eu estes detalhes? Sempre pela mesma razão: porque mostram,
melhor do que tudo, a que ponto dedicamos pouca atenção à preparação dos
nossos jornais, à situação do leitor pouco advertido, às suas necessidades, às suas
dificuldades. A forma como se apresentam os telegramas num jornal operário é o
que há de mais difícil, o que requer maior responsabilidade. Exige um trabalho
atento e minucioso. É preciso reflectir sobre todos os aspectos de um comunicado
importante e dar-lhe uma forma tal que corresponda imediatamente ao que a
massa dos leitores saiba já mais ou menos bem. É preciso reagrupar os
telegramas antes de os fazer preceder das necessárias explicações. De que serve
um título destacado, de duas, três ou mais linhas, se não faz mais do que repetir o
que diz o comunicado? Com freqüência, tais títulos apenas servem para confundir
o leitor. É freqüente apresentar uma greve sem importância com este título: ―Aí
está‖ ou ―Em breve o desfecho‖, enquanto que o próprio telegrama menciona
apenas um vago movimento dos ferroviários, sem mencionar nem a sua causa
nem os seus fins. No dia seguinte, nem uma palavra sobre o acontecimento;
mesmo silêncio no dia seguinte. Quando o leitor lê de novo um comunicado
intitulado ―Aí está‖, pensa que se trata de um trabalho pouco sério, duma
especulação jornalística, e o seu interesse pelos comunicados e pelo próprio jornal
diminui. Se, pelo contrário, o redactor da rubrica dos telegramas se lembra do que
publicou na véspera e na ante-véspera, e se ele próprio procura compreender o
que liga os acontecimentos e os factos entre si a fim de os explicar ao leitor, a
informação, mesmo quando imperfeita, adquire desde logo um imenso valor
educativo. No espírito do leitor essas informações ordenam-se pouco a pouco com
crescente solidez. Torna-se-lhe cada vez mais fácil compreender os factos novos e
aprende a procurar e encontrar num jornal as informações importantes. Deste
modo, o leitor dá um passo enorme no caminho da cultura. É indispensável que as
relações concentrem todos os seus esforços na informação telegráfica, é
indispensável que consigam dar a essa rubrica a composição devida. Só na medida
em que os próprios jornais fazem pressão e dão o exemplo, é que se poderá
educar progressivamente os correspondentes da agência Rosta(1).

Uma vez por semana, com preferência evidente pelo domingo, ou seja, o dia
em que o operário está livre, dever-se-ia fazer um balanço dos factos mais
significativos. Diga-se, a propósito, que um tal trabalho seria um maravilhoso
meio de educar os responsáveis das diversas rubricas. Aprenderiam assim a
investigar mais cuidadosamente o que liga entre si os diversos acontecimentos,
com reflexos benéficos sobre a redacção quotidiana de cada rubrica.

É impossível compreender as notícias do estrangeiro sem possuir certos


conhecimentos geográficos elementares. As vagas cartas que os jornais
reproduzem por vezes, mesmo no caso em que são lisíveis, não ajudam muito os
leitores que ignoram como se dispõem os diversos países do mundo, como se
repartem os diversos Estados. A questão das cartas geográficas representa, na
nossa situação, isto é, em vista do envolvimento capitalista e do ascenso da
revolução mundial, um importante problema de educação social. Onde quer que se
organizem conferências ou reuniões, ou pelo menos nos locais mais importantes, é
necessário dispor de cartas geográficas especiais com as fronteiras entre Estados
bem delimitadas e das quais constem certos elementos de desenvolvimento
econômico e político desses Estados. Seria talvez bom, como durante a guerra
civil, afixar esse gênero de cartas esquemáticas em certas ruas e locais. Não seria
difícil proceder assim. No ano passado, foram espalhadas bandeirolas com incrível
profusão, sob qualquer pretexto. Não teria sido melhor utilizar esses meios para
dotar as fábricas, as oficinas e depois as aldeias de cartas geográficas? Cada
conferencista, cada orador, cada agitador, etc., ao evocar a Inglaterra e as suas
colônias, pode imediatamente situá-las na carta. Mostraria da mesma forma aonde
se encontra o Ruhr. Será o orador quem, antes de mais, disso tirará proveito:
saberá mais clara e mais precisamente acerca do que fala visto dever verificar
antecipadamente aonde se encontra tal ou tal país, tal ou tal Estado. E os
auditores, se a questão lhes interessa, não deixarão de se recordar do que lhes foi
mostrado, não talvez pela primeira vez mas pela quinta ou décima vez. E a partir
desse momento, quando as palavras ―Ruhr‖, ―Londres‖ ou ―Índia‖ deixarem de
mostrar-se vazias de sentido, o leitor lerá os comunicados de forma totalmente
diferente. Sentirá prazer em ler no jornal a palavra ―Índia‖, uma vez que saiba
aonde se encontra esse país. Sentir-se-à mais cultivado e ter-se-à tornado de
facto mais culto. Deste modo, as cartas geográficas claras e expressivas tornam-
se um elemento fundamental da educação política de todos. O Gosizdat (2) devia
ocupar-se seriamente deste problema.

Mas voltemos ao jornal. Os defeitos que assinalamos a propósito das ―notícias


do estrangeiro‖ repetem-se na informação ―sobre o país‖ em parte no que respeita
à actividade das empresas, das cooperativas soviéticas, etc. Esta atitude
negligente e desenvolta em relação ao leitor observa-se com freqüência nos
―pequenos nadas‖ que bastam para tudo estragar. As empresas soviéticas são
mencionadas por abreviações; são, por vezes, designadas unicamente pelas suas
iniciais (a primeira letra de cada palavra). Tal permite que na própria empresa ou
nas que lhe estão próximas se faça economia de tempo e papel. Mas a grande
massa dos leitores não pode decifrar essas abreviações convencionais. Por outro
lado, os nossos jornalistas, cronistas e repórteres jogam com um amontoado de
siglas incompreensíveis, como palhaços com os seus balões. Por exemplo, relata-
se uma discussão com determinado camarada, presidente da ―S.A.M.‖. Esta sigla é
utilizada dezenas de vezes ao longo de todo o artigo. É preciso ser-se um
burocrata informado para compreender que se trata do Serviço de Administração
Municipal(3). A massa dos leitores nunca decifrará esta abreviatura e, irritada, porá
de parte o artigo e talvez todo o jornal. Os nossos jornalistas devem compenetrar-
se de que as abreviaturas e as siglas só são válidas na medida em que se tornem
imediatamente compreensíveis; quando apenas servem para confundir os
espíritos, é criminoso e estúpido utilizá-las.

Um jornal, como já dissemos, deve antes de mais informar correctamente.


Não poderá ser um instrumento de educação se a informação não for correcta,
interessante e judiciosamente exposta. Um dado acontecimento deve primeiro que
tudo ser apresentado de forma clara e inteligível: deve precisar aonde o facto se
passa e como se passa. Consideramos com freqüência que os próprios
acontecimentos e factos são conhecidos do leitor, ou que ele os compreende por
uma simples alusão, ou ainda que não têm nenhuma importância e que o fim do
jornal é, pretensamente, discorrer ―a propósito‖ de tal ou tal facto (que o leitor
ignora ou não compreende) sobre muitas coisas edificantes de que há muito se
está saturado. É isso o que com freqüência sucede porque o autor do artigo ou da
pequena notícia não sabe sempre do que fala e, para ser franco, porque é
demasiado preguiçoso para se informar, para ler, para usar o telefone
comprovando as suas informações. Evita pois o lado vivo do assunto e relata, ―a
propósito‖ de qualquer facto, que a burguesia é a burguesia e o proletariado é o
proletariado. Caros colegas jornalistas, o leitor suplica-vos que evitem dar-lhes
lições, fazer-lhes sermões, dirigir-lhes apóstrofes ou ser agressivos, mas antes
que lhe descrevam e expliquem clara e inteligivelmente o que se passou, aonde e
como se passou. As lições e as exortações ressaltarão por si mesmas.

O escritor, e em particular o jornalista, não deve partir do seu ponto de vista


mas sim do do leitor. Trata-se de uma distinção muito importante, que se reflecte
na estrutura de cada artigo em particular e na do jornal em conjunto. No primeiro
caso, o escritor (inábil e pouco consciente do seu trabalho) apresenta
simplesmente ao leitor a sua própria pessoa, os seus próprios pontos de vista, os
seus pensamentos e até, com freqüência, as suas frases. No outro caso, o escritor
que encara a sua tarefa com rigor, leva o leitor a por si próprio tirar as conclusões
necessárias, utilizando para isso a experiência quotidiana das massas.
Esclareçamos esta idéia utilizando um exemplo citado quando da reunião dos
agitadores de Moscovo. Este ano, como se sabe, uma violenta epidemia de
malária devastou o país. Enquanto que as antigas epidemias – tifo, coleta, etc. –
diminuíram claramente nos últimos tempos (atingindo mesmo uma taxa inferior à
de antes da guerra), a malária desenvolveu-se em proporções inauditas. Atinge as
cidades, os bairros, as fábricas, etc., as suas aparições súbitas, o seu fluxo e
refluxo, a periodicidade (regularidade) dos seus acessos, fazem com que a malária
actue não só sobre a saúde mas também sobre a imaginação. Fala-se e reflecte-se
sobre ela, oferecendo terreno propício tanto às superstições como à propaganda
científica. Mas o interesse que manifesta a nossa imprensa é ainda insuficiente. No
entanto, cada artigo sobre a malária suscita, como relataram os camaradas de
Moscovo, o maior interesse: o número do jornal passa de mão em mão, o artigo é
lido em voz alta. É de toda a evidência que a nossa imprensa, sem se limitar à
propaganda sanitária do comissariado para a saúde pública, deve empreender
sobre o seu tema um importante trabalho. É preciso começar por descrever o
próprio desenvolvimento da epidemia, precisar as regiões em que se expande,
enumerar as fábricas e oficinas mais particularmente atingidas. Isso estabelecerá
já uma ligação viva com as massas mais atrasadas, mostrando-lhes que se
conhecemos, que nos interessamos por elas, que não são esquecidas. Depois, é
preciso explicar a malária de um ponto de vista científico e social, mostrar com
dezenas de exemplos que se desenvolve em condições de vida e de produção
particulares, dar todo o destaque às medidas tomadas pelos organismos
governamentais, dispensar os conselhos necessários, e repeti-los com insistência
em cada número, etc.. Neste terreno, pode e deve-se desenvolver a propaganda
contra os preconceitos religiosos. Se as epidemias, como em geral todas as
doenças, representam um castigo dos pecados cometidos, porque então se
propagam mais nos lugares húmidos do nos lugares secos? Uma carta do
desenvolvimento da malária acompanhadas das explicações práticas necessárias,
é um notável instrumento de propaganda anti-religiosa. O seu impacto será tanto
mais importante quanto o problema afecta ao mesmo tempo e muito
intensamente amplos grupos de trabalhadores.

Um jornal não tem direito de não se interessar pelo que interesse às massas,
à multidão operária. Certamente que todo o jornal pode e deve dar a sua
interpretação dos factos visto que é chamado a educar, desenvolver e elevar o
nível cultural. Mas não atingirá esse objectivo, salvo se se apoiar nos factos e nos
pensamentos que interessem à massa dos leitores.
É indubitável que, por exemplo, os processos e o que se chama os ―faits
divers‖: desgraças, suicídios, crimes, dramas passionais, etc., sensibilizam
grandemente largas camadas da população. E isso por uma razão muito simples:
são exemplos expressivos da vida que se faz. Contudo, regra geral, a nossa
imprensa apenas concede muito pouca atenção a esses factos, limitando-se no
melhor dos casos a algumas linhas em pequenos caracteres. Resultado: as massas
colhem as suas informações, com freqüência mal interpretadas, de fontes menos
qualificadas. Um drama de família, um suicídio, um crime, uma sentença severa,
impressionam e impressionarão a imaginação. O ―processo de Komarov‖ eclipsou
mesmo durante um certo tempo o ―caso Curzon‖ (4) – escrevem os camaradas
Lagutine e Kasanski, da manufactura de tabaco ―Estrela Vermelha‖. A nossa
imprensa deve manifestar o maior interesse pelos ―faits divers‖: deve comentá-los
e esclarecê-los, deve fornecer deles uma explicação que, ao mesmo tempo, tenha
em conta a psicologia, a situação social e o modo de vida. Dezenas ou centenas de
artigos repetindo lugares comuns sobre o emburguesamento da burguesia e sobre
a estupidez dos pequenos burgueses não terão maior influência sobre o leitor do
que um importuno chuvisco de outono. Mas o processo dum drama familiar bem
descrito e ordenado no decurso duma série de artigos pode interessar milhares de
leitores, despertar-lhes pensamentos e sentimentos novos, descobrir-lhes um
horizonte mais vasto. Após o que alguns leitores solicitarão talvez um artigo geral
sobre o tema da família. A imprensa burguesa de sensação tira enorme partido
dos crimes e dos envenenamentos, jogando cm a curiosidade doentia e com o
mais vis dos instintos do homem em geral. Isso seria da mais pura hipocrisia.
Somos o partido das massas. Somos um Estado revolucionário e não uma
confraria espiritual ou um convento. Os nossos jornais devem satisfazer não só a
curiosidade mais nobre mas também a curiosidade natural; precisa-se apenas que
elevem e melhorem o nível dessa curiosidade, apresentando e esclarecendo os
factos de forma adequada. Os artigos e as pequenas notícias desse gênero têm
sempre e em toda a parte um grande sucesso. Ora, não se vêem quase nunca na
imprensa soviética. Dir-se-à que faltam para esse tema os necessários
especialistas literários. Isso porém só em parte é verdade.

Quando um problema é clara e judiciosamente exposto, encontra-se sempre


quem seja capaz de o resolver. É preciso antes de mais encaminhar a atenção
geral para uma séria viragem. E em que sentido? No sentido do leitor vivo, tal
qual é, do leitor de massa, despertado pela revolução mas ainda pouco letrado,
ávido de conhecer mas completamente carente, e que continua sendo um homem
a quem nada de humano é estranho. O leitor tem necessidade de que se lhe
manifeste interesse, ainda que nem sempre saiba exprimir esse desejo. Mas os
vinte e cinco agitadores e propagandistas do comitê de Moscovo souberam muito
bem falar por ele.

***
Nem todos os jovens escritores propagandistas sabem escrever de modo a ser
compreendidos. Talvez porque não tiveram que rasgar caminho através da dura
carapaça do obscurantismo e da ignorância. Dedicaram-se à literatura de agitação
numa época em que, nas largas camadas da população, um conjunto de idéias, de
palavras e de tendências tinham já largo curso. Um perigo ameaça o partido: ver-
se cortado das massas sem partido, o que se deve ao hermetismo do conteúdo e
da forma da propaganda, à criação duma gíria política inacessível não só a nove
décimos dos camponeses mas também aos operários. A vida, porém, não pára um
único instante e as gerações sucedem-se.

Hoje, o destino da República soviética está a cargo, em grande parte,


daqueles que no momento da guerra imperialista e das revoluções de Março e de
Outubro tinham 15, 16 e 17 anos. Este ―impulso‖ da juventude far-se-á sentir
cada vez mais. Ninguém pode dirigir-se a essa juventude com as formular feitas,
as frases, as expressões e as palavras que para nós os ―velhos‖ tem um sentido,
porque decorrem da nossa anterior experiência, mas que, para ela, são vazios de
conteúdo. É preciso aprender a falar a sua linguagem, isto é, a linguagem da sua
experiência.

A luta contra o tzarismo, a revolução de 1905, a guerra imperialista e as duas


revoluções de 1917 são para nós experiências vividas, recordações, factos
significativos da nossa própria actividade. Falamos a seu respeito por alusões,
recordamos e complementamos em pensamento aquilo que não exprimimos. Mas
a juventude? Ela não compreende essas alusões porque não conhece os factos,
não os viveu e não pode tomar conhecimento deles nem através dos livros nem de
descrições objectivas que não existem. Aonde uma alusão é bastante para a velha
geração, para a juventude é necessário um manual. É tempo de editar uma série
de manuais e de obras de educação política revolucionária para uso da juventude.

Notas:

(1) ROSTA: Agência Telegráfica Russa; ancestral da agência TASS.

(2) Gosizdat: GOSudarstvenoje IZDAT‘stvo; Edições do Estado.

(3) Em russo: ―OKX‖ – Otd‘el Kommunal‘nogo Xoz‘ajstva.

(4) O caso Curzon: trata-se dos manejos anti-soviéticos do diplomara inglês G. N. Kurzon (1859-
1925) que foi um dos organizadores da intervenção contra a URSS; em 1919 enviou uma nota ao
governo soviético emprazando-o a cessar o avanço das tropas do Exército Vermelho segundo uma
linha chamada ―linha Curzon‖. Em 1923 enviou um ultimatum provocador ao governo soviético,
ameaçando-o com uma nova intervenção.

III - A atenção deve incidir sobre os detalhes(1)

Devemos repor de pé a nossa destruída economia. É preciso construir,


produzir, reparar, consertar. Gerimos a economia em bases novas, que devem
garantir o bem-estar de todos os trabalhadores. Mas a produção, na sua essência,
reduz-se à luta do homem contra as forças hostis da natureza, a utilização
racional das riquezas naturais. A política, os decretos e as consignas apenas
podem regularizar a actividade econômica imprimindo-lhe uma direção geral. Só
porém a produção de bens materiais e um trabalho sistemático e persistente
podem realmente satisfazer as necessidades do homem. O progresso econômico
do homem compõe-se de parcelas de elementos diversos, de detalhes e de
pequenos nadas. Não se pode repor de pé uma economia sem dedicar enorme
atenção aos detalhes. Ora, entre nós, esse interesse é nulo ou quase nulo. A
tarefa principal da educação e da auto-educação no domínio da economia é a de
despertar, desenvolver e reforçar essa atenção perante as exigências particulares,
insignificantes e quotidianas da economia; nada se deve negligenciar tudo se deve
anotar, agir em tempo oportuno e exigir o mesmo dos outros. Esta tarefa impõe-
se-nos em todos os domínios da vida política e da construção econômica.

Vestir e calçar o exército, dado o estado atual da produção, não é um


problema simples. O abastecimento é com freqüência muito irregular. Por outro
lado, há no exército pouca preocupação em consertar e manter em bom estado o
calçado e o vestuário disponível. Quase nunca se engraxa o calçado. E quando se
pergunta porquê, ouvem-se as mais diversas respostas: ora é porque falta a
pomada, ora porque não foi distribuída a tempo, ou ainda porque o calçado é
castanho e a pomada é preta, etc. Mas a razão principal é que nem os soldados
nem os quadros do Exército Vermelho cuidam de suas coisas. Calçado não
engraxado, sobretudo quando encharcado, seca e só serve para deitar fora ao fim
de algumas semanas. E como não se consegue o seu suficiente fornecimento,
começa-se a produzi-lo de qualquer maneira. As botas estragam-se ainda mais
depressa. Está-se num círculo vicioso. E contudo há um meio para encontrar a
solução, que é um meio muito simples: é preciso que as botas sejam encebadas a
tempo, é preciso que os atacadores sejam apertados com cuidado, pois de
contrário perdem a aparência e deformam-se. Destruímos bom calçado americano
unicamente por não termos atacadores. É possível encontrá-los se se insiste um
pouco; e se não há atacadores é precisamente porque não se dispensa atenção
aos detalhes da vida quotidiana. Ora, são estes pequenos nadas que acabam por
constituir um todo.

Passa-se a mesma coisa, ou pior ainda, com as baionetas. É difícil fabricá-las,


mas fácil inutilizá-las. É preciso cada um cuidar de sua baioneta, limpá-la e oleá-
la. E isso exige atenção cuidada e permanente, torna necessária toda uma
aprendizagem, toda uma educação.

Estes pequenos nadas, que se acumulam e se combinam, acabam por


preservar ou... destruir qualquer coisa de importante. As pequenas degradações
dos caminhos quando não reparadas a tempo, avolumam-se e formam covas e
sulcos que tornam difícil a circulação, danificam os carros, as viaturas e os
caminhões, estragam os pneus. Um caminho em mau estado obriga a dispêndios
de dinheiro e de esforços dez vezes mais importantes do que seria necessário para
o reparar. E é também devido a pequenos nadas deste gênero que as máquinas,
as fábricas e os edifícios se deterioram. Para manter umas e outros em bom
estado é preciso dedicar atenção quotidiana e permanente a vários detalhes. Essa
atenção falta-nos, porque a educação econômica e cultural é insuficiente.

É freqüente confundir-se o interesse dedicado aos detalhes com o


burocratismo. Há nisso um erro grave. O burocratismo consiste em dedicar
atenção a uma forma vazia em detrimento do conteúdo, em detrimento da acção.
O burocratismo enreda-se no formalismo, nos pecadilhos, sem resolver nenhum
detalhe prático. O burocratismo, pelo contrário, evita em geral os detalhes
práticos que constituem o conjunto dum problema, contentando-se unicamente
em fazer a articulação da papelada.

Pedir que não se cuspa para o chão ou que não se lancem pontas de cigarros
nas escadas ou corredores, é um ―pequeno nada‖, uma exigência mínima, mas
que no entanto tem um significado educativo e econômico enormes. Aquele que,
sem se constranger, cospe numa escada ou num assoalho, é um inútil e um
irresponsável. Não é com ele que se pode contar para repor a economia de pé.
Não cuidará de seu calçado, partirá as vidraças, por descuido, será portador de
parasitas...

Acharão alguns, repito-o, que uma obstinada atenção a este gênero de


detalhes procede da quesília e do ―burocratismo‖. Mas é muito freqüente que os
inúteis e os irresponsáveis escondam sua natureza lutando aparentemente contra
o burocratismo. ―Que complicação por causa duma simples ponta de cigarro
lançada na escada!‖ — dizem eles. Eis uma verdadeira inépcia. Lançar pontas de
cigarro para o chão e desdenhar do trabalho alheio. Ora, para que as casas-
comunas possam desenvolver-se, é preciso que cada locatário, homem ou mulher,
dispense atenção a que a limpeza e a ordem reinem em toda a casa. De contrário,
terão de encontrar-se, como frequentemente sucede, numa espécie de antro
piolhoso, cheio de escarros, e de modo nenhum numa casa-comuna. É preciso
combater incansável e impiedosamente essa desenvoltura, essa falta de educação,
essa negligência, combatê-la explicando, dando o exemplo, fazendo propaganda,
exortando as pessoas e levando-as a tornarem-se responsáveis. Aquele que, sem
comentários, sobe uma escada emporcalhada ou atravessa um pátio sujo, é um
mau cidadão e um construtor sem consciência.
O exército reflecte os aspectos positivos bem como os aspectos negativos da
vida popular. Isso verifica-se totalmente no que respeita è educação econômica. O
exército deve a todo o custo elevar-se nesse domínio, nem que seja de um só
grau. Esse nível pode ser atingido graças aos esforços conjugados dos quadros
dirigentes do próprio exército, de alto a baixo da escada, em correlação com os
melhores elementos da classe operária e do campesinato no seu conjunto.

Na época em que o aparelho governamental soviético estava em vias de se


formar, o exército mostrava-se impregnado de um espírito ―partisan‖(2) cujos
métodos aplicava. Conduzimos uma luta persistente e impiedosa contra essa
mentalidade, o que sem qualquer dúvida produziu importantes resultados: criou-
se não só um aparelho de direcção e de administração centralizado, mas o que é
ainda essencial, esse mesmo espírito ―partisan‖ foi profundamente posto em causa
na consciência dos trabalhadores.

Hoje devemos conduzir uma luta por igual importante: temos de combater
todas as formas de indolência, de indiferença, de falta de asseio. De falta de
pontualidade, de moleza e de desperdício. Trata-se de graus e matizes diversos de
uma mesma doença: por um lado, uma atenção insuficiente; por outro uma
petulância de mau quilate. É preciso conduzir neste domínio uma acção de
envergadura, um combate quotidiano, persistente e sem quebra, no qual se faça
intervir, tal como quando nos foi necessário destruir a mentalidade ―partisane‖,
todos os meios disponíveis — a agitação, o exemplo, a exortação e o castigo.

O plano mais grandioso que não leve em conta os detalhes, não passa de pura
frivolidade. Para que servirá, por exemplo, o melhor decreto, se, por negligência,
não chega a tempo ao seu destino, se é recopiado com erros ou se é lido sem
atenção? O que é justo a nível inferior, sê-lo-à também a nível superior.

Somos pobres, mas perdulários. Não conhecemos a pontualidade. Somos


negligentes. Somos carentes de asseio. Estas taras mergulham as suas raízes num
passado servil, e só poderemos libertar-nos delas progressivamente, graças a uma
propaganda obstinada, graças ao exemplo, à demonstração, a um controle
minucioso, a uma vigilância e a uma exigência de cada minuto.
Para realizar projectos grandiosos, é preciso dispensar grande atenção aos
mais pequenos detalhes!- é essa a palavra de ordem que deve congregar todos os
cidadãos conscientes do país quando abordam um novo período de construção e
de desenvolvimento cultural.

Notas:

(1) Este capítulo foi escrito há dois anos (Pravda: 1 de Outubro de 1921). Actualmente no exército
dispensa-se uma atenção infinitamente maior do que então à manutenção das baionetas e do
calçado. Mas, no conjunto, a palavra de ordem: ―a atenção deve incidir sobre os detalhes‖,
conserva ainda hoje todo o seu valor.

(2) Em russo: ―partizanssina‖: termo pejorativo designando os quadros do partido que querem ser
―mais partisans que o próprio partido‖, levando finalmente à anarquia e a ausência de disciplina.

IV - Para construir o modo de vida é preciso conhecê-lo

É o problema do modo de vida que nos mostra, mais claramente do que


qualquer outra coisa, em que medida um indivíduo isolado se mostra ser o objecto
dos acontecimentos e não o seu sujeito. O modo de vida, isto é, o meio ambiente
e os hábitos quotidianos, elabora-se, mais ainda do que a economia ‗nas costas
das pessoas‘ (expressão de Marx). A criação consciente no domínio do modo de
vida ocupou um lugar insignificante na história da humanidade. O modo de vida é
a soma das experiências inorganizadas dos indivíduos; transforma-se de maneira
de todo espontânea sob a influência da técnica ou das lutas revolucionárias e, no
total, reflete muito mais o passado da sociedade do que seu presente.

Entre nós, ao logo dos últimos decênios, um proletariado jovem destacou-se


do campesinato e somente em parte da pequena burguesia. O modo de vida desse
proletariado reflecte claramente sua origem social. Basta recordar ―Os costumes
da rua Rasteriaev‖, de Gleb Uspenski(1) isto é, isto é, os operários de Tula do
último quarto do século XIX? Trata-se de pequenos burgueses ou de camponeses,
que na maior parte, perderam toda a esperança de se tornarem integralmente
proprietários; é uma mistura de pequena burguesia inculta e de pés descalços.
Desde essa época o proletariado fez progressos gigantescos, decerto bastante
mais importantes em política do que quanto ao seu modo de vida e aos seus
costumes. O modo de vida é terrivelmente conservador. É certo que a rua
Rasteriaev já não existe sob a forma primitiva. As violências inflingidas aos alunos,
o servilhismo ante os patrões, o alcoolismo, a delinquência, tudo isso deixou de
existir. Mas as relações entre marido e mulher, entre pais e filhos, na família
isolada do mundo, estão ainda fortemente impregnados dessa mentalidade
Rasteriaev(2). Serão precisos anos ou decênios para escorraçar essa mentalidade
do seu último refúgio — O modo de vida individual e familiar — e para remodelar
totalmente num espírito colectivista.

Os problemas do modo de vida familiar foram objecto duma discussão


particularmente apaixonada quando da reunião dos agitadores moscovitas a que
já nos referimos. Era para todos um problema doloroso. Acumulavam-se
impressões, observações e sobretudo interrogações, mas nenhumas respostas; e,
além disso, as próprias interrogações não encontravam qualquer eco na imprensa
nem nas assembléias. Contudo, que imenso campo de investigação, de reflexão e
de acção oferece o modo de vida comunista e o das largas massas operárias.

Neste domínio, a nossa literatura artística não nos traz nenhuma ajuda. Pela
sua própria natureza, a arte é conservadora, está em atraso sobre a vida, é pouco
apta a apreender os fenômenos em vias de formação. ―A semana‖, de Libedinski (3)
suscitou da parte de alguns camaradas um entusiasmo que, confesso, me parece
imoderado e perigoso para o jovem autor. Dum ponto de vista formal e não
obstante alguns traços de talento, ―A semana‖ tem um caráter didático, e só um
trabalho intenso, obstinado e minucioso permitirá a Libendisnki tornar-se um
verdadeiro artista. Quero esperar que assim acontecerá. Mas não é este aspecto
do problema que nos interessa no presente. O êxito de ―A semana‖ deve-se não
às qualidades artísticas da obra, mas a forma ―comunista‖ de encarar a vida que
nela descreve. No entanto, sobre esse ponto preciso, a descrição carece de
profundidade. O ―comitê de província‖ é-nos apresentado de forma demasiado
científica, não raízes profundas, não se integra na região. É por isso que ―A
Semana‖, no seu conjunto, se assemelha a um romance em episódios, como essas
novelas que descrevem a vida da emigração revolucionária. Decerto que é
interessante e instrutivo descrever o ―modo de vida‖ de um comitê da província,
mas as dificuldades e o interesse surgem quando a vida de uma organização
comunista entra em contato — tão estreitamente como ossos do crânio se
interligam — com a vida quotidiana do povo. Deve-se atacar os problemas de
forma radical. É por isso que o ponto de junção do partido comunista com as
massas populares é o lugar fundamental de todo o acto histórico de colaboração
ou oposição.

A teoria comunista está em avanço de vários decênios e, em certos domínios,


de vários séculos, sobre a nossa visa quotidiana. Sem isso, o partido comunista
não poderia ser um fator histórico de uma imensa força revolucionária. Graças ao
seu realismo, a sua flexibilidade dialéctica, a teoria comunista elabora métodos
políticos que garantem a sua acção em todos os domínios. Mas a teorias política é
uma coisa, e o modo de vida é outra. A política é flexível, enquanto que o modo
de vida é imóvel e tenaz. É por isso que no meio operário existem tantos choques
quando a consciência se apóia sobre a tradição, choques esses tanto mais
violentos quanto não encontram eco. Nem a literatura artística, nem mesmo os
jornais, se lhes referem. A nossa imprensa matém-se muda sobre estes
problemas. Quanto às novas escolas artísticas que procuram marchar com a
revolução, o modo de vida, em geral não existe para elas. Propõem-se criar a vida
nova, reparai, mas não representá-la. Não se podem, porém inventar, em todas
as suas peças, um novo modo de vida. Pode-se construí-lo a partir de elementos
reais e capazes de se desenvolver. Por isso, antes de construir, é preciso conhecer
aquilo de que se dispõe. O que é necessário não só para agir sobre o modo de
vida, mas em geral para toda a actividade humana consciente. Para poder
participar na elaboração do modo de vida, necessita-se conhecer o que existe e
quais são as transformações possíveis do material de que se dispõe. Mostrai-nos,
e mostrai antes de mais a vós próprios, o que se passa numa fábrica, numa
cooperativa, no meio operário num clube, numa escola, na rua numa loja de
bebidas, procurai compreender o que aí se passa, isto é, encarai os problemas de
tal modo que neles reencontreis os restos do passado, perscrutando ou
adivinhando através deles os germes do futuro. Este apelo dirige-se por igual aos
homens de letras e aos jornalistas, aos correspondentes operários e aos
repórteres. Mostrai-nos a vida real tal como saiu do cadinho revolucionário.
Não é, no entanto, difícil adivinhar que não serão estes votos piedosos que
vão fazer mudar nossos escritores. Aqui é necessário pôr e dirigir bem os
problemas. O estudo e a análise do modo de vida operário devem antes de mais
ser apresentados como uma missão que incumbe aos jornalistas, pelo menos
aqueles que sabem usar os olhos e ouvidos; é preciso orientá-los para esse
trabalho, dar-lhes instruções, corrigi-los e educá-los, para deles fazer os cronistas
da revolução do modo de vida. Ao mesmo tempo, é necessário alargar o ponto de
vista dos correspondentes operários. Na verdade, cada um deles poderia elaborar
artigos bastantes mais interessantes e instrutivos do que aqueles que actualmente
escrevem. Mas para isso é preciso formular as questões de forma reflectida, pôr
justamente os problemas, suscitar as discussões e permitir o seu avanço útil.

Para que se eleve a um nível cultural superior, a classe operária, e antes de


mais a sua vanguarda, devem refectir o seu modo de vida. E para isso é preciso
conhecê-lo. A burguesia, principalmente por intermédio da sua inteligentsia, tinha
já resolvido esse problema bastante antes de conquistar o poder: ao mesmo
tempo que se encontrava ainda na oposição, era já a classe possidente, e os
artistas, os poetas e os jornalistas estavam a seu serviço, ajudavam-na a pensar e
pensavam por ela.

O século XVIII francês, chamado o século-das-luzes, foi uma época em que os


filósofos burgueses analisaram os diferentes aspectos do modo de vida individual e
social, esforçando-se por os racionalizar, isto é, por os submeter às exigências da
―razão‖. Foi assim que encararam não só os problemas do regime político e da
igreja, mas também os problemas das relações entre os sexos, da educação das
crianças, etc.. É evidente que o simples facto de ter levantado e estudado esses
problemas lhes permitiu elevar o nível cultural do individuo, burguês
evidentemente, e intelectual antes de mais. No entanto, todos os esforços da
filosofia das luzes para racionalizar, isto é, para reconstruir segundo as leis da
razão as relações sociais e individuais, se apoiavam na propriedade privada dos
meios de produção, que devia constituir a pedra angular da sociedade nova,
fundada na razão. A propriedade nova significava o mercado, o jogo cego das
forças econômicas não dirigidas pela ―razão‖. Foi assim que na base das relações
econômicas mercantis se elaborou um modo de vida por igual mercantil. Desde
que alei do mercado reinava em absoluto, era impossível pensar uma verdadeira
racionalização do modo de vida das massas populares. É por isso que a aplicação
prática das construções racionalizantes dos filósofos do século XVIII, por vezes tão
penetrantes e audaciosas, se mostra extremamente limitada.

Na Alemanha, o século das luzes estende-se pela primeira metade do século


XIX. À cabeça do movimento encontra-se a ―Jovem Alemanha‖, cujos chefes de
fila são Heine e Börne. Tratava-se mais uma vez de uma reflexão crítica da ala
esquerda da burguesia, da sua inteligentsia, que tinha declarado a guerra à
escravatura, a servidão, ao filistinismo, a estupidez pequeno-burguesa e aos
preconceitos, e que se esforçavam, mas já com um septicismo maior do que os
seus predecessores franceses, por instaurar o reino da razão. Esse movimento
confundia-se a seguir com a revolução pequeno-burguesa de 1848, que foi
incapaz de derrubar as múltiplas dinastias alemães e, com maior razão, de
reconstruir inteiramente a vida humana.

Entre nós, na nossa Rússia atrasada, o movimento das luzes não assumiu a
sua importância antes da segunda metade do século XIX. Tchernychevski,
Pissarev, Dobroliubov, saídos da escola de Belinski, orientaram a sua crítica não
tanto quanto às relações econômicas como sobre a incoerência, o seu carácter
reacionário e asiático do modo de vida, opondo ao tipo de homem tradicional um
homem novo, um ―realista‖, um ―utilitarista‖, que desejava construir a sua vida
segundo as leis da razão e que depressa se transformou numa ―personalidade
crítica‖. Esse movimento, que se confundiu com o populismo, representa a forma
russa e tardia do Século das Luzes. Mas se os espíritos esclarecidos do século
XVIII francês apenas puderam numa muito escassa medida transformar um modo
de vida e uns costumes elaborados não pela filosofia mas pelo mercado, se o
evidente papel histórico das Luzes na Alemanha foi ainda mais limitado, a
influência directa da inteligentsia russa esclarecida sobre o modo de vida e os
costumes do povo foi praticamente nula. No fim das contas, o papel histórico do
movimento das Luzes na Rússia, incluindo nele o populismo, reduzia-se a preparar
as condições do surto dum partido revolucionário proletário.

Só com a tomada do poder pela classe operária se criaram as condições de


uma verdadeira e radical transformação do modo de vida. Não se pode
racionalizar o modo de vida, isto, é transformá-lo segundo as exigências da razão,
se não se racionaliza a produção, visto que o modo de vida tem as suas raízes na
economia. Só o socialismo assume a tarefa de encarar racionalmente e de
submeter à razão toda a atividade econômica do homem. A burguesia por
intermédio dos seus elementos mais progressivos, contenta-se, por um lado, com
racionalizar a técnica (as ciências naturais, tecnologia, química, as descobertas, a
mecanização) e, por outro lado a política (graças ao parlamentarismo), mas não a
economia que permanece como área de uma concorrência cega. Essa é a razão
porque inconsciência e ignorância continuavam a dominar o modo de vida da
sociedade burguesa. A classe operária, que tomou o poder, chama a si a tarefa de
submeter a um controle e a uma direção conscientes o fundamento econômico das
relações humanas. É exclusivamente isso que permitirá uma construção
deliberada do modo de vida.

Mas tal implica que os nossos êxitos no domínio do modo de vida dependam
estreitamente dos nossos êxitos do domínio econômico. Sem dúvida que, mesmo
considerando a nossa situação econômica actual, poderíamos aumentar a crítica, a
iniciativa e a racionalidade no que respeita ao nosso modo de vida. É nisso que
conciste uma das tarefas fundamentais da nossa época. Mas é evidente que uma
reconstrução radical do modo de vida (libertar a mulher de sua situação de
escrava doméstica, educar as crianças num espírito coletivista, libertar o
casamento das imposições econômicas, etc.), não é possível senão na medida e
que as formas socialistas da economia substituam as formas capitalistas. A análise
crítica do modo de vida é hoje a condição necessária para que esse modo de vida,
conservador devido as suas tradições milenárias, não se mantenha em atraso em
relação as possibilidades de progresso presente e futuro que nos abrem os nossos
recursos econômicos atuais. Por outro lado, os êxitos mesmo os mais ínfimos, no
domínio do modo de vida, que permitam elevar o nível cultural do operário e da
operária, alargam imediatamente as possibilidades de uma racionalização da
economia e, por conseqüência, de uma acumulação socialista mais rápida; este
último ponto oferece por sua vez possibilidades de novas conquistas no domínio
da coletivização do modo de vida. A dependência aqui é dialectica: o factor
histórico principal é a economia, mas nós, partido comunista, Estado operário, não
podemos agir sobre ela a não ser por intermédio da classe operária, elevando
continuamente a qualificação técnica e cultural dos seus elementos constitutivos.
O militantismo cultural, num Estado operário, serve o socialismo, e o socialismo
significa a expansão da cultura sem classes, duma cultura humana e humanitária.

Notas:

(1) Gleb Uspenski (1843-1902): escritor realista ligado à ―escola natural‖, cujas obras oferecem
um panorama completo da vida do povo miúdo (pequenos funcionários, camponeses, operários).
―Os costumes da rua Rasteriaev‖, são a sua obra mais importante.

(2) Em russo: ―Rast‘er‘ajevssina‖.

(3) Libedinski luri Nikolaevitch (1898-1959), um dos primeiros representantes da jovem prosa
soviética. Participa da guerra civil, da qual dá uma descrição romântica na sua primeira novela- ―A
semana‖.

V - A Vodka, a Igreja e o Cinema

Dois fenômenos importantes imprimiram a sua marca no mundo de vida


operário: a jornada de oito horas e a proibição da vodka. A liquidação do
monopólio da vodka, que a guerra exigia meios tão avultados que o tzarismo
podia renunciar, como a um pecadilho, aos rendimentos que lhe advinham da
venda de bebidas alcoólicas. Um bilião de mais ou de menos era a diferença
mínima. A revolução foi herdeira da liquidação do monopólio da vodka; sancionou
o facto, fundando-se, porém em considerações de princípio. É só depois da
conquista do poder pela classe operária — poder construtor consciente de uma
economia nova — que a luta do governo contra o alcoolismo, luta ao mesmo
tempo cultural, educativa e coerciva, adquire toda a significação histórica. Nesse
sentido a interdição da venda devido à guerra imperialista, de nenhum modo
modifica o facto fundamental de que a liquidação do alcoolismo vem acrescentar-
se ao inventário das conquistas da revolução. Desenvolver, reforçar, organizar,
conduzir com êxito uma política anti-alcoólica no país do trabalho renascente —
eis a nossa tarefa. E os nossos êxitos econômicos e culturais aumentaram
paralelamente com a diminuição do números de ―graus‖. Nenhuma concessão é
aqui possível.
No que respeita à jornada de oito horas, é uma conquista directa da revolução
e das mais importantes. Em si mesmo, este fato provoca uma modificação
fundamental da vida do operário ao libertá-lo de dois terços da jornada de
trabalho. Cria-se assim uma base para transformações radicais do modo de vida,
para melhorar a forma de viver, para desenvolver a educação coletiva, etc., mas
trata-se apenas de uma base. Quanto mais o tempo de trabalho seja utilizado
conscienciosamente, mas a vida do operário se organizará de forma completa e
inteligente. É precisamente nisso que consiste, como já se disse, o sentido
fundamental da convunção de Outubro: os êxitos econômicos de cada operário
conduzem automaticamente a uma elevação material e cultural da classe operária
no seu conjunto. ―Oito horas de trabalho, oito horas de repouso, oito horas de
liberdade‖ — proclama a velha fórmula do movimento operário. Nas atuais
condições, essa fórmula adquire um conteúdo de todo novo: quanto mais as oito
horas de trabalho forem produtivas, mais as oito horas de repouso serão
reparadoras e higiênicas e mais as oito horas de liberdade serão culturais e
enriquecedoras.

Por conseguinte, o problema das distrações apresenta-se como um problema


cultural e educativo muito importante. O caráter da criança revela-se e forma-se
nos jogos. O caráter do adulto manifesta-se mais claramente nos jogos e nas
distrações. Mas as distrações e os jogos podem da mesma forma ocupar um lugar
de eleição na formação do caráter de toda uma classe se esta classe é jovem e
segue avante como o proletário. O grande utopista francês Fourier, ao insurgir-se
contra o ascetismo cristão e contra a repressão da natureza humana, construiu os
falanstérios (as comunas do futuro) na base de uma utilização e de uma
combinação justa e racional dos instintos e das paixões. Consusbstancia-se aqui
um pensamento profundo. Um Estado operário não é nem uma ordem espiritual
nem um convento. Consideramos os homens tal como a natureza os criou e tal
como a antiga sociedade em parte os educou e em parte os mutilou. Nesse
material humano vivo, buscamos qual o ponto em que fixar a alavanca da
revolução, do partido e do Estado. O desejo de distração, de entretenimento, de
diversão e de riso, é um desejo legítimo da natureza humana. Podemos e
devemos proporciona-lhe satisfações cada vez mais artísticas e, ao mesmo tempo,
devemos fazer do divertimento um instrumento de educação coletiva, sem
constrangimentos e dirigismo inoportunos.

Atualmente, neste domínio, o cinema representa um meio que ultrapassa de


longe todos os outros. Essa surpreendente invenção penetrou na vida humana
com uma rapidez jamais vista no passado. Nas cidades capitalistas, o cinema faz
agora parte integrante da vida quotidiana do mesmo modo que os balneários, os
estabelecimentos de bebidas, a igreja e as demais instituições necessárias,
louváveis ou não. A paixão pelo cinema é ditada pelo desejo de diversão, de ver
qualquer coisa de novo, de desconhecido, de rir a até de chorar, não acerca das
infelicidades próprias mas das de outrem. Todas essas exigências o cinema
satisfaz de forma mais direta, mas espetacular, mais imaginativa e mais viva, sem
que nada se exija do espectador, nem mesmo a cultura mais elementar. Daí esta
reconhecida atração do espectador pelo cinema, fonte inesgotável de impressões e
de sensações. Tal é o ponto de partida, e não só o ponto de partida, mas o
domínio imenso a partir do qual se poderá desenvolver a educação socialista.

O fato de até o presente, isto é, desde há quase em breve seis anos, não
temos dominado o cinema, mostra até que ponto somos toscos e ignaros, para
não dizer simplesmente tacanhos. É um instrumento que se nos oferece o melhor
instrumento de propaganda qualquer que esta seja — técnica, cultural, anti-
alcoólica, sanitária e política; permite uma propaganda atraente e acessível a
todos, que fala a imaginação e que além disso, constitui uma fonte possível de
rendimento.

Motivo de atração e distração, o cinema por isso mesmo concorrência às


cervejas e às feiras de compra e venda. Não sei quais são atualmente em Paria e
Nova Iorque os estabelecimentos mais numerosos — se os bares ou as salas de
cinema. Nem quais são os mais rendosos. Mas é claro que o cinema rivaliza antes
de mais com as lojas de bebidas no que respeita as oito horas livres. Poderemos
nós dominar esse incomparável instrumento? Por que não? O governo tsarista
alguns anos toda uma rede de lojas de bebidas, o que lhe rendia milhões de
rubros-ouro. Porque não poderia um governo operário organizar uma rede de
salas de cinema, porque não poderia implantar esse modo de distração e de
educação na vida popular, opondo-se ao alcoolismo e tornando-o ao mesmo
tempo uma fonte de receitas? Será isso realizável? Por que não? Não é decerto
empresa fácil, mas é em todo o caso mais natural, corresponde melhor a
natureza, às forças e as capacidades de um Estado operário do que digamos, a
restauração da rede de lojas de bebidas(1). O cinema rivaliza com os bares, mas
também com a igreja. E essa concorrência pode tornar-se fatal para a igreja desde
que completemos a separação da igreja do Estado socialista por uma união do
Estado socialista com o cinema.

Na classe operária russa, o sentimento religioso é praticamente nulo. Nunca,


aliás, existiu verdadeiramente. A igreja ortodoxa representava o conjunto de
costumes e uma organização política. Não conseguiu penetrar profundamente nas
consciências nem ligar os seus dogmas com e os seus cânones aos sentimentos
profundos das massas populares. A razão disso é sempre a mesma: a incultura da
velha Rússia, inclusive a da sua igreja. É por isso que, ao despertar para a cultura,
o operário russo se liberta tão facilmente da igreja à qual está superficialmente
ligado. É verdade que para o camponês isso é mais difícil, não por ter penetrado
mais profunda e intimamente nos ensinamentos da igreja — não se trata
evidentemente disso — mas porque o seu modo de vida uniforme e rotineiro está
estreitamente ligado aos ritos uniformes e rotineiros da igreja.

O operário — inferimo-nos à massa operária sem partido — mantém com a


igreja na maioria dos casos relações fundadas no hábito, habito esse enraizado,
sobretudo nas mulheres. Conservam-se os ícones pendurados em casa, porque lá
estão há longo tempo. Decoram as paredes, sem que estas pareceriam nuas e não
se está a isso habituado. O operário não adquire novos ícones, mas não manifesta
o propósito de retirar os antigos. Porque modo celebrar a festa da primavera, a
ser fazendo um kulitch ou uma Paskha?(2) E é uso fazê-los benzer para que não
falte qualquer coisa. De modo nenhum se freqüenta a igreja por espírito religioso,
mas sim porque há lá muita e esplendor, muita gente e se canta bem; a igreja
atrai devido a toda uma série de motivos sócio-estéticos, que nem a fábrica, nem
a família nem a rua oferecem. A fé não existe ou quase não existe. Em todo o
caso, não existe qualquer respeito pela hierarquia eclesiástica, nenhuma confiança
na força mágica do rito. Não existe também vontade de cortar com tudo isso. O
divertimento e a distração representam um enorme papel nos ritos da igreja. A
igreja age por métodos teatrais sobre a vista, o ouvido e o olfato (o incenso!) e,
através deles, age sobre a imaginação. No homem, a necessidade de espetáculo
— ver e ouvir qualquer coisa de não habitual e de colorido, qualquer coisa para
além do acinzentado do quotidiano — é muito grande, é irremovível e persegue-o
desde a infância até à velhice. Para libertar as largas massas desse ritual, dessa
religiosidade rotineira, a propaganda anti-religiosa não basta, embora seja
necessária. A sua influência limita-se apenas de tudo a uma minoria
ideologicamente mais informada. Se as largas massas não se submetem a
propaganda anti-religiosa, não é porque seja fortes os seus laços com a religião;
é, pelo contrário, porque não tem nenhum vínculo ideológico, mantendo com a
igreja relações uniformes, rotineiras e automáticas, de que não tem consciência,
como basbaque que não recusa participar numa procissão, ou numa solenidade
fautosa, ouvir cânticos ou agitar as mãos. É nesse ritualismo sem fundamento
ideológico que pela sua inércia se incrusta na consciência, e do qual a crítica por si
só não pode triunfar, mas que se pode desagregar por meio de novas formas de
vida, por novas distrações, por uma nova espetaculosidade de efeitos culturais. E
aqui o pensamento volta-se de novo naturalmente para o instrumento mais
poderoso por ser o mais democrático: o cinema. O cinema não carece de uma
hierarquia diversificada, de brocados ostentosos, etc.; basta-lhe um pano branco
para fazer nascer uma espectaculosidade muito mais penetrante do que a igreja,
da mesquita ou da sinagoga mais rica ou mais habituada às experiência teatrais
seculares. Na igreja apenas se realiza um ato, aliás sempre igual, ao passo que o
cinema mostrará que na vizinhança ou do outro lado da rua, no mesmo dia e à
mesma hora, se desenrolam simultaneamente a páscoa pagã, judia e cristã. O
cinema diverte, excita a imaginação pela imagem e afasta o desejo de entrar na
igreja. Tal é o instrumento de que devemos saber fazer uso custe o que custar!

Notas:

(1) Estas linhas estavam já escritas quando encontrei no último artigo do ―Pravda‖ (datado de 30
de junho) o seguinte extrato de um artigo que o camarada Gordeev tinha enviado a redação: ―a
indústria cinematográfica é um empreendimento extremamente lucrativo, que oferece imensos
benefícios. A utilização judiciosa, racional e sensata do monopólio do cinema poderia representar
para as nossas finanças uma melhoria semelhante à que trazia o monopólio da venda da vodka às
finanças tzaristas‖. Mais adiante, o camarada Gordeev expõe considerações práticas sobre a forma
de transpor para o cinema o modo de vida soviético. Eis aqui um problema que requer uma análise
seria e concreta!
(2) Kulitch e Paskha: bolos pascais. Kulitch: espécie de bolo cilíndrico; paskha: bolo de queijo
branco, de forma piramidal.

VI - Da antiga à nova família

As relações e os acontecimentos internos da família, pela sua própria


natureza, são mais difíceis de submeter do que quaisquer outros a um estudo
objectivo ou a um cálculo estatístico. É por isso difícil dizer em que medida os
laços familiares (na vida e não no papel) se deterioram hoje mais facilmente do
que outrora. Neste caso, é preciso contentarmo-nos, em larga medida, com aquilo
que se pode ver. Além disso, o que actualmente difere do período pré-
revolucionário é que outrora os conflitos e os dramas de uma família operária
passavam de todo despercebidos até para a própria massa operária, enquanto que
no presente a vida de um grande número de operários de vanguarda que ocupam
postos de responsabilidade está patente aos olhos de todos, de tal modo que cada
catástrofe familiar se toma objecto de um juízo, ou até por vezes de atoardas.

No entanto, mesmo tendo em conta esta importante restrição, há que


reconhecer que a família, incluindo a família proletária, foi fortemente abalada.
Este facto, claramente sublinhado quando da assembleia dos agitadores
moscovitas, não foi contestado por ninguém. Durante a discussão, o problema foi
encarado de diversos modos: referiam-se-lhe uns com angústia, outras com
reserva e certos com perplexidade. Em todo o caso, era claro para todos que se
estava perante um processo importante, totalmente caótico, cujas formas ora
eram doentias, ora repelentes, ora cómicas, ora ainda trágicas, processo este que
não tinha ainda deixado aparecer as possibilidades de nova ordem familiar que em
si continha. A imprensa, pelo seu lado, só raramente se refere ao
desmantelamento da família. Aconteceu-me ler num artigo uma explicação em
que se considerava que se devia muito simplesmente ver na degradação da família
operária uma manifestação da influência burguesa sobre o proletariado.
Semelhante explicação é totalmente falsa. O problema é mais profundo e mais
complexo. A influência passada e presente da burguesia é por certo evidente. Mas
o processo fundamental deve-se a uma evolução doentia da família proletária em
situação de crise, assistindo-se actualmente as primeiras manifestações caóticas
desse processo.

É conhecido o papel profundamente destrutivo da guerra sobre a família.

A guerra age nesse domínio de forma puramente mecânica, separando as


pessoas por longo tempo e reunindo-as ao acaso. A revolução prolongou e
reforçou a influência da guerra. No conjunto, a guerra abalou o que se mantinha
apenas pela força de inércia da historia: o regime tzarista, os privilégios de classe
e a antiga família. A revolução construiu um Estado novo, resolvendo então o
problema mais imediato e mais simples. No plano económico, as coisas passaram-
se de modo muito mais complicado. A guerra tinha abalado a antiga ordem
económica e a revolução derrubou-a. Hoje construímos qualquer coisa de novo —
de momento principalmente a partir do passado, mas um passado reorganizado
por nós de uma nova maneira. No domínio económico, não há muito tempo que
ultrapassamos o período de destruição, para começar a expandir-nos. Os nossos
êxitos são ainda mínimos e estamos ainda bastante longe das formas de uma
nova economia socialista. Mas saímos da fase de destruição e de ruína. O
momento mais critico foi o dos anos 20-21.

No que respeita ao modo de vida familiar, o período de destruição está longe


de ter terminado e encontramo-nos ainda em pleno numa época de
desmantelamento e de deslocação. É necessário termos clara consciência desse
fenômeno. No plano das relações familiares, estamos por assim dizer ainda em
1920-1921, e de modo nenhum em 1923. O modo de vida é muito mais
conservador do que a economia e é alias essa a razão por que é de mais difícil
compreensão. Em política e em economia, a classe operária procede como um
todo; é por isso que coloca a sua vanguarda — o partido comunista — na primeira
fila e através dela realiza as suas tarefas históricas. No domínio do modo de vida,
a classe operária está dividida em pequenas células familiares. A transformação do
poder e mesmo a do regime econômico (com os trabalhadores tornados
proprietários das fábricas e oficinas) são tudo factos que, por certo, se reflectem
na família, mas só do exterior e por forma indirecta, sem abalar os seus hábitos
directamente herdados do passado. A metamorfose do modo de vida e da família
exige da classe operária no seu conjunto uma consciência aguda dos problemas e
dos esforços a fazer; isso pressupõe, da parte da própria classe operária, um
enorme trabalho de educação cultural. A charrua deve rasgar a terra em
profundidade. Estabelecer a igualdade política da mulher e do homem no Estado
soviético é um dos problemas mais simples. Estabelecer a igualdade económica do
trabalhador e da trabalhadora na fábrica, na oficina, no sindicato, é já muito difícil.
Mas estabelecer a igualdade efectiva do homem e da mulher na família, eis o que
é incomparavelmente mais complicado e exige imensos esforços para revolucionar
todo o seu modo de vida. E, no entanto, é evidente que enquanto a igualdade do
homem e da mulher não fôr atingida na família, não se poderá falar seriamente da
sua igualdade na produção nem mesmo da sua igualdade política, pois se a
mulher continua escravizada à família, à cozinha, à barrela e à costura, as suas
possibilidades de agir na vida social e na vida do Estado conservam-se reduzidas
em extremo.

Tomar o poder foi o mais simples. Mas isso ocupou todas as nossas forças
durante o período da revolução e exigiu inumeráveis sacrifícios. A guerra civil teve
necessidade de medidas extremamente austeras. Os espíritos triviais e pequeno-
burgueses denunciavam a selvajaria dos costumes, a sangrenta corrupção do
proletariado, etc. Mas, de facto, através das medidas de constrangimento
impostas pela revolução, o proletariado lutava por uma nova cultura, por um
verdadeiro humanismo. No domínio econômico, durante os quatro a cinco
primeiros anos do regime, conhecemos um período de destruição, de completa
degradação da produtividade. Os inimigos viam nisso, ou queriam ver, o
apodrecimento do regime soviético. Mas, de facto, tratava-se unicamente duma
inevitável etapa de destruição das antigas formas da economia e das primeiras e
frágeis tentativas para criar outras novas.
No domínio da família e do modo de vida houve também um período inevitável de
deslocação de todas as formas antigas e tradicionais, herdadas do passado. Mas
esse período de crise e de destruição é mais tardio, tem mais longa duração, é
mais penoso e mais doloroso, ainda que as suas formas, em extremo parcelizadas,
não sejam sempre visíveis quando de um exame superficial. É necessário termos
clara consciência dessas fracturas nos domínios político, económico e do modo de
vida, para não nos assustarmos com os fenómenos que observamos e, em vez
disso, os avaliar com exactidão, isto é, para compreender por que se manifestam
na classe operária e para agir sobre eles de forma consciente no sentido de uma
socialização das formas do modo de vida.

Não nos desorientemos, repito, visto que já se fizeram ouvir vozes temerosas.
Durante a reunião dos agitadores moscovitas, certos camaradas sublinharam, com
justificada inquietação, a facilidade com que se rompem os antigos laços familiares
e se atam novos laços, por igual pouco sólidos. A mãe e os filhos são aqueles que
com isso mais sofrem. Por outro lado, quem dentre nós não terá escutado essas
ladaínhas sobre a ―decadência‖ dos costumes da juventude soviética,
particularmente dos komsomols (Komsomol ou Comsomol (em russo, Комсомол) — a
organização juvenil do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) ) . Essas lamentações não
são por certo todas exageradas e possuem um fundo de verdade. Se encararmos
as coisas de forma relativa, há que lutar para elevar a cultura e a personalidade
do individuo. Mas se se coloca correctamente o problema, sem nos deixarmos
arrastar por um moralismo reaccionário ou por uma melancolia sentimental,
apercebemo-nos de que é preciso, antes de mais, conhecer o que existe e
compreender o que se passa.

Como já se disse, acontecimentos de importância considerável — a guerra e a


revolução — subverteram o modo de vida familiar, trouxeram consigo o
pensamento crítico, a reorganização consciente e a reavaliação das relações
familiares e do modo de vida quotidiano. É precisamente a combinação da força
mecânica desses grandiosos acontecimentos com a força critica do pensamento
que explica, no domínio da família, o período destrutivo que hoje conhecemos. É
somente hoje, após a tomada do poder, que o operário russo dá os seus primeiros
passos na via da cultura. Sob a influência de abalos profundos, a personalidade
subtrai-se pela primeira vez às formas e as relações impostas pela rotina e a
tradição da Igreja; será estranho que a sua revolta individual contra a antiga
ordem assuma de inicio formas anárquicas ou, falando mais grosseiramente,
formas desenfreadas? O mesmo observamos na política, na economia e no
exército: anarco-individualismo, ―esquerdismos‖ de toda a espécie, espírito
―partisan‖, mania das reuniões. Será afinal estranho que esse processo encontre a
sua mais intima, e logo a sua mais dolorosa expressão, no domínio da família?
Neste caso, a personalidade libertada que quer construir a sua vida de forma nova
e não segundo a tradição, manifesta-se pelo desregramento, o ―vício‖ e outros
males evocados no decurso da assembléia de Moscovo.

O marido, arrancado pela mobilização às suas condições de vida habituais,


toma-se na frente um cidadão revolucionário. É objecto de uma imensa revolução
interior. O seu horizonte alarga-se, as suas exigências espirituais elevam-se e
tornam-se mais complexas. Ei-lo um outro homem. Regressa à família. Tudo ou
quase tudo ali permanece como antes. A antiga unidade familiar desapareceu,
enquanto que uma nova unidade não surgiu. A surpresa de parte a parte
transforma-se em descontentamento. O descontentamento em irritação. A
irritação leva a separação.

O marido, comunista, faz uma vida social activa, progride e encontra nela o
sentido da sua vida pessoal; Mas a mulher, também comunista, deseja tomar
parte no trabalho da colectividade, participar nas reuniões, trabalhar no Soviete
ou no sindicato. A família desagrega-se pouco a pouco ou a intimidade familiar
desaparece, os conflitos multiplicam-se, o que suscita uma irritação mútua que
conduz ao divorcio.

O marido é comunista. A mulher não tem partido. O marido é absorvido pelo


seu trabalho de militante, a mulher está, tal como antes, confinada ao circulo
familiar. As relações são ―pacificas‖, fundando-se de facto sobre a indiferença
mútua. Mas eis que na célula se decide que os camaradas devem pôr de parte os
ícones. O marido considera que isso é natural. Mas, para a mulher — é um drama.
E este pretexto verdadeiramente fortuito revela que abismo espiritual separa o
marido da mulher. As relações envenenam-se e desfecham na separação.

Uma velha família, dez ou quinze anos de vida em comum. O marido é um


operário consciencioso, um bom pai de família, e a mulher gosta do seu lar e
dispensa toda a sua energia à família. O acaso põe-na em contacto com uma
organização feminina. Um novo mundo se abre para ela. A sua energia encontra ai
um campo de acção muito mais vasto. Na família, é a derrocada. O marido zanga-
se, a mulher vê-se ofendida na sua dignidade de cidadã. É o divórcio.

Poder-se-ia multiplicar até ao infinito o número destes dramas familiares que


conduzem sempre ao mesmo resultado: o divórcio. Mas citamos aqui os exemplos
mais correntes. Todos tem por denominador comum a linha de separação entre os
elementos comunistas e os sem partido. Mas a decadência da família (da antiga
família) não se limita apenas aos elementos de vanguarda da classe operária,
mais sensíveis às novas condições; penetra mais profundamente. No fim de
contas, a vanguarda comunista experimenta mais cedo e mais intensamente o que
é mais ou menos inevitável para a classe no seu conjunto. Estes fenômenos —
reformulação da vida pessoal, exigências novas no que respeita a família —
ultrapassa com toda a evidência o domínio em que o partido comunista entra em
contacto com a classe operária. A instituição do casamento civil, por si só, não
pode deixar de dar um golpe mortal na antiga família consagrada pela Igreja e
que não é mais do que uma fachada. Quanto mais os laços eram frágeis, mais a
unidade da família se limitava ao aspecto exterior, aparente e em parte ritual das
relações. Ao destruir o rito golpeou-se por isso mesmo a família. O ritual, vazio de
conteúdo objectivo e não mais reconhecido pelo Estado, apenas se mantém pela
sua inércia, servindo de muleta a família tradicional. Mas se não existem laços
sólidos no interior da própria família, se esta não perdura a não ser pela força da
inércia, cada golpe que se lhe disfere do exterior é capaz de a destruir, reduzindo
a nada o seu carácter ritual. E, na nossa época, a família sofreu golpes como
nunca antes. Eis porque ela vacila, eis porque se desloca e cai em ruínas, eis
porque se refaz e se desagrega de novo. O modo de vida é submetido a rude
prova por esta critica severa e dolorosa para a família. Não se fazem omoletas
sem partir os ovos.

Vê-se surgir elementos da família de um tipo novo? Sem qualquer dúvida.

Mas é preciso fazer-se uma idéia clara da natureza desses elementos e da


maneira como se formam. Como noutros domínios, é necessário distinguir aqui as
condições materiais das condições psíquicas ou, ainda, as condições objectivas das
condições subjectivas. No plano psíquico, a aparição de uma família de tipo novo e
de novas relações humanas, equivale para nós no conjunto ao progresso cultural
da classe operaria, ao desenvolvimento da personalidade, a uma melhoria das
suas necessidades e da sua disciplina interna. Deste ponto de vista, a revolução
em si mesma representa decerto um grande passo em frente, e os fenômenos
mais penosos do desmantelamento da família são unicamente a expressão
dolorosa do despertar da classe operária e o desabrochar da personalidade do
individuo nessa classe. Assim, todo o nosso trabalho cultural — aquele que
fazemos e, em particular, aquele que só nós devemos fazer — deve servir para
estabelecer relações e uma família dum tipo novo. Sem a melhoria do nível
cultural individual do operário e da operária, essa família de um tipo novo e
superior não existe, porque, nesse domínio, só pode claramente tratar-se de
disciplina interior e não de constricção exterior. E a força dessa disciplina pessoal
define-se pela vida que se faz no interior da família e pelo conjunto e a natureza
dos laços que unem o marido e a mulher.

Mais uma vez, as condições de aparição de um modo de vida e de uma família


de tipo novo não podem separar-se da obra geral de construção socialista. O
governo operário deve valorizar-se para que seja possível organizar de modo sério
e adequado a educação colectiva das crianças, para que seja possível libertar a
família da cozinha e das limpezas A colectivização da economia familiar e da
educação das crianças é impensável sem um enriquecimento de toda a nossa
economia em conjunto. Temos necessidade da acumulação socialista. Só nessas
condições poderemos libertar a família das funções e ocupações que a
sobrecarregam e a destróiem. A lavagem de roupas deve ser feita numa boa
lavandaria colectiva. As refeições devem ser tornadas num bom restaurante
colectivo. Os vestuários devem ser confeccionados num atelier de costura. As
crianças devem ser educadas por bons pedagogos que nisso encontrarão o seu
verdadeiro emprego. Desde então, os laços do marido e da mulher deixarão de ser
entravadas pelo que lhes é exterior, supérfluo, acrescentado e ocasional. Um e
outro deixarão de se envenenar mutuamente a existência. Ver-se-à por fim
aparecer uma verdadeira igualdade de direito. Os laços serão unicamente
definidos pela atracção mútua. E é precisamente por essa razão que serão mais
sólidos, diferentes decerto para cada um mas para ninguém constritivos.

Assim, uma nova vida conduz a família de tipo novo: a) a educação da classe
e do individuo na classe, e b) enriquecimento material da classe que forma o
Estado. Estes mecanismos estão estreitamente ligados entre si.

Entenda-se bem que o que se acaba de dizer de modo nenhum significa que
exista um momento exacto de desenvolvimento material favorável à aparição
imediata desta nova família. Não, a formação da nova família é possível a partir do
presente. É verdade que o Estado não pode ainda encarregar-se da educação
colectiva das crianças, da criação de lavandarias colectivas nas quais as roupas
não sejam rasgadas ou roubadas. Mas isso em nada impede as famílias mais
progressistas de tomar a iniciativa de se reagruparem desde já numa base
colectivista. Semelhantes experiências devem, por certo, ser conduzidas com a
maior prudência a fim de que os meios técnicos de ordenação colectiva
correspondam aos interesses e as exigências do próprio grupo e proporcionem a
todos os membros vantagens evidentes, mesmo que ainda mínimas, nos primeiros
tempos.

Há tempos, o camarada Semachko(1) escrevia a propósito da reconstrução do


nosso modo de vida familiar:

―É preciso que sejamos demonstrativos; não se obterá grande coisa se


nos limitarmos a tomadas de posição ou mesmo à propaganda. Mas o
exemplo e a demonstração terão mais impacto do que um milhar de
brochuras bem escritas. A melhor forma de conduzir com sucesso essa
propaganda consiste em utilizar o método que, na pratica cirúrgica, se
chama a transplantação. Quando a pele é arrancada numa grande
área do corpo (por efeito de uma ferida ou de uma queimadura),
quando não há esperanças que a pele renasça sobre essa área, os
cirurgiões destacam pedaços de pele de uma parte sã e aplicam-na
sobre a parte nua; a pele enxerta-se e esses pequenos pedaços
começam a estender-se, tornam-se cada vez maiores e recobrem por
fim toda a superfície afectada.

A mesma coisa se passará com esta propaganda demonstrativa: se,


numa fábrica ou numa oficina, se adopta um modo de vida comunista,
outras empresas seguirão esse exemplo‖. (Noticias do Comitê Central,
n° 8, de 4 de Abril de 1923. N. Semachko: ―O morto aproveita do
vivo‖).

A experiência dessas colectividades familiares, que constituem uma primeira


aproximação, ainda que muito imperfeita, do modo de vida comunista, deve ser
submetida a um estudo e a uma análise minuciosos. É preciso que o poder, e em
primeiro lugar os conselhos e os organismos económicos, dêm o seu apoio a estas
iniciativas pariciais. A construção de habitações — pois vamos, apesar de tudo,
tratar de construir alojamentos! — deve ser encarada de acordo com as exigências
dos lares familiares. Os primeiros êxitos evidentes e indiscutíveis neste domínio,
mesmo quando limitados, incitarão inevitavelmente camadas mais largas a
organizar-se da mesma maneira. Quanto a uma iniciativa planificada vinda de
cima, as coisas não se apresentam ainda maduras para isso, nem do ponto de
vista dos recursos materiais do Estado nem do ponto de vista da preparação do
próprio proletariado. Actualmente não se pode arrancar nesta matéria a não ser
com a criação de lares demonstrativos. Será necessário adquirir progressiva
segurança, sem querer ir demasiado longe e sem cair no fantástico burocrático.
Num dado momento será o Estado que se encarregará desses problemas, por
intermédio dos conselhos locais, das cooperativas, etc., que generalizará o
trabalho já feito, que o desenvolverá e aprofundará. Deste modo, a humanidade,
como diz Engels, ―passará do reino da necessidade para o reino da liberdade‖.

Notas:

(1) Semachko Nicolas Alexandrovitch (1874-1949): foi o primeiro comissário do povo para a saúde
publica. Desenvolveu a profilaxia, a política de defesa da mãe e da criança, etc.

VII - A família e os ritos

Existem três momentos rituais fundamentais na vida do homem e da família,


através dos quais a Igreja acorrenta o operário, pouco crente ou mesmo
descrente: o nascimento, o casamento e a morte. O governo operário afastou-se
do ritual da Igreja; explicou aos cidadão que tinham o direito de nascer, de casar
e de morrer sem recorrer a gastos nem a incantação mágicas desses indivíduos
vestidos de sotaina ou de outros trajes sacerdotais. Mas o modo de vida tem
bastante mais dificuldade do que o governo em se desfazer dos ritos. A vida dos
trabalhadores é demasiado monótona (demasiado uniforme) e essa mesma
monotonia esgota o sistema nervoso. De onde a necessidade do álcool: uma
pequena garrafa encerra todo um mundo de imagens. De onde a necessidade da
Igreja com todo o seu ritual. Como festejar um nascimento ou um casamento da
família? Como homenagear um parente que acaba de morrer? É sobre esta
necessidade de sublinhar, de celebrar, de encarecer as principais etapas da vida,
que se apoia o ritual da Igreja.

Que opor-lhe? Opomos, é certo, às superstições em que assenta a base do


ritual, a critica marxista, a relação objectiva com a natureza e as suas forças. Mas
esta propaganda cientifica e critica não resolve o problema: desde logo, porque
não atinge ainda, nem atingirá durante longo tempo, mais do que uma minoria de
pessoas; depois, porque essa própria minoria sente a necessidade de encarecer,
de elevar, de enobrecer a sua vida pessoal, pelo menos nos momentos mais
importantes.

O Estado operário tem já as suas festas, os seus cortejos, os seus desfiles, as


suas paradas, os seus espectáculos simbólicos, a sua teatralidade. É facto que
essa teatralidade recorda muito a do passado, que o imita e que dele é em parte
continuação directa. Mas o essencial do simbolismo revolucionário é novo, claro e
poderoso: a bandeira vermelha, a foice e o martelo, a estrela vermelha, o operário
e o camponês, o camarada, a Internacional. Ora, na célula familiar, concentrada
em si mesma, esta inovação é praticamente inexistente e em todo o caso, é
insuficiente. No entanto, a vida do individuo está estreitamente ligada à sua vida
familiar. É isso que explica que, na família, os elementos mais conservadores se
sobreponham com frequência nas relações quotidianas; conserva-se os ícones,
perdura o baptismo e os funerais religiosos, pois os elementos revolucionários da
família nada tem a contrapor-lhe. Os argumentos teóricos agem apenas sobre o
espírito, enquanto que a teatralidade ritual age sobre os sentimentos e sobre a
imaginação; a sua influência é portanto bastante maior. É por isso que, no próprio
meio comunista, se toma necessário opor a esse antigo ritual formas novas e um
simbolismo novo, não só ao nível oficial em que já se encontram largamente
implantadas mas também ao nível da família. Há entre os operários uma
tendência para festejar a data do nascimento e não o santo do dia, para dar ao
recém-nascido não o nome de um santo mas um prenome novo, que simbolize os
factos, acontecimentos ou idéias que lhes estão ligados. Por ocasião da assembléia
dos agitadores de Moscovo, soube pela primeira vez que, em relação as raparigas,
o prenome Outubrina era muito popular. Foi também citado o de Ninel (Lenine ao
inverso), REP (Revolução, Electrificação, Paz(1)). Para se mostrar que se está
ligado a revolução dá-se as crianças o prenome Vladimir, Ilitch e mesmo Lenine
(empregado como prenome), Rosa (em recordação de Rosa Luxemburgo), etc. Em
certos casos, um nascimento é assinalado por um rito humorístico: o recém-
nascido é ―examinado‖ pelo comité de fábrica, e a seguir é redigida uma
―resolução‖ na qual se reconhece que o recém-nascido faz parte dos cidadãos da
URSS. Após o que se abanca à mesa.

Algumas vezes, nas famílias operárias, a entrada de uma criança na escola é


também ocasião para uma festa. É um acontecimento muito importante, porque
se liga a escolha de uma profissão, de um rumo de vida. O sindicato pode aqui
intervir de modo consciente. No conjunto, serão precisamente os sindicatos que
sem dúvida ocuparão um lugar destacado na criação e organização das formas do
novo modo de vida. As confrarias da Idade Média eram poderosas justamente
porque englobavam a vida do aluno, do aprendiz e do mestre. Ocupavam-se da
criança desde o seu nascimento, acompanhavam-na até a porta da escola,
conduziam-na ao altar no dia do casamento e faziam-lhe o enterro após cumprida
a sua missão. As confrarias não se limitavam apenas a reunir as pessoas da
mesma profissão; organizavam todo o modo de vida. É provavelmente neste
sentido que, naturalmente, o novo modo de vida, ao contrário do modo de vida da
Idade Média, estará totalmente liberto da Igreja e das suas superstições e que se
fundara no desejo de utilizar cada conquista científica e técnica para enriquecer e
embelezar a vida do homem.

O casamento dispensa mais facilmente a cerimónia. Ainda que, mesma aqui,


tenha havido muitos ―mal-entendidos‖ e exclusões do Partido em consequência de
casamentos celebrados na Igreja. O modo de vida tem dificuldade em habituar-se
a um casamento singelo, sem a pompa de qualquer teatralidade.

É porém o enterro que apresenta muito maiores dificuldades. Enterrar um


morto sem ofícios é tão inacostumado, estranho e vergonhoso como criar uma
criança sem ter sido baptizada. No caso em que o funeral, devido à personalidade
do defunto, tem um significado político, surge um novo ritual espectacular e
impregnado de simbolismo revolucionário: acompanham-no bandeiras vermelhas,
toca-se uma marcha fúnebre revolucionária, dispara-se uma salva em sinal de
adeus. Alguns dos participantes na assembleia de Moscovo sublinharam a
importância da incineração e propuseram que, por exemplo, se comece por
incinerar os corpos dos revolucionários eminentes, o que seria justamente um
poderoso meio de luta anti-religiosa. Mas, a incineração, à qual já seria tempo de
recorrer, não significa que se abandone os cortejos, os discursos, as marchas
fúnebres e as salvas. A necessidade de exprimir os próprios sentimentos é uma
necessidade poderosa e legítima.

Se no passado a espectaculosidade do modo de vida estava estreitamente


ligada a Igreja, isso de modo nenhum significa, como já se disse, que seja
impossível dissociar uma da outra. A separação entre o teatro e a Igreja ocorreu
bastante antes que entre a Igreja e o Estado. Nos primeiros tempos, a Igreja lutou
contra o teatro ―público‖ porque com razão via nele um perigoso concorrente as
suas encenações. O teatro sobreviveu, mas como um espectáculo especial,
limitado por quatro paredes. E na vida quotidiana, a Igreja conservou como
outrora o monopólio das encenações. Algumas sociedades secretas, como a
Maçonaria, fizeram-lhe concorrência. Mas elas próprias estavam impregnadas de
um misticismo mundano. É possível criar um ‖ritual‖ revolucionário ao nível do
modo de vida (utilizamos a palavra ―ritual‖ à falta de termo mais ajustado) e opor
esse ritual ao da Igreja, não só quanto aos acontecimentos de carácter colectivo
mas também familiar. Desde agora, uma orquestra ou uma banda que executa
uma marcha fúnebre pode com frequência fazer concorrência a um ofício religioso.
E devemos por certo utilizar essa orquestra para lutar contra o ritual da Igreja,
fundado na crença servil num outro mundo, num mundo em que se será
compensado em cêntuplo pelo mal e a mediocridade da vida terrestre. O cinema
pode ser-nos ainda mais útil.

Esse modo de vida, essa teatralidade dum género novo, só podem


desenvolver-se paralelamente ao desenvolvimento da alfabetização e do bem-
estar material. Temos todos os motivos para estudar esse mecanismo com a
maior atenção. Não pode por certo tratar-se de uma intervenção constrangente,
vinda de cima, isto é, de uma burocratização dos novos fenómenos do modo de
vida. Só a criação colectiva das largas massas, ajudada pela fantasia, pela
imaginação criadora e pela iniciativa dos artistas, pode conduzir-nos, ao longo dos
anos e decénios vindouros, até à via de novas formas de vida, espiritualizadas,
enobrecidas e impregnadas de espectaculosidade colectiva. No entanto, e sem
regulamentar esse processo criativo, é preciso desde já e por todos os meios
ajudá-lo a desenvolver-se. E para isso é antes de mais necessário restituir a vista
a esse cego que é o modo de vida. É preciso estudar atentamente tudo o que se
passa na família operária e na família soviética em geral. Cada inovação, cada
embrião ou mesmo cada alusão a essas novas formas deve ser referido na
imprensa e levado ao conhecimento de todos, a fim de despertar fantasia e o
interesse e de dar assim um impulso a criação colectiva de um novo modo de
vida.

Esta tarefa incumbe acima de tudo ao komsomol. O que se tenha imaginado


ou empreendido não resultará obrigatoriamente. Que mal há nisso? As escolhas
serão feitas pouco a pouco. A vida nova engendrará as formas que lhes convêm.
E, afinal, será mais rica, melhor, mais vasta, mais bela e mais luminosa. É bem
esse o fundo do problema.

Notas:

(1) Em russo — Rem: ―revolucija, elektrifikacija, mir‖.

VIII - As atenções e a delicadeza como condições necessárias para


relações harmoniosas

Numa das nossas múltiplas reuniões criticas, o camarada Kisselev, presidente


do Sovnarkom, sublinhou ou pelo menos lembrou um aspecto muito importante do
problema do aparelho de Estado. Tratava-se de saber como, de que maneira, este
entrava em contacto com a população, como ―discutia‖ com ela, como eram
recebidos os visitantes, os ―pleiteantes‖, os solicitantes, como eram considerados
e atendidos, que linguagem era usada e se havia diálogo em quaisquer
circunstâncias... Também isso representa um aspecto importante do ―modo de
vida‖.
Por outro lado, importa também distinguir aqui duas coisas: a forma e o
fundo.

Por certo que, em todas as democracias civilizadas, a burocracia ―está ao


serviço‖ do povo; o que não a impede de formar, acima do povo, uma casta
profissional estreitamente homogénea; e se a burocracia ―oferece‖ realmente os
―seus serviços‖ aos magnatas capitalistas, isto é, se rasteja em face deles,
mostra-se cheia de altiveza perante o camponês ou o operário e dirige-se-lhes
como se fossem objectos (isto tanto em França como na America ou na Suíça).
Mas ai, nas democracias ―civilizadas‖, isso reveste-se de certa polidez, de
afabilidade — mais acentuada num dado país, menos aparente num outro. Cada
vez que seja necessário, (o que sucede diariamente) o punho da policia rompe
sem dificuldade essa cortina de delicadeza. Agride-se os grevistas nos
comissariados de Paris, de Nova Iorque e de outras grandes cidades. Mas no
conjunto a delicadeza ―democrática‖, oficial, que orienta as relações da burocracia
com as populações, é o produto e a consequência da revolução burguesa: a
exploração do homem pelo homem é uma constante, mas a sua forma mudou, é
menos ―grosseira‖, dissimula-se com os cenários da igualdade, recobre-se dum
verniz de boas maneiras.

O aparelho da burocracia soviética é particular e complexo; transporta consigo


os hábitos de diversas épocas, ao mesmo tempo que os embriões de futuras
relações humanas. Regra geral, a delicadeza não existe entre nós. Em
contrapartida, a grosseria herdada do passado manifesta-se em excesso. Mas aqui
também, a grosseria não é sempre a mesma. Há a grosseria simples, a do mujik,
decerto não isenta de sagacidade mas que não humilha. Esta porém torna-se
insuportável e objectivamente reaccionária quando os nossos jovens literários a
utilizam para não se sabe qual conquista ―artística‘. Os trabalhadores de
vanguarda são essencialmente hostis a este género de falsa rudeza, porque vêem
com razão na grosseria de linguagem e de maneiras vestígios da escravatura e
desejam fazer sua a linguagem da cultura, com as limitações que ela implica. Mas
que fique isto dito de passagem...

Além desta grosseria simplista, indiferenciada, camponesa e passiva, por


assim dizer, existe urna particular grosseria ―revolucionária‖ — que provérn da
impaciência, do ardente desejo de fazer melhor, da irritação que nela suscita a
nossa ―oblomoveria‖(1) e da tensão nervosa. Por certo que essa grosseria, como
tal, carece também de finura, e nós combatêmo-la; mas, no fundo, alimenta-se
com frequência da mesma fonte revolucionária que, no decurso destes últimos
anos, mais de uma vez removeu montanhas. Aqui, não é o fundo das coisas que
deve ser alterado, porque é são na maioria dos casos, mas sim a sua forma cheia
de rudeza...

Existe porém ainda entre nós — e é aí que mais dói — um outro tipo de
grosseria, uma grosseria ancestral, a do rico, do ―barine‖, que vem da época da
servidão, penetrada de uma odiosa baixeza. Ainda não desapareceu e não é fácil
livrarmo-nos dela. Nos organismos de Moscovo, especialmente nos mais
importantes, essa superioridade de grande senhor não se manifesta na sua forma
mais combativa — não se grita nem gesticula perante os solicitantes — mas
apresenta-se com mais frequência sob o aspecto de um formalismo
desumanizado. Não é por certo esta a única fonte do ―burocratisrno e da lentidão
administrativa‖, mas é um dos seus factores essenciais: uma total indiferença
perante os indivíduos e o seu trabalho. Se fosse possível registrar numa fita
particularmente sensível as consultas, as respostas, as explicações, as ordens e as
prescrições que se verificam em todos os departamentos de um organismo
burocrático de Moscovo no decurso de um só dia. obter-se-ia um conjunto
particularmente demonstrativo. E é ainda pior na província, especialmente onde a
cidade entra em contacto com o campo.

O burocratismo é um fenómeno muito complexo e em absoluto não


homogéneo; é antes uma combinação de fenómenos, de numerosos mecanismos
que surgiram em diversos momentos da historia. E as razoes que mantêm e
alimentam o burocratismo são também muito diversificadas. A nossa incultura, o
nosso atraso, a nossa ignorância, ocupam o primeiro lugar. A desorganização
geral do nosso aparelho governamental, sem cessar reconstruído (o que é
inevitável em período revolucionário), arrasta consigo um grande número de
fricções que favorecem enormemente o burocratismo. É precisamente nessas
condições que a heterogeneidade social do aparelho soviético e, em particular, a
existência de hábitos senhoriais e burgueses, se manifesta nas suas formas mais
repelentes.
Por isso mesmo, a luta contra o burocratismo não pode deixar de assumir um
carácter diversificado. Na base, há que lutar contra a incultura, contra a
ignorância, contra a imundície, contra a miséria. O melhoramento técnico do
aparelho burocrático, a compressão dos quadros, uma maior regularidade, um
maior rigor e uma maior exactidão no trabalho bem como outras medidas do
mesmo tipo não resolvem, por certo, o problema histórico do burocratismo, mas
permitem reduzir-lhe os aspectos mais negativos. A formação de uma burocracia
soviética de um tipo novo e a formação de ―especialistas‖, é extremamente
importante. E aqui, claro está, não há que ter ilusões sobre a dificuldade que
representa, numa época de transição e dados os hábitos herdados do passado, a
educação de dezenas de milhar de novos trabalhadores fundada em bases novas,
isto é, num espírito de trabalho, de simplicidade e de humanidade. É coisa difícil
mas não impossível; somente que isso não será feito de uma só vez mas
progressivamente, graças a promoção de ‖séries‖ cada vez melhores de jovens
trabalhadores soviéticos.

Todas estas medidas, encaradas a mais ou menos longo prazo, em nenhum


caso, contudo, excluem uma luta imediata contra esse desdém administrativo em
relação ao individuo e ao seu caso, contra esse niilismo de plumitivo que oculta,
umas vezes, a indiferença em relação seja ao que for, outras vezes a própria
incapacidade, outras ainda um desejo consciente de sabotagem ou até a aversão
orgânica de uma classe degradada para com a classe que a degradou. É aqui que
se encontra um dos pontos fundamentais de apoio da alavanca revolucionária;

É preciso que o homem simples, o humilde trabalhador, deixe de recear as


instituições administrativas às quais lhe acontece ter que recorrer. É preciso que,
ao acolhê-lo, se lhe manifeste atenção tanto maior quanto ele se mostra mais
carente, mais obscuro e mais ignorante. E, no fundo, é preciso que se tente ajudá-
lo e não simplesmente afugentá-lo. Para isso, além de todas as demais medidas, é
preciso que a opinião pública seja constantemente informada do problema, é
preciso que nisso participe da forma mais larga possível, e é preciso ainda e em
particular que este problema desperte o interesse de todos os elementos
realmente soviéticos, revolucionários, comunistas ou muito simplesmente
conscientes do próprio aparelho de Estado; e esses elementos, felizmente, são
numerosos: e sobre eles que repousa o aparelho de Estado e é graças a eles que
progride.

Neste domínio, a imprensa pode desempenhar um papel singularmente


decisivo.

Os nossos jornais, infelizmente, não fornecem em geral mais do que material


educativo extremamente restrito no que respeita ao modo de vida. E quando dão
uma informação, é frequentemente sob forma de relatórios monótonos: existe —
pode ler-se neles — uma fábrica, a fábrica tal; nessa fábrica, existe um comité e
um director; o comité faz o seu trabalho de comité e o director o seu trabalho de
director, etc. E, contudo, o nosso modo de vida regurgita de episódios, de
conflitos, de contradições manifestas e instrutivas, em especial quando o aparelho
de Estado entra em contacto com a população. Apenas é preciso ter coragem de
arregaçar as mangas e de meter mãos a obra...

É claro que esse trabalho de denúncia e de educação deve ser isento de toda a
maledicência, de toda a intriga, de toda a acusação gratuita, de toda a manigância
e de toda a demagogia. Mas tal trabalho, conduzido correctamente, é necessário e
vital, parecendo-me que os responsáveis dos jornais devem encarar os meios de o
realizar.

Para isso, precisamos de jornalistas que aliem a ingenuosidade do repórter


americano à honestidade soviética. E eles existem. O camarada Sosnovski ajudar-
nos-á a mobilizá-los. E como lema do seu mandato (sem por isso recearem
assemelhar-se a Kuzma Prutkov), é preciso inscrever: vamos até ao fundo das
coisas!

O ―calendário‖ da luta poderia ser mais ou menos o seguinte: se durante os


próximos seis meses chegarmos a denunciar em toda a URSS — com exactidão e
imparcialidade, após duas ou três constatações — uma centena de burocratas que
manifestem um desprezo de raiz para com os nossos trabalhadores; se, apos ter
divulgado isso por todo o país e ter talvez mesmo organizado um processo
público, excluirmos essa centena de burocratas do aparelho do partido sem
permitir nunca a sua reintegração seja aonde for — estariamos perante um bom
princípio. Não é par certo possível esperar milagres imediatos. Mas quando se
trata de substituir o antigo pelo novo, um pequeno passo à frente é mais valioso
do que as mais longas discussões.

Notas:

(1) Em russo: ―oblomovssina‖: neologismo formado a partir do nome do herói do romance de


Gontcharov — ―Oblomov‖, prototipo do preguiçoso consciente de o ser e incapaz de se corrigir.

IX - É preciso lutar por uma liguagem depurada

Por ocasião de uma assembleia geral na fábrica de calçado ―A Comuna de


Paris‖, foi decidido pôr fim à linguagem grosseira e aplicar multas pelos
―palavrões‖, etc.

Comparado com as ―palavras‖ de Lord Curzon(1), a quem não se pode ainda


aplicar multas, trata-se de um pequeno facto no turbilhão da nossa época, mas é
um facto significativo, que só adquirirá toda a sua importância em relação ao eco
que essa iniciativa venha a encontrar.

A grosseria de linguagem — em particular a grosseria russa— — é uma


herança da escravidão, da humilhação e do desprezo pela dignidade humana,
tanto a alheia como a própria. Seria necessário perguntar aos filólogos, aos
linguistas e aos folcloristas se se encontra noutros países uma grosseria tão
desenfreada, tão repugnante e tão chocante como entre nós. Tanto quanto sei,
não existe em nenhuma outra parte. Nas camadas populares, a grosseria exprime
o desespero, a irritação e, acima de tudo, uma situação de escravo sem esperança
e sem saída. Mas essa grosseria nas camadas superiores, na boca de um senhor
ou do intendente de um domínio, era a expressão de uma superioridade de classe,
do firme e do inabalável direito do esclavagista. Diz-se que os provérbios são a
expressão da sabedoria popular, são-no também da ignorância, dos preconceitos e
da escravatura. ―Um palavrão depressa se esquece‖, diz um antigo provérbio
russo que não reflecte apenas a escravatura mas também a sua aceitação passiva.
Dois tipos de grosseria — a dos ―barines‖, dos funcionários, da polícia, uma
grosseria de repleto, de voz cheia, e uma outra, esfomeada e desesperada —
coloriram a vida russa com seus tons repugnantes. E a revolução herdou isso,
como muitas outras coisas.

Mas a revolução é acima de tudo o despertar da personalidade humana em


camadas que outrora nenhuma personalidade possuíam. Apesar de toda a crueza
e sangurenta ferocidade dos seus métodos, a revolução é sobretudo um despertar
do sentido humano; permite progredir, dar mais atenção, à dignidade própria e à
alheia, ajudar os fracos e sem defesa. A revolução não é uma revolução se, com
todas as suas forças e por todos os meios, não permite que a mulher, dupla e
triplamente alienada, se desenvolva pessoal e socialmente. A revolução não é uma
revolução se não dispensa o maior interesse às crianças que são o futuro em cujo
nome ela se efectua. E poder-se-á criar – mesmo de forma parcelar e limitada –
uma vida nova fundada sobre o respeito mútuo, sobre o respeito para consigo
próprio, sobre a igualdade da mulher, sobre uma verdadeira solicitude pelas
crianças, numa atmosfera em que ressoe, retumbe, estale a linguagem grosseira
dos senhores e dos escravos, uma linguagem que nunca poupou nada nem
ninguém? É tão necessário para a cultura do espírito lutar contra a grosseria da
linguagem como é necessário para a cultura material combater a imundice e os
parasitas. Não é nada simples nem fácil dominar essa licenciosidade linguística
porque não tem as suas raízes na palavra em si mesma mas no psiquismo e no
modo de vida. É com toda a evidência necessário encorajar as tentativas da
fábrica ―A Comuna de Paris‖, mas, mais do que isso, é necessário desejar aos seus
iniciadores paciência e obstinação, pois os hábitos psíquicos, que se transmitem
de geração em geração e dos quais toda a atmosfera está ainda hoje impregnada,
não são fáceis de desenraizar. Acontece amiúde querer fazer progressos a todo o
custo; esfalfamo-nos e, finalmente, baixamos os braços deixando tudo como
antes.

Devemos confiar em que os operários, e em primeiro lugar os comunistas,


secundem a iniciativa de ―A Comuna de Paris‖. Pode-se dizer que, regra geral
(existem sem dúvidas excepções), as grosserias são dirigidas as mulheres e aos
filhos, não só por parte das massas atrasadas mas com frequência também por
alguns da vanguarda e por vezes mesmo ―responsáveis‖. Não se pode negar o
facto de que estas formas de expressão estão ainda vivas seis anos após Outubro,
mesmo entre os ―altamente colocados‖. Fora da cidade, fora da capital, certas
―personalidades‖ consideram que é de seu dever exprimir-se grosseiramente por
verem nisso um meio de entrar em contacto com o campesinato...

A nossa vida é totalmente contraditória, tanto no plano econômico como no


cultural. No centro do país, não longe de Moscovo, estendem-se imensos espaços
pantanosos, de caminhos impraticáveis e, mesmo a seu lado, elevam-se fábricas
que impressionam pelo seu nível de tecnicidade européia ou americana...
Encontram-se contrastes análogos nos nossos costumes; ao lado de Kit Kitytch o
jovem(2), que atravessou a revolução, conheceu a expropriação, a especulação
clandestina e a especulação legal, e que conservou praticamente intactos todos os
caracteres de sua classe, encontramos o melhor tipo de operário comunista, que
só vive para os interesses da classe operária, que está pronto a bater-se pela
revolução a todo o momento e seja em que país for. Além deste contraste social –
grosseria obtusa e idealismo revolucionário – podemos com frequência realçar
contrastes psíquicos no interior de um mesmo indivíduo, de uma mesma
consciência. Eis, por exemplo, um comunista autêntico, devotado à sua tarefa,
mas para quem as mulheres não são mais do que ―babas‖(3) (que palavra tão
grosseira), das quais não se pode falar seriamente. Ou ainda, a propósito da
questão nacional, um ―communard‖(4) emérito que emite de súbito um chuveiro de
injúrias dignas de um Ugrium Burtchéev,(5) de fazer fugir. Deve-se isso ao facto de
que os diferentes domínios da consciência não se transformam e não evoluem
paralela e simultaneamente. Deparamos também aqui com uma particular
economia. O psiquismo é flagrantemente conservador; na consciência, só se
transformam os elementos directamente submetidos às exigências da vida. A
evolução social e política dos últimos decénios fez-se a um ritmo sem exemplo,
com saltos e viragens sem precedentes. É por isso que a Confusão e a
Desorganização são entre nós tão poderosas. Mas seria injusto pensar que essas
duas irmãs reinam unicamente na produção e no aparelho de Estado. Não, há o
que confessar, agem também sobre as mentalidades, em que se combinam
convicções de vanguarda sinceras e reflectidas (nesse domínio temos qualquer
coisa a ensinar à Europa e à América), com estados humorais, hábitos e opiniões
directamente herdados do Domostroj.(6) Nivelar a frente ideológica, isto é, analisar
todos os domínios da consciência por meio do método marxista – tal é a fórmula
geral da educação e da auto-educação que se deve aplicar antes de mais ao
partido, começando pelos dirigentes. E, uma vez mais, essa tarefa é terrivelmente
complexa; não será realizada de forma escolar nem literária, porque as
contradições e as desordens do psiquismo mergulham as suas raízes mais
profundas na confusão e na desorganização do modo de vida. A consciência, no
fim de contas, define-se pelo ser. Mas a dependência aqui não é mecânica nem
automática; é recíproca. Eis porque se precisa abordar o problema de diversas
maneiras, incluindo a dos operários da fábrica ―A Comuna de Paris‖.

Façamos votos pelo seu êxito!

A luta contra a grosseria faz parte da luta pela pureza, a clareza e a beleza da
linguagem.

Notas:

(1) O caso Curzon: trata-se dos manejos anti-soviéticos do diplomara inglês G. N. Kurzon (1859-
1925) que foi um dos organizadores da intervenção contra a URSS; em 1919 enviou uma nota ao
governo soviético emprazando-o a cessar o avanço das tropas do Exército Vermelho segundo uma
linha chamada ―linha Curzon‖. Em 1923 enviou um ultimatum provocador ao governo soviético,
ameaçando-o com uma nova intervenção.

(2) Kit kitych: nome colectivo aparecido no início do século XIX e que designa um tipo de
comerciante, déspota familiar, cujos traços característicos eram a grosseria e a astúcia.

(3) Em russo: ―bab‘jo‖, termo pejorativo, denominação colectiva que rebaixa a mulher à categoria
de animal de carga.

(4) ―Communard‖: partidário da Comuna de Paris de 1871.

(5) Ugrium Burtchéev: um dos personagens do romance de Saltykov-Chédrine – ―História de uma


cidade‖. Protótipo do déspota que só se exprime por onomatopéias grosseiras.

(6) ―Domostroj‖: recolhida escrita no século XVI, em que são reunidas as regras fundamentais da
vida quotidiana, fundada principalmente numa submissão total ao chefe de família.