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O MELHOR AMIGO DO HOMEM


EDUARDO BANKS

Foi em um dos muitos bares, das muitas cidades da Colônia Lunar, que ficavam
enterradas a muitas centenas de metros do solo, onde não há o risco da queda de
asteróides e a gravidade é ligeiramente maior, lugares que eram iluminados por luzes
artificiais produzidas nas usinas atômicas, ou, canalizadas da superfície lunar para o
subsolo por cabos ópticos.
Sentados a um canto do balcão um grupo de amigos conversava a respeito de
diversos assuntos, até que um deles — que até então estivera (...) lendo um jornal — [no
manuscrito há uma lacuna de três linhas] agora não falta mais nada.
“O magnata [o nome ficou em branco, no manuscrito] recentemente falecido,
deixou toda a sua fortuna e bens para seu robô-mordomo, JRB-182, que o servia há
mais de 45 anos, quando da leitura de seu testamento, que desapontou seus pretendentes
a herdeiros. Os bens de [...] foram avaliados em cerca de 500 bilhões de créditos,
incluindo fazendas, minas de urânio, usinas atômicas e outras propriedades.
“Se a legitimidade do testamento for reconhecida, serão nomeados 38
administratradores para zelar (...) do morto, (...)” [no manuscrito, rasgado, há uma
lacuna de três linhas]
(...) Smythe. — disse um dos amigos.
“Com a minha mulher é o contrário. Ela tem pavor de robôs. Eu gostaria muito
de ter um sabe, mas ela não quer saber de ter um robô dentro de casa. Eu quase comprei
um quando saiu o financiamento para compra do robô próprio, lá da firma, porém, ela
não deixou que eu pegasse o dinheiro; perdi a oportunidade, e, lindos dezoito mil
créditos foram embora”.
— Eu também quero comprar um robô, e já estou guardando o dinheiro para isso
— suspirou Johnson, enquanto batia com o fundo do copo no balcão — Meu filho de
onze anos adora robôs; todo dia me pede que eu compre um. Há umas três semana ele
entrou em casa com um robô atrás de si e foi logo dizendo: “Mamãe, Papau, eu posso
ficar com ele? Ele me seguiu”; mas, não era um desses robôs domésticos, não. Era um
robô industrial, e dos que fazem trabalhos pesados. Minha mulher e eu apertamos meu
filho, e, ele confessou que encontrou o robô na rua, descarregando um caminhão, e
ordenou que ele o seguisse até em casa.

Revista Banksia — Rio de Janeiro, RJ, Brasil, número 6, Abril/2017


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“Devolvemos o robô no mesmo dia; e, o assunto virou piada na nossa


hiperquadra. Quem não achou graça foi o dono do robô, que quase deu parte na polícia”.
Risos. Uma moça de uns trinta e tantos anos toma a palavra:
— Eu acho que não existe nada melhor que um robô para estragar uma criança.
Eles fazem todas as vontades das pessoas, e, isso pode atrapalhar a educação dos filhos.
“Tenho robô desde menina. Minha família tinha um modelo MLV, que o meu
pai comprou logo depois que eu nasci. Nós o chamávamos de Melvin.
“Meu irmão mais velho estava sempre fazendo estrepolias, e, usava Melvin
como cúmplice, mandando-lhe que o ajudasse a fazer arruaças, o que divertia papai, que
ria muito com isso. Certa vez ele comprou um sofá novo para a sala, e, no mesmo dia,
meu irmão e Melvin começaram a pular nele. Mamãe reclamou com ele, e ia castigar
meu irmão, quando papai disse rindo: ‘Deixe para lá, eu comprei o sofá para eles,
mesmo”.
“Meu irmão cresceu, casou, e comprou o seu robô. Eu cresci, casei, e comprei o
meu. No começo eu queria esperar que minhas filhas crescessem para então comprar,
mas, eu estou acostumada demais a ter robô”.
— E quanto a Melvin, o [que] aconteceu com ele? — perguntou alguém.
— Ficou cuidando dos meus pais. Depois que eles morreram, foi vendido como
sucata. Me arrependo de ter deixado. Tinha direito à metade dele, como herança, por
isso podia proibir que fizessem, mas...
— Tem muita pornografia por aí envolvendo robôs. — resmungou (...) [o
manuscrito omite o nome da personagem], enquanto dava um peteleco num resto de
comida no balcão — [q]uando eu era adolescente, tinha umas revistas...
— Como aquele calendário ali no canto, não é? — interrompeu o [o manuscrito
também omite o nome do interlocutor].
— Isso mesmo.
Nesse momento, chegou a refeição, trazida pelo garçon. Eram cogumelos, a base
da alimentação na Colônia Lunar, além de ovos, e carne de aves. A agricultura é
impraticável na Colônia, porque as plantas não se adaptam aos subterrâneos onde ficam
as cidades. Precisam de luz solar, o que é inexistente no subsolo. Ela pode ser
canalizada por cabos ópticos para o subsolo, mas o dia e a noite duram duas semanas,
cada, e vegetal algum pode se adaptar a tais ciclos de luz e escuridão. Na verdade, todos
os vegetais consumidos na Lua são importados da Terra, o que encarece o custo, e
apenas os ricos podem comprá-los.

Revista Banksia — Rio de Janeiro, RJ, Brasil, número 6, Abril/2017


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Já os cogumelos somente se desenvolvem em cavernas, e são por isso a maior


fonte de alimento dos colonizadores lunares. São bastante nutritivos (200 gramas por
dia bastam para alimentar uma pessoa adulta), e, abundantes.
Ainda existem animais de criação, especialmente suínos, galinhas e gansos, que
são alimentados com cogumelos.
Os pratos tinham espetos no fundo, onde a comida ficava presa para não flutuar.
A bebida — água mineral, apenas, e em muitas ocasiões, reciclada da urina dos
colonizadores — ficava em um copo fechado, com tampa rosqueável. Dele saía um
canudo, em forma de cachimbo ou de retorta, pelo qual se sugava a água.
Enquanto o garçon segurava a bandeja com uma das mãos, esticou o seu braço
metálico para limpar o tampo do balcão, sugando a sujeira com um pequeno aspirador.
— Obrigado, WTR-397. — disseram os fregueses, que já se preparavam para
atacar o repasto.
O garçon — robô — ouvira toda a conversa, enquanto preparava a refeição; e,
enquanto a servia, pensava, sem saber que parafraseava Leonardo da Vinci, um dos
maiores gênios da humanidade, que dissera coisa parecida séculos atrás: “Algum dia, o
Homem compreenderá o íntimo de um robô; e, nesse dia, todo crime contra um robô
será um crime contra a humanidade”; sem, no entanto, comunicar o seu pensamento a
ninguém.

1º-3 de agosto de 1995.

Revista Banksia — Rio de Janeiro, RJ, Brasil, número 6, Abril/2017


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