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INSTINTO MATERNAL
EDUARDO BANKS

O robô CR-3312 estava a caminho de sua tarefa de rotina, que era limpar os
corredores, quartos e salas da nave espacial de turismo UK-S.S. King Charles IV,
quando algo o fez largar os trabalhos de faxina: um choro persistente de criança no
corredor de acesso ao cassino da nave.
CR-3312 sabia que bebês humanos choram, quando precisam de alguma coisa, e
por isso, ele decidiu interromper o seu serviço (que não era essencial à segurança da
nave, a menos que limpar sujeira de sapatos dos assentos fosse capaz de interferir no
suporte de vida), para saber o que estava acontecendo.
Encontrou um bebê, num dos bancos da nave, sozinho, junto a uma grande
bolsa, com fraldas e outros apetrechos do enxoval.
CR-3312 foi até o interfone da nave para contactar a central de segurança,
informando o achado.
— Robô CR-3312, para segurança. Encontrei uma criança de colo perdida no
banco do corredor 5 do terceiro andar.
— Como é isso? — perguntou um descrente vigia.
— Já disse. Há um bebê perdido aqui, no corredor de acesso ao cassino. Por
favor, mande um segurança para aqui, senhor.
— Mandarei alguém — disse o segurança, que, depois de desligar o interfone,
balançou a cabeça, julgando estar sendo alvo de alguma brincadeira.
CR-3312 recolheu as tralhas de faxina, quando lembrou que o chefe da
segurança não fazia muito caso dos robôs, sentimento que deveria ser compartilhado
pelo resto do seu pessoal.
Largou as tralhas novamente, e decidiu ajudar o bebê. Pegou-o no colo, e
reparou na sujeira de excrementos que pingavam da fralda.
O robô não sabia trocar fraldas, mas sabia limpar sujeira, e então, tirou a fralda
imunda, limpou o bebê com a água que levava armazenada no seu reservatório para
limpar os corredores, e cobriu a criança do peito para baixo com uma toalha felpuda que
saía em parte da bolsa meio-aberta (é verdade que ele rasgou a fralda para tirá-la aos
pedaços, mas o fez com todo o cuidado para não ferir o seu precioso conteúdo).

Revista Banksia — Rio de Janeiro, RJ, Brasil, número 6, Abril/2017


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O bebê ficou aliviado, porém continuava chorando. CR-3312 precisou de algum


tempo para examinar tudo o que sabia sobre bebês (pouca coisa), para descobrir porque
ele não parava de chorar, quando suspeitou que a criança sentia falta de companhia
humana.
O robô lembrou-se que as crianças muito pequenas sorriem para a face humana,
felizes com a presença de alguém, mesmo que não seja da família.
CR-3312 não tinha rosto. Sua cabeça era um cilindro móvel, com rotação de
360º, equipado com câmeras de vídeo à frente, aos lados e à traseira, ocultas por uma
viseira fumê que circundava seu crâneo. Abaixo da viseira, e à frente, havia uma saída
de auto-falante para emissão de sua voz artificial. A audição funcionava por
auscultadores no alto da cabeça.
Lembrou-se, no entanto, que os bebês também sorriem para moldes da letra “T”,
desde que sejam do tamanho de um rosto, pois eles confundem a letra “T” com as linhas
traçadas pelos olhos, nariz e boca de uma face humana.
O robô levava consigo um rolo de fita isolante, para fazer pequenos reparos em
alguma fiação ou estofado. Tomou do rolo, cortou duas tiras, uma menor e outra maior,
e colou-as na viseira de sua cabeça, uma, horizontalmente, e a outra, verticalmente, com
a segunda tocando sua extremidade superior no centro da primeira, formando um “T”, o
que enfim, acalmou a criança enquanto a embalava nos seus braços de titânio.
CR-3312 pensou que em breve o bebê sentiria fome, e precisaria ser alimentado.
Não sabendo como conseguir comida, sua cultura geral, no entanto, era ampla o
bastante para conhecer que os humanos são bípedes mamíferos, portanto, bebem leite
quando pequenos. Estava perto do corredor que levava ao refeitório dos funcionários do
cassino, e talvez conseguisse um pouco de leite por lá. Naquela hora, o refeitório estava
fechado, mas CR-3312 tinha livre acesso às dependências da nave, entrando e saindo de
qualquer instalação com sua tralha de faxina.
Considerando isto, o robô concluiu que seria melhor chamar novamente a
segurança da nave. Já havia passado tempo suficiente para que seu primeiro contacto
fosse atendido, e, se ainda não o fora, certamente não houvera vontade por parte do
Chefe da segurança. Se CR-3312 insistisse várias vezes em chamar a segurança,
acabaria vencendo pelo cansaço, e talvez o Chefe da segurança atendesse pessoalmente
para livrar-se do incômodo.
Além do mais, aquele bebê devia ter uma família, e a melhor coisa a fazer era
entregá-lo à segurança, para que achasse seus responsáveis.

Revista Banksia — Rio de Janeiro, RJ, Brasil, número 6, Abril/2017


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CR-3312 embalava ritmadamente a criança pensando nisso quando ouviu uma


voz masculina gritando, do fundo do corredor:
— Largue esse bebê!
Era Montague Greensail, o pai da criança. Ele se arrependeu instantaneamente
do que disse; durante segundos que pareceram séculos, imaginou que o robô abriria os
braços dizendo, com voz metálica, “robô obedece, robô larga”, e deixaria o bebê cair de
cabeça no chão, como num holo-filme cômico de final trágico.
Ao invés disso, CR-3312 se curvou e pôs a criança no banco, suavemente, e
depois, ficou parado, em pé, esperando que lhe dessem outra ordem.
Pelo outro lado do corredor, entrou a esposa de Greensail, acompanhada de um
segurança da nave, com o qual havia procurado pelo bebê e por seu marido por todos os
conveses. Montague chegou primeiro perto da criança e a tomou nos braços. Suava frio;
com o alívio do reencontro, até esqueceu-se de CR-3312 parado à sua esquerda.
— Meu filho, meu filho, estava tão preocupado... — dizia, enquanto deixava cair
algumas fichas de espaço-pôquer de um de seus bolsos.
Foi retirado do êxtase por um toque de sua mulher no ombro direito.
— Montague, tu ainda me não explicaste como esqueces o nosso filho durante o
tempo em que eu trocava de roupa.
— Olhe, Victoria, ainda falta um dia até que cheguemos a 82 Eridani II, que tal
aproveitarmos a viagem, e...
— Não desconverses! Esta não é a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez
que tu esqueces nosso filho nos lugares. Outra dessas, e eu exigirei o divórcio. Se eu te
deixar vivo... — disse, enfurecida, a mulher, dando ênfase dramática à palavra “vivo”.
E, como ninguém dizia nada para CR-3312, ele deu de costas ao casal que ainda
discutia, e pegou as tralhas da faxina para finalmente terminar o seu serviço.

29-30 de agosto de 1995.

Revista Banksia — Rio de Janeiro, RJ, Brasil, número 6, Abril/2017


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