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Ano 14- n° 55 - Outubro / Novembro / Dezembro - 2017

Revista de Jovens e Adultos da Convenção Batista Fluminense

Vida Cristã
Princípios eternos para tempos melhores
Pr. Elildes Junio Macharete Fonseca
Pr. Matheus Dutra Rebello
LIÇÕES
SUMÁRIO TUDO O QUE A PALAV
RA
12 PODE OFERECER

DE SE
A MELHOR FORMA

02
1º ACAMPAMENTO DE
FÉRIAS DAS FAMÍLIAS 16 VIVER A PALAVRA

UMA NOVA FORMA


20 DE SER FELIZ

03
PRIMEIRAS PALAVRAS
PARA CUMPRIR A MISSÃO ORAÇÕES QUE NASCE
M
24 DO CORAÇÃO

05
CONGRESSO DE EBD OR!
SÉCULO XXI 28 MAIS AMOR, POR FAV

ADE
A FASCINANTE LIBERD
VIRA CRIANÇA 32 DE PERTENCER

06 ENCONTRO DE LÍDERES UMA MAIOR SINTON


IA
36 COM DEUS

07
PALAVRA DO REDATOR O PERMANENTE
40 APRENDIZ
AD
VIDA CRISTÃ

A ESPERANÇA QUE
44 CONTINUA VIVA

09
MISSÃO – ONDE DEUS
QUISER ME LEVAR
48 PRAZER EM SERVIR

10
MISSÕES ESTADUAIS
EVANGELIZANDO CIDADES 52 O VALOR DO OUTRO

S
MAIS QUE PALAVRA
56
11 APRESENTAÇÃO
ELILDES JUNIO M. FONSECA
e MATHEUS DUTRA REBELLO O EXERCÍCIO DA
60 ESPIRITUALIDADE
PRIMEIRAS PALAVRAS

PARA CUMPRIR A MISSÃO


A Palavra de Deus está repleta
de textos que revelam a vocação
missionária da Igreja. Muitos textos
bíblicos indicam o nosso chamado
divino para que sejamos procla-
madores da vida eterna. O mais
clássico de todos está em Marcos
16.15: “Ide por todo o mundo e
pregai o evangelho a toda criatura”.
E o maior missionário é o próprio
Jesus, que não se limitou a dizer
o que deveríamos fazer, mas deu
o Seu supremo exemplo, conforme
vemos no registro de Mateus 9.35-
36: “E percorria Jesus todas as
cidades e aldeias, ensinando nas Diz o texto no verso 35: “E per-
sinagogas, pregando o evangelho corria Jesus todas as cidades e
do reino, e curando toda sorte de aldeias”. O que Jesus fazia percor-
doenças e enfermidades. Vendo rendo todas as cidades?
ele as multidões, compadeceu-se
delas, porque andavam desgarra- JESUS ENSINAVA (v.35a) “E
das e errantes, como ovelhas que percorria Jesus todas as cidades
não têm pastor”. e aldeias, ensinando nas sinago-
gas” – Ele é Mestre por excelência!
Esse grande exemplo descrito Seu ministério terreno foi marcado
por Mateus é um dos mais profun- por uma grande dedicação ao en-
dos da Bíblia na ênfase missio- sino. Ele não ensinava apenas de
nária, pois ensina como deve ser modo teórico, verbal e intelectual,
nossa atitude no cumprimento da mas ensinou com a autoridade de
missão que Jesus nos deu. Basea- quem dá o exemplo, sendo sem-
do nesse texto, aprendo que: pre coerente e fiel. Seu testemunho
1 – PARA CUMPRIR A MIS- prático dos princípios, valores e
SÃO, PRECISO FAZER O QUE conceitos do reino eram acompa-
JESUS FAZIA. nhados por atitudes.

3
JESUS PREGAVA (v.35b) “pre- SENTIMENTOS (v.36b) “Vendo
gando o evangelho do reino” – ele as multidões, compadeceu-se
Precisamos falar de Jesus! Veja o delas” – É muito relevante o fato
exemplo de André (Jo 1.35-42): ele de que a palavra que descreve o
havia passado apenas uma tarde sentimento que Jesus demonstrou
com Jesus, não era formado em ser originária do grego splanchni-
teologia e talvez não tivesse tido somai, às vezes traduzida como
tempo para organizar todo o seu ar- “compaixão”, ter um significado mais
gumento, mas afirmou: “Achamos amplo do que demonstrar pena,
o Messias!”. Ele não era um espe- amar, ter misericórdia, ser amado,
cialista em pregação, era apenas ter preocupação e ser gentil. A pala-
um novo convertido que estava di- vra compaixão, em Mateus 9, é bem
zendo para o seu irmão o que havia mais profunda, significando origina-
acontecido com ele: “Achei o Mes- riamente intestinos, entranhas, algo
sias!”. Sua mensagem era: “eu vi, somático. A compaixão de Jesus
eu ouvi, eu senti”. O que Jesus de- era tão intensa que mexia por den-
seja é que sejamos testemunhas do tro, movia seu interior. Vendo ele as
seu amor e poder em nossas vidas. multidões, teve compaixão. E você,
Este é o nosso maior argumento! tem compaixão??
2 – PARA CUMPRIR A MISSÃO, A obra missionária é muito im-
PRECISO SER COMO JESUS EM portante, por isso deve ser amplia-
SUA VISÃO E SENTIMENTOS. da. Precisamos dar mais de nós,
interessar-nos mais do que já nos
VISÃO (v.36a) “Vendo ele as interessamos, fazer mais do que já
multidões” – Ele viu as multidões. fazemos, orar mais do que já ora-
E você? Será que já estamos indife- mos, amar os perdidos mais do que
rentes ao sofrimento delas? Quan- já amamos. Deus fará maravilhas
do vemos ovelhas sofridas, qual a através de você! Jesus nos deixou
nossa percepção? O que o tecelão a missão, o exemplo e o grande de-
vê? Talvez um belo tecido de lã. safio: cumprir a missão!
O que o mercenário vê? Provavel-
mente um meio de ganhar dinheiro.
O que o açougueiro vê? Certamen- Pr. Amilton Vargas
Diretor Executivo da CBF
te a carne que sustenta seu negó- Membro da PIB Universitária
cio. O que Jesus vê? Necessidades
a serem supridas. O que o pastor
vê? O que você vê? Precisamos ver
como Jesus.

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6
PALAVRA DO REDATOR

VIDA CRISTÃ
“E sucedeu que todo um ano se reuniram naquela
igreja, e ensinaram muita gente; e em Antioquia foram
os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos”.
Atos 11.26
O que significa ser cristão? Te- nuncia a tudo
mos sido cristãos autênticos? quanto tem,
No livro de Atos diz que na ci- não pode ser
dade de Antioquia os discípulos, meu discípu-
pela primeira vez, foram chamados lo”. (Lc 14.33).
“cristãos” (do grego, “Christianós” = Renunciar é
seguidores de Cristo). O que levou repudiar com-
a este reconhecimento foram as pletamente a
atitudes dos discípulos, que eram sua nature-
idênticas às do Senhor. Até aquela za pecami-
ocasião, a expressão “cristão” ainda nosa. O es-
não tinha sido usada, e foi formu- critor aos
lada por pessoas que não estavam Hebreus diz: “… deixemos todo
na Igreja, para designar os seguido- embaraço, e o pecado que tão de
res de Jesus. Os discípulos foram perto nos rodeia, e corramos com
chamados de cristãos, ou seja, as paciência a carreira que nos está
pessoas de fora é que deram este proposta, olhando para Jesus, autor
nome aos discípulos, tamanha a e consumador da fé…”(Hb 12.1, 2).
sua semelhança com Jesus. Preci- 2. Vida Cristã é viver o amor
samos nos identificar de tal forma de Jesus – Jesus disse em Marcos
com aqueles ensinos e conceitos, 12.30-31: “Amarás, pois, ao Senhor
para que façamos jus ao mesmo teu Deus de todo o teu coração, e
título. Vida Cristã é muito mais que de toda a tua alma, e de todo o teu
fazer parte de uma Igreja, ter uma entendimento, e de todas as tuas
credencial, ou ter uma religião. forças; este é o primeiro manda-
1. Vida Cristã é renúncia – Se- mento. E o segundo, semelhante a
gundo o Dicionário Aurélio da Lín- este, é: Amarás o teu próximo como
gua Portuguesa, a palavra renún- a ti mesmo. Não há outro manda-
cia significa literalmente desistir de mento maior do que estes”. Esses
algo, abdicar, recusar, etc... “Assim, dois mandamentos são, portanto,
pois, qualquer de vós, que não re- a base da vida cristã. Vemos assim

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que amar é o grande mandamento, de Deus para a salvação de todos
imprescindível para quem deseja os homens.
conhecer e servir a Deus.  O amor Compromisso envolve coração,
é então uma condição para que ve- paixão, entrega. Se Deus não for o
nhamos a conhecer a Deus e, tam- nosso maior tesouro, não consegui-
bém, para sermos discípulos dEle. remos abrir mão de algum prazer
É a marca dos que seguem a Cristo. transitório para nos dedicarmos a
Jesus vincula as duas leis do Ele. Isso porque onde estiver o nos-
amor. Ele eleva o significado do so tesouro aí estará o nosso cora-
mandamento do amor ao próximo ção (Mt 6.21).
ao colocá-lo ao lado do mandamen-
Que tipo de cristão temos sido?
to do amor a Deus. A ágape consis-
te de boa vontade, benevolência Temos renunciado o pecado, o
ilimitada em favor do próximo, ins- mundo e a nossa natureza terre-
pirada pela fonte do amor – Deus, na? A nossa vida está em perfeita
por meio da ação do Espírito, que coerência com a palavra de Deus?
nos transforma à imagem de Cris- Temos amado a Deus e ao Próxi-
to. O amor deve governar todos os mo? Temos vivido um cristianismo
nossos atos. superficial, ou de compromisso com
Deus? Faça um exame introspecti-
3. Vida Cristã é compromisso
vo neste momento da sua vida com
– É inconcebível uma vida cristã
sem que haja um compromisso Deus e decida viver uma vida cristã
com Cristo. Compromisso este à semelhança de Cristo.
que é muito mais que ir ao templo,
cantar, contribuir e fazer orações. Pr. Marcos Zumpichiatte Miranda
Na verdade, é ser corpo, é partici- Redator da Revista P&V
par, é sentir-se responsável, é en- Diretor do Departamento de Educação
tender que faz parte de um projeto Religiosa da CBF

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APRESENTAÇÃO
A vida cristã tem a vocação de ser Para se viver tempos melhores,
uma fonte inesgotável de renovação. numa perspectiva de presente e fu-
A Bíblia, embora seja um livro antigo, turo, será inevitável o retorno ao pas-
distante historicamente, é plenamen- sado, garimpando nas profundezas
te capaz de promover hoje, em quem das Escrituras princípios eternos.
a lê, todas as condições para ser Este é o propósito das lições que
uma pessoa melhor, realizada e feliz. serão estudadas, pois cremos que
Seus ensinos não envelhecem, não os preceitos da Palavra podem nos
ficam ultrapassados. Há uma atuali- moldar e nos capacitar a influenciar
dade impressionante, que transcen- o mundo em que vivemos, dando
de gerações irretocavelmente, pois sentido real à vida cristã.
emana da atemporalidade de Deus. Bom estudo!

QUEM ESCREVEU
Elildes Junio Macharete Fonseca, casado com Thaís
Caetano de Miranda Fonseca e pai de Elisa Miranda Fon-
seca, é pastor titular na Primeira Igreja Batista no Bairro
São João – São Pedro da Aldeia/RJ. Doutor em Teologia
pela PUC-Rio; Mestre e Bacharel em Teologia pelo Se-
minário do Sul; licenciado em Letras (português/grego)
pela UFF; graduado em Liderança Avançada pelo Instituto
Haggai. É professor no Seminário Teológico Ministerial
Batista Litorâneo e no Seminário Teológico Batista da
Região dos Lagos. Atualmente, é membro do Conselho
Deliberativo da Convenção Batista Fluminense e pre-
sidente da Associação Batista Litorânea Fluminense.
(Autor das lições 1, 2, 4, 6, 8, 10 e 12.)

Matheus Dutra Rebello, casado com Thaís Lemos


Ribeiro Rebello e pai de Max Ribeiro Rebello, é pastor ad-
junto na Primeira Igreja Batista no Bairro São João – São
Pedro da Aldeia/RJ. Bacharel em Teologia pelo Seminário
Teológico Batista Gonçalense; graduado em Liderança
Avançada pelo Instituto Haggai; licenciando em História
pela Universidade Estácio de Sá. É professor no Seminá-
rio Teológico Ministerial Batista Litorâneo e no Seminário
Teológico Batista da Região dos Lagos. Atualmente, é
membro do Conselho Deliberativo da Convenção Batista
Fluminense. (Autor das lições 3, 5, 7, 9, 11 e 13.)

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DATA DO ESTUDO

LIÇÃO 1
Texto Bíblico: Salmo 119.11

TUDO O QUE A PALAVRA


PODE OFERECER

Para nós, cristãos, o estudo da crituras, com o propósito de viver-


Bíblia não se limita a apurar o que mos de acordo com a sua doutrina.
ela diz e o seu significado. É essen- Por isso, não basta ler a Bíblia,
cial ir além, pois temos como ob- é preciso saber ler. O eunuco etío-
jetivo aplicar os ensinos bíblicos à pe, administrador da rainha, esta-
vida. Queremos conhecer e enten- va lendo as Escrituras, mas sem
der o conteúdo das Sagradas Es- o saber (At 8.26-35). Ele lia, mas

12
não entendia. Leitura sem entendi- gidos pelo Espírito Santo. Tem por
mento não alcança o alvo, não pro- finalidade revelar os propósitos de
duz o efeito necessário. Deus, levar os pecadores à salva-
Filipe foi obediente à voz do ção, edificar os crentes e promover
Espírito (v.29), aproximando-se da a glória de Deus. Seu conteúdo é
carruagem e perguntando ao eunu- a verdade, sem mescla de erro, e
co: “entendes o que estás lendo?” por isso é um perfeito tesouro de
(v.30). Com franqueza, a resposta instrução divina. Revela o destino
foi dada com outra pergunta: “como final do mundo e os critérios pelo
qual Deus julgará todos os ho-
poderei entender, a não ser que al-
mens. A Bíblia é a autoridade única
guém me ensine?” (v.31).
em matéria de religião, fiel padrão
Esse episódio reforça a ideia de pelo qual devem ser aferidas as
que não basta ler. Para uma aplica- doutrinas e a conduta dos homens.
ção correta da Palavra, desfrutando Ela deve ser interpretada sempre à
de tudo o que ela pode oferecer, é luz da pessoa e dos ensinos de Je-
imprescindível uma correta inter- sus Cristo” 2.
pretação. A leitura da Bíblia poderá A palavra “Bíblia” vem do grego
ser um desastre e comprometer a e significa, literalmente, “livros”. Os
vida cristã se isso não acontecer. livros da Bíblia foram escritos origi-
Que passos devemos dar para nalmente em peças separadas de
interpretar corretamente a Bíblia? material próprio para a escrita da-
quele tempo. Os livros individuais
A importância da Bíblia foram usados independentes uns
dos outros durante muitos anos.
A Bíblia é o livro mais importan- Posteriormente, os 39 livros do An-
te que já se escreveu, porque é o tigo Testamento e os 27 do Novo
único registro divinamente inspira- Testamento foram reunidos num só
do da revelação que Deus fez de si volume. Mais de 1.500 anos se pas-
mesmo e de sua vontade1. saram nesse processo de escrita e
A nossa Declaração Doutrinária reunião dos 66 livros da Bíblia3.
afirma que “a Bíblia é a Palavra de Apesar de sua variedade, a Bí-
Deus em linguagem humana. É o blia revela uma unidade maravilho-
registro da revelação que Deus fez sa. Todos os livros da Bíblia têm
de si mesmo aos homens. Sendo seu centro em Jesus Cristo4. Ele é
Deus seu verdadeiro autor, foi es- o critério pelo qual a Bíblia deve ser
crita por homens inspirados e diri- interpretada.
1- VIERTEL, Weldon E. A Interpretação da Bíblia. Rio de Janeiro: JUERP, 1975, p.17.
2- Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira. Disponível em www.batistas.com.
3- Ibidem, p.19.
4- BERKHOF, Louis. Princípios de Interpretação Bíblica. São Paulo: Cultura Cristã, 2000, p.51.

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3. Considere o contexto. Dizem
Alguns princípios para por aí que “texto fora de contexto é
interpretar a Bíblia pretexto”. Realmente, um texto fora
do seu contexto pode ser uma porta
Estamos conscientes de que para a heresia (doutrina falsa). Tex-
a Bíblia é o livro mais importante tos isolados podem ser úteis, mas
para um cristão. Tamanha preciosi- quando lidos dentro do contexto
dade requer elevado zelo na inter- são bem mais proveitosos.
pretação. Nunca é demais lembrar O contexto de uma só palavra,
que uma interpretação equivocada muitas vezes, precisará ser anali-
comprometerá a aplicação das ver- sado em três níveis. Por exemplo:
dades bíblicas à vida. a palavra “casa” terá um significa-
1. Procure conhecer o signifi- do dependendo do contexto. “Casa”
cado das palavras. Quem nunca poderá significar moradia ou “casa
teve dificuldade para entender uma de botão”. O contexto esclarecerá.
palavra na Bíblia? Não se sinta infe- Vamos aos três níveis de con-
rior por isso. Ocorre com todos nós. texto: a) inicial – devemos atentar
Quando isso acontece, devemos para o contexto inicial, ou seja, tudo
recorrer aos dicionários. Isso mes- aquilo que está bem perto da pala-
mo! Podemos pedir socorro a um vra no próprio versículo; b) do pa-
dicionário da Língua Portuguesa e, rágrafo – há palavras que só serão
ainda, aos dicionários da Bíblia, que entendidas no contexto de um pa-
nos ajudam a entender o sentido das rágrafo; c) do livro – determinadas
palavras no seu contexto. Pesquisar palavras ou expressões bíblicas de-
em outra tradução bíblica também penderão de todo o livro para serem
pode ajudar. O importante é que entendidas.
não deixemos para trás palavras Muitas vezes, o costume da épo-
sem o devido entendimento. ca clareia diante dos nossos olhos
o contexto. Quando Jesus disse
2. Crie o hábito de fazer per-
“está consumado” (Jo 19.30), Ele
guntas ao texto. Há perguntas estava anunciando algo mais que o
que nos ajudarão a conhecer as fim da crucificação. Esta expressão
circunstâncias que cercavam os é a mesma que era colocada nos
livros da Bíblia. Perguntas como: recibos de impostos para declarar
Quem escreveu esse livro? Em que que todo o débito tinha sido liquida-
época foi escrito? Qual a motivação do. O significado é que a obra da
(o que levou) do escritor para fazer redenção estava terminada.
esse registro? De que trata o livro? 4. Dificuldades pontuais de-
Para quem foi escrito? vem ser analisadas à luz da ver-
Fazer perguntas ao texto bíblico dade geral. “A verdade não contra-
é um caminho que nos levará ao diz a verdade. Às vezes, um texto
bom exercício da pesquisa. isolado pode dar uma impressão

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que outros textos ajudam a enten- Assim, também, deve ser o nos-
der melhor. Assim, por exemplo, so contato com a Bíblia. Naquele
Marcos 16.16 parece colocar o tempo, o paladar do mel era o mais
batismo como requisito para a sal- apurado que se tinha conhecimen-
vação, quando muitos outros tex- to. O sabor do mel era uma expe-
tos (como Efésios 2.8-9, Tito 3.5 e riência indescritível. Se eu fosse
1Coríntios 1.10-17) mostram bem fazer uma declaração como a do
claramente que a salvação decorre salmista, considerando a minha ex-
tão somente da fé. Em outras pa- periência, possivelmente diria: as
lavras, os outros textos permitem suas palavras são maravilhosas ao
uma compreensão mais profunda meu paladar, mais saborosas que
de Marcos. Muitas doutrinas equi- uma picanha ao ponto.
vocadas nascem do esquecimento Queremos desfrutar da Palavra
deste princípio” 5. nesse nível profundo e prazeroso.
5. Interprete sua experiência Queremos mergulhar nela e extrair
tudo o que ela oferece. Por isso, de-
à luz da Bíblia, e não o contrário.
vemos nos empenhar para interpre-
As experiências de cada um são tar corretamente as Escrituras.
importantes para o crescimento da
fé. No entanto, essas experiências Que tal tomarmos duas deci-
devem ser interpretadas à luz da Bí- sões hoje? Primeira: quero ser um
blia. Fazer o contrário pode levar a melhor intérprete da Bíblia Sagra-
equívocos perigosos, tornando me- da. Vou me dedicar, diariamente,
nor a verdade revelada por Deus. à leitura atenciosa da Palavra. Se-
gunda: colocarei minha vida à dis-
6. A Bíblia registra a verdade posição de Deus para ajudar outras
de Deus. Devemos ir ao texto sa- pessoas a lerem corretamente a Bí-
grado com esta afirmação na men- blia, conforme o exemplo do episó-
te. Ao caminhar pelas páginas bíbli- dio entre Filipe e o eunuco. Empe-
cas, trilhamos pela verdade a nós nhar-me-ei para que o meu próximo
revelada pelo próprio Deus. A na- também desfrute de tudo o que a
tureza de Deus não muda (Ml 3.6; Palavra tem para oferecer.
Hb 13.8). Contudo, Ele pode modi-
ficar o modo como seu plano será
realizado (Jn 3.9-10). Segunda: Atos 8.26-35
Terça: Salmos 119.97-104
Para pensar e agir: Quarta: Salmos 119.105-112
Leitura Diária

O relacionamento do salmista Quinta: 1Pedro 1.23-25


com a Palavra é motivador: “Como Sexta: 1Timóteo 3.16
tuas palavras são doces ao meu pa- Sábado: Hebreus 1.1-2
ladar! Mais doces do que mel em Domingo: Salmos 119.89
minha boca!” (Sl 119.103).
5 - AZEVEDO, Israel Belo de. Dia a dia com Deus através da Bíblia. Rio de Janeiro: MK, 2003 (anexo).

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DATA DO ESTUDO

LIÇÃO 2
Texto Bíblico: Tiago 1.22-25

A MELHOR FORMA DE SE
VIVER A PALAVRA

Na lição anterior, vimos que prático, aplicável ao cotidiano. Tia-


a Bíblia é o livro mais importante go nos alerta para o perigo de nos
para nós. Também fomos lembra- tornarmos religiosos frios e ritua-
dos de que o ideal da vida cristã listas, no pior sentido da palavra. É
não é se relacionar com a Bíblia angustiante quando nos percebe-
apenas teoricamente; é preciso mos bons no discurso e ruins na
ler e praticar. Por isso, a Bíblia é prática. Noutras palavras, quando
regra de fé e prática (conduta). nos tornamos exemplares na teo-
Tiago nos ensina que a melhor ria, nas convicções abstratas e
forma de se viver a Palavra é ou- conjecturais, mas somos vergo-
vir e praticar. nhosos nas atitudes.
Ao lermos Tiago, nos depa- Tiago, como um professor, nos
ramos com um texto que fala da leva a imaginar uma pessoa que
“religião pura” (1.27) como algo vai ao culto no templo, ouve tudo

16
o que ali é dito, e pensa que por ter Nessa linha de raciocínio, afir-
ouvido a leitura bíblica, a pregação mava o Pr. Tércio Gomes Cunha:
e as músicas já se tornou um bom “Se você não trouxe Deus de casa,
cristão, julgando ser suficiente. Uma não vai encontrá-lo na igreja”. Ele
pessoa assim ignorou a verdade de não estava dizendo que Deus não
que o que sê lê e se diz no templo está no templo. Sua preocupação
precisa ser praticado na vida. era mostrar quão pobre vida cristã
É possível confundir o “ir ao possui aquele que dela se lembra
templo” e o “ouvir e ler a Bíblia” apenas quando está presente nos
com a vida cristã. Entretanto, essa cultos coletivos da Igreja.
confusão nos impede de viver ver-
dadeiramente a Palavra, porque O ouvinte que se limita a ouvir
é essencial que se transforme em
ação o que ouvimos e aprendemos Voltemos ao quadro apresenta-
na Bíblia. do por Tiago: aquele que se limita a
ouvir a Palavra é como uma pessoa
Quando não aplicamos à vida que contempla o próprio rosto no
o que aprendemos na Palavra, so- espelho (v.23).
mos como uma pessoa que vai ao
culto no templo, assimila o ideal Minha saudosa avó dizia que a
do que deve ser e, ao sair, logo se gente não deve falar que a nossa
esquece. foto está feia, porque é exatamente
o nosso rosto. O espelho é assim
Tiago fala sobre alguém que
contempla o próprio rosto no espe- também. Nele, vemos a nossa ima-
lho, mas que se esquece rapida- gem realmente como ela é.
mente de quem é, quando não está Para Tiago, ler a Palavra é como
diante dele (v.23-24). se colocar diante de um espelho.
Não devemos viver a Palavra de A Bíblia mostra quem somos, com
Deus teoricamente, somente como precisão. Como bem disse o Pr. Billy
ouvintes iludidos (v.22). Pelo con- Graham, “o homem é precisamente
trário, devemos atentar bem para o que a Bíblia diz que ele é”.
as Escrituras, com perseverança e Embora o espelho reflita a ima-
prática zelosa (v.25). gem de quem somos e como esta-
Ouvintes esquecidos, via de re- mos, ele não muda a nossa fisiono-
gra, são bons cristãos no domingo mia. A simples leitura da Bíblia não
e lamentáveis maus exemplos nos será um ato mágico que mudará
outros dias da semana, fora das nossas vidas. Por isso que o ou-
paredes do templo. Praticantes ze- vinte que se limita a ouvir torna-se
losos também são bons cristãos no um ouvinte esquecido. Ele até con-
templo, porque já são em todos os segue ver as suas falhas, mas não
outros lugares. age para mudar.

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Na Palavra, tomamos conheci- mente inspirada e proveitosa para
mento de quem Deus é e da sua ensinar, para repreender, para cor-
santidade. Esse conhecimento ad- rigir, para instruir em justiça”. Em
quirido deve nos levar à santidade. 2Pedro 1.21 aprendemos que “a
É isso que Deus espera de nós, que profecia nunca foi produzida por
sejamos santos. vontade humana, mas homens fa-
A. W. Tozer disse que “santos laram da parte de Deus, conduzi-
não santos são a tragédia do cris- dos pelo Espírito Santo”.
tianismo”. Esse é o retrato do ouvin- A inspiração divina assegura a
te que se limita a ouvir. inerrância da Bíblia. Quando fala-
mos em inspiração das Escrituras,
O ouvinte praticante zeloso estamos dizendo que os escritores
foram capacitados e dominados
Tiago fala do praticante zeloso pelo Espírito Santo na produção do
como alguém que “atenta bem” para texto sagrado. Embora escrita por
a Palavra (v.25). Esse tipo de leitor mãos humanas, com suas caracte-
é dedicado ao exame das Escritu- rísticas peculiares, a Bíblia nasceu
ras. O leitor desinteressado deixa sob a influência do Espírito Santo,
transparecer que para ele a Bíblia por isso é a expressão da mente e
é um livro banal. Já o zeloso, verifi- da vontade de Deus para conosco.
ca cuidadosamente os ensinos das Mesmo que o Espírito Santo não
Escrituras, porque tem consciência tenha escolhido as palavras para
do seu valor. os escritores, é evidente que Ele
Não há dúvidas de que a me- as escolheu por intermédio dos
lhor forma de se viver a Palavra é escritores1.
praticando-a. A Bíblia tem qualida- 2. A Bíblia é infalível. A Palavra
des que se constituem em pilares de Deus nunca falhou e jamais fa-
inabaláveis para a sustentação de lhará. Tudo o que a Bíblia diz é certo
uma vida obediente ao que ela diz. como o ar que respiramos. Como o
Vejamos algumas dessas caracte- testemunho do próprio Cristo: “San-
rísticas essenciais da Palavra: tifica-os na verdade, a tua palavra é
1. A Bíblia é inerrante. A Pala- a verdade” (Jo 17.17).
vra de Deus é perfeita. A afirmação Realmente a Bíblia é infalível em
do salmista se constitui num tes- tudo o que diz. Há muitas evidên-
temunho da própria Bíblia a seu cias, dentre elas: a) as promessas
respeito: “A lei do Senhor é perfei- são rigorosamente observadas; b)
ta” (Sl 19.7). Também Provérbios as profecias são cumpridas; c) o
30.5 diz: “Toda a palavra de Deus plano de salvação se desenvolve,
é pura”. Em 2Timóteo 3.16 lemos mesmo com o trabalho contrário
que “toda a Escritura é divina- das trevas.
1 - BANCROFT, E. H. Teologia Elementar. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1986, p.9.

18
É emocionante afirmar que alívio e motivação para suportar e
a nossa própria vida é prova da vencer os desafios; ânimo e exorta-
infalibilidade da Bíblia. O propósito ção para continuarmos fiéis.
de Deus, revelado na Bíblia, é
restaurar o ser humano perdido no Para pensar e agir:
pecado, “para nos remir de toda
a maldade e purificar para si um A experiência de Jeremias com
povo todo seu, consagrado às boas a Palavra de Deus é um estímulo
para todos nós: “Quando as tuas
obras” (Tt 2.14). Cada vida transfor-
palavras foram encontradas, eu as
mada é um testemunho de que a comi; e elas eram para mim o re-
Bíblia é infalível. gozijo e a alegria do meu coração;
3. A Bíblia é atual. Sabemos que pois levo o teu nome, ó Senhor
a Bíblia é um livro histórico, antigo, Deus dos Exércitos” (Jr 15.16).
mas, incrivelmente, suas palavras Ezequiel também nos influencia
são para hoje, assim como foram positivamente: “E disse-me: Filho
para ontem e serão para as gera- do homem, come e enche o estô-
ções futuras, enquanto a humani- mago com este rolo que te dou.
dade caminhar nesta terra. A Bíblia Então o comi, e minha boca ficou
não fica ultrapassada. Nenhum ou- doce como o mel” (Ez 3.3).
tro livro consegue a mesma proeza. Hipócrates, o “pai da medicina”,
A própria verdade bíblica nos afirmou que “somos o que come-
esclarece: “Fostes regenerados mos”. Isso é uma verdade procla-
não de semente perecível, mas mada por muitos profissionais da
imperecível, pela palavra de Deus, área da saúde. Se somos o que co-
que vive e permanece. Porque toda memos, podemos imaginar a saúde
pessoa é como a relva, e toda sua espiritual de Jeremias e Ezequiel.
glória, como a flor da relva. Seca- Eles comeram a Palavra!
-se a relva, e cai a sua flor, mas a Façamos da Bíblia um alimento
palavra do Senhor permanece para diário, pois só ela é capaz de nu-
sempre. E essa é a palavra que vos trir a nossa vida para uma conduta
foi evangelizada” (1Pe 1.23-25). aprovada por Deus.
É natural um livro perder a sua
atualidade e importância, caindo Segunda: 2Timóteo 3.16-17
em desuso. A Bíblia é sobrenatural,
Terça: Mateus 7.24-28
porque não é apenas uma fonte
de consulta histórica, mas uma Quarta: Salmos 1.1-6
Leitura Diária

obra que tem respostas para hoje, Quinta: Salmos 119.1-8


porque trata de problemas que são Sexta: Salmos 119.9-16
pertinentes a todas as gerações. Sábado: Salmos 119.137-144
Ao ler a Palavra encontramos Domingo: Hebreus 4.12
alento e consolo para nossas dores;

19
DATA DO ESTUDO

LIÇÃO 3
Texto Bíblico: Mateus 5.1-12

UMA NOVA FORMA


DE SER FELIZ

Existem jeitos diferentes de se Diante disso, Jesus disse: “Em


ver uma mesma coisa. Quando verdade vos digo que esta viúva
isso acontece, dizemos que elas pobre deu mais do que todos os
estão sendo vistas por perspec- que colocaram ofertas no cofre”
tivas diferentes. Ou seja, quando (Mc 12.43). Aí está o absurdo.
vemos uma mesma situação ou Qualquer um, vendo a mesma
objeto através de pontos de vista situação que Jesus, diria que
diferentes o significado pode va- a oferta da viúva era de menor
riar. O escritor americano Gary valor. Por que as duas míseras
Zukav observa: “O que é absurdo, moedas valiam mais? Porque, na
e o que não é, pode ser apenas ótica do Mestre, não era o valor
uma questão de perspectiva”. do dinheiro que importava, e sim
O texto de Marcos 12 traz um o coração de quem dá.
aparente absurdo desses. Jesus É sobre isso que vamos estu-
observava pessoas ricas depo- dar hoje: observar a vida através
sitando muito dinheiro no cofre da perspectiva de Jesus. Vamos
das ofertas. Até que uma viúva entender o Seu ponto de vista a
pobre colocou duas moedinhas. respeito do “ser feliz”.

20
sentem que sua vida espiritual nun-
O que é ser Bem Aventurado ca é aceitável perante a grandeza
O início do Sermão do Monte é do Altíssimo.
marcante pela forma que ele traduz Contrária a esse ensino de Je-
o ser feliz, usando experiências de sus, era a postura orgulhosa dos
vida que quase ninguém conside- religiosos de sua época. Seus co-
raria dignas. Na visão judaica, ser rações eram soberbos por se consi-
pobre, ter vida sofrida, ser religioso derarem valorosos cumpridores das
inconstante, não ser rigoroso no leis, recompensados por Deus com
cumprir as leis, tolerar pecadores e riquezas e virtudes. Como herdarão
outras coisas do gênero jamais se- o Reino dos Céus esses corações
riam virtudes. Pelo contrário, seriam entorpecidos de vaidade? Esse
mazelas da reprovação de Deus. Reino é para aqueles que reconhe-
“Como são felizes...” é uma cem sua pobreza espiritual e não
forma de entendermos a expressão para os soberbos da fé.
“bem aventurados”. É uma excla-
mação de profunda alegria. Uma Os sinceramente tristes
alegria que “...não pode manchar “Bem-aventurados os que cho-
nem o sofrimento, nem a tristeza e ram, pois serão consolados.” (Mt 5.4)
nem o desamparo, nem a perda de
O “chorar” deste texto fala de
algo ou alguém que queremos mui-
uma tristeza que começa no co-
to. É a alegria que brilha através das
ração e termina em olhos cheios
lágrimas e que nada, nem na vida
nem na morte, pode arrebatar”1. de lágrimas. Uma dor comparável
à dor da perda de um ente queri-
Essa alegria tão profunda e tão do. Que causa comoção intensa e
entusiasmada ser atribuída a mi-
inconsolável.
seráveis, pobretões e infiéis é algo
confuso, mas também intrigante. De que forma a tristeza pode ser
Vamos entender como podem ser vista como louvável? Quando ela é
felizes os infelizes. fruto da consciência do seu próprio
pecado. O sincero pesar que nos
Os espiritualmente necessitados leva ao arrependimento. “Quando
“Bem-aventurados os pobres alguém percebe que está falido de
em espírito, pois deles é o Reino todos os bens espirituais que o tor-
dos céus.” (Mt 5.3) nariam aceitável a Deus, irá chorar
São aqueles que reconhecem sobre o fato”2. O consolo para esse
sua pobreza espiritual. Sua coração pesaroso é o perdão e a re-
inadequação diante de Deus. Esses conciliação trazidos por Jesus.
1 - BARCLAY, William. The Gospel of Mattew. Louisville, Kentucky: Westminster John Knox Press, 1964.
2 - EARL, Ralph; SANNER, A. Elwood; CHILDERS, Charles L. Comentário Bíblico Beacon. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.

21
Os submissos nós, religiosos de hoje, não parece
“Bem-aventurados os humildes, ser merecedor de elogios admitir
pois herdarão a terra.” (Mt 5.5) que se tem pouco de Deus dentro
de nós. Mas os que têm essa fome
Os mansos são submissos à e essa sede incuráveis encontram
vontade de Deus. O humilde se abundante justiça em Jesus. São
opõe ao orgulhoso, cheio de si e se- felizes porque nunca vai faltar.
nhor da razão. Alguém confiante em
suas capacidades, que sente ser Os que ofertam perdão
tão independente que se esquece “Bem-aventurados os miseri-
de se submeter a Deus. cordiosos, pois alcançarão miseri-
É uma ilusão acreditar que se córdia.” (Mt 5.7)
tem domínio completo do próprio Você se considera alguém que
caminho da vida. Que pode evitar precisa da misericórdia de Deus? Se
embaraços ou decepções. E se es- você disse sim, significa que você
ses forem os caminhos de Deus? sabe que comete erros, mas precisa
Serás submisso a ponto de se sub- que Deus tenha certa consideração
meter ou rejeitarás qualquer coisa por sua situação. “Senhor, errei por-
que signifique reconhecer suas li- que sou fraco”. “Senhor, não dese-
mitações? Os herdeiros de Deus java o mal, apesar de tê-lo feito”.
vivem o caminho de Deus na forma Você já deve ter dito coisas assim.
de Deus. Isso que Deus faz por nós, devemos
também fazer pelos outros.
Os “vazios” da salvação
Para alguns, ser misericordioso
“Bem-aventurados os que têm com pecadores é dar anuência ao
fome e sede de justiça, pois serão pecado. Defendem que pecados
saciados.” (Mt 5.6) cometidos precisam de punição.
No tempo de Jesus era comum Nesse caso, alguém que usa da
ver pessoas que passavam dias, misericórdia e poupa alguém da
até semanas, comendo uma quan- penalidade pode ser visto como in-
tidade de comida tão pequena que fiel aos valores de Deus. Errado! A
a sensação de fome nunca pas- misericórdia é própria daqueles que
sava. Igualmente comum eram os se sentem devedores perdoados.
sedentos, devido a escassez da Se você não é misericordioso a sua
água. Fome e sede eram tragédias confissão de pecado foi uma farsa.
diárias. E se essas necessidades
fossem na alma? Os que buscam pureza interior
Fome e sede de justiça sentem “Bem-aventurados os limpos de
os que se alimentam de Deus. Uma coração, pois verão a Deus.” (Mt 5.8)
carência quase incurável. Para um No início de nossa lição nos
religioso daquela época, e para lembramos da oferta da viúva po-

22
bre. Jesus viu nela um coração lim- Enquanto para uns o sofrimen-
po no ato da entrega da oferta, en- to é fruto de vida em pecado, nas
quanto os ricos demonstravam uma palavras de Jesus, o sofrimento
marcante pobreza interior. Talvez os pode significar que algo de certo
ricos pensassem: “quanto mais eu está sendo feito. A justiça de Deus
der mais serei abençoado”. Esse é vivida na prática causa problemas e
o erro. Não é o quanto se faz, mas tensões para aqueles que a exerci-
tam. Isso porque a visão de justiça
o por que se faz. de Deus é oposta a do mundo, que
O caminho para um encontro reage violentamente tentando silen-
com Deus passa por rever as inten- ciar a majestosa graça de Jesus.
ções do coração. Um coração mal O sofrimento não é um mal quan-
intencionado não produz coisas ex- do se sofre lutando pela causa correta.
celentes. Um coração puro prioriza
o ser puro e não o fazer religioso. Para pensar e agir:
Os promotores da paz divina Você deve ter percebido que nin-
guém consideraria os pobres de es-
“Bem-aventurados os pacifica-
pírito, os que choram, os humildes,
dores, pois serão chamados filhos os famintos, os sem ambição, os
de Deus.” (Mt 5.9) simplórios e os atribulados pessoas
A paz divina é a realização de realmente felizes. Mas a perspectiva
tudo aquilo que é bom e desejável. de Jesus transformou nossa forma
Não se trata da inexistência de difi- de ver. É mais fácil buscar a felicida-
culdades ou conflitos. de que aparece por fora. No entan-
to, nem sempre ela expressa a ver-
Alguns podem, equivocadamen- dade interior. A felicidade real tem a
te, pensar que o pacificador não ver com a sua mente e seu coração
luta as batalhas espirituais. A arma harmonizados com Deus. Seja na ri-
do pacificador é promover a paz. “É queza ou na pobreza, na conquista
o homem que busca, de todas as ou na derrota, na alegria ou na tra-
maneiras possíveis, fazer com que gédia, feliz é aquele que anseia por
o mundo seja um lugar onde todos Deus e tem prazer no Seu caminho.
os homens possam ser felizes”3. Ele
está dedicado a criar relações jus- Segunda: Salmos 33.12
tas e saudáveis com todos. Esse,
Terça: 1Pedro 3.8-9
que age a exemplo de Deus, é seu
filho legítimo. Quarta: Mateus 18.1-4
Leitura Diária

Quinta: Marcos 12.41-44


Os que pagam o preço da Justiça Sexta: Salmo 51
“Bem-aventurados os persegui- Sábado: Mateus 5.21-24
dos por causa da justiça, pois deles
Domingo: Filipenses 4.10-13
é o Reino dos céus.” (Mt 5.10)
3 - BARCLAY, William. The Gospel of Mattew. Louisville, Kentucky: Westminster John Knox Press, 1964.

23
DATA DO ESTUDO

LIÇÃO 4
Texto Bíblico: Mateus 7.7-8; 21.22

ORAÇÕES QUE NASCEM


DO CORAÇÃO

Orar parece ser uma tarefa en- desanimar (Lc 18.1). A exortação
fadonha para muitos. Outros se de Jesus mostrava que Deus faz
sentem culpados por terem uma justiça aos seus escolhidos, que
vida de oração oscilante. Na ver- clamam a Ele incessantemente,
dade, orar é um prazeroso princí- mesmo que a resposta pareça es-
pio cristão quando vivido da forma tar demorando (Lc 18.7).
correta. Orações mecânicas, va- A pergunta que encerra a pará-
zias de sentido, devem ser supe- bola, no entanto, me deixa com o
radas por orações que nascem do coração apertado: “Quando vier o
coração. As orações nascidas do Filho do homem, achará fé na ter-
coração serão honestas, sinceras, ra?” (Lc 18.8). Teremos paciência
relacionais. e honradez diante da prática cons-
Lucas nos presenteia com a tante da oração? Como cultivar
informação de que Jesus contou uma vida prazerosa de oração?
uma parábola para ensinar so- Achará, o Filho do homem, essa
bre o dever de orar sempre, sem fé em nós?

24
Igreja”. A resposta inesquecível do
Um exemplo motivador Pr. Morris foi: “Eu tenho orado. Deus
me tem assegurado de que Ele fará
Conviver com “homens de ora- acontecer algo especial durante es-
ção” é uma bênção. Lembro-me, com tas reuniões”.
profunda gratidão, do saudoso Pr.
Ronald Rutter, meu professor no Se- Pr. Sammy, ancorado na fé do
minário do Sul. Oração e respiração Pr. Morris, pregou na primeira noite,
se confundiam na vida desse servo. com o templo vazio e nenhuma res-
A sua conduta exalava piedade! posta. Seu olhar para o Pr. Morris
era como uma lembrança: “eu lhe
Certo dia, quando seguia para falei”. Pr. Morris sorria e falava: “eu
uma aula, as lágrimas desciam no estou orando”.
meu rosto ao recordar a aula ante-
rior do Pr. Rutter. Pedi a Deus que Na noite de quinta-feira, o Pr.
Sammy pregou para umas cinquen-
me fizesse uma pessoa como ele,
ta pessoas. No apelo, um jovem da
que nutria prazer na oração.
Igreja foi ao púlpito, orou com o Pr.
No intervalo, fui à biblioteca e, Morris e pediu que a Igreja orasse
mais uma vez, pedi a Deus para por ele, confessando o seu pecado.
falar comigo sobre o valor de uma Houve um grande movimento de
vida prazerosa de oração. Tenho quebrantamento e a plataforma fi-
certeza de que o Senhor me fez pe- cou repleta de pessoas que vinham
gar o livro “O Fator Oração”, do Pr. confessar seus pecados e buscar a
Sammy Tippit. Começei a ler a obra justiça de Deus.
e fiquei maravilhado com a expe- Na noite seguinte, o templo esta-
riência do autor1. va quase cheio. Conversões acon-
No final da década de 60, o Pr. teceram. Até que no domingo, com
Sammy foi convidado pelo Pr. Mor- o templo lotado, o Pr. Morris disse
ris para pregar mensagens evan- ao Pr. Sammy que as conferências
gelísticas numa pequena Igreja deveriam continuar no campus da
Batista em Monroe, Louisiana. Ele Universidade. O Pr. Morris disse
estava desanimado, porque Igreja que estava orando e que deveriam
e comunidade pouco se interessa- falar com o proprietário da TV local
vam por assuntos espirituais. e pedir um tempo para dizer o que
Pr. Morris o convidou para par- Deus estava fazendo na cidade.
ticipar de uma reunião de oração Foram concedidos dois tempos de
com os jovens. Poucos estavam quinze minutos. Deus abriu outras
presentes e ele disse ao Pr. Morris: portas, e as conferências se trans-
“Penso que deveríamos cancelar formaram em cruzadas evangelísti-
as conferências evangelísticas. Não cas no maior espaço da cidade.
há interesse. Estaremos perdendo Pr. Sammy olhou para o Pr. Mor-
o meu tempo e o tempo de toda a ris, humilhado, diante da grandeza
1 - TIPPIT, Sammy. O Fator Oração. Trad. Elda G. Zambrotti. 7ª ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1996, p.13-16.

25
de Deus. Ele aprendeu e registrou pelo muito falar. Não vos asseme-
que “a vitória não vem em virtude lheis a eles; pois vosso Pai conhece
dos nossos planos magníficos, nem de que necessitais, antes de o pe-
através de uma publicidade bem dirdes a ele” (Mt 6.6-8).
feita, nem mesmo através de bases Entrar no quarto e fechar a por-
financeiras, mas a vitória vem do ta nos sugere a ideia de intimida-
Senhor”. de, estando a sós com Deus. As
Essa experiência com o Pr. orações feitas no templo são valio-
Morris impulsionou a vida e o mi- sas, mas um cristão não pode viver
nistério do Pr. Sammy Tippit, cujo apenas delas. No templo, falamos
ardor evangelístico é conhecido de com Deus na frente das pessoas.
muitos. Como fez diferença ter um No quarto, ou seja, no momento
exemplo motivador sobre uma vida devocional particular, falamos com
prazerosa de oração! Deus na intimidade que o momento
Com certeza, você conhece al- proporciona. Há coisas que nunca
guém que tem uma intensa vida de falamos diante dos outros.
oração, prazerosamente. Dependa Dependendo da personalidade
do Senhor e alimente-se de exem- da pessoa, orar em público pode
plos assim, porque oração é algo ser um martírio. Obrigar alguém a
que nasce no coração. falar com Deus no microfone pode
causar um trauma, cooperando
Deixando as formalidades para orações mecânicas.
Intimidade põe em segundo Devemos viver a oração como
plano a formalidade. Uma família de fato ela é: uma conversa com o
que se trata formalmente dentro de melhor Amigo, o Deus de nossas vi-
casa, fatalmente, não tem intimida- das, em nome de Jesus. O próprio
de. Há ambientes e situações que Jesus caminhou entre a humani-
exigem formalidade, obviamente. dade com uma vida incessante de
Mas, orações formais podem re- oração. Ele sempre conversou com
produzir fórmulas sem expressar a o Pai, íntima e prazerosamente. Os
verdade do coração. diálogos entre o Pai e o Filho eram
Jesus sempre apresenta o me- diretos e sinceros, ou seja, nasci-
lhor caminho: “Mas tu, quando ora- dos do coração.
res, entra no teu quarto e, fechando
a porta, ora a teu Pai que está em Tipos básicos de oração2
secreto; e teu Pai, que vê o que é
secreto, te recompensará. E, quan- Cada tipo terá seu papel no de-
do orardes, não useis de repetições senvolvimento de uma vida prazero-
inúteis, a exemplo dos gentios; pois sa de oração, pois nenhum tipo de
eles pensam que serão ouvidos oração é mais importante que o outro.
2 - Desenvolvido, com a devida autorização do editor, a partir de FRIZZELL, Gregory. Como desenvolver uma vida poderosa
de oração. Trad. Hedy M. S. Silvado. São Paulo, 2005, p.42-48.

26
1. Louvor e ações de graças. lavra. Meditar é um tipo de oração,
São as maneiras básicas pelas porque orar é se relacionar com
quais adoramos e cultuamos a Deus. Deus, muito mais do que um ritual.
O nosso dia precisa ser permeado Aprofundaremos esse assunto na
de expressões de ação de graças e lição 8.
louvor a Deus, pois adorar ao Pai é o
nosso objetivo principal. Peçamos a Para pensar e agir:
Deus que nos faça crescer no louvor O segredo para orar prazerosa-
e na adoração eficazes. mente é fazê-lo de coração: “Então
2. Confissão. É a maneira me invocareis e vireis orar a mim,
fundamental pela qual recebemos o e eu vos ouvirei. Vós me busca-
perdão de Deus e mantemos uma reis e me encontrareis, quando
vida cheia do Espírito Santo. É a me buscardes de todo o coração”
verdade descrita no Salmo 66.18: (Jr 29.12-13).
“Se eu tivesse guardado o pecado George Müller dirigia um or-
no coração, o Senhor não me teria fanato. Certa manhã, não tinham
ouvido”. Não podemos falhar na nenhum suprimento. Sentaram-se
confissão sincera. à mesa e oraram ao Senhor. Ou-
3. Petição. Quando apresenta- viu-se alguém batendo à porta. Era
mos a Deus nossas necessidades um leiteiro, dizendo que uma roda
e anseios. Embora Deus saiba de de sua carroça havia se quebrado
todas as coisas, devemos chegar a e que resolveu doar todo o leite.
Ele, humildes, conversando sobre o Em seguida, o padeiro da localida-
que necessitamos, pois é gracioso de chegou com pães, dizendo que
para conosco: “Até agora nada pe- a fornada não ficou com o aspecto
diste em meu nome. Pedi, e rece- acostumado, por isso preferiu doar
bereis, para que a vossa alegria seja ao orfanato3. Deus é bom!
plena” (Jo 16.24). Peça, hoje, experiências com
4. Intercessão. É quando ora- Deus através da oração!
mos pelas necessidades dos ou-
tros. É uma missão que deve ser
Segunda: Mateus 6.5-15
cumprida por todos nós, servos do
Senhor. Precisamos orar pelos que Terça: Mateus 7.7-12
ainda não tiveram uma experiência Quarta: Jeremias 33.3
salvadora com Jesus, mas também
Leitura Diária

Quinta: Romanos 8.26-27


pelos nossos, que estão no serviço Sexta: Efésios 6.10-20
do Senhor.
Sábado: Lucas 18.1-8
5. Meditação. Ouvir quietamen- Domingo: 1Tessalonicenses 5.17
te a voz de Deus, refletindo na Pa-
3 - LOBO, H. P. Castro. George Müller: 50 mil orações respondidas. Rio de Janeiro: AEEBAR, 1980, p.49-50.

27
DATA DO ESTUDO

LIÇÃO 5
Texto Bíblico: 1Coríntios 13.1-3

MAIS AMOR, POR FAVOR!

O título da nossa lição é ins- O termo apatia é derivado do


pirado em um movimento artístico grego “pathos” que significa pai-
de São Paulo, iniciado pelo artis- xão. “A-patia” indica, portanto, falta
ta visual Ygor Marotta em 2009, de paixão. Na prática, a apatia tem
que consiste em espalhar pela relação com a ausência de com-
cidade a frase “MAIS AMOR POR prometimento, atitude transforma-
FAVOR” em cartazes e grafites, dora ou carência de amor pelo
chamando a atenção da popula- que se faz. A apatia se tornou uma
ção para a necessidade de mu- solução para o desinteresse; uma
dança na sociedade atual. Dentre porta de saída para a falta de força
tantas razões que motivam esse de vontade. Por exemplo: é mais
movimento (aumento da violên- fácil se perder nas drogas do que
cia, injustiças sociais, tragédias lidar com as frustrações da vida; é
familiares, falta de esperança) eu mais fácil roubar do que conquistar
destaco a apatia presente na vida trabalhando duro; é mais fácil bater
das pessoas. em uma criança do que educá-la.

28
A apatia se manifesta também no renovação da vossa mente, para
desânimo, na depressão e na indi- que experimenteis qual seja a boa,
ferença. Está claro que esse é um agradável e perfeita vontade de
dos males do nosso tempo. Deus” (Rm 12.2). É preciso reviver
no coração a razão original pela
A apatia da vida cristã qual fazemos as coisas. Buscar
sentir novamente a energia da em-
A apatia atinge a vida dos cren-
polgação, o desejo pela relevância
tes também, mas apresenta sin-
e excelência. Significa buscar inten-
tomas um pouco diferentes. Por
exemplo: depois de alguns anos na samente a realização da boa, agra-
Igreja cumprindo sempre a mes- dável e perfeita vontade de Deus
ma rotina, trabalhando sempre nas em nós. E a primeira e principal
mesmas áreas, executando sem- transformação é substituir a apatia
pre os mesmos projetos, usando pelo amor.
sempre as mesmas estratégias, é O amor é virtuoso – Nenhuma
natural que a paixão pelo que se faz outra motivação pode ser mais no-
vá ficando um pouco esquecida. As bre do que o amor. Só ele é pacien-
coisas passam a ser feitas automa- te, pois resiste às falhas das pes-
ticamente. Não percebemos quan- soas, sem desistir delas. Suporta
do nossos hábitos perdem o sentido ofensas e decepções, sem deixar
e as ações perdem o efeito prático. de agir com bondade e nutrir espe-
É o famoso “fazer por fazer” ou o rança. Ele não se envaidece e não
“fazer para ser visto fazendo”. O co- trama o mal contra ninguém. Ocu-
ração não tem mais paixão nem es- pa-se exclusivamente com o bem
perança real em resultados. A rotina estar do outro e está comprometido
é sempre igual: parda e sem brilho. com a verdade e a justiça.
Não traz mais empolgação. Faze-
mos mais para “não deixar furo”. A O amor é poderoso – Só ele
vida religiosa se torna um hábito e tem uma capacidade sobrenatural
não tanto uma convicção. Quando de mudar realidades. Um gesto de
essas coisas acontecerem, tenha amor tem o poder de converter a
a certeza: você está manifestando inimizade em amizade, o desprezo
essa apatia da vida cristã. em respeito, o abandono em aco-
lhimento, a indiferença em compai-
O amor que combate a apatia xão, o pecado em arrependimento
e a punição em perdão. A ação da
O caminho oposto da vida cristã igreja, que confronta diariamente
apática é a incansável busca pela a ação do maligno, precisa estar
renovação de si mesmo: “E não vos dotada deste poder invencível. É a
amoldeis ao esquema deste mun- única estratégia de enfrentamento
do, mas sede transformados pela válida contra a apatia.

29
tas vezes você olhou nos olhos
Tudo depende do amor daqueles que você disse amar ao
doar? Dar por obrigação não tem
O texto de 1Coríntios 13 é re-
valor. Dar por hábito também não.
volucionário para seus primeiros
Encher a dispensa da casa de al-
leitores. Paulo usa como exemplo
comportamentos e habilidades guém carente não será uma vir-
apreciadas pela comunidade de tude se você não amar aquele a
Corinto, descrevendo-os no mais quem você ajudou. Caridade movi-
excelente nível possível e subme- da a partir do amor de Deus, antes,
tendo-os à condição do amor. Ou sente no próprio corpo a neces-
seja, Paulo pega os mais desejáveis sidade de quem sofre. Se não for
dons, eleva-os ao nível mais alto e assim, é mera doação em troca de
termina dizendo: essas coisas são paz de espírito.
inúteis sem o amor. Autossacrifício sem amor é só
Virtudes espirituais sem amor exibicionismo – Certa vez ouvi al-
são só habilidades – Todo dom guém dizer que pessoas se sacrifi-
espiritual existe para um propósi- cam por aquilo que elas acreditam.
to. Quando ele é usado para uma A história da Igreja é repleta de pes-
finalidade que não é a sua, per- soas assim. Mártires, que sacrifica-
de a razão de existir. Uns podem ram suas vidas em nome da fé em
usar para conquistarem lugares de Jesus Cristo. Mas nem sempre o sa-
maior destaque, outros usam para crifício pessoal é nobre; às vezes é
serem admirados, e ainda outros por vaidade. Alguns querem marcar
para impor suas convicções pes- seu nome na história, tornarem-se
soais. Mas nada disso é orientado referências, serem lembrados pelos
pelo amor. Não produz edificação seus feitos. Mas o verdadeiro sacri-
na comunidade e, por isso, não tem fício pessoal nos leva ao desapare-
valor espiritual. cimento e à perda. O ganho que se
Caridade sem amor é barga- tem não é visível, pois é espiritual.
nha – Em muitas Igrejas existem Essa era a condicional imposta por
campanhas de recolhimento de ali- Jesus para aqueles que pretendiam
mentos, agasalhos etc. Você pode segui-lo (Mt 16.24-25).
ter contribuído diversas vezes. Mas O apóstolo Paulo, em 1Coríntios
quantas vezes você foi entregar os 13, quer chamar a atenção para
alimentos? Quantas vezes você se um fundamento de Cristo que não
sentou com a família ajudada, ou- pode passar em branco: as coisas
viu sua história, chorou e orou com que são feitas em nome de Jesus
ela? Quantas vezes você aqueceu tem de ser feitas da mesma forma
alguém com um abraço antes de que Jesus fez: por amar as pes-
aquecê-lo com um casaco? Quan- soas. Sem isso, não significa nada.

30
“Visto que o amor é a única regra
que deve governar nossas ações, e Para pensar e agir:
a única diretriz para o correto uso
dos dons divinos, Deus não aprova A nossa lição acaba por se con-
nada que esteja destituído de amor, verter em um apelo à uma prática
não importa quão magnificentes cristã com mais significado. Parar
sejam os conceitos humanos. Pois, para pensar no “por que fazemos?”,
sem o amor, a mais bela de todas no “para quem fazemos?” e no
as virtudes não passa de mera apa- “para que fazemos?”. Precisamos
rência, um ruído vazio de significa- nos perguntar: tenho exercido meu
ção, não mais digna que a moinha; dom com amor? Tenho trabalhado
em suma, não passa de algo gros- pensando primeiro no bem das pes-
seiro e ofensivo”.1 soas? Estou acomodado fazendo
sempre a mesma coisa na Igreja?
As múltiplas formas de amar Deveria repensar minha ação para
Podemos discipular pessoas, dar mais sentido a ela?
participar de “grupos de louvor” O prazer em servir a Jesus se
(cantando ou tocando), teatro e co- encontra justamente na preocu-
reografia, exercer a diaconia, liderar pação que se tem com o outro, no
organizações missionárias, ser um
como posso servir mais e melhor
intercessor, colaborar nas áreas
técnicas da Igreja (som, iluminação, e no quanto posso ser bênção na
multimídia), ser professor de EBD vida de alguém. O amor cristão
ou uniões de treinamento, liderar tem o poder revolucionário de mu-
departamentos ou ministérios, ser dar o mundo. O mundo e a Igreja,
um evangelista, pregador, atuar nas silenciosamente, clamam em seus
áreas de serviços gerais (zeladoria, desafios e apatias: precisamos de
patrimônio, estacionamento, recep- mais amor, por favor, em tudo o
ção). Uma grande variedade de que fizermos.
áreas. Alguns ocupam mais de uma
função, inclusive. No entanto, se o
que te move a servir não é o amor a Segunda: 1Coríntios 13.4-10
Deus e às pessoas, de nada vale. O Terça: 1Coríntios 14.12
“porque” fazemos é tão importan-
Quarta: Mateus 16.24-25
te quanto o “que” fazemos. Ocupar
Leitura Diária

um cargo, ter o nome em uma rela- Quinta: 1Pedro 4.10


ção de líderes, sem usar essa ação Sexta: 1João 3.16-18
como uma expressão de amor, é Sábado: Marcos 10.42-45
uma clara evidência de apatia na Domingo: Gálatas 5.13
vida cristã.
1 - CALVINO, João. I Coríntios. São Paulo, SP: Edições Parakletos, 2003.

31
DATA DO ESTUDO

LIÇÃO 6
Texto Bíblico: 1Coríntios 12.27

A FASCINANTE LIBERDADE
DE PERTENCER

Creio, piamente, que a Igreja é a a vida em comunhão, obriga-se,


“estratégia” de Deus para alcançar livremente, a pertencê-la.
o mundo. As páginas do Novo Tes- Na caminhada de hoje, vamos
tamento nos mostram “que a igreja percorrer por uma confissão pes-
ocupa lugar central e especial nos soal do autor, que, imagino, será
planos de Deus para a transforma- de todos nós, um alerta, um desa-
ção do mundo. Seja qual for a me- fio e uma condição. Caminhemos!
táfora utilizada para a sua designa-
ção, ela sempre é considerada de
forma muito especial” 1.
Uma confissão
Ser Igreja de Cristo é um privi- Escrever sobre esse assunto é
légio. Pertencer ao corpo de Cristo um enorme prazer para mim, por-
se constitui numa fascinante liber- que, sem demagogia, eu confesso
dade. Ninguém é obrigado a fazer que amo a Igreja. Eu amo a Igreja
parte da Igreja, mas, qualquer de Cristo, intensamente! Abaixo de
pessoa que tem um relacionamen- Deus, devo a ela tudo o que sou.
to real com Cristo e experimenta Até mesmo a minha esposa eu
1 - COELHO FILHO, Isaltino Gomes. À Igreja, com carinho. 2ª Ed. Campinas: Igreja Batista do Cambuí, 2006, p.7.

32
conheci por causa da Igreja. Amo, 2. Amo a Igreja porque ela é
também, a Igreja local onde sirvo: uma comunidade de pessoas re-
a Primeira Igreja Batista no Bairro generadas e batizadas em nome
São João, na cidade de São Pedro de Jesus Cristo. Creio na Igreja lo-
da Aldeia, que completará 50 anos cal como sendo a Igreja de Cristo.
no dia 15 de novembro de 2018. Entendo que os seus membros são
Uma baita Igreja! membros da chamada Igreja espiri-
1. Amo a Igreja porque Cris- tual, universal ou militante. O sím-
to a amou e se entregou por ela bolo da nossa inclusão, o batismo,
(Ef 5.25). Penso que este já é um anuncia que ressuscitamos com
motivo suficiente para a Igreja me- Cristo. Essa ressurreição, obvia-
recer o meu amor. Se o meu Mestre mente, é espiritual. Então, somos a
a amou, eu devo amá-la, com todas Igreja espiritual.
as peculiaridades que envolvem Como não amar algo tão subli-
essa atitude, inclusive a entrega. me, que defende a morte de tudo
Igreja não é algo qualquer. Ela o que faz a criação decair e exal-
merece o nosso amor, por mais que ta àquele que a soergue! A Igreja
tentem erguer o discurso de que ela defende a morte dos nossos de-
é dispensável. Pessoas que assim sejos pecaminosos. A Igreja de-
se proclamam, estão limitando a fende a morte da injustiça. A Igreja
Igreja às suas concepções institu- defende a morte da hipocrisia, da
cionalizadas. desigualdade social, da individua-
O amor é paciente, bondoso, lidade doentia.
tudo sofre, tudo crê, tudo espera e
A Igreja exalta a Cristo, que res-
tudo suporta. É o belo registro do
taura a nossa comunhão com o Pai.
corpo literário paulino de 1Coríntios
A Igreja exalta a Cristo, que regene-
13. Amar a Igreja é ter paciência
com ela. O amor não é dominador. ra nossos valores. A Igreja exalta a
Pessoas que querem ser “donas da Cristo, que infunde em nós o senso
Igreja” não a amam. É uma obses- de comunidade. 
são travestida de amor. 3. Amo a Igreja porque ela pre-
Em nome do amor, decisões são serva os valores éticos, morais e
adiadas, pois ele tudo espera. Em sociais. Certa vez, ouvi um amigo
nome do amor, suportamos o que dizer que a cada dia há mais Igrejas
for preciso. Em nome do amor, so- e o povo não melhora, há mais Igre-
fremos e acreditamos na Igreja. A jas e a violência aumenta. O adver-
Igreja não nos pertence. Ela é de ti, defendendo que o pensamento
Cristo. Ela é corpo dele. Nossa con- deveria ser noutra linha: o mundo
dição é amar ou amar. Não somos não está pior por causa da Igreja.
realmente Igreja quando não devo- Se a Igreja for retirada do mundo,
tamos amor. ele apodrece.

33
Por mais que alguns tentem ma- Aqueles que ficam, também, à
cular a imagem da Igreja, ela sem- procura de um pastor perfeito aca-
pre será um referencial. A Igreja não bam vagando numa ilusão cons-
é medida pela atitude de um ou ou- truída pelas suas próprias imperfei-
tro. A Igreja preserva os princípios ções. É aquele grupo mais exigente
éticos, que são universais, e, pelos que o próprio Deus.
preciosos ensinos de Cristo, acaba Não podemos esquecer que
por anular a relatividade das ações quando Cristo tomou a forma hu-
morais, nivelando-as por alto no mana, ele foi humilhado. A nossa
convívio social. Como a Igreja “pro- condição é essa. Não temos glória
duz” indivíduos melhores! nenhuma para recobrar, como Cris-
Dizem que a ética passa pelo to a tem.
“posso”, “devo” e “quero”. Nem tudo Igreja é maravilha dos céus para
que posso, eu devo. Nem tudo que nós. É família. É presença marcan-
quero, eu posso. Nem tudo que te. É Reino difundido. É Cristo entre
devo, eu quero. Paulo já havia falado o povo. Somos nós!
sobre isso: “Tudo me é permitido,
mas nem tudo convém. Tudo me é Um alerta
permitido, mas eu não deixarei que
nada me domine” (1Co 6.12). É muito bom saber que a
realidade da Igreja é plural. Há es-
A ética é o princípio. A moral é a tilos variados e preferências diver-
face prática desse princípio. A Igreja sas quando se fala em culto/liturgia,
tem princípios e sua prática é mol- por exemplo. Estará tudo certo com
dada, nada mais nada menos, que a multiplicidade de formas, desde
pelos ensinos do homem perfeito: que o conteúdo permaneça irreto-
Jesus Cristo.  cavelmente bíblico.
4. Amo a Igreja porque ela é O alerta está no perigo de achar
(im)perfeita. Do ponto de vista do que o novo jeito de ser Igreja é o
corpo místico de Cristo, a Igreja é novo jeito de toda Igreja ser. Uma
uma instituição divina perfeita. Do Igreja local pode encontrar um novo
ponto de vista dos membros que a modelo para se adaptar, um novo
compõe, a Igreja é imperfeita, pelo estilo de gestão ministerial, mas
simples fato de ser composta por isso não significa que obrigatoria-
pessoas. mente dará certo noutra Igreja.
Quem fica por aí procurando Cada Igreja local deve entender
uma Igreja perfeita, perde a ale- bem a sua realidade e caminhar,
gria de crescer com os demais, de com ousadia, a partir dela. Essa
aprender a tolerar. A Igreja não é o história de que “a grama do vizinho
céu na terra, mas é a terra a cami- é mais verde” pode ser uma mera
nho do céu, com todos os altos e ilusão para atrapalhar o crescimen-
baixos da jornada. to da Igreja.

34
Um desafio Para pensar e agir:
Por outro lado, requer-se que a Vida cristã sem Igreja é ilusão,
Igreja se renove a cada dia, contex- porque vida cristã sem interdepen-
tualize-se para chegar às pessoas dência não existe. A vida cristã é
com os princípios eternos. comunitária. Se não fosse assim,
O progresso vem, querendo ou cada cristão seria um corpo, e não
não. O mundo muda numa veloci- membro do corpo. Não há corpos
dade assustadora. As formas de de Cristo. Ser membros de um
comunicação se apresentam novas mesmo corpo é prova inequívoca
impositivamente. A linguagem não de que somos ligados.
se atualiza mais a cada geração, A recomendação de Hebreus
mas entre uma mesma geração. 10.24-25 continua válida, com ab-
Como fica a Igreja nesse cenário? soluta certeza: “Pensemos em
É necessário contextualizar-se! como nos estimular uns aos ou-
Um exemplo é a evolução da tros ao amor e às boas obras, não
língua. O pronome “você”, que se abandonemos a prática de nos
refere à segunda pessoa do discur- reunir, como é costume de alguns,
so, foi mudando ao longo da histó- mas, pelo contrário, animemo-nos
ria. Começou com um tratamento uns aos outros, quanto mais vedes
real em Portugal, “Vossa Mercê” e que o Dia se aproxima”.
foi sendo modificado: “vossamecê”, Lembrando que “há um só
“vossancê”, “voismecê”, “vancê”, até corpo e um só Espírito” (Ef 4.4). E
chegar ao atual “você”, que convive o próprio Espírito nos tem reunido
com o “ocê” caipira e o “vc” do mun- e ministrado para que todos, con-
do virtual. juntamente, “cheguemos à unidade
A Igreja hoje, segundo o exem- da fé e do pleno conhecimento do
plo acima, não pode se comunicar Filho de Deus” (Ef 4.13).
com o povo usando “Vossa Mercê”,
porque hoje se usa “você”. Essa
deve ser a linha de raciocínio que
nos impulsionará, de contínuo, à Segunda: Mateus 16.13-20
contextualização em todas as áreas. Terça: Efésios 2.17-22
Vale ressaltar que contextuali- Quarta: Jeremias 32.38-41
zação não é banalização ou secu-
Leitura Diária

Quinta: Romanos 12.3-5


larização da mensagem cristã. O Sexta: 1Coríntios 12.12-27
conteúdo sempre será o mesmo. O
Sábado: Hebreus 10.24-25
desafio é passar o conteúdo numa
Domingo: Colossenses 1.24
forma que alcance as pessoas hoje.

35
DATA DO ESTUDO

LIÇÃO 7
Texto Bíblico: João 17

UMA MAIOR SINTONIA COM DEUS

Desde pequeno sempre gostei sintonia com o sinal emitido pela


muito de ouvir rádio. Em tempos estação de rádio. Entre chiados
de “smartphones”, internet, TV a e interferências, a insistência me
cabo e outras mídias, parece anti- levava à sintonia perfeita do sinal.
quado manter esse hábito. Mas eu Conseguia ouvir alto e claramente
o mantenho. É bem verdade que a voz dos radialistas transmitindo
não faço mais como eu fazia antes. jogos de futebol, dando notícias
Ao invés de abrir um aplicativo de e comentando os acontecimentos
alguma rádio no celular eu ligava mais recentes. Essa experiência
meu radinho de pilha, e ficava gi- analógica se perdeu hoje num
rando o botão buscando a melhor mundo de tecnologias digitais.

36
Falo de rádio porque quero falar ção do mundo. Foi dessa glória
sobre sintonia. E falo de sintonia que Ele se esvaziou (Fp 2.5-7) ao
porque quero falar sobre o alinha- se tornar carne. Ainda assim, po-
mento entre duas partes distintas, dia ser vista por olhos iluminados
atuando em harmonia. A experiên- (Jo 1.14)”1. Significa, portanto, que
cia do rádio analógico me ensina Jesus e Deus são indissociáveis,
que, para uma comunicação clara isto é, não existem separadamen-
e direta, é preciso buscar a sinto- te ou em oposição. São e sempre
nia perfeita. Essa deve ser a per- foram essencialmente unidos.
manente ambição do cristão com o Intencional porque Jesus, en-
seu Deus. quanto homem, se dedicava a ali-
nhar sua existência humana com os
Jesus e Deus: sintonia plena propósitos de Deus. Era sua meta
pessoal cumprir todo o caminho tra-
O texto base da nossa lição evi-
çado para Ele. Seu prazer estava
dencia uma sintonia perfeita, natu-
em fazer a vontade do Pai. Jesus
ral e intencional entre Jesus e Deus.
não era obrigado a estar em sinto-
Perfeita porque não há ruídos nia, estava porque desejava isso.
na comunicação. Ela é fluente e
Ao nos depararmos com a pro-
contínua. Não houve um só mo-
fundidade dessa relação, podemos
mento na trajetória humana de Je-
nos sentir incapazes de viver algo
sus que Ele não estivesse ligado a
parecido. Mas não pode ser esse o
Deus. E em nenhum momento essa
efeito em nós. A expectativa decla-
relação perdeu a sintonia. Houve
rada de Jesus no texto é exatamen-
ocasiões em que esse vínculo cor-
te oposta: “para que todos sejam
reu o risco de interferência, como
um; assim como tu, ó Pai, és em
na tentação (Mt 4.1-11) ou na pro-
mim, e eu em ti, que também eles
funda angústia vivida no Getsêma-
estejam em nós” (v.21). É desejo de
ni (Mt 26.36-46). Mas o coração de
Jesus (e de Deus também) que nos
Jesus estava dedicado a cumprir os
sintamos desafiados a buscar tal
desígnios de Deus e, por isso, su-
sintonia. Ele mesmo é quem provi-
perou esses momentos.
dencia a possibilidade e nos indica
Natural porque ambos têm a o caminho para conseguirmos.
mesma essência. Jesus e Deus
têm a mesma natureza e origem. Harmonize sua vida com Deus
Werner de Boor afirma que: “Jesus
sustenta com tranquila convicção Na introdução desse estudo,
que Ele ‘vem do alto’ e ‘do céu’ descrevi a “sintonização” como o
(Jo 3.31; 8.23), da ‘glória’ que Ele alinhamento entre duas partes di-
tinha junto do Pai antes da cria- ferentes. Trazendo essa ideia para
1 - BOOR, Werner de. Evangelho de João. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2002.

37
o contexto bíblico e aplicação pes- atenção às orientações e corre-
soal, podemos entender que uma ções, que são sempre feitas por nos
das partes dessa conexão é Deus amar e querer o melhor para nós.
e a outra, nós, através de Jesus, Como um pai cuida de seu filho,
pois Ele demonstra os fundamen- Deus quer cuidar de nós. “Portan-
tos dessa relação em sua oração. to, sede imitadores de Deus, como
Vamos observá-los: filhos amados” (Ef 5.1).
1. Tenha uma experiência pes- 3. Procure separar-se do mun-
soal – Podemos dizer que, na vida, do – À medida que nos distancia-
temos muitos “conhecidos”, mas mos do mundo, criamos mais sinto-
são poucas as pessoas que conhe- nia com Deus. Este é um imperativo
cemos de verdade. Significa que da espiritualidade. O mundo no qual
não temos intimidade com qual- vivemos destoa completamente da
quer um. Conservamos relações sintonia de vida que Deus espera
superficiais com a maior parte das de nós. A epístola de Tiago nos trás
pessoas, onde não transparece- essa advertência veemente: “In-
mos tudo o que somos. Não pode- fiéis, não sabeis que a amizade do
mos nos relacionar com Deus as- mundo é inimizade contra Deus?
sim. Ter essa experiência pessoal é Portanto, quem quiser ser amigo
colocar-se diante dEle sem másca- do mundo se coloca na posição de
ras e permitir que Ele se apresente inimigo de Deus” (Tg 4.4).
a você como Ele é. Com o coração
aberto, dizer as suas carências, A santificação é esse processo
frustrações e dores, e ouvir dEle de separação. Não significa que
o que Ele pensa, sente e deseja. somos superiores às pessoas co-
Temos de ser próximos de Deus, e muns. Significa que não nos confor-
não ilustres desconhecidos. “Ache- mamos com um estilo de vida que
gai-vos a Deus, e Ele se achegará a Deus rejeita. As práticas deste mun-
vós” (Tg 4.8). do não são dignas do Reino ao qual
pertencemos. Separados do mundo
2. Deus é Pai, viva como seu
nos unimos ainda mais a Deus.
filho – Uma vez que temos uma
experiência pessoal com Deus, 4. Construa unidade em amor
percebemos nEle esse desejo de – “E, acima de tudo, revesti-vos do
nos “adotar” como membros de sua amor, que é o vínculo da perfeição”
família. Essa é a primeira e mais (Cl 3.14). A unidade manifestada en-
marcante referência que Jesus nos tre Jesus e Deus tem um fundamen-
dá em sua oração, pois a inicia refe- to único: o amor. Segundo a carta
rindo-se a Deus como Pai. Deus es- de Paulo aos Colossenses, essa é
pera que nos relacionemos com Ele a única causa capaz de unir duas
assim, como filhos. Nesta condição, partes distintas em perfeita harmo-
devemos submissão, obediência, nia. A nossa unidade com Deus e

38
seu Filho passa primeiro pelo esfor- tasse a vida. O Pai está dedicado a
ço de viver em unidade com nossos salvar pessoas da morte e nós po-
semelhantes. “Se alguém diz: Eu demos ser instrumentos vivos em
amo a Deus, e odeia seu irmão, é suas mãos, se assim decidirmos
mentiroso. Pois quem não ama seu ser. Podemos traçar metas pes-
irmão, a quem viu, não pode amar a soais, estratégias, ou até uma rotina
Deus, a quem não viu” (1Jo 4.20). de trabalho. Mas o que Deus quer
Seria um equívoco olharmos mesmo é ver nosso coração deci-
exclusivamente para cima, procu- dido a ser o que Ele precisar que
rando dedicar a Deus amor, e não sejamos, independente de quando,
sermos capazes de nos voltarmos onde e como Ele fará.
para o lado, e dedicarmos amor
àqueles que estão ao alcance dos Para pensar e agir:
nossos olhos. À medida que cons-
truímos vínculos baseados no amor Construir maior sintonia com
com as pessoas, que proporciona Deus é um esforço que exigirá su-
a necessária unidade entre os ho- jeição total. Devemos procurar em
nós os ajustes necessários para
mens, criamos maior harmonia das
sermos, amanhã, melhores do que
nossas vidas com Deus.
somos hoje. Se passarmos a acre-
5. Dedique sua vida a servir ditar que já estamos na nossa me-
aos propósitos do Pai – Há um lhor sintonia, estaremos, na verda-
propósito para a vida de todos nós. de, ficando surdos para ouvi-lo. É
E o encontramos quando procura- preciso melhorar a cada dia!
mos em Deus. Muitos afirmam que
Seja, portanto, exigente com a
a razão da existência do ser hu- qualidade dessa conexão. Não se
mano é glorificar a Deus. Mas não conforme com interferências ou ruí-
somos nós quem decide como Ele dos na transmissão de Deus para
deve ser glorificado. Deus é quem você. Não se conforme com nada
diz. Segundo a oração de Jesus, a menos que a nitidez do som do Céu
glorificação de Deus estava na sua chegando até você.
dedicação em cumprir a missão que
recebeu. E que missão era essa?
Manifestar o nome do Pai entre os Segunda: Filipenses 2.1-4
homens e ser o corpo da expiação Terça: Filipenses 2.5-13
de pecados. Quarta: Efésios 5.21
Leitura Diária

Portanto, a vitória de Deus sobre Quinta: Colossenses 3.12-17


a morte não começou na ressur- Sexta: Tiago 4.1-10
reição de Jesus, e sim quando Ele Sábado: 1João 4.1-6
decidiu viver esse caminho traçado
Domingo: 1João 4.7-21
por Deus. Mesmo que isso lhe cus-

39
DATA DO ESTUDO

LIÇÃO 8
Texto Bíblico: Salmos 119.97

APRENDIZADO PERMANENTE

A declaração de amor do sal- meus inimigos, pois está sempre


mista deveria ser a divisa de todo comigo. Tenho mais entendimen-
cristão: “Como amo tua lei! Ela to do que todos os meus mestres,
é minha meditação o dia todo” porque teus testemunhos são mi-
(Sl 119.97). O Salmo 1 afirma que é nha meditação” (Sl 119.98-99).
bem-aventurado aquele que medita É preciso resgatar a prática da
na Lei do Senhor dia e noite (v.2). meditação na Palavra. Ao se medi-
Esses textos sinalizam que tar, a Palavra passa a ser compa-
para compreendermos a Palavra nheira do cristão todos os dias, o
de Deus é necessário ir além da dia todo. A Palavra passa a fazer
simples leitura. É importante me- parte do próprio cristão, que preci-
ditar para melhor entendimento, sa ser “composto” por ela.
discernimento e aplicação. A me- A prática da meditação cos-
ditação é a porta para um aprendi- tuma ser associada à religiões
zado permanente. orientais, cujo objetivo, regra ge-
O salmista é direto ao justificar ral, é esvaziar a mente. Para nós,
o seu procedimento: “Teu manda- a proposta da meditação é encher
mento me faz mais sábio do que a mente com a Palavra de Deus.

40
ca exclamou “como seria bom se
Como meditar esse dia tivesse mais horas!”? Se
não priorizarmos, não sobrará tem-
Acabamos de definir que para po para meditar na Palavra.
nós, cristãos, meditação não é es-
Não se trata de uma leitura
vaziar a mente e sim concentrar-se
quantitativa, mas qualitativa. Nem
nas Sagradas Escrituras. Por isso,
para se meditar na Bíblia, oferece- sempre ler muitos versículos será o
remos algumas sugestões: melhor caminho para a meditação.
Na maioria das vezes, um único
1. Ore ao Senhor. Antes de qual- versículo é mais do que suficiente
quer coisa, oração. A Bíblia registra e proveitoso para ocupar a mente.
verdades profundas. Precisamos do
auxílio do Espírito Santo, iluminan- Imagine inicarmos o dia com
do nossas mentes, para que consi- Salmos 119.11 na mente: “Guar-
gamos apreender, captar com exati- dei a tua palavra no meu coração
dão o que Deus está falando. para não pecar contra ti”! A cada
momento, diante das tentações
Como diz a afirmação atribuída
propostas, seríamos lembrados do
a John Bunyan, “eu posso fazer
ideal de não pecar.
mais que orar, depois de ter orado,
mas eu não posso fazer mais que O essencial é ter a Palavra na
orar, até que tenha orado”. mente. Por isso, devemos ler a Bí-
Todo cristão precisa entender o blia todos os dias.
valor dos joelhos dobrados diante 3. Guarde silêncio. A maioria
de Deus. Lutero disse: “A oração é das pessoas gosta mais de falar do
a coisa mais importante da minha que ouvir. Regra geral, a tradição
vida. Se, porventura, negligencio oriental dá mais valor ao silêncio.
a oração por um simples dia, sinto Nós, ocidentais, falamos bastante.
logo o esmorecimento do fogo da Alguns dizem que brasileiros falam
minha fé”. mais ainda, porque somos um povo
Dobrar os joelhos para orar é extremamente comunicativo. O que
sinal de submissão a Deus, de hu- é bom.
mildade. Só teremos proveito se o fi- Além de falarmos muito, estamos
zermos continuamente, pedindo sa- cercados por muito barulho. É difícil
bedoria para entender as Escrituras. encontrar um ambiente silencioso
2. Leia a Bíblia. Depois de orar, até mesmo dentro de casa, onde
vá ao texto sagrado. Selecione um somos cercados pelo som dos
ou alguns versículos e dedique tem- televisores que já invadiram
po para uma leitura minuciosa. praticamente todos os cômodos.
A correria do dia a dia só au- O silêncio diante de Deus, na
menta. A sensação é que um dia Palavra, será um exercício espiri-
não tem mais 24 horas. Quem nun- tual de grande proveito. Criemos o

41
hábito de ler a Bíblia e ficar em si- até que o versículo esteja firme-
lêncio, deixando que o Senhor fale mente em sua mente.
conosco através do texto, na ilumi- 5. Escreva suas resoluções.
nação do Espírito Santo. Quando meditamos, aprendemos
4. Cite a Palavra. Muitas vezes, e chegamos a algumas conclusões
falar a Palavra em voz audível será para melhorar nossa vida cristã.
um ajudador na meditação. Citamos Com o passar dos dias, a tendência
tantas coisas durante o dia, falamos é esquecermos. Anote essas deci-
sobre ditados populares, etc. Por sões nascidas no coração, zelando
que não citar a Bíblia? para que sejam atitudes reais.
Nosso alvo é o aprendizado per- A arte de contar histórias é pre-
manente das Escrituras, visando sente desde os povos considerados
alcançar a mente de Cristo. Um dos mais primitivos, quando ainda não
aspectos desse processo é arraigar havia a escrita. A tradição oral per-
a Palavra de Deus na mente (medi- manece até hoje. Mas, por bonda-
tação). Memorizar textos bíblicos é de divina, a humanidade também
uma disciplina importante que ajuda- adentrou na tradição escrita, regis-
rá na citação dos mesmos, inclusive. trando, assim, as suas histórias.
Seguem algumas ideias que po- Temos a Bíblia impressa em
dem ajudá-lo no desenvolvimento razão da tradição escrita. Caso
da memorização de textos bíblicos1: contrário, as experiências de Deus
a) Leia o versículo e reflita sobre seriam transmitidas entre gerações
e povos apenas oralmente. Muitas
seu significado.
coisas poderiam se perder, porque
b) Escreva o versículo em cartões a mente humana é falha. Ninguém
para tê-los sempre à mão. consegue guardar tudo, com a per-
c) Dê uma olhada na primeira frase feita exatidão.
e mencione-a em voz alta. Faça O registro escrito da Bíblia nos
o mesmo com a frase seguinte, assegura acesso contínuo ao texto
e diga ambas em voz alta. Con- sagrado. Quando temos dúvida ou
tinue esse processo até que te- nos esquecemos de algum detalhe,
nha dito todo o versículo. como cristãos aplicados, recorre-
d) No mesmo dia, mais tarde, pro- mos às páginas do Livro Santo.
cure dizer o versículo de memó- Esse deve ser o mesmo prin-
ria. Se não conseguir se lembrar cípio motivador para registrarmos
de todo o versículo, dê uma nossas resoluções. O próprio Deus
olhada nos cartões para refres- dá testemunho do valor da palavra
car sua memória. escrita. Portanto, escreva as suas
e) Repita o versículo várias vezes decisões e as mantenha diante dos
ao dia, durante uma semana ou seus olhos.
1 - HUNT, T. W., KING, Claude N. A Mente de Cristo. Trad.: Josemar de Souza Pinto. Rio de Janeiro: JMN, 1998, p.9.

42
É muito importante tomar de- – Não, papai. Confesso que não
cisões para melhorar diante de li nenhuma vez.
Deus. Mais importante ainda é não – Essa é a razão da sua dificul-
deixar cair no esquecimento: “É
dade. Vá buscar a sua Bíblia.
melhor não fazer voto do que fazer
e não cumprir” (Ec 5.5). O rapaz obedeceu.
– Abra-a - disse novamente o pai.
Para pensar e agir: O jovem a abriu. Estava repleta
de notas de alto valor, que o pai, ali,
Acostumado a todo conforto no
lar, Marcos estava encontrando di- secretamente tinha colocado.
ficuldades no colégio interno. Além A riqueza que precisamos para
da disciplina, horário para as refei- uma vida que agrade a Deus está
ções, arrumação das dependências na Palavra. Muito mais que dinhei-
que ocupava, havia ainda outra di- ro, das Escrituras emanam ensinos
ficuldade mais séria: não havia di- verdadeiramente valiosos. Assim
nheiro que chegasse. Escrevia pe- como aquele jovem precisava do
riodicamente ao pai: dinheiro do seu pai para o sustento,
– Mande dinheiro, papai! precisamos da Palavra do Pai para
– Leia a Bíblia, meu filho - res- uma vida plena e abundante.
pondia o pai. Diferentemente do jovem da
O tempo ia passando e as difi- ilustração, obedeçamos, sem re-
culdades do jovem aumentando. O servas e de pronto, a orientação do
rapaz estranhava que o pai, sempre Pai: “Não afastes de tua boca o livro
tão liberal, agora não lhe mandasse desta lei, antes medita nele dia e
o dinheiro pedido. Só sabia dizer: noite, para que tenhas cuidado de
“Leia a Bíblia”. obedecer a tudo o que nele está
– Papai, preciso desesperada- escrito; assim farás prosperar o teu
mente de dinheiro. caminho e serás bem-sucedido”
– Leia a Bíblia! - dizia novamen- (Js 1.8).
te o pai.
Com grandes dificuldades o
moço chegou ao período de férias.
Segunda: Deuteronômio 6.6-9
Seu pai foi buscá-lo de carro, e ou-
viu as lamentações. Terça: Josué 1.1-9
– Tanto que pedi ao senhor que Quarta: Salmos 104.33-34
Leitura Diária

me mandasse dinheiro e o senhor Quinta: Provérbios 3.1-2


não mandou. Só me mandava ler a Sexta: Salmos 77.11-12
Bíblia.
Sábado: Tiago 1.22-25
– E você a leu alguma vez? -
Domingo: Salmos 19.14
perguntou o pai.

43
DATA DO ESTUDO

LIÇÃO 9
Texto Bíblico: João 16.33

A ESPERANÇA QUE
CONTINUA VIVA

Você sabe o que é esperan- cura se baseia na crença de que o


ça? Esperança é a confiança em remédio vai funcionar.
algum acontecimento futuro. Uma Mas, as crenças precisam so-
espera confiante. É ter expectativa breviver aos testes que a vida im-
que algo vai acontecer. No entan- põe a elas. A dúvida é um grande
to, antes de esperar algo é preciso teste. Seguindo o exemplo ante-
acreditar em algo. Se não acredi- rior, podemos perguntar: temos
tar, não tem o que se esperar. Por alguma garantia de que o remédio
exemplo: quando estamos doen- vai funcionar? Alguém que conhe-
tes e tomamos um medicamento, cemos já foi curado da mesma
o tomamos porque existe a crença doença tomando esse remédio?
de que ele pode nos curar. Toma- Que prova temos de que ele fun-
mos o remédio na esperança da ciona? E se demorar a fazer efeito,
cura. Ninguém continuaria a tomar vou continuar a tomá-lo? Outro re-
o remédio sem a expectativa de médio não seria melhor? Será que
melhora. Portanto, a esperança na preciso mesmo de remédio?

44
Nossa lição não fala sobre me- tância seja uma das mais perigo-
dicamentos e cura do corpo, mas sas. Digo isso porque ela é sorratei-
fala sobre uma esperança resisten- ra, silenciosa, quase imperceptível.
te aos testes que a vida lhe impõe. Não causa dor imediata, nem dá
E para resistir, a crença precisa ser a sensação de incredulidade. Ela
muito forte e apresentar garantias, apenas vai desestruturando, pouco
para essa esperança não morrer. a pouco, a estabilidade da nossa
Em que o cristão tem esperança? crença e nos dá a aparente sensa-
Quais as garantias que ele tem? ção de que estamos no caminho
certo quando, na verdade, somos
O mundo em oposição a Deus frágeis e tendentes à queda. Vai
nos enfraquecendo de dentro para
O nosso texto base é o final de fora, e quando percebemos, nossa
um grandioso discurso de Jesus. crença é apenas estética; não tem
Nele, o Mestre afirma a seus discí- conteúdo, apenas aparência.
pulos que eles seriam odiados, as-
sim como Ele foi odiado (Jo 15.18). 1. O inconstante não é assí-
Essa é uma consequência natural duo. As forças do mal não deixam
para aqueles que se colocam ao de nos afligir um minuto sequer.
lado de Jesus, pois estar ao seu Elas atuam ao nosso redor. Mas
lado é estar em oposição ao mun- o mal não pode ser mais assíduo
do. Portanto, Jesus, em seu discur- em nossas vidas do que a nossa
so, “preparou seus seguidores para busca por Deus. Além da oração,
a realidade da cruz que eles tam- leitura e meditação na Palavra de
bém carregariam por causa do Seu forma constante, a presença na
nome”1. Mas, aquilo que parecia ser comunidade de fé é fundamental
um discurso pessimista, repleto de para mantermos nossas defesas
tensões e temores, se mostrou, no espirituais em dia. Muitas pessoas
final, um grande pacto de esperan- deixam de participar das atividades
ça. A conclusão descrita no verso da Igreja por motivos banais. Tro-
33 do capítulo seguinte é a afirma- cam o encontro por qualquer outro
ção de que a trajetória de persegui- compromisso. E essas concessões
ção, sacrifício e dor teria uma glo- são intermináveis, cada vez mais
riosa vitória final. E a garantia era se abre mão. A assiduidade é a
uma só: Jesus venceu o mundo. garantia de que a experiência da
comunidade te reanima, revigora e
O problema da inconstância aperfeiçoa.
2. O inconstante não é deter-
São muitas as armadilhas do mal minado. A pessoa determinada tem
para nos afastar da esperança em foco naquilo que deseja, e por esse
Jesus. Mas, acredito que a incons- objetivo trabalha incansavelmente.
1 - DOCKERY, David S. Manual Bíblico Vida Nova. São Paulo: Vida Nova, 2001.

45
Investe todas as suas forças, paga prazo, pois não tem perseverança
o preço que for necessário e se para superar as adversidades que
entrega sem limites. Por isso, a de- se encontram pelo caminho. Ao
terminação passa longe do incons- menor sinal de problema, desistem
tante, cuja mente não é focada em da tarefa, mas nunca assumem a
Deus e no ser cristão. Só entrega responsabilidade por seu insuces-
aquilo que sobra de si. Diz querer so. Acabam acumulando projetos
servir a Jesus, mas não está dis- interrompidos pela metade, estão
posto a perder nada por isso. sempre experimentando recome-
3. O inconstante é sujeito ços porque nada é permanente.
às decepções. Todos sabemos o 5. O inconstante é influenciá-
quanto é desafiador manter a har- vel. O nosso tempo é marcado pela
monia dentro da Igreja. São muitas pluralidade das vozes que dizem
pessoas diferentes, com gostos di- falar em nome de Deus. É preciso
ferentes e opiniões diferentes, que firmeza de convicção para man-
tentam agir em conjunto por uma ter-se baseado exclusivamente na
mesma causa. O que é certo acon- Palavra. Mas o inconstante não é
tecer em um ambiente como esse? alguém de firmes convicções. Fa-
Pessoas decepcionarem pessoas. cilmente é levado por modismos
Porque somos falhos, infelizmen- doutrinários, nunca é capaz de de-
te. Mas o inconstante sempre usa fender a integridade da sua crença,
esses conflitos para justificar suas pois é despreparado para isso. Pre-
ações: “Eu saí, porque fizeram fere as facilidades de uma doutrina
isso”, “deixei de participar, porque frouxa do que a integridade e a fir-
não me fizeram aquilo”, e por aí vai. meza da doutrina bíblica.
É um interminável desfile de des- 6. O inconstante resiste à
culpas, em que nunca se assume a ideia de que é inconstante. Ele
responsabilidade por nada. É sem- sempre acredita que a sua forma
pre vítima do mal feito dos outros. de viver a fé é correta. Não conse-
Se as pessoas decepcionam um in- gue perceber o quão é instável e
constante, ele abandona a missão ausente. Não se incomoda com o
que Deus lhe deu naquele lugar. O fato de estar constantemente nego-
inconstante sempre procura razões ciando seus valores. Não é humilde
para justificar a sua inconstância. para reconhecer suas falhas. Será
4. O inconstante é pouco sempre um cristão morno, compli-
produtivo. É como uma árvore cado e amargo.
que nunca deixa seus frutos Irmãos, não podemos brincar
amadurecerem nos galhos, eles quando o assunto é enfrentar as
sempre caem antes do tempo. O forças do mal deste mundo. A maior
inconstante não consegue desen- infelicidade do inconstante é su-
volver nenhum trabalho de longo cumbir à descrença e ao ceticismo.

46
A vigilância constante, dentro e fora dos e transitórios opostos a Deus,
de nós, é fundamental para preser- que dificultam a obediência”2. Esta
varmos aquilo que acreditamos. Se oposição pretende desencorajar a
nossa crença é frágil, questionare- fé em nós e destruir a vida. O Mes-
mos a razão da nossa esperança tre estava certo em suas palavras.
em Jesus. Poucos anos após sua morte e
ressurreição a Igreja experimentou
A crença que alimenta a esperança uma das maiores perseguições de
sua história. Em meio à dor e opres-
Jesus precisou ser honesto
são, somente a crença na vitória de
com seus discípulos, preparando-
Jesus foi suficiente para manter a
-os para o que estava por vir. Disse
esperança viva.
com clareza que o caminho que se
seguia após Ele era cheio de do-
res, e que seria necessária uma fé Para pensar e agir:
obstinada para suportá-lo. Portanto, A crença do cristão é que Jesus
o caminho exigiria firmeza de con- é o Salvador do mundo e nós os
vicção. Por esta razão, a vida cristã herdeiros dessa missão. A garantia
não é para os inconstantes. Porque é que Jesus já venceu o mal pre-
ela exige uma atitude contumaz, sente no mundo. Um mal que nos
persistente e confiante nas promes- persegue, aflige e tenta impedir o
sas que Jesus nos deixou. avanço do Evangelho. A esperança
A substância da nossa espe- que continua viva é a certeza que,
rança cristã é a crença de que, em a cada dia mais, se fortalece. É a
Jesus, nós somos a luz do mundo espera cada vez mais sólida de
tomado pelas trevas. E que, apesar que as aflições vividas neste mun-
da força e da violência da perse- do não podem ser comparadas
guição do mal, nossa constância com a gloriosa vitória que conquis-
será recompensada com a gloriosa taremos em Jesus.
vitória que Jesus conquistou. Sere-
mos perseguidos, tentados, fragili-
zados, mas jamais vencidos. Essa
Segunda: João 15.18-26
é a crença que sustenta nossa es-
perança: não existe derrota no ca- Terça: 1Coríntios 15.58
minho da vida cristã, pois Cristo já Quarta: João 16.1-4
Leitura Diária

venceu o mundo. Quinta: Tiago 1.2-8


O mundo vencido por Jesus, se- Sexta: Filipenses 3.20-21
gundo o comentarista bíblico Brooke Sábado: 1Timóteo 4.1-2
Westcott, é “o sistema que reúne a Domingo: Efésios 4.1-15
soma de todos os poderes limita-
2 - Citado por STOTT, J. R. W. I, II, III João, Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, 1988.

47
DATA DO ESTUDO

LIÇÃO 10
Texto Bíblico: Marcos 10.45

PRAZER EM SERVIR

Para o cristão, servir deve ser para ser servido, mas para servir e
sempre algo prazeroso, desinte- dar a vida em resgate de muitos”
ressado e altruísta. O serviço no (Mc 10.45).
Reino de Deus resume a nature-
za prática de nossa fé. O dito po- Um pedido inconsequente
pular “quem não vive para servir,
não serve para viver” ilustra uma O verso citado acima conclui a
verdade para a postura do cristão, narrativa do pedido dos filhos de
porque encontramos utilidade e ra- Zebedeu (Mc 10.35-45). Eles não
zão para ser o que somos, quando mediram as consequências das
servimos em nome de Cristo. suas palavras.
A Bíblia nos apresenta o maior Marcos nos informa que Tiago
exemplo de diaconia: Jesus Cristo. e João foram até Jesus e pediram
Embora sendo Mestre e Senhor, o que fosse feito conforme o desejo
Filho do homem servia a todos. deles (v.35). A resposta de Jesus
Diaconia é serviço ministerial foi uma pergunta: “Que quereis
incondicional e amoroso a Deus, que eu vos faça?” (v.36). Respon-
à Igreja e ao próximo. O Diácono deram: “Concede-nos que na tua
Perfeito deixou o exemplo: “Pois o glória nos sentemos, um à tua di-
próprio Filho do homem não veio reita e outro à tua esquerda” (v.37).

48
Jesus evidenciou a inconse- vós quiser tornar-se grande, será
quência, afirmando que eles não sa- esse o que vos servirá; e quem en-
biam o que estavam pedindo (v.38). tre vós quiser ser o primeiro, será
Ou seja, eles não tinham noção da servo de todos” (v.43-44).
responsabilidade que acompanha- O servir prazerosamente era
ria tamanha honra. Jesus perguntou a atitude que Jesus esperava dos
se eles poderiam beber o cálice que seus discípulos. Uma grande aula
Ele bebia e serem batizados com o de diaconia ficou gravada no cora-
batismo que Ele era batizado (v.39). ção deles. O próprio Professor era
Impressionantemente responderam o conteúdo da aula, pois a sua en-
que sim (v.39). trega na cruz estava próxima. Jesus
Dois irmãos ambiciosamente caminhava para o serviço perfeito,
irresponsáveis. Eles não tinham o sacrifício que nos abriu a porta da
entendido as palavras de Jesus reconciliação. Glória a Jesus!
a respeito do que lhe aconteceria
(Mc 10.32-34). Uma missão a ser cumprida
Tiago e João deveriam estar
com os corações cheios de ambi- O serviço cristão é uma missão
ção pela glória terrena. Imaginem que se traduz em mordomia. Não
que ostentação serem destacados no sentido popularizado do termo,
por Jesus diante dos outros dez! que traz à mente a ideia de bem-
Queriam aparecer em lugar de -estar, regalias, vantagens e privilé-
preeminência na glória vindoura. gios. Estamos falando de mordomia
Enquanto eles buscavam gló- noutro sentido, contagiados pelo
ria, Jesus esbanjava humildade. O conceito cristão.
Mestre deu mais uma aula, ao exal- Mordomo era o criado principal,
tar a exclusividade do Pai para defi- responsável pela administração; um
nir o sentar-se à sua direita ou à sua despenseiro que desfrutava da con-
esquerda (v.40). fiança do dono da casa. Para nós,
Jesus jamais usurpou a glória portanto, mordomia é saber que to-
de Deus (Fp 2.5-8). Sua vida foi das as coisas pertencem a Deus,
uma liturgia de serviço a Deus, ple- somos simplesmente seus adminis-
namente submisso à vontade sobe- tradores: “Servi uns aos outros con-
rana do Pai. forme o dom que cada um recebeu,
Em reação ao pedido de Tiago como bons administradores da mul-
e João, os outros dez ficaram in- tiforme graça de Deus” (1Pe 4.10).
dignados (v.41). Jesus transformou Nós somos mordomos de Cristo.
essa indignação em aprendizado, Estamos servindo ao som das suas
exortando os discípulos: “Entre vós ordens santas. Estamos agindo no
não será assim. Antes, quem entre ritmo do céu, obedientes e produti-

49
vos. Não importa a glória, cujo dono dor: “Porque onde estiver o vosso
todos sabemos quem é. Importa tesouro, aí estará também o vosso
cumprir a missão. coração” (Lc 12.34).
1. Mordomia do tempo. Tempo A exortação bíblica é norteado-
é algo precioso que não volta, por ra para a mordomia das finanças:
isso deve ser bem administrado. “Porque o amor ao dinheiro é a
O tempo que temos não é nosso. raiz de todos os males; e por causa
Deus nos concede cada minuto dessa cobiça alguns se desviaram
para fazermos o melhor nEle. da fé e se torturaram com muitas
Por bondade do Senhor, usa- dores” (1Tm 6.10). “Quem ama o
mos o tempo para diversas coisas: dinheiro nunca terá o suficiente;
trabalhar, estudar, se divertir, etc. quem ama a riqueza nunca ficará
Também devemos investir tempo satisfeito com o lucro. Isso também
para orar, ler a Bíblia e se envolver é ilusão” (Ec 5.10).
com as demandas da Igreja (evan- Deus nos permite ganhar dinhei-
gelização, comunhão, solidarieda- ro para o nosso bem. Por meio do
de, etc.). trabalho, o Senhor faz chegar às
É impressionante como conse- nossas mãos o recurso para uma
guimos desperdiçar tanto tempo, vida com dignidade. “Já fui moço,
mesmo quando ele é pouco. e agora estou velho; mas nunca vi
Quantas horas por dia dedicadas um justo desamparado, nem seus
às futilidades! Sem falar das coisas descendentes a mendigar o pão”
(Sl 37.25).
impróprias ao cristão.
As facilidades para ganhar di-
John Piper afirmou que “uma
nheiro sujo, através da corrupção
das maiores utilidades do Twitter
institucionalizada ou não, podem
e  Facebook  será  provar  no Último
ser tentadoras, mas devem ser con-
Dia que a falta de oração não era
denadas por nós, porque será um
por falta de tempo”.
dinheiro maldito, reprovável aos
2. Mordomia das finanças. O olhos de Deus.
dinheiro que temos também não é
O sucesso com o dinheiro con-
nosso. É uma concessão divina e
quistado honestamente depende
deve ser administrado para a glória
da nossa consciência como mor-
de Deus e investido honesta e ge-
domos, estabelecendo prioridades
nerosamente.
corretas. Cada pessoa ou família
É lamentável quando um cristão terá uma realidade, mas todos de-
é dominado pelo dinheiro. O vemos estar convictos de que a
dinheiro deve ser usado por nós e gestão financeira pessoal ou fami-
não nos usar, transformando-nos liar também faz parte do culto que
em escravos do acúmulo esbanja- prestamos a Deus.

50
Há pessoas que não conseguem
ser fiéis a Deus com o dinheiro. Fi- Para pensar e agir:
cam até mal humoradas quando se Quando penso em diaconia, no
fala nisso. Não conseguem ser ge- prazer em servir, me emociono com
nerosas, porque são pastoreadas o exemplo de vários irmãos queridos,
por Mamom (Mt 6.24). que enobreceram e enobrecem a
minha trajetória e afetividade. Como
Tem membro de Igreja especia- tenho aprendido com servos assim!
lizado no discurso contra o dízimo. Um deles é o irmão José Viana,
Gasta tempo formulando desculpas, da Primeira Igreja Batista em Alcân-
ao invés de ser honesto e assumir a tara. Esse irmão me marcou com a
infidelidade a Deus e à comunidade sua diaconia silenciosa e modes-
de fé, que não poderá contar com ta. Dono de um sorriso envolvente,
ele para nenhum investimento no o irmão Viana todos os sábados à
tarde se dirigia ao templo para do-
Reino a partir da Igreja local. brar os boletins. E que perfeição!
Infeliz é a pessoa que cuida do No domingo bem cedo, ele estava à
dinheiro apenas para si. Não apren- porta, entregando festivamente o in-
deu a ser um bom mordomo das formativo aos que chegavam para o
culto. A minha esposa tinha a honra
finanças, porque se esqueceu que de receber o boletim personalizado.
saiu nú do ventre da mãe e nú mor- O irmão Viana escrevia o nome dela
rerá (Jó 1.21). e a entregava com enorme carinho,
3. Mordomia do voluntariado. dizendo: esse é o da Thaís. E olha
É de cortar o coração perceber que que nem éramos namorados na
ocasião, quando presenciei essa
há pessoas que só produzem algo gentileza. Ele não fazia isso porque
na Igreja se forem pagas. Por outro era a esposa do pastor. Ele tinha
lado, emociona perceber a multidão prazer em servir a todos, sem distin-
de voluntários em nossas Igrejas! ção. Memórias de valor inestimável!
Pessoas que são verdadeiros mor- Jesus teve uma vida de serviço.
domos, dedicando parte de seu Como seus seguidores, não temos
tempo para, voluntariamente, ser- outra opção. É servir ou servir!
vir a Deus servindo as pessoas, na
Igreja e na comunidade em geral. Segunda: Marcos 10.35-45
O voluntariado é uma das maio- Terça: Lucas 17.24-30
res riquezas de uma comunidade Quarta: Romanos 12.1-8
de fé. E como emociona conviver
Leitura Diária

Quinta: Gálatas 5.13-15


com essas preciosidades na Primei- Sexta: Filipenses 2.5-11
ra Igreja Batista no Bairro São João. Sábado: 1Pedro 4.10
Que o Senhor levante mais mordo-
Domingo: João 12.25-26
mos do voluntariado entre nós!

51
DATA DO ESTUDO

LIÇÃO 11
Texto Bíblico: Filipenses 2.3-4

O VALOR DO OUTRO

Qual seria o método para me- mais barata do mercado é a carne


dirmos o valor das pessoas? É negra”. Porque pessoas negras
possível estabelecer, numerica- eram tratadas como objetos. Mas
mente, o valor de uma vida? Hou- as pessoas não são objetos, são
ve um tempo, um capítulo desas- seres vivos, autoconscientes, ge-
troso da história do ser humano, rados a partir do amor de Deus.
em que pessoas eram tratadas Sim, existe um método para
como mercadorias. Sim, naquele avaliarmos o quanto as pessoas
tempo, pessoas tinham um preço. valem. Elas terão valor à medida
Uma cantora popular brasileira, que as valorizarmos. E a referên-
ao reconhecer esse fato da se- cia dessa valorização somos nós
gregação racial na sociedade, es- mesmos. As pessoas terão exa-
creveu o seguinte verso: “A carne tamente o mesmo valor que você

52
der a si mesmo. Ou seja, você e o que, aos nossos olhos, são más
próximo são iguais. Dignos do mes- e não merecem o amor. Não se
mo amor, bondade, compaixão e enganem! A instrução bíblica não
misericórdia. abre espaço para exceções. Deve-
A consciência e o exercício des- mos amar até mesmo os inimigos:
sa valorização acontecem dentro e “Mas digo a vós, que ouvis: Amai
fora de nós. A partir das disposições os vossos inimigos, fazei o bem aos
do coração em relação a elas e na que vos odeiam, abençoai os que
forma como nos relacionamos, na vos amaldiçoam e orai pelos que
prática, com elas. vos maltratam” (Lc 6.27-28).
Vivemos no tempo em que as
O amor é uma escolha pessoas se sentem no direito de
odiar. A era da informação e as re-
Por mais nobre que seja o amor, des sociais tornaram públicas coi-
vivê-lo nem sempre é uma tare- sas que antes eram guardadas no
fa fácil. Amar as pessoas que nos íntimo. Não houve outro período
fazem bem, que demonstram seu na história que ficou tão evidente
amor por nós e que cuidam de nós uma sociedade dividida em partida-
acontece naturalmente. Elas facili- rismos. Os de direita contra os de
tam nossa tarefa, pois suas ações esquerda, liberais contra conserva-
já se convertem em uma motivação dores, democratas contra republi-
para retribuirmos. O desafio está canos, pobres contra ricos e assim
em amar as pessoas que não têm por diante. Todos defendendo suas
relações anteriores conosco. Ainda bandeiras, mas com muito ódio e
mais difícil é amar aquelas que nos rancor em seus discursos. Poucas
fazem mal. são as palavras “temperadas com
Por isso que o amor cristão não sal” (Cl 4.6). Há muito vigor em
será apenas aquele sentimento que ofender para defender seu ponto de
espontaneamente nasce em nos- vista. Muitos se sentem senhores da
so interior. Será aquele sentimento razão e o diálogo é uma lembrança
que nos comprometemos a nutrir. distante da civilidade.
Sim, amar é uma escolha que faze- Nunca foi tão importante decidir
mos. Mesmo que as circunstâncias amar as pessoas como nesse tem-
nos levem a odiar. É a vontade que po de ódios gratuitos. A hipocrisia
deve vencer o orgulho. no meio da Igreja fica cada vez mais
Sejamos sinceros. Existem pes- evidente sempre que um cristão se
soas que amam odiar alguém. Car- nega a amar alguém de quem ele
regam esse sentimento maligno no discorda. Como podemos odiar as
peito, certos de que é justo e mere- pessoas que o próprio Deus ama?
cido. Alguns vão até considerar ser Quem somos nós para negarmos o
vontade de Deus renegar pessoas amor, se o Senhor de toda verda-

53
de e toda justiça não o fez? “Se al- que também o corpo não é cons-
guém diz: Eu amo a Deus, e odeia tituído de um só membro, mas de
seu irmão, é mentiroso. Pois quem muitos” (1Co 12.14). Essa foi uma
não ama seu irmão, a quem viu, não ideia genial de Deus! Como é rica
pode amar a Deus, a quem não viu” e grandiosa a capacidade de rea-
(1Jo 4.20). Voltemos ao óbvio: se lização de um grupo de pessoas
somos de Deus não temos o direito diferentes, com habilidades diferen-
de não amar. tes, trabalhando juntas, em harmo-
nia, por uma causa comum. Torna
A unidade é uma necessidade a Igreja não só um corpo, mas um
corpo dinâmico, com múltiplas for-
A unidade é a forma pela qual mas de testemunhar a fé e sinalizar
a Igreja existe. Não há um jeito de o Reino de Deus. As partes distintas
ser Igreja em que as pessoas não colaboram entre si, completando-se
se falam, não concordam em nada mutuamente, fazendo coisas dife-
e detestam estar juntas num mes- rentes, mas fazendo pela mesma
mo lugar. Não vai funcionar. O am- razão: a glória de Jesus. Entenda
biente da Igreja é um ambiente de que a sua ação sem o outro que a
interdependência, onde um precisa complete é insuficiente. Você sozi-
do outro e todos precisam de Deus. nho não dará conta de expressar a
Para tanto, primeiro é preciso gloriosa face de Cristo. O exercício
estabelecer aquilo que é comum a da cristandade começa em você,
todos. E o que temos em comum é mas tem continuidade no outro.
O Cabeça, Cristo, que em si concen- Quando a unidade de propósito
tra tudo aquilo que a Igreja é ou faz. se perde, a Igreja entra em colapso.
“Há alguma motivação por estar em As partes, que antes funcionavam
Cristo? Há alguma consolação que combinadas, passam a conflitarem
vem do amor? Há alguma comu- umas com as outras. Esse é o efei-
nhão no Espírito? Há alguma com- to do partidarismo dentro da Igreja.
paixão e afeição? Então completem Subgrupos menores, as famosas
minha alegria concordando sincera- “panelinhas”, alimentam objetivos
mente uns com os outros, amando- particulares no meio da coletivida-
-se mutuamente e trabalhando jun- de. É como uma fruta podre posta
tos com a mesma forma de pensar e bem no meio do cesto, causando o
um só propósito” (Fp 2.1-2). Então, apodrecimento de todas as outras.
é “Cristo por todos e todos por Cris- Porque essas pessoas começam
to”. Assim deve funcionar! a agir não mais em benefício do
Sermos individualmente dife- Corpo, mas em benefício do grupo
rentes é da natureza da Igreja. O menor. Vaidade e orgulho não dão
apóstolo Paulo faz uma linda rela- vida à Igreja de Jesus. Na verdade,
ção entre a Igreja e o corpo: “Por- a destrói em agonia.

54
de querer ser servido, precisamos
O altruísmo é um compromisso ter prazer em servir. Proporcionar
o bem ao próximo desinteressada-
Altruísmo é a atitude que visa o
mente. Uma atitude solidária, cola-
bem-estar do próximo, não tendo
em consideração os seus próprios borativa, desapegada de ambições
interesses. À primeira vista, se as- particulares, que se realiza na sim-
semelha muito ao amor. Mas tem ples constatação de que abençoa-
diferenças importantes. O amor é mos a vida de alguém. Essa é a ati-
mais uma disposição íntima, um tude dos seguidores de Jesus!
sentimento. Enquanto o altruísmo é
a ação efetiva que produz o bem a Para pensar e agir:
alguém. É um compromisso que te-
Valorizar o outro passa pela fir-
mos porque, dentro da dinâmica do
Corpo de Cristo, não somos apenas me decisão de amar as pessoas,
servos de Jesus em ação, somos independente do que elas fazem.
também servos uns dos outros. Compreende a necessidade de
completude que temos, pois sozi-
Um dos momentos mais subli- nhos não temos grande capacidade
mes de Jesus com seus apóstolos de realização, dadas as nossas li-
foi o episódio registrado por João,
mitações. E se compromete a pro-
no capítulo 13, onde o Senhor e
duzir o bem na prática em favor das
Mestre age como um serviçal: “Se
pessoas, sem visar um ganho pró-
eu, Senhor e Mestre, lavei os vos-
prio, apenas pelo prazer de ver algo
sos pés, também deveis lavar os
pés uns dos outros. Pois eu vos dei bom se realizar na vida do outro.
exemplo, para que façais também Essas coisas, quando realiza-
o mesmo” (v.14-15). A cena deve das, demonstram nossa consciên-
ter sido chocante para os apósto- cia de que o outro tem valor para
los. Ver o seu Mestre, inclinado no nós. Não é apenas um discurso va-
chão, lavando os pés empoeirados zio, mas é algo que acreditamos e
daqueles que eram inferiores a Ele. nos dedicamos a viver.
Um escândalo jamais visto. Pedro
até tenta reagir àquele absurdo,
mas foi prontamente repreendido Segunda: Filipenses 2.5-11
por Jesus. Este era o Mestre dos
Terça: Marcos 12.28-33
mestres, cultivando nos corações
dos seus discípulos o desejo de Quarta: João 13.1-20
Leitura Diária

servir aos outros. Quinta: 1Coríntios 12.12-27


Estamos comprometidos com Sexta: Romanos 12.9-21
Cristo em servir aos outros? Não Sábado: Efésios 4.1-6
há condição ou função dentro da Domingo: Gálatas 6.9-10
Igreja que deva nos impedir. Antes

55
DATA DO ESTUDO

LIÇÃO 12
Texto Bíblico: Mateus 5.13-16

MAIS QUE PALAVRAS

Testemunho é um princípio sido um beberrão, comentou de


cristão de singular grandeza, por- forma escarnecedora: “Isso é uma
que a vida se torna o grande con- grande bobagem! O que está me
vite, muito mais que as palavras. O dizendo não passa de tolice e
sentido de “sal da terra” e “luz do pura imaginação de sua mente. O
mundo” estabelece o cristão como que está acontecendo com você,
aquele que empenha a sua vida, nada mais é do que uma fuga da
com um “custo” pessoal, sacrifi- realidade. É um sonho”.
cial, para que Cristo seja visto por De repente, o ateu sentiu um
todos através das suas atitudes, puxão em sua camisa e viu uma
seus comportamentos. criança pequena olhando firme
Conta-se que um ateu, depois para ele, com os olhos confusos:
de ouvir o testemunho de um ho- “Por favor, senhor”, disse a crian-
mem que por muito tempo havia ça, soluçando,  “se ele estiver so-

56
nhando, não o desperte. Ele tem O testemunho cristão conserva
sido um pai muito bom para nós os valores de Cristo entre a huma-
desde que virou crente”. nidade. Temos de agir para a pre-
O ateu ficou tão impactado com servação dos ensinos cristãos, pois
o testemunho daquela criança que somente em Cristo a preservação
se afastou sem dizer mais nenhuma da vida é real e eterna.
palavra. 3. O sal dá sabor. No início da
minha adolescência, tive uma com-
Sal da terra plicação nos rins, fruto de uma bac-
téria que estava alojada na gargan-
Jesus se referiu aos seus ser- ta. Passei por momentos difíceis.
vos como “sal da terra” (v.13). O sal Como a minha Igreja na época –
sempre foi algo precioso e possuía Terceira Igreja Batista em Cabo Frio
grande valor nos tempos antigos. – orou por mim! Minha família e eu
“Os gregos costumavam dizer que somos profundamente agradecidos.
o sal era divino. Os romanos, em Deus, usando médicos e medica-
uma frase que em latim era algo mentos, me curou.
como uma das rimas comerciais da Uma das maiores dificuldades
atualidade, diziam: ‘Nada é mais útil foi ingerir alimentos totalmente sem
que o sol e o sal’” 1. sal. O médico tentava me consolar,
1. Na época de Jesus, o sal era dizendo que o ser humano é o úni-
relacionado à pureza, em razão co animal que coloca sal na comida.
da sua brancura. O cristão, en- Não valia de nada. Comer tinha per-
quanto sal da terra, é aquele cuja dido a graça. Uma mísera pitada de
vida é pura, sem mácula. Essa é a sal faria toda a diferença naquela
exigência. Esse deve ser o alvo. ocasião. Mas por um lado foi bom:
2. O sal também era o mais aprendi a colocar pouquíssimo sal
comum conservante. O sal pro- nos alimentos, até hoje.
longava a vida válida do alimento, O cristão verdadeiro dá sabor
evitando que apodrecesse. Antiga- ao mundo. As coisas ficam mais fe-
mente, quando a maioria das fa- lizes, ganham mais sabor, quando
mílias não possuía geladeira, sal um servo de Deus está presente.
e banha de porco eram elementos Jesus espera isso de nós!
utilizados para a conservação dos
alimentos. Meu avô Leôncio conta Luz do mundo
que sempre havia peixe salgado e
carne de porco curtida na banha Outra expressão utilizada por
em sua casa, porque não havia o Jesus foi “vós sois a luz do mundo”
recurso da geladeira. (v.14). Nossa responsabilidade é
1 - BARCLAY, William. The Gospel of Mattew. Louisville, Kentucky: Westminster John Knox Press, 1964. A referida obra
também foi uma referência pelo seu esboço didático na apresentação dos comentários.

57
enorme, porque o próprio Jesus de- 3. Uma luz também serve
clarou sobre si mesmo: “Enquanto como advertência. Geralmente à
estou no mundo, sou a luz do mun- noite, nas estradas, os perigos são
do” (Jo 9.5). sinalizados pela luz. São luzes que
1. Uma luz, pela sua razão de nos advertem, com a finalidade de
ser, é vista. Assim como a luz, o fazer com que nos detenhamos.
cristão deve ser visto. Isso faz parte O cristão, muitas vezes, precisa
do testemunho. Não somos cristãos ser essa luz de advertência, ou seja,
para ficar escondidos, como quem precisa exortar as pessoas. É preci-
se sente protegido numa redoma. É so, com amor, dizer a verdade. Sem
imperioso ao testemunho sairmos Jesus, o ser humano caminha para
da zona de conforto. um precipício espiritual chamado
inferno, condenado à morte eterna.
Tal qual uma luz, a vida cristã
A Igreja não está no mundo
deve ser vista pelas pessoas que
para fazer relações públicas, mas
nos rodeiam. Tem coisa estranha se
para anunciar: “Arrependei-vos,
no trabalho ou na escola ninguém pois, e convertei-vos, para que os
sabe que você é crente, não acha? vossos pecados sejam apagados”
A sua luz está com problemas, pre- (At 3.19). Não pregamos adesão,
cisa melhorar para ser vista. porque não somos um clube. Pre-
2. A luz serve de guia. Em mui- gamos conversão!
tos lugares, as luzes são colocadas
de forma estratégica para mostrar Assim resplandeça a vossa luz
o caminho. O testemunho cristão
precisa ser uma espécie de farol, A conclusão de Jesus é primo-
apontando o caminho, que é Cristo rosa e esclarecedora: “Assim res-
(Jo 14.6). plandeça a vossa luz diante dos
homens, para que vejam as vossas
As pessoas, ao olharem para um boas obras e glorifiquem vosso Pai,
cristão, não devem se perder. Pelo que está nos céus” (v.16).
contrário, o cristão tem de ser uma
1. Resplandecer diante de to-
referência segura. Não somos o
dos. A missão está posta. O cristão
Cristo (Jo 1.20), mas temos o com-
precisa resplandecer a Cristo diante
promisso de ser condutores da sua das pessoas. “Vós mesmos sois a
mensagem. Apontamos para Jesus nossa carta, escrita em nosso co-
com as nossas vidas (Jo 1.29). ração, conhecida e lida por todos,
O apóstolo Paulo foi formidável manifestos como carta de Cris-
como luz a guiar pessoas a Jesus, to, ministrada por nós, escrita não
ao ponto de dizer: “Sede meus imi- com tinta, mas pelo Espírito Santo
tadores, como também eu sou de do Deus vivo, não em tábuas de pe-
Cristo” (1Co 11.1). Podemos dizer dra, mas em tábuas de corações de
o mesmo? carne” (2Co 3.2-3).

58
2. Boas obras visíveis. É a ver- “Porque todas as coisas são dele,
dade bíblica em sua integralidade: por ele e para ele. A ele seja a glória
“Assim também a fé por si mesma é eternamente! Amém” (Rm 11.36).
morta, se não tiver obras” (Tg 2.17).
As boas ações do cristão devem re- Para pensar e agir:
fletir a beleza de Cristo. A bondade
nascida de um coração piedoso é É atribuída a Francisco de Assis
sempre atrativa. a afirmação: “Pregue o Evangelho
Um pastor estava triste porque o tempo todo. Se necessário, use
a sua Igreja estava vazia e desa- palavras”. Há um aspecto negativo
nimada. Do outro lado da rua, em nela, se for mal interpretada, porque
frente ao templo, havia um circo também devemos pregar com pala-
cheio e vibrante. O pastor pergun- vras, falando de Cristo aos outros.
tou ao apresentador o segredo para A frase, portanto, não deve ser uma
tamanho público, lamentando a rea- fuga para não abrirmos nossas bo-
lidade da sua congregação. Ele res- cas para anunciar a mensagem de
pondeu: a diferença, pastor, é que salvação, muito pelo contrário!
eu falo mentiras como se fossem Mas, sendo corretamente inter-
verdades, e o senhor fala verdades pretada, a afirmação traz o lindo
como se fossem mentiras. ideal de que a vida deve falar mais
Nossas boas obras, de tão ver- alto que as palavras. Ou seja, deve-
dadeiras e belas, devem ser vistas. mos viver o que pregamos, porque
Jesus quer isso de nós, como sal o testemunho é um elemento extre-
e luz. Precisamos demonstrar a ale- mamente útil à evangelização.
gria de ser de Jesus. Isso precisa Já parou para pensar que você
transbordar em nós. pode ser a única Bíblia que alguém
3. A glória é de Deus. Nem esteja lendo? Há pessoas que não
mesmo as boas ações que pratica- leem a Bíblia (livro), mas veem a
mos devem ser para nossa própria Bíblia pelo nosso testemunho, “por-
promoção. Jamais! Jesus foi bem que para Deus somos o bom aroma
claro: “glorifiquem vosso Pai” (v.16). de Cristo” (2Co 2.15).
O que fazemos é para ser visto pe-
las pessoas, com a finalidade de Segunda: Mateus 5.13-16
verem Cristo em nós e glorificarem
Terça: 1Coríntios 11.1-2
a Deus.
Quarta: Filipenses 1.27-30
Pastores que alardeiam seus
Leitura Diária

ministérios, líderes que ostentam Quinta: Atos 5.30-32


seus feitos, membros de Igreja que Sexta: Mateus 28.18-20
se gabam dos seus desempenhos Sábado: Provérbios 11.30
e atuações, devem ser refutados. Domingo: Atos 1.8
Toda glória é exclusiva de Deus:

59
DATA DO ESTUDO

LIÇÃO 13
Texto Bíblico: 1Timóteo 4.7-8

O EXERCÍCIO DA
ESPIRITUALIDADE

Pense em um grande jogador em quando, jogo com os amigos.


de futebol, o melhor que você pu- Mas tudo isso não me torna apto a
der imaginar. Esse atleta não se substituir um jogador profissional
tornou esse grande jogador por num time profissional (seria vergo-
acaso. Conquistou isso ao custo nhoso, na verdade), já que eu não
de muito treino e dedicação, ab- tenho o preparo necessário.
dicando de coisas que prejudica- Às vezes vivemos desse jeito
riam seu rendimento. Trabalhou in- nossa espiritualidade. Amamos
tensamente com uma meta muito a Jesus, conhecemos sua vida e
clara: a excelência na prática es- ministério e, de vez em quando,
portiva. Eu, particularmente, ado- fazemos algumas coisas que Ele
ro futebol. Torço por um time, co- fez. Mas isso nunca será suficien-
nheço as regras do jogo e, de vez te para sermos como Ele (e aca-

60
ba sendo igualmente vergonhoso).
Para chegarmos a essa condição, Subjugar do corpo
precisamos reproduzir o mesmo Você precisa se conhecer. Sa-
tipo de preparação que Ele se sub- ber de seus talentos, fraquezas e
meteu. Jesus não conquistou essa limites. Uma vez conhecidas essas
condição gratuitamente, mas ao características, trabalhamos para
custo de muito sacrifício. Sim, Ele moldá-las conforme a meta princi-
trabalhou muito para ser como foi. pal. Em nosso caso, a meta é ser
Precisou abdicar de coisas para si como Jesus.
e se submeter a uma rigorosa disci- O corpo é elemento central de
plina espiritual para alcançar a mais nossa preocupação. Ele pode ser
sublime relação com Deus. instrumento de sucesso ou de que-
John Wesley, certa vez, disse da, dependendo da forma como o
que havia um ditado comum na Igre- usamos. E essa não é uma ideia
ja primitiva: “A alma e o corpo for- nova. Paulo foi muito enfático ao fa-
mam um homem; o espírito e a dis- lar da sua relação com seu corpo:
ciplina formam um cristão”. O ideal “aplico socos no meu corpo e o tor-
da vida cristã é ser como Jesus. no meu escravo, para que, depois
É necessário que passemos pelo de pregar aos outros, eu mesmo não
mesmo processo que Ele passou. venha a ser reprovado” (1Co 9.27).
O corpo tem seus próprios desejos
Disciplina para evoluir e inclinações, precisa ser subjuga-
do à vontade espiritual de servir
Ser disciplinado é basicamen- para a glória de Jesus. Do contrário,
te ser obediente a um conjunto de ele seguirá apenas seus instintos
regras ou parâmetros. Seguir em para sua própria satisfação. “Por-
ritmo contínuo as diretrizes de um tanto, não reine o pecado em vosso
projeto ou ideal. Para desenvolver corpo mortal, a fim de obedecerdes
espiritualidade com o mesmo rigor aos seus desejos. Tampouco apre-
que um atleta quando se prepara senteis os membros do vosso cor-
para uma competição, precisamos po ao pecado como instrumentos
aprender com ele. O alto desem- do mal; mas apresentai-vos a Deus
penho passa pelo conhecimento e como vivificados dentre os mortos,
domínio do próprio corpo, pelo de- e apresentai os membros do vosso
senvolvimento muscular para lhe corpo a Deus como instrumentos
dar potência e pelo aprimoramento de justiça” (Rm 6.12-13).
técnico, para lhe dar precisão. Cada Esse é um processo pelo qual
um desses aspectos tem os seus Jesus também passou. Quando
parâmetros e rotina de trabalho. dizemos que Ele subjugou seu
Seguindo-os disciplinadamente, al- corpo, precisamos entender que
cançaremos a excelência. “Jesus era humano, não só divino.

61
Ele precisou de disciplina não por- dizer a este monte: ‘Vá daqui para
que fosse pecador e necessitante lá, e ele irá. Nada será impossível
de redenção, como nós, mas por- para vocês” (Mt 17.20) – A fé traz
que tinha um corpo como o nos- o sobrenatural à vida, sustenta em
so”1. O corpo tem de ser posto a momentos de grandes dificuldades
serviço da espiritualidade, para não e fortifica a esperança. Dá solidez à
ser pedra de tropeço. Se bem disci- espiritualidade do crente, à medida
plinado, será instrumento de justiça. que ela se renova.
3. Do Evangelho – “Porque
Desenvolver a musculatura não me envergonho do evange-
lho, pois é o poder de Deus para a
A musculatura é a origem da
salvação de todo aquele que crê”
potência na atividade física. Ao de-
(Rm 1.16) – O Evangelho é o marco
senvolvê-la, ganha-se em desem-
penho, resistência e poder de ação. da esperança dos homens. O con-
Um atleta pode conhecer-se bem e teúdo do coração e boa nova nos
dominar com perfeição a técnica, lábios do crente. Sua mensagem
mas sem a força muscular a ativi- revigora a vida e liberta os cativos
dade é débil. do poder mortal do pecado.
A espiritualidade saudável exige 4. Da humildade – “A minha
um espírito forte. De onde vem o graça te é suficiente, pois o meu
poder espiritual na vida do crente? poder se aperfeiçoa na fraqueza.”
(2Co 12.9) – Estar enfraquecido é
1. Da sensibilidade à voz do estar pronto para o agir de Deus,
Espírito – “Mas recebereis poder nos restaurando e reerguendo. O
quando o Espírito Santo descer so- humilde admite suas falhas e re-
bre vós” (At 1.8) – Quanto mais con- conhece que depende da graça
seguirmos ouvir a voz do Espírito e de Jesus para viver. Quanto mais
nos permitirmos ser guiados por nos ausentamos do protagonismo
Ele, mais poderosa será a sua ação das nossas vidas, mais Jesus toma
em nossas vidas. Teremos mais esse lugar e desempenha seu se-
capacidade de entender as Escri- nhorio sobre nós.
turas, estaremos frequentemente
no centro da vontade de Deus e de-
senvolveremos mais o Fruto do Es- Aprimorar a técnica
pírito (alegria, paz, longanimidade, É o conhecimento específico de
benignidade, bondade, mansidão e uma atividade. Usando o exemplo
domínio próprio – Gl 5.22). de um jogador de futebol, a técnica
2. Da fé – “Eu asseguro que, relaciona-se à precisão nos passes,
se vocês tiverem fé do tamanho chutes e desarmes, ocupação de
de um grão de mostarda, poderão espaços no campo, tática, etc.
1 - WILLARD, Dallas. O Espírito das Disciplinas. Rio de Janeiro: Danprewan, 2003.

62
Na espiritualidade, a técnica tem fico. O cristianismo é uma religião
a ver com a prática da vida cristã. de contato pessoal. Jesus caminha-
Estar familiarizado com os instru- va pelas ruas das cidades e aldeias
mentos de trabalho, com os proce- procurando por pessoas para se re-
dimentos habituais, os objetivos tra- lacionar com elas. Nesse exercício,
çados e os valores defendidos. se deparava com as mais variadas
A nossa principal ferramenta de carências afetivas e espirituais. En-
trabalho é a Bíblia. Precisamos co- contrava pessoas marginalizadas e
nhecê-la com distinção. Ela é o livro desprezadas e com elas se sentava
mais vendido da história, mas talvez para conversar acerca da vida, da
seja o menos entendido. Não é ad- fé e da verdade. Encontro, conver-
missível para um cristão desconhe- sa, compartilhamento, comunhão –
cer seu único guia de fé e prática. uma sequência de acontecimentos
Você deve conhecer suas divisões, que tornam o cristão mais ciente do
temas e escritores, saber aplicar que ele é. Ele é a mão de Deus pre-
sente na vida dos oprimidos, dos
os versículos adequadamente nas
solitários, dos sofridos e abatidos.
ocasiões corretas e ser capaz de
correlacionar o Antigo Testamen-
to com o Novo Testamento. A falta Para pensar e agir:
de intimidade com as Escrituras A excelência na vida cristã está
tem produzido interpretações intei- à nossa espera. Temos o conteúdo
ramente equivocadas, causando e o caminho para nos aperfeiçoar-
confusão e produzindo cristãos mal mos. É tudo uma questão de força
formados espiritualmente. de vontade e disciplina.
Discipular pessoas e conduzi- Os atletas trabalham com muito
-las pelo caminho da fé é uma ha- empenho e sacrifício para conquis-
bilidade que necessita de cultivo. tas terrenas. Coisas que perecem
A improdutividade é um dos piores com o tempo, glórias que duram
males que podem acometer ao cris- até o próximo vencedor. Qual deve
tão. Não apenas porque devemos ser, então, a intensidade de nossa
cumprir o comissionamento de Je- entrega, já que nossa conquista é
sus (Mt 28.19-20), mas porque de- espiritual e eterna?
pendemos disso. Nossa espiritua-
lidade se fortalece na medida em Segunda: 1Coríntios 9.25-27
que nos dedicamos a encaminhar
outros pela fé. O ensino é um exer- Terça: Romanos 6.1-14
cício eficaz para aprimorar nossa Quarta: Gálatas 5.22-23
prática cristã.
Leitura Diária

Quinta: Mateus 28.19-20


Em algumas igrejas, a prática da Sexta: Mateus 4.23-25
visitação é privilégio de poucos. Em Sábado: Mateus 17.14-20
geral, é um trabalho concedido a um
Domingo: 2Coríntios 12.9
departamento ou ministério especí-

63
Currículo
2018
Primeiro Trimestre Revista da Convenção Batista Fluminense
Ano 14 - n° 55 - Outubro / Novembro / Dezembro - 2017
MULTIPLICANDO DISCÍPULOS
“Obediência ao Ide de Cristo” Diretor Executivo: Pr. Dr. Amilton Ribeiro Vargas
Pr. Jozadaque Gomes Nunes
Diretoria da Convenção Batista Fluminense:
Presidente: Pr. Vanderlei Batista Marins
Segundo Trimestre Primeira Vice-Presidente: Profª. Esmeralda Oliveira Augusto
Segundo Vice-Presidente: Pr. Ronem Rodrigues do Amaral
RESGATANDO OS VERDADEIROS Terceiro Vice-Presidente: Pr. Eber Silva
VALORES DA FAMÍLIA Primeiro Secretário: Pr. Felipe Silva de Oliveira
Pr. Nataniel Sabino Segundo Secretário: Pr. Juvenal Gomes da Silva
Terceiro Secretário: Pr. Luciano Cozendey dos Santos
Quarto Secretário: Pr. Ceza Alencar Rodrigues

Terceiro Trimestre Diretor de Educação Religiosa:


VIVENDO PARA A GLÓRIA DE DEUS Pr. Marcos Zumpichiatte Miranda

Fundamentado na Epístola de Paulo


Redator: Pr. Marcos Zumpichiatte Miranda
aos Colossenses
Revisão Bíblico Doutrinária: Pr. Paulo Pancote
Pr. Evaldo Rocha Revisão e copidesque: Edilene Oliveira

Quarto Trimestre Produção Editorial, Diagramação e Impressão:


Print Master Editora (22) 3021-3091

Fruto do Espírito - A Verdadeira Liberdade! Distribuição:


Pr. Roberlan Julião Print Master Editora

Convenção Batista Fluminense


Rua Visconde de Morais, 231 - lngá - Niterói - RJ
Seja Mordomo CEP 24210-145
Algumas Igrejas poderão estar recebendo mais Tel.: (21) 2620-1515
revistas que o número de jovens e adultos E-mail: contato@batistafluminense.org.br
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