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Universidade Estadual Vale do Acaraú

Curso de Filosofia
Disciplina de Ética
Prof. Flávio Melo
Acadêmica: Maely Mesquita.

Respostas ao questionário do livro:


MARCONDES, Danilo. Textos básicos de ética: de Platão a Foucault. Zahar, 2007.p.17-69

1- Platão
 Quais os argumentos de Sócrates contra a tese de que o melhor é o mais forte?
 Segundo Platão, qual a importância do conhecimento do Bem para a conduta
ética?

O argumento de Sócrates contra os argumentos de Cálicles - que defende que o


poder só pode ser exercido pelos mais fortes, esse não necessariamente precisa ter compromisso
com os princípios éticos – tem seu cerne em que no exercício do poder político os princípios
éticos devem prevalecer sobre a força.1 Neste diálogo entre Sócrates e Cálicles vemos em cena
a dialética socrática, uma técnica de argumentação usada por Sócrates.
O conceito de “melhor” é aquele que, em primeiro lugar, é capaz de ter equilíbrio
e autocontrole2 é usado pelo mestre de Platão durante do diálogo para contrapor seu oponente.
Mas para se chegar a essa conclusão o filósofo usa da ironia, levando seu adversário, Cálicles,
a entrar em contradição, através da retórica e da exploração dos significados das palavras e do
próprio entendimento de Calicles; conceitos empregados pelo próprio como: “melhor” e “mais
forte”.
Sócrates apenas exige de seu opositor um pouco de coerência ao utilizar os termos
em sua argumentação. A argumentação de Sócrates leva Cálicles a contradição, não sabendo
mais se o melhor era o mais forte ou o mais inteligente. Sócrates contesta a argumentação até o
fim levando seu opositor a pensar em refletir sobre o entendimento do que é a ética então.

1
MARCONDES, Danilo. Textos básicos de ética: de Platão a Foucault. Zahar, 2007 (p.18).
2
Idem.p.18
SÓCRATES: Quero dizer ser capaz de governar a si mesmo, ou isso não é
necessário quando se governa os outros?
CÁLICLES: Mas o que entendes por governar a si mesmo?
SÓCRATES: Uma coisa simples, como todos entendem: ser equilibrado e
capaz de autocontrole, dominar os desejos e as paixões.

É a partir desse entendimento de ética que Platão propõe uma ética que transcende
a conduta humana. Para Platão, como fidedigno discípulo de Sócrates, o conhecimento do bem
leva ao amadurecimento espiritual, pois o indivíduo adquire através da reflexão o autocontrole,
e assim a virtude torna-se a força interior do caráter, a consciência do bem e a vontade guiada
pela razão.3 O sábio é portanto, o indivíduo que alcançou o bem e sabe agir de forma justa. Por
isso a ética de Platão é conhecida como a metafisica do bem.

2- Aristóteles
 Como se pode entender, segundo Aristóteles, a felicidade como um conceito ético?
 Como Aristóteles caracteriza o discernimento (phronesis) como uma faculdade que
torna possível a ação ou conduta ética?

Diferente da ética platônica, a ética aristotélica é especificamente prática. Para o


filósofo Aristóteles a ética está intrinsecamente ligada a felicidade, pois todos buscamos algo
na vida e todos desejamos ser felizes de alguma maneira.4

O que se percebe no pensamento de Aristóteles é que para chegarmos a sermos


éticos precisa-se da razão, pois só a consciência dará ao indivíduo a segurança para discernir
entre o que é certo e o que é errado. Logo o conceito de justa medida é compreendido como o
indivíduo que sabe agir sem excesso e evita extremos. Para Aristóteles uma pessoa ética é uma
pessoa feliz que age com prudência na vida.

A teoria ética aristotélica é empirista em contraposição à visão idealista e


racionalista de platônica. A ética aristotélica parte do estabelecimento da noção de felicidade,
a eudaimonia, o agir segundo a virtude em busca de alcançar a felicidade. Diferente do ideal
platônico, que buscava a essência das ideias de felicidade e do ideal de Bem.

A felicidade é assim definida como atividade da alma que se guia pela perfeita
virtude. Neste ponto da exposição aristotélica, podemos notar outra oposição com relação à

3
CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. Ática, 199.p. 334.
4
MARCONDES, Danilo. Textos básicos de ética: de Platão a Foucault. Zahar, 2007.p.40.
ética em que o conhecimento do que seria o Bem era a condição para o bem agir e para a virtude,
e isso seria somente um conhecimento teórico, mas que além do fato de que as virtudes
implicam uma atividade racional também implicam uma atividade habitual, prático, e assim
chegamos ao conceito de Phronesis:

Esse saber prático é por vezes também denominado prudencial, por ter como
faculdade definidora a prudência, como em alguns casos se traduz o termo
grego phronesis (que pode ser traduzido ainda como razão prática, ou
capacidade de discernimento).5

A realização ética está assim ligada a felicidade, e essa, portanto, só pode ser concebida
a partir da atitude prática das virtudes, que está ligada a ideia do Bem, mas este não apenas
teórico, mas praticado com discernimento. O sujeito ético é, portanto, o sujeito prudente, logo,
feliz.

3- St. Agostinho
 Como santo Agostinho justifica que, sendo Deus sumamente bom, exista o Mal?
 Qual a definição do Mal que encontramos nas Confissões?

Agostinho caracteriza que o pecado (mal moral) é fruto do agir voluntário. Daí a
presença de uma vontade livre imputar ao homem a necessária responsabilização pelos seus
atos sejam eles bons ou ruins e retirar o fardo da culpa de Deus. Na obra O livre-arbítrio,
Agostinho afirma que Deus não pode praticar o mal pois Ele é sumamente bom. O mal moral,
portanto, seria a ausência de instrução quanto ao que devemos nos remeter.

Santo Agostinho diz que a origem do mal, estaria na escolha da vontade humana,
no mau suo do livre-arbítrio. Assim, todas as coisas provêm de Deus - esse que é sumamente
bom - mas sendo ele assim incapaz de fazer o mal.

Em absoluto, o mal não existe nem para Vós, nem para as vossas criaturas,
pois nenhuma coisa há fora de Vós que se revolte ou que desmanche a ordem
que lhe estabelecestes. Mas porque, em algumas das suas partes, certos
elementos não se harmonizam com outros, são considerados maus.6

5
MARCONDES, Danilo. Textos básicos de ética: de Platão a Foucault. Zahar, 2007.p.40.
6
AGOSTINHO, Santo. Confissões. Editora Vozes Limitada, 2017, p.140.
Outro argumento de Santo Agostinho é destituir o mal de materialidade afirmando
que o mal, ontologicamente, enquadra-se no ponto de vista moral ao pecado. Em Confissões, o
filósofo afirma: “Indaguei sobre a maldade e não encontrei uma substância, mas sim a
perversão da vontade afastada de Vós, o Ser Supremo, tendendo em direção às coisas
inferiores, expelindo as suas entranhas e inchando-se toda”7.

O filosofo assim, transpassa o dualismo maniqueísta que enquadrava o bem e o mal


como substancias absolutas, e reduzo o mal a um bem menor que não estaria presente no
universo ou em Deus, mas no próprio homem (pecador) e seu uso equivocado da vontade e do
mal-uso que faz do seu livre-arbítrio.

4- Tomás de Aquino
 A concepção de livre-arbítrio de são Tomás de Aquino é compatível com a de santo
Agostinho?
 Como são Tomás de Aquino relaciona a virtude e o livre-arbítrio?

Para Santo Tomás de Aquino o livre-arbítrio é resultado da racionalidade do


homem, em contraponto a ideia de Santo Agostinho onde o livre-arbítrio é a faculdade da
liberdade de escolha concedida por Deus ao homem.

Enquanto a linha de pensamento de Santo Agostinho girava em torno de dualismos,


herança de Platão; Bem e mal, corpo e espirito, sendo assim Santo agostinha condenava os
pecados da carne e pregava que a fé era o essencial. Já São Tomás de Aquino contrapunha as
ideias de Santo Agostinho, colocando a razão em primeiro lugar.

Quanto as virtudes o filósofo argumenta a partir dos ideais aristotélicos, indo mais
uma vez contra as ideias de Agostinho que eram embebidos na filosofia platônica. Assim os
bons hábitos resultariam em virtudes, seguindo a linha aristotélica.8 Mas não somente hábitos,
mas bons atos ponderados racionalmente :

77
MARCONDES, Danilo. Textos básicos de ética: de Platão a Foucault. Zahar, 2007.p.58.
8
idem.p.67.
Já as potências racionais, que são características humanas, não são
determinadas em função de uma ação em particular, mas inclinam-se
indiferentemente para muitas ações e são determinadas em relação a atos por
meio de hábitos, como fica evidente pelo que dissemos antes.
Consequentemente, as virtudes humanas são hábitos.9

Para Tomás de Aquino esse habito é a predisposição humana que não é infalível, mas
que é livre para escolher, em determinado sentido. Logo o habito é a tendência de
comportamento de um ser humano em particular, em pleno exercício da sua liberdade, que o
levará ao exercício da virtude.

9
MARCONDES, Danilo. Textos básicos de ética: de Platão a Foucault. Zahar, 2007.p.68
Referências bibliográficas.
AGOSTINHO, Santo. Confissões. Editora Vozes Limitada, 2017, p.140.
CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. Ática, 199.p. 334-355.
MARCONDES, Danilo. Textos básicos de ética: de Platão a Foucault. Zahar, 2007.p.17-69