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FILOSOFIA

10ºANO

I-Módulo Inicial - Iniciação à Actividade Filosófica


1.Abordagem introdutória à filosofia e ao filosofar
1.1.O que é a Filosofia? - Uma resposta inicial

A-Introdução
O que se há de específico na disciplina de filosofia?
O importante é saber escrever e falar?
Qual a utilidade da Filosofia ?

1. O grande objectivo do ensino da filosofia é desenvolver nos alunos uma atitude


crítica sobre o mundo e o sentido da nossa existência enquanto seres humanos.
Mas não basta criticar, é preciso fazê-lo de uma forma metódica e fundamentada.

2. É importante saber escrever e falar, mas não basta. Estas competências têm
que ser desenvolvidas de uma forma reflectida.

3.A filosofia não tem qualquer utilidade, como afirmava Aristóteles à cerca de
2400 a.C. O máximo que se pode afirmar é que a Filosofia favorece, entre outras
coisas, o desenvolvimento de uma compreensão mais abrangente sobre o mundo e os
diferentes saberes. Mas para isso, pouco adianta memorizar tudo sobre os vários
temas tratados em filosofia, se sobre os mesmos não se é capaz depois de
clarificar um conceito ou colocar uma questão.

1 Adaptação, Isabel Valente


FILOSOFIA
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Argumentação
Produção de afirmações destinadas a sustentar ou a apoiar uma conclusão
Crítica
Diz-se da atitude do espírito que não admite nenhuma afirmação sem reconhcer
primeiro a sua legitimidade.
Filosofia
Termo de origem grega resultante da junção de duas palavras: "philos" e "sophia".
A primeira significa amigo, o que deseja ou procura. A segunda significa sabedoria,
saber, conhecimento. Neste sentido, a filosofia diz respeito à actividade própria
daqueles que amando ou desejando o saber, se envolvem na descoberta do
conhecimento da realidade. Na Grécia dava-se o nome de filosofia aos homens que,
movidos por interesses intelectuais desinteressados, procuravam compreender a
realidade existente. O saber que íam adquirindo, assim como a totalidade dos
conhecimentos obtidos nas suas investigações recebia igualmente a designação de
filosofia.
Método
Termo de origem grega que significa "caminho para algo". É o conjunto de
processos e regras que tem por fim a descoberta e a demonstração da verdade.
Objecto
Diz-se de tudo aquilo que é percebido, imaginado, concebido ou pensado de forma
individualizada. Em ciência, aquilo que se trata, o assunto. Em filosofia, por
oposição a sujeito, o que é pensado ou que existe independentemente dos sujeitos
pensantes.
Objectivo
Diz-se de algo que consideramos imparcial e que está de acordo com os factos, que
existe independentemente do pensamento.
Reflexão
Termo de origem latina que significa a acção de voltar atrás. É a atitude do
pensamento que se debruça sobre si próprio.

B-Da Atitude Natural à Atitude Reflexiva


Qual é a primeira atitude que temos perante as coisas ?
O que distingue a atitude natural da atitude crítica?

1. Embora a capacidade de reflectir seja inerente a todos os homens, nem sempre


a estamos a exercitar. Por habito uns fazem-no mais do que outros. Viver e
reflectir não são necessariamente sinónimos.

2. Designa-se por atitude natural, a nossa atitude mais comum que temos perante
as coisas, em que nos limitamos a aceitar passivamente aquilo que nos é dado
através dos sentidos. Nesse sentido a atitude natural é também designada
por senso comum.,.o primeiro nível de conhecimento.

3. O pensamento reflexivo surge, quando o homem toma uma atitude


problematizadora da realidade; Aquilo que era natural, surge de repente como algo

2 Adaptação, Isabel Valente


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estranho, carecendo de ser compreendido e explicitado. Reflectir implica um
distanciamento das coisas, para as poder voltar a olhar de outra forma. Designa-se
esta última atitude por reflexiva.

Senso Comum
Designa o conjunto de opiniões e valores que são correntes numa dada sociedade.
Trata-se de um nível de conhecimento que é subjectivo, muito superficial, pouco
crítico e não sistemático. O senso comum está liGado ao processo de socialização.
O modo como vemos o mundo foi profundamente moldado pela cultura na qual
crescemos. O grupo social a que pertencemos transmitiu-nos tradições, costumes,
crenças, em suma, tudo aquilo que modela a nossa atitude natural face às coisas.
Estas estruturas não apenas condicionam a nossa maneira de pensar e agir, como
determina as nossas expectativas de comportamento dos outros

C-O que caracteriza a Atitude Filosófica?


1. A atitude filosófica não é uma atitude natural. Qualquer indivíduo de forma
imediata face à realidade não começa a examiná-la de forma especulativa. Pelo
contrário, o que é natural é que se centre na resolução problemas práticos, que se
guie pelo senso comum, tendo em vista resolver certas necessidades imediatas ou
interesses concretos (atitude natural). Ninguém pode viver sem se adaptar
constantemente às condições do seu mundo. Estas exigências de sobrevivência
tendem, naturalmente a sobrepor-se a todas as outras preocupações.

2.Embora o homem seja inseparável das suas circunstâncias, não pode todavia ser
reduzido a uma mero produto das mesmas. Ele está permanentemente a ser
confrontado com novos problemas que o colocam perante novas situações
imprevisíveis, e que o obrigam a alargar os seus horizontes de compreensão da
realidade. Cada mudança pode representar, assim, uma nova possibilidade para
ampliar o conhecimento. Trata-se de uma possibilidade, não algo que
necessariamente tenha que acontecer a todos os homens nas mesmas
circunstâncias e em todas as ocasiões.

3. Estas mudanças frequentemente inquietam-nos ou maravilham-nos, despertando


a nossa curiosidade sobre o porquê das coisas, levando-nos a questionar o que nos
rodeia. Ao fazê-lo estamos a distanciarmo-nos da realidade, que de repente se
tornou estranha ou mesmo enigmática. Esta atitude reflexiva, pode-nos conduzir a
uma atitude mais radical, a atitude filosófica.

4. A atitude filosófica se decorre do quotidiano, não é todavia ao mesmo redutível.


Não é fácil caracterizá-la, dada a enorme diversidade de aspectos que pode
assumir. Vejamos apenas quatro aspectos que caracterizam a atitude filosófica:
O espanto. Aristóteles afirmava que a filosofia tinha a sua origem no espanto, na
estranheza e perplexidade que os homens sentem diante dos enigmas do universo e
da vida. É o espanto que os leva a formularem perguntas e os conduz à procura das

3 Adaptação, Isabel Valente


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respectivas soluções. Como refere Eugen Fink o espanto torna o evidente em algo
incompreensível, o vulgar extraordinário.
A duvida. Ao filósofo exige-se que duvide de tudo aquilo é assumido como uma
verdade adquirida. Ao duvidar este distancia-se das coisas, quebrando desta forma
a sua relação de familiaridade com as coisas. O que era natural torna-se
problemático. O que então emerge é uma dimensão inquietante de insatisfação e
problematização. A reflexão começa exactamente a partir do exame daquilo que se
pensa ser verdadeiro. Se nunca duvidarmos de nada nunca saberes o fundamento
daquilo em que acreditamos, mas também jamais pensaremos pela nossa cabeça.
O rigor. O questionamento radical que anima o verdadeiro filósofo, não é mais do
que um acto preparatório para fundar um novo saber sobre bases mais sólidas. A
crítica filosófica é por isso radical, não admite compromissos com as ambiguidades,
as ideias contraditórias, os termos imprecisos.
A insatisfação. A filosofia revela-se uma desilusão para quem quiser encontrar
nela respostas para as suas inquietações. O que o aprendiz de filósofo encontra na
filosofia são perguntas, problemas e incitamentos para que não confie em nenhuma
autoridade exterior à sua razão, para que duvide das aparências e do senso comum.
A única "receita" que os filósofos lhe dão é que faça da procura do saber um modo
de vida. Não se satisfaça com nenhuma conclusão, queira saber sempre mais e mais.

ESQUEMA
Atitude Filosófica Filosofia Sistemática
Teorias coerentes e
Espanto
fundamentadas.
Dúvida
Teorias sobre a
Problematização
Totalidade

Atitude Reflexiva Filosofia Espontânea


Atitude passiva perante
Teorias superficiais e
as coisas
contraditórias
Distanciamento

Atitude Natural Senso Comum


Ideias Feitas
Atitude passiva perante Tradições
a realidade O nível de conhecimento
mais elementar
(Ponto de partida para todas as formas de saber e
conhecimento)

D-O que é a Filosofia? Para que serve?


Definição de Filosofia - Uma Aproximação Histórica
1. Não é fácil definir a filosofia. Nunca o foi. O seu conteúdo tem variado ao longo
dos tempos, nomeadamente com o entendimento que cada filósofo faz da mesma.

4 Adaptação, Isabel Valente


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A palavra é formada pelas palavras "philos" e "sophia" que significam "amor à
sabedoria". Foi Pitágoras que no século VI a.C. a utilizou pela primeira vez, para
designar os homens que procuravam a sabedoria, separando-os assim dos deuses
que a possuíam.

2. A filosofia surgiu historicamente nas antigas colónias gregas da Ásia Menor no


século VI a.C. Os primeiros filósofos substituíram as narrações mítico-religiosas
do cosmos, por explicações racionais, partindo de um conjunto de ideias que farão
parte da tradição filosófica:

- A convicção que na natureza as coisas não acontecem a acaso, mas obedecem a


uma necessidade que determina o quando e o como de acontecerem.

- A convicção que o homem possui uma faculdade que lhes permite aceder à
verdade, ultrapassando as aparências dos sentidos ou as ideias correntes.

- A convicção que por detrás da multiplicidade e mudança permanente das coisas


subjaz uma ordem oculta que tudo determina.

3.Embora o filósofo seja aquele que procura o saber, a verdade é que rapidamente
os primeiros filósofos se convenceram que já possuíam esse saber. Entre o século
VI a.C. e o século XVII, predominou a concepção da filosofia como o verdadeiro
saber. A verdade revelada pela filosofia era única, eterna e irrefutável. O filósofo
era aquele que se erguia a cima do seu tempo, e contemplando a verdade das coisas
a revelava aos homens.

Neste período não existia uma separação entre a filosofia e a ciência. O filósofo
era o verdadeiro sábio e dominava todos os saberes particulares que constituíam
as várias ciências. A filosofia assumia frequentemente uma dimensão sincrética.

4. A grande ruptura com esta concepção de filosofia ( a "philosophia perenis")


ocorreu por volta do século XVII. Foi então que surgiu a ciência moderna, cujo
melhor exemplo era dado pela física experimental, criada por Galileu Galilei. A
ciência rapidamente se separou da filosofia, impulsionada pelos seus métodos de
investigação: Para a formulação de teorias explicativas da realidade exigia que a
validação destas fosse feita através de provas que fossem universalmente
verificáveis. As provas dadas na filosofia resumiam-se apenas a argumentos mas
ou menos consensuais. Ao longo dos tempos muitos ramos da filosofia foram-se
transformando em novas ciências.

5. À medida que a ciência moderna se impunha como a única forma de conhecimento


válida, porque baseada em factos verificáveis universalmente, mais se questionava
o lugar da filosofia. Qual a sua importância? Qual sua finalidade? Desde o século
XVII muitos lugares tem sido apontados para a filosofia, como por exemplo:

5 Adaptação, Isabel Valente


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- Espaço de reflexão sobre as grandes questões que a ciência não dá uma resposta.
O campo da filosofia restringe-se, para muitos autores, aquilo que não pode ser
objecto de um conhecimento exacto, científico. A filosofia teria assim um caracter
residual face à ciência.

- Espaço de organização de sínteses sobre os diferentes saberes particulares.

- Espaço de problematização, onde se reflecte de uma forma descomprometida


sobre as coisas.

- Espaço de reflexão sobre a linguagem, nomeadamente sobre a linguagem


científica, de modo a evitar a criação de falsos problemas e desfazer os
existentes.

6.Apesar da procura da compreensão da totalidade, ser uma das características


mais comuns às diferentes filosofias, a verdade é que se foram definindo diversas
áreas de investigação, as denominadas disciplinas filosóficas.

Algumas Disciplinas Filosóficas


Lógica
Antropologia
Teoria do Conhecimento
(Epistemologia)
Filosofia da Linguagem
Ética
Filosofia Política
Estética
Ontologia

Ontologia
Sinónimo de Metafísica Geral. Trata das questões relativas ao ser enquanto Ser
(Ontos). Ocupa-se do Ser em geral e das suas propriedades.
Epistemologia
Disciplina da filosofia que trata da origem, constituição e limites do conhecimento
em geral. Num sentido mais actual e restritivo, doutrina dos fundamentos e
métodos do conhecimento científico.
Lógica
Termo de origem grega que significa ciência do raciocínio. A lógica é entendida
como o estudo dos métodos e princípios usados para distinguir um raciocínio
correcto de um raciocínio incorrecto. A lógica pode ser dividida em Lógica Formal e
Lógica Material. A primeira estuda as leis que devem regular as diferentes formas
do pensamento (conceitos, juízos, raciocínios...). A segunda, estuda o acordo do
pensamento com a realidade, sendo o seu objecto de estudo, os métodos seguidos
pelas diversas ciências.

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Ética
Reflexão sobre os fundamentos da moral. O que caracteriza a ética é a sua
dimensão pessoal, isto é, o esforço do homem para fundamentar e legitimar a sua
conduta. A ética é actualmente dividida em três partes fundamentais: a)Ética
Descritiva- Descreve os fenómenos morais; b) Ética Normativa -procura a
justificação racional da moral; c) Metaética- reflecte sobre os métodos e a
linguagem utilizada pela própria Ética.
Estética
Termo de origem grega que significa sensibilidade. Disciplina da filosofia que
estuda as formas de manifestação da beleza natural ou artística (criadas pelo
homem).

E-Face à multiplicidade de filosofias podemos falar da


Filosofia no singular?

1. A História da Filosofia mostra claramente que os filósofos raramente estão de


acordo entre si. Cada filósofo , num contexto histórico preciso, elabora uma
concepção completa do mundo, dando-nos a sua própria visão da Filosofia. Falar
então de Filosofia seria uma mera abstracção, sem qualquer sentido, dado que o
que existem são filosofias.

2. Apesar da pluralidade de filosóficas, é possível descobrir alguns pontos em


comum:

- A formulação de algumas questões e perguntas, concitam mais acordos entre os


filósofos que as suas respostas. Exemplos de questões básicas que registam um
largo consenso: Porque existe o mundo? Que existe por detrás das aparências ?
Porque vivemos?

- As questões que os filósofos colocam dizem respeito a todos os homens,


independentemente do lugar, raça, nacionalidade, estatuto social, etc.

3. Os filósofos, apesar dos seus desacordos, estão conscientes que fazem parte
de uma das mais antigas actividades da Humanidade que se desenvolve desde há
2.600 anos sem interrupções. É esta actividade a que se dedicam os filósofos, e
que malgrado todas as divergências, os fazem sentir membros de uma mesma
comunidade, que se designa por Filosofia. É a ela que todos nós somos chamados a
participar enquanto aprendizes de Filosofia.

E-Identifica As Principais Características Da Filosofia


A filosofia implica uma atitude de procura de um saber que se deseja, mas não se
possui. Mas que saber se trata? Como o podemos caracterizar?
Radicalidade .Inicialmente a palavra "sofia" tinha um sentido prático, mas por
volta do séc. IV a.C adquiriu um sentido muito amplo de natureza teórica. O saber
filosófico passa a ser identificado com um saber que resulta de uma procura das

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causas primeiras, o fundamento ou princípio de tudo o que é. Um nível de questões
que ultrapassa as ideias feitas, o nível do senso comum. À filosofia interessa
descobrir a natureza intima das coisas, a sua razão de ser. É intenção do filósofo ir
à raiz dos problemas.
Universalidade. A filosofia visa compreender ou determinar o princípio ou
princípios de todo o real. Mesmo quando um determinado filósofo incide a sua
reflexão sobre um aspecto particular a experiência humana - a arte, a ciência ou a
religião - o que em última instância procura compreender é a Totalidade e não
simples casos particulares.
Um outro aspecto revela ainda a dimensão universal da filosofia: ao abordar
questões que são comuns a todos os homens, o filósofo acaba por elaborar um
discurso que se dirige a todos os homens.
Autonomia. A filosofia implica uma atitude livre e todas as coerções e de todos
os constrangimentos exteriores, sejam eles de natureza religiosa ou políticas. A
reflexão filosófica recusa qualquer forma de autoridade no seu exercício. Ser
autónomo (Auto+nomos = aquele que cria a sua própria lei), é a primeira condição do
Homem enquanto ser racional. A legitimidade da filosofia está nela própria. Neste
sentido, é a expressão de um ser que pensa e age por si, procurando orientar-se
por finalidades que ele próprio reconhece como suas.
Historicidade .A filosofia, enquanto expressão de racional, é sempre um saber
situado. Os filósofos partilham as preocupações do seu tempo, neste sentido todas
as filosofias não deixam de reflectir a sociedade em que surgiram, inserindo-se
igualmente numa dada tradição. A filosofia contudo, reclama um estatuto
semelhante à arte: as grandes ideias como as grandes obras de arte transcendem o
seu tempo, assim tenhamos nós capacidade para as apreender e sentir.
Saber Fundamentado. Não basta construir novas ideias sobre as coisas, o
filósofo tem que apresentar os fundamentos do que afirma de uma forma coerente
e sistemática, utilizando uma linguagem rigorosa.
Diversidade de Métodos. Cada filosofia tem o seu método. Perante a
multiplicidade de formas pelas quais a totalidade da experiência humana pode ser
encarada, cada filósofo elege não apenas o seu objecto de estudo, mas também
traça o seu caminho (método), através do qual somos convidados a compreender a
realidade. Ao fazê-lo apresenta-nos a sua visão particular da realidade, sustentada
num conjunto de pressupostos teóricos e posicionamento no mundo e na
comunidade filosófica. Ao fazê-lo transmite-nos igualmente o seu próprio
entendimento da filosofia. É por esta razão que a filosofia se apresenta um
desconcertante conflito de interpretações das coisas.

Cada filosofia é como que um sinal dessa permanente insatisfação humana, que
nunca se contenta com nenhuma resposta e procura atingir sempre novos
horizontes.

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F-O Que Distingue A Filosofia Da Ciência?

A Filosofia como a Ciência procura encontrar respostas para as questões que o


homem coloca, mas existem grandes diferenças entre estas actividades.

Distinções entre a Filosofia e a Ciência

Filosofia Ciência
Investigação em áreas
Compreensão da totalidade
específicas
Pluralidade de Linguagens
Linguagem unívoca
filosóficas
Pluralidade de métodos de
Uniformização dos métodos
investigação
Trabalho Individual Trabalho em equipa
Argumentação Provas factuais

G-Quais as principais disciplinas filosóficas? Como as podemos


caracterizar ?
Apesar da procura da compreensão da totalidade, ser uma das características mais
comuns às diferentes filosofias, a verdade é que se foram definindo diversas áreas
de investigação, as denominadas disciplinas filosóficas.
.
Algumas Disciplinas Filosóficas
.
Antropologia: Reflexão sobre a natureza do Homem, o que o distingue das outras
espécies de animais, o sentido da sua existência, etc.
Questões : O que é o homem ?
Ética: Reflexão sobre as atitudes e a actuação dos homens, tendo em vista
estabelecer um conjunto de princípios e valores universais orientadores da acção
que possam proporcionar uma convivência mais justa e pacifica.
Questões: Podemos estabelecer padrões morais únicos para todos os homens ? O
que é o bem ? Quando é que uma acção pode ser considerada moralmente boa ?
Qual o fundamento dos Direitos Humanos ? É legitima a pena de morte ?
Estética: Reflexão o belo e as formas da sua representação nas artes e na
natureza, procurando estabelecer um conjunto de critérios para avaliação das
obras de arte.
Questões: O que é a arte ? O que é o belo ? Como é que um objecto se torna uma
obra de arte ? Como podemos avaliar uma obra de arte ? Com que critérios ? A
arte tem alguma utilidade ? Qual ?
.
Filosofia da Linguagem: Reflexão sobre a origem, a evolução, significado e função
da linguagem. Outra disciplina filosófica nesta área: filosofia da comunicação.

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Filosofia Política: Reflexão sobre a a constituição, função e sentido do Estado e
da sociedade. Outras disciplinas filosóficas que existem nesta área: filosofia
social, filosofia do direito e filosofia da história.
Questões: O que é o Estado ? O que se entende por Bem Comum ? Quais os limites
do poder político ?
Filosofia da Religião: Reflexão sobre a relação do homem com o sagrado
(sobrenatural, transcendente, etc).
Questões: Deus existe ? A fé deve ou não discutir-se ? O que significa ser
religioso?
Lógica: Estuda e determina as leis do pensamento válido.
Questões: Qual a validade de um raciocínio ? Quais as condições de um pensamento
válido ?
Ontologia e metafísica: Reflexão sobre o Ser, as causas e primeiros princípios.
Questões: O que é ser? Qual a origem do Ser? Como se caracteriza ? Que é a
realidade ?
Teoria do Conhecimento: Reflexão sobre o conhecimento (origem, possibilidade,
formas, etc).
Questões: Qual a origem das nossas ideias ? Podemos conhecer tudo o que existe?
Epistemologia: Reflexão sobre o conhecimento científico (princípios, métodos,
modelos, conceitos, etc).
Questões: O que é a verdade ? As verdades científicas são infalíveis ? Qual o
papel do erro na ciência?

1.2.Quais são as questões da filosofia? - Alguns exemplos


A-O que caracteriza uma questão filosófica?
1.Nem todas as questões que o Homem coloca são filosóficas. As questões
filosóficas são aquelas que dizem respeito a todos os homens.

2. As questões básicas da filosofia variam menos que as filosofias. Durante


séculos persistiram as questões enunciadas por Platão : a Verdade -o Bem - a
Beleza. Aspectos que reflectiam a natureza do Ser (metafísica). No século
XVIII, E. Kant formulava as seguintes: Que podemos saber (metafísica)? Que
podemos fazer (moral) ? Que podemos esperar (religião) ? Que é o homem
(antropologia) ? .
A última questão incluía todas as anteriores. Nos nossos dias os filósofos, retomam
sem cessar estas e outras questões, assim como enunciam novas problemáticas que
emergem da nossa sociedade, nomeadamente no domínio da ética.

1.3.A Dimensão discursiva do trabalho filosófico

Porque não existe apenas um método em filosofia ?


Diversidade de Métodos. Cada filosofia tem o seu método. Perante a
multiplicidade de formas pelas quais a totalidade da experiência humana pode ser
encarada, cada filósofo elege não apenas o seu objecto de estudo, mas também
traça o seu caminho (método), através do qual somos convidados a compreender a

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realidade. Ao fazê-lo apresenta-nos a sua visão particular da realidade, sustentada
num conjunto de pressupostos teóricos e posicionamento no mundo e na
comunidade filosófica. Ao fazê-lo transmite-nos igualmente o seu próprio
entendimento da filosofia. É por esta razão que a filosofia se apresenta um
desconcertante conflito de interpretações das coisas.
Cada filosofia é como que um sinal dessa permanente insatisfação humana, que
nunca se contenta com nenhuma resposta e procura atingir sempre novos
horizontes.

Quais os elementos fundamentais de um discurso filosófico ?


1. A filosofia pode ser definida como um actividade intelectual que procura
analisar, compreender e dar respostas para aos enigmas e problemas com que se
debate a humanidade e aos quais a ciência não dá resposta.
Cada filósofo sobre estes problemas formula os seus pontos de vista, produzindo
afirmações (teses, teorias) sustentadas num conjunto de razões (argumentos)
credíveis, isto é, susceptíveis de convencer as pessoas da verdade das suas
conclusões.

2. A filosofia é nesta perspectiva também uma actividade argumentativa,


envolvendo estratégias de persuasão de um dado auditório (os destinatários dos
discursos produzidos).

3. Num discurso filosófico podemos encontrar os seguintes elementos:


Problema/Questão, Tese, Argumentos, Contra-Argumentos, Refutação dos Contra-
Argumentos, Conclusão.
Problema: O enigma que se procura encontrar uma resposta.
Exemplo: O que é a realidade ?
Questão: Uma forma particular de formular o problema de modo a que o mesmo
possa ser abordado, numa dada perspectiva. A formulação da questão acaba assim
por evidenciar alguns aspectos do problema, secundarizando outros. Alguns autores
não fazem qualquer distinção entre problema e questão.
Exemplo: A realidade pode reduzir-se apenas ao que vemos ?
Tese: A resposta ou hipótese explicativa sobre um determinado problema. A tese,
em certo sentido, coincide com a conclusão.
Teoria: Uma tese apresentada de uma forma coerente e apoiada num conjunto de
argumentos convincentes da sua verdade.
Argumentos: Razões que fundamentam a tese e nos conduzem a admitir uma dada
conclusão (tese/teoria).
Contra-argumentos: As razões que podem ser apontadas para desmentirem as
afirmações apresentadas.
Refutação: As razões que podem ser indicadas para mostrar que os contra-
argumentos são inconsistentes para negarem as teses/eorias.
Conclusão: As respostas a que teremos que chegar tendo em conta a validade dos
argumentos apresentados, assim como os raciocínios efectuados.

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4. Na defesa de uma dada tese, podemos produzir três tipos fundamentais
argumentos, de acordo como o modo como raciocinamos.
Argumentos dedutivos: A partir de premissas (afirmações, argumentos) é
deduzida uma dada conclusão que se apresenta como necessária e válida. Se as
premissas forem verdadeiras e o raciocínio for correcto, então a conclusão será
também verdadeira.

Exemplos:
Todos os homens são mortais
Os gregos são homens
Logo, os gregos são mortais
.
É verdade tudo penso de forma clara e distinta
Penso de forma clara e distinta que a existência pertence à essência de Deus
Logo, é verdade que Deus Existe.
(adaptado de Descartes)

Argumentos indutivos : A partir de conjunto de premissas particulares induzimos


uma conclusão mais geral que se apresenta como logicamente possível, provável mas
não necessária..

Exemplos:
A Helena pertence a uma Associação de Defesa do Meio Ambiente
A maioria das pessoas que pertencem a tal associação opõe-se à destruição de um
jardim no Bairro Alvalade
Logo, Helena vai opor-se à destruição deste jardim no bairro de Alvalade (Lisboa).
.
"Outrora as mulheres casavam-se muito novas. A Julieta da peça Romeu e Julieta,
de Shakespeare, ainda não tinha 14 anos. Na Idade Média, 13 anos era a idade
normal de casamento para uma rapariga judia. E durante o Império Romano muitas
mulheres casavam aos 13 anos, ou mesmo mais novas". (A. Weston, A Arte de
Argumentar).
.
Durante séculos inúmeras observações e experiências nunca desmentiram esta
afirmação
Nunca se encontrou algo que a sugerisse que a mesma pudesse ser falsa
Logo, temos que concluir que a mesma é uma verdade absoluta.
.
Argumentos analógicos: Com base em duas ou mais premissas estabelecemos
relações de semelhança entre elas, procuramos extrair uma conclusão que se
apresenta como logicamente possível, provável mas não necessária.
Exemplo:
Colhe-se o que se semeia. Se plantarmos amoras, colhemos amoras. Se plantarmos
cebolas obtemos cebolas. Do mesmo modo quem semeia a guerra não pode esperar
obter paz, justiça e fraternidade (adpt de W.Salmon).

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Argumentação . Tipos de Argumentos

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