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organizadores

Hebe Signorini Gonçalves


Eduardo ponte Brandão
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    C

organizadores

Hebe Signorini Gonçalves


Eduardo ponte Brandão
Organização
Hebe Signorini Gonçalves
Eduardo Ponte Brandão

22 Edição
23 Reimpressão

Rio de Janeiro
EDITORA
2009
Apresentação 7
Pensa
Pe nsand
ndoo a Psicologia
Psicologia aplicada
aplica da à Justiça
Jus tiça 15
E sts t h e r M a r iai a d e M a g a l h ã e s  r a n lel e s
A ínterlocução com o Direito à luz das práticas
 psicológi
 psic ológicas
cas em V aras
ar as de Fam
Fa m íli
íliaa 51
E d u a r d o P o n tet e B r a n d ã o
O psicólogo e as práticas
prátic as de adoção
adoç ão 99
Lidia Nafalia Dobriarukyj Weber
O papel
pap el da perícia
perí cia psicológica
psicológica na execução pena
pe nall 141
Saio de Carvalho
A atuaç
atu ação
ão dos psicólog
psicólogos
os no sistema pena
pe nall 157
Tania Kolker
(Des)construindo a ‘menoridade’: uma análise crítica
sobre o papel da Psicologia na produção da categoria
“menor” 205
É r iki k a P i e d a d e d a S ili l v a S a n t o s
Em instituições para adolescentes em conflito com a lei,
o que
qu e pode
po de a nossa vã psicolog
psicologia?
ia? 249
M a r lel e n e G u i r ada d o
Violência
Vio lência contr
co ntraa a criança e o adolescente
adolescente 277
277
H e b e S i g n o r ini n i G o n ç a lvl v e s
Mulheres em situação de violência doméstica: limites e
 possi
 po ssibil
bilida
idades
des de enfr
en fren
enta
tam
m ento
en to 309
Rosana M orgado
Sobre
Sob re os autores
auto res 340
340
Esse livro é resultado de vários desafios.
O primeiro deles, sem dúvida central, consistiu em apre-
sentar didaticamente um ramo da psicologia que está em fran
ca expan são e desenvol desenvolvimento
vimento:: a P sicologiajurídica.
sicologiajurídica. Levan do
em conta os objetivos de um público.alvo formado basicamen
te por estudantes e interessados erri conhecer esse domínio,
 pr
 p r o p u s e m o - n o s a c o m p o r u m liv
li v ro-t
ro -tee xto
xt o que
qu e se m ostr
os tras
asse
se c a 
 pa
 p a z d e a p re s e n ta r a á re a , e m to d a suasu a a m plit
pl itud
udee . O livro
liv ro q ue
chega agora ao leitor foge portanto do formato clássico de uma
coletânea, visto que a proposta didática exige mais que a apre
sentação dos trabalhos de cada um dos autores; ela torna im
 pe
 p e r a tiv
ti v a a n e cess
ce ssid
idad
adee de d e sen
se n v o lve
lv e r u m a lin
li n h a de rac
ra c iocí
io cíni
nioo
capa z de a prese ntar a á rea aos inter interessados
essados de modo esclareceesclarece
dor, sem no entanto deixar de lado' os inúmeros problemas e
dificuldades que coloca, seja do ponto de vista teórico seja no
campo de uma prática que já nasce intèrdisciplinar.
Com efeito, a Psicologiajurídica surgiu de um chama
mento ao ingresso do Psicólogo em áreas originariamente des
tinadas às práticas jurídicas. Essa demanda coloca exigências
específicas, ditadas pelo Direito, mas é mister admidr que o
ingress
ingressoo da Psicologia
Psicologia no m un do jurídico precisa encon trar seu
m otor próprio, já que sua impulsão impulsão advém de um compromis compromis
so com o sujeito que é, por excelência, de outra ordem. Não
há conflitos insuperáveis aqui, mas há sem dúvida interseções
de peso que merecem exame.
A tarefa didática exige ainda que sejam abordados os
muitos e diversos setores e questões de que tra ta o m un do J u 
rídico, mesmo porque essas especificidades constroem a demanda
que o Direito remete à Psicologia. Parece haver um den om ina
dor comum entre os vários setores aos quais a Psicologia se
aplica, visão que o leitor certamente deverá compartilhar após
a leitura dos diversos textos que compõem este livro. No en
tanto, sobre esse denominador comum ressaltam questões par
ticulares, afeitas a cada área aqui abordada.
Dividimos então os capítulos de acordo com as práticas
que envolvem as instituições jurídicas - Varas de Justiça, C on 
selhos Tutelares, prisões, abrigos, unidades de internação, en
tre outras - nas quais os psicólogos são cham ados a atu ar. Ta is
 práticas se inscrevem nas tutelas jurídicas sobre o adolescente
no cometimento, do ato infracional, nas disputas judiciais entre
famílias, nas adoções, na violência sexual, na violência contra a
mulher, nas instituições de internamento e, por fim, nas pri
sões.
' Cadá autor'foi solicitado á traçar lim panorama históri
co da área, a lançar luz sobre as diversas tendências, a apontar
os pontos de interlocução entre Direito e Psicologia e, acima
de tudo, a oferecer uina visão crítica capaz de problematizar a
atuação do psicólogo, discutindo as implicações de sua prática
e as alternativas que se colocam ém termos técnicos, éticos e
 políticos. Eles enfrentaram, finalm ente, o desafio de pro duzir
um texto em que o didaüsmo não sacrifica o rigor crítico, ne
cessário para retirar 0 leitor de qualquer pretensão de neutra
lidade científica da Psicologia Jurídica. O êxito dessa em preitada
é agora submetido ao crivo do leitor.
É com o texto de Esther Maria de Magalhães Arantes
que inauguramos essa discussão. Ela busca a resposta na inves
tigação do objeto, dos. instrumentos e, sobretudo, dos desdo
 bramentos ético-políticos das ciências humanas e sociais e, mais
especialmente, da Psicologia Jurídic a. A partir da in dagaçã o de

8
Canguilhem acerca cia unidade da Psicologia, a autora traça
um caminho genealógico, debruçando-se sobre as perícias, os
laudos, as questões da loucura e da sanidade, a criminalidade,
as relações familiares, a ch am ad a justiça terapêu tica e o difícil
tema da infanda e da adolescência. Ela demonstra como esses
 perc ursos podem ser lidos com o técnicas de subjetivação. Em
outras palavras, Esther Arantes vem nos mostrar o jogo estra
tégico das instituições jurídicas, jogo que impõe sérios dilemas
à prática do psicólogo.
. Existe neutralidade nas práticas do psicólogo relaciona
das às Varas de Família? C om essa indagação de fundo, Eduardo
Ponte Brandão aponta inicialmente para a colonização recí
 proca entre as leis e as práticas de disciplina e normalização
que teria havido no Brasil desde o Código Civil de 1916 até as
legislações atuais que regulam as famílias. Corri objetivo de
analisar essas complexas relações, o autor adota como eixo de
investigação os critérios definidores da guarda e suas modali
dades nos processos de separação e divórcio. Feito esse pano
rama, o autor põe em xeque a prática pericial relacionada aos
litígios familiares. Os argumentos são suficientes para estimu
lar o psicólogo a atuar de forma a não causar mais prejuízos
do q ue os processos judiciais po r si só já acarre tam , devendo o
 profissional la nçar m ão de im portantes contribuições da psica
nálise, da abordagem sistêmica e das práticas de mediação.
Erika Piedade enfoca as diferenças valorativas entre os
conceitos de "menor” e de “criança” que foram forjadas ao
longo de nossa história, sobretudo a partir de dispositivos ori
entados para o controle das parcelas mais desfavorecidas da
 população. O hiato entre os bem-nascidos e os potencialm ente
 perigosos p ara a so ciedade é perp etu am ente estim ulado desde
o Brasil colonial até os últimos anos, apesar dos avanços teóri
cos e sociais propostos pelo Estatuto da Criança e do Adoles
cente. Investigar a complexa teia de determinações que assevera
a desigualdade entre as infâncias no Brasil, e com isso proble-

matizar o lugaV que o psicólogo ocupa frente às demandas so7


matizar o lugaV que o psicólogo ocupa frente às demandas so7
ciojurídicas, é a.tarefa a que a autora se'lança corajosamente.
A contribuição de Marlene Guirado, psicanalista e ana
lista institucional, vem mostrar uma nova forma de pensar a
-Psicologia-Jurídica-para-além-dos-campos-e-leituras-nas-quais-
ela já firmou sua produção. A autora questiona um 'saber p ura
mente acadêmico, restrito a  form as protegidas de proceder , assim
como uma concepção de sujeito apartada das trocas sociais.
G uirad o dem on stra que a Psicologia não só se transforma como
ganha potcncia quando se dispõe a enfrentar os desafios do
campo, expor sua prática e enfrentar efetivamente os dilemas
éticos dos sujeitos. A auto ra ap resenta certos preceitos meto do
lógicos e se propõe a avaliar sua aplicabilidade em instituições
destinadas a jov en s em conflito com a lei e submetidos a m edi
das de privação de liberdade. No! difícil contexto da FEBEM de
São P aulo, o Projeto Fique Vivo —por ela supervisionado - é
alvo de uma análise fecuncla e original, que permite depreender
que o exercício daPsicologia deve definir-se no campo das ci
ências humanas, assessorar-se delas e buscar a conexão entre o
sujeito e as relações sociais que o cercam e fundam.
A violência contra a criança e o adolescente é discutida
em capítulo de au toria de Heb e Signorini Gonçalves. C om base
cm literatura nacional e internacional, a autora faz um apa
nhado dos tipos de violência, dos sinais e indícios a serem ob
servados e das conseqüências que o ato violento produz na
criança ou no adolescente, assim como na dinâmica familiar.
Sobre esse pan ora m a, a au tora faz uma análise crítica do cam 
 po, av alia os alcances do s instru men tos legais e ale rta para os
limites da aplicação desses dados aos casos, levando em conta
que eles tendem a ocultar certas singularidades do sujeito. Seus
argumentos invocam os questionamentos mais recentes, sobre
tudo aqueles derivados de pesquisas desenvolvidas no Brasil, e
conclamam os profissionais a uma ação onde a ética de prote
ção à criança leve em conta também as necessidades dos de

10
mais membros da família, assim como o contexto social em
que'se inserem.
Ro san a M orgad o fala sobre a violência contra a mulher.
A autora mostra que a larga incidência dessa forma de violên-
-cia,_na_sociedade. contemporânea, contribui para sua naturali
zação. A leitura crítica de Ros ana alèHi7^:í õ ~ ^ tã n tõ ^ p a ra '“o~
fato de que certos modelos de análise do problema terminam
acatando a naturalização da violência. Em contrapartida, ela
 busca tratar o gênero como constru ção social, e mostra como a
 partir daí a m ulh er pode ser vista de modo muito mais com
 plexo que o estrito lugar de vítim a que lhe é atribuído. Sem
ne gar o luga r de vítima, e sem negar a dependência econômica
tão com um nas ■relações de. casal permeadas pela violência, a
au tor a vem nos m ostra r que essas .concepções são insuficientes,
quando não  falaciosas , para dar conta de uma temática que
implica o sujeito em dimensões mais profundas e complexas.
Escapando do imediatismo que permeia certos modelos sociais
e jurídicos, a autora propõe um novo olhar sobre a mulher que
sofre a violência, olhar que permite desvendar suas ambivalências
e conflitos, emprestando nova dimensão às relações de casal.
Dessa análise, a autora retira implicações importantes para as
 políticas públicas e as form as jurídicas que tratam das relações
de gênero permeadas pela violência.
A quem; serve a adoç ão: aos pais ou à criança adotada?
A resposta a essa questão é buscada na história do instituto da
ado ção, história, que an tecede os modelos jurídicos tal como
hoje os ^conhecemos. D a Antigüid ade ao Brasil contem po râ
neo, Lidia Weber indica que a Lei e as práticas sociais se inter
 penetram , e que nem sempre a proposta ju rídica encontra eco;
no tecido social. Essa análise histórica das formas de adoção é
ricamente ilustrada pela mais extensa pesquisa já desenvolvida
no Brasil sobre o tema, cujos resultados permitem examinar
não só as motivações pa ra ' ad ota r como tam bém os critérios
das equipes enca rregada s de avaliar - e avalizar —os propo-

11
nentes à adoção. A autora sustenta que, para efetivar a propos
ta legal de privilegiar o interesse da criança, será necessário
que o trabalho do psicólogo busque afastar-se de um modelo
 pericial, que visa apenas classificar e descobrir atrib uto s desejá
veis. em candidatos a pais adotivos, para levar também em conta
o desejo, a motivação, o medo e a ansiedade, entre os candida
tos, e privilegiar sua preparação para as funções de paternida
de e os vínculos de filiação dos quais o instrumento jurídico é
apenas um recurso.
Para entender o fenômeno da criminalidade, é funda
mental entender o papel da criminalização da pobreza, da
demonização das drogas, da espetacularização da violência, da
criação da figura do inimigo interno e da funcionalidade do
fracasso da prisão, especialmente no contexto atual das socie
dades neoliberais globalizadas. A expressão de Tania Kolker
anuncia a complexidade do tema e a amplitude de sua análise.
Ela no entanto não se restringe a essas determinações sociais;
demonstra ao mesmo tempo como se consolidou a prática de
individualizar as penas, o cálculo de reincidência no delito e, a
mais grave herança positivista, a percepção maniqueísta da
delinqüência e do delinqüente. Como mostra a autora, essa
história de exclusão está até hoje presente na cena prisional, a
despeito de instrumentos de proteção internacional dos direitos
humanos. Em sua análise, Kolker se vale de uma literatura
ampla que contempla Foucault, Castel, Zafaroni, Wacquant,
assim como autores nacionais - Correa, Rau ter, Batista - o
que lhe permite olhar para nossas prisões e analisar critica-
mente a função do psicólogo nesse espaço.
Alinhado também à criminologia crítica, escola inspira
da em Foucault, Saio de Carvalho enfoca a avaliação crimino-
lógica que permeia, a Lei de Execução Penal (LEP). Numa
exposição rigorosa que articula os aspectos jurídicos às práticas
de poder, o autor opõe-se à perspectiva de colocar-na cena
 penal a personalidade do apenado, invocando para tanto as

12
garantias constitucionais. Seguindo esse raciocínio, Carvalho
desvenda a prática autoritária presente no exame criminológi-
co. Ele interroga a função dos técnicos do sistema penitenciá
rio, entre os quais o psicólogo, para além da tarefa' de realizar
avaliações e perícias criminológicas. Carvalho' faz assim algu
mas indicações preciosas, mas que só serão possíveis de se rea
lizarem mediante uma perspectiva dita “humanista”.

 Hebe Signorini Gonçalves


Eduardo Ponte Brandão

13
Pensandoafsicologia aplicada à-JusIiça

E s th e r M a r ia d e M a g a l h ã e s A r an te s
Talvez a crítica mais contundente dirigida à Psicologia
tenha sido a formulada por G e o r g e s C a n g u i l h e m , em confe
rência realizada no Collège Pkilosophique,  em dezembro de 1956.'
À pergunta inicial “O que é Psi- _ 
coloria?” segue-se “Quem desig-
° , . ^dorrâasjdé^
na os psicólogoscomo ínstru-
mentos do mstrumentalismo? ,
,. fttoritémporâricÒkv.S^
numa apreciação cntica tanto da fyyyamós^enc^
 _______ ? _ J _  _ ! _ i-_!   _J J _ J . J ^
 __  -Cl

Psicologia como do próprio


zer do psicólogo.
r O Este buscaria,
i cia t VI
saber 1ÍT)■'-/i“
i£io rflc' Janeiro:
r":'h WÍI i’nGra*
T'-
n u m a . eíicacia discutível, a sua i - í'^1 ..

importância de especialista. No entanto, e aí está o que de fato


deve nos preocupar na argumentação de Canguilhem, esta efi
cácia, ainda que mal fundada, não é ilusória.
Ao dizer da eficácia do psicólogo que ela é discutível, não
se querdizer que ela é ilusória; quer-se simplesmente ob
servar que esta eficácia está 'sem dúv ida mal fun dad a, e n
quanto não se fizer prova de que ela é devida à aplicação
de uma ciência, isto é, enquanto o estatuto da psicologia
não estiver fixado de tal maneira que se deve considerá-la

1Uma tradução de Qu’est-ce que la psychologie?,   de Georges Canguilhem, foi


publicada no Brasil com o título “O que é a psicologia?”. In  Epistemologia, 2.
R io de Janeiro: Tem po Brasileiro, n. 3 0 /3 1 , jú l./de z., 1972.

15
BIB UO TE CA UNIVERSIT ÁRIA j
! PROF ROGER PATT1 j
como mais e melhor do que um empirismo composto, lite
rariamente codificado para fins de ensinamento. De fato,
de muitos trabalhos de psicologia, se tem a impressão de
que misturam a uma filosofia sem rigor uma ética sem exi
gência e uma medicina sem controle (Canguilhem, 1972:
104-105). ■
O objetivo de Canguilhem nesta conferência foi o de
criticar o programa universitário de seu colega de Ecole Normal
Supérieure, Daniel Lagache, que postulava a unificação dos dife
rentes ramos da Psicologia, afirmando haver convergência en
tre a Psicologia experimental, dita “naturalista” e a Psicologia
clínica, dita “humanista”.2
A questão “Que é psicologia?”, pode-se'responder fazendo
aparecer a unidade de seu domínio, apesar da multiplici
dade dos projetos metodológicos. É a este tipo que perten
ce a resposta brilhantemente dada pelo Professor Daniel
Lagache, em 1947, a uma questão colocada, em 1936, por
Edouard Claparède. A unidade da psicologia é aqui pro
curad a n a sua definição possível como teoria g eral da con 
du ta“ síntese da psicologia expe rim ental, da psicolog ia
clínica, da psicanálise, da psicologia social e da etnologia.
Observando bem, no entanto, se diz que talvez esta unida
de se parece mais a um pacto de coexistência pacífica con
cluído entre profissionais do que a uma essência lógica,
obtida pela revelação de'uma 'constância núma variedade
de casos (Canguilhem, 1972: 105-106).
Continuando suas crídcas à Psicologia, Canguilhem, que
aceitara ser o relator de  Historie de la folie, tese de doutorado
defendida por Michel Foucault em 196T, não poup ou Lagache,
mostrando que a pesquisa desenvolvida por Foucault fazia des
moro nar o grande projeto de unidade da Psicologia (Roudinesco,

 2 V U nilê de la Psychologie, Aula Inaugural ministrada por Daniel Lagache na


Sorbonne em 1947 e publicada pela PUF, Paris.

16
1994: 15-16). Apesar das críticas de Canguilhem e de outros
àutóres, entre os quais Jacq ue s Lacan , a prop osta de Lagache
teve ampla repercussão ria França do pós-guerra.
Em dezembro de 1980, numa conferência intitulada  Le
ceroeau et la pensêe, Canguilhem voltou a criticar a. Psicologia,
desta vez por reduzir o pensamento ao funcionamento cere
 bral. Afirm ando que a Filosofia nada tem a esperar dos servi
ços da Psicologia, conclamou os filósofos das novas gerações a
resistirem à “calamidade” psicológica. Diante de críticas tão
duras, Roudinesco observou que, nesta conferência, Cangui
lhem não havia se preocupado em distinguir as querelas e discor-
dâncias internas à própria Psicologia, fazendo uma crítica em
 bloco a saberes muito diferenciados (Roudinesco, 1993). Como
o   próprio Canguilhem havia dito na conferência de 1956, não
há unidade na Psicologia.3 U.
Mesmo assim, e ainda se perguntando se não haveria-:
um a ce rta obstinaç ão por parte de C anguilhem em dem olir os c:
alicerces nos quais se fundamentam a Psicologia, Roudinesco-^
 presta um a hom enagem “a um dos maiores filósofos do nosso
tempo”, reconhecendo a pertinência e a atualidade de suas crí
ticas, principalmente porque, segundo a autora, uma aliança'
vitoriosa entre o organicismo biológico e genético, a ciência da
mente e a tecnologia estaria ganhando terreno, em tódos os
campos do saber.
(...) até o ponto de fazer emergir uma nova ilusão cientifi-
cista segundo a qual a intervenção cada vez mais ativa da
ciência no cérebro humano permitirá conduzir o homem
à imortalidade, ou seja, à cura da condição humana
(Roudinesco, 1993: 144).
 N ão advindo, desta form a, a cientificidade da Psicologia
de sua mera rotulação como ciência, seja natural, social ou

3 Mais adequado seria falar de Psicologias?

humana, ou ciência pura ou aplicada; nem de sua adjetivação


humana, ou ciência pura ou aplicada; nem de sua adjetivação
com o Psicologia Jurídica , Social ou Escolar; ou ain da de sua
definição como estudo da alma, do psiquismo, da conduta ou
da subjetividade; sequer do uso de medidas, restaria à Psicolo
gia, em geral, e à Psicologia Ju rídic a, çm _pafticular,-sèrem —
 pensadas apénas como técn icas ou ideologias?
Em prefácio ao livro de, Lei Ia M aria T. de Brito, que
versa sobre a atuação do psicólogo em Varas de Família, escre
vera o que ainda considero central em se tratando de pensar a
Psicologia Ju rídic a, e que aq ui relem bro em p arte (Arantes,
1993).
A indagação formulada pela autora: “Varas de família:
uma questão para psicólogos?”,, questão que deve ser entendi
da tanto como lugar de prática, como prática a ser pensada,
 ponderei que se podia responder de diversos modos: sim, se
considerarmos um mercado de trabalho potencial ou em ex
 pansão para o qual existe, inclusive, justificativa legal; não, se a
um Direito autoritário e burguês contrapomos uma Psicologia
libertária, exterior ao próprio Direito; outra possibilidade é
considerar a Psicologia como parte do problema e, deste modo,
redesenhar a questão.
 N a realidade, a pergunta form ulada por Brito, como no
texto de Canguilhem, desdobra-se em várias outras, sendo que
um primeiro grupo diz respeito a uma problematização que
 podem os cham ar de epistemológica: o que é a Psicologia apli
cad a à ju s d ç a ou Psicologia Juríd ica, quais são os seus concei
tos, em que se fundamenta sua pretensão de prádca científica?
Em artigo dedicado a pensar as Ciências Sociais e a Psi
cologia Socialj Thomas Herbert ;(1972) pondera que colocar a
uma ciência as questões “quem és tu”?, “por que estás aqui?”
e “quais suas intenções?” pode parecer impertinência à qual
ela tenderia a responder que “está aqui porque existe” e quan
to às suas intenções “ela não as tem” mas apenas “problemas a
resolver”. No entanto, considera importante a distinção feita

18

 por Louis Althusser entre ciência desenvolvida e ciência em


 por Louis Althusser entre ciência desenvolvida e ciência em
constituição. Na ciência desenvolvida o objeto e o método são
homogêneos e se engendram reciprocamente, o que não acon
tece com as ciências em desenvolvimento, como a Psicologia.
-Uma-coisa-é-a-tr-a-nsformaçâ© -pr-odutor-a-do-obj eto -cientifico,
outra, a reprodução metódica deste objeto, que só pode acon
tecer, rigoro samen te falando, se uma. transformação pro du tora
deste objeto já foi realizada. Quanto, à função dos instrumen
tos, ela não é a mesma em cada um destes tempos da ciência.
Exemplificando esta diferença, lembra-nos Herbert a transfor
m ação que a b alança sofreu após o advento da Física moderna.
Fora de seu papel técnico-comercial, ela servia para inter
rogar toda a superfície do real empírico', pesava-se o san
gue, a urina, a lã, o ar atmosférico etc... e os resultados
forneciam a “realização do real” sob diversas formas bio
lógicas, metereológicas etc...
Esta vagabundagem do instrumento foi detida pelo mo
mento galileano, que lhe designou, no interior da ciência
nascente, uma função nova, definida pela teoria científica
me sma. ' ,
Isto nos designa o duplo desprezo que não deve ser come
tido: declarar científico todo uso dos instrumentos, esque
cer o papel dos instrumen tos na prática científica (Herbert,
1972: 31).

Postas estas colocações iniciais, resta dizer que este é um


 prim eiro conju nto de questões e que se apresen ta como perti
nente apenas a partir da reivindicação de cientificidade da Psi
cologia, e à qual Canguilhem e Herbert, nos textos acima
mencionados, se.dedicam. Na realidade; mais do que copiar o
modelo de cientificidade da Física, da Química ou da Biologia,
espera-se que as Ciências Humanas desenvolvam algum tipo
de rigor próprio, adequado ao seu campo de investigação.
Um segundo conjunto diz respeito a uma Arqueologia e
a uma Genealogia dos saberes sobre o homem, seguindo as
indicações de Michel Foucault. Isto porque, mesmo do ponto

19
de vista de uma certa leitura epistemológicaj no caso aqui as
de Canguilhem e Thomas Herbert, não se trata de negar à
Psicologia, Juríd ica ou não, um a existência de fato c um a q ual
quer eficácia. Trata-se, então, de. saber como e porque este
campo se constituiu, quais os seus procedimentos e de que
natureza é a sua eficácia. Não devemos nos esquecer que as
análises Genealógicas permitiram a Foucault identificar as prá
ticas jurídicas, ou judiciárias/como das mais importantes na
emergência das formas mod ernas de subjetividade, e que a partir
do século XIX, mais do que punir, buscar-se-á a reforma psi
cológica e a correção moral dos indivíduos (Foucault, 1979).
Este segundo conjunto de questões diz respeito, então, a tudo
aquilo que faz com que a Psicologia Juríd ica exista como prá 
tica em uma sociedade como a nossa, independentemente de
seu estatuto epistemológico. Corno nos ensinou Roberto Ma
chado, as análises arqueológicas e genealógicas não se norteiam
 pelos mesmos princípios que a história epistemológica (M acha
do, 1982). -
 No cáso específico da atuação dos psicólogos em V aras
de Família, de acordo com a pesquisa de Brito já mencionada,
e para continuar utilizando o mesmo fio condutor, constatou-
se o predomínio das atividades de perícia nos casos de separa
ções litigiosas, onde havia disputa .pela .guarda dos filhos.
Sabemos que a perícia tem sido um dos procedimentos
mais utilizados na área jurídica, tendo p or objetivo fornecer
subsídios para a tomada de uma decisão, dentro do que impõe
a'lei. Em.algumas áreas da justiça a perícia pode ser solicitada
 para averiguação de periculosidade, das condições de discerni
mento ou sanida.de mental das partes em litígio ou em julgamento.
Embora não possamos rigorosamente dizer de que se
trata quando nos referimos, como psicólogos, a categorias como
estas, pelo rrienos do ponto de vista de uma. ideologia jurídica,
algo da ordem do objeto está apontado. No caso de Varas de
Família, não se trata, pelo menos em princípio, de examinar 

20
alguma periculosidadc, alguma ausência ou prejuízo da capa
cidade cie discernimento ou sanidade mental. Como pano de
fundo temos o casal em dissolução e em disputa pela guarda
dos filhos, cada um instruído no processo por seus respectivos
advogados. Sabemos que muitas das alegações para a guarda
dos filhos tem sido imputações de infidelidade, desvios de con
duta, uso dc drogas, doenças ou mesmo a de possuir o outro
cônjuge menor renda, trabalhar fora de casa ou não trabalhar,
ou ainda possuir menor escolaridade.
É sobre tais alegações, motivo da disputa, que trabalha«
rá o juiz, form ulando quesitos a serem investigados pelo perito,
q u e de certa forma comprovará ou não as alegações, formu
lando uma verdade sobre os sujeitos.
Como resultado da perícia uma das partes tenderá a ser
apontada como aquela que reúne as melhores condições para-^
a gu ard a dos filhos, já que tanto o pedido do juiz como a lógi-
ca do processo se dirige e mesmo impõe esta direção. Enganamo-
nos todos ao acreditar que a verdade vem à luz e que se faz .
 justiça nesse processo. O resultado pare ce ser, inevitavelm ente,
a fabricação dc um dos cônjuges como não-idôneo, moralmente
condenável ou, pelo menos, tem porariam ente menos habilitado. -
 N ão se trata , evidentemente, de la nçar aqui um a dúvida'
generalizada sobre os diversos tipos de perícia e seus usos pela'
Justiça; também não se trata de negar o sofrimento ou levantar
suspeitas sobre a sinceridade com que os genitores formulam
suas queixas, embora, aqui e aü, os advogados orientem a dire
ção e a formulação das alegações, conhecedores que são dos
 juizes e das regra s, e em bora, vez ou outra, as partes estejam
igualmente preocupadas com os filhos e o patrimônio.
Podemos não saber como resolver problemas tão difícil
como es te,4 podem os mesm o adm itir que em certos casos e em

4 “C om o os pais se coloc am frente aos filhos? e Co m o os filhos de coloca m


ccrtas circunstâncias um dos progenitores encontra-se em me
lhores condições para o exercício responsável da guarda dos
filhos, mas que não se reduza uma questão tão delicada como
esta aos seus meros aspectos gerenciais. Pelo menos, não em
nome das crianças.5 ~ : ' ~
Seria sábio, neste momento, dar mais ouvidos ao filósofo,
que ao ad m inistrador: "O nd e, querem chegar os psicólogos,
fazendo o que fazem?” (Cangúilhem, 1972: 122).

A p r á t ic a d o s la u d o s , p a r e c e r e s e r e l a tó r io s t é c n i c o s
Constata-se, no exercício profissional dos psicólogos no
âmbito judiciário, a predominância das atividades de confec
ções cle laudos, pareceres e relatórios, no pressuposto de que
cabe à Psicologia, neste contexto, uma atividade predominan
temente avaliativa e de subsídio aos magistrados.
Este pi'essuposto, embora defendido em textos clássicos
de Psicologia (Jacó-Vilela, 2000) e 1'egulamentado pela legisla
ção brasileira, tem causado mal-estar entre a nova geração de
 psicólogos, que prefe riria ter de si um a im agem menos com
 prom etid a com a m anute nção da ord em social vigente, consi
derada injusta e excludente. Este mal-estar tem sido crescente,
 possibilitado, dentre outras razões, pelo advento1de um a litera 
tura crítica, demonstrando que a questão da interseção da Psi

frente aos pais?” é a questão mais difícil e central, segundo Pierre Legendre
(1992), que todos os sistemas institucionais do planeta devem resolver histó
rica, política e juridicamente, pois é ai que o princípio da vida está ancora
do. O u seja: com o o rdenar o poder genealógico? Q ua l a relação entre o
Direito e a vida?
5 A C onv enção internacional dos Direitos da Criança, dc 1989, dispõe sobre
o direito da criança ser educada por pai e mãe. A este respeito ver: Brito,
1999.

22
cologia com o Direito não diz respeito apenas ao bo.m ou mau
uso da técnica, à habilidade ou não do perito.
(...) deve-se reconhecer que o psicólogo contemporâneo é,
na maioria das vezes, um prático profissional cuja “ciên-
------- ;------- eia—é-totalmente-inspirada nas “leis” da adaptação a um
meio sociotécnico - e não a um m eio natural - o que con
fere sempre a estas operações de "medida” uma significa
ção de apreciação e um alcance de perícia. (Canguilhem,
1972: 121) ■
Para Canguilhem, ao buscar objetividade, a Psicologia
transformou-se em instrum entalista, esquecendo-se d e se situar
em relação às circunstâncias nas quais se constituiu.
Embora esta observação de Canguilhem se refira apenas
à Psicologia, ela pode ser estendida a outras áreas. Ao discor
rer sobre a modernidade, José Américo Pessanha afirma ser
uma de suas características a opção por um certo tipo de ra
zão, ou conhecimento científico, de natureza operante ou ins
trumental, capaz de dominar e modificar o meio físico. Menos
mal, talvez, se este tipo de racionalidade tivesse se limitado
apenas a certos usos e a certos propósitos, e não tivesse a pre
tensão de se constituir como único modo legítimo e verdadeiro
de leitura do mundo.
(...) quando o Ocidente, através de Descartes e de Bacon,
fez a escolha por uma forma de cientificidade e deixou de
lado tudo que fosse dotado de alguma ambivalência, dei
xou de lado também as chamadas idéias obscuras. Com
isso também deixou de lado tudo o que na condição hu
mana é ligada ao corpo, ao tempo, à história e à concretude
(P essanha, 1993: 26). ■ ‘
 N ão se trata de negar validade ao modelo das Ciências
da Natureza ou à Matemática, mas apenas de reconhecer que
as Ciências Humanas e Sociais não podem se reduzir ao dis
curso coagente da razão abstrata, pretendendo a produção de
verdades a-históricas e universais. O fechamento da razão a

23
dem aos vários setores da vida pessoal e social, levando Gastei
a fazer à Psiquiatria perg un ta similar à feita po r Ca nguilhe m à .
Psicologia: “Sem dúvida nâo é possível estabelecer limite para
essé progresso. Mas seria o mínimo ousar perguntar ‘quem te
fez rei? a quem te faz sujeito-submisso” (Gastei, 1978: 20).
Assim com o pa ra o louco ie pa ra o prisioneiro, será n e
cessário encontrar uma nova forma de administrar os conflitos
familiares e támbém uma nova forma de assistência. No Anti
go Regime, em troca de seu grande poder, o chefe de família
devia zelar para que nenhum de seus membros perturbasse a
ordem pública. Este mecanismo de controle se tornará insufici
ente e inadequado em função do aumento crescente do núme
ro de pessoas “desgarradas” ou que “escapavam” ao controle
das famílias como os pobres, os vagabundos, os viciosos e a
infancia abandonada, levando os novos filantropos a uma crí
tica feroz do arbítrio familiar e dos procedimentos da antiga
caridade. Estes filantropos lutavam por uma nova racionalidade
na assistência e principalmente para que a ajuda dada à famí
lia favorecesse sua promoção e não sua dependência. Neste
contexto, multiplicaram-se as leis sobre o abandono, maus tra
tos, trabalho e mortalidade infantil, surgindo novos profissio
nais dedicadas ao campo social: os chamados “técnicos” ou
“trabalhadores sociais”. A partir;de então, para compreender
mos o que Jacques Donzelot chama de “complexo tutelar”,
torna-se necessário entender as formas de agenciamento entre
as suas principais instâncias: o judiciário, o psiquiátrico e o
educacional (Don 2 elot, 1980).
Mas todas estas práticas riao incidem, como nos ensina
Michel Foucault, sobre universal como “doente mental”, “de
linqüente”, “carente” que lhes seriam exteriores, senão que esses
“universais” ou “essências”, são iaquilo mesmo que se produz

vida social, ao postular as degenerescências como desvios em relação ao tipo


normal da humanidade, transmitidos por hereditariedade.

26
nestas práticas. Recusar estas categorias como sendo “natureza
humana” significa, ao mesmo tempo, reconhecer, nas práticas
sociais concretas, a formação de um campo de experiência onde
 processos de subjetivação /objetivação têm lugar. Significa tam 
 bém reconhecer o papel que trabalhad ores sociais, técnicos e
 peritos desem penham neste campo de poder-saber.

D o s c o n f lit o s e d o
Até aqui a discussão serviu apenas para estabelecer que
as questões de definição, de sentido e de eficácia de uma ciên
cia não são questões menores, como também não dizem res
 peito apenas à Psicologia. No entanto, mencionam os também
um certo mal-estar entre os psicólogos brasileiros, insatisfeitos
com certas demandas e constrangimentos a que, muitas vezes,
são submetidos. Neste sentido, o campo denominado de Psico-
logia Jurídica é particularmente tenso e contraditório.
Deveria fazer parte do ensino levar os alunos, a compreen
derem a qualidáde do po der que a ‘especialização5 lhes
confere: encerrar no inferno da Febem um jovem, negar
uma adoção ou facilitar a guarda de crianças, afastar filhos
de pais, lançar uma criança na carreira, sem esperança,
das classes especiais, contribuir pa ra a morte civil da crian
ça ou jovem contraventor (Leser de Mello, 1999: 149).
Recentemente no Brasil, na transição da ditadura mili
tar para o regime democrático, grupos organizados da socieda
de, descontentes com situações como as descritas acima, se
organizaram para introduzir na Constituição de 1988 disposi
tivos que assegurassem o respeito aos direitos humanos e de
cidadan ia dos grupos que tradicionalmente se encon travam sob
tutela, como as crianças e os loucos, por exemplo (Arantes e
Motta, 1990). Em que pesem modificações pontuais aqui e ali,
ou mesmo experiências mais ousadas em alguns estados ou
um modelo pretensamente único e absoluto não traz, como
conseqüência, o enriquecimento do pensamento mas o
irracionalismo e a intolerância à diferença. Nas palavras dc
Pessanha (1993: 31):
Trata-se é de negar a matematização daquilo que ríao é
matematizável, de negar a desumanização daquilo que
 precisa se manter humanizado, negar a extração da di
mensão temporal daquilo que só pode ser compreendido
temporalmente. Tra.ta-se, portanto, de preservar a tempo
ralidade do tempo, a humanidade do homem, a concretude
do concreto.
Como se vê, não é apenas da Psicologia que se trata,
mas dc uma problemática que envolve as chamadas Ciências
Humanas e Sociais. Robert Castcl, ao analisar a questão mo
derna da loucura, mostra que o sucesso da Medicina Mental
na França se deu por prover um novo tipo de gestão técnica
dos antagonismos sociais, podendo a Psiquiatria, neste sentido,
ser considerada uma Ciência Política, porque respondeu a um
 problem a de governo. Ao fazê-lo, no entanto , reduziu a lo ucu
ra às condições de sua administração.
E portanto essa constituição de um administrável (poderí
amos dizer com mais ousadia de um ‘administrativável’)
que se trata de revelar: administrar a loucura no sentido
de reduzir ativamente toda a sua realidade às condições de
sua gestão em um quadro técnico (Castel, 1978: 19).
 No Antigo Regim e, a responsabilidade pela in ternação
dos indivíduos considerados insanos era compartilhada pelo
 poder ju diciário e executivo. As portas da Revolução Francesa,
qualificado o poder real como arbitrário e abolidas as l e t t r e s
d e c a c h e t ; ou ordenações do rei, como justificar o grande nú

mero de pessoas seqüestradas que, apesar de tudo, não se que


ria libertar? Era importante para a nova ordem solucionar este
impasse, já que não se podia ignorar o ordenamento jurídico
que disciplinava a m ed id ad e privaçãp_dc_ liberdade. -Ao-p ostu--

24
larem a minoridade do louco e A  Le t t u e -d e -C ac h e t  “não  era uma lei ou um de
o seu isolamento corno medida creto, mas uma ordem do rei que concernia a
uma pessoa, individualmente, obrigaudo-a a fa
terapêutica necessária ao con zer alguma coisa. Podia-se até mesmo obrigar
trole de sua pcriculosidade, os alguém a sc casar peia leltre-de-cacheí.  Na maioria
das vezes, porém, cia era um instrumento de pu
alienistas ofereceram uma jus nição. Podia-se exilar alguém pela lellre-de-cachet,
tificativa médica à sua repres privá-lo de alguma função, prendê-lo etc. Ela cra
um dos grandes instrumentos dc poder da mo
são. narquia absoluta” francesa (Foucault, 1979: 76).
Mas não eram os loucos Por outro lado, ainda segundo Fouçault, as Uures-
de-cachet   eram solicitações diversas dos próprios
os únicos que colocavam pro súditos: maridos ultrajados, pais de família des
 blemas de governo, após a abo contentes com o comportamento de um de seus
membros, seja por vadiagem, bebedeira, prosti-'
lição das lettres de cachety uma ve 2
que estas serviam tarito para sancionar as condutas considera
das imorais como as consideradas perigosas. No entanto, antes
de se colocar como fator indispensável ao funcionamento do
aparelho judiciário e de estender-se em direção a outros gru
 pos, a M ed icina necessitou primeiro legitimar-se como um poder
face à Justiça. Em relação ao prisioneiro, p or exemp lo, a atu
ação médica se dará inicialmente visando à execução da pena,
e só mais tarde se dedicará à avaliação da responsabilidade do
criminoso (Castel, 1978: 38).
 Neste momento posterior, ao desfazer-se a rígid a sepa
ração entre o normal e o patológico sobre a qual repousavam
as internações dos alienados, desfazimento iniciado pelas
teorizações dè Esquirol sobre as monomanias6 e as de Morei
sobre as dege nere scên cias,7 as atividades de perícia se esten-

ü De acordo com a máxima dos primeiros alienistas  de   que “não existe lou
cura sem delírio”, surge a dificuldade de se caracterizar a alienação mental,
para efeitos de dcsresponsabílização jurídica,, nos casos em que nao se ob
servam a presença de delírios nos indivíduos que com eteram crimc o u infra
ção penal. Em contraposição às manias, Esquirol postulou ás monomanias,
ou loucura sem delírio, ampliando a noção de alienação mental. A mono
mania é como um delírio parcial, que não subverte inteiramente a faculda
de da razão o.u do entendimento (Ver Gastei, 1978:_164^165).. _____________ -
7 Com M orei ampliam-se as possibilidades de intervenção d a med icina na

25

municípios, a promessa de uma vida melhor para todos ainda


municípios, a promessa de uma vida melhor para todos ainda
não se concretizou. Continua a prática de atribuir a determi
nados grupos, particularmente os jovens pobres das periferias
urbanas, características negativas como perigoso, marginal, in
frator, deficiente, preguiçoso, como se tais atributos constituís
sem a sua própria natureza. A Reform a Psiquiátrica, p or ou tro
lado, embora avance, se vê, às voltas com a difícil questão da
inclusão social dos ex-pacientes, álém de divergências internas
ao próprio movimento.
Como profissionais que atuam no campo social, os psi
cólogos têm sido chamados, cada vez mais, a refletirem sobre o
 papel estraté gico que desem penham neste s processos de
objetivação/subjetivação, a próblematizarem as demandas que
lhes são feitas e a colocarem em análise a sua condição de
especialista.

D o t ra ta m e n t o q u e é p e n a
. Estudando as;internações psiquiátricas de crianças e ado
lescentes do sexo masculino, realizadas atrayés de Mandado
Judicial, no período 1994-1997 e comparando-as com os de
mais pacientes do mesmo sexo, encaminhados por familiares
oü pélòpróprio serviço de saúde, Ana L. S. Bentes constatou
estarem aquelas internações em crescimento, passando de 7%
em 1994 para 33% em 1997 na unidade hospitalar na qual
trabalha, no Rio de Jan eiro. U m a vez verificado que os diag
nósticos das crianças e adolescentes internados por Mandado
Judicial não correspondiam aos critérios psiquiátricos adotados
 pela unidad e, pergunta porque, mesmo após a vigência do
Estatuto da Criança e do Adolescente e do Movimento Nacio
nal da Luta Antimanicomial e da Reforma Psiquiátrica, conti
nuam acontecendo as internações compulsórias de crianças e
adolescentes?

28
Algumas das características destas internações tem sido:
1) a com pulsoriedade;' não se pod end o recusar a internação
sob pena de desacato à autoridade; 2) o predomínio dc qua
dros não psicóticos; 3) a estipulação de prazos para a internação,
a despeito do que pensa a equipe médica que recebeu a crian
ça ou o adolescente; 4) a caracterização do tratamento como
 pena, no caso de adolescentes em conflito com a lei; 5) as cri
anças e adolescentes apresentando-se fortemente medicados com
 psicofárm acos, no ato da in tern ação; .6) pre se nça de escolta
du ran te o períod o da internação ; 7) temp o médio- de internaçã o
superior aos dos demais internos adm itidos po r outros proced i
mentos; 8) desconhecimento, pela equipe técnica, dos proces
sos judiciais referentes aos adolescentes em conflito com a lei.
Dadas estas especificidades, o adolescente internado por
esta via judicial tende a não ser considerado paciente “legíti
mo” pela equipe médica, pois esta não pode opinar sobre a
indicação de internação nem sobre a alta, sentindo-se acuada
entre o Código de Ética Médica e o Penal. Estabelece-se então
uma distinção entre “nossos” adolescentes (da equipe) e adoles
centes do “juiz”, sendo estes considerados desobedientes, sem
limites e agressivos. Além do mais, éxiste o medo de que as
crianças e adolescentes do “juiz” possam trazer “riscos” para
as outras. A alternativa de sep arar essas duas clientelas em pátios
ou alas distintas do hospital equivaleria a instituir, na prática,
uma espécie dc manicômio judiciário para crianças e adoles
centes.
Procedend o a um detalhamen to ma ior da clientela, Bentes
constatou que do total de crianças e adolescentes encaminha
dos judicialmente, 60% não foram diagnosticados como
“psicóticos”; 42, 9% dos que receberam diagnóstico de “dis
túrbios do com portam ento” eram adolescentes em conflito com
a lei, encam inhado s por juizes da C om arca da Cap ital; e que a
maior média de tempo de internação (55, 6 dias) foi em decor
rência dc encaminhamentos feitos por juizes do interior do

Estado. Outros diagnósticos neste grupo foram dependência


Estado. Outros diagnósticos neste grupo foram dependência
de drogas, epilepsia, distúrbios de emoções na infancia e ado
lescência, transtorno da personalidade.-
Da entrevista realizada por Bentes com um dos juizes,
 — onde-buscou-esola reeim ento ssobre-osencam in ham ento s-ju di---------
ciais, destaco alguns trechos, indicativos do conflito aqui anali-
. , sado:
As Medidas Socioeducativas são impositivas não só para o
.menino com o tamb ém p ar a o local cm que ele vai cumpri-
la. (...) Esta é um a questão essencial (..,) se a M edid a médica
for uma Pena, que nós chamamos de Medida Socioeduca-
tiva, ela se torn a imposiriva pa ra todo m undo: p ar a o Juiz,
 p ara a família, para o M inistério Pú blico, para a Defesa,
' p ar a o m édico, pa ra o próprio garoto, pa ra a equipe técni
ca do H ospital, en fim ... A gente sabe, po r exemplo,
que para tratar de drogas a OMS, o Conselho'(...) dizem
que tem de ter a adesão voluntária da parte, mas no caso
de adolescente em conflito, com a Lei, é uma Medida, é
con tra a von tade de todo , m undo , con tra esta- P o rta ria ,"
contra a Convenção, contra a recomendação, contra a fa
mília, contra o técnico. A medida não é, vamos dizer as
sim, um a coisa voltada pa ra 'a Proteção; é um a Pen a (Bentes,
1999: 128-138).

 Não se trata aqui apenas de conflito entre Judic iá rio e


Medicina mas também de interpretações conflitantes da pró
 pria legislação, um a vez que outros operadores do Direito, como
veremos mais adiante, não concordam em considerar o trata
mento como pena; nem creio estariam dispostos a ignorar re
comendações da O M S, ou considerar que no Brasil a idade da
responsabilidade penal foi reduzida para 12 anos a partir da
vigência do Estatuto da Criança e do Adolescente, como no
exemplo abaixo. De qualquer modo, se estas interpretações
 puderam ser apre senta das à pesquisadora é porque repre sen
tam uma das correntes de pensamento existentes no mundo
 ju ríd ic o.

30
De 1990 pa ra cá, a imputabilidade está em 12 anos. Qu and o
as pessoas dizem assim: - “Eu sou a favor de redu zir (a
impu tabilidade) pa ra 16 anos” - na verdade, não estão
reduzindo e sim aumentando de. 12 para 16 (Bentes, 1999:
136-137).
Assim como encontramos interpretação de que a impu
tabilidade está em 12 anos, encontramos também aqueles que
consideram que a “medida socioeducativa” é apenas um eufe
mismo para “pena” e a “medida de internação” um eufemis-'
mo para “prisão”, sendo a diferença entre o adulto e o
adolescente apenas-o local onde cumprirá a “pena”: prisão de
“maior” para adultos e prisão de “menor” para adolescentes.
Co m o agravan te que, m uitas vezes, a “medida sócio-educativa”
aplicada ao adolescente é uma “pena” maior do que a que
receberia se fosse adulto. Devemos nos lembrar que esta foi
um a das críticas mais con tundentes feitas ao Código de M en o
res: a de que infligia à criança e ao adolescente “carente”, pela
imposição de sua internação, em instituição total, uma “pena”
de privação de liberdade freqüentemente maior do que rece
 beria um adulto que com etesse um crime. Contradiç ão do
Direito, portanto, e ao que parece, insiste em se perpetuar.
Acredito que alguns destes conflitos e divergências pode
riam ser resolvidos, ou pelo m enos m inimizados, caso fosse dada
maior atenção à política de atendimento. Freqüentemente o
executivo municipal e o estadual são objetos de críticas por
não assegurarem condições pa ra o :cum prime nto de direitos
constitucionais básicos. Muitas vezes, feito um diagnóstico ou
detectado um problema, não há como dar encaminhamento
ao caso. Alguns juizes reclamam que enviam os adolescentes
 para a in ternação apenas por falta de alternativas para a exe
cução das medidas sócio-educativas. Esta insuficiências das
 políticas tem sido um dos motivos para constantes desentendi
mentos entre escolas, serviços de saúde, famílias, Conselhos
Tutelares e Justiça da Infância e Juventude. Detectado que a

31
criança encón tra-se fora da escola, po r exemplo, o C T a enca
minha a uma das escolas da região què, muitas vezes, alega
não poder receber a criança por falta de vaga, o mesmo po
dendo acontecer com o sistema de saúde ou com os abrigos.
Mas nem sempre os conflitos se devem à precariedade
das condições do atendimento. A escola pode não querer ma
tricular a criança, não por falta áe vaga, mas porque ela é vista
como “da rua”, “infratora” ou :‘deficiente”, fugindo do padrão
de normalidade desejado. Neste caso, a escola alega que não é
sua função óu que não tem os meios para lidar com aquela
criança. Ou seja, não crê que o “problema’5da criança pode
ou deve ser enfrentado pedagogicamente, preferindo encaminhá-
la ao juiz, ao Conselho Tutelar ou ao sistema de saúde, resul
tando muitas vezes no que Maria Aparecida Affonso Moysés
chamou de “medicalização da aprendizagem”, ao estudar cri
anças que só não aprendiam na escola. (Moysés, 2001)
Configura-se assim, no campo social, uma situação mui
tas. vezes complexa e confusa, onde pobreza, abandono e vio
lência’se misturam à ausência ou precariedade dás políticas
 públicas, às desconfianças, medos, omissões e acusações m útu
as. Não é, certamente, o melhor dos mundos.

D a j u s t iç a q u e é te r a p ê u t ic a
Segundo estatísticas oficiais, o número de atos infracionais
 praticados por adolescentes.no Rio de Janeiro cresceu de 2.675
em 1991 para 6.0Ò4 em 1998. Grande parte desses adolescen
tes foram acusados de infrações análogas aos crimes previstos
na Lei de Entorpecen tes (6.36 8//7 6): de 204 infrações em 1991
. para 3.211 em 1998 (Arantes, 2000).
Os adolescentes apreendidos pela polícia e levados à
 presença do J uiz da In fância e Ju ventu de têm recebido m edi
das judiciais, de n aturez a socioeducativa, con sideradas severas:

32
no a n o de 1999, do total dc 11.256 adolescentes que cumpri
ram medidas no Departamento de Açõés Socioeducativas da
Secretaria de Estado e Justiça do Rio de Janeiro (DEGASE),
■40, 6% eram internações provisórias; 26, 07% medidas de semi-
liberdad e; 14, 8% internáçõe s com sen tença judicial e 9, 71%
liberdade assistida, totalizando 91, 18% dos casos —o que sig
nifica que menos dc 10% receberam medidas mais brandas,
também previstas na Legislação e consideradas mais adequa
das ao adolescente, com o a medida1:de prestação dc serviço à
comunidade, por exemplo. Além do DEGASE, muitos adoles
centes cumprem medidas em Programas oferecidos pela pró
 pria Justiça da Infância e Ju ventu de.
Em bo ra o Rio dc Jan eiro respondesse po r 12, 98% do
total de adolescentes privados de liberdade cm todo o país em
30/06/1997, vindo logo abaixo de São Paulo com 44, 87%£*
respondia, no ehtanto, pelo maior percentual de adolescentes
internados por infrações relacionadas à Lei de Entorpecentes:-
42, 07% (Volpi, 1998: 68-83). Para termos uma idéia do que*
estes núm eros significam, o R elatório do Ju iz de M enores Saul
de Gusmão, de 1941, mostra um crescimento de 127 atos
infracionais em 1924 pa ra 248 em 1941 no Rio de Janeiro'/
sendo que nenhuma criança ou adolescente foi acusado dc
envolvimento com drogas. As infrações apontadas são delitos
de sangue, de furto, roubo e sexuais (Cruz Neto et al., 2001:
58).
 No livro  Delinqüência juvenil na Guanabara são apresentadas
estatísticas do Juiz ado de M en or es /R J do período 1960 a 1971
(Cavalieri et al., 1973). Nestes registros, verifica-se o início das
apreensões por drogas, embora os números sejam de magnitu
de múito. inferior aos atuais: 14 em 1960, do total de 666 atos
infracionais e 192 em 1971, do total de 1.253 atos infracionais.
Esclarece o Juiz de Menores Alyrio Cavallieri, em seu livro
Direito do Menor, que estes números se referem ao uso e não
à venda de drogas, pois, em suas palavras “raramente o menor 

33

é traficante” (Cavallieri, 1976: 137). Neste período até o ano


é traficante” (Cavallieri, 1976: 137). Neste período até o ano
de 1995, os ma iores pe rcen tuais de atos infracionais são relati
vos ao patrimônio: 2.016 casos em 2.624 no ano de 1991, sen
do drogas apenas 204 deste total.
 _  ______ E sta_situação_diferenciada-para-o-Rio-de Jan eiro-foi-o b— 
 jeto de estudos e de intensos, deb ates realizad os nas univ ersid a
des, na Comissão de Direitos Humanos da Assembléia
Legislativa e no Conselho Estadual de Defesa da Criança e do
Adolescente, ocasiões em que se indagavam sobre os motivos
que estariam propiciando esta situação:
Mudou a realidade e aumentou a criminalidade ou a mu
da nç a é apen as o resultado de u m a filosofia mais repressora
e policialesca? Ou seria fruto de aumento de operosidade
da Ju stiça , do M inistério Público e da Polícia? (Relatório:
s/d).
Muitos destes adolescentes, quando apreendidos pela
 prim eir a vez, dem onstram espera nça de que a passagem pelo
sistema socioed ucativo possa ajudá-los, constituindo-se em o po r
tunidade pa ra o reingresso na escola e preparo pa ra o trabalho
- esperança q ue ac aba quase sempre em frustração, tomando-
se por base o percentual significativo de reincidências. Muitas
vezes sem possibilidade de voltar para casa ou para a comuni
dade de origem, após a apreensão, evadido ou expulso da esco
la, sem trabalho e sem perspectivas de um fúturo melhor, este
adolescente pe ram bu la peias ruas, furtando p ara viver ou per
manecendo com a venda da droga, até ser novamente apreen
dido ou morto em algum cgnfronto com a polícia ou grupo
rival. São estes jovens as maiores vítimas da chamada violência
urbana. ,
Segu ndo a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE /2000,
relativa aos anos de 1992 e 1999, observa-se, a partir dos anos
80, o peso crescente das causas externas sobre a estrutura da
m ortalidade p or idade, afetando principalmente os adolescen
tes e jovens brasileiros do sexo masculino na faixa etária entre

15 c 19 anos. Estes índices chegam a quase 70% em muitos


dos Estados brasileiros.
15 c 19 anos. Estes índices chegam a quase 70% em muitos
dos Estados brasileiros.
• Em vários fóruns de defesa dos direitos das crianças e
dos adolescentes, onde estas questões são debatidas, pergunta-
-gp-ppln. “acerto” e pela “justiça” destas apreensões e encami-
nh am ento s. Questiona-se se não estaria havendo rigor excessivo
ná aplicação das medidas socioeducativas e a própria adequa
ção do rótulo de traficante dado a alguns destes adolescentes,
que muitas vezes vendem pequenas quantidades de drogas
apenas para sustentar seu próprio consumo ou como forma de
subsistência. Questiona-se também a adesão do Brasil a um
 política antidro gas norte -am ericana, favorável à cham ada “to
lerância zero”, e o papel que os .psicólogos são chamados a
exercerem nesta nova modalidade de “pena-tratamento”, pro
cedimento polêmico d enom inado Justiça Terapêu tica e impo r
tado das  Dmg Courts dos Estados U nidos da A mcrica.’1O próprio
Conselho Federal de Psicologia tem se manifestado neste sen
tido, conclamando os psicólogos a discutirem melhor o assun
to, preocup ados em que não exerçam atividades que contrariem
o Código de Ética dos Psicólogos.
Em artigo ded icado a pensar a Justiça Terapê utica,
Damiana de Oliveira faz importantes considerações a respeito
do papel q ue o psicólogo é cham ado a desempenhar nesta m o
dalidade de Justiça, a partir de um dos programas existentes
 para adolescentes no Rio de Janeiro (Oliveira, s/d ). Como foi
dito, a J T se baseia no modelo norte-am ericano dos Tribunais
 para D ependente s Quím icos (Cortes de Drogas), e oferece ao
adolescente que for apreendido portando drogas para uso pes
soal, depois de avaliado e considerado elegível, a opção de tra
tamento, ao invés de receber uma Medida Socioeducativa e/
ou Medida Protetiva prevista no Estatuto da Criança e do Ado-

BPara um a ap resenta ção favorável à Justiça T erapêu tica, ver: Fernandes, s/d .
lescentc. A inclusão neste Programa deve ser voluntária e im
 plica, dentre outras coisas, o adolescente concord ar em ser sub
metido a testagem de urina periódicas e aleatórias, uma vez
que o Programa prega abstinência total de drogas ilícitas e de
 bebidas- alcoólicas. Oliveira aponta aí um primeiro conjunto
de dificuldades para o psicólogo: a de concordar com o c a r á t e r
compulsório do tratamento e com a testagem de urina, além
de que "usar ou não drogas” passa a ser o centro do acompa
nhamento psicológico, podendo o adolescente receber sanções
 por descum prir. as regras do Programa. Este tipo de questão
leva freqüentemente os psicólogos a terem dilemas éticos e a se
 perg unta rem “Quem são os clientes da Psicologia?” e “Quais
são os limites da atuação do psicólogo?”.
Falando a futuros juizes e defensores em “A Psicanálise
c a determinação dos fatos nos processos jurídicos”, Freud aponta
uma diferença fundamental entre' o paciente da Psicanálise e a
 pessoa acusada pela Ju stiça: esta, no caso do cometimento de
um delito, tem a intenção de o cultar o segredo d a Justiça; já o
neurótico não conhece o segredo; que está oculto para ele
mesmo. No caso do neurótico, ele ajuda a com bater a sua pró 
 pria resistência, porq ue espera curar-se com o trata m ento en
quanto que o réu não tem porque co operar com a justiça
revelando o seu, delito; se o fizer, estará.trabalhando contra ele
mesmo. Além do mais, pa ra os procedimentos da Justiça, basta
que os seus operadores obtenham uma convicção objetiva dos
fatos, independentemente do que pensa o acusado; o mesmo
não se dá com o tratam ento psicanalítico, onde o pac iente ta m 
 bém necessita adquirir esta mesm a convicção. Lembra-os, fi
nalmente, da existência de normas que impedem que o réu se
submeta a intervenções psicológicas sem ter sido alertado de
que poderá denunciar-se através desta intervenção.
Além, destas, outras perguntas têm sido feitas em rela
ção aos Programas da J T para adolescentes, entre as quais:
uma vez que os tratamentos médico e psicológico já são previs

36

•V:. :vT
•V:. :vT

tos no Estatuto da Criança e do Adolescente como Medidas


Protetivas, po rq u ê 'à existência da Justiça Te rapêutica no âm
 bito da Justiça da Infância e Juventu de? No caso de um adoles
cente que nunca praticou qualquer outro ato infradonal a não
ser o usó eventual de drogas, por quanto tempo será mantido
em tratamento? E o critério “tolerância;zero” condição de alta
m édica ou psicológica? Neste caso, a Jus tiça T era pê ud ca teria
como um de seus pressupostos a “criminalização” do atendi
mento médico e psicológico? (Batista, mimeo, s/d)
Dentre os pontos polêmicos de um dos Programas exis
tentes9 destaco os artigos 6 e 7, que trazem dificuldades especí
ficas para a atuação do psicólogo, como, por exemplo, o aumento
na freqüência de sessões de tratamento individual ou familiar c
as entrevistas compulsórias, definidas como medidas punitivas
 por ter o adolescente descumprido alguma re gra do Programa.
Artigo 6o - Dos pa rticipantes do Pr ogr am a, exige-se:
I- Não usar ou possu ir drogas ilícitas e bebidas alcoólicas e, se
for exigido pela unidade de tratamento conveniada, não fu
mar tabaco nas sessões ou conforme a orientação desta uni
dade.
II — Com parecer a todas as sessões dc tratamento determinadas
I II - Ser pontual.
IV ,- ' .Nã o fazer ameaças aos participantes, à equipe do program a
ou da unidade de tratamento, bem como não comportar-se
de modo violento.
V - Vestir-se aprop riadam ente par a as sessões dc tratamento e
audiências no Juizado.
VI — Cooperar com a. realização dos testes de drogas.

® Pela Ordem de Serviço N° 0 2 /0 1 , datada de 27 de junh o de 2001 , foi


criado o Programa Especial para Usuários de Drogas (PROUD), no âmbito
de comp etcncia da 2a VIJ, Comarca da Cap ital/RJ, de acordo com as nor
mas gerais previstas no Provimento N° 20/2001, da Corregedoria-Geral de
Justiça.

37
VII — Co operar pára a obtenção de informações necessárias à ava
liação inicial e seqüencial de seu caso.
V III — Os pais ou responsáveis deverão com parecer às audiências
no Juizado e às sessões de tratamento recomendadas.
IX - Co m parece r e dem onstrar desempenho satisfatório na esco
la, estágios profissionalizantes e laborativos. '
X - Agir de acord o com as normas específicas da unidad e de
tratamento para a qual foi feito o encaminhamento”.

Artigo 7° — As sanções previstas para a falha injustificada no cum


 prim ento das norm as ;do Program a são as segu in
tes:
I - . A dvertência verbal.
II — Retirada de privilégios (válida para os casos de algum ado
lescente que esteja, por exemplo, em programa de recebi
mento de cesta básica, lazer, etc.)
III - A um ento na freqüência de sessões de tratam ento individual
ou familiar.
IV — Regressão na fase de tratamento e conseqüente maior tempo
de permanência no Programa.
V — : Co m parecim ento a palestras e. sessões educativas sobre uso
indevido de drogas ou outros temas considerados úteis pela
equipe de acompanhamento.
VI — M aior freqüência na realização de testes de drogas.
V I I — I nt er na ç ão t em p o rá ria .
V III - Entrevistas comp ulsórias com 'médicos, psicólogos ou inte
grantes de grupos de auto-ajuda.
IX — Restrições às atividades de íazer,’inclusive nos finais de se
m ana. ’
X — Prestação de serviços na comunidade ou na sua própria casa,
de acordo com o entendim ento do Juiz.
XI — Limitação de horário de saída cia residência.
X II — Exclusão do Program a e retom ad ad o processo inicial.

Diante de tais regras podemos nos perguntar o que fez o


adolescente para merecer tamanha penalidade? E esta uma
resposta adequada à experimentação do adolescente? Por que
o envolvimento com drogas está se tornando, atualmente, o

38
responsável por grande parte do contingente dos hospitais psi
quiátricos, manicômios judiciários, internatos^e prisões? Nao se
trata aqui de negar o sofrimento de pessoas e de famílias
destruídas pela dependência química -e pelo uso abusivo de
drogas. No entanto, trata-se de perg untar, com o faz Luiz Edu ar
do Soares: Por.que circunscrever o uso,de drogas ao campo da
ilegalidade? Baseado em quais critérios certas drogas são con
sideradas lícitas e outras ilícitas? Por que difundir a idéia de
que ingerir substâncias psicoativas significa consumí-las em
excesso? (Soares, 1993).
Perguntado se achava possível ou mesmo desejável a
existência de um a .-cultura sem limites e repressões, F oucault
respondeu que o importante não era a existência de restrições
e sim a possibilidade oferecida, às pessoas a quem afeta, de
modificá-las (Foucault, 2000b: 26).
A juiza M aria Lúcia K aram , contrária aos procedimen
tos d a Justiça Terapê utica, advoga a s.ua inconstitucionalidade.
Dada a importância da argumentação para o tema tratado,
 perm ita o leitor um a longa citação.
Embora reconhecendo a ausência de culpabilidade e, as
sim, a inexistência de crime nas condutas daqueles que sc
revelam inimputáveis, o ordenamento jurídico-penal bra
sileiro, paradoxalmente, insiste em alcançá-los, ao impor,
como conseqüência da realização da conduta penalmente
ilícita, as chamadas medidas de segurança, com base em
- um a alegada “periculosidade” atribuída a seus inculpáveis
autores.
Aqui, indevidamente, se abre: o espaço para manifestação
da aliança en tre o d ireito pe nal e a psiquiatria, responsável
' ■ por trágicas páginas da história do sistema penal.(...)
 N a realidad e, as med idas de se gura nça para inimputáveis,
consistindo, como prevêem as mencionadas regras dos ar
tigos 96 a 99 do Código Penal e do artigo 29 da Lei 6.368/
76, na sujeição obrigatória e por tempo indeterminado a
tratamento médico (ambulatorial oú mediante internação),
não passam de formas mal disfarçadas de pena, sua in

39
compatibilidade com a Constituição Federal, por manifes
ta vulncraçâo do princípio da culpabilidade é,. conseqüen
temente, por manifesta vulneração da própria norma
constitucional, que aponta a dignidade da pessoa humana
como um dos fundamentos da República Federativa do
Brasil, decerto, havendo de ser afirmada.
Mas, este inconstitucional tratamento obrigatório já vem
sendo aplicado até mesmò para aqueles que têm íntegra
sua capacidade psíquica, nas tentativas,' diretamente veicu
ladas pelos Estados Unidos da América,- de transportar,
 para o Brasil, as ch am ad as drug court , que, aqui, se preten
de sejam adotadas, com a tradução literal de “tribunais de
drogas”, ou sob a denominação de “justiça terapêutica”,
esta última explicitando a retomada daquela' nefasta alian
ça entre o direito penal e a psiquiatria. (...)
Assim, estende-sc o tratamento médico a imputáveis, o que
 já contraria as pró prias leis pen ais ordinárias vigentes. As
sim, amplia-se o alcance do sistema penal, com a imposi
ção de verdadeiras penas, negociadas ao preço da quebra
de diversas garantias do réu, derivadas da cláusula funda
mental do devido processo legal, constitucionalmente con
sagrado. (...)
Esta importação das drug court   chega, ainda, ao âmbito dos
 juizad os da infancia e juventu de. Ali tam bém , pretende-se
violar a liberdade individual, a intimidade e a vida privada
de adolescentes, através da imposição de um tratamento
médico obrigatório, sem que sequer seja externado trans
torno mental que, teoricamente, o pudesse aconselhar. (...).
(Karam, 2002: 210-224).
 Não foram por outros motivos que o Grupo de T rab a
lho “Justiça Te rapê utica”, coorden ado pelo Conselho Reg io
nal de Psicologia 03 e que contou com a participação de
representantes de diversos outros CRPs, recomendou uma dis-
•cussão nacional sobre o problema das drogas. Embora ajusti-
ça Terapêutica não aconteça em todo o país, diversos outros
. serviços, mesmo sem utilizar esta. denominação, estão operan-

40
do sob a m esm a lógica, o que justifica a discussão n acional,
segundo o Relatório-deste GT.
A JT faz parte de um a política nacional de com bate às
drogas, ado tada pela SENAD - Secretaria Nacional Anti-
drogas, cm parceria com a Embaixada Americana, país
que exporta este modelo. A SENAD, ao mesmo tempo que
apóia iniciàtivas de redução de danos (ao premiar a
REDUC), incentiva iniciativas do .tipo daJT (Relatório, CRP:
s/d).
O G T i n d ic a u m a p o si çã o “ c o n t rá r i a a o m o d e l o d a J T e
a inserção do psicólogo baseado nos seguintes elementos inici
ais”, en tre os quais: a qu eb ra do sigilo profissional, já qu e dev e
o p s ic ó lo g o p r o d u z i r p r o v a q u e d e p õ e c o n t r a o p r ó p r i o s u j ei to ;
quebra dos direitos individuais mínimos, posto que o sujeito
q u e o p t a p e l a J T t e m d e a b r i r m ã o d o d i re i to d è d e f es a , te n d o
d e s e c o n f e s s a r c u l p a d o , m e s m o q u e u s u á r i o e v e n t u a l; p o r e n 
tender que há uma diferença entre usuário eventual e depen
dente e por reafirmar o caráter voluntário do tratamento,
condição fundamental para sua eficácia; também por enten
der, co m o já foi dito, ser necessária um a am pla discussão sobre
a questão das drogas no Brasil.
Em 2002, pelas Portarias 336 e 189 do Ministério da
Saúde, foram criados, dentro dos parâmetros da Reforma Psi
quiátrica, os Centros de Atenção Psicossocial para atendimen
to de crianças e adolescentes (CAPSi) e para portadores de
transtornos em decorrência do uso e dependência de substân
cias psicoativas (CAPSad), trazendo esperança de que novas
mo dalidades de assistência em saúde mental possam ter lugar.

C r i tic a n d o a p r á t ic a d o s p s ic ó lo g o s
Segundo Michel Foucault, em Vigiar e punir,  conhecemos
 já todos os inconve nientes e perigos que a prisão oferece e tam -

41

 bém a sua in utilidade em relação a um a suposta re genera ção


 bém a sua in utilidade em relação a um a suposta re genera ção
dos prisioneiros, e, no entanto, as nossas sociedades não que
rem dela abrir mão. Sabemos também, pelo menos enquanto
a prisão não se propunha a regenerar ou tratar, que a prisão
nào-deveria-sérnadaalém-do^que"a'simples'privação_deiiber-
dade, mas não é o que acontece. É a este excesso, ao que ex
cede a pena, que Fo ucault chamo u o penitenciário. O aparelho
 penitenciá rio, local de cum prim ento da pena, é tam bém lu gar
de uma “curiosa substituição”:
(...) das mãos da justiça ele recebe um c ondenado; m as
aquilo sobre que ele deve ser aplicado, não é a infração, é
claro, nem mesmo exatamente o infrator, mas um objeto
um pouco diferente e definido por variáveis que pelo me
nos n o início não foram ■levadas em co nta na sentença,
 po is só eram pert in ente s ’para um a tecn olog ia co rretiva.
Esse outro personagem que o aparelho penitenciário colo-
« ca no lu gar do infrator condenado, é o delinqüente.
O delinq üen te se distingue do infrator pelo fato de não ser
tanto seu ato quan to sua vida o que mais o caracteriza (...)
O castigo legal se refere a um ato; a técnica punitiva a
uma vida (..,) Por trás do.infrator a quem o inquérito dos
fatos pode atribuir a responsabilidade de um delito, reve
la-se o car áte r delinqüente cuja lenta formação transparece
na investigação biográfica: A introdução do “biográfico” é
importante na história da penàlidade (Foucault, 1977.: 223-
224).
A partir de sua atuação como psicólogo no sistema só-
cio-educa tivo do R io de Ja ne iro , Adilson Dias Bastos dedicou-
se a pe nsa r com o se dá a construção deste “biográfico” na p rática
técnica dos psicólogos. Na reconstrução da história de vida dos
sentenciados, incluindo adolescentes, este biográfico visa mos
trar como o indivíduo “já se parecia com seu delito antes mes
m o de o ter pr atica do ”: o pai é ause nte ... diz que a mãe m orreu
no parto... estudou apenas até a 2a série... acha que como está
nesta vida não tem mais jeito... foi expulso da escola.'., pouco

sociável... disperso... impaciente... baixo grau de tolerância à


frustração... vive nas ruas e diz que é mendigo... diz que nas
ceu para ser ladrão... disse que conhece mais gente que está
sociável... disperso... impaciente... baixo grau de tolerância à
frustração... vive nas ruas e diz que é mendigo... diz que nas
ceu para ser ladrão... disse que conhece mais gente que está
 presa do que gente em libe rd ade...'tem um irmão- mais velho
que-j á-foi-preso. ..-(B asto s,_2 0.02 115-119). ______  _______  ____ 
Segundo Bastos, esta produção técnica, que além de ser
um discurso de “verdade” e um discurso que no limite “faz
viver e deixa morrer”, é também ,um discurso que “faz rir”.
Exemplificando, cita laudos periciais colhidos por Isabelle No
gueira nos arquivos do M anicôm io Judiciário H eitor Carrilho,
situado no m unicípio do R io de Jane iro. No gueira se dedicou
a pesquisar os laudos de pessoas que haviam sido apreendidas
 por motivos banais como brigas, xingameritos, vadiagem, pe
quenos furtos e desacato a autoridade (Nogueira, 2002). Veja
mos um pe qu eno trecho, de um dos exemplos, do ano de 1924.
É elle portador de estygmas phisicos de degeneração bem
 pronuncia dos (...) Nem mesm o lhe faltam as tatuagens,
estygma physico adq uirido .que, com freqüência aparecem
nos degenerados e nos delinqüentes. Vê-se, assim, no seu
. ante-b raço direito, um pá ssaro com um a carta no bico;
um vaso de planta e o nome de Idalina; no braço direito
várias estrellas, um cometa e algumas lettras; no braço es
querdo as iniciais AP; no peito, iniciais, um pássaro e a
expressão ‘Amo-te1(Bastos, 2002: 120; Nogueira, 2002: 99).
Dentre os discursos que “faz chorar” destaco o de um
grupo de médicos, membros da Escola Nina Rodrigues, estu
dado por Marisa Corrêa. Este grupo foi importante na consti
tuição da M edicina Legal no Brasil, sendo um dos mais atuantes
Leonídio Ribeiro, fundador do Instituto de Idendficação do
Rio de Ja ne iro e ganha dor do Prêm io Lombroso de 1933. É
dele a citação abaixo:
 N a criança de um ano é, às vezes, possível já reconhecer o
futuro criminoso. É na primeira infanda, ou na puberda
de, qu e se revelam as primeira s tendências par a as atitudes

43
an ti-sociais, que se concretizam e agrav am progressivamente,
sob a influência geral do ambiente. Existem, na criança, os
cham ado s ‘sinais de ala rm e’ de tais predisposições e te n
dências ao crime, sinais que po dem ser .de n atu rez a
morfológica, funcional ou psíquica. Especialmente sobre
estes últimos é que devem estar vigilantes todas as mães,
sabiclo que as crianças perversas, rebeldes, violentas, im
 pulsivas, indiferentes e desatentas são pr incipalmen te as que
 precisam re cebcr cu idad os especiais para nã o se. to rn are m ,
afinal, elementos perigosos pa ra a sociedade (C orrêa , 1982:
60-61).
Em pesquisa sobre juventude e drogas, Vera Malaguti
Batista estudou a evolução, do problema no Rio de Janeiro, no
 período 1968-1988, a'p artir de processos encontrados no ar
quivo do en tão Juizado de Me nore s (Batista, 1998). Além de
análise quantitativa, Batista analisou os conteúdos dos laudos e
 pareceres das equipes técnicas form ada s por assistentes sociais,
 psiquiatras e médicos das Delegacias de Menores, da FUNABEM
e do Juizado de Menores, encontrados nos processos.
Pela análise de Batista é flagrante a construção de este
reótipos, a partir de olhares cientificistas e preconceituosos,
erigidos na virada do século XIX, e que ainda persistem na
 prática de muitas equipes técnicas: o preconc eito em relação às
favelas e bairros pobres (“o .local onde reside propicia seu en
volvimento com pessoas perniciosas à sua formação”); a atitu
de suspeita (“estava desempregado, perambulando em estado
de vadiagem pela Zona Sul quando sua residência se encontra
va na Zona Nòrte”); a criminalização do uso de drogas (“foi
detido cheirand o ben zina ”); a desqualificação familiar (“pro ce
de de família desagregada”); serviços que não são considerados
trabalho (“está trabalhando em biscates, pois diz não ter paci
ência para aturar patrão; não está estudando nem trabalhan
do”); a hereditariedade (“o pai já fez tratamento nervoso”); os
distúrbios de con duta (“autuad o po r práticas anti-sociais”). Ta l

caracterização leva sempre às.mesmas recomendações: resso-


caracterização leva sempre às.mesmas recomendações: resso-
cializar, reeducar,’recuperar, tratar, profissionalizar, remeten
do as faltas e as dificuldades dos adolescentes a eles mesmos ou
às suas famílias. No entanto, conclui Batista, mais do que “doen
ça mental”, os processos revelam histórias de miséria c exclu
são social. . ;;r 
Aline Pereira Diniz, estudando uma amostra de 46 pa
receres psicológicos, no período de 1995 a. 1998, encontrados
nos processos de adolescentes evadidos do sistema socioeducadvo
do Rio de Jan eiro enqu anto cum priam M edida Socioeducati-
va de Internação, e com M and ato de Busca e Apreensão, cons
tatou que a grande maioria pertencia ao sexo masculino, com
idades entre 15 e 17 anos e poucos anos de escolaridade. Em
sua maioria estes adolescentes foram acusados dc infrações
análogas aos crimes contra o patrimônio e análogas à Lei de
Entorpecentes. Dentre os motivos alegados pelos adolescentes
 p ara as fugas, destaco a existência, na mesma unidade dc ate n
dimento, de adolescentes pertencentes a grupos ou facções ri
vais: “fugiu por lá ter encontrado o gerente da boca, que disse
que ele deveria pegar a carga”; “porque lá encontrou mem
 bros do comando rival, que estão em guerra, então teve que
fugir de novo ” . Ou tros motivos foram am eaças de estupro, por
sofrer agressões, por ter a roupa furtada; por medo de ser pu
nido ou encaminhado à Delegacia de Polícia por ter sido pego
fumando maconha (Diniz, 2001: 50).
Diniz identifica dois “tipos” de adolescentes, a pa rtir dos
 pareceres psicológicos: aquele que foi “levado” ao ato infracional
 pelas circunstâncias ou pelas amizades e aquele que te ria o
“perfil” de infrator, facilitado pela ausência paterna, desestru-
turação familiar e por determinados traços ou caracterísdcas
de personalidade como agressividade, impulsividade, malícia,
dificuldades em lidar com limites, sentimentos de inferioridade
etc. Como conclusão dos pareceres, a adequação à rotina ins
titucional e a participação nas atividades propostas aparecem

45
quase sempre como critério de que o adolescente está recupe
rado ou ressocializado.
Para concluir, gostaria de dizer que um fator comum
que une os estudos acima é a busca de alternativas para a atu-
açâo_profission al3_na-esperança~d e-qu c-a-P sieoio gia-p ossa-ser—
exercida de uma outra forma, além de trazer à luz o enorme
sofrimento causado pelo encarceramento de adolescentes. ^
Retomemos então, de um Outro modo, a pergunta “Que
é a Psicologia?”, possibilitada aqui pelas lembranças de Bastos
(2002): : : í
 N um a de su as belíssimas aü las ele se dirigiu a algun s alu 
nos do curso de psicologia e perguntou: O que vem a
ser a psicologia?” “Para que ela serve?” Ante a nossa con
fusão, perplexidade e demora, Cláudio Ulpiano nos disse:
D epe nde das forças que se apo deram 'dela!; Coloquem- ■
suas forças em batalha para produzirem uma psicologia
afirm ativa .” 10

R e f e r ê n c ia s b i b l io g r á f ic a s
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 assistência à irt/ancia no B rasil.   Rio de Janeiro: Editora Universitária Santa
Ursula, Amais Livraria e Editora e Instituto ínteramericano dei Nino.

10 No ta de esclarecimen to feita por Bastos (2002: 58): “Cláudio U lpiano,


filósofo, ex-professor da Univer sidade do Estado do Rio de Jan eiro (UERJ)
e da Universidade Federal Fluminense (UFF), já falecido. Responsável por
introduzir nestes estabelecimentos o pensamento de Deleuze, Bergson,
Guattari, Nietzsche etc., através de suas aulas e gvupos de estudo que,
inclusive, atraiam pessoas de fora do mundo acadêmico.”

46

______________(2000) "Entre o educativo e o carcerário: análise do sistema


socioeducativo do Rio de Janeiro” . In Cadernos PRODEMAN de Pesquisa
nü 1. Rio de Janeiro; UERJ,
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49
E d u a r d o P o n te B r a n d ã o
A prática do psicólogo em Varas de Família exige o co
nhecimento básico dos códigos jurídicos que regulam as famí
lias no Brasil.
As razões de tamanha, obrigação não são poucas.
Em primeiro lugar,'há necessidade de um código com
 partilhado entre o psicólogo e os demais membros da equipe
interprofissional, incluídos os operadores de Direito.
E de conhecimento comum que. os arranjos amorosos e
familiares com que esses operadores se. surpreendem hoje em
dia levam a uma interlocução do Direito com outros saberes.
Sem o respaldo da equipe interproíissional, a ação do Juiz é
insuficiente para regular as relações entre os sexos e de paren
tesco.
Em contrapartida, sem a compreensão exata do contex
to onde se inscreve sua prática, o psicólogo não faz mais do
que se esfalfar com os remos do barco na areia. De nada adi
anta se restringir à especificidade de seu campo, se o psicólogo
desconhece, por exemplo, os critériòs jurídicos que norteiam a
decisão de uma guarda ou os deveres e direitos parentais. As
referências usadas pelo psicólogo devem comunicar-se com as
do Juiz, sejam as opiniões convergentes ou não, caso contrário,
ele não poderá contribuir para o desenlace, das dificuldades e
dos conflitos com os quais o Judiciário se embaraça.
Em segunclo lugar, no atendimento à população o psicó
logo se depara com argumentos cujos valores já foram revistos
é substituídos em lei. Assim, não é raro escutar país que que
rem a guarda dos filhos porque o ex-cônjuge não cumpriu os
deveres matrimoniais. Ou- que caberia à mulher os cuidados
infantis e ao homem tão somente visitar e sustentar os filhos.
Conhecer o que diz a lei torna-se imperativo, mesmo que seja
 para in form ar que tais concepções não encontram respaldo
sequer em nossa legislação.
Por sua vez, o conhecimento da legislação não deve ser
abstraído das condições de possibilidade de seu surgimento.
Interessa ao psicólogo, sobretudo, lançar luz sobre como a
doutrina jurídica se inscreve historicamente e se articula aos
dispositivos modernos de poder.
Como será observado ao longo do texto, as leis e as es
truturas encarregadas dc aplicá-las não só normatizam e repri
mem, mas põem cm funcionamento diversas práticas dc poder
cujo objetivo é menos julgar e punir do que curar, corrigir e
educar cada sujeito a administrar a prÓpriá vida (Fòucault, 1997).
Lançando mão dessa perspectiva, o psicólogo adquire
certo domínio sobre o lugar que lhe é reservado nas institui
ções judiciárias. N ão lhe torn a indiferente interroga r se, a cada
‘ vez que fala ou' escreve a respeito de certa situação familiar, ele
está atendendo a mecanismos sutis de poder que, com o apoio
das leis jurídicas, são mascarados pela p retens a isenção política
de sua ciência.

D o C ó d ig o C i v il d e 1 9 1 6 a o E s fa tu ío d a m u lh e r C a s a d a : a
d e m a r c a ç ã o d o s p a p é is fa m ilia r e s e a q u e s tã o d a g u a r d a
 No Brasil do Im pério, a legislação sobre a família era
regulada pelo Código Civil Português, que, por sua vez, era
inspirado no Código das Ordenações Filipinas (1603).
A transposição do Direito português para a Colônia ti
nha o inconveniente de não corresponder à realidade social
 brasileira, na m edid a em que se aplicava apenas ao casamento
dos que eram católicos. Tanto as Ordenações Filipinas como
 pra ticam ente to da a legislação civil portuguesa perm aneceu em
vigor até 1916, ou seja, quase cem anos após a independência.
Durante esse tempo, protestantes e judeus, por exemplo, não
 p od eriam ter seus casam ento s reconhecid os pelo Esta do,
tampouco as uniões extramatrimoniais.
A proclamação da República define um momento crucial
de desvinculação da Igreja com o Estado. O decreto 181 de
1890 é a principal manifestação legislativa concernente ao Di
reito de Família nas primeiras décadas da República, até a
 publicação do Código Civil. De autoria dc Ruy Barbosa, tal
decreto abole a jurisdição eclesiástica, julgand o-se como único
casamento válido o realizado perante as autoridades civis.
Com o Código Civil Brasileiro de 1916, consolida-se a
definição de família como sendo a união legalmente constituí
da pela via do casamento civil.
Ora, a conformidade ao modelo jurídico de família é o
que torna as relações entre os sexos legítimas ou não. Desse,
modo, convém observar nessa definição de família a defesa do
casamento e o repúdio do legislador ao concubinato.1
 No Código de 1916, o modelo ju rídico dc família está
fundamentado numa concepção de origem romano-cristã.
A família é vista como núcleo fundamental da socieda
de, legalizada através da ação do Estado, composta por pai,
mãe e filhos (família nuclear) e, secundariamente, por outros

1 Com o veremos adiante, o concu binato vai adquirir proteção estatal, ou


seja, vai ser reconhecido definitivamente como entidade familiar, na condi
ção de união estável entre homem c mulher, somente na Constituição Fede
ral de 1988, não sem antes ser protegido por jurisprudên cia e outras leis a
partir da década de 60.

53
m em bros ligados, por laços consangüíneos ou de depend ência
(família extensa).. Ao m esm o tem po, ela organiza-se num m o
delo hierárquico que tem o homem como o seu chefe (família
 p a tria rc al).
----------- ô
ho m em -é o~chefé~da sociedade con jugal“ê“da ãdminis^-
tração dos bens comuns do casal e particulares da mulher, bem
como detentor da autoridade sobre os filhos è representante
legal da família.
Por sua vez, a mulh er casada é considerada relativamente
incapaz, em oposição à situação jurídica d a mu lher solteira maior
de idade. Essa incapacidade retira da mulher o poder de deci
dir sobre a prole^e o patrimônio, cuja competência pertence ao
homem. A mulher casada precisa de autorização do seu mari
do p ara exercer profissão, par a co merciar, além de estar fixada
ao domicílio decidido por ele. Os compromissos que assumir
sem a utorizaç ão marital não te m ‘eficácia jurídica.
vSomente na falta ou impedimento do pai que caberia à
mãe a função de exercer o pátrio poder (artigo 380), ao qual os
filhos estariam submetidos até a maioridade (artigo 379).
Segundo Barros (2001), o fato de o homem ter o poder
dividido, no caso de sua falta ou iseu impedimento, com a es
 posa e lim itado à m enorid ade do filho torna-se expressão de
um golpe no pátrio poder, embora discreto em face da autori
dade que ele ainda detinha na família.
Por sua vez, cabe frisar que o pátrio poder, oriundo do
Direito Romano, alude a uma figura de autoridade que não
represen tava o tipo d om inante em território nacional (Almeida,
1987). Seguindo esse raciocínio, â idéia de declínio da autori
dade paterna não parece a mais adequada para a compreen
são dos regimes de aliança e sexo surgidos historicamente no
Brasil, quiçá no Ocidente moderno (Foucault, 1997), pois está
limitada à tradição romano-cristã.
 No que ta nge à separa ção do casal, o Código de 1916
 prevê apenas a separação de corpos por justa causa, conhecido

 p o r .desquite* p re se rv a n d o assim a indisso lu b ilid ad e d o m a tri


mônio. Em outras palavras, a separação não desfaz o vínculo
matrimonial.2
 p o r .desquite* p re se rv a n d o assim a indisso lu b ilid ad e d o m a tri
mônio. Em outras palavras, a separação não desfaz o vínculo
matrimonial.2
Com o desquite, delega-se ao inocente no processo de
separação o direito de ter os filhos consigo. Ao cônjuge culpa
do, é-lhe assegurado o direito de visita, salvo impedimento.
Conforme podemos observar, há uma restrição da guarda à
monoparentalidade, decidida a partir do critério de falta con
 ju g al.
C aso am bos sejam considerados culpados, a mãe fica com
as filhas menores e com os filhos até os seis anos. Depois dessa
idade, os filhos vão p ara a co m pa nh ia do pai. A lei prevê regu
lar, em caso de motivos graves, de outra maneira a situação
dos pais com os filhos. Observa-se que o detentor da guarda
exerce o p átrio p od er em tod a sua extensão (Gomes, 1981).

2 Aos opositores desse sistema, Clóvis Beviláqua, redator do anteprojeto do


Códígo Civil, respondia: “O argumento que se levanta contra o desquite é
que o celibato forçado produz uniões ilícitas. Mas essas uniões ilícitas não
são conseqüência do desquite e sim da educação falsa dos homens. Não é
com o divórcio que as combateremos, e sim com a moral; não é o divórcio
que as evita, e sim a dignidade de cada um. E é curioso que se lembrem de
evitar as uniõ es ilícitas com o divórcio •quand o este é, princip alm ente, o
resultado das uniões ilícitas dos adúlteros. Não é o celibato forçado um es
tado contrário à natureza, porqu e, nas famílias honestas, nele se conservam,
indefinidamente, as mulheres. É, contrário, apenas, à incontinência.” (Gama,
2003)

55
 N a definição dos direitos e deveres do m arido e da m u
lher, pode-se confirmar a v alor ação diferenciada dos papéis
sociais. Ao marido, de acordo com a lei, cabe suprir a manu
tenção da família, enquanto à mulher cabe .velar pela. direção
moral desta. Há uma tipificação das diferenças que justifica o
código moral assimétrico e complementar como regra de con
vivência entre os sexos.
Os perfis sociais atribuídos ao homem, à mulher e aos
filhos já haviam sido desenhados pela política higienista que,
desde 1830, se inscreveu cpmo micropolítica no tecido social
 brasileiro. Com objetivo de salvar as famílias do “caos” higiê
nico em que elas se encontravam, o saber médico aliou-se às
 políticas do Estad o e fez surgir o modelo familiar pequeno-
 burguês, exp ulsando do lar doméstico os.antigos háb itos colo
niais (Costa, 1999). Assim, as tipificações clas diferenças entre
os sexos, vinculadas pela medicina à natureza biológica, não
deixaram de ser absorvidas paulatinamente pela legislação.
Se o Código Civil de 1916 já normatizava em capítulo
especial as relações familiares, é, por, sua vez, na década de 30,
no momento dé criação .de um projeto político nacionalista e
autoritário, que' se desenha uma proposta clara sobre a função
social da família. Trata-se de um projeto familiar articulado ao
nível legal, abrangendo outros aspectos da legislação além das
normas de direito civil. Tal projeto caracteriza-se por uma for
ma de pensar-a família como elemento de uma política
demográfica, tendo como objetivo último a construção da uni
dade política nacionalista:
 Nesse período fo ram pro mulgad as : a legislação sobre o
trabalho feminino (origem da CLT); sobre casamento en
tre colaterais do 3o grau; sobre os efeitos civis do casamen
to religioso; sobre os incentivos financeiros ao casamento e
à procriação; sobre o reconhecimento de filhos naturais e
legislação penal, em especial no tocante aos' crimes contra
a família (Código penal de 1940) (Alves e Barsted, 1987:
169). ■

- Pode-se vislum brar nessas regulamentações a preocu pa 


ção do legislador en f reforçar os padrões de moralidade já pre
- Pode-se vislum brar nessas regulamentações a preocu pa 
ção do legislador en f reforçar os padrões de moralidade já pre
vistos implícito e explicitamente no Código Civil, tais como: a
valorização do casamento legal e monogâmico, o incentivo ao
trabalho masculino e à dedicação da mulher ao lar, o temor
higienista dos cruzamentos consanguíneos e do uso dà sexuali
dade feminina e, em suma, a defesa da harmonia e dos costu
mes na família (Alves e Barsted, 1987)-:
 No período seguinte, de 1946 a -1964, cara cterizado po
liticamente como dem ocrático, destacam-se1a lei de reconh eci
mento de filhos ilegítimos (lei 883/49) e o "Estatuto da mulher
casada ” de 1962, que outorga capacidade juríd ica plena à
mulher.
Com a vigência desse “Estatuto”, a decisão sobre a prole ^
e o pa trimôn io deixa de ser exclusividade do hom em . Ele revo- U
ga a incapacidade da mulher casada. Para citar por exemplo
um dos efeitos jurídicos da lei, se a mulher viúva, casada em
segundas núpcias, perdia o pátrio poder sobre os filhos cio leito
anterior, conforme redação original do Código Civil, com a
vigência do “Estatuto” ela passa a exercer tais direitos sem
qualquer interferência do marido.
 N a hipótese de desquite judicial, em que ambos os côn-
 juges são julgados culpados, os filhos menores ficam corri a mãe,
diversamente do que ocorria no regime anterior, cm que os
filhos varões, acima de seis anos, ficavam com o pai.
Alves e Barsted (1987) afirmam .que, a despeito de uma
certa liberalização em relação ao casamento e' regime de bens,
o “Estatuto” não rompe algumas premissas básicas. O legisla
dor mantém a assimetria entre os sexos, pendendo a balança
 p ara o poder patriarcal. E reafirm ado no “Estatuto ” o papel
do homem como sendo o chefe da família e o da mulher, co
laboradora do marido. Seguindo esse raciocínio, foi criado o
instituto dos bens reservados da mulher, definidos como aque
les oriundos de sua profissão lucrativa e dos quais pode dispor 

57
livremente. Ora, pressupõe-se então que sua economia própria
é vista como paralela e dispensável ao sustento do lar, ao passo
que, ao homem, cabe mantê-lo.
Se o modelo jurídico de família,nuclear, com laços ex-
te n sosj-p atriarea l—fu n dad a~na-assim etria~sexu al^e_geracio nal
 perm anece in alte rado do período autoritário ao democrático ,
as práticas sociais se afastam cada vez mais do tipo ideal de
família da doutrina jurídica
O final dos anos 60 e a década de 70 foram fecundos
nesse sentido. ■

N o v o s a r ra n j o s e a d i fu s ã o d a s p r á t ic a s p s ic o ló g ic a s
O movimento feminista, a introdução da mulher no
mercado de trabalho, a pílula anticoncepcional, a liberação
sexual* aliados aos efeitos do chamado “milagre econômico”,
marcado pela mobilidade social ascendente dos setores médios
da po pulação, o desenvolvimento industrial urbano e a abertu
ra para o consumo, são alguns dos fatores que colocam em
xeque o modelo familiar preconizado ;pelas legislações, o que
irá se refletir nas decisões jurispru denciais e nas propo stas de
reform ulação do Código Civil. ;
Em determinad os estratos da sociedade, com eçam a sur
gir novos arranjos conjugais e familiares que, sobretudo, sao
caracterizados pelo individualismo (Figueira, 1987).
Se até então amulher estava comprometida com a ima
gem de mãe amorosa e responsável, na família individualizada
ela descola-se em parte do destino "natural” de maternidade.
“Nesta nova família”, escreve Russo; “cabe à dona-de-casa
 buscar um a certa independência do m arido, ter sua renda pró
 pria, seu pró prio carro, além de procurar abandonar o ar de
matrona ao qual os filhos e o casamento a condenavam” (Rus
so, 1987: 195). !

58
Por sua vez, o homem desvincula-se, ao .menos ideal
mente, do papel tradicional de “mac hista’V cuja relação privi
legiada com o trabalho fora de casa e com os próprios interesses
sexuais deixa de ser exclusividade de seu gênero.'
--------- Gom ^a-mudança-dos-arranjosinterpessoais^dissolve^sfa-
hierarquia que dividia as esferas pertencentes a cada sexo e
geração. As individualidades passam a subordinar as relações
entre os membros da família, seja entre marido c mulher, seja
entre pais e filhos. As roupas, os discursos, òs comportamentos,
os sentimentos, etc. não são mais sinais exclusivos de cada sexo,
 posição e id ade, de modo que os marcadore s visíveis da dife
rença passam a ser única e exclusivamente as expressões do
gosto pessoal (Figueira, 1987). !
Os m em bros da família pássam a se perceber como iguais
em suas diferenças pessoais. A ênfase no indivíduo faz-se acom
 p anhar do ideal de igualdade de relacionamento, apontando
 p ara um a nova m ora i no campo das relações interpessoais. A.
tradição e a rede familiar cedem lugar às individualidades e
seus prazeres correlatos; de tal modo que se torna necessário o
exame de si mesmo para que as relações entre homens e mu
lheres, maridos e esposas, pais e filhos possam ser negociadas a
todo e qualquer momento (Figueira, 1987).
 Não sendo por coincidência, é nos anòs 70 que se inicia
um alto consumo da psicanálise (Birman, 1995; Figueira, 1987;
Katz, 1979; Russo, 1987).
 N um m om ento em que os papéis tradicionais da m u
lher, do homem e das gerações são postos’em xeque, os sabe
res psi  surgem como coordenadas para as relações interpessoais,
mesmo através de conceitos os mais virulentos, tais como, por
exemplo, o de sexualidade. ! .
Donde explode o sucesso das práticas terapêuticas, das
colunas de aconselhamento psicológico em revistas femininas,
do uso quotidiano do vocabulário psicanalítico; em suma, da
necessidade crescente de se pedir a “palavra” de psicólogos e

59
 psicanalistas sobre questões que -dizem respeito à família em
geral. Cabe notar que. o imenso consumo da psicanálise e da
 psicologia não implica pura e ’sim plesmente a subversão de
formas instituídas pela tradição, mas também a multiplicação
de micropoderes que são mais persuasivos do' que impositivos
(Foucault, 1997). ,
E evidente que todo esse panorama de mudança nos anos
70 torna extremamente frágil não ápenas os deveres correlatos
entre os sexos, mas também o.-ideal de indissolubilidade do'
matrimônio.
•Vale acrescentar que nessa época o Brasil estava em ple
no regime militar, sob a presidência do General Ernesto Geisel,
cuja origem protestante luterana admite o divórcio. Ademais,
havia uma certa insatisfação entre os militares na medida em
que se obstruía a prom oção dos desquitados, chegando ao gene-
ralato e até mesmo à Presidência da República, apenas os ca
sados. Desse modo, eles influenciaram - ao lado de um a gama
imensa de desquitados com famílias recompostas - o Poder Exe-
cutivo com objetivo de. legitimar e regular o fim do casamento.

D a le i d o D iv ó r ic o à C o n s t it u iç ã o : o p r iv i lé g io d a m a t e r n i d a d e n a
a t r ib u iç ã o d a g u a r d a , a a b e r tu r a p a r a a s n o v a s fo r m a s d e f a m ília e
o s d i r e it o s d a c r ia n ç a
Em 26 de dezembro de 1977, é promulgada a Lei 6515,
conhecida como Lei do Divórcio, que regulamenta a dissolu
ção da sociedade conjugal e do casamento.
A Lei do Divórcio abole o termo “desquite” já tãò cultu
ralmente identificado no país e estabelece a possibilidade de
somente um divórcio pòr cidadão.
• A restrição a um divórcio teve como intuito aplacar a
oposição da Igreja'Católica, cujo receio de que o divórcio ani-

quüaria a família brasileir identemente jamais se confirm .3