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Prova Comum Filosofia 11º ano – 2019

Módulo II

1.2

1. O que é o determinismo?

O determinismo é a teoria que defende que tudo é determinado por acontecimentos


anteriores, ou que o estado de coisas atual no mundo resulta necessária ou
inevitavelmente de um estado de coisas anterior que é a sua causa.

O que o determinismo afirma é que um acontecimento resulta de uma causa ou


conjunto de causas e que sempre que essa causa ou conjunto de causas ocorrer dará
inevitavelmente origem ao acontecimento. Esta é a crença por detrás da explicação
científica da natureza, uma vez que explicar cientificamente um acontecimento é
apresentar a causa ou o conjunto de causas que dão origem ao acontecimento e mostrar
como a relação entre essas causas — expressas sob a forma daquilo a que chamamos
leis da natureza — produz esse acontecimento.

2. O que é o livre-arbítrio?
O livre-arbítrio consiste em poder escolher entre várias ações possíveis. As ações resultantes
de escolhas livres não são inevitáveis. Há livre-arbítrio se pudermos agir de modo
diferente do que agimos, se tendo feito uma coisa poderíamos ter feito outra.

3. Em que consiste o problema do livre-arbítrio?

O problema do livre-arbítrio consiste em saber se é possível conciliar duas convicções


aparentemente incompatíveis: a de que temos livre-arbítrio e a de que tudo o que
acontece no mundo é determinado. O problema pode formular-se do seguinte modo:
o livre-arbítrio consiste em poder escolher entre várias ações possíveis. Mas, para
podermos escolher entre várias ações possíveis, é necessário que não esteja tudo
determinado, caso contrário poderíamos apenas fazer a ação que estivéssemos
determinados para fazer (não só não haveria várias ações possíveis entre as quais optar,
como, mesmo que houvesse, não nos seria possível escolher entre elas). Portanto, para
que exista livre-arbítrio não pode haver determinismo.

É isto que está na origem do chamado problema do livre-arbítrio.

4. Por que razão o problema do livre-arbítrio é um problema importante do ponto de


vista prático?
O problema do livre-arbítrio tem importantes implicações práticas, a principal das quais
está relacionada com a responsabilidade moral. Tudo parece indicar que, se não houver
livre-arbítrio, então também não é possível responsabilizar moralmente um agente
pelas ações que pratica e, consequente, puni-lo ou recompensá-lo. Será possível
construir a vida social sem a ideia de responsabilidade moral? Se não houver livre-
arbítrio, não estará todo o nosso sistema penal errado? Não será que o criminoso, de
modo análogo à pessoa que sofre de asma e assim vê o seu organismo prejudicado, não
deve ser punido, mas sim tratado de modo a deixar de ser prejudicial à sociedade?

5. Em que consiste a responsabilidade moral?


A responsabilidade moral é a capacidade que um agente tem de responder pelos seus
atos, de reconhecer a sua autoria, assumindo as suas consequências e efeitos. Em suma,
não se demite de prestar contas pelo que faz e pelos resultados dos seus atos.
A responsabilidade designa a possibilidade de imputarmos uma ação a alguém que
consideramos ser seu autor, ter tido a última palavra na decisão que desencadeou a
ação.

6. Em que condições uma pessoa pode ser considerada moralmente responsável por
uma ação? Em que condições atribuímos responsabilidade moral a um agente?
Uma pessoa pode ser considerada moralmente responsável por uma ação quando podia
não ter feito o que fez. Assim, se decido invadir o quintal do vizinho para me apropriar
de algumas laranjas apetitosas, posso ser responsabilizado porque podia não ter feito o
que fiz. Quando alguém me censura dizendo «Não devias ter feito o que fizeste!» está
precisamente a dizer-me que havia outra alternativa. Mas, se o que aconteceu se
verificou em estado de sonambulismo, não posso ser responsabilizado porque
momentaneamente perdi o controlo dos meus atos e não podia não ter feito o que fiz.

7. Que relação há entre agir livremente e ser moralmente responsabilizado pelo que
se faz?
A relação é esta: a) ser responsável implica ser livre. Não se pode responsabilizar uma
pessoa por uma ação se ela não agiu livremente. Que um agente seja responsabilizável
por uma ação implica que podia ter agido de modo diferente, não ter feito o que fez ou
que podia ter evitado fazer o que fez (fosse a ação boa ou má).
b) Ser livre implica ser responsável. Se alguém pratica livremente uma ação, então faz
algo que podia não ter feito. Se o fez nestas condições, é o autor da ação e por ela pode
responder. Se agiu livremente, não pode evitar ter de enfrentar e responder pelas
consequências dos seus atos. Se forem, boas pode ser elogiado. Se forem más, pode ser
censurado e mesmo sentir remorso.

1.2.1

TRÊS TEORIAS SOBRE O PROBLEMA DO LIVRE-ARBÍTRIO

1. Em termos gerais, há três teorias que respondem ao problema do livre-arbítrio.


Quais são?
As três teorias são: o determinismo radical, o libertismo e o determinismo moderado.
2. O que é o determinismo radical?
Chama-se determinismo radical ao ponto de vista segundo o qual só o determinismo é
verdadeiro. Para o determinista radical, a crença no determinismo significa acreditar que
é verdade que todo e qualquer acontecimento é o desfecho necessário de
acontecimentos anteriores. Daqui decorre que não há livre-arbítrio (todas as nossas
ações são determinadas pelos nossos genes e pelo meio no qual crescemos) e que, assim
sendo, não podemos ser responsabilizados pelas nossas ações.
Em suma, o determinismo radical é a teoria que considera que, sendo verdade que tudo
o que acontece resulta necessariamente do que aconteceu antes, não há livre-arbítrio
nem possibilidade de responsabilizar alguém pelo que fez.
3. O que é o determinismo moderado?
É a teoria que defende que as nossas ações são livres, apesar de determinadas.

4. O que é o libertismo?
O libertismo é a teoria que considera que há ações que não são nem causalmente
determinadas nem produto do acaso, mas livres, e que, portanto, as pessoas são
responsáveis por essas ações. As ações do ser humano decorrem das suas deliberações
decisões e não de acontecimentos anteriores que escapem ao seu controlo.

O libertista pensa que, apesar das influências hereditárias e das influências do meio
(relativas ao modo como somos educados e criados), escolhemos livremente o que
fazemos. Não é o passado que decide por nós.

5. Acerca do problema do livre-arbítrio, fala-se de teorias incompatibilistas e


compatibilistas. O que significam estes conceitos?

Uma teoria é compatibilista quando admite que o determinismo é conciliável ou pode


coexistir com o livre-arbítrio e a responsabilidade moral.

Uma teoria é incompatibilista quando não admite a possibilidade de conciliar o


determinismo com o livre-arbítrio e a responsabilidade moral.

6. O determinismo radical é uma forma de incompatibilismo. Porquê?

O incompatibilismo defende que as crenças no livre-arbítrio e no determinismo não são


compatíveis, ou seja, não podem ser ambas verdadeiras. O determinismo radical
defende que só a crença no determinismo é verdadeira. Se liberdade e determinismo
fossem compatíveis, pensa o determinista radical, teríamos acerca de uma ação de dizer
que o agente podia não ter feito o que fez (caso em que seria livre) e que não podia
não ter feito o que fez, ou seja, tinha de fazer o que fez, a ação não poderia ter sido
diferente (caso em que não seria livre). Ora, isto é contraditório.

7. O libertismo é uma forma de incompatibilismo. Porquê?

O incompatibilismo defende que as crenças no livre-arbítrio e no determinismo não são


compatíveis, ou seja, não podem ser ambas verdadeiras. O libertismo defende que só a
crença no livre-arbítrio é verdadeira. A crença no determinismo é falsa porque este
defende que tudo faz parte de um encadeamento causal, tese que o libertista nega
porque as nossas deliberações e decisões não são o resultado necessário de
acontecimentos anteriores. Há ações que têm como causa as nossas deliberações.
Deliberar implica que pudemos escolher agir de modo diferente.
Podendo ter sido outras, as nossas escolhas não são o resultado necessário e inevitável
de acontecimentos anteriores. Não são o desfecho de uma longa cadeia causal de
acontecimentos porque, ao escolher fazer A em vez de B, suspendo o domínio dos
acontecimentos anteriores sobre as minhas decisões e desencadeio por minha vontade
uma nova série de acontecimentos.

8. Das três teorias que referimos, somente o determinismo moderado é uma teoria
compatibilista. Justifique.

O determinismo moderado defende que são compatíveis as proposições «Um agente


praticou livremente a ação A» e «A ação praticada por esse agente tem uma causa e
deriva necessariamente dessa causa». Liberdade e determinismo são compatíveis, para
esta teoria.

9. Que distinção permite ao determinista moderado defender a compatibilidade entre


determinismo e liberdade?

Trata-se da distinção entre ação causalmente determinada e ação constrangida. Só esta


última não é livre.

10. Como é caraterizada a liberdade pelo determinista moderado?

O determinista moderado define a liberdade do seguinte modo: É livre a ação em que


o agente não é impedido por fatores externos de a realizar. Na ausência destes
impedimentos, o agente pode fazer o que tem vontade de fazer. Um dos mais famosos
defensores do determinismo moderado foi David Hume. Hume chamou a atenção para
o facto de as pessoas tenderem a confundir causalidade – o facto de uma ação ser
causada – e coação ou constrangimento – o facto de uma ação ser compelida. Assim, há
uma grande diferença entre estas duas ações: Fazer algo porque quero fazê-lo e fazer
algo porque alguém me aponta uma arma à cabeça e me obriga a fazê-lo. No primeiro
caso, a ação é causada e, no segundo caso, a ação é compelida ou constrangida. O
oposto da liberdade é a coação e não a causalidade. Ser livre, para David Hume, significa
ser livre de coação.

11. Para o determinista moderado, uma ação livre é causada. É causada pelo quê?
É causada pelas suas crenças e desejos, isto é, pela sua personalidade.

12. Por que razão para o determinista moderado é importante que a ação do agente
seja causada ou determinada pelas suas crenças e desejos?
Se as ações não fossem causadas pelas nossas crenças e desejos, não poderíamos ser
responsabilizados pelas nossas ações. Não seriam as nossas ações.

13. Esclareça através de um exemplo o que é agir livremente para um determinista


moderado.

Para os deterministas moderados, uma ação é livre desde que o sujeito, caso o tivesse
desejado, tivesse agido de outra forma. Imagine, por exemplo, que tem amanhã um
teste da disciplina de Filosofia para o qual está a estudar afincadamente porque acredita
que assim terá boa nota. Uma vez que a sua ação resulta dos seus desejos e crenças e
não lhe foi imposta (por exemplo, pelos seus pais, devido a maus resultados em testes
anteriores), ela é uma ação livre. Mas, se a sua ação de estudar resultasse de uma
imposição paterna que não lhe deixasse qualquer alternativa, então ela não era uma
ação livre. Repare que em ambos os casos a sua ação tem causas. Contudo, no primeiro
caso as causas são os seus próprios desejos e crenças, ao passo que no segundo caso as
causas são os desejos e crenças dos seus pais. É essa diferença que faz com que num
caso a ação seja livre e no outro não. No primeiro caso, a sua ação é livre porque está
sob o controlo das suas crenças e desejos e, se tivesse tido outros desejos, poderia ter
escolhido e realizado uma ação diferente. No segundo caso, de nada lhe valeria ter
outros desejos e crenças porque não poderia agir de acordo com eles.

14. Esclareça, através de exemplos, que fatores podem impedir o agente de fazer o
que tem vontade de fazer.

Sirvam estes dois exemplos: quero beber água, mas estou no deserto e não há água
disponível; quero viajar, mas não tenho dinheiro.

15. Segundo o determinismo moderado, para que uma ação seja livre ela, tem de ser
causada de uma certa maneira. O que significa esta afirmação?

Esta afirmação significa que a distinção entre ações livres e não livres implica a distinção
entre causalidade interna e causalidade externa.

Assim:
a) Ações, escolhas e decisões cuja causa imediata é um estado de coisas interno (desejos
e crenças do agente e também a sua personalidade) são livres.

b) Ações, escolhas e decisões cuja causa imediata é um estado de coisas externo não
são livres.

16. O sentido comum de liberdade consiste em dizer que agir livremente é, não só
fazer o que queremos fazer, como também poder não ter feito o que se fez, ou seja, a
ausência de coação é acompanhada por outra condição que é o agente possuir
alternativas reais de ação. Será que o determinismo moderado salvaguarda esta ideia
de liberdade?

Parece que sim e parece que não. Vejamos: Um agente dispõe de alternativas reais se a
sua ação pudesse ter sido diferente da que realizou. Assim, ajo livremente se,
escolhendo comer um bolo, pudesse não o ter feito e, eventualmente, tivesse escolhido
uma peça de fruta. Vejamos como o determinista moderado explica a mesma ação.
Comi uma peça de fruta e agi livremente porque o fiz de acordo com as minhas crenças
– fruta é mais saudável, assim me ensinaram – e os meus desejos – quero ser saudável.
O que significa dizer que podia ter agido de modo diferente e comer o bolo em vez da
fruta? Que os meus desejos e crenças teriam de ser diferentes. Por outras palavras, teria
de ser uma pessoa diferente do que sou, de ter outra personalidade (esta é constituída
pelas nossas crenças e desejos). Mas, se somos deterministas, mesmo moderados,
temos de reconhecer que não temos controlo sobre o passado, que somos o resultado
necessário da educação e criação que tivemos. Não podemos ser uma pessoa diferente
da que somos.

Assim, o determinismo moderado não salvaguarda a ideia comum de liberdade e por


isso tem problemas em explicar como podemos responsabilizar alguém pelas suas
ações.

17. Qual é uma das principais críticas de que o determinismo moderado é alvo?
Uma crítica que se faz ao determinismo moderado é a de não explicar o comportamento
compulsivo. Quando alguém age compulsivamente, age de acordo com os seus próprios
desejos e crenças. Contudo, dificilmente se pode dizer que quem o faz é livre. É o caso
do cleptómano. Parece também difícil acreditar que uma pessoa que, por exemplo, seja
uma compradora ou jogadora compulsiva e que, por causa disso, contraia muitas dívidas
e destrua o casamento, seja livre. No entanto, ela, ao agir compulsivamente, respeita
completamente o critério do determinismo moderado, segundo o qual uma ação é livre
se resultar dos desejos e crenças da pessoa que a realiza.

18. Que outra crítica podemos dirigir a quem defende o determinismo moderado?

Segundo o determinismo moderado, somos livres quando não somos impedidos de


fazer o que desejamos. As nossas crenças e desejos constituem a nossa personalidade.
Ora, a nossa personalidade está determinada pelo nosso passado, ou seja, pela
educação e pelo meio em que fomos criados. Não será isso uma forma de
constrangimento, uma vez que não controlamos o passado? Não será que somos
constrangidos pelo que nos aconteceu e julgamos que agimos livremente porque não
temos consciência das influências que nos formaram e determinaram a nossa maneira
de ser?

19. Qual é a principal crítica que se faz ao determinismo radical?

A principal crítica é esta: Se não somos responsabilizáveis pelo que fazemos – porque
não podemos agir de modo diferente –, então:
1. Como condenar e ilibar alguém?
2. Como elogiar e censurar?
3. Como dizer a alguém que não devia ter feito o que fez?
4. Como explicar sentimentos de remorso, de arrependimento e de culpa?

Muitos críticos do determinismo radical pensam que não é possível construir a vida
social sem a ideia de responsabilidade moral.
Por outro lado, os nossos juízos morais perderão qualquer fundamento. Se o
determinismo implica a negação da liberdade e da responsabilidade, se é verdade
afirmar que as nossas ações são o resultado de causas que de modo algum podemos
controlar, que diferença moral há entre um criminoso como Hitler e Nelson Mandela?
Faz sentido condenar Hitler e admirar Nelson Mandela?

20. Qual é a principal crítica que se faz ao libertismo?

Segundo o determinismo moderado, a minha ação é livre se for causada por desejos ou
crenças – estados internos − que são meus. Segundo o libertismo, a minha ação é livre
se for causada por mim e não por um dos meus estados internos.
O que é este eu que através das suas deliberações é, segundo os libertistas, a causa de
certas ações? Uma entidade física? Então não escapa ao determinismo universal, ao
encadeamento causal necessário que rege todas as coisas físicas. Uma entidade não
física? Mas as ações são atos físicos, acontecem num dado momento e lugar.
Será que este eu é uma entidade puramente mental? Mas como é que uma causa
puramente mental pode produzir efeitos físicos? Se é a mente que causa as nossas
ações, será que é possível que ela exista independentemente do cérebro, que é
obviamente uma realidade física?
Este contra-argumento parece condenar os libertistas a reconhecerem o seguinte: que
as ações de uma pessoa só são livres se não tiverem nenhuma causa, nem mesmo as
suas próprias crenças e desejos. Ora, deste modo, o libertismo transforma-se numa
espécie de indeterminismo, algo que os libertistas sempre rejeitaram.

QUADRO ESQUEMÁTICO 1

Problema: Qual das crenças é verdadeira, o determinismo ou o livre-arbítrio?

A resposta do determinismo radical

Crença no determinismo Crença no livre-arbítrio Crença na responsabilidade


moral

Verdadeira Falsa Falsa

1. Todos os acontecimentos, sem exceção, Se todas as ações são o Se não há ações livres, não
são causalmente determinados por desfecho inevitável de podemos ser
acontecimentos anteriores causas anteriores, não há responsabilizados pelo que
ações livres. fazemos.
2. As escolhas e ações humanas são
acontecimentos.
3. Logo,todas as escolhas e ações humanas
são causalmente determinadas por
acontecimentos anteriores.

O determinismo radical é a teoria que só reconhece como verdadeira a crença no determinismo. Todos
os acontecimentos são o resultado inevitável de causas anteriores.

QUADRO ESQUEMÁTICO 2

Problema: Qual das crenças é verdadeira, o determinismo ou o livre-arbítrio?

A resposta do libertismo

Crença no determinismo
Crença no livre-arbítrio Crença na responsabilidade moral
Falsa Verdadeira Verdadeira

1. Nem todos os Se nem todos os acontecimentos Se há ações livres, então podemos


acontecimentos são são o desfecho inevitável de causas ser responsabilizados pelo que
causalmente determinados por anteriores, então há ações livres. fazemos.
acontecimentos anteriores.

2. As ações humanas são


acontecimentos.

3. Logo, há ações humanas


desligadas do encadeamento
causal e que dão origem a uma
nova série de acontecimentos.

O libertismo é a teoria que só reconhece como verdadeira a crença no livre-arbítrio porque não aceita o
determinismo universal – que todo o acontecimento seja o resultado necessário e inevitável de causas
anteriores.

QUADRO ESQUEMÁTICO 3

Problema: Qual das crenças é verdadeira, o determinismo ou o livre-arbítrio?

A resposta do determinismo moderado

Crença no determinismo Crença no livre-arbítrio Crença na responsabilidade


moral
Verdadeira Verdadeira Verdadeira
1. Todos os acontecimentos, sem 1. Todas as ações são determinadas Se há ações livres, podemos
exceção, são causalmente por causas anteriores. ser responsabilizados pelo
determinados por acontecimentos 2. As ações cujas causas são forças que fazemos.
anteriores externas ao sujeito que age são
2. As escolhas e ações humanas são ações compelidas ou constrangidas.
acontecimentos. 3. Há ações cujas causas são estados
3. Logo, todas as escolhas e ações internos do sujeito (crenças e
humanas são causalmente desejos).
determinadas por acontecimentos 4. Ações que não derivam da força
anteriores. de fatores externos são ações livres.
5. Há ações unicamente causadas
por desejos, motivos, crenças ou
outros estados internos do sujeito
que age.
6. Logo, há ações livres

O determinismo moderado é a teoria que reconhece como verdadeiras as crenças no determinismo e no livre-
arbítrio.

3.1.3
A PERSPETIVA DEONTOLÓGICA DE KANT

1. Por que razão é a ética de Kant uma ética deontológica?

Considera-se que a ética kantiana é deontológica porque defende que o valor moral de
uma ação reside em si mesma – na sua intenção – e não nas suas consequências.
Em geral, uma teoria é deontológica se considera que agir moralmente consiste em
cumprir o dever pelo dever e que há deveres absolutos, ou seja, deveres que é
obrigatório cumprir independentemente das consequências.
2. Segundo Kant, uma ação pode ter boas consequências e não ter valor moral.
Porquê?

As consequências de uma ação não têm qualquer relevância para determinar o valor
moral dessa ação, quer essas consequências sejam boas ou más, uma vez que o valor
moral de uma ação é determinado pela intenção do agente. Uma ação com valor moral
pode ter boas consequências, mas não são as boas consequências que a tornam
moralmente valiosa.

3. O que é agir por dever?

Agir por dever é fazer do cumprimento do dever a única razão de ser da minha ação.
Faço do cumprimento do dever um fim em si: é isso que quero e mais nada.

A intenção de cumprir o dever não se apoia em mais nenhuma outra. Não há «segundas
intenções». O cumprimento do dever é o único motivo em que a ação se baseia.

Ex.: Não roubo quando podia fazê-lo e era conveniente.

Se cumpro o dever de não roubar por medo das consequências, não estou a agir por
dever. Se cumpro o dever de roubar porque considero que é sempre errado roubar,
então estou a agir por dever. Não roubo porque considero que assim é que deve ser, isto
é, porque esse ato é errado em si mesmo, por melhores que até possam ser as
consequências.
Agir por dever é cumprir o dever pelo dever.

4. Para Kant, basta cumprir o dever?


Não. O que importa é o modo ou a forma como cumprimos o dever. Por outras palavras,
a intenção ou o motivo que nos leva a fazer a coisa certa – não matar, não roubar, não
mentir – é que conta. É que podemos fazer a coisa certa por interesse ou conveniência.
Isso, para Kant, retira valor moral à ação. Quando o propósito do agente é cumprir o
dever pelo dever é que verdadeiramente agimos bem. Para que uma ação seja correta,
não basta cumprimos os nossos deveres, porque não é o que fazemos mas a intenção
com que o fazemos que determina se a nossa ação é moralmente valiosa.
5. Quando é que a intenção tem valor moral ou é boa?

Quando o propósito do agente é cumprir o dever pelo dever.

6. Kant distingue ações feitas por dever e ações em conformidade com o dever. O que
são ações conformes ao dever?

Ações conformes ao dever são ações que têm como única motivação o cumprimento do
dever, mas um interesse pessoal. São ações que cumprem o dever com a intenção de
evitar uma má consequência – perder dinheiro, reputação – ou porque daí resulta uma
boa consequência – a satisfação de um interesse. O comerciante que pratica preços
justos para criar boa reputação e aumentar a clientela cumpre o dever por interesse,
mas não cumpre o dever por dever.

7. Uma ação pode ser conforme ao dever e não ser por dever. Justifique.

O que determina se uma ação é realizada por dever ou em conformidade ao dever é a


sua intenção. Duas ações podem ter as mesmas consequências, mas só a que é realizada
com a intenção de cumprir o dever pelo dever é uma ação por dever.

8. O que são ações contrárias ao dever? Dê exemplos.

Ações contrárias ao dever são ações que violam o dever. Por exemplo, matar, roubar,
mentir.

9. Por que razão distingue Kant entre ações por dever e ações em conformidade com
o dever?

A razão de ser ou o objetivo da distinção é duplo:

1. Defender que o valor moral das ações depende unicamente da intenção com que são
praticadas.
2. Mostrar que duas ações podem ter consequências igualmente boas e uma delas não ter valor
moral.

10. O que é a lei moral?

É uma lei da nossa consciência racional que exige que se cumpra o dever por dever.

A lei moral exige respeito absoluto pelo dever, pelo cumprimento de certas normas como
não matar, não roubar e não mentir.

Obedeço à lei moral quando respeito absolutamente o dever, quando não preciso de
mais nenhum motivo – a não ser a honestidade – para cumprir o dever (para ser
honesto).

11. Por que razão, Segundo Kant, a lei moral tem um caráter formal?
Porque me diz a forma como é correto cumprir o dever. Não é uma regra concreta como
«Não matarás!», mas um princípio geral que deve ser seguido quando cumpro essas
regras concretas que proíbem o roubo, o assassinato, a mentira, etc. Pense em normas
morais como «Não deves mentir», «Não deves matar», «Não deves roubar». A lei moral,
segundo Kant, diz-nos como cumprir esses deveres, qual a forma correta de os cumprir.
Assim sendo, é uma lei puramente racional e puramente formal.

12. Por que razão, segundo Kant, a lei moral tem a forma de um imperativo categórico?

A lei moral exige respeito absoluto pelo dever, pelo cumprimento de certas normas como
não matar, não roubar e não mentir. A palavra imperativo designa dever, ordem,
obrigação. A palavra categórico significa absoluto, incondicional.

Assim, respeitar a lei moral ou o que ela ordena é uma obrigação absoluta.
O que a lei moral ordena – cumprir o dever por puro e simples respeito pelo dever – é,
para Kant, uma exigência que tem a forma de um imperativo categórico.

Ordena que uma ação boa seja realizada pelo seu valor intrínseco, que seja querida por
ser boa em si e não por causa dos seus efeitos ou consequências. O cumprimento de
deveres como não roubar ou não mentir é uma obrigação absoluta.
13. O que são deveres absolutos?

Deveres absolutos, ou perfeitos, são deveres que não admitem exceções. Os deveres
absolutos são deveres incondicionais (não dependem de condições ou interesses). Os
deveres morais propriamente ditos são deveres absolutos. A lei moral enquanto
imperativo categórico diz-nos que deveres é obrigatório respeitar de forma absoluta.

14. Por que razão o cumprimento do dever é uma obrigação absoluta ou categórica?
Se cumprir o dever dependesse dos nossos interesses ou sentimentos, teríamos a
obrigação, por exemplo, de cumprir a palavra dada apenas em certas condições, mas
não sempre. Esta obrigação dependeria, digamos, do desejo de ficarmos bem vistos aos
olhos de Deus ou aos olhos dos outros, do desejo de agradar a alguém, etc. Se agradar
a Deus ou aos outros deixasse de nos preocupar, a obrigação de cumprir a palavra dada
simplesmente desapareceria. Ora, não é isso que deve acontecer, segundo Kant.
Continuamos a ter o dever de cumprir a palavra dada quer isso nos agrade quer não.

15. O que são deveres relativos?

Deveres relativos são deveres cujo cumprimento depende de se querer ou desejar algo,
isto é, que se devem cumprir apenas quando se deseja algo.

16. O que são imperativos hipotéticos? Dê exemplos.

Os imperativos hipotéticos são ordens que expressam deveres relativos, isto é, deveres
que devemos cumprir na condição de querermos ou desejarmos uma dada coisa. Os
imperativos hipotéticos expressam ações conformes ao dever. Exemplos: «Deves
cumprir o Código da Estrada se não queres ser multado»; «Se queres ser louvado pelos
teus concidadãos, deves fazer apenas ações que a comunidade aprove».

17. Exponha as duas formulações principais do imperativo categórico.

As duas formulações do imperativo a que Kant dá mais importância são a fórmula da lei
universal e a fórmula da humanidade. A primeira diz que devemos agir apenas segundo
uma máxima tal que possamos querer ao mesmo tempo que se torne uma lei universal;
a segunda afirma que devemos agir de tal maneira que usemos a humanidade, tanto na
nossa pessoa como na pessoa de outrem, sempre e simultaneamente como fim e nunca
apenas como meio.

18. Qual é a função destas duas fórmulas? Para que servem?


Para sabermos, em cada circunstância da vida, se a ação que queremos praticar está, ou
não, de acordo com a moral, temos de perguntar se aquilo que nos propomos fazer
poderia servir de modelo para todos os outros e se não os transforma em simples meios
ao serviço dos nossos interesses. Se faltar a uma promessa não é algo que todos possam
imitar e viola os direitos dos outros, então temos a obrigação de não o fazer, por muito
que isso nos possa custar; se mentir não serve de modelo para os outros e os reduz a
meios que usamos para satisfazer o nosso egoísmo, então não temos o direito de abrir
uma exceção apenas para nós.

19. O que está presente nestas duas fórmulas do imperativo categórico?

Está presente a máxima que deve orientar a nossa ação para que ela tenha valor moral.
A máxima dá-nos a conhecer a intenção ou o motivo que está na base da ação do agente.
Kant atribui a estas duas formulações do imperativo categórico a função de critérios
para determinar se uma máxima expressa ou não um dever moral.

20. Analise a primeira formulação do imperativo categórico. Recorra a um exemplo.

A fórmula é: «Age apenas segundo uma máxima tal que possas querer ao mesmo tempo
que se torne lei universal».

Cumpro o imperativo categórico (equivalente a obedecer à lei moral ou a agir por dever)
quando a minha máxima pode ser universalizada sem contradição.

Imagine-se a seguinte situação: Eva precisava de dinheiro. Pediu algum dinheiro


emprestado a Bernardo com a promessa de lho devolver. No entanto, já tinha a intenção
de não lhe devolver o dinheiro.
Eva agiu de acordo com a seguinte máxima: «Sempre que precisar de dinheiro, peço o
dinheiro emprestado, mas com a intenção de não o devolver». Em termos mais gerais,
a regra que orienta a ação de Eva é esta: «Mente sempre que isso for do teu interesse».

Poderá esta máxima ser universalizada? Não será contraditória? O que aconteceria se
esta regra fosse universalizada, se funcionasse como modelo para todos, se todos a
seguissem? Ninguém confiaria em ninguém. Ora, a mentira só é eficaz se as pessoas
confiarem umas nas outras. É preciso que Bernardo confie em Eva, para poder ser
enganado por ela. Mas, se eu souber que todos mentem sempre que isso lhes convém,
deixarei de confiar nos outros e por isso Bernardo não confiará em Eva. Não vale a pena
Eva prometer porque Bernardo não irá acreditar em nada que ela diga. Logo, Bernardo
não lhe iria emprestar o dinheiro se a máxima de Eva fosse uma lei universal. Por
estranho que pareça, ao exigir que todos mintam, estou a tornar a mentira impossível.

21. O imperativo categórico promove a ideia de imparcialidade?

Sim. Só podemos universalizar a máxima da nossa ação se não nos deixarmos influenciar
pelos nossos interesses e pelo egoísmo.

22. Como é que a fórmula da lei universal determina se uma máxima expressa um
dever moral?

A primeira formulação do imperativo categórico determina se uma máxima expressa um


dever moral verificando se ela é universalizável, isto é, se é possível que todos ajam
segundo essa máxima. Se for possível universalizar a máxima, ela expressa um dever
moral. Se não for possível, não expressa.

23. Analise a segunda formulação do imperativo categórico.

A fórmula é: Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na
pessoa de outrem, sempre e simultaneamente como fim e nunca apenas como meio.

Segundo esta fórmula, cada ser humano é um fim em si e não um simples meio. Por isso,
será moralmente errado instrumentalizar um ser humano, usá-lo como simples meio
para alcançar um objetivo. Os seres humanos têm valor intrínseco, absoluto, isto é,
dignidade. Por exemplo, a vida de um ser humano não vale mais do que a de outro.

Quem pede dinheiro emprestado sem intenção de o devolver está a tratar a pessoa que
lhe empresta dinheiro sem respeito pela sua dignidade. É evidente que está a tratá-la
como um meio para resolver um problema e não como alguém que merece respeito,
consideração. Pensa unicamente em utilizá-la para resolver uma situação financeira
grave sem ter qualquer consideração pelos interesses próprios de quem se dispõe a
ajudá-lo.

24. A segunda formulação do imperativo categórico impede-nos de tratar os outros


como meios?

Não. Se impedisse, poria em causa a própria existência da sociedade e de muitas


relações entre os seres humanos, que dependem de que nos tratemos uns aos outros
como meios para os nossos fins. O que a segunda formulação do imperativo categórico
proíbe é que tratemos os outros apenas como meios para os nossos fins, sem qualquer
respeito pela sua dignidade e racionalidade.

25. Qual é o principal objetivo de Kant ao apresentar estas duas formulações do


imperativo categórico, sobretudo a segunda fórmula?

Kant pretende mostrar que a sua ética é a ética do respeito absoluto pelos direitos da
pessoa humana e não simplesmente uma ética do dever.

Para Kant, a pessoa tem de ser tratada sempre como um fim em si mesma e nunca
somente como um meio, porque é o único ser de entre as várias espécies de seres vivos
que pode agir moralmente. Se não existissem os seres humanos, não poderia haver
bondade moral no mundo e, nesse sentido, o valor da pessoa é absoluto.

Assim, a fórmula da humanidade, também conhecida por fórmula do respeito pelas


pessoas, exprime a obrigação moral básica da ética kantiana.
Como pessoa, o ser humano tem direitos que, em circunstância alguma podem ser
violados ou infringidos. A ética kantiana parece a ética de um fanático do dever, mas
mais do que isso é a ética dos direitos da pessoa humana.

26. Estabeleça a relação entre cumprimento do dever, imparcialidade e respeito pela


pessoa humana.

A ação moralmente correta é decidida pelo indivíduo quando adota uma perspetiva
universal. Como? Colocando de parte os seus interesses, a pessoa pensará como
qualquer outra que também faça abstração dos seus interesses, adotando, portanto,
uma perspetiva universal. Pense em deveres morais comuns como «Paga o que deves»,
«Sê leal», «Não roubes». Só o interesse e a parcialidade do agente podem levar à
violação de tais regras ou deveres morais. Eliminada a parcialidade, pensamos segundo
uma perspetiva universal e aprovamo-los. Sempre que fazemos da satisfação dos nossos
interesses a finalidade única da nossa ação, não estamos a ser imparciais e a máxima
que seguimos não pode ser universalizada. Assim sendo, estamos a usar os outros
apenas como meios, simples instrumentos que utilizamos para nosso proveito.

27. O que é a boa vontade?

É uma vontade que age de forma moralmente correta independentemente das


consequências da ação.

É uma vontade que cumpre o dever respeitando absolutamente a lei moral, ou seja, cuja
única intenção é cumprir o dever.

É uma vontade que age segundo regras ou máximas que podem ser seguidas por todos.

É uma vontade que respeita todo e qualquer ser humano considerando-o uma pessoa e
não uma coisa ou um simples meio ao serviço deste ou daquele interesse.

É uma vontade autónoma porque decide cumprir o dever por sua iniciativa e não por
receio de autoridades externas ou da opinião dos outros.

A boa vontade é a vontade que age por respeito pela lei moral. A boa vontade é a única
coisa absolutamente boa. O que a torna boa é a intenção que preside à realização da
ação. Quando um agente age com a intenção de cumprir o dever pelo dever, age de boa
vontade.

28. O que é uma vontade autónoma?

É a vontade que age com a intenção de cumprir o dever pelo dever. Por isso é também
dita uma boa vontade ou uma vontade que respeita a lei moral. A autonomia da vontade
designa a capacidade de a vontade decidir respeitar uma lei – a lei moral – que exige o
respeito absoluto pela dignidade e autonomia da pessoa humana. A autonomia da
vontade não é fazer o que apetece. O agente autónomo aceita a lei moral porque essa
lei é criada por ele mesmo, quando faz escolhas morais imparciais e desinteressadas
determinadas pela sua razão. Uma vontade autónoma é uma vontade puramente
racional, que faz sua uma lei da razão, que diz a si mesma «Eu quero o que a lei moral
exige». Ao agir por dever, obedeço à voz da minha razão e nada mais.

29. O que é a vontade heterónoma?

É a vontade que não cumpre o dever pelo dever. Não é uma boa vontade. O
cumprimento do dever não é razão suficiente para agir tendo de se invocar razões
externas como o receio das consequências, o temor a Deus, etc. A vontade submete-se
a autoridades que não a razão.

É a vontade que é incapaz de vencer o conflito entre o dever e os interesses e inclinações


sensíveis. Nestas circunstâncias, a vontade não tem a razão como fonte da obrigação e
rege-se pelo que a religião ou a sociedade em geral pensam, o que é um sinal de
menoridade moral.

30. Para Kant, há deveres morais absolutos? Porquê?

Para Kant, há ações que, apesar das boas consequências previsi ́veis, nunca devem ser
praticadas.

Há ações que é sempre obrigatório ou sempre errado fazer. Há ações que são
moralmente erradas, quaisquer que sejam as consequências que resultem delas. Matar,
roubar, mentir são exemplos de ações que são sempre erradas, por mais vantagens que
resultem delas, e temos a absoluta obrigação de não matar, não roubar e não mentir.
Isto quer dizer que há deveres morais absolutos, ou seja, obrigações que devemos
cumprir sempre.

Mas por que razão há deveres morais absolutos? Porque há direitos invioláveis. Os
direitos da pessoa humana. Como pessoa, o ser humano tem direitos que, em
circunstância alguma, podem ser violados ou infringidos. Estes direitos implicam
deveres, e estes deveres implicam restrições. Nem tudo é permissi ́vel em nome, por
exemplo, do bem-estar geral ou da felicidade do maior nú mero.

A PERSPETIVA UTILITARISTA DE STUART-MILL

1. Qual é, Segundo Mill, o critério da moralidade de uma ação?

Segundo Mill o que faz com que uma ação tenha valor moral é a utilidade. O critério da
moralidade de um ação é o princípio de utilidade. Este princípio é o teste da moralidade
das ações. Uma ação deve ser realizada se e só se dela resultar a máxima felicidade
possível para o maior número possível de pessoas que são por ela afetadas. O princípio
de utilidade é por isso também conhecido como o princípio da maior felicidade. Uma
ação boa é a mais útil, ou seja, a que produz mais felicidade global ou, dadas as
circunstâncias, menos infelicidade. Quando não é possível produzir felicidade ou prazer,
devemos tentar reduzir a infelicidade. É costume resumir-se o princípio de utilidade
mediante a fórmula «A maior felicidade para o maior número».

2. Por que razão o utilitarismo de Mill é uma teoria consequencialista?

O valor moral de uma ação depende das suas consequências. A ação boa é a ação que
tem boas consequências ou, dadas as circunstâncias, melhores consequências do que
ações alternativas. Uma ação moralmente correta, para John Stuart Mill, é a que, de
todas as ações possi ́veis, tem as melhores consequências.

Por «melhores consequências» o utilitarista entende o bem-estar ou felicidade da


maioria. Assim, o utilitarista pensa que a melhor coisa a fazer numa dada situação é
aquela que, entre todas as alternativas disponíveis, mais promove o bem-estar ou
felicidade de um ponto de vista inteiramente imparcial, isto é, que promove o bem-estar
do maior número possível de pessoas que são afetadas pelas nossas ações. O utilitarista
advoga «o maior bem para o maior número». A melhor ação, deste ponto de vista, não
é a que tem efetivamente as melhores consequências, mas a que tem a maior utilidade
esperada, que se determina calculando a taxa de bem-estar produzida por uma ação
com a probabilidade de sucesso na realização dessa ação. A ação que tiver a maior
utilidade esperada é a que deve ser realizada.

3. A felicidade de que fala o utilitarismo de Mill é a felicidade individual?

Também, mas não só. Prevalece a ideia de felicidade geral, embora não se despreze a
felicidade individual. A felicidade de que fala o utilitarismo não é simplesmente a
felicidade individual. Mas também não é a felicidade geral à custa da felicidade do
agente. A minha felicidade é tão importante como a dos outros envolvidos, nem mais
nem menos. Dada a tendência humana para o egoísmo, Mill acentua esta ideia: a minha
felicidade não conta mais do que a felicidade dos outros.

4. O utilitarismo de Mill pretende ser uma forma de avaliação imparcial do que é


correto fazer em termos morais. Esta afirmação é correta?

Sim. Para decidir o que é moralmente correto fazer, o agente deve ter tanto em conta,
não só o seu bem-estar, como o de todas as outras pessoas que são afetadas pela ação.
A sua felicidade não conta mais do que a felicidade dessas outras pessoas e não deve
abrir exceções, mesmo para conhecidos, familiares e amigos. Quando delibera sobre o
que vai fazer, o agente tem de ser completamente imparcial. Por isso, o utilitarismo
rege-se pelo princi ́pio da imparcialidade.

5. Considera-se que o utilitarismo de Mill é uma teoria hedonista. O que significa isso?

Significa que todas as atividades humanas têm um objetivo último, isto é, são meios para
uma finalidade que é o ponto de convergência de todas. Esse fim é a felicidade ou bem-
estar que Mill identifica com o prazer.

Procuramos em todas as atividades a que nos dedicamos viver experiências aprazíveis e


evitar experiências dolorosas ou desagradáveis. Esta perspetiva que identifica a
felicidade com o prazer ou o bem-estar tem o nome de hedonismo.

6. Para Mill, todos os prazeres se equivalem? Qual a natureza da felicidade identificada


com o prazer? De que tipo de hedonismo se trata? Que prazeres segundo Mill
promovem a felicidade?
Estaria Mill de acordo connosco se pensássemos que consideraria feliz a pessoa que
passa toda a sua vida a comer e beber, a ver novelas e futebol, a colecionar automóveis
topo de gama e a satisfazer os seus impulsos sexuais?

A resposta é não, e Mill faz questão de ser bem claro. Nenhuma felicidade humana é
verdadeiramente possível sem um «sentido de dignidade». Nem todos os prazeres se
equivalem. Há prazeres superiores e prazeres inferiores. Não podemos reduzir a
felicidade à satisfação dos prazeres físicos. Sem negar estes, Mill afirma convictamente
que os prazeres do espírito ou os prazeres intelectuais são superiores e qualitativamente
distintos.

7. Caraterize o princípio de utilidade.

1. É o critério que permite distinguir uma ação moralmente correta de uma ação
moralmente incorreta.

2. É o princípio supremo da moralidade porque:

a) Permite reduzir a diversidade das normas morais concretas a um princípio geral,


denominado fundamento, que nos diz como devemos agir.

b) Permite orientar-nos em casos de conflito moral, retirando às normas socialmente


aprovadas o seu caráter inviolável.
8. Distinga, segundo a perspetiva utilitarista de Mill, ações com boas consequências
de ações com más consequências.

A ação com boas consequências é aquela cujos resultados contribuem para um aumento
da felicidade (bem-estar) ou diminuição da infelicidade do maior número possível de
pessoas por ela afetadas. É uma ação subordinada ao princípio de utilidade.

A ação com más consequências é aquela cujos resultados não contribuem para um
aumento da felicidade (bem-estar) ou diminuição da infelicidade do maior número
possível de pessoas por ela afetadas.

É a ação parcial em que a felicidade do maior número não é tida em conta ou a ação
egoísta em que só o meu bem-estar ou satisfação é procurado. Em suma, é a ação que
não se subordina ao princípio de utilidade.

9. Exponha as linhas gerais da ética utilitarista, esclarecendo de que tipo de teoria da


ética normativa se trata e quais os seus principais conceitos.

A ética de John Stuart Mill é uma ética consequencialista, porque defende que o valor
moral de uma ação depende das suas consequências. A ação boa é a que tem as
melhores consequências possíveis. Para Mill, ao contrário de Kant, não determinamos a
correção moral de uma ação com base no motivo ou intenção do agente, mas sim nos
resultados da ação. Mill discorda completamente da posição segundo a qual a intenção
do agente é vital para determinar o valor moral de uma ação. Para ele, uma ação que
tenha boas consequências é sempre boa qualquer que seja a motivação do agente.

Mill pensa também que a ação a realizar é aquela da qual resulta a maior felicidade ou
bem-estar para todas as pessoas envolvidas. Uma ação boa é, portanto, a mais útil, ou
seja, a que produz mais felicidade global. A este princípio que funciona como critério da
moralidade chama-se princípio de utilidade e afirma que a ação que deve ser realizada
é aquela de que resulta a máxima felicidade possível para as pessoas que são afetadas
por ela. O princípio de utilidade é, por isso, conhecido também como princípio da maior
felicidade.

Em que consiste esta felicidade que deve, segundo Mill, ser o objetivo de toda a ação
moral? A felicidade consiste no prazer e na ausência de dor. Chama-se hedonismo a esta
conceção da felicidade. O consequencialismo de Mill é, por este motivo, um
consequencialismo hedonista. A esta forma de consequencialismo chama-se
utilitarismo. Mill é, portanto, utilitarista.

Outra ideia importante na ética de Mill é a de imparcialidade. Para decidir o que é


moralmente correto fazer, o agente deve ter em conta, não só o seu bem-estar, como o
de todas as outras pessoas que são afetadas pela ação. A sua felicidade não conta mais
do que a felicidade dessas outras pessoas e não deve abrir exceções, mesmo para
familiares e amigos. Quando delibera sobre o que vai fazer, o agente tem de ser
completamente imparcial. Por isso, o utilitarismo rege-se pelo princípio da
imparcialidade.

A felicidade consiste no prazer, mas nem todos os prazeres são considerados da mesma
maneira. Mill distingue dois tipos de prazeres, os inferiores e os superiores. Os prazeres
inferiores são os prazeres físicos. Os superiores são os do espírito. Sem negar os prazeres
físicos, Mill afirma que os prazeres do espírito ou os prazeres intelectuais são superiores
e qualitativamente distintos.

10. Por que razão o princípio de utilidade é superior às normas morais comuns tais
como não matar, não roubar e não mentir?
É superior porque por vezes – especialmente em casos de conflito moral – temos de
recorrer ao princípio de utilidade para resolver uma situação moral a que as normas
morais não respondem cabalmente.

Ex.: Tenho de optar entre salvar e deixar morrer. As regras morais comuns dizem-me que
não devo deixar morrer inocentes. Mas neste caso tenho de tomar uma decisão, por
mais difícil que seja.

11. O utilitarismo implica o abandono das normas morais aceites na generalidade das
sociedades?
O utilitarismo não implica necessariamente o abandono das normas morais aceites na
generalidade das sociedades. Estas normas resistiram à prova do tempo, e em muitas
situações fazemos bem em segui-las nas nossas decisões. Mas há situações em que não
respeitar uma determinada norma moral e seguir o princípio de utilidade tem melhores
consequências do que respeitá-la. O princípio de utilidade ajuda-nos a deliberar e a
tomar decisões quando as regras morais vigentes não nos permitem determinar como
agir. É o caso quando há conflitos e dilemas morais. Há quem pense, por isso, que a ética
de Mill é ao mesmo tempo um utilitarismo das regras e um utilitarismo dos atos. O
utilitarismo das regras é a ideia de que devemos agir de acordo com as regras que mais
promovem a felicidade. Ao defender a importância das normas morais comuns para a
ação, Mill está, supostamente, a abraçar esta forma de utilitarismo, porque como estas
regras passaram o teste do tempo são as que têm as melhores consequências. No
entanto, ao defender que, quando há um conflito entre normas, se deve deliberar com
base no princípio da utilidade, Mill está a defender o utilitarismo dos atos, isto é, uma
escolha com base nas consequências, de cada ato específico.

12. Na perspetiva utilitarista de Mill, há deveres morais absolutos?

O utilitarismo defende que há princípios e regras morais objetivas, como é o caso do


princípio de utilidade, válido independentemente das opiniões dos indivíduos e das
culturas, mas admite que em certas situações um dever pode ser suplantado por outro
mais importante. Assim, salvar uma vida pode exigir que se minta, se roube e mesmo
que se mate. Por isso, ao contrário do que pensava Kant, não há ações intrinsecamente
boas. Uma ação é moralmente correta ou incorreta conforme as consequências que dela
resultam numa dada situação, pelo que, para o utilitarista, não há deveres que devam
ser respeitados em todas as circunstâncias, isto é, não há deveres morais absolutos.
13. A crítica mais frequente ao utilitarismo é a de que justifica a prática de ações
imorais. Isto acontece, segundo os críticos porque o utilitarismo dá apenas importância
às consequências das ações enquanto critério para avaliarmos a moralidade das
mesmas. Para o utilitarista, na perspetiva dos seus críticos, uma pessoa pode
desrespeitar uma das regras morais básicas, como a de «não matar» ou de «não
mentir», e, ainda assim, agir moralmente, desde que essa sua ação proporcione uma
maior quantidade de felicidade a um número de pessoas maior do que as pessoas a
quem provocou dor ou sofrimento. Para dar um exemplo, na perspetiva do utilitarismo
é correto matar um indivíduo inocente se se souber que a morte desse indivíduo vai
permitir salvar a vida a outras três pessoas. Ora, é inadmissível que seja moralmente
permitido matar inocentes. Assim, segundo os seus críticos, o utilitarismo é inaceitável.

Como poderia um utilitarista responder a esta crítica?

Em primeiro lugar, um utilitarista pode objetar que esta crítica é hipócrita, porque afinal
acusa o utilitarismo de uma prática comum da sociedade. Embora exista a ideia muito
difundida de que matar pessoas inocentes é errado, a verdade é que em situações
excecionais, as pessoas e as sociedades às vezes têm do tomar decisões que conduzem
à morte de pessoas inocentes. Por exemplo, quando se manda soldados para a guerra,
o objetivo não é, obviamente matá-los, mas tal ato acabará inevitavelmente por causar
a morte de muitas pessoas que, normalmente, não são responsáveis pelo conflito e que
tinham a intenção de ocupar melhor a sua vida do que a disparar sobre outros seres
humanos. Quando um médico durante a guerra divide os seus pacientes em aqueles que
sobrevivem sem o tratamento, os que morrem mesmo que tratados e os que se tratados
sobrevivem, está a tomar decisões que, se se enganar, podem conduzir à morte de
inocentes. Quando, numa epidemia, os governos decidem, na ausência de vacinas para
todos (como aconteceu em Portugal durante a recente ameaça da gripe A), que grupos
sociais e profissionais devem levar em primeiro lugar a vacina, estão a tomar decisões
que podem conduzir à morte de muitos cidadãos inocentes. E em muitos casos, como
nestes exemplos, em nome de fazer o que tem as melhores (ou as menos más)
consequências para as pessoas envolvidas! E, no entanto, ninguém contesta que, dadas
as circunstâncias, essas são as melhores ações. Porquê, então, acusar os utilitaristas de
uma prática frequente e aceite da sociedade? Em vez de criticar o utilitarismo, o que se
deveria fazer era elogiá-lo por fornecer uma justificação racional para ações que,
intuitivamente, já sabemos serem corretas.
Mas atenção! O utilitarismo defende que é correto roubar, mentir ou matar apenas em
certas circunstâncias muito excecionais, quando as regras morais comuns pelas quais as
sociedades se regem não podem ser aplicadas. Em todos esses exemplos, as situações
são excecionais e levam a escolhas, elas também, excecionais. Mandar inocentes para a
guerra é, geralmente, a resposta encontrada para evitar, correta ou erradamente, um
mal maior. E o mesmo se passa nos exemplos do médico e dos governos. Também desta
perspetiva, a crítica parece injustificada, pois os utilitaristas limitam-se a defender o que
é prática comum em situações fora do comum.

14. Uma crítica feita ao utilitarismo é diretamente dirigida ao princípio da


imparcialidade. Este princípio exige que os interesses de todos os envolvidos nas ações
sejam considerados de modo igual. Isto significa que um utilitarista, ao decidir como
agir, deve considerar do mesmo modo os interesses de familiares, de amigos, de
vizinhos, concidadãos e estranhos que possam, por hipótese, viver do outro lado do
mundo. No entanto, é difícil agir em todas as situações sem ter em conta aquilo que a
pessoa é, porque não nos comportamos da mesma forma em relação aos nossos amigos
e familiares como em relação a estranhos. Sentimos necessariamente uma maior
afetividade pelos nossos familiares e amigos do que por estranhos, em parte porque
também a nossa responsabilidade e os nossos deveres em relação aos nossos familiares
e amigos são diferentes. Além disso, se seguíssemos em todas as nossas ações o critério
utilitarista da imparcialidade, correríamos o risco de destruir as relações pessoais que
mantemos com as pessoas de que mais gostamos.

Como poderia um utilitarista responder a esta crítica?

Pode parecer natural a exigência de que os interesses, por exemplo, dos nossos filhos
sejam considerados de modo diferente dos de estranhos, devido às fortes relações
afetivas que mantemos com eles e que são inexistentes no segundo caso. É claro que
somos seres afetivos e que as nossas afeções têm um papel importante nas nossas
relações com os outros. Essas afeções tornam difícil agir de acordo com o princípio da
imparcialidade e levam de facto a que não ajamos em algumas situações. Mas se
baseássemos a nossa conduta nas afeções, as nossas ações variariam ao sabor dessas
afeções, favorecendo uns, prejudicando outros. Retirar o princípio da imparcialidade ao
utilitarismo seria transformá-lo numa espécie de egoísmo que incorpora, para além dos
nossos interesses, os interesses daqueles que nos são próximos. Uma tal doutrina,
embora praticável e praticada por muitos, tem pouco de moral. O princípio da ação
moral tem de ser um princípio racional, sob pena da moral se tornar completamente
arbitrária. O princípio da imparcialidade parece estar de acordo com as nossas intuições
morais mais básicas. Uma pessoa que, tendo de tomar uma decisão por um grupo de
pessoas, decida de forma vantajosa para si ou para os que lhe são próximos é objeto de
crítica e não de louvor. É preciso lembrar o que o povo português pensa do suposto
favorecimento dos políticos a amigos e familiares? Uma vez mais parece haver aqui
alguma hipocrisia da parte dos críticos do utilitarismo. Criticam o utilitarismo por
defender aquilo que é, vistas bem as coisas, é o ponto de vista aceite pela generalidade
das pessoas sobre o assunto. Outra coisa, diferente, é se somos capazes de agir sempre
segundo esse princípio. Talvez não sejamos, talvez sejamos uns mais do que outros,
talvez uns muito e outros pouco. Somos seres racionais, mas também afetivos. Talvez a
nossa afetividade se sobreponha algumas vezes à nossa racionalidade. Mas isso mudará
alguma coisa relativamente à nossa obrigação, se o princípio da imparcialidade for
verdadeiro?

COMPARAÇÃO ENTRE AS DUAS PERSPETIVAS

1. Compare a ética de Kant com a ética de Mill a respeito do critério para avaliar
moralmente uma ação.

Para a ética de Kant, a moralidade ou o valor moral de uma ação depende da intenção
com que a ação é praticada. Embora Kant não as despreze completamente, as
consequências das ações não são o critério de que depende a moralidade da ação. Com
efeito, uma ação pode ter consequências boas e ainda assim não ser moralmente boa.
Kant ilustra este ponto com o exemplo do merceeiro honesto. Quer o merceeiro que é
honesto para não perder clientes (que age conforme ao dever) quer o merceeiro que é
honesto porque pensa que é essa a sua obrigação (que age por dever) fazem
exatamente a mesma ação (são honestos), com as mesmas consequências boas para os
clientes, e, no entanto, apenas a ação do segundo é moralmente boa. A ação do primeiro
é realizada por interesse, isto é, a pensar no que aconteceria se fosse desonesto. A do
segundo merceeiro não é realizada por interesse, mas por esse merceeiro ter
consciência da sua obrigação de ser honesto. O que é diferente num e noutro caso não
é a ação nem as consequências da ação, mas a intenção com que a ação é praticada.
Num caso, a intenção é incorreta e no outro é correta. Só nesse caso, isto é, quando a
ação é praticada pela intenção correta, a ação é moralmente boa. Portanto, segundo
Kant, o que determina se uma ação é moralmente boa é a intenção e uma ação só é
moralmente boa se a intenção for a de cumprir o dever pelo dever. Por esse motivo, a
ética de Kant é uma ética deontológica.

Segundo Mill, a moralidade de um ato depende das consequências ou resultados desse


ato para todas as pessoas abrangidas por ele. Para Mill, a intenção com que a ação é
praticada é irrelevante para determinar o seu valor moral. A ação pode ser praticada
com as melhores intenções e ter consequências desastrosas. Por isso, a intenção revela
mais sobre o caráter do agente do que propriamente sobre o valor moral da ação. Para
Mill, a felicidade (sob a forma de prazer e ausência de dor) deve ser o fim último da ação
moral. Por esse motivo, para que uma ação seja boa, tem que promover a felicidade. As
ações que mais promovem a felicidade, isto é, as que têm as melhores consequências,
são, portanto, as ações boas. Mill, contudo, não é um egoísta ético, isto é, não defende
que a melhor ação é que tem as melhores consequências para o agente da ação. Pensa
que os interesses de todos os envolvidos devem ser tidos em conta e de forma idêntica.
Devemos, segundo ele, guiarmo-nos, para determinar qual a ação moralmente correta,
pelo princípio da imparcialidade. Nestas condições, a ação que produz mais prazer e
menos dor é a que tem valor moral. A ética de Mill é, assim, ao contrário da de Kant,
uma ética consequencialista.

2. Compare a ética de Kant com a ética de Mill a respeito da questão de saber se os


fins justificam os meios.

Para Kant os fins nunca justificam os meios. Há ações que são moralmente erradas
quaisquer que sejam as consequências que resultem delas. Matar, roubar, mentir são
exemplos de ações que são sempre erradas por mais vantagens que resultem delas, e
temos a absoluta obrigação de não matar, não roubar e não mentir. Suponhamos, por
exemplo, que alguém pensa que a maneira de acalmar a população de uma cidade
agitada pela ocorrência de uma série de homicídios seria condenar um indigente que
apareceu a vaguear por essa cidade. Fazendo um cálculo custo-benefício, essa seria a
ação com as melhores consequências, embora o indigente claramente não fosse o
responsável pelos homicídios. Será que, neste caso, os meios se justificavam tendo em
conta o benefício, isto é, o fim em vista? Para Kant não. Por melhores que sejam, as
consequências de uma ação, se essa ação viola um imperativo categórico, é imoral
praticá-la. Seria o caso no exemplo dado. Prender o indigente seria agir de acordo com
uma máxima que não passa o teste do imperativo categórico, seja porque não pode ser
universalizada seja porque implica tratar o indigente apenas como um meio para um
fim. Numa palavra, os meios, para Kant, nunca justificam os fins, seja porque não são as
consequências que decidem da moralidade de uma ação seja porque desse modo violar-
se-iam deveres absolutos e direitos invioláveis. Para Mill, as coisas são diferentes. Não
há à partida nem direitos invioláveis nem deveres absolutos. Não há ações que seja
sempre obrigatório ou sempre errado fazer. As ações são erradas ou corretas em função
das suas consequências ou fins. Podemos, portanto, dizer que do ponto de vista de Mill
os fins justificam sempre os meios, porque é em função dos fins (consequências
esperadas) que os meios (as ações a praticar) são determinados. Isto é verdade mesmo
nos casos que a opinião comum tende a considerar imoral. Embora, em geral, seja útil
respeitar normas como «Não matar» ou «não mentir», pode haver circunstâncias em
que violar essas normas se justifique porque fazê-lo é o que produz o melhor estado de
coisas para todas as pessoas envolvidas. Quer dizer, há situações em que matar ou
mentir, sendo condição para a obtenção de certos fins, pode em certas circunstâncias
ser o correto a fazer. O exemplo do indigente dado acima pode ser uma dessas
situações. Normalmente consideramos errado prender pessoas inocentes. Para Kant,
como vimos, seria absolutamente errado fazê-lo porque há deveres absolutos. Para Mill
não há deveres absolutos, e uma análise custo-benefício pode justificar uma ação que o
senso comum tende a considerar imoral.

3. Compare a ética de Kant com a ética de Mill a respeito da questão dos deveres
absolutos, ou seja, dos deveres que é nossa obrigação cumprir sempre.

Segundo Kant, como pessoa, o ser humano tem direitos que, em circunstância alguma,
podem ser violados ou infringidos. Estes direitos implicam deveres, e estes deveres
implicam restrições. Nem tudo é permissível em nome do bem-estar geral ou da
felicidade do maior número. Se maximizar o bem-estar implica violar esses direitos, a
ação não é moralmente admissível.

Para Mill, as ações são moralmente corretas ou incorretas conforme as consequências:


se promovem imparcialmente o bem-estar, são boas. São as consequências que as
tornam boas ou más. Não há, pois, para o utilitarista, deveres que devam ser respeitados
em todas as circunstâncias. Para Mill, o dever fundamental é maximizar o bem-estar
criando um melhor estado de coisas no mundo. E, em circunstâncias especiais, o
cumprimento deste dever pode levar a ações que chocam com as nossas intuições de
senso comum. Seria esse o caso no exemplo do indigente dado na resposta à questão
anterior. Prender pessoas inocentes ou mentir pode ser chocante e perturbador, mas
não errado, se forem as consequências o que conta para decidir se uma ação tem ou
não valor moral.

Para Kant, há ações que, apesar das boas consequências previsíveis, não devem nunca
ser praticadas. Há direitos invioláveis e por isso há deveres absolutos. Para Mill, certas
ações, dadas as suas consequências, devem ser praticadas. Não há direitos invioláveis e
por isso não há deveres absolutos.

COMPARAÇÃO ENTRE AS ÉTICAS DE KANT E DE MILL

QUESTÕES RESPOSTA DE KANT RESPOSTA DE MILL

As consequências são o que mais Não. A minha ética não é Sim. A minha ética é consequencialista.
conta para decidir se uma ação é ou consequencialista.
não moralmente boa?

A intenção é o critério ou fator Sim. A minha ética considera boa a ação Não. O fator que decide se uma ação é
decisivo para avaliar se uma ação é cuja máxima exprime a intenção de boa ou não é o que dela resulta. As
moralmente boa? cumprir o dever pelo dever. A intenção de consequências são o critério decisivo da
fazer o que é devido sem mais outro moralidade de um ato. A intenção diz
motivo que não o cumprimento do dever é respeito ao caráter do agente e não à
a única coisa que torna uma ação boa. A qualidade moral da ação. Se uma ação é
moralidade consiste em cumprir o dever motivada pela vontade de obter o
pelo dever. A minha ética é deontológica. melhor resultado possível mas tem más
consequências, diremos que, apesar de o
agente ser bom, a ação não é boa.

Há ações boas em si mesmas, isto é, Sim. O valor moral de uma ação depende Não. Não podemos dizer que uma ação é
que tenham um valor intrínseco? da máxima que o agente adota, sendo boa ou má antes de olharmos para as
independente das consequências, efeitos suas consequências.
ou resultados do que fazemos.

Há deveres absolutos? Há normas Sim. Mentir, roubar e matar, por exemplo, Não, exceto o dever de promover a
morais que não devemos nunca são atos sempre errados. Há normas felicidade geral. Há situações em que não
desrespeitar? morais absolutas que proíbem o cumprir certo dever tem como
assassínio, o roubo, a mentira e que consequência um melhor estado de
devem ser incondicionalmente coisas. Há normas morais que se têm
respeitadas em todas as circunstâncias. revelado úteis para organizar a vida dos
seres humanos, mas devemos ter em
conta que nem sempre o seu
cumprimento produz bons resultados.

Qual é o princípio moral fundamental O princípio moral fundamental a respeitar O princípio moral fundamental a
que temos de respeitar para que a é o que exige que nunca trate os outros – respeitar é o princípio de utilidade. Exige
nossa ação seja moralmente boa? nem a minha pessoa – como meio ou que das nossas ações resulte a maior
instrumento útil para um certo fim. felicidade possível para o maior número
Respeitar a nossa humanidade, eis o possível de pessoas. É também
princípio incondicional. Para isso ser conhecido como princípio da maior
possível, devo agir segundo máximas que felicidade possível. A minha ética é
possam ser seguidas pelos outros, isto é, consequencialista e utilitarista.
que possam ser universalizadas.

Há valores absolutos? Sim. A dignidade da pessoa humana é um Sim. O único valor absoluto é a felicidade
valor absoluto. Nenhuma ação pode ser entendida como prazer. Todas as outras
boa se desrespeita esse valor absoluto. A coisas só têm valor se produzirem
boa vontade é a vontade de nunca violar a felicidade.
dignidade absoluta e incondicional da
pessoa humana.

Maximizar o bem-estar ou a Não. Não é obrigatório e muitas vezes não Sim. Se o valor moral das ações depende
felicidade é obrigatório? é permissível. Porquê? Porque há direitos da sua capacidade para maximizar o bem-
das pessoas que são absolutos. Os deveres estar dos agentes afetados pelas
absolutos de que falo são restrições que consequências de uma ação, então obter
impõem limites à instrumentalização dos esse resultado é obrigatório, mesmo que
indivíduos em nome do bem-estar geral. A por vezes isso implique a violação de
minha ética é deontológica porque o algum direito. A minha ética não é
respeito absoluto pelos direitos da pessoa deontológica porque não admite que
humana implica que haja deveres haja deveres absolutos que impõem
absolutos ou coisas que é absolutamente restrições ao que é possível fazer. A
proibido fazer. minha ética centra-se no bem-estar geral
que das ações pode resultar, e
maximizar esse bem-estar é a única
obrigação moral.
O que é a felicidade? É o fim ou A felicidade é um bem, mas não deve A felicidade é o objetivo fundamental
objetivo último das ações humanas? influenciar as nossas escolhas morais. O da ação moral, embora não se trate da
fim último da ação moral é o respeito pela felicidade individual nem da felicidade
pessoa humana, pelo valor absoluto que a que se traduza na redução do bem-estar
sua racionalidade lhe confere. da maioria das pessoas a quem a ação
diz respeito.

O que é o egoísmo? O egoísmo, impedindo ações O egoísmo é condenável porque impede


desinteressadas e imparciais, é o grande que se tenha em vista um fim objetivo
inimigo da moralidade. que é a maior felicidade para o maior
número possível de pessoas.
3.1.4
2. O PROBLEMA DA JUSTIÇA SOCIAL

1. Qual é o objetivo da teoria da justiça de Rawls?

O objetivo da teoria política de Rawls é o de conciliar, na medida do possível, igualdade


e liberdade.

Porquê ambas? Porque, se apenas houver liberdade, põe-se em causa a igualdade (uns
indivíduos possuirão sempre mais bens do que outros e os que possuem mais possuirão
sempre mais – a riqueza gera mais riqueza). Se apenas houver igualdade, põe-se em
causa a liberdade (limita-se a liberdade de os indivíduos possuírem mais bens do que a
quantidade de bens que possuem).

2. O que é uma sociedade justa?

É uma sociedade em que:

1. As pessoas são igualmente livres;


2. Não há desigualdades excessivas na distribuição de bens e de riqueza; e
3. A posição que cada qual ocupa no que respeita a bens e cargos mais desejados
deriva do seu mérito e empenho.

3. A posição que uma pessoa ocupa na sociedade – se é rico, se é pobre, por exemplo
‒ deve depender das suas escolhas e do seu empenho e do seu mérito. Mas não há
obstáculos que podem impedir a realização deste ideal?

Há, sem dúvida. Quando começamos a nossa vida, nem todos estamos em iguais
condições. Uns nascem em meios socioeconómicos mais favoráveis do que outros. Isto
significa que se a nossa vida social fosse uma corrida uns partiriam mais à frente do que
outros. As circunstâncias sociais e económicas em que nasci e que eventualmente me
favorecem não são mérito meu. São obra do acaso. Mas prejudicam uns e beneficiam
outros.

4. O que defende Rawls para evitar que as circunstâncias sociais impeçam que o
esforço e o mérito tenham a última palavra? Como combater as desigualdades devidas
a fatores ambientais como a posição social que detemos em virtude do nascimento?

Defende o princípio da igualdade de oportunidades. O acesso às profissões mais


valorizadas deve estar ao alcance de todos. Não é justo que, devido a uma condição
económica desfavorável, não possa estudar e realizar o projeto de ser engenheiro,
arquiteto, médico ou outras profissões socialmente mais reconhecidas. Mediante
ajustes institucionais como bolsas de estudo, o Estado deve garantir uma relativa
igualdade na «corrida» às posições sociais mais favoráveis.
Assim, procura neutralizar fatores que impedem que só o mérito, o empenho e a
responsabilidade pessoal sejam decisivos para que alguém atinja os seus objetivos no
plano social.

5. Esclareça em que consiste o princípio da igualdade de oportunidades.

O «princípio da igualdade de oportunidades» significa que cada um deve ter as


mesmas oportunidades de acesso às várias funções e posições sociais. De que
igualdade se trata? De uma igualdade semelhante à que acontece nas corridas de
atletismo. Numa corrida de 400 metros planos, as posições de saída dos atletas são
diferentes. Esta medida tem como objetivo compensar as desigualdades geradas pela
forma da pista, tornando possível a igualdade de condições de saída. Imaginemos a
seleção para postos de trabalho numa empresa. É justo que as posições mais vantajosas
e os restantes lugares sejam dados aos mais qualificados. Contudo, a igualdade de
oportunidades é mais do que isso. Exige que todos os concorrentes aos lugares tenham
tido a possibilidade de obter qualificação apropriada na escola ou em qualquer outra
instituição e não sejam discriminados pelas circunstâncias sociais (não sejam
prejudicados por fatores como o género, origem cultural ou étnica ou as condições
socioeconómicas.

6. Mas será que a igualdade de oportunidades é suficiente para que se construa uma
sociedade justa? Supondo que há efetiva igualdade de oportunidades, será que isso
resolve o problema da justiça social?
Rawls pensa que não. Porquê? Porque só é justo o resultado que decorre das escolhas
pelas quais somos responsáveis. Se estudamos pouco ou trabalhamos com pouco
empenho, não temos legitimidade para argumentar que não é justa a posição social em
que nos encontramos, dada a igualdade de oportunidades que tivemos. Não
aproveitámos as oportunidades. Mas há outro fator que pode desequilibrar. Qual? Os
dons da natureza. O que há de insuficiente na ideia de justiça social como igualdade
de oportunidades é que se esquece de que o sucesso também depende do talento
natural ou dos dons da natureza. As diferenças socioeconómicas devem derivar do
exercício da liberdade individual em condições de igualdade. Ora, o talento natural é um
dom que não decorre da liberdade de escolha. Não somos responsáveis pelos nossos
talentos naturais – grau de inteligência, aptidões musicais, físicas ‒ nem por limitações
físicas e intelectuais herdadas. Sendo assim, na corrida pelas melhores posições sociais,
o talento natural é um elemento perturbador na chegada à «meta».

7. O sucesso social de alguém favorecido pela natureza – elevado QI, força, destreza –
não é merecido no sentido em que estes dons não são adquiridos, mas oferecidos pela
natureza. Os talentos naturais não foram escolha sua. Foram dons da natureza. A este
respeito, o insucesso dos desfavorecidos pela natureza também não é merecido. Foi
obra do acaso natural e não responsabilidade sua. O que fazer para que este obstáculo
impeça uma injusta desigualdade?

A solução de Rawls é esta: os mais favorecidos têm o direito de usufruir dos bens cuja
aquisição foi favorecida pelo talento natural, desde que compensem os menos
favorecidos por desigualdades que não têm origem no mérito, ou seja, que foram
condicionadas por fatores que não são da sua responsabilidade. Por outras palavras,
posso, em virtude de dons que ninguém me pode subtrair, ganhar mais do que os outros,
ter melhor emprego e melhor estatuto social desde que isso reverta a favor dos mais
desfavorecidos. As pessoas que, em boa parte, devido ao seu talento natural, acederam
às profissões socialmente mais valorizadas e mais bem pagas não devem ser as únicas a
beneficiar com a sua situação. Ronaldo não deve ser o único a beneficiar do talento e da
capacidade que, em grande parte, deriva de a natureza ter sido generosa com ele. A
solução é proceder à redistribuição da riqueza. Os mais favorecidos pela natureza devem
contribuir – impostos ‒ para a melhoria da situação económica dos que a natureza não
beneficiou.

8. O que é o princípio da diferença?


É o princípio que responde à pergunta: «Como combater as desigualdades decorrentes
da sorte e da fortuna genética dos indivíduos?».

Os princípios da liberdade igual e da igualdade de oportunidades são insuficientes para


fundar uma sociedade justa. O princípio da diferença pretende reduzir a amplitude da
diferença de rendimentos e de bens entre indivíduos que esteja fundada na lotaria da
natureza: uns favorecidos em talentos preciosos para triunfar num mundo competitivo
e outros desfavorecidos ou pouco favorecidos nesse aspeto. O princípio da diferença
consiste em admitir na sociedade algumas desigualdades ou diferenças económicas e
sociais, desde que essas mesmas desigualdades possam também beneficiar os mais
desfavorecidos. Se a minha fortuna aumentar e os indivíduos com mais dificuldades
económicas receberem cada um em troca X euros com esta minha ação, então a ação
que possibilitou o aumento da minha fortuna será justa para Rawls. Porquê? Porque
também os mais desfavorecidos beneficiaram com esta minha ação.

9. Será que o princípio da diferença defende o igualitarismo ou a igualdade estrita?

Não. O princípio da diferença não defende o igualitarismo ou a igualdade estrita.


Estipula que os rendimentos e a riqueza devem ser igualmente distribuídos, a não ser
que a desigualdade seja vantajosa para todos os membros da sociedade. Rawls
acrescenta que deve ser vantajosa sobretudo para os menos favorecidos.

10. Vemos que, apesar de querer conciliar liberdade e igualdade, Rawls admite a
desigualdade económica. Porquê?

A desigualdade económica será vantajosa pelas seguintes razões:


1. As pessoas mais talentosas sentirão menos estímulo para trabalhar e produzir se
houver uma distribuição igualitária da riqueza.
2. Menos produção de riqueza implica menos recursos para distribuir e prestar
assistência através de taxas e impostos aos menos favorecidos.
3. As oportunidades dos que têm menos são mais amplas num sistema de distribuição
da riqueza que não é estritamente igualitário – todos a ganharem o mesmo ou
aproximadamente – porque haverá mais recursos disponíveis para que os
desfavorecidos invistam na educação e na formação profissional.

Assim, a desigualdade funciona a favor da redução das desigualdades.

11. O princípio da igual liberdade, da igualdade de oportunidades e da diferença


devem ser seguidos por uma sociedade que queira ser justa. Será que este modelo de
sociedade é, para Rawls, justo?

Sim, Rawls pensa que este modelo económico, social e político é condição necessária
para que se possa falar de sociedade justa ou de justiça social.

12. Como justifica ou defende Rawls a sua tese?

Rawls pensa que este seria o tipo de sociedade que escolheria pessoas que não
soubessem, no momento de criar uma sociedade, o seguinte:
1. O que seriam (se seriam homens ou mulheres, se pertenceriam a esta ou àquela etnia,
se seriam muito ou pouco inteligentes, dotados de muita força ou fracos, com muita
destreza e habilidade física ou não).

2. Em que meio económico-social iriam nascer (se pobres ou ricos ou pertencentes à


classe média).

3. Que profissão ou estatuto social iriam ter.

Se as pessoas se encontrassem nesta posição original e cobertas por este véu de


ignorância acerca dos seus dotes naturais, da sua condição económica e social futura,
escolheriam os princípios de justiça que Rawls apresentou.

Não iriam escolher uma sociedade em que, por exemplo, um certo grupo racial, uma
certa etnia ou um dado género fossem discriminados. Porquê? Porque, não sabendo
qual vai ser a sua condição, é razoável que queiram uma sociedade em que há liberdade
igual.

Não iriam escolher uma sociedade em que não se defende a igualdade de oportunidades
porque poderiam vir a pertencer a classes desfavorecidas no acesso às melhores
profissões.

Não iriam escolher uma sociedade em que os mais desfavorecidos quer em dotes
naturais quer em meios económicos seriam a bem dizer abandonados à sua sorte ou
ficariam dependentes da compaixão ou da boa vontade dos mais favorecidos.

Nesta situação, optaríamos por uma sociedade que assegurasse as liberdades básicas,
nos desse a oportunidade de melhorar a nossa condição social e impedisse um fosso
gigantesco entre favorecidos e desfavorecidos.

13. O que é a posição original?

A posição original é uma situação imaginária ou hipotética de total imparcialidade – as


pessoas pensam no que é justo e não simplesmente no que é pessoalmente vantajoso
– em que pessoas racionais, livres e iguais criam uma sociedade regida por princípios de
justiça. Para que tal imparcialidade se verifique, essas pessoas devem estar «cobertas»
por um «véu de ignorância».

14. O que é o véu de ignorância?


O «véu de ignorância» é o desconhecimento por parte de cada indivíduo da sua condição
social e económica no momento do estabelecimento do contrato social, no momento
em que dão origem a uma determinada forma de sociedade.

15. Qual é a vantagem do «véu da ignorância»?

Vai possibilitar que, devido ao desconhecimento da sua situação social e económica, os


indivíduos exijam uma organização da sociedade que seja dentro dos possíveis a mais
vantajosa e melhor para todos, não inferiorizando qualquer grupo de indivíduos. Neste
sentido, vão exigir que a sociedade promova os valores básicos que permitam a todos
ter uma vida aceitável, designadamente a mesma liberdade para todos e o mínimo de
desigualdades sociais e económicas.

16. O que entende Rawls pelo princípio maximin?

O princípio maximin é uma estratégia de decisão que pessoas razoáveis seguem, numa
situação de incerteza – o véu de ignorância. É a estratégia do menor mal. São preferíveis
princípios de justiça que estejam na base de uma sociedade em que o pior não será
muito mau do que uma sociedade que, por exemplo, haja muita pobreza e muita
riqueza. A sociedade preferível é aquela em que a pobreza e a riqueza sejam
moderadas. Se escolher uma sociedade em que a pobreza extrema convive com a
riqueza extrema, corro o risco de fazer parte do grupo de pessoas que serão
extremamente pobres.
OS PRINCÍPIOS DA JUSTIÇA OU DE UMA SOCIEDADE JUSTA
Princípio da igual liberdade Princípio da igualdade de oportunidades Princípio da diferença

Todos temos direito a Muitas pessoas tiveram a sorte de É injusto que muitos membros de uma
conduzir as nossas vidas de encontrar boas condições sociais e sociedade sejam impedidos, por
acordo com a nossa vontade. económicas para conquistarem um lugar fatores pelos quais não são
Mas a minha liberdade tem confortável ou de destaque na sociedade. responsáveis, de alcançar os seus
de ser compatível com a dos Outras são desfavorecidas ou pouco objetivos.
outros. É injusto que umas favorecidas por nascerem em meios O principal obstáculo é a desigualdade
pessoas tenham mais sociais e económicos que impedem o económica, ou seja, condições
liberdade do que outras. Por acesso a uma razoável ou boa posição económicas desfavoráveis.
isso, cada pessoa deve ter um social. Devemos tentar corrigir essa
máximo de liberdade que seja O princípio da igualdade de desigualdade.
compatível com idêntico grau oportunidades pretende garantir que Como? Os que tiveram sorte na lotaria
de liberdade de todos os apenas o mérito e o esforço pessoal, e natural e social e ascenderam a uma
outros. não outros fatores, são decisivos para boa posição social e económica devem
O princípio da igual liberdade alguém realizar as suas ambições no contribuir para benefício dos que não
para todos refere-se a plano social. No acesso às profissões mais foram favorecidos. Qual o meio? Os
liberdades básicas como a valorizadas, todos os cidadãos devem, à impostos que permitem indiretamente
liberdade de voto, de partida, estar em igualdade de condições. assistir e subsidiar quem precisa de
associação, de religião, de ajuda para tentar melhorar a sua
expressão, e a direitos como o condição social.
direito à integridade física, à Haverá sempre pessoas em melhor
propriedade e a um situação social do que outras, mas a
tratamento legal justo. todos deve ser dada a oportunidade de
O princípio da liberdade igual melhorar a sua vida.
ou do direito a iguais O princípio da diferença defende que a
liberdades básicas é o mais distribuição da riqueza se deve fazer
importante. A promoção da de forma igualitária, exceto se as
igualdade de oportunidades e desigualdades beneficiarem os menos
a redução da desigualdade favorecidos e lhes derem a
económica não são legítimas oportunidade de melhorar a sua
se violarem o direito à igual situação. É injusta a sociedade em que
liberdade. as vantagens dos mais favorecidos não
são benéficas para mais ninguém.
17. Explicite uma das principais críticas que se faz à teoria de Rawls.

Uma das principais críticas a Rawls é a difícil harmonização entre os princípios da igual
liberdade e da diferença. Em primeiro lugar, pode haver igual liberdade se não houver
igual riqueza? Quem mais bens possui não tem mais liberdade? Maior poder económico
não significa poder fazer mais coisas, sobretudo influenciar as decisões de quem governa
a seu favor? Se isto for verdade, o princípio de diferença, admitindo as desigualdades
económicas, restringe indevidamente o princípio de igual liberdade. Em segundo lugar,
se as pessoas têm igual liberdade de adquirir bens e riqueza, limitar a quantidade de
bens que uma pessoa pode adquirir ou receber restringe a liberdade de cada indivíduo.
Neste caso, uma correta aplicação do princípio da liberdade igual negaria o princípio de
diferença.

18. O princípio da diferença tem sido um dos aspetos da teoria de Rawls mais
criticados. Exponha essa crítica.
O princípio da diferença diz que as desigualdades de rendimento são permitidas se
beneficiarem os menos favorecidos.
Mas será isto sempre correto? Não haverá pessoas que possuem mais bens porque
trabalham e se empenham mais e outras porque optam por trabalhar menos e «gozar a
vida»? Os críticos de Rawls pensam que, antes de transferirmos recursos e bens para
melhorar a posição dos que têm menos rendimentos, devemos primeiro saber como
chegaram a essa posição menos favorecida.
Alguns poderão estar nessa posição porque estão incapacitados para trabalhar ou
porque não conseguem encontrar trabalho. Mas outros podem ter escolhido não
trabalhar ou trabalhar muito pouco. Merecem igualmente beneficiar do trabalho dos
outros?
Não será injusto que as pessoas esforçadas sejam obrigadas indiretamente a contribuir
para melhorar o nível de vida dos que, sendo capazes, são contudo preguiçosos? Será
isto correto?
Módulo III
1.1
1. O que é a lógica?
A lógica é o estudo da validade dos argumentos.
2. Que tipos de validade existem?
Há, em termos gerais, dois grandes tipos de validade: a validade dedutiva e a validade
não dedutiva.
3. O que as distingue?
A validade dedutiva de um argumento depende exclusivamente da sua forma lógica. A
validade não dedutiva não depende unicamente da forma lógica, mas também do
conteúdo e do contexto da argumentação.
4. A que tipo de argumentos estão associados estes tipos de validade?
A validade dedutiva está associada aos argumentos dedutivos. A validade não dedutiva
está associada aos argumentos não dedutivos, como é o caso dos argumentos indutivos,
por analogia, e de outros que iremos estudar.
5. O que é um argumento dedutivamente válido?
É um argumento em que a verdade das premissas – suposta, imaginada ou de facto –
implica a verdade da conclusão. Esta é uma consequência lógica daquelas.
6. Em que condições podemos considerar que um argumento não dedutivo é válido?
Um argumento não dedutivo é válido quando: 1. A verdade das premissas torna mais
provável do que improvável a verdade da conclusão e 2. A verdade das premissas é
relevante para que aceitemos a conclusão.
7. O que são argumentos?
Os argumentos são inferências em que certas proposições denominadas premissas
visam defender, apoiar ou sustentar a verdade de uma outra – a conclusão.
8. Como são constituídos os argumentos?
Os argumentos são constituídos por uma determinada ligação entre proposições.
9. O que são proposições?
As proposições são ideias ou pensamentos expressos através de frases declarativas
(atribuem, declaram ou constatam) com sentido que podem ser verdadeiras ou falsas,
isto é, que têm valor de verdade.
10. O que distingue os argumentos das proposições?
Apenas as proposições podem ser verdadeiras (ou falsas); apenas os argumentos podem
ser válidos (ou inválidos). Em lógica, é incorreto dizer que um argumento é verdadeiro
ou que uma proposição é válida.
2.1. Podemos dizer que os argumentos são verdadeiros ou falsos?

Não. Os argumentos são válidos ou inválidos, bons ou maus, fracos ou fortes, mas nunca
verdadeiros ou falsos. Falsas ou verdadeiras podem ser as premissas ou a conclusão, ou
seja, as proposições que constituem o argumento.

2.2. Em que consiste a validade de um argumento?

A validade de um argumento tem a ver com a relação entre o valor de verdade das
premissas e o valor de verdade da conclusão. Em termos gerais, a validade de um
argumento significa que as premissas sustentam e apoiam logicamente a conclusão.

2.3. Em termos gerais, de que tipos de validade podemos falar?

Há, em termos gerais, dois tipos de validade: a validade própria dos argumentos
dedutivos e a validade caraterística dos argumentos não dedutivos.

2.4. O que são argumentos dedutivos?


São argumentos cuja validade depende exclusivamente da sua forma lógica.
2.5. O que são argumentos não dedutivos?
São argumentos cuja validade não depende unicamente da sua forma lógica.
2.6. O que carateriza um argumento dedutivamente válido?
Um argumento dedutivamente válido é um argumento com a seguinte caraterística:
• Se as premissas forem verdadeiras, então a conclusão também tem de ser
verdadeira.
Por outras palavras, se, por exemplo, for verdade que todos os portugueses gostam de
cerveja e se for verdade que Miguel é português, então segue-se necessariamente das
premissas apresentadas que é verdade que Miguel gosta de cerveja.
Para avaliar a validade de um argumento dedutivo, não importa saber se as premissas
ou a conclusão são de facto verdadeiras. O que importa é saber se, supondo ou
imaginando que as premissas são verdadeiras, a conclusão pode ser considerada uma
consequência necessária das premissas.

2.7. O que é a validade dedutiva?


É a qualidade de um argumento em que é logicamente impossível as premissas serem
verdadeiras e a conclusão ser falsa.
2.8. Um argumento pode ser dedutivamente válido tendo premissas e conclusão
falsas?
Sim. Ex.: Um mês tem 365 dias.
Um ano tem 31 dias
Logo, um mês é maior do que um ano.
2.9. Um argumento dedutivo pode ser inválido tendo premissas e conclusão
verdadeiras?
Sim.
Ex.: Bocelli é um cantor.
Todos os tenores são cantores.
Logo, Bocelli é italiano.

2.10. Será que o argumento seguinte dedutivamente válido? Justifique.


Todos os portugueses são filósofos.

Barak Obama é português.

Logo, Barak Obama é filósofo.
R.: É válido. Apesar de as premissas e a conclusão serem falsas, verificamos que as
premissas implicam a conclusão, ou seja, esta segue-se daquelas. Dadas as premissas, a
conclusão só pode ser esta. Deriva necessariamente das premissas. Se assumirmos que
não há português que não seja filósofo, assumir que Barak Obama é português implica
que é filósofo.

1.2
Percurso A
1. O que é um silogismo categórico?
É um argumento dedutivo formado por três proposições que afirmam ou negam algo
sem restrições, ou seja, incondicionalmente.
2. Que termos o constituem?
O silogismo categórico é formado por três termos: maior, médio e menor.
3. O que distingue o termo médio do termo maior?
O termo médio só pode ocorrer nas premissas, ao passo que o termo maior aparece
numa das premissas e é predicado na conclusão.
4. O que distingue o termo médio do termo menor?
O termo médio só pode ocorrer nas premissas, ao passo que o termo menor aparece
numa das premissas e é sujeito na conclusão.
5. Que tipo de proposições podem surgir num silogismo categórico?
Num silogismo categórico, podem surgir quatro tipos de proposições: universais
afirmativas (A), particulares afirmativas (I), universais negativas (E) e particulares
negativas (O).
6. O que significa dizer que um termo está distribuído? O que significa dizer que não
está distribuído?
Quando um termo está tomado em toda a sua extensão, dizemos que está distribuído
ou que tem extensão universal. Quando um termo está tomado em parte da sua
extensão, dizemos que não está distribuído ou que tem extensão particular.
7. Nas proposições de tipo A, I, E e O, como estão distribuídos o sujeito e o predicado?
Numa proposição universal afirmativa, o sujeito está distribuído ou é universal, mas o
predicado é particular (não está distribuído). Numa proposição universal negativa, o
sujeito está distribuído ou é universal, e o predicado também (está distribuído). Numa
proposição particular afirmativa, o sujeito não está distribuído e o predicado também
não. Numa proposição particular negativa, o sujeito não está distribuído, mas o
predicado está.

SILOGISMO CATEGÓRICO PROPOSIÇÕES TÍPICAS DO SILOGISMO


CATEGÓRICO

PM – Todos os portugueses são


europeus.
Tipo A – Universal afirmativa.
Pm – Todos os alentejanos são
Todos os portugueses são
portugueses.
europeus.
C – Logo, todos os alentejanos são Tipo E – Universal negativa.
europeus.
Nenhum alemão é português.
Termo médio – portugueses (termo
Tipo I – Particular afirmativa.
das duas premissas).
Alguns animais são mamíferos.
Termo maior – europeus (predicado
da conclusão. Acompanha o termo Tipo O – Particular negativa.
médio na premissa maior, que lhe
Alguns animais não são mamíferos.
deve o nome).
Termo menor – alentejanos (sujeito
da conclusão. Acompanha o termo
médio na premissa menor, que lhe
deve o nome).

FORMAS VÁLIDAS DO SILOGISMO CATEGÓRICO

1.ª 2.ª 3.ª 4.ª


FIGURA FIGURA FIGURA FIGURA

AAA EAE AAI AAI

EAE AEE IAI AEE

Regras para avaliar a validade dos silogismos


Modos Válidos

AII EIO AII


categóricos IAI

1. Só se admitem três termos e usados sem ambiguidades (a infração a esta regra origina
a falácia dos EIO
quatro termos ouAOO
do equívoco). EAO EAO
2. O termo médio só deve aparecer nas premissas.
3. Os termos maior e menor não podem ter,EIO na conclusão, maior
EIO extensão do que nas
premissas. Devem estar distribuídos nas premissas se estiverem distribuídos na
conclusão, ou seja, não podem ser universais na conclusão e particulares nas premissas (a
infração da regra origina a falácia da ilícita maior
OAOou a falácia da ilícita menor).
4. O termo médio deve ter extensão universal – estar distribuído – pelo menos em uma
EAO AEO AEO
Modos

premissa (a infração da regra origina a falácia do termo médio não distribuído).


fracos

5. Premissas afirmativas
AAI pedem conclusão
EAO afirmativa. (De duas premissas afirmativas não
se pode tirar conclusão negativa.)
6. De duas premissas negativas nada se pode concluir.
7. De duas premissas particulares nada se pode concluir. (O termo médio não é universal
em nenhuma.)
8. A conclusão segue sempre a parte mais fraca: será negativa se houver uma premissa
negativa e particular se houver uma premissa particular.

DEVE DAR ESPECIAL ATENÇÃO ÀS SEGUINTES FALÁCIAS FORMAIS ASSOCIADAS AO


SILOGISMO CATEGÓRICO.

FALÁCIA DOS QUATRO FALÁCIA DA ILÍCITA FALÁCIA DA ILÍCITA FALÁCIA DO TERMO


TERMOS MAIOR MENOR MÉDIO NÃO DISTRIBUÍDO
Comete-se esta falácia Comete-se esta falácia Comete-se esta falácia Comete-se esta falácia
quando se viola a regra 4:
quando se viola a regra 1: quando se viola parte da quando se viola parte da
O termo médio deve ter
Só pode conter três termos, regra 3 referente ao termo regra 3 referente ao extensão universal pelo
e cada termo deve ter o maior: O termo maior não termo menor: O termo menos em uma premissa
(o termo médio deve estar
mesmo significado ao deve ter maior extensão na menor não deve ter maior
distribuído pelo menos
longo do argumento. conclusão do que nas extensão na conclusão do uma vez).
Exemplo desta falácia: premissas (um termo deve que nas premissas. Exemplo desta falácia:
Todos os bancos são estar distribuído nas Exemplo desta falácia: Todos os tablets são
instituições financeiras. premissas se estiver Todos os leões são seres portáteis.
vivos. Todos os telemóveis são
Algumas peças de distribuído – se for
portáteis.
mobiliário são bancos. universal – na conclusão). Alguns mamíferos não
são leões. Logo, todos os telemóveis
Logo, algumas peças de Exemplo desta falácia:
Logo, nenhum mamífero são tablets.
mobiliário são instituições Todos os cães são
é ser vivo. Explicação:
financeiras. mamíferos.
Explicação: Portáteis é predicado de
Explicação: Nenhum gato é cão.
Na premissa, mamíferos duas premissas
Banco tem dois Logo, nenhum gato é afirmativas, pelo que é
está quantificado
significados diferentes, mamífero. particular em ambas.
claramente como Devia ser universal pelo
pelo que designa dois Explicação:
particular. Alguns é um menos numa delas.
termos diferentes. Na premissa, mamíferos é
quantificador particular.
predicado de uma
afirmativa, pelo que é Na conclusão, está
particular. Na conclusão, é quantificado como
predicado de uma
negativa, pelo que é universal, tem mais
universal. Tem assim mais
extensão na conclusão do extensão na conclusão do
que na premissa.
que na premissa.

Notas importantes
1 – Dizer que um termo está distribuído é dizer que tem extensão universal.
2 – O termo médio pode ser universal nas duas premissas. O que não pode é ser particular nas
duas. Tem de ser universal – estar distribuído – pelo menos numa delas.
3 – O termo maior pode ser universal na premissa e na conclusão. Pode ser também particular
na premissa e particular na conclusão. Pode ser igualmente universal na premissa e particular
na conclusão. O que não pode é ser particular na premissa e universal na conclusão.
4 – O termo menor pode ser universal na premissa e na conclusão. Pode ser também particular
na premissa e particular na conclusão. Pode ser igualmente universal na premissa e particular
na conclusão. O que não pode é ser particular na premissa e universal na conclusão.
5 – Nas proposições do tipo E e O – universais negativas e particulares negativas –, o predicado
é sempre universal. Nas proposições do tipo A e I – universais afirmativas e particulares
afirmativas –, o predicado é sempre particular.

AS FALÁCIAS FORMAIS MAIS IMPORTANTES: AS FALÁCIAS DO TERMO MÉDIO NÃO


DISTRIBUÍDO, DA ILÍCITA MAIOR E DA ILÍCITA MENOR
TÉCNICA PARA AS DETECTAR
As falácias formais – defeitos na forma do raciocínio – mais importantes na lógica dita
aristotélica são estas:

Termo médio não distribuído Ilícita maior Ilícita menor

O termo médio não tem O termo maior tem mais O termo menor tem
extensão universal em extensão na conclusão do mais extensão na
nenhuma das premissas. que na premissa. conclusão do que na
premissa.

Considere o seguinte silogismo:

Todos os filósofos são pessoas com espírito crítico.

Algumas pessoas com espírito crítico são cientistas.

Logo, alguns cientistas são filósofos.

Perguntemos: Que falácia comete este silogismo?

Comete a falácia da ilícita maior?


Identifiquemos o termo maior. O que define o termo maior é ser o predicado da
conclusão. O termo maior é filósofos.

Vejamos qual a sua extensão quer na premissa quer na conclusão. Vemos que na
primeira premissa ‒ Todos os filósofos são pessoas com e espírito crítico – ele está
quantificado universalmente ou tem extensão universal. Está distribuído.

E na conclusão? Na conclusão ‒ Logo, alguns cientistas são filósofos ‒ tem extensão


particular. Dizer que alguns cientistas são filósofos equivale a dizer que alguns filósofos
são cientistas. Lembre-se que predicado de proposição afirmativa é, regra geral,
particular.

Assim, o termo maior – filósofos – é universal na premissa e particular na conclusão. Não


se comete portanto a falácia da ilícita maior porque o termo maior não tem mais
extensão na conclusão do que na premissa.

Um problema está resolvido. O termo maior passou no teste. Vamos assinalar esse facto
a verde.

Todos os filósofos são pessoas com espírito crítico.

Algumas pessoas com espírito crítico são cientistas.


Logo, alguns cientistas são filósofos.

Passemos a outro problema. Comete a falácia da ilícita menor?


Identifiquemos o termo menor. O que define o termo menor é ser o sujeito da
conclusão. O termo menor é cientistas.

Vejamos qual a sua extensão quer na premissa quer na conclusão. Vemos que na
segunda premissa ‒ Algumas pessoas com espírito crítico são cientistas – ele tem
extensão particular. Dizer que algumas pessoas com espírito crítico são cientistas
equivale a dizer que alguns cientistas são pessoas com espírito crítico. Lembre-se que
predicado de proposição afirmativa é, regra geral, particular.

E na conclusão? Na conclusão ‒ Logo, alguns cientistas são filósofos ‒ tem extensão


particular. O quantificador é alguns.

Assim, o termo menor – cientistas – é particular na premissa e particular na conclusão.


Não se comete portanto a falácia da ilícita menor porque o termo menor não tem mais
extensão na conclusão do que na premissa.

Mais um problema está resolvido. O termo menor passou no teste. Vamos assinalar esse
facto a verde.

Todos os filósofos são pessoas com espírito crítico.

Algumas pessoas com espírito crítico são cientistas.

Logo, alguns cientistas são filósofos.

Como se perguntou que falácia comete este silogismo, antevê-se que é a falácia do
termo médio não distribuído. É verdade, mas temos de justificar essa afirmação.

Vejamos qual a extensão do termo médio em ambas as premissas. O termo médio é


«pessoas com espírito crítico». Na premissa maior é particular porque dizer que todos
os filósofos são pessoas com espírito crítico equivale a dizer que algumas pessoas com
espírito crítico são filósofos. Lembre-se que predicado de proposição afirmativa é, regra
geral, particular.
Na premissa menor, o quantificador alguns indica-nos que o termo médio – pessoas com
espírito crítico – está quantificado particularmente, tem extensão particular.
Assim, vemos que o termo médio é particular em ambas as premissas. Ora, devia ser
universal pelo menos em uma. Este silogismo é inválido ou falacioso. O termo médio
não está distribuído ou não tem extensão universal em nenhuma premissa.
O termo médio não passou no teste. Assinalemos esse facto a vermelho.

Todos os filósofos são pessoas com espírito crítico.

Algumas pessoas com espírito crítico são cientistas.

Logo, alguns cientistas são filósofos.

O termo médio pode ser universal nas duas premissas. O que não pode é ser particular
nas duas. Tem de ser universal – estar distribuído – pelo menos em uma delas

Percurso B
LÓGICA PROPOSICIONAL
Operadores verofuncionais

Os operadores verofuncionais são operadores de formação de frases que têm a propriedade


de alterar o valor de verdade das frases que ligam, mas que não são frases. No cálculo
proposicional, destacam-se cinco operadores verofuncionais:

Designação Símbolo Uso Leitura Exemplo

Negação  P Não se dá que P. É falso que Descartes seja

empirista.

Conjunção  PQ P e Q. Descartes é racionalista e

Hume é empirista.

Disjunção  PQ P ou Q. Descartes é racionalista ou

Hume é empirista.

Condicional  PQ Se P, então Q. Se Descartes é racionalista,

então Hume é empirista.

Bicondicional  PQ P se e só se Q. Descartes é racionalista se e

só se Hume for empirista.


Negação: A negação inverte o valor de verdade de uma proposição.

Conjunção: Uma conjunção é verdadeira se e só se ambas as conjuntas são verdadeiras. É suficiente


que uma das proposições conjuntas seja falsa para que a conjunção seja falsa.
Disjunção inclusiva: Para que uma disjunção inclusiva seja verdadeira, basta que uma das suas
disjuntas seja verdadeira.

Disjunção exclusiva: A disjunção exclusiva é falsa se e só se as fórmulas que a constituem têm o


mesmo valor de verdade.

Condicional: A condicional só é falsa se e só se o antecedente for verdadeiro e o consequente falso.

Bicondicional: A bicondicional é verdadeira se e só se as fórmulas que a constituem têm o mesmo


valor de verdade.

1. O que é uma proposição?

Uma proposição é todo o enunciado que tem a propriedade de ser verdadeiro ou falso.
2. O que é uma proposição simples?

Uma proposição simples é aquela que não possui conetiva ou operador lógico, ou seja,
é a proposição que não é abrangida pela negação, conjunção, disjunção, pelo
condicional ou pelo bicondicional.
4. O que é uma proposição composta?

Uma proposição composta é a proposição que possui pelo menos uma conetiva ou
operador lógico.

5. Forme uma proposição composta com duas proposições simples.

PQ

Proposição simples: P

Proposição simples: Q

6. De que depende o valor de verdade de uma proposição composta ou complexa?

O valor de verdade de uma proposição composta, em geral, depende do valor de

verdade das proposições simples que a compõem e do conetor usado para ligar essas

proposições.

7. Atente na seguinte proposição:

(P  Q)  P
O que é preciso para a proposição ser verdadeira?

Para a proposição ser verdadeira, é suficiente que P seja verdadeiro.

Justificação: A proposição é uma conjunção. Para uma conjunção ser verdadeira, é


necessário que ambas as conjuntas sejam verdadeiras. A segunda conjunta é a
proposição simples P. A primeira conjunta é uma disjunção. Para uma disjunção ser
verdadeira, é suficiente que pelo menos uma das disjuntas seja verdadeira. Ora, uma
das disjuntas é P. Logo, é suficiente P ser verdadeira para que a disjunção seja
verdadeira. Sendo P a segunda conjunta, conclui-se que basta P ser verdadeira para a
conjunção ser verdadeira.

8. Construa três proposições compostas com pelo menos duas conetivas cada uma e
explique o que é preciso para serem verdadeiras.

1. (P  Q)  (P  Q)
Para a proposição ser verdadeira, é suficiente que P seja verdadeiro (outra hipótese
ainda era Q ser verdadeira).

Justificação: A proposição é um condicional. Um condicional apenas não é verdadeiro


quando o antecedente for verdadeiro e o consequente for falso. Nesse sentido, é
suficiente o consequente ser verdadeiro para o condicional ser verdadeiro. O
consequente da proposição condicional acima é uma disjunção. Para uma disjunção ser
verdadeira, é suficiente que pelo menos uma das disjuntas seja verdadeira. Sendo uma
das disjuntas P, é suficiente que P seja verdadeira para a disjunção ser verdadeira. Ora,
sendo a disjunção o consequente do condicional, concluímos que é suficiente P ser
verdadeira para o condicional ser verdadeiro.

2. (P  Q)  (Q  P)
Para a proposição ser verdadeira, é necessário que as proposições P e Q sejam ambas
verdadeiras (ou, então, que as proposições P e Q sejam ambas falsas).

Justificação: A proposição é uma conjunção. Para uma conjunção ser verdadeira, é


necessário que as conjuntas sejam verdadeiras. As conjuntas são condicionais. Um
condicional é verdadeiro sempre que não ocorrer o caso de o antecedente ser
verdadeiro e de o consequente ser falso. Encontrando-se na primeira conjunta o
condicional P  Q e na segunda conjunta o condicional Q  P, verificamos que as
proposições P e Q não podem possuir valores de verdade diferentes, porque, se isso
suceder, irá acontecer o caso de uma das conjuntas ser falsa, concretamente, o caso do
antecedente de um dos condicionais ser verdadeiro e o consequente ser falso. Ora, se
uma das conjuntas for falsa, a conjunção não pode ser verdadeira. Pelo contrário, se
ambas as proposições P e Q forem verdadeiras, ambas as conjuntas serão verdadeiras
e, portanto, a conjunção será igualmente verdadeira (o mesmo ocorrendo para o caso
das proposições P e Q serem falsas, porque um condicional com o antecedente falso e
o consequente falso fica verdadeiro, o que significa que ambas as conjuntas serão
verdadeiras e, portanto, a conjunção será igualmente verdadeira).

3. P  [(P  Q)  Q)]
Para a proposição ser verdadeira, é suficiente que a proposição P seja verdadeira (outro
caso possível era o de a proposição Q ser verdadeira).

Justificação: A proposição é uma disjunção. Para uma disjunção ser verdadeira, é


suficiente que uma das disjuntas seja verdadeira. Ora, uma das disjuntas é a proposição
P. Logo, é suficiente que a proposição P seja verdadeira para a disjunção ser verdadeira.

(Também existe o caso de a proposição Q ser verdadeira para a disjunção ser verdadeira.
A segunda das disjuntas é uma conjunção. Para uma conjunção ser verdadeira, é
necessário que as conjuntas sejam verdadeiras. Uma das conjuntas é Q, à qual
atribuímos o valor verdadeiro. A outra das conjuntas é o condicional P  Q. Um
condicional apenas é falso quando o antecedente for verdadeiro e o consequente for
falso. Sendo Q verdadeira, o condicional fica verdadeiro. Ora, verificamos deste modo
que, se Q for verdadeira, a conjunção fica verdadeira. Sendo a conjunção uma das
disjuntas, a disjunção fica verdadeira. Logo, é suficiente a proposição Q ser verdadeira
para a disjunção ser verdadeira.)

8. Construa a tabela de verdade da negação e interprete-a.

A A

V F

F V
A negação de uma proposição P gera a proposição P (que se lê «não P» ou «é falso que

P»). P será verdadeira se P for falsa e P será falsa se P for verdadeira. Isto significa

que a negação () altera o valor de verdade de uma proposição.

9. Apresente várias formas de exprimir negações.

É falso que Espinosa seja empirista.

Não é verdade que Espinosa seja empirista.

Espinosa não é empirista.

É um erro afirmar que Espinosa é empirista.

Se atendermos que P indica a proposição «Espinosa é empirista», todas aquelas

afirmações passam a simbolizar-se de uma mesma forma: P.

As negações de uma negação são antecedidas novamente pelo símbolo . Assim, se eu

disser «É falso que Espinosa não seja empirista», simbolizo como P.

Por sua vez, uma dupla negação de P, P, equivale a P ‘P’, porque, se a negação altera

o valor de verdade de P, a dupla negação mantém o valor de P, porque vou negar a

negação, ou seja, vou alterar o valor de verdade da negação.

10. Construa a tabela de verdade da conjunção e interprete-a.

P Q P  Q
V V V
V F F
F V F
F F F
A conjunção de duas proposições P e Q é simbolizada pela seguinte proposição
complexa P  Q (que se lê «P e Q»). Esta proposição complexa P  Q apenas será
verdadeira se ambas as conjuntas P e Q forem verdadeiras.
11. Apresente várias formas de exprimir conjunções.

Ana saiu, mas Pedro ficou.

Ana saiu, apesar de Pedro ter ficado.

Ana saiu e Pedro ficou.

Ana saiu quando Pedro ficou.

Ana saiu, embora Pedro tenha ficado.

12. Construa a tabela de verdade da disjunção inclusiva e interprete-a.

P Q P  Q

V V V
V F V
F V V
F F F
A disjunção inclusiva de duas proposições, P e Q, expressa-se pela

seguinte proposição P  Q (que se lê «P ou Q»). A disjunção inclusiva, P  Q, é verdadeira

quando pelo menos uma das frases disjuntas for verdadeira, quando P ou Q for

verdadeira.

Podem constatar-se os quatro casos ou circunstâncias possíveis que dão conta das várias

combinações de valor de verdade possíveis para as proposições A e B.

Verificamos que apenas no caso em que as disjuntas são falsas a disjunção inclusiva é

falsa. Assim:

A disjunção inclusiva apenas é falsa quando ambas as frases disjuntas forem falsas.

Ou então:

É suficiente uma disjunta ser verdadeira para que a disjunção inclusiva seja verdadeira.

A disjunção inclusiva encontra-se em afirmações como:


Aceitam-se candidaturas de engenheiros ou de arquitetos.

O que verificamos a partir desta afirmação? Que a afirmação apenas será falsa se a

empresa decidir que já não aceita candidaturas de engenheiros e de arquitetos. Desde

que qualquer uma das possibilidades P «Aceitam-se candidaturas de engenheiros» ou Q

«Aceitam-se candidaturas de arquitetos» seja verdadeira (ou as duas sejam

verdadeiras), a proposição disjuntiva (inclusiva) P  Q será verdadeira. Se um indivíduo

se candidatar a essa empresa com os cursos de Engenharia e Arquitetura, a sua

candidatura será igualmente aceite.

Verificamos assim que, na disjunção inclusiva P  Q, a verdade de uma das disjuntas não

exclui a outra disjunta. A verdade de P não exclui a verdade de Q e a verdade de Q não

exclui a verdade de P. Esta irá ser uma caraterística que vai distinguir a disjunção

inclusiva da disjunção exclusiva.

Concluímos deste modo que a disjunção inclusiva «A ou B» é verdadeira, desde que pelo

menos uma das disjuntas seja verdadeira.

Na disjunção exclusiva, constatamos algo de diferente. Agora as disjuntas não podem

ser ambas verdadeiras. Por exemplo, atenta na seguinte proposição disjunta exclusiva:

Quatro é par ou ímpar.

O que concluímos da proposição? Que as proposições P «Quatro é par» e Q «Quatro é

ímpar» não podem ambas ser simultaneamente verdadeiras. Ou P é verdadeira ou Q é

verdadeira.

Portanto, a disjunção exclusiva já não terá a forma P  Q, mas sim a forma (P  Q), e é

falso que (P  Q), simbolizando-se (P  Q)  (P  Q).


13. Construa a tabela de verdade do condicional e interprete-a.

P Q P  Q
V V V
V F F
F V V
F F V

O operador condicional coneta duas proposições, a A, denominada antecedente, e a B,

denominada consequente, simbolizando-se como A  B (que se lê «Se A, então B»).

Analisando a tabela, verificamos que o condicional apenas é falso quando o antecedente

for verdadeiro e o consequente for falso.

Assim:

O operador condicional só é falso quando o antecedente for verdadeiro e o consequente

for falso.

A leitura de um condicional é sempre de P para Q, do antecedente para o consequente.

Ao afirmar que P é verdadeira, obrigo-me a afirmar que Q é igualmente verdadeira. Por

exemplo, se digo «Se é sardinha, então é peixe» e verificar que, se o antecedente «é

sardinha» for verdadeiro, o consequente «é peixe» será igualmente verdadeira.

Mas já não é a mesma coisa que afirmar «Se é peixe, então é sardinha», porque, se o

antecedente «é peixe» for verdadeiro, o consequente «é sardinha» pode ser falso.

Na relação entre P e Q, neste caso, entre o antecedente P e o consequente Q, P e Q

desempenham funções diferentes no condicional P  Q:

P é condição suficiente de Q: ser sardinha é condição suficiente de ser peixe.

Q é condição necessária de P: ser peixe é condição necessária de ser sardinha.


14. Apresente várias formas de exprimir condicionais.

Fico, se também ficares.

Quando ficares, ficarei.

Fico, na condição de ficares.

Se ficares, fico.

No caso de ficares, ficarei também.

Todas estas afirmações simbolizam-se da mesma forma, P  Q, sendo «P: ficas» e «Q: fico»,

traduzindo-se assim por «Se ficas, então fico». Se reparar, o consequente surge em primeiro

lugar nas afirmações. No entanto, a leitura apropriada do condicional é sempre do antecedente

para o consequente. Para não se enganar, uma boa maneira de simbolizar sempre corretamente

um condicional é a de perceber que uma das proposições está dependente da outra,

designadamente o consequente está dependente do antecedente.

15. Construa a tabela de verdade do bicondicional e interprete-a.

P Q P ↔ Q
V V V
V F F
F V F
F F V

O operador bicondicional coneta duas proposições P e Q da seguinte maneira: «P se e só se

Q».

Pela análise da tabela, podemos constatar que o bicondicional apenas é verdadeiro quando A e

B tiverem o mesmo valor de verdade. A bicondicional pode ser considerada a abreviatura da

conjunção de dois condicionais, «(Se A, então B) e (Se B, então A)», a qual se usa para as

situações em que «A» e «B» são simultaneamente a condição necessária e suficiente uma da

outra. Se disser por exemplo que:

X é par se e só se X é divisível por 2.


Verifico que a proposição «X é par se e só se X é divisível por 2» faz utilização do bicondicional

e que simultaneamente a proposição A: «X é par» e a proposição B: «X é divisível por 2» são a

condição necessária e suficiente uma da outra, podendo permutar-se sem que haja alteração

do valor de verdade da proposição. Neste aspeto, o bicondicional torna-se útil para determinar

equivalências.

II

Simbolização de proposições complexas

1. Se é falso que a Mona Lisa é bela, então a arte não precisa de beleza.
Seguimos os seguintes passos:
1. Identificamos as proposições simples:
P: A Mona Lisa é bela.
Q: A arte precisa de beleza.
2. Apresentamos uma simbolização parcial:
Se (não P), então (não Q).
Mas como a negação só se aplica à proposição que se lhe segue e tem precedência sobre
os outros operadores, omitimos os parênteses e escrevemos apenas:
Se não P, então não Q.
3. Simbolizamos:
¬P Q

2. É falso que, se a Mona Lisa é bela, então a arte não precisa da beleza.
É falso que (se P, então não Q).
¬ (P ¬Q)
Compare as simbolizações 1. e 2. A primeira é uma condicional e a segunda uma
negação, sendo a diferença dada pela posição das expressões «se» e «é falso que» nas
proposições originais.

3. É falso que, se a que a Mona Lisa não é bela, então a arte não precisa da beleza.
É falso que (se não P, então não Q).
¬ (¬P ¬Q)
4. Caso a pena de morte seja aceitável, os tribunais não erram ou é aceitável executar
inocentes.
A paráfrase do enunciado deve expor os operadores na sua leitura canónica:
Se a pena de morte é aceitável, então os tribunais não erram ou é aceitável condenar
inocentes.
P: A pena de morte é aceitável.
Q: Os tribunais erram.
R.: É aceitável condenar inocentes.
Se P, então (¬Q ou R).
P (¬Q  R)

5. A pena de morte é aceitável, a menos que os tribunais errem ou que não aceitemos
executar inocentes.
P: A pena de morte é aceitável.
Q: Os tribunais erram.
R: É aceitável executar inocentes.
Uma primeira simbolização parcial «P a menos que (Q ou não R)» não dispensa a
paráfrase. Como «…a menos que…» significa «… se não suceder que…» ou «… exceto
se…», obtemos:
A pena de morte é aceitável, se não se der que ou os tribunais errem ou que não
aceitemos condenar inocentes.
Note que o primeiro «ou» foi inserido para evitar a leitura errada «(P, se não Q) ou não
R» e tornar clara a leitura correta «P se não (Q ou não R)». Com o mesmo objetivo,
também se poderia escrever: «P se for falso o seguinte (Q ou não R)». Falta enunciar o
antecedente e o consequente na sua ordem canónica:
Se for falso que ou os tribunais errem ou que não aceitemos a pena de morte, então a
pena de morte é aceitável.
Se não (Q ou não R), então P.
¬(Q ¬R) P

6. A pena de morte é aceitável apenas aceitando a execução de inocentes.


Aceitar a execução de inocentes é condição necessária para aceitar a pena de morte.
Ou:
Se aceitamos a pena de morte, então aceitamos a execução de inocentes.
Se P, então R.
PR

7. Construa o dicionário e simbolize a seguinte proposição:

Sem igualdade económica, não há paz social, e, não havendo esta, o Estado periga.

Traduzindo a proposição na sua forma modelo, fica:

Se não há igualdade económica, então não há paz social, e, se não há paz social, então
o Estado periga.

P: «Há igualdade económica.»

Q: «Há paz social.»

R.: «O Estado periga.»

Simbolização da proposição: (P  Q)  (Q  R)

8. Construa o dicionário e simbolize a seguinte proposição:

Sem paz social ou segurança, o Estado periga.

Traduzindo a proposição na sua forma modelo, fica:

Se não há paz social ou se não há segurança, então o Estado periga.

P: «Há paz social.»

Q: «Há segurança.»

R: «O Estado periga.»

Simbolização da proposição: (P  Q)  R

9. Construa o dicionário e simbolize a seguinte proposição:

Um Estado é legítimo, se for legitimado pelos cidadãos ou por algum fundamento


superior aos cidadãos.

Traduzindo a proposição na sua forma modelo, fica:


Se um Estado for legitimado pelos cidadãos ou se um Estado for legitimado por algum
fundamento superior aos cidadãos, então um Estado é legítimo.

P: «O Estado é legitimado pelos cidadãos.»


Q: «O Estado é legitimado por um fundamento superior aos cidadãos.»
R: «O Estado é legítimo.»
Simbolização da proposição: (P  Q)  R

10. Traduza simbolicamente a seguinte afirmação: Não é verdade que os touros sofram
e que as touradas não sejam condenáveis.

P: Os touros sofrem.

Q: As touradas são condenáveis.

 (P  Q)

Esta mesma proposição pode ainda ser simplificada para o seguinte modo:

P V Q

PQ

11. Traduza simbolicamente a seguinte afirmação: Se a alma não é material, então


não pode causar acontecimentos corporais e não tem relação com o corpo.

P: A alma é material.

Q: A alma pode causar acontecimentos corporais.

R.: A alma tem relação com o corpo.

P  (Q  R)

III

Tabelas de verdade

1. Calcule, mediante tabelas de verdade, os valores que as seguintes proposições


assumem em cada circunstância ou caso possível:

1.1. P  (Q  P)
P Q P  (Q  P)

V V V F V F F

V F V F F F F

F V F F V V V

F F F F F F V

1.2.P  (Q  Q)
P Q P  (Q  Q)

V V F F V F F

V F F F F F V

F V V V V F F

F F V V F F V

1.3.P  (Q  Q)
P Q P  (Q  Q)

V V F F V V F

V F F F F V V

F V V V V V F

F F V V F V V

1.4. P  (Q  P)


P Q P  (Q  P)

V V V V F F F

V F V V V F F

F V F F F F V
F F F V V V V

1.5. (P  Q)  P
P Q (P  Q)  P

V V V V V V V

V F V F F V V

F V F F V V F

F F F F F V F

1.6. (P  Q)  (P  Q)


P Q  (P  Q)  (P  Q)

V V F F V V V V F F

V F V F F F V V V V

F V F V V V V F F F

F F F V V F V F F V

1.7. (P  Q)  [P  (Q  Q)]


P Q (P  Q)  [P  (Q  Q)]

V V V V V V F V V V F

V F V V F V F V F V V

F V F V V V V V V V F

F F F F F V V V F V V
IV
Argumentos válidos e inválidos
1. O que é um argumento válido?

Um argumento válido é aquele onde se verifica a impossibilidade de as premissas serem


verdadeiras e a conclusão falsa (ou então é aquele em que as premissas implicam a
conclusão). Não deve esquecer dois pontos sobre o argumento válido: se tem premissas
verdadeiras, não pode ter conclusão falsa; se tem conclusão falsa, então pelo menos
uma das premissas é falsa.
Todas as restantes combinações de argumento válido ou inválido e de verdade e
falsidade das premissas e da conclusão são possíveis.

2. Dê um exemplo de um argumento válido.

Exemplo de um argumento válido:

Se somos livres, podemos fazer tudo aquilo que queremos.

Somos livres.

 Podemos fazer tudo aquilo que queremos.

3. O que quer dizer uma proposição implicar a outra?

Uma proposição implica a outra quando não se der o caso de a primeira proposição ser
verdadeira e de a segunda proposição ser falsa.

4. Mostre que o seguinte argumento é inválido e que falácia comete.


Se o golfinho é um mamífero, então o golfinho não é um inseto.
O golfinho não é um inseto.
Logo, o golfinho é um mamífero.

Sendo P: O golfinho é um mamífero e Q: O golfinho é um inseto, o argumento simboliza-


se assim: P¬Q, ¬Q |= ¬P.
O inspetor mostra que o argumento não é válido porque há um caso, o quarto, em que
as premissas são verdadeiras e a conclusão falsa. Não sendo válido, não pode ser sólido.
O facto de a sua conclusão «Os golfinhos são mamíferos» ser verdadeira é irrelevante
— o inspetor prova que ela é verdadeira por acaso e não por ter sido implicada pelas
premissas.

P Q P ¬Q ¬Q |= P

V V F F F V

V F V V V V

F V V F F F

F F V V V F

Comete-se a falácia da afirmação do consequente. Pode provar que a pessoa que usou
tal argumento fez um mau raciocínio apresentando um contraexemplo. Um
contraexemplo é um argumento que se simboliza da mesma maneira que o argumento
que se quer refutar, mas que tem premissas obviamente verdadeiras e conclusão
obviamente falsa. O objetivo é tornar claro que aquela é uma má forma de raciocínio
porque nos pode conduzir de verdades a falsidades. Eis um contra exemplo:

Se a baleia for molusco, então não é um inseto.


A baleia não é um inseto.
Logo, a baleia é um molusco.

2.1
1- Distinção entre discurso argumentativo e demonstrativo.
Argumentar é fornecer argumentos, ou seja, razões a favor ou contra uma
determinada tese.
A prova demonstrativa diz respeito à verdade de uma conclusão ou, pelo
menos, à sua relação necessária com as premissas.
Enquanto um sistema dedutivo se apresenta como isolado de todo o contexto,
uma argumentação é necessariamente situada.
Demonstração Argumentação

Visa mostrar a relação necessária entre Visa provocar a adesão do auditório;


a conclusão e as premissas;

É do domínio da evidência, da É do domínio do verosímil, do plausível,


necessidade, do constringente; do preferível, do provável;

Caracteriza-se pela univocidade própria Caracteriza-se pela equivocidade


da lógica e das suas regras; própria da linguagem natural;

Permite uma pluralidade de


Permite uma única interpretação pela interpretações pela riquea da linguagem
pobreza da linguagem formal; natural;

Apresenta razões a favor ou contra uma


Reduz-se a um cálculo lógico-formal; determinada tese;

É independente da matéria ou É dependente da matéria ou conteúdo;


conteúdo;
É impessoal ao nível da prova: a É pessoal, pois dirige-se a indivíduos em
validade não depende em nada da relação aos quais se esforça por obter
opinião; adesão;

É isolada de todo o contexto; É contextualizada;

É dominada pela autoridade lógica; É dominada pela intersubjetividade;

É independente do orador e do É dependente do orador e do auditório.


auditório.

Demonstração (Exemplos) Argumentação (Exemplos)

Ou o ser humano é totalmente livre, ou


Se 2+2=4, então 4-2=. é totalmente determinado.
Ora, 2+2=4. O ser humano não é totalmente livre.
Logo, 4-2=2. Logo, é totalmente determinado.

Ou o triângulo tem três ângulos, ou o Se Deus existe, a alma humana é


triângulo não tem três ângulos. imortal.
Ora, não é verdade que o triângulo não Ora Deus existe.
tem três ângulos. Logo, a alma humana é imortal.
Logo o triângulo tem três ângulos.
2- Relação entre convencer e persuadir.
O conceito de persuadir, está relacionado com o convencer, no entanto, o
discurso persuasivo não obedece a critérios de transparência e reciprocidade. Isto é,
tem como objetivo induzir ou levar os interlocutores a acreditar em alguma coisa ou a
fazer alguma coisa. Trata-se do ato de manipular símbolos para provocar mudança nos
comportamentos, daqueles que interpretam esses símbolos. Os três elementos
principais da persuasão são:
 A intenção consciente por parte do emissor para manipular o(s) recetor(s).
 Transmissão de uma determinada mensagem.
 Influência nas atitudes e comportamentos. Ex.: Discurso político e publicitário.
Deste modo, persuadir é o objetivo do discurso dirigido a um auditório
particular enquanto que o convencer é o objetivo do discurso dirigido a um auditório
universal. Assim, persuade-se um auditório particular, tendo em conta a sua
especialidade afetiva, valorativa, etc.; e convence-se um auditório universal a partir de
argumentos racionais que são universalizáveis.

3- Relacionar Ethos, Pathos e Logos.


No contexto da retórica, o Ethos refere-se ao caráter do orador, que se for
considerado uma pessoa íntegra, honesta e responsável, conquista mais facilmente a
confiança do público. Quando o público pressupõe que o orador é uma pessoa leal,
séria e credível, está mais predisposto a aceitar o que é dito. É uma técnica retórica
que não tem obrigatoriamente a ver com a forma de ser real da pessoa.
O Pathos significa paixão, sofrimento, ser afetado. Na retórica, pathos refere-se
às emoções despertadas no auditório, que constituem um elemento determinado na
receção da mensagem. Dado que a reação do público é diferente conforme passa os
estados de calma ou ira, alegria ou tristeza, amor ou ódio, piedade ou irritação, o
orador deve desenvolver a técnica de despertar sentimentos.
Neste contexto, refere-se àquilo que é dito, ao discurso argumentativo, isto é,
aos argumentos que o orador utiliza na defesa das suas opiniões. É esta a dimensão
que Aristóteles mais desenvolve evidenciando as principais técnicas a ter em conta na
retórica.
Estes tipos de provas tem todos o mesmo objetivo: Influenciar e convencer o
ouvinte, por isso mesmo, podemos dizer que estão todas relacionadas.

2.2
Principais tipos de argumentos: indução , analogia , autoridade.
É um silogismo ao qual falta uma das premissas, geralmente a menor, ou então
as duas. Por vezes, falta a conclusão. Trata-se, portanto, de um argumento incompleto:
Parte dele fica subentendida, muitas vezes porque se admite que essas posições são
do conhecimento do auditório.
Ex: Sou homem. Logo sou mortal. (Falta a premissa maior: Todo o homem é
mortal.)
Todo o texto é subversivo. Logo, todo o poema é subversivo. (Falta a premissa
menor. Todo o poema é um texto.)
Todos os homens voam. João é um homem. (Falta a conclusão: João voa).
Indução
O raciocínio indutivo pode ser divido em dois tipos: a generalização e a
previsão. A indução como generalização consiste num argumento cuja conclusão é
mais geral que as premissas, e cuja validade não advém da sua forma lógica, mas sim
do seu conteúdo. Assim, uma generalização é válida se cumprir 2 requisitos:
- Se partir de casos particulares representativos;
- Se não existirem contraexemplos.
Ex: Algumas galinhas têm penas, Logo todas as galinhas têm penas.
Ex: Os alunos da minha escola gostam de praticar desporto, logo todos os
alunos do meu país gostam de praticar desporto.
Ao nível da indução, podemos falar ainda da previsão. A indução como previsão pode
ser definida como argumento que baseando-se em casos passados antevê casos não
observados presentes ou futuros. A sua validade está dependente da probabilidade de
a conclusão corresponder ou não à realidade. Este é o tipo de argumento usado pelas
ciências.
Ex: Todos os corpos que observámos hoje são atraídos pelo respetivo centro de
gravidade. Por conseguinte, todos os corpos que doravante observamos serão atraídos
pelo respetivo centro de gravidade.
Trata-se de uma previsão válida, na medida em que é provável que a conclusão
corresponda realidade.

Analogia
Consiste, partindo de certas semelhanças ou relações entre dois objetos ou
duas realidades em encontrar novas semelhanças ou relações.
Ex: As casas bonitas e bem construídas têm de ter criadores: autores e
construtores inteligentes.
O mundo é como uma casa bonita e bem construída.
Logo, o mundo tem também de ter um criador: um autor e arquiteto – Deus.

Autoridade
Embora seja a maior parte das vezes falacioso, sobretudo em filosofia, pode ser
definido do seguinte modo: é o argumento que se apoia na opinião de um especialista
para fazer valer a sua conclusão. Para o argumento ser válido deve cumprir quatro
requisitos:
 O especialista usado deve ser um perito no tema em questão;
 Não pode existir controvérsia entre especialistas do tema em questão;
 O especialista invocado não pode ter interesses pessoais no tema em causa;
 O argumento não pode ser mais fraco do que outro argumento contrário.
Ex: Newton disse que dois corpos se atraem na razão direta das suas massas e
na razão inversa do quadrado da distância entre eles. Logo, dois corpos atraem-se na
razão direta das suas massas e na razão inversa do quadrado da distância entre eles.
Silogismo
É um raciocínio formado por 3 proposições, de tal maneira, que sendo dadas as
duas primeiras (as premissas), se segue necessariamente a terceira (a conclusão).
2.2.2. Falacias informais: Petição de principio, falso dilema, apelo á
ignorência, ad hominem, derrapagem (ou bola de neve) e boneco
de palha.

Petição de principio ou Raciocínio circular: argumentos em que a conclusão

já esta contida nas premissas.

Ex:

O Ópio faz dormir porque tem propriedades dormitivas.

Falso dilema: É dado um número limite de opções quando de facto há mais.

Ex:

Se ela não é má e porque é boa pessoa.

Maria: Eu não sei o que se passa. Há muito tempo que são só problemas e

ele anda tão esquisito. Estou farta de sofrer o que achas que devo fazer?

Sofia: Ou te separas ou então tens de aguentar.

Ad igorantiam ou de apelo à ignorância: Ocorre quando confundimos as

coisas e pensamos que a inexistência da prova é prova de inexistência ou se

defende que determinada afirmação é verdadeira porque não há provas do

contrário.

Ex:

Nunca ninguém conseguiu provar que os fantasmas não existem. Por isso

eles existem.

Ad hominem ou ataque ao homem: É o tipo de argumento que pretende

mostrar que uma afirmação é falsa, atacando e desacreditando a pessoa que

a emite.

Ex:

Não discuto com pessoas como tu.

2. Derrapagem (ou bola de neve)

«Para mostrar que uma proposição, P, é inaceitável, extraiem-se


consequências inaceitáveis de P e consequências das consequências...
O argumento é falacioso quando pelo menos um dos seus passos é
falso ou duvidoso. Mas a falsidade de uma ou mais premissas é
ocultada pelos vários passos "se... então..." que constituem o todo do
argumento.

Exemplos:

 Se aprovamos leis contra as armas automáticas, não demorará


muito até aprovarmos leis contra todas as armas, e então
começaremos a restringir todos os nossos direitos. Acabaremos
por viver num estado totalitário. Portanto não devemos banir as
armas automáticas.
 Nunca deves jogar. Uma vez que comeces a jogar verás que é
difícil deixar o jogo. Em breve estarás a deixar todo o teu
dinheiro no jogo e, inclusivamente, pode acontecer que te vires
para o crime para suportar as tuas despesas e pagar as dívidas.
 Se eu abrir uma exceção para ti, terei de abrir exceções para
todos.

Prova: Identifique a proposição, P, que está a ser refutada e


identifique o evento final, Q, da série de eventos. Depois mostre que
este evento final, Q, não tem de ocorrer como consequência de P.»

3. Espantalho (ou boneco de palha)

«O argumentador, em vez de atacar o melhor argumento do


seu opositor, ataca um argumento diferente, mais fraco ou
tendenciosamente interpretado. Infelizmente é uma das
"técnicas" de argumentação mais usadas.

Exemplos:

1. As pessoas que querem legalizar o aborto, querem


prevenção irresponsável da gravidez. Mas nós queremos
uma sexualidade responsável. Logo, o aborto não deve
ser legalizado.
2. Devemos manter o recrutamento obrigatório. As pessoas
não querem o fazer o serviço militar porque não lhes
convém. Mas devem reconhecer que há coisas mais
importantes do que a conveniência.

Prova: Mostre que o argumento oposto foi mal representado,


mostrando que os opositores têm argumentos mais fortes.
Descreva um argumento mais forte.»