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Nós & os Laços

Manual técnico do projecto


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1ª Parte – Educação parental

1. Definição de família

2. Importância de definir/ conhecer/ caracterizar a família para a


Formação Parental.

3. O sistema Familiar e os seus Sub-sistemas.

4. A família e as suas Fronteiras/relação com o exterior.

5. Funções da Família.

6. A Estrutura da família: Eixo Sincrónico e Eixo Diacrónico.

7. Ciclo Vital da Família.

8. Factores de Stress, Factores de Risco, Acontecimentos Inesperados.

9. Compreender a família e delinear um plano de Formação Parental.

10. Evolução e transformações da/ na educação familiar: SÍNTESE.

11. Educação parental: o que é e para que serve?

12. Treino parental ou formação parental?

13. Objectivos gerais das intervenções de formação/ educação parental.

14. A definição de educação parental e as implicações na forma de

intervenção.

15. Contextos de aplicação.

16. A importância e necessidade da formação parental – reflexão.

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2ª Parte: o nosso Projecto: Nós & os Laços
1. Projecto nós & os laços

2. Caracterização do público-alvo e abrangência

3. Acções desenvolvidas ao longo do Projecto

4. Metodologias

5. Resultados e produtos

6. Conclusão

7. Anexos

Bibliografia

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A família constitui o primeiro lugar de toda e qualquer
educação e assegura, por isso, a ligação entre o
afectivo e o cognitivo, assim como a transmissão dos
valores e das normas (Delors, J. & Alii, 1996, p. 111)

1-Definição de família
Antes de avançarmos para a definição de ciclo vital e dos tipos de famílias, temos de
deter a nossa atenção sobre as (s) definições de Família e a sua importância para o
desenvolvimento individual dos seus membros.

Família é um sistema, um conjunto de elementos


ligados por um conjunto de relações, em contínua
relação com o exterior, que mantém o seu equilíbrio
ao longo de um processo de desenvolvimento através
de estádios de evolução diversificados. (Sampaio,
1985, 11-12)

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A família é a unidade institucional básica da sociedade
primariamente responsável pelas

funções de desenvolvimento, educação e socialização


que envolvem necessidades físicas, suporte emocional,
oportunidades de aprendizagem, orientação moral,
desenvolvimento da resiliência e auto-estima de uma
criança (Relvas, 1996).

Sintetizando,

Espaço/
tempo
Laços
Regras
afecto

Comunicação
Família partilha
Valores

Ao depararmo-nos com a definição de família e se pensarmos no nosso


contexto actual somos levados a concluir que não podemos falar de família,
mas de famílias sendo que os conceitos de diversidade e multiplicidade estão
subjacentes á própria definição de família.

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Não podemos descurar que não podemos falar de normalidade de
famílias, pois o conceito de “normal” tem diversos sentidos que aludem para o
assintomático, o ideal e para a média, isto é, o típico e portanto, dependente da
conjuntura social. Por esta pluralidade de significados, que estão imbuídos de
subjectividade, não podemos falar de normalidade nas famílias, ou famílias
“normais”. Podemos sim falar de processos desenvolvimentais normativos nas
famílias.

2-Importância de definir/ conhecer/


caracterizar a família para a Formação Parental
È importante perceber os processos desenvolvimentais, o ciclo vital da
família, as principais tipologias de famílias definidos através dos seus padrões
comunicacionais e relacionais, as suas tarefas para podermos Compreender
as famílias, Avaliar e Identificar factores de rico e eventuais dificuldades e
disfuncionalidade para Intervir.

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No caso específico da Formação Parental, é necessário conhecer a família,
para poder intervir de forma colaborativa e co-responsabilizadora.

3- O sistema Familiar e os seus Sub-sistemas

A família é um sistema e contém em si mesma vários subsistemas, pelo


que dizemos que existe uma Hierarquia Sistémica. Estes subsistemas definem
os Limites, fundamentais para o desenvolvimento da família e dos indivíduos,
quer as Funções que competem a cada um.

Individual

Conjugal
Parental
Filial
Fraternal

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 O Sub-sistema Individual é constituído pelo indivíduo que, para além
do seu envolvimento no seio do sistema familiar, desempenha,
também, funções e papéis noutros sistemas. Esta dupla pertença cria-
lhe um dinamismo que se transmite, naturalmente, no seu
desenvolvimento pessoal e na forma como ele está em cada um desses
contextos.

 O Sub-sistema Conjugal é constituído pelo casal.


A formação do casal implica alguma perda em individualidade
(pressupõe a interdependência dos participantes) e um ganho em
sentimento de pertença, complementaridade, cooperação, simbiose,
reciprocidade e competição, o que não significa perda de respeito pelo
outro ou pelas suas opiniões.

 O Sub-sistema Parental, habitualmente constituído pelo pai e pela


mãe, tem como funções essenciais o apoio ao desenvolvimento e
crescimento das crianças com vista à sua socialização e
autonomia/individuação, o que implica que possua a capacidade tripla
de nutrir, guiar e controlar. Nutrir fornecendo as condições materiais,
físicas, psíquicas e sociais para o crescimento, mas também guiar e
controlar, o que pressupõe impor limites, orientar, proibir, definir
regras e exigir a sua aplicação, podendo assim ser encarado como o
subsistema executivo da família (Minuchin, 1979).

 O Sub-sistema Fraternal é constituído pelas


relações intensas e duradouras entre irmãos, que
jamais se anulam, e tem funções específicas no que
diz respeito ao "treino" de relações entre iguais. Dito
simplesmente, os irmãos são agentes socializadores (estabelecem o
contexto para o desenvolvimento social).

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4- A família e as suas Fronteiras/relação com o
exterior
A família relaciona-se também com o exterior, com a comunidade, pelo
que a esta relação e a forma como a mesma se constrói define as fronteiras
da família.

Família

Escola Sociedade

Assim podemos então dizer que podemos caracterizar uma família


relativamente às suas fronteiras e limites.

As Fronteiras (sistema/família) e (comunidade/escola/outros), são auto-


reguladas pelas necessidades e características das famílias e podem ser:

Abertas
Movimentos centrífugos (A família e os seus membros movem-se de dentro
para fora, abrindo-se ao exterior)

Fechadas
Movimentos centrípetos (A família fecha-se sobre si mesma)

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5- Funções da Família
A família tem na sua génese duas funções cruciais: Interna e Externa

“A família tem como funções primordiais o


desenvolvimento e a protecção dos seus membros (função
interna) e a sua socialização, adequação e transmissão de
determinada cultura (função externa) (Minuchin, 1979). Dentro
deste prisma, "a família terá que resolver com sucesso duas
tarefas, também elas essenciais: a criação de um sentimento de
pertença ao grupo e individuação/autonomização dos seus
elementos" (Relvas, 1996:17). A família contribui para o
desenvolvimento e segurança dos seus elementos de várias
formas: satisfazendo as suas necessidades mais elementares
protegendo-os contra os ataques do exterior; facilitando um
desenvolvimento coerente e estável; favorecendo um clima de
pertença, muito dependente do modo como são aceites na
família. É também na família que os indivíduos fazem a primeira
adaptação à vida social, as primeiras experiências de
solidariedade, proibições, rivalidades etc. (Oliveira,1994).”

Texto de Costa, Maria Isabel Bica Carvalho in A família com filhos


com necessidades educativas especiais”

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A partir do texto, podemos perceber que pela sua Função Interna a
família terá de potenciar o desenvolvimento e crescimento autónomo dos seus
membros. O sistema familiar, ao mesmo que deve ser espaço privilegiado de
desenvolvimento do Sentimento de Pertença, deve permitir a Individuação
e/ou Diferenciação de Identidade dos seus membros. O sentimento de
pertença e a individuação dos membros são funções cruciais e fundamentais
para o bem-estar dos indivíduos

Por outro lado, a Família deve permitir a transmissão da cultura de grupo


e criar condições para uma boa socialização/ integração social, sendo que esta
é a sua Tarefa Externa.

6- A Estrutura da família: Eixo Sincrónico e


Eixo Diacrónico

A Família deve também ser estudada/ compreendida pela sua estrutura, que se
divide em dois eixos: Sincrónico e Diacrónico.

1) O Eixo Sincrónico (espacial) ajuda-nos a compreende a família face á


sua estrutura, nomeadamente, ajuda-nos a responder às questões:

Quem?

Com Quem?

Para fazer o Quê?

Como?

Quando?
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Através da compreensão e análise da sua estrutura pode apreende-se
quais os subsistemas que (co) existem, como se relacionam entre si, como se
organizam (fronteiras e limites), quais os padrões transaccionais (comunicação,
relações, normas, regras, papeis, expectativas) existentes entre os membros e
os subsistemas.

A partir destes elementos podemos definir à partida dois tipos/ pólos de


estrutura familiar:

Famílias Emaranhadas Famílias Desmembradas

Fronteiras difusas no seu interior Fronteiras rígidas no seu interior

Movimentos centrípetos Movimentos centrífugos

Mito da unidade familiar Individualismo

Mistura de subsistemas Papeis familiares instáveis

Papéis familiares rígidos Fronteiras difusas com o exterior

Fronteiras rígidas com exterior

(Minuchin)

Esta estrutura familiar está tipificada, mas cada sistema é auto-


organizado e portanto tem as suas próprias características, sendo que no seu
desenvolvimento e ao longo do seu ciclo vital (do qual falaremos em seguida) a
Família vai oscilando entre o emaranhamento e o desmembramento,
consoante as necessidades, características e ou momentos de crise.

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2) O segundo eixo da estrutura familiar, o Diacrónico, permite-nos
compreender a família pela perspectiva temporal e portanto, o seu
desenvolvimento (Ciclo Vital da Família) e os padrões e mitos que se
perpetuam ao longo das gerações.

7- Ciclo Vital da Família


Falaremos assim neste ponto de algo muito importante para
compreender os desafios da família ao longo do tempo, o Ciclo Vital da
Família.

A evolução da Família ao longo dos anos é caracterizada por vários


estádios.
Cada estádio apresenta características, e desafios aos quais a família
terá de adaptar-se e responder adequadamente, cumprindo as suas
tarefas e papéis, permitindo o sentimento de pertença, a individuação e
a sociabilização de todos os seus membros.
E importante perceber a forma como a família gere a mudança dum
estádio para o outro

Estas cinco etapas iniciam-se sempre com a formação de um novo casal


e passam a ser sempre definidas pela idade do filho mais velho.

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Formação do casal

Família com filhos pequenos

Família com filhos na escola

Família com filhos adolescentes

Família com filhos adultos

Passamos a apresentar de forma sistematizada e sintética os diferentes


estádios, segundo Paula Relvas, no seguinte quadro com a respectiva
definição e tarefas:

Estádio Tarefas
Estabelecimento de uma relação conjugal
1. Formação do Casal mutuamente satisfatória; preparação para a
gravidez e para a parentalidade
Ajustamento à exigências de desenvolvimento
2. Famílias com recém-nascido
de uma criança dependente
Adaptação às necessidades e interesses das
3. Famílias com crianças em idade pré-
crianças no sentido da sua estimulação e
escolar
promoção do desenvolvimento
Assumir responsabilidades com crianças em
4. Famílias com crianças em idade escolar meio escolar; relacionamento com outras
famílias na mesma fase.
Facilitar o equilíbrio entre liberdade e
responsabilidade; partilha desta tarefa com a
5. Famílias com filhos adolescentes
comunidade; estabelecimento de interesses
pós-parentais.

Permitir a separação e o "lançamento" dos


6. Famílias com jovens adultos (Saída do 1º filhos no interior, com rituais e assistência
filho - Saída do último filho) adequada (1º emprego ou educação superior);
manutenção de uma base de suporte familiar.

Reconstrução da relação de casal; redefinição


7. Casal na meia-idade ("Ninho-Vazio") das relações com as gerações mais velhas e
mais novas.
Ajustamento à reforma; aprender a lidar com as
8. Envelhecimento perdas (lutos) e a viver sozinha; adaptação ao
envelhecimento
* In Ana Paula Relvas. O ciclo Vital da Família. Perspectiva Sistémica. Biblioteca das Ciências do
Homem. Edições Afrontamento. 2ª Edição. Maio de 2000

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Para além da simples definição dos estádios, é importante saber quais
os mecanismos psicológicos subjacentes à mudança que implica a transição
dum estádio para o outro, sobretudo se quisermos apropriarmo-nos de
conhecimento para intervir no contexto da Intervenção Familiar/ educação
parental.

Assim, apresentamo-lo de forma sintética e sistematizada:

Estádio Processo emocional Mudanças necessárias ao


de Transição de um processo de desenvolvimento
estádio para outro
Junção de famílias Compromisso com o Formação do novo sistema conjugal
pelo casamento: o novo sistema
novo casal Realinhamento das relações com as
famílias de origem e os amigos de
modo a incluir o conjugue
Ajustamento do subsistema
conjugal: criar espaço para o(s)
filho(s)
Aceitação no sistema
Famílias com filhos
dos membros da nova Assumir papéis parentais
pequenos
geração
Realinhamento das relações com as
famílias de origem a fim de nelas
incluir os papéis parentais e os avós
Mudança nas relações pais-filhos;
possibilitar aos filhos as entradas e
saídas no sistema
Flexibilidade dos limites
Famílias com Recentração nos aspectos da vida
familiares de modo a
adolescentes conjugal da meia-idade e das
aceitar a independência
carreiras profissionais

Inicio da função de suporte à


geração mais velha
Renegociação do subsistema
conjugal como díade

Desenvolvimento de relações
adulto-adulto entre os jovens e os
Aceitação de múltiplas
pais
Saída dos filhos entradas e saídas no
sistema
Realinhamento de relações para
incluir os parentes por afinidade e
os netos

Necessidade de lidar com as


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incapacidades e morte dos pais
(avós)

Manutenção de interesses, próprios


e/ou de casal; exploração de novas
opções familiares

Papel de destaque da geração


intermédia (filhos)

Última fase da vida da Aceitação da mudança Aceitação da experiencia e


família dos papéis geracionais sabedoria dos mais velhos; suporte
da geração mais velha sem super-
protecção

Aceitação da perda do conjugue,


irmãos e outros da mesma geração;
preparação para a morte; revisão e
integração da própria vida.

* In Ana Paula Relvas. O ciclo Vital da Família. Perspectiva Sistémica. Biblioteca das Ciências
do Homem. Edições Afrontamento. 2ª Edição. Maio de 2000

Podemos perceber através da análise destes quadros que todas as


famílias passam por uma série de tensos períodos de transição.

O nascimento de um novo filho, a entrada na escola, a adolescência


das gerações mais novas, são todos eles períodos de tensão e de crise, sendo
que Crise, numa perspectiva sistémica não é vista como algo desagradável ou
perigo, mas sim como Oportunidade e Ocasião de Mudança, oportunidade
esta que comporta riscos de impasse e de disfuncionamento, caso a família
não tenha em si mesma as competências necessárias ou não busque fora de si
os recursos inevitáveis.

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8-Factores de Stress, Factores de Risco,
Acontecimentos Inesperados

No entanto, outras famílias há, onde existe um maior índice de Factores


de Stress (dificuldades económicas, desemprego, situações de violência,
doenças ou deficiências), Factores de Risco (famílias multiproblemáticas,
negligência, maus tratos, alcoolismo, toxicodependência, psicopatologia) bem
como Acontecimentos/ Desafios Inesperados (morte de algum dos membros
da família ou o nascimento de uma criança com alguma doença, "limitações",
deficiência ou Necessidades Educativas Especiais),o que vem aumentar
exponencialmente a tensão durante esses períodos ditos de crise
“normativos” pode chegar a ser especialmente aguda.

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9-Compreender a família e delinear um plano
de Formação Parental
No contexto de uma intervenção ao nível da formação parental, temos
de perceber quais os desafios esperados para cada família em cada estádio,
quais são as tarefas e funções esperadas e captar como cada família age e
reage aos desafios e às suas “crises”. Temos de perceber também como a
Familia lida com a Crise e consequentemente com a mudança, quais os seus
factores de suporte (o que ajuda a família a mudar), as suas competências, os
seus recursos.

Sintetizando, para compreender uma família e poder intervir no


contexto da Formação Parental necessitamos de saber:

 Descrever e explicar a estrutura familiar, a sua dinâmica, processo e


mudança.
 Descrever as estruturas interpessoais e as dinâmicas emocionais dentro
da família
 Ter em conta a família como ligação entre o individual e a cultura
 Descrever o processo de individuação e a diferenciação dos membros
da família
 Obter um conjunto de hipóteses acerca do funcionamento familiar e das
causas da disfunção/ dificuldade.
 Prever/ delinear estratégias terapêuticas para lidar com a disfunção
familiar
(Vetere(1987)

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10- EVOLUÇÃO E TRANSFORMAÇÕES DA/
NA EDUCAÇÃO FAMILIAR: síntese

Se até às últimas décadas do Séc. XX, a educação familiar e parental era


essencialmente concebida de uma forma “remediativa”, para famílias em risco,
centrada no profissional-especialista que ensinava àquela família-cliente as
“boas práticas de educação”, com uma concepção de controlo social
subjacente a um discurso de protecção, a partir da década de 80 este modelo
médico, baseado nas falhas e no treino, foi sendo lentamente substituído por
um modelo de tipo sociocultural, bio-ecológico, multissistémico, baseado
nas potencialidades.

Assim, numa perspectiva sistémica, a Educação Familiar passa a ser


percepcionada como “um conjunto de actividades educativas e de suporte
que auxiliam os pais ou futuros pais a compreenderem as suas próprias
necessidades sociais, emocionais, psicológicas e físicas e as dos seus
filhos e aumente a qualidade das relações entre eles” (Pugh et al., 1997).

É este modelo teórico que estará subjacente a esta formação, não só a esta
aula, mas ao longo de todo o curso de formação parental.

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11 - EDUCAÇÃO PARENTAL: O QUE É E
PARA QUE SERVE?
Vamos começar por fazer uma resenha das diferentes (mas
complementares) definições dadas ao conceito de formação parental, para
podermos em primeiro lugar defini-la e em segundo, reflectirmos acerca da sua
importância e contextos de aplicação.

 Educação parental é um conceito multifacetado da intervenção engloba


programas e serviços disponibilizados ao nível dos sectores público e
privado, a pais de diferentes níveis educacionais e económicos, e a
crianças com ou sem necessidades ou características específicas. (Fine
(1989)
Esta forma de perspectivar a Educação Parental implica que a mesma
não se restrinja à intervenção na prestação de cuidados e nas
competências parentais e que as acções não sejam feitas com base em
critérios relacionadas com a idade ou com o meio social de origem,
podendo ser implementadas através de um conjunto alargado de
recursos
acessíveis a quaisquer pais e famílias.

Quer isto dizer que a formação parental pode ter um carácter educativo e
preventivo, mas também pode surgir como resposta a situações de crise.

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 Educação Parental visa alcançar uma importante aprendizagem, que diz
respeito ao ofício de mãe/pai: trata-se de melhorar as capacidades
educativas das figuras parentais e, nos casos mais graves, de romper o

círculo vicioso segundo o qual as famílias com problemas têm filhos com
problemas que, por sua vez, virão no futuro a criar crianças perturbadas
(Pourtois, Desmet & Barras, 1994).

 A formação de pais pode ser definida como o processo de proporcionar


aos pais ou outros prestadores de cuidados, conhecimentos
específicos e estratégias para ajudar a promover o
desenvolvimento da criança (Mahoney et al., 1999; McCollum, 1999;
Kaiser et al., 1999). Segundo Mahoney et al. (op. cit.) a formação de
pais inclui uma gama de conteúdos diversificada como fornecer
informação sobre os processos de desenvolvimento e aprendizagem da
criança, apoiar os pais no ensino de determinadas habilidades e
competências aos seus filhos e na gestão de problemas de
comportamento.

 A formação parental constitui um tipo particular de apoio que as famílias


podem requerer. (Dunst, Trivette e Deal (1994) e Dunst (1999))

 Modelo de Durning, 1999 - A dimensão profissional da intervenção


familiar compreende o conjunto de intervenções sociais implementadas
para preparar, apoiar (suporte), ajudar ou mesmo substituir os pais na
sua função educativa face aos seus filhos. O objectivo último é a
relação: formar para a relação entre os pais e os filhos.

A educação familiar, centrada nos “comportamentos educativos”, dirige-


se a todos os públicos, numa perspectiva preventiva e “não terapêutica”.

 O Modelo de Doherty (1995) - Segundo este autor, os sentimentos,


motivações, atitudes e valores são centrais no processo de educação
parental (Arcus et al., 1993). Com o objectivo de contribuir para o
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esclarecimento do conceito de “educação de pais” Doherty, 1995,
elaborou um modelo (Levels of family involvement model) de 5 níveis:

(LEVELS OF FAMILY INVOLVEMENT MODEL) DE 5 NÍVEIS:


Nível 1 A ênfase na família é mínima. De tipo informativo, centrado
no profissional;
Nível 2 Informação e orientação, mas com envolvimento das
famílias. Parceria.
Nível 3 Emoções e suporte. Envolve o domínio afectivo e
experiencial, utilizando as experiências pessoais dos pais
como parte do processo educacional. A combinação dos
domínios afectivo e cognitivo de uma forma não intrusiva,
torna-o no nível ideal de intensidade para a maioria das
actividades de educação de pais;
Nível 4: Intervenções breves com famílias com necessidades
especiais que estão em situações de risco: pais
adolescentes; pais com crianças colocadas em serviços de
protecção de menores ou de saúde mental; pais de
crianças com doença crónica ou deficiência; pais na prisão.
É a fronteira superior entre a educação familiar ou de pais e
as intervenções de tipo terapêutico;
Nível 5 Terapêutico. Fora do âmbito da educação de pais. Os
participantes sabem que estão num tratamento e não num
programa educacional, apesar de poder ocorrer educação.

 Modelo de Pugh et al. (1994) - A Educação Parental é “Um conjunto de


actividades educativas e de suporte que ajudem os pais ou futuros pais a
compreenderem as suas próprias necessidades sociais, emocionais,
psicológicas e físicas e as dos seus filhos e aumente a qualidade das
relações entre eles. Estas actividades ajudarão a criar um conjunto de

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serviços de suporte nas próprias comunidades locais e as famílias a
utilizarem-nas de forma vantajosa”. Há, neste modelo, uma definição
intencionalmente direccionada para as relações, ao mesmo tempo que
para a necessidade de alargarmos os objectivos das intervenções à
construção de serviços na rede de suporte das famílias e que elas os
possam utilizar.
O objectivo último da educação parental é ajudar os pais a desenvolver a
auto-conhecimento e auto-confiança e a aumentarem a qualidade da sua
capacidade para apoiarem e ajudarem as suas crianças a desenvolverem-
se.

 Modelo de Smith (1996) - Para esta autora os programas de Educação


Parental têm como objectivo apoiar ou assistir os pais nesse importante
“job for life”, e são desenvolvidos por profissionais da saúde, educação
ou serviço social, como forma de suporte ou educação.
São denominados de “parenting programmes” em vez de “parenting
skills programmes”, “parent education programmes” ou “parent training
programmes”. Isto porque, por um lado, “parenting” é muito mais que um
conjunto de aptidões, e, por outro lado, nem os termos “education” ou
“training” descrevem o processo envolvido na aprendizagem da
parentalidade, pois trata-se de um processo complexo de
desenvolvimento da consciência sobre a parentalidade, através da
participação num conjunto de sessões em grupo, cujo objectivo é levar
os próprios pais a desenvolverem formas alternativas de aumentarem a
qualidade da sua própria parentalidade ou sentirem-se reconfirmados
como pais e nos métodos que utilizam (Smith, 1996, pp.1-2)

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12 - TREINO PARENTAL OU FORMAÇÃO

PARENTAL?

Ao fazer uma revisão da literatura, verificamos que alguns autores


defendem e mantêm a distinção entre os conceitos de Treino Parental e
Educação Parental.
O Treino de Parental ou Treino de Competências Parentais está
bastante associado ao trabalho com pais de crianças com problemas de
comportamento, em situações de crise e perigo de maus tratos e
negligência, visando a mudança das práticas parentais, tendo como objectivo
a resolução de problemas específicos.
Por seu lado, a Educação Parental ou a Formação de Pais surge
sobretudo como uma abordagem preventiva, pautada por objectivos de
prevenção de comportamentos e padrões disfuncionais, dirigida a pais com
crianças com problemas de desenvolvimento, ou em risco biológico e
desenvolvimental.

Sintetizando:

Treino parental Dirigida a uma problemática específica


(crianças com distúrbio de oposição,
Hiperactividade ou a estilos parentais
disfuncionais (punitivos, abusivos, negligentes)
Formação parental Dimensão preventiva, dirigida a todos os pais,
independentemente das suas capacidades
parentais: não implica que seja uma
intervenção em situações de crise (Dore &
Lee, 1999).

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No entanto, devemos ressalvar que quer o treino de competências
parentais quer a formação parental têm traços comuns, designadamente o
facto de terem como objectivo primordial o apoio efectivo aos pais,
proporcionando-lhes informação de carácter prático, conhecimentos,
transmitindo-lhes princípios de aprendizagem e modificação do comportamento
e promovendo competências parentais, de comunicação e de resolução de
problemas (Schaefer &Briesmeister, 1989). Quer um quer outro, propõem-se a
promover a existência de espaços de autoconhecimento, onde os sentimentos,
emoções, dúvidas e dificuldades podem ser partilhados, reflectidos e ser alvo
de diferentes leituras e significados.

Saliente-se que a formação parental e/ou o treino de competências


parentais não pretendem ser uma “escola de pais”, onde uns ensinam e outros
aprendem, mas uma intervenção através da qual se faz uma co-
aprendizagem, uma co-contrução da realidade e das transformações
pretendidas, sendo que devemos perspectivar as famílias, os pais como
competentes para pensar e mudar.

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13- OBJECTIVOS GERAIS DAS
INTERVENÇÕES DE FORMAÇÃO/
EDUCAÇÃO PARENTAL:

1- Promover os conhecimentos dos pais


2- Desenvolver competências na prestação de cuidados,
3- Estimular e melhorar a relação pais-criança e a aquisição de aptidões
específicas, por parte das crianças.
4- Promover o auto-conhecimento dos pais e/ou dos futuros pais
5- Fomentar modificações positivas na autoconfiança
6- Aumentar satisfação no desempenho das funções parentais
7- Resposta as necessidades da família de uma forma abrangente (de
forma preventiva ou intervenção em situações de crise)
8- Percepcionar os Pais como elementos competentes
9- Incentivar o apoio das redes sociais formais e informais

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Em famílias de crianças em situação de risco pretende-se:

 Introduzir melhorias no processo interactivo (Affleck et al., 1989;


Mahoney et al., 1998).
 Aumentar o conhecimento sobre o desenvolvimento da criança (Olson &
Burgess, 1997).
 Promover competências de relacionamento funcional entre pais –
crianças.
 Prevenir situações de mau trato, negligência.

Em suma, na base da educação parental devem estar os conceitos:

 CAPACITAR, isto é, criar oportunidades para que todos os


membros da família possam demonstrar e adquirir competências
que consolidem o funcionamento familiar
 CORRESPONSABILIZAR, isto é, a Capacidade que toda a
família deve demonstrar na satisfação das suas necessidades
aspirações, por forma a promover um sentido claro de controlo e
domínio intra familiar (Dunst e col., 1988, p. X)

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14 - A definição de educação parental e as
implicações na forma de intervenção

A conceptualização da Educação parental feita atrás deve ter implicações


na intervenção do educador parental:

1 -Com a evolução/ transformação dos modelos (ponto 1) dá-se maior


relevância da auto-estima e do bem-estar dos próprios pais. É consensual que
a Educação Parental envolve uma componente emocional e experiencial sendo
que os sentimentos, motivações, atitudes e valores são centrais no processo
(Doherty, 1995).

2 – Se se pretende que a Educação Parental atinja o seu objectivo (mudar,


educar e não apenas informar) então essa educação tem de ser mais pessoal,
experiencial, profunda que outras formas de educação, sendo até que alguns
autores contestam que se continue a utilizar o termo “educação parental”, por
se encontrar muito ligado ao modelo médico inicial, enquanto outros propõem a
sua reformulação e um reinvestimento neste domínio de trabalho de parceria
com as famílias (cf. Dunst, 1999; Kaiser et al., 1999; Mahoney et al., 1999;
Turnbull et al., 1999; Wintow et al., 1999).

Em suma,

 Em vez de um modelo de formação centrado nas “prescrições” de como


uma família deve ser e funcionar deve privilegiar-se uma formação
centrada na “descrição” de como é que os diferentes tipos de família se
organizam e funcionam.

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 De um modelo centrado em processos de ensino, que facilitem a
memorização de informações, devemos passar para metodologias mais
subjectivas, experienciais que capacitem os formandos para o
envolvimento e crítica desse conjunto de conhecimentos e sua aplicação
(cf. Allen & Crosble-Burnett, 1992).

15 - CONTEXTOS DE APLICAÇÃO

A formação parental pode ter um carácter educativo e preventivo, mas também


pode surgir como resposta a situações de crise:

Famílias com Crianças com problemas de comportamento ou


emocionais específicos
Pais com problemas de saúde mental
Grávidas/ pais adolescentes
Famílias de crianças sinalizadas por situações e risco e/ou perigo nas
CPCJ, tribunais

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Existência de maus tratos e/ou negligência por influência de factores de
risco (tais como baixa auto-estima, impulsividade, agressividade, baixa
tolerância às frustrações e ao stresse, ansiedade e depressão,
Alcoolismo ou toxicodependência; História familiar de maus-tratos na
infância; Desconhecimento sobre o desenvolvimento da criança,
implicando expectativas pouco adequadas relativas à criança; Atitude
intolerante e indiferente face às responsabilidades parentais;
Perturbações no processo de vinculação com o filho).

Existência de NEE´s e/ou deficiência.

Outras situações específicas.

Para além dos pais e mães que possam reconhecer-se nessas condições, as
intervenções poderão abranger um público ainda mais vasto, nomeadamente
avós e mesmo professores, na sua colaboração com os pais (Pourtois, Desmet
& Barras, 1994).

16- A IMPORTÂNCIA E NECESSIDADE DA


FORMAÇÃO PARENTAL – REFLEXÃO
Os programas de Formação ou de Treino de Competências Parentais
constituem excelentes oportunidades para melhorar os níveis de informação
bem como as competências educativas parentais, surgindo mesmo, em
vários estudos, associados a resultados bastante positivos em termos da
percepção de auto-eficácia, no desempenho da função parental (e.g.,
Feldman, 1994; Hornby, 1992a; Wilkinson, Parrish & Wilson, 1994; entre
outros).

Apesar de algumas reservas e questões,

a) Risco de “escolarizar a vida familiar”,

30
b) “Hiper-estimulação das crianças;
c) Ter por base o mito de uma “família idealizada”, dita “normal”
com comportamentos padronizados e esperados;

d) Questões éticas relacionadas com um mercado crescente de


“oferta” de “escolas de pais” e de informação (revistas, livros,
Web sites, programas em suporte digital, programas na
televisão.) integradas por um modelo informativo versus
educativo;
e) Perspectiva de “educação familiar” como um conjunto de
receitas a aplicar;

Pode dizer-se que a necessidade e importância de intervenções


socioeducativas dirigidas aos pais, implementadas por profissionais,
nomeadamente a Educação Familiar, é consensual desde que enquadrada
por um paradigma de promoção de competências versus de
compensação ou “remediação”.
Este paradigma e a forma como conceptualizamos hoje a Educação
Parental, ou seja, como a possibilidade de CAPACITAR, CO
RRESPONSABILIZAR; CO-EVOLUIR, assente no pressuposto de que as
famílias, os pais, são competentes, deve levar-nos a uma reflexão séria e á
transformação das relações entre profissionais-pais.

Para que tal aconteça devemos seguir um modelo colaborativo (teoria


sistémica), o que implica:
 A construção de uma relação não culpabilizante, apoiante e recíproca,
que considera de forma igualitária os conhecimentos do técnico e as
forças e perspectivas únicas dos pais, assente no respeito pelo
contributo de cada pessoa, na confiança e na comunicação aberta.
(Webster-Stratton e Herbert (1993))

 Abandonar o papel de perito que ensina competências aos pais, e


trabalhar conjuntamente com estes, solicitando activamente as suas

31
ideias e sentimentos, tendo em consideração o seu contexto cultural e
envolvendo-os no processo de partilha de experiências, discussão de
ideias e resolução de problemas.
 Assumir uma perspectiva de empowerment.

Nesta perspectiva podemos afirmar que a intervenção em Educação


Parental, poderá constituir-se como uma via importante para a promoção da
confiança, auto-suficiência e auto-eficácia dos pais, desde que

 Os pais assumam um papel relevante no desenvolvimento de


respostas para as suas próprias questões e dificuldades, em
colaboração com o técnico
 Que o técnico assegure a construção de um contexto apoiante e
adaptado às características, necessidades e valores do público-alvo
junto do qual se propõe intervir (Webster-Stratton & Herbert, 1993).

A formação parental assume assim um papel crucial na promoção da


parentalidade positiva, que segundo o Conselho da Europa, (Recomendação
16, Lisboa 2006) se define como um “comportamento parental baseado no
melhor interesse da criança e que assegura a satisfação das principais
necessidades das crianças e a sua capacitação sem violência, proporcionando-
lhe o reconhecimento e a orientação necessários, o que implica a fixação de
limites ao seu comportamento, para possibilitar o seu pleno desenvolvimento”.

32
II Parte – O projecto

33
1- Projecto Nós & os Laços
Este projecto baseia-se nas áreas do conhecimento e na formação parental
no âmbito das famílias com filhos com deficiência ou NEE. Tem como
objectivos gerais:

Formação e treino de competências parentais;


Melhoramento do nível de informação e da capacidade dos pais na
aquisição de estratégias facilitadoras da aprendizagem e de
interacções mais positivas;
Promoção do nível de formação na área do desenvolvimento das
crianças com deficiência;
Promoção da informação e conhecimento junto das famílias,
comunidade e serviços;
Divulgação do projecto como recurso acessível á comunidade;
Promoção da Inclusão das Famílias e das Crianças/Jovens com
deficiência/NEE.

2- Caracterização do público-alvo e
abrangência
Sexo

Deficiência N. º N.º Total

Masculino Feminino

Auditiva

Visual

Mental

Motora

34
Multideficiência 12 12 24

Orgânica

Outra/Especificar

Total

3- Acções desenvolvidas ao longo do


Projecto

Formação/treino de competências parentais através de sessões de


formação parental e de Oficinas de Formação (sessões de formação),
duas vezes por grupo/por mês (em anexo exemplo de planificação e
relatório de uma sessão).
Promoção da informação e conhecimento através de acções de
sensibilização e realização de sessões informativas com a colaboração
de profissionais que intervém na área da deficiência.
Apoio psicossocial individual aos pais que manifestam
necessidades acrescidas, psicopatologia e/ou dificuldades de
ajustamento emocional.
Visitas domiciliárias e sessões de atendimento/acompanhamento
individual para diagnóstico de necessidades e treino de competências
parentais.
Divulgação do projecto junto dos órgãos de comunicação social.
Divulgação do projecto através de acções de sensibilização junto da
comunidade e da rede de serviços.
Criação de um folheto informativo para divulgação do projecto e
suas acções (em Anexo)
Realização de um Seminário nesta área, aberto a outros
serviços/profissionais (em anexo folheto e cartaz).
Criação de um grupo de pais (auto-ajuda).

35
4- Metodologias
Sessões de grupo (método colaborativo, debate, reflexão e partilha de
ideias, visionamento de filmes e vídeos, fotocolagem, photovoice) ( em
anexo)
Oficinas de formação (método expositivo, método participativo, debate,
fotocolagem)
Visitas domiciliárias (avaliação e intervenção familiar integrada)
Atendimento psicossocial

5- Resultados e produtos
 Melhoria dos níveis de informação das famílias.

 Qualificação das competências parentais.

 Aquisição de conhecimentos específicos sobre o desenvolvimento da criança.

 Aquisição de estratégias para melhorar o processo interactivo das famílias.

 Produção de um Manual Técnico.

 Estabelecimento de interacções positivas entre:


Família-Criança/jovem;
Família-Comunidade;
Família-Serviços.
 Sensibilização e mudança de atitudes e crenças.
 Sensibilização geral para a problemática da deficiência/NEE

 Promoção de factores de protecção

 Diminuição dos factores de risco, diluindo o “stress” causado às famílias por

terem um filho com problemas de desenvolvimento.

 Estabelecimento e alargamento de contactos sociais e de redes informais de

36
pais de crianças/jovens com deficiência/NEE.

 Criação de um blogue (www.noseoslacos.wordpress.com) para sensibilização

da comunidade e divulgação do projecto.

 Participação num congresso internacional promovido pela ANIP com um

poster cientifico sobre o projecto Nós & os Laços ( em anexo).

6- Conclusão

A Educação parental, realizada de forma sistemática e consistente,

proporciona espaços de aprendizagem e reflexão de “formas de comunicar e

de ensinar apoiadas em conhecimentos psicológicos e pedagógicos científicos

e na motivação e voluntarização de mães e pais para adaptarem e mudarem as

suas estratégias educativas num sentido mais adequado e eficaz, que lhes

traga, a eles mesmo, maior bem-estar emocional” (Marujo, 1997, p.131). Os

programas de suporte às famílias visam, assim, fortalecer as suas capacidades

e competências, optimizar os seus recursos, aumentando o empowerment dos

seus elementos (Coutinho, 2003)

Na panóplia de funções que os pais e os familiares desempenham

relativamente às suas crianças, desde os cuidados prestados até aos modelos

de comportamento veiculados, surgem, muitas vezes, dúvidas e inquietações.

No caso de serem pais ou familiares de uma criança com necessidades

37
especiais, os estudos evidenciam que essas interrogações e incertezas são

maiores, o nível de stress sentido é superior, bem como as exigências vividas

em termos de adaptação e reorganização do núcleo familiar( Coutinho, 2004;

Dinnebel, 1999). Por isso frequentemente, estes pais e familiares

experimentam sentimentos de insegurança “sobre o que fazer e como o fazer”

(Coutinho, 2003,p.228).

Para além destes sentimentos de insegurança detecta-se uma maior

predisposição destes pais (sobretudo das mães) para o aparecimento de

sintomatologia depressiva e/ ou ansiosa, dada a vulnerabilidade e stress a que

estão sujeitos. A maioria das famílias com que intervimos estão sujeitos ao

stress de terem um filho com NEE´s ou com deficiência, mas também e

previamente a isto, são disfuncionais e multiassistidas, isto é, são afectadas

por múltiplos problemas de ordem económica, social, psicológica e emocional,

o que perturba a sua dinâmica, organização e função. Esta desorganização é

de tal ordem que quando se deparam com as dificuldades inerentes a uma

criança com problemas de desenvolvimento, caotizam-se e são incapazes de

organizar sem ajuda externa. Daí o impacto positivo da nossa intervenção junto

destas famílias, pois foi potenciador de mudanças, sobretudo porque se

procurou reactivar os recursos internos existentes mas desconhecidos por eles.

Assim, numa perspectiva de empowerment e de promoção de auto-estima,

procuramos validar e valorizar os factores de protecção e de resiliência

existentes no seio da família e imperceptível no meio do caos.

Para além deste trabalho, é necessário, inevitavelmente, fazer o luto pelo

filho imaginário e encetar um trabalho de aceitação/ construção do filho real,

estando conscientes das suas limitações, porém não se centrando apenas

38
nelas, mas sobretudo nas suas potencialidades e recursos. Um trabalho deste

género não se faz à margem da promoção de competências sociais e afectivas

dos próprios pais, implica, isso sim, a procura do que há melhor dentro deles,

não só como pais mas sobretudo como pessoas, promovendo o seu bem-estar

pessoal e assim, capacitando-os para serem seres humanos mais felizes, mais

tranquilos e consequentemente melhores pais.

39
7. Anexos

40
Planificação 1ª Sessão - 21/09/2011

Objectivos:

o Apresentação do grupo, dos objectivos do grupo e partilha de expectativas.


o Promoção da coesão e de empatia no grupo.
o Promoção do sentimento de pertença ao grupo por parte dos pais.
o Reflectir e partilhar experiências acerca da parentalidade.

Actividades/ procedimentos:

 Apresentação individual (pais)

 Apresentação do grupo, dos objectivos (Carmen e Celina)

 Dar um nome ao grupo (brainstorming)

 Exploração de expectativas acerca do grupo e das actividades a

realizar

 Como me sinto como pai/ mãe? Como me sinto como pai/ mãe de

uma criança com dificuldades/ problemas? – Actividade em grupo:

recorte e colagem de imagens (subdivisão do grupo), seguida de

partilha e debate com o grupo completo.

 Conclusões

Duração: 90 minutos

41
Relatório Sessão Formação Parental

Compareceram todas as famílias convocadas para a sessão, tendo estado também


várias crianças, mas em sala à parte, supervisionadas por um colega, a realizar
origamis.

Nesta sessão, foi feita a apresentação do grupo, individualmente, dos objectivos do


grupo e partilha de expectativas. Procurámos envolver as famílias, promovendo o
denominador comum a todas: filhos com deficiência ou NEE’s.

Desafiámos as famílias a encontrar um nome para esta actividade/grupo. Ficou como


TPC para todos, para a próxima sessão (fazer chuva de ideias sobre o nome a dar ao
grupo).

Ao longo da sessão, reflectimos em conjunto e as famílias partilharam experiências


acerca da parentalidade de crianças/jovens com deficiência ou NEE’s – principais
dificuldades sentidas (em termos emocionais).

Foi realizada uma Dinâmica de grupo centrada nas questões:

Como me sinto como pai/ mãe?

Como me sinto como pai/ mãe de uma criança com dificuldades/ deficiência?

(desmistificação de caso único)

Reflexão individual – sentimentos comuns:

Vergonha / Medo / Frustação / Tristeza

Operacionalização – divisão em dois sub – grupos

42
* recorte e colagem de imagens em cartolinas, com as quais identificavam os

seus sentimentos em relação ao tema, seguida de partilha e debate com o

grupo completo

(técnica da fotocolagem)

43
44
45
Conclusões

A comparência e adesão à sessão de grupo por parte de todas as famílias,

surpreendeu-nos muito (positivamente), pois foi difícil terminar a sessão. Sentimos que

as famílias ficariam muito mais tempo na actividade desenvolvida e a partilhar as suas

experiências pessoais.

Estas famílias estão, apesar das redes de serviços que as acompanham, muito

solitárias e confusas em relação à educação de um filho “diferente” dos outros

meninos. Acresce o facto destas famílias viverem outras situações difíceis (económica,

familiar, etc), o que traz um stress adicional.

46
Têm muito medo de serem julgadas e pensamos que, connosco, que não temos o

papel de informar o Tribunal ou de elaborar relatórios acerca da evolução

familiar/relacional, se sentiram à vontade e por isso, houve espaço para chorar, rir e

falar à vontade das suas próprias dificuldades. Sentem-se pressionados pelos

Técnicos a fazerem e a tomarem decisões que lhes são difíceis, ou para as quais não

estão preparados, ou ainda, não entendem porque tem que o fazer.

47
Folheto informativo

48
Poster científico

49
Folheto/ cartaz seminário do projecto

50
51
Bibliografia
Alarcão, Madalena (2000) (Des) Equilíbrios familiares. Coimbra: Editora
Quarteto.

Ausloos, Guy (1996); A Competência das Famílias - Tempo, Caos,


Processo; Lisboa: Climepsi

Costa, Mª Isabel Bica Carvalho; A família com filhos com necessidades


educativas especiais, in www.ipv.pt/millenium/millenium30/7.pdf

Gaspar, M. (2005). Educação familiar como intervenção socioeducativa:


Porquês, para quem, como e por quem?. Revista Portuguesa de
Pedagogia, 39 (3), 61-98.

MATSUKURA, Thelma Simões et al; Estresse e Suporte social em mães de


crianças com Necessidades Especiais, Brasil – in www.scielo.br

Relvas, Ana Paula. O ciclo Vital da Família. Perspectiva Sistémica.


Biblioteca das Ciências do Homem. Edições Afrontamento. 2ª Edição.
Maio de 2000

Sousa, Liliana (2005); Famílias multiproblemáticas. Coimbra: Editora


Quarteto

Rolfsen, Andréia Bevilacqua et al, Programa de Intervenção para pais de


crianças com dificuldades de aprendizagem: um estudo preliminar,
Universidade Federal de S. Carlos, São Carlos –SP, Brasil

Ribeiro, Maria José dos Santos (2003); Ser família – Construção,


implementação e avaliação de um programa de Educação parental, Braga.

52
Coimbra, Dezembro de 2011

Carmen Fonseca

Celina Carvalho

53