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CENTRO UNIVERSITÁRIO DA FUNDAÇÃO EDUCACIONAL GUAXUPÉ

TAYSA CRYSTINA JUSTIMIANO

A IMPORTÂNCIA DO DESPORTO SOB A ÓTICA JURÍDICA E SOCIAL

GUAXUPÉ-MG
2016
TAYSA CRYSTINA JUSTIMIANO

A IMPORTÂNCIA DO DESPORTO SOB A ÓTICA JURÍDICA E SOCIAL

Trabalho de Curso apresentado


ao Centro Universitário da
Fundação Educacional
Guaxupé, como exigência
parcial para obtenção do
Bacharelado em Direito.
Orientadora: Prof. Renato
Zanolla Montefusco.

GUAXUPÉ-MG
2016
DEDICATÓRIA

Dedico este trabalho primeiramente a


Deus, por tornar possível a realização de
tantos sonhos em minha vida, guiar
sempre o meu destino e ser socorro nos
momentos de angustia. Agradeço a
minha mãe, Neiva da Aparecida
Rodrigues Justimiano, que foi quem
sempre acreditou e me impulsionou nos
meus objetivos e que quem me faz
refletir todos os dias sobre a vida, o amor
e a caridade.
AGRADECIMENTOS

Ao meu irmão, Douglas Rafael Justimiano, pela sua paciência como irmão,
quero deixar meus agradecimentos e votos de sucesso para o seu futuro. Aos meus
amigos e colegas, com vocês, as pausas entre um parágrafo e outro de produção
melhora tudo o que tenho produzido na vida.
A minha amiga, Cristiane Gris Baldan, professora no Instituto Federal Sul de
Minas, Campus Muzambinho-MG, que foi neste ano, com sua amizade, um grande
presente e incentivo na minha vida.
À professora e orientadora, Ana Cristina Serrano de Souza Mascarenhas,
pessoa magnífica com quem tive a honra de dividir vários momentos nessa fase tão
marcante e importante em minha vida, agradeço pela paciência, orientação e
dedicação mais que precisa, o que tornou possível a conclusão desta monografia.
À todos os professores dо curso, quе foram tãо importantes nа minha vida
acadêmica е nо desenvolvimento dеste trabalho.
À Flavio Umberto Moura Schmidt, Juiz de Direito da Comarca de
Muzambinho, com quem tive a oportunidade de trabalhar e aprender muito, pelas
palavras de apoio e incentivo.
Às pessoas com quem trabalhei e as que encontrei ao longo desses anos, as
quais além de incentivo, me deram sua confiança, sua paciência, amizade e por
muitas vezes palavras que fizeram toda a diferença para que eu chegasse a até aqui.
E mais que especialmente a minha Mãe, Neiva da Aparecida Rodrigues, por
ser o principal motivo da realização deste trabalho de conclusão de curso, pois
acreditou em mim de forma tão serena que até eu mesma desacreditava, e, mesmo
diante da árdua luta contra o câncer, não fraquejou em momento nenhum e nem me
deixou fraquejar. À a você Mãe, devo não só a vida, mais tudo de mais bonito e
precioso que possuo.
“A tarefa não é tanto ver aquilo que
ninguém viu, mas pensar o que ninguém
ainda pensou sobre aquilo que todo
mundo vê.” - Arthur Schopenhauer
RESUMO

JUSTIMIANO, TaysaCrystina..A importância do Desporto sob a óptica jurídica e


social. 2016. 52 f. Trabalho de conclusão de curso (graduação em Direito) – Centro
Universitário da Fundação Educacional Guaxupé. Guaxupé, 2016.

O subsistema constitucional do desporto visa a integração do homem em sociedade e


tem como fundamento base, educar pelo esporte, e como tal, trata-se de algo muito mais
amplo e complexo que o esporte propriamente dito. Consiste pois, na prática organizada
do esporte, o esporte federado, o esporte regulamentado e organizado por federações,
geralmente visando à competição. Não é um tema exauriente do Direito podendo ser
trabalhado pela antropologia através do homusludens que cria formas de distração e
posteriormente desenvolve regras que o tornam civilizado; pela sociologia quando
aborda o tema de integração social e até mesmo pela educação física, ao interpretar a
sua história. Com o presente trabalho, visa-se estudar de forma pormenorizada a função
do desporto dentro da sociedade e da ordem jurídica, assim como as peculiaridades da
Justiça Desportivapor uma abordagem histórica e cultural do desporto,do
desenvolvimento das primeiras legislações que trataram sobre o assunto no Brasil e
finalmente o que se entende hoje por Justiça Desportiva Brasileira. O resultado obtido
foi a percepção concreta da importância do desporto para o Poder Judiciário e a
necessidade do fomento desta ramificação dentro da sociedade em geral de maneira a
atingir o maior número de pessoas.

Palavras-chave: Desporto; Ordem jurídico-constitucional; Lei Pelé; Justiça Desportiva;


Esporte.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ........................................................................................................................... 9
1 DESPORTO ............................................................................................................................ 11
1.1 Aspectos históricos................................................................................................................ 11
1.2 Desporto ................................................................................................................................ 16
1.3 Histórico do Direito Desportivo ............................................................................................ 18
1.4 Origem do Direito Desportivo............................................................................................... 20
2 O DIREITO DESPORTIVO NO BRASIL .......................................................................... 23
2.1 Legislação desportiva brasileira ............................................................................................ 24
2.2 Lei Pelé.................................................................................................................................. 32
3 A JUSTIÇA DESPORTIVA NO BRASIL ..................................................................... 34
3.1 Competência .......................................................................................................................... 35
3.2 Base legal e organização ....................................................................................................... 36
3.3 Estrutura da Justiça Desportiva ............................................................................................. 39
3.4 Autonomia da Justiça Desportiva .......................................................................................... 42
3.4 Questões relevantes ............................................................................................................... 45
3.5 A Justiça Desportiva e a realidade da Justiça Comum .......................................................... 46
CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................... 51
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .................................................................................... 53
9

INTRODUÇÃO

Para o desenvolvimento do presente trabalho de curso foi usado o método


dedutivo de pesquisa bibliográfica e tem como tema o Direito Desportivo, um
conjunto de técnicas, regras e instrumentos jurídicos, sistematizados nas diversas
etapas evolutivas do ordenamento jurídico tanto doméstico quanto internacional, que
visam disciplinar a prática e a ciência dos desportos em suas diversas modalidades. O
escopo do presente trabalho é observar a figura do direito desportivo para uma
compreensão exata do que tange o direito desportivo, no entanto, é necessário que a
doutrina aborde o assunto de diferentes formas buscando não apenas corroborar com
o que hoje já existe, mas buscar maneiras de desenvolver o tema e fomentá-lo em
sociedade.
O Direito Desportivo tem sua origem mesmo que de forma implícita nos
povos primitivos, concomitantemente a origem dos desportos, quando esses povos
criavam regras ligadas ao esporte e as seguiam como se sagradas fossem. Seja
posteriormente através do povo Egípcio, da Lei de Manu, ou mesmo com o ápice do
esporte na civilização greco-romana, o desporto era dotado de significa social e
político, pois outorgavam aos atletas proteção jurídica e imputabilidade no âmbito do
Direito Romano, além da valorização do desporto, ensejar direitos, privilégios e

regalias aos atletas. No entanto, o grande destaque deste trabalho de curso, concerne

a forma como o direito desportivo embora expresso na Constituição Federal de 1988


é, muitas vezes deixado de lado e quase nunca apreciado em sociedade.
A premissa maior do presente trabalho é levar em discussão da necessidade
de adaptação do direito desportivo na sociedade moderna, no âmbito estatal e
especialmente municipal, através da criação de órgãos e mecanismos que
desenvolvam o direito desportivo e busquem a integração social. A premissa menor
seja não só a justiça desportiva, mas também as políticas públicas de inclusão,
vislumbrando-se que a Justiça Desportiva, embora não faça parte do Poder Judiciário
é plenamente autônoma e soberana, abrindo espaço para o desenvolvimento do tema
em sociedade sob diversos enfoques.
A importância do presente tema para a comunidade acadêmica vai muito além
de mera especulação, já que trata de uma previsão constitucional e aborda questões
bem mais profundas que apenas o esporte, como a forma de colocar pessoas que
10

estão à margem da sociedade em contato com o meio social e a benesse trazida ao


Poder Judiciário.
No primeiro capítulo, buscou-se um estudo aprofundado do Desporto,
abordando não apenas o conceito, mas a origem e os elementos históricos que
evidenciaram o desenvolvimento do direito desportivo, através de uma análise
histórica e antropológica da base deste instituto.
Lado outro, o segundo capítulo, aduz especificamente o surgimento da
legislação desportiva no Brasil, abordando apenas a questão jurídica, pelo prisma
temporal em que a legislação desportiva ganhou espaço no ordenamento jurídico, sob
a ênfase dos três momentos em que Álvaro de Melo a define.
E por fim, no terceiro capítulo, buscou-se um estudo pormenorizado da
Justiça Desportiva, através da análise da Lei 9.615/98, popularmente conhecida como
Lei Pelé, que hoje é o diploma de maior peso dentro da Justiça Desportiva. Visando
no fim, demonstrar a importância jurídica e social do fomento e disseminação do
direito desportivo na sociedade.
11

1 DESPORTO
“Citius, altius, fortius”
- Grécia Antiga, 2500 a.C.

Inicialmente cumpre ressaltar que ao tratar do tema desporto é necessário situá-


lo dentro da ordem social e do ordenamento jurídico.
Para profissionais do ramo da Educação Física, trata-se de uma atividade física
sujeita a determinadas regras e que visa à competição. 1
Segundo Uadi Lammêgo Bulos, o subsistema constitucional do desporto visa à
integração social do homem, e tem como ordem educar pelo esporte. 2 Completa o autor,
afirmando que através do desporto busca-se a expansão da personalidade humana,
incentivando a saúde, o bem-estar e o lazer.
Assim, quando se fala desporto, não é possível dizer que se trata de um sinônimo
de esporte. Ao praticar determinado tipo de esporte, emprega-se a palavra no sentido de
modalidade de exercício, jogo ou atividade física. Já o termo desporto refere-se à prática
organizada do esporte, o esporte federado, o esporte regulamentado e organizado por
federações, geralmente visando à competição. 3
E nesse diapasão, situa-se o Direito Desportivo que em consequência é o
conjunto de normas e princípios reguladores da organização e prática do desporto. Essas
normas e princípios estão inseridos na Lei Geral do Desporto, de nº 9.615/1998, com as
alterações das Leis nº 9.981/2000 e 10.672/2003.4
Antes porém, de tratar especificamente da justiça desportiva e da importância do
fomento desta judicialização, é imprescindível abordar o desporto em si, sua história,
seus conceitos, princípios, e sua função social, hoje amplamente valorizada inclusive na
Constituição Federal.

1.1 Aspectos históricos

1
KRIEGER, Marcílio Ramos. Lei Pelé e a legislação desportiva brasileira anotadas. Rio de Janeiro:
Forense, 1999, p.3.
2
BULOS, UadiLammêgo. Curso de Direito Constitucional. 7. ed. rev. e atual. de acordo com a Emenda
Constitucional n. 70/2012 – São Paulo: Saraiva, 2012, p.1587.
3
KRIEGER, Marcílio Ramos. Op.cit. Rio de Janeiro: Forense, 1999, p.5.
4
BULOS, UadiLammêgo. Op.cit. 7. ed. rev. e atual. de acordo com a Emenda Constitucional n. 70/2012
– São Paulo: Saraiva, 2012, p.1588.
12

Desde os tempos primórdios a competição se faz presente na vida do homem,


obviamente não o desporto institucionalizado de hoje, mas de qualquer maneira a
competição já existia. Em nosso cotidiano sempre houve uma permanente
competitividade, seja por alimento, por espaço, por trabalho, ou até mesmo para
sobrevivência. 5 Nesse sentido, assevera a autora Kátia Rubio em sua obra:

Se em determinados momentos históricos a prática esportiva esteve associada


ao tempo livre, ao lazer e a profissionalização, sua origem remete à
sobrevivência, ao culto aos deuses e ao cumprimento de rituais, visto à
valorização de que desfrutavam as proezas corporais, na forma de danças,
ginásticas e jogos.
A prática do exercício físico foi fator preponderante para o contexto
econômico dos povos primitivos, na medida em que sua atividade de caça
pesca e o desenvolvimento de técnicas rudimentares de cultivo, além de
envolver a atividade física necessária para o desempenho dessas funções,
garantia a sobrevivência do grupo.6

Os exercícios físicos bem desempenhados permitiam êxito nas empreitadas e


davam a condição necessária para a sobrevivência humana, infiltrando-se e
incorporando-se na vida social até o ponto de se instalarem definitivamente nos hábitos
cotidianos das pessoas.7
Com relação às guerras e exércitos, a melhor doutrina afirma que o
aperfeiçoamento e desenvolvimento da força física, agilidade e resistência era
indispensável pra a sobrevivência do soldado. Desta forma, as chances de vitória
também eram maiores nas guerras e batalhas, facilitando a demonstração de
superioridade de um determinado grupo de povos. 8
Lado outro, para antropólogos e filósofos o homem também é oportunamente
definido como homo ludens, além de sapiens, volens, loquens e faber, pois o homem
inventa jogos e diverte-se como nenhum animal sabe fazer. Afirma Battista Mondim,
doutrinador e doutor em história, filosofia e antropologia, que o jogo é a atividade típica
do homem, que se distingue profundamente, essencialmente dos animais não apenas
graças ao pensamento, à linguagem, ao trabalho, mas também graças ao jogo. 9

5
MELO, Victor Andrade de. História da educação física e do esporte no Brasil: panorama e
perspectivas. 1. ed. São Paulo: IBRASSA, 1999, p.35.
6
RUBIO, Kátia. O Atleta e o Mito do Herói: o imaginário esportivo contemporâneo. 1. ed. São
Paulo: Casa do Psicólogo, 2001, p. 109.
7
MELO, Victor Andrade de. Op.cit. 1. ed. São Paulo: IBRASSA, 1999, p.35.
8
Ibid, p. 37.
9
MONDIN, Battista. O homem, quem é ele? : elementos de antropologia filosófica. 14ª. ed. São
Paulo: Paulus, 1980, p. 215.
13

Com o passar dos tempos, a prática de atividades físicas foi se tornando não só
meio de sobrevivência, mas também importante fonte de lazer e diversão. Daí então a
manifestação das atividades físicas, como forma instintiva de brincar, sem regras
previamente estabelecidas e que se opõe à seriedade do trabalho, incorporou-se
naturalmente à cultura dos povos, assumindo a feição daquilo que denominamos jogo.
O “jogo” deu a origem do esporte, considerando que esporte é o jogo institucionalizado,
regulado por regras e comandado pelas federações.10
Diversas descobertas indicam que no ano 4000 a.C, o esporte já se fazia presente
na vida do ser humano, pois já se praticavam desportos na China, como no Antigo
Egito, onde eram realizadas competições de natação, pesca, salto em altura e luta.
Apesar, de todos os países onde a prática esportiva era fomentada, foi na
sociedade grega o forte referencial desportivo onde os exercícios físicos assumiram uma
finalidade educativa. Sócrates apud Victor Andrade de Melo aduz a importância do
esporte na época:

Nenhum cidadão tem o direito de ser um amador na matéria de adestramento


físico, sendo parte de seu ofício, como cidadão, manter-se em boas
condições, pronto para servir ao Estado sempre que preciso. Além disso, que
desgraça é para o homem envelhecer sem nunca ter visto a beleza e sem
conhecido a força que seu corpo é capaz de produzir.11

Na Grécia Antiga, os primeiros instrumentos de educação eram a música, ou a


cultura literária e artística para o espírito, e a ginástica para o corpo, atividades físicas
eram uma prática corriqueira, que atraíam multidões, seus praticantes eram jovens e
idosos. Platão esclarece que, essas disciplinas afetavam o caráter e estreitavam os laços
entre os cidadãos, conceituando o equilíbrio entre o corpo e espírito, para os gregos o
corpo era o essencial. Dessa prática veio a tão conhecida frase: Mens sana in corpore
sano.12
Ainda na Antiga Grécia, o esporte continha determinadas características que
uniam religião e guerra. Como maior exemplo desse fenômeno, citam-se as Olimpíadas,

10
MONDIN, Battista. O homem, quem é ele? : elementos de antropologia filosófica. 14ª. ed.São
Paulo: Paulus, 1980, p. 39.
11
SÓCRATES apud MELO, Victor Andrade de. História da educação física e do esporte no Brasil:
panorama e perspectivas. 1. ed. São Paulo: IBRASSA, 1999, p.40.
12
PLATÃO apud MELO, Victor Andrade de. História da educação física e do esporte no Brasil:
panorama e perspectivas. 1. ed. São Paulo: IBRASSA, 1999, p.40.
14

criadas por volta de 2500 a.C., momento em que os gregos realizavam festivais
esportivos em homenagem a Zeus, a maior divindade da mitologia grega.13
Em 456 a.C., com o declínio do país e o advento da conquista da Grécia pelos
Romanos, as olimpíadas foram perdendo a força. O que inicialmente era visto como
uma proposta de integração entre os cidadãos em competições cordiais, cedeu espaço
para disputas cada vez mais violentas, culminando na última olimpíada da Era Antiga,
em 393 d.C. A partir deste ponto e por toda a Idade Média, o esporte viveu um período
de completa estagnação, quase não há relatos durante este período.14
Com a ascensão do cristianismo e a queda do Império Romano que durou por
toda a Idade Média, o culto ao corpo foi considerado um pecado, ficando a atividade
física, esquecida. Com o advento no humanismo e posteriormente do renascimento nos
séculos XVI XVII a atividade física voltou a ser apreciado, influenciado por Petrarca e
Rabelais, o médico humanista JeronimusMercurialis publicou em 1569 a
Arte Ginástica, obra na qual recuperou a teoria greco-romana, sobretudo no sentido do
exercício físico para a saúde. 15
A atividade física orientou-se basicamente, em detrimento da formação de
atletas. Baltasar de Castiglione, na sua obra, O Cortesão, traçou a imagem do perfeito
cavalheiro renascentista, incluindo inúmeras referências à educação física, que estava
inserida no conceito de educação integral e servia para a expressão da personalidade do
indivíduo. Na medida em que os desportos se foram tornando cada vez mais populares e
com o número crescente de adeptos dispostos a fazer tudo por tudo para assistir à
prática desportiva dos atletas, juntamente com o desenvolvimento dos meios de
comunicação e o incremento do tempo de lazer, os desportos passaram a
profissionalizar-se. Desta forma, os desportistas começaram a receber dinheiro por e
para se dedicarem aos treinos e às competições.16
Os conceitos mais modernos de esporte surgiram na Europa no século XVIII,
quando a Educação Física voltou a ser sistematizada, e no século seguinte, na
universidade de Oxford, na Inglaterra, surge à reforma dos conceitos desportivos,

13
MELO, Victor Andrade de. História da educação física e do esporte no Brasil: panorama e
perspectivas. 1. ed. São Paulo: IBRASSA, 1999, p. 41.
14
RUBIO, Kátia. O Atleta e o Mito do Herói: o imaginário esportivo contemporâneo. 1. ed. São
Paulo: Casa do Psicólogo, 2001, p. 117.
15
Ibid, p. 118.
16
Ibid, p. 120.
15

definindo as regras para os jogos. Foi a partir deste momento, com a padronização dos
regulamentos, que houve a internacionalização do esporte.17
No fim do século XIX, Kátia Rubio enumera três linhas doutrinárias distintas de
atividade física: a ginástica nacionalista, em que eram valorizados os aspectos
relacionados ao patriotismo e à ordem; a ginástica médica, interligada com os fins
terapêuticos e preventivos; e o movimento do esporte, que inseriu a concepção moderna
de esporte e impulsionou a restauração do movimento olímpico, com o Barão Pierre de
Coubertin, levando à realização da primeira Olimpíada da Era Moderna em 1896, em
Atenas.18
Durante a primeira metade do século XX, é plausível dizer que o esporte teve
um lento desenvolvimento, em virtude das duas grandes guerras, da Revolução
Comunista e o Crack da Bolsa de Nova York, que de uma forma ou de outra acabaram
por impedir três edições dos Jogos Olímpicos.19
Já a segunda metade do século foi decisiva para o desporto. Nesse sentido
Álvaro Melo Filho leciona:

O prodigioso desenvolvimento do desporto é uma das características da


última metade do século XX, até o ponto de que sua extensão universal
converteu-o em fenômeno sem equivalência na cena social, cultural,
econômica e política das atuais sociedades, independentemente do nível
social de desenvolvimento obtido.20

Nesta mesma época, a Organização Mundial de Saúde considera a atividade


física um passo muito importante na promoção da saúde física, mental e social,
considerando-o um dos fenômenos de maior impulso dos séculos XX e XXI, sendo
aderido praticamente em todas as sociedades como uma prática social, caracterizando o
esporte não apenas por uma vertente competitiva e institucionalizada, mas também
como uma atividade de promoção social. 21
O final do século XX foi de extrema importância para as mudanças ocorridas na
prática esportiva em geral, em apertada síntese, a última década do século propiciou a
aceleração nessas mudanças, ocasionando a consolidação das ideias de “esporte para

17
MELO, Victor Andrade de. História da educação física e do esporte no Brasil: panorama e
perspectivas. 1. ed. São Paulo: IBRASSA, 1999, p. 43.
18
RUBIO, Kátia. Op.cit.1. ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001, p. 120.
19
Ibid, p. 121.
20
MELO FILHO, Álvaro. O Desporto na Ordem Jurídico-Constitucional Brasileira. 5. ed. São Paulo:
Malheiros, 1995, p. 7.
21
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE apud MELO FILHO, Álvaro. O Desporto na Ordem
Jurídico-Constitucional Brasileira. 5. ed. São Paulo: Malheiros, 1995, p. 9.
16

todos”, onde o esporte começou a ser disseminado e incentivado indistintamente, com


outras concepções e finalidades.22 Como exemplo de tais mudanças, encontra-se o papel
do Estado frente ao esporte, momento em que ele deixa de ser apenas tutor de atividades
esportivas e passa a ter que investir em recursos humanos para a promoção do esporte.
Por fim, é cabível dizer que, diante da magnitude do fenômeno esportivo, da
proporção tomada pelo desporto e com a devida influência que a prática esportiva tem
sobre as massas e os mais diversos povos, era imprescindível que fossem elaboradas
normas e regras de caráter nacional e internacional, assim como a necessidade um
ordenamento jurídico próprio. A importância do desporto encontra fundamento, ao ser
vista como um fenômeno social, político, econômico e cultural, já que através do
esporte, atinge as mais amplas camadas sociais e reflete diretamente nas diretrizes
básicas de cada país.

1.2 Desporto

O conceito de desporto pode ser definido como um fenômeno sociocultural, que


engloba a atividade física competitiva com finalidade recreativa ou profissional, ou
apenas com a finalidade de lazer, contribuindo para a formação e desenvolvimento
físico, intelectual e psicológico de todos os seus participantes e espectadores, gerando a
inclusão social entre eles.23
Trata-se de um fenômeno sociocultural cuja prática é considerada direito de
todos e que tem no jogo o seu vínculo cultural e na competição seu elemento essencial,
o qual deve contribuir para a formação e aproximação dos seres humanos ao reforçar o
desenvolvimento de valores como a moral, a ética, a solidariedade, a fraternidade e a
cooperação, o que pode torná-lo um dos meios mais eficazes para a convivência
humana.24
Álvaro de Melo Filho, afirma que ao contrário do que a maioria dos autores
aduz, o desporto não possui apenas caráter de aprimoramento físico:

22
MELO FILHO, Álvaro. O Desporto na Ordem Jurídico-Constitucional Brasileira. 5. ed. São Paulo:
Malheiros, 1995, p. 10.
23
Ibid, p. 14.
24
Ibid, p. 15-16.
17

Vale salientar que “Desportos” tornou-se expressão universalmente


consagrada para designar o ramo de conhecimentos que se apresenta, ao
mesmo tempo, como ciência – conjunto organizado de conhecimentos
relativos a certos fenômenos, com princípio e métodos próprios, técnica –
conjunto de processos e recursos para alcançar objetivos práticos, e arte –
habilidade e estilo na execução de uma atividade, tudo isto objetivando a uma
integridade física e mental do ser humano.25

No mesmo sentido, Marco Paulo Stigger, relata que o esporte: “(...) é uma
prática que tem possibilidades de se desenvolver numa perspectiva multicultural, ou
seja, que se expressaria numa diversidade de manifestações, além daquela que tem
maior visibilidade social, o esporte de rendimento.” E conclui ainda o autor:

(...) se é inegável que o esporte - como é praticado hoje - é resultado da


padronização de uma forma particular de usar o corpo, também é verdade que
a sua popularização levou ao surgimento de diferentes formas de praticá-lo.
Por um lado o esporte apresenta uma perspectiva homogênea que permite
serem realizadas trocas esportivas em escala global; por outro, a sua
democratização trouxe consigo uma diversidade cultural no que se refere às
suas formas de realização e aos sentidos que lhe são atribuídos.26

Desta forma, pode-se afirmar que o desporto é muito mais abrangente do que
apenas para o aprimoramento físico, como em regra, é aduzido. Ele possui também o
caráter de formação intelectual, moral e social, além de características de instrumento
educacional e regenerador da parte da sociedade que é marginalizada.
Muitos outros conceitos de deporto poderiam ser propostos, no entanto, como o
escopo do presente trabalho é lançar a importância direito desportivo, tanto em função
dos esportes como para o poder judiciário, e a devida implantação da Justiça Desportiva
no âmbito municipal, estadual e federal, faz-se mister consignar além da doutrina, o
diploma legal que possui em seu cerne, atualmente, a conceituação do desporto:

Art. 3o O desporto pode ser reconhecido em qualquer das seguintes


manifestações:
I - desporto educacional, praticado nos sistemas de ensino e em formas
assistemáticas de educação, evitando-se a seletividade, a
hipercompetitividade de seus praticantes, com a finalidade de alcançar o
desenvolvimento integral do indivíduo e a sua formação para o exercício da
cidadania e a prática do lazer;
II - desporto de participação, de modo voluntário, compreendendo as
modalidades desportivas praticadas com a finalidade de contribuir para a
integração dos praticantes na plenitude da vida social, na promoção da saúde
e educação e na preservação do meio ambiente;

25
MELO FILHO, Álvaro. O Desporto na Ordem Jurídico-Constitucional Brasileira. 5. ed. São Paulo:
Malheiros, 1995, p. 16.
26
STIGGER, Marco Paulo. Educação Física, esporte e diversidade. 1. ed. São Paulo: Autores
Associados, 2005, p. 29.
18

III - desporto de rendimento, praticado segundo normas gerais desta Lei e


regras de prática desportiva, nacionais e internacionais, com a finalidade de
obter resultados e integrar pessoas e comunidades do País e estas com as de
outras nações.
IV - desporto de formação, caracterizado pelo fomento e aquisição inicial dos
conhecimentos desportivos que garantam competência técnica na intervenção
desportiva, com o objetivo de promover o aperfeiçoamento qualitativo e
quantitativo da prática desportiva em termos recreativos, competitivos ou de
alta competição. 27

Nota-se que a legislação brasileira subdivide o desporto em três prismas:


desporto de rendimento; desporto educacional e desporto de participação.
Infere-se assim, que em relação ao conceito de desporto, ele deverá ser
concebido em sentido amplo, de forma que todos os níveis de conhecimento e
aperfeiçoamento em que este fenômeno esteja inserido, sejam devidamente abrangidos,
evitando-se desta maneira, que visão restrita de que o desporto é exclusivamente físico
impeça os objetivos dos doutrinadores e estudiosos nesse campo.

1.3 Histórico do Direito Desportivo

O desporto a partir do momento que se formalizou na sociedade como um


fenômeno mundial que atrai milhares de pessoas, não poderia em momento algum
permanecer sem a tutela do direito, como maneira de regular essa atividade dentro do
contexto social.28
Norberto Bobbio, parte da definição de direito como “um conjunto de normas ou
regras de conduta”, como forma de enaltecer a normatividade. Aduz que o ser humano
em si, dentro da sociedade, vê-se permeado de procedimentos aos quais está preso,
sejam eles de carisma moral, social, religioso ou jurídico. 29
Para o doutrinador, toda e qualquer sociedade está repleta de uma normatividade
implícita que se modifica de acordo com a sociedade e a época, a análise histórica
evidencia tal fato e oferece uma resposta que é gerada em torno de todo o poder da
norma.30

27
BRASIL. Lei 9.615 de 24 de Março de 1998. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9615consol.htm> Acesso em: 30. Jun. 2016.
28
MELO FILHO, Álvaro. O Desporto na Ordem Jurídico-Constitucional Brasileira. 5. ed. São Paulo:
Malheiros, 1995, p. 23.
29
BOBBIO, Norberto. Teoria da Norma Jurídica. Bauru: EDIPRO, 2001, p. 49.
30
Ibid.
19

Hans Kelsen vai dizer que o direito é um meio social específico, e não um fim,
que faz uso da sanção como reação da ordem jurídica e da comunidade contra eventuais
disfunções.31
Já Marcílio Ramos Krieger traz a concepção do direito como o complexo
orgânico cujo conteúdo é constituído pelas soma de preceitos, regras e leis, com as
respectivas sanções, que regem as relações individuais e coletivas. 32
Nota-se que os três doutrinadores, do mais antigo ao mais recente, embora de
formas diversas, concordam que o direito existe com o intuito de harmonizar as relações
humanas e implantar a ordem jurídica em sociedade. Desta forma, uma vez conceituado
o desporto, como um fenômeno sociocultural, que engloba a atividade física e contribui
para a formação e desenvolvimento físico, intelectual e psicológico de todos os seus
participantes e espectadores, gerando a inclusão social, o direito desportivo pode ser
definido como o conjunto de normas que regula a atividade desportiva, sua prática,
organização e administração. Como conceitua a melhor doutrina:

O Direito Desportivo é o conjunto de técnicas, regras e instrumentos


jurídicos, sistematizados através dos tempos, que têm por objetivo final
disciplinar a prática e a ciência dos desportos em suas diversas modalidades.
Embora não apresente especialidade de princípios gerais, o Direito
Desportivo constitui uma unidade sistemática, uma independência e uma
autonomia capazes de ombrear todos os demais ramos do direito, sem neles
perder a sua especialidade.33

Marcílio Ramos Krieger conceitua o direito desportivo como “o conjunto de leis


constitucionais e ordinárias, portarias, decretos e outras disposições infra legais, normas
e regulamentos das competições, com as respectivas sanções que rege relações entre
pessoas físicas e jurídicas que atuam na área desportiva.” 34
Noutro vértice, Álvaro Melo Filho, sustenta que o Direito Desportivo é um
conjunto de técnicas, regras, instrumentos jurídicos sistematizados, que possuem o
escopo de disciplinar os comportamentos exigíveis na prática do desporto, em todas as
suas modalidades.35

31
KELSEN, Hans. Teoria geral do direito.São Paulo: Ed. Martins Fontes: 1998, p. 56.
32
KRIEGER, Marcílio Ramos. Lei Pelé e a legislação desportiva brasileira anotadas. Rio de Janeiro:
Forense, 1999, p. 34.
33
RUBIO, Kátia. O Atleta e o Mito do Herói: o imaginário esportivo contemporâneo. 1. ed. São
Paulo: Casa do Psicólogo, 2001, p. 128.
34
KRIEGER, Marcílio Ramos. Op.cit. Rio de Janeiro: Forense, 1999, p. 36.
35
MELO FILHO, Álvaro. O Desporto na Ordem Jurídico-Constitucional Brasileira. 5. ed. São Paulo:
Malheiros, 1995, p. 25.
20

Assim, infere-se pela junção dos conceitos elaborados, que o direito desportivo
constitui-se pelo conjunto de normas escritas e consuetudinárias que regulam a prática e
a organização do desporto, em geral quanto às questões jurídicas pela existência do
esporte como fonte social.
A melhor doutrina afirma ainda que é de suma importância que se promova o
crescimento e o desenvolvimento desta área do Direito, como foi feito com as demais,
para que desta forma busque-se sempre mais a verdadeira justiça.36
Infelizmente existe hoje pouco incentivo às pesquisas, estudos e capacitação de
profissionais neste ramo, pois em geral, vê-se o desporto apenas como atividade física
quando na verdade é o principal instrumento de inclusão social, e a maior prova disso
são os resultados das Olimpíadas do Rio de Janeiro, os atletas brasileiros que em sua
maioria saíram de lugares de extrema pobreza para brilhar no pódio pelo esporte.
Portanto, essa é a busca do presente trabalho, demonstrar a importância jurídica e social
do direito desportivo.

1.4 Origem do Direito Desportivo

É plausível dizer que o direito em si, sempre esteve presente em sociedade,


desde o momento em que o homem percebeu a necessidade de criar regras para um bom
convívio, para organizar as relações interpessoais, assim como para sua prática
esportiva e esta deixou apenas de visar o lazer, criando mesmo que tacitamente, o
direito.37
A partir deste pensamento, é aceitável afirmar que o direito desportivo teve sua
origem concomitantemente ao desporto, conforme afirma o doutrinador Álvaro Melo
Filho, a legislação desportiva tem suas origens ligadas nas regras que povos primitivos
criavam e seguiam, como se sagradas fossem.38
Ainda nos ensinamentos do ilustre doutrinador, afirma em sua obra, que no
antigo Egito eram feitos exercícios físicos, e a Lei de Manu conferia a ginástica um

36
MELO FILHO, Álvaro. O Desporto na Ordem Jurídico-Constitucional Brasileira. 5. ed. São Paulo:
Malheiros, 1995, p. 25.
37
Ibid, p. 27.
38
Ibid.
21

sentido religioso tornando tais exercícios obrigatórios.39 Desporto e religião eram


inseparáveis.
Um pouco mais adiante, na Grécia, os filósofos eram responsáveis por apreciar
as regras do desporto, tendo em vista a importância que lhe era atribuída. 40
Um fato de suma importância que deve ser mencionado, são os jogos Helênicos,
que aconteciam em Roma apresentando gladiadores que lutavam entre si, assim como
com feras:

Em Roma as finalidades religiosas ou militares determinantes da competição


outorgavam aos atletas proteção jurídica e imputabilidade no âmbito do
Direito Romano, além da valorização do desporto, ensejar direitos,
privilégios e regalias aos atletas. Conclui-se que, em face das colocações
anteriores, que o desporto, na sociedade greco-romana, tinha significado
social e político.41

Durante a Idade Média, devido à influência do Cristianismo, que não aceitava a


morte de pessoas por motivos torpes, o desporto, assim como o direito desportivo, não
progrediu, perdendo consideravelmente sua importância. 42
Foi na Inglaterra que o desporto aflorou novamente, através do regulamento de
certos jogos populares e da implantação da atividade física nas escolas, evoluindo cada
vez mais.43
O desenvolvimento do desporto atingiu de forma proeminente o meio social,
político, econômico e cultural dos países, pois surge não apenas como legislação, mas
adentra o íntimo constitucional de várias nações, fruto de importância de
acontecimentos como as Olimpíadas e o Campeonato Mundial de Futebol, além de
forma de lazer é um importante instrumento de integração social.44
Infere-se que o Direito Desportivo obteve um crescimento considerável em todo
o mundo, e através das diversas demandas tem influenciado diretamente várias outras
áreas do direito, como sustenta Álvaro Melo Filho:

A importância do Direito Desportivo é tamanha, já que os temas jurídicos do


desporto podem ser observados sob diversos ângulos, como o do desporto
espetáculo, do desporto competição, do desporto profissão, do desporto

39
MELO FILHO, Álvaro. O Desporto na Ordem Jurídico-Constitucional Brasileira. 5. ed. São Paulo:
Malheiros, 1995, p. 27.
40
Ibid.
41
Ibid, p. 28.
42
Ibid.
43
Ibid.
44
Ibid, p. 29.
22

comunitário, do desporto classista, do desporto infantil, do desporto militar,


etc...45

Basta uma breve análise dos clubes que formam a base, das ligas que sustentam
essa base, das federações, das confederações nacionais e internacionais, para perceber o
tamanho da legislação desportiva, o importante papel que vem desempenhando.

45
MELO FILHO, Álvaro. O Desporto na Ordem Jurídico-Constitucional Brasileira. 5. ed. São Paulo:
Malheiros, 1995, p. 31.
23

2 O DIREITO DESPORTIVO NO BRASIL

O esporte não leva em conta etnia, religião, ideologia. O importante é a capacidade de


o homem superar seus próprios limites, tornando a vida um precioso significado.
- Autor Desconhecido.

Tratar do direito desportivo brasileiro é um tanto quanto difícil, já que nas


pesquisas realizadas para elaboração do presente trabalho, ínfimas foram as obras
encontradas para estudo. O tema, embora previsto na Constituição de 1988, ainda é
recente e pouco se tem a seu favor na doutrina brasileira. E do que se encontra, boa
parte trata exclusivamente do futebol.
Como já mencionado anteriormente, a origem do Direito Desportivo se confunde
com a origem do desporto, e no Brasil, não foi diferente. O direito desportivo exerceu
sobre o desporto uma força singular de forma a moldá-lo conforme o ordenamento
jurídico vigente na sociedade brasileira.46 Conforme leciona Victor Andrade de Melo:

No Brasil – como é observado quando a legislação brasileira é objeto de


análise deste estudo – esta política intervencionista tem sua origem já nos
primeiros diplomas legais que dizem respeito ao desporto. O Estado, no
Brasil, sempre fez questão de manter o controle do desporto nacional, para
que este não pudesse ser utilizado como instrumento dos opositores ao
sistema dominante na manifestação de seus interesses.47

É possível notar que existia uma preocupação Estatal em dominar e intervir no


desporto de maneira que pudesse ser utilizado como um instrumento útil e eficaz na
prática estatal de ideologias e política interna.48
Segundo alguns doutrinadores a legislação desportiva brasileira surgiu e aflorou
de forma desorientada, já que não havia organização ou mesmo hierarquia desportiva
subordinada à lei. Em aperta síntese, é possível resumir que a prática desportiva ficava a
mercê de entidades dirigentes dos mais diversos ramos desportivos, através de
associações e clubes, que baseavam suas ações no desporto internacional. 49Com

46
MELO, Victor Andrade de. História da educação física e do esporte no Brasil: panorama e
perspectivas. 1. ed. São Paulo: IBRASSA, 1999, p.47.
47
Ibid.
48
Ibid, p.48.
49
MELO FILHO, Álvaro. O Desporto na Ordem Jurídico-Constitucional Brasileira. 5. ed. São Paulo:
Malheiros, 1995, p. 36.
24

exceção do futebol, todos os outros esportes sofreram pela escassez de diplomas legais
que regulassem suas atividades.
Segundo Álvaro Melo Filho, quando houve a fusão da Federação Brasileira de
Sports e da Federação Brasileira de Futebol, em 1916, surgiu a Confederação Brasileira
de Desportos, cujo escopo era cuidar da prática do esporte de maneira geral e como
forma de lazer.50
Foi a partir desse instante, em meados da década de 1930, que o Estado passou a
exercer interferência nas atividades esportivas do país. Com o espaço e a notoriedade
que o esporte adquiriu, inserido na cultura, saúde, política, economia e religião, passou a
ter status de integração social. Nesse mesmo sentido, Álvaro Melo Filho, assevera:

(...) a estatização do desporto, só admissível em países totalitários,


transfundiu-se no Brasil, com o passar do tempo, em estatização velada, sub-
reptícia, de certa forma imperceptível, mas tremendamente atuante, agindo
como se fosse um polvo, a estender seus tentáculos restritivos da liberdade de
associações, interferindo até na economia interna das entidades desportivas,
tirando-lhes a autonomia.51

A doutrina por sua vez, concorda quando afirma que a preocupação do Estado
Brasileiro com o desporto nunca foi por motivos humanitários ou mesmo pela prática e
divulgação dos esportes, mas sim com uma intenção velada de beneficiar o país, seja
através da prática desportiva de alto rendimento, da preparação de equipes olímpicas ou
mesmo com o intuito de esconder a real situação do país, tornando-o uma grande
potencia esportiva, quando na verdade a má distribuição de renda, gerava e gera cada
vez mais o caos.52

2.1 Legislação desportiva brasileira

Para fins de estudo, Álvaro Melo Filho, assim como outros autores, dividiram o
ordenamento jurídico-desportivo do Brasil em três etapas: a primeira que vai de 1932 a
1945, e adentra com a legislação criada desde a Aliança Liberal até o Estado Novo; a
segunda etapa que versa entre o fim da ditadura militar e a promulgação da Constituição

50
MELO FILHO, Álvaro. O Desporto na Ordem Jurídico-Constitucional Brasileira. 5. ed. São Paulo:
Malheiros, 1995, p. 37.
51
Ibid, p. 41.
52
Ibid.
25

de 1988; e por fim, a terceira etapa que compreende desde momento da promulgação da
Constituição Federal, até os dias atuais.
É imperioso dizer que logo de início o autor demonstra como houve influência
do estado no direito desportivo, já que durante a primeira etapa, pelo esporte, eram
introduzidas na população conceitos fascistas de Benito Mussolini, aplicados no Brasil
por Getúlio Vargas.53
Passa-se agora a uma breve análise da legislação desportiva brasileira desde os
seus primórdios.
Em 1º de Julho de 1938, com a promulgação do Decreto- lei nº 526/38 que
instituiu o Conselho Nacional de Cultura é que a legislação desportiva brasileira de fato
começou a ser elaborada.54
Este Conselho era responsável pelas atividades relativas ao desenvolvimento
cultural, incluindo a educação física e a recreação individual e coletiva.55
De uma maneira geral, a doutrina concorda que este foi o marco inicial da
legislação desportiva no Brasil.
Lado outro, existe uma corrente doutrinária que admite o início da legislação
desportiva brasileira apenas após a promulgação do Decreto-lei 1056/39, que deu
origem a Comissão Nacional do Desporto, órgão responsável pela elaboração de um
Código Nacional de Desporto, com o fim de organizar uma instituição desportiva no
Brasil.56
A Comissão Nacional do Desporto era composta por cinco membros, que
elaboraram o projeto do Código Nacional de Desportos, com o seguinte preâmbulo:

Esta lei tem por fim organizar a instituição desportiva no Brasil, regulando-a
pelas necessidades e condições peculiares do país, sem desprezar o bom
entendimento com as congêneres e unificando em toda a República a
orientação do movimento desportivo que interessa profundamente a
mocidade brasileira, na sua formação física e espiritual.

O Decreto foi extremamente criticado, sob o prisma de que se tratava de uma


farsa utilizada para obrigar a população a seguir a máxima totalitária do governo.

53
MELO FILHO, Álvaro. O Desporto na Ordem Jurídico-Constitucional Brasileira. 5. ed. São Paulo:
Malheiros, 1995, p. 50.
54
Ibid, p. 51.
55
Ibid.
56
KRIEGER, Marcílio Ramos. Lei Pelé e a legislação desportiva brasileira anotadas. Rio de Janeiro:
Forense, 1999, p.37.
26

Foi em 1941, mediante o Decreto-Lei 3199/41 que muitos doutrinadores


consideram a entrada em vigor da primeira lei orgânica do desporto brasileiro. O
decreto mencionado inovou a escassa legislação desportiva brasileira, estabeleceu bases
de organização desportiva em todo o país, criou o Conselho Nacional de Desportos,
assim como os Conselhos Regionais de Desporto, além disso, criou Confederações e
instituiu que estas deveriam seguir as regras desportivas internacionais em seus atos e
decisões.57 Nas palavras de Marcílio Ramos Krieger:

No caso do Brasil, a estrutura institucionalizada do desporto foi oficializada


em 1941, quando o Decreto-Lei nº 3199 determinou que cada confederação
adotasse o código de regras desportivas da entidade nacional a que estivesse
filiada e o fizesse observar rigorosamente pelas entidades nacionais que lhe
estivessem direta ou indiretamente vinculadas. Assim como de entidades
particulares.58

Álvaro Melo Filho ao tratar do assunto afirma que o Decreto-Lei 3199, já nasceu
com o objetivo de controlar as atividades esportivas, e que em momento algum a
intenção do Estado era promover o desporto ou mesmo garantir o desenvolvimento útil
do processo.59
De maneira geral este Decretou inovou o ordenamento jurídico-desportivo
brasileiro, dentre elas, diversas confederações passaram a adotar as práticas desportivas
brasileiras, das regras advindas de entidades internacionais, o que evidentemente tornou
possível a uniformização do desporto mundial.60
Lado outro foi a partir daí que foi introduzida por vias ordinárias a competência
da União para legislar sobre o desporto, devidamente respeitada pelos estados
federados.61
É de suma importância destacar que o ano de 1941 foi inovar para o Direito
Desportivo, pois foi também neste ano, que a Confederação Brasileira de Desporto
Universitário foi criada, pelo decreto 3617/41. Ainda em 1941, uma portaria ministerial,
qual seja, nº254, determinou que as confederações e federações desportivas devessem

57
MELO FILHO, Álvaro. O Desporto na Ordem Jurídico-Constitucional Brasileira. 5. ed. São Paulo:
Malheiros, 1995, p. 53.
58
KRIEGER, Marcílio Ramos. Lei Pelé e a legislação desportiva brasileira anotadas. Rio de Janeiro:
Forense, 1999, p.39.
59
MELO FILHO, Álvaro.Op. cit. 5. ed. São Paulo: Malheiros, 1995, p. 53.
60
Ibid.
61
Ibid.
27

aderir a um código de disciplina e penalidades, assim como um manual específico de


direitos e deveres dos atletas. 62
Aproximadamente um ano depois, através de uma resolução do Conselho
Nacional de Desportos, nasce no Brasil a Justiça Desportiva, exatamente aos dois dias
do mês de novembro de 1942. Foram traçados diversas normas relativas à disciplina dos
espetáculos de futebol, às entidades desportivas e à organização. Foi também instituído
um Tribunal de Penas, responsável inicialmente apenas para atuar nas áreas do futebol.
63

Em 1943, foi aprovado o decreto 5342/43, que reconhecia oficialmente a prática


profissional do futebol, determinando a necessidade de registro de técnicos e jogadores
de futebol na Confederação Brasileira de Desportos. Além disso, o decreto foi
responsável por reconhecer a competência do CND para punir atletas profissionais,
auxiliares, árbitros, e entidades desportivas. 64
Como se nota, a primeira fase da legislação desportiva do Brasil foi evoluindo
ano após ano, em 1945, o último decreto desta primeira fase foi aprovado, e instituiu a
necessidade de um órgão fiscalizador da gestão financeira em cada entidade ou
associação desportiva, e veio também a instituir a possibilidade de empréstimos para tal
entidade.65
Desse momento em diante, diversos decretos foram expedidos com a intenção de
legalizar e regular o que ainda esta vago, tais como, o Decreto nº 19425/45, que aprovou
o Regimento do Conselho Nacional de Desportos; o Decreto nº 8012/45, que firmou as
bases de organização das atividades sociais e desportivas dos servidores públicos; o
Decreto 8221/45, que implantou o exame de educação física aos médicos assistentes dos
estabelecimentos de ensino e associações desportivas; e por fim o Decreto-Lei 8458/45,
que tratava do registro das entidades e associações desportivas de quais quer categorias
em todas as esferas. 66
Após a aprovação do Regimento do Conselho Nacional de Desporto, o CND
aprovou o primeiro Código Brasileiro de Futebol, em 16 de agosto de 1945.
A doutrina aduz que o Código Brasileiro de Futebol era bastante simples e
sucinto, no entanto arcava com todas as necessidades futebolísticas da época. O Código

62
MELO FILHO, Álvaro. O Desporto na Ordem Jurídico-Constitucional Brasileira. 5. ed. São Paulo:
Malheiros, 1995, p. 54-55.
63
Ibid, p. 57.
64
Ibid.
65
Ibid, p. 58.
66
Ibid.
28

esteve em vigor por doze anos, e quando deixou de surtir efeitos foi apenas seis meses,
durante a vigência do Código Brasileiro de Justiça e Disciplina Desportiva, que foi
revogado por ser bastante complexo para reger todos os esportes. Assim após uma
decisão do CND, o Código Brasileiro de Futebol foi novamente adotado e instituiu-se
cada ramificação esportiva contaria com regras próprias, com o intuito de separar o
esporte profissional do amador. 67
Com isso, iniciou-se o segundo período da legislação desportiva brasileira, como
assevera Krieger:

Com o fim do Governo de Getúlio Vargas, houve inúmeras alterações na


legislação desportiva brasileira, reflexos das mudanças mundiais
provenientes do fim da Segunda Guerra Mundial. Iniciou-se então, o segundo
período do ordenamento jurídico-desportivo no Brasil, que trouxe em seu
bojo as marcas do autoritarismo do período da ditadura militar,
transparecendo o caráter intervencionista do Estado.68

Durante este período estava instituída a burocracia e a cartorialização no esporte


brasileiro, o que evidentemente veio a obstaculizar a prática esportiva por muito tempo,
culminando inclusive no momento em que o CND consolidou a tutela estatal sobre o
Esporte tirando cada vez mais a autonomia das entidades esportivas. Permanecendo este
quadro caótico até a metade da década de 70.69
É importante ressaltar que durante as décadas de 60 e 70, diversos outros
decretos foram aprovados regulando temas menores e menos influentes referentes ao
desporto, e por tal fato não serão mencionados neste trabalho, porém foram objetos de
estudo para compreensão da evolução histórica da legislação desportiva brasileira.70
Em outubro de 1975, a Lei 6251//75 foi promulgada. O referido disposto legal
instituía normas gerais sobre o desporto, a expedição de normas referentes à
manutenção da ordem desportiva e à organização da justiça e disciplina desportiva. A
lei em questão foi ampla e tratou detalhadamente o tema desporto, sendo inclusive
considerada a primeira lei geral sobre o tema, conforme leciona Álvaro de Melo Filho:

Plúrimas são as matérias e temáticas desportivas tratadas nos 52 artigos da


Lei 6251/75: política nacional e plano nacional de educação física e
desportos; recursos para o desporto; sistema desportivo nacional desdobrado

67
MELO FILHO, Álvaro. O Desporto na Ordem Jurídico-Constitucional Brasileira. 5. ed. São Paulo:
Malheiros, 1995, p. 59.
68
KRIEGER, Marcílio Ramos. Lei Pelé e a legislação desportiva brasileira anotadas. Rio de Janeiro:
Forense, 1999, p.47.
69
MELO FILHO, Álvaro.Op. cit. 5. ed. São Paulo: Malheiros, 1995, p. 61.
70
Ibid.
29

sob as formas de organização comunitária, estudantil, militar e classista;


Conselho Nacional de Desportos com a sua composição e estrutura; medidas
de proteção especial de desportos.71

Embora inovadora e ampla, a maioria da doutrina considera essa lei tão


intervencionista e forte como durante o Estado Novo, que perdurou até a promulgação
da Constituição Federal de 1988.72
A partir daí, com a promulgação da Constituição de 1988, iniciou-se a terceira
fase do ordenamento jurídico desportivo brasileiro. A Carta Maior inovou ao garantir a
autonomia desportiva assegurada às entidades desportivas vigentes e às associações,
afastando definitivamente o intervencionismo estatal do desporto, de modo a prevalecer
à iniciativa privada sobre o assunto.73 Conforme traz o Texto Constitucional:

Art. 217. É dever de o Estado fomentar práticas desportivas formais e


não formais, como direito de cada um, observados:
I - a autonomia das entidades desportivas dirigentes e associações,
quanto a sua organização e funcionamento;
II - a destinação de recursos públicos para a promoção prioritária do
desporto educacional e, em casos específicos, para a do desporto de alto
rendimento;
III - o tratamento diferenciado para o desporto profissional e o não
profissional;
IV - a proteção e o incentivo às manifestações desportivas de criação
nacional.74

A Constituição Federal de 1988 é tida hoje como a Constituição do Povo, pois


além de ter sido promulgada após aprovação em plebiscito, é imperioso dizer que veio à
tona após um período de muito sofrimento pelo povo brasileiro. Cada linha, cada
princípio, cada ordem que dela emana, reflete a vontade de um povo por dias melhores.
O art. 217, acima citado, é bem claro ao mencionar que é “dever” do Estado
fomentar práticas desportivas, como direito de cada um, não deixando margem às
interpretações esparsas. É claro. É simples e é imperioso. O Estado deve assegurar o
desporto. 75
Logo em seguida, consagra os princípios constitucionais do desporto. Como
todo ramo direito, a lex esportiva também possui sua base, princípios próprios que

71
MELO FILHO, Álvaro. O Desporto na Ordem Jurídico-Constitucional Brasileira. 5. ed. São Paulo:
Malheiros, 1995, p. 62.
72
KRIEGER, Marcílio Ramos. Lei Pelé e a legislação desportiva brasileira anotadas. Rio de Janeiro:
Forense, 1999, p.47.
73
Ibid, p.49.
74
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm> Acesso em : 10. Set.
2016.
75
KRIEGER, Marcílio Ramos.Op. cit. Rio de Janeiro: Forense, 1999, p.50.
30

norteiam o sistema institucional do desporto. Conforme leciona Celso Antônio Bandeira


de Melo:

Princípio é, por definição, mandamento nuclear de um sistema, verdadeiro


alicerce dele, disposição fundamental que se irradia sobre diferentes normas
compondo lhes e servindo de critério para a sua exata compreensão e
inteligência, exatamente por definir a lógica e a racionalidade do sistema
normativo, no que lhe confere a tônica e lhe dá sentido harmônico. 76

Alguns princípios são mais conhecidos que outros, e encontra-se positivados no


art. 217, caput¸ e incisos da Constituição Federal, assim como no art. 2º da Lei Pelé, que
será devidamente tratada mais adiante.
Para uma exposição um pouco mais didática e sucinta, adota-se a classificação
segundo a Lei Pelé, com a devida correspondência na CF.
Em um primeiro plano, ressalva-se a soberania como princípio inicial, em que as
entidades nacionais possuem a prerrogativa de optar e fazer valer suas regras, sem uma
vinculação com as normas internacionais, justamente em consequência do princípio da
soberania nacional do Brasil. No entanto trata-se de soberania relativa, já que visa à
proteção de disposições internas e organização, porém não pode ser usado como
desculpa para desrespeitar normas de estatutos internacionais dos quais os próprios
clubes anuíram ao integrá-los.77
A autonomia é um dos princípios mais importantes dentro da legislação
desportiva, já que visa garantir às associações e entidades dirigentes independência
funcional e organizacional em relação aos entes estatais, vedando que o Poder Público
interfira indevidamente.78
Inserido do Texto Maior, pelo inciso III do art. 2º, tem-se a democratização, in
verbis, “garantindo em condições de acesso às atividades desportivas se quaisquer
distinções ou formas de discriminação”.79 Noutras palavras, o referido princípio
apresenta-se como forma de reiteração do princípio da dignidade humana, ao passo que
proíbe qualquer forma de discriminação no campo dos esportes, e por isto entende-se
com relação à raça, cor, sexo, idade, religião, etc. Lembrando sempre, que a medida da

76
MELO. Celso Antônio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. São Paulo: Malheiros, 2015, p.
453.
77
KRIEGER, Marcílio Ramos. Lei Pelé e a legislação desportiva brasileira anotadas. Rio de Janeiro:
Forense, 1999, p.53.
78
Ibid, p.54.
79
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm> Acesso em : 10. Set.
2016.
31

igualdade ainda visa garantir aos desiguais suas diferenças na medida de sua
desigualdade.80
A Liberdade: também é esculpida no direito desportivo como reiteração de outro
princípio constitucional, o da livre associação, esculpido no art. 5º, incisos XVII e XX,
81
no qual “ninguém poderá ser compelido a associar-se ou permanecer associado” eé
plena a liberdade de associação, salvo com fins paramilitares, ou seja, conforme aduz a
doutrina, é livre a prática de qualquer desporto, conforme o interesse e a capacidade de
cada um, participando ou não de entes desportivos. 82
Quanto ao Direito Social, revela um dever do Estado, o de fomento ao desporto,
determinando que haja incentivas a prática e manutenção do esporte, não apenas
moralmente, mas materialmente, através de recursos destinados tanto ao desporto de
alto nível quanto ao de participação.83
Lado outro, a Diferenciação também inserida no artigo 217, situa que não apenas
deverá ser diferenciado o desporto praticado por profissionais e não profissionais, assim
como o tratamento legislativo-judiciário, a eles destinados deverão ser diferentes,
respeitando-se os fins de cada um.84
O princípio da Identidade Nacional aduz a proteção e o incentivo de
manifestações desportivas nacionais.85
Existem ainda diversos outros princípios, como o da Educação, com o fim de
protege os fins pedagógicos do desporto, que visa a sua promoção como meio de
integração social, de rompimento de barreiras culturais e sociológicas; o princípio da
Qualidade que trata de uma possível harmonização de contradições existentes nos
diversos interesses que envolvem a prática desportiva; o princípio da Segurança e da
descentralização; assim como um grande influente basilar, o princípio da efetividade,
inserido no direito desportivo com o intuito do sistema de freios e contrapesos, em que
as entidades possuem autonomia em seus resultados e decisões, porém desde que

80
KRIEGER, Marcílio Ramos. Lei Pelé e a legislação desportiva brasileira anotadas. Rio de Janeiro:
Forense, 1999, p.56.
81
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm> Acesso em : 10. Set.
2016.
82
KRIEGER, Marcílio Ramos.Op. cit. Rio de Janeiro: Forense, 1999, p.57.
83
Ibid.
84
Ibid, p.59.
85
Ibid.
32

apresentem resultados concretos, sob pena de sofrer interferências externas dos Poderes
por violação a este princípio. 86
De maneira bem sucinta, os princípios acima expostos buscam não apenas
garantir um norte, uma base, desta ramificação do direito, mas acima de tudo garantir a
prática desportiva de forma íntegra, saudável e justa.
Assim, em cumprimento ao disposto no art. 217 da Constituição Federal, foi
elaborada e aprovada a Lei 8672/93, popularmente conhecida como Lei Zico, em razão
de Arthur Gomes Coimbra ser o Secretário de Esportes do Governo Federal.
A doutrina desportiva aduz que antes do advento da referida Lei, a legislação
brasileira concernente ao desporto era fragmentada, ou seja, cada legislação que surgia
referente a uma determinada modalidade esportiva, continha normas gerais de
organização a eles pertinente. Após a entrada em vigor da Lei 8672/93, surgiram nova
disposição reguladora, inserindo regras gerais de organização, funcionamento e
atribuições válidas para todas as modalidades. Conforme traz Álvaro Melo Filho:

(...) a famosa Lei Zico, provocou uma revolução no desporto nacional, ao


trazer a faculdade dos clubes em se tornarem empresas, além da previsão do
fim da “Lei do Passe” e da exclusão do Tribunal Superior de Justiça
Desportiva da organização da justiça desportiva brasileira.87

Foi justamente esta lei que buscou uma profunda regulamentação do direito
desportivo brasileiro, porém deixou de disciplinar a organização e prática desportiva no
país, culminando na elaboração, discussão e aprovação da Lei 9615/98, ou Lei Pelé, o
então Ministro Extraordinário do Esporte, Édson Arantes do Nascimento, Pelé, Rei do
Futebol, devido ao fato de ser ele um dos principais responsáveis pela existência do
referido texto ordinário.88

2.2 Lei Pelé

É pacífico na doutrina que a Lei Pelé manteve praticamente 80% do texto


original da Lei Zico.

86
KRIEGER, Marcílio Ramos. Lei Pelé e a legislação desportiva brasileira anotadas. Rio de Janeiro:
Forense, 1999, p.61-62.
87
MELO FILHO, Álvaro. O Desporto na Ordem Jurídico-Constitucional Brasileira. 5. ed. São Paulo:
Malheiros, 1995, p. 73.
88
KRIEGER, Marcílio Ramos.Op. cit. Rio de Janeiro: Forense, 1999, p.65.
33

É importante destacar que nesta Lei, que as entidades de práticas desportivas,


deveriam, obrigatoriamente transformar-se em empresas, não apenas facultando esta
possibilidade como era o caso da Lei Zico.89
Outro ponto interessante, é que a Lei Pelé determinou a extinção do passe e
criou a cláusula penal desportiva.
Porém, o referido texto foi alvo de diversos questionamentos e críticas pela
doutrina, alegando que se tratava de dispositivos inconstitucionais, acarretando em
várias alterações em seus artigos através de medidas provisórias.90
É evidente que na mesma proporção das críticas, elogios não bastaram por parte
da doutrina. Marcílio Ramos Krieger, afirma que: “(...) essa lei geral sobre Desportos
mantém a unicidade por modalidade desportiva e a subordinação da prática desportiva
91
às regras e normas da respectiva entidade dirigente internacional.” Corroboram de
forma substancial na participação e brasileira em diversos campeonatos e eventos
internacionais.
Após isto, em 2002 foi criado o Conselho Nacional do Esporte, que tinha como
função precípua desenvolver programas que promoviam a prática intensiva e planejada
da atividade física para toda população, além de zelar por melhorias no padrão de
organização, gestão, qualidade, e transparência no setor.92
O Conselho Nacional do Esporte é um órgão colegiado de deliberação,
diretamente vinculado ao Ministro de Estado do Esporte, e que busca o
desenvolvimento de programas em massa que incluam cada vez mais pessoas na
atividade física.93
Por fim, é importante mencionar que 2003, foi promulgada a Lei 10671/03,
conhecida como Estatuto do Torcedor, após um histórico conturbado na torcida do
futebol brasileiro.
A Lei busca proteger os interesses do consumidor de esportes no papel de
torcedor, compelindo as instituições responsáveis a estruturarem o esporte no país de
maneira organizada, transparente, segura, limpa e justa.94

89
KRIEGER, Marcílio Ramos. Lei Pelé e a legislação desportiva brasileira anotadas. Rio de Janeiro:
Forense, 1999, p.66.
90
Ibid.
91
Ibid, p.68.
92
Ibid, p.69.
93
Ibid, p.70.
94
Ibid.
34

3 A JUSTIÇA DESPORTIVA NO BRASIL

Devemos nos lembrar que a essência do esporte não está na marca ou no escore, mas
nos esforços e na habilidade despendidos para atingi-los.
- Jingoro Kano

Conforme já se salientou nos capítulos anteriores, o direito desportivo surgiu da


necessidade da criação, organização e funcionamento de uma Justiça Desportiva, a
partir do instante em que o esporte passou a ser uma realidade cada vez mais frequente
no dia-a-dia social, cultural, político e econômico da população. Nesse sentido afirma
Álvaro Melo Filho:

À medida que o mundo desportivo foi se tornando cada vez mais


profissional, competitivo, empresarial, foi se tornando inadiável a
necessidade de eliminar obstáculos e resistências, de mudar o frágil suporte
jurídico existente, ajustando o emergente modelo desportivo às exigências
comuns de toda a sociedade.95

Foi a partir de então que o desporto ganhou força e reconhecimento.


O artigo 217 da Constituição Federal, não trata apenas de uma regra nova, mas
sim de um forte instrumento de eficácia, validade e legitimidade da justiça desportiva.96
É imperioso dizer que a justiça desportiva foi criada com a lei 6.251/75, hoje
revogada. Veio a desenvolver-se mediante os Códigos de Justiça e Disciplina
desportiva, massa teve seu ápice de fato após a promulgação da Constituição de 1988.97

Art. 217. É dever de o Estado fomentar práticas desportivas formais e não


formais, como direito de cada um (...)
§ 1º O Poder Judiciário só admitirá ações relativas à disciplina e às
competições desportivas após esgotarem-se as instâncias da justiça
desportiva, regulada em lei.
§ 2º A justiça desportiva terá o prazo máximo de sessenta dias,
contados da instauração do processo, para proferir decisão final.
§ 3º O Poder Público incentivará o lazer, como forma de promoção
social.98

95
MELO FILHO, Álvaro. O Desporto na Ordem Jurídico-Constitucional Brasileira. 5. ed. São Paulo:
Malheiros, 1995, p. 82.
96
BULOS, UadiLammêgo. Curso de Direito Constitucional. 7. ed. rev. e atual. de acordo com a
Emenda Constitucional n. 70/2012 – São Paulo: Saraiva, 2012, p.1587.
97
MELO FILHO, Álvaro. Op. cit. 5. ed. São Paulo: Malheiros, 1995, p. 87.
35

3.1 Competência

Assim como a Justiça Comum, a Justiça Trabalhista, Eleitoral ou Militar, a


Justiça Desportiva é um sistema de julgamento que tende a evoluir conforme a
jurisdição comum, visando solucionar conflitos criados dentro do campo esportivo.99
É responsável por processar e julgar os procedimentos que envolvam o
descumprimento de normas relativas à disciplina e as competições desportivas,
observando sempre o contraditório e a ampla defesa, configurando desta maneira uma
competência limitada à resolução de casos advindos de relações esportivas.100
Conforme salienta Marcílio Ramos Krieger:

(...) sua competência é limitada ao processo e julgamento das infrações


disciplinares e às competições desportivas, isto é, as transgressões cometidas
pelos vários atores de diferentes modalidades, como jogadores, técnicos,
massagistas, pessoal de apoio, dirigentes, e, também, pelos árbitros e
auxiliares. 101

Cumpre destacar, conforme salienta o autor, que a Justiça Desportiva, não faz
parte do Poder Judiciário, menos ainda do executivo ou do legislativo. A doutrina
entende que, na verdade, trata-se de instituto de direito privado dotada de interesse
público, com ligação direta nas entidades de prática desportiva.102
Álvaro de Melo Filho vai lecionar que a Justiça Desportiva é demasiadamente
célere na solução dos litígios, daí a incompatibilidade com a Jurisdição Comum, que
demanda ritos e procedimentos especiais em determinados casos, obstando o
prosseguimento ágil do processo, demonstrando mais uma vez a importância e
necessidade de funcionamento da Justiça Desportiva de forma rápida e perfeita.103
Evidentemente a Justiça Comum não está totalmente isolada do desporto, uma
vez que o próprio artigo 217, §1º, da Constituição Federal, reconhece que será possível
a intervenção do Poder Judiciário na Justiça Desportiva, uma vez que as instâncias desta
estejam esgotadas, e em consequência, nos casos onde haja profunda violação ao bem-

98
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm> Acesso em : 10. Set.
2016.
99
MELO FILHO, Álvaro. O Desporto na Ordem Jurídico-Constitucional Brasileira. 5. ed. São Paulo:
Malheiros, 1995, p. 87.
100
Ibid, p. 88.
101
KRIEGER, Marcílio Ramos. Lei Pelé e a legislação desportiva brasileira anotadas. Rio de Janeiro:
Forense, 1999, p.74.
102
Ibid.
103
MELO FILHO, Álvaro.Op. cit. 5. ed. São Paulo: Malheiros, 1995, p. 88.
36

estar social e moral dos cidadãos, exigindo uma interferência em razão do livre
exercício do desporto.104

3.2 Base legal e organização

Como já relatado no capítulo anterior, em um primeiro momento a legislação


desportiva foi dividida entre o Código Brasileiro de Justiça e Disciplina Desportiva, que
regulava todas as formas de desporto, com exceção do futebol que era regido pelo
Código Brasileiro Disciplinar de Futebol.105
Já em 1998, a Lei 9.615, instituiu normas referentes ao desporto, com as devidas
alterações sofridas em 2000, 2001 e 2003. Porém o Código Brasileiro de Justiça e
Disciplina Desportiva, assim como o Código Brasileiro Disciplinar de Futebol foram
mantidos, até o momento em que o Conselho Nacional de Esportes aprovasse a nova
legislação.106
Atualmente a lei que regula a Justiça Desportiva, ainda é a Lei 9.615/98,
popularmente conhecida como Lei Pelé, com as alterações sofridas ao longo dos anos.
A Lei Pelé é muito abrangente e o legislador preocupou-se em abranger o maior
número questões possíveis, tanto na constituição da Lei, como em suas alterações.
Em um primeiro momento a Lei 9.615/98, trata de explanar que o desporto
brasileiro abrange as práticas formais e não formais de esporte, definindo o que são e
quem são seus sujeitos. Impõe a devida subordinação ao disposto no texto ordinário e
com o devido respaldo nos fundamentos constitucionais do Estado Democrático de
Direito. Em toda a letra da Lei, é possível notar a intenção do legislador em resguardar o
desporto e ao mesmo tempo assegurar que nos casos necessários a interna e
internacional poderia intervir para melhor resolução de conflitos.107
No Capítulo II encontram-se presentes os princípios fundamentais do desporto,
que já foram devidamente tratados neste trabalho de curso, no entanto apenas a título
didático serão mencionados aqui, quais sejam:

104
BULOS, UadiLammêgo. Curso de Direito Constitucional. 7. ed. rev. e atual. de acordo com a
Emenda Constitucional n. 70/2012 – São Paulo: Saraiva, 2012, p.1588.
105
MELO FILHO, Álvaro. O Desporto na Ordem Jurídico-Constitucional Brasileira. 5. ed. São
Paulo: Malheiros, 1995, p. 89.
106
Ibid.
107
KRIEGER, Marcílio Ramos. Lei Pelé e a legislação desportiva brasileira anotadas. Rio de Janeiro:
Forense, 1999, p.77.
37

(...) O desporto, como direito individual, tem como base os princípios:


I - da soberania, caracterizado pela supremacia nacional na organização da
prática desportiva;
II - da autonomia, definido pela faculdade e liberdade de pessoas físicas e
jurídicas organizarem-se para a prática desportiva;
III - da democratização, garantido em condições de acesso às atividades
desportivas sem quaisquer distinções ou formas de discriminação;
IV - da liberdade, expresso pela livre prática do desporto, de acordo com a
capacidade e interesse de cada um, associando-se ou não a entidade do setor;
V - do direito social, caracterizado pelo dever do Estado em fomentar as
práticas desportivas formais e não formais;
VI - da diferenciação, consubstanciado no tratamento específico dado ao
desporto profissional e não profissional;
VII - da identidade nacional, refletido na proteção e incentivo às
manifestações desportivas de criação nacional;
VIII - da educação, voltado para o desenvolvimento integral do homem como
ser autônomo e participante, e fomentado por meio da prioridade dos recursos
públicos ao desporto educacional;
IX - da qualidade, assegurado pela valorização dos resultados desportivos,
educativos e dos relacionados à cidadania e ao desenvolvimento físico e
moral;
X - da descentralização, consubstanciado na organização e funcionamento
harmônicos de sistemas desportivos diferenciados e autônomos para os níveis
federal, estadual, distrital e municipal;
XI - da segurança, propiciado ao praticante de qualquer modalidade
desportiva, quanto a sua integridade física, mental ou sensorial;
XII - da eficiência, obtido por meio do estímulo à competência desportiva e
administrativa.
Parágrafo único. A exploração e a gestão do desporto profissional constituem
exercício de atividade econômica sujeitando-se, especificamente, à
observância dos princípios:(Incluído pela Lei nº 10.672, de 2003)
I - da transparência financeira e administrativa;(Incluído pela Lei nº 10.672,
de 2003)
II - da moralidade na gestão desportiva;(Incluído pela Lei nº 10.672, de 2003)
III - da responsabilidade social de seus dirigentes;(Incluído pela Lei nº
10.672, de 2003)
IV - do tratamento diferenciado em relação ao desporto não profissional;
e(Incluído pela Lei nº 10.672, de 2003)
V - da participação na organização desportiva do País.(Incluído pela Lei nº
10.672, de 2003)108

Mais uma vez depara-se com a preocupação do legislador em garantir um


desenvolvimento desportivo justo e igualitário, ao gerir tantos princípios fundamentais,
que em sua maioria estão consagrados na Constituição Federal, mas que de maneira
precisa foram reforçados no texto ordinário, com o intuito de implantar um sistema que
busca a perfeição e o desenvolvimento do desporto no Brasil.109

108
BRASIL. Lei 9.615 de 24 de março de 1998. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9615consol.htm> Acesso em: 26. Set. 2016.
109
KRIEGER, Marcílio Ramos. Lei Pelé e a legislação desportiva brasileira anotadas. Rio de Janeiro:
Forense, 1999, p.77.
38

Um importante ponto a ser destacado, é que o parágrafo único do art. 3º da Lei


em comento, estabelece também princípios que devem ser observados nos casos de
exploração e gestão do desporto profissional, já que constituem atividade econômica.110
O capítulo III da Lei 9.615/98 conceitua a natureza e as finalidades do Desporto
Brasileiro. Reconhece que o desporto pode ser reconhecido como desporto educacional,
desporto de participação, desporto de rendimento profissional e não profissional e
deporto de formação. Todo o artigo 3º busca exemplificar e conceituar as formas de
deporto.111
Quanto à composição do Sistema Brasileiro do Desporto, este compreende o
Ministério do Esporte e o Conselho Nacional do Esporte. 112
O objetivo do Sistema Brasileiro do Desporto é garantir que a prática desportiva
seja exercida de maneira regular, sempre buscando melhoras no padrão de qualidade.113
É de suma importância mencionar o §2º do artigo 4º da Lei 9.615/98, já que ele
consagra o desporto como patrimônio cultural do país, in verbis: “A organização
desportiva do País, fundada na liberdade de associação, integra o patrimônio cultural
brasileiro e é considerada de elevado interesse social (...)”.114
Do art. 5º, até o art. 10º da Lei Pelé, trata-se especificamente dos recursos do
Ministério do Esporte, como serão constituídos e qual a sua destinação, visando sempre
à arrecadação de forma transparente, no entanto, como não é o objeto do trabalho,
apenas é mencionado a título didático o presente artigo.115
Quanto ao Conselho Nacional de Esporte a Lei em estudo, conceitua como o
órgão colegiado de normatização, deliberação e assessoramento, vinculado ao
Ministério de Estado do Esporte e atribui-lhe:

Art. 11. O CNE é órgão colegiado de normatização, deliberação e


assessoramento, diretamente vinculado ao Ministro de Estado do Esporte,
cabendo-lhe: (Redação dada pela Lei nº 10.672, de 2003)
I - zelar pela aplicação dos princípios e preceitos desta Lei;

110
KRIEGER, Marcílio Ramos. Lei Pelé e a legislação desportiva brasileira anotadas. Rio de Janeiro:
Forense, 1999, p.77.
111
MELO FILHO, Álvaro. O Desporto na Ordem Jurídico-Constitucional Brasileira. 5. ed. São
Paulo: Malheiros, 1995, p. 91.
112
BRASIL. Lei 9.615 de 24 de março de 1998. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9615consol.htm> Acesso em: 26. Set. 2016.
113
MELO FILHO, Álvaro.Op. cit. 5. ed. São Paulo: Malheiros, 1995, p. 91.
114
BRASIL. Lei 9.615 de 24 de março de 1998. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9615consol.htm> Acesso em: 26. Set. 2016.
115
KRIEGER, Marcílio Ramos.Op. cit. Rio de Janeiro: Forense, 1999, p.78.
39

II - oferecer subsídios técnicos à elaboração do Plano Nacional do Desporto;


III - emitir pareceres e recomendações sobre questões desportivas nacionais;
IV - propor prioridades para o plano de aplicação de recursos do Ministério
do Esporte;(Redação dada pela Lei nº 10.672, de 2003)
V - exercer outras atribuições previstas na legislação em vigor, relativas a
questões de natureza desportiva;(Redação dada pela Lei nº 9.981, de 2000)
VI - aprovar os Códigos de Justiça Desportiva e suas alterações, com as
peculiaridades de cada modalidade;(Redação dada pela Lei nº 13.322, de
2016)
VII - aprovar o Código Brasileiro Antidopagem - CBA e suas alterações, no
qual serão estabelecidos, entre outros:(Redação dada pela Lei nº 13.322, de
2016)
a) as regras antidopagem e as suas sanções; (Incluído pela Lei nº 13.322, de
2016)
b) os critérios para a dosimetria das sanções; e(Incluído pela Lei nº 13.322,
de 2016)
c) o procedimento a ser seguido para processamento e julgamento das
violações às regras antidopagem; e(Incluído pela Lei nº 13.322, de 2016)
VIII - estabelecer diretrizes sobre os procedimentos relativos ao controle de
dopagem exercido pela Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem -
ABCD. (Incluído pela Lei nº 13.322, de 2016)116

O presidente do Conselho será sempre o Ministro de Esporte, em uma


composição de vinte e dois membros por estes indicados.117

3.3 Estrutura da Justiça Desportiva

Conforme dispõe o artigo art. 13, parágrafo único da Lei 9.615/98, a Justiça
Desportiva integra o Sistema Nacional do Desporto, e visa promover e aprimorar as
práticas desportivas de rendimento. 118
Segundo UadiLammêgoBulod, a Justiça Desportiva é um órgão de natureza
administrativa, e possui os seguintes órgãos:

Superior Tribunal de Justiça Desportiva – funciona junto às entidades


nacionais de administração do desporto.
Tribunal de Justiça Desportiva – funciona junto às entidades regionais de
administração do desporto; e
Comissões Disciplinares – compete-lhes processar e julgar matérias inseridas
nos Códigos de Justiça Desportiva. 119

116
BRASIL. Lei 9.615 de 24 de março de 1998. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9615consol.htm> Acesso em: 26. Set. 2016.
117
KRIEGER, Marcílio Ramos. Lei Pelé e a legislação desportiva brasileira anotadas. Rio de Janeiro:
Forense, 1999, p.78-79.
118
MELO FILHO, Álvaro. O Desporto na Ordem Jurídico-Constitucional Brasileira. 5. ed. São
Paulo: Malheiros, 1995, p. 91.
119
BULOS, UadiLammêgo. Curso de Direito Constitucional. 7. ed. rev. e atual. de acordo com a
Emenda Constitucional n. 70/2012 – São Paulo: Saraiva, 2012, p.1588.
40

Estes órgãos estão definidos no art. 52 da Lei Pelé, assim como suas atribuições
e que sujeitos estão sob sua competência.
A Lei estabelece também aos códigos de justiça desportiva as regras de
organização e funcionamento interno dos mesmos, bem como o procedimento a ser
adotado nos casos que gerem processos desportivos. 120
A composição dos órgãos da Justiça Desportiva poderá ser no caso dos
Tribunais, os bacharéis em Direito ou as pessoas de notável saber jurídico desportivo,
com reputação ilibada. Conhecidos como auditores, para um mandato de quatro anos,
permitida uma recondução. 121
Obviamente é vedada a participação como membro dos Tribunais, dos dirigentes
de entidades desportivas de prática ou de administração, com exceção dos membros dos
conselhos deliberativos. 122
Existe na doutrina uma discussão no que concerne ao fato de que o auditor, não
é a pessoa em si, mas sim a entidade que o indicou, neste caso, resta pendente uma
subordinação entre a pessoa e a entidade, o que muitos doutrinadores consideram
prejudicial ao bom funcionamento da Justiça Desportiva.123
A organização da Justiça Desportiva é diversa da Justiça Comum. Existem
vários Superiores Tribunais de Justiça Desportiva, e os Tribunais de Justiça Desportiva
nem sempre se vinculam a um Estado 124
Cada Superior Tribunal de Justiça Desportiva. , assim como os Tribunais de
Justiça Desportiva, poderão escolher quantas Comissões Disciplinares entenderem por
bem.125
Tais Comissões atuam como em primeira instância e possuem a atribuição de
julgar todas as infrações cometidas no âmbito das competições do Tribunal do qual faz
parte.
As Comissões pertencentes aos tribunais superiores são chamadas de Nacionais
e aquelas que pertencem aos tribunais são chamadas de Regionais, nos termos do art. 6º
do Código Brasileiro de Disciplina e Justiça Desportiva126

120
MELO FILHO, Álvaro. O Desporto na Ordem Jurídico-Constitucional Brasileira. 5. ed. São
Paulo: Malheiros, 1995, p. 92.
121
KRIEGER, Marcílio Ramos. Lei Pelé e a legislação desportiva brasileira anotadas. Rio de Janeiro:
Forense, 1999, p.80.
122
Ibid.
123
MELO FILHO, Álvaro.Op. cit. 5. ed. São Paulo: Malheiros, 1995, p. 93.
124
KRIEGER, Marcílio Ramos.Op. cit. Rio de Janeiro: Forense, 1999, p.81.
125
Ibid.
41

A composição é feita por indicação do Tribunal a que faz parte, perfazendo um


total de cinco membros, seguindo os mesmos requisitos para a nomeação dos auditores.
E assim como na justiça comum, das decisões é possível interposição de recurso ao
Tribunal de Justiça Desportiva do qual faz parte. 127
Já os Tribunais de Justiça Desportiva compõem-se de nove auditores, sendo:
dois indicados pela entidade regional de administração do desporto; dois pelas entidades
de prática desportiva que participem da principal competição da entidade regional de
administração do desporto; dois indicados pela Ordem dos Advogados do Brasil, por
intermédio da Seção correspondente ao seu território; dois representantes dos atletas,
indicados pela sua entidade representativa; e um indicado pela entidade representativa
dos árbitros.128
As atribuições dos Tribunais estão elencadas no artigo 9º do Código Brasileiro
de Justiça Desportiva, com a competência delimitada pelo artigo 27 do mesmo diploma.
129

Quanto aos Superiores Tribunais de Justiça Desportiva é criado um para cada


confederação existente no cenário nacional, com a atribuição de processar e julgar os
recursos interpostos contra as decisões dos Tribunais de Justiça Desportiva, ou das
decisões de suas próprias Comissões Disciplinares, nos casos em que deve julgar
originariamente, entre outras, elencadas no art. 25 do Código Brasileiro de Justiça
Desportiva. É composto por nove auditores, sendo dois indicados pela entidade nacional
de administração do desporto, dois pelas entidades de prática desportiva que participem
da principal competição da entidade nacional de administração do desporto, dois
indicados pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil; dois
representantes dos atletas, indicados pela sua entidade representativa; e um indicado
pela entidade representativa dos árbitros. 130
A Procuradoria de Justiça Desportiva atuam-nos mesmos termos do Ministério
Público, e não são órgãos da Justiça Desportiva. Possuem o objetivo de velar pelo
cumprimento das disposições dos Códigos de Justiça Desportiva, promovendo a
responsabilidade das pessoas físicas ou jurídicas que o violarem. Dentre as atribuições
que lhe concerne é possível oferecer denúncia, acompanhar os trâmites legais dos

126
KRIEGER, Marcílio Ramos. Lei Pelé e a legislação desportiva brasileira anotadas. Rio de Janeiro:
Forense, 1999, p.82.
127
Ibid.
128
Ibid, p.83.
129
Ibid.
130
Ibid, p.85.
42

processos, zelar pelo cumprimento dos princípios da Justiça Desportiva e a de requerer a


instauração de inquéritos.131
Seus membros são nomeados pelo respectivo órgão judicante e serão
denominados procuradores, sendo um deles escolhido como Procurador Geral, com
mandato idêntico ao dos auditores.132

3.4 Autonomia da Justiça Desportiva

Como já mencionado a Justiça Desportiva não é um órgão do Poder Judiciário,


trata-se órgão administrativo, com autonomia administrativa e judicante no tocante às
lides desportivas.
Álvaro Melo Filho define essa autonomia no sentido de não existir
subordinação, muito menos sujeição às entidades que administram o desporto ao qual o
Tribunal está ligado.133
Desta forma, entende o doutrinador que a autonomia é consagrada de forma a
garantir que independência administrativa da Justiça Desportiva, assim como a
independência decisória, capaz de evitar influências nas decisões emanadas.134
Ocorre, porém, que a Constituição Federal em seu art. 5º, XXXV, estabelece que
a lei não excluirá da apreciação do Judiciário lesão ou ameaça a direito. Nesse sentido,
coibir determinada pessoa de ingressar com a ação na justiça comum em face de
demandas desportivas, seria uma afronta a um direito fundamental expresso na
Constituição.135
Lado outro o §1º e §2º do art. 217, da Carta Magna também estabelecem:

§ 1º O Poder Judiciário só admitirá ações relativas à disciplina e às


competições desportivas após esgotarem-se as instâncias da justiça
desportiva, regulada em lei.

131
KRIEGER, Marcílio Ramos. Lei Pelé e a legislação desportiva brasileira anotadas. Rio de Janeiro:
Forense, 1999, p.86-87.
132
MELO FILHO, Álvaro. O Desporto na Ordem Jurídico-Constitucional Brasileira. 5. ed. São
Paulo: Malheiros, 1995, p. 95.
133
Ibid.
134
Ibid, p. 96.
135
BULOS, UadiLammêgo. Curso de Direito Constitucional. 7. ed. rev. e atual. de acordo com a
Emenda Constitucional n. 70/2012 – São Paulo: Saraiva, 2012, p.1589.
43

§ 2º A justiça desportiva terá o prazo máximo de sessenta dias, contados da


instauração do processo, para proferir decisão final. 136

É possível notar, que a própria Constituição Federal limitou a atuação da Justiça


Comum dentro da ceara desportiva, obrigando que antes de intentar ação de natureza
comum, todas as demandas desportivas sejam analisadas pela óptica do desporto.137
UadiLammêgoBulos leciona de forma clara, que se trata do Princípio do
esgotamento da instância administrativa de curso forçado, através do qual o Poder
Judiciário apenas admitiria ações que versassem sobre desporto após o esgotamento das
instâncias da Justiça Desportiva.138 Nesse sentido existem precedentes nos tribunais:

AGRAVO DE INSTRUMENTO. JUSTIÇA DESPORTIVA.


ESGOTAMENTO DE INSTÂNCIAS NÃO OBSERVADO.
IMPOSSIBILIDADE DE CONHECIMENTO DA MATÉRIA PELO
PODER JUDICIÁRIO: Recebida uma demanda que verse sobre questões
afetas ao esporte, além da verificação da presença das condições genéricas
para o exercício do direito de ação, há de se observar se o requerente
preenche o requisito específico previsto no § 1º do artigo 217 da Constituição
Federal, qual seja o exaurimento das instâncias da Justiça Desportiva como
pré-requisito para o acesso ao Poder Judiciário.139

APELAÇÃO CÍVEL. DIREITO PRIVADO NÃO ESPECIFICADO.


CAMPEONATO DE FUTEBOL AMADOR. JULGAMENTO PELA
JUSTIÇA COMUM. IMPOSSIBILIDADE. AUSÊNCIA DE
ESGOTAMENTO DAS INSTÂNCIAS DESPORTIVAS. Os campeonatos
esportivos são atividades eminentemente privadas, tanto que os órgãos
públicos não podem neles interferir e a Justiça Desportiva não compõe o
Poder Judiciário. Manutenção da decisão que indeferiu a inicial por ausência
de prévio esgotamento das instâncias desportivas previstas no CBJD. APELO
DESPROVIDO. UNÂNIME. 140

Ocorre, porém que na doutrina, existe um questionamento acerca do acesso ao


Poder Judiciário mediante prévio esgotamento da justiça desportiva.
UadiLammêgoBulos sustenta que o constituinte previu a Justiça Desportiva, levando em
conta a especificidade desse campo. O legislador incluiu ainda no art. 217 da
Constituição Federal, o prazo de sessenta dias, contados da instauração do processo,

136
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm> Acesso em : 26. Set.
2016.
137
MELO FILHO, Álvaro. O Desporto na Ordem Jurídico-Constitucional Brasileira. 5. ed. São
Paulo: Malheiros, 1995, p. 96.
138
BULOS, UadiLammêgo. Curso de Direito Constitucional. 7. ed. rev. e atual. de acordo com a
Emenda Constitucional n. 70/2012 – São Paulo: Saraiva, 2012, p.1589.
139
TJ-MG - AI: 10518120250601001 MG. Relator: Domingos Coelho, Data de Julgamento: 12/06/2013.
Câmaras Cíveis / 12ª CÂMARA CÍVEL. Data de Publicação: 21/06/2013
140
TJ-RS - AC: 70050794536 RS. Relator: LiegePuricelli Pires. Data de Julgamento: 28/02/2013. Décima
Sétima Câmara Cível, Data de Publicação: Diário da Justiça do dia 13/03/2013.
44

para que a justiça desportiva profira a sua decisão, como forma de acelerar o processo
de julgamento e evitar confrontos entre torcedores.141
Desta forma, caso o prazo seja ultrapassado, nada impede que a parte ingresse no
Poder Judiciário e reclame a mora da Justiça Desportiva, sem o prévio esgotamento da
instancia administrativa.142
Cumpre ainda lembrar, que nada impede o Pode Judiciário, de fiscalizar, depois
de instaurado o processo administrativo, a legalidade e a constitucionalidade de alguma
norma que esteja sendo utilizada pela Justiça Desportiva.143
O art. 52 da Lei Pelé, em seu parágrafo segundo, determina: “§ 2º O recurso ao
Poder Judiciário não prejudica os efeitos desportivos validamente produzidos em
consequência da decisão proferida pelos Tribunais de Justiça Desportiva.” 144
Trata-se de regular a coisa julgada desportiva, pois, muito embora exista a
previsão específica do campo desportivo, por força da disposição constitucional, cabe
ao Poder Judiciária a função de julgar definitivamente as lides de qualquer natureza. 145
Nesse contexto, para Álvaro Melo Filho, existe um conflito de interesses entre a
Justiça Desportiva e a Justiça Comum, tornando as decisões administrativas desportivas
válidas e vinculantes no campo administrativo, porém não são definitivas e nem
conclusivas. Nas palavras do doutrinador:

(...) Isto não significa, evidentemente, que se negue a Administração o direito


de decidir. Absolutamente não. O que se lhe nega é a possibilidade de exercer
funções materialmente judiciais, ou judiciais por natureza, e de emprestar às
suas decisões força e definitivamente próprias dos julgamentos judiciários.146

A lei 9.615/98 garantia força e crédito às decisões proferidas pela Justiça


Desportiva, isso significa que dentro do âmbito desportivo, as decisões por eles
proferidas, prevalecem frente às decisões dos Tribunais Comuns. Isto porque, não
haveria sentido segundo UadiLammêgoBulos, ter uma justiça especializada se suas
decisões fossem sempre passíveis de reforma. Por oportuno, as decisões da justiça

141
MELO FILHO, Álvaro. O Desporto na Ordem Jurídico-Constitucional Brasileira. 5. ed. São
Paulo: Malheiros, 1995, p. 98.
142
Ibid.
143
BULOS, UadiLammêgo. Curso de Direito Constitucional. 7. ed. rev. e atual. de acordo com a
Emenda Constitucional n. 70/2012 – São Paulo: Saraiva, 2012, p.1589.
144
BRASIL. Lei 9.615 de 24 de março de 1998. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9615consol.htm> Acesso em: 26. Set. 2016.
145
KRIEGER, Marcílio Ramos. Lei Pelé e a legislação desportiva brasileira anotadas. Rio de Janeiro:
Forense, 1999, p.91.
146
MELO FILHO, Álvaro. Op. cit. 5. ed. São Paulo: Malheiros, 1995, p. 99.
45

desportiva poderão ser revistas pelo poder judiciário, porém os efeitos dela decorrentes
e já produzidos, não poderão ser alterados, gerando coisa julgada material desportiva.147
Conclui-se desta forma que preservando os efeitos e garantindo a possibilidade
de revisão, nem o direito ao amparo pelo Poder Judiciário, nem a autonomia da Justiça
Desportiva são prejudicados.

3.4 Questões relevantes

Apenas a título de conhecimento levantam-se quatro questões de ordem para


compreensão.
A Justiça Desportiva não é competente para julgar e processar questões
trabalhistas, mesmo naqueles casos de desporto profissional, pois tal atribuição é
competência da Justiça do Trabalho. 148

Art. 50. A organização, o funcionamento e as atribuições da Justiça


Desportiva, limitadas ao processo e julgamento das infrações disciplinares e
às competições desportivas, serão definidos nos Códigos de Justiça
Desportiva, facultando-se às ligas constituir seus próprios órgãos judicantes
desportivos, com atuação restrita às suas competições.149

O litígio de natureza laboral não será apreciado pela Justiça Desportiva, apenas
infrações e competições desportivas, segundo os Códigos Desportivos.
Outra questão de suma importância referente à Justiça Desportiva, é que de
acordo com a Resolução nº 10/2005 do Conselho Nacional de Justiça, membros do
Poder Judiciário não podem fazer parte dos Tribunais de Justiça Desportiva e nem das
Comissões Disciplinares.150

147
KRIEGER, Marcílio Ramos. Lei Pelé e a legislação desportiva brasileira anotadas. Rio de Janeiro:
Forense, 1999, p.91.
148
BULOS, UadiLammêgo. Curso de Direito Constitucional. 7. ed. rev. e atual. de acordo com a
Emenda Constitucional n. 70/2012 – São Paulo: Saraiva, 2012, p.1590.
149
BRASIL. Lei 9.615 de 24 de março de 1998. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9615consol.htm> Acesso em: 26. Set. 2016.
150
BULOS, UadiLammêgo. Op. cit. 7. ed. rev. e atual. de acordo com a Emenda Constitucional n.
70/2012 – São Paulo: Saraiva, 2012, p.1590.
46

Tal providência decorre do texto Constitucional, que aduz que membros da


magistratura podem exercer além da judicatura apenas a função de magistério, conforme
art. 95, parágrafo único. I da Constituição Federal.151
Inicialmente a Lei 9.615/98 permitia a abertura de casas para funcionamento de
bingos, porém a Lei 9.981/00 revogou a autorização, determinando que todas as casas
de bingos deverem deixar de funcionar a partir de 31 de dezembro de 2001. Diversas
manobras foram feitas com a intenção burlar a determinação legal, porém ao se
pronunciar sobre o assunto o Supremo Tribunal Federal foi bastante claro, afirmando
ser inconcebível a manutenção de casas para funcionamento de bingos, através da
Súmula Vinculante nº 2: “É inconcebível a lei ou ato normativo estadual ou distrital que
disponha sobre sistemas de consórcios e sorteios, inclusive bingos e loterias.” 152

3.5 A Justiça Desportiva e a realidade da Justiça Comum

Recentemente o Brasil foi sede dos dois maiores eventos esportivos mundiais.
Em 2014 ocorreram os embates do Futebol, pela Copa do Mundo de 2014, em que 32
seleções foram convocadas e efetivamente participaram, sendo que a seleção da
Alemanha saiu vitoriosa na disputa com a seleção argentina no Maracanã.153
Já agora, em 2016, o Brasil foi sede das Olimpíadas, outro grande evento
esportivo. Dentre as diversas modalidades de competição, as seleções que mais se
destacaram foram os Estados Unidos, China, Rússia, Grã-Bretanha e Alemanha.
Sem dúvida foram eventos que demandaram organização, infraestrutura e muito
patrocínio.
No entanto, o relevante destes dois eventos para o presente trabalhos são dois
sinistros que ocorreram em cada um deles.

151
BULOS, UadiLammêgo. Curso de Direito Constitucional. 7. ed. rev. e atual. de acordo com a
Emenda Constitucional n. 70/2012 – São Paulo: Saraiva, 2012, p.1590.
152
Ibid.
153
BRASIL. Globo Esporte – Atacante sofre lesão durante a Copa 2014. Disponível em:
http://globoesporte.globo.com/futebol/selecao-brasileira/noticia/2014/07/entenda-fratura-de-
neymar.html> Acesso em: 01. Out.2016.
47

Durante um jogo, entre Brasil e Colômbia, o atacante da seleção Brasileira,


Neymar, sofreu uma fratura na terceira vértebra lombar, após uma joelhada do
colombiano Zúñinga, retirando o atacante da Copa.154
O Comitê Disciplinar da FIFA decidiu não punir o jogador colombiano pela falta
cometida, sob alegações de que o lance que ensejou a falta não escapou aos olhos dos
árbitros, e nenhum cartão foi levantado para o colombiano, impedindo que o Código
Disciplinar fosse aplicado no que tange ao direito de rever um lance.155
Lado outro, nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, neste ano, a Federação Russa foi
banida dos jogos, por estarem sob um esquema de doping, prejudicando os demais
atletas. A condição de doping foi devidamente comprovada, e apenas uma atleta russa
pode competir.156
Cumpre ainda mencionar, que mediante aprovação da Lei 13.322/16, o Brasil
passou a contar com a Justiça Desportiva Antidopagem. A ação foi conduzida por um
tribunal e uma procuradoria, que tinham autonomia e independência para o julgamento
das violações às regras antidopagem e das infrações, bem como a homologação de
decisões estrangeiras.157
Com a criação da Justiça Desportiva Antidopagem, o País está em conformidade
com uma convenção assinada na UNESCO por diversos países, que se comprometeram
a criar tribunais únicos para cuidar dos casos de violações às regras de controle de
dopagem.158
As duas ocorrências, tanto a fratura do atacante no jogo contra a Colômbia,
quanto o caso da federação Russa, merecem atenção especial.
Sem adentrar o mérito da questão, o porquê do jogador colombiano não ter sido
punido e se quer ter sido revisto o ato que lesionou o atacante brasileiro, é imperioso
levantar questionamentos.
O jogo ocorreu em solo brasileiro, em um Governo legítimo, e principalmente
pautado por uma Constituição que garante a soberania brasileira na ordem interna e
internacional.

154
BRASIL. Globo Esporte – Atacante sofre lesão durante a Copa 2014. Disponível em:
http://globoesporte.globo.com/futebol/selecao-brasileira/noticia/2014/07/entenda-fratura-de-
neymar.html> Acesso em: 01. Out.2016.
155
Ibid.
156
BRASIL. Rio 2016 – Federação Russa é banida dos jogos. Disponível em:
<http://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/21/deportes/1469092938_456287.html> Acesso em: 01. Out.
2016.
157
Ibid.
158
Ibid.
48

O próprio direito desportivo possui a soberania como princípio basilar.


É evidente que as seleções que disputavam a Copa estavam sujeitas às regras da
FIFA, porém não existe óbice legal para que a Justiça Desportiva Brasileira viesse a
intervir, já que ela existe para isso, e especialmente um cidadão brasileiro foi lesionado.
Lado outro, no tocante ao sistema de doping durante os jogos olímpicos, foi feita
a denúncia, e após comprovados os fatos a federação russa foi banida. Nesse contexto,
houve uma participação da Justiça Desportiva Brasileira, uma preocupação em localizar
e dirimir maiores conflitos e violações.
Também sem adentrar o mérito, nota-se que as Olimpíadas do Rio Janeiro,
ocorreram de forma pacífica, e todos os eventuais litígios foram suportados pelo Comitê
de Organização e soluções surgiram.
Eis o ponto chave do trabalho de curso.
O legislador se preocupou em criar uma justiça específica, capaz de dar suporte,
julgar e punir atletas e quaisquer outras pessoas que sejam necessárias em lides
referentes ao esporte. Caso a Justiça desportiva não fosse uma realidade para os
brasileiros, estariam todos os mercê de normas internacionais, ou mesmo abarrotando o
judiciário com demandas que facilmente poderiam ser resolvidas e por conta da
quantidade de processos hoje em andamento na justiça comum brasileira, levariam
anos.159
A Lei 9.615/98, é extremamente detalhada e completa. Cria, sintetiza, organiza
uma justiça de uma forma impressionante. Estabelece diretrizes orçamentárias; estrutura
os órgãos que irão compô-la, impõe punições e garante a autonomia de suas decisões.160
Infelizmente, não há diversidade de material doutrinário para explanações
profundas, porém é possível notar a importância do desporto na vida social, o quanto
contribui para a pacificação social, para a inclusão de pessoas dentro de um meio
saudável, justa e igualitária.
O Poder Judiciário por maior que seja o seu respaldo legal, está vivenciando
atualmente um número muito alto de processos ativos, e uma escassez maior ainda de
servidores que possam corroborar para o andamento útil de cada processo.
Resta evidente, que além de todas as benesses até aqui expostas, esta é mais uma
da Justiça Desportiva, através dela, sistemas podem ser criados, e eventuais conflitos

159
MELO FILHO, Álvaro. O Desporto na Ordem Jurídico-Constitucional Brasileira. 5. ed. São
Paulo: Malheiros, 1995, p. 72.
160
Ibid.
49

podem ser dirimidos sem o desgaste de um processo judicial, daí a importância do


fomento das Comissões Disciplinares estaduais, distritais e municipais. Não há sequer
uma cidade que não tenha determinada prática esportiva, assim nada mais justo que
aplicar a isonomia a todos.
50
51

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com o presente trabalho buscou-se estudar o direito desportivo como um


instituto repleto de regras, técnicas e institutos jurídicos, destinado a assegurar a
ordem e efetivar punições nos casos de ocorrências desportivas. Procurou também
demonstrar a importância do fomento tanto das práticas esportivas como mecanismos
de integração social, quanto da implantação de Comissões Disciplinares em âmbito
municipal, de maneira a fortalecer a Justiça Desportiva e evitar futuras controvérsias
judiciais. Noutro vértice, análises foram feitas acerca da abrangênciado direito
desportivo dentro do ordenamento jurídico brasileiro e sua efetividade quando
colocado em prática, através de sua base e fundamento constitucional e de seu
procedimento regulado em lei ordinária.

Infere-se portanto através deste trabalho de curso, após análise acerca do tema
que o direito desportivo é de suma importância para a sociedade e para a ordem
jurídica. Decorre de prerrogativas inerentes ao ser humano, e atinge o seu objetivo
garantindo um direito constitucional.

Posto ter sido criado em meados de 1945 com o intuito de regular a prática do
futebol, a legislação desportiva evolui de forma contundente, de maneira especial
após a promulgação da Constituição Federal de 1988, que assegurou a prática do
desporto e mais ainda, garantiu que o Estado não viesse a intervir de forma
absolutista na prática desportiva, evitando que o esporte se tornasse mais um meio
político.

Em função do procedimento célere, da soberania nas decisões e da autonomia


conferidas à Justiça Desportiva é imperioso ressaltar os vários benefícios que daí
decorrem.

Noutro vértice, cumpre destacar que trata-se de área extremamente específica,


rogando por profissionais que estejam aptos a deliberar sobre o assunto, o que por si
só garante o acerto na criação desse sistema de regras e conjuntos.

Ao instituir o princípio da soberania o legislador constituinte buscou proteger


o direito desportivo de influências estatais, legislativas ou mesmo judiciárias, mas
mais do que isso, visou garantir que nenhuma norma internacional fosse imposta sem
a anuência de atletas e comissões.
52

É importante ressalta que mesmo assegurando a autonomia e a soberania da


justiça desportiva, em momento algum foi retirado do Poder Judiciário o direito de
julgar qualquer lide, conforme previsão constitucional e direito fundamental de
qualquer brasileiro.

A Lei 9.615/98, depois de uma analise detalhada deixa bem claro que
elaborada não apenas para regulamentar, mas parar complementar o que dispõe a
Constituição Federal, e garantir uma prática esportiva justa, isonômica, assim como
incentivar o desporto como forma de integração social.

Por fim, infere-se que além de todos os pontos positivos explícitos até aqui, o
direito desportivo visa também a manutenção da ordem, através das punições
previstas na Nobel Legislação nos casos de ocorrências, de forma a resguardar mais
uma vez seu papel fundamental evitando que lides desportivas sejam apreciadas em
um primeiro momento pelo Poder Judiciário causando inércia e lentidão na resolução
de conflitos que em tese, não podem esperar.

É nesse contexto que encontra a importância do direito desportivo, seja para o


legislador, seja para comunidade acadêmica, para os sociólogos, filósofos, para a
sociedade ou para os atletas, ele está aqui, como garantia constitucional, pronto à
assegurar direitos que são inerentes a todos, só resta ao Governo incentivá-lo.
53

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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fratura-de-neymar.html> Acesso em: 01. Out.2016.

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