Você está na página 1de 16

I.

INTRODUÇÃO AO DIREITO PENAL


Análise os gráficos abaixo e observe os aspectos mais cobrados nas provas de Concurso Público sobre o tema
Introdução ao Direito Penal -> oriente seus estudos por essa análise.

Introdução ao Direito Penal


8
7
6
5
4
3
2
1
0
Conceito de Características do Classificação das Nor- Interpretação das Nor-
Direito Penal Direito Penal mas Penais mas Penais

Classificação das Interpretação da lei penal


Normas Penais
8 8

7 7

6 6

5 5

4 4

3 3

2 2

1 1

0 0
Interpretação analógica
Normas penais por extensão
Interpretação extensiva
Normas penais explicativas
Interpretação teleológica
Normas penais permissivas
Interpretação autêntica

1. Definição
Sabemos que o Direito é uma ciência que tem por objetivo garantir a convivência harmônica entre os indiví-
duos que vivem em sociedade e, para iniciarmos o estudo dessa disciplina, nesse tópico irei conceituar a área
do Direito Penal.

10
Tradicionalmente, o Direito é dividido em dois grandes ramos: o Direito Público e o Direito Privado. O Direito
Privado, como o próprio nome já diz, tem como objeto a disciplina das relações jurídicas firmadas entre par-
ticulares. Nessa medida, o Direito Privado tem como alicerce o pressuposto de igualdade entre as partes que
travam determinada relação jurídica.

DIREITO PÚBLICO O Direito Público, por sua vez, tem como objeto a regulação dos
interesses da coletividade, no sentido de disciplinar as relações jurí-
dicas travadas pelo Estado (ente público), primando pela busca do
interesse público. No que se refere a esse ramo do direito, cumpre
destacar a presença da desigualdade entre as partes nas relações
jurídicas, uma vez que, no intuito de assegurar o bem comum da so-
Interesse Público
ciedade e visando garantir a supremacia do interesse público, tem-
Interesse Privado -se que os interesses da coletividade devem prevalecer sobre os
interesses privados. Nessa medida, ao ente estatal, que tem como
função precípua a busca pelo bem comum, são conferidas PRER-
ROGATIVAS E PODERES excepcionais que asseguram ao ente público uma posição jurídica de superioridade
frente ao particular. Integram esse ramo o Direito Constitucional, o Direito Administrativo, o Direito Tributário, o
Direito Penal e etc.
Destaca-se que, na maioria das situações, verifica-se que os regimes público e privado se complementam. As-
sim sendo, as relações travadas entre particulares serão regidas preponderantemente pelo direito privado e
subsidiariamente pelas normas de direito público. Da mesma forma, as relações travadas pelo Estado, em
inúmeras situações, sujeitam-se à aplicação subsidiária do direito privado.
Considerando esse entendimento geral, podemos conceituar Direito Penal como o ramo do Direito Público que
tem tem como objeto a tutela dos bens jurídicos indispensáveis à harmonia social, através de normas
sancionadoras. Desse modo, o Direito Penal disciplina o direito do Estado de punir o responsável pela prática
de uma infração penal e, para tanto, essa área do Direito estabelece as condutas tipificadas pela legislação como
ilícitas e reprovadas pela sociedade, bem como define as respectivas sanções que serão aplicadas ao agente
infrator (QUESTÃO 1).

INFRAÇÕES PENAIS
ATENÇÃO
As infrações penais constituem gênero, do qual
Crimes
são espécies os crimes e as contravenções pe-
nais. Contravenções Penais

Nesse sentido, o Direito Penal pode ser classificado como:


a) Subjetivo: o aspecto subjetivo refere-se ao próprio poder de pu-
nir do Estado. Cumpre destacar que o Estado é o único detentor da
capacidade de punir o infrator, não podendo se eximir dessa respon- PODER
sabilidade de agir.
b) Objetivo: a classificação do Direito Penal sob o aspecto objetivo,
por sua vez, trata a respeito do
QUESTÃO CESPE conjunto das normas penais
No que diz respeito a noções gerais que vigoram em determinada STATUTE BOOK
aplicadas no âmbito do direito penal, região;
julgue o próximo item.
Cumpre destacar que o Direito
O direito de punir do Estado está vin-
culado ao direito penal substantivo, ou Penal pode, ainda, ser definido statute book
direito penal objetivo. quanto aos aspectos formal,
Errado material ou sociológico, confor-
me a tabela abaixo:
11
Aspectos do Direito Penal
O Direito Penal seria o conjunto de normas que es-
tabelecem e especificam as condutas humanas
tidas como infrações.
Formal ou Estático
FICA A DICA: a palavra “formal” sempre está rela-
cionada às formalidades e à aquilo que se encontra
estabelecido na lei.
Segundo esse aspecto, o objeto do Direito Penal re-
Material fere-se às condutas humanas reprovadas pela socie-
dade e que causam algum dano a um bem jurídico.
Nesse caso, o Direito Penal é visto como um instru-
mento de controle social, que tem por objetivo pro-
Sociológico ou Dinâmico
mover a convivência pacífica e harmônica entre os
indivíduos.
Cabe ressaltar que a mencionada punição ao agente infrator poderá ser aplicada em relação ao fato, ao autor e
sob a ótica das teorias abaixo. Afinal, o autor de uma conduta delituosa pode ser punido pelo que é (direito penal
do autor), pelo que fez (direito penal do fato), pelos dois motivos concomitan- Direito Penal do Fato
temente ou, até mesmo, ora por um, ora por outro. Vejamos: responsabilização
De acordo com
a) Direito Penal do Fato: nesse caso, a sanção penal visa punir o fato crimino- Quem é o as minhas inves-
tigações foi ele!
so, sem levar em consideração o histórico social de quem o cometeu. O sistema assassino?
penal brasileiro adotou, para fins de configuração do crime, o direito penal do
fato. Ou seja, para responsabilizar penalmente alguém pela prática de uma
conduta criminosa, impõe-se ao Estado, por meio da polícia judiciária (inquérito
policial) e do Ministério Público, deste em juízo (processo), provar a concorrên-
cia direta ou indireta do agente para a prática da conduta que lhe foi imputada.
FICA A DICA
A partir dessa ideia é que se justifica a não punição nos chamados crimes impossíveis previstos no Código Penal.
Art. 2º - Ninguém pode ser punido por FATO que lei posterior deixa de considerar crime, cessando em virtude dela a execução
e os efeitos penais da sentença condenatória. (Direito Penal do FATO).

TRADUÇÃO JURÍDICA
“Como assim prof.?” Me de um exemplo de crime impossível!
Imagine que um assassino profissional foi contratado para matar Joelma e, para executar essa tarefa, disparou a sua arma contra a
vítima que se encontrava dormindo. Entretanto, após feita a perícia verificou-se que Joelma já se encontrava morta em razão de um
ataque cardíaco. Ou seja, ainda que o assassino tivesse a intenção de matar, ele não responderá pela morte, uma vez que ele não foi
autor do fato.

b) Direito Penal do Autor: nesse caso, a sanção penal visa punir a pessoa Direito Penal do Autor
fixação da pena
do criminoso, analisando toda a sua vida pregressa e punindo-o em decor- Após analisar a sua ficha
rência da sua personalidade, histórico e condições pessoais. No ordenamento criminal, decido que você
será condenado a 10
jurídico brasileiro, para fins de fixação da pena, espécie de pena, regime de anos de prisão
cumprimento, substituição, transação penal e etc (que é um momento poste-
rior à responsabilização penal) o nosso sistema penal faz uso do chamado
direito penal do autor, uma vez que nessas hipóteses o juiz levará em consi-
Ai...
deração, em consideração o grau de culpabilidade (reprovabilidade) do
autor do crime, seus antecedentes, as conseqüências do crime e etc.

TRADUÇÃO JURÍDICA

“Como assim prof.?” Aquele agente que já foi condenado, fugiu do presídio, sequestrou alguém e o manteve como refém sob a
mira de uma arma e com outros tipos de ameaças/violências até que o dinheiro/recompensa fosse sacado do caixa eletrônico, neces-
sariamente deve receber uma punição maior.

12
c) Direito Penal do Inimigo: Segundo Gunther Jakobs, certas pessoas, por serem inimigas da sociedade (ou
do Estado), não detém todas as proteções penais e processuais penais que são conferidas aos demais in-
divíduos. Nesse sentido, o autor propõe a distinção entre um Direito Penal do cidadão, que se caracteriza pela
manutenção da vigência da norma, e um direito penal para inimigos, orientado para o combate a perigos e que
permite que qualquer meio disponível seja utilizado para punir esse infrator (o inimigo não é um sujeito de direito).
No direito penal do inimigo as penas previstas são desproporcionalmente altas e as garantias processuais são
relativizadas ou suprimidas (QUESTÕES 2, 3).
Portanto, no ordenamento jurídico penal
QUESTÃO CESPE ATENÇÃO
brasileiro adotou-se a teoria do direito
O direito penal do autor poderá servir de funda- penal do fato, porém, ainda restam pre-
mento para a redução da pena quando existirem
sentes aspectos da teoria do direito penal do autor no que tange
circunstâncias pessoais favoráveis ao acusado.
às etapas de fixação da pena, regime de cumprimento, espécie
Correto de sanção, entre outros (art.59 do Código Penal).

TRADUÇÃO JURÍDICA
“Como assim prof.? Aspectos da teoria do direito penal do autor na etapa de fixação de pena?”
O sistema penal brasileiro adotou, para fins de caracterizar o crime, o direito penal do fato. Ou seja, para responsabilizar penalmente
alguém pela prática de uma conduta criminosa, impõe-se ao Estado, por meio da polícia judiciária (inquérito policial) e do Ministério
Público, deste em juízo (processo), provar a concorrência direta ou indireta do agente para a prática da conduta que lhe foi imputada.
Entretanto, para fins de fixação da pena, o juiz levará em consideração o grau de culpabilidade, os antecedentes do autor do crime, as
consequencias do crime e etc (aplicação da teoria do direito penal do autor).

2. CONCEITOS IMPORTANTES – Direito Penal, Criminologia e Política Criminal


Conforme definido acima, o Direito Penal representa o conjunto de normas que visam punir as condutas
reprovadas pela sociedade, sejam elas definidas como crimes ou como contravenções penais. A Crimi-
nologia, por sua vez, é a ciência que tem por objeto o fenômeno e as causas da criminalidade, a personalidade
do delinquente, sua conduta delituosa e estuda uma maneira de ressocializá-lo. Essa ciência apoia-se em in-
vestigações da realidade reunindo informações confiáveis em relação ao problema social, buscando dados do
delito e do seu autor, comparando, analisando e classificando os resultados dessa investigação, com o objetivo
de facilitar o trabalho da justiça quanto à aplicabilidade das medidas punitivas. Portanto, trata-se do estudo do
crime, do criminoso, da vítima e das causas e fatores da criminalidade. Por fim, cabe esclarecer que a Política
Criminal é uma ciência que visa desenvolver estratégias para tornar o Direito Penal mais eficiente em seu caráter
preventivo, punitivo e ressocializador (ciência teleológica).
O quadro abaixo faz um pequeno comparativo entre esses conceitos, vejamos:

TRADUÇÃO JURÍDICA “Como assim prof.? Crime de roubo

Art. 157 - Subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem, mediante grave ameaça
ou violência a pessoa, ou depois de havê-la, por qualquer meio, reduzido à impossibi-
lidade de resistência:
Pena - reclusão, de quatro a dez anos, e multa.
Direito Penal Ex: Um belo dia dois garotinhos, Molusco e Aécim, roubaram a casa de uma
velhinha e levaram todo o dinheiro dela, mediante grave ameaça. Com o dinhei-
ro, Molusco comprou um Triplex e Aécim um helicóptero para continuar com as
suas atividades de traficante e alavancar a sua carreira.
Qual a relação causal levou o Molusco e Aécim, inserido no contexto da emprei-
Criminologia
tada delitiva, a realizar a conduta delituosa?
Quais são as medidas cabíveis para diminuir a probabilidade de pessoas inse-
ridas em contexto semelhante ao do agente Molusco e Aécim praticarem crime
Política Criminal
de furto? #ExplodirOCongresso? #PiadaInfame #ARespostaé:AprenderAVotar
CertoDaPróximaVez

13
3. Funções do Direito Penal
As funções do Direito Penal se classificam em conformidade com o papel que o direito penal visa desempenhar
na sociedade em que vigora, são essas:
a) Mediata: a função mediata do Direito Penal se desdobra em duas vertentes, sendo a primeira relacionada
à capacidade de controlar os cidadãos para fins de garantir uma convivência pacífica e harmônica entre eles,
prevenindo o retrocesso da vingança privada – “olho por olho, dente por dente”. A segunda, por sua vez, esta
relacionada com as limitações impostas ao próprio Poder Punitivo do Estado, para evitar que o ente público
não incorra em abuso de autoridade e arbitrariedades.
FICA A DICA
A expressão vingança privada refere-se à situação em que a vítima de determinado crime se
vinga do agressor sem que para tanto precise recorrer ao Estado e seus agentes.
Ex: Bruno (goleiro) mata o Eliza Samúdio filha de José e José, para se vingar, mata o filho
de Bruno.

Nesse sentido, a função mediata do Direito Penal consiste em impedir a vingança privada, que tende a ser des-
proporcional e, além disso, visa assegurar que o Estado não viole os direitos dos cidadãos e atue na prevenção/
punição dos crimes sem abuso de autoridade (limitações ao próprio Poder Punitivo do Estado).

ATENÇÃO
Exceção à vedação da vingança privada -> o art 57 do Estatuto do Indio estabelece que “será tolerada a aplicação, pelos grupos tribais,
de acordo com as instituições próprias, de sanções penais ou disciplinares contra os seus membros, desde que não sejam revestidas
de caráter cruel ou infamante, proibida em qualquer caso a pena de morte.”

b) Imediata: a função imediata do direito penal resume-se à proteção dos bens jurídicos tutelados pelo orde-
namento jurídico. Cabe salientar que o Direito Penal deve tutelar os bens jurídicos mais importantes da socie-
dade como, por exemplo, a vida. Entretanto, uma corrente moderna, influenciada pelo funcionalismo de Jakobs
que estudaremos a seguir, estabelece que a função imediata do direito penal é assegurar o ordenamento jurídico,
ou seja, a vigência da norma. Prevalece no Brasil a primeira corrente.
FICA A DICA
Desse modo, a doutrina diverge quanto a função imediata, vejamos:
1º corrente: a missão do Direito Penal seria proteger bens jurídicos (adeptos do funcionalismos de Roxin – prevalece essa corrente
estudada acima)
2º corrente: a missão do Direito Penal é assegurar o ordenamento jurídico – a vigência da norma (adeptos ao funcionalismo de
Jakobs).

TRADUÇÃO JURÍDICA

“Como assim prof.?”


Se João deixar de pagar por um produto adquirido junto ao estabelecimento de Maria, João será responsabilizado pelo inadimplemento
tendo seu nome inscrito no SPC (por exemplo), mas não será preso por isso. Em contrapartida, se caso Maria assassinar João em
razão do não pagamento da quantia correspondente ao produto, Maria poderá ser privada de sua liberdade, uma vez que a legislação
define as condutas merecedoras de pena, e considera a vida um dos bens jurídicos mais importantes, justificando, portanto, uma maior
proteção e uma punição mais severa.

ATENÇÃO: O direito de punir estatal não é absoluto, muito menos incondicionado e tampouco ilimitado.
Como assim prof? O nosso próprio ordenamento jurídico estabelece limites ao direito de punir do Estado, vejamos:
– Quanto ao modo: o direito de punir deve respeitar os direitos e garantias fundamentais, evitando a hipertrofia da punição;
– Quanto ao espaço: Art 5º do CP – Princípio da Territorialidade Temperada: Aplica-se a lei brasileira, sem prejuízo de convenções,
tratados e regras de direito internacional, ao crime cometido no território nacional. Ou seja, a lei penal só tem aplicação no território do
Estado que a editou, não importando a nacionalidade do sujeito ativo ou passivo.
– Quanto ao tempo: o poder punitivo não é eterno, prova disso é o instituto da prescrição (limite temporal ao direito de punir), que
estudaremos a seguir.

14
4. Éspecies de Direito Penal
Além dos pontos explicitados acima, o Direito Penal pode ser classificado conforme as categorias abaixo:
a) Direito Penal Substantivo X Direito Penal Adjetivo: o primeiro refere-se ao conjunto de normas, princípios
e regras que se ocupam da definição de infrações penais e da imposição de suas consequências - as penas e
medidas de segurança. Ao passo que o último, refere-se ao processo de utilização das normas penais e tem a fi-
nalidade de determinar a forma como deve ser aplicado o Direito Penal, constituindo um verdadeiro instrumento
de aplicação do Direito Penal Substantivo ou Material, denominado direito processual penal.
b) Direito Penal Objetivo X Direito Penal Subjetivo: o primei-
QUESTÃO BANCA ro se refere as próprias normas penais e, este último, por sua
No que diz respeito a noções gerais aplicadas no âm-
vez, trata acerca do direito de punir (jus puniendi) do Estado.
bito do direito penal, julgue o próximo item. Esse poder-dever é de titularidade exclusiva do Estado.
O direito penal subjetivo refere-se ao conjunto de
princípios e regras que se ocupam da definição das MACETE: a palavra “Subjetivo” vem de SUjeito que tem o
infrações penais e da imposição de penas ou medi- poder para produzir e aplicar as normas penais -> Estado
das de segurança.
A palavra “Objetivo” vem de objeto/matéria, qual seja as
Errado próprias normas penais.

O Direito Penal Subjetivo pode ser dividido em:


– Direito Penal Subjetivo Positivo: refere-se à capacidade atribuída ao Estado de produzir e impor normas
penais;
– Direito Penal Subjetivo Negativo: refere-se a atribuição dada ao Direito Penal de limitar o próprio poder do
Estado, ou seja, o próprio jus puniendi, visando evitar o abuso de autoridade à luz dos direitos individuais
consagrados na Constituição Federal.
FICA A DICA
O Estado pode, por exemplo, através do STF, declarar a inconstitucionalidade de determinada norma penal, ainda que essa tenha sido
inserida no ordenamento jurídico de forma regular, respeitando todas as regras do processo legislativo.

c) Direito Penal Simbólico: refere-se à ideia/simbologia imposta pelo Estado na sociedade de que as condu-
tas devem ser criminalizadas e as penas agravadas para, “teoricamente”, dar a sensação de estabilidade entre
os indivíduos. O Direito Penal Simbólico acaba sendo ineficaz na prática por trazer meros símbolos de rigor
excessivo que efetivamente caem no vazio, diante de sua não aplicação efetiva. Além disso, destaca-se que
nesse processo muitas vezes as garantias fundamentais são violadas, a título exemplificativo podemos citar a
classificação dos crimes tidos como hediondos, cuja pratica será punida de forma mais severa, uma vez que são
considerados bastante ofensivos à sociedade.

TRADUÇÃO JURÍDICA

“Como assim prof.?”


Em 1992, em virtude do assassinato cometido por Guilherme de Pádua contra Daniella Perez, ambos atores da Globo, e da comoção
nacional havida após ampla divulgação do caso na mídia, o homicídio qualificado tornou-se crime hediondo, passando a ter tratamento
e pena mais severa. Destaca-se que, de certa forma, a mídia sensacionalista contribuiu para a instituição de um Direito Penal simbólico
ao intensificar o interesse da população pela questão criminal, especialmente pela exploração de determinados fatos criminosos como
se fossem corriqueiros.
Vejamos outro exemplo: o crime de extorsão mediante sequestro, que era bem raro no Brasil, foi classificado como crime hediondo,
em razão dos crimes contra pessoas notórias entre 1989 e 1990, como o empresário Abílio Diniz. Portanto, devido à insegurança
gerada pelo ocorrido, foi editada a lei dos crimes hediondos. Destaca-se que, apesar do rigor da referida lei, não houve a diminuição
de incidência desse crime.

d) Direito Penal Promocional, Político ou Demagogo: refere-se à situação na qual o Estado elabora normas
penais, visando gerar uma “falsa percepção” de segurança e bem-estar social, ao invés de desenvolver políticas
públicas capazes de garantir condições dignas de vida e paz entre os cidadãos.
15
TRADUÇÃO JURÍDICA

“Como assim prof.?”


O Direito Penal promocional se manifesta quando o Estado utiliza as leis penais para consecução de suas finalidades políticas, por ser
um poderoso instrumento de desenvolvimento e transformação social (função promocional). Nesse caso, a intenção do legislador não
é a real proteção dos bens jurídicos violados, mas uma forma de “adular” os cidadãos, dizendo o que eles querem ouvir, mesmo que tal
medida não gere reflexo na diminuição da criminalidade.

5. Velocidades do Direito Penal


Doutrinariamente, o Direito Penal possui algumas velocidades que consideram o tempo que o Estado leva para
punir o autor de uma infração, respeitando ou não os direitos e as garantias fundamentais. Para tanto, podemos
afirmar que existem quatro velocidades que devem ser estudadas:
a) Direito penal de 1ª Velocidade: leva em consideração a prática de infrações penais mais graves, punidas
com penas restritivas de liberdade e exigindo procedimentos mais demorados. Nesse caso, há estrita observân-
cia às garantias penais e processuais.
b) Direito penal de 2ª Velocidade: nesse caso, ocorre uma flexibilização dos direitos e das garantias fundamen-
tais, permitindo uma punição mais célere. Entretanto, admite-se a aplicação de penas alternativas.
c) Direito penal de 3ª Velocidade: realiza uma fusão das velocidades anteriores. Nesse caso, admite-se a pu-
nição do criminoso com pena privativa de liberdade, porém, para determinados crimes, flexibiliza as garantias e
direitos constitucionais.
d) Direito penal de 4ª Velocidade: é aquela relacionada ao Direito Penal Internacional, abrangendo o previsto
em tratados e convenções internacionais para julgamento dos crimes considerados internacionais.

6. Fontes do Direito Penal


O termo “fonte” refere-se à origem, lugar de onde provém algo. No caso, de onde emanam as regras do Direito
Penal. Estudaremos a seguir as fontes do Direito Penal, que são divididas entre fontes materiais e formais:

6.1. Fonte Material do Direito Penal


No Estado Democrático brasileiro, conforme preceitua o art. 22, I, da Constituição da República Federativa do
Brasil de 1988, o ente federado encarregado de legislar sobre Direito Penal é a União. Desse modo, a exterio-
rização e produção do Direito Penal são de responsabilidade desse ente Estatal, ou seja, a fonte material do
Direito Penal é o Estado, através da União, que é o ente federado responsável por legislar sobre a matéria.
Contudo, tenha atenção -> o próprio artigo traz em seu parágrafo único uma outra possibilidade na qual lei com-
plementar poderá autorizar os Estados a legislar sobre questões especificas das matérias relacionadas nesse
artigo incluindo o Direito Penal, vejamos:
“Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre:
I - direito civil, comercial, penal, processual, eleitoral, agrário, marítimo, aeronáutico, espacial e do trabalho;
(...)
Parágrafo único. Lei complementar poderá autorizar os Estados a legislar sobre questões específicas das maté-
rias relacionadas neste artigo.”

6.2. Fonte Formal do Direito Penal


As fontes formais dizem respeito ao modo como as normas penais são exteriorizadas e são subdivididas em dois
grupos:
a) Fontes Formais Imediatas:
– Leis em Sentido Estrito (stricto sensu): trata-se de normas penais incriminadoras, isto é, aquelas que espe-
cificam uma conduta ilegal típica e estabelecem uma pena a ser aplicada àquele que a prática;
16
– Leis em Sentido Amplo (lato sensu): constitui uma fonte primária, abrangendo as normas e os princípios que
que tratam acerca da aplicação e limites das leis penais incriminadoras.
FICA A DICA
A lei é a única fonte formal imediata capaz de criar infrações penais e cominar sanções!

– Constituição Federal de 1988;

TRADUÇÃO JURÍDICA

“Prof, se a CF é superior à lei, porque ela não pode criar infrações penais?
Isso ocorre em razão do processo moroso de alteração da Carta Magna – que já vimos no Manual de Constitucional -, que não se
encaixa na dinâmica exigida na órbita penal. Porém, destaca-se que a CF estabelece mandados constitucionais de criminalização – art
5º, XLII da CF – prevendo patamares mínimos que devem orientar o Direito Penal.

– Tratados Internacionais sobre Direitos Humanos – fontes das quais


QUESTÃO CESPE emanam os direitos humanos à categoria de bens que devem ser juri-
Em matéria penal, os tratados e as con- dicamente protegidos pelo Direito Penal, bem como devem servir como
venções internacionais, após serem re- meio para proteger os indivíduos contra as arbitrariedades que possam ser
ferendados pelo Congresso Nacional,
eventualmente cometidas pelo ente público. É importante esclarecer que os
constituem fontes imediatas do direito
penal e têm eficácia erga omnes.
tratados e convenções internacionais não são instrumentos hábeis à criação
de infrações penais e cominação de penas para o direito interno, mas apenas
Correto para o direito internacional (STF HC n. 96007);
– Jurisprudência – trata a respeito às reiteradas decisões judiciais que influenciam a produção das normas de
Direito Penal. Trata-se de uma fonte secundária, haja vista que, em regra, as decisões judiciais não possuem
uma aplicação geral ou eficácia perante sujeitos alheios ao processo (erga omnes) nem efeito vinculante. En-
tretanto, como exceção, temos as súmulas vinculantes, as decisões de mérito proferidas nas ações diretas de
inconstitucionalidade e nas ações declaratórias de constitucionalidade.
TRADUÇÃO JURÍDICA

“Como assim prof.?” Decisões que tem eficácia perante sujeitos alheios ao processo e efeito vincu-
lante?
O art. 103-A da Constituição Federal dispõe que o STF pode, de ofício ou mediante provocação, por meio de decisão proferida por
2/3 dos seus membros, após reiteradas decisões sobre matéria constitucional, aprovar Súmula que, a partir de sua publicação na im-
prensa oficial, terá efeito vinculante em relação aos demais órgãos do PODER JUDICIÁRIO e à ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA DIRETA
E INDIRETA, nas esferas federal, estadual e municipal. Portanto, a Administração Pública e o Poder Judiciário devem seguir o
entendimento exarado por meio da súmula vinculante.

– Princípios – conjunto de normas que são a base do direito, orientações normativas.


– Atos Administrativos – são atos administrativos infralegais que facilitam/clarificam a aplicação dos dispositi-
vos legais.
TRADUÇÃO JURÍDICA

“Como assim prof.?”


Para entender um pouco melhor o papel dos atos administrativos, vamos exemplificar:
A Lei 11.343/2006 dispõe:
“Art. 33. Importar, exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar, adquirir, vender, expor à venda, oferecer, ter em depósito, transportar,
trazer consigo, guardar, prescrever, ministrar, entregar a consumo ou fornecer drogas, ainda que gratuitamente, sem autorização ou em
desacordo com determinação legal ou regulamentar:”
A partir da leitura do dispositivo acima, verifica-se que a própria Lei de Drogas não conceitua o termo legal “drogas”, cabendo à Anvisa,
órgão relacionado ao Ministério da Saúde (poder executivo), a listagem de quais substâncias são considerados drogas mediante a
edição de um ato administrativo. Nessa medida, o ato administrativo irá dispor acerca do tema e irá trazer o rol de sustâncias proibidas,
em complementação à norma penal em branco heterogênea.
Cumpre destacar que a referida complementação não ofende o princípio da reserva legal.

FICA A DICA
A Lei em sentido estrito é o único instrumento capaz de criminalizar uma conduta e determinar penas.

17
b) Fonte Formal Mediata: são fontes formais mediatas a doutrina, os costumes e os princípios gerais do
direito. A doutrina representa o conjunto de teses e estudos acerca do Direito que influenciam a elaboração das
leis, trata-se de uma fonte secundária. Os costumes, por sua vez, referem-se ao conjunto de regras não escritas
adotadas pela sociedade, entendido como fonte secundária indireta. Os Princípios Gerais do Direito representam
o conjunto de normas não escritas que são a base do direito, sem previsão expressa no ordenamento jurídico.

7. Características e Classificação da Lei Penal


Conforme o entendimento da doutrina majoritária, são características das normas penais a exclusividade, im-
peratividade, abstração, generalidade, e impessoalidade (QUESTÃO 4). Vejamos:
a) Exclusividade: apenas a lei penal estabelece os crimes e as sanções penais;
b) Imperatividade: uma vez praticado o crime, o Estado DEVE aplicar a respectiva sanção. Portanto, a quem
incorrer no ilícito penal será aplicada as consequências legais.
c) Impessoalidade: a norma penal é abstrata e sua aplicação é voltada à fatos futuros, não sendo criada,
portanto, no momento concreto da empreitada delitiva, tampouco se referindo a indivíduos específicos, uma vez
que não existe crime sem lei anterior que o defina como tal. Há, porém, algumas exceções a essa regra, como
por exemplo a anistia e a abolitio criminis, as quais alcançam fatos concretos;
TRADUÇÃO JURÍDICA
Éh eu empurrei a minha sogra Eu fiz a mesma
“Como assim prof.?” do penhasco... fui condenado coisa, mas devo
a ficar por aqui por 12 anos. E ficar por aqui só 4
Vamos imaginar o seguinte cenário -> hoje você compra uma bicicleta, mas você, que acabou de chegar? anos! Você viu a
amanhã o Congresso aprova uma lei dizendo que comprar bicicleta é um crime. lei nova?
Óbvio que seria injusto você ser punido, uma vez que quando você comprou o
objeto aquela ação ainda não era considerada um crime. Ou seja, a nova lei penal
não retroage.
Vejamos um outro exemplo: a Lei 2000, já revogada, estabelece a pena de 8 Uai, não
anos para determinado crime e a Lei 2010, vigente, estabelece pena de 12 anos. vi não...
Esta última não retroagirá e não atingirá atos praticados no passado. Entretanto, Estou livre
então?
caso a Lei 2000, já revogada, estabelecesse a pena de 12 anos e a lei 2010,
vigente, de 4 anos. Esta última retroagiria para fim de beneficiar o réu.

NOVATIO LEGIS IN PEJUS Lei nova que prejudica o réu será válida
para casos dali para frente.
TEMPUS REGIT Nova lei prejudicial
ACTUM Lei nova que beneficia a situação do réu retroage
NOVATIO LEGIS IN MELLIUS
para atingir as situações anteriores
Nova lei benéfica
Quando determinado delito deixa de ser tipificado como
ABOLITIO CRIMINIS
crime, todos que respondiam por ele serão absolvidos e
Todo fato é submetido
Abolição do Crime terão quaisquer consequências oriundas desta condenação
à lei que vigora no
totalmente apagadas.
momento da sua
realização
CRIME CRIME
03/08/2012 01/02/2014 09/03/2014
LEI NOVA
Exemplo: Felipe matou o seu RÉU A RÉU B
irmão no dia 25/05/2018.
Todos os atos processuais
serão regidos com base na Essa lei nova prejudica o réu A, logo,
lei que vigora nesta data. não retroagirá. Porém será aplicada ao réu B.

Apesar da lei ter entrado em vigor APÓS o crime ter sido cometido,
por beneficiar o réu A, retroagirá.
A lei processual penal tem aplicação imediata.
Art. 5º, XL/CF - § 2º do CP.
“A lei penal não retroagirá, salvo quando para beneficiar o réu.”

18
TRADUÇÃO JURÍDICA
“Como assim prof.?” Anistia e Abolitio criminis
Na Abolitio Criminis, o Poder Público abdica do poder de punir determinado indivíduo pela prática de ato criminoso, sendo, portanto,
uma exceção à impessoalidade da Lei Penal, uma vez que é dirigida a fatos passados e a indivíduo específico ou grupo de indivíduos
específico. A abolitio criminis recai sobre a lei, suprimindo a figura criminosa.Ex: no dia 14 de julho de 2000, foi publicada a lei 9.983,
com vacatio legis de 90 (noventa) dias, prescrevendo em seu artigo 3º a revogação dos crimes previstos no artigo 95 da lei 8.212, de
24 de Julho de 1991, ocorrendo a abolitio criminis das referidas infrações penais.
A anistia, por sua vez, esquece o fato, mas em abstrato a lei penal é mantida, permanecendo criminoso o conteúdo do fato. Trata-se de
renúncia do Estado ao exercício de seu poder repressivo, atinge todos os efeitos penais decorrentes da prática do crime, referindo-se
a fatos e não a pessoas. Aplica-se a atos passados, post factum, com efeito ex tunc, fazendo desaparecer o crime e extinguindo os
efeitos da sentença. Geralmente, a anistia é motivada por questões de ordem política. É aplicada, principalmente, aos crimes políticos,
militares e eleitorais, nada impedindo que seja aplicada a qualquer outra infração penal.
“Dilma critica anistia a PMs que cometeram crimes na Bahia
A presidente Dilma Rousseff afirmou nesta quinta-feira que é contra a anistia de policiais militares que praticaram crimes durante a
greve na Bahia” (Folha de São Paulo – 09/02/12).

d) Generalidade: a lei penal é direcionada a todos os indivíduos da sociedade.

8. Classificação das normas penais:


a) Normas penais incriminadoras: as referidas normas definem as infrações penais, fixando suas penas. En-
contram-se previstas na parte especial do Código Penal e nas Leis Penais Especiais. Cumpre ressaltar que a
descrição da conduta é entendida como preceito primário e a previsão da pena é denominada preceito secundário.
TRADUÇÃO JURÍDICA

“Como assim prof.?”


Art. 121. Matar alguém (preceito primário).
Pena – Reclusão, de 6 (seis) a 20 (vinte) anos (preceito secundário).

b) Normas penais permissivas: são aquelas que afastam a ilicitude ou a culpabilidade de uma conduta
típica (QUESTÃO 5). Ex: excludentes de culpabilidade.

TRADUÇÃO JURÍDICA
“Como assim prof.?”
Excludentes de Culpabilidade As normas penais permissivas podem ser justificantes
(afastam a ilicitude da conduta do agente, por exemplo: arts. 23, 24 e 25 do CP) ou
exculpantes (eliminam a culpabilidade, isentando o agente de pena, por exemplo: art.
26 “caput” e 28 do CP).
Ex 1: Ana, quando tinha apenas 8 anos, matou Maria, sua amiguinha de escola (quem
tem uma amiga dessas, não precisa de inimiga. Não é mesmo?). Apesar de “matar
alguém” ser fato típico e a conduta de Ana ter sido ilícita, ela não poderá ser respon-
sabilizada pelo crime, pois, à época do fato, ela era inimputável – criança de 8 anos
(QUESTÃO 6).
Ex 2: João, em situação degradante, prestes a morrer de fome, furta a carteira de Maria para se alimentar. Nesse caso, embora sub-
trair coisa alheia móvel seja fato típico, a conduta de João não será entendida como ilícita, pois João agiu em estado de necessidade.

c) Normas penais complementares: são aquelas que complementam outras normas, limitando sua
aplicação.
TRADUÇÃO JURÍDICA

“Como assim prof.?” Norma penal complementar? Me dá um exemplo!


“Art. 59 do CP Art. 59 - O juiz, atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta social, à personalidade do agente, aos motivos,
às circunstâncias e conseqüências do crime, bem como ao comportamento da vítima, estabelecerá, conforme seja necessário e sufi-
ciente para reprovação e prevenção do crime: (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984) [...]”
As normas penais não incriminadoras explicativas e complementares esclarecem, limitam ou complementam as normas penais incrimi-
nadoras dispostas na Parte Especial. Dessa forma, podem esclarecer ou complementar o preceito primário, bem como determinar a
consequência jurídica esclarecendo, limitando ou complementando o preceito secundário.

19
d) Normas penais explicativas: explicam o significado necessário para a interpretação de outra norma.

TRADUÇÃO JURÍDICA

“Como assim prof.?” Como asim norma penal explicativa? Oi?!?!


O art. 312 do Código Penal descreve o crime de peculato, o qual só pode ser cometido por funcionário público, in verbis:
“Art. 312 - Apropriar-se o funcionário público de dinheiro, valor ou qualquer outro bem móvel, público ou particular, de que tem a posse
em razão do cargo, ou desviá-lo, em proveito próprio ou alheio”.
Dito isso, o art. 327 do mesmo diploma legal (norma penal explicaiva), define/explica o conceito de “funcionário público”: Considera-se
funcionário público, para os efeitos penais, quem, embora transitoriamente ou sem remuneração, exerce cargo, emprego ou função
pública (QUESTÃO 7).

e) Normas penais de extensão ou integrativas: as referidas normas garantem a tipicidade de determinados fa-
tos. Ocorre quando o comportamento do agente inicialmente não se amolda por inteiro a descrição do tipo legal,
havendo a necessidade de outro dispositivo para o seu correto enquadramento (QUESTÃO 8);
TRADUÇÃO JURÍDICA

“Como assim prof.?”


Como exemplo de norma penal de extensão temos o artigo 14, II, do CP que estabelece que: “Diz-se o crime tentado, quando, iniciada
a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente. Parágrafo único – Salvo disposição em contrário, pune-
-se a tentativa com a pena correspondente ao crime consumado, diminuída de um a dois terços”. Desse modo, quando afirmamos
que o sujeito responderá pela TENTATIVA de determinado crime, faz-se necessário a utilização da norma disposta no art. 14, II, do CP
(QUESTÕES 9, 10, 11).

9. Interpretação da Lei Penal


A interpretação é a técnica que as ciências utilizam para compreender o verdadeiro significado de uma mensa-
gem. Nesse sentido, interpretar a norma penal é buscar atingir e entender todo o seu alcance, de modo a propor-
cionar o seu entendimento a legisladores, juízes e demais operadores do direito na sua aplicação.
A interpretação quanto às fontes pode ser autêntica, jurisprudencial ou doutrinária.
a) Interpretação autêntica: trata-se da interpretação realizada pelo próprio legislador, quando ele edita uma
outra norma com a função meramente interpretativa. A edição de uma nova norma pode ocorrer no próprio texto
da lei (interpretação autêntica contextual) ou através de lei editada posteriormente à norma a que se destina a
interpretação (interpretação autêntica posterior) (QUESTÃO 12);
TRADUÇÃO JURÍDICA

“Como assim prof.?” Interpretação autêntica?


O Art. 150. do Código Penal estabelece – “Entrar ou permanecer, clandestina ou astuciosamente, ou contra a vontade expressa ou
tácita de quem de direito, em casa alheia ou em suas dependências;”
Nessa medida, o próprio legislador estebelece nos parágrafos 4º e 5º do referido artigo a definição do termo casa, vejamos:
“§ 4º - A expressão “casa” compreende:
I - qualquer compartimento habitado;
II - aposento ocupado de habitação coletiva;
III - compartimento não aberto ao público, onde alguém exerce profissão ou atividade.
§ 5º - Não se compreendem na expressão “casa”:
I - hospedaria, estalagem ou qualquer outra habitação coletiva, enquanto aberta, salvo a restrição do n.º II do parágrafo anterior;
II - taverna, casa de jogo e outras do mesmo gênero.”

b) Interpretação jurisprudencial: é aquela realizada pelos juízes e tribunais no momento da aplicação das
normas no caso concreto;
c) Interpretação doutrinária: interpretação realizada pelos teóricos e estudiosos do direito.
A interpretação quanto ao modo se divide em: gramatical (literal ou sintática), lógica, teleológica, sistemática e
histórica.
20
a) Interpretação gramatical ou literal: trata-se de uma leitura do texto visando captar o seu conteúdo e sentido
da linguagem/palavras;
b) Interpretação lógica: busca explicar a norma através do sentido lógico/intrinseco do texto, por meio do mé-
todo dedutivo;
c) Interpretação teleológica: é aquela que busca investigar os fins a que a lei se destina, ou seja, ao se inter-
pretar um dispositivo legal deve-se compreender a vontade da lei (QUESTÕES 13, 14, 15);
FICA A DICA
A partir da leitura da exposição de motivos do Código Penal é possível compreender quais eram as motivações do legislador ao
elaborar determinadas regras. Desse modo, ao ler tais regras é possível compreender qual era o objetivo, a vontade do legislador e
como ele desejava que a norma fosse empregada.

d) Interpretação sistemática: a interpretação sistemática considera que a norma não pode ser analisada de
forma isolada, pois o ordenamento jurídico existe como sistema, de forma ordenada;
e) Interpretação histórica: é aquela na qual o intérprete deverá adp-
QUESTÃO FAPEMS tar o texto legal às novas condições sociais existentes, bem como
A interpretação teleológica busca alcançar a fina- deve-se observar as mudanças evolutivas que ocorreram ao longo da
lidade da lei, aquilo que ela se destina a regular. história.
Correto Por fim, a interpretação quanto aos resultados pode ser declarativa,
restritiva ou extensiva.
a) Interpretação declarativa: a interpretação declarativa estará presente quando a norma penal possui com-
pleta equivalência ao texto legal, ou seja, na interpretação declarativa, a letra da lei está em harmonia com a
vontade do legislador. Nesse caso, cabe ao intérprete verificar a exata equivalência entre os sentidos.
b) Interpretação restritiva: trata-se da interpretação que tem o objetivo de restringir o texto legal que foge aos
limites desejados pelo legislador (o alcance do texto legal deve ser reduzido).

TRADUÇÃO JURÍDICA

“Como assim prof.?”


Um exemplo em que é aplicada a interpretação restritiva é o artigo 28 do Código Penal, que dispõe que a embriaguez, voluntária ou
culposa, pelo álcool ou substância de efeitos análogos, não excluiu a imputabilidade penal. Entretanto, o código penal não se atentou
para o fato de que a embriaguez patológica pode vir a excluir a imputabilidade penal, desde que interfira totalmente na capacidade do
indivíduo.

c) Interpretação extensiva: a mencionada interpretação ocorrerá quando a norma legal encontra-se aquém da
intenção do legislador. Nessa hipótese, a interpretação irá ampliar a aplicação da lei – o alcance das palavras
inseridas no texto legal deve ser ampliado (QUESTÕES 16, 17).

TRADUÇÃO JURÍDICA

“Como assim prof.?”


Um exemplo em que é aplicada a interpretação extensiva é a análise do artigo 235 do CPB, que proíbe a bigamia. Pela simples inter-
pretação da norma, é possível perceber que a intenção do legislador era também, ainda que implicitamente, proibir a poligamia.

9.1. Interpretação Analógica x Analogia:


Destaca-se que não se deve confundir interpretação analógica com analogia. A interpreteção analógica refere-se
à interpretação necessária para extrair o sentido da norma mediante os próprios elementos fornecidos por ela, ou
seja, é uma interpretação intralegem. A referida interpretação é possível quando a norma apresenta uma fórmula
casuística, seguida de uma cláusula genérica, que deverá ser interpretadas conforme a sequência. Ou seja, o
próprio texto legal determina a aplicação da norma a casos semelhantes (QUESTÃO 18).

21
TRADUÇÃO JURÍDICA

“Como assim interpretação analógica?


O melhor exemplo é o homicídio qualificado (CP, art. 121, § 2º), que primeiro apresenta a fórmula casuística no caput do artigo e, em
seus incisos, as fórmulas genéricas, a serem preenchidas de acordo com o caso concreto, autorizando o intérprete qualificar o hom-
icídio por qualquer outro motivo torpe que não tenha sido previsto pelo legislador, até pela impossibilidade de antecipar tudo que pode
motivar torpemente um homicídio.
Homicídio simples
“Art 121. Matar alguém:
Pena – reclusão, de seis a vinte anos.
§ 2° Se o homicídio é cometido:
I – mediante paga ou promessa de recompensa,
ou por outro motivo torpe;

A analogia, por sua vez, não é forma de interpretação, mas sim de integração, tendo o sentido de suprir as la-
cunas que a lei acaba deixando. Para que seja realizada a analogia, parte-se do pressuposto de que não existe
uma lei a ser aplicada ao caso concreto, motivo pelo qual é preciso socorrer-se da previsão legal empregada a
uma situação similar. Faz-se mister ressaltar que a analogia só poderá ser aplicada em benefício do réu – ana-
logia em bonam partem – quando existir uma efetiva lacuna a ser preenchida.
FICA A DICA
Parte da doutrina entende a analogia como forma de interpretação da lei penal, mas há aqueles que entendem que ela é, na verdade,
um método de integração da lei penal.

QUADRO-RESUMO

Trata-se do ramo do Direito Público que tem por objetivo tutelar os bens jurídicos
indispensáveis à harmonia social, através de normas penais sancionadoras. Desse
modo, o Direito Penal disciplina o direito do Estado de punir o responsável pela práti-
Conceito de Direito
ca de uma infração penal. Para tanto, essa área do Direito define as infrações penais,
Penal
ou seja, aquelas condutas tipificadas pela legislação como ilícitas e reprovadas pela
sociedade, bem como estabelece as respectivas sanções que serão aplicadas ao
infrator.

a) Subjetivo: refere-se ao próprio poder de punir do Estado. Cumpre destacar que


o Estado é o único detentor da capacidade de punir, não podendo se eximir dessa
Classificação do responsabilidade de agir.
Direito Penal
b) Objetivo: representa o conjunto das normas penais que vigoram em determinada
região.

a) Mediata: a função mediata do Direito Penal se desdobra em duas vertertens,


sendo a primeira relacionada à capacidade de controlar os cidadãos para garantir
uma convivência pacífica e harmônica entre eles, prevenindo o retrocesso da vin-
gança - olho por olho, dente por dente. A segunda, por sua vez, está relacionada às
Funções do Direito limitações impostas ao poder punitivo do Estado, para evitar que o ente público não
Penal incorra em abuso de autoridade e arbitrariedades.
b) Imediata: a função imediata do direito penal resume-se à proteção dos bens jurídi-
cos. Cabe salientar que o Direito Penal deve tutelar os bens jurídicos mais importan-
tes da sociedade, como por exemplo, a vida.

Características da São características das normas penais a exclusividade, imperatividade, generalidade,


Normas Penais abstração e impessoalidade.

22
Flashcards

Como pode ser classificado o direito penal?

Qual a diferença entre direito penal do autor e direito penal do inimigo?

Qual a função imediata do direito penal?

O que significa direito penal subjetivo e como ele pode ser dividido?

Qual são as fontes formais imediatas do direito penal

23
Flashcards

O Direito Penal pode ser classificado como Subjetivo ou Objetivo, vejamos:


a) Subjetivo: refere-se ao próprio poder de punir do Estado. Cumpre destacar que o Estado é o único deten-
tor da capacidade de punir, não podendo se eximir dessa responsabilidade de agir.
b) Objetivo: representa o conjunto das normas penais que vigoram em determinada região

Direito Penal do Autor: a sanção penal visa punir a pessoa do criminoso, analisando toda a sua vida pre-
gressa, e punindo-o em decorrência da sua personalidade, histórico e condições pessoais.
Direito Penal do Inimigo: Segundo Gunther Jakobs, certas pessoas, por serem inimigas da sociedade (ou
do Estado), não detém todas as proteções penais e processuais penais que são dadas aos demais indiví-
duos.Nesse sentido, o autor propõe a distinção entre um Direito Penal do cidadão, que se caracteriza pela
manutenção da vigência da norma, e um direito penal para inimigos, orientado para o combate a perigos e
que permite que qualquer meio disponível seja utilizado para punir esses inimigos (o inimigo não é um sujeito
de direito). No direito penal do inimigo as penas previstas são desproporcionalmente altas e as garantias
processuais são relativizadas ou suprimidas.

Imediata: a função imediata do direito penal resume-se à proteção dos bens jurídicos. Cabe salientar que o
Direito Penal deve tutelar os bens jurídicos mais importantes da sociedade, como por exemplo, a vida.

Direito Penal Objetivo X Direito Penal Subjetivo: o primeiro se refere as próprias normas penais e, este
último, ao direito de punir (jus puniendi) do Estado.
O Direito Penal Subjetivo pode ser dividido em:
b.1) Direito Penal Subjetivo Positivo: refere-se à capacidade atribuída ao Estado de produzir normas pe-
nais e impor suas normas penais;
b.2) Direito Penal Subjetivo Negativo: é a capacidade do Direito Penal de limitar o poder do próprio Estado
quanto à aplicação das normas penais por ele mesmo produzidas, visando evitar o abuso de autoridade à
luz dos direitos individuais consagrados na Constituição Federal.

São fontes imediatas do direito penal: Leis em Sentido Estrito (stricto sensu); Leis em Sentido Amplo
(lato sensu); Constituição Federal de 1988; Tratados Internacionais de Direitos Humanos; Jurisprudência;
Princípios e Atos Administrativos.

24
1. Introdução ao Direito Penal
RESPONDE
FRASES PODEROSAS A % DAS QUESTÕES
DE PROVA

São características das normas penais a exclusividade, imperatividade, generalidade,


abstração e impessoalidade.

Normas penais de extensão ou integrativas: as referidas normas garantem a tipicidade


de determinados fatos. Ocorre quando o comportamento do agente inicialmente não se
amolda por inteiro a descrição do tipo legal, havendo a necessidade de outro dispositivo
para o seu correto enquadramento.

Interpretação teleológica: interpretação realizada por meio da análise acerca dos fins a
que a lei se destina, ou seja, ao se interpretar um dispositivo legal deve-se compreender
a vontade da lei.

Interpretação extensiva: a mencionada interpretação ocorrerá quando o norma legal


encontra-se aquém da intenção do legislador. Nessa hipótese, a interpretação irá
ampliar a aplicação da lei.

Interpretação analógica: trata-se da interpretação necessária para extrair o sentido


da norma mediante os próprios elementos fornecidos por ela. Trata-se de interpretação
possível quando, após uma sequência casuística, o legislador lança mão de uma cláusula
genérica que deverá ser interpretada conforme a sequência;

TOTAL 45%

25