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ATIVIDADES LÚDICAS NOS LIVROS DIDÁTICOS DE CIÊNCIAS

Suemy Mitie Tanaka & Maisa Helena Altarugio

Universidade Federal do ABC; suemytanaka@outlook.com; maisa.altarugio@ufabc.edu.br

Eixo 6: Práticas pedagógicas e ensino de ciências

Resumo: As atividades lúdicas constituem-se de quaisquer atividades que levam ao


divertimento e ao prazer. O caráter descontraído e livre de julgamentos cria um cenário ótimo
para estimular, nos indivíduos, sua plena expressão, curiosidade e espontaneidade. Com base
nesse pressuposto, este artigo pretende assinalar a importância da inserção do lúdico na
realidade escolar e destacar sua relevância no ensino de ciências através de estudo qualitativo e
quantitativo acerca das atividades lúdicas presentes em 4 coleções de ciências (6º e 9º anos do
Ensino Fundamental) aprovadas pelo PNLD 2014. Nossa abordagem qualitativa nos levou a
uma classificação baseada na tipologia que categoriza as atividades lúdicas em funcionais, de
ficção, de aquisição, de fabricação e de competição. Quantitativamente, aferimos a frequência e
a distribuição de tais atividades nas coleções. Dentro do amplo espectro de atividades
encontradas, notamos um predomínio dos jogos de fabricação. No caso do 9º ano do E.F., esse
tipo de atividade, ligada a simulações de eventos e de fenômenos físicos e químicos, parece ser
condizente com o caráter abstrato dos conteúdos desenvolvidos. No 6º ano, essas atividades
estão relacionadas com fenômenos macroscópicos. Jogos de aquisição, de competição, ficção e
funcionais são menos frequentes. Concluímos sugerindo a necessidade de aprofundamento do
tema investigando como essas atividades são exploradas pelos professores e efetivamente
realizadas na sala aula.
Palavras-Chave: Atividades Lúdicas; livros didáticos; tipologia de jogos.

Introdução:

As atividades lúdicas, segundo Soares (2013), são quaisquer atividades que


levam ao divertimento e ao prazer. Propiciando ao indivíduo uma atmosfera livre de
cobranças e julgamentos, acabam por permitir sua plena expressão, incitando sua
curiosidade e espontaneidade. Com base nesse pressuposto, seria desejável que
observássemos a inserção de tais atividades na realidade escolar, de modo a discutir a
forma como o ensino é realizado majoritariamente nas salas de aula: baseado na
repetição categórica de meras informações, muitas vezes passadas aos discentes de
forma metódica e sem dinamismo, não despertando o interesse do aluno nas várias áreas
de conhecimento.

Por conta do crescente incentivo à produção de inovações e descobertas nas


áreas de ciências e tecnologias, com consequências diretas e indiretas para a vida dos
cidadãos, cada vez mais estamos diante da necessidade da formação de indivíduos que
não apenas compreendam os fenômenos atuais, mas que tenham atitude crítica e sejam

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capazes de imaginar soluções aos problemas encontrados no dia-a-dia e em seus
questionamentos. Considerando que a base para a formação de todos os indivíduos
situa-se na educação, seja ela formal ou não formal, quando se trata particularmente de
educação escolar, cabe à sociedade cuidar para que nossos estudantes não sejam pessoas
passivas diante dos conhecimentos que recebem, e que apenas se limitem a reproduzi-
los e perpetuá-los, sem questionamentos.

Com o intuito de investigar a oferta de atividades lúdicas para a sala de aula,


este artigo apresenta um recorte de uma pesquisa mais ampla onde fazemos uma análise
qualitativa e quantitativa de 4 coleções de livros de ciências de 6º e 9º anos, aprovados
pelo PNLD 2014.

Metodologia:

Tendo como principal objetivo subsidiar o trabalho pedagógico dos professores


através da distibuição de livros didáticos aos alunos da educação básica, o PNLD foi o
parâmetro adotado para escolha das coleções analisadas.

Foram selecionadas 4 coleções do Ensino Fundamental, referentes ao PNLD


2014. A escolha das coleções deu-se pela disponibilidade das mesmas para pesquisa,
como consta no Quadro 1, a seguir. De cada coleção, foram utilizados os volumes dos
6º e 9º anos, os dois extremos de seu nível de ensino, para que fosse possível comparar a
oferta e o tipo de atividades nesses anos.
Quadro 1: Coleções selecionadas do Ensino Fundamental – Ciências ( Livros do 6º e 9º anos)

TÍTULO AUTOR EDITORA Livro- 6º ano Livro- 9º ano


Rita Helena Bröckelmann
OBSERVATÓRIO DE CIÊNCIAS Editora Moderna Aluno e Professor Aluno e Professor
(Editor responsável)
Ana Maria Pereira;
PERSPECTIVA - CIÊNCIAS Margarida Santana; Editora do Brasil Aluno Aluno
Monica Waldhelm;
Vanessa Shimabukuro
PROJETO ARARIBÁ - CIÊNCIAS Editora Moderna Aluno Aluno e Professor
(Editora responsável)
PROJETO TELÁRIS - CIÊNCIAS Fernando Gewandsznajder Editora Ática Aluno e Professor Aluno e Professor

Em decorrência do conceito polissêmico de ludicidade, optou-se pela definição


de Soares (2013), que apresenta as atividades lúdicas como quaisquer atividades
prazerosas e divertidas, livres e voluntárias, com regras implícitas ou explícitas. As
análises deram-se posteriormente à identificação de cada uma das atividades nos livros
do aluno, professor, ou ambos, como consta no Quadro 2. Definidos os conceitos, foram
devidamente identificadas e classificadas essas atividades nas coleções selecionadas de
acordo com a proposta de Soares (2013), cuja classificação divide as atividades de

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acordo com os “diferentes graus de interação com o sujeito ou quem os manuseia”,
explicitada a seguir no Quadro 2:
Quadro 2: Classificação das atividades lúdicas segundo Legrand adaptado por Soares (2013, p.62)

TIPO DE JOGO CARACTERÍSTICA EXEMPLOS

• tentativa e treino de funções físicas e


ou como derivativo de tonicidade
Funcional(envolvem • corridas, mocinho e bandido,
muscular;
competições físicas) • saltos, piques diversos;
• com o aparecimento de regras,
tornam-se mais sofisticados;

• papai e mamãe;
• reprodução de modelos de
Ficção/imitação(envolvem • boneca;
comportamento, ficção consciente ou
simulações) • jogos dramáticos;
deliberada;
•disfarces;

• leitura, audição ou ainda acompanhamento


• observação, essencialmente;
De aquisição visual de certas atividades;
• coleta de materiais;
• coleções diversas ( selos, figuras, etc);

• construção, combinação e montagem


De fabricação(envolvem • aeromodelismo, jardinagem, costura,
utilizando diversos materiais;
construção e simulação) construção de maquetes;
• atividade estética e mais técnica;

• jogos em grupos, cooperativos ou


• amarelinha;
De competição não, em que há ganhadores e
• jogos tradicionais de tabuleiros, etc.
perdedores

Resultados:

Foram identificadas, ao total, 55 atividades distribuídas heterogeneamente nas


coleções analisadas. Através dos dados levantados, verificou-se que as quantidades de
atividades lúdicas mantiveram-se praticamente equivalentes entre o 6º e 9º anos de uma
mesma coleção (Quadro 3). Em relação à classificação, os resultados demonstraram que
a maioria das atividades presentes nos livros situa-se nos jogos de fabricação: sua forma
predominante manifestou-se com a construção de modelos e atividades de fabricação.
Foram representativos, também, os jogos de aquisição (Quadro 4). Abaixo são
apresentados os dados de distribuição das atividades:
Quadro 3: Identificação das atividades Lúdicas nos livros selecionados do PNLD 2014 (LA- Livro do
Aluno; LP- Livro do Professor)

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COLEÇÃO 6º ANO - VOLUME 1 9º ANO - VOLUME 4

• Paraquedas de clipes (LA)


• Adivinhe o que é!!! (LA)
• A gangorra com moedas (LA)
• Montando um terrário (LA)
• Copos barulhentos (LA)
OBSERVATÓRIO DE • Jogo das relações ecológicas (LA)
• Modelo do átomo de oxigênio (LP)
CIÊNCIAS • O Universo em suas mãos (LA)
• Um super trunfo para alunos do ens ino fundamental e médio (LP)
• Elêusis , um jogo que simula o método científico (LP)
• Montando modelos para representar ligações químicas (LP)
• Produzindo adubo em casa (LP)
• Arte e Matemática vídeos (LP)
• Eclipses e fases da lua (construção de modelo) (LP)
•De onde está vindo o som? (LP)

PERSPECTIVA - • Montagem de um terrário (LA) • O João bobo (LA)


CIÊNCIAS • Reciclando papel (simples) (LA) • Telefone de barbante (LA)
• Criando constelações (LA) • Deduzindo o que não pos so ver (LA)

PROJETO ARARIBÁ • Construção de um relógio s olar (LA)


• Tabela periódica de uso interativo (LA)
- CIÊNCIAS • Relações alimentares - jogo sobre as interações entre os organis mos (LA)
• Reciclando papel (LA)
• Jogo: "Limpe o rio" (LA)*

• Reciclagem de papel (artes) (LA) • Construção de modelo de átomo (LA)


• Construção de um terrário (LA) • Construção de instrumentos de comunicação e musicais (LA)
•As relações entre os seres vivos- Jogo eletrônico (LA)* • Cálculo das velocidades médias dos colegas correndo (LA)
• Rochas e minerais- Jogo eletrônico (LA)* • Audiovisual estados físicos da matéria (LA)
• Por que cuidar do solo?- Jogo eletrônico (LA)* • Audiovisual força e vetor (LA)
• Ciclo do carbono- Audiovisual (LA) • Simulador gravidade (LA)
• Ciclo do nitrogênio- Audiovisual (LA) • Jogo eletrônico sobre algumas máquinas que auxiliam o ser humano na realização de
• A lua- Jogo eletrônico (LA)* certas atividades (LA) **
• Cadeia alimentar- Infográfico animado (LA)* •Audiovisual energia solar (LA)
PROJETO TELÁRIS - • A água e a nossa saúde- Infográfico animado (LA)* •Audiovisual ondas e suas características (LA)
CIÊNCIAS • Pressão da água- Infográfico animado (LA)* •Jogo eletrônico que aborda os conceitos relacionados à luz visível (LA)**
• Movimentos da Terra- Infográfico animado (LA)* •Simulador lentes convergentes e divergentes (LP)
• Jogo- Cadeia alimentar (LP) • Construção de modelo das moléculas de oxigênio, hidrogênio, gás carbônico, água e
• Modelo do planeta Terra (LP) amônia (LP)
• Atividade Lúdica - Placas Tectônicas (LP) • Competição de carrinhos de controle remoto (LP)
• Modelo de formação de fós seis com mas sa de modelar (LP) • Animação da Lei de inércia (LP)
• Modelagem da argila para a produção de vasos , potes, es culturas,etc. (LP) • Construção de um ludião (LP)
• Atividade lúdica: construção de brinquedos com materiais recicláveis (LP) • Simulação do empuxo s ofrido por um corpo sólido (LP)
• Modelo de paraquedas (LP) • Simulações de ondas (LP)
• Modelos para explicar o movimento aparente do Sol (LP) • Construção de um caleidoscópio (LP)
• Modelos para explicar as estações do Ano (LP) • Animação caleidoscópio (LP)

*atividades lúdicas cujos links disponíveis não eram acessíveis ou cuja disponibilidade dependia do DVD
que acompanha a coleção (ao qual não tivemos acesso)
Quadro 4: Classificação das atividades lúdicas

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TIPO DE JOGO
Total por
Ano de Ensino Funcional Ficção/imitação De aquisição De fabricação De competição
COLEÇÃO coleção

• Montando um terrário (LA)


• Jogo das relações ecológicas
• O Universo em suas mãos (LA)
(LA)
6º ANO VOLUME 1 - - • Adivinhe o que é!!! (LA) • Eclipses e fases da lua (construção de 7
• Elêusis, um jogo que simula o
modelo) (LP)
método científico (LP)
•Produzindo adubo em casa (LP)

OBSERVATÓRIO DE
• Paraquedas de clipes (LA)
CIÊNCIAS
• Arte e Matemática vídeos • A gangorra com moedas (LA)
• Um super trunfo para alunos
(LP) • Copos barulhentos (LA)
9º ANO VOLUME 4 - - do ensino fundamental e médio 8
• De onde está vindo o som? • Modelo do átomo de oxigênio (LP)
(LP)
(LP) • Montando modelos para representar
ligações químicas (LP)

Total de atividades
0 0 3 9 3 15
lúdicas
• Montagem de um terrário (LA)
6º ANO VOLUME 1 - - - • Reciclando papel (simples) (LA) - 3
• Criando constelações (LA)

PERSPECTIVA -
CIÊNCIAS • Deduzindo o que não • O João bobo (LA)
9º ANO VOLUME 4 - - - 3
posso ver (LA) • Telefone de barbante(LA)

Total de atividades
0 0 1 5 0 6
lúdicas
•Relações alimentares- jogo
6º ANO VOLUME 1 - - - • Construção de um relógio solar (LA) sobre as interações entre os 2
organismos (LA)

PROJETO ARARIBÁ -
•Tabela periódica de uso
CIÊNCIAS 9º ANO VOLUME 4 - - • Reciclando papel (LA) - 2
interativo(LA)

Total de atividades
0 0 1 2 1 4
lúdicas

• Reciclagem de papel ( artes) (LA)


• Construção de um terrário (LA)
• Modelo do planeta Terra (LP)
• Modelo de formação de fósseis com
massa de modelar (LP)
• Construção de brinquedos com
materiais recicláveis (LP)
• Modelo de paraquedas (LP)
• Modelos para explicar o movimento
•Jogo- Cadeia alimentar (LP) aparente do Sol (LP)
6º ANO VOLUME 1 - - 13
• Modelos para explicar as estações do
Ano (LP)
• Atividade de modelagem da argila para
a produção de vasos, potes,
esculturas,etc. (LP)
•Atividade Lúdica - Placas Tectônicas
(LP)
• Ciclo do carbono- Audiovisual (LA)
• Ciclo do nitrogênio- Audiovisual (LA)

PROJETO TELÁRIS -
CIÊNCIAS • Construção de modelo de átomo (LA)
• Construção de instrumentos de
comunicação e musicais (LA)
• Construção de modelo das moléculas
de oxigênio, hidrogênio, gás carbônico,
água e amônia (LP)
• Construção de um ludião (LP)
• Construção de um caleidoscópio (LP)
• Animação da Lei de inércia (LP)
• Simulação do empuxo sofrido por um
•Cálculo das velocidades
corpo sólido (LP) •Competição de carrinhos de
9º ANO VOLUME 4 médias dos colegas - - 17
• Simulações de ondas (LP) controle remoto (LP)
correndo (LA)
•Animação caleidoscópio (LP)
•Audiovisual estados físicos da matéria
(LA)
•Audiovisual força e vetor (LA)
•Simulador gravidade (LA)
•Audiovisual energia solar (LA)
•Audiovisual ondas e suas
características (LA)
•Simulador lentes convergentes e
divergentes (LP)

Total de atividades
1 0 1 27 1 30
lúdicas

Total por tipo de atividade lúdica 1 0 6 43 5 TOTAL 55

Discussão:
Após análise dos volumes 1 e 4 (referentes aos 6º e 9º anos do Ensino
Fundamental II) , das 4 coleções selecionadas do PNLD 2014-Ciências, foram
identificadas 55 atividades lúdicas, distribuídas entre as 4 coleções. Foi perceptível uma

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distribuição não homogênea na quantidade de atividades lúdicas quando comparadas as
coleções com livros do aluno e professor: em relação à quantidade total de atividades
(55), pôde-se observar uma grande concentração na coleção Projeto Teláris (54,5%),
seguida por Observatório de Ciências (27,3%), Perspectiva- Ciências (10,9%) e Projeto
Araribá- Ciências (7,3%).
Conforme a “visão geral” apresentada no guia de livros didáticos do PNLD
2014-Ciências, as coleções apresentavam sugestões de experimentos, montagem de
modelos e analogias. Nas coleções Observatório de Ciências e Projeto Teláris, foram
analisados os livros do aluno e professor. A coleção Observatório de Ciências trazia,
em suas propostas, atividades que compreendem a observação, construção, manipulação
e simulação: características buscadas durante a identificação das atividades lúdicas nas
coleções. Em Projeto Teláris, é notável um predomínio de atividades que prezam a
construção de modelos principalmente para explicação e visualização dos fenômenos
estudados em aula. Nas demais coleções, Perspectiva Ciências e Projeto Araribá,
tivemos acesso somente ao livro do aluno. Perspectiva Ciências apresenta em sua obra
o pluralismo de alternativas, explicitado com o uso de analogias, modelos e recursos
adicionais, como visitas a museus, espaços científicos e páginas na internet. A coleção
Projeto Araribá contribui para a compreensão do ambiente natural e social,
relacionando o conhecimento científico com aspectos sociais, tecnológicos e artísticos,
trazendo, também, propostas diversificadas de prática e reflexão.
Quando separadas e comparadas as atividades por coleção e tipo de livro
utilizado (aluno, ou professor e aluno), é possível realizar uma análise mais fiel em
relação à proposta das coleções. Com quantidades aproximadamente equivalentes de
atividades lúdicas por coleção no livro do aluno, Observatório de Ciências, Perspectiva
Ciências e Projeto Araribá apresentam uma média de 5,7 atividades por coleção,
enquanto, em Projeto Teláris, esse número praticamente dobra.
Os dados referentes à quantidade de atividades lúdicas de acordo com os tipos
de livro (aluno e professor) e por coleção (6º e 9º anos) são expostos no Quadro 5,
abaixo:
Quadro 5: Quantidade de atividades lúdicas de acordo com tipo de livro e coleção

Observatório de Perspectiva Total por tipo de


Coleção Projeto Araribá Projeto Teláris
Ciências Ciências livro
Total de
atividades Livro 7 6 4 12 29
Aluno

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Total de
atividades Livro 8 ---- ---- 18 26
Professor
Total por
15 6 4 30 55
coleção

Comparando os totais de atividades oferecidas pelos livros do professor e do


aluno, percebe-se que elas são praticamente equivalentes. Embora a pesquisa não tenha
dados sobre a aplicação das atividades em sala de aula, entendemos que as práticas
constantes no Livro do Aluno podem ser acessadas pelos estudantes,
independentemente da disposição do professor em aplicá-las. No entanto, um grande
número de atividades oferecidas pelo Livro do Professor são desperdiçadas, isto é, não
têm a chance de serem exploradas pelos alunos, a não ser que o professor se interesse e
tenha tempo hábil para isso.
Quanto à classificação nos tipos de jogos, em sua totalidade, as atividades
concentraram-se nos jogos de fabricação (78,2%), seguidos pelos de aquisição (10,9%),
de competição (9,1%), jogos funcionais (1,8%), enquanto os jogos de ficção (0,0%) não
foram encontrados. Grande parte do material analisado pôde ser descrito como
atividades de construção de modelos para melhor visualização dos assuntos trabalhados,
assim como animações e simulações virtuais.
Dentro de uma mesma coleção, a quantidade de atividades oferecidas foi
observada como praticamente equivalente quando comparados os volumes de 6º e 9º
anos, podendo-se inferir que as divergências entre as quantidades de atividades não
estavam correlacionadas com as séries de ensino a que correspondem os volumes das
coleções, mas sim, à própria proposta da coleção. Também dentro de uma mesma
coleção, comparando os tipos de atividades de 6º e 9º anos, percebe-se a preferência
pelos jogos de fabricação, onde predominam as atividades de construção de modelos e
maquetes. Isso pode ser exemplificado quando se constata a presença de jogos cujos
assuntos principais envolvem modelos de biologia, geociências e astronomia,
abrangendo desde a construção de terrários, modelos de placas tectônicas e modelos de
eclipses até a reciclagem de papel nos volumes do 6º ano, já nos volumes do 9º ano, o
enfoque é dado às matérias de química e física, onde as atividades apresentadas
trabalham tanto com modelos atômicos e moleculares, como com experimentos que
simulam leis da física.
Essa preferência das coleções pelos jogos de fabricação pode ser entendida e
justificada por diversas pesquisas. Cid e Neto (2005, apud PETROVICH et al, 2014),

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por exemplo, entendem que os conceitos biológicos são fontes de muitas das
dificuldades apresentadas pelos alunos, e que, muitas vezes, esta dificuldade de
aprender é reflexo da dificuldade que os professores apresentam em ensinar
determinados conteúdos, que por sua vez pode ser derivado de fragilidades na formação
inicial destes professores.
Para Gomes, Cavalli e Bonifácio (2008), o conhecimento científico é visto
como algo totalmente distanciado e não passível de vinculação e aplicação na vida
cotidiana, apresentando-se na escola de forma abstrata. Assim, a ciência na escola é
incompreensiva, pois só se ensinam os resultados, e não os processos.
Entendemos, portanto, que os jogos de fabricação oferecidos pelos livros
didáticos se constituem em excelentes oportunidades para alunos e professores
transformarem conteúdos abstratos e de difícil compreensão em conteúdos
minimamente atrativos e com possibilidades de provocar alguma reflexão. No entanto,
Melo e Lima Neto (2013) alertam para a ausência de discussões e problematizações
acerca dos modelos que são utilizados em sala de aula com o risco de gerarem
incompreensões e concepções errôneas em relação aos conceitos científicos envolvidos.
Observa-se entre os resultados obtidos que os jogos de competição são pouco
abordados pelos autores das coleções. Uma explicação possível pode estar no fato de
que os princípios de tais jogos, que pressupõem que haja ganhadores e perdedores,
possam ser mal compreendidos pelos professores. Mas, de acordo com Lopes (2005),
as competições desempenham funções psicossociais, afetivas e intelectuais básicas, que
satisfazem objetivos pedagógicos no contexto escolar, como trabalhar a ansiedade, a
revisão dos limites, o desenvolvimento de autonomia e do trabalho em equipe, entre
outros.
A ausência de jogos funcionais é também perceptível, o que pode ser explicado
quando analisados os principais conteúdos abordados em cada ano de ensino. No 6º ano
são prezados assuntos introdutórios referentes à ecologia, geologia e biologia. Dentro
dessas atividades são relevantes principalmente conteúdos procedimentais referentes à
análise e observação, porém, tem-se, segundo Riccetti (2001), que os jogos funcionais
propõem uma assimilação dos conteúdos através de atividades funcionais ou repetitivas,
desenvolvendo consequentemente, nas crianças, a formação de hábitos, por serem
características de um período de desenvolvimento específico acabam tendo maior
representatividade no período denominado por Piaget de sensório-motor, ou seja, nas
séries iniciais. Analogamente ao dito em relação ao 6º ano, atividades simbólicas e

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funcionais não são apresentadas como a melhor forma de explorar os assuntos em
questão. Jogos simbólicos, segundo Riccetti (2001), trazem um maior auxilio referente à
interioridade, condições e crenças de cada indivíduo.
Entretanto, jogos de ficção/simulação, como os jogos dramáticos, de acordo
com a teoria psicodramática, libertam tanto alunos como professores, dos
comportamentos estereotipados, das respostas prontas e os convidem a refletir sobre
seus papéis na sociedade, a construir novos significados, a criar e experimentar
coletivamente soluções novas para situações vividas. A ludicidade, no contexto
educacional, representa a oportunidade dos sujeitos não apenas obterem o prazer e a
diversão, mas de expandirem e se expressarem emocionalmente por meio de suas
criações, além de exercitarem o convívio e solucionarem seus conflitos (GONÇALVEZ,
WOLFF e ALMEIDA, 1988).
Conclusões:
Com a proposta de destacar a relevância das atividades lúdicas para o ensino de
ciências e de química, realizamos um breve estudo de aspectos quantitativos e
qualitativos sobre tais atividades dentro das coleções selecionadas na edição do PNLD
2014.
As atividades lúdicas são assinaladas pelo seu caráter descontraído e divertido,
muitas vezes sendo erroneamente reduzidas a brincadeiras e jogos pelo senso comum.
Por conta disso são desvalorizadas quanto à proposta de sua utilização em sala de aula.
Como dito anteriormente, há hoje uma crescente necessidade da formação de cidadãos
que interajam, sejam ativos e criticamente aptos a solucionar as diferentes questões do
meio em que vivem.
Como base norteadora do conhecimento, a escola possui o papel de educar seus
alunos não apenas com matérias decoradas e discursos prontos, o que é comum nas
disciplinas de ciências naturais. Nessas disciplinas, as atividades lúdicas podem
propiciar aos estudantes meios para que possam compreender os fenômenos que
ocorrem à sua volta, e solucionar possíveis obstáculos e problemas presentes em seu
cotidiano, com criatividade e atitude inovadora.
A amostra de livros pesquisada foi pequena, de modo que não é possível
concluir sobre uma tendência geral em relação à oferta de atividades lúdicas para o
ensino de ciências. Também não temos parâmetros para concluir sobre a suficiência da
oferta das atividades em termos quantitativos e nem para discutir sobre uma medida da
extensão e do modo como essas atividades são exploradas pelos professores e

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efetivamente realizadas na sala aula, o que julgamos extremamente importante para uma
investigação futura mais profunda do tema.

Referências:

BRASIL. Referencial curricular nacional para a educação infantil. Vol 1/ Ministério da


Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental. – Brasília: MEC/SEF,
1998b.
BRASIL, Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Diretrizes
Curriculares Nacionais da Educação Básica. Brasília, 2013.
BRASIL, Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação. Diretrizes
Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental. Brasília, 1998a.
BROUGÈRE, Gilles. Brinquedo e cultura; revisão técnica e versão brasileira adaptada
por Gisela Wajskop - 8ª edição – São Paulo: Cortez, 2010 – (Coleção questões da nossa
época; v.20)
GOMES, F.K.S.; CAVALLI, W.L.; BONIFÁCIO, C.F. Os problemas e as soluções no
ensino de ciências e biologia. 1º Simpósio Nacional de Educação e Semana da
Pedagogia. Unioeste, Cascavel, PR. 11, 12 13 nov. 2008. Disponível em:
http://www.unioeste.br/cursos/cascavel/pedagogia/eventos/2008/1/Artigo%2055.pdf
GONÇALVEZ, C.S.; WOLFF, J.R.; ALMEIDA, W.C. Lições de psicodrama:
introdução ao pensamento de J.L. Moreno. São Paulo: Editora Ágora, 1988.

KISHIMOTO, T. M. O jogo e a educação infantil. PERSPECIVA: Florianópolis,


UFSC/CED, NUP, n.22, p.105-128, 2007.
LOPES, M.G. Jogos na Educação: criar, fazer, jogar. São Paulo: Cortez, 2005
MELO, M.R.; LIMA NETO, E.G. Dificuldades de Ensino e Aprendizagem dos
Modelos Atômicos em Química, QNesc, Vol. 35, N° 2, p. 112-122, maio, 2013
PNLD 2014: Ciências. Disponível em: http://www.fnde.gov.br/programas/livro-
didatico/guias-do-pnld/item/4661-guia-pnld-2014 .Acessado em 19 de fevereiro de
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PETROVICH, A.C.I.; ARAÚJO, M.F.F.; MONTENEGRO, L.A.; ROCHA, A.C.P.;
PINTO, E.D.J. Temas de difícil ensino e aprendizagem em ciências e biologia:
experiências de professores em formação durante o período de regência. Revista
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content/uploads/2014/11/R0060-2.pdf.
RICCETTI, V. P., Jogos em grupo para educação infantil. Educação Matemática em
Revista, ano 8, nº 11, dez, 2001.
SOARES, M. H. F. B. Jogos e Atividades Lúdicas para o Ensino de Química. Goiânia:
Kelps, 2013.

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