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da gerência industrial, e independe, em grande par- e vinte e cinco anos para cá, desenha-se no

te, do sistema de custeio tradicional. cenário mundial um amplo espaço público


Publícado em momento oportuno, esse trabalho de debates que lançou a questão da ecolo-
constitui um dos poucos documentos existentes em gia -para a esfera política. Qual o significado disto?
português sobre moderno gerenciamento ,de cus- Um dos mais evidentes é a necessidade de inter-
tos. No exterior, a partir dos artigos e livros de Ro- rompermos e redirecionarmos os processos locais,
bert S. Kaplan, Robin Cooper, Peter Chalos, James regionais e globais de destruição de bens naturais
A. Brimson e outros, já se registra, nesta década, pelo ritmo e quantidade da produção econômica
apreciável literatura sobre o tema. nos países industrializados do Norte e da interde-
Por se tratar da parte conceitual de um conjunto pendência entre este processo e os países em de-
de três livros, a obra não responde obviamente, a senvolvimento no Sul.
todas as dúvidas que de certo assaltarão o gerente Outro significado da questão ecológica, menos
ou o controller desejosos de implantar o novo siste- evidente, está situado no temor da civilização oci-
ma de custos. Assim, os leitores pedirão que sejam dental face às_ contradições do modelo político da
em breve traduzidos e publicados os livros que democracia de massas. Num misto de autocrítica e
compõem a segunda e a terceira parte da trilogia comiseração ética, estamos tomados pelo medo de
do CAM-t que lhes permitirão conhecer os aspec- que vá se generalizar no mundo um modelo dual
tos práticos da montagem e implantação de um de sociedade, segundo o qual a opulência de al-
moderno sistema de custeio. guns se contrapõe ao pauperismo da maioria. Os
dados socioeconômicos, disponíveis desde os anos
70, indicam que esse pauperismo ceifa milhares de
vidas e oportunidades no dia-a-dia não apenas em
países como o Brasil e Índia, mas também em paí-
ses ricos. No núcleo desse espaço público interna-
cionaC encontra-se uma dificuldade complexa:
como, simultaneamente, superar este pauperismo,
abandonar o problema da quantidade de cresci-
mento (crescer ou ·não) e dar ênfase à qualidade
desse processo, evitando que isto se converta numa
ameaça à liberdade devido à reprodução ampliada
dos apartheids sociais?
À medida que a enorme potencialidade de ex-
pansão dos mercados, desde a Segunda Guerra
Mundial, foi rornpendo.em escala planetária entra-
ves naturais, científicos, sociais e religiosos, perce-
bemos que não há limites para o industrialismo.
Em outros termos, tal potência de expansão só se
viabiliza por meio de uma base cultural científico-
/
tecnológica, associada· a uma esfera social de con-
ESTRATEGIAS DE sumo e de produção entrelaçada com os dinamis-
""" mos de mercado que engolfam populações e recur-
TRANSIÇAO PARA
/
sos. Onde há. ciência e não existe mercantilização,
esta base não se instaura. Em contrapartida, onde
O SECULO XXI - existe esta trindade- ciência, tecnologia, mercanti-
lização - esta base passa a se chamar industrialis-
DESENVOLVIMENTO E mo. Porém, à medida que esta trindade penetra por
todos os poros da sociedade, ativa processos de
MEIO AMBIENTE destruição de grupos sociais e ecossistemas natu-
rais. A complexidade deste processo está escapan-
do progressivamente das instâncias do poder polí-
de IGNACY SACHS tico, ameaçando seu principal alicerce que é a liber-
São Paulo: Studio Nobei/FUNDAP, 1993, 103 p. dade.
Não se trata aqui da questão do controle dessa
por Ricardo Toledo Neder, Sociólogo, Cientista Político complexidade. Conceber a raiz do problema ecoló-
e Professor do Departamento de Fundamentos Sociais e gico como fjfalta de controle" já indicaria uma dis-
Jurídicos da Administração da EAESP/FGV. torção ainda mais monstruosa que a destruição. O

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iJm RESENHAS
autêntico espaço público constituído pelas liberda- como categoria teórica e empírica central de sua
des civis e constitucionais nos últimos 40 anos, hoje concepção das relações entre homem e natureza.
exige de nós a responsabilidade de inserir a crise Sem qualquer exagero, podemos apontar a escassez
ecológica na vida política e não o contrário. Como como a vaca sagrada do progresso, ponto germinai
bem observou Edgar Morin, filósofo e sociólogo a partir do qual assistimos a cadeia de efeitos so-
francês que esteve recentemente no Brasil, não se cioambientais desastrosos do produtivismo e a
pode reduzir a política à ecologia. Isso seria reedi- mercantilízação progressiva da vida cotidiana que
tar a teoria do espaço vital, utilizada pelo nacional- nos ameaça a ter que pagar pelo verde, água ou o
socialismo como manto ideológico para o totalita- ar puro. Nem o produtivismo, nem a rnercantiliza-
rismo e a expansão militar nos anos 30 e 40. Fixar ção, contudo, foram percebidos como suficiente-
controles rígidos sobre a destruição dos ecossiste- mente desastrosos para o abandono da teoria da
mas naturais- como se a natureza fosse a fonte do escassez e dos mercados competitivos.
bem e a humanidade à de todos os males parte de É a emergência do espaço público do arnbienta-
um pressuposto germinativamente totalitário. lisrno em escala mundial focalizando as responsa-
Abordagens biocêntricas da crise ecológica têm a bilidades de diversos interesses comerciais, indus-
propensão a naturalizar a ação política. A autêntica triais, militares e científicos -que está desnudando
ação política capaz de deter os processos de destrui- os limites sociais e políticos daquela economia,
ção situa-se no debate sobre a redefinição das rela- apontando processos sociais complexos do indus-
ções de co-evolução e co-desenvolvimento entre ho- trialismo. O medo, acima mencionado, acerca da
mem e natureza. A destruição não será barrada pela dualízação da sociedade contemporânea é parte
ampliação das denúncías sobre ameaças ecológicas deste complexo.
afetivas ou potenciais (do tipo efeito estufa). Entre nós, um exemplo criativo de resposta a
Embora isto gere informações indispensáveis, o este medo é a campanha "Ação pela cidadania,
debate travado nesta perspectiva não faz sentido contra a fome e a miséria". Muita gente bem infor-
por um motivo muito simples: é impossível urna mada vem criticando o movimento por razões bem
natureza sem homens, e tampouco uma história conhecidas. De fato, todo assistencíalismo parte da
destituída de natureza. naturalização do pobre e de sua reprodução como
Na tradição da filosofia política que inaugurou a integrante de uma suposta natureza social. Isto en-
economia clássica, o inglês Thomas Hobbes (1588- seja paternalismo e minoridade de cidadãos, além
1679) abusou da noção de natureza, ao dizer que de redes de corrupção ao estilo "João Alves".
ninguém, vivendo em estado natural, poderia viver T ai naturalização do pobre ê um exemplo da dis-
tranqüilo, pois estaria continuamente sujeito à vio- torção da política por argumento ou convicção fa-
lência por todos os lados. Seu argumento final a fa- laciosa que lança as responsabilidades para o de-
vor do governo, como a instância concentradora da terminismo sociaL Estes crfticos esquecem que a
força na sociedade (monópolio da violência}, não maior virtude desse movimento contra o pauperis-
precisava invocar a natureza malsã para justificar a mo está sendo justamente "desnaturalizar" o po-
necessidade do Estado. Mil e quinhentos anos an- bre, tirando-o do limbo para onde o assistencialis-
tes, a política grega já equacionara o problema do mo o exilou. O movimento está criando e mobílí-
governo, da liberdade e da democracia corno indis- zando as condições e energias psicossociais ade-
soluvelmente associado à constituição do espaço quadas, que deverão embasar um conjunto de
público não-mercantil na cidade (pólis) sem recor- ações públicas e privadas sobretudo para as zonas
rer à natureza ou ao monopólio da violência (ver rurais, matriz do pauperismo brasileiro. Neste sen-
Hannah Arendt, A Condição Humana, Forense Uni- tido, seria conveniente a todos os que fomentam,
versitária, 1987). simpatizam ou simplesmente criticam o movimen-
Na fase inicial do capitalismo sob a economia to, a leitura da obra de Ignacy Sachs, onde encon-
clássica - a perspectiva biocêntrica estava profun- tramos uma abordagem sobre o "ecodesenvolvi-
damente arraigada no debate sobre escassez (de re- rnento", com um elenco útil de concepções para as
cursos) e pauperismo. Como se recorda, um de futuras ações e políticas locais e nacionais que se
seus princípios era a visão de que a capacidade de desenham neste campo para o período após as elei-
entesourar bens era infinita e a de gerá-los limita- ções de 1994.
da, portanto, justificava-se a desigualdade já que o Ignacy Sachs é conbecido do meio acadêmico e
rico pode melhorar sua capacidade de produzir e diplomático brasileiro. Polonês naturalizado fran-
gerar mais riquezas, ainda que inicialmente à custa cês, viveu catorze anos no Brasil e dirige atualmen-
dos demais (pobres sobretudo). A economia neo- te o Centro de Pesquisa sobre o Brasil Contemporâ-
dássica contemporânea reedíta vários matizes des- neo, na Escola de Altos Estudos em Ciências So-
te pressuposto acerca da escassez, mantendo-a ciais em Paris. Numa continuidade ao diálogo de

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trinta anos com os brasileiros, lançou este ano em de janeiro no ano passado, e uma avaliação das
São Paulo a versão em português de seu mais re- dificuldades de implementação da Agenda 21 no
cente trabalho Estratégitts de Transição para o Século âmbito regionaL Isto se aplica especialmente ao
XXI. Nele aborda questões que decidiram as posi- principal "nó". Qual seja, aqueles atores institu-
ções políticas e os conteúdos normativos antes e cionais e sociais engajados nesse espaço público
depois da Conferência das Nações Unidas sobre que a verdadeira escolha não é entre desenvolvi-
Meio Ambiente e Desenvolvimento do Rio de Ja- mento e meio ambiente, mas "entre formas de de-
neiro em 1992. senvolvimento sensfveís ou insensíveis à questão am-
Nesta obra é reiterada a concepção de ecodesen- biental" (p.17).
volvimento particularmente aplicável aos países li a partir do obscurecimento desta constatação
como Brasil, China e Índia. Com grandes exten- que as posições divergem. Países hegemõnicos do
sões territoriais, grande diversidade sodoambien- Norte não podem aceitar a responsabilidade decor-
tal da população, e por integrarem a poliarquia in- rente dessa tese sem complicações profundas, pois
ternacional, precisam responder com criatividade isto exigiria mudanças dramáticas nos padrões de
a problemas como o pauperismo crônico. Criativi- consumo e produção (emprego) que afetariam gru-
dade para Sachs significa sobretudo superar o mi- pos e classes sociais que constituem suas bases elei-
metismo de suas políticas públicas de crescimento torais. Além disto, afetariam também os regimes de
nas zonas urbanas e sobretudo rurais, face ao pa- troca estabelecidos entre os países ricos e os países
drão adotado pelos países hiperindustrializados do SuL A posição dos países ricos tem sido na in-
no Norte. sistência sobre riscos ambientais globais e na res-
Sachs, como um dos consultores do grupo que ponsabilidade compartilhada de enfrentá-los, afir-
assessorou o secretário-geral da Conferência das ma Sachs (p. 17). Incorrem, assim, numa espécie de
Nações Unidas de Estocolomo (1972) e a do Rio de naturalização biocêntrica da crise. ~
Janeiro (1992), vem defendendo desde 1970 a prio- Países importantes do Sul - como a Índia, o Bra-
ridade de uma agenda mundial que contemple a sil e a China - lideram uma perspectiva contrária.
correlação entre pauperismo e crise ambiental nos Medidas de preservação do meio ambiente não po-
países do Sul. Não só por isto a leitura deste livro é dem ser obstáculos a seu desenvolvimento. Assim,
estimulante, mas também por manter um pé no respondem de maneira igualmente enviesada
plano mundial e outro no Brasil. Sua contribuição àquela posição do Norte, entre outras razões por-
ao debate é particularmente um referencial para que seus dirigentes se debatem numa lógica antro-
planejadores públicos e privados. Já que poucos pocêntrica - predatória e insustentável de cresci-
são os observados no Brasil que dispõem, como ele, mento que beneficia elites locais e aprofunda o
de intimidade com a agenda e os atores internacio- pauperismo. Para algumas pessoas dessas elites, o
nais envolvidos na questão ambiental e padrões de máximo concedido a este debate está em adesivo
sustentabilídade (expressão que passou a coexistir estampado no carro, como alguns que rodam em
- ora colidindo, ora amalgamando - como ecode- São Paulo, dizendo: "Proteja o verde mas não seja
senvolvimento a partir dos anos 90). chatou.
Como se sabe, tal agenda é extremamente com- Ora, à medida que a discussão pós-92 sobre eco,
plexa. Justamente porque, hoje ao contrário do pe- desenvolvimento ou sustentabilidade está se des-
ríodo da guerra fria, há um espaço público interna- prendendo dessa couraça, e dizendo não ao falso
cional "despoluído" do anticomunismo. Mas nem dilema entre bíocentrismo x antropocentrismo,
por isto menos difícil, pois abrange um leque de emerge o essencial, que é na avaliação de Sachs, a
atores com diferentes pesos. Um sistema emergente tarefa de elaborar métodos de regulação democrá-
de associações e movimentos civis entre eles os am- tica das economias mistas, "abandonando a idéia sim-
bientalistas, grandes corporações, blocos políticos plista de que o colapso das economias de comando cen-
regionais, agências transnacíonais das Nações Uni- tralmente planejadas constituí uma prova 'a contrário'
das e, não menos importante, o sistema protecio- da excelêncitt da; economias puras de mercado, e assina-
nista de comércio mundial fomentado por gover- la o fim do planejamento".
nos e apoiado pelos seus complexos militares. Se- Uma economia civilizada de mercado, observa
paradamente, estes atores fazem diferentes leituras o autor, "exige um conjunto de regras que não emergi·
e instrumentalização da crise socioaml<iental, em- rá da pura e simplt!S dinâmica das forças de mercado,
bora o mais importante seja a sua interlocução em requerendo boas doses de planejamento estratégico e
tomo de uma agenda comum inicialmente formu- flexível. As grandes corporações são administradas por
lada como a Agenda 21. esse planejamento; por que os Estados, as regiões e até
A obra em foco é uma interpretação sucinta do os municípios deveriam proceder de modo diferente?"
debate que antecedeu o Encontro da Terra no Rio (p. 38).

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