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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Ética, Valores
2ª edição

Humanos e
Transdisciplinaridade

Delmo Mattos
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

DIREÇÃO SUPERIOR
Chanceler Joaquim de Oliveira
Reitora Marlene Salgado de Oliveira
Presidente da Mantenedora Jefferson Salgado de Oliveira
Pró-Reitor de Planejamento e Finanças Wellington Salgado de Oliveira
Pró-Reitor de Organização e Desenvolvimento Jefferson Salgado de Oliveira
Pró-Reitor Administrativo Wallace Salgado de Oliveira
Pró-Reitora Acadêmica Jaina dos Santos Mello Ferreira
Pró-Reitor de Extensão Manuel de Souza Esteves
Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa Marcio Barros Dutra

DEPARTAMENTO DE ENSINO A DISTÂNCIA


Diretora Claudia Antunes Ruas Guimarães
Assessora Andrea Jardim

FICHA TÉCNICA
Texto: Delmo Mattos
Revisão: Lívia Antunes Faria Maria e Walter P. Valverde Júnior
Projeto Gráfico e Editoração: Andreza Nacif, Antonia Machado, Eduardo Bordoni e Fabrício Ramos
Supervisão de Materiais Instrucionais: Janaina Gonçalves de Jesus
Ilustração: Eduardo Bordoni e Fabrício Ramos
Capa: Eduardo Bordoni e Fabrício Ramos

COORDENAÇÃO GERAL:
Departamento de Ensino a Distância
Rua Marechal Deodoro 217, Centro, Niterói, RJ, CEP 24020-420 www.universo.edu.br

Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Universo – Campus Niterói

M444e Mattos, Delmo.


Ética, valores humanos e transdisciplinaridade / Delmo
Mattos ; revisão de Lívia Antunes Faria Maria e Walter P.
Valverde Junior. 2. ed. – Niterói, RJ: UNIVERSO, 2011.

167 p. ; il.

1. Ética. 2. Moral. 3. Ética empresarial. 4. Responsabilidade


social da empresa. I. Maria, Lívia Antunes Faria. II. Valverde
Junior, Walter P. III. Título.

CDD 170

Bibliotecária: ELIZABETH FRANCO MARTINS – CRB 7/4990

© Departamento de Ensino a Distância - Universidade Salgado de Oliveira


Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, arquivada ou transmitida de nenhuma forma
ou por nenhum meio sem permissão expressa e por escrito da Associação Salgado de Oliveira de Educação e Cultura, mantenedora
da Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO).
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Informações sobre a disciplina

Carga horária: 60

Créditos: 04

Ementa: Ética e moral. A ética profissional. A responsabilidade social. A


questão da alteridade como principio da relação social. Os valores humanos
fundamentais à construção de uma cultura de paz. Transdisciplinaridade e
convergência de conhecimentos.

Objetivo geral: oferecer ao discente as condições de referência para a


compreensão da ética e da moral, do ponto de vista filosófico, bem como, a sua
importância para a sua atividade profissional e acadêmica. Além disso, refletir e
discutir sobre a dimensão ética na existência do ser humano, dentro do contexto
da crise dos valores da nossa sociedade, conduzindo a uma compreensão global da
influência da reflexão ética no âmbito das decisões e responsabilidades inerentes
aos atores sociais e econômicos da atualidade.

Conteúdo programático

Unidade 1 – Fundamentos da Ética e da Moral: contexto histórico e social,


conceitos e definições fundamentais.

 Distinguindo Ética da Moral.

 O caráter histórico e social da Moral.

 O caráter histórico e social da Ética.

Unidade 2 – Problemas Éticos e problemas morais: consciência moral, virtude,


amizade, liberdade e felicidade.

 A consciência moral e os valores éticos.

 A busca da felicidade: virtude e o bem viver em Aristóteles.

 Aristóteles e a amizade como um problema ético-moral.

 Pensando a liberdade: La Boétie e Sartre.


Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Unidade 3 – Ética aplicada: a ética na empresa e nos negócios.

 Pressupostos teóricos da ética empresarial: história e


desenvolvimento.

 Empresa ética e visão ético-empresarial.

 A ética nos negócios ou negociando com ética: lucro x princípios


morais.

 O código de ética profissional: funções e limites.

Unidade 4 - Ética profissional e responsabilidade social.

 Ética profissional: os valores sociais da profissão.

 O desempenho ético-profissional: ambiência e relações pessoais.

 Ética e responsabilidade social nos negócios.

 Decisões morais racionais.

Bibliografia Básica

VAZQUEZ, A. S. Ética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. 304p.

CAMARGO, M. Fundamentos de ética geral e profissional. 3ª. ed. Petrópolis:


Vozes, 2002. 118p.

Bibliografia Complementar

NASH, L. Ética nas empresas: boas intenções à parte. São Paulo: Makron Books,
2001. 359p.

ASHLEY, P. A. (Coord.). Ética e Responsabilidade Social nos Negócios. São


Paulo: Saraiva, 2002. 340p.
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Palavra da Reitora

Acompanhando as necessidades de um mundo cada vez mais complexo,


exigente e necessitado de aprendizagem contínua, a Universidade Salgado de
Oliveira (UNIVERSO) apresenta a UNIVERSO Virtual, que reúne os diferentes
segmentos do ensino a distância na universidade. Nosso programa foi
desenvolvido segundo as diretrizes do MEC e baseado em experiências do gênero
bem-sucedidas mundialmente.
São inúmeras as vantagens de se estudar a distância e somente por meio
dessa modalidade de ensino são sanadas as dificuldades de tempo e espaço
presentes nos dias de hoje. O aluno tem a possibilidade de administrar seu próprio
tempo e gerenciar seu estudo de acordo com sua disponibilidade, tornando-se
responsável pela própria aprendizagem.
O ensino a distância complementa os estudos presenciais à medida que
permite que alunos e professores, fisicamente distanciados, possam estar a todo
momento ligados por ferramentas de interação presentes na Internet através de
nossa plataforma.
Além disso, nosso material didático foi desenvolvido por professores
especializados nessa modalidade de ensino, em que a clareza e objetividade são
fundamentais para a perfeita compreensão dos conteúdos.
A UNIVERSO tem uma história de sucesso no que diz respeito à educação a
distância. Nossa experiência nos remete ao final da década de 80, com o bem-
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de atualização, ampliando as possibilidades de acesso a cursos de atualização,
graduação ou pós-graduação.
Reafirmando seu compromisso com a excelência no ensino e compartilhando
as novas tendências em educação, a UNIVERSO convida seu alunado a conhecer o
programa e usufruir das vantagens que o estudar a distância proporciona.

Seja bem-vindo à UNIVERSO Virtual!


Professora Marlene Salgado de Oliveira
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade
Reitora
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Sumário

1. Apresentação da disciplina ............................................................................................................. 09

2. Plano da disciplina .............................................................................................................................. 11

3. Unidade 1 – Fundamentos da Ética e da Moral: contexto histórico e

social, conceitos e definições fundamentais. ......................................................................... 13

4. Unidade 2 – Problemas éticos e problemas morais: consciência moral, virtude,

amizade, liberdade e felicidade. ..................................................................................................47

5. Unidade 3 – Ética aplicada: a ética na empresa e nos negócios ................................... 85

6. Unidade 4 – Ética profissional e responsabilidade social .................................................117

7. Considerações finais........................................................................................................................... 153

8. Conhecendo a autora ........................................................................................................................ 154

9. Referências ............................................................................................................................................. 155

10. Anexos ...................................................................................................................................................... 165


Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Apresentação da Disciplina

Caro aluno,

Seja bem-vindo à disciplina Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade.

O tema da ética constitui-se em uma das áreas de conhecimento da Filosofia


que mais desperta interesse em nossa sociedade nos dia de hoje. Sabe-se, por
exemplo, a maioria das profissões e empresas possui seus códigos de ética, o que
nos leva a supor que estas se preocupam, especificamente, na fundamentação e
sistematização dos princípios e valores que orientarão respectivamente as ações
dos seus profissionais e dos seus funcionários. Também, podemos constatar um
profundo interesse em discutir e refletir sobre os problemas relacionados à vida
humana, principalmente, devido às descobertas mais recentes da medicina, da
biologia e da genética que promovem uma alteração inigualável nos padrões
habituais pelo qual pensávamos e reagíamos a situações, como a clonagem
humana, o uso de alimentos transgênicos e a utilização de células tronco.

Por outro lado, igualmente, constata-se uma preocupação em revisar os


parâmetros habituais do homem em relação ao meio ambiente, assim como do
nosso dever em conscientizarmos, do ponto de vista ético, a responsabilidade com
o futuro de nossa espécie e das demais que habitam o nosso planeta. Estas são
apenas algumas das questões que suscitam um debate relacionado à ética e à
moral verificadas por nós diariamente nos jornais, revistas e nos noticiários da
televisão.

Mas porque este interesse tão grande sobre a ética? A ética, mais do que
qualquer outra disciplina, está diretamente relacionada à nossa experiência
cotidiana. Ela nos conduz a uma reflexão crítica acerca dos valores adotados por
nós, o sentido dos atos praticados e a forma pela qual as nossas decisões são
tomadas e que tipo de responsabilidade devemos ter sobre elas. A ética é um
campo de estudo altamente controverso e absolutamente relevante para nossa
época.

Desejando ou não, todos nós somos confrontados por questões éticas a cada
dia. Cada vez mais somos sobrecarregados de perguntas que, no fundo, são
estritamente éticas. Vemo-nos cercados por decisões acerca de como devemos
viver e de que tipo de pessoas devemos ser. De certa forma, possuímos consciência

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

de que o que fazemos e quem somos são coisas absolutamente relevantes para
nossa conduta enquanto ser social. Diante dessa perspectiva, estamos todos, de
certa forma, refletindo sobre a ética.

Neste sentido, é concebível afirmar que a ética está tão próxima de nós quanto
estamos próximos dela. Contudo, o estudo da ética não se deve limitar em discutir
e apresentar apenas os seus pressupostos fundamentais. Necessitamos ir sempre
além deles, promovendo em nossa prática cotidiana os elementos que nos
conduzirão a sermos indivíduos mais atentos com os valores básicos de nossa
sociedade, e assim, tornando-nos capazes de possuirmos responsabilidade sobre
nossas ações a fim de torná-las eticamente possíveis. Por isso, espera-se que o
estudo da ética não seja tomado somente como exigência acadêmica. A ética é
muito mais do que isso!

Esta disciplina fora construída tendo em vista a fornecer um quadro geral de


uma determinada questão ou problema, o que facilita o seu estudo em
profundidade, pois permite facilmente uma visão crítica do âmbito em que está
colocada cada questão particular da ética. Sendo assim, esta disciplina não se
constitui em uma síntese esquemática e sufocante como muitas vezes acontece
com certas apostilas e manuais, mas procura oferecer uma exposição que
contempla o que há de mais valioso sobre uma determinada questão ou assunto
da ética, deixando outras para que você tenha iniciativa de investigá-la por conta
própria diante das variadas sugestões de bibliografia que serão apresentadas ao
longo das unidades.

Neste contexto, a disciplina apresenta uma integração que se manifesta no


equilíbrio da sua exposição, na proporção e divisão dos assuntos abordados de
modo a facilitar a compreensão em seu conjunto. Por outro lado, o
desenvolvimento linear das unidades tem por finalidade fazer você se contagiar
pelo gosto da disciplina, do raciocínio e da utilização da reflexão ética na sua vida
pessoal e profissional, pois veremos então que esta disciplina, em lugar de ser
penosa como muitos pensam, é condição para o viver em harmonia e liberdade
respeitando as diferenças.

Estaremos sempre presentes para auxiliá-lo em suas tarefas.

Bons estudos!

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Plano da Disciplina

Esta disciplina fora construída tendo em vista a fornecer um quadro geral de


uma determinada questão ou problema, o que facilita o seu estudo em
profundidade, pois permite facilmente uma visão crítica do âmbito em que está
colocada cada questão particular da ética.

Desse modo, esta não se constitui em uma síntese esquemática e sufocante


como muitas vezes acontece com certas apostilas e manuais, mas procura oferecer
uma exposição que contempla o que há de mais valioso sobre uma determinada
questão ou assunto da ética, deixando outras para que você tenha iniciativa de
investigá-la por conta própria diante das variadas sugestões de bibliografia que
serão apresentadas ao longo das unidades.

Diante desse contexto, a disciplina Ética, Valores Humanos e


Transdisciplinaridade apresenta uma integração que se manifesta no equilíbrio da
sua exposição, na proporção e divisão dos assuntos abordados de modo a facilitar
a compreensão em seu conjunto. Sendo assim, faremos um breve resumo de cada
unidade, enfatizando seus objetivos para que você tenha uma visão geral daquilo
que irá estudar:

Unidade 1: Fundamentos da Ética e da Moral: contexto histórico e social,


conceitos e definições fundamentais

Apresenta esquematicamente os aspectos históricos e sociais da ética e da


moral e situa os seus elementos constitutivos no desenvolvimento da humanidade.

Objetivo: expor a problemática relativa à distinção entre ética e moral e suas


respectivas definições e objetos de estudo.

Unidade 2: Problemas Éticos e problemas morais: consciência moral, virtude,


amizade, liberdade e felicidade

Esta unidade fornece os problemas norteadores da ética e discute a


problemática da liberdade, da responsabilidade e do determinismo nos filósofos La
Boétie e Sartre e, em seguida, dá noções de felicidade amizade e virtude na
reflexão filosófica de Aristóteles.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Objetivo: refletir sobre a nossa prática cotidiana e avaliar a direção para a qual
nossos valores éticos dirigem-se no mundo em que vivemos hoje.

Unidade 3: Ética aplicada: a ética na empresa e nos negócios

Trata dos pressupostos teóricos da ética empresarial e seus fundamentos, para


a partir deste, expor os aspectos éticos presentes nas relações comerciais ou nos
negócios.

Objetivo: abordar a prática da ética no nível das organizações e nos negócios.

Unidade 4: Ética profissional e responsabilidade social

Esta unidade versará sobre problemática relativa à distinção aos valores sociais
da profissão. Trata-se, portanto, de debater a essência da ética profissional.

Objetivo: expor os conceitos capitais da ética e da responsabilidade social nos


negócios e expor os princípios norteadores das decisões morais racionais.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Fundamentos da Ética e da

1 Moral: contexto histórico e


social, conceitos e
definições fundamentais

Distinguindo Ética de Moral.


O caráter histórico e social da Moral.
O caráter histórico e social da Ética.
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Caro aluno, bem-vindo à nossa primeira unidade de estudo. Comecemos esta


módulo apresentando a você o contexto histórico do surgimento da ética e da
moral, assim como os principais conceitos e definições que as envolvem. Trata-se,
portanto, de uma unidade introdutória cujo teor da abordagem preparará você ao
entendimento seguro das questões tratadas nas unidades seguintes. Espero que,
por intermédio desta explicação, você sinta-se confortável ao se introduzir no
universo especulativo da ética e seus problemas fundamentais.

Objetivos da unidade

 Apresentar a problemática relativa à distinção entre ética e moral,


assim como as suas respectivas definições e objetos de estudo.

 Esboçar, de forma esquemática, os aspectos históricos e sociais da


ética e da moral.

 Situar os seus elementos constitutivos no desenvolvimento da


humanidade.

Plano da unidade

 Distinguindo Ética de Moral.

 O caráter histórico e social da Moral.

 O caráter histórico e social da Ética.

Como parceiros de sua aprendizagem, desejamos sucesso na sua formação!

Bons Estudos!

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Distinguindo Ética da Moral

No sentido geral, a palavra ética origina-se do grego antigo ήθική [ήθική


φιλοσοφία] "filosofia moral" e do adjetivo ήθος (ēthos) que quer dizer "costume,
hábito". Conexo ao conceito de ética está o conceito de moral, também originado
de uma palavra grega “mores” (ήθος = mos) possui aparentemente um significado
semelhante ao de ética. No entanto, se atentarmos como os gregos realmente
usavam a grafia e a pronúncia do termo ēthos, nota-se uma nítida diferença de
significado entre ambas. São elas:

 (pronunciado como êtos) = para designar "costume”.

 (pronunciado como étos) = para designar a índole, no sentido de caráter


e temperamento natural da pessoa.

Compreendeu como a diferença da pronúncia de ēthos altera substancialmente o


seu significado? Certamente, em um ato concreto realizado por uma pessoa a diferença
de sentido entre ambas não são claramente percebida. Por exemplo: o ato do cidadão
grego de partir, com seus iguais, para a guerra, em defesa da cidade-estado (pólis), está
presente nos dois sentidos indicados pelas duas palavras gregas. É costume da cidade
grega que o cidadão seja soldado e não escravo, pois o ato de defender a cidade é um
ato honroso. Com efeito, o ato de ir à guerra diz também algo íntimo acerca do homem,
pois está relacionado ao seu caráter: ele é um homem corajoso e, como tal, valoroso.
Vejam, nestas frases comuns entre nós, como os dois sentidos da palavra ēthos
utilizados pelos gregos antigos estão intimamente relacionados:

a) "O rapaz foi muito ético: não revidou agressão."

b) “Aquele político é um homem ético."

c) "Todos aqui o respeitam como um homem de moral."

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Diferentemente dos gregos, os romanos utilizavam a palavra latina mos


(mores) para designar o costume ou costumes. Foi a partir deste termo romano que
surge o modo como entendemos o significado de moral na Língua Portuguesa.
Sendo assim, na nossa Língua, os dois termos, ética e moral,
implicam, simultaneamente, de alguma forma, nos dois
significados diferentes antigos e, de fato, tanto a ética
quanto a moral, incidem sobre estas duas dimensões, ou
seja, uma valoração do homem como tal e do seu agir em
conformidade ou não com os costumes e a tradição.

Reconhecendo as dificuldades para separar de modo consensual e técnico o


que é ético do que é moral, em um terreno em que não há acordo fácil entre os
filósofos sobre a distinção entre ambas, vejamos como o dicionário de Aurélio
Buarque de Holanda as define:

1. ÉTICA: refere-se ao "estudo dos juízos de apreciação referentes à


conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e
do mal, seja relativamente a determinada sociedade, seja de modo
absoluto" (HOLANDA, 1999, p. 848-849).

2. MORAL: refere-se ao "conjunto de regras de conduta consideradas


como válidas, quer de modo absoluto para qualquer tempo ou lugar,
quer para grupo ou pessoa determinada" (HOLANDA, 1999, p. 978-
979).

IMPORTANTE:

A distinção do dicionarista está de acordo com a certa tradição


filosófica: a de considerar moral como as normas de convivência social e ética como
o estudo e a reflexão teórica, sobre a moral, o comportamento moral dos homens e
as valorações morais das diferentes culturas e sociedade, segundo uma
metodologia estritamente racional, ou seja, filosófica e científica (Cf. VÁZQUEZ,
2001).

Percebe-se claramente que as definições de ética e moral fornecidas pelo


dicionarista apresentam uma diferença técnica entre os dois termos, segundo seu
uso correto em nossa língua, em que está também a chave da solução para

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

entender o modo confuso e equivocado com que as duas palavras são usadas: os
homens modernos não gostam de dizer que suas ações são morais, pois isto
equivaleria a dizer que elas são corretas apenas porque são conformes ao costume
e à tradição. Preferem dizer que agem segundo uma ética para denotar um
suposto caráter independente, reflexivo e filosófico de sua posição existencial e
política.

Diante dos clamores da imprensa, dos políticos e dos militantes dos


movimentos sociais por "mais ética na política", nos
últimos anos, usa-se o termo ética e não o termo moral Tradição mosaica:
para uma fuga, até certo ponto fictícia, do caráter tradição proveniente dos
"tradicionalista" da moral. Por um lado, se avaliarmos bem ensinamentos de Moisés.
quais seriam os "princípios éticos" que, em última análise,
se espera dos políticos, encontraríamos antigos valores da cultura ocidental,
consignados em mandamentos da lei de Deus, conforme a tradição mosaica e
incorporada pelo cristianismo: “Não matarás; não roubarás”; “não levantarás falso
testemunho”; “não cobiçarás as coisas alheias” (Cf. VÁZQUEZ, 2001).

Diante disso, o apelo por mais ética na política nada mais é do que um apelo
por mais fidelidade aos antigos valores morais do mundo ocidental. Desta forma, lá
onde se alardeia uma novidade, produto de uma reflexão "filosófico-ética" original,
nada mais há do que valores antigos sob novos nomes ou "novas fachadas". Por
outro lado, há níveis de complexidade dos problemas humanos reais e concretos
que já não são tão facilmente resolvidos com base nos costumes tradicionais.

Veja-se que ninguém precisa fazer apelo à reflexão ética para dizer que "é
imoral um vizinho roubar o cachorro do outro e dá-lo de presente a um amigo". Em
geral, poder-se-ia dizer que a lei moral "não roubarás" surgiu neste mesmo
contexto elucidativo, ou seja, problemas humanos antigos continuam sendo
suficientemente bem resolvidos pela moral tradicional. Logo, um dos grandes
dilemas dos estudos da moral na atualidade pode ser resumido nas seguintes
questões: existem ou não valores morais válidos para todos os homens? Como
justificar a classificação das ações em moralmente corretas ou incorretas, boas ou
más?

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Retomando a problemática da distinção conceitual entre ética e moral,


Vázquez afirma que a “ética é a teoria ou ciência do comportamento moral dos
homens em sociedade. Ou seja, é a ciência de uma forma específica do
comportamento humano” (VÁZQUEZ, 2001, p. 12). Essa definição ressalta o caráter
científico da ética, isto é, corresponde à necessidade de uma abordagem científica
dos problemas morais.

Por outro lado, Valls afirma que:

“a ética preocupa-se com as formas humanas de


resolver as contradições entre necessidade e
possibilidade, entre tempo e eternidade, entre o
individual e o social, entre o econômico e o moral, entre
o corporal e o psíquico, entre o natural e o cultural e
entre a inteligência e a vontade, evidenciando as
contradições enfrentadas pelos indivíduos na tomada
de decisões envolvendo dilemas éticos (VALLS, 1996, p.
48).

Comparando as definições fornecidas pelos autores, poderemos traçar o


seguinte esquema:

1. a ética relaciona-se com a ciência (o conhecimento científico);

2. a ética relaciona-se com avaliação da conduta humana;

3. a ética é uma ciência normativa;

4. a ética, pelo contrário, é uma reflexão filosófica, logo puramente


racional;

5. a ética possui um caráter universalista opostamente ao caráter


restrito da moral.

Conforme explicitado, os problemas éticos caracterizam-se pela sua


generalidade; isto os distingue dos problemas morais relativos à vida cotidiana. De
acordo com Vázquez, “por causa de seu caráter prático (…), tentou-se ver na ética
uma disciplina normativa, cuja função fundamental seria a de indicar o
comportamento melhor do ponto de vista moral” (VÁZQUEZ, 2001, p. 10). Desse

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

modo, o ético tornar-se-ia uma espécie de “legislador do comportamento moral”


dos indivíduos ou da comunidade.

No entanto, ainda segundo Vázquez:

A função fundamental da ética é a mesma de toda


teoria: explicar, esclarecer ou investigar uma
determinada realidade, elaborando os conceitos
correspondentes. Por outro lado, a realidade moral
varia historicamente e, com ela, variam os seus
princípios e as suas normas (VÁZQUEZ, 2001, p. 10).

Portanto, não cabe à ética formular juízos de valor sobre a prática moral de
outras sociedades ou épocas, mas sim explicar a razão de ser destas mudanças de
moral, esclarecendo o fato de o homem ter recorrido a práticas morais diferentes e
até opostas. É importante notar que a ética não deve ser confundida com moral,
como podem induzir expressões correntes como “ética católica” ou “ética do
capitalismo”.

Segundo Robert Srour:

Enquanto a moral tem uma base histórica, o


estatuto da ética é teórico, corresponde a uma
generalidade abstrata e formal. A ética estuda as morais
e as moralidades, analisa as escolhas que os agentes
fazem em situações concretas, verifica se as opções se
conformam aos padrões sociais. (…). Distingue-se das
morais históricas que imbuem coletividades amplas
(nações, classes ou categorias sociais) e que remetem a
conceitos específicos ou de “espécie” (SROUR, 2000, p.
270).

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Embora sejam temas de natureza teórica, as definições


construídas pela ética podem interferir substancialmente nas Retroalimentação
práticas morais. Por isso, Vázquez afirma que teoria ética e a
significa, neste contexto,
prática moral, ainda que distintas, devem viver entrelaçadas
uma troca constante e
ou, nas suas palavras, em “retroalimentação” permanente.
mútua de elementos da
Neste sentido, a ética estudaria os comportamentos “prático-
moral e da ética que se
morais”, trazendo-lhes depois questionamentos e
proposições. entrecruzam
simultaneamente.
Quanto à moral, entende-se um conjunto de normas e
regras destinadas a regular as relações entre os indivíduos. O seu significado, função e
validade não podem deixar de receber uma variação histórica nas diferentes sociedades.
De fato, o comportamento moral varia de acordo com o tempo e o lugar, conforme as
exigências nas quais os indivíduos se organizam ao estabelecerem as formas de
relacionamento e as práticas de trabalho. À medida que estas relações se alteram, exige-
se uma modificação progressiva nas normas do comportamento coletivo. Por exemplo,
a idade média caracterizava-se pelo regime feudal, baseado, sobretudo, na hierarquia
de suseranos, vassalos e servos (ARANHA, 2003).

Neste regime, o trabalho era garantido pelos servos, possibilitando aos nobres uma
vida dedicada ao ócio e à guerra. A moral cavalheiresca deriva e baseia-se no
pressuposto da superioridade da nobreza, exaltando a virtude da lealdade e da
fidelidade — suporte do “sistema de suserania”. Em contraposição, o trabalho é
desvalorizado e restrito aos servos. Esta situação foi alterada substantivamente com o
aparecimento da burguesia, a qual, formada pelos antigos servos libertos, tendeu a
valorizar o trabalho e criticar a ociosidade (Cf. ARANHA, 2003).

IMPORTANTE:

Diante disso, é possível perceber que uma mudança radical na estrutura


social acarreta uma mudança fundamental de moral. Em cada indivíduo,
entrelaça-se, de modo particular, uma série de relações sociais próprias ou particulares
de sua época ou da sua sociedade, o que demonstra que a sua individualidade possui
também um caráter social. Percebe-se, por outro lado, que existe uma gama de padrões
que, em cada sociedade, modelam o comportamento individual, o seu modo de
trabalhar, o seu modo de se vestir, sentir, amar, etc. Estes padrões variam de uma
sociedade para outra e, por isso, não há sentido em falar de uma individualidade fora
das relações que os indivíduos encontram na sociedade.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Contudo, ainda que a moral mude historicamente, e uma mesma norma moral
possa apresentar um conteúdo diferente em diferentes contextos sociais, a função
social da moral em seu conjunto ou de uma norma particular é a mesma, isto é,
regular as ações dos indivíduos nas suas relações mútuas ou as do indivíduo com a
comunidade, objetivando preservar a sociedade no seu conjunto ou a integridade
do grupo social.

Para Vázquez (2001, p. 233):

Assim a moral cumpre uma função social bem


definida: contribuir para que os atos dos indivíduos ou
de um grupo social desenvolvam-se de maneira
vantajosa para toda a sociedade ou para uma parte.

A moral implica, portanto, uma relação livre e consciente entre os indivíduos


ou entre estes e a comunidade. Mas esta relação está também socialmente
condicionada, precisamente porque o indivíduo é um ser social ou um nexo das
relações sociais. O indivíduo se comporta moralmente no quadro de certas relações
e condições sociais determinadas que ele não escolheu e dentro também de um
sistema de princípios, valores e normas morais que não inventou, mas que recebe
socialmente e segundo o qual regula as suas relações com os demais ou com a
comunidade inteira.

Com base nestes elementos conceituais, podemos definir a moral da seguinte


forma:

“A moral é um sistema de normas, princípios e


valores, segundo o qual são regulamentadas as
relações mútuas entre os indivíduos ou entre estes e a
comunidade, de tal maneira que estas normas, dotadas
de um caráter histórico e social, sejam acatadas livre e
conscientemente, por uma convicção íntima, e não de
uma maneira mecânica, externa e impessoal (VÁZQUEZ
2001, p. 84).

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

A moral, portanto, possui um caráter social, porque os indivíduos se sujeitam a


princípios, normas ou valores socialmente estabelecidos. Também, regula somente
atos e relações que acarretam consequências para outros e exigem
necessariamente a sanção dos demais. Por outro lado, cumpre a função social de
induzir os indivíduos a aceitar livre e conscientemente determinados princípios,
valores e interesses.

Com base na definição de moral em Vázquez, delinearemos um quadro


comparativo entre ética e moral. Vejamos a seguir:
ÉTICA MORAL
Parte da filosofia prática que objetiva elaborar
um reflexão sobre os problemas fundamentais A moral é uma forma de comportamento
da moral fundamentado em um estudo humano que compreende tanto uma aspecto
metafísico do conjunto de regras da conduta normativo quanto um aspecto factual.
considerada como universalmente válida.

Diferente da moral, a ética preocupa-se em


detectar os princípios de uma vida conforme a
sabedoria filosófica, em elaborar uma reflexão A moral é um fato social.
sobre as razões de se desejar a justiça e a
harmonia e sobre os meios de alcançá-la.

A ética é a ciência da moral, ou seja, de uma Embora a moral possua um caráter social, o
esfera do comportamento humano. Neste individuo tem um papel fundamental, pois a
sentido, a ética não é moral nem a moral é moral exige a interiorização das normas e
científica. deveres.

Diante desse quadro comparativo, é possível constatar a confluência dos


enunciados com as definições de ética e moral formuladas anteriormente. Ética e
moral relacionam-se, mas com objetos diferenciados, específicos e bem definidos.
Com efeito, ambas as palavras mantêm uma relação que não possuíam
propriamente em suas origens etimológicas. Certamente, a moral diz respeito ao
conjunto de normas ou regras adquiridas pelo hábito. Neste caso, a ela refere-se ao
comportamento adquirido socialmente ou modo de ser conquistado pelo homem.

A ética, por sua vez, baseia-se em um modo de comportamento que não


corresponde a uma disposição natural, mas é adquirido ou conquistado pelo
hábito. É precisamente esse caráter não-natural da forma de ser do homem que, no
período antigo da humanidade, conferia a este mesmo homem uma “dimensão
moral”.

A seguir, discutiremos com mais detalhe o caráter histórico e social da moral,


especificando esta dimensão moral do homem. Preparados?

22
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

O caráter histórico e social da Moral

Mesmo considerando a origem divina das ideias morais, por intermédio das
quais os indivíduos teriam adquirido a consciência dos meios adequados à sua
elevação ao plano espiritual dos valores perenes, a investigação do problema da
moral não pode desprezar os processos históricos responsáveis pelos mecanismos
de criação, funcionamento e aplicação dos padrões e das regras morais. Todas as
sociedades humanas possuem valores padrões, normas de conduta e sistemas que
garantem a aplicação e o funcionamento das mesmas.

O estudo do modo de implementação social desses sistemas de regulação


moral revela-nos que o fundamento sobre o qual repousam constitui-se de hábitos
e atitudes firmados diante de “padrões de conduta”, que funcionam como
“cimento da unidade social dos grupos humanos”. A questão que nos interessa é
saber se estes padrões de conduta moral são impostos a partir da própria estrutura
de poder vigente ou se refletem a natureza geral humana.

IMPORTANTE:

No primeiro caso, a existência desses padrões é objetiva: está posta nas


leis e normas emanadas das instâncias de poder. No segundo caso, fazem-se
necessárias especulações e discussões sobre o que é a natureza humana e como
ela deve ser cuidada para se manter fiel a si mesma. Para auxiliarmos no
entendimento destas questões, verificaremos o comentário de Howard Parsons
(1982, p. 158) sobre esta problemática:
A “moral”, em suas raízes latinas, caracteriza-se
como algo de pesado, inamovível e campesino: os
mores são os usos e costumes de um povo, embebido
de hábitos que estão na base dos seus caracteres e que
os une num sólido liame. Destruam os mores,
destruirão os homens e a sociedade. A moral
tradicional, porém, não satisfaz muita gente hoje em
dia. A sociedade e a mores estão em uma convulsão
como nunca se viu antes. Deriva daí que a nossa
pesquisa não deve voltar-se nem tanto para uma nova
moral (os frutos), nem tampouco para velhas morais
(troncos vazios), e sim para raízes eternas.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Baseados no comentário citado pelo autor, podemos dividir as concepções


quanto à origem da moral em dois tipos básicos: aquelas que explicam esta origem
por princípios metafísicos e, como tal, supra-históricos ou a-históricos. Alinham-se
neste primeiro tipo as teorias que veem um poder sobre-humano como fonte das
normas morais. Também as que veem o homem como origem e fonte da moral,
mas referindo-se a uma essência eterna e imutável a todos os indivíduos. De outro
lado, estão as teorias historicistas, ou seja, as que procuram a origem da moral no
horizonte da história, vendo-a como produto histórico e social do homem.

Entre as teorias a-historicistas ou metafísicas,


Tomás de Aquino que foi
poder-se-ia citar a posição Neotomista. Esta corrente
chamado o mais sábio dos
de pensamento europeia e católica (representada por
santos e o mais santo dos
Garrigou-Lagrange e Jacques Maritain) surgiu entre as
sábios. Seu maior mérito foi a
duas grandes guerras mundiais e que teve penetração
síntese do cristianismo com a
no Brasil a partir dos anos cinquenta através do Pe.
visão aristotélica do mundo,
Leonel Franca e de Alceu de Amoroso Lima (Tristão de
introduzindo o aristotelismo,
Ataíde). Estes seguem o pensamento de São Tomás de
sendo redescoberto na Idade
Aquino e afirmam que o homem é dotado de um
Média, na escolástica anterior,
senso moral natural, "no sentido de que possui uma
compaginou um e outro, de
infalibilidade resultante da própria natureza da
forma a obter uma sólida base
inteligência" (Cf. ARANHA, 2003, p. 67).
filosófica para a teologia e
O senso moral, segundo Tomás de Aquino, é o retificando o materialismo de
"sentimento imediato e absoluto da lei reguladora do Aristóteles. Em suas duas
conhecimento e da ação práticos", define-se "Summae", sistematizou o
"adequada e essencialmente pelo princípio de que é conhecimento teológico e
preciso fazer o bem e evitar o mal". Desta forma, a filosófico de sua época : são elas
vontade humana tende necessariamente para o bem. a "Summa Theologiae", a
Por esta razão, os sentimentos morais, considerados "Summa Contra Gentiles"
componentes da consciência moral, manifestem uma (Disponível em:
tendência ao bem e uma repulsa ao mal, o respeito do <www.wikpedia.com.br>.
dever e a antipatia pela má conduta. Acesso em 16 maio 2008.)

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

As teorias historicistas, por outro lado, defendem que a moral de uma


comunidade encontra-se essencialmente em seus costumes. Em outras palavras,
para estes os costumes dizem como cada homem deve agir em situações concretas
em função daquilo que a comunidade considera como sendo o bem e o mal. Por
isso, consideram o modo de agir e de pensar baseado na "moral" como aquele que
está em conformidade com a moralidade. Por sua vez, para estes a moralidade
consiste na obediência ao costume de tal forma que onde não há nenhum
costume classificado como certo, não há moralidade, pois se pode agir de
diferentes modos sem que nenhum deles seja visto pela comunidade como um ato
imoral ou amoral.

Mas o que é imoral e amoral? No sentido geral, o termo imoral significa algo
que é contrário à moral. Especificamente, diz respeito a uma conduta ou regra que
contraria a moral prescrita pela sociedade. Em outras palavras, entende-se por
imoral tudo aquilo que uma sociedade (em um determinado espaço e tempo)
consensualmente não admite ou julga ser correto ou justo em relação à conduta
ou ao comportamento social de um indivíduo e um grupo de indivíduos que
pertencem a ela.

De outra forma, o termo amoral significa propriamente ausência de moral, ou


seja, é o instante que não se pode avaliar ou emitir um juízo de valor de natureza
moral ou imoral sobre o agir de um indivíduo ou mesmo um grupo de indivíduos
pertencentes a uma determinada sociedade.

Percebeu como estes dois termos estão intimamente relacionados ao


comportamento dos indivíduos no seio da sociedade? É exatamente este o ponto
de vista de Vázquez (2001, p. 244):
A necessidade de ajustar o comportamento de
cada membro aos interesses da coletividade leva a que
se considere como bom ou proveitoso tudo aquilo que
contribui para reforçar a união ou a atividade comum e,
ao contrário, que se veja como mau ou perigoso o
oposto; ou seja, o que contribui para debilitar o minar a
união; o isolamento, a dispersão dos esforços, etc.
Estabelece-se, assim, uma linha divisória entre o que é
bom e o que é mau, uma espécie de tábua de deveres

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

ou obrigações baseada naquilo que se considera bom


ou útil para a comunidade. Destacam-se, assim, uma
série de deveres: todos são obrigados a trabalhar, a
lutar contra os inimigos da tribo, etc. Estas obrigações
comuns comportam o desenvolvimento das qualidades
morais relativas aos interesses da coletividade:
solidariedade, ajuda mútua, disciplina, amor aos filhos
da mesma tribo, etc. O que mais tarde se qualificará
como virtudes ou como vícios acha-se determinado
pelo caráter coletivo da vida social. Numa comunidade
que está sujeita a uma luta incessante contra a
natureza, e contra os homens de outras comunidades, o
valor é uma virtude principal porque o valente presta
um grande serviço à comunidade. Por razões análogas,
são aprovadas e exaltadas a solidariedade, a ajuda
mútua, a disciplina, etc. Ao contrário, a covardia é um
vício horrível na sociedade primitiva porque atenta,
sobretudo contra os interesses vitais da comunidade. E
se deve dizer a mesma coisa de outros vícios como o
egoísmo, a preguiça, etc.

Cabe notar que a partir desta consideração, Vázquez entra em uma calorosa
discussão entre as teses metafísicas e historicistas sobre a origem da moral, o que
nos conduz a uma reflexão sobre os seus fundamentos, ou seja, uma discussão a
respeito da legitimidade com que a moral se impõe aos indivíduos. Se a moral
possui uma origem metafísica, não está ao alcance do
homem modificar seus postulados fundamentais, tais Barbárie: estado ou
como, o princípio "faça o bem e evite o mal". Um princípio condição de bárbaro.
metafísico como este garante por si mesmo uma forte
fundamentação teórica para o ordenamento moral da
sociedade. Se concepções historicistas da origem da moral estiverem certas, a
moral a que estamos submetidos relativiza-se os nossos próprios atos, o que torna
um desafio repensar os seus fundamentos.

Com efeito, torna-se possível não apenas reformá-la, mas fazê-la com a
consciência de que ela é apenas um produto humano. Isto retira boa parte de sua
força de imposição e legitimidade proveniente da ideia de sua origem metafísica,
transcendente e sagrada. O que acontece com o indivíduo e com a sociedade que
dessacraliza sua moral? Surge o risco da desordem e da desestruturação da
sociedade? Desestruturar a sociedade é correr risco de voltarmos para a
animalidade, para a barbárie.

26
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Por conta disso, o âmbito da moral passar a existir como um traço de formação
que todo homem recebe do processo de interação. Essa formação é inteiramente
não-religiosa na sua própria justificação: por isso se diz que a moral do homem
moderno é laicizada. Os valores morais não são reconhecidos como revelados por
uma um origem divina, ou seja, trata de valores que não são sagrados. Ao
contrário, estes valores são resultantes do processo histórico de sua
dessacralização. A eles recusa-se qualquer transcendência, qualquer caráter
sagrado. Mas existem objetivamente e sua existência pode até ser estatisticamente
verificada, ou seja, justificada através de critérios científicos.

Não é somente o critério científico que a moral justifica-se. Ela pode ainda ser
justificada pelos seguintes critérios:

 critério de justificação social: na medida em que a moral


desempenha a função social de garantir o comportamento dos
indivíduos de uma comunidade numa determinada direção, toda
norma corresponderá aos interesses e necessidades sociais. Em
suma, em uma comunidade em que se verifica a necessidade de um
indivíduo ou o interesse de um indivíduo particular, justifica-se uma
norma que exige o seu comportamento adequado;

 critério de justificação prática: uma norma moral somente pode


ser justificada se forem verificadas as condições reais para que a sua
aplicação não se ponha às necessidades sociais da comunidade.
Sendo assim, em uma determinada comunidade na qual se verificam
as condições necessárias, justifica-se a norma que corresponde a tais
condições;

 critério de justificação lógica: a justificação lógica das normas


satisfaz plenamente a função social de toda moral, pois impede que
uma comunidade determinada elabore normas arbitrárias ou
caprichosas que, precisamente, por não se integrarem no respectivo
sistema normativo, entrariam em contradição com os interesses e
necessidades da comunidade. Neste contexto, uma norma se
justifica logicamente se demonstrada a sua coerência e não-
contraditoriedade com respeito às demais normas do código moral
do qual faz parte.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Veremos a seguir alguns aspectos desta discussão, apresentando a você o


contexto histórico e social da ética. Vamos lá?

O caráter histórico e social da Ética


Como já discutimos, toda coletividade humana possui sua própria moral ou
suas morais (diferentes morais para diferentes grupos da mesma sociedade). Isto,
porém, não significa que todo povo tenha uma ética, entendida como um estudo
racional da moral. O nascimento (origem ou gênese) da moral data do próprio
nascimento da coletividade humana e do seu processo de interação. Pode-se
afirmar que as doutrinas éticas nascem e se desenvolvem em diferentes épocas e
sociedades como respostas aos problemas básicos apresentados pelas relações
entre os homens e, em particular, pelo seu comportamento moral efetivo.

Por essa razão, existe uma estreita vinculação entre os conceitos morais e as
realidades humana e social, sujeitas historicamente à mudança. Com efeito, as
doutrinas éticas não podem ser consideradas isoladamente, mas dentro de um
processo de mudança e de sucessão que constitui propriamente a história. Ética e
história, portanto, relacionam-se duplamente: com a vida social e com a sua
própria história, uma vez que cada doutrina ética está em conexão com as
anteriores.

Toda moral efetiva se elaboram certos princípios, valores ou normas. Assim,


mudando radicalmente a vida social, muda também a vida moral. Os princípios,
valores e normas encarnados nela entram em crise e exigem a sua justificação ou a
sua substituição por outros. Assim explica-se o surgimento e sucessão de doutrinas
éticas fundamentais em conexão direta com a mudança e sucessão de estruturas
sociais e, dentro delas, da vida social.

A gênese da moral é também um problema em relação à moral estabelecida


na atualidade. O fato de ela estar estabelecida, de sustentar-se e perpetuar-se
historicamente exige uma explicação. Por isso, do ponto de vista filosófico, há uma
necessidade intrínseca para explicar a gênese e os pressupostos fundamentais da
moral. A ética, enquanto estudo da moral, por outro lado, tem data de nascimento
certa e, graças à história da filosofia, podemos conhecer o seu surgimento e a sua
evolução.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

A ética surgiu na Grécia, no século V a.C., com o surgimento dos sofistas e com
a atitude de reação aos sofistas por parte de Sócrates. A sofística aparece num
momento cultural e político muito específico da história e cultura grega. No
período clássico grécia, os sofistas rejeitam a tradição mítica ao considerar que os
princípios morais resultam de convenções humanas. Embora na mesma linha de
oposição aos fundamentos religiosos, Sócrates se contrapõe aos sofistas ao buscar
explicar os princípios morais não nas convenções, mas na natureza humana.

Segundo Hamlyn (1990 p. 25):

A ética propriamente dita começou com Sócrates,


embora os sofistas lhe tenham dado um estímulo
importante. Isto a despeito do fato de que Sócrates, a
julgar pelas indicações que nos dá Platão, se opunha a
eles. Para seus contemporâneos, de qualquer maneira,
eles provavelmente pareciam mais próximos a ele do
que nos parece hoje. Os sofistas eram mestres
ambulantes que davam cursos ou aulas individuais
sobre vários assuntos e cobravam por esse privilégio.
Alguns deles, pelo menos, parecem ter ganho bom
dinheiro com essas atividades. É tentador atribuir a esse
fato o desfavor em que são hoje tidos, embora seja
duvidoso que cobrar honorários por serviços prestados
tenha sido motivo de desaprovação para o ambiente
ateniense típico de meados do século V a.C. Sócrates
censurava-os porque achava que eles alegavam
fornecer mais do que realmente davam. Em especial,
alegava que eles diziam que podiam ensinar virtude ao
homem e achava que não faziam nada disso.

Um sofista era um professor e, por este motivo, a palavra sophistés era utilizada
para se referir aos poetas, que foram os primeiros educadores na Grécia. Em
princípio, a palavra sofista não possui um sentido pejorativo que veio adquirir mais
tarde, em Atenas, quando os seus inimigos os acusavam de charlatães e
mentirosos. O que ensinavam os sofistas? Os sofistas ensinavam a arte de
argumentar e persuadir, arte decisiva para quem exerce a cidadania em uma
democracia direta.

29
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Mais uma vez, contudo, se acreditarmos nos diálogos de Platão, os


próprios argumentos de Sócrates, considerados puramente como tais, são
amiúde pouco melhores do que os de seus adversários sofistas. Pouca dúvida
pode haver de que os contemporâneos de Sócrates o teriam julgado tão
inigualável a esse respeito como os sofistas. Por outro lado, muitos
tributavam a todos eles uma análoga admiração prudente. Sócrates, no
entanto, exercia um fascínio próprio, como dá notícia Alcibíades em O
Banquete, de Platão, e era o caráter do homem e a profundidade de sua
consciência moral que o tornava especial.

Inúmeros são os diálogos de Platão em que são descritas as discussões


socráticas a respeito das virtudes e da natureza do bem. Resulta daí a convicção de
que a virtude se identifica com a sabedoria e o vício com a ignorância. Neste
termos, para Platão, a virtude pode ser aprendida. Na célebre passagem de
República em que Platão descreve o mito da caverna reaparece essa ideia: o sábio é
o único capaz de se soltar das amarras que o obrigam a ver apenas sombras e,
dirigindo-se para fora, contempla o sol, que representa a ideia do Bem. Portanto,
"alcançar o bem" se relaciona com a capacidade de "compreender bem". Todavia,
apenas o filósofo atinge o nível mais alto de sabedoria, só a ele cabe a virtude
maior da justiça e, portanto, lhe é reservada a função de governar a cidade. Outras
virtudes menores, mas também importantes para a cidade, caberão aos soldados
defensores da pólis e aos trabalhadores comuns, artesãos e comerciantes.

IMPORTANTE:

Herdeiro do pensamento de Platão, Aristóteles aprofunda a discussão a


respeito das questões éticas. Mas, para este, o homem busca a felicidade, que
consiste não nos prazeres nem na riqueza, mas na vida teórica e contemplativa cuja
plena realização coincide com o desenvolvimento da racionalidade. O que há de
comum no pensamento dos dois filósofos gregos em questão é a concepção de
que a virtude resulta do trabalho reflexivo, da sabedoria, do controle racional dos
desejos e paixões. Além disso, o sujeito moral não pode ser compreendido ainda,
como nos tempos atuais, na sua completa individualidade. Os homens gregos são,
antes de tudo, cidadãos, membros integrantes de uma comunidade, de modo que
a ética se acha intrinsecamente ligada à política e a pólis.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

No período helenista, os filósofos se ocupam


predominantemente com questões morais, e Epicuro (341-270 a.C.), filósofo
destacam-se duas tendências opostas: hedonismo e o grego (nascido em Samos)
estoicismo. Para os hedonistas (do grego hedoné, atomista, fundador do
"prazer"), o bem se encontra no prazer. O principal epicurismo. A base de seu
representante do hedonismo grego, Epicuro (341-270 sistema é uma física fundada
a.C.), considera que os prazeres do corpo são causas
nos *átomos como em
de ansiedade e sofrimento. Para permanecer
Demócrito. Pontos últimos se
imperturbável, a alma precisa desprezar os prazeres
deslocando no vazio. Os átomos
materiais, o que leva Epicuro a privilegiar os prazeres
constituem a explicação última
espirituais, dentre os quais aqueles referentes à
do mundo: nada existe a não ser
amizade.
os átomos e o vazio no qual se
Na mesma época, o estoico Zenon de Cítio (336-
move: a alma, como tudo o que
264 a.C.) despreza os prazeres em geral, ao considerá-
existe, é formada de átomos
los fonte de muitos males. As paixões devem ser
materiais: tudo o que acontece
eliminadas, porque só produzem sofrimento e, por
no mundo deve-se às ações e
isso, a vida virtuosa do homem sábio, que vive de
interações mecânicas dos
acordo com a natureza e a razão, consiste em aceitar
com impassibilidade o destino e o sofrimento (Cf. átomos.

ARANHA, 2003). Visão teocêntrica é aquela que


As teorias estoicas foram bem aceitas pelo atribui Deus como centro de
cristianismo ainda na época do Império Romano, tudo.
tendo também fecundado as ideias ascéticas do
período medieval. Durante a Idade Média, a visão teocêntrica do mundo fez com
que os valores religiosos impregnassem as concepções éticas, de modo que os
critérios do bem e do mal se achavam vinculados à fé e dependiam da esperança
de vida após a morte. Na perspectiva religiosa, os valores são considerados
transcendentes, porque resultam de doação divina, o que determina a
identificação do homem moral com o homem temente a Deus.

No entanto, a partir da Idade Moderna, culminando


no movimento da Ilustraçao no século XVIII, a moral se Laico e secular significam
torna laica, secularizada. Ou seja, ser moral e ser religioso respectivamente o oposto ao
não são polos inseparáveis, sendo perfeitamente possível eclesiástico.
que um homem ateu seja moral e, mais ainda, que o
fundamento dos valores não se encontre em Deus, mas no próprio homem.

31
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

O movimento intelectual do século XVIII conhecido como Iluminismo,


Ilustração ou Aujklärung e que caracteriza o chamado Século das Luzes exalta a
capacidade humana de conhecer e agir pela "luz da razão". Esta critica a religião
que submete o homem à heteronomia, que o subjuga a preconceitos e o conduz
ao fanatismo. Rejeita toda tutela que resulta do princípio de autoridade. Em
contraposição, defende o ideal de tolerância e autonomia.

No lugar das explicações religiosas, a Ilustração fornece três tipos de


justificação para a norma moral: aquela se funda na lei natural (teses
jusnaturalistas), no interesse (teses empiristas, que explicam a ação humana como
busca do prazer e evitação da dor) e na própria razão (tese kantiana).

A máxima expressão do pensamento iluminista encontra-se em Kant (1724-


1804) que, além da Crítica da razão pura escreveu a Crítica da razão prática e
Fundamentação da metafísica dos costumes, nas quais desenvolve a sua teoria
moral e ética. A razão prática diz respeito ao instrumento para compreender o
mundo dos costumes e orientar o homem na sua ação. Analisando os princípios da
consciência moral, Kant conclui que a vontade humana é verdadeiramente moral
quando regida por imperativos categóricos. O
Imperativo categórico: Kant
imperativo categórico é assim chamado por ser
criou o termo imperativo no
incondicionado, absoluto, voltado para a realização da
seu livro Fundamentação da
ação tendo em vista o dever.
Metafísica dos Costumes,
A tradição da moral ocidental encontrou no escrito em 1785. Esta palavra
pensamento do filósofo alemão do século XVIII um pode ser entendida, segundo
momento de aparente resolução do antagonismo alguns autores, como uma
histórico entre as fontes judaicas e helênicas da analogia ao termo bíblico
moralidade. Para este, uma ação moralmente Mandamento.
justificável deve ser pública e, como tal, não pode estar
a serviço de qualquer intenção ou interesse particular ou egoísta. Deve-se,
portanto, agir somente na medida em que a nossa ação possa ser imitada por
todos sem prejuízo a ninguém. Ou seja, a norma a que obedeço é a norma que eu
próprio me dou, mas que deve poder ser defendida publicamente, para que possa
ser seguida por toda a humanidade como um “lei universal” ou , no mínimo, não
ser rejeitada por esta.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Para Kant, esse ato de autonomia e de poder agir publicamente, sem ser
acusado por ninguém, é a fonte da satisfação moral. Essa atitude moralmente
válida decorre unicamente do uso de nossa capacidade racional, da liberdade da
nossa vontade e, sobretudo, da orientação que, por educação, imprimimos à nossa
vontade para que se torne boa ou para que seja absolutamente boa.

Nesse sentido, fica patente que Kant rejeita as


Lei moral é a expressão de
concepções morais predominantes até então, quer seja da
um princípio moral, sob
filosofia grega, quer seja da cristã, e que norteiam a ação
forma que explicite o que
moral a partir de condicionantes como a felicidade ou o
é o bem e o mal, a partir
interesse privado. Por exemplo, para Kant não faz sentido
do qual se pode justificar a
agir bem com o objetivo de ser feliz ou evitar a dor, ou
validade das normas ou
ainda para alcançar o céu ou não merecer a punição
valores morais por ele
divina. O agir moralmente funda-se exclusivamente na
aceitos como fonte de
razão. A lei moral que a razão descobre é universal, pois
sentido para a sua
não se trata de descoberta subjetiva (mas do homem
existência.
enquanto ser racional) e é necessária, pois é ela que
preserva a dignidade dos homens. Isso pode ser
sintetizado nas seguintes afirmações do próprio Kant (1988, p. 34):

"Age de tal modo que a máxima de tua ação possa


sempre valer como princípio universal de conduta";
"Age sempre de tal modo que trates a Humanidade,
tanto na tua pessoa como na do outro, como fim e não
apenas como meio".

A autonomia da razão para legislar supõe a liberdade e o dever. Pois todo


imperativo se impõe como dever, mas a exigência não é heterônoma — exterior e
cega e sim livreniente assumida pelo sujeito que se autodetermina. Vamos
exemplificar: suponhamos a norma moral "não roubar”. Para a concepção cristã, o
fundamento da norma se encontra no sétimo mandamento de Deus. No entanto,
para os teóricos jusnaturalistas (como Rousseau e Hobbes), ela se funda no direito
natural, comum a todos os homens; por outro lado, para os empiristas (como
Locke, Condillac) a norma deriva do interesse próprio, pois o sujeito que a
desobedece será submetido ao desprazer, à censura pública ou à prisão.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Para Kant, a norma se enraíza na própria natureza da razão; ao aceitar o roubo


e consequentemente o enriquecimento ilícito, elevando a máxima (pessoal) ao
nível universal, haverá uma contradição: se todos podem roubar, não há como
manter a posse do que foi furtado.

A reflexão ética de Kant foi importante para fornecer as categorias da


moral iluminista racional, laica, acentuando o caráter pessoal da liberdade.
Mas, a partir do final do século XIX e ao longo do século XX, os filósofos
começam a se posicionar contra a moral formalista kantiana fundada na razão
universal, abstrata, e tentam encontrar o homem concreto da ação moral. É
nesse sentido que podemos compreender o esforço de pensadores tão diferentes
como Marx, Nietzsche, Freud, Kierkegaard e os existencialistas.

Vejamos a posição de Nietzsche. O pensamento de Nietzsche (1844-


1900) se orienta no sentido de recuperar as forças inconscientes, vitais,
instintivas subjugadas pela razão durante séculos. Para tanto, critica
Sócrates por ter encaminhado pela primeira vez a reflexão moral em
direção ao controle racional das paixões. Segundo Nietzsche, nasce aí o
homem desconfiado de seus instintos, tendo essa tendência culminado
com o cristianismo, que acelerou a "domesticação" do homem (ARANHA,
2003).

Segundo Machado (1999), em diversas obras, como A genealogia da


moral, Para além do bem e do mal e Crepúsculo dos ídolos Nietzsche faz a análise
histórica da moral e denuncia a incompatibilidade entre esta e a vida. Em outras
palavras, o homem, sob o domínio da moral, se enfraquece, tornando-se doentio e
culpado. Nietzsche relembra a Grécia homérica, do tempo das epopeias e das
tragédias, considerando-a como o momento em que predominam os verdadeiros
valores aristocráticos, quando a virtude reside na força e na potência, sendo
atributo do guerreiro belo e bom, amado dos deuses.

Nessa perspectiva, o inimigo não é mau: "Em Homero, tanto o grego quanto o
troiano são bons. Não passa por mau aquele que nos inflige algum dano, mas
aquele que é desprezível". Ao fazer a crítica da moral tradicional, Nietzsche
preconiza a "transvaloração de todos os valores" e denuncia a falsa moral,
"decadente", "de rebanho", "de escravos", cujos valores seriam a bondade, a
humildade, a piedade e o amor ao próximo. Também, contrapõe a ela a moral "de
senhores", uma moral positiva que visa à conservação da vida e dos seus instintos
fundamentais. A “moral de senhores” é positiva, porque baseada no sim à vida e se

34
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

configura sob o signo da plenitude, do acréscimo. Por isso, ela funda-se na


“capacidade de criação”, de invenção, cujo resultado é a alegria, consequência da
afirmação da potência. O homem que consegue superar-se é o “super-homem”, diz
Nietzsche apud MACHADO (1999, p. 67).

À moral aristocrática, “moral de senhores”, que é sadia e voltada para os


instintos da vida, Nietzsche contrapõe o pensamento socrático-platônico (que
provoca a ruptura entre o trágico e o racional) e a tradição da religião judaico-
cristã. A moral que deriva daí é a moral de escravos, moral decadente, porque
baseada na tentativa de subjugação dos instintos pela razão, o “homem-
fera”, “animal de rapina”, é transformado em “animal doméstico ou cordeiro”.

De acordo com Nietzsche, a moral plebeia estabelece um sistema de juízos


que considera o bem e o mal valores metafísicos transcendentes, isto é,
independentes da situação concreta vivida pelo homem. O que é proveitoso
constitui o valor. O homem é o criador de valores, mas se esquece de sua criação. A
moralidade é o instinto gregário do indivíduo, pois quem é punido é quem pratica
os atos. Para Nietzsche, na sociedade, existem os “instintos de rebanho”. Atribui-se
às palavras um sentido fixo e acha que ela espelha a realidade, que tem caráter
transitório. O homem chega, pelos costumes, à convicção de que é preciso
obedecer. No inverso disso, existe o prazer, a autodeterminação e a liberdade de
vontade.

De acordo com Nietzsche (1987, p. 45):

Qual a genealogia da moral, isto é, a origem do


conceito “bom”?] (...) O juizo “bom” nao provém
daqueles aos quais se fez o “bem”! Foram os “bons”
mesmos, isto é, os nobres, poderosos, superiores em
posição e em pensamento, que sentiram e
estabeleceram a si e a seus atos como bons, ou seja, de
primeira ordem, em oposição a tudo o que era baixo, de
pensamento baixo, vulgar e plebeu (...).

De uma forma geral, o que Nietzsche denomina de valor e, ao contrário do que


poderíamos pensar, não é uma entidade utilizada para ajuizamento moral, mas o
nome com que se designa todo tipo de manifestação engendrada por esse
conflito. Quanto a sua apreensão, os valores podem apresentar-se sob duas
disposições fundamentais para o filósofo em questão:

35
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

1. “disposição afirmativa”, como aquela que se faz em sintonia com o


lance e cadência do citado binômio, afirmando-o como modo
estrutural da realidade em sua gênese;

2. “disposição reativa”, que não se conforma com este modo


constitutivo, fazendo que irrompa uma perspectiva derivada, que se
arroga no direito de requerer um modo de realização da existência
diverso do que se dá nessa instauração.

Estes modos dos valores são possibilidades de realização dessa vida para
Nietzsche. Estes, por estarem articulados com o próprio modo de dar-se da vida,
isto é, com o movimento da vontade, são sempre passíveis de apreensão através
de duas disposições fundamentais: as disposições afirmativas e reativas.
Respectivamente, aquelas que indicam sintonia e dissintonia com a compreensão
de vida como valor. No primeiro caso, a disposição afirmativa surge na sintonia
com uma perspectiva que se constrói a partir do “aquecimento” do modo de ser
sempre eterno da gênese de realidade, celebrando a vida enquanto experiência de
criação (Cf. MACHADO, 1999, p. 78).

De acordo com Machado (1999), a esse processo Nietzsche chama “vontade


criadora”. No segundo caso, a disposição negativa irrompe em uma perspectiva
que, ao se instaurar, nega a si mesma enquanto perspectiva e se arroga o direito de
determinar — para além de toda e qualquer instância de realização — o modo de
ser da totalidade dos entes. Esta é a compreensão da verdade, como uma instância
que surge em função da separação radical frente ao mundo fenomênico, e recebe
o nome de “vontade de verdade”.

O que Nietzsche revela com isso é que os escravos negam os valores vitais e
resulta na passividade, na procura da paz e do repouso. Nesta perspectiva, o
homem se torna enfraquecido e diminuído em sua potência.

A alegria é transformada em ódio à vida, isto é, o “ódio dos impotentes”. A


conduta humana, orientada pelo ideal ascético, torna-se marcada pelo
ressentimento e pela “má consciência”. O ressentimento nasce da fraqueza e é
nocivo ao fraco. Por sua vez, para Nietzsche, o “homem ressentido”, incapaz de

36
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

esquecer, é como o dispéptico: fica "envenenado" pela sua inveja e impotência de


vingança. Ao contrário, o homem nobre sabe "digerir" suas experiências e esquecer
é uma das condições de manter-se saudável. A má consciência ou sentimento de
culpa é o ressentimento voltado contra si mesmo, daí fazendo nascer a noção de
pecado, que inibe qualquer ação.

Neste sentido, o ideal ascético nega a alegria da vida e coloca a mortificação


como meio para alcançar a outra vida num mundo superior, do além. Assim, as
práticas de altruísmo destroem o amor de si, domesticando os instintos e
produzindo gerações de fracos. É por isso que, contra o enfraquecimento do
homem, contra a transformação de fortes em fracos (tema constante da reflexão
nietzschiana), é necessário assumir uma perspectiva além de bem e mal, isto é,
"além da moral". Mas, por outro lado, para além de bem e mal não significa para
além de bom e mau. A “dimensão das forças”, dos instintos, da vontade de
potência, permanece fundamental. "O que é bom? Tudo que intensifica no homem
o sentimento de potência, a vontade de potência, a própria potência. O que é mau?
Tudo que provém da fraqueza” (MACHADO, 1999, p. 77).

IMPORTANTE:

Os pontos de vistas éticos apresentados não são os únicos existentes


e nem representam a totalidade dos problemas relativos a ética. Existem várias
doutrinas que se debruçaram sobre o tema da ética apresentado e refletindo sobre
seus fundamentos e aplicacações. Cabe neste momento, apresentar as principais
teorias ou doutrinas de ética e suas respectivas especifidades teóricas:

● egoísmo ético: pressupõe que devemos agir apenas em função do nosso


interesse pessoal. A única obrigação moral é promovermos o nosso próprio bem-
estar. Critério moral: são as consequências que as ações têm para nós próprios que
as tornam certas ou erradas. O egoísmo ético é, portanto, uma teoria
consequencialista: o que conta são as consequências que as ações têm para nós
próprios. Regra moral básica: “age sempre e apenas em função do teu próprio
bem-estar”;

37
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

● utilitarismo ético: pressupõe que devemos agir com a finalidade de


promover o máximo de bem-estar a um maior número possível de pessoas,
numa perspectiva imparcial. O utilitarismo é também uma teoria
consequencialista: o que conta são as consequências que as ações têm para a
generalidade das pessoas (e não já apenas para nós próprios). Critério moral: são as
consequências que as ações têm para o maior número de pessoas que as tornam
certas ou erradas. Sendo assim, uma ação está moralmente certa apenas quando
maximiza o bem-estar, ou seja, quando promove tanto quanto possível o bem-
estar e está errada quando não o promove. Regra moral básica: “age de tal modo
que as tuas ações possam proporcionar o maior bem possível ao maior número de
pessoas, imparcialmente consideradas”;

● ética deontológica: pressupõe que devemos agir de acordo com o Dever e


não pensar nas consequências das nossas ações. A pergunta a fazer é: toda as
pessoas deveriam fazer o mesmo em idênticas circunstâncias? A ética deontológica
é, portanto, uma teoria anticonsequencialista. O critério moral desta é a relação das
ações com os deveres universais (são os esmos para todos os seres humanos) que
as tornam certas ou erradas. Há, portanto, ações intrinsecamente más (ou seja, são
más em si mesmas), ainda que tenham consequências boas. Desse modo, uma
ação está moralmente certa quando não infringe os nossos deveres e está errada
quando infringe intencionalmente algum desses deveres. Regra moral básica: “age
de tal modo que as tuas ações possam valer para todo o ser racional, sem nunca
infringir os deveres universais”.

SUGESTÃO DE FILME

Pegue seu caderno de anotações, sente-se e assista ao filme A Letra


Escarlate de Douglas Day Stewart, baseado em livro de Nathaniel Hawthorne. Ele
contextualizará melhor ainda o conteúdo que você acabou de estudar.

38
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

LEITURA COMPLEMENTAR

Visando enriquecer seu processo de aprendizagem, procure efetuar a


leitura complementar dos seguintes textos:

ARANHA, M. L. de A.; MARTINS, M. H. P. FILOSOFANDO - Introdução à Filosofia.


3ª edição. São Paulo: Editora Moderna, 2001. 439p.

MACHADO, R. Nietzsche e a verdade. São Paulo: Brochura, 1999. 116p.

HAMLYN, D. W. Uma história da filosofia ocidental. Rio de Janeiro: Jorge


Zahar Ed., 1990. 416p.

GRENZ, S. J. & SMITH, J. T. Dicionário de Ética. 1ª Edição. São Paulo: Brochura,


2005. 184p.

VALLS, Á. L.M. O que é ética. 9a edição. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1996. 84p.

PARSONS, H. As raízes humanas da moral: Moral e sociedade. Rio de Janeiro:


Paz e Terra, 1982. 300p.

VAZQUEZ, A. S. Ética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. 304p.

PEREIRA, O. O que é moral? São Paulo: Brasiliense, 1996. 90p.

É HORA DE SE AVALIAR!

Lembre-se de realizar as atividades propostas no caderno de


exercícios! Elas são fundamentais para ajudá-lo a fixar o conteúdo teórico
trabalhado, a sistematizar as ideias e os conceitos apresentados, além de
proporcionar a sua autonomia no processo ensino-aprendizagem. Caso prefira,
redija suas respostas no caderno de exercícios e depois as envie através do nosso
ambiente virtual de aprendizagem (AVA).

Procure interagir permanentemente conosco e utilize todos os recursos


didáticos e pedagógicos disponibilizados com o objetivo de aprimorar a sua
formação acadêmica.

39
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Nesta unidade, você estudou o contexto histórico do surgimento da ética e da


moral, assim como os principais conceitos e definições que as envolvem.
Apresentamos a problemática da distinção entre ética e moral, assim como as suas
respectivas definições e objetos de estudo. Além disso, esboçamos, de forma
esquemática, os aspectos históricos e sociais da ética e da moral, objetivando situar
você nos elementos do contexto do desenvolvimento da humanidade.

Na próxima unidade, discutiremos alguns dos problemas fundamentais no


qual a ética se ocupa. Trata-se, portanto, de apresentar a você os temas recorrentes
da ética, tais como, a consciência moral e os valores éticos e a dicotomia liberdade
versus determinismo, a felicidade, a virtude e a amizade.

Bons estudos e até a próxima unidade!

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Exercícios - unidade 1

1ª QUESTÃO: Assinale a letra correspondente à alternativa que preenche


CORRETAMENTE as lacunas do texto a seguir:

“Vázquez (2001, p. 12) afirma que a “ética é a ________ do comportamento moral


dos homens em sociedade. Ou seja, é a ciência de uma forma específica do
___________.”

a) Senso comum ou ciência - comportamento antissocial

b) Hermenêutica ou ciência - comportamento surreal

c) Teoria ou ciência - comportamento humano

d) Psicologia jurídica - comportamento social

e) Teoria ou anticiência - comportamento antirreal

2ª QUESTÃO: Qual das alternativas abaixo NÃO se relaciona aos pressupostos da


ética?

a) A ética relaciona-se com a ciência.

b) A ética relaciona-se com avaliação da conduta humana.

c) A ética é uma ciência normativa.

d) Os problemas éticos caracterizam-se pela sua particularidade e a ausência de


critérios normativos e científicos.

e) A função fundamental da ética é a mesma de toda teoria: explicar, esclarecer


ou investigar uma determinada realidade, elaborando os conceitos
correspondentes.

3ª QUESTÃO: Segundo Robert Srour: “Enquanto a moral tem uma base histórica, o
estatuto da ética é teórico, corresponde a uma generalidade abstrata e formal”
(SROUR, 2000, p. 270). Seguindo a afirmativa de Srour, indique qual das alternativas
abaixo corresponde ao correto sentido da ‘moral’.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

a) A moral implica uma relação livre e consciente entre os indivíduos ou entre


estes e a comunidade.

b) A moral não se relaciona em nada com a ética.

c) A moral não cumpre uma função social bem definida.

d) A moral não possui um caráter social, porque os indivíduos se sujeitam a


princípios, normas ou valores socialmente estabelecidos.

e) A moral possui um caráter social, porque os indivíduos se sujeitam a


princípios, normas ou valores socialmente construídos com base em normas
artificiais.

4ª QUESTÃO: Mesmo considerando a origem divina das ideias morais, por


intermédio das quais os indivíduos adquirem consciência dos meios adequados à
sua elevação ao plano espiritual dos valores perenes, a investigação do problema
da moral não pode desprezar os processos históricos responsáveis de fato pelos
mecanismos de criação, funcionamento e aplicação dos padrões e das regras
morais. Como base nesta explicação, podemos afirmar que:

a) o âmbito da moral passa a existir como um traço de desinformação que se


recebe no processo de interação e de identificação a priori.

b) as regras morais em nada correspondem aos pressupostos morais.

c) os costumes nunca dizem como cada homem deve agir em situações


concretas em função daquilo que a comunidade considera como sendo o bem
e o mal.

d) o termo imoral significa algo que é o mesmo que o de moral.

e) todas as sociedades humanas possuem valores padrões, normas de conduta e


sistemas que garantem a aplicação e o funcionamento das mesmas.

5ª QUESTÃO: Não é somente o critério científico que a moral justifica-se. Ela pode
ainda ser justicada por alguns critérios. Entre estes critérios podemos apontar:

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

a) o critério de justificação social e o critério de justificação prática.

b) o critério de justificação metafísica e o critério de justificação anárquica.

c) o critério de justificação eloquente e o critério de justificação factual.

d) o critério de justificação ilusório e o critério de justificação fatídico.

e) o critério de justificação anormal e o critério de justificação multissocial.

6ª QUESTÃO: As doutrinas éticas nascem e se desenvolvem em diferentes épocas e


sociedades como respostas aos problemas básicos apresentados pelas relações
entre os homens e, em particular, pelo seu comportamento moral efetivo. Uma
dessas doutrinas é o egoísmo ético. Sobre esta doutrina afirma-se:

a) que devemos agir com a finalidade de promover o mínimo de bem-estar a um


menor número possível de pessoas, numa perspectiva imparcial.

b) que devemos agir de acordo com o coração e a mente e não pensar nas
consequências das nossas ações.

c) que devemos agir de acordo com o Dever e não pensar nas consequências das
nossas ações.

d) que devemos agir com a finalidade de promover o máximo de bem-estar a um


maior número possível de pessoas, numa perspectiva imparcial.

e) que devemos agir apenas em função do nosso interesse pessoal. Para esta a
única obrigação moral é promovermos o nosso próprio bem-estar.

7ª QUESTÃO: No sentido geral, a palavra ética origina-se do grego antigo ήθική


[ήθική φιλοσοφία] "filosofia moral" e do adjetivo ήθος (ēthos) que quer dizer
"costume, hábito". Diferentemente dos gregos, os romanos utilizavam a palavra
latina mos (mores) para designar o costume ou costumes. Foi a partir deste termo
romano que surge o modo como entendemos o significado de moral na língua
portuguesa. Diante do exposto, podemos afirmar que:

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

a) na nossa Língua, os dois termos, ética e moral, implicam, simultaneamente, de


alguma forma, nos dois diferentes significados antigos e, de fato, tanto a ética
quanto a moral, incidem sobre estas duas dimensões, ou seja, uma valoração
do homem como tal e do seu agir de conformidade ou não aos costumes e à
tradição.

b) na nossa Língua, os dois termos, ética e moral, implicam, simultaneamente, de


alguma forma, os dois diferentes significados antigos e, de fato, tanto a ética
quanto a moral, não incidem sobre estas duas dimensões, ou seja, uma
valoração do homem como tal e do seu agir de conformidade ou não aos
costumes e à tradição.

c) na nossa Língua, os dois termos, ética e moral, não implicam,


simultaneamente, de alguma forma, nos dois diferentes significados antigos e,
de fato, tanto a ética quanto a moral, incidem sobre estas duas dimensões, ou
seja, uma valoração do homem como tal e do seu agir de conformidade ou
não aos costumes e à tradição.

d) na nossa Língua, os dois termos, ética e moral, implicam, simultaneamente, de


alguma forma, nos dois diferentes significados antigos e, de fato, tanto a ética
quanto a moral não relaciona-se as duas dimensões, ou seja, uma valoração do
homem como tal e do seu agir de conformidade ou não aos costumes e à
tradição.

e) na nossa Língua, os dois termos, ética e moral, diferem, simultaneamente, de


alguma forma, dos dois diferentes significados antigos e, de fato, tanto a ética
quanto a moral, afasta-se das dimensões contemporânea e medieval, ou seja,
uma valoração do homem como tal e do seu agir de conformidade ou não aos
costumes e à tradição.

8ª QUESTÃO: Apesar de serem conceitos aparentemente idênticos, ética e moral


possuem diferenças fundamentais. O ato de perceber os valores, de avaliar as
nossas ações de acordo com o que é bom e o que é mau, ou quais são justas e
injustas, corretas ou não é o que, de certa forma, diferencia o comportamento
humano do comportamento animal. Neste contexto, podemos dizer que:

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

a) para o animal, o campo da moralidade é inacessível, pois seu comportamento


jamais pode ser guiado pelos seus instintos imediatos. Os seres humanos, por
sua vez, possuem a consciência moral, ou seja, a “faculdade de observar a
própria conduta e formular juízos sobre os atos passados, presentes e as
intenções futuras”.

b) para o animal, o campo da moralidade é completamente acessível, pois seu


comportamento é guiado pelos seus instintos imediatos. Os seres humanos,
por sua vez, possuem a consciência moral, ou seja, a “faculdade de observar a
própria conduta e formular juízos sobre os atos passados, presentes e as
intenções futuras”.

c) para o animal, o campo da moralidade é inacessível, pois seu comportamento


é guiado pelos seus instintos imediatos. Os seres humanos, por sua vez,
possuem a consciência moral, ou seja, a “faculdade de observar a própria
conduta e formular juízos sobre os atos passados, presentes e as intenções
futuras”.

d) para o animal, o campo da moralidade é inacessível, pois seu comportamento


é guiado pelos seus instintos imediatos. Os seres humanos, por sua vez,
possuem a consciência amoral, ou seja, a “faculdade de observar a própria
conduta e formular juízos sobre os atos passados, presentes e as intenções
futuras”.

e) para o animal, o campo da moralidade é inacessível, pois seu comportamento


é guiado pelos seus razões imateriais. Os seres humanos, por sua vez,
possuem a consciência moral, ou seja, a “faculdade de observar a própria
conduta e formular juízos sobre os atos passados, presentes e as intenções
futuras”.

9ª QUESTÃO: A experiência moral é comum a todos os homens, em todas as


sociedades. Entretanto, nem todos são capazes de desenvolver uma crítica do
conteúdo da moral. Essa é, portanto, tarefa da ética. Como você sabe há uma
tendência de empregar indiscriminadamente os termos moral e ética. Em que
consiste a moral?

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

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10ª QUESTÃO: De acordo com Vázquez (2001, p. 10): “A função fundamental da


ética é a mesma de toda teoria: explicar, esclarecer ou investigar uma determinada
realidade, elaborando os conceitos correspondentes. Por outro lado, a realidade
moral varia historicamente e, com ela, variam os seus princípios e as suas normas”.
Comente esta consideração de Vázquez.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Problemas éticos e problemas

2 morais: consciência moral,


virtude, amizade, liberdade e
felicidade.

A consciência moral e os valores éticos.

A busca da felicidade: virtude e o bem viver em Aristóteles.

Aristóteles e a amizade como um problema ético-moral.

Pensando a liberdade: La Boétie e Sartre.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Na unidade anterior, você teve a oportunidade de estudar o processo histórico


da moral e da ética, assim como seus conceitos e definições mais relevantes. Nesta
unidade, discutiremos alguns dos problemas fundamentais no qual a ética se
ocupa. Trata-se, portanto, de apresentar a você os temas recorrentes da ética, tais
como, a consciência moral e os valores éticos e a dicotomia liberdade versus
determinismo e a liberdade versus responsabilidade. Para tanto, apresentaremos o
ponto de vista filosófico sobre esta problemática em La Boétie e Sartre. Além disso,
buscaremos debater o que é ser virtuoso e o que é necessário para ser feliz,
segundo a perspectiva de Aristóteles. Esperamos que você desfrute dessa
discussão e compreenda estes conceitos tão fundamentais na nossa prática
cotidiana. Vamos lá!

Objetivos da unidade

 Fornecer alguns dos problemas norteadores da ética.

 Discutir sobre a problemática da liberdade, da responsabilidade e do


determinismo nos filósofos La Boétie e Sartre.

 Compreender as noções de felicidade, amizade e virtude na reflexão


filosófica de Aristóteles.

 Avaliar a direção para a qual nossos valores éticos dirigem-se no


mundo em que vivemos hoje.

Plano da unidade

 A consciência moral e os valores éticos.

 A busca da felicidade: virtude e o bem viver em Aristóteles.

 Aristóteles e a amizade como um problema ético-moral.

 Pensando a liberdade: La Boétie e Sartre.

Bons estudos!

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

A consciência moral e os valores éticos

A ideia de valor tem sido objeto de muitas reflexões ao longo da história da


filosofia. Não cabe expor os pormenores deste debate nem o seu desdobramento
na contemporaneidade. No entanto, propomos a você as seguintes noções gerais
sobre os conceitos de “valor” e “valorar”:

 os valores não são coisas. Não podem ser percebidos como se percebe as
coisas, pois os valores são qualidades que as coisas têm, mas que não estão
nas coisas de modo real e sensível, como estão a figura, o peso, a cor, etc;

 o valor não se caracteriza pelo prazer que produz, se o produz. É errôneo


dizer que as coisas são valiosas porque nos produzem prazer. Na realidade,
os valores valem independentemente do prazer que produzem.

 os valores podem se classificados também em “valores-meio” e “valores-


fim”. Os “valores-meio” são aqueles cuja valia consiste em servir para a
obtenção de outros valores. Por sua vez, os “valores-fim” são os que valem
por si e sem necessidade de servirem à obtenção de outros valores.

Diante desses apontamentos gerais, podemos adiantá-lo que valorar implica


uma avaliação e uma apreciação pelo qual emitimos juízos. Diante disso, toda
moral e toda ética se relacionam diretamente aos juízos, que são avaliações e
apreciações seja da melhor forma de vida, seja da boa ou má ação. Sendo assim, os
valores são nada mais do que regras que orientam a conduta humana, servindo de
padrão às deliberações dos indivíduos e dando coerência à sua vida social.

Neste momento, você deve estar indagando sobre o que é um juízo. Pois bem,
juízos são avaliações e apreciações da melhor ou pior forma de vida e da boa ou
má ação. No entanto, podemos identificar dois tipos principais de juízos. Por
exemplo: se dissermos “está amanhecendo”, estaremos enunciando um
acontecimento constatado por nós e o juízo proferido é um juízo de fato. Se,
porém, falarmos “o amanhecer é bom para os animais” ou “o amanhecer é
esplêndido”, estaremos interpretando e avaliando um acontecimento. Nesse caso,
proferimos um juízo de valor.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Os juízos de fato são aqueles que dizem o que as coisas são, como são e por
que são. Em nossa vida cotidiana, mas também na metafísica e nas ciências, os
juízos de fato estão presentes. Diferentemente deles, os juízos de valor —
avaliações sobre coisas, pessoas e situações — são proferidos na moral, nas artes,
na política e na religião. Estes juízos avaliam coisas, pessoas, ações, experiências,
acontecimentos, sentimentos, estados de espírito, intenções e decisões como bons
ou maus, desejáveis ou indesejáveis.

Todos os juízos éticos de valor são normativos, isto é, enunciam normas que
determinam o dever ser de nossos sentimentos, nossos atos e nossos
comportamentos. Estes juízos determinam obrigações e avaliam intenções e ações
segundo o critério do correto e do incorreto. Por outro lado, os juízos éticos
normativos nos dizem quais sentimentos, intenções, atos e comportamentos
devemos ter ou fazer para alcançarmos o bem e a felicidade. Além disso, enunciam
que atos, sentimentos, intenções e comportamentos são condenáveis ou
incorretos do ponto de vista moral vigente.

IMPORTANTE:

Cabe indagar: qual é a origem da diferença entre os dois tipos de


juízos, isto é, os de fato e os de valor? A diferença está na distinção entre a
natureza e a cultura. A primeira é constituída por estruturas e processos
necessários, que existem em si e por si mesmos, independentemente de nós: o
amanhecer é um fenômeno cujas causas e cujos efeitos necessários podemos
constatar e explicar. Por sua vez, a cultura nasce da maneira como os seres
humanos interpretam a si mesmos e suas relações com a natureza, acrescentando-
lhe sentidos novos, intervindo nela, alterando-a através do trabalho e da técnica,
dando-lhe valores. Dizer que o “amanhecer é bom para as plantas” pressupõe a
relação cultural dos humanos com a natureza, através da agricultura. Considerar o
amanhecer belo pressupõe uma relação valorativa dos humanos com a natureza,
percebida como objeto de contemplação.

50
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Com efeito, para que haja conduta ética, é preciso que exista o
agente consciente (a consciência moral), isto é, aquele que conhece
a diferença entre bem e mal, certo e errado, permitido e proibido,
virtude e vício. A consciência moral não só conhece tais diferenças,
mas também se reconhece como capaz de julgar o valor dos atos e
das condutas e de agir em conformidade com os valores morais,
sendo por isso responsável por suas ações e seus sentimentos e
pelas consequências do que faz e sente. Consciência e
responsabilidade são condições indispensáveis da vida ética (Cf.
VÁZQUEZ, 2001).

A consciência moral manifesta-se, antes de tudo, na capacidade


para deliberar diante de alternativas possíveis, decidindo e escolhendo uma delas
antes de lançar-se na ação. Esta possui a capacidade para avaliar e refletir as
motivações pessoais, as exigências feitas pela situação, as consequências para si e
para os outros, a conformidade entre meios e fins — empregar meios imorais para
alcançar fins morais é impossível —, a obrigação de respeitar o estabelecido ou de
transgredi-lo se o estabelecido for imoral ou injusto.

Em outras palavras, a consciência moral diz respeito a uma escuta individual


que todos temos como seres racionais e que às vezes faz com que sintamos
remorso por ter agido de uma forma em vez de outra. Ou seja, pela consciência
moral, operam-se julgamentos de adequação entre comportamentos escolhidos
voluntariamente e ideais de conduta adotados pela máxima a que se deve
obedecer.

Por essa razão, o conceito de consciência moral está estritamente vinculado


com o conceito de obrigatoriedade. Cabe observar que as normas obrigatórias
mantêm-se sempre em um plano geral e, por conseguinte, não fazem referência ao
modo de agir em cada situação concreta ou especifica. É a consciência moral que,
neste caso, atua informando-se da situação concreta e com a ajuda das normas
estabelecidas interioriza-as, tomando as decisões que consideramos adequadas e
internamente julga os seus próprios atos como morais ou não (Cf. VÁZQUEZ, 2001).

O ato amoralmente válido subdivide-se em duas formas fundamentais: o


normativo e o fatual.

51
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

 Normativo: constituído pelas normas ou regras de ação e pelos


imperativos que enunciam algo que deve ser;

 Fatual: constituído por certos atos humanos que se realizam


efetivamente, ou seja, que são independentemente de como
pensamos que deveriam ser.

No âmbito normativo, estas regras postulam determinados comportamentos,


tais como: “cumpra o seu dever como cidadão”; “ama a teu próximo como a ti
mesmo”, etc. É importante frisar que o normativo e o fatual não coincidem, mas
encontram-se em mútua relação. O normativo exige ser realizado e, dessa forma,
orienta-se no sentido do fatual. Assim, o realizado ou o fatual somente possui
algum significado moral na medida em que pode ser referido a uma norma. Não
existem normas que sejam indiferentes à sua realização, nem existem fatos que na
esfera moral não sejam vinculados com as normas vigentes. Desse modo, o
normativo e o factual — no âmbito da moral — são dois planos que podem ser
distinguidos, mas não podem ser completamente apartados.

A seguir, vamos discutir a problemática da virtude e da felicidade em


Aristóteles. Note ao longo da discussão como o filósofo apresenta de forma clara e
distinta a relação da felicidade e a virtude em relação ao “bem viver”.

A busca da felicidade: virtude e o bem viver em Aristóteles

Segundo Savater (2002), se considerarmos que o preceito fundamental da


ética é aquele que diz respeito ao “saber-viver” ou a “arte de viver”, então podemos
afirmar que os homens agem em direção ao viver e, acima de tudo, ao viver bem.
Ora, para viver bem, é preciso alguns requisitos fundamentais que satisfaçam as
exigências mínimas para alcançar este fim ou objetivo proposto. Entre estes
requisitos está a felicidade.

Para Aristóteles, a felicidade é o resultado do saber viver. Entendendo a ética


como a “arte de viver”; o resultado desse viver seria, portanto, a felicidade. O que é
necessário fazer para atingir a virtude e, portanto, ser feliz? A virtude, que segundo
Aristóteles, é o que vai garantir ao homem a felicidade, é “o hábito que torna o
homem bom e lhe permite cumprir bem a sua tarefa”, a virtude é “racional,
conforme e constante”. (Cf. ARISTÓTELES, 2001).

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Na obra Ética a Nicômacos, Aristóteles discute a finalidade de toda arte,


indagação, ação e propósito da vida humana e conclui que é sempre o bem a que
todas visam. Ao debater qual seria este bem que é a finalidade da vida humana, o
filósofo nos apresenta a felicidade. Só que, simultaneamente, afirma que a
felicidade é o “bem supremo” e indaga pela função própria do homem.

De acordo com este:


(...) o bem para o homem vem a ser o exercício
ativo das faculdades da alma de conformidade com a
excelência, e se há mais de uma excelência, de
conformidade com a melhor e mais completa entre
elas. Mas devemos acrescentar que tal exercício ativo
deve estender-se por toda a vida, pois uma andorinha
não faz verão (...); da mesma forma um dia só, ou um
certo lapso de tempo, não faz um homem bem-
aventurado e feliz (ARISTÓTELES, 2001, p. 24-25).

Pressupondo que a felicidade é a finalidade de nossa vida, Aristóte-


les preocupa-se em demonstrar que a vida humana possui em si uma
finalidade, ou seja, uma função para a qual está dada. E, portanto, tal
finalidade se objetiva dentro da função a que a vida acontece. Sendo
assim, a felicidade resultará do atendimento a esta função. O que está
pressuposto não é a felicidade em si mesma, mas a relação da mesma
com a arte de viver, com o saber viver que estamos discutindo desde o
início. Neste momento, cabe atentarmos para o modo como Aristóteles
caracteriza a felicidade:

(...) Parece que a felicidade, mais que qualquer


outro bem, é tida como este bem supremo, pois a
escolhemos sempre por si mesma, e nunca por causa
de algo mais; mas as honrarias, o prazer, a inteligência e
todas as outras formas de excelência, embora as
escolhamos por si mesmas (...), escolhemo-las por causa
da felicidade, pensando que através delas seremos
felizes. Ao contrário, ninguém escolhe a felicidade por
causa das várias formas de excelência, nem, de um
modo geral, por qualquer outra coisa além dela mesma.
(ARISTÓTELES, 2001. p. 23).

53
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Aristóteles fundamenta a ética — a arte de bem viver — tendo como refe-


rência primordial o papel do homem, ou seja, da vida humana, pois não se trata da
vida de um homem e sim do ser humano em geral. Com base nisso, o filósofo
aponta para a felicidade como sendo a busca, em si mesma, da vida humana, ou
seja, o bem supremo a que toda arte, indagação, ação e propósito o qual devam ter
em vista. Devemos atentar para a Ética a Nicômacos, lugar onde Aristóteles discute
as condições necessárias para ser feliz.

(...) Devemos observar que cada uma das formas


de excelência moral, além de proporcionar boas
condições à coisa a que ela dá excelência, faz com que
esta mesma coisa atue bem; por exemplo, a excelência
dos olhos faz com que tanto os olhos quanto a sua
atividade sejam bons, pois é graças à excelência dos
olhos que vemos bem. De forma idêntica a excelência
de um cavalo faz com que ele seja ao mesmo tempo
bom em si e bom para correr e levar seu dono e para
sustentar o ataque do inimigo. Logo, se isto é verdade
em todos os casos, a excelência moral do homem
também será a disposição que faz um homem bom e o
leva a desempenhar bem a sua função. (ARISTÓTELES,
2001, p. 41).

O termo excelência utilizado por Aristóteles é Virtude: etimologicamente, a


corriqueiramente entendido também por virtude. Há palavra virtude deriva do latim
duas espécies de excelência: a intelectual e a moral. A virtus, que significa a qualidade
intelectual nasce e se desenvolve com a instrução, ou própria da natureza humana. De
seja, com o processo educativo e formativo. Por isso, modo geral, a expressão virtude
desenvolve-se com o tempo e a experiência. É o que designa, atualmente, a prática
de certa forma estamos fazendo desde que iniciamos constante do bem,
nossa vida escolar e que vai se aprimorando à medida correspondendo ao uso da
que nos dedicamos mais aos estudos. Cada um de nós liberdade com responsabilidade. O
pode perceber o quanto se aprimorou desde o dia em oposto da virtude é o vício, que
que esteve pela primeira vez em uma sala de aula. Já a consiste no hábito de praticar o
excelência moral é produto do hábito, é tudo aquilo mal, correspondendo ao uso da
que podemos alterar pelo hábito. liberdade sem responsabilidade.

54
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

IMPORTANTE:

Então a excelência moral é adquirida através da prática, assim como as


artes. Por exemplo: você toca violão na medida em que passa a praticar e quanto
mais tempo praticar, maior será sua habilidade e chances de se tornar um exímio
tocador. Por que o desenvolvimento da excelência moral é tão importante para
nós? Porque está relacionada com as ações e emoções, que por sua vez estão
relacionadas com o prazer ou sofrimento e, por isso, a excelência moral se relaciona
com os prazeres e sofrimentos. Pode-se dizer que a excelência moral é a
capacidade que vamos desenvolver para lidar com nossas emoções e ações na
relação direta com o prazer e o sofrimento. E disso resultará o bom uso que
faremos ou não do prazer e do sofrimento.

Para Aristóteles (2001, p. 38), “toda a preocupação, tanto da excelência moral


quanto da ciência política, é com o prazer e com o sofrimento, porquanto o
homem que os usa bem é bom e o que os usa mal é mau”. Mas o fato de a
excelência estar relacionada ao domínio que fará do prazer e sofrimento implica
em que a excelência é o que garantirá atingir o alvo do meio-termo. Isto porque em
relação as nossas ações e emoções há excesso, falta e meio-termo. Portanto, “a
excelência moral é o que fará com que se busque sempre atingir o meio termo” (Cf.
TUNGENDHAT, 1997).

Vamos retomar o que o filósofo entende por disposição de caráter para que
possamos entender o que seja a excelência moral ou virtude do homem. Ora,
disposições de caráter são “os estados de alma em virtude dos quais estamos bem
ou mal em relação às emoções” (ARISTÓTELES, 2001, p. 40). Isto nada mais seria que
a nossa disposição em relação às coisas, ou melhor, como sentimos, encaramos a
realidade que nos cerca, com certo grau de intensidade e ou indiferença.

Por exemplo, pode-se sentir medo, confiança, desejos, cólera, piedade, e de


um modo geral prazer e sofrimento, demais ou muito pouco e, em ambos os casos,
isto não é bom; mas experimentar estes sentimentos no momento certo, em
relação aos objetos certos e às pessoas certas, e de maneira certa, é o meio-termo e
o melhor, isto é, característico da excelência. (ARISTÓTELES, 2001, p. 41-42).

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Fala-se que a excelência moral é o desenvolvimento de hábitos que nos farão


escolher nossas ações e emoções, que são marcadas pelo excesso, falta e meio-
termo. Mas o que é o “meio-termo” para Aristóteles?

De tudo que é contínuo e divisível é possível tirar


uma parte maior, menor ou igual, e isto tanto em
termos da coisa em si quanto em relação a nós; e o
igual é um meio termo entre o excesso e a falta. Por
“meio termo” quero significar aquilo que é equidistante
em relação a cada um dos extremos, e que é único e o
mesmo em relação a todos os homens; por “meio
termo em relação a nós” quero significar aquilo que não
é nem demais nem muito pouco, e isto não é único
nem o mesmo para todos” (ARISTÓTELES, 2001. p. 41).

Portanto, a busca é pelo “meio-termo”, ou seja, o equilíbrio entre o excesso e a


falta. Encarar este equilíbrio é o desafio e enfrentamento diante de cada ação e
emoção. É por isso que a formação da excelência moral é uma busca constante e
depende da capacidade racional, pois exige a todo o momento reflexão e escolha.
A mediania não é algo pronto e dado, mas escolhido e que precisa ser entendido
para que se chegue a atingi-la.

Ao estudar o pensamento de Aristóteles, percebermos


facilmente que a virtude do homem está relacionada às escolhas
que cada um faz. Essas escolhas não no sentido de querer ou não um
ou outro objeto, mas escolhas no sentido de nossa racionalidade (da
nossa razão), ou seja, de agirmos de uma ou outra forma. São esco-
lhas que orientam o nosso agir e que estão ligadas ao que dissemos
já no início, a arte de bem viver. Para Aristóteles, o homem só pode
viver na pólis, cidade grega, e isto por ser, por natureza, um animal
político, ou seja, que vive na pólis, portanto, em sociedade, pois seu
agir não é isolado ou solitário, mas é sempre um agir em relação ao
outro (Cf. ROOS, 1987).

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Ora, se nossa vida ocorre em sociedade e nossas ações se dão em relação ao


outro com quem convivemos, como ser virtuoso? O que Aristóteles nos aponta
como meio de atingirmos a virtude, haja vista que somos marcados por escolhas e
desde que nos levantamos pela manhã até nos deitarmos à noite? Ora, a excelência
moral se relaciona com as emoções e as ações, nas quais o excesso é uma forma de
erro, tanto quanto a falta, enquanto o meio-termo é louvado como um acerto; ser
louvado e estar certo são características da excelência moral. A excelência moral,
portanto, é algo como a equidistância, pois (...) seu alvo é o meio-termo.
(ARISTÓTELES, 2001).

É adequado destacar que a ética aristotélica não se apresenta de forma


alguma como algo imperativo, ou seja, “faça isto”, não “faça aquilo”. O que está em
questão é a opção a cada um de nós para que façamos as escolhas e sejamos assim
sujeitos de nossos próprios atos e escolhas. Sendo assim, não há uma verdade
preestabelecida e que nos cabe apenas segui-la, sem reflexão ou questionamento.

Assim nos deparamos com a necessidade de, a cada ação, fazer a escolha e o
desafio é o de fazer a escolha certa. É, portanto, mais difícil, pois exige de nós uma
atitude ativa e não simplesmente passiva diante da vida e das coisas e escolhas que
nos cercam. Veja como poder escolher e, portanto, poder errar é sempre o que
acaba por inibir as pessoas. Precisamos refletir e desenvolver nossa capacidade de
análise da realidade, pois isso depende exclusivamente de nós. E como o mundo
que nos cerca é também o mundo das relações humanas, saber escolher é um
desafio constante e que diante das escolhas que fizermos não há retrocesso. Para o
pensamento aristotélico, tudo isso diretamente relacionado com o fato de eu viver
na pólis, ou seja, “viver em sociedade”.

IMPORTANTE:
Para o mundo grego, a ética e a política estão juntas, pois entendem
que a comunidade social é o lugar necessário para a vivência ética. O homem só
pode viver e buscar sua finalidade, que para Aristóteles é a felicidade, na
comunidade social, pois é um animal político, ou seja, social. Portanto, não pode o
homem levar uma vida moral como indivíduo isolado, pois vive e é membro de
uma comunidade. E como a vida moral não é um fim em si mesmo, mas um meio
para se alcançar a felicidade, não se pensa a ética fora dos limites das relações
sociais, ou seja, não se pressupõe a ética sem a política. É por isso que, segundo
Savater (2002, p. 16), “(...) os antigos gregos chamavam quem não se metia em
política de idiotés, palavra que significava pessoa isolada, sem nada a oferecer às
demais, obcecada pelas mesquinharias de sua casa e, afinal de contas, manipulada
por todos”.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Você compreendeu como a questão da felicidade em Aristóteles é um tema


relevante na sua reflexão sobre a ética? Vejamos, a seguir, como a amizade é
também um problema ético e moral na reflexão aristotélica.

A amizade como um problema ético-moral

A amizade foi também motivo de investigação em Aristóteles em Ética a


Nicômacos. Este, nos livros IX e X, discorre de forma minuciosa e exaustiva sobre o
tema. Para Aristóteles, a amizade parece também manter as cidades unidas, e
parece que os legisladores se preocupam mais com ela do que com a justiça;
efetivamente a concórdia parece assemelhar-se à amizade, e eles procuram
assegurá-la mais do que tudo, ao mesmo tempo em que repelem tanto quanto
possível o facciosismo, que é a inimizade nas cidades. Quando as pessoas não têm
necessidade de justiça, mesmo quando são justas, elas necessitam da amizade;
considera-se que a mais autêntica forma de justiça é uma disposição amistosa.

A amizade não é somente necessária diz o filósofo;


Nobilitante: aquele que
“ela também é nobilitante, pois louvamos as pessoas
nobilita, ou seja, aquele que se
amigas de seus amigos, e pensamos que uma das
torna nobre ou engrandecedor.
coisas mais nobilitantes é ter muitos amigos; além
disto, há quem diga que a bondade e a amizade se
encontram nas mesmas pessoas” (Aristóteles, 2001, p. 153-154).

Aristóteles apresenta a amizade como fundamental para a união


das cidades e dos povos. A inimizade entre as cidades e países gera
conflitos e guerras, por isso a preocupação dos legisladores em evitar
que haja divisões. Para entender melhor a questão da amizade como
uma questão ética é preciso ter claro o que Aristóteles pressupõe, ou
seja, os valores que fundamentam e dão sustentação à amizade. A
“amizade perfeita”, que poderíamos aqui denominar de “correta”,
ocorre entre pessoas boas e inexiste a calúnia, pois há confiança e
sinceridade, já que pessoas boas gostam do que é bom. Por que
Aristóteles diz isso?

58
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Por entender que:

“(...) aquilo que é irrestritamente bom e agradável


parece ser estimável e desejável, e para cada pessoa o
bom ou o agradável é aquilo que é bom ou agradável
para ela; e uma pessoa boa é desejável e estimável para
outra pessoa por ambas estas razões (...) a pessoas boas,
tornando-se amiga, torna-se um bem para seu amigo”
(ARISTÓTELES, 2001, p.159).

Então a amizade para Aristóteles está diretamente ligada à bondade. E a


bondade é algo agradável e desejável e, por isso, torna-se busca para as pessoas
boas.

Mas o que nos torna bons, segundo Aristóteles, é o fato de agirmos de forma
certa, buscando em tudo o equilíbrio em nossas ações e diante de nossas emoções.
A amizade está relacionada a esta ação, equilíbrio por ter como características e
causas a boa disposição e a sociabilidade, pois “(...) as pessoas boas são ao mesmo
tempo agradáveis e úteis”. (ARISTÓTELES, 2001, p. 160).

Ao mesmo tempo em que Aristóteles apresenta as características e causas da


amizade e as afirma nas pessoas boas, procura destacar que nem sempre as
pessoas estão em igualdade de situação nas relações de amizade. Ele passa a
relacionar as espécies de amizade em que há a superioridade de uma das partes.
São os casos de amizade entre pai e filho, pessoas idosas e jovens, marido e mulher
e, em geral, entre quem manda e quem obedece. São amizades que diferem entre
si, pois a excelência moral e suas funções, bem como as razões de envolvimento
das pessoas são diferentes. Nestas amizades “(...) os benefícios que cada parte
recebe e pode pretender da outra não são os mesmos da outra”. (ARISTÓTELES,
2001, p. 161).

Sendo assim, nestes tipos de amizade o que ocorre é a diferença na


proporcionalidade de amor que cada uma das partes recebe e tem para com a
outra. Então, se na justiça “(...) o que é igual no sentido primordial é aquilo que é
proporcional ao merecimento”; na amizade “(...) a igualdade quantitativa é
primordial e a proporcionalidade ao merecimento é secundária” (ARISTÓTELES,
2001, p. 161). Segundo Aristóteles, isto é mais evidente em casos onde “(...) há um
grande desequilíbrio entre as partes em relação a excelência moral ou à deficiência
moral ou à riqueza ou a qualquer outra coisa”. (ARISTÓTELES, 2001, p. 161).

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

A maioria das pessoas, por causa de sua ambição, parece que prefere ser
amada a amar, e é por isso que a maioria gosta de ser adulada; efetivamente, o
adulador é um amigo de qualidade inferior, ou que tem a pretensão de ser amigo e
quer estimar mais do que ser estimado; ser estimado é quase a mesma coisa que
receber honrarias, e são a estas que a maioria das pessoas aspira. (ARISTÓTELES,
2001).

Pelo fato de haver proporcionalidade ao merecimento no caso da amizade ser


secundário, já que há relações de amizade em que há superioridade de uma das
partes, Aristóteles alerta que por ser comum as pessoas preferirem serem amadas a
amarem, ou seja, serem aduladas, atraírem para junto de si amigos de qualidade
inferior: o adulador.

IMPORTANTE:

Um outro conceito que Aristóteles apresenta relacionado à amizade é


a justiça. Afirma que entre amigos não há necessidade de justiça. Aristóteles
pressupõe a vida do homem na pólis, na cidade, por ser o homem um ser social. O
conceito de justiça está diretamente ligado à vida na pólis. Quando se fala da pólis é
preciso esclarecer que existem dois espaços: o da pólis – público — e o do oikos, da
casa, o privado. A amizade entre os cidadãos Aristóteles denomina concórdia. Se-
gundo ele, a amizade não é apenas necessária, mas também nobilitante, ou seja,
nobre, louvável. Conclui que a amizade e a bondade encontram-se nas pessoas que
são amigas de seus amigos. Antes de opinar sobre o que seja a amizade, Aristóteles
apresenta o que os estudiosos de sua época diziam, ou seja, alguns filósofos que o
antecederam ou foram seus contemporâneos (Cf. ROOS, 1987).

Mas não poucos aspectos da amizade são objeto de contestação. Alguns


estudiosos do assunto definem a amizade como uma espécie de semelhança entre
as pessoas e dizem que as pessoas semelhantes são amigas — daí vem os
provérbios como “o semelhante encontra seu semelhante” (...). Outros tentam
achar uma explicação mais profunda e mais física para este sentimento. Eurípides,
por exemplo, escreve: “A terra seca ama a chuva, e o divino céu pleno de chuva
ama molhar a terra!” Heráclito, em contraste, diz: “Os contrários andam juntos”, “A
mais bela harmonia é feita de tons diferentes” e “Tudo nasce do antagonismo!”
Outros sustentam um ponto de vista oposto a este, principalmente Empédocles,
segundo o qual “o semelhante busca o semelhante” (ARISTÓTELES, 2001, p. 154).

60
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

De acordo com os intérpretes, segundo Aristóteles, basicamente dois


princípios definem o sentimento amizade: o de Heráclito — “os contrários
andam juntos” e o de Empédocles — “o semelhante busca o semelhante”. É
preciso esclarecer que tanto Heráclito como Empédocles apresentam uma
explicação física para a amizade. Independente de qual dos dois autores você
tenha escolhido, para continuar é preciso posicionar-se em relação aos
problemas que Aristóteles nos apresenta, após afirmar que em ambos os
casos, Heráclito e Empédocles, a amizade é examinada como um problema
físico e que deve ser analisada como “(...) problemas relativos ao homem, per-
tinentes ao caráter e aos sentimentos. (ARISTÓTELES, 2001, p. 154.).

Para responder aos questionamentos que havia levantado, Aristóteles começa


por afirmar que há várias espécies de amizade e “(...) a questão das várias espécies
de amizades talvez possa ser esclarecida se antes chegarmos a conhecer o objeto
do amor”. (ARISTÓTELES, 2001, p. 154). Também diz: “Parece que nem todas as
coisas são amadas, mas somente aquelas que merecem ser amadas e estas são o
que é bom, ou agradável, ou útil”. (ARISTÓTELES, 2001, p. 154).

Aristóteles assevera a existência de várias espécies de amizades e admite que


as mesmas estejam relacionadas aos objetos de amor, ou seja, de que amamos o
que é bom, ou agradável, ou útil e, portanto, a amizade vai estar relacionada a isso.
É preciso lembrar que Aristóteles concebe o homem como algo que realmente é:
Ato; e algo que tende a ser: Potência. Então, o homem por meio de seus atos
poderá ou não realizar o que é em potência. Isto irá ocorrer em busca de sua
finalidade, isto é, a felicidade. Para isso, o homem dispõe da razão que lhe serve
como guia, orientadora de suas ações. Por meio da razão o homem irá construir,
desenvolver hábitos e formas de agir a partir da excelência moral, a virtude, que o
possibilitará fazer as escolhas equilibradas para suas ações e emoções, ou seja,
buscar a harmonia.

Portanto, quando Aristóteles refere-se à amizade, e que a amizade perfeita é a


que se dá entre pessoas boas, é preciso saber que, para o filósofo grego, as pessoas
não são boas em si mesmas, mas o bem e a bondade estão em potência nas
pessoas, que poderão, a partir de suas escolhas, atingirem ou não. Aristóteles
pressupõe a existência da amizade entre os diversos tipos de pessoas e diz que o
que demonstra uma pessoa ser boa ou má é a excelência moral de suas ações. “A
amizade perfeita é a existente entre as pessoas boas e semelhantes em termos de
excelência moral” (ARISTÓTELES, 2001, p. 156).

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Havendo então três motivos pelos quais as pessoas amam, a palavra “amizade”
não se aplica ao amor às coisas inanimadas, já que neste caso não há reciprocidade
de afeição, e também não haverá o desejo pelo bem de um objeto (...) mas em
relação a um amigo dizemos que devemos desejar-lhe o que é bom por sua causa.
Entretanto, àqueles que desejam o bem desta maneira atribuímos apenas boas
intenções se o desejo não é correspondido; quando há reciprocidade, a boa
intenção é a amizade. (ARISTÓTELES, 2001, p. 155). A amizade, segundo Aristóteles,
pressupõe reciprocidade. É um sentimento específico para os nossos semelhantes,
pois precisamos que nosso sentimento seja correspondido. É por isso que muitos
intérpretes de Aristóteles e do pensamento grego afirmam que a amizade para os
gregos é o “(...) que torna, entre si, semelhantes e iguais” (VERNANT, 1973).

Então, segundo Aristóteles, “(...) para que as pessoas sejam amigas deve-se
constatar que elas têm boa vontade recíproca e se desejam bem reciprocamente”.
(ARISTÓTELES, 2001, p. 155). Havendo então três motivos pelos quais as pessoas
amam, a palavra “amizade” não se aplica ao amor às coisas inanimadas, já que
neste caso não há reciprocidade de afeição e também não haverá o desejo pelo
bem de um objeto (...) mas em relação a um amigo dizemos que devemos desejar-
lhe o que é bom por sua causa. Entretanto, àqueles que desejam o bem desta
maneira atribuímos apenas boas intenções se o desejo não é correspondido;
quando há reciprocidade, a boa intenção é a amizade. (ARISTÓTELES, 2001, p. 155).

Existem espécies de amizade em que predomina a busca pelo útil ou


agradável ou algo passageiro, segundo Aristóteles, pois é uma característica do ser,
que ele chama de “acidente”, por se tratar de características que não são
permanentes, pois a utilidade está sempre em mudança, pelo fato de ser o
resultado de algum bem ou prazer. Este tipo de amizade, segundo Aristóteles,
parece existir principalmente entre as pessoas idosas (nesta idade as pessoas
buscam não o agradável, mas o útil) e, em relação às pessoas que estão em
plenitude ou aos jovens, entre aqueles que buscam o proveito. Entre estas
amizades se incluem os laços de família e de hospitalidade. (Cf. ARISTÓTELES,
2001.).

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Aristóteles afirma ainda que entre os jovens o motivo da amizade é o pra-


zer, por viverem sob a influência das emoções e buscarem o que agradável,
porém o prazer muda com a idade. Para tanto, o filósofo faz uma observação
minuciosa das fases da vida e de como as emoções e o prazer são diferentes
em cada uma delas. Não está, contudo afirmando ou declarando que não seja
possível outro tipo de amizade nestas fases da vida, mas demonstrando o que
lhes é mais comum.

A amizade perfeita é a existente entre as pessoas boas e semelhantes em


termo de excelência moral. Neste caso, cada uma das pessoas quer bem à outra de
maneira idêntica, porque a outra pessoa é boa, e elas são boas em si mesmas.
Então as pessoas que querem bem aos seus amigos por causa deles são amigas no
sentido mais amplo, pois querem bem por causa da própria natureza dos amigos e
não por acidente. Logo, sua amizade durará enquanto estas pessoas forem boas e
ser bom é uma coisa duradoura (ARISTÓTELES, 2001, p. 156).

Aristóteles apresenta em que consiste uma “amizade perfeita”. A “amizade


perfeita” acontecerá entre pessoas boas e semelhantes em relação à virtude, ou
seja, as que fazem a escolha adequada de suas ações e emoções e que querem o
bem aos amigos por causa deles mesmos, da própria natureza dos amigos e não
por ser agradável ou útil. Toda amizade é baseada no bem ou no prazer. Portanto, a
baseada no bem só poderá ocorrer entre pessoas boas. Quando se fala em bem,
considera-se a ética, pois pressupõe que o homem age sempre em busca de ser
feliz e que conseguirá isto se buscar o bem, pois o seu contrário lhe acarretará a
infelicidade.

As pessoas boas são aquelas que possuem uma vida orientada pela busca do
agir ético, visam ao equilíbrio em suas ações e emoções. Então, quando a amizade
é por prazer ou por interesse, mesmo duas pessoas más podem ser amigas, ou
então uma pessoa boa e outra má, ou uma pessoa que não é nem boa nem má
pode ser amiga de outra qualquer espécie; mas pelo que são em si mesmas é óbvio
que somente pessoas boas podem ser amigas. Na verdade, pessoas más não
gostam uma da outra a não ser que obtenham algum proveito recíproco
(ARISTÓTELES, 2001).

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

De acordo com Ross (1987, p. 34), “Aristóteles fala da amizade que se dá pelo
prazer ou interesse e a que se dá pelo que as pessoas são em si mesmas. Considera
que a que se dá por prazer ou interesse poderá existir entre as pessoas más”. Mas a
amizade perfeita só poderá ocorrer entre as pessoas boas e semelhantes pelo fato
de que amam a pessoa em si mesma. Você já deve ter ouvido muito o ditado
popular: “Diga-me com quem andas e te direi quem és”. Esse ditado popular é
muito usado quando nos orientam a respeito de nossas amizades, de nossas com-
panhias. Ele traduz o que nos ensina Aristóteles a respeito da amizade. Pois,
podemos estar andando com pessoas más sem percebermos que o que em nós as
atrai não é o que somos, mas o que lhes oferecemos ou temos a oferecer.

Compreendeu como Aristóteles apresenta o seu conceito de amizade? A


seguir discutiremos como os filósofos La Boétie e Sartre compreendem um outro
tema importante para a temática geral ética, isto é, a liberdade. Vamos lá!!

Pensando a liberdade: La Boétie e Sartre

Hannah Arendt, na obra Entre o passado e o futuro, apresenta-nos a indagação


sobre que é liberdade?

Citemos a filósofa:

O campo em que a liberdade sempre foi conhecido, não como um problema, é


claro, mas como um fato da vida cotidiana, é o âmbito da política. E mesmo hoje
em dia, quer saibamos ou não, devemos ter sempre em mente, ao falarmos do
problema da liberdade, o problema da política e o fato de o homem ser dotado
com o dom da ação; pois ação e política, entre todas as capacidades e
potencialidades da vida humana, são as únicas coisas que não poderíamos sequer
conceber sem ao menos admitir a existência da liberdade, e é difícil tocar em um
problema político particular sem, implícita ou explicitamente, tocar em um
problema da liberdade humana. A liberdade, além disso, não é apenas um dos
inúmeros problemas e fenômenos da esfera política propriamente dita, tais como a
justiça, o poder ou a igualdade; a liberdade, que só raramente – em épocas de crise

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

ou de revolução – se torna o alvo direto da ação política, é na verdade o motivo por


que os homens convivem politicamente organizados. Sem ela, a vida política como
tal seria destituída de significado. A raison d‘être da política é a liberdade, e seu do-
mínio de experiência é a ação (ARENDT, 2003, p. 191-192).

Partindo desta citação de Hannah Arendt, comecemos a analisar a discussão


de La Boétie. A obra Discurso da servidão voluntária, de Etienne de La Boétie, é de
um momento histórico bastante distinto. O período em que ela surge e é divulgada
é marcado pelo que denominam os historiadores da filosofia de “nova ordem
social”. Trata-se de um período de ruptura dos antigos laços sociais de
dependência social e das regras corporativas; promovem, portanto, a liberação do
indivíduo e os empurram para a luta da concorrência com outros indivíduos,
conforme as condições postas pelo Estado e pelo capitalismo. O sucesso ou o
fracasso nessa nova luta dependeria de quatro fatores básicos: acaso, engenho,
astúcia e riqueza. Para os pensadores renascentistas, a educação seria o fator
decisivo.

Percebe-se que é um tempo em que as mudanças estão produzindo novas


necessidades. É nesse contexto que é escrito o Discurso da servidão voluntária. É
preciso atenção, sobretudo, para a questão da liberdade, pois ela age como
princípio ético para a ação humana diante das circunstâncias por ele vivenciadas.
La Boétie começa a discutir buscando entender porque os homens abrem mão de
sua liberdade concedendo a um, no caso o rei, o direito de decidir e a todos
comandar.

Segundo este:

Nossa natureza é de tal modo feita que os deveres


comuns da amizade levam uma boa parte de nossa
vida; é razoável amar a virtude, estimar os belos feitos,
reconhecer o bem de onde recebemos, e muitas vezes
diminuir nosso bem-estar para aumentar a honra e a
vantagem daquele que se ama e que o merece. Em
consequência, se os habitantes de um país en-
contraram algum grande personagem que lhes tenha
dado provas de grande providência para protegê-los,
grande cuidado para governá-los, se doravante
cativam-se em obedecê-lo e se fiam tanto nisso a ponto

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

de lhe dar algumas vantagens, não sei se seria sábio


tirá-lo de onde fazia o bem para colocá-lo num lugar
onde poderá malfazer; mas certamente não poderia
deixar de haver bondade em não temer o mal de quem
só se recebeu o bem. (LA BOÉTIE, 2001, p. 12)

A questão que intriga La Boétie é o fato de os homens abrirem mão de sua


liberdade em benefício de outro. Pensa ser estranho até mesmo quando este outro
é alguém que sempre tenha a todos feito o bem, tenha agido como amigo. Ao
fazer uma análise ao longo da história, observou o fato de que apesar “(...) da
bravura que a liberdade põe no coração daqueles que a defendem (...), e mesmo
assim (...) em todos os países, em todos os homens, todos os dias, faz com que um
homem trate cem mil como cachorros e os prive de sua liberdade?” (LA BOÉTIE,
2001, p. 14).

Isto é tão ilógico e irracional para La Boétie que ele assim pergunta: “Quem
acreditaria nisso se em vez de ver apenas ouvisse dizer?” (LA BOÉTIE, 2001, p. 14). O
filósofo está falando diretamente a seus contemporâneos, procurando sensibilizá-
los a lutar pela liberdade, a romperem com a servidão. Passa a indicar o que no seu
entendimento faz com que os homens estejam sobre pesados jugos, afirmando
que:

Portanto são os próprios povos que se deixam, ou


melhor, se fazem dominar, pois cessando de servir
estariam quites; é o povo que se sujeita, que se degola,
que, tendo a escolha entre ser servo ou ser livre,
abandona sua franquia e aceita o jugo; que consente
seu mal – melhor dizendo, persegue-o. Eu não o
exortaria se recobrar sua liberdade lhe custasse alguma
coisa; como o homem pode ter algo mais caro que
restabelecer-se em seu direito natural e, por assim
dizer, de bicho voltar a ser homem? Mas inda não
desejo nele tamanha audácia, permitindo-lhe que
prefira não sei que segurança de viver miseravelmente
a uma duvidosa esperança de viver à sua vontade. Que!
Se para ter liberdade basta desejá-la, se basta um
simples querer, haverá nação no mundo que ainda a

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

estime cara demais, podendo ganhá-la com uma única


aspiração, e que lastime sua vontade para recobrar o
bem que deveria resgatar com seu sangue – o qual,
uma vez perdido, toda a gente honrada deve estimar a
vida desprezível e a morte salutar? (LA BOÉTIE, 2001, p.
14-15).

La Boétie afirma que são os próprios homens quem se fazem dominar, pois
bastariam rebelar-se que teriam de volta a liberdade que lhes fora roubada. Nesse
sentido, este trabalha com uma ideia revolucionária, que é o fato de atribuir ao
povo, à população, o papel de sujeito da própria História. Por conseguinte, alerta
para o fato de que se não o faz, talvez o seja pela segurança que sente sob o jugo
do poder dos reis e príncipes. Porém, ao agir dessa forma, os homens vivem como
se fossem bichos. E qual seria a causa de todas as mazelas que o homem sofre no
seu dia-a-dia?

Segundo La Boétie:
A liberdade, todavia um bem tão grande e tão
aprazível que, uma vez perdido, todos os males seguem
de enfiada; e os próprios bens que ficam depois dela
perdem inteiramente seu gosto e sabor, corrompidos
pela servidão. Só a liberdade os homens não desejam;
ao que parece não há outra razão senão que, se a
desejassem, tê-la-iam; como se se recusassem a fazer
essa; bela aquisição só porque ela é demasiado fácil. (LA
BOÉTIE, 2001, p. 15).

O filósofo insiste na ideia de que se não temos liberdade é porque não a que-
remos. E que todos os males que sofremos são decorrência de a havermos perdido
e, no entanto, não nos dispomos a recuperá-la. Para sermos felizes, segundo ele,
bastaria que “(...) vivêssemos com os direitos que a natureza nos deu e com as
lições que nos ensina seriamos naturalmente obedientes aos pais, sujeitos à razão e
servos de ninguém” (LA BOÉTIE, 2001, p. 17).

67
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

IMPORTANTE:

Pressupondo que é de nossa própria natureza ser livre, La Boétie


rejeita a tese de que uns sejam mais felizes do que outros, como alguns teóricos da
“Teoria do direito divino”, que pressupunham que o rei e a família real eram mais
em dignidade que o restante dos homens, o que justificava a obediência e
reverência a eles prestadas. Por isso, procura de forma contundente denunciar o
marasmo diante da servidão. De acordo com este: “É incrível como o povo, quando
se sujeita, de repente cai no esquecimento da franquia tanto e tão profundamente
que não lhe é possível acordar para recobrá-la, servindo tão francamente e de tão
bom grado que ao considerá-lo dir-se-ia que não perdeu sua liberdade e sim
ganhou sua servidão” (LA BOÉTIE, 2001, p. 20).

Embora fale para o conjunto da população, como os que detêm o poder em


relação a rebelar-se contra o jugo da servidão, La Boétie tem o cuidado de
distinguir entre aqueles que jamais conheceram a liberdade. Pode-se aqui
entender a população a quem sempre foi negado tais direitos, daqueles que
tornam o povo objeto de tirania:

Por certo não porque eu estime que o país e a


terra queiram dizer alguma coisa; pois em todas as
regiões, em todos os ares, amarga é a sujeição e
aprazível ser livre; mas porque em meu entender deve-
se ter piedade daqueles que ao nascer viram-se com o
jugo no pescoço; ou então que sejam desculpados, que
sejam perdoados, pois não tendo visto da liberdade se-
quer a sombra e dela não estando avisados, não
percebem que ser escravos lhes é um mal. (LA BOÉTIE,
2001, p. 23).

Com efeito, o filósofo procura ser mais enfático ao falar daqueles que são
instrumentos da tirania:

68
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Vendo, porém essa gente que gera o tirano para se


encarregar de sua tirania e da servidão do povo, com
frequência sou tomado de espanto por sua maldade e
às vezes de piedade por sua tolice. Pois, em verdade, o
que é aproximar-se do tirano senão recuar mais de sua
liberdade e, por assim dizer, apertar com as duas mãos
e abraçar a servidão? Que ponham um pouco de lado
sua ambição e que se livrem um pouco de sua avareza,
e depois, que olhem-se a si mesmos e se reconheçam; e
verão claramente que os aldeões, os camponeses que
espezinham o quanto podem e os tratam pior do que a
forçados ou escravos – verão que esses, assim
maltratados, são no entanto felizes e mais livres do que
eles” (LA BOÉTIE, 2001, p. 33).

Realmente, você concorda que a posição de La Boétie é tão atual? Não é


interessante o seu ponto de vista sobre a questão da liberdade? A sua discussão
poderia perfeitamente caber na nossa época atual? Bem, reflita sobre estas
indagações em seguida, pois discutiremos agora o que Sartre propõe como debate
sobre a liberdade. Vamos lá!

Primeiramente, cabe ressaltar que Sartre preocupa-se em esclarecer que há


dois tipos de existencialismo, o cristão, que tem como representantes Jaspers e
Gabriel Marcel do o “existencialismo ateu”, que tem como representante Martin
Heidegger, os “existencialistas franceses” e o próprio Sartre. O que há em comum
entre os existencialistas cristãos e ateus é “(...) o fato de considerarem que a
existência precede a essência. (SARTRE, 2004, p. 4-5). Isso significa que, diferente
dos filósofos anteriores, sobretudo, da filosofia do século XVIII, os existencialistas
não aceitam o fato de o homem possuir uma natureza humana. Por sua vez, o
“existencialismo ateu”, do qual Sartre é um dos mentores, fundamenta a
inexistência de uma natureza humana pelo fato de afirmarem a inexistência de
Deus.

69
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Sobre isto, reflete Sartre:

(...) Se Deus não existe, há pelo menos um ser no


qual a existência precede a essência, um ser que existe
antes de poder ser definido por qualquer conceito: este
ser é o homem (...) o homem existe, encontra a si mes-
mo, surge no mundo e só posteriormente se define. O
homem, tal como o existencialista o concebe, só não é
passível de uma definição porque, de início, não é nada:
só posteriormente será alguma coisa e será aquilo que
ele fizer de si mesmo (SARTRE, 2004, p. 5-6).

Para o existencialismo, o homem ao nascer não está definido, mas irá através
de sua existência fazer-se homem. Quando nasce, diferente dos demais animais, o
homem tem em suas mãos o que poderá tornar-se. Como afirma Silva “(...)
liberdade implica que posso sempre ser um outro projeto, porque nenhuma
escolha é em si justificada”. Sendo que “(...) nenhuma escolha decidirá sobre a
própria liberdade, porque não posso escolher ser livre” (SILVA, 2004, p. 144).

Sartre alerta para o fato de que mesmo que a escolha seja subjetiva,
ou seja, individual, o homem está sempre relacionado aos limites da pró-
pria realidade humana. Assim, escolher ser isto ou aquilo é afirmar,
concomitantemente, o valor do que estamos escolhendo, pois não
podemos nunca escolher o mal; o que escolhemos é sempre o bem e
nada pode ser bom para nós sem o ser para todos. Se, por outro lado, a
existência precede a essência, e se nós queremos existir ao mesmo
tempo em que moldamos nossa imagem, essa imagem é válida para
todos e para toda a nossa época. (SARTRE, 2004, p. 6-7).

Para Borheim (2000), a realidade, a existência de cada um de nós se dá inserida


nos limites da subjetividade humana. O ser humano ao mesmo tempo em que é
indivíduo, torna-se e realiza-se enquanto ser através da sua relação com os demais
de sua espécie e, portanto, as escolhas que faz são escolhas que engajam toda a
humanidade. Entretanto, “(...) essa escolha de ser, como todas as que poderiam ser
feitas, está sempre em questão, porque a realidade humana é uma questão:
nenhuma resolução, nenhuma deliberação assegura a persistência da escolha”.
(SILVA, 2004, p. 145). É importante destacar que a ética sartreana fundamenta-se no

70
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

valor e na responsabilidade. Desse modo, instituir valores é implicitamente negar


valores, pois devo optar por um único critério e, quando o faço, os outros não
permanecem como virtualidades positivas, mas se desvanecem como não-valores.

É nesse sentido que a universalidade está implicada na instituição do valor


imanente à escolha: só posso escolher um negando os outros e então aquele que
escolho torna-se universal; naquele momento, ele é o único capaz de orientar a
minha escolha, porque foi essa própria escolha que o posicionou como único. A
“radicalidade” da escolha não permite que a instituição de um valor conserve uma
pluralidade possível: ela anula todos os outros critérios. (SILVA, 2004, p. 147).

O que, na realidade, Silva busca alertar é para o fato de que não há um valor
em absoluto e que a cada escolha, ao instituir-se valores, ocorre a anulação dos
demais critérios utilizados anteriormente. Na discussão da responsabilidade, e
tendo claro que “(...) toda decisão é sempre decisão de criar valores (...) não é
possível não escolher, não é possível não assumir responsabilidade pelas escolhas”.
(SILVA, 2004, p. 150-151).

Nesse sentido, é interessante discutir a questão histórica de responsabilidade


do cidadão alemão comum com o Holocausto. É o que afirma o historiador Michael
Marrus, quando afirma que: “Assim, temos apenas uma ideia muito vaga das
relações entre a política antijudaica nazista e a opinião pública. Embora haja uma
crença disseminada de que o antissemitismo fazia parte da força de coesão
ideológica do Terceiro Reich, mantendo unidos elementos opostos da sociedade
alemã, os historiadores não foram capazes de identificar um impulso assassino fora
da liderança nazista”.

Eu argumentei que as variedades populares de antissemitismo, sozinhas,


nunca foram fortes o suficiente para apoiar a perseguição violenta na era moderna.
No caso de certos grupos, como o alto comando da Wehrmach, é muito provável
que as predisposições antijudaicas tenham facilitado sua colaboração efetiva no
genocídio. Em outros casos, “a indiferença ou a superficialidade parecem ter sido
mais comuns — o que é suficientemente chocante quando vemos horrores do
Holocausto, mas de fato isto é muito diferente de um incitamento ao assassinato
em massa” (MARRUS, 2003, p. 180-181).

71
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

A discussão historiográfica mais recente busca entender como se comportava


a população alemã diante do genocídio. Há alguns historiadores que
responsabilizam a população alemã pelo fato de ter se comportado de forma
indiferente ao que ocorria. Contudo, a posição do historiador Michael Marrus é de
que apesar de sua indiferença não é possível responsabilizá-la.

É interessante destacar que toda essa discussão histórica tem uma forte
conotação ética por se tratar de valorar as ações dos homens diante de um
acontecimento considerado hediondo, pelo fato de estender a responsabilidade a
toda a população e ter saído do corriqueiro que é atribuir apenas aos governantes
e aos que estavam a serviço do poder, mas também ao cidadão comum que se
portou de forma indiferente ao que ocorria em sua pátria naquele momento. Para
Sartre, o homem é liberdade.

Como entender essa afirmação? Entende-se que não há certezas e nem


modelos que possam servir de referência, cabe ao homem inventar o próprio
homem e jamais esquecer-se que é de sua responsabilidade o resultado de sua
invenção. Pelo fato de ser livre é o homem quem faz suas escolhas e que ao fazê-
las, torna-se responsável por elas. É por isso que: o existencialista declara
repetidamente que o “homem é angústia”. Tal afirmação significa o seguinte: o
homem que se engaja e que se dá conta de que ele não é apenas aquele que
escolheu ser, mas também um legislador que escolhe simultaneamente a si mesmo
e a humanidade inteira, não consegue escapar ao sentimento de sua total e
profunda responsabilidade. (SARTRE, 2004).

O conceito angústia está relacionado ao binômio: liberdade versus res-


ponsabilidade. Faço as escolhas e ao fazê-las sou eu, exclusivamente eu, o único
responsável por elas. A angústia é o sentimento de cada homem diante do peso de
sua responsabilidade, por não ser apenas por si mesmo, mas por todas as
consequências das escolhas feitas. Com a angústia, há um outro sentimento que é
fruto também da liberdade: o desamparo. É preciso lembrar que o conceito de
angústia foi desenvolvido pelo filósofo Kierkegaard e o conceito de desamparo,
pelo filósofo Heidegger (Cf. BORHEIM, 2000).

72
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

O existencialista, pelo contrário, pensa que é extremamente incômodo que


Deus não exista, pois, junto com ele, desaparece toda e qualquer possibilidade de
encontrar valores num céu inteligível; não pode mais existir nenhum bem a priori,
já que não existe uma consciência infinita e perfeita para pensá-lo; não está escrito
em nenhum lugar que o bem existe, que devemos ser honestos, que não devemos
mentir, já que nos colocamos precisamente num plano em que só existem homens.
Dostoiévski escreveu: ‘”Se Deus não existisse, tudo seria permitido” (SARTRE, 2004,
p. 9).

O desamparo se dá pelo fato de o homem saber-se só. É por isso que Sartre diz
que “(...) o homem está condenado a ser livre”. (SARTRE, 2004, p. 9). Pois não há
nenhuma certeza, não há nenhuma segurança e tudo o que fizer é de sua irrestrita
responsabilidade. De fato o homem, sem apoio e sem ajuda, está condenado a “(...)
inventar o homem a cada instante”. (SARTRE, 2004, p. 9). Diante da constatação de
que “(...) somos nós mesmos que escolhemos nosso ser”. (SARTRE, 2004, p. 12),
surge o outro sentimento: o desespero. O que marca o desespero é o fato de que
só podemos contar com o que depende da nossa vontade ou com o conjunto de
probabilidades que tornam a nossa ação possível. Quando se quer alguma coisa, há
sempre elementos prováveis.

Posso contar com a vinda de um amigo. Esse amigo vem de trem ou de


ônibus; sua vinda pressupõe que o ônibus chegue na hora marcada e que o trem
não descarrilhará. Permaneço no reino das possibilidades, porém trata-se de contar
com os possíveis apenas na medida exata em que nossa ação comporta o conjunto
desses possíveis. A partir do momento em que as possibilidades que estou
considerando não estão diretamente envolvidas em minha ação, é preferível
desinteressar-me delas, pois nenhum Deus, nenhum desígnio poderá adequar o
mundo e seus possíveis a minha vontade. Não posso, porém contar com os
homens que não conheço, fundamentando-me na bondade humana ou no
interesse do homem pelo bem-estar da sociedade, já que o homem é livre e que
não existe natureza humana na qual possa me apoiar (SARTRE, 2004, p. 12).

Pelo fato de a realidade ir além, extrapolar os domínios de minha vontade e de


minhas ações, o reino das possibilidades passa a evidenciar que minha ação deverá
ocorrer sem qualquer esperança. O desespero é, portanto, o sentimento de que
não há certezas e verdades prontas, é o sentimento de insegurança que impregna
a vontade e o agir, pelo fato de ambos serem confrontados com o reino das
possibilidades e apontarem para o limite a liberdade de cada indivíduo.

73
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

A realidade não existe a não ser na ação; (...) o


homem nada mais é do que o seu projeto; só existe na
medida em que se realiza; não é nada além do conjunto
de seus atos, nada mais que sua vida (SARTRE, 2004, p.
13).

Segundo Borheim (2000, p. 23), “uma vez que não existe para cada um senão
aquilo que faz, ou seja, o resultado de suas ações; a vida é, portanto, a somatória
dos próprios atos”. Sendo assim, Sartre destaca a ideia de que o homem é levado a
agir, pois é por meio do engajamento que direciona seus atos em relação aos
outros homens. Alerta Sartre que não se nasce herói, covarde ou gênio, mas é o
engajamento que faz com que assim se torne. Isso se dá pelo fato de que:

(...) se bem que seja impossível encontrar em cada


homem uma essência universal que seria a natureza
humana, consideramos que exista uma universalidade
humana de condição. Não é por acaso que os
pensadores contemporâneos falam mais
frequentemente da condição do homem do que de sua
natureza. Por condição, eles entendem, mais ou menos
claramente, o conjunto dos limites a priori que
esboçam a sua situação fundamental no universo
(SARTRE, 2004, p. 16).

IMPORTANTE:
Ao falar da condição do homem, Sartre apresenta o que delimita o
agir. Portanto, para este cada um enfrentará os limites de sua própria
existência que está dada em sua condição e diante da qual “(...) a escolha é possível,
em certo sentido, porém o que não é possível é não escolher. Eu posso sempre
escolher, mas devo estar ciente de que, se não escolher, assim mesmo estarei
escolhendo.” (SARTRE, 2004, p. 17). É interessante que as escolhas são ativas ou
passivas e a responsabilidade pesa sobre elas, seja qual delas for. É verdade no
sentido em que, cada vez que o homem escolhe o seu engajamento e o projeto
com toda a sinceridade e toda a lucidez, qualquer que seja, aliás, esse projeto, não
é possível preferir-lhe um outro; é ainda verdade na medida em que nós não
acreditamos no progresso; o progresso é uma melhoria; o homem permanece o
mesmo perante situações diversas e a escolha é sempre uma escolha numa
situação determinada (SARTRE, 2004, p. 18).

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

É o homem quem escolhe seu engajamento e isto, segundo Sartre, “jamais


mudará”. É por isso que o filósofo preocupa-se em dizer que não há a ideia de
progresso em relação ao homem, já que o mesmo sempre estará diante da escolha
de seu engajamento. Talvez fique mais evidenciada a ideia de que o homem não é
uma essência, pois não se trata de chegar a um ponto ou lugar determinado, antes
o que resta a cada um é fazer sua escolha, a escolha que lhe for possível. Quando
declara que a liberdade, através de cada circunstância concreta, não pode ter outro
objetivo senão o de querer-se a si própria, quero dizer que, se alguma vez o
homem reconhecer que está estabelecendo valores, em seu desamparo, ele não
poderá mais desejar outra coisa a não ser a liberdade como fundamento de todos
os valores. Isso não significa que ele a deseja abstratamente. Mas simplesmente,
que os atos dos homens de boa fé possuem como derradeiro significado a procura
da liberdade enquanto tal (SARTRE, 2004, p. 19).

Portanto, o valor máximo da existência humana é a liberdade. Mas a liberdade


não é algo individual, ou seja, a nossa liberdade implica na dos outros. Apesar das
circunstâncias é a liberdade o valor imprescindível da vida humana. O alerta que
faz Sartre em relação à liberdade como fundamento de todos os valores é o de que:

Temos que encarar as coisas como elas são. E,


aliás, dizer que nós inventamos os valores não significa
outra coisa senão que a vida não tem sentido a priori.
Antes de alguém viver, a vida, em si mesma, não é
nada; é quem a vive que deve dar-lhe um sentido; e o
valor nada mais é o que esse sentido escolhido.
(SARTRE, 2004, p. 21).

O homem, pelo fato de ser livre e tornar-se homem, já que a existência


precede a essência, depara-se com a situação de que a vida não possui sentido
anteriormente dado. O sentido da vida é traçado a partir das escolhas que faz e
através dos atos que realiza. Sendo assim, Sartre não aceita os demais humanismos,
pois apresenta um sentido à vida humana como sendo uma meta, algo pronto e
acabado ao qual cada indivíduo deva alcançar.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Existe uma universalidade em todo projeto no sentido em que qualquer


projeto é inteligível para qualquer homem. Isso não significa de modo algum que
esse projeto defina o homem para sempre, mas que ele pode ser reencontrado.
Temos sempre a possibilidade de entender o idiota, a criança, o primitivo ou o
estrangeiro, desde que tenhamos informações suficientes. Nesse sentido, podemos
dizer que há uma universalidade do homem, porém ela não é dada, ela é
permanentemente construída. (SARTRE, 2004, p. 16).

Uma das diferenças entre o humanismo divulgado pelo


existencialismo está no fato de que há uma universalidade humana
que é uma “construção do próprio homem”, contrária à afirmação de
uma essência humana já que a mesma entende-se como algo dado,
pronto e sempre o mesmo. Por não haver valores estabelecidos, o
homem pode inventá-los e, ao fazê-lo, atribui sentido à própria vida.
O humanismo do qual fala o existencialismo é o que permite que os
homens, por meio da invenção de valores, criem a comunidade
humana. Deve-se destacar o fato de que não há um modelo ou meta
predeterminada, mas se dá por meio da própria ação dos homens (Cf.
BORHEIM, 2000).

A afirmação de Sartre “(...) o homem é liberdade” depara-se com o humanismo


proposto pelo existencialismo que entende que o homem não pode ser colocado
como meta ou fim. É por isso, que mesmo havendo a meta, para os demais
humanismos, Sartre a rejeita pelo fato de entender que é por meio de sua ação —
engajamento —, o homem, por não haver valores estabelecidos, pode inventá-los
e, ao fazê-lo, atribui sentido à própria vida. O humanismo do qual fala o
existencialismo é o que permite que os homens por meio da invenção de valores
criem a comunidade humana.

De acordo com Silva (2004, p. 34)

(...) deve-se destacar o fato de que não há um


modelo ou meta predeterminada, mas se dá por meio
da própria ação dos homens. Também, por entender
que o homem não é uma meta, é impossível, para
Sartre, admitir que o homem possa julgar o homem”.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Quando recusou o prêmio Nobel de literatura, o fez por entender que nin-
guém poderia valorar, ou seja, julgar a sua obra. Para o existencialismo, o
humanismo está dado na realização da própria vida, em que por meio das escolhas
e diante das circunstâncias e condições o homem realiza sua existência por meio
da liberdade.

O problema da liberdade é verdadeiramente uma questão intrigante e atual.


Espero que você tenha aprendido sobre esta problemática de forma tranquila e
segura, pois não é tão difícil como aparenta ser.

SUGESTÃO DE FILME

Pegue seu caderno de anotações, sente-se e assista ao filme A Dona


da História de Daniel Filho. Ele contextualizará melhor ainda o conteúdo
que você acabou de estudar.

LEITURA COMPLEMENTAR

Visando enriquecer seu processo de aprendizagem procure efetuar a


leitura complementar dos seguintes textos:

ARISTÓTELES (Tradução de Mário da Gama Kury). Ética a Nicômacos. 4ª ed.


Brasília: Editora Universidade de Brasília - UNB, 2001. 240p.

ARENDT, H. Entre o passado e o futuro. 5ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2003.


350p.

BORHEIM, G. A. Sartre. São Paulo: Editora Perspectiva, 2000. 320p.

LA BOETIE. E. Discurso da Servidão Voluntária. 4ª ed. São Paulo: Brasiliense,


2001. 455p.

TUNGENDHAT, E. Lições sobre ética. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 1997. 432p.

VAZQUEZ, A. S. Ética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. 304p.

VERNANT, Jean-Pierre. Mito e Pensamento entre os gregos. 28ª ed. São


Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 2005. 400p.

MARRUS, M. R. A assustadora história do Holocausto. Rio de Janeiro:


Ediouro, 2003. 340p.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. São Paulo: Nova


Brochura, 2004. 257p.

SAVATER, F. Ética para meu filho. São Paulo: Martins Fontes, 2002. 189p.

SILVA, F. L. Ética e Literatura em Sartre: ensaios introdutórios. São Paulo:


UNESP, 2004. 264p.

É HORA DE SE AVALIAR!

Lembre-se de realizar as atividades propostas no caderno de


exercícios! Elas são fundamentais para ajudá-lo a fixar o conteúdo teórico
trabalhado, a sistematizar as ideias e os conceitos apresentados, além de
proporcionar a sua autonomia no processo ensino-aprendizagem. Caso prefira,
redija suas respostas no caderno de exercícios e depois as envie através do nosso
ambiente virtual de aprendizagem (AVA).

Procure interagir permanentemente conosco e utilize todos os recursos


didáticos e pedagógicos disponibilizados com o objetivo de aprimorar a sua
formação acadêmica.

Nesta unidade, procuramos fornecer alguns dos problemas norteadores da


ética. Vimos a discussão sobre a problemática da liberdade, do determinismo e da
responsabilidade nos filósofos La Boétie e Sartre. Também, buscou-se
compreender as noções de felicidade amizade e virtude na reflexão filosófica de
Aristóteles. Além disso, debatemos o que é ser virtuoso e o que é necessário para
ser feliz, segundo a perspectiva de Aristóteles. Espero que você tenha desfrutado
dessa discussão e tenha compreendido a relevância destes conceitos tão na nossa
prática cotidiana. Na próxima unidade discutiremos a aplicação prática dos
fundamentos da ética.

Bons estudos! Te vejo na próxima unidade!

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Exercícios - unidade 2

“Para definir um ______, temos de ponderar, avaliar, ajuizar, apreciar ou


estimar. Neste sentido, valorar implica uma avaliação e uma _________. Logo, toda
moral e toda ética se relacionam diretamente aos _______, que são avaliações e
apreciações seja da melhor forma de vida, seja da boa ou má ação”.

a) Valor – apreciação - instintos

b) Valor – apreciação - juízos

c) Humor – discriminação - instintos

d) Valor – apreciações - juízos

e) Humor – discriminação - instintos

2ª QUESTÃO: Marque (V) para as afirmativas verdadeiras e (F) para as falsas e


assinale a alternativa CORRETA.

( ) Valorar é dar preferência ao que é melhor.

( ) Juízos são avaliações e apreciações da melhor ou pior forma de vida e da boa ou


má ação.

( ) Alguns dos juízos éticos de valor são informativos.

a) V, V, F.

b) V, V, V.

c) F, V, F.

d) V, F, F

e) F, F, F.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

3ª QUESTÃO: É o homem quem escolhe seu engajamento e isto, segundo Sartre,


“jamais mudará”. É por isso que o filósofo preocupa-se em dizer que não há a ideia
de progresso em relação ao homem, já que o mesmo sempre estará diante da
escolha de seu engajamento. Em relação a esta afirmativa, podemos afirmar que,
para Sartre:
a) o homem, pelo fato de ser livre e tornar-se homem, já que a existência sucede
a essência, depara-se com a situação de que a vida não possui sentido
anteriormente dado.
b) o homem, pelo fato de ser livre e tornar-se homem, já que a existência
precede a essência, depara-se com a situação de que a vida não possui sentido
anteriormente dado.
c) o homem, pelo fato de não conseguir ser livre e tornar-se um animal, já que a
existência precede a essência, depara-se com a situação de que a vida não
possui sentido anteriormente dado.
d) o homem, pelo fato de ser livre e tornar-se homem, já que a existência
precede a inconsistência, depara-se com a situação de que a vida possui um
sentido anteriormente dado.
e) o homem, pelo fato de ser livre e tornar-se homem, já que a essência precede
a existência, depara-se com a situação de que a vida não possui sentido
anteriormente dado.

4ª QUESTÃO: Para La Boétie é preciso atenção, sobretudo, para a questão da


liberdade, pois ela age como princípio ético para a ação humana diante das
circunstâncias por ele vivenciadas. Seguinte a esta sentença, é possível afirmar que:

a) para La Boétie, os homens são escravos e a sua existência precede a sua


essência.

b) a questão que intriga La Boétie é o fato de os homens abrirem mão de sua


liberdade em benefício de um outro.

c) La Boétie afirma enfaticamente que a lei moral é um imperativo categórico.

d) a questão que intriga La Boétie é aquela que diz respeito ao profissionalismo


religioso.

e) para La Boétie, a amizade é um fenômeno sagrado e impositivo.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

5ª QUESTÃO: Assinale a letra correspondente à alternativa que preenche


CORRETAMENTE as lacunas do texto a seguir:
“Existem __________ em que predomina a busca pelo útil ou agradável, ou
algo passageiro, segundo Aristóteles, pois é uma característica do ser, que
Aristóteles chama de ______, por se tratar de características que não são
permanentes, pois a utilidade está sempre em mudança, pelo fato de ser o
resultado de algum bem ou prazer.”
a) espécies de moralidade - “acidente”
b) espécies de coragem - “lei moral”
c) espécies de amizade - “acidente”
d) espécies de coragem - “lei moral”
e) espécies de amizade - “imperativo”

6ª QUESTÃO: Leia atentamente o texto a seguir:


“De tudo que é contínuo e divisível é possível tirar uma parte maior, menor ou
igual, e isto tanto em termos da coisa em si quanto em relação a nós; e o igual é um
meio termo entre o excesso e a falta. Por “meio termo” quero significar aquilo que é
equidistante em relação a cada um dos extremos, e que é único e o mesmo em relação
a todos os homens; por “meio termo em relação a nós” quero significar aquilo que não
é nem demais nem muito pouco, e isto não é único nem o mesmo para todos”
(ARISTÓTELES, 2004. p. 41).

Com base na sua leitura podemos afirmar que:

a) para Aristóteles, a busca é pelo “meio-termo”, ou seja, o equilíbrio entre o


excesso e a falta.

b) para Aristóteles, o “meio-termo” é a própria essência da felicidade.

c) para Aristóteles, a busca é pelo “meio-termo”, ou seja, o equilíbrio entre o


processo e a falta.

d) para Aristóteles, o “meio-termo” é o meio para o fim da coragem.

e) para Aristóteles, o equilíbrio e a falta são termos metafísicos fora do alcance da


infelicidade.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

7ª QUESTÃO: Dentre as alternativas a abaixo, qual delas é completamente FALSA?


a) Aristóteles fundamenta a ética — a arte de bem viver — tendo como refe-
rência primordial o papel do homem, ou seja, da vida humana, pois não se tra-
ta da vida de um homem e sim do ser humano em geral.
b) para Aristóteles, a felicidade é o resultado do saber viver.
c) para Aristóteles toda a preocupação, tanto da excelência moral quanto da
ciência política, é com o prazer e com o sofrimento, porquanto o homem que
os usa bem é bom e o que os usa mal é mau.
d) na obra Ética a Nicômacos é o lugar onde Aristóteles discute as condições
necessárias para ser feliz.
e) o termo excelência utilizado por Aristóteles é corriqueiramente entendido
também por coragem.

8ª QUESTÃO: Considere as afirmativas:


I. Para que haja conduta ética, é preciso que exista o agente consciente.
II. A consciência moral não só conhece tais diferenças, mas também se reconhece
como capaz de julgar o valor dos atos e das condutas e de agir em conformidade
com os valores morais.
III. A consciência moral manifesta-se, antes de tudo, na incapacidade para deliberar
diante de poucas possíveis, decidindo e escolhendo uma delas antes de lançar-se
na ação.
IV. A consciência moral diz respeito a uma escuta coletiva que todos temos como
seres irracionais e que às vezes faz com que sintamos remorso por ter agido de
uma forma em vez de outra.
Assinale a alternativa verdadeira.
a) I e II são corretas; III e IV são falsas.
b) I e III são corretas; II e IV são falsas.
c) II e IV são corretas; I e III são falsas.
d) I e II são falsas; III e IV são corretas.
e) I, II e IV são falsas; III é correta.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

9ª QUESTÃO: O ato amoralmente válido subdivide-se em duas formas


fundamentais: o normativo e o fatual. Como se constitui o ‘ato normativo’?

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10ª QUESTÃO: Todos os juízos éticos de valor são normativos, isto é, enunciam
normas que determinam o “dever ser” de nossos sentimentos, nossos atos, nossos
comportamentos. Com base no que você estudou nesta unidade, discorra sobre as
especificidades dos juízos éticos de valor normativos.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

3 Ética aplicada: a ética na


empresa e nos negócios

Pressupostos teóricos da ética empresarial: história e desenvolvimento.

Empresa ética e visão ético-empresarial.

A ética nos negócios ou negociando com ética: lucro x princípios morais.

O código de ética profissional: funções e limites.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Seja bem-vindo à terceira unidade de estudo. Na unidade anterior, você teve a


oportunidade de estudar alguns dos temas mais recorrentes da ética, no plano
tradicional da história da filosofia. O estudo daqueles temas foi fundamental para
que você se sentisse confortável e seguro para entender o que estudaremos a
partir desta unidade. Trata-se, portanto, de discutirmos a aplicação prática dos
fundamentos da ética. Sendo assim, nesta unidade, ressaltaremos a aplicação da
ética no plano das empresas e dos negócios. Uma abordagem estritamente
fundamental para quem atua ou atuará no ramo da administração ou da
contabilidade, assim como os que possuem interesse em compreender como
procedem as relações éticas no âmbito empresarial em geral. Bom estudo!

Objetivos da unidade

 Discutir a abordagem prática da ética no nível das organizações e


nos negócios.

 Compreender os aspectos éticos presentes nas relações comerciais


ou nos negócios.

 Discutir o código de ética e seus fundamentos.

Plano da unidade

 Pressupostos teóricos da ética empresarial: história e


desenvolvimento.

 Empresa ética e visão ético-empresarial.

 A ética nos negócios ou negociando com ética: lucro x princípios


morais.

 O código de ética profissional: funções e limites.

Bons estudos!

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Pressupostos teóricos da ética empresarial:


história e desenvolvimento

Atualmente é notória a importância da ética no desenvolvimento das


organizações, isto é, da postura que as empresas adotam para terem uma conduta
ética e dos instrumentos de aplicação da mesma. Estas investem cada vez mais na
criação de estruturas adequadas ao fortalecimento das relações éticas com os seus
consumidores, fornecedores e a comunidade em que está inserida. Qualquer que
seja a razão ou o motivo, tudo isto nos faz compreender que a ética é realmente
um “ótimo negócio”!

Segundo Moreira (2002), o comportamento ético nos negócios é esperado e


exigido por toda a sociedade, pois é a única forma de obtenção de lucro com
respaldo moral ou ético. Por sua vez, Nash (2001) avalia que vários empresários
vêm resgatando os valores morais compreendidos pela conduta ética nos
negócios, tais como: honestidade, justiça, respeito pelos outros, compromisso
cumprido, confiabilidade, entre outros. Para a autora, a aplicação da ética nos
negócios consiste em um diferencial competitivo, que pode determinar a
permanência da empresa no mercado tão competitivo. Mas o que é uma empresa?
O que a caracteriza?

Considerando a empresa como uma “unidade econômica”, podemos dizer


que, através dela, todo empresário utiliza os três fatores técnicos em relação à sua
produção: a natureza, o capital e o trabalho. Estes fatores aliados suscitam um
resultado bem definido, que é um serviço ou um bem ou até mesmo um direito. O
bem, ou o serviço, ou o direito é, por sua vez,
vendido ao mercado pelo preço mais adequado
que este puder oferecer. Por conseguinte, a
diferença entre o preço da venda e o custo da
produção é o proveito monetário designado de
lucro. Deste modo, defini-se uma empresa como
uma organização cujo seu objetivo final é a
garantia do lucro.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Nestes termos, a ética empresarial objetiva avaliar ou investigar as


consequências do comportamento de uma empresa, isto é, de uma “unidade
econômica” quando a sua ação está ou não em conformidade com os princípios
morais e as regras do bem proceder aceitas pela coletividade nas quais está
inserida. Por outro lado, a ética empresarial reflete e discute as normas e valores
dominantes de uma empresa, também interroga pelos fatores qualitativos que
fazem com que determinado agir seja um agir eticamente válido. Por outro lado,
sob o prisma da ética aplicada, ela tem como meta estabelecer, através do acordo
com as pessoas atingidas, pelo agir empresarial, normas materiais e processuais
que foram postas em vigor na empresa como possuindo “caráter vinculante”
(MOREIRA, 2002, p. 22).

Por fim, podemos ainda enfatizar que a ética empresarial ou organizacional


pode ser apreendida como o “descobrimento e a aplicação dos valores e normas
compartidos pela sociedade no âmbito da empresa ou organização,
especificamente, no processo de tomada de decisões a fim de aumentar sua
qualidade” (MOREIRA, 2002, p. 33). Pensando assim, a tarefa principal da ética
empresarial consiste em elucidar o sentido e o fim da atividade empresarial e
propor orientações e valores éticos específicos para alcançá-los. Com efeito, as
decisões concretas ficam nas mãos dos sujeitos que são responsáveis por elas e,
portanto, não “podem tomá-las sem considerar o fim que se persegue, os valores
éticos orientadores, a consciência ética socialmente alcançada e os contextos e
consequências de cada decisão” (TOFFLER, 1993, p. 34).

Cabe salientar que estas definições somente fazem sentido se tivermos em


mente as características fundamentais da ética empresarial. Quais são estas
características? Como se caracteriza a ética empresarial? Toffler (1993) destaca os
seguintes pontos:

 “A ética empresarial não consiste em uma ética de convicção, mas


sim de responsabilidade pelas consequências das decisões tomadas.
No entanto, deve-se evitar extremos, pois aquele que pauta seu agir
puramente pela ética da responsabilidade, sem convicções, pode
transformar-se em um frio calculador de consequências”;

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Entende-se por ética de convicção a que prescreve ou proíbe determinadas


ações, incondicionalmente, como boas ou más em si, sem levar em conta as
condições em que devem realizar-se ou omitir-se ou, ainda, sem considerar as
consequências que podem advir de sua realização ou omissão. E por ética da
responsabilidade, a que ordena ponderar as consequências previsíveis das próprias
decisões ou das circunstâncias em que ocorrem.

 “Uma vez que a atividade empresarial tem uma função social que a
legitima, a empresa que esquece este aspecto não logra esta
legitimação. Desta forma, os consumidores são interlocutores válidos
e constitui-se uma exigência para a ética da empresa ter em conta
seus interesses através de mecanismos de participação efetiva”;

 “Os membros da empresa devem cumprir com suas obrigações e


“co-responsabilizarem-se” pelo andamento de suas atividades com a
cooperação, suplantando o conflito e a apatia”.

Com isso, pode-se concluir que, de acordo com Toffler, uma empresa ou
organização que atua de forma eticamente adequada é a que persegue os
objetivos pelos quais realmente existe, isto é, satisfazer as necessidades humanas e
caracteriza-se fundamentalmente pela agilidade e iniciativa, pelo fomento da
cooperação entre seus membros, pela solidariedade, pelo “risco racional” e pela
“co-responsabilidade”. Contudo, todas estas evidências devem ocorrer dentro dos
parâmetros da justiça, sem o qual a organização estaria em desacordo com os
princípios éticos e morais da sociedade em que está inserida (TOFFLER, 1993, p. 56).

Bem, depois dessa breve explanação sobre os pressupostos da Ética


empresarial, vejamos alguns dos seus pressupostos históricos. Vamos lá?

A evolução histórica da ética empresarial seguiu concomitantemente ao


desenvolvimento econômico, histórico e social da nossa civilização. Este
desenvolvimento concomitante fez surgir vários problemas. Você deve estar
perguntando que problemas são estes? Bem, inicialmente, na economia baseada
em “troca” das sociedades primitivas e antigas, não havia lucro e nem efetivamente
o que hoje denominamos de empresa. Com efeito, o advento do conceito de lucro
como finalidade das operações econômicas representou uma dificuldade para a
moral e para a ética, assim como para o que hoje entendemos como empresa. Você
deve estar se perguntando: como assim?

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Durante muito tempo, pensadores, intelectuais e estadistas debruçaram-se a


estudar apenas a “economia de troca”, na qual se assumiam valores idênticos para
os bens comercializados. Em função disso, consideravam o lucro como um
acréscimo indevido ou um “ato imoral” (contra a moral ou antiético). Todavia, no
século XVII, Adam Smith demonstrou, na sua obra A Riqueza das Nações (1776), que
o lucro não e um “acréscimo indevido” nem algo de imoral, mas um
“vetor de distribuição de renda” e de “promoção do bem-estar
social”. Com isso, Adam Smith logrou expor pela primeira vez a
compatibilidade entre ética e a atividade lucrativa (Cf. TOFFLER,
1993).

Não obstante, a primeira tentativa formal de impor um


comportamento ético a empresa foi encíclica Rerum Novarum, do
papa Leão XIII. Nela, foram expostos os princípios éticos
fundamentais aplicáveis aos relacionamentos entre a empresa e seus
empregados. Esses princípios valorizavam, sobretudo, o respeito aos
direitos e a dignidade dos trabalhadores.

Em 1890, nos Estados Unidos, vigorou a lei denominada Sherman Act a qual
passou a proteger a sociedade contra acordos entre empresas contrárias ou
restritivas da livre concorrência. Ainda nos Estados Unidos, foi promulgada, no
começo do século XX, a Lei Clayton, modificada na década de 30, mediante a
emenda Pattman Robison. Essa lei complementou a Sherman Act, proibindo a
prática de discriminação de preço por parte de uma empresa em relação aos seus
clientes.

Por conseguinte, nas décadas seguintes, de 50 a 70 do século passado, os


Estados Unidos permitiram que outras nações como Alemanha e Japão, por
exemplo, crescessem sem quaisquer obstáculos, perdendo importantíssimas
empresas para concorrentes estrangeiros. Os países de origem Alemã, na década
de 60, começaram a incentivar debates sobre a ética nos negócios, com o objetivo
de fazer do trabalhador um participante dos conselhos de administração das
organizações ou das empresas.

90
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Ainda na década de 60, tanto as faculdades de administração e de negócios


nos Estados Unidos, iniciaram a inclusão em seus currículos o ensino da ética,
quando alguns filósofos e intelectuais deram suas contribuições aproximando suas
pesquisas com o ensino da ética. Como consequência imediata da aproximação e
aplicação do ensino da ética nas Universidades americanas, surge os primeiros
balbucios da Ética empresarial. Contrário aos Estados Unidos, na América Latina, o
desenvolvimento do estudo e da pesquisa da ética nos negócios ou nas empresas
iniciaram-se a partir dos esforços isolados de professores e pesquisadores
universitários, além das atividades subsidiárias das empresas multinacionais
instaladas em alguns países.

Com efeito, foi somente na segunda metade do século XX que o tema da ética
empresarial de fato ganhou importância fora do meio acadêmico. Como exemplo,
podemos citar o ano de 1972 quando a organização das nações unidas (ONU)
realizou em Estocolmo, na Suécia, a conferência internacional sobre o meio-
ambiente. Este evento serviu para alertar todos os segmentos sociais, inclusive as
empresas, sobre a necessidade de se preservar a proteger o nosso planeta. Depois
dessa conferência, quase todos os países do mundo adotaram ou reforçaram as
suas leis, subordinando a atividade econômica à proteção do meio ambiente.

Em 1977 o congresso norte-americano aprovou uma lei relativa à ética


empresarial, que chamou a atenção do mundo. Ela foi denominada Foreign Corrupt
Practices Act (FCPA). Tal lei passou a proibir e a estabelecer penalidades para
pessoas ou organizações que oferecessem subornos a autoridades estrangeiras
para obter negócios ou contratos. Em 1980, os jesuítas abrem, em Wall Street, um
“centro de reflexão” para os banqueiros e os bolsistas católicos, procurando
estimular um debate qualificado sobre a ética empresarial ou dos negócios através
de seminários, palestras e estudos dirigidos.

Neste mesmo ano, a Universidade de Harvard recebe uma doação de 23


milhões de dólares do presidente da Securities and Exchange Commission (SEC) para
financiar pesquisas na área de ética. Em 1988, a ética nos negócios tornou-se
disciplina obrigatória para todos os seus estudantes de administração de empresas
nos Estados Unidos. Também, criaram-se, numerosos manuais para o ensino da
ética empresarial, abrangendo conceitos básicos e soluções práticas ou aplicadas.

91
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Posteriormente, a ética dos negócios ou empresarial converte-se em tema de um


best-seller com a publicação do Manager Minute, de Kenneth Blanchard. Em
seguida, este publica com Norman Peale, The Power of Ethical Management. Em
1988, Gordon Shea publica Pratical Ethics, promovida no meio dos negócios e nas
Universidades pela American Management Association (AMA).

No Brasil, mais especificamente em São Paulo, a Escola Superior de


Administração de Negócios (ESAN), pioneira na área, mantém no currículo o ensino
da ética desde sua fundação, em 1941. Contudo, somente em 1992, o Ministério da
Educação e Cultura (MEC) aconselhou que todos os cursos de graduação e pós-
graduação prestigiassem o ensino da ética e seus desdobramentos teóricos. Neste
mesmo ano, foi desenvolvida uma sólida pesquisa sobre a Ética nas empresas
brasileiras pela Fundação (FIDES) (ARRUDA, 2002).

Cabe salientar que, em 1992, a Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, criou o
(CENE), isto é, o Centro de Estudos de Ética nos Negócios. Depois de vários projetos
de pesquisa desenvolvidos com empresas, os próprios estudantes da Escola de
Administração de Empresas de São Paulo (EAESP) e da Fundação Getúlio Vargas
(FGV) solicitaram a ampliação dos objetivos do CENE para incluir organizações do
governo e não-governamentais. A partir de 1997, o CENE passou a ser denominado
Centro de Estudos de Ética nas Organizações e introduziu novos projetos em suas
atividades contribuindo decisivamente para os estudos da ética empresarial no
Brasil (Cf. ARRUDA, 2002).

Tanto o Brasil como em outros países, as leis e, principalmente, as decisões


judiciais voltam-se no sentido de exigir das empresas um comportamento ético em
todos os seus relacionamentos. Para motivá-las a seguir os princípios da ética,
através do estímulo aos seus “instintos egoísticos” alguns países permitem que os
tribunais imponham condenações milionárias às empresas infratoras e antiéticas.
Atualmente, a preocupação com a ética empresarial, em todo o mundo, é de tal
relevância que podemos afirmar estarmos vivendo uma nova era nesse assunto.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

De acordo com Jacomino (2000, p. 56):

A importância da ética nas empresas cresceu a


partir da década de 80, com a redução das hierarquias e
a consequente autonomia dada às pessoas. Os chefes,
verdadeiros xerifes até então, já não tinham tanto
poder para controlar a atitude de todos, dizer o que era
certo ou errado.

Não obstante, é importante ressaltar que a questão da ética empresarial passa


necessariamente pela questão do indivíduo. São os indivíduos que formam as
organizações e nela convivem diariamente. Neste sentido, a conscientização da
importância de valorização da ética deve partir do indivíduo. Sobre esta questão
Jacomino (2000, p. 29) destaca: “Além de ser individual, qualquer decisão ética tem
por trás um conjunto de valores fundamentais. Ser ético nada mais é do que agir
direito, proceder bem, sem prejudicar os outros”.

IMPORTANTE:

Com efeito, o “agir eticamente” é, acima de tudo, uma “decisão


pessoal e moral”, ou seja, uma opção particular de cada indivíduo. A partir do
momento que há o despertar para a relevância sobre assunto, ele passa a estar
cada vez mais presente nas atitudes das pessoas que compõem a organização e
nas decisões que venham a ser tomadas.

Ainda segundo Jacomino (2000, p. 31):

Não podemos ser inocentes e pensar que


empresas são apenas entidades jurídicas. Empresas são
formadas por pessoas e só existem por causa delas. Por
trás de qualquer decisão, de qualquer erro ou
imprudência estão seres de carne e osso. E são eles que
vão viver as glórias ou o fracasso da organização. Por
isso, quando falamos de empresa ética, estamos
falando de pessoas éticas.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Para tanto, é fundamental que a empresa defina regras claras para a condução
dos seus negócios e para o relacionamento entre as pessoas que compõem as
equipes de trabalho, buscando promover a participação de todos na discussão dos
“limites éticos na organização”.

No entanto, para Arruda (2002, p. 34):

Enquanto a ética profissional está voltada para as


profissões, os profissionais, associações e entidades de
classe do setor correspondente, a ética empresarial
atinge as empresas e organizações em geral. A empresa
necessita desenvolver-se de tal forma que a conduta
ética de seus integrantes, bem como os valores e
convicções primários da organização se tornem parte
de sua cultura.

De forma geral, Srour (2000, p. 45) indica que a:

(...) ética empresarial ou dos negócios responde de


forma instrumental às necessidades empresariais,
valendo o esforço de conciliar os conflitos dos mais
variados, relacionamento com clientes, conquistar
novos consumidores potenciais que simpatizam com
determinada atividade comercial”.

Além disso, esta produz no imaginário social a ideia de que se preservam os


valores morais internamente e externamente, e, sobretudo, a necessidade de se
alcançar os objetivos intentados pela empresa pela tomada “racional” de decisões
que exigem grande poder de deliberação em decorrência da análise das
circunstâncias e das complexidades que a envolve.

Compreendeu como a ética empresarial se constitui? Percebeu as nuances que


a caracteriza? Vejamos a seguir as razões que identificam uma empresa ética: o que
é visão ético-empresarial?

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Empresa ética e visão ético-empresarial

Como já dissemos anteriormente, o comportamento ético por parte da


empresa é “esperado e exigido por toda a sociedade” (MOREIRA, 2002). Ele é a
única forma de obtenção de lucro com “respaldo da moral”. Este respaldo impõe
que a empresa aja com ética em todos os seus relacionamentos, especialmente
com clientes, fornecedores, competidores e seu mercado, empregados, governos e
públicos em geral.

Você deve estar indagando: ora, as afirmações são


suficientes para esclarecer os motivos básicos para que uma
empresa se convencesse a agir com ética ou eticamente? Sim,
você tem toda razão. No entanto, existem outros motivos bem
definidos e específicos. Vejamos quais são.

Uma empresa ética incorre em custos menores do que uma


antiética. A empresa ética não faz pagamentos irregulares ou
imorais, como subornos, compensações indevidas e outros.
Exatamente por não fazer este tipo de transação, ela consegue
colocar em prática uma avaliação de desempenho de suas áreas
operacionais com mais precisão e eficácia do que a empresa
antiética.

Uma empresa ética cultiva valores, define suas estratégias de acordo com
princípios, possui responsabilidade social baseado em juízos estritamente
racionais, enquanto a empresa antiética não se pauta por valores e nem possui
responsabilidade alguma. A empresa ética propõe valores, como a integridade,
honestidade, transparência, qualidade do produto, eficiência do serviço, respeito
ao consumidor, entre outros. Por outro lado, na empresa antiética, o comprador se
envolve com o fornecedor e acaba favorecendo-o mesmo sem a intenção de fazê-
lo.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

De acordo com Camargo (2006, p. 56),

A legitimação de uma empresa, assim como a sua


identidade na sociedade, só se constrói pela ética.

A consciência tranquila e o caminho da virtude


dão a merecida credibilidade e confiança a uma
instituição. Quanto menos um funcionário de uma
empresa internalizar esses valores, maior será o sinal de
fraqueza dessa organização. Por outro lado, a
internalização se da quando uma instituição estabelece
os canais de comunicação numa perspectiva de
realização pessoal. O sujeito passa a ser ator e não
receptor passivo das ordenações.

Diante do exposto, percebemos que uma empresa ética possui a necessidade


de criar uma “autoidentidade”, estabelecendo uma interiorização de valores,
crenças e interesses, ou seja, promover a ideia de pertencimento, uma “identidade
espiritual” que se consolida tanto externa como internamente.

Portanto, a identidade da empresa ética está baseada em três princípios


fundamentais:

 internalizar;

 exteriorizar;

 objetivar.

Estes princípios são passíveis de análise crítica, pois são eles que distinguirão a
ética do lucro ou a ética construída no dia-a-dia, a partir do envolvimento daqueles
que compõem a empresa.

Obviamente, diz Camargo (2006), uma empresa que prima por bons princípios
éticos procura, no funcionário, um “ser crítico”. A consciência crítica é fundamental
para a construção da ética e, se viver em sociedade constitui um preceito para a
condição humana, a empresa é uma das instituições mais relevantes para fornecer
credibilidade e moral à constituição de uma ética fundamentada.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Por isso, neste contexto, a consciência crítica tem


a função de desmascarar as falsas intenções, pois o Práxis: na filosofia marxista, a
indivíduo não pode ser visto somente como “fazedor palavra grega práxis é usada
de coisas” e objeto daquilo que faz, mas como sujeito
para designar uma relação
de suas ações, ou seja, deve saber por que, como e
dialética entre o homem e a
para que realiza suas ações ou atividades.
natureza, na qual o homem, ao
Também, a consciência crítica ajuda a estabelecer
transformar a natureza com seu
a diferença entre o discurso e a práxis, na medida em
trabalho, transforma a si
que a desconexão entre teoria e prática é
compreendida como algo danoso para o mesmo. A filosofia da práxis se
estabelecimento do “agir ético” na empresa caracteriza por considerar como
(CAMARGO, 2006, p. 34). Em outras palavras, problemas centrais para o
compreender quando uma empresa prega as “boas homem os problemas práticos
intenções” (a teoria), mas que sua ação pode ser
de sua existência concreta:
carregada do “ranço autoritário” (prática), por
exemplo. "Toda vida social é
essencialmente prática. Todos
Assim, viver socialmente na empresa não pode
os mistérios que dirigem a
constituir-se em um fardo, mas uma “condição
existencial ética” que personifique uma nova teoria para o misticismo
“estrutura do ser” integrado e preocupado com o outro encontram sua solução na
e as diferenças. Com efeito, para que isso ocorra, torna- práxis humana e na
se fundamental que os empregados participem das compreensão dessa práxis"
decisões, propiciando um ambiente de união e (Marx, Oitava tese sobre
cooperação em que exista cumplicidade entre as partes, de modo que todos saiam
ganhando neste processo.
Isso somente pode ser obtido se a empresa souber trabalhar e identificar as
diferenças, respeitando-as e compreendendo-as. Assim, o desafio a ser alcançado,
em termos éticos pela empresa, é perceber-se como parte de uma equipe na qual,
se um indivíduo ganha ou perde, todos ganham ou perdem. Daí a importância da
empresa ver a pessoa não como uma peça de engrenagem, mas como motor de
uma estrutura organizacional.
Cabe ressaltar que uma empresa ninguém está isolado, em decorrência disso,
estabelece-se uma rede de confiabilidade e solidariedade em vista a tecer um bom
entrosamento e proporcionar a construção de uma convivência humana, de forma
ética e sólida. Este entrosamento possibilita a construção de amizades e
afetividades, numa perspectiva que se aproxima perfeitamente da harmonia e da
cooperação.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

IMPORTANTE:

Nesta perspectiva, cabe salientar que ética distinguem-se em dois


grandes planos de ação que são propostos como desafios às empresas: de um lado,
em termos de projeção de seus valores para o exterior (exteriorização), fala-se em
“empresa cidadã”, no sentido de respeito ao meio ambiente, incentivo ao trabalho
voluntário, realização de algum benefício para a comunidade, responsabilidade
social, sustentabilidade, etc. Por outro lado, sob a perspectiva de seu público mais
próximo, tais como: executivos, acionistas, empregados, colaboradores,
fornecedores, percebe-se esforços para a criação de um sistema que assegure um
modo ético de operar, sempre respeitando os princípios gerais da empresa e os
princípios do direito, da justiça e da moral.

Enfim, na atualidade a empresa que quiser ser competitiva e obter sucesso


tanto no mercado nacional como no mundial, terá de manter impreterivelmente
uma sólida reputação no que diz respeito a seu comportamento ético-moral. Para
tanto, é necessário que a empresa tenha bem definida a sua missão, a sua filosofia
de atuação e a sua visão empresarial.

Você deve estar se perguntando: o que significam estes termos? A “filosofia de


uma empresa” consiste em um conjunto de princípios, diretrizes e atitudes que
auxiliam a programar metas, planos e regras para todos os seus empregados. Por
outro lado, a “visão” de uma empresa está diretamente relacionada à ideia de
futuro. A “visão” de uma empresa é a visão que ela possui do seu futuro e do futuro
da sociedade. Por fim, a “missão de uma empresa” esta relacionada à ideia de
encargo ou incumbência, ou mesmo, dever a cumprir e compromisso. Nestes
termos, a “missão da empresa” indica e afirma a forma pela qual ela faz e age em
seus negócios.

Com efeito, esta noção de missão poderia ser ampliada, contemplando-se


também a história, as intenções atuais, os fatores de ambientes, etc. Neste sentido,
a missão tem o objetivo de orientar e delimitar a ação da empresa, definindo o que
ela se propõe a fazer e a forma como atua. Na verdade, é a missão quem exprime a
razão de existência da empresa.

A seguir, apresentaremos a você alguns exemplos de como certas grandes


empresas definem suas respectivas missões:

98
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Sony: “Experimentar a alegria de fazer avançar a tecnologia e aplicá-la em


benefício das pessoas”.
Cobra: “Contribuir para a informatização da sociedade, mediante o domínio e
a difusão da tecnologia, ofertando soluções para a realidade brasileira”.
3M: “Resolver problemas ainda pendentes de maneira inovadora”.
Medtronics: “Ajudar as pessoas a voltarem a viver plenamente”.
Mary Kay Cosmetics: “Dar às mulheres oportunidades ilimitadas”.
Merck: “Preservar e melhorar a vida humana”.
Wal-Mart: “Dar às pessoas comuns a chance de comprar as mesmas coisas
que as pessoas ricas”.
Walt Disney: “Fazer as pessoas felizes”.
Depois dessa breve exposição sobre a visão, missão e filosofia da empresa
ética e os seus pressupostos fundamentais, a seguir discutiremos de forma
específica e contextualizada alguns elementos da ética nos negócios. Então, vamos
lá?

A ética nos negócios ou negociando com ética:


lucro x princípios morais
Em sua obra A ética protestante e o espírito do capitalismo (1905), Max Weber
reproduz as teses fundamentais apresentadas por Benjamin Franklin que
permeiam o “espírito” ou a essência do capitalismo. Com base nestas teses, Weber
faz uma investigação minuciosa a respeito da ética capitalista baseada
estritamente no “utilitarismo”.

Max Weber foi um dos principais responsáveis pela formação do pensamento social
contemporâneo, sobretudo do ponto de vista metodológico, quanto à constituição de uma
epistemologia das ciências sociais que, segundo sua visão, deve ter um modelo de explicação próprio
diferente do das ciências naturais. É de grande importância sua distinção entre a razão instrumental e
a razão valorativa, sendo que os juízos de valor não podem ter sua origem nos dados empíricos. Em
sua análise da formação da sociedade contemporânea, Weber investigou os traços fundamentais do
Estado moderno, da sociedade industrial que o caracteriza e da burocracia que tem nele um papel
central.

99
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Segundo Weber (1967, p. 32-35):

O homem é dominado pela produção de dinheiro,


pela aquisição encarada como finalidade última da sua
vida. A aquisição econômica não mais está subordinada
ao homem como meio de satisfazer as suas
necessidades materiais. Esta inversão do que
poderíamos chamar de relação natural, tão irracional de
um ponto de vista ingênuo, é evidentemente um
princípio orientador do capitalismo, tão seguramente
quanto ela é estranha a todos os povos fora da
influência capitalista. Um estado mental como o
expresso nas passagens de Franklin e que receberam o
aplauso de todo um povo, teria sido proscrito como o
mais baixo tipo de avareza e como uma atitude
inteiramente desprovida de autorrespeito, tanto na
Antiguidade como na Idade Média.

Percebe-se que Weber destaca a condição última do capitalismo à


qual vai se sujeitar toda a cadeia de “valores éticos” e comportamentais
da sociedade, a saber: a utilidade. Em uma sociedade regida por este
pressuposto, só tem valor o que pode ser considerado útil. Este conceito
de utilidade está intrinsecamente relacionado no capitalismo à ideia de
lucro, aumento de capital e de patrimônio. Sendo assim, o que é útil é o
que produz algum tipo de ganho econômico.

Daí, as pessoas serem levadas a uma busca incessante pelo “ter”, pelo
“acumular”, numa corrida desenfreada em que os fins sempre justificarão
os meios. É um verdadeiro “vale-tudo”, em que ficam para trás valores como
honestidade, lealdade, solidariedade e outros, a menos que estes se subordinem à
ideia do “útil”, quando, então, deixarão de ser legítimos.

Essa situação remete-nos à principal reflexão Srour sobre a ética nos negócios,
na medida em que, para este, nos momentos de decisão e condução de um
negócio, o agente deve saber o que é certo fazer em relação ao lucro ou a utilidade.
Todavia, o limiar desta transição pode modificar-se, fazendo com que o agente (o
empresário) deixe de tomar a decisão certa, justificando-se mediante as possíveis
vantagens que vislumbrou diante do desconhecimento do outro e, a partir daí,
“fazendo deslizar na incerteza moral às vezes peculiar do comportamento
humano” (Cf. SROUR, 2000).

100
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Para Srour (2000, p. 274), existem três inferências que nos ajudam a entender
uma situação como esta: as pessoas não são legítimas, isto é, totalmente boas ou
totalmente más; não basta enunciar normas morais e
pautas de decência para que os agentes ajam com Pragmático: relacionado à

probidade; controles permanentes e sanções doutrina filosófica que adota

intimidadoras são indispensáveis para que as normas como critério da verdade a

morais prosperem. A moral e a ética estão de certa utilidade prática.

forma entrelaçadas no mundo dos negócios, porque,


por um lado, não se ganha dinheiro sem ser pragmático e, noutro sentido, não se
é pragmático sem se preocupar em refletir eticamente sobre as ações que se deve
tomar.

O autor mostra sua visão sobre este paradigma Paradigma: modelo padrão.
dos negócios:

Ora, pode-se contra-argumentar dizendo que toda


a organização – e, sobretudo toda empresa capitalista –
opera em um ambiente hostil em que os stakeholders
defendem interesses próprios. Uma vez que as
contrapartes são vulneráveis a produtos, ações e
mensagens, as decisões organizacionais não podem ser
neutras. Quem decide faz escolhas entre diferentes
cursos de ação e deflagra consequências. Aí entra a
reflexão ética. Ela antecipa o que poderia ser danoso
aos negócios e responde a algumas indagações tais
como: o que afeta o meio ambiente? Quais os efeitos
colaterais os produtos geram nos consumidores? Como
as políticas corporativas atingem empregados e
clientes? Quem se beneficia e quem sai prejudicado?
(Srour, 2000, p. 291)

A razão de ser desta “reflexão ética” mencionada pelo autor mostra-nos que as
empresas possuem tendências a não operarem mais com tomadas de decisões em
curto prazo e sem preocupação em agir de forma ética, principalmente, aquelas
que podem expor ao risco a sua imagem publicamente. Cada vez mais as ações e
decisões das empresas, consideradas com responsabilidade social, são submetidas
ao crivo do cidadão disposto a retaliar as empresas que negligenciem a confiança e
credibilidade dos seus parceiros e sociedade.

101
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Ainda se pode afirmar que as decisões das empresas não são em totalidade
imorais e morais em sentido forte do termo, pois suas atividades não estão acima
do bem e do mal. Se desta forma fossem, as operações econômicas ilícitas seriam
legitimadas dentro da normalidade do mercado e os efeitos colaterais gerados de
seus produtos seriam desconsiderados e sem repercussão da responsabilidade
caso atingisse de forma maléfica o meio ambiente ou o ser humano.

Podemos perceber que a reflexão acima a despeito da imagem das


organizações é de extrema responsabilidade e aponta a importância de resguardar
e zelar por ela, pois a imagem representa a sustentação e continuidade dos
negócios e, além disso, é o patrimônio essencial para o reconhecimento no
mercado.

E dentro desta análise, Srour (2000, p. 292) confirma que:

A imagem da empresa não pode ser vilipendiada


impunemente, nem pode ser reduzida à mera moeda
publicitária, porque ela representa um ativo econômico
sensível a credibilidade que inspira. Então, afirmar sem
mais nem menos que as empresa simulam serem
morais apenas para manterem as aparências ou para
não sofrer penalidades legais, seria pressupor que elas
estariam dispostas a quaisquer imoralidades para obter
lucros.

Pode-se ainda, dentro dessa reflexão do autor, aprofundar a análise e concluir


que é extremamente difícil desvencilhar moral e interesses organizacionais e
desvinculá-las também das pressões exercidas pela sociedade civil. Desta forma, o
que importa é saber se as organizações têm um código de ética ou se suas ações
são provenientes de uma “essência moral do seu estatuto” ou se os reflexos de suas
tomadas de decisões são ou não legais e benéficas para os seus parceiros
comerciais e a sociedade como um todo.

102
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Diante dos fatos, não podemos imaginar que todas as empresas agem de
acordo com a ética em seus negócios. O meio capitalista é regido em um ambiente
hostil e as organizações se movimentam mostrando suas forças e presença nos
negócios e, se não fizer, certamente será dominada por outras ou mesmo padecer
diante do mercado.

Evidencia-se, com isso, o alto risco que uma empresa enfrenta quando orienta-
se pela “maximização dos lucros”, sobretudo, pelas pressões que a sociedade e o
“sistema capitalista social” exercem atuando como legítimos indicadores e
controladores da gestão dos negócios de uma empresa. Por outro lado, quando
uma empresa por si mesma encontra o equilíbrio entre o lucro, sobrevivência e a
responsabilidade social, esta acaba formando a sua identidade ética que terá
reflexos expressivos nos seus negócios e na sua “imagem corporativa”.

Dentro dessa ótica reflexiva, Srour (2000, p. 294) afirma:

(...) praticar uma moral da integridade não


equivale sempre a bom negócio como prega a máxima
e good ethics is good business, mas significa sabedoria
preventiva no campo em que forças se enfrentam sem
cessar. Reconhecer tal fato representa um passo
decisivo para a saúde das empresas. Implica abandonar
o velho registro da maximização do lucro em benefício
do lucro com a responsabilidade social. Trocado em
miúdos, as empresas não mais desempenham apenas
uma função econômica, mas também uma função
ética.

Percebe-se que, dentro do ponto de vista do autor, as empresas que atuam


efetivamente dentro do modelo capitalista, embora na sua maioria operem por
códigos morais, estas só passam a se comportar conforme o código rege quando se
colocam em risco a sua continuidade ou mesmo sua sobrevivência.

103
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

O autor também se refere ao lucro sim, todavia com responsabilidade social.


Nota-se que a responsabilidade social deve ser compreendida como orientação
para a necessidade humana e do ecossistema e não deve ser confundida como
produto de interesses empresariais, como simplesmente “jogos” comerciais. Sabe-
se que tornar compatíveis lucros e respeito a parceiros, meio ambiente,
empregados e clientes, é uma “equação bastante complicada”.

No entanto, se esta compatibilização for aplicada com eficiência, terá efeitos


benéficos na “imagem corporativa” de uma empresa desde que praticada na sua
essência. Diante do exposto, percebe-se que inclusão ética no comportamento
organizacional fornece lucro às empresas. Os padrões éticos são a base do
comportamento dos funcionários e favorece a criação de uma cultura
organizacional.

As empresas precisam estar alertas e permanentemente criando condições e


espaço para a ética sem perder o foco na sua produtividade e na agilidade das
respostas para as necessidades que o mercado, a sociedade e o meio ambiente
colocam-na comumente.

Portanto, ser ético nos negócios significa:

 a necessidade de obedecer a regras relativas à ocupação territorial,


costumes e expectativas da comunidade, princípios de moralidade,
políticas da organização, atender à necessidade de todos por um
tratamento adequado e justo;

 entender como os produtos e serviços de uma empresa e as


organizações e as ações de seus membros podem afetar seus
empregados, a comunidade e a sociedade como um todo de modo
positivo e de modo negativo.

Depois de tudo que você leu fica fácil compreender como as relações
empresarias concretizam-se no sentido de propagar uma ética no mundo dos
negócios, sintonizadas com as mudanças ocorridas na sociedade e de acordo com
as exigências da competição que embala a discussão pela aprovação de “novos
padrões comportamentais” para as empresas e seus administradores.

104
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Bem, até aqui apresentamos a você os pressupostos fundamentais da ética


aplicada aos negócios. A partir de agora, iremos discutir as questões pertinentes ao
código de ética. Você sabe o que é um código de ética? Quais são os seus atributos
e funções? Não se desespere se não souber, apresentaremos a você estas questões
de forma detalhada e bastante didática. Vamos lá!

O código de ética profissional: funções e limites


De uma forma geral, um código de ética profissional é um acordo explícito
entre membros de um grupo social, isto é, de uma categoria profissional, de um
partido político ou de uma associação civil. Por sua vez, o objetivo de um código de
ética é explicitar como o “grupo social” — que o constitui — pensa e define sua
própria identidade política e social. Por outro lado, como o “grupo social” — que o
constitui — compromete-se a realizar, moralmente e eticamente, seus objetivos
particulares.

Podemos conceber ainda o código de ética profissional como um instrumento


de realização dos princípios, visão e missão da empresa. Neste contexto, serve para
orientar as ações de seus colaboradores e explicitar a postura social da empresa em
face dos diferentes públicos com os quais interage.

É da máxima importância que seu conteúdo seja refletido nas


atitudes daqueles a que se dirige e encontre respaldo na alta
administração da empresa, que tanto quanto o último empregado
contratado tem a responsabilidade de vivenciá-lo na prática (Cf.
TOFFLER, 1993).

Segundo Arruda (2002), a elaboração de um código de ética


profissional se dá a partir da definição da base de princípios e valores
esperados dos funcionários de uma determinada organização ou
empresa. Para se chegar a isso, o ideal é que se proceda a um
relatório que irá agregar as práticas e políticas específicas da
organização, o qual deverá ser discutido e criticado por todos os
funcionários em todos os níveis.

Este relatório, aprimorado pelas críticas e sugestões, irá servir de suporte para
a definição de “padrões de comportamento e responsabilidades” que nortearão a
elaboração dos artigos constitutivos e definitivos do código de ética profissional.

105
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Entre estes podemos citar:

 antes de mais nada, a necessidade que a empresa possui como


instituição, de responder à nobre função de ajudar ao
desenvolvimento humano e profissional dos seus membros. Se os
empresários e diretivos se esquecem desta função e não fazem o
possível por incentivá-la, falha no mais nobre dos aspectos da sua
profissão: o (auto) aperfeiçoamento dos membros da organização;

 toda empresa que no futuro objetiva ter bons profissionais não pode
prescindir do desenvolvimento ético dos mesmos. Um profissional,
tecnicamente bem preparado, pode ser perigoso se seu nível ético,
por desconhecimento ou má fé, for reduzido ou limitado.

 o interesse no cumprimento do código de ética deve ser


compreendido como um interesse geral e não de interesse
particular. Ou seja, o exercício de uma “virtude obrigatória” somente
torna-se exigível se for considerada como proveito de todos;

 todo código de ética deve possuir uma base ou uma orientação


filosófica na sua estrutura. Esta estrutura terá sempre a orientação de
estabelecer qual a forma de um profissional se conduzir no exercício
da sua profissão de maneira a não prejudicar os seus semelhantes e
garantir a qualidade do seu trabalho e dos outros.

A autora destaca a importância de um código de ética profissional ser bem


estruturado para a empresa ou organização. Segundo esta: “os códigos tornam
claro o que a organização entende por conduta ética. Procuram especificar o
comportamento esperado dos empregados e ajudam a definir marcos básicos de
atuação” (ARRUDA, 2002, p. 5). Como exemplo disso, citaremos um estudo
realizado por Rob Van Tulder e Ans Kolk, professores universitários na Holanda,
onde analisaram os códigos de 17 empresas brasileiras. Este estudo evidenciou
alguns pontos relevantes na conduta profissional dos empregados e as decisões
éticas apresentadas pelos empregadores. A pesquisadora Arruda (2002) apresenta
no seu livro Código de Ética: Um instrumento que adiciona valor os tópicos que mais
predominaram nestes códigos, que podem ser considerados como elementos
necessários a qualquer formulação correta de um código de ética profissional:

106
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Analisando as 17 organizações brasileiras, parece


predominar a preocupação com a Ética como
comportamento correto com as pessoas, manutenção
dos valores éticos fundamentais e o esforço por abolir
práticas como o suborno e as facilidades de
pagamentos. Quase com o mesmo nível de consciência,
os códigos parecem indicar a obediência às leis,
especialmente no tocante à sociedade e às relações de
trabalho. A seguir, fica patente também o respeito aos
interesses do consumidor, voltado para a atenção à
necessidade de consumo, a revelação de informação e
a prática respeitosa de marketing. Na mesma linha, boa
parte das organizações registra os interesses
comunitários como de importância, a ponto de
consubstanciá-los no seu Código de Ética (ARRUDA,
2002, p. 24-26).

Pode-se verificar, com isso, que a preocupação com os aspectos éticos


fundamentais é premente em todas as empresas integrantes do universo
pesquisado, assim como o compromisso com o cumprimento das leis e a
necessidade de um bom relacionamento com os consumidores, fornecedores e até
com os concorrentes. Além disso, fica patente, na pesquisa, que as empresas têm
participado mais ativamente na discussão e resolução dos problemas da
comunidade em que estão inseridas, o que representa um avanço de relevada
importância e magnitude.

De acordo com Sá (2001, p. 119):

As peculiaridades em um código de ética de


conduta profissional dependem de diversos fatores,
todos ligados à forma como a profissão se
desempenha, ao nível de conhecimentos que exige, ao
ambiente em que é executada etc. Isto significa que
não pode existir um padrão universal que seja aplicado
com eficácia a todos os casos, embora as linhas mestras
sejam comuns, pois comuns são as principais virtudes
de todas as profissões exigíveis.

107
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Por conta disso, o conteúdo do código de ética deve ser necessariamente


formado de um conjunto de políticas e práticas específicas, abrangendo os campos
mais vulneráveis das ações profissionais. Tal material é reunido em um relatório de
fácil compreensão para que possa circular adequadamente entre todos os
interessados. Uma vez aprimorado com sugestões e críticas de todos os envolvidos
o relatório dará origem a um documento que servirá de parâmetro para
determinados comportamentos, deixando visíveis as
responsabilidades fundamentais. Stakeholders: o termo
Entre os inúmeros tópicos abordados no código “stakeholders” designa todos os
de ética profissional, predominam alguns como segmentos que influenciam ou
respeito às leis do país, conflitos de interesse, proteção são influenciados pelas ações de
do patrimônio da instituição, transparência nas uma organização, fugindo do
comunicações internas e com os stakeholders da entendimento de que o público
organização, denúncia, prática de suborno e corrupção alvo de uma organização é o
em geral.
consumidor.
Por outro lado, abordam-se as relações com os
funcionários, desde o processo de contratação, desenvolvimento profissional,
lealdade entre os funcionários, respeito entre chefes e subordinados, saúde e
segurança, comportamento da empresa nas demissões, entretenimento e viagem,
propriedade da informação, assédio profissional e sexual, alcoolismo, uso de
drogas, entre outros.

Dentre os problemas éticos de maior conhecimento público, estão aqueles


referentes às relações com os consumidores, e aqueles sujeitos aos
enquadramentos da lei de defesa do consumidor, incluindo as práticas de
marketing, propaganda e comunicação, qualidade do atendimento e reparações
de danos.

Quanto à “cadeia produtiva”, envolvendo fornecedores e empresas


terceirizadas, o código de ética pode estabelecer condutas de responsabilidade
social, respeito à legislação, eventual conduta restritiva, bem como estimular a
melhoria dos parceiros visando a um crescimento profissional e mercadológico
conjunto. O código de ética profissional pode também fazer referência à
participação da empresa na comunidade, fornecendo diretrizes sobre as relações
com os sindicatos, órgãos da esfera pública, relações com o governo, entre outros
(Cf. SÁ, 2001).

108
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Cabe lembrar que a implementação do código de ética profissional envolve o


trabalho de comunicar a sua necessidade e o seu valor a todos na empresa, com o
objetivo de garantir a sua efetivação e aprovação. Sem o apoio dos funcionários e
diretores da empresa, o código de ética não surtirá efeito nenhum no cotidiano da
empresa. Neste caso, o segredo do sucesso do código de ética está na sua
comunicação e na sua divulgação.

A implementação do código de ética profissional exige, portanto:

 divulgação do código a todos na empresa em uma forma clara e


concisa;

 divulgação a todos na empresa do apoio incondicional da direção e


da gerencia da empresa;

 divulgação a todos na empresa da maneira pela qual cada um deve


aplicar o código de ética;

 divulgar e disponibilizar ao público externo, tais como fornecedores


e clientes o código de ética da empresa.

Diante dessas considerações, não se esqueça:


IMPORTANTE
O código de ética profissional deve ser entendido como uma relação
das práticas de comportamento que se espera ser observada no exercício
da profissão. As normas do código de ética visam ao bem-estar da sociedade, de
forma a assegurar a lisura de procedimentos de seus membros dentro e fora da
instituição.
 Um dos objetivos de um código de ética profissional é a formação de
consciência profissional sobre os padrões de conduta.
 Um código de ética profissional deve asserções sobre princípios éticos
gerais e regras particulares sobre problemas específicos que surgem na
prática da profissão.
 O objetivo primordial do código de ética profissional é expressar e encorajar
no sentido da justiça e decência em cada membro do grupo organizado,
deve indicar um novo padrão de conduta interpessoal na vida de cada
profissional que esteja exercendo qualquer cargo na organização.

109
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Enfim, do ponto de vista da empresa, a função principal do código de ética


consiste em proporcionar critérios de atuação para resolver conflitos de interesses
e, de preferência, resolvê-los antes ou no momento em que eles surjam.

Não é interessante esta discussão sobre o código de ética profissional? Toda


empresa séria e comprometida com a ética possui o seu “código”. Você já
consultou o código de ética da sua empresa ou da sua profissão? Se não consultou
ainda, consulte-o, pois lá estão as diretrizes principais da sua empresa.

SUGESTÃO DE FILME

Pegue seu caderno de anotações, sente-se e assista ao filme Fora de


controle (2002) de Roger Michell. Ele contextualizará melhor ainda o conteúdo que
você acabou de estudar.

LEITURA COMPLEMENTAR

Visando enriquecer seu processo de aprendizagem procure efetuar a


leitura complementar dos seguintes textos:

ARRUDA, M.C.C. Código de Ética: Um instrumento que adiciona valor. 1ª. ed.
São Paulo: Negócio, 2002. 390p.

CAMARGO, M. Fundamentos de ética geral e profissional. 3ª. ed. Petrópolis:


Vozes, 2002. 118p.

DISKIN, L.; MARTINELLI, M.; MIGLIORI, R.F.; SANTO, R.C.E. Ética, Valores
humanos e Transformação. 1ª. ed. São Paulo: Fundação Petrópolis, 1998. 200p.

JACOMINO, D. Você é um profissional ético? Revista Você. São Paulo, n.25,


p.28-39, jul.2000.

MOREIRA, J. M. A Ética empresarial no Brasil. São Paulo: Pioneira, 2002. 389p.

NASH, L. Ética nas empresas: boas intenções à parte. São Paulo: Makron
Books, 2001. 359p.

SROUR, H.S. Ética Empresarial. 8ª. ed. Rio de Janeiro: Campus, 2000. 389p.

110
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

VAZQUEZ, A. S. Ética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. 304p.

SÁ, A. L. de. Ética profissional. 4 ª edição: São Paulo: Ed. Atlas, 2001. 296p.

TOFFLER, B. L. Ética no trabalho. São Paulo: Makron Books, 1993. 125p.

Aproveite e visite os sites abaixo. Todos eles foram amplamente consultados


em nossa pesquisa. Bom proveito!

Disponível em <http://www.eticaempresarial.com.br>. Acesso em 28 maio 08.

Disponível em <http://www.ethos.org.br>. Acesso em 28 maio 08.

É HORA DE SE AVALIAR!

Lembre-se de realizar as atividades propostas no caderno de


exercícios! Elas são fundamentais para ajudá-lo a fixar o conteúdo teórico
trabalhado, a sistematizar as ideias e os conceitos apresentados, além de
proporcionar a sua autonomia no processo ensino-aprendizagem. Caso prefira,
redija suas respostas no caderno de exercícios e depois as envie através do nosso
ambiente virtual de aprendizagem (AVA).

Procure interagir permanentemente conosco e utilize todos os recursos


didáticos e pedagógicos disponibilizados com o objetivo de aprimorar a sua
formação acadêmica.

Nesta unidade, você estudou a aplicação prática dos fundamentos da ética.


Ressaltaremos a aplicação da ética no plano das empresas e dos negócios. Para
tanto, seguimos um percurso que se iniciou com a discussão sobre os pressupostos
teóricos da ética empresarial e seus fundamentos, em seguida, vimos os aspectos
éticos presentes nas relações comerciais ou nos negócios. Por fim, discutimos o
código de ética e seus principais fundamentos. Na próxima unidade,
apresentaremos a você os pressupostos da ética profissional. Para tanto,
discutiremos os valores sociais predominantes nas profissões em geral, em
seguida, abordaremos a questão da ambiência e relações pessoais, ou seja, o
desempenho ético-profissional. Por fim, discutiremos os princípios fundamentais
das decisões morais racionais.

Bons estudos! Te espero na próxima unidade!

111
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Exercícios - unidade 3

1ª QUESTÃO: Assinale a letra correspondente à alternativa que preenche


CORRETAMENTE as lacunas do texto a seguir:

“A tarefa principal da ética empresarial consiste em elucidar o sentido e o fim


da _________ e propor orientações e _______ para alcançá-los. Com efeito, as
decisões concretas ficam nas mãos dos sujeitos que são responsáveis por elas e,
portanto não “podem tomá-las sem considerar o fim que se persegue, os valores
éticos orientadores, a _______ socialmente alcançada e os contextos e
consequências de cada decisão” (TOFFLER, 1993, p. 34).

a) atividade empresarial - valores éticos específicos - consciência ética.

b) atividade sub empresarial - valores éticos específicos - consciência mítica.

c) atividade lúdica - valores éticos específicos - consciência normal.

d) atividade forte - valores éticos específicos - consciência ética.

e) atividade extracurricular - valores éticos específicos - consciência mítica.

2ª QUESTÃO: Todo empresário utiliza os três fatores técnicos em relação à sua


produção. Qual das alternativas abaixo apresenta estes fatores corretamente?

a) A natureza, o capital e o trabalho.

b) A guerra, a falência e o trabalho.

c) A força, a expectativa e o comércio.

d) A natureza, a falência e o capital.

e) A falência, o capital e o sacrifício.

112
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

3ª QUESTÃO: Segundo o conteúdo da disciplina, qual das alternativas abaixo diz


respeito ao objetivo principal da empresa?
a) A falência.
b) A guerra.
c) O lucro.
d) O sacrifício.
e) A glória.

4ª QUESTÃO: Assinale a alternativa que confere CORRETAMENTE o objetivo


proposto pela ética empresarial.
a) A ética empresarial objetiva avaliar ou investigar as consequências
psicológicas do comportamento de uma empresa.
b) A ética empresarial objetiva destruir e investigar as consequências do
comportamento de uma empresa.
c) A ética empresarial objetiva avaliar ou investigar as consequências do
comportamento de uma empresa, isto é, de uma “unidade econômica”
quando a sua ação está ou não em conformidade com os princípios morais e
as regras do bem proceder aceitas pela coletividade no qual está inserida.
d) A ética empresarial objetiva avaliar ou investigar as consequências
neurológicas do comportamento de uma empresa.
e) A ética empresarial objetiva avaliar ou investigar as consequências cientificas e
sociológicas do comportamento de uma empresa.

5ª QUESTÃO: Em 1977, o congresso norte-americano aprovou uma lei relativa à


ética empresarial, que chamou a atenção do mundo. Qual é esta lei?
a) Pratical Ethics.
b) The Power of Ethical Management .
c) Foreign Corrupt Practices Act (FCPA).
d) Wall Street Law.
e) Securities and Exchange Commission (SEC).

113
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

6ª QUESTÃO: Assinale a letra correspondente à alternativa que preenche


CORRETAMENTE as lacunas do texto a seguir:

“O _________ é regido em um ambiente hostil e as organizações se


movimentam mostrando suas forças e presença nos negócios e, se não fizer,
certamente será dominada por outras ou mesmo padecer diante do _______”.

a) meio socialista - mercado

b) meio comunista - mercado

c) meio capitalista - mercado

d) meio anarquista - mercado

e) meio sindicalista - mercado

7ª QUESTÃO: Ser ético nos negócios significa:

a) fraudar documentos e investir em práticas ilícitas.

b) ser desleal.

c) omitir informações relevantes nos negócios.

d) obedecer a regras implícitas e desleais a favor da concorrência.

e) obedecer a regras relativas à ocupação territorial, costumes e expectativas da


comunidade, princípios de moralidade, políticas da organização, atender à
necessidade de todos por um tratamento adequado e justo.

8ª QUESTÃO: O conteúdo do código de ética deve ser necessariamente formado de


um conjunto de políticas e práticas específicas, abrangendo os campos mais
vulneráveis das ações profissionais. Diante disso, podemos afirmar:

a) este conjunto de políticas e práticas específicas é reunido em um relatório de


difícil compreensão para que possa circular adequadamente entre todos os
interessados.

114
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

b) este conjunto de políticas e práticas específicas é reunido em um relatório de


fácil compreensão para que possa circular adequadamente entre alguns
membros interessados.

c) este conjunto de políticas e práticas específicas é reunido em um relatório de


fácil compreensão para que possa circular adequadamente entre alguns
membros desinteressados.

d) este conjunto de políticas e práticas específicas é reunido em um relatório de


difícil leitura para que possa circular adequadamente fora do circulo
empresarial.

e) este conjunto de políticas e práticas específicas é reunido em um relatório de


fácil compreensão para que possa circular adequadamente entre todos os
interessados.

9ª QUESTÃO: O que é um código de ética?

__________________________________________________________________

__________________________________________________________________

__________________________________________________________________

__________________________________________________________________

__________________________________________________________________

__________________________________________________________________

10ª QUESTÃO: Qual é o objetivo primordial do código de ética?

__________________________________________________________________

__________________________________________________________________

__________________________________________________________________

__________________________________________________________________

__________________________________________________________________

115
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

116
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

4 Ética profissional e
responsabilidade social

Ética profissional: os valores sociais da profissão.

O desempenho ético-profissional: ambiência e relações pessoais.

Ética e responsabilidade social nos negócios.

Decisões morais racionais.

117
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Caro aluno, bem-vindo à nossa quarta unidade de estudo. Na unidade


anterior, discutirmos a aplicação efetiva dos fundamentos da ética. Ressaltamos a
prática da ética no plano das empresas e dos negócios e os princípios norteadores
do código de ética profissional. Nesta última unidade de estudo, apresentaremos a
você os pressupostos da ética profissional. Para tanto, discutiremos os valores
sociais predominantes nas profissões em geral, em seguida, abordaremos a
questão da ambiência e relações pessoais, ou seja, o desempenho ético-
profissional. Por fim, discutiremos os princípios fundamentais das decisões morais
racionais. Bom estudo!

Objetivos da unidade

 Apresentar a problemática relativa à distinção aos valores sociais da


profissão. Discutir a essência da ética profissional.

 Expor os conceitos de ambiência e relações pessoais no campo ético-


profissional.

 Mostrar os conceitos capitais da ética e da responsabilidade social


nos negócios.

 Abordar os princípios norteadores das decisões morais racionais.

Plano da unidade

 Ética profissional: os valores sociais da profissão.

 O desempenho ético-profissional: ambiência e relações pessoais.

 Ética e responsabilidade social nos negócios.

 Decisões morais racionais.

Bons estudos!

118
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Ética profissional: os valores sociais da profissão

Você tem ideia do que significa ética profissional? Bem, antes de discutirmos o
que é efetivamente ética profissional começaremos definindo o que é uma
‘profissão’ e o seu significado intrínseco. Vamos lá!

O termo ‘profissão’ origina-se do latim professione, mais especificamente do


substantivo professio, que teve diversas acepções ao longo dos tempos. O conceito
de profissão, na época atual, diz respeito ao trabalho que se pratica com habilidade
a serviço de terceiros, isto é, “uma prática constante de um ofício” (Cf. SÁ, 2001).

Toda profissão possui, além de sua utilidade para o indivíduo, uma expressão
moral e social. De fato, se acompanharmos a vida de um profissional, desde a sua
formação escolar, percebemos, claramente, o quanto ele produz e recebe de
utilidade da sua profissão.

Citemos alguns exemplos:

 é pela profissão que o indivíduo se destaca e se realiza plenamente,


provando a sua capacidade, habilidade e inteligência comprovando
a sua personalidade em relação aos obstáculos encontrados;

 mediante o exercício profissional, todos conseguem elevar o seu


nível moral e ético;

 pela profissão que todo indivíduo pode ser útil a sua comunidade e
nela elevar-se e destacar-se na prática pelos seus valores e
reconhecimentos.

De acordo com Sá (2001, p. 34), “como a prática habitual de um trabalho, a


profissão oferece uma relação entre necessidade e utilidade. Esta relação exige
uma conduta específica para o desempenho eficaz das atividades exercidas pelo
profissional”. Com efeito, todas as capacidades necessárias ou exigíveis para o bom
desempenho de qualquer profissão devem passar essencialmente pelos deveres
éticos.

119
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Sendo o propósito do exercício profissional a prestação de uma utilidade a


terceiros, todas as qualidades pertinentes à satisfação das necessidades passam a
ser uma obrigação perante o desempenho do profissional. Neste sentido, é fato
que um complexo de deveres envolve a vida profissional sob as formas de conduta
a ser seguida para a execução de uma atividade ou trabalho.

Nas empresas, os indivíduos conscientes desse esforço ético têm maior


probabilidade de tomar decisões corretas, sendo certo que ao tomá-las, estarão
crescendo na virtude almejada. Decorre daí ser a ética uma ciência também prática,
e as virtudes, o resultado de ações repetidas no intuito de solucionar certos
dilemas.

Cabe notar que os deveres mencionados impõem-se e passam a governar as


ações dos indivíduos perante seus clientes, seu grupo, seus colegas, o Estado e sua
própria conformação ética e espiritual. Diante disso, fica fácil entender como os
deveres profissionais aliam-se ao conceito de dignidade e respeito à pessoa em sua
conduta profissional.

Você deve estar se perguntando: como assim? O que uma coisa tem a ver com
outra? Ora, a conduta do profissional aliada aos deveres básicos de todo
profissional expõe uma relação intrínseca entre valores sociais e a profissão. Ou
seja, esta relação indica uma correspondência entre a sociedade e os valores
profissionais.

Uma das estratégias oferecidas para realçar esta relação está em abordar tal
assunto sob o prisma da “dignidade da pessoa”. Para tanto, faz-se necessário
explorar o que se entende por ‘pessoa’, ‘dignidade’ e ‘respeito’.

O que é uma ‘pessoa’ do ponto de vista filosófico? O termo latino persona


possui, entre outros, o mesmo sentido da voz grega prósopon, que significa
máscara. Trata-se da máscara que cobria o rosto de um ator, enquanto atuava nas
tragédias. Neste sentido, pessoa designa o personagem, e os personagens de uma
peça teatro são designados de dramatis personae.

Deve ao filósofo Boécio (480-524), o emprego, pela primeira vez, do termo


pessoa fora dos sentidos restritos que lhe eram fornecidos pelo teatro. Inspirando-
se no teatro, onde os atores usavam máscaras para representar figuras importantes
da vida social e política, Boécio usou o termo pessoa para referir-se a todo ser
humano. Para este, o ser humano é a pessoa por causa de sua importância e de sua
autonomia. Autonomia e dignidade são, portanto, a característica fundamental da
pessoa humana.

120
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Assim, respeitar o outro como alteridade significa entendê-lo como pessoa,


como diverso e, portanto, reconhecê-lo como autônomo ou livre. Por outro lado,
há uma correspondência mútua entre reconhecer a alteridade do outro e ter sua
alteridade reconhecida. Respeitar o outro como centro de
dignidade consiste na difícil tarefa de tratá-lo, efetivamente, Alteridade: relativo ao
como pessoa e não como uma coisa. outro.

Tratar alguém como pessoa e não como coisa significa


percebê-la e tratá-la como um valor próprio, que não pode ser avaliado segundo
princípios de ordem material ou econômica. Pois, a pessoa e os seus bens relevam-
se de várias formas para a organização da comunidade. Na sua dimensão pessoal e
irredutível, como ser que se assiste a si próprio, a pessoa é essencialmente
liberdade, ou atividade livre, um valor, ou uma fonte de valores, que não se deixa
objetivar ou substanciar para além do seu próprio corpo e atitude moral.

A esta dimensão mais íntima corresponde, no plano profissional, à afirmação


da dignidade da “pessoa humana”, além de outros valores pessoais. Dignidade da
pessoa é a de todo o ser humano individual e concreto, não a de uma humanidade
universal e abstrata ou do homem como parcela de qualquer agrupamento social.
De igual modo, a dignidade refere-se ao reconhecimento do valor intrínseco e
soberano da pessoa perante quaisquer condições externas, valor que se impõe por
igual a todos os membros da sociedade e vai muito para além da dignidade ligada
à honra, ao prestígio profissional ou ao mérito social de qualquer cidadão em
particular.

Cada pessoa, só pelo fato de o ser, é merecedora do máximo respeito e


proteção sociais, sobretudo em contextos que tornam evidente a fragilidade da
condição humana. Este valor postula a existência de garantias que assegurem uma
respectiva proteção, seja no plano subjetivo, como bem ou conjunto de bens
jurídicos atribuídos e titulados pelas pessoas individualmente consideradas; seja no
plano objetivo, como algo a integrar nos bens comuns da coletividade e a
proteger, preventiva ou sucessivamente, sempre que for questionada ou posta em
perigo a dignidade da “pessoa humana”.

121
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

IMPORTANTE:

Portanto, a ética profissional deve estar em sintonia com os


pressupostos que incidem na “pessoa humana” e a sua dignidade. Respeitar a
“pessoa humana” implica também combater toda a prática que a diminua. A
“pessoa humana”, em sua totalidade, é muito mais que um simples corpo ou uma
simples “máquina”, que pretende ter suas peças trocadas ou desmontadas. A
pessoa é, sobretudo, uma interseção de valores e de relações. Ela é um fim em si
mesmo, um centro de autonomia e complexidade que lhe torna única, indivisível e
não-intercambiável. Por essas razões, a pessoa possui dignidade e respeito.

Bem, compreendeu como é relevante a valorização da pessoa. Agora, veremos


como este conceito de pessoa relaciona-se diretamente à questão das relações
pessoais no ambiente profissional. Trata-se de apresentarmos a você o problema
da ambiência e das relações pessoais no âmbito empresarial. Vamos lá?

O desempenho ético-profissional: ambiência e relações


pessoais

É inegável que há ambientes distintos onde as condutas humanas se


processam no trabalho. Todo profissional convive com diversas e específicas
formas de relacionamento conforme a ambiência onde realiza suas tarefas.

Diversas são as condições ambientais sob as quais se pode observar a atuação


do profissional em seus respectivos espaços e relações de trabalho. Basicamente,
podemos citar:

 empregado particular ou público;

 participante de uma empresa multinacional ou nacional;

 sócio de uma empresa consorciada ou associada;

 autônomo individual ou coletivo.

122
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Cada um desses desempenhos processa-se em um


ambiente próprio, com relações definidas, exigindo
condutas também definidas. Como afirmamos
anteriormente, o modo de atuação da personalidade do
profissional varia conforme os ambientes, neste caso, a
tendência é de que quanto mais impessoal tornar-se o
ambiente profissional tanto menos ética é possível que
venha a ser a conduta, se um sistema rígido de práticas de normas não obrigar
efetivamente à prática virtuosa do profissional.

Certamente, quanto mais a “pessoa humana” venha a perder o seu grau de


importância numa empresa, tanto menos ética poderá ser a sua atuação, pois
enfraquecer a condição de uma pessoa autônoma e portadora de vontade, menos
esta assume um compromisso real com a sua atividade profissional.

Contudo, não se pode negar que os conflitos de consciência entre as práticas


éticas e virtuosas e as que devem seguir a determinações e imperativos de
natureza superior possam contribuir para certas turbulências profissionais.
Também, não se pode omitir que a variedade de condutas exigíveis em relação a
alguns aspectos de comportamento na empresa é o que atende realmente aos
interesses particulares de um profissional. Em nenhuma dessas posições
exemplificadas, é possível alterar a condição real de trabalho de um bom
profissional.

Na atualidade, as grandes mudanças que o avanço tecnológico, as


comunicações, a globalização e outros fenômenos vêm acarretando com certeza
têm impacto negativo, numa perspectiva ética, sobre o trabalho, a economia e as
empresas. Como parte integrante desse processo, os indivíduos não estão à
margem do turbilhão de ideias, conceitos e movimentos novos que aparecem com
intensidade a sua volta. Seu interesse pela informação, por conhecer e saber é o
mais válido possível, ou melhor, é algo imprescindível.

Ora, as considerações propostas acima nos conduzem diretamente ao âmago


do processo de “sociabilidade na empresa”. Em que consiste a sociabilidade? A
complexidade do mundo contemporâneo se apresenta como o fato da não
existência de consenso, já que a vida é posição plural de pretensões de relações e
de satisfações (Cf. SÁ, 2001).

123
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

IMPORTANTE:

Cada forma de vida possui uma pretensão de sociabilidade, ou seja,


uma pretensão de como se relacionar com outras formas e uma pretensão
de satisfação. Com efeito, a satisfação pessoal só se dá a partir de um sistema de
regras e de valores proveniente de uma determinada comunidade. Cada forma de
vida se pauta nas pretensões de satisfação de uma instituição, além de exprimir
uma forma de sociabilidade própria. A sociabilidade é a coexistência de formas de
vida que se pautam nas mesmas regras e normas sociais. Coexistir é estar junto.
Dessa forma, sociabilidade significa uma maneira ou uma forma de organizar
relações, sejam sociais, sejam no âmbito do trabalho.

Portanto, as empresas que se pautam pela ética devem levar em conta a noção
de “estarmos juntos”, isto é, da convivência e da sociabilidade, pois na sociedade
existem relações que se articulam em diferentes grupos sociais. Como cada pessoa
elege uma forma de sociabilidade, existem lógicas diferentes na articulação das
relações sociais. Sendo assim, a empresa ou a organização torna-se o espaço de
confrontação entre as várias pretensões de sociabilidade.

Nessa perspectiva, a “intenção da pessoa” para agir eticamente ou conforme


as normas estabelecidas pela empresa e a sua atuação profissional constituem a
força propulsora básica do seu comportamento. As “intenções pessoais”
dependem das crenças e atitudes que definem a maneira de um indivíduo ver o
mundo e agir sobre ele, ou seja, as suas percepções. Portanto, as “intenções
pessoais” são as causas imediatas e principais do comportamento ético-
profissional, e as crenças e atitudes são apenas “causas remotas”. Segundo essa
perspectiva, as pessoas têm objetivos e expectativas e agem intencionalmente
para concretizá-los. A finalidade dá o impulso e mobiliza as energias e gera a
intenção de realizar algo de “bom” ou de “ruim”.

Desse modo, segundo Camargo (2001), compete ao indivíduo avaliar as


alternativas de comportamento segundo sua capacidade de desempenhar e
conforme as exigências da tarefa proposta (a probabilidade de se motivar aumenta
à medida que o indivíduo se julga capaz de cumprir a tarefa e diminui quando ele
se julga incapaz) e, ainda, a sua crença de que o desempenho o levará ao resultado
desejado (a probabilidade de agir aumenta quando o indivíduo acredita que a
alternativa e os instrumentos escolhidos levam ao fim predeterminado).

124
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Na perspectiva da “intencionalidade pessoal”, como principal fator motivador


para um indivíduo dedicar-se a sua atividade profissional é o grau de satisfação
esperado em relação a sua atividade e não a satisfação realmente obtida na
execução de uma tarefa específica.

No sentido de aplicação prática, assim se resumem às dimensões básicas dessa


perspectiva:

 as pessoas dirigem seu comportamento de forma a alcançar


resultados que julgam serem os mais atraentes; logo, a maior
motivação para o trabalho estará ligada à capacidade de cada
serviço satisfazer expectativas individuais;

 os objetivos específicos definidos em conjunto com os subordinados


são bons instrumentos para melhorar a motivação e o desempenho;
objetivos vagos ou definidos unilateralmente, sem a incorporação de
expectativas individuais têm pouca força motivadora;

 a perspectiva da intencionalidade concentra-se no conhecimento do


indivíduo sobre os objetivos a alcançar. Mostra como objetivos bem
definidos e que constituem desafios resultam em melhor
desempenho, ao contrário de objetivos abstratos, pouco desafiantes
e sem levar em conta interesses individuais;

 a existência de uma política de relações humanas é decisiva para a


ética e o profissionalismo. Sua ausência compromete qualquer
padrão ético ou modelo de gestão responsável porque dissocia a
interação e o comportamento cotidiano das pessoas.

Na atuação profissional, tanto os deveres quanto as qualidades pessoais de um


profissional, devem ser levados em conta para a atuação virtuosa e ética do
profissional. A “ética da virtude” ensina que o exercício contínuo de bons hábitos
conduz à aquisição da virtude, mesmo que seja árduo o caminho para conquistá-la.
Da mesma forma, o atleta que almeja atingir recordes necessita treinar inúmeras
vezes e por longo tempo, antes de alcançar seu intento (Cf. CAMARGO, 2001).

125
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Em toda empresa, as pessoas conscientes desse esforço ético têm maior


probabilidade de tomar decisões corretas, sendo certo que, ao tomá-las, estarão
crescendo na virtude almejada. Decorre daí ser a ética uma ciência também prática,
e as virtudes, o resultado de ações repetidas no intuito de solucionar os dilemas.

Você deve estar se perguntando: quais são as virtudes que um profissional


precisa ter para que desenvolva com eficácia seu trabalho. Na verdade, múltiplas
exigências existem, mas entre elas, destacam-se algumas básicas, a qual
impossibilita a consecução do êxito moral. Quase sempre, na maioria dos casos, o
sucesso profissional se faz acompanhar de condutas fundamentais corretas. Tais
virtudes básicas são comuns a quase todas as profissões: virtudes são qualidades
que capacitam as pessoas a encontrar motivos para agir bem. Sem coação,
exercitando sua liberdade, a pessoa virtuosa sempre procura escolher o que é bom,
certo e correto.

As virtudes básicas profissionais, segundo Sá (2001), são aquelas


indispensáveis, sem a qual não se consegue a realização de um exercício ético
competente, seja qual for a natureza do serviço prestado. Estas virtudes devem
formar a consciência ética estrutural, os alicerces do caráter e, em conjunto,
habilitarem o profissional ao êxito em seu desempenho.

Ainda, na visão de Sá (2001, p. 34):

O senso de responsabilidade é o elemento


fundamental da empregabilidade. Sem
responsabilidade a pessoa não pode demonstrar
lealdade, nem espírito de iniciativa (...). Uma pessoa que
se sinta responsável pelos resultados da equipe terá
maior probabilidade de agir de maneira mais favorável
aos interesses da equipe e de seus clientes, dentro e
fora da organização (...). A consciência de que se possui
uma influência real constitui uma experiência pessoal
muito importante. É algo que fortalece a autoestima de
cada pessoa. Só pessoas que tenham autoestima e um
sentimento de poder próprio são capazes de assumir
responsabilidade. Elas sentem um sentido na vida,
alcançando metas sobre as quais concordam

126
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

previamente e pelas quais assumiram responsabilidade


real, de maneira consciente. As pessoas que optam por
não assumir responsabilidades podem ter dificuldades
em encontrar significado em suas vidas. Seu
comportamento é regido pelas recompensas e sanções
de outras pessoas - chefes e pares (...). Pessoas desse
tipo jamais serão boas integrantes de equipes.

Por esse motivo, a ética profissional visa também fundamentar ou justificar um


comportamento moral virtuoso. Mas com que propósito? Reprovando aqueles
comportamentos morais que não tomam o partido de justiça e do que é
socialmente bom para o homem ou refletindo sobre as amarras que fazemos
agentes sociais ficarem presos ao egoísmo ou àquilo que faz com que o indivíduo
não se importe com os outros.

Podemos então mostrar que o contexto da “ética dos negócios” segue os


mesmos pressupostos da questão teórica da ética como evidenciamos acima:
sabemos que o objeto da ética empresarial visa estudar, a partir de contextos
sociais bem demarcados e distintos, aquelas formas de comportamentos morais
que pautam as regras morais empresariais.

A importância dessa preocupação, surgida nos últimos anos sobre a


necessidade da ética dentro do mundo empresarial, seja no modo de formação de
funcionários ou na forma presencial de palestras e de reprovações a atitudes
inconcebíveis e danosas, reporta-nos à questão no qual já assinalamos: a
preocupação com a repercussão social e moral que certos problemas de decisões
acarretam na administração de bens e negócios.

Por essa razão, o “empresário líder”, ciente da realidade do mundo, dispõe-se a


modificar o rumo daquilo que muitos
consideram imutável, motivando seus
empregados a segui-lo, incentivando outros
líderes e empresários ou diretores a tomarem
decisões visando ao bem comum, mostrando-
se mais flexíveis e menos doutrinários.

127
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Para a “ética da responsabilidade”, o que importa é que os agentes possam


avaliar os efeitos e as consequências previsíveis de suas ações, buscando conciliar
os objetivos da empresa para fins que sejam vistos como bons. Todavia, a
finalidade de agir em função do que é visto como “bom” pode justificar que os
indivíduos realizem ações e recursos que não são sempre éticos.

IMPORTANTE:

A “ética da responsabilidade” não converte princípios ou ideais em


práticas do cotidiano, nem aplica normas ou crenças sobre virtudes
filosóficas, religiosas ou máximas morais aplicando-as nos termos da ética dos
negócios. Os valores do mundo econômico só podem ser compreendidos como
instrumentais e de acordo com as práticas empresariais aos quais são requeridos.

A lógica dessa ética, particularmente a da “responsabilidade”, é própria do


capitalismo em suas fases de complexidade, como diz Weber apud SROUR (2000, p.
50):

(...) toda atividade orientada pela ética pode


subordinar-se a duas máximas totalmente diferentes e
irredutivelmente opostas. Ela pode orientar-se pela
ética da responsabilidade ou pela ética da convicção.
Isso não quer dizer que a ética da convicção seja
idêntica à ausência de responsabilidade e a ética da
responsabilidade à ausência de convicção. Não se trata
evidentemente disso. Todavia, há uma oposição abissal
entre a atitude de quem age segundo as máximas da
ética da convicção — em linguagem religiosa, diremos:
‘O cristão faz seu dever, e no que diz respeito ao
resultado da ação remete-se a Deus’ — e a atitude de
quem age segundo a ética da responsabilidade que diz:
‘Devemos responder pelas consequências previsíveis
de nossos atos’.

128
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Não obstante, diante dos deveres de um profissional, devem ser levadas em


conta as qualidades pessoais que também concorrem para o enriquecimento de
sua atuação profissional, algumas delas facilitando o exercício da profissão. Muitas
destas qualidades são adquiridas com esforço e boa vontade, aumentando neste
caso o mérito do profissional que, no decorrer de sua atividade profissional,
consegue incorporá-las à sua personalidade, procurando vivenciá-las ao lado dos
seus deveres profissionais. Por fim, segundo Srour (2000, p. 46):

Agir eticamente dentro (ou fora) da empresa sempre foi e será uma decisão
pessoal. Uma vez que você tenha despertado para o assunto, mais e mais ele tende
a ser considerado nas decisões, num processo permanente, sem fim. É claro que
sempre estamos sujeitos a deslizes e equívocos. Nunca se esqueça, porém, de que
esse costuma ser um caminho sem volta. Para o bem ou para o mal.

Bem, as considerações apresentadas sobre a ambiência e o desempenho ético-


profissional são altamente relevantes para entendermos os conceitos principais da
responsabilidade social nos negócios. Veremos a partir de agora como este fato é
incorporado pelas empresas.

Ética e responsabilidade social nos negócios

As discussões sobre a responsabilidade social das empresas cada vez mais


ocupa espaço tanto no ambiente empresarial como nas discussões acadêmicas.
Todavia, não há unanimidade quanto a qual deva ser o procedimento social das
empresas, pois existem vários autores que a conceituam com grandes variações
terminológicas. Mas como assim? O que significa uma empresa ser socialmente
responsável?

Há aqueles que advogam que a empresa é socialmente responsável se cumpre


meramente a sua função de gerar empregos, pagar impostos e proporcionar lucros
aos acionistas. De outro lado, há aqueles que defendem a ideia de que as empresas
devem assumir um papel mais relevante do que o comportamento empresarial
clássico.

129
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Para Ashley (2002, p. 173):

Ser socialmente responsável implica, para a


empresa, valorizar seus empregados, respeitar os
direitos dos acionistas, manter relações de boa conduta
com seus clientes e fornecedores, manter ou apoiar
programas de preservação ambiental, atender à
legislação pertinente à sua atividade, recolher
impostos, apoiar ou manter ações que visem diminuir
ou eliminar problemas sociais nas áreas de saúde e
educação e fornecer informações sobre sua atividade.

De uma forma geral, entende-se por responsabilidade social o


comprometimento e o compromisso de uma empresa com relação à sociedade, a
partir de todas as ações que afetam os indivíduos e organizações, envolvendo
também e, principalmente, a prestação de contas para essa mesma sociedade. A
postura ética da organização, que envolve de forma ampla o crescimento
econômico com sustentabilidade, são componentes fundamentais da estratégia de
uma empresa socialmente responsável (Cf. ASHLEY, 2002).

Dentro desta linha de raciocínio, temos que na evolução da humanidade


sempre houve uma ligação entre o conceito de responsabilidade relacionado à
vida em sociedade. O homem sempre teve a
guiar suas ações o comprometimento de, ao
desempenhar suas atividades, não esquecer
caráter social e em como poderia afetar de
forma positiva ou negativa a sociedade em
que vivia. Todavia, na concepção de Fischer
(2002), o termo responsabilidade social surge
no século XX, como uma forma de buscar ampliar o papel das organizações em
suas relações com a sociedade, demonstrando que é inevitável sua interação com o
sistema social.

130
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Para a autora, o conceito de responsabilidade social foi extraído dos estudos


da “teoria das organizações” sendo uma das funções organizacionais a serem
administradas tanto nas relações internas quanto nas externas do sistema
organizacional. Essa visão, conforme afirma Fischer, foi o motivo pelo qual o
conceito não foi totalmente absorvido na gestão organizacional e gerencial. As
organizações ou empresas, muitas vezes, escolhiam cumprir com sua função social
através de um modo mais abrangente. No entanto, limitavam-se a desenvolver
pequenas ações em curto prazo de tempo ou apenas assumiam um caráter
“paternalista”, visando somente a resolver manifestações de conflito entre os
setores. Mas qual é a relação entre a responsabilidade social da empresa com a
ética?

Antes de prosseguirmos, cabe, portanto, fazer uma distinção entre


responsabilidade social e filantropia. Como já definimos responsabilidade social,
podemos dizer que na filantropia o foco é a ação social da empresa que tem como
beneficiária direta a comunidade. Na filantropia, as motivações são humanitárias, a
participação é reativa e as ações são isoladas, a relação com o público-alvo é de
demandante / doador, a ação social decorre de uma opção pessoal dos dirigentes,
os resultados resumem-se na gratificação pessoal de poder ajudar não havendo
preocupação em associar a imagem da empresa à ação social.

No sentido etimológico, a palavra responsabilidade deriva do latim respondere,


responder. Segundo o dicionário Aurélio, responsabilidade é “a qualidade de
responsável”, que “responde por atos próprios ou de outrem”, que “deve satisfazer
os seus compromissos ou de outrem” (HOLANDA, 1999, p. 578). As diferentes
significações percebidas para o termo suscitam questões ligadas à área do dever,
da obrigação legal ou moral que, por sua vez, nos faz adentrar o campo da ética.

Não obstante, o conceito de responsabilidade social empresarial surge dessa


forma como um “dilema ético”. Sabemos que a ética é definida como um sistema
de regras que governa a ordenação de valores. Como pessoas possuem códigos de
ética pessoais diferenciados, as organizações devem ser explícitas com relação aos
seus padrões éticos. Neste sentido, falar sobre ética e sua relação com
responsabilidade social nos conduzem diretamente ao problema do costume e
hábitos ligados às manifestações de cada sociedade através de sua cultura,
vivência e crenças (Cf. ASHLEY, 2002).

131
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Sendo assim, as responsabilidades éticas correspondem a atividades, práticas,


políticas e comportamentos esperados por membros da sociedade apesar de não
codificado em leis que envolvem uma série de normas, padrões e expectativas de
comportamento para entender o que os diversos públicos (stakeholders) com as
quais a empresa se relaciona consideram legítimo, correto, justo ou de acordo com
seus direitos morais e expectativas.

Com efeito, na atualidade, a discussão acerca do papel social das empresas


assume novas vertentes. Com a forma de fundamentação contra ou a favor da
responsabilidade social das empresas, existe no meio empresarial e acadêmico
uma busca por conhecer a relação entre o desempenho financeiro e o
desempenho social. Esta busca por conhecer tal relação se ampliou até o momento
de escolher as empresas nas quais o capital está aplicado, fazendo com que a
responsabilidade social não se insira nas considerações de mercado somente na
hora de uma compra ou uma venda de produtos ou na contratação de
fornecedores.

Um aspecto que reforça a relação do valor da empresa com práticas sociais é o


posicionamento dos maiores fundos de pensão da atualidade que, na condição de
investidores institucionais, estão exigindo cada vez mais responsabilidade social
das empresas aos quais investem:

Em encontro realizado em Haia, na Holanda, em


2001, representantes de cerca de 300 entidades, que
somam patrimônio de mais de US$ 5 bilhões,
elaboraram uma “lista negra” das empresas nas quais
não se deve investir por motivos que vão desde as
agressões ao meio ambiente até a exploração de
crianças. Além dos comentários sobre a corrupção no
Brasil, forma citados no encontro os acidentes
ambientais da Petrobrás – um fundo dinamarquês
sugeriu até que não se investe mais na petrolífera
brasileira por causa de acidentes (Ashley, 2002, p. 180).

132
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Diante do exposto a respeito das conceituações sobre a responsabilidade


social das empresas, ficou-nos patente que uma empresa socialmente responsável
é aquela que responde às expectativas de seus consumidores e acionistas. Com
base nisso, chegamos à conclusão de que a empresa socialmente e eticamente
responsável diz respeito à empresa que está atenta para lidar com as expectativas
de seus stakeholders atuais e futuros, na visão mais radical de sociedade
sustentável. Por outro lado, podemos afirmar que o conceito de “responsabilidade
social” agrupa, em seu núcleo central, as seguintes ideias:

 consciência maior sobre as questões culturais, ambientais e de


gênero;

 antecipação, evitando regulações restritivas à ação empresarial pelo


governo;

 diferenciação de seus produtos diante de seus competidores menos


responsáveis socialmente;

 promoção de valores e comportamentos morais que respeitem os


padrões universais de direitos humanos e de cidadania e
participação da sociedade.

A empresa socialmente responsável sempre agrega mais valores para si,


diferenciando-se de suas concorrentes numa ótica positiva, ainda que do ponto de
vista estritamente empresarial.

De acordo com Mattar (2001, p. 15):

Pesquisa do Instituto Ethos/Jornal Valor sobre a


percepção dos consumidores, realizada em 2000,
mostra que, no Brasil, 57% deles julgam se uma
empresa é boa ou ruim tendo por base a
responsabilidade social. E o que eles querem dizer com
isso? Os primeiros elementos citados são tratamento de
funcionários e a ética nos negócios. Adicionalmente, os
consumidores querem que a empresa melhore a

133
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

sociedade: é o que pedem 35% deles. E não apenas no


Brasil, mas em todo o mundo. Em quase todos os países
onde a mesma pesquisa foi feita o resultado neste item
foi o mesmo: 35%. Além disso, os consumidores
recompensam e punem as empresas pela sua
responsabilidade social. Recompensam ao comprar os
produtos e recomendar a empresa a seus conhecidos.
Punem ao não comprar os produtos e não recomendar
a empresa. Trinta e um por cento dos consumidores no
Brasil e 49% nos consumidores nos Estados Unidos
comportam-se desta forma.

Por outro viés, nas palavras de Boff (2003, p. 9), “responsabilidade é dar-se
conta das consequências que advêm de nossos atos”. Sabendo-se que a ética está
presente em todos e quaisquer relacionamentos que envolvem o ser humano,
levá-la em consideração é uma necessidade também nos negócios. Desse modo,
age eticamente e com responsabilidade social a empresa que:
 respeita a dignidade de seus empregados, não os vendo como
meros recursos;
 não agride o meio ambiente;
 não infringe os direitos do consumidor;
 não compromete as necessidades, as utilidades e os interesses
públicos quando objetiva usufruir benefícios fiscais;
 valoriza verdadeiramente o seu quadro de pessoal, promovendo o
seu desenvolvimento;
 não coloca a busca do lucro acima da legitimidade e justiça dos
interesses do homem e da sociedade.

Gostou das considerações a respeito da relação entre ética e responsabilidade


social? Compreendeu como estes dois conceitos estão alinhados na prática nas
empresas? A seguir discutiremos o tema das decisões morais racionais. Trata-se de
uma questão importante no âmbito empresarial: como tomar decisões? O que é
certo decidir? Como decidir? Estas são algumas indagações que vamos lhe
responder. Preparado? Vamos lá?

134
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Decisões morais racionais

Você já se deparou em uma situação em que precisava tomar uma decisão


rapidamente? O que você fez? Ah, não lembra né? Todos nós tomamos decisões,
elas estão presentes em todo momento da nossa vida. Você saberia definir o que é
uma decisão? O que significa “tomar uma decisão”?

Bem, primeiramente é preciso dizer que toda “tomada de decisão” envolve


escolhas. Por sua vez, as escolhas envolvem critérios gerais ou particulares aos
quais são determinados por nossa vontade. Neste sentido, é fácil perceber que o
processo de decisão moral está intimamente associado ao tema da vontade. Mas o
que é vontade? A vontade é a capacidade que o ser humano possui de deliberar e
escolher as ações que irá realizar, pois tão somente o ser humano possui a
capacidade de deliberar e escolher as ações que irá realizar.

Por conseguinte, a vontade diferencia-se do instinto, dos desejos e do apetite,


que se dão de forma mais ou menos pré-programada e fortemente vinculada à
estrutura corpórea. Na medida em que a intervenção resulta de uma atividade
refletida, as ações dela oriundas estão muito além das ações inconscientes e
predeterminadas.

Podemos conceituar a vontade como “a faculdade de perseguir o bem,


conhecido pela razão”. Neste sentido, a vontade não pode não querer buscar
aquilo que lhe é indicado pelo intelecto como bem naquele momento. Quando se
faz a opção por algo que a moral vigente condena, o problema não está na
vontade, mas na informação inadequada que lhe foi fornecida a partir da qual foi
feita a escolha.

Costuma-se caracterizar a vontade sob os seguintes princípios:

 princípio de atividade inteligente: não atua cegamente, pois conhece


o fim a que tende; sabe dos meios de que necessita para atingir o
fim; tem noção das consequências que resultarão da decisão
tomada; pode ser orientada;

135
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

 princípio de atividade livre: é capaz de conduzir a si mesma


(autônoma); escolhe entre as diferentes possibilidades que a razão
lhe oferece.

 princípio de atividade ordenada: é o objeto próprio da vontade; a


liberdade nasce da escolha que o homem deve fazer entre os
diferentes bens que se lhe apresentam.

Diante da definição de vontade referida acima, podemos notar que esta refere-
se tão-somente ao ato moral e racional praticado em vistas ao bem. Por
conseguinte, a noção de bem deve ser sempre acompanhada pela noção de mal.
Desse modo, o bem e o mal se encontram em uma relação recíproca e constituem
um par de conceitos axiológicos inseparáveis e opostos. Toda concepção de bom
implicará na definição de mal. Contudo, atualmente, em função da pluralidade de
formas de vida, de sociabilidade e das formações culturais é difícil constatar um
consenso sobre o que é bem e o que é mal. Na verdade, nem na Antiguidade
clássica houve um consenso a respeito dos critérios para se avaliar o que é bem e o
que mal.

Vejamos brevemente algumas destas concepções a respeito do que é bem e


do que mau ao longo da história da filosofia:

 o hedonismo: doutrina que foi pregada desde a Grécia Antiga por


filósofos como Górgias, Cálicles e Arístipo. Defende que o bem é
tudo aquilo capaz de oferecer prazer imediato. Por sua vez, o mal é
aquilo que gera sofrimento;

 o epicurismo: doutrina elaborada por Epicuro, que procurava


aperfeiçoar o hedonismo. Defendia que o bem não era qualquer
prazer, mas os prazeres devidamente selecionados. Assim, Epicuro
construiu uma espécie de hierarquia dos prazeres, considerando
superiores, por exemplo, os prazeres naturais em vez dos artificiais;
os prazeres calmos, em vez dos violentos. O supremo prazer era,
entretanto, o prazer intelectual, obtido mediante o domínio das
paixões pela razão;

136
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

 o estoicismo: o filósofo Zenão é considerado o fundador da escola


estoica, que pregava um espírito de total renúncia aos desejos,
considerados como a fonte de todo sofrimento humano. O bem
consistia na aceitação da ordem universal, que deve ser
compreendida pela razão;

 o formalismo kantiano: o filósofo alemão Kant defende a


concepção moral que identifica o bem ao cumprimento puro e
simples do dever. A fonte do dever é a razão humana que elabora
normas orientadoras de nossa conduta moral;

 o tomismo: o filósofo cristão Santo Tomás de Aquino postula que o


bem consiste nas ações capazes de aproximar o homem de Deus.
Tomás de Aquino reconhece que a razão humana possui condições
de estabelecer deveres morais, mas procura harmonizar esses
deveres à ordem de Deus, revelada ao homem pela fé cristã;

 o humanismo: Os pensadores contemporâneos da tradição


humanística defendem que somente o homem deve determinar,
para si próprio, o que seja bem ou mal. E o que é bem? É tudo o que
é bom para a natureza humana; tudo o que impulsiona a vida dessa
natureza; tudo o que colabora para a realização das potencialidades
humanas. Assim, para determinarmos o bem, devemos estudar e
conhecer a natureza humana em profundidade, tarefa da qual se
ocupam ciências como a Psicologia, a Antropologia, a História, etc.

Diante do exposto, verifica-se que as doutrinas elencadas oferecem uma


tentativa de resposta ao que é bom no sentido geral ou o bom em absoluto, ou
seja, em todas as circunstâncias, independente do ato moral que se trate ou da
situação concreta que se efetue.

No caminho inverso a estas concepções doutrinárias originadas ao longo da


histórica da filosofia, as decisões morais racionais partem de situações concretas e
específicas. Segundo Chiavenato (2004), a tomada de decisão é tarefa mais comum
de todo bom administrador. Porém, os gestores ou administradores não são os
únicos a decidir, pois o trabalho do executivo consiste não apenas em tomar
decisões próprias, mas também em providenciar para que toda a empresa que
dirige, ou parte dela, tome-as também de maneira efetiva.

137
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Mas o que é uma decisão? A decisão é um processo de análise e escolha entre


várias alternativas disponíveis em relação a uma ação que deverá ser seguida ou
não de acordo com a nossa vontade. Em outras palavras, a decisão é um
julgamento, uma escolha estabelecida entre alternativas, incluindo todos os “o
que”, “quando”, “quem”, “por que” e “como”, que aparecem nos processos de
decisão. Com o objetivo de evitar problemas futuros, os administradores devem se
basear em decisões cuidadosamente formuladas.

As principais condições de decisão são:

 decisão em condições de certeza: ocorre quando a decisão é feita


com pleno conhecimento de todos os estados da natureza do
processo decisório. Existe a certeza do que irá ocorrer durante o
período em que a decisão é tomada. É possível atribuir
probabilidade 100% a um estado específico da natureza da decisão.
A probabilidade estatística e pragmática do processo decisório pode
indicar que a posição de 0% será a completa incerteza e a posição de
100% ou 1 indica a certeza da tomada de decisão;

 decisão em condições de risco: ocorre quando não são conhecidas


as probabilidades associadas a cada um dos estados da natureza do
processo decisório. Ao contrário do item anterior, que dispunha de
quase 100% de certeza no resultado final, aqui essa certeza irá variar
entre 0% e 100%;

 decisão em condições de incerteza ou em condições de


ignorância: ocorre quando não se obteve informações e dados
sobre o estados da natureza do processo decisório, ou mesmo em
relação à parcela desses estados. A empresa possui dados e
informações parciais, obtidos com probabilidade incerta ou é
desconhecida a probabilidade associada aos eventos que estão
provocando a decisão;

 decisão em condições de competição ou em condições de


conflito: ocorre quando estratégia e estados da natureza do
processo decisório são determinados pela ação de competidores.
Existem, obrigatoriamente, dois ou mais gestores externos — outras
empresas concorrentes — envolvidos e o resultado vai depender da
escolha de cada um dos decisores nesse ambiente competitivo.

138
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

O ato de tomar decisões faz parte do cotidiano da vida e está presente em


todos os seus aspectos, indo desde tópicos pessoais até decisões mais
abrangentes, como no planejamento de grandes projetos que envolvem as
organizações privadas e públicas. As decisões têm frequentemente um impacto
muito além do resultado imediato. Em geral, as decisões
tomadas no âmbito organizacional estão direcionadas A “Teoria das Decisões”
para o futuro, que é fruto das idealizações nas quais as nasceu de Herbert Simon, que a
decisões são baseadas. utilizou para explicar o
De acordo com Gomes (2002), numa empresa, uma comportamento humano nas
decisão precisa ser tomada sempre que está diante de organizações. O autor, no seu
um problema que apresenta mais de uma alternativa de livro O Comportamento
solução. Mesmo quando, para solucioná-lo, possuí uma Administrativo (1970), diz que a
única opção a seguir, podendo ter a alternativa de adotar Teoria Comportamental
ou não essa opção, ou seja, alternativa para deliberar. concebe a organização como
Este processo de escolher o caminho mais adequado à
um “sistema de decisões”.
empresa, naquela circunstância, também é conhecido
como “tomada de decisão”.

Toda escolha que fazemos envolve um fim ao qual visamos. Para realizar uma
ação, é preciso competência e coragem para realizá-la. A essência das atividades
administrativas é, fundamentalmente, um processo de tomada de decisão e este,
por sua vez, o ato de decidir é essencialmente uma ação humana e
comportamental. Ela envolve a seleção consciente de determinadas ações entre
aquelas que são fisicamente, moralmente e racionalmente possíveis para o agente
e para aquelas pessoas sobre as quais ele exerce influência e autoridade.

Como vimos, a tomada de decisão no interior das organizações


contemporâneas envolve vários estilos de enfrentamento de decisões e problemas.
Tanto aquele que evita, como aquele que soluciona, bem como aquele que
soluciona o problema possui um papel a desempenhar dentro da mesma empresa.
Embora um tipo e estilo em particular possa ser mais eficaz que os outros, em uma
situação específica, todas as organizações ou empresas são confrontadas com uma
variedade bastante complexa de desafios que exigem uma gama de estilos e
soluções (Cf. GOMES, 2002).

Podemos apontar seis elementos fundamentais no processo de decisão


moralmente racional:

139
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

 o tomador de decisão: é a pessoa que faz uma escolha ou opção


entre várias alternativas de ação;
 os objetivos: aquele em que o tomador de decisão pretende
alcançar com suas ações;
 as preferências: os critérios que o tomador de decisão usa para fazer
sua escolha;
 a estratégia: o curso da ação que o tomador de decisão escolhe para
atingir os objetivos, dependendo dos recursos que venha a dispor;
 a situação: os aspectos do ambiente que envolvem o tomador de
decisão, muitos dos quais se encontram fora do seu controle,
conhecimento ou compreensão e que afetam sua escolha;
 o resultado: refere-se à consequência ou resultante de uma dada
estratégia de decisão.

Com efeito, a tomada de decisão dentro das empresas ou organizações


contemporâneas de negócios envolve todos os tipos e estilos de solução de
problemas. Tanto aquele que evita como aquele que soluciona, bem como aquele
que antecipa os problemas, tem um papel a desempenhar dentro da mesma
empresa. Embora um tipo e estilo em particular possa ser mais eficaz do que
outros, em uma situação específica, todas as empresas são confrontadas com uma
variedade bastante complexa de desafios que exigem uma gama de estilos de
solução de problemas (Cf. GOMES, 2002).

No interior da empresa, em razão da busca das metas, existem níveis


diferentes de tomada de decisão. São os níveis estratégico, tático e operacional de
tomada de decisão que vão mobilizar todos os recursos de uma empresa para a
concretização dos seus objetivos.

Vejamos alguns exemplos:

 as decisões estratégicas são aquelas que determinam os objetivos da


organização como um todo, seus propósitos e direção, sendo uma
função exclusiva da alta administração. A direção da empresa tem o
“quadro geral” de todos os elementos de seu negócio e
precisa ser capaz de integrá-los em um todo coerente no
ambiente da organização. As decisões tomadas nesse âmbito
também determinarão como a empresa se relacionará com os

140
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

ambientes externos. Já que as políticas estratégicas afetam a


empresa como um todo, elas são mais adequadas quando tomadas
no nível mais alto. Essas políticas e metas não são muito específicas,
porque precisam ser aplicadas em todos os níveis e departamentos;

 em relação às decisões táticas (ou administrativas), elas são tomadas


em um nível abaixo das decisões estratégicas. Normalmente são
tomadas pela gerência intermediária, como gerentes de divisão ou
de departamentos. Essas decisões envolvem o desenvolvimento de
táticas para realizar as metas estratégicas definidas pela alta
gerência. Decisões táticas são mais específicas e concretas do que
decisões estratégicas e mais voltadas para a ação. Por exemplo,
decisões sobre compras, execução de uma política de redução de
custos, definição do fluxo produtivo ou treinamento do pessoal,
entre outras.

 e por último, as decisões operacionais, que são tomadas no nível


mais baixo da estrutura organizacional, no campo da supervisão ou
operacional de uma empresa e se referem ao curso de operações
diárias. Essas decisões determinam a maneira como as operações
devem ser conduzidas — operações desenhadas a partir de decisões
táticas tomadas pela gerência intermediária — e referem-se à
maneira mais eficiente e eficaz de realizar as metas estabelecidas no
nível médio.

Cabe ressaltar que as decisões tomadas nas empresas frequentemente afetam


todo o seu contexto, influenciam uma determinada política ou até mesmo uma
parcela da sociedade onde elas estão inseridas. Por isso, ao longo do tempo, o
estudo sobre a decisão vem se apoiando em diversos fatores para que o “tomador
de decisão” tenha mais segurança diante dos possíveis problemas surgidos (Cf.
GOMES, 2002).

141
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Com efeito, as decisões administrativas se referem a problemas mais


complexos, exigem maior quantidade de informações, envolvem maior número de
pessoas e geram mais impacto na comunidade. Nesse tipo de decisão, a própria
caracterização do problema foge às possibilidades normais do senso comum. Não
se esqueça: uma decisão é uma opção clara pela prática de algo diferente, pela
tomada de um novo curso de ação. Toda decisão impõe uma escolha, gera uma
possibilidade de mudança.

Escolhas — profissionais ou não — provocam dilemas. Dilemas


que muitas das vezes implicam o abandono de opções também
valiosas que envolvem a consciência de riscos e incertezas e o
sentimento de responsabilidade. Em se tratando de decisões
administrativas, esperam-se justificativas ou razões que fundamentem
as escolhas. A razão é parte da causa da decisão: se há razões para se
escolher e agir, a decisão se impõe aos decisores.

Normalmente, presume-se que as organizações desenvolvem


intenções de mudar suas relações com o mundo exterior, ou seja, suas
intenções estratégicas, de acordo com as variações percebidas no
contexto em que se inserem. Na tentativa de responder a essas
provocações externas, dirigentes e gestores procuram ser racionais e eticamente
coerentes — procuram saber por que decidem da maneira como o fazem. Para
tanto, necessitam, além de conhecer suas razões, saber como serão
responsabilizados, ou seja, conhecer as razões de outros.

Para Gomes (2002), a todo instante o administrador sofre o desafio das


mudanças constantes, das transformações rápidas e da convivência com situações
nem sempre muito claras. Estes pressupostos levam-no a decidir de forma rápida e
coerente com os anseios da empresa.

Vejamos um pequeno exemplo de decisão racional ética envolvendo uma


empresa particular: o caso Granite Rock.

Granite Rock é uma empresa de 99 anos, sediada em Watsonville, Califórnia


nos Estados Unidos, especializada no ramo de venda de cascalho triturado,
concreto, asfalto e areia. Há alguns anos, os irmãos herdeiros, Bruce e Steve
Woolpert, tomaram a decisão de lançar o que chamaram de MEGAA – “Metas

142
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Grandiosas, Arriscadas e Audaciosas”. A proposta dos irmãos Woolpert era


garantir a total satisfação do cliente e tornar a empresa tão ou mais bem
posicionada que a Nordstrom, empresa conhecida em todo o mundo por encantar
seus clientes.

Tratava-se de um objetivo nada simples para uma empresa que atua em um


setor árido e enfadonho, com empregados com qualificação relativamente baixa e,
em geral, bastante rudes. Por um lado, os irmãos Woolpert queriam tornar sua
empresa parecida com a Nordstrom em eficiência e simpatia no atendimento aos
clientes, contudo não pretendiam seguir o mesmo caminho que a maioria das
empresas faz quando lança um programa desse porte — nada de liderança
empolgante, patrocínio de eventos extravagantes ou grandes programas de
serviços aos clientes.

Eles pensavam em algo mais discreto, de acordo com o perfil relativamente


conservador da família. Optaram por implementar uma política radical chamada
pagamento a menor. Essa política estava enunciada na parte inferior da nota fiscal
da Granite Rock: “Se você não estiver satisfeito por qualquer razão, não nos pague
pela mercadoria em questão. Basta riscar a linha a ele correspondente, escrever
uma breve nota sobre o problema e devolver-nos uma cópia da fatura com seu
cheque no valor do saldo remanescente”.

A política do pagamento a menor não é, simplesmente, restituição de


pagamento. É bem mais do que isso. Os clientes não precisam devolver a
mercadoria. Eles decidem se e quanto devem pagar, de acordo com o nível de
satisfação total. Os impactos causados pela política do pagamento a menor foram
extraordinários, tanto em âmbito externo quanto interno. Externamente, significou
uma clara demonstração de que qualidade no atendimento não era somente um
slogan. Por outro lado, internamente, passou a exigir dos funcionários um real
empenho no bom atendimento à clientela.

O raciocínio ético se fez fartamente presente na decisão do caso Granite Rock.


Por que isto aconteceu? Ora, os irmãos queriam implantar, em sua empresa, um
sistema de atendimento ao cliente similar ao da Nordstrom. No entanto, para fugir
dos padrões convencionais de implementação de novas políticas dentro da
empresa, os irmãos Woolpert adotaram eticamente caminhos diferentes. Dessa
forma, tiveram a oportunidade do insight criativo do “pagamento a menor”.
Realmente, esta forma de pagamento foi impactante nos negócios da empresa.

143
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Compreendeu através do exemplo como as decisões são tomadas na prática


em uma empresa? Continue lendo e se aprofundando no assunto, pois a literatura
sobre este tema é vastíssima.

SUGESTÃO DE FILME

Pegue seu caderno de anotações, sente-se e assista ao filme A Firma


(1993) dirigido por Sydney Pollack. Ele contextualizará melhor ainda o conteúdo
que você acabou de estudar.

LEITURA COMPLEMENTAR

Visando enriquecer seu processo de aprendizagem procure efetuar a


leitura complementar dos seguintes textos:

MATTAR, J. A. Filosofia e Ética na Administração. São Paulo: Saraiva, 2004.


408p.

ASHLEY, P. A. (coord.). Ética e Responsabilidade Social nos Negócios. São


Paulo: Saraiva, 2002. 340p.

BOFF, L. A ética e a formação de valores na sociedade. Reflexão, São Paulo:


Instituto Ethos, ano 4, nº. 11, p. 3-20, out. 2003. Disponível em:
<http://www.ethos.org.br>. Acesso em: 29 out. 2004.

FISCHER, R. M. O desafio da colaboração: práticas de Responsabilidade social


entre empresas e terceiro Setor. São Paulo: Editora Gente, 2002. 234p.

CAMARGO, M. Fundamentos de ética geral e profissional. 3ª. ed. Petrópolis:


Vozes, 2002. 89p.

CHIAVENATO, I. Introdução à teoria geral da administração. 7ª. Ed. Rio de


Janeiro: Campus, 2004. 280p.

DISKIN, L.; MARTINELLI, M.; MIGLIORI, R.F.; SANTO, R.C.E. Ética, Valores
humanos e Transformação. 1ª. ed. São Paulo: Fundação Petrópolis, 1998, p. 66

144
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

GOMES, L. F. A. M.; GOMES, C. F. S.; ALMEIDA, A. T. Tomada de decisão


gerencial: enfoque multicritério. São Paulo: Atlas, 2002. 296p.

SROUR, H.S. Ética Empresarial. 8ª. ed. Rio de Janeiro: Campus, 2000. 389p.

VAZQUEZ, A. S. Ética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. 304p.

SÁ, A. L. de. Ética profissional. 4ª edição: São Paulo: Ed. Atlas, 2001. 296p.

TOFFLER, B. L. Ética no trabalho. São Paulo: Makron Books, 1993. 125p.

Aproveite e visite os sites abaixo. Todos eles foram amplamente consultados


em nossa pesquisa. Bom proveito!

Responsabilidade social: Disponível em: <http://www.responsabilidadesocial.com/>.


Acesso em 16 maio 2008.

GIFE: Disponível em: <http://www.gife.org.br/>. Acesso em 16 maio 2008.

IBASE: Disponível em: <http://www.ibase.org.br/>. Acesso em 16 maio 2008.

É HORA DE SE AVALIAR!

Lembre-se de realizar as atividades propostas no caderno de


exercícios! Elas são fundamentais para ajudá-lo a fixar o conteúdo teórico
trabalhado, a sistematizar as ideias e os conceitos apresentados, além de
proporcionar a sua autonomia no processo ensino-aprendizagem. Caso prefira,
redija suas respostas no caderno de exercícios e depois as envie através do nosso
ambiente virtual de aprendizagem (AVA).

Procure interagir permanentemente conosco e utilize todos os recursos


didáticos e pedagógicos disponibilizados com o objetivo de aprimorar a sua
formação acadêmica.

Nesta unidade, você estudou os pressupostos da ética profissional. Para tanto,


discutimos os valores sociais predominantes nas profissões em geral, em seguida,
abordamos a questão da ambiência e relações pessoais, ou seja, o desempenho
ético-profissional. Por fim, discutimos os princípios fundamentais das decisões
morais racionais.

145
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Como esta é nossa última unidade de estudo, gostaria de registrar que foi um
imenso prazer tê-lo como aluno. Esperamos, sinceramente, que a perspectiva
aberta pela ética possa contribuir para o sucesso da sua prática profissional e para
um relacionamento pessoal e existencial mais tolerante e aberto, com a difícil e, ao
mesmo tempo, fascinante oportunidade que a vida nos oferece de conviver e de
aprender com a diferença e os múltiplos valores sociais com os quais nos
relacionamos constantemente.

Sucesso nos estudos! Estamos torcendo por você!

146
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Exercício – unidade 4

1ª QUESTÃO: Assinale a letra correspondente à alternativa que preenche


CORRETAMENTE as lacunas do texto a seguir:

“A ética profissional deve estar em sintonia com os pressupostos que incidem


na _______ e a sua dignidade. Respeitar a “pessoa humana” implica também
combater toda a prática que a diminua. A “pessoa humana”, em sua ________, é
muito mais que um simples corpo ou uma simples “máquina”, que pretende ter
suas peças trocadas ou desmontadas”.

a) conduta desumana - heterogeneidade

b) conduta humana - totalidade

c) mentalidade humana - homogeneidade

d) “pessoa humana” - totalidade

e) conduta humana - totalidade

2ª QUESTÃO: O emprego, pela primeira vez, do termo pessoa fora dos sentidos
restritos que lhe eram fornecidos pelo teatro se deve a:

a) Kant.

b) Foucault.

c) Sartre.

d) Boécio.

e) Maquiavel.

3ª QUESTÃO: Diversas são as condições ambientais sob as quais se pode


observar a atuação do profissional em seus respectivos espaços e relações de
trabalho. Entres estas, podemos citar:

147
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

a) demissões e permissões.

b) comissão de qualidade e grupo inconstante.

c) empresa falida e empresa secreta.

d) sociedade secreta e ambiente exposto.

e) sócio de uma empresa consorciada ou associada.

4ª QUESTÃO: Em que consiste as decisões táticas (ou administrativas)?

a) As decisões táticas (ou administrativas) são aquelas tomadas fora do ambiente


empresarial.

b) As decisões táticas (ou administrativas) são aquelas tomadas por um grupo


minoritário e fora de controle.

c) As decisões táticas (ou administrativas) são aquelas tomadas em um nível


abaixo das decisões estratégicas. Normalmente são tomadas pela gerência
intermediária, como gerentes de divisão ou de departamentos.

d) As decisões táticas (ou administrativas) são aquelas tomadas em um nível mais


alto das decisões funcionais.

e) As decisões táticas (ou administrativas) são aquelas tomadas longe das


decisões específicas que permitem o empresário decidir como e onde sonegar
impostos.

5ª QUESTÃO: Cada forma de vida possui uma pretensão de sociabilidade, ou seja,


uma pretensão de como se relacionar com outras formas e uma pretensão de
satisfação. Com efeito, a satisfação pessoal só se dá a partir de um sistema de
regras e de valores proveniente de uma determinada comunidade. Cada forma de
vida se pauta nas pretensões de satisfação de uma instituição, além de exprimir
uma forma de sociabilidade própria. De acordo como isso, assinale a única questão
que apresenta corretamente o conceito de “coexistir”.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

a) Coexistir é viver além da existência.


b) Coexistir é existir solitariamente.
c) Coexistir é estar junto.
d) Coexistir é não existir.
e) Coexistir é conviver sem o próximo.

6ª QUESTÃO: No sentido etimológico, a palavra responsabilidade deriva do latim


respondere, responder. Com este sentido etimológico, assinale a alternativa que
indica o que entende-se por ‘responsabilidade’.
a) Responsabilidade é “a qualidade de responsável”, que “responde por atos
próprios ou de outrem”, que “deve satisfazer os seus compromissos ou de
outrem”.
b) Responsabilidade é o fato de responder socialmente as exigências
transfiguradas.
c) Responsabilidade significa ser irresponsável consigo mesmo.
d) Responsabilidade é qualidade de estar aquém ao outro.
e) Responsabilidade é o mesmo que coexistir.

7ª QUESTÃO: Toda “tomada de decisão” envolve escolhas. Por sua vez, as escolhas
envolvem critérios gerais ou particulares os quais são determinados pela nossa
vontade. Neste sentido, é fácil perceber que o processo de decisão moral está
intimamente associado ao tema da vontade. Por vontade, entende-se:

a) a capacidade que o ser humano possui de formular decisões.

b) a capacidade que o ser humano possui de impor regras a si mesmo.

c) a capacidade que o ser humano possui de formular indecisões.

d) a capacidade que o ser humano possui de incidir momentos especiais na sua


mente.

e) a capacidade que o ser humano possui de deliberar e escolher as ações que irá
realizar, pois tão-somente o ser humano possui a capacidade de deliberar e
escolher as ações que irá realizar.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

8ª QUESTÃO: Assinale a letra correspondente à alternativa que preenche


CORRETAMENTE as lacunas do texto a seguir:

“A decisão é um ______ de análise e escolha entre _________ disponíveis em


relação a uma ação que deverá ser seguida ou não de acordo com a nossa
_______”.

a) acaso - várias alternativas - vontade

b) processo - poucas alternativas - deliberação

c) acaso - nenhuma alternativa - deliberação

d) processo - várias alternativas - vontade

e) processo - várias alternativas - indexação

9ª QUESTÃO: O ato de tomar decisões faz parte do cotidiano da vida e está


presente em todos os seus aspectos, indo desde tópicos pessoais até decisões mais
abrangentes, como no planejamento de grandes projetos que envolvem as
organizações privadas e públicas. Com base nisso, explique o que caracteriza a
decisão em condições de incerteza ou em condições de ignorância.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

10ª QUESTÃO: Costuma-se caracterizar a vontade sob os seguintes princípios.


Caracterize o princípio de “atividade inteligente”.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

152
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Considerações finais

Caro aluno, chegamos ao término da disciplina Ética, Valores Humanos e


Transdisciplinaridade. As discussões que nortearam esta disciplina objetivaram
esclarecer que a preocupação com a ética é fundamental para a manutenção da
nossa vida social e dos direitos dos cidadãos, pois a democracia é alinhada à
cidadania e à consciência ética. Nunca a história da humanidade se deparou com
tamanho interesse acerca da ética, dos valores morais e das normas sociais como
nos tempos atuais.

O que se verifica nisso é que o cidadão de hoje despertou para o


conhecimento de seus direitos e deveres primordiais. Aprendeu evolutivamente a
distinguir o que é certo do que é errado, aprendeu a exigir e a fundamentar as suas
decisões em preceitos puramente racionais. Em contrapartida, também passou a
ser cobrado em suas respectivas obrigações, deveres sociais ou profissionais.

Com efeito, o cultivo dos valores da cidadania e da responsabilidade social,


profissional, ética e moral tornou-se fundamental para o bom convívio dos
indivíduos no ambiente profissional e na esfera social. Sem o devido respeito às
garantias individuais e às diferenças culturais, nunca poderemos obter conquistas e
avanços sólidos em nossa sociedade contemporânea. Ao aprender a respeitar o
outro, aprendemos a respeitar a nós mesmos, pois o direito do outro começa onde
termina o nosso. Para tanto, precisamos perpetuar estes elementos estabelecendo
regras claras e objetivas capazes de delinear uma conduta segura, válida e
socialmente aceita entre os indivíduos.

Enfim, uma vida melhor depende de uma vida com ética e responsabilidade
social.

A Universo Virtual parabeniza-o por ter concluído seus estudos, aumentando a


sua bagagem com conhecimentos e habilidades que irão beneficiá-lo por toda a
vida. Mas a sua aprendizagem não pára por aqui. Mantenha sempre o hábito da
leitura e da pesquisa: atualize-se e não se esqueça de praticar o que foi aprendido.
Sucesso!
Equipe Universo Virtual.

153
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Conhecendo o autor

O professor Delmo Mattos é Bacharel, Mestre e Doutor em Filosofia pela


Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atua como professor universitário e
tutor em EaD na Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO), além disso,
desenvolve pesquisas acadêmicas na área de Ética e Filosofia Política Moderna e
Contemporânea.

154
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Referências

ASHLEY, P. A. (Coord.). Ética e Responsabilidade Social nos Negócios. São


Paulo: Saraiva, 2002. 340p.

Escrita por 12 importantes pesquisadores sobre o assunto no Brasil esta obra é


totalmente voltada à realidade brasileira. Fugindo da visão tradicionalista,
mercantil ou puramente filantrópica, o livro utiliza-se de abordagem inovadora
para mostrar o papel estratégico da responsabilidade social nos negócios. Além de
apresentar os conceitos fundamentais, a obra dedica uma parte a exemplos e casos
reais ocorridos nos mais diversos tipos de organizações no Brasil.

ARRUDA, M.C.C. Código de Ética: Um instrumento que adiciona valor. 1ª. ed.
São Paulo: Negócio, 2002. 390p.

Nesta obra, o leitor terá acesso a um conjunto de informações para construir


um novo código de ética, sintonizado com uma postura mais consciente. Nesta
publicação, a autora traz exemplos concretos de código de ética de indústrias,
associações, empresas multinacionais, bancos e serviços.

CAMARGO, M. Fundamentos de ética geral e profissional. 3ª. ed. Petrópolis:


Vozes, 2002. 118p.

Hoje se fala muito em ética: ética na política, nas relações compre entre
pessoas, grupos e povos. Mas, o que seria propriamente a ética? O que a distingue
de outras ciências humanas? Ética nas empresas: o que é? Como, entretanto, a ética
vê o premiado ser humano? Este pequeno e denso livro propõe-se a responder
estes questionamentos aos estudantes que dão os primeiros passos no
Fundamentos da Ética Geral e Profissional.

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Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

CHIAVENATO, I. Introdução à teoria geral da administração. 7ª ed. Rio de


Janeiro: Campus, 2004. 280p.

A “Introdução à teoria geral da administração” oferece uma visão das


organizações e do seu contexto, traz novidades da teoria administrativa, bem
como indicações das tendências do moderno mundo organizacional. A idéia é
manter o ITGA como a bíblia do administrador em um mundo em constante
mudança e inovação. Como a TGA é ampla e mutável, as teorias tradicionais estão
cedendo gradativamente mais espaço no livro para as teorias mais recentes e
modernas. A idéia é preparar o leitor para o mundo novo que virá, sem deixar de
lado o conhecimento sobre o mundo organizacional que está sendo superado
gradativamente pelas inovações.

DISKIN, L.; MARTINELLI, M.; MIGLIORI, R.F.; SANTO, R.C.E. Ética, Valores
humanos e Transformação. 1ª. ed. São Paulo: Fundação Petrópolis, 1998, 200p.

Com esse volume, dedicado ao potencial humano, ao autoconhecimento, à


ética e aos valores humanos, os profissionais empenhados numa atuação mais
integrada e flexível terão excelentes oportunidades para refletir sobre temas que
vêm sendo ilustrados no Programa de Educação para a Paz, realizado pela
Fundação Petrópolis e pelo Instituto de Estudos do Futuro.

FISCHER, R. M. O desafio da colaboração: práticas de Responsabilidade social


entre empresas e terceiro Setor. São Paulo: Editora Gente, 2002. 234p.

Este livro aborda a questão da responsabilidade social como um processo, não


como mais um modismo corporativo. Apresenta os condicionantes que explicam o
crescente engajamento de empresas em ações que buscam minimizar a exclusão
social. Também demonstra a implementação de uma conduta socialmente
responsável no dia-a-dia das atividades das empresas no mercado em relação aos
impactos das ações empresariais na comunidade, com seus funcionários, clientes,
fornecedores, etc.

156
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

GOMES, L. F. A. M.; GOMES, C. F. S.; ALMEIDA, A. T. Tomada de decisão


gerencial: enfoque multicritério. São Paulo: Atlas, 2002. 296p.

Este livro é pioneiro no tratamento dos princípios e métodos analíticos do


Apoio Multicritério à Decisão, técnica que permite a estruturação dos problemas
decisórios e viabiliza sua análise, conduzindo à recomendação de soluções. O
objetivo dos autores é tornar acessível à língua portuguesa um conjunto de
conceitos que caracterizam o vasto campo da Administração e da Pesquisa
Operacional, usualmente denominado em nosso idioma de “Apoio Multicritério à
Decisão” ou, do ponto de vista essencial de suas aplicações, “Tomada de Decisão
Gerencial”. Eles demonstram como os processos complexos de tomada de decisão
podem ser facilitados quando se utiliza o enfoque multicritério.

MACHADO, R. Nietzsche e a verdade. São Paulo: Brochura, 1999. 116p.

Ao apresentar os aspectos crítico e afirmativo do pensamento nietszcheano,


que vai ao passado para diagnosticar o presente, o autor focaliza sua análise da
racionalidade científico-filosófica de Nietszche e explicita suas relações com a arte
e a moral, além de fornecer instrumentos conceituais indispensáveis para uma
crítica radical aos valores da sociedade contemporânea.

MATTAR, J. A. Filosofia e Ética na Administração. São Paulo: Saraiva, 2004.


408p.

Na obra, Filosofia e ética na administração o autor busca explorar os pontos de


comunicação entre os universos da filosofia, da ética e da administração. Um de
seus grandes destaques é a aplicação da filosofia e da ética na vida das
organizações de forma clara, didática e completa. O livro aprofunda-se em algumas
questões mais complexas, levando o leitor a refletir e a compreender melhor não
só o mundo dos negócios, mas também a sociedade que o cerca e a si próprio. O
livro traz para o debate e introduz as idéias de Chester Barnard e Mary Parker
Follett, 'filósofos da administração' importantíssimos, mas que foram esquecidos e
ignorados na história das idéias e da administração.

157
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

MOREIRA, J. M. A Ética empresarial no Brasil. São Paulo: Pioneira, 2002. 389p.

Neste livro, o autor desvenda muitos aspectos da ética das empresas e


apresenta conceitos e temas de reflexão aplicáveis aos relacionamentos dessas
organizações com seus clientes, fornecedores, concorrentes, empregados,
autoridades e a sociedade em geral.

STANLEY J. GRENZ & JAY T. SMITH . Dicionário de Ética. 1ª Edição. São Paulo:
Brochura, 2005. 184p.

Este dicionário de ética tem por objetivo ajudar o leitor a se tornar um bom
eticista. Os autores desejam contribuir com esse objetivo grandioso fornecendo ao
leitor um instrumento para que venha a ser um eticista mais bem informado. Para
isso, apresentam definições ou descrições breves de alguns dos termos e nomes
mais importantes encontrados em livros e em debates no vasto domínio da ética.
Apesar de não serem exaustivas, essas definições visam a fornecer um
conhecimento funcional básico dos conceitos fundamentais que se ligam a
conversas em torno de ética. Entre os mais de 300 definições, você encontrará -
termos, como altruísmo e virtude; Assuntos controversos, como eutanásia e guerra;
Cosmovisão, como aristotelismo e utilitalismo; áreas de competição de valores e
idéias, como ética publicitária e tecnológica.

VAZQUEZ, A. S. Ética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

304p.

Ao elaborar este volume, o grande objetivo de Adolfo Sánchez Vásquez foi


introduzir o leitor nos problemas fundamentais da Ética nos dias de hoje. Além de
abordar temas clássicos como 'o objetivo da ética', ' a essência da moral', 'o
determinismo e liberdade' e ' a avaliação moral', o autor discute questões cruciais e
pouco exploradas como moral e história, e forma lógica e justificação dos juízos
morais. Usando uma linguagem clara e acessível, mas mantendo o rigor teórico e
observando as exigências de fundamentação e investigação sistemática, Sánchez
Vázquez examina os diversos fatores sociais que contribuem para a prática da
moral.

158
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

ARANHA, M. L. de A., MARTINS, M. H. P. FILOSOFANDO - Introdução à Filosofia.


3ª edição. São Paulo: Editora Moderna, 2001. 439p.

Neste livro, as autoras propõem uma introdução à Filosofia tanto para alunos
do Ensino Médio e dos ciclos básicos universitários, quanto para aqueles que
desejam um conhecimento mais sistemático dos variados pensamentos filosóficos.
O livro possui trinta e três capítulos distribuídos em seis unidades. Cada capítulo
inicia-se com um texto básico contando ainda, a maioria deles, com leituras
complementares que visam ampliar o conhecimento de textos de outros autores.
No final de cada capítulo, há questões de interpretação para aprofundamento. O
livro traz também projetos de trabalhos, filmografia, quadro cronológico,
vocabulário dos principais conceitos filosóficos utilizados, orientação bibliográfica
e índice de nomes.

VALLS, Á. L.M. O que é ética. 9a edição. São Paulo: Ed.Brasiliense, 1996. 84p.

Não existe povo ou lugar que não tenha noções de bem e mal, de certo e
errado. Da Grécia Antiga aos nossos dias, a ética é um conceito que sempre esteve
presente em todas as sociedades. Mas apesar disso, as dúvidas são muitas. Seria a
ética apenas um conjunto de convenções sociais? Teria ela um princípio supremo
que atravessa toda a história da humanidade? E numa sociedade capitalista, qual a
relação entre ética e lucro?

SROUR, H.S. Ética Empresarial. 8ª. ed. Rio de Janeiro: Campus, 2000. 389p.

Nas empresas inseridas em mercados competitivos, as relações de trabalho


passaram por radicais mudanças - os trabalhadores deixaram de ser descartáveis e
desqualificados, para tornar-se trabalhadores qualificados e polivalentes. Ao
operário clássico contrapôs-se uma nova espécie de operador, profissional sem
uniforme, escolarizado e capacitado, portador de qualificações técnicas sujeitas à
permanente reciclagem. Ao uso físico que se fazia da força de trabalho do primeiro,
opôs-se a utilização das faculdades mentais do segundo. Todas essas
transformações, no entanto, não resultaram de algum voluntarismo altruísta.
Decorreram das inúmeras pressões que a cidadania organizada exerceu no
cotidiano das empresas e das ruas. E o processo de intervenção política da
sociedade civil veio testando as suas forças e veio redefinindo as relações
capitalistas desde o período entre as duas guerras mundiais.

159
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

HAMLYN, D.W. Uma história da filosofia ocidental. Rio de Janeiro: Jorge


Zahar ed., 1990. 416p.

Uma história dos grandes pensadores filosóficos, desde os pré-socráticos até


as principais correntes da filosofia contemporânea, e suas respostas aos profundos
problemas envolvidos na tentativa de entender o mundo e nosso lugar nele.

ARISTÓTELES (Tradução de Mário da Gama Kury). Ética a Nicômacos. 4ª ed.


Brasília: Editora Universidade de Brasília - UNB, 2001. 240p.

Ética Nicômaco é a principal obra ética de Aristóteles. Nela se expõe sua


concepção teleológica e eudaimonista de racionalidade prática, sua concepção da
virtude como mediania e suas considerações acerca do papel do hábito e da
prudência na ética. É considerada a mais amadurecida e representativa do
pensamento aristotélico.

ARENDT, H. Entre o passado e o futuro. 5ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2003.


350p.

Entre o passado e o futuro é, entre os livros de Hannah Arendt, aquele que


pulsa simultaneamente o conjunto de inquietações a partir do qual esta admirável
representante da cultura de Weimar ilumina o discurso político do século XX. Ele
contém praticamente todo o temário de sua obra, constituindo-se, portanto, num
ponto de partida por excelência de toda a tentativa de interpretação e organização
do seu pensamento.

BORHEIM, G. A. Sartre. São Paulo: Editora Perspectiva, 2000. 320p.

Autor busca as implicações metafísicas do pensamento sartriano a fim de


elucidar as raízes e o alcance de seus dois conceitos básicos; o Ser e o Nada.
Integram o volume dois textos suplementares que abordam a concepção sartriana
da linguagem e o problema de Deus.

160
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

PEREIRA, O. O que é moral? Sao paulo: Brasiliense, 1996. 90p.

'Eu crio a minha própria moral e o mundo que se dane!' Quem define assim a
própria 'liberdade' de agir e pensar desconhece que a moral carrega uma
contradição - ela nasce da interação dialética entre seu caráter social (herança
preservada pela comunidade) e a convicção pessoal, alimentada por todos nós, de
que o 'bom' para uns pode não ser bom para outros, e vice-versa. A moral tem,
portanto, duas faces - pode servir à reação conservadora ou a postura
revolucionária.

LA BOÉTIE, E. Discurso da Servidão Voluntária. 4ª ed. São Paulo: Brasiliense,


2001. 240p.

Nesse livro, La Boétie analisou, com grande profundidade, o problema da


tirania e da liberdade, concluindo que o maior bem do cidadão é a liberdade. O
livro teve grande repercussão na Europa e foi amplamente analisado por
Montaigne. O autor joga, intencionalmente, com o termo tirano, no decorrer da
obra, confundindo-o, como na Antigüidade, com a acepção de rei.

NASH, L. Ética nas empresas: boas intenções à parte. São Paulo: Makron
Books, 2001. 359p.

Este livro fornece informações para a implantação de um conceito de Ética nas


empresas, além de descrever situações em que a falta de ética resulta em
problemas graves internos nas organizações, em interrupções da rotina normal de
trabalho e outras ocorrências danosas às empresas. Este livro consegue, ao lado de
uma rica conceituação teórica, transmitir reflexões e conselhos eminentemente
práticos aos que diariamente se confrontam com os dilemas éticos do mundo dos
negócios. A autora fornece informações para a solução de problemas como -
implantar conceitos éticos nas empresas; restabelecer os conceitos de integridade
e bom senso; enxergar situações de ângulos diversos; formar condutas
responsáveis nos negócios e também no âmbito individual. Este é um livro de Ética
que, acima de tudo, enfatiza o fator liderança.

161
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

MARRUS, M. R. A assustadora história do Holocausto. Rio de Janeiro:


Ediouro, 2003. 436p.

Esta obra estuda a gênese da ideologia anti-judaica dos nazistas, e em que


medida esse pensamento existia no povo alemão ou fora inculcado por seus
líderes. Analisa também, o surgimento da Endlösung, da Solução Final, e seu
significado. Haveria uma intencionalidade central, vinda dos líderes do Reich, ou
uma ação interminante, influenciada pelas mudanças de cenário de guerra, por
explosões de ódio, ou, até mesmo, pela fria máquina dos burocratas?

ROOS, Sir D. Aristóteles. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1987. 395p.

Aristóteles é, com certeza, o pensador mais estudado e interpretado da


história da Filosofia. Sua obra tem despertado interesse crescente, principalmente
nas últimas décadas, o que fez com que o número de estudos sobre os aspectos da
sua filosofia se multiplicasse. No entanto, nem sempre essas novidades e trabalhos
recentes conseguem atingir a complexidade e excelência de conteúdo que estudos
antigos preservam. Este livro, escrito há mais de cem anos, conserva a atualidade e
a qualidade dos argumentos, tamanha é a afinidade entre os espíritos do intérprete
e o do autor interpretado. É uma introdução valiosa a toda essa tradição em cujo
renascimento recaem hoje as melhores esperanças de uma ciência que não seja
inimiga da sabedoria.

SÁ, A. L. de. Ética profissional. 4 ª edição. São Paulo: Ed. Atlas, 2001. 296p.

Seguindo a tendência das ciências de se embasarem não só na lógica, mas


também na metafísica, o livro estuda a consciência ética e o dever ético sempre
com base em filósofos clássicos e modernos significativos no que diz respeito à
ética profissional na sociedade contemporânea. Embora direcionado
preferencialmente às Ciências Contábeis, curso em que a disciplina Ética é
obrigatória, o livro propicia uma fonte de referência sobre o tema para professores,
estudantes e profissionais das mais diversas áreas.

162
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

SAVATER, F. Ética para meu filho. São Paulo: Martins Fontes, 2002. 189p.

Como falar de ética a adolescentes sem cair na simples crônica das idéias
morais ou na doutrinação casuística sobre questões práticas? Este livro não
pretende resolver este problema nem ser um manual escolar de moralidade.
Procura contribuir, filosófica e literalmente, para colocar da melhor maneira essa
preocupação. Dirige-se especialmente aos leitores entre quatorze e dezesseis anos
e nem tanto aos professores deles.

SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. São Paulo: Nova


Brochura, 2004. 257p.

O texto O Existencialismo é um humanismo, foi escrito por Sartre para explicar


o existencialismo e defender-se de críticas feitas por leigos. Nele, Sartre afirma que
a existência precede a essência. Isto significa que não há uma receita para se fazer
um ser humani, que Deus não é um artífice superior que antes de criar o homem já
tinha seu rascunho em mente. Ou seja, temos que partir da subjetividade. Não há
uma essência igual em todas as pessoas, explica Sartre, uma natureza humana,
portanto não há uma lista de regras estabelecidas antes de o ser humano existir;
então, ele as tem que criar por si mesmo. Não pode existir nada a priori, para Sartre,
já que ele não acredita em Deus, em uma consciência perfeita que pudesse
conceituar as coisas.

TOFFLER, B. L. Ética no trabalho. São Paulo: Makron Books, 1993. 125p.

Este livro contribui para a implantação de posturas comportamentais nas


organizações, oferecendo uma detalhada visão dos principais códigos existentes
na iniciativa privada e no serviço público, além de incluir um capítulo específico
sobre 'como instituir uma ética de qualidade' e um questionário para 'auditoria
ética'. A obra mostra ao leitor que as exigências do cidadão contemporâneo não
recaem apenas em produtos ou serviços de qualidade, mas também de natureza
ética.

163
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

TUNGENDHAT, E. Lições sobre ética. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 1997. 432p.

Tugendhat iniciou seus trabalhos sobre filosofia prática após quinze anos de
trabalho teórico. Dessa nova fase já resultaram suas dezoito "Lições sobre ética",
que compõem, segundo o autor, sua obra mais expressiva. Nela ele aplica toda a
sua capacidade em debates da ética contemporânea, com uma vitalidade
empolgante.

SILVA, F. L. Ética e Literatura em Sartre: ensaios introdutórios. São Paulo:


UNESP, 2004. 264p.

Este livro integra a Coleção Biblioteca de Filosofia, cujo objetivo é a publicação


de trabalhos dos mais jovens e dos mais velhos, na busca de dar visibilidade ao que
Antonio Candido (referindo-se à literatura brasileira) chama de 'um sistema de
obras' capaz de suscitar debate, constituir referência bibliográfica nacional para os
pesquisadores e despertar novas questões no intuito de alimentar uma tradição
filosófica no Brasil, além de ampliar, com outros leitores, o interesse pela filosofia e
suas enigmáticas questões. Mostra como a questão da ética é relevante na obra de
Sartre, considerada a abordagem concreta de delineamentos presentes nas
reflexões do pensador francês sobre conceitos como a má-fé, o ser-para-si e o ser-
para-outro.

VERNANT, Jean-Pierre. Mito e Pensamento entre os gregos. 28ª ed. São


Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 2005. 400p.

Mito e pensamento entre os gregos é uma pesquisa sobre a Grécia antiga.


Jean-Pierre Vernant oferece um sugestivo estudo das transformações psicológicas
que a experiência grega preparou e da viragem que ela operou na história interior
do homem

164
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Anexos

165
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Gabaritos

Unidade 1
1. c
2. d
3. a
4. e
5. a
6. e
7 a
8 c
9 R: A moral refere-se ao conjunto de regras de conduta consideradas como
válidas, quer de modo absoluto para qualquer tempo ou lugar, quer para grupo ou
pessoa determinada.
10 R: Para o autor, a ética relaciona-se com qualquer teoria científica. Sendo
assim, seu papel é de explicar esclarecer ou investigar uma determinada realidade,
elaborando os conceitos correspondentes.

Unidade 2
1. b
2. a
3. b
4. b
5. c
6. a
7 e
8 a
9 R: O ato normativo é constituído pelas normas ou regras de ação e pelos
imperativos que enunciam algo que deve ser.
10 R: Estes juízos que enunciam obrigações e avaliam intenções e ações segundo
o critério do correto e do incorreto. Os juízos éticos de valor nos dizem o que são o
bem, o mal e a felicidade.

166
Ética, Valores Humanos e Transdisciplinaridade

Unidade 3
1. a
2. a
3. c
4. c
5. c
6. c
7 e
8 e
9 R: Um código de ética profissional é um acordo explícito entre membros de
um grupo social, isto é, de uma categoria profissional, de um partido político ou de
uma associação civil.
10 R: O objetivo primordial do código de ética profissional é expressar e
encorajar no sentido da justiça e decência em cada membro do grupo organizado,
deve indicar um novo padrão de conduta interpessoal na vida de cada profissional
que esteja exercendo qualquer cargo na organização.

Unidade 4
1. d
2. d
3. e
4. c
5. c
6. a
7 e
8 d
9 R: Decisão em condições de incerteza ou em condições de ignorância ocorre
quando não se obteve informações e dados sobre os estados da natureza do
processo decisório, ou mesmo em relação à parcela desses estados. A empresa
possui dados e informações parciais, obtidos com probabilidade incerta ou é
desconhecida a probabilidade associada aos eventos que estão provocando a
decisão.

10 R: Este princípio pressupõe que não se deve atuar cegamente, pois conhece o
fim a que tende; sabe dos meios de que necessita para atingir o fim; tem noção das
consequências que resultarão da decisão tomada; pode ser orientada.

167

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