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TEOLOGIA SOCIEDADE

TEOLOGIA
o
N 8

SOCIEDADE
Outubro de 2011 São Paulo - SP

N 8
o
Outubro de 2011
CAMBIO CLIMÁTICO Y ECOTEOLOGIA
Guillermo Kerber

A DOUTRINA DA CRIAÇÃO À LUZ DA ECOTEOLOGIA


Paulo de Góes

O CUIDADO PASTORAL E A ECOLOGIA

São Paulo - SP
Shirley Maria dos Santos Proença

A TEODICEIA NA TEOLOGIA CRISTÃ:


o
o

O MAL NA CRIAÇÃO
IGREJA Reginaldo von Zuben
PRESBITERIANA
TEOLOGIA MISSIONAL SÓCIO-AMBIENTAL
INDEPENDENTE DO BRASIL Timóteo Carriker

A ÁGUA, A TERRA, PARAÍSO E INFERNO


ECOLÓGICOS
Derval Dasílio

EZEQUIEL E A SUSTENTABILIDADE:
UMA LEITURA ECOLÓGICA
DE EZEQUIEL 47
Lysias Oliveira dos Santos

Resenha
O PRINCÍPIO
RESPONSABILIDADE

A
Rubens Menzen Bueno
A
FACULDADE DE TEOLOGIA FUNDAÇÃO EDUARDO
DE SÃO PAULO CARLOS PEREIRA

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A
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ESP
Editor
Eduardo Galasso Faria

Conselho Editorial
José Adriano Filho, Leontino Farias dos Santos, Pedro Lima
Vasconcellos, Ronaldo Cardoso Alves, Waldemar Marques.
Teologia e Sociedade é editada pela Faculdade de Teologia de
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DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO
Teologia e Sociedade / Faculdade de Teologia de São Paulo / Vol. 1,
nº 8 (outubro 2011). São Paulo: Pendão Real, 2011.

Anual
ISSN 1806563-5

1. Teologia – Periódicos. 2. Teologia e Sociedade.


3. Presbiterianismo no Brasil. 4. Bíblia. 5. Pastoral.
CDD 200

Revisão: Eduardo Galasso Faria


Planejamento gráfico, capa e
editoração eletrônica: Seivadartes (www.seivadartes.com.br)
Ilustrações: arquivo
Impressão: Gráfica Potyguara
Tiragem: 500 exemplares
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As informações e as opiniões emitidas nos artigos assinados são


de inteira responsabilidade de seus autores.

ACESSE
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Sumário
6 EDITORIAL

8 CAMBIO CLIMÁTICO Y ECOTEOLOGIA


Guillermo Kerber

24 A DOUTRINA DA CRIAÇÃO À LUZ DA ECOTEOLOGIA


Paulo de Góes

40 O CUIDADO PASTORAL E A ECOLOGIA


Shirley Maria dos Santos Proença

50 A TEODICEIA NA TEOLOGIA CRISTÃ: O MAL NA CRIAÇÃO


Reginaldo von Zuben

66 TEOLOGIA MISSIONAL SÓCIO-AMBIENTAL


Timóteo Carriker

78 A ÁGUA, A TERRA, PARAÍSO E INFERNO ECOLÓGICOS


Derval Dasílio

96 EZEQUIEL E A SUSTENTABILIDADE: UMA LEITURA ECOLÓGICA


DE EZEQUIEL 47
Lysias Oliveira dos Santos

RESENHA

110 O PRINCÍPIO RESPONSABILIDADE


Rubens Menzen Bueno





Editorial



















Ainda que não seja ausen- todos diretamente. Acabáva-

te entre nós a abordagem da  Eduardo Galasso F



mos de assistir aos efeitos do
questão da ecologia – prepa- tsunami que atingiu o Japão e

ra-se a comemoração dos vin- provocou enorme destruição,



te anos da Eco 92, no Rio – com conseqüências incalculá-



há muito que se fazer para veis e duração imprevisível.



que a consciência ecológica Algum tempo depois, perto de



possa ter o alcance que lhe é nós, no sul do país, foi a vez

Faria
aria

devido na sociedade neste sé- dos deslizamentos de terra e



culo XXI. A cada dia senti- das inundações, expulsando de



mos próximos ou distantes os suas casas milhares de pesso-



efeitos das mudanças climá- as, que ficaram sem ter onde

ticas sobre as populações em se abrigar, em uma clara evi-



nosso planeta. Ao se reunir, dência dos efeitos da destrui-


no começo do ano, o Conse- ção ambiental sobre os mais



lho Editorial de Teologia e pobres e desamparados. Não



Sociedade procurava se fixar há dúvida de que a obra do Cri-



em um tema para a nova edi- ador todo-poderoso, planeja-



ção da revista (no. 8). Foi com da para a o bem-estar da hu-


naturalidade que brotou, pro- manidade, está ameaçada pela



vavelmente por uma intuição ação do pecado e do egoísmo



solidária, a ideia de que era humanos. Tem-se dito que a



necessário determo-nos nes- natureza não pode suportar



ta problemática, que afeta a tudo o que o ser humano tem










6






feito com ela, de maneira irrespon-


Góes e Reginaldo Von Zuben, pro-



sável. Por seu turno, a Igreja, por curam relacionar o que vem ocor-



princípio de missão evangélica,

EDITORIAL
REVIST
REVISTA
rendo em nosso planeta com as



não pode assistir inerte ao que vem tradicionais doutrinas da criação


ocorrendo com o planeta Terra, a


e da presença do mal nela

A TEOL

grande casa preparada por Deus (teodiceia). Lysias dos Santos, em

TEOLOGIA

para as suas criaturas viverem fe- sintonia com o tema, faz a análise


OGIA E SOCIEDADE Vol. 1 nº 8 , outubro de 20


lizes. Conscientes do apelo que dos exegética de um capítulo do livro



céus alcança a tantos, os colabo- do profeta Ezequiel. Os malefícios


radores da revista pensaram em ○ provocados pela ação humana so-
analisar o desequilíbrio ecológico

bre a água, a terra e a natureza são


como ameaça sobre a vida, apontados por Derval Dasílio, que



aprofundando uma discussão que faz comparação com a visão bíbli-



permitisse antever a ação reden- ca acerca dos mesmos pontos no



tora do Senhor Jesus, que alcança AT e nos evangelhos. A preocupa-


as pessoas e toda a sua criação.


ção com pistas para uma ação pas-


Pensou-se em ampliar um estudo toral e a missão cristã em um



que é chamado pelos teólogos hoje, mundo que sofre os males do



de ecoteologia. O resultado desta desequilíbrio ambiental é explora-



preocupação está nos escritos que da por Shirley dos Santos Proen-

se seguem e que, por certo, ajuda- ça e Timóteo Carriker. Ao final,


rão aqueles que estão voltados para


Rubens Bueno apresenta resenha


2011
a missão que é dada ao povo de sobre um importante e atual livro

Deus. Levantando diversas per- do filósofo alemão Hans Jonas, so- 11


11,, São P

guntas e procurando respostas na bre o princípio responsabilidade,



ciência e na teologia, o uruguaio que foi traduzido para o portugu-


Paulo

Guillermo Kerber escreve sobre


aulo
aulo,, SP

ês. Uma boa leitura a todos!


uma espiritualidade voltada para (EGF)


Eduardo Galasso F

a renovação da criação e a eco-jus-



tiça. O texto, mantido na língua



espanhola, evidencia o nosso de-


PÁGINAS 6 E 7 

sejo de enfrentar juntamente com


os irmãos e irmãs da América La-



tina, esta causa comum. Paulo de


Faria

aria






7






Desafios del cambio





climático a la ecoteologia
A DOUTRINA DA CRIAÇÃO À LUZ DA ECOTEOLOGIA
PÁGINAS 24 A 39, 2011















Introducción: “que veinte años cita para hacerse cargo del desafío

reo Rodrigues de Oliveira
*

*
no es nada...”?1 Guillermo Kerber*



y la crisis ecológica y proponer cla-
Hace ya al menos veinte años ves de interpretación y acción. El

que se viene desarrollando una


obispo metodista Federico Pagura


reflexión ecoteológica en Améri- traía, en el Segundo Encuentro, el



ca Latina. En el Cono Sur, por proceso conciliar de Justicia, paz



ejemplo, en 1989, 1990 y 1991 e integridad de la creación del



una serie de Encuentros Consejo Mundial de Iglesias2. En



Latinoamericanos de Cultura, Éti- aquel tiempo, la ecoteología era


ca y Religión frente al Desafío una respuesta a la denominada, en



Ecológico, celebrados en la época, crisis ecológica. La



Montevideo, Buenos Aires y Por- reflexión acompañó el proceso



to Alegre respectivamente, daban hacia la Cumbre de la Tierra en



cuenta de los avances de la Rio de Janeiro en 1992, en el que


ecoteología latinoamericana.

la presencia ecuménica e

Activistas, científicos, pastores, interreligiosa fue significativa.



teólogos y filósofos del continen-



te y allende el océano se daban




PAULO DE GÓES

1
El título de esta introducción cita un conocido

tango del cantante Carlos Gardel, Volver. La estrofa


dice:
* Guillermo Kerber es uruguayo, graduado en Filosofía

Sentir / que es un soplo la vida / que veinte años no


y Teología, doctor en Ciencias de la Religión (UMESP,


es nada / que febril la mirada / errante en las som-

Brasil). Antiguo profesor de Etica Social, actualmente


bras / te busca y te nombra

coordina el Programa sobre Cuidado de la Creación y 2


Cf. Autores varios. Cultura, Etica y Religion frente al

Cambio Climático en el Consejo Mundial de Iglesias,


desafio ecológico. CIPFE, Montevideo: 1990 y Auto-

en Ginebra, Suiza. Título original do artigo: Desafios


res varios. Crisis, ecología y justicia social. CIPFE,

del Cambio Climático a la Ecoteologia: Perspectivas


Montevideo: 1991.

Ecuménicas.






8






Ahora Rio de Janeiro volverá a En este artículo, quiero


 REVISTA

ser, en Junio de 2012 la sede de una introducir algunos temas centrales



conferencia de las Naciones Unidas. de la reflexión ecoteológica

A DESAFIOS
REVIST
REVISTA


Esta vez sobre Desarrollo planteados o reformulados por el


Sustentable3. Al abordar los diver- desafío del cambio climático. El

TEOLOGIA E SOCIEDADE
A TEOL

sos aspectos del mismo, el cambio tema del cambio climático no agota,

TEOLOGIA

climático tendrá sin lugar a dudas evidentemente el contenido de la


OGIA E SOCIEDADE Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São P


un lugar central. La Convención so- ecoteología. Hay una inflación y

DEL CAMBIO Vol.




bre el Cambio Climático fue moda del tema cambio climático,


adoptada en la Conferencia sobre ○
con lo que su contenido ha sido
Ambiente y Desarrollo en Rio en devaluado y considerado de forma

1992. Si bien Rio+20 no debería muy superficial. Lo que intentaré es



centrarse exclusivamente en el cam- mostrar algunos elementos claves del


CLIMÁTICO

bio climático (las conferencias de mismo y por qué plantea desafíos


1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


Estados Partes de la Convención son nuevos a la ecoteología y reformula


el lugar para ello), una discusión otros. El artículo se compone de los



sobre la economía verde y el marco siguientes apartados:



institucional para el desarrollo 1. La ciencia del cambio climático

A L A ECOTEOL

sustentable (los dos temas de la con- 2. Algunas implicaciones ecoteo-



ferencia) no podrá eludir la discusión lógicas


ECOTEOLOGIA

sobre el cambio climático. 2.1. Una renovada teología de la


Pero volviendo a la ecoteología, creación



veinte años después, ¿qué es lo que 2.2. Las dimensiones de la eco-



ha cambiado? Es evidente que en justicia


OGIA

varios niveles ha habido un desarrollo 2.3. Una espiritualidad de la



sumamente importante. Decenas, si creación


Paulo

no centenas, de libros han sido pu- 3. Conclusión. Repercusiones


aulo
aulo,, SP PÁGINAS 8 A 23

blicados, curricula han sido ecuménicas. Hacia una praxis



desarrollados, hay blogs y grupos de ecoteológica



Facebook con ese nombre, etc4.


1. La ciencia del


Guillermo Kerber

cambio climático

3
Cf. http://www.uncsd2012.org/rio20/

4
Valga a título de ejemplo, la Revista Concilium en su

número 331 (Junio 2009) que tiene como tema:


Antes de presentar algunos datos

Ecoteología: nuevas cuestiones y debates, el blog http:/


/ecoteologiapuj.blogspot.com/. En inglés la lista es mucho


de la ciencia del cambio climático,

más extensa.





9






permítaseme hacer unas breves para referirse a “aprender a apren-



consideraciones epistemológicas. La der” (el “deutero-learning” o



teología en general (y la ecoteología “deutero-aprendizaje” batesoniano).
A DESAFIOS DEL CAMBIO CLIMÁTICO A LA ECOTEOLOGIA
PÁGINAS 8 A 23, 2011



en particular) no puede construirse Luego Bateson será citado en nume-


de espaldas a la investigación cientí- rosas oportunidades en otras obras8,



fica. Reconociendo sus autonomías pero donde ocupa un lugar prepon-



epistemológicas, es necesario, des- derante y definitivo será en una de



de ambas disciplinas, intentar ten- sus últimas: ¿Qué mundo? ¿Qué



der puentes entre el saber científico hombre? ¿Qué Dios?



y el saber teológico para un Teniendo en cuenta lo anterior, es


enriquecimiento mutuo. En otro lu- relevante, pues, resumir lo que nos


gar he estudiado más particularmen- ○

dice la ciencia del cambio climático.
te la relación entre ecología y En los últimos años, la

teología 5. Desde la primera, investigación científica sobre el cam-



Gregory Bateson, sin ser cristiano, bio climático se ha desarrollado


asume varios axiomas teológicos en considerablemente, y se ha confir-



sus libros6. Desde la segunda, Juan mado que las actividades humanas,

Luis Segundo, dialoga con Bateson como la quema de carburantes



desde su primera obra Liberación fósiles, son muy probablemente las



de la Teología7, que expresa sus responsables del cambio climático.



planteamientos metodológicos más El calentamiento del planeta ya está


profundos desarrollados en obras teniendo muchas consecuencias



posteriores, y el pensador de origen medibles y en el futuro se esperan



inglés será una referencia permanen- cambios de gran envergadura.



te en obras posteriores en 1975, ¿Cómo podemos adaptarnos a



estos cambios? ¿Pueden las medi-


das de atenuación limitar la



magnitud del cambio climático y sus


5
Guillermo Kerber. O ecológico e a teología latinoamericana.

GUILLERMO KERBER

Sulina, Porto Alegre: 2006. impactos?


6
Cf. e.g. Gregory Bateson. Pasos para una ecología de

la mente. Lohlé, Buenos Aires: 1972; Espiritu y En 2007, el Grupo Intergu-


Naturaleza. Amorrortu, , Buenos Aires: 1982; Gregory


y Mary Catherine Bateson. El temor de los ángeles. bernamental de Expertos sobre el


Epistemología de lo sagrado. Gedisa, Barcelona: 1989.


Juan Luis Segundo. “Liberación de la teología. Lohlé,


Cambio Climático (GIECC) trató

de responder a estas cuestiones a


Buenos Aires:1975, p. 118, 136.


8
Cf. por ejemplo Juan Luis Segundo. El dogma que
través de su Cuarto Informe de

libera. Sal Terrae, Santander: 1991, p. 365. Juan Luis


Segundo. ¿Qué mundo? ¿Qué hombre? ¿Qué Dios? Sal


Evaluación, que reúne las

Terrae, Santander: 1993.







10






informaciones científicas, técnicas y superficie terrestre.

 REVISTA

socio-económicas disponibles sobre La concentración atmosférica de



el cambio climático en todo el mun- gases de efecto invernadero como



do. Aunque una minoría de científi- el dióxido de carbono (CO2), el


cos es escéptica frente al cambio metano (CH4) y el óxido nitroso

TEOLOGIA E SOCIEDADE

climático, afirmando ya que éste no (N2O) ha aumentado notablemente



existe o que no tiene una causa desde el comienzo de la revolución



antrópica, la inmensa mayoría de los industrial. Esto se debe principal-



científicos concuerdan con los datos mente a actividades humanas como


presentados por el GIECC. Según ○
la quema de combustibles fósiles, el
una encuesta, el 90% de los científi- cambio en los usos de la tierra y la

cos en general están de acuerdo en agricultura. Por ejemplo, la



que el calentamiento global es un concentración atmosférica de CO2


Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


dato y cerca de un 82% en que la es en la actualidad muy superior a



actividad humana ha tenido un la que ha existido en los últimos


factor determinante en el aumento 650.000 años. Además, a lo largo



de temperaturas. Y si tomamos sólo de los últimos diez años la



a los climatólogos, el porcentaje concentración ha aumentado al rit-



aumenta a 97%9. mo más alto desde que comenzaron



Tomando pues el Cuarto Infor- los registros sistemáticos alrededor



me de Evaluación del GIECC como de 1960. Es muy probable, pues, que


el consenso científico en cambio cli- desde 1750 las actividades humanas,



mático10, resumo, a continuación, en su conjunto, hayan provocado el



algunos de los contenidos esenciales calentamiento del planeta.



de dicho informe con algunas ¿Qué cambios climáticos se han



actualizaciones11. observado hasta el momento? El


¿Cuáles son las causas del cam-



bio climático? El clima del planeta



9
Cf. http://articles.cnn.com/2009-01-19/world/
depende de muchos factores. La

eco.globalwarmingsurvey_1_global-warming-climate-

science-human-activity?_s=PM:WORLD
cantidad de energía procedente del

10
Cf. e.g. Naomi Oreskes. The scientific consensus on

Sol es el más importante de ellos, climate change, Science, December 2005, accesible en:

http://www.sciencemag.org/content/306/5702/1686.full

aunque también intervienen otros 11


Los informes del GIECC (en inglés IPCC) pueden ser

encontrados en su página web: http://www.ipcc.ch/


factores como la concentración de

home_languages_main_spanish.shtml. Los datos que


gases de efecto invernadero en la siguen están tomados del resumen de Greenfacts en:

http://www.greenfacts.org/es/cambio-climatico-ie4/

atmósfera o las propiedades de la index.htm








11






calentamiento global es una realidad go plazo, a escala de continentes,



incontestable, evidenciada por nu- regiones y océanos: cambios en las



merosas observaciones en torno al temperaturas y el hielo en el Ártico,
A DESAFIOS DEL CAMBIO CLIMÁTICO A LA ECOTEOLOGIA
PÁGINAS 8 A 23, 2011



aumento de las temperaturas at- el nivel general de precipitaciones,


mosféricas y oceánicas, el la salinidad de los océanos, el



derretimiento generalizado de nieve régimen de vientos y las condiciones



y hielo y el aumento del nivel medio climatológicas extremas: por



global del mar. ejemplo el aumento en la intensidad



El año 2010 ha sido el año más y frecuencia de sequías, fuertes



cálido desde que se llevan regis- precipitaciones, olas de calor o ci-


tros12. Entre 1906 y 2005, la tem- clones tropicales.


peratura mundial de la superficie ○

¿Qué factores están causando
terrestre ha experimentado un au- los cambios climáticos actuales? Es

mento de 0,74 °C. El calentamiento muy probable que gran parte de la



medio en los últimos 50 años (0,13 variabilidad de temperaturas obser-


°C por década) es casi el doble que vada en el hemisferio Norte a lo lar-



la tendencia de los últimos 100 go de los siete siglos anteriores al



años. También han aumentado las siglo XX se produjera a causa de



temperaturas de la estratosfera y de erupciones volcánicas y cambios en



los océanos. En ambos hemisferios la intensidad de la radiación solar.



se ha reducido el porcentaje de Sin embargo, parece ser que el alza


glaciares de montaña, campos de de la temperatura global desde 1950



hielo y glaciares de meseta, esté en gran parte vinculada con el



contribuyendo parcialmente al au- aumento de la concentración de ga-



mento mundial del nivel del mar. ses de efecto invernadero generados

Las láminas de hielo de por la actividad humana.


Groenlandia y del Antártico ¿Qué cambios se esperan para



también han favorecido el aumen- el futuro? Según una serie de




GUILLERMO KERBER

to del nivel del mar (17 cm en el escenarios de emisiones, se prevé



siglo XX). que la temperatura global aumen-



Se han observado también nu- tará de 0,2°C por década en las pró-

merosos cambios climáticos a lar- ximas dos décadas. Las mejores


estimaciones del calentamiento



medio del aire de la superficie ter-



12
Cf. http://www.noaanews.noaa.gov/stories2011/
restre entre 1980 y 2090 lo sitúan

20110112_globalstats.html





12






entre 1,9°C y 4,0°C . materia de regímenes de

 REVISTA

Además se espera un aumento vientos, precipitaciones y tem-



de 18 a 59 cm del nivel medio glo- peratura.



bal del mar, según el escenario para  El aumento de las


finales del siglo XXI (2090-2099). precipitaciones en latitudes

TEOLOGIA E SOCIEDADE

Y si se toma en cuenta el hecho de altas y disminución de las



que el flujo de hielo procedente de lluvias en la mayoría de las



las capas de hielo de Groenlandia y regiones subtropicales.



del Antártico podría ser más rápido  La reducción de la circulación


en el futuro de lo que lo ha sido en ○
de las corrientes del Océano
los últimos años, esto podría aumen- Atlántico.

tar las previsiones de 10 a 20 cm. Frente a los cambios



Otros cambios previstos comprobados y los previstos los ci-


Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


incluyen: entíficos urgen a que se



 La acentuación de la implementen medidas de mitigación


acidificación de los océanos y adaptación.



causada por el aumento de la A nivel internacional, las



concentración de gases de recientes Conferencias de Esta-



efecto invernadero en la dos Partes de la Convención Mar-



atmósfera. co de las Naciones Unidas sobre



 La disminución de la cubierta el Cambio Climático, han mos-


de nieve, del hielo marino y trado que la comunidad interna-



del permafrost. cional está aún muy lejos de po-



 El aumento de la frecuencia der ( o deberíamos decir querer?)



de las temperaturas extre- responder, incluso dentro de los



madamente cálidas, olas de insuficientes requerimientos del


calor y fuertes precipi- Protocolo de Kyoto (el instru-



taciones. mento vinculante de la



 El aumento de la intensidad Convención) a los desafíos



de los ciclones tropicales planteados por el cambio climá-



(tifones y huracanes). tico. El trabajo de incidencia po-



 El desplazamiento hacia los lítica en este nivel, es sumamente


polos de la trayectoria de las relevante. El mismo ha estado



tormentas extra-tropicales, acompañado de una creciente



con cambios consecuentes en movilización de la sociedad civil








13






organizada en el que las iglesias y nominados “refugiados climáticos”,



otras organizaciones religiosas es decir personas que deben aban-



han contribuido de manera signi- donar sus lugares de residencia
A DESAFIOS DEL CAMBIO CLIMÁTICO A LA ECOTEOLOGIA
PÁGINAS 8 A 23, 2011



ficativa13. debido a las inclemencias climáticas,


incluyendo casos extremos como la



2. Algunas desaparición de estados como



Tuvalu o Kiribati en el Pacífico o las


implicaciones


Maldivas en el Indico, plantean


ecoteológicas


nuevos retos a la doctrina teológica



de la creación.
Habiendo pues resumido en el


Según ésta, basada en la Biblia,

apartado anterior qué es lo que sabe-


la vida es creada y sostenida por la
mos sobre el cambio climático desde ○

fuerza del Espíritu Santo de Dios


una perspectiva científica, relevemos


(Génesis 1, Romanos 8). Dios creó


algunos de los asuntos que la crisis cli-


al ser humano del polvo de la tierra


mática plantea a la ecoteología.

(adamah – adam) (Génesis 2), y le



encomienda el cuidado del jardín


2.1. Una renovada


(Génesis 2, 15), porque la


teología de la creación

humanidad no es la dueña de la

Una primera cuestión planteada


tierra, sino la administradora


por la crisis climática es la cuestión


responsable de la integridad de la

de la creación. Evidentemente esta creación. Dios ha creado un mundo



cuestión no es nueva, pero el aumen- con amor con los recursos suficien-

to global de la temperatura, los de- tes para sostener a las generaciones



de seres humanos y otros seres vi-



Cf. las campañas globales http://tcktcktck.org/ y http:/


vos. Pero la humanidad no siempre
13

/www.350.org/ en las que varias iglesias y organizaciones


ha respondido con fidelidad a su

religiosas toman parte. La campaña ecuménica Time for


Climate Justice, http://climatejusticeonline.org/ es un


vocación. El pecado rompe la

esfuerzo por coordinar iniciativas de varios actores. Por



GUILLERMO KERBER

su parte, además de ser parte de todas estas campañas,


relación de la humanidad con Dios

el Consejo Mundial de Iglesias en su página web sobre


el cambio climático incluye las declaraciones presentadas y con el orden creado (Génesis 3 y

ante las Conferencias de Estados Partes de la Convención


sobre el Cambio Climático: www.oikoumene.org/ 4, Jeremías 14, Oseas 4,1-3). La


climatechange.

14
Cf. La fundamentación teológica que presentan las creación entera lleva los signos del

declaraciones del CMI sobre cambio climático, Nota so-


pecado humano mientras aguarda la

bre el calentamiento terrestre y el cambio climático (2008)


y Declaración sobre el Décimo aniversario del protocolo de manifestación gloriosa de los hijos

Kyoto (2009), accesibles en : http://www.oikoumene.org/


es/documentacion/documents.html de Dios (Romanos 8, 19)14.








14






Pero más allá de la doctrina teo- a esta teología: En la crisis ecológi-

 REVISTA

lógica de la creación, desde el ca, la creación del conocimiento,



comienzo del análisis de la crisis eco- Dios el creador, el momento de la



lógica, hubo una fuerte crítica a la creación, la creación del espacio, la


tradición judeocristiana, como corporalidad es la meta de todas las

TEOLOGIA E SOCIEDADE

responsable de la crisis. Lynn White obras de Dios y el capítulo final, el



Jr. publicó en la revista Science en sábado, la fiesta de la creación. En



1967 un artículo, Las raíces históri- un apéndice se referirá a los símbo-



cas de la crisis ecológica15, destacan- los del mundo: la Madre Tierra, la


do la responsabilidad de la teología ○
fiesta de los cielos y la tierra, el
judeocristiana. Según White, la mundo como un baile, el gran tea-

situación ambiental actual es una tro del mundo, el juego como un



consecuencia directa del mandato símbolo del mundo, etc.


Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


del Génesis 1, 28, “Sed fecundos y Desafortunadamente, la teoría



multiplicaos, y llenad la tierra y ecológica de la creación (el subtítu-


sometedla. Dominad sobre los peces lo del libro de Moltmann), como un



del mar, las aves y todo ser viviente capítulo de la ecoteología, está lejos

que se mueve sobre la tierra”. de ser un referente en los



Como muchos teólogos han Seminarios y las Facultades de



demostrado, sin embargo, el Teología. Hay esfuerzos, pero no son



concepto de dominación y sumisión suficientes. En cambio, en algunos


en el momento de la redacción de casos, teorías consideradas obsole-



los relatos de la creación en el tas como el creacionismo, han



Génesis no se puede comparar con tenido un importante desarrollo en



las posibilidades que la revolución los últimos años.



científica y tecnológica ha propor- Algunos contenidos de una reno-


cionado al ser humano en los últi- vada teología de la creación



mos dos siglos. incluirían



El teólogo reformado alemán - Creatio continua versus



Jürgen Moltmann, por ejemplo, en creatio prima, tomando en



su libro Dios en la creación16, res- cuenta que la creación no es



ponde a las críticas de White y ofrece


valiosas reflexiones sobre una nueva


15
Cf. Lynn White Jr. The Historical Roots of Our Ecological

teología de la creación. Los capítu- Crisis. Science 155 (1967) 1203-1207.


16
Jürgen Moltmann. Dios en la creación. Sigueme,

los del libro son ya una introducción Salamanca: 1984.








15






sólo los relatos del Génesis humanos a la tierra. El



sino una actividad permanen- hombre es ‘’terrícola’’(tal el



te divina que crea, redime y sentido del término hebreo
A DESAFIOS DEL CAMBIO CLIMÁTICO A LA ECOTEOLOGIA
PÁGINAS 8 A 23, 2011



renueva: ‘’Envías tu espíritu, adam), creado a partir de la


son creados, y renuevas la faz tierra (adamah).



de la tierra’’ (Salmo 104:30). - El respeto del Shabat



- Rol del Espíritu Santo. El expresa el respeto por toda la



Espíritu vivificante es un creación17



Espíritu que trae la salvación, Esta revisión y énfasis diverso en



reconcilia, sana y libera toda la teología de la creación tiene, en


la vida creada por Dios. Una algunos casos, consecuencias


renovada teología de la ○

pastorales. La Iglesia Congre-
creación pone más énfasis en gacional Cristiana de Tuvalu se en-

el papel que el Espíritu, como frenta, por ejemplo a diversas



segunda persona de la interpretaciones del diluvio en la


Trinidad, juega en la creación. Biblia. Mientras que algunos en la



- Una comprensión trinitaria Iglesia dicen que el arco iris como



de Dios constituye el marco símbolo de la alianza que Dios hizo



de una perspectiva más con Noé (Gen 9, 8-17) es el garan-



holística de la creación y la te de que la isla no sufrirá con el au-



salvación. mento del nivel del océano, otros,


- Los seres humanos son par- apoyados por la investigación cientí-



te de la creación de Dios y fica, intentan reinterpretar los textos



tienen un lugar especial den- de la Biblia y distinguir el diluvio en-



tro de la creación dado el viado por Dios y el cambio climático



hecho de haber sido creados producido por los seres humanos.


“ a imagen y semejanza de Hay, por tanto, una necesidad de



Dios’’(Génesis 1: 27). buscar una interpretación más pro-




GUILLERMO KERBER

- Hay un vínculo estrecho e funda de la Biblia para articular una



indisoluble entre los seres teología de la creación que respon-



da a los nuevos desafíos.



Cuidar de la creación, “cultivar


17
Cf. ‘The Place of Creation in Christian Spirituality: A
y cuidar el jardín”, como pide Dios

Summary of the Discussion at the Consultation, en


Lukas Vischer ed.,Spirituality, Creation and the Ecology (Gen 2, 15) es una tarea ineludible

of the Eucharist. John Knox Series 18, Grand-Saconnex:


2007, pp. 1–23. para los seres humanos y en especi-








16






al para los cristianos como parte de Al mismo tiempo, se empiezan

 REVISTA

su vocación más profunda. a reconocer a las víctimas del cam-



bio climático y se han comenzado a



utilizar nuevos términos, no sin


2.2. Las dimensiones reacciones adversas, por ejemplo el

TEOLOGIA E SOCIEDADE

de la eco-justicia ya mencionado de “refugiados cli-



máticos”, o “desplazados


Tal vez uno de los más salientes


elementos que plantea el cambio ambientales” .18



climático a la ecoteología es la Podemos preguntarnos, pues:

cuestión de la justicia. Porque, en ○


¿qué significa la justicia de las
víctimas del cambio climático? Una

una lectura ecoteológica, el cambio


teoría de la justicia de las víctimas


climático es una cuestión de justicia.


ya ha sido desarrollada. El filósofo


El informe del GIECC dice, en va-

Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


rias ocasiones, que las comunida- español Reyes Mate, que ha publi-

des más pobres, los grupos cado numerosos trabajos sobre este

tema, dice: “Las víctimas siempre


vulnerables (por ejemplo, comuni-


han estado con nosotros, pero has-


dades indígenas, mujeres, niños,


ta ahora eran invisibles porque se


personas con discapacidad) son y


serán los más afectados por las consideran el precio a pagar para el

consecuencias del cambio climáti- funcionamiento de la historia. Sin



co. No hay duda de que esta embargo, ahora son visibles, y eso

significa que no se ve su situación


constatación exige una mirada éti-


como algo natural o inevitable, sino


ca sobre la cuestión.

como una injusticia que requiere una


Desde esta perspectiva, las


consecuencias del cambio climáti- respuesta”19. Moltmann, a su vez,



co son también una cuestión de invoca la justicia creadora de Dios


para los derechos de las víctimas20.


justicia, ya que las comunidades



vulnerables, incluidos los países más


18
Cf. e.g. Conference on Protection and Reparations for

vulnerables, son las que menos han Climate Refugees, BfW-PCC-WCC, Chavanes de Bogis,

2010, accesible en: http://www.oikoumene.org


contribuido a las causas del cambio

Cf. inter alia, Reyes Mate. Justicia de las víctimas.


19

climático debido a que sus


Anthropos, Madrid: 2008.


20
Cf. inter alia, Jürgen Moltmann. The final judgement:
emisiones de dióxido de carbono

Sunrise of Christ’s liberating justice, 37th National


Theological Conference, Trinity Institute, 2007, accesible


(CO2) son mínimas en

en: http://www.trinitywallstreet.org/onlinetv/

comparación con los países indus- webcast.php?t=webcast&id=40242&s=1; Jürgen


Moltmann. Justice for victims and perpetrators, Reformed


trializados. World, Volume 44, N°1 (March 1994).







17






Hablar, pues, acerca de la por los más vulnerables, la defensa



justicia de las víctimas del cambio de los más pobres, también son



climático21, a través de una perspec- expresados en lenguaje jurídico en
A DESAFIOS DEL CAMBIO CLIMÁTICO A LA ECOTEOLOGIA
PÁGINAS 8 A 23, 2011



tiva teológica, implica reconocer que ciertos pasajes de la Biblia:


la justicia es un tema central en la “Aprended a hacer el bien,



Biblia. Dios es un Dios de justicia, buscad la justicia, reprended al



que imparte justicia a los pobres, la opresor, defended al huérfano,



viuda, al huérfano, al extranjero, los abogad por la viuda”(Isaías 1, 17).



términos bíblicos para referirse a los O, como expresa el profeta



oprimidos, los marginados, las Malaquías: “Me acercaré a vosotros


personas vulnerables, las víctimas. para el juicio, y seré un testigo veloz


Como leemos en el Deuteronomio: ○

contra los hechiceros, contra los
“(Dios) hace justicia al huérfano y a adúlteros, contra los que juran en

la viuda, y muestra su amor al falso y contra los que oprimen al



extranjero dándole pan y vestido. jornalero en su salario, a la viuda y


Muestren, pues, amor al extranjero, al huérfano, contra los que niegan



porque ustedes fueron extranjeros en el derecho del extranjero y los que



la tierra de Egipto” (Deut 10, 18-19). no me temen” (Malaquías 3, 5)



La búsqueda de la justicia en la Jesús en su vida, expresó su



Biblia está íntimamente relaciona- preocupación por los pobres y su



da con los derechos de los oprimi- preocupación por la justicia. Esto es


dos y vulnerables, lo que puede evidente en la obertura del Sermón



llamarse, en términos del derecho de la Montaña, que se puede consi-



internacional, “los derechos de las derar el discurso programático de



víctimas”22. Porque el amor de Dios Jesús: “Bienaventurados ustedes los



pobres, porque de ustedes es el rei-


no de Dios” (Lucas 6, 20).



21
Desarrollé más este tema en Guillermo Kerber. Justiça “Bienaventurados los que tienen

das vítimas do cambio climático, en Luiz Carlos Susin y



GUILLERMO KERBER

Joe Marçal Dos Santos. Nosso Planeta, Nossa Vida: hambre y sed de justicia, pues ellos

Ecologia e Teologia. Paulinas, São Paulo: 2011.


serán saciados (Mateo 5, 6).

22
Fue el jurista francés Louis Joinet quien desarrolló los

derechos de las víctimas (el derecho a saber, el derecho


En relación con nuestro tema,

a la justicia, el derecho a la reparación,…) en el marco


de los derechos civiles y políticos. Cf. La cuestión de la diversos términos se han acuñado

impunidad de los autores de violaciones de los derechos


en estos últimos años para referirse

humanos (civiles y políticos) Informe final establecido por


M. L. Joinet (E/CN.4/Sub.2/1997/20/Rev.1). Accesible en:


a esta dimensión de la justicia:

http://www.unhchr.ch/huridocda/huridoca.nsf/(Symbol)/

E.CN.4.sub.2.1997.20.Rev.1.Sp
justicia ecológica, justicia climáti-






18






ca23, eco-justicia. Preferimos esta escribía Espiritualidad de la

 REVISTA

última ya que por un lado muestra Creación y unos años más tarde



la íntima relación entre justicia eco- Leonardo Boff publicaba Ecologia,



lógica y justicia económica y a la vez Mundializacion y Espiritualidad25.


puede vincularse con ecumenismo, Más recientemente, una serie de

TEOLOGIA E SOCIEDADE

al compartir ecología, economía y libros intentan responder a las



ecumenismo la misma raíz nuevas preguntas espirituales que



etimológica: oikos, oikia, que signi- plantea el reto del cambio climáti-



fica casa en griego. co. Alastair McIntosh, por ejemplo,


Algunos líderes de iglesias han ○
en su libro Infierno y aguas turbu-
tomado claramente esta perspecti- lentas26, afirma que la crisis del cli-

va. Por ejemplo el Patriarca ma no puede ser resuelta sólo por



Ecuménico Bartolomeo, llamado el medios técnicos, económicos y po-


Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


Patriarca Verde, por su compromiso líticos, tenemos que mirarnos a



con el ambiente, en una de sus nosotros mismos y recurrir a la


múltiples alocuciones sobre el tema psicología y la espiritualidad. Para



afirmaba: “El cambio climático el autor, el orgullo y la violencia



constituye un tema de justicia social llevaron al ecocidio, el asesinato de



y económica. Porque aquéllos que la tierra27. Hoy en día, nuestras so-



serán más directa y severamente ciedades en el mundo viven un



afectados por el cambio climático ecocidio. En vista a esta situación un


serán las naciones más pobres y profundo cambio societal es



vulnerables… así como las imprescindible y la espiritualidad



generaciones jóvenes y las futuras”24. puede contribuir sustancialmente a



este cambio.


2.3. Una espiritualidad



de la creación

23
Cf. inter alia, Guillermo Kerber. Tesis sobre la justicia

climática, en Revista Latinoamericana de Teología,


La crisis climática plantea una


Diciembre 2009, accesible en: http://


tercera cuestión: la necesidad de

www.servicioskoinonia.org/relat/395.htm

24
Patriarca Ecuménico Bartolomeo, Statement for the
reflexionar sobre el lugar de la

WCC Working Group on Climate Change, August 2005.


25
Thomas Berry. Dream of the Earth. Sierra Club, San
creación en la espiritualidad, en la

Francisco: 1988. Matthew Fox. Creation Spirituality.


Harper, San Francisco: 1990.Leonardo Boff. Ecologia,


mística. Hace más de veinte años

Mundialização, Espiritualidade. Atica, Sao Paulo: 1996.


Thomas Berry publicaba El sueño de 26


Alastair McIntosh. Hell and High Water. Climate change,

hope and the human condition. Birlinn, Edinburgh: 2008.


la tierra, en 1990, Matthew Fox 27


Idem, p. 131.





19






Recuperar una relación sana con nos importante, las teólogas



toda la creación es un requisito ecofeministas como Sallie McFague,



previo para hacer frente a un mun- Rosemary Radford Ruether o Yvone
A DESAFIOS DEL CAMBIO CLIMÁTICO A LA ECOTEOLOGIA
PÁGINAS 8 A 23, 2011



do dividido entre el consumismo Gebara29 han hecho aportes suma-


extremo y la muerte por inanición. mente valiosos para una



David Hallman, en sus Valores construcción ecoteológica. En la



espirituales para la Comunidad de reformulación de una espiritualidad



la Tierra28 incluye la suficiencia de la creación estas teólogas han



como un valor espiritual clave. hecho hincapié en valores como la



Suficiencia implica moderación en compasión y la curación30.


las sociedades hiperconsumidoras y


a la vez dignidad y lo “suficiente” en ○

las comunidades pobres. Otros va- 3. Conclusión.



lores que propone Hallman son: la


Repercusiones

gratitud, la humildad, la justicia, el


amor, la paz, la fe y la esperanza. ecuménicas. Hacia una



Frente a los “valores” imperantes de


praxis ecoteológica

nuestras sociedades contem-



poráneas, desde una espiritualidad El desafío del cambio climático



de la creación es necesario también no sólo ha motivado una reflexión


teológica. La praxis de las iglesias,


recuperar la solidaridad, la

resiliencia y el sentido de la fiesta, en varias regiones, ha sido



valores que encontramos en medio impactada por esta realidad. Como



de situaciones sumamente el lector está probablemente más



conflictivas, en las comunidades familiarizado con experiencias



cristianas. brasileñas y latinoamericanas, he


Por último, pero no por ello me- preferido mencionar algunos



ejemplos que pueden ser




GUILLERMO KERBER

desconocidos. En varios continen-



tes, Consejos Regionales de Iglesias



28
David Hallman. Spiritual values for earth community.
han hecho de las consecuencias del

WCC, Geneva: 2000.


cambio climático una prioridad en

29
Cf. Rosemary Radford-Ruether. Gaia and God. SCM,

London: 1993. Sallie Mc Fague. Modelos de Dios, Sal


su trabajo.

Terrae, Madrid: 1994. Sallie Mc Fague. The Body of


God. Fortress, Philadelphia: 1993. Ivone Gebara. Teolo-


En África, por ejemplo, la

gia ecofeminista. Olho d’Agua, São Paulo: 1997.


Cf. e.g. Rosemary Radford-Ruether (ed). Women


Novena Asamblea General de la
30

healing earth. Orbis, New York: 1996.







20






Conferencia de Iglesias de toda Áfri- el Consejo Nacional de Iglesias de

 REVISTA

ca (AACC en inglés) “reconoció al la India , “reconoció los siguientes



ambiente y la espiritualidad como impactos del cambio climático so-



una prioridad clave para la iglesia bre las personas y lugares: el aumen-


africana. La iglesia y sus to de los desastres naturales como

TEOLOGIA E SOCIEDADE

congregaciones se enfrentan a un sequías, inundaciones y ciclones,



futuro incierto provocado por los escasez de alimentos y agua, sobre



problemas ambientales, especial- todo para los pobres y los



mente el cambio climático. Los im- marginados; amenaza para la salud


pactos son devastadores y los más ○
pública debido a la creciente
afectados son los pobres, cuyos contaminación, las enfermedades

medios de subsistencia y relacionadas con el agua, y muerte



supervivencia están amenazados o debida a desastres naturales; cam-


Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


comprometidos”. bio en los ecosistemas en términos



Reconociendo que “el cambio de biodiversidad y las condiciones


climático es el mayor reto en el siglo de vida, el derretimiento de los



veintiuno, amenazando potencial- glaciares y la nieve, y el aumento del



mente con revertir los logros nivel del mar “. En consecuencia,



alcanzados durante años para alivi- instó y pidió a los países y organis-

ar la pobreza y alcanzar el desarrollo mos internacionales, legisladores, los



sostenible”, la Secretaría de la gobiernos, las economías emergen-


AACC en Nairobi estableció un tes como India, China, y otros, a



área programática de Cambio Cli- abordar eficazmente las causas y



mático y Cuidado de la Creación consecuencias del cambio climáti-



que se ocupa de la conservación de co, pidiendo a las iglesias a



la naturaleza, la agricultura comprometerse en iniciativas sobre


sostenible, la protección y el uso la eco-justicia con un fuerte com-



responsable de los recursos ponente interreligioso32.



naturales, especialmente el agua y Por su parte la Asamblea Gene-



los productos forestales31. ral de la Conferencia de Iglesias del



Del mismo modo, en Asia, la



Conferencia Cristiana de Asia


31
Cf. Africa: Towards Hope and Dignity - AACC Program
(CCA) en una conferencia sobre el

Outline 2009 to 2013. AACC, Nairobi: 2009.


“Pathos de los refugiados climáti- 32


Cfr. Declaración de la consulta sobre el Pathos de los

refugiados climáticos, Bangalore, India, 5-9 October


cos”, organizada conjuntamente con 2010, accessible en: http://www.cca.org.hk/clusters/jid








21






Pacífico (PCC en inglés) adoptó una mismo tiempo solicita a la secretaría



serie de resoluciones sobre el cam- establecer un programa ecuménico



bio climático y ordenó a la secretaría interregional que mire los roles y
A DESAFIOS DEL CAMBIO CLIMÁTICO A LA ECOTEOLOGIA
PÁGINAS 8 A 23, 2011



de la PCC abordar tres cuestiones responsabilidades de iglesias tanto


claves: atenuación, adaptación y en países emisores como recepto-



reasentamiento. El reasentamiento res de migrantes para atender y



de poblaciones ha sido una ayudarlos a integrarse en sus nuevos



preocupación crítica para la PCC. contextos”33. Durante los últimos



El mismo ya ha ocurrido en Papua años la Secretaría de la PCC ha es-



Nueva Guinea, donde desplazaron tado ejecutando un programa am-


a los habitantes de las islas de bicioso sobre el clima y el


Carteret a Bougainville. Las ○

reasentamiento, apoyando a iglesias
resoluciones llama a la “PCC, en y a los pueblos de la región a enfren-

colaboración con sus iglesias tar estos difíciles retos. En íntima



miembro y los Consejos Nacionales relación a esta praxis pastoral de las


de Iglesia y, eventualmente, con los iglesias del Pacífico, el Pacific



gobiernos, a que luchen por una Theological College, en Fiji, está ela-

política en materia de inmigración borando un nuevo curriculum



regional que dé a los ciudadanos de ecoteológico.



los países más afectados por el cam- A nivel global, el Consejo Mun-

bio climático, especialmente por el dial de Iglesias, con su programa


aumento del nivel del mar, el sobre el cambio climático



derecho a un reasentamiento en las establecido en 1988, a través de di-



naciones del Pacífico que elijan y un versas tomas de posición34 ha afir-



plan de ayuda económica mado la necesidad de tener una



interregional para financiar los visión holística que englobe las dife-

costos de la atenuación, la rentes dimensiones de una proble-



adaptación y el reasentamiento. Al mática compleja: lo científico, lo




GUILLERMO KERBER

político (local, regional, internacio-



nal), lo económico, lo ético-teológi-



33
Resoluciones 70, 73 y 78 de la Novena Asamblea co-espiritual, la praxis. La proble-

General de la Conferencia de Iglesias del Pacífico, 2.4.1,


Samoa, Septiembre 2007. mática requiere una respuesta en


Las más recientes declaraciones oficiales del CMI


todos estos niveles a la vez. En esta
34

están recogidas en Climate Change and the World Council


of Churches. Background information and recent respuesta la cooperación con otras



statements. WCC, Geneva: 2011. Accesible en: http://


religiones ha sido fecunda. Muchas

www.oikoumene.org/?id=3416





22







tradiciones religiosas, por ejemplo


La gravedad de la

 REVISTA

las indígenas y afro-latinoame-


problemática radica


ricanas, tienen una sabiduría en la


en que lo que está en


relación con la tierra de la que


pueden aprender las tradiciones juego es el futuro de

TEOLOGIA E SOCIEDADE

cristianas35. la creación y del



La gravedad de la problemática lugar (si le cabe) del



radica en que lo que está en juego es
ser humano en ella.


el futuro de la creación y del lugar

(si le cabe) del ser humano en ella. ○

Porque de hecho la
Porque de hecho la creación puede creación puede existir

existir sin el ser humano pero el ser sin el ser humano



humano no puede existir sin la pero el ser humano


Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


creación. no puede existir sin la



Las iglesias pueden jugar un rol


creación.

importante en esta tarea,



profundizando, ampliando, lo que



algunos visionarios proponían hace



veinte, treinta o cuarenta años. Una


la ecoteología tiene que escuchar el


ecoteología articulada, responsable


grito de la tierra junto al grito de los


y liberadora es una condición sine


qua non para este componente de pobres, los indígenas, los



la misión de las iglesias36. Articula- afroamericanos, los excluidos y res-


ponder efectivamente.

da, porque no puede ignorar la



ciencia, la política, la economía, la



espiritualidad, la teología.

Responsable porque tiene que ir más



35
Ha habido varias declaraciones interreligiosas sobre el
allá del ámbito exclusivamente

cambio climatico. A título de ejemplo, el Interfaith Climate


Manifesto: http://www.svenskakyrkan.se/
académico y ser consciente de su rol

default.aspx?id=664984 , la Interfaith Declaration on


Climate Change: http://www.interfaithdeclaration.org/ ,


en comunidades, congregaciones,

la Declaracion Ecuménica sobre el Cambio Climático de


movimientos sociales, gobiernos y Cochabamba http://www.oikoumene.org/?id=7823&L=4


36
El número de noviembre de 2010 de la International

la comunidad internacional. Review on Mission con el título Mission and Creation


recoge varios artículos sobre esta temática.


Liberadora, porque, como lo

37
Las ponencias del Foro fueron recogidas en Luiz

mostró el Foro de Teología y Carlos Susin y Joe Marçal Dos Santos. Nosso Planeta,

Nossa Vida: Ecologia e Teologia. Paulinas, São Paulo:


Liberación en Belém, en el 200937, 2011.








23






A doutrina da criação à





luz da ecoteologia
A DOUTRINA DA CRIAÇÃO À LUZ DA ECOTEOLOGIA
PÁGINAS 24 A 39, 2011















“Eu disse para a homem. Tais desafios são elemen-

*
Paulo de Góes*

tos importantes, os quais devem ser
amendoeira: ‘Irmã, ○

refletidos pela teologia de forma


fala-me de Deus’,

séria e relevante2. Desse modo, a


e ela floresceu”

teologia optou por reconhecer as



crises pelas quais passava e buscan-


Nikos Kazantzakis, em Cartas a El Greco


do novas pertinências para seu dis-



curso, procurou entrar em diálogo



com as diversas ciências, reconhe-


As últimas décadas do século cendo que, para ganhar relevância,



passado marcaram a tomada de não deveria caminhar na velha po-



consciência da teologia no que sição apologética, mas buscar apro-


concerne à mudança de

ximação com essas ciências.


paradigmas na tentativa de buscar


Diversos encontros foram rea-


melhor inteligibilidade para sua lizados nessa direção, documentos



tarefa em nossos dias.1 Afinal, as- e obras foram publicadas e certa-



sumir Deus como “objeto mente, um novo olhar passou a


investigativo” implica assumir a


dominar a tentativa de articular o


experiência que dele se faz no mo-



PAULO DE GÓES

mento histórico preciso, visto que



a revelação assume os desafios his-



tóricos concretos enfrentados pelo


1
Cf. Antonio Moser. “Mudanças de paradigmas e

crises na teologia”. In Márcio Fabri dos Anjos (org.).


Teologia aberta ao futuro. S. Paulo: SOTER/Loyola,


1997, p. 209ss.

2
Cf. Clodovis Boff. Teoria do método teológico.

*Paulo de Góes é pastor (IPIB). Doutor em Filosofia. Petrópolis: Vozes, 1998, p. 25-38.






24






discurso teológico. E isso continua ção causadora da destruição do meio


 REVISTA

a ser um desafio constante para que ambiente.



a reflexão teológica não perca sua De fato, considerando a proble-

A DOUTRINA
REVIST
REVISTA


candência e, especialmente, sua mática ecológica dos dias atuais, é


pertinência, num mundo em cons- indispensável ter uma perspectiva

TEOLOGIA E SOCIEDADE
A TEOL

tante mudança. integrada do ser humano e do mun-

TEOLOGIA

Nos últimos anos, os teólogos do e, para isso, temos que repensar


OGIA E SOCIEDADE Vol. 1 nº 8, outu


que têm refletido responsavelmen- o significado da teologia da criação,

DA CRIAÇÃO Vol.

te sobre a esperança salvífica volta- complementando e corrigindo as


ram suas preocupações para a vida ○
teologias da história e fazendo com
cósmica e planetária, especialmen- que o enfoque político dê lugar ao

te a partir de uma reflexão teológi- ecológico. Pretendemos aqui repas-



ca sobre a criação, a relação entre sar alguns pontos da doutrina da


À 1L

os homens e os seres vivos em ge- criação, ressaltando o mandamen-


LU

nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


U Z DA ECOTEOL
ral. O resultado tem sido um consi- to divino que dá ao homem a res-

derável volume de publicações, tan- ponsabilidade de cuidar da obra cri-



to no que se refere a artigos em pe- ada e a necessidade de se fazer uma



ECOTEOLOGIA
riódicos especializados como no que releitura ecológica dessa doutrina

diz respeito a livros. Particularmen- para o presente momento.

outubro

te, no âmbito latino-americano, a re-

bro de 201

flexão ecológica sob a perspectiva


A criação

OGIA

teológica surge com muita força a



2011
partir do Encontro da Eco-92 ou Num contexto cultural politeísta

Rio-92, organizada no Rio de Janei- e tentando traduzir a tradição cul- 1 , São P



ro pela Conferência das Nações tural do antigo Oriente próximo, o


Antigo Testamento pronuncia uma


Unidas sobre Meio Ambiente e De-


Paulo

autêntica profissão de fé: “No prin-


aulo
aulo,, SP

senvolvimento.

Deve-se reconhecer que a rela- cípio, criou Deus os céus e a terra”



ção entre teologia e ecologia é, de (Gn 1.1). Seria precipitado afirmar



certo modo, uma relação tensa, que que teríamos aqui a expressão aca-

bada da “criação a partir do nada”


deve ser revestida de seriedade e


PÁGINAS 24 A 39 

(creatio ex nihilo)3, como sempre


coragem, e isto implica fazer algu-


Paulo de Góes

mas releituras e abertura para rece-



ber até mesmo a interpelação ou


3
Cf. Juan L.R. de la Peña. Teologia da criação. S. Paulo:

acusação de pertencer a uma tradi- Loyola, 1989, p. 39.








25






foi crido de forma confessional pela ros versículos de Gênesis tem sido



igreja cristã, expressando a ação cri- tratado de modo bastante diferente



adora de Deus num tempo em que do modo de se tratar os textos ori-
A DOUTRINA DA CRIAÇÃO À LUZ DA ECOTEOLOGIA
PÁGINAS 24 A 39, 2011



reinava o caos nas “águas do abis- ginários do antigo Oriente. Isso foi


mo” e tudo era “sem forma e vazio” mostrado detalhadamente por



(Gn 1.2). Tal conceito é conseqü- Ronald Simkins e os leitores podem,



ência de elaboração posterior, resul- com proveito, consultar sua obra.4



tante do encontro com a cultura A expressão “E disse Deus...”



helênica. É fruto de um pensamen- aparece várias vezes no primeiro



to metafísico acostumado à lógica capítulo de Gênesis. Isso quer dizer


da abstração que aparecerá em con- que foi a própria Palavra e não as


tato com a mentalidade grega e não ○

mãos o instrumento de relação en-
pretendemos dar lugar a anacronis- tre o Criador e as criaturas. A natu-

mos, mas enfatizar o lado reza divina, através da sua Palavra,



confessional do texto. Trata-se de é que se apresenta como força atu-


uma construção teológico-sistemáti- ante, não um demiurgo preocupado



ca para a elaboração de uma doutri- com a tarefa de modelação. Isso



na que dá prioridade a Deus e sobre porque doutrinas do mundo



a qual há literatura abundante no helenístico afirmavam que o mun-



campo da Teologia Sistemática. do teria sido plasmado eternamen-



Estudos exegéticos recentes in- te através de um demiurgo, emana-


dicam que, na sua origem a ideia de do do Uno, que tudo engloba e do



criação não comportava o sentido qual tudo provém.



lato de “criação a partir do nada”, Esse mundo criado guardaria as



tal qual hoje é largamente difundi- “marcas” da ação modeladora do



do. Isso porque a tradição hebraica referido demiurgo, à semelhança de


antiga tem a ver com o orde- vestígios de suas mãos. Aqui, con-

namento do espaço desorganizado, tudo, é a Palavra, e não as mãos, o




PAULO DE GÓES

tendo como fim possibilitar a vida. elo que estabelece a ligação entre o

Por causa do primado da ideia da Criador e as criaturas. A criação



creatio ex nihilo o texto dos primei- surge a partir da Palavra criadora,



isto é, de alguém, de uma pessoa, não


de uma massa informe eternamen-



te modelada. Desse modo, trata-se



4
Cf. Ronald A. Simkins. Criador e criação. A natureza na
de uma natureza divina perfeita-

mundividência do antigo Israel. Petrópolis: Vozes, 2004.







26






mente identificável e não de uma Em outras palavras, embora criado

 REVISTA

causa impessoal; diz respeito a “al- por Deus, o ‘adam (homem) sur-



guém”, logo a uma pessoa provida giu a partir do ‘adamah (terra). Cri-



de vontade livre e decisão, não de atura divina, é verdade, mas o hu-


uma força cega, que assume o pa- mano emerge da própria terra. E a

TEOLOGIA E SOCIEDADE

pel de Criador. Por isso, repetimos, raiz latina preservou essa ligação



não se trata de um demiurgo eter- quase umbilical através da palavra



namente amarrado à tarefa de humanus (de humus). O ser huma-



modelação e, tampouco se refere a no foi formado a partir do húmus e


um cosmos eterno, resultado do ar- ○
tornou-se espírito vivificante.
ranjo de elementos conectados a O credo criacionista que perpas-

esse demiurgo. sa todo o Antigo Testamento, ex-



A narrativa da criação parece se pressando a fé monoteísta típica da


Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


esmerar em descrever que Deus experiência religiosa do povo de Is-



criou cada coisa e, além disso, tudo rael vai desembocar na Igreja dos

o que ele criou é “bom”. Isso signifi- primeiros séculos, especialmente na



ca dar ênfase em que Deus criou experiência daqueles que se encar-



cada coisa, visto que nada do que regaram de elaborar o Credo Apos-

existe é desprezível aos seus olhos. tólico: “Creio em Deus Pai, todo-

Nesse sentido, o espaço da terra poderoso, criador dos céus e da ter-



mostra-se acolhedor, e o jardim pas- ra”. Logo, falar da doutrina da cria-


sa a ser de responsabilidade do ho- ção é focalizar um dos pontos cen-



mem, do cultivador, auxiliado pelo trais da teologia judaico-cristã.



vapor que substituía as chuvas dos Obviamente, falar em criação nos



céus, obra do Criador. limites da linguagem teológica é fa-



O primeiro homem, como ser lar de modo confessional, a partir de


originário, é criado como imagem e uma comunidade de fé. É utilizar lin-



semelhança do Criador. Porém, o guagem de um mundo pré-moder-



termo ‘adam (homem) tem uma li- no, pré-científico, marcado por tra-

gação semântica com o termo dições especificas, no qual Deus tem



‘adamah (que pode ser traduzido o seu lugar próprio e especial.



como “terra cultivável”, “solo”), evi-


denciando um vínculo primordial



entre os seres humanos e a terra,


5
Haroldo Reimer. Toda a Criação. Bíblia e ecologia. São

como expressão da vontade divina.5 Leopoldo: Oikos, 2006, p. 34.








27






O cuidado para com nar” (Gn 1.28) e “cultivar e guar-



dar” (Gn 2.15). Da ênfase desta úl-


a obra criada


tima incumbência decorre a nota
A DOUTRINA DA CRIAÇÃO À LUZ DA ECOTEOLOGIA
PÁGINAS 24 A 39, 2011



Primeiramente, no contexto bí- que se dá à ligação entre teologia e


blico, o cuidado é atribuído a Deus. ecologia, especialmente em face dos



Como Criador, a ele cabe preservar desajustes de ordem ambiental,



a obra criada das forças destrutivas. como conseqüência das desastrosas



Além de criador, é também intervenções humanas no planeta. É



preservador. O livro de Jó mostra preciso ter sempre o senso critico



muito bem isso, indicando Deus para que não sejam feitas leituras


como “Senhor da criação” (Jó 38.4- infundadas e, muito menos,


38), assim como “Senhor dos ani- ○

inferências que o homem é um
mais” (Jó 38.39-39.30).6 dominador inclemente da criação,

Tendências deístas, ao longo da um explorador da obra criada. An-



história, tentaram negar o cuidado tes, é alguém que cuida da obra cri-

de Deus para com o universo. Tais ada, visto que “dominar” tem o sen-

tendências, que surgiram como fru- tido de continuar atuando na cria-



to do racionalismo, afirmam que ção, uma vez que esta não pode ser

Deus, tendo criado o mundo, dei- vista de forma estática: o mundo



xou-o reger-se por causas secundá- criado está em constante movimen-



rias. Porém, o texto bíblico preocu- to e abertura.


pa-se em atestar o cuidado de Deus O mandato bíblico de “dominar



para com a criação. E mostra que o a terra” deve, portanto, ser entendi-

Criador fez isso não através de um do como ato de continuar a colabo-



providencialismo cego, mas tam- rar com o Criador no que se refere



bém repartiu com o homem esse às lutas contra as forças


cuidado. desagregadoras que ameaçam o



A partir da relação íntima com a mundo criado. Deve-se reconhecer




PAULO DE GÓES

obra criada, os seres humanos re- que há forças hierárquicas no cos-



cebem do Criador a incumbência mos, que há uma ordem de valores



que oscila entre o “sujeitar e domi- nas relações fundamentais, porém



isso tudo deve ser considerado como


advertência para que não haja o pri-



Cf. Sinivaldo S.Tavares. “A transparência divina na mado da perspectiva antro-


6

trama da criação”. In Pistis & Praxis Pastoral. Curitiba:


pocêntrica sobre a visão da narrati-

v.. I, no. 2, jul-dez. 2009, p. 311-312.







28






va da criação. “Dominar a terra” terra, dos pobres e dos animais do

 REVISTA

deve ter o sentido de ocupar o solo campo.8 Essa conexão era julgada



para que forneça o alimento neces- indispensável para a preservação da



sário ao ser humano e aos animais; criação.


“submeter os animais” denota ser o O texto, inicialmente, afirma a

TEOLOGIA E SOCIEDADE

homem uma espécie de juiz de paz dignidade e a legitimidade do traba-



(Is 11.6ss.), permitindo a coexistên- lho humano sobre a terra para apon-



cia pacifica entre eles.7 tar, logo a seguir, a lógica sabática,



Por outro lado, no contexto bí- indispensável pelo ritmo do traba-


blico, há uma transição que vai do ○
lho agrícola, característico do mun-
cuidado divino com o mundo para do daquela época. A exploração da

o cuidado humano, ou seja, há a terra não deveria ultrapassar os seis



delegação dada pelo próprio Deus anos e, no sétimo ano, os proprietá-


Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


para que o homem cuide do mundo rios deveriam deixar a terra descan-

criado não apenas no jardim, mas sar. Esse descanso é claramente afir-

também fora dele. Essa transição é mado como próprio dela mesma,

representada, de modo especial, pela sendo mais um direito do que uma



coletânea de preceitos normativos obrigação. O objetivo era interrom-



estabelecidos na legislação do povo per temporariamente o ciclo de ex-



hebreu com perspectivas ploração da terra por parte dos se-



preservacionistas e ecológicas. res humanos pois, com essa práti-


O cuidado com o ambiente como ca, ocorriam benefícios que atingi-



espaço vital deveria ser tarefa cons- am, além da própria terra, também

tante da parte do homem, daí a os pobres e os animais. Alguns têm



normatização codificada como exi- enfatizado uma leitura de caráter



gência para o povo. Desse modo, mais econômico e social dessa lei,

com a lei do ano sabático, ainda que enfatizando como maiores



de modo coativo, procurava-se en- beneficiários os pobres.9 Essa ênfa-



sinar que o cotidiano de Israel não



deveria esgotar-se na servidão do Cf. J. Moltmann. Deus na criação. Doutrina ecológica


7

da criação. Petrópolis: Vozes, 1993, p. 54; J. R. Junges.


trabalho, mas haveria a necessida- Ecologia e criação. Resposta cristã à crise ambiental. S.

Paulo: Loyola, 2001, p. 49.


de do descanso. Não apenas o ho- 8


Cf. Haroldo Reimer, Toda a Criação, p. 65-76.

9
Isso foi bem evidenciado, por exemplo, por Marli
mem deveria descansar e, por isso,

Wandermurem. “A lei do ano sabático. Para que os


num texto como o de Êxodo 23.10- pobres achem o que comer. Um estudo de Êxodo 23.10-

11”. In Revista de Interpretação Bíblica Latino-america-


11 há a interligação dos direitos da na. Petrópolis: 1999, no. 33, p. 51-63.








29






se, contudo, pode ser uma recaída romper o processo de maternidade,



no viés antropocêntrico (direito dos porque ela é a matriz da vida que se



pobres) a contribuir para que seja perpetúa.”13
A DOUTRINA DA CRIAÇÃO À LUZ DA ECOTEOLOGIA
PÁGINAS 24 A 39, 2011



esquecida a lógica ecológica, a sa- Em Dt 20.19-20 recomenda-se


ber, o descanso da terra e o direito evitar o desmatamento, ou seja, o



de os animais do campo terem o corte indiscriminado de árvores fru-



acesso a um resto de alimentação. tíferas em casos de guerra. Note-se



No livro de Deuteronômio en- que a prática da guerra não é inter-



contramos diversas passagens de ditada, mas há a preocupação em



teor ecológico10. Na impossibilida- estabelecer alguns limites e, nesse


de de fazer um rastreamento desses sentido, somente árvores que não


textos, ressaltemos alguns que jul- ○

dão frutos poderiam ser cortadas
gamos pertinentes para o contexto. para a construção dos artefatos ne-

Inicialmente, a prescrição de Dt cessários para as guerras. Predomi-



22.6-7 sobre o modo de lidar com na, como se vê, a preocupação com

pássaros e ninhos de aves.11 Aqui, o homem, visto serem as árvores



como lembra Croatto, já se expres- frutíferas diretamente benéficas ao



sa algo como um “principio ecoló- ser humano. O sentido da interro-



gico da preservação da fauna para gação do v. 19 é que a guerra é feita



sua multiplicação”.12 Ao ser encon- contra os homens, não contra as



trado um ninho de pássaros, a reco- árvores. Outra hipótese é a de que


mendação é que se tome somente o texto traduziria uma espécie de



os filhotes e se deixe voar livremen- reação judaica contra as práticas



te a mãe desses filhotes. Trata-se de imperialistas dos assírios, que cos-



medida extremamente preser- tumavam devastar os arredores da



vacionista, pois “não se deve inter- cidade que oferecesse forte resistên-

cia a seu domínio, atingindo, de for-



ma especial, seus recursos naturais.




PAULO DE GÓES

Em Dt 23.13-15 há uma reco-


10
Haroldo Reimer, Toda a Criação, p. 77-92.

11
Cf. Haroldo Reimer. “Sobre pájaros y nidos. Mirada mendação de procedimento de hi-

ecológica en leyes del Deuteronomio”. In Revista de


Interpretação Bíblica Latino-americana. Petrópolis: 2001, giene e saneamento básico na vida


no. 39, p. 34-45.


12
J. Severino CROATTO. “La vida de la naturaleza en do acampamento, abrangendo tam-

perspectiva bíblica. Apuntes para una lectura ecológica


bém as cidades israelitas. Para as

de la Biblia”. In Revista de Interpretação Bíblica Latino-


americana. Petrópolis: 1995, no. 21, p. 45. necessidades básicas do homem


Ivo Storniolo. “Ecologia no Deuteronômio?” In Mosai-


13

deve haver um lugar determinado


cos da Bíblia. S. Paulo: 1992, vol. 8, p. 18.







30






fora do arraial e aquele que cavar advento do cristianismo, lembra ele,

 REVISTA

uma cova e fizer as suas necessida- abundavam figuras míticas (semi-



des fisiológicas ali deve virar-se e humanas e semi-animais), e flores-



cobrir o que saiu de si. Parece estra- tas, montanhas e fontes tinham es-


nho, num primeiro momento, a re- píritos que os protegiam e aos quais

TEOLOGIA E SOCIEDADE

comendação de virar-se, uma vez o homem devia prestar culto.



que o verbo é omitido em algumas Lamenta igualmente a perda da



traduções, mas a recomendação concepção cíclica da história, visto



pode perfeitamente ser entendida que o cristianismo passou a adotar,


no sentido de uma conscientização ○
por herança do judaísmo, a crença
acerca da própria produção do lixo. num percurso histórico linear, ten-

A medida pode ser justificada como do um fim e um começo. Essa con-



indicação de que a presença divina cepção linear possibilita a ideia de


Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


no acampamento não pode convi- progresso, algo inconcebível numa



ver com lixo e esgoto a céu aberto. visão cíclica do tempo, muito mais

respeitadora do meio ambiente, por-



Leitura ecoteológica que leva em conta a dinâmica



repetitiva dos ciclos da natureza.


da criação

E Deus, ao criar o homem, fez



É bastante conhecido o artigo de uma criatura especial, porque o fez


Linn White Jr. publicado na


à sua imagem. E a este ser seme-


prestigiada revista Science, em 1967, lhante a Deus é que foi confiada a



com o título “As raízes históricas de tarefa de zelar pela criação divina,

nossa crise ecológica”.14 Nesse arti- mas não apenas isso: a criação tem

go, o autor, além de reconhecer que como função servi-lo, razão porque

a ciência e a tecnologia atuais são não se trata de uma criatura entre


inequivocamente ocidentais, lamen- outras, mas de uma criatura



ta o desaparecimento do animismo dominadora. Ao homem é determi-



por causa do advento do cristianis-



mo que, segundo ele, mesmo admi-



tindo variantes no que concerne à


14
Linn White Jr., The historical roots of our ecological
origem judaica despida do conceito

crisis. Science, v.155, n. 3767, march 10, 1967, p.


1203-1207. Cf. Hugo Assman. “Ecoteologia: um ponto


do Deus único, não deixou de

cego do pensamento cristão?” In Márcio Fabri dos An-


centrar sempre na figura humana a jos (org.). Teologia aberta ao futuro. S. Paulo: SOTER/

Loyola. S. Paulo: Loyola, 1997, p. 195. Cf. também


sua constelação conceitual. Antes do Ronald A. Simkins, Criador e criação, p. 14.








31






nado dominar a terra e seu “imagem de Deus” (Gn 1.26) é o



discernimento permite-lhe também homem.



ser uma espécie de criador – e o será Obviamente há exageros em sua
A DOUTRINA DA CRIAÇÃO À LUZ DA ECOTEOLOGIA
PÁGINAS 24 A 39, 2011



na medida em que mais se asseme- severa afirmação e nem dá para con-


lhar a Deus. É posto, portanto, um cordar totalmente com seus argu-



contraste: para as religiões animistas, mentos, porém, não podemos ne-



o ser humano está inserido na natu- gar que, durante muito tempo nos-



reza como um ser a mais, ao lado so paradigma de justiça social vol-



dos demais, sem ocupar uma posi- tou-se para a correção da distribui-



ção de proeminência; contudo, para ção de bens e riquezas, salários jus-


a visão cristã, o ser humano foi cri- tos, etc. Hoje, isso tem que ser con-


ado à imagem e semelhança de ○

tinuado, é claro, pois trata-e de me-
Deus, ocupando um lugar de desta- dida justa, mas um dos componen-

que e recebendo um encargo espe- tes econômicos de nosso ethos, a ser



cial em relação à criação. necessariamente enfatizado, é nos-


Assumindo o seu radicalismo, o sa preocupação com o meio ambi-



ilustre historiador afirma que os ente. Como afirma Moltmann, com



ambientalistas, para serem coeren- muita propriedade, “a justiça social



tes, deveriam romper com o legado não poderá ser alcançada sem justi-

judaico-cristão porque, segundo ele, ça para o ambiente natural, nem a



esse legado é o grande responsável justiça para a natureza sem justiça


pela devastação da natureza. Sua social”.15



argumentação é a de que esse lega- Não se deve ignorar que a vora-



do teria contribuído para que se le- cidade dos países industrializados



vasse a sério o antropocentrismo aliada ao desejo insaciável de enri-



exacerbado do “dominai a terra” quecimento para a manutenção no


(Gn 1.28; Sl 18.6 e paralelos). O patamar internacional das grandes



primado antropocêntrico teria seu negociações do mercado econômi-




PAULO DE GÓES

amparo na presunção de que o úni- co internacional tem contribuído de



co ser com direito a reclamar “se- modo sistemático para o constante



melhança com Deus” ou de ser a assalto aos recursos da natureza sem



a devida reposição. Silenciar-se ante


essa constatação é omissão grave



que a consciência cristã não pode


15
J. Moltmann. Ciência e sabedoria: um diálogo entre

ciência natural e teologia. S. Paulo: Loyola, 2007, p.


aceitar. Assumir o papel de guarda

71.





32






de nosso planeta nada mais é que de lado as diversas filosofias que

 REVISTA

cumprir a tarefa determinada pelo pululam por aí, fiquemos com a



Criador e rever um dos pontos fun- doutrina da criação e com a respon-



damentais da teologia da criação. sabilidade que ela requer de nós,


Desse modo, não estaremos assu- como “guardas” desse imenso jar-

TEOLOGIA E SOCIEDADE

mindo a agenda ecológica de modo dim. Tomando a sério as advertên-



panfletário e triunfalista, pois a cias que são feitas, especialmente no



questão é séria conforme esta per- que se refere às possibilidades de



tinente advertência: catástrofes, “desequilíbrios que re-


Assumir a responsabilidade ○
vertem em termos de fenômenos
ecológica não significa fazer como chuva ácida, aquecimento glo-

alarde ou prever infortúnios, bal, mudanças climáticas com con-



mas alertar pedagogicamen- seqüências dolorosas e por vezes


Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


te sobre os riscos que corre- mortais para alguns segmentos hu-



mos, precisamos tomar uma manos”19, impõe-se a necessidade


nova posição: evitar a violên- de uma leitura ecoteológica da cri-



cia cientifica sobre a nature- ação, instaurando uma nova



za e buscar um novo hermenêutica que venha contribuir



paradigma de convivência para a relevância do discurso teo-



pacifica e de coexistência.16 lógico no conjunto com as demais



ciências que estão a debater o as-


Nosso planeta está próximo de sunto.



alcançar uma população de sete bi- Nessa leitura, inicialmente, deve-



lhões e, hoje, procura-se ver a terra se rever a doutrina sobre o sábado.20



em seu conjunto como um grande



organismo vivo. Fala-se de uma teia


16
BRUSTOLIN, Leomar Antonio; MINCATO. Ramiro. “A
de vida17, chamada “sistema gaia”18,

criação como sistema aberto: a teologia com perspecti-


va ecológica em Jürgen Moltmann.” In Estudos Teológi-


do qual os humanos fazem parte. As

cos. São Leopoldo: vol. 49, n. 2, jul-dez. 2009, p. 289.


17
Cf. F. Capra. A teia da vida. Uma nova compreensão
ciências vêm se organizando de

cientifica dos sistemas vivos. S. Paulo: Cultrix, 1996.


modo interdisciplinar e trans- 18


Segundo essa teoria, a terra é um superorganismo

vivo no qual se pode constatar a interdependência entre


disciplinar, fazendo das narrativas da os diferentes componentes, sendo esse fenômeno co-

nhecido como conceito de “panrelacionalidade”. Cf. James


criação uma nova física, uma nova Lovelock. Gaia. Um novo olhar sobre a vida na terra.

Lisboa: Edições 70, 1989, p. 27.


biologia ou uma nova história glo-

19
H. Reimer. “Criação, natureza e meio ambiente.” In

bal e tudo isso se expandindo numa Caminhos, Goiânia: v. 8, n. 2, jul.-dez. 2010, p. 64.

20
Cf. as interessantes considerações de Moltmann em

“nova metafísica”. Porém, deixando seu texto Deus na criação, p. 394-421.








33






Como observa Moltmann, nas tra- mo bíblico, o número sete denota



dições cristãs e, em especial, das perfeição. Afirmar que Deus reali-



igrejas ocidentais, a criação é geral- zou a criação em sete dias é afirmar
A DOUTRINA DA CRIAÇÃO À LUZ DA ECOTEOLOGIA
PÁGINAS 24 A 39, 2011



mente apresentada como “obra de a perfeição da criação. Ao santifi-


seis dias”.21 Desse modo, a “conclu- car a criação Deus demonstra sua



são” da criação através do sétimo dia constante presença – Schekiná – em



é relegada a um segundo plano ou sua obra; aquela mesma presença



esquecida completamente. Contu- sentida nos demais eventos históri-



do, na tradição bíblica, criação e sá- co-salvíficos. Com a articulação do



bado estão interligados, de modo sábado com a Schekiná evidencia-


que não é possível entender corre- se que o mundo não será destruído,


tamente a criação sem perceber o ○

mas chegará à sua plenitude.23
sábado. Lembra Moltmann que “o O sétimo dia possibilita as rela-

sábado não é um dia de descanso ções de gratuidade pelo simples pra-



após seis dias de trabalho, mas, in- zer do encontro. Nele não há lugar

versamente, toda a obra da criação para preocupação com a produção.



foi feita por causa do sábado”.22 Glorifica-se a Deus reconhece-se a



O sábado é, antes de tudo, dia sua obra e a natureza não sofre a in-

do silêncio em que não se trabalha, tervenção do trabalho humano



mas serve para encontro dos seres exploratório. Tudo é reconciliação



vivos e de toda a criação com Deus. e fraternidade e, por isso mesmo,


Esse encontro é a festa da redenção, ganha uma dimensão escatológica:



autêntica festa da conclusão e da “na crise ecológica do mundo mo-



plenitude da criação. No simbolis- derno é necessário e urgente que o



cristianismo reflita sobre o sábado



da criação”.24

A valorização do sábado fará com



21
J. Moltmann, Deus na criação, p. 394.
que se possa enfatizar mais a con-

22
Id., ib., p. 396.

PAULO DE GÓES

23
G. Von Rad expõe a criação numa perspectiva templação da obra divina do que sua

soteriológica, ligando-a diretamente à história de Israel.


Isso quer dizer que o ato criador de Deus é sempre exploração. É a contemplação se

salvação do caos. Cf. Teologia do Antigo Testamento. S.


Paulo: ASTE, 1973, v. 1, p. 144-147. sobrepondo à ação, ou seja, a força


24
J. Moltmann, Deus na criação, p. 419. O autor lembra

a sabedoria judaica que Deus criou todas as coisas em


da oração se sobrepondo à força do

trabalho produtivo. Hoje, o mundo


dupla: dia e noite, céu e terra, dia e escuridão, homem e


mulher. O sábado, porém, foi criado como algo impar.


dominado pelo lucro ensejado pelo

Onde está seu companheiro? Ele é o dia de todos os dias


da criação. “A bênção do sétimo dia faz dele uma bênção


capitalismo significa uma redução e

para todos os dias da criação” (p. 402).







34






quase anulação dos dias de descan- 2.4b-3.23), no qual não se fala em

 REVISTA

so, reduzindo o homem e a nature- “dominar a terra”, mas usa-se a ex-



za à mercadoria, negando sua con- pressão “cultivar e guardar” (Gn



dição de criação de Deus. A recu- 2.15). Gregory Baum aponta para a


peração do sentido “sabático” da transição vivida pelo povo no mo-

TEOLOGIA E SOCIEDADE

criação é a forma de combater o mento da redação do segundo rela-



estilo ativista do mundo moderno to: de uma vida nômade para uma



que contribui para apresentar uma economia agrícola sedentária. Nes-



natureza “estressada”. se caso, o sentido é obvio: o apelo


Deve-se, em segundo, lugar, tam- ○
para arar e cultivar, arrancar a erva
bém ser relativizada a atribuição de daninha e domesticar os animais

domínio do ser humano na criação para deles fazer uso é uma necessi-

(Gn 1.28), fortalecendo mais a lei- dade premente. Portanto, não se tra-

Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


tura que destaca a tarefa de traba- ta de exploração dos recursos natu-



lho e cuidado (Gn 2.15). Afinal, o rais e, sim, do ordenamento inteli-


contexto bíblico da criação é gente desses recursos em favor da



teocêntrico e não antropocêntrico. vida em comunidade. Daí concluir



O relato da criação não está volta- Baum que não foi a Bíblia e, sim, o

do para o homem, mas para a ação capitalismo que introduziu um novo



criadora de Deus. Acima de tudo, a e desconhecido imperativo que



ligação do ‘adam com a ‘adamah, a maximizou a produção e o ganho


mãe-terra deve ser ressaltada. para explorar os recursos naturais,



Não se pode circunscrever a de- bem como os demais seres huma-



fesa da criação de tal modo que sua nos.25



análise não se envolva com as novas Também a moderna exegese, ao



pesquisas. Nas últimas décadas a fazer exame da fonte literária que deu

produção exegética tem tentado re- origem ao texto de Gn 1.28 tem con-

mover eventuais obstáculos cluído que, no hebraico, o verbo “su-



antiecológicos provenientes de lei- jeitar” não tem o sentido moderno e



turas antropocêntricas da Bíblia e da ocidental de dominar. Antes, signifi-



tradição religiosa judaico-cristã. Os



biblistas têm procurado mostrar que


o primeiro relato da criação


25
G. Baum, The Ecumenist, mar. 1989, p. 46. Apud.

(Gn1.1-2-2.4) deve ser interpreta- Juan Stam. “Creación, ética y problemática contempo-

rânea”. In Teología y Cultura. Buenos Aires: Ano I, v. 1,


do à luz do segundo relato (Gn


ago. 2004, p. 7.





35






ca “trabalhar”, “saber cuidar” (com e a evolução da ciência e da pesqui-



amor e compaixão). “Dominar” sig- sa histórica, as verdades dogmáticas



nifica dar continuidade à luta contra perderam domínio e, como decor-
A DOUTRINA DA CRIAÇÃO À LUZ DA ECOTEOLOGIA
PÁGINAS 24 A 39, 2011



as trevas e dá ao verbo uma relação rência, a teologia não comporta


hierárquica, como aparece em Gn mais um discurso estanque, sepa-



1.26: entre os seres vivos, o ser hu- rando-se de forma rançosa da ciên-



mano governa os animais como ob- cia. A exegese, hoje, garante recur-



jetivo ou finalidade, porém tanto os so suficiente para uma nova leitura



animais como os homens são aben- do relato da criação para determi-



çoados por Deus e o domínio sobre nar o lugar do homem. Portanto, o


a criação não pode ser efetivado de papel do ser humano, como criatu-


forma irracional, de modo a despre- ○

ra, não é apropriar-se da natureza
zar ou destruir a vida vegetal ou ani- como dono e explorador, mas reali-

mal. Como encarregado de Deus, o zar a função de um jardineiro que



homem tem o sagrado dever de pro- cuida da harmonia e beleza do jar-


teger a obra criada. Em outras pala- dim criado por Deus. Em outras

vras, o ser humano tem garantido palavras, sua missão deve ser

um lugar hierárquico, mas não é a exercida na perspectiva do cuidado.



única criatura divina. Não deixa de ser interessante



A objetivação da natureza pelo recordar a proposta de Moltmann27:



ser humano, reprimindo-a através para uma relação de convergência


de ações violentas e deformadoras, entre fé na criação e ciências natu-



esgotando as possibilidades de par- rais, será necessário rever o concei-



ceria amistosa é, sem dúvida, resul- to de criação utilizado pela teologia e



tado de um antropocentrismo cós- o conceito de natureza abraçado pela



mico que brota de uma interpreta- ciência. Essa necessidade se impõe


ção equivocada da teologia da cria- porque a crise ecológica cobra tanto



ção.26 E isso precisa ser revisto. da tradição judaico-cristã como do




PAULO DE GÓES

Com o advento da modernidade mundo da ciência uma revisão de



concepções que acabaram gerando



a exploração da obra criada.



Moltmann afirma que uma das


Luis Carlos Susin. A criação de Deus. São Paulo: causas que geraram a desfiguração
26

Paulinas, 1988, p. 13.


da obra criada foi “a visão


27
J. Moltmann, Ciência e sabedoria: um diálogo entre

ciência natural e teologia, p. 53-54.


antropocêntrica de mundo segundo

28
J. Moltmann, Deus na criação. Doutrina, p. 56.





36






a qual céus e terra foram criados por osa que nenhuma aritmética musi-

 REVISTA

causa da pessoa humana e na qual a cal consegue captar ou conter.



pessoa é a ‘coroa da criação’”.28 Vis- Entretanto essa melodia foi de-



to por essa ótica, o homem deixa safinada. O relacionamento harmo-


de ser membro da comunidade da


nioso do homem com o universo

TEOLOGIA E SOCIEDADE

criação, passando a ser “senhor e tornou-se um sonho utópico por



proprietário” e essa centralidade causa de uma variável terrível: o pe-



antropocêntrica quebra a intenção cado da desobediência. A convivên-



do próprio Criador. Daí sua obser- cia do homem com a terra tornou-


vação pertinente: ○ se difícil: “maldita é terra por tua
A crise do mundo moderno

causa...” (Gn 3.17). Veio a desfi-


não surgiu apenas através das guração do trabalho. Este que de-

tecnologias que possibilita- veria ser o relacionamento harmo-


Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


ram a exploração da nature- nioso com a natureza, traduzido na



za ou decorrência das ciênci- expressão “cultivar e guardar” (Gn


as naturais através das quais


2.15), passou a ser uma sentença


os seres humanos se torna- de maldição: “Em fadiga obterás



ram senhores da natureza. Ela dela o teu sustento durante os dias



se baseia muito mais na am- da tua vida... Do suor do rosto co-



bição que pessoas têm por merás o teu pão, até que tornes à

poder e prepotência.29 terra, pois dela foste formado: pois



tu és pó e ao pós tornarás” (Gn


Conclusão 3.17 e 19). A relação de cuidado,



reciprocidade e partilha, a partir da


Na criação manifesta-se a

presença do próprio Deus, tornou-


intentio divina como expressão da


se uma relação hostil. Infelizmen-


vontade livre do Criador, vontade


te, esse relacionamento degenera-


essa que continua a se expressar

pelo seu cuidado providente como



um maestro que rege sua orques-



tra. Daí Agostinho, com sua


29
Id., ib., 43.

genialidade peculiar, ousar descre- 30


A lembrança é de Lorenzo Mammi em seu belo texto

ver a criação, no final das Confis- “Deus cantor ”. Cf. Adauto Novaes (org.).

Artepensamento. São Paulo: Companhia das Letras,


sões, como uma melodia do “Deus


1994, p. 43-58. Cf. também Artur Morão. A música


como realidade e metáfora nas Confissões de Santo Agos-


modulator”,30 expressão harmoni-

tinho. Covilhã: Universidade Beira Alta, 2008.








37










A DOUTRINA DA CRIAÇÃO À LUZ DA ECOTEOLOGIA
PÁGINAS 24 A 39, 2011
































Nas últimas décadas a produção exegética



tem tentado remover eventuais obstáculos



antiecológicos provenientes de leituras



antropocêntricas da Bíblia e da tradição




religiosa judaico-cristã. Os biblistas têm



procurado mostrar que o primeiro relato



da criação (Gn1.1-2-2.4) deve ser




PAULO DE GÓES

interpretado à luz do segundo relato



(Gn 2.4b-3.23), no qual não se fala em



“dominar a terra”, mas usa-se a expressão



“cultivar e guardar” (Gn 2.15).













38






do com a terra continuou e, hoje, tui numa sinalização de que o dis-

 REVISTA

os problemas ecológicos se avolu- curso teológico voltado para as



mam e ameaçam nosso ecos- questões ecológicas possui sua re-



sistema: mudanças climáticas, levância.


desertificação de regiões, aumento É o que procuramos anotar ao

TEOLOGIA E SOCIEDADE

gradativo de temperatura, degelo longo deste artigo, mostrando a



das calotas polares, crescente de- necessidade de refletir sobre a



saparecimento de espécies vegetais doutrina da criação com novos



e animais, etc. Tudo isso se consti- olhos.







Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP






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39






O cuidado pastoral e a





O CUIDADO P

ecologia
PÁGINAS 40 A 49, 2011








PASTORAL


ASTORAL E A ECOL









ECOLOGIA


Shirley Maria dos Santos P
Introdução ○

Programas mundiais têm sido ela-


OGIA

borados na tentativa de sensibili-



zar os governos sobre a responsa-


Desde a década de 1970 pes-


bilidade do estabelecimento de

quisadores das mais diversas áre-


políticas públicas que desacelerem


as do conhecimento formulam hi-


a destruição da natureza para a pre-


póteses e conclusões alarmantes


servação do planeta.

sobre o futuro do planeta terra. A


As constatações de equívocos

devastação das florestas, a polui-


sobre o domínio da natureza e da

ção das águas potáveis, a emissão


concepção ilusória de recursos na-


de gases poluentes e o lixo produ-


turais inesgotáveis estabeleceram,


Proença*

roença*

zido em demasia, entre outras coi-


a partir das décadas finais do sé-


SHIRLEY MARIA DOS SANTOS PROENÇA

sas, demonstram o completo des-


culo XX, novas fronteiras para os


caso dos seres humanos pela natu-


projetos de desenvolvimento regi-

reza, cuja conseqüência é a destrui-


dos apenas por parâmetros econô-


ção implacável.

micos. Tratados internacionais,


O alerta para as rápidas mudan-


segmentos sociais, cientistas de-


ças climáticas ocupam considerá-


nunciam e propõem ações menos


vel espaço na mídia e na produção


aniquiladoras da vida planetária.


acadêmica nas ultimas décadas.


No Brasil, como em outros pa-

íses, as temáticas ambientais fazem



parte de proposições legais há dé-


*Shirley Maria dos Santos Proença é pastora (IPIB)


e professora da Faculdade de Teologia de São Paulo. cadas; no entanto, muitas delas re-

É Mestre em Ciências da Religião.








40






sultam de ajustes provocados por cionado à biologia. Foi usado por

 REVISTA


conflito de interesses. Como aten- Ernst Häckel em 1866 para deno-



der interesses políticos e econômi- minar a relação dos organismos

O CUIDADO
REVIST
REVISTA


cos sem desencadear o rompimen- com o mundo exterior e a luta pela


to de teias que se interrelacionam existência. Häckel

TEOLOGIA P
A TEOL

na renovação da vida global? A pre- acreditava em uma reforma

TEOLOGIA


servação da vida não pode se limi- política baseada no conheci-

OGIA E SOCIEDADE Vol. 1 nº 8 , outu


E
PASTORAL
tar a iniciativas isoladas; faz-se ne- mento científico do relaciona-

ASTORAL
SOCIEDADE

cessário um esforço conjunto entre mento do homem com o


os povos, levando-se em considera- ○
mundo e no respeito funda-
ção as difíceis relações de poder e mental da beleza e da ordem

de interesses, para a preservação da da natureza. Com isto, como


E AVol.ECOL

vida em todas as dimensões. vemos, ecologia e política es-



Restringir a abordagem das tão unidas desde a origem da

ECOLOGIA

1 nº 8,OGIA

temáticas ambientais a um ciência dos ecossistemas


enfoque meramente legal, (apud KERBER, 2006, p.72).


outubro de 2011, São Paulo, SP Shirley Maria dos Santos P


ecológico ou técnico,

dissociado das relações de po- Como ciência, a ecologia ultra-


outubro

der, dos valores éticos e mo- passou os limites da biologia e um



rais, significa reduzir sua com- amplo leque foi aberto. Ecologistas

bro de 201

preensão e, portanto, limitar contemporâneos, como Günther


essencialmente nossas possi- Maihold, que retoma o tema ecolo-


2011

bilidades de construirmos so- gia e política, John Clark e Murray


1 , São P

luções para os desafios emer- Bookchin que defendem a ecologia



gentes (SANTIAGO; social, propõem um princípio de



VILELA, 2006, p.91). totalidade ecológica. Segundo


Paulo

aulo
aulo,, SP PÁGINAS 40 A 49 

Guillermo Kerber, para os ecologis-



Ao se pensar a preservação da tas sociais, a ecologia “transcende o



vida e os grandes desafios que se horizonte cientifico para situar-se



inscrevem historicamente, alguns num plano que podemos chamar de



conceitos foram selecionados, ten- filosófico (a relação entre o todo e



do em vista a diversidade de com- as partes é expressão disto)”


preensão deles. (KERBER, 2006, p.74). Bookchin



O conceito ecologia como termo não se restringe ao diagnóstico pois


Proença

científico, inicialmente, esteve rela- “sua proposta de solução avança do


roença






41






ecológico, passando pelo social, até das catástrofes ambientais, mas abor-



o político” (KERBER, 2006, p.75). da causas e conseqüências dos pro-



Arne Naes defende a ecologia pro- jetos humanos referentes ao desen-
O CUIDADO P
PÁGINAS 40 A 49, 2011



funda ou ecosofia como uma revo- volvimento, às decisões políticas, às


lução que abrange não apenas os posturas éticas, à distribuição de ren-



aspectos exteriores aos seres huma- da, entre outros, que interferem na



nos, mas também as subjetividades, reorganização do sistema terrestre
PASTORAL


ASTORAL E A ECOL


como sensibilidade, inteligência e como parte de um sistema maior.



desejo. Além destes aportes teóri- Quanto ao termo cuidado, a re-



cos sobre ecologia vindos de repre- flexão ocorrerá a partir da perspec-


sentantes do hemisfério norte, na tiva da atitude que se deve ter em


ECOLOGIA

América Latina o tema tem sido dis- ○



relação às pessoas e a toda natureza.
cutido nas mais diversas áreas, e Cuidar é mais que um ato; é
OGIA


muitos projetos têm sido elabora- uma atitude. Portanto, abran-



dos com o objetivo de encontrar ge mais que um momento de


soluções para uma situação limítrofe atenção, de zelo e de desvelo.



e complexa. Representa uma atitude de



Na teologia, biblistas, pasto- ocupação, de preocupação,



ralistas e teólogos preparam estudos de responsabilização e de



para auxiliarem a reflexão sobre o envolvimento afetivo com o



tema ecologia, por parte das igrejas. outro (BOFF, 2008, p.33).

Alguns poderiam ser citados, mas



dentre importantes pensadores e A pastoral será identificada como



SHIRLEY MARIA DOS SANTOS PROENÇA

colaboradores, Leonardo Boff tem a inserção ativa da igreja no mun-



se aprofundado na construção teó- do; a responsabilidade missionária



rica da relação dialética entre teolo- de envio e o compromisso das co-


gia e ecologia. munidades de fé em favor da vida



O termo ecologia (eco:casa co- em sua plenitude.



mum; logia:estudo) será abordado Respostas para a construção de



em sua compreensão etimológica, um mundo melhor, em todos os sen-



ou seja, conhecimento e cuidado tidos, serão possíveis a partir de um



com a casa comum em uma prática esforço coletivo, com metas claras

relacional com os seres humanos e e específicas e com o objetivo de



com toda a natureza. preservar a vida para esta geração e



Ecologia não se limita ao estudo para as vindouras.








42






1 – Por uma ça de 179 países, alternativas foram

 REVISTA

discutidas para se conciliar o desen-


ecologia-pastoral


volvimento econômico-social e a



A abordagem do tema ecologia preservação do meio ambiente. A


não pode se esgotar na elaboração partir desta conferência foi elabo-

TEOLOGIA E SOCIEDADE

de um discurso bem articulado nem rado o documento Agenda 21,



na inclusão de um tema para estu- que consiste em um proces-



do nos currículos escolares. so e programa de ação em vis-



Alguns fatores são fundamentais ta a sustentabilidade da vida.


para a reflexão sobre ecologia. O ○
A Agenda 21 procura envol-
primeiro diz respeito à sobrevivên- ver o poder público, o setor

cia do ser humano; o segundo, ao privado e a sociedade civil em



caráter ideológico que envolve o ter- torno de uma agenda de com-


Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


mo sustentabilidade; e, por fim, à promissos, ações e metas para



mobilização dos povos como agen- transformar o desenvolvimen-


tes co-participantes de uma neces- to de uma região (Agenda



sária e urgente mudança. Local), de um país (Agenda



Ecologia e pastoral são campos Nacional) e do planeta



que se intercalam em uma relação (Agenda Global). Tem como



articulada, que tem por objetivo objetivo desencadear e forta-


olhar e interferir na natureza para


lecer iniciativas que promo-


preservá-la da destruição. vam e conservem a integrida-



Na relação ecologia-pastoral, a de da criação, bem como a



ecologia é a dimensão da casa co- justiça social, a saúde pública



mum, da Mãe Terra que é a casa da e a valorização da diversida-



humanidade; e também dos animais, de cultural, juntamente com


das plantas e da complexa teia que o aprimoramento da demo-



se tece para a sobrevivência de to- cracia, a educação para todos,



dos e de todas. Assim, a pastoral é a qualidade de vida, os direi-



a dimensão do cuidado para com tos e a dignidade humana. O



toda a criação. documento salienta a impor-


Na Conferência das Nações Uni- tância da cooperação interna-



das sobre o Meio Ambiente e o cional, destacando a necessi-



Desenvolvimento realizada no Rio dade do combate à pobreza,



de Janeiro em 1992, com a presen- a preservação dos bens natu-








43






rais e a redução dos impactos substrato físico-químico-eco-



ambientais. (BENINCÁ, lógico para sua perpetuação



2006, p.57) e ulterior coevolução (BOFF,
O CUIDADO P
PÁGINAS 40 A 49, 2011



2010, p.25,26).


A sobrevivência humana passa



necessariamente pela sobrevivência A responsabilidade para a pre-



do planeta. A premissa falsa de su- servação do planeta é individual e
PASTORAL


ASTORAL E A ECOL


perioridade do ser humano sobre a coletiva. Pessoas e instituições pre-



natureza trouxe conseqüências cisam se mobilizar para atitudes que



gravíssimas para todos os seres hu- contribuam para o bem comum e


manos e para os ecossistemas em que evidenciem novo status de con-


ECOLOGIA

geral, que não conseguem se ○



vivência.
reestruturar em meio à acentuada Ecologia e pastoral pressupõem
OGIA


destruição. A velocidade com que a a consciência de uma realidade



natureza está sendo devastada exi- limítrofe que demanda ações efeti-

ge medidas coletivas urgentes para vas para uma inversão de rumo. Mas

sua desaceleração e envolve profun- como pensar e agir numa sociedade



das mudanças na relação humani- em que valores e interesses díspares



dade e meio ambiente. Segundo estão presentes? Como elaborar pro-



Boff, jetos que atendam à emergência de



a solução demanda uma mudança de mentalidade em estru-


coalização de forças mundi- turas que privilegiam a acumulação



ais ao redor de uma nova sen- de bens e que criam necessidades



SHIRLEY MARIA DOS SANTOS PROENÇA

sibilidade ética, novos valo- para incrementar o consumo?



res, outras formas de relaci- A sobrevivência humana não se



onamento com a natureza e encontra nos discursos ecológicos,


novos padrões de produção e mas nas iniciativas dos povos e na-



consumo. (grifo do autor). ções para melhoria das condições de



Numa palavra, faz-se urgen- uma terra enferma. Não há paliati-



te um novo paradigma de vos: ou mudamos ou morremos. E



convivência natureza, Terra e as respostas para mudanças vêm



Humanidade – que dê sendo formuladas concretamente


centralidade à vida, mante- pelo conjunto de pessoas que ensai-



nha sua diversidade natural am práticas significativas em todos



e cultural e garanta o os lugares e em todas as situações








44






do mundo atual. Portanto, não há ambientais ou programas isolados

 REVISTA

um sujeito histórico único. Muitos e pontuais, mas necessita de uma



são os sujeitos destas mudanças. completa mudança de concepção de



Elas se orientam por um novo sen- mundo, de desenvolvimento e


tido de viver e de atuar. Por uma nova sustentabilidade.

TEOLOGIA E SOCIEDADE

percepção da realidade e por uma O termo sustentabilidade não se



nova experiência do Ser. Elas emer- restringe a providências necessári-



gem de um caminho coletivo que se as em relação ao meio ambiente,



faz caminhando (BOFF, 2008, p.25). mas agrega o impacto do desenvol-


A relação ecologia-pastoral está ○
vimento civilizatório sobre as rela-
impregnada da necessidade da pre- ções humanas e a natureza. Para

servação da vida planetária. A igre- Boff, a categoria sustentabilidade



ja, como agente pastoral, não pode sinaliza que no processo evolu-

Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


deixar de proclamar a vida em sen- cionário e na dinâmica da natureza



tido amplo e irrestrito. O discurso vigoram interdependências, redes


religioso precisa se transformar em de relações inclusivas, mutualidades



atitudes e ações contextualizadas e lógicas de cooperação que permi-



para ser significativo para este tem- tem que todos os seres convivam,

po de crise de valores éticos, de coevoluam e se ajudem mutuamen-



espiritualidade, de sentido da vida e te para se manter vivos e garantir a



se tornar importante instrumento biodiversidade” (BOFF, 2010, p. 24)


de denúncia e de anúncio de um A expressão desenvolvimento



novo tempo. sustentável consta no Relatório



O fator da preservação da vida é Brundland da ONU de 1972 e faz



fundamental para a discussão sobre parte de todos os documentos ofi-



ecologia; no entanto, a vida se con- ciais internacionais, de documen-


cretiza nas relações entre os seres tos estatais e de empresas privadas.



humanos e destes com o meio am- O uso do termo se expandiu e al-



biente, nas dimensões física, social, cançou consenso, bem como se



histórica, política, econômica, edu- afirmou socialmente, o que não



cacional, religiosa etc., interligadas exclui a disputa de sua aplicação


complexa e abrangente (SANTIA-


por relações de classe, gênero, etnias


e gerações. GO; VILELA, 2006, p.103); a ele



A preservação da vida planetá- foram incorporados temas políti-



ria não se resume em políticas cos, econômicos, sociais, divergên-








45






cias e conflitos de interesses pró- Algumas iniciativas internacio-



prios de cada abordagem. nais e nacionais estabeleceram leis



O desenvolvimento sustentável ambientais protetoras, mas não são
O CUIDADO P
PÁGINAS 40 A 49, 2011



tem por premissa atender as neces- suficientes para prevenir


sidades do presente sem comprome- desmatamento, poluição, uso inade-



ter as gerações futuras, ideal defen- quado do solo, extermínio de espé-



dido na Convenção sobre a cies, nem ainda para a erradicação
PASTORAL


ASTORAL E A ECOL


Biodiversidade de 1993; o problema da miséria, do analfabetismo, das



está no fato de que o próprio termo epidemias. Somente o envolvimento



apresenta intrinsecamente a ambi- global, individual e coletivo, públi-


güidade entre desenvolvimento e co e privado, organizacional e


ECOLOGIA

preservação. ○

institucional, poderá evitar uma ca-
Por se tornar amplo, o conceito tástrofe irreversível.
OGIA


de desenvolvimento sustentável tem


2. Por uma

sido usado ideologicamente, como


mascaramento de um desenvolvi-

pastoral-ecológica

mento que não agrega povos nem



grupos menos favorecidos. Os paí- Assim como a relação ecologia-



ses mais ricos são os maiores pastoral torna-se uma atitude em



poluidores e exploradores dos re- favor da vida, a pastoral, relaciona-



cursos naturais e precisariam tomar da à ecologia, só pode ser entendida


atitudes para a preservação na dimensão do cuidado.



ambiental e para a distribuição O conceito de pastoral, no uni-



SHIRLEY MARIA DOS SANTOS PROENÇA

equitativa das riquezas. O discurso verso protestante, reduz-se à ação



sobre desenvolvimento sustentável de um pastor ou uma pastora, tem



esbarra em interesses econômicos um forte conteúdo clerical, e, geral-


e políticos. mente, é substituído pelo conceito



O desafio na relação ecologia- de ministério ou missão, que tem



pastoral não está na elaboração te- mais conotação eclesiástica do que



órica de parcerias para a preserva- sociológica. Segundo Clóvis Pinto



ção da vida, mas em ações de Castro, a pastoral


deve ser entendida como a


participativas que teçam novos tem-


pos, novas formas de relacionamen- ação do povo de Deus na rea-



to com a natureza e nova visão so- lidade cotidiana, onde, na re-



bre desenvolvimento sustentável. lação tempo e espaço, o ser








46






humano se encontra. A preo- entre si. A primeira, a atitude

 REVISTA

cupação básica da pastoral é de desvelo, de solicitude e de



a eficácia e relevância da fé atenção para com o outro. A



cristã... Pastoral é uma ação segunda, de preocupação e de


intencional, sistemática e or- inquietação, porque a pessoa

TEOLOGIA E SOCIEDADE

ganizada coletivamente que tem cuidado se sente en-



(CASTRO, 2008, p. 753). volvida e afetivamente ligada



ao outro (BOFF, 2008, p.



O sentido de pastoral, como 91,92).


ação da comunidade de fé na socie- ○

dade da qual faz parte, alerta para a O cuidado pastoral se dirige às



omissão diante dos graves proble- pessoas com quem há relações de



mas causados ao meio ambiente. afeto, de atenção; mas as pessoas


Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


As igrejas deveriam ser as precur- não vivem isoladas umas das outras

soras na defesa da vida e não coni- ou do meio ambiente. Todo ser hu-

ventes com sistemas opressores, mano depende da natureza, na qual



legitimadores de injustiças e co-res- tudo está interligado. O mau uso dos



ponsáveis pela destruição planetá- recursos naturais provoca danos a



ria. Homens e mulheres de fé não todas as pessoas e ao equilíbrio



podem se alijar do processo de ambiental. A extinção das florestas,



transformação de atitudes em fa- o desperdício de energia não


vor da natureza que a humanidade renovável, o lixo excessivo mal ar-



destruiu. mazenado, a ocupação urbana de-



Pastoral e ecologia não são duas sorganizada, que obriga famílias a



áreas distintas, mas interagem mu- viverem em áreas de risco e tantos



tuamente. A ecologia como o cui- outros desafios, devem fazer parte


dado da casa comum não está di- do cuidado pastoral.



vorciada da pastoral como cuidado O cuidado pastoral na atua-



da criação de Deus e vice-versa. lidade, embasado nas dinâ-



Cuidado significa então des- micas tradições culturais e



velo, solicitude, diligência, bíblicas, ancorado nos estu-



zelo, atenção, bom trato... por dos das ciências e na evolu-


sua própria natureza, cuida- ção das sociedades, refere-



do inclui duas significações se a atitudes, ações, méto-



básicas, intimamente ligadas dos, visando à salvação, ou








47






seja, à harmonia, ao bem- Cuidado pastoral e



estar, “aqui e agora” do ser


ecologia – algumas


humano total, no seu con-
O CUIDADO P
PÁGINAS 40 A 49, 2011


provocações


texto de múltiplos relaciona-


mentos: com Deus, com o


A mídia anuncia com frequência


próximo, com a Criação,


crimes ambientais e raramente


consigo mesmo, com suas
PASTORAL


ASTORAL E A ECOL

aborda iniciativas empresariais em


comunidades, seu trabalho e


favor da natureza. A Revista Época


instituições (SATHLER


em parceria com a Consultoria


ROSA, 2010, p.41).
PwC promoveu a 1ª. edição do Prê-



mio Época Empresa Verde, que des-

ECOLOGIA

A pastoral, do ponto de vista do ○


tacou as 20 companhias mais avan-


cuidado, não é paternalista,
OGIA

çadas do país a incorporar a preo-


mantenedora do status quo, indivi-


cupação com o meio ambiente no


dualista e arrogante. Seguindo o


dia a dia dos negócios (Revista Épo-

exemplo de Jesus, o cuidado pas-


ca, no. 695). Ainda que o cuidado


toral deve ser completo e


com a natureza seja uma questão de


contextual.

negócios, tais iniciativas não devem


O cuidado com os outros e com


ser desprezadas.

a natureza torna-se uma responsa-


Os países elaboram legislação


bilidade missionária de envio. Os


específica para proteção ambiental.

cristãos são enviados por Deus para


Organizações não governamentais


anunciarem, com outros sujeitos


(ONGs) fiscalizam a aplicação de


SHIRLEY MARIA DOS SANTOS PROENÇA

históricos, as boas novas


leis afins e incentivam programas


transformadoras de restauração da

educativos relacionados ao desenvol-


vida em todas as dimensões.


vimento sustentável.

A responsabilidade missionária

E as igrejas onde se encontram


da igreja não pode se esconder em


nesse esforço mundial? Será que


discursos espiritualizantes; ela se


Deus não atribuiu esta tarefa tam-


efetiva em reflexão-ação na socie-


bém as organizações religiosas? Ou


dade, em defesa de toda criação de


os religiosos são agentes no proces-


Deus.











48







so de devastação da natureza?


O cuidado com os

 REVISTA

Não se trata de propor uma aná-


outros e com a natureza


lise ingênua. É evidente que pode-


torna-se uma


rosos grupos econômicos influenci-


am decisões políticas para atende- responsabilidade

TEOLOGIA E SOCIEDADE

rem interesses próprios, mas o dis- missionária de envio.



curso religioso não pode estar alheio Os cristãos são enviados



às urgências deste tempo. por Deus para


A pastoral do cuidado não é
anunciarem, com outros


antropocêntrica, ela se estende à vida
sujeitos históricos, as

planetária e às relações que se esta-



belecem na biodiversidade. Sendo boas novas



assim, o cuidado pastoral precisa transformadoras de


Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


agregar a preservação da natureza restauração da vida



como parte integrante da missão em todas as dimensões.


que Deus deu à igreja.

















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49






A teodiceia e a teologia





cristã: o mal na criação
A TEODICEIA E A TEOLOGIA CRISTÃ: O MAL NA CRIAÇÃO
PÁGINAS 50 A 65, 2011















Introdução

balho. Pelo fato de se tornarem fre-
R eginaldo V

É comum assistirmos a um ○

quentes as ocorrências em relação
às enchentes, terremotos, torna-

telejornal e ficarmos chocados


dos, conseqüências do aquecimen-


com notícias referentes a crimes e


violência social, ao abandono de to global, entre outras, temos cada



Von
on Zuben*

crianças recém-nascidas, à fome vez mais o conhecimento e a cons-


ciência do agravamento relaciona-


mundial e aos acidentes de trânsi-


do ao equilíbrio e sustentabilidade

to que acabam em mortes. Fica-


do meio ambiente. O desespero


mos chocados também quando


destas pessoas que sofrem nos cau-


nos deparamos com pessoas que


desesperadamente procuram em- sa indignação e pesar, sentimentos



prego e não o encontram, outras aos quais se junta o de injustiça.


Estas notícias e constatações,


que vivem nas ruas, passam frio,


além do choque, da perplexidade


sentem fome e não têm um lar


e muitas vezes da revolta, fazem


como abrigo e descanso.


Outras notícias que nos en- surgir a pergunta pela bondade,



chem de profunda comoção estão justiça, ação e presença de Deus.


Onde Deus se encontra e o que faz


relacionadas às tragédias naturais,



REGINALDO VON ZUBEN

diante do mal no mundo e do so-


ocasião em que várias pessoas


frimento das pessoas? Tratar des-


morrem ou perdem o que con-


tes assuntos significa entrar no


quistaram em toda sua vida de tra-


tema da teodiceia.

Neste artigo abordaremos as-


suntos relacionados à teodiceia e


*Reginaldo Von Zuben, pastor e professor da Facul-


dade de Teologia de São Paulo (IPIB). É Mestre em


também sobre o significado teo-

Ciências da Religião.





50






lógico do termo, a partir da pers- não foram afetados pela apatia, con-


 REVISTA

pectiva bíblica. Chamamos a aten- siderando entre estes vários cristãos,



ção para a dimensão do mal natu- certamente várias indagações já fo-

A TEODICEIA
REVIST
REVISTA


ral, ou seja, o mal presente na natu- ram feitas: por que Deus permite


reza, que resulta em tragédias e so- tanto mal e sofrimento no mundo?

TEOLOGIA E SOCIEDADE
A TEOL

frimentos de grandes proporções Por que milhares de pessoas sofrem?

TEOLOGIA

para milhares de pessoas. No final, Como crer em um Deus que é so-


OGIA E SOCIEDADE Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São P


destacaremos duas considerações berano, que controla todas as coi-

E A TEOL

extraídas da teologia contemporâ- sas, mas parece estar indiferente e


nea sobre o tema e uma proposta distante desta situação caótica vivi-

TEOLOGIA

sobre como agir em relação ao mal da pela humanidade? Por que Deus

no mundo. não elimina o mal? Estas e tantas

OGIA

outras questões sempre foram le-


Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


vantadas na história e, diante delas,


1. A relevância e o

CRISTÃ: O MAL NA CRIAÇÃO


a teologia teve que apresentar res-


significado da postas. Além disso, deparamo-nos



com o problema referente ao sofri-


teodiceia

mento do justo ou de pessoas ino-



Infelizmente, as notícias e os centes, muitas vezes vítimas indefe-


acontecimentos indicados na intro-


sas diante do mal e das tragédias.


dução ocorrem quase que diaria-


Estas questões nos levam a enten-


mente. Isto pode gerar o perigo de der por mal aquilo que desumaniza

sermos tomados pela apatia. Apa- e fere a dignidade humana, que cau-

tia está relacionada à insensibilida- sa sofrimento, dor, desilusão e va-



de, a não capacidade de sentir ou de zio existencial.


sofrer, à indiferença e ao conformis-


Por fim, somos cada vez mais


Paulo

mo em relação ao sofrimento conscientes do mal natural, respon-


aulo
aulo,, SP

alheio. Vamos nos acostumando de sável por provocar catástrofes de



tal maneira com o mal, com o so- proporções planetárias. Diante dele,

frimento, com as injustiças e aflição cresce nosso medo e aflição com a


R eginaldo V

das pessoas que não sentimos mais


ameaça que pesa sobre a condição


PÁGINAS 50 A 65 

dor e indignação. Aos poucos, aca-


de sobrevivência no mundo. Nos


bamos nos conformando com tais últimos anos, diversos exemplos



acontecimentos. podem ser apontados com relação


Von

Para aqueles e aquelas que ainda


on Zuben

ao mal proveniente das reações na-








51






turais, dentre eles: enchentes, terre- e a justiça está associada aos seus atos,



motos, tornados, aquecimento glo- porque o mal e o sofrimento fazem



bal, secas etc. Recentemente, o parte da realidade e da experiência
A TEODICEIA E A TEOLOGIA CRISTÃ: O MAL NA CRIAÇÃO
PÁGINAS 50 A 65, 2011



mundo contemplou e lamentou o humana? Por que no momento em


forte terremoto, acompanhado de que mais precisamos ou que seria



tsumanis, que atingiu a costa leste do fundamental a ação de Deus, parece



Japão, provocando muitos estragos que experimentamos sua ausência,



e causando a morte de milhares de seu silêncio? Quais as razões que ex-



pessoas. Como entender a natureza plicam o mal presente e proveniente



como fruto da ação criadora de Deus, da própria na natureza?


permeada pela bondade, mas que dá Indagações como estas foram e


sinais de limitações e fragilidades, as ○

continuam sendo levantadas em re-
quais põem em risco a continuidade lação à fé em Deus. Por isso, é tare-

da vida humana na Terra? fa da teologia lidar com elas, como



O termo teodiceia é composto sugere Rubio (2001, p. 602): “As-


por duas palavras gregas (Theo + sim, as questões que a existência do



dikê) e etimologicamente significa mal provoca não podem ser deixa-



Deus justo. A concepção tradicio- das de lado numa reflexão teológi-



nal da bondade e da soberania de ca sobre a criação boa de Deus e



Deus sustenta que Ele governa o sobre o ser humano criado à ima-

mundo e controla todas as coisas. gem e semelhança de Deus”.


Tudo o que acontece é proveniente


2. Perspectiva

de seus atos ou da sua permissão.



Nada foge do seu alcance ou do seu


bíblica sobre o mal e

conhecimento. Assim, o Deus justo


o sofrimento humano

rege o mundo e tudo que acontece


nele. A sua justiça se faz presente


No Primeiro Testamento, por


em cada acontecimento.

exemplo, é possível encontrar indi-



REGINALDO VON ZUBEN

Por outro lado, diante da percep- retamente as questões levantadas



ção e da experimentação do mal, das acima, assim como a indicação de



tragédias, das injustiças e da dor hu- perspectivas para explicá-las. Três



mana, surgem as outras perguntas: delas são centrais. A primeira é a


como pode existir o mal no mundo


concepção de que o mal e


sendo ele governado por um Deus


consequentemente o sofrimento

justo e bom? Se Deus é o Sumo Bem humano, procede de Deus.








52






Brakemeier (2002, p. 57) é consci- seja, de que o sofrimento na vida do

 REVISTA

ente disso ao afirmar: “Conforme a justo é consequência do pecado co-



tradição bíblica, males podem pro- metido, teologia esta representada



ceder do próprio Deus. Ele é o Se- pelos discursos dos amigos de Jó.


nhor da vida. Em termos de Jó, isto Em última instância, o livro de Jó

TEOLOGIA E SOCIEDADE

significa: ‘O Senhor o deu, e o Se- mostra que a fidelidade a Deus,



nhor o tomou; bendito seja o nome mesmo em meio ao sofrimento in-



do Senhor” (Jó 1.21)’”. Esta mes- justo, é o melhor caminho a ser se-



ma ênfase é encontrada no discurso guido. Temos a seguinte afirmação


profético que enfatiza a ira e o juízo ○
de Gomes (2007, p. 27) sobre o re-
divino, baseados na teologia da re- ferido livro:

tribuição (Ez 7.1-10; Am 3.1-15; Sf A linguagem da lamentação,



1.5-17). O profeta Isaías é enfático própria do sofrimento, mos-


Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


ao anunciar: “Eu formo a luz e crio tra o inocente fiel mesmo



as trevas; faço a paz e crio o mal; quando Deus parece ser seu

eu, o Senhor, faço todas estas coi- inimigo, superando a teologia



sas” (Is 45.7). Isto pode ser perce- da retribuição e mostrando a



bido também nos relatos de Gênesis fragilidade das imagens divi-



6.1-22, que justificam as razões e o nas tradicionais. O livro não



anúncio do dilúvio, assim como em explica a origem do sofrimen-



Êxodo 8-12 no que se refere às pra- to, mas faz perceber que a dor

gas enviadas por Deus ao Egito. atinge inocentes e não sim-



Há no entanto, um aspecto im- plesmente os culpados e



portante a ser considerado em rela- impiedosos.



ção ao livro de Jó. Este levanta a



pergunta sobre o sofrimento do jus- A segunda perspectiva no Pri-


to, daquele que teme a Deus e é meiro Testamento é a de que o mal



exemplo em sua vida moral e de e o sofrimento humano procedem



devoção. Por que o justo sofre? É a de Satanás. A origem desta concep-



pergunta principal deste livro. Para ção se encontra no pressuposto



a tristeza ou desilusão de alguns, tal politeísta e no referencial dualista,


predominante nas religiões antigas.


pergunta não é respondida no refe-


rido livro, pois o ele não pretende Aqui, Brakemeier (2002, p. 56-57)

explicar a origem do mal, mas com- nos auxilia ao destacar estas duas

bater a teologia da retribuição, ou possibilidades:








53






De onde proveio o mal? A per- ser ontológico, ou seja, um ser per-



gunta tem longa história e sonificado. Os dois textos mais co-



desafia não só a teologia. Mi- muns utilizados hoje para justificar
A TEODICEIA E A TEOLOGIA CRISTÃ: O MAL NA CRIAÇÃO
PÁGINAS 50 A 65, 2011



tologia antiga atribui a desgra- essa perspectiva, procedentes de


ça aos ciúmes dos deuses. uma interpretação limitada e super-



Teriam ficado invejosos da ficial, são Is 14.12-15 e Ez 28.1-19.



felicidade humana e lhe mis- Estes textos alimentam a ideia dos



turado o fel. O ser humano, anjos caídos, liderados por um de-



portanto, seria vítima do ci- les, Lúcifer. O mal é proveniente des-



nismo de divindades. Ou en- tes seres criados e caídos, pois se


tão o mal é visto como prin- opõem a Deus e desejam que os se-


cípio cosmológico, antagôni- ○

res humanos façam o mesmo. Por
co a Deus. É a versão causa disso, Satanás e seus demôni-

dualista, que parte da hipó- os passaram a ser responsabilizados



tese de dois mundos distin- pelo mal e pelo sofrimento no


tos, o do bem e o do mal, mundo. Contudo, novamente



ambos eternos. São reinos Brakemeier (2002, p. 57) desenvol-



vistos como estando, infeliz- ve o seguinte parecer sobre tal con-



mente, entrelaçados, um con- cepção:



tra o outro. O mal seria uma É outra mitologia empe-



realidade autônoma ao lado nhada em elucidar as ori-


do bem. Também desta vez o gens do mal. Ela ocorre na



ser humano não carrega a apocalíptica judaica e dei-



culpa. Sofre os efeitos de um xou vestígios também na



drama cósmico que precipita tradição cristã. Os demôni-



sobre ele e lhe determina o os e o próprio Satanás teri-


destino. (grifo do autor) am essa procedência. Tam-



bém desta vez, o mal está




REGINALDO VON ZUBEN

Uma das prováveis influências sendo atribuído a uma cau-



do dualismo religioso em relação ao sa sobrenatural, trans-his-



povo de Israel se deu no contexto tórica, ainda que o



do cativeiro babilônico, por meio do apocalipsismo visse na que-


dualismo persa, religião de da dos anjos um evento



Zoroastro. A partir de então, o mal culposo e não trágico,



passou a ser concebido como um como o gnosticismo.








54






A terceira perspectiva no Primei- por meio de Cristo Jesus.

 REVISTA

ro Testamento para explicar o mal Ao olharmos para Jesus, seu en-



e o sofrimento no mundo é a de que sino, sua vida e seu ministério, tam-



ambos procedem do próprio ser bém não encontraremos uma res-


humano em seus desejos, pensamen- posta para a indagação sobre o mal

TEOLOGIA E SOCIEDADE

tos e ações, os quais vão contra a e o sofrimento no mundo. Encon-



vontade e a lei de Deus. Aqui, a li- traremos sim a proposta do amor



berdade, a desobediência e a rebel- prioritário e absoluto a Deus, assim



dia humana dão origem e ocasionam como a do amor ao próximo como


o pecado, o qual gera e projeta o mal ○
amamos a nós mesmos. Este é o ca-
e o sofrimento. O relato da Queda minho para uma realidade com me-

(Gênesis 3) mostra isso. Esta, sem nos sofrimento e maldade. Jesus se



dúvida, é uma das principais refe- concentra naquilo que o ser humano

Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


rências que explicam a existência e é capaz de fazer para promover e



a proliferação de tantos males no aumentar o mal no mundo. Contrá-


mundo, ou seja, o ser humano sem rio a isto, ele aponta o amor, o per-

Deus ou longe da vontade de Deus, dão, a solidariedade, a comunhão



vivendo em torno dos seus interes- com o Pai e, por fim, aponta os valo-

ses, ambições e ganâncias, sendo res e sinais do Reino de Deus. Jesus



governado pelo egoísmo, pre- reconhece que o pecado é responsá-



potência, soberba e orgulho. vel por diversas manifestações do


Nesta terceira perspectiva, a ori- mal, da injustiça e do sofrimento na



gem do mal e do sofrimento encon- vida e na história da humanidade. Da



tra-se na Queda e na prática do pe- mesma forma, indica e nos ensina



cado, sendo este decorrente da li- que a existência e a constatação do



berdade concedida por Deus às suas mal e do sofrimento são oportuni-


criaturas. Segundo Brakemeier dades para que seja revelada a glória



(2002, p. 61): “O pecado não é nada e a bondade de Deus por meio de



superficial ou acidental; antes, afeta nossas ações (Jo 9.1-12).



a raiz de tudo o que é humano”. As questões relacionadas à



Toda a história bíblica aponta para teodiceia vão além do mundo bíbli-

co e desafiam a fé cristã ao longo da


a redenção de Deus, que é justo e


bom, soberano para revelar e recon- história. Em cada época elas se tor-

ciliar o ser humano pecador por nam atuais e pertinentes na medida



meio de sua graça, principalmente em que a maldade e o sofrimento se








55






revestem de novas configurações e gerava a fome, os terremotos e os



amplitude, tal como em nossos dias. acidentes ocasionais (Lc 13.4). Es-



tes afetam a vida humana e podem
A TEODICEIA E A TEOLOGIA CRISTÃ: O MAL NA CRIAÇÃO
PÁGINAS 50 A 65, 2011


3. O mal e o


trazer consequências arrasadoras,


inclusive levando muitos à morte.


sofrimento


Por ser natural, esta forma de



provenientes da mal é compreendida, conforme opi-



nião de Rubio (2001, p. 622), como


natureza


“parte da criaturidade própria do ser


Além das três perspectivas res-


humano”. É com esta noção que o


saltadas no Primeiro Testamento referido autor indica a fundamen-


sobre a origem e a existência do mal ○

tação bíblico-teológica para tal:
e do sofrimento no mundo, encon- Segundo uma outra perspec-

tramos também uma quarta pers- tiva bíblica, desenvolvida so-



pectiva que é a do mal natural. Da- bretudo pela literatura


qui provém a constatação de que sapiencial, o sofrimento, as



certos males ocorrem independen- ambigüidades e os diversos



te das ações e dos desejos humanos. males que concernem à con-



Conforme a cosmovisão vétero-tes- dição humana são perfeita-



tamentária, o mal natural independe mente naturais, simplesmen-


da liberdade humana, ou seja, não é


te fazem parte da criaturidade


provocado pelo ser humano. Este é própria do ser humano. As-



o parecer de Brakemeier (2002, p. sim, o Eclesiastes e numero-



51) ao indicar que o mal natural “[...] sos salmos falam das maze-

diz respeito aos flagelos que atingem las da existência humana



o ser humano sem nenhuma culpa como realidades naturais,


da sua parte e até de forma aleató- sem que seja feita conexão

ria. São os golpes sofridos, os aci- com um castigo imposto por




REGINALDO VON ZUBEN

dentes. É o sofrimento resultante da causa do pecado.



limitação humana e da fragilidade



da vida”. A concepção de Deus diante do


O mundo bíblico é permeado


mal natural é a de que Ele pode in-


por diversas ocorrências naturais tervir e livrar o ser humano do seu



que caracterizam o mal, tais como: sofrimento e ameaças. Isso justifica



a seca, improdutividade da terra que as diversas orações e clamores soli-








56






citando a salvação, a proteção e a redenção final de todas as coisas

 REVISTA

ajuda de Deus. Isso também é váli- (Rm 8.19-23). O ser humano é quem



do para os pedidos para que o mal submete a criação à desarmonia e



natural não ocorra, mas se ocorrer, ao sem sentido, sendo responsável


não afete a vida ou a família do su- por muitas das tragédias decorren-

TEOLOGIA E SOCIEDADE

plicante. tes da crise ecológica.



Em relação à natureza, na pers- A questão que se levanta em nos-



pectiva da teodiceia, dificilmente sos dias é: a perspectiva vétero-



extraímos lições a partir de Jesus. testementária a respeito da isenção


O motivo é que, para Ele, a nature- ○
humana em relação ao mal natural
za deve ser contemplada e compre- pode ser sustentada? Em outras pa-

endida muito mais como manifes- lavras, diante de um conhecimento



tação da graça e da bondade de Deus científico mais amplo acerca das leis

Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


do que como fonte de ameaça e da natureza e das consequencias da



maldade. A contemplação da natu- ação humana irresponsável e


reza implica no reconhecimento da exploratória para com o meio am-



providência divina, ou seja, da bon- biente, devemos continuar com o



dade de Deus na manutenção e con- paradigma de que o mal natural



tinuidade da vida. independe da liberdade humana? O



Ao nos ensinar a olhar para os mal natural realmente não é provo-



pássaros e os lírios do campo, Jesus cado pelo ser humano?


enaltece a ação e o cuidado de Deus



em favor da vida, principalmente


4. Considerações

dos seres humanos (Mt 6.25-34).



Gomes (2007, p. 26) faz a seguinte teológicas acerca do



pergunta sobre esta perspectiva:


mal na natureza

“Não estaria tudo isso nos alertando



para o fato de que, apesar do mal e Gostaria de destacar, dentre ou-



do sofrimento, há no ser humano e tras, duas considerações teológicas



no mundo mais coisas dignas de desenvolvidas na atualidade em re-



admiração do que de desprezo?” lação às questões levantadas pela


teodiceia e a breve análise bíblico-


No entanto, conforme o pensa-


mento paulino, o gemido e as an- teológica que fizemos acerca do mal



gústias da criação se dão mediante em geral e do mal natural. Da mes-



o pecado humano, incluindo-a na ma forma, há uma proposta perti-








57






nente sobre como agir diante do mal rabilidade, mesmo quando



no mundo e na natureza. cultivamos nossos desejos oni-



A primeira consideração diz res- potentes? (itálicos do autor)
A TEODICEIA E A TEOLOGIA CRISTÃ: O MAL NA CRIAÇÃO
PÁGINAS 50 A 65, 2011



peito à concepção teológica da cria-


ção. Por meio de uma série de per- Antes de nos posicionarmos de



guntas, Gomes (2007, p. 12-13) nos forma contrária às perguntas feitas



faz pensar na criação divina como por Gomes, analisemos que, por um



limitada, imperfeita e finita: lado, elas não rejeitam a fé ou a con-



A Criação, saída das mãos cri- cepção de Deus como o Criador.



ativas do Pai como alteridade, Elas também não alteram a concep-


não possui sua limitação, sua ção bíblica de que Deus criou todas


imperfeição e sua finitude ○

as coisas por meio de sua Palavra e
num processo evolutivo, razão Espírito, mediante sua livre vonta-

pela qual sofre desequilíbrios, de, sendo a criação permeada por



provocando catástrofes? Não Sua bondade (Gn 1). Esta criação é


teria a finitude, por força, as lugar ideal para que o ser humano

portas abertas para a irrupção viva bem, em paz e harmonia com



do fracasso, da disfunção, da Deus, consigo próprio, com o pró-



tragédia e do mal? Neste sen- ximo e com a natureza (Gn 2). Por

tido, um mundo finito perfei- outro lado, Gomes levanta a possi-



to não seria, portanto, um so- bilidade de pensarmos na criação,


nho da razão mítica inicial do mesmo que provinda do ato divino,



paraíso, ou o mito final da so- como imperfeita, finita e limitada.



ciedade perfeita, um contra- Uma das principais doutrinas da



senso lógico? Não somos cau- tradição reformada enfatiza a distin-



sadores do mal e do sofrimen- ção entre criatura e Criador. Esta dis-


to devido à nossa limitação tinção também pode se relacionar à



criatural e à limitação de nos- criação e Criador. A criação não com-




REGINALDO VON ZUBEN

sa liberdade? Não somos nós partilha dos atributos divinos. É cri-



afetados por nossos próprios ação. Por isso, Gomes sugere que não

desequilíbrios e pelos devemos concebê-la como perfeita,



desequilíbrios de nosso principalmente no sentido grego do


ecossistema? Não nos encon- termo. A criação é finita e, por ser



tramos numa situação de ex- assim, tem suas limitações e imper-



trema fragilidade e vulne- feições. Paul Tillich tratou desta pers-








58






pectiva apontando a ambiguidade da to científico e à noção da

 REVISTA

e presente na criação. complementariedade entre tudo e



Desse modo, é possível pensar- todos, o modo de viver e agir da



mos na possibilidade das catástro- humanidade não pode ser conside-


fes e tragédias naturais como limi- rado tão isento assim. O atual mo-

TEOLOGIA E SOCIEDADE

tes da própria natureza. A finitude mento de crise ecológica mostra



é inerente a ela. Por ser assim é que muito bem esta não isenção. Tudo



o meio ambiente está suscetível às o que fazemos e o modo como vive-



ações predatórias dos seres huma- mos refletem na natureza. Muitas


nos e reage contrariamente ao equi- ○
das tragédias naturais no mundo,
líbrio e às condições de harmonia hoje, são reações ou consequências

e bem-estar. Portanto, o mal natu- daquilo que representa o compor-



ral não ocorre por acaso, pelo con- tamento humano diante aos recur-

Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


trário, é o ajuste e a adaptação da sos e limites do meio ambiente.



natureza devido ao comportamen- Portanto, sendo a criação divina


to humano em relação a ela e à sua limitada, imperfeita e finita, tanto o



finitude, imperfeição e limitação. mal como o sofrimento são possibi-



Devemos romper com a concep- lidades inerentes a ela. Eles se mani-



ção que o meio ambiente é fonte festam na história, na vida humana e



inesgotável de recursos naturais e na natureza por meio de diversos fa-



que ela suporta e se ajusta satisfa- tores. Várias destas manifestações


toriamente, ou sem conflitos, em podem ser explicadas, outras ainda



meio ao descaso e desmandos da não. No entanto, isto não nos deve



humanidade. levar ao conformismo ou ao pessi-



É verdade que muitos males na- mismo em relação ao mal e ao sofri-



turais ocorreram no passado, antes mento, tal como a proposta dos es-

da crise ecológica dos nossos dias, tóicos, marcada pelo ascetismo e ao



para os quais não havia explicação máximo de indiferença em relação



científica e que geravam a explica- aos desejos e instintos humanos.



ção da isenção humana. O Primei- A segunda consideração é a de



ro Testamento tem este referencial, que tanto as Escrituras como a refle-


xão teológica ao longo da história não


ou seja, de que o ser humano, com


seu modo de viver e agir, não tinha apresentam respostas racionais para

nada a ver com o mal natural. Hoje, a origem do mal no sentido



devido aos avanços do conhecimen- ontológico. É por este motivo que








59






alguns teólogos se referem ao mal e A partir disso, apresentamos a



sua origem como mistério (cf. Rubio, proposta de como agir diante do mal



2001, p. 601 e Gomes, 2007, p. 22). no mundo e na natureza. Teologica-
A TEODICEIA E A TEOLOGIA CRISTÃ: O MAL NA CRIAÇÃO
PÁGINAS 50 A 65, 2011



Talvez seja por isso que até hoje não mente, nossa missão é lutar contra


há, tanto na teologia como na filoso- o mal, tendo como base a graça de



fia, uma explicação satisfatória e con- Deus. A teologia bíblica nos mostra



vincente para existência do mal. O Deus presente no mundo, que age e



mal existe no âmbito histórico, ele se revela, para libertar, curar ou sal-



não tem uma realidade metafísica. var. O principal tema das Escritu-



Sendo assim, o ser humano deve se ras é o da redenção divina, a qual se


conscientizar e assumir sua culpa pelo concretiza de forma plena em Cris-


mal natural, evitar o progresso deste ○

to Jesus. Portanto, devemos pensar
mal até onde é possível e não se aco- teologicamente na correlação entre

modar em meio aos privilégios e in- Deus Criador e Salvador. A partir



teresses capitalistas. Isso exige um disto, como Deus nos ajuda não só

comportamento em correspondên- a evitar o mal, mas também



cia com as ações ecológicas, tão combatê-lo e reagir contra ele,



divulgadas atualmente. Rubio (2001, p. 616) resume bem



Portanto, considerando a teolo- o propósito da teologia bíblica:



gia bíblica, como cristãos não deve- De maneira bem sintética,



mos nos preocupar com o mal em podemos afirmar que tanto


termos de origem ontológica, mas no Antigo quanto no Novo



sim com o que podemos e devemos Testamento, a realidade e a



fazer em relação a ele. Isso não sig- experiência do mal, aborda-



nifica desprezo por qualquer refle- das com bastante freqüência,



xão ou teorização sobre o mal, pois ocupam um espaço importan-


concordamos com Rubio (2001, p. te, mas sempre em função da



605) ao afirmar: mensagem de salvação ofere-




REGINALDO VON ZUBEN

“Concretamente, as reflexões cida gratuitamente por Deus.



aqui feitas tentam ser um ser- O mal acontece às vezes in-



viço ao discernimento cristão dependentemente da vontade



na luta prática contra o mal e do homem, outras vezes com


contra o sofrimento. A teoria a sua participação ou por sua



está a serviço da prática na omissão. A Sagrada Escritu-



vida cristã”. ra ressalta que o mal é um








60






poder a afetar tanto o indiví- eliminar o mal do mundo de forma

 REVISTA

duo quanto a sociedade, que automática e mágica, pois Ele res-



está presente em cada vida peita a liberdade finita concedida ao



humana e que o homem sozi- ser humano, assim como as leis im-


nho não é capaz de vencê-lo. postas à própria natureza. A forma

TEOLOGIA E SOCIEDADE

como Deus age em relação a este



A principal implicação bíblica le- assunto é outra, tal como é expla-



vantada sobre esse assunto é a da per- nada por Queiruga (1999, p. 245):



cepção de que diversos males que se Deus “não pode” eliminar o


fazem presentes na vida humana e ○
mal, por ser este o preço ine-
na história humana são possíveis de vitável de uma realidade finita

serem superados, evitados e extingui- e histórica; mas se aplica com



dos da realidade. Nesse sentido, Je- toda a força de seu amor a


Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


sus se torna a principal referência, apoiar a pessoa perante ele -



apresentando-nos o perdão gracioso Deus como “Antimal”; e no


de Deus e a proposta da solidarieda- conjunto da realidade – inclu-



de com os que sofrem e padecem no indo história e trans-história



mundo. Este foi o critério do seu – acaba suportando-o no mis-



ministério ao dizer: “O Espírito do tério da salvação escatológica;



Senhor está sobre mim, pelo que me de forma que no final logra-

ungiu para evangelizar os pobres; remos poder dizer que Deus


enviou-me para proclamar libertação “quer e pode” vencer o mal.



aos cativos e restauração da vista aos



cegos, para pôr em liberdade os opri- Algo consolidado na teologia cris-



midos, e apregoar o ano aceitável do tã, principalmente a revelação do



Senhor” (Lc 4.18-19). amor, do agir e da graça de Deus


Lutar contra o mal e o sofrimen- em Cristo é que Deus não é o autor



to, visando sua superação na histó- do mal e nem pode promover o mal.

ria, implica na responsabilidade hu- O caráter salvífico cristão aponta a



mana. A revelação, a presença, a impossibilidade e a contradição



soberania e a graça de Deus nos dão quanto a Deus ser responsável pelo

condições e nos convocam a rever- mal. Nesse sentido, Gomes sugere


ter toda situação possível de peca- que abandonemos e rejeitemos res-



do, de mal e de sofrimento. Na con- postas fáceis ao problema do mal na



cepção de Queiruga, Deus não pode vida humana e na natureza, pois elas






61






podem se transformar em fonte de do Deus sádico e amante do sofri-



angústias, revoltas e amarguras para mento e da religião do medo, do útil



com o próprio Deus. Por respostas e infantil (cf. 2007, p. 41-49).
A TEODICEIA E A TEOLOGIA CRISTÃ: O MAL NA CRIAÇÃO
PÁGINAS 50 A 65, 2011



fáceis e suas consequências, Gomes Nesta mesma perspectiva se en-


(2007, p. 51) que dizer: contra Queiruga ao afirmar a neces-



Com respostas fáceis justifi- sidade de libertarmos Deus de nos-



cou-se o sofrimento e o mal sos mal entendidos (cf. 1999, p. 265-



como derrota do orgulho hu- 273), dentre eles: Deus não impõe,



mano, provação, permissão e/ só ajuda; Deus não castiga, só per-



ou vontade divina, castigo ou doa. Com isso, ele mostra que Deus


retribuição, destino e fatalida- age não mediante a coação e sim


de ou mesmo um bem. Essas ○

pela persuasão, ou seja, quer ajudar
respostas, além de contribuir o ser humano a se libertar do mal e

para a passividade dos que so- do sofrimentos possíveis. Da mes-



frem, alienando-os da luta con- ma forma, mostra que Deus não é


tra o sofrimento e o mal que condizente com a imagem de um juiz



deve ser erradicados, geraram terrível e culpabilizador, mas que age



em muitas pessoas revoltas com amor, justificando o pecador.



expressas ou reprimidas, en- Moltmann é outro teólogo que



venenando a relação com tem contribuído para mudanças em



Deus ou engendrando rela- nossa forma de conceber e imagi-


ções pouco sadias em nossa fé. nar Deus. Ele tem criticado veemen-

temente a concepção grega do deus



Para Gomes, as respostas fáceis apático, imóvel e impassível, con-



são inadequadas a partir de uma sé- cepção presente na tradição cristã e



ria reflexão teológica a partir da que ainda é comum e presente no


perspectiva cristã e dos paradigmas imaginário e nas doutrinas em nos-



do mundo moderno. Além disso, sos dias. Em vez disso, a partir da




REGINALDO VON ZUBEN

representam, no parecer do referi- teologia da cruz e da ressurreição de



do autor, a força do hábito e da re- Cristo, ele propõe a ênfase no Deus



petição, a preguiça intelectual e a apaixonado do Antigo e Novo Tes-



acomodação de uma imagem equi- tamentos.


vocada de Deus. Por isso, ele tam- No que diz respeito especifica-

bém sugere mudanças em nossas mente ao tema da teodiceia (Deus



imagens de Deus, principalmente a justo ou a justiça de Deus no mun-








62






do), Moltmann (2008, p. 75-76) em relação ao sofrimento humano,

 REVISTA

oferece significativa contribuição mas indica que o melhor caminho



sobre a concepção da justiça divina para combater o mal no mundo se



ao enfatizar que: dá mediante a vivência e confiança


Julgar não tem nada a ver com na graça e no amor de Deus e, como

TEOLOGIA E SOCIEDADE

punição, mas com o fruto delas, a prática da justiça do



soerguimento da pessoa e sua Reino e a solidariedade para com o



salvação, com a colocação de próximo, principalmente os excluí-



todas as coisas em ordem [...]. dos e marginalizados. Isto também


Somente quando conhece- ○
é válido para o mal proveniente da
mos essas representações do própria natureza, sendo este tam-

“sol da justiça” poderemos bém reflexo do atual comportamen-



entender que, no Antigo Tes- to humano em relação ao meio


Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


tamento, o julgamento de ambiente.



Deus não precisa ser temido,


mas sim saudado como a sal-


Conclusão

vação para os seres humanos



e para a terra: “Ele julgará toda O tema da teodiceia continuará



a terra com justiça”. chamando a atenção dos cristãos e


das pessoas em geral. À medida que



aumenta as constatações do mal e


Diante destes breves apontamen-


tos, percebemos que os temas da do sofrimento humano no mundo,



cruz e da ressurreição de Cristo têm crescerá o interesse pela teodiceia,



sido referências importantes na aná- pela compreensão e manifestação da



lise e reflexão teológica diante do justiça, da onipotência e da bonda-


de de Deus.

mal e do sofrimento no mundo. O


próprio Filho de Deus participa ple- Uma das áreas que suscitará

namente da condição humana e pas- atenção é a do mal na natureza. As



sa pela experiência da dor, do sofri- previsões apontam problemas séri-



mento e da morte injusta, represen- os e graves à vida humana na Terra


em decorrência da crise ecológica.


tações do mal em seu contexto, as-


Vários teólogos renomados, em


sim como tantas outras em seu mi-


nistério (pobres, enfermo, mulhe- nossos dias, já ofereceram significa-



res, publicanos e outros). tivas contribuições sobre o assunto



Jesus não apenas se faz solidário por meio da chamada ecoteologia.








63










A TEODICEIA E A TEOLOGIA CRISTÃ: O MAL NA CRIAÇÃO
PÁGINAS 50 A 65, 2011




















Até hoje não há, tanto na teologia como na



filosofia, uma explicação satisfatória e



convincente para existência do mal. O mal




existe no âmbito histórico, ele não tem uma



realidade metafísica. Sendo assim, o ser



humano deve se conscientizar e assumir sua



culpa pelo mal natural, evitar o progresso



deste mal até onde é possível e não se



acomodar em meio aos privilégios e



interesses capitalistas. Isso exige um



comportamento em correspondência com as



ações ecológicas, tão divulgadas




atualmente.

REGINALDO VON ZUBEN

Portanto, considerando a teologia bíblica,



como cristãos não devemos nos preocupar



com o mal em termos de origem



ontológica, mas sim com o que podemos e



devemos fazer em relação a ele.










64







Certamente, o interesse deles não é Lutar contra o mal e

 REVISTA

apenas tratar do tema teoricamen- o sofrimento, visando



te, mas contribuir para a sua superação na



conscientização cristã do que deve-
história, implica na



mos e do que é possível fazermos,

TEOLOGIA E SOCIEDADE

levando a igreja a ações práticas nes- responsabilidade



te sentido. Não é agressivo afirmar humana. A revelação,



e reconhecer que na obra dos eco- a presença, a



logistas hoje se encontra a ação de soberania e a graça
Deus em favor do mundo, a fim de ○


de Deus nos dão


que ele seja mais justo, harmônico
condições e nos

e repleto da bondade divina.


convocam a reverter

Sendo assim, cada vez mais so-


Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


toda situação

mos desafiados a aprofundar este


possível de pecado,

tema, buscando oferecer contribui-


de mal e de

ções que correspondam ao testemu-


nho fiel das Escrituras, para o bem-


sofrimento.

estar humano e para a glória de Deus.


















REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRAKEMEIER, G. O ser humano em busca de identidade. São Leopoldo/ S. Paulo: Sinodal/


Paulus, 2002.

GOMES, Paulo Roberto. O Deus im-potente. O sofrimento e o mal em confronto com a cruz. S.

Paulo: Loyola, 2007.


MOLTMANN, Jürgen. Vida, esperança e justiça. Um testemunho teológico para a América


Latina. São Bernardo do Campo: EDITEO, 2008.


QUEIRUGA, Andrés Torres. Recuperar a criação. Por uma religião humanizadora. S. Paulo:

Paulus, 1999.

RUBIO, Alfonso García. Unidade na pluralidade. O ser humano à luz da fé e da reflexão cristã.

S. Paulo: Paulus, 2001.










65






Teologia Missional





Sócio-ambiental
O TEOL
PÁGINAS 66 A 77, 2011



TEOLOGIA



OGIA MISSIONAL SÓCIO -AMBIENT












Introdução ○
*

Timóteo Carriker* missional. Dentre uma minoria de



-AMBIENTAL

O tema, “teologia missional na igrejas que consegue pensar sua



sociedade”**, refere-se ao alvo da vida ultrapassando seu estilo de


culto, padrão de liderança e mo-


missão ou da tarefa da igreja no


AL

delo de pastorado— coisas muito


mundo. Sua escolha já delimita o


importantes— há igrejas que pro-


alvo, a humanidade, um pressu-


posto que, apesar de comum, é curam se reconfigurar em termos



questionável se considerarmos o da missão.


A “missão” no século XX, de-


início, meio e fim da revelação de


vido a fatores filosóficos e cultu-


Deus nas Escrituras. É grande a


rais que não podemos tratar aqui,


luta da igreja para enquadrar a sua


inicialmente foi quase sempre con-


raison d’êntre (razão de ser) para


além de si mesma. Tentar fazer cebida em termos de evangelismo



isso tem sido a constante tarefa e acréscimo do número de parti-


cipantes nas atividades da igreja.


da missiologia, ou da teologia

Isto em si também é bom, é muito



bom. Analisando os mais que 150




TIMÓTEO CARRIKER

anos das igrejas evangélicas brasi-



*Timóteo Carriker é missionário da Igreja


leiras, observamos que este concei-

Presbiteriana dos Estados Unidos (PCUSA) atuan-


to da sua “missão” começa a se

do como obreiro fraterno da Igreja Presbiteriana


Independente do Brasil (IPIB) nas áreas de mis-


ampliar primeiro na década de 60

sões, educação teológica e educação cristã. É


doutor (PH.D.) em Estudos Intraculturais e tem


com o discurso da teologia da li-

diversos livros publicados.


**
Palestra proferida no Seminário Presbiteriano do bertação, principalmente católico

Sul, em Campinas, S. Paulo, em 16 de setembro de


2010. e, nos anos 70 e 80, com o discur-








66






so principalmente “evangelical” da no contexto sócio-ambiental. Além


 REVISTA

missão integral e da missio Dei. de outros motivos...


O que era bastante contestado


Consideremos o rumo para o

O TEOL
REVIST
REVISTA

nos anos 60 e 70 passou a ter mai-


qual o nosso mundo caminha. Pri-

TEOLOGIA

or aceitação nos anos 80 e 90 em meiro, a população. No próximo

TEOLOGIA E SOCIEDADE
A TEOL

diversos ambientes evangélicos bra-

OGIA MISSIONAL SÓCIO


ano, a população mundial alcança-

TEOLOGIA

sileiros, mesmo que a ficha não te- rá 7 bilhões de pessoas, apenas 12



nha caído para alguns setores ain-

OGIA E SOCIEDADE Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São P


anos após atingir 6 bilhões. Vejamos


da resistentes. A meu ver, as igre-

a tabela abaixo:

jas e grupos cristãos mais saudáveis ○

são aqueles que não abrem mão do


Crescimento da

culto vibrante que comunique, nem


população mundial

da paixão evangelística ou da com-


Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


paixão em demonstrar a misericór-

dia de Deus para com os despreza- População Ano Tempo para o



-AMBIENT
-AMBIENTAL
dos. O mesmo se dá com o zelo próximo bilhão

para ver uma sociedade cada vez (em anos)



mais justa. 1 bilhão 1802 126



Entretanto, a missão da igreja é 2 bilhões 1928 33


AL
mais abrangente ainda. Ela inclui a

3 bilhões 1961 13

redenção da própria criação e tem


4 bilhões 1974 13

como objetivo anunciar as boas no-


5 bilhões 1987 12

vas diante de tudo que governa nos-


6 bilhões 1999 11

so mundo físico e social. A Bíblia


começa e termina com esta visão. 7 bilhões* 2010 16



Se prestarmos atenção, veremos 8 bilhões* 2026 24



que tanto as expressões de louvor 9 bilhões* 2050 20


Paulo

aulo
aulo,, SP

que aparecem nas Escrituras quan- 10 bilhões* 2070 26



to as passagens chaves que falam da 11 bilhões* 2096 não calculado



missão de Deus, nos desafiam a ser


os modelos de mordomos que



PÁGINAS 66 A 77 

Deus, quer que sejamos para toda a Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/


Timóteo Carriker

População_mundial

criação, nada mais nada menos.


Ver também: http://www.pbs.org/wgbh/nova/


Logo, por razões teológicas, é impor- worldbalance/numb-flash.html



tante considerar a teologia missional








67






Por sua vez, o Brasil deverá che- igreja de Jesus Cristo hoje não pode,



gar a 233 milhões em 2050. Este é especialmente diante do papel bíbli-



o ano que os cientistas estabelece- co que lhe é dado por Deus, deixar
O TEOL
PÁGINAS 66 A 77, 2011



de atuar não só como mordomo
TEOLOGIA

ram como prazo para se criar o


em relação ao restante da população


melhor dos mundos ou então assis-
OGIA MISSIONAL SÓCIO -AMBIENT


tir ao colapso do planeta. A revista humana, mas especificamente como



Scientific American Brasil publica povo de Deus, agente de redenção.



neste mês, com exclusividade, o Da mesma forma como gasta-



dossiê “A Terra no limite”, produzi- mos os últimos 50 anos procuran-



do por diversos especialistas inter- do entender nossa missão em ter-


mos da relação entre o papel

nacionais (ver relação abaixo), que

dão um recado incisivo: nossa era é ○
evangelístico e o papel de agentes de
-AMBIENTAL

“sui generis” e estamos numa encru- transformação social - e o debate



zilhada; dependendo de nossas ações continua - acredito que nas próxi-



até 2050, poderemos criar o melhor mas décadas procuraremos enten-


AL

der como tudo isto se relaciona com


dos mundos ou assistir ao planeta


entrar em colapso. http:// uma possível missão socioam-



www.szpilman.com/noticias/ biental. Este escrito faz parte do iní-



futuro_do_planeta_terra.htm) cio desta reflexão.



É certo que sempre haverá al-


Uma perspectiva

guns cientistas ou até grupos cientí-



ficos que podem exagerar os dados


bíblica

para alcançar seus objetivos pesso-



ais e profissionais. Afinal, são gente Cristãos no mundo inteiro acre-



também. Entretanto, isto gera des- ditam que a Bíblia é a Palavra de



confiança por parte da população, Deus e, por isso, nosso guia de fé e


ação no mundo. Entretanto, pouco


que não tem condições de interpre-


tar esses dados. O fato é que há um atentamos para o fato de que a Bí-


TIMÓTEO CARRIKER

enorme consenso na comunidade blia começa e termina com a cria-



científica mundial quanto ao perigo ção. Isto em si já deveria nos alertar



que corre a biosfera devido a diver- para a importância do assunto.


Quero explorar as implicações


sos fatores como o consumismo


deste princípio e objetivo da respon-


desenfreado de produtos nocivos,


que aumenta geometricamente sabilidade cristã diante da criação.



com o crescimento populacional. A Veremos também que, no meio do








68






grande relato da Bíblia sobre a sal- 1. A criação reflete uma caracterís-

 REVISTA

vação estão presentes a preocupa- tica fundamental de Deus: é boa



ção de Deus e a responsabilidade do (Sl 19; 29; 50.6; 65; 104; 148; Jó



ser humano assim como da igreja 12.7-9; At 14.17; 17.27; Rm


em relação à sua criação. É uma 1.20). Assim, o mesmo raciocí-

TEOLOGIA E SOCIEDADE

narrativa comovente e desafiadora. nio que aparece em Pv 14.31 e



E, se fizermos uma leitura cuidado- 17.5 pode ser aplicado àqueles



sa, perceberemos que a história tem que degradam a criação de Deus.



um final otimista! Estamos cami-


nhando em direção a novos céus e ○
2. A “bondade” ou a “beleza” da
nova terra, para um mundo recria- criação não deriva de nós, e sim,

do pelo próprio Deus, mas que não de Deus. Não é meramente para

dispensa o papel do ser humano e, o nosso benefício (Sl 104.13-


Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


de modo especial, dos cristãos, na 15), mas possui valor para Deus

redenção da criação. (v.21-26).


Qual é o nosso papel, como se-



res humanos e como igreja? Como 3. A criação, embora não divina, é



devemos exercê-lo diante dos desa- sagrada, porque é criação de



fios atuais? Em resposta sugerimos, Deus, obedece a Deus, se subme-



ainda que em forma de esboço, cin- te a Deus, revela a glória de Deus,



co proposições juntamente com se beneficia da provisão e susten-


suas implicações. tação de Deus e serve ao seus pro-



pósitos. Embora não cultuemos



a criação, uma vez que ela não é



O início em Deus Criador divina (Dt 4.15-20; Jó 31.26-28;



Homo sapiens1 ou Homo dominator2 Rm 1.25), reconhecemos que é


sagrada. Existe para glorificar a



Proposição no. 1: Toda a Deus, como nós também existi-



criação pertence a Deus e em mos para glorificá-lo. Amar a



sua essência possui um valor Deus é valorizar o que Ele valo-



ético/estético: bom, muito riza e isto tem um imenso senti-


bom (Dt 10.14; Sl 24.1; Jó


do missionário (Jo 14.15 > Gn


41.11; Gn 1.4, 10, 13, 18,



21, 25 em que a palavra



“bom” se repete seis vezes). Homem sábio ou homem conhecedor.


1

2
Homem governador.





69






1.28 e 2.15). Se Deus se impor- homem e mulher juntos, está li-



ta conosco mais do que com os gado ao cuidado e à ordenação



passarinhos (Sl 84.3; Mt 6.26; pró-ativos de todas as outras cria-
O TEOL
PÁGINAS 66 A 77, 2011



10.31), isso demonstra que o turas (capítulo 1), o que exige co-
TEOLOGIA


passarinho é muito valorizado. nhecimento e “classificação” mi-


OGIA MISSIONAL SÓCIO -AMBIENT


nuciosa dos seres criados (capítu-



4. Toda a criação é palco da missão lo 2). Em Gênesis 1, nasce o zelo



de Deus e da nossa missão. Per- e responsabilidade ecológicos do



tence a Javé (Sl 139) e pertence ser humano. Em Gênesis 2, nasce



a Jesus (Ele aplica a si Dt 4.39; a ciência, que implica não só em


10.14,17 ; Mt 28.18; ver também conhecimento, mas também em


Cl 1.15-20). ○
responsabilidade.
-AMBIENTAL



5. A glória de Deus é o alvo da cria- 2. Duas palavras descrevem a in-



ção (Sl 145.10,21; 148; 150.6). cumbência humana em Gênesis


AL

Não apenas a humanidade, mas 1.28: “kâbað” (sujeitar) e “râdâ”



toda a criação expressa a sua gra- (dominar). A primeira, “kâbað”,



tidão a Deus (Sl 104.27-28) e se é usada em Miquéias 7.19 como



alegrará na sua redenção e julga- ação compassiva de Deus de “su-



mento (Sl 96.10-13; 98.7-9). jeitar as nossas iniquidades” (veja



também “tágma” e “hupotássô”


Proposição no. 2: Deus criou a em 1Co15.25-28). A segunda,



humanidade como espelho “râdâ”, é usada para descrever o



seu. A humanidade do ser domínio do rei messiânico (Sl



humano está neste reflexo 72.8; 110.2; veja “basileúô” em


criador, ordenador e cuidador


1Co 15.25), modelo para os jus-


de Deus (Gn 1.28; 2.15). tos (Sl 49.14, “o justo os domina-



rá no amanhecer do Dia da Sal-




TIMÓTEO CARRIKER

1. O destino e o bem-estar da criação vação” [tradução minha). Não são



estão entrelaçados com o destino termos de violência3, e sim, de or-



humano. O papel do ser humano, denação redentora. Seguimos o



modelo do Rei Supremo que do-


mina com compaixão, benignida-


3
Contra a acusação do muito citado Lynn White, “The

Historical Roots of Our Ecological Crisis” (As raízes de, amor, proteção, generosida-

históricas da nossa crise ecológica), Science 155 (1967),


de e bondade (Sl 104; Mt 6.26).


p. 1203-7.





70






Estas duas incumbências essen- O meio em Cristo Redentor

 REVISTA

ciais da humanidade, “dominar” Imago Christi



e “guardar”, são papéis reais e sa-


Proposição no. 3: Jesus


cerdotais, governar e servir, que


têm Cristo como modelo perfei- cumpriu o seu papel e

TEOLOGIA E SOCIEDADE

to. Também são os papéis mostrou aos seus seguidores



escatológicos da nova humanida- como uma humanidade



de restaurada no final (Ap 5.10). renovada pode realizar a sua



Logo, a boa ordenação (governo, missão (Rm 4.12-21; 2Co

domínio) e o cuidado prestativo ○

5.17).
(guardar, servir) é tanto o nosso

propósito original quanto o nos- 1. Temos uma missão realizável! Se,



so destino último. Missão inte- como seres humanos, fomos cri-


Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


gral não é integral se não inclui a ados à imagem e semelhança de



criação toda. Deus, como cristãos, somos


exortados a ser imitadores de



3. Apesar das conseqüências terrí- Jesus (1Ts 1.6; cf. 1Co 11.1) e a

veis e abrangentes do pecado, a crescer na “estatura da sua ple-



história do dilúvio deixa claro nitude” (Ef 4.13). Ou seja, Jesus



que essa incumbência primordi- é o nosso referencial, o nosso


modelo. Mais que isso, ele pos-


al continua em vigor (Gn 9.1-


12). Portanto, assumimos a nos- sibilita seguirmos os seus passos,



sa humanidade legítima em par- estar nele (2Co 5.17)!



te quando assumimos a “missão Perguntamo-nos, então: qual é a



sócio-ambiental” da boa ordena- relação de Jesus com a criação?


As Escrituras dizem que tudo foi


ção da humanidade dentro do


seu meio ambiente. É importan- criado por ele e para ele (Jo 1.1-

te esclarecer que tal missão não 5; Cl 1.16; Ef 1.9-10; Ap 3.14).



visa principalmente o benefício E na cruz, ao reconciliar toda a



do ser humano, mas acima de criação, Jesus anunciou o evan-



tudo, a glória de Deus manifesta gelho a ela (Cl 1.23)!



na beleza e no bem-estar de toda


a criação (Gn 1.27-31; Sl 8, 104). 2. Se somos seguidores de Jesus, nos-



Ser gente é ser agente no cuida- sa tarefa é contribuir para que a



do da criação. criação exista para Jesus. Isto sig-








71






nifica que: 1) agimos como Je- lhos de Deus (v.14). Como fi-



sus em relação à criação, e 2) a lhos, somos herdeiros de Deus e



nossa postura em relação à po- co-herdeiros com Cristo (v.17).
O TEOL
PÁGINAS 66 A 77, 2011



luição ambiental, ao Que herança é essa? Logo pen-
TEOLOGIA


desmatamento, ao aquecimento samos em salvação, um lugar no


OGIA MISSIONAL SÓCIO -AMBIENT


global e muito mais, deve ser céu e por aí vamos. Mas o texto



aquela que agrade a Jesus e o bíblico responde de modo dife-



honre como criador de todas as rente. Fala de uma herança “glo-



coisas. Lemos nos Evangelhos riosa”, sim (v.18), mas imediata-



que o ministério de Jesus consis- mente vincula-a à glória eterna,


tia em pregar, ensinar e curar. O em contraste com o sofrimento


seu ministério de cura ○
atual, com a sorte de toda a cria-
-AMBIENTAL

exemplifica a valorização da cri- ção (v.19-25)! A “liberdade” e a



ação (ver como Jesus lidava com “glória” futura dos cristãos estão

o vento, Lc 8.22-25; os peixes, vinculadas àquelas da criação.


AL

Jo 21.6,11; um jumento, Lc Por quê? Talvez porque o cuida-



13.15; as aves, Mt 6.26). do da criação é incumbência hu-



mana desde o início e, por isso, é



inseparável também do destino



Por meio do Espírito Libertador dos cristãos.



Vivus Spiriti

2. Enquanto a humanidade pecado-



Proposição no. 4: Seguidores ra escolheu o “sofrimento” para



de Cristo são vivificados a criação, a nova humanidade,



continuamente para a missão no Espírito, escolhe “libertação”.


por meio do Espírito Santo,


Por enquanto, participamos da


que é a primeira manifestação sorte da criação porque simples-



já presente da promessa de mente fazemos parte dela. Mas




TIMÓTEO CARRIKER

restauração da criação. não é uma relação determinista,



(Rm 8.19-25). que não podemos mudar. Por um



lado, podemos ser instrumentos


1. Os destinos da criação e do povo


de corrupção. De fato, pela in-


de Deus andam juntos. Romanos trodução do pecado, os seres



8 diz que aqueles que são guia- humanos se tornaram, de longe,



dos pelo Espírito de Deus são fi- a principal causa dos problemas






72






ambientais: desperdício, ranças, seu comportamento), de

 REVISTA

superexploração dos recursos na- forma a alcançar toda a criação



turais, abandono de soluções já de Deus.



existentes, etc. Por outro lado, a


raça humana ainda tem o papel Toda a criação um dia será “sal-

TEOLOGIA E SOCIEDADE

reservado ao mordomo que cui- va”, ou seja, renovada e recupera-



da da criação. E a igreja, em par- da. Mas de acordo com Romanos



ticular, os “filhos de Deus” (Rm 8, esta redenção da criação só acon-



8), têm a incumbência especial- tecerá depois da salvação dos segui-


mente importante de desencade- ○
dores de Cristo. Por que? Porque,
ar o elo para “libertar” a criação embora a redenção sempre venha

(“criação” e não “criatura”: é a unicamente “de Deus”, o próprio



mesma palavra usada em 2 Deus incumbe o seu povo de ser ins-


Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


Coríntios 5.17 para descrever o trumento para anunciar tal reden-



novo estado daqueles que estão ção. Por isso, o povo de Deus, a igre-

em Cristo). ja, tem importantíssimo papel na



redenção da criação. Certamente,



3. Nesta passagem Paulo fala da gló- entre outras coisas, isto implica em

ria futura de tudo que Deus ha- um compromisso ativo com aquilo

via criado. Vem como clímax de que os ecologistas chamam de “con-



uma reflexão sobre a pecamino- servação”. A palavra preferida das


sidade humana (Rm 5-7) e a nos- Escrituras parece ser “redenção” ou



sa transformação em Cristo Je- “renovação”. Basicamente, o que



sus por meio do seu Espírito (ca- Paulo escreve em Romanos 8 é o que

pítulo 8), o que redundará em o visionário João, no Livro de



salvação, tanto para os judeus Apocalipse, descreve como sendo o


quanto para os não judeus (Rm novo céu e a nova terra.



9-11), isto é, aqueles que crêem



em Jesus (Rm 10.9-13). E, ao O propósito do Deus Soberano



considerar a extensão da trans- Mundus novus



formação daqueles que são uni-


Proposição no. 5: Deus


dos a Cristo no capítulo 8, Paulo


observa que tal transformação estabelecerá um novo céu e



ultrapassa a dimensão daquelas uma nova terra, que se



pessoas (seus desejos, suas espe- evidenciarão pela justiça, paz








73






e compaixão por meio do seu corpo) passará por julgamen-



Redentor Jesus. (Gn 9.9-11; to e “fogo” (1Co 3.12-15), tam-



Is 11.1-9; 35; 65-66 bém a criação passará pelo fogo
O TEOL
PÁGINAS 66 A 77, 2011


[*65.17-25]; Ap 21.1-4)


do julgamento.4 Porém, da mes-
TEOLOGIA


ma forma que ainda haverá al-


OGIA MISSIONAL SÓCIO -AMBIENT


1. Novo céu e nova terra pressupõem guma continuidade entre os nos-



renovação ao invés de aniquila- sos corpos atuais e os corpos res-



ção. A Bíblia diz que no final ve- suscitados (1Co 15.35-58), as-



remos novos céus e nova terra. sim também será com toda a cri-



É comum entender que, por se- ação, da qual fazemos parte. Ou


rem “novos”, estes serão outros seja, como Deus havia prometi-


céus e outra terra, e não terra e ○
do, após o dilúvio, nunca mais
-AMBIENTAL

céus renovados. Como serão en- haverá tal destruição (Gn 9.15)!

tão, outros ou os mesmos, mas



renovados? Esta pergunta é es- A intenção de Deus é criar novo


AL

sencial para o empenho no cui- céu e nova terra, ou melhor, recriar



dado com a criação, porque, se este céu e esta terra, da mesma for-

tudo vai se dissolver, por que per- ma que cria uma nova humanidade

der tempo com o a preocupação com os seguidores de Cristo, ou seja,



ecológica? Trata-se de uma dú- Deus recria nossas próprias pesso-


vida comum.

as como pessoas renovadas. Por esta


analogia, os céus e a terra (v. 7 e 12,



2. Julgamento e libertação são es- isto é, o mundo físico), serão



senciais ao governo de Deus, des- destruídos e consumidos pelo fogo,



de o início até o fim. Em o Novo da mesma forma que o mundo físi-



Testamento, a visão apocalíptica co anteriormente foi destruído pe-


da criação pressupõe não apenas las águas.



o seu julgamento (2Pe 3.1-12), Com esta comparação somos




TIMÓTEO CARRIKER

mas também e finalmente a sua obrigados a perguntar sobre o tipo



renovação (2Pe 3.13; Ap 21). de “destruição” que haverá. Creio



Como o ser humano (suas obras, que podemos eliminar facilmente



alguns “extremos”. Por um lado, tal


destruição certamente não é aniqui-


4
Contra a acusação do muito citado Lynn White, “The

Historical Roots of Our Ecological Crisis” (As raízes his- lação, obliteração, extinção total

tóricas da nossa crise ecológica), Science 155 (1967), p.


1203-7. pois depois do dilúvio, o mundo








74






 REVISTA






TEOLOGIA E SOCIEDADE





“ ○


Uma missiologia que leva a

sério o papel criador de



Deus, que age dentro da



Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


história humana,

compreenderá o seu destino



também dentro de uma



história e de um mundo

ainda em construção. Não



fomos criados para fugir




deste mundo e do nosso



tempo, mas sim para atuar



em favor de sua redenção.



Mesmo uma leitura



superficial das Escrituras



demonstra esta iniciativa e



propósito de Deus nas



atividades humanas.


















75






continou a existir. Por outro lado, pel criador de Deus, que age den-



tal destruição não ocorreu sem dor tro da história humana, compre-



e sem prejuízo substancial. Portan- enderá o seu destino também den-
O TEOL
PÁGINAS 66 A 77, 2011



to, a destruição com o dilúvio e no tro de uma história e de um mun-
TEOLOGIA


mundo futuro envolve grande dano, do ainda em construção. Não fo-


OGIA MISSIONAL SÓCIO -AMBIENT


mas não a inexistência. Como po- mos criados para fugir deste mun-



demos entender isso? Nas Escritu- do e do nosso tempo, mas sim



ras, outros usos desta linguagem para atuar em favor de sua reden-



apontam para a ideia de purificação ção. Mesmo uma leitura superfi-



e transformação, um processo do- cial das Escrituras demonstra esta


loroso e abrangente. Veja-se por iniciativa e propósito de Deus nas


exemplo, Malaquias 3.1-4 e 1 ○
atividades humanas.
-AMBIENTAL

Coríntios 3.12-15, duas passagens



que falam do “fim dos tempos”. A missão “integral” inclui não só



os diversos ministérios da igreja em


AL

3. A nossa esperança é também relação ao próximo, mas também



“mundana” e “terrena”. Tudo isso integra este mundo todo criado por

significa que a esperança da igre- Deus e esta história toda guiada por

ja não é uma esperança ultra- Deus. A escatologia da missão



mundana e extra-histórica.5 Uma “integral”é uma escatologia



missiologia que leva a sério o pa- engajada no projeto de Deus para o


mundo que ele próprio criou e ain-



da redimirá.6 Nesta reflexão somos



forçados a optar por um lado, em


5
Ao contrário da interpretação superficial de 1 Coríntios

15.19, que desconsidera que a passagem, toda ela de- favor de uma escatologia reforma-

pende da confiança na realização por Deus de algo que


aconteceu em nossa história e em nosso mundo concre- da que avalia positivamente a ação

tos: a ressurreição de Jesus por via de morte. Em 1


de Deus em nossa história e em nos-

Coríntios 15.19, Paulo denuncia a fé coríntia que tenta


excluir a morte nesta vida a favor de uma “ressurreição” so mundo, e em consequência, a



já realizada em um plano espiritual e extra-terrestre,


TIMÓTEO CARRIKER

viabilidade essencial da incumbên-


uma noção mais gnóstica que bíblica.


6
Nesta reflexão somos forçados a optar por um lado,
cia missionária da igreja, e por ou-

em favor de uma escatologia reformada que avalia po-


sitivamente a ação de Deus em nossa história e em


tro lado, em uma escatologia que

nosso mundo, e em consequência, a viabilidade essen-


cial da incumbência missionária da igreja, e por outro avalia com pessimismo a viabilida-

lado, em uma escatologia que avalia com pessimismo a


de de tal incumbência e a efetividade

viabilidade de tal incumbência e a efetividade da ação


redentora de Deus em Jesus Cristo dentro da nossa


da ação redentora de Deus em Je-

história e dentro do nosso mundo. É impossível abraçar


as duas posturas simultaneamente. sus Cristo dentro da nossa história








76






e dentro do nosso mundo. É impos- do mundo e este é constituído por

 REVISTA

sível abraçar as duas posturas simul- tudo o que Deus criou, e certamen-



taneamente. te com a humanidade criada à sua



imagem e semelhança. Além disto,


4. Em Cristo somos “nova criação” a humanidade é parte integral de

TEOLOGIA E SOCIEDADE

(literalmente a frase usada em todo o mundo orgânico e



2Co 5.17, e não “novas criatu- inorgânico, visível e invisível, no qual



ras”; ver também Gl 6.15), isto a soberania do Criador será reco-



é, pessoas recriadas e renovadas, nhecida amplamente e a sua glória


porém com os mesmos corpos. ○
encherá a terra como as águas co-
Novo homem não é outro ho- brem o mar.

mem carnal. E o mesmo se apli- A vida da igreja não se reduz à



ca a toda a criação. Haverá um alegria e ao bem-estar da comuni-


Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


final feliz, do qual somos convi- dade da fé. A igreja não engajada em

dados a participar. Só que, pre- sua missão para e com o mundo, não

cisamos fazer a nossa parte, uma importando quão belo possa ser o

parte muito importante para a seu culto ou quão dinâmica possa



renovação da criação. É papel de ser a sua liderança, não é uma igreja



Deus? Sem dúvida! Mas da mes- deficiente. Simplesmente não é igre-



ma forma que Deus nos chama ja. Cada expressão local da igreja

para evangelizar e é Ele quem precisa, com o discernimento do


salva, também nos chama para Espírito, manifestar esta missão em



renovar a criação, mas o autor termos de evangelismo, transforma-



do novo céu e nova terra é Ele. ção social e mordomia para com a

criação. Entretanto, cada dimensão


Conclusão

desta expressão é importante. Afi-


nal, a nossa missão é


A leitura cuidadosa das Escritu-


ras revela uma amplitude maior do socioambiental: abrange a humani-



que a que se quer admitir para a dade e o seu ambiente em todas as



igreja. Nossa missão é do tamanho suas dimensões.

















77






A água, a terra, paraíso e





inferno ecológicos
A ÁGU
PÁGINAS 78 A 95, 2011



ÁGUA,



A, A TERRA, P








PARAÍSO


ARAÍSO E INFERNO ECOLÓGICOS




Der val Dasilio* Através da história de antigas


comunidades que formaram o


A linguagem das águas não

povo de Israel, Deus revelou o seu


são metáforas, mas uma lingua-


projeto de vida e amor para o

gem poética direta que os regatos


mundo inteiro. Por isso, o que


e rios sonorizam com estranha


mais chama a atenção na Bíblia é


fidelidade e paisagens mudas.


como Deus escolheu pessoas e


As águas ruidosas ensinam os


comunidades empobrecidas e

pássaros e os homens a cantar, a


oprimidas para nelas revelar a for-


falar, a repetir, que há uma


ça do seu amor maternal. Nesse

continuidade entre a palavra da


espírito, a primeira página da Bí-


água e a palavra humana.


blia conta que Deus criou o céu e


(Gaston Bachelard)

a terra. O ouvinte ao qual se des-



tina a narrativa é o israelita exila-


No princípio, a terra era sem


do, estrangeiro, pobre e excluído

forma e vazia, as trevas cobriam


da cultura econômica dominante.



DERVAL DASILIO

o abismo, e um sopro de Deus


Em sua história, a primeira coi-


agitava a superfície das águas.


sa que os israelitas aprenderam so-


(Gn 1.1)

bre Deus foi que ele é libertador.



Foi para salientar que Deus é ca-


paz de libertar os seus da escravi-



dão que os profetas e profetisas



anunciaram: “Ele pode nos liber-



*Pastor, e professor no CFT-RS (Centro de Formação


tar, já que nos criou” (Cf. Is 40 e

Teológica Richard Shaull, Vitória, ES, Igreja


Presbiteriana Unida do Brasil). 41). O primeiro capítulo do







78






Gênesis foi escrito para trabalhado- Senhor Deus tomou a humanidade


 REVISTA

res agrícolas e pastoris, artesãos, e a pôs no jardim do Éden para la-



deportados na Babilônia (século VI vrar e guardar (o jardim)” (Cf. Gn

A ÁGU
REVIST
REVISTA

ÁGUA,
antes de Cristo). O relato é releitura 2.1-10.15).


de uma narrativa mais antiga e teria Nesta tradução parafraseada, em

TEOLOGIA E SOCIEDADE
A TEOL

A, A TERRA, P
sido reunido por grupos de escribas que acompanhamos o estilo

TEOLOGIA

sacerdotais para comunidades que hebraico para se referir à Humani-


OGIA E SOCIEDADE Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São P


viviam na terra árida da Judeia, an- dade e à Criação por inteiro



tes do exílio: (Shöekel), a referência é que o ho-


“Eis a origem dos céus e da ter- ○
mem, numa visão menos pessimis-

PARAÍSO
ra. No dia em que o Senhor Deus ta sobre o “pecado de origem”, deve

ARAÍSO

fez a terra e os céus, não havia ainda responder perante Deus pela guar-

na terra nenhuma planta do campo, da dos bens naturais no mundo cri-


Vol. 1 nº 8, outubro de 2011, São Paulo, SP


nenhuma erva do campo tinha bro- ado. Essa narrativa da criação pro-

E INFERNO ECOLÓGICOS

tado, porque o Senhor Deus não ti- vém de comunidades que viviam em

nha feito chover sobre a terra, nem regiões áridas e para elas, a primei-

havia ninguém para lavrar a terra. ra obra de Deus foi garantir a chu-

Entretanto, um vapor (de água) su- va sobre a terra para irrigar uma

bia do solo e regava toda a face da região quase desértica.



terra. E Deus formou a humanida- O fato do rio que descia do para-



de do pó da terra. Soprou-lhe nas íso dividir-se em quatro braços é


narinas o espírito (hálito ou fôlego) uma alusão aos quatro pontos car-

da vida e o ser humano tornou-se deais. É a água irrigando toda a ter-



alma vivente. Então, o Senhor Deus ra e tornando-a fecunda, criativa.



plantou um jardim, da banda do ori- Em uma região árida, cada fonte,



ente, no Éden; e pôs ali a humani- cada olho d’água, cada poço, é qua-

Paulo

dade que tinha formado. E o Senhor se um milagre. Toda fonte é sinal


aulo
aulo,, SP

Deus fez brotar da terra toda quali- marcante da bênção divina, um pre-

dade de árvores agradáveis à vista e sente do amor sobrenatural.



boas para comida, bem como a ár- Na antiguidade remota, o povo



vore da vida no meio do jardim, e a venerava as fontes como algo divino.


PÁGINAS 78 A 95

Cada fonte tinha um espírito divino


árvore do conhecimento do bem e


Der val Dasilio

do mal. Do Éden saiu um rio para que garantia características próprias



regar o jardim; e dali se dividia e se ao povo que dela se beneficiava e que



tornava em quatro braços. (...) O podia ser ali adorado (Marcelo Bar-


95



79