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Tópicos de História da Física Moderna

André Nogueira Fontenele

A Bomba Atômica Nazista


Refletindo sobre a física de guerra na história

Índice

1. Introdução
2. O Contexto
3. Físicos Nazistas e a Controvérsia Relativista
4. A Bomba Atômica Nazista
5. Sucesso?
6. Ciência e não-ciência
7. Bibliografia

Apêndice - O Brasil na Guerra

1. Introdução

Oito e quinze da manhã, seis de Agosto de 1945. Dia e hora da explosão da "Little Boy" em
Hiroshima, a primeira das duas bombas atômicas lançadas no solo japonês. Três dias depois, às onze e
duas da manhã explode a bomba de Nagasaki. O número de mortos ainda é objeto de discussão, mas
com certeza foram mais vidas do que qualquer um de nós está disposto a aceitar. Algo entre 120 e 250
mil pessoas.
A ciência e a tecnologia vêm sido utilizada para fins militares desde o início da civilização, se
é que já pudessem ser chamadas disso naquela época. O que importa é que a humanidade não tem
utilizado o seu conhecimento apenas para o desenvolvimento. E os eventos ocorridos no Japão são as
fotos mais preocupantes desse fato.
A guerra tem sido um veículo de tragédia desde sempre e apesar de estarmos vivendo um
período escasso em grandes guerras nos últimos 60 anos, parece inocência acreditar que tal desastre
não vá mais acontecer na história da humanidade.
O objetivo desse trabalho é discutir um pouco do ambiente filosófico-científico encontrado na
Alemanha entre a primeira e o fim da segunda guerra.
Apesar de algumas das fundações da física quântica já estarem estabelecidas, esse período foi
extremamente produtivo para a Física, tanto pelo reconhecimento dos trabalhos de Planck, Einstein e
Bohr quanto pelas novas idéias que eliminaram alguns problemas encontrados. Entre 1918 e 1939 De
Broglie, Dirac, Pauli e Schrödinger produziram os trabalhos que iriam trazer à realidade o que o
Emílio Segre chama de "verdadeira mecânica quântica".
No campo da biologia, a sociedade ainda estava assimilando a teoria de Darwin e os trabalhos
de Mendel e Lamarck . Freud tinha "inventado" a psicanálise, e o modernismo parecia ter alcançado
seu auge, embora a guerra tenha trazido novas questões que logo iriam precisar de novas respostas. O
medo de uma revolução comunista era constante.
De qualquer forma, vemos que vários políticos e cientistas alemães terminaram por aclamar o
nazismo como uma teoria cientifica, exatamente do mesmo modo que Marx e seus seguidores. Quais
eram as bases pra tal afirmação? Existia alguma lógica entre tentar-se correlacionar os quanta e o
Socialismo Nacionalista? Se não, porque alguns dos homens mais brilhantes da época sucumbiram ao
regime nazista?
A loucura de Hitler e seu estado de aço não parecem ser tão difíceis de serem explicadas
quando analisamos um pouco do desespero que o racionalismo tinha trazido à sociedade da época.

2. O Contexto

a) Biologia

"Eu chamei esse princípio, pelo qual cada pequena variação, se for útil, é preservada, pelo
termo de Seleção Natural". É impressionante como uma idéia pode ser tão distorcida, mas foi isso que
aconteceu no regime nazista alemão. Hitler não foi o inventor do anti-semitismo. No início década de
20 tendências racistas estavam bem estabelecidas tanto na direita quanto na esquerda alemã. Nessa
época H. Günther publicou o seu livro "Higiene Racial do Povo Germânico", do qual Hitler
praticamente se apossou, posteriormente.
A idéia era de que a disputa entre espécies e indivíduos do reino animal podia e devia ser
trazida para o universo político. Esse tipo de pensamento pode ser visto na idéia de guerra pelos
genes. Um ser humano só deve se arriscar numa guerra se ele acreditar que seu esforço poderá salvar
um número de genes igual ao seu, ou seja, se imaginar que é possível salvar dois irmãos ou quatro
sobrinhos, etc. Você precisa lutar pelo seu país porque é provável que dentro do mesmo existam mais
genes iguais aos seus do que no país inimigo.

b) Teologia

Após a Reforma, o ambiente teológico alemão entrou em um período de descanso, imergindo


quase que totalmente no pietismo. Foi Schleimacher (1768-1834) que trouxe uma nova variável ao
jogo. Ele era um modernista assumido, totalmente imerso no universalismo trazido pelo Iluminismo.
As doutrinas de salvação pela fé e sola scriptura tinham sido descartadas. Trazendo à tona a idéia
tomista (e levando-a ao extremo) de que o homem poderia chegar ao conhecimento de Deus,
Schleimacher rejeitou a divindade de Jesus e instituiu um cristianismo quase que meramente moral.
Sem dúvida, a teologia liberal achou na Alemanha o seu solo mais fértil. A Inglaterra ainda
estava experimentando as conseqüências do reavivamento puritano liderado por pelos irmãos Wesley
e George Whitefield. A França estava por demais envolvida nas conseqüências da sua sangrenta
revolução. Um fato que ilustra a aceitação pelo povo alemão das idéias da nova teologia foi o enterro
de Scheleimacher em Berlin, quando o povo da cidade foi "para as ruas luto, para ver a procissão
fúnebre passar". Segundo o historiador Roger Olson, Scheleimacher chegou a conquistar "na
Alemanha, a reputação de herói nacional, poderoso pregador e grande intelectual". Na época da
guerra, a igreja luterana já tinha assimilado quase todo o conteúdo produzido pela teologia liberal.

c) Política

Para Hitler a rendição assinada em 1918 foi uma traição ao povo alemão, uma "punhalada
pelas costas". Já em 1918 ele se alista no Partido dos Trabalhadores da Alemanha que depois viria se
tornar o Partido Nacionalista Socialista, ou nazista. Graças ao impacto de seus discursos, 1920 o
partido nazista já contava com cerca de 2 mil pessoas. Em 1923 os nazistas tentam liderar uma
revolução contra o governo e Hitler acaba preso. Nos dez meses que ficou preso, Hitler escreveu seu
livro "Mein Kampf" (Minha Luta) onde toma inúmeras idéias do livro de Günther.
Entre 1923 e 1929 os nazistas sofreram com a prosperidade econômica, até que o colapso
financeiro americano tornou o discurso nazista um pouco mais interessante à população. De fato, na
eleição de 1932 Hitler concorreu à presidência mas acabou perdendo. Apesar da derrota, o partido
nazista ganhou 42,9% dos votos e se tornou a maior força política na Alemanha. No mesmo ano o
presidente Hindemburg dissolveu o congresso e na segunda eleição o partido nazista teve que dividir
a hegemonia com os comunistas.
Hindemburg não conseguiu tocar o governo sem os nazistas e acabou nomeando Hitler ao
cargo de chanceler em 33. Em 34 Hindemburg morre e Hitler assume o controle total do Executivo
sem ganhar a eleição.

d) Industria

O tratado de Versailles tinha limitado a produção de armas, mas mesmo no período da


república, a Alemanha continuou produzindo-as em projetos clandestinos, como, por exemplo, à
fábrica clandestina de torpedos em Cadiz, fora da Alemanha. Apesar disso, a indústria bélica não
tinha assumido um papel importante na economia. A crise de 1929 provou que a economia não estava
tão centrada na economia interna e sim na produção para exportação.
A Primeira Guerra ficou conhecida no meio científico como "guerra dos químicos". Fritz
Haber, laureado com o prêmio Nobel de química em 18, deixou um legado forte no tocante às armas
químicas. A principal descoberta de Haber foi o fertilizador artificial enriquecido por nitrogênio. O
produto era barato e segundo John Cornwell a população mundial não teria chegado a mais do que 3,6
bilhões em 2000 se o fertilizante não tivesse sido descoberto. A população mundial no ano de 2000 é
estimada em 6 bilhões de pessoas.

e) Física

Planck foi agraciado com o Nobel em 1918. Os físicos já tinham visto os trabalhos de
Einstein, Bohr e Rutherford. A idéia dos quanta de energia já era trabalhada com certa facilidade na
compreensão do corpo negro. O efeito foto-elétrico tinha respondido com o modelo de que a luz era
um pacote de energia concentrada num espaço pequeno, que na verdade a radiação eletromagnética é
composta por pacotes discretos de energia, e isso deixava a questão das propriedades ondulatórias da
luz sem resposta. O átomo semiclássico com órbitas estacionárias proposto por Bohr, apesar de seu
problema com relação aos postulados utilizados era um sucesso para explicar o espectro do
hidrogênio.

3. Físicos Nazistas e a Controvérsia Relativista

Assim que Hitler assumir o poder, toda a massa de cientistas judeus foi dispensada dos seus
trabalhos relacionados com pesquisa e ensino. Por causa dessa medida a Alemanha perdeu
imediatamente 15 prêmios Nobel de várias áreas, incluindo Einstein e Schröedinger. Estima-se que
25% da força de pesquisa alemã foi perdida com essa medida.
A fúria nazista era totalmente cega. Fritz Haber, o químico que tanto ajudou a Alemanha na
primeira guerra, e tinha até mesmo renegado o Judaísmo, adotando o Cristianismo, foi expulso de sua
cadeira no Instituto Kaiser Wilhelm. Ele escreveu uma carta repudiando a atitude de Hitler e dizendo
que sempre se sentiu tão alemão quanto qualquer outro. Com certeza o regime sentiu muita falta de
Haber durante o avanço aliado. Lise Mitner foi outra pesquisadora judia expulsa. Ela se mostrou
essencial no que viria a ser a descoberta da fissão do urânio 285.
No entanto três físicos arianos, Phillip Lenard, Johannes Stark e Pascual Jordan, engrossaram
as fileiras nazistas, e não simplesmente continuando suas pesquisas, mas participando ativamente do
regime.
Lenard foi laureado com o Nobel em 1905 pelos seus trabalhos com raios catódicos (tubos
que podiam incidir feixes em objetos externos). Ele parece ter começado a coletar inimigos bem cedo.
Röntgen era o seu maior desafeto. Ele é reconhecido como o descobridor dos raios-X, uma descoberta
que Lenard julgava sua. Ele tinha ajudado Röntgen a obter tubos sensíveis o suficiente para a criação
dos raios. Seu segundo desafeto era o físico inglês JJ Thomson. Segundo Lenard, Thomson explorou
seu trabalho no efeito fotoelétrico sem sua permissão. Ele chegou a denunciar Thomson do seu
discurso de aceitação do Nobel! Por essa disputa com Thomson, Lenard nutria um sentimento de ódio
não só pelos judeus, mas também pela Inglaterra, expressa inúmeras vezes. Em 22 seu único filho
morreu como resultado do tempo de mal nutrição que passou durante a guerra.
Johannes Stark foi outro prêmio Nobel a apoiar o regime nazista. Seu Nobel veio em razão da
sua descoberta do efeito Doppler em uma radiação específica e do efeito de campos elétricos nas
linhas espectrais. Seu problema com os judeus começou quando Arnold Sommerfeld, segundo ele um
membro do círculo Judeu e pró-Semita, conseguiu que um de seus alunos preferidos assumisse uma
cadeira em Götingen no lugar dele próprio.
Tanto Stark quanto Lenard pareciam nutrir uma admiração por Einstein no início de suas
carreiras. Stark chegou inclusive a se corresponder com Einstein para discutir a idéia da quantização
da luz. Lenard cogitou chamar Einstein para assumir uma cadeira em física teórica em Heidelberg.
Entretanto, à medida que o anti-semitismo foi se difundindo pela população ambos começaram a
desenvolver a idéia de "física judia". A idéia vinha como uma resposta às interpretações filosóficas
que foram atribuídas à teoria especial da relatividade. Paul Dirac chegou a dizer que a teoria era "uma
fuga da guerra... Relatividade era um assunto sobre o qual todos se sentiam capazes de comentar de
uma maneira filosófica".
Isso não acontece hoje? Do mesmo jeito que a idéia de Darwin foi distorcida a ponto de ser
utilizada para defender o nazismo, a relatividade de Einstein foi utilizada para relativizar conceitos
morais. Como na relatividade o que se vê depende do referencial (não existência da simultaneidade)
também não devemos aceitar um padrão absoluto de moral e julgar cada caso diferentemente, levando
em conta todas as variáveis pseudocientíficas da psicanálise. O conceito de certo e errado sobre as
coisas mais corriqueiras variam de uma forma muito mais radical de pessoa para pessoa hoje, do que
acontecia, por exemplo, a algumas décadas.
Essa idéia era especialmente perigosa para o sistema nazista. Como um sistema baseado no
ódio racial podia aceitar qualquer relativização moral? A "Higiene Racial" tinha que ser feita. Ou isso
acontecia ou o povo alemão iria sucumbir e ser um eterno escravo do capital judeu e do tratado de
Versailles.
Em 1920, em Berlin, um seminário popular foi organizado com o único propósito de atacar a
relatividade. Einstein mostrou seu lado polemista e respondeu à altura, chegando inclusive a atacar
um tal Mr Weyland que participou do seminário dizendo que ele não parecia ser especialista em nada:
"ele é um doutor? Engenheiro? Político? Eu não conseguir descobrir".
O ataque foi suficiente para inflamar o ódio imortal de Lenard e Stark. Como ambos tinham
uma formação fortemente experimental, começaram a relacionar a física teórica com os judeus e
especial com a figura de Einstein. Stark destilou seu veneno contra Einstein no seu livro "A Crise
Contemporânea na Física Alemã" no qual chegou a um passo de anti-semitismo declarado. Depois da
tentativa fracassada de golpe de Hitler, Lenard e Stark publicaram juntamente "O Espírito e a Ciência
de Hitler" onde comparavam o futuro Fürher aos grandes gigantes da ciência como Galileu, Kepler,
Newton e Faraday. No governo de Hitler, Lenard assumiu o posto da presidência da Sociedade Kaiser
Wilhelm e Stark a Fundação de Emergência, ambos órgãos de pesquisa que desfrutavam de fundos
suficientes para as pesquisas, ao contrário dos vários outros centros.
Pascual Jordan foi um dos poucos físicos teóricos a adotar o nazismo. Ele tinha participado da
criação dos operadores de criação e aniquilação de partículas. Juntamente com Heisenberg e Born
participou do desenvolvimento da mecânica de matrizes embora não tinha recebido o Nobel.
Sendo ele próprio um entusiasta de Hitler, dizia que o Nazismo era verdadeiro da mesma
forma que a segunda lei da termodinâmica era verdade. Segundo ele: "a transformação política já
completada em tantos estados europeus, na forma da troca de formas parlamentaristas de governo por
métodos autoritários e ditatoriais não é uma mera modernização do aparato do governo; mas sim a
erupção de uma reconstrução revolucionária de todo o nosso pensamento, valores e ações,
gradualmente abrangendo todas as áreas da vida e da cultura". Segundo ele, o nazismo iria afundar o
Iluminismo, tirando o foco do indivíduo.

4. A Bomba Atômica Nazista

a) Heisenberg

Werner Heisenberg constitui a maior incógnita entre todos os pesquisadores alemães de


destaque. Heisenberg recebeu o prêmio Nobel de 1932 segundo a própria academia "pela criação da
mecânica quântica". O seu trabalho com a mecânica não comutativa de matrizes mudou pra sempre a
história da Física. Sem dúvida Heisenberg e Schröedinger eram os maiores expoentes da física alemã
na época da guerra.
Em Agosto de 1934, logo depois da morte Hindemburg, Hitler anunciou a sua intenção de
combinar as funções de chanceler e a presidência. Stark organizou um manifesto de lealdade a Hitler
e tentou coletar assinaturas dos prêmios Nobel da Alemanha. Heisenberg, Laue, Planck e Nerst
recusaram dizendo que ciência e política não têm nada a ver um com o outro.
O que pode parecer uma atitude positiva, na verdade mostra uma das piores idéias nutridas
por qualquer ser social. Se ciência não tem a ver com política, fica difícil dizer o que tem. No caso da
bomba atômica nazista é fácil ver a conexão, mas o projeto ainda não tinha sido iniciado. Heisenberg
através desse acontecimento está dizendo que sua opção de ficar na Alemanha foi feita não porque era
nazista, mas porque era um ser não-político, acreditando inocente ou indolentemente que tal ser
existe. Com o passar do tempo o seu nacionalismo fica claro. Essa parece ser a sua única
característica política clara, mas veja que ele não entende essa característica com política mas sim
como uma qualidade moral. Aliás, essa foi uma herança preciosa para os nazistas. Enquanto o
cristianismo alemão tinha virado um simples conjunto de regras morais, a primeira guerra contribuiu
para a modificação da virtude no patriotismo, deturpando e explorando o sentimento dos alemães pela
sua terra natal. Heisenberg, na minha opinião, não via a Alemanha como um país como outro
qualquer, mas sim como o "seu" país, pelo qual deveria se sacrificar.
Outra característica de Heisenberg era a sua capacidade de se imergir no trabalho, esquecendo
das conseqüências do mesmo. Em uma carta escrita à sua mãe em 34, Heisenberg diz que "o mundo lá
fora está realmente feio, mas o trabalho é lindo". Ele estava totalmente imerso nas suas pesquisas e
aparentemente queria ficar assim.
Heisenberg nutria uma declarada admiração por Einstein e pelo seu trabalho. Como se isso
não fosse suficiente, o seu trabalho sobre a mecânica quântica cheirava tanto a Stark quanto a Lenard
como "física judia" e foi exatamente assim que eles o classificaram. Mais tarde o chamaram de "judeu
branco" e "amigo de Einstein". Por volta de 1935, Heisenberg já sentia claramente o quão perigosa era
a sua posição. E resolveu se defender.
Através de sua mãe, Heisenberg conseguiu chegar a Heinrich Himmler, comandante da SS.
Himmler acabou iniciando um processo de investigação aonde chegou a interrogar Heisenberg nos
porões do quartel general da SS. Em 1939 Himmler completou as investigações e escreveu para o
Ministro da Educação dizendo que Heisenberg era um acadêmico não-político e incapaz de causar
problemas. Segundo Himmler, para Heisenberg "a física teórica era simplesmente uma hipótese sobre
o funcionamento dos experimentos". Com o fim da investigação, Heisenberg voltou às suas pesquisas.

b) Os Aliados

Enquanto isso acontecia, Enrico Fermi desenvolvia suas pesquisas em transmutação


bombardeando vários materiais com nêutrons. Um deles, entretanto, o urânio, tinha um subproduto
que não podia ser entendido pelas idéias iniciais. Fermi estava lidando com a fissão nuclear. Ida
Noddack sugeriu em 34 que o átomo de urânio estaria sofrendo uma divisão, mas ao falar a sua idéia
para Otto Hahn ele disse que não poderia comentar o assunto em suas palestras, pois não queria que
ela parecesse ridícula. Foi outra mulher, a judia Lise Mitner quem conseguiu relacionar os resultados
experimentais com a fórmula E=mc2 de Einstein. O núcleo do átomo do urânio 235 era instável
devido à quantidade de cargas positivas presentes no núcleo. Com a colisão de um nêutron o átomo se
partia em dois. Nesse processo uma quantidade incrível de energia era libera e só não tinha sido
notada porque a amostra utilizada por Fermi não era grande.
Além de energia, o processo podia liberar outros nêutrons. Essa idéia tinha ocorrido a outro
cientista judeu, o húngaro Leo Szilard, em 1933, mesmo ano em que ele conseguiu fugir da
Alemanha. Ao chegar na Inglaterra, Szilard tentou explicar a idéia de reação em cadeia mas ninguém
o ouviu. Em 1934 ele aplicou e conseguiu obter a patente para a fissão nuclear em cadeia. Pouco
depois ele acabou cedendo a patente ao governo inglês depois que entendeu o potencial mortal de tal
reação.
Até então não se sabia se o urânio poderia produzir tal reação, tudo dependeria de quantos
nêutrons são liberados quando ocorresse a fissão. Se pelo menor dois deles fossem produzidos, a
reação em cadeia poderia ocorrer.
Preocupado com o assunto, Szilard escreveu para Fermi e para o físico francês Joliot-Curie
que eram os líderes dos dois principais grupos de estudo experimental sobre o assunto. Fermi
concordou e Joliot-Curie não se comprometeu. Em 18 de Março de 1939 um artigo de Joliot-Curie foi
publicado na revista Nature. Nesse artigo ele revelava que em média 2,42 nêutrons eram produzidos a
cada fissão. Joliot-Curie disse depois que esperava uma segunda carta de Szilard que acabou nunca
chegando, sendo que a primeira carta já era muito clara.

c) A Idéia Nazista

Lendo o artigo de Joliot-Curie, o físico-químico austríaco Paul Harteck teve a mesma idéia
que Szilard. Ele era pesquisador na Universidade de Hamburgo e tinha sofrido, assim como todos os
outros cientistas, um duro corte de verbas para as suas pesquisas. Sua solução não demorou muito.
Harteck decidiu submeter à Ordem Alemã de Armas uma carta descrevendo a idéia da bomba.
O que levaria um físico-químico austríaco que se professava não-polítco e não era parte do
Partido Nazista a escrever a maquina de guerra alemã? Mesmo após a guerra, Harteck disse que seu
único motivo era puramente oportunístico: "naqueles dias na Alemanha nós não tínhamos nenhum
apoio para a pesquisa pura... Então tivemos que ir a uma onde se podia conseguir dinheiro. Eu era
realista sobre essas coisas. O Departamento da Guerra tinha o dinheiro então fui a até eles"!!!
Adicionando a tudo isso, o The New York Time lançou uma matéria estarrecedora em 30 de
Abril de 1939 falando de todas as possibilidades contempladas para a bomba atômica. A atenção
alemã foi chamada.
Em 16 de Setembro de 1939 foi dado o inicio ao projeto de bomba atômica nazista quando
alguns físicos da Ordem de Armas se reuniram em Berlim. Dez dias depois uma segunda reunião foi
realizada, dessa vez contando com a presença de Heisenberg, Hans Geiger, Paul Harteck e Otto Hahn.

d) Dificuldades

- Massa crítica
A massa crítica para uma reação em cadeia é o número de átomos necessários para que os
nêutrons produzidos pela reação inicial não saiam do corpo antes de colidirem com outro átomo. Se
um átomo bombardeado está rodeado de poucos átomos, é provável que os nêutrons produzidos na
fissão venham a escapar da amostra sem causar outra fissão. Com átomos suficientes é possível
produzir a reação em cadeia.
A discussão sobre a quantidade de urânio 235 necessária para uma reação em cadeia foi
extensa. Bohr chegou a dizer que se precisaria de que uma quantidade tal que não era possível utilizar
a bomba por avião, ou seja, teria que transportada por um navio. Entretanto em junho de 42
Heisenberg fez uma palestra sobre os avanços das pesquisas na "máquina de urânio". Quando foi
questionado sobre o mínimo de urânio necessário para a reação em cadeia, ele respondeu que era algo
como uma bola de futebol, uma quantidade bem próxima à que foi utilizada em Hiroshima, o que leva
a acreditar que Heisenberg tinha uma boa idéia sobre esse problema.

- Enriquecimento
Na natureza, o urânio é encontrado em dois isótopos basicamente, o 238 e o 235. O urânio
235 é encontrado em uma porcentagem um pouco menor que 1%. Era necessário separar o urânio 235
do restante. A idéia básica era a centrifugação gasosa repetida utilizando a fórmula de separação de
Clusius.
A possibilidade da utilização do plutônio como combustível foi atrapalhada pelo fato de que o
cientista responsável pela pesquisa, Fritz Houtermass, estava tentando atrasar o processo de
construção da bomba.

- Moderador
A fusão do urânio 235 só acontecia, até onde tinha se observado, com nêutrons lentos, ou
seja, com nêutrons com pouca energia, mas quando da fissão os nêutrons emitidos tinham muita
energia. Era necessária a diminuição da energia dos mesmos e a idéia de Heisenberg era fazer com
que os nêutrons colidissem com outras partículas que não seriam afetadas pela colisão, e o material
perfeito para isso era a água pesada, que era um material difícil de ser produzido.
Na verdade essa pesquisa foi um atraso porque o ideal era que os alemães tivessem aprendido
a utilizar os nêutrons rápidos.

- Queimar o mundo
Era uma questão recorrente o fato de alguns cientistas temerem a possibilidade de que uma
ver iniciada a fissão em cadeia, ela se espalharia pela matéria comum, tamanha a energia liberada. Por
incrível que possa parecer, esse medo também era compartilhado pelo Führer. Heisenberg pensava ter
provado a improbabilidade desse processo, mas a simples possibilidade de se desenvolver todo
projeto e ao chegar-se ao fim se descobrir que a arma não pode ser utilizada não podia ser deixada
fora da equação. É dito que Fermi irritou bastante os generais americanos do projeto Manhattan
quando eles souberam que Fermi estava conduzindo uma aposta entre os seus companheiros. A aposta
era se a bomba quando fosse detonada ia queimar o mundo inteiro ou "só" o estado do Novo México.

- Recursos, experiência e Heisenberg


O projeto Manhattan custou algo em torno de 2 ou 3 bilhões de dólares e chegou a envolver
150 mil pessoas. A área construída para o projeto era o equivalente a três cidades pequenas. Durante
todo o projeto alemão nunca o número de cientistas envolvidos ultrapassou 100. Quando em
determinado momento Albert Speers, Ministro de Armamentos e Munições, ofereceu 2 milhões de
marcos a serem disponibilizados ao projeto, Heisenberg recusou dizendo que o dinheiro não poderia
ser utilizado no presente.
Os motivos para Heisenberg ter recusado os recursos ainda são objeto de discussão. Ele nunca
tinha desenvolvido um único projeto experimental, e isso era observado por seus colegas. Harteck
chegou a dizer depois da guerra que "foi um péssimo julgamento, é quase inacreditável". Um exemplo
da sua insegurança foi que quando citou o fato de a Alemanha não ter nenhum ciclotron, enquanto os
EUA tinham sete, Speers sugeriu fazer um maior do que qualquer ciclotron americano. Heisenberg
respondeu dizendo que a Alemanha não tinha experiência na construção desses equipamentos, logo
tinham que começar com um pequeno.
Além disso, a responsabilidade de aceitar qualquer recurso com certeza recairia sobre ele se o
projeto viesse a fracassar. Seu histórico já era contestado, um fracasso em um projeto com uma
alocação grande de recursos poderia trazer desconfianças sérias sobre o seu comprometimento com o
regime.

- O contra-ataque
Os aliados iniciaram o bombardeio constante de Berlim em 1943. Os russos estavam
avançando e logo a Polônia seria reconquistada. A base industrial do Reich estava ruindo e a vitória
dos aliado era discutida abertamente. Vários cientistas mudaram suas famílias das cidades envolvidas
com a pesquisa temendo os bombardeios. Logo a única usina de água pesada em poder dos alemães
seria conquistada. No verão de 43 Speers já teria desistido de obter a bomba.

e) Alsos

O avanço aliado se consolidou e o bombardeiro de Berlin se tornou feroz. Os aliados


formaram uma equipe de captura dos cientistas alemães. Sob da coordenação do holandês Samuel
Goudsmit o grupo adotou o nome Alsos. Logo depois da invasão da Normandia a primeira missão do
grupo foi o laboratório de Joliot-Curie em Paris.
Em Janeiro de 1945 vários físicos do projeto atômico alemão fugiram ou abandonaram os
laboratórios do projeto. Heisenberg fugiu para a sua casa em Urfeld viajando 100 milhas de bicicleta.
A missão Alsos o capturou no dia 3 de maio.

5. Sucesso?

Poderiam os alemães terem chegado à bomba antes do fim da guerra?


É muito difícil responder a tal pergunta sem saber quais variáveis podiam ser alterada.
Segundo Cornwell, os alemães podiam chegar à bomba em 47, mas é difícil pensar num ambiente
econômico que sustentasse a guerra esse tempo todo. Uma alocação maior de recursos e pessoas para
o projeto da bomba era difícil, tanto pelo preconceito de Sparks com relação à física nuclear como
pelo fato de que a Alemanha precisava de gente desenvolvendo os seus mísseis V, os aviões de
turbina, o radar e etc.
Heisenberg como líder com certeza foi um empecilho ao programa. Ele não foi receptivo aos
os aliados e não parecia interessado em sabotar o governo alemão. Chegou inclusive a visitar Hans
Frank, o homem responsável pela morte de pelo menos 14 mil judeus nos guetos da Polônia depois de
saber das atrocidades. Em determinada ocasião, Heisenberg se encontrou com Bohr e comentou sobre
o projeto da bomba. Esse encontro é motivo de discussão até hoje assim como não se sabe se ele foi
um empecilho intencional ou não.

6. Ciência e a não-ciência

O que aconteceu nas duas Grandes Guerras é assustador. Nunca a ciência foi utilizada com
um poder tão devastador e a cada década os aparatos militares das nações se tornam mais poderosos.
O estoque de armas químicas, biológicas e nucleares, apesar de teoricamente estarem sob supervisão
de organismos internacionais não podem ser vistoriados com tanta facilidade.
O fato de Hitler ter conseguido fazer o que fez é assustador. Ele mobilizou um país inteiro e
transformou numa máquina de destruição. Será que era possível que isso acontecesse de novo? Na
minha opinião essa é a pergunta errada. Talvez devêssemos nos perguntar o que é necessário para que
isso aconteça de novo? Será que é necessário todo um país para se fabricar uma bomba atômica, ou
mesmo uma bomba suja? O poder do indivíduo cresce com o tempo e esse perigo me parece ser maior
do que o perigo de guerras entre as nações democráticas.
A postura dos cientistas alemães na época mostra que indivíduos mudar o curso da história.
Se Joliot-Curie não tivesse publicado seu artigo, provavelmente os alemães não teriam iniciado seu
projeto, e Borh não teria falado da sua preocupação com tal projeto para Einstein, e também não teria
escrito sua carta ao presidente Roosevelt. Talvez Hiroshima e Nagasaki não tivessem existido. Com o
acesso cada vez maior a informação fica a pergunta de até onde os governos podem ser deixados nas
mãos de indivíduos.
Outra constatação importante que podemos tirar do ocorrido é que a ciência nunca vai poder
ser a base de um sistema moral, porque ela em si mesma, é amoral. Segundo o historiador e filósofo
Fracis Schaeffer, a vida humana pós-moderna é uma série de "experiências definitivas" desprovidas
de qualquer sentido e direção e isso teria trazido o existencialismo para o centro da sociedade. Nada
tem sentido. Podemos ver o nazismo como resposta a isso: o mundo é a lei do mais forte, seja o mais
forte. Esse é o sentido. Se insistirmos no método científico como a resposta às respostas filosóficas
buscadas pelo homem, estaremos criando espaço para o desespero.
Depois de visitar e revisitar a história do pensamento moderno e do nazismo fico
impressionado com o poder da mente humana. Talvez realmente não exista um limite calculável pra
tal poder. Mas mais uma vez a questão não é "quanto podemos fazer?" mas "onde queremos chegar?"

7. Bibliografia

a) John Cornwell, Hitler’s Scientists, 2003


b) História da Teologia Cristã, Roger Olson, 2001
c) A Morte da Razão, Francis Schaeffer, 2001
d) Dos Raios X aos Quarks, Emilio Segrè, 1987
e) http://www.aip.org/history/
f) http://www.comciencia.br/
g )http://www.mar.mil.br/histor.htm

Apêndice - O Brasil na Guerra

Os físicos brasileiros só iniciaram seus contatos com o mundo militar na Segunda Guerra
Mundial. Tudo se inicia em 1942 quando no dia 28 de janeiro o Brasil rompeu as relações
diplomáticas com os países do eixo, antes que a história se repetisse (na Primeira Guerra tínhamos nos
colocado como país neutro, mas os alemães atacaram de surpresa nossos navios mercantes). No
mesmo ano, na noite de 21 para 22 de agosto os alemães iniciaram seus ataques aos cargueiros
brasileiros usando os "U-boats" para afundar cinco navios mercantes, matando 607 tripulantes. Os U-
boats que estavam atuando na costa brasileira eram os submarinos U 307.
Nessa época o círculo de produção científica da Usp já estava funcionando a todo vapor.
Marcello Damy de Souza Santos era um dos físicos formados no grupo. Depois de sua formação,
Damy foi estagiar no laboratório Cavendish. O governo britânico acabou pedindo ao governo
brasileiro que estendesse a estadia de Damy depois que a faculdade foi fechada por causa da guerra.
Felizmente o governo brasileiro negou o pedido e chamou-o de volta para liderar ao lado de Paulus
Pompéia o projeto do sonar da marinha brasileira. A marinha acabou formando com a ajuda dos
Estados Unidos uma frota de anti-submarinos que teve muito sucesso em proteger os comboios
brasileiros. Foram 574 comboios, formados por 3.164 mercantes, dos quais apenas três foram
afundados. No fim da guerra 16 submarinos alemães foram afundados no Atlântico Sul, em grande
parte pela quebra do código das máquinas de encriptação Enigma, conseguida pela inteligência
britânica.
Oscar Sala foi outro físico brasileiro envolvido no esforço de guerra. O seu projeto foi o mais
aplicado de todos e isso por causa da sua formação experimental e também seus anos na Politécnica.
Ele desenvolveu um transmissor portátil utilizado nas batalhas em solo Italiano.