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A DIALÉTICA DO DESENVOLVIMENTO REGIONAL: capital

social, democracia, redes empresariais e dinâmicas territoriais

William Héctor Gómez Soto1

1. Introdução

Os capítulos deste livro mostram que existem múltiplas possibilidades teóricas


e metodológicas na análise da dinâmica do desenvolvimento regional. Talvez se
pode afirmar que a própria natureza contraditória da dinâmica do capitalismo (a
contradição em processo) é a que nos possibilita e, ao mesmo tempo, nos obriga a
tomar diversos pontos de partida para a análise. Ressalta-se nas análises aspectos
do processo de desenvolvimento regional, sendo estes: o capital social, a
democracia, as dinâmicas territoriais, as organizações empresariais e as estratégias
de gestão do desenvolvimento. Este esforço coletivo interdisciplinar e pluralista, do
ponto de vista teórico e metodológico, buscou responder a seguinte questão: por
que os processos econômicos e organizacionais de desenvolvimento regional não
são harmônicos socialmente, não são convergentes setorialmente e regionalmente
e, não são equilibrados ambientalmente? Enfim, simplificando, por que os processos
regionais de desenvolvimento não são iguais dinamicamente e se diferenciam entre
si?

Desvendar a contradição entre o local e o global parece ser a chave para


elaborar uma nova interpretação acerca da dinâmica do desenvolvimento regional.
Não é por acaso que o desvendamento da contradição entre o local e o global seja o
primeiro capítulo do livro. Neste capítulo, Dinizar Becker esclarece que toma como
pressuposto de análise o fato de que o capitalismo “se move em meio a contradições
superadas constantemente”. Assim, Becker nos2 inicia nesta aventura intelectual
onde objeto e método se confundem, iluminando o percurso de construção de um

1
Professor do Instituto de Sociologia e Política (UFPEL). Dr. em Sociologia.. Este texto foi publicado no livro
Desenvolvimento Regional – abordagens interdisciplinares. Organizado por Dinizar F. Becker e Milton Luiz
Wittmann. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2003
2
Este capítulo está escrito em primeira pessoa do plural. O Nós como sugestivamente disse Morin(1977, p. 33),
é um “companheirismo imaginário com o leitor”
pensamento crítico que se distancie das interpretações simplificadoras e
mistificadoras do desenvolvimento.

Essas interpretações simplificadoras baseiam-se na dicotomia: global e local


como dimensões separadas. Nos anos 70, o pensamento de esquerda e liberal,
tanto nos países capitalistas desenvolvidos como nos subordinados buscou construir
espaços de resistência fundamentados na idéia do Estado-nação e na identidade de
grupos nacionais e regionais. Essa idéia estimulou movimentos políticos regionais,
baseados em lugares, “nos quais as fronteiras de lugar (concebido como identidade
ou território) são invocadas contra o espaço homogêneo e indiferenciado das redes
globais” (Hadrt e Negri, 2001: 63).

Essa idéia básica parece animar as interpretações simplificadoras3 acerca do


processo de globalização, onde o local se apresenta como expressão de resistência
do social contra o econômico. É comum nos discursos e em algumas visões do
desenvolvimento regional, considerar o social como um atributo quase natural da
região, que parece resultar de uma simbiose mágica entre a natureza e grupos
sociais com uma determinada identidade cultural.

As conclusões extraídas desta premissa parecem alimentar certas estratégias


a favor do desenvolvimento local, como uma reação, ao mesmo tempo passiva, que
parece fundar-se no seguinte argumento claramente explicitado por Hardt e Negri
(2001: 63) “se a dominação capitalista está se tornando global, então nossas
resistências devem defender o local e construir barreiras contra os fluxos
aceleradores de capital”. O argumento é inconsistente porque se baseia na falsa
dicotomia entre o global e o local, como foi mencionado anteriormente. Bobbio
refere-se a isto como um “típico modo de pensar por díades” comum a muitos
campos do conhecimento, assim na sociologia se contrapõem os conceitos de
sociedade e comunidade; na economia, mercado e plano; em direito, privado e
público; em estética, clássico e romântico e na esfera política, direita e esquerda,
mas também podem incluir-se nesses exemplos, campo e cidade; urbano e rural;
capital privado e capital social; global e regional/local4.

No primeiro capítulo deste livro, Dinizar Becker nos alerta sobre essas
interpretações simplificadoras, ao mesmo tempo em que nos propõe distanciarmos
da abordagem disciplinar e resgatar o método dialético, o “grande método” (Brecht),
o “pensamento interveniente” (Gramsci) que “faz explodir definitivamente as
distinções em atividades fechadas, em instâncias chamadas aqui e ali [de]
econômica, [de] política”. Enfim, o autor chama a atenção sobre a necessidade de
recorrer ao método dialético, superando desta maneira qualquer tipo de visão
disciplinar, e poder dar conta da complexidade das múltiplas determinações da
dinâmica do desenvolvimento regional. É por isso que dizíamos que método e objeto
se confundem, ou melhor, se fundem, convergindo.

3
De acordo com Morin (1977, p. 24) “A simplificação é a disjunção entre entidades separadas e fechadas, a
redução a um elemento, a expulsão daquilo que não cabe no esquema linear”.
4
Talvez uma tentativa de superar essa dicotomia entre global e local encontra-se nas análises de Benko
(1999:76) que propõe o conceito de “globalidade dinâmica local” para expressar “as aberturas dos sistemas
locais para seu mileu” (...) Essa abertura se opera segundo duas modalidades. A mais corrente é a intensificação
das trocas com outros territórios”.
Nesse mesmo sentido, Kosik (1986, p. 18) nos esclarece que se trata de
compreender a “realidade humano-social como unidade de produção e produto, de
sujeito e objeto, de gênese e estrutura”. O método dialético explicitado por Kosik vai
da representação caótica e abstrata do todo à rica totalidade da multiplicidade das
determinações e das relações. Em outras palavras, somente é possível apreender a
realidade complexa e contraditória da dinâmica do desenvolvimento regional
utilizando o método dialético5. É isso que nos anuncia Becker no primeiro capítulo
deste livro. É este o desafio do pesquisador que busca inovar teórica e
metodologicamente, mas para isso é imprescindível superar “as ideologias dos
saberes fechados ou a divisão do trabalho intelectual” (Becker, Cap. 1). O que sem
dúvida nos leva à “transdisciplinarização”, ou seja, nos obriga a subverter os campos
disciplinares. E o que Morin denomina de paradigma da complexidade como
superação do paradigma cartesiano baseado na disjunção do objeto e do sujeito; do
espírito e da matéria; da oposição do homem e a natureza (Morin, 1977).

2. A política como mediação e o bloco histórico gramsciano

Dinizar Becker não só resgata a dialética gramsciana, mas também a


concepção do bloco histórico como mediação entre a estrutura econômica e a
sociedade; entre o local e o global. Segundo ele a mediação da política nos permitirá
superar a contradição entre a primazia do econômico (globalização) e o social
(dimensão regional). O conceito de bloco histórico gramsciano, nos disse Becker, é
uma totalidade que abarca as três principais esferas do desenvolvimento
contemporâneo: a política, a social e a econômica. Uma totalidade dialética e
dinâmica, onde cabe aos intelectuais realizar o vínculo entre a estrutura (a
economia, a sociedade) e a superestrutura (a sociedade política). De acordo com
Portelli (1983, p. 45) “o problema das relações entre estrutura e superestrutura é um
dos mais delicados que a análise do bloco histórico propõe”, precisamente devido à
controvérsia sobre a primazia da estrutura econômica ou da superestrutura.

Para Dinizar Becker a política (como mediação) deve ser considerada em


primeiro lugar uma perspectiva metodológica, ou seja, a síntese da unidade dialética
entre essência e aparência, entre economia e sociedade, entre a vida e a coisa, ou
seja, como o mecanismo que possibilita a integração dos opostos, como unidade do
diverso e que complementa os diferentes movimentos. É por isso que a mediação da
política é necessária e possível. E em segundo lugar como espaço mediador das
transformações históricas do desenvolvimento regional. Cabe mencionar que
Becker considera o desenvolvimento regional como um objeto de estudo (uma rica
totalidade com múltiplas determinações), mas também como processo e campo de
intervenção política (no sentido amplo).

5
Não é nossa intenção dar a entender que exista uma receita metodológica pronta denominada de “método
dialético”. Como disse Morin(1977) (p. 25), o método só pode formar-se durante a pesquisa “ só pode
desprender-se e formular-se depois, no momento em que o termo se torna um novo ponto de partida, desta vez
dotado de método”.
Em síntese, segundo Becker o capitalismo se desenvolve através das suas
próprias contradições, superando-as e renovando-as continuamente. Daí o caráter
dialético do processo. Em primeira instância, o capitalismo transforma o trabalho
humano, a natureza e as necessidades humanas em mercadorias. Em segundo
lugar, o capitalismo transforma essas mercadorias em capital dinheiro. A primeira se
constitui na negação, e a segunda na negação da negação do movimento dialético
do capitalismo. Agora nosso objeto de estudo fica mais definido e claro, isto é, as
diferentes dinâmicas do desenvolvimento regional.

As diferentes dinâmicas do desenvolvimento regional enquanto objeto e


processo contém ao mesmo tempo, na visão de Becker, a universalidade e a
singularidade; o global e o local, constituindo-se assim, num movimento dialético que
se conclui na constituição de um universal concreto. Nas palavras de Becker “o
desenvolvimento regional é e não é, ao mesmo tempo, desenvolvimento global e
desenvolvimentos locais”. Daí seu caráter contraditório.

A problemática complexa de definir e estabelecer as conexões entre o global


e o local continua a ser objeto de discussão de Dinizar Becker no segundo capítulo
deste livro. Neste capítulo o desenvolvimento regional aparece como projeto político
(ou economia política) onde a democracia, a organização e participação social são
os elementos que o fundamentam. Becker parte do reconhecimento da importância
das potencialidades e da acumulação de valores culturais (capital social) para que
as regiões consigam responder de forma positiva aos desafios da globalização,
construindo seus próprios modelos de desenvolvimento, aproveitando as
oportunidades e ampliando suas potencialidades. O autor levanta a tese de que “o
desenvolvimento não é causa, mas a conseqüência da democracia e esta por sua
vez, é resultado da organização social. Em conseqüência uma sociedade
organizada é uma sociedade mais democrática, ao que podemos emendar de
imediato, uma sociedade democrática é uma sociedade muito mais desenvolvida”.

A relação complexa entre democracia e desenvolvimento é retomada por


Ramos e Mariño (capítulo 7) que enfatizam a necessidade de “produzir uma
interpretação teórica sobre o desenvolvimento democrático regional”. Para estes
autores, as diferenças regionais são aquelas que ocorrem entre as regiões ‘bem
sucedidas na inclusão”de um lado e as regiões “mal sucedidas na inclusão”, do
outro. Apesar de que os autores referidos, reconhecem que a democracia é o motor
do desenvolvimento, ressalta-se que ela de fato o é na presença de alguns pré-
requisitos. Estes pré-requisitos são: a consciência coletiva que possibilite a
superação do dualismo existente e o fortalecimento do sentido da “pertença
comunitária”; a difusão de idéias através das organizações representativas de
grupos e classes sociais, e o “potencial de inclusão e mobilidade social nos campos
de poder”.

Ainda, o desenvolvimento de uma região, além da democracia, da


organização e da participação social, deverá basear-se nas diferenças e
potencialidades regionais, buscando os caminhos para reduzir as desigualdades.
Como afirmam Bassan e Siedenberg, (capítulo quinto), o processo de redução das
desigualdades não se limita à esfera econômica, mas também abrange as condições
sociais de saúde, educação, moradia adequada, saneamento básico, transporte,
enfim a busca pela melhora da qualidade de vida dos indivíduos. Porém, uma
estratégia de desenvolvimento não necessariamente reduzirá as desigualdades,
antes disso, pode mantê-las e, no pior dos casos, aprofundá-las se não se parte das
características e singularidades da região. Em coerência com o anterior os autores
concluem de que “desenvolver uma região é descobrir e valorizar as características
da sua origem, da sua cultura, da sua história, de seus aspectos físicos e naturais”,
porque como afirmam Wittmann, Dotto e Boff (capítulo 11), não existem modelos
únicos de desenvolvimento.

Mesmo assim, convém não esquecer que o movimento global do capital está
de forma permanente influenciando e modificando as relações sociais, as formas
econômicas e os valores culturais das regiões. É difícil acreditar que quando o
capital transnacional subordina os agricultores familiares de uma determinada
região, não provoque algumas modificações sociais, econômicas e até culturais.
Ainda, é necessário reconhecer que a globalização se revela tanto na prática da vida
cotidiana como nos espaços estratégicos e por isso, o global não pertence apenas
ao domínio econômico, nem ao sociológico.

De acordo com Benko (1996), o movimento do capital supõe ao mesmo


tempo a fragmentação do sistema produtivo em todas suas fases (pesquisa,
desenvolvimento, fabricação, distribuição, comercialização) e a integração que
subordina alguns países e regiões, ampliando desta forma o desenvolvimento
desigual do capitalismo. A concentração do capital ‘global’ que opera por meio de
um duplo movimento: de um lado, a descentralização das cadeias de produção; a
intensificado da especialização geográfica e da deslocalização das empresas com o
fim de explorar as oportunidades locais e nacionais de lucro e de mercado. De outro,
o desenvolvimento de vastas e eficazes estruturas de coordenação e controle das
unidades de produção que foram fragmentadas e reorganizadas. Isto permite a
circulação bem mais flexível do capital e das mercadorias no interior de seus
territórios. Ao mesmo tempo aumenta a concorrência entre espaços nacionais,
blocos (inter)regionais e empresas transnacionais.

Talvez o mais adequado seja entender a globalização como o movimento que


prioriza os fluxos da desterritorialização, enquanto que o local enfatiza o movimento
contrário, isto é, a reterritorialização. No mesmo sentido Dallabrida e Becker
(capítulo 6) argumentam as empresas globais “escolhem os pontos que consideram
instrumentais para a sua existência produtiva e o resto do território torna-se espaço
preterido, marginalizado dos fluxos mais dinâmicos da economia. O território sofre
com isso um processo de ocupação seletiva, constituindo as desigualdades
regionais”. Também pode-se complementar o anterior afirmando que “A
globalização ou desterritorialização produzida pela máquina imperial não se opõe,
de fato, à localização ou à reterritorialização, mas, ao contrário, põe em ação
circuitos móveis e moduladores de diferenciação e identificação” (Hardt e Negri,
2001: 64).

O capitalismo se desenvolve de forma heterogênea, isto é, como indica


Harvey (1990), se expande num ambiente geográfico muito variado em termos de
dotação de recursos naturais e produtividade do trabalho. Como se sabe, o avanço
do capitalismo dissolve e transforma grande parte da economia pré-capitalista. Além
disso, o capitalismo produz novas formas de diferenciação geográfica, fragmentando
e produzindo novas configurações espaciais, mas também definindo novas funções
a antigas formas e instituições sociais. Por isso, segundo Harvey (1990: 419) “é
importante reconhecer que a coerência territorial e regional (...) tem sido produzida
ativamente, em vez de recebida passivamente como uma concessão da ‘natureza’
ou da ‘história’.

Harvey (1990) aponta para a contradição inerente no desenvolvimento da


economia espacial do capitalismo, para isto, argumenta a impossibilidade de
construção de uma economia regional “fechada” porque em si é contraditório com a
universalidade do capitalismo. As fronteiras geográficas são tênues e são
permanentemente modificadas de acordo com os avanços nos sistemas de
transporte e de comunicação. A contradição do desenvolvimento espacial do
capitalismo se manifesta quando por um lado o capitalismo busca formas de destruir
as fronteiras regionais e por outro lado cria barreiras territoriais e geográficas que
novamente haverá de derrubar. Harvey denomina este fenômeno como
“desenvolvimento pouco uniforme do capitalismo”. O desenvolvimento
capitalista pouco uniforme é expressão de forças opostas que por um lado tendem á
dispersão e pelo outro à concentração geográfica no processo de circulação do
capital.

Segundo Harvey (1990) os antagonismos espaciais, entre campo e cidade,


centro e periferia, desenvolvimento e subdesenvolvimento não são acidentais nem
impostos de fora, são resultado de diversas forças que operam dentro da unidade
global do processo de circulação do capital. As relações conflitantes entre
concentração e dispersão, entre os compromissos locais e os interesses globais
desafiam a capacidade de organização do capitalismo, é por isso que a dinâmica
capitalista pode-se definir como um processo incessante e contínuo de modificação
dos arranjos organizacionais para conter as tensões e conflitos. O resultado é a
criação de estruturas hieráquicas integradas que vinculem o trabalho local e
particular com o trabalho abstrato no cenário mundial, assim as empresas
multinacionais têm uma perspectiva global, mas se integram em um contexto local.
Essas empresas multinacionais absorvem em seu interior o conflito entre o local e os
interesses globais, isto é refletem a necessidade de coordenação das organizações
globais de poder com os arranjos governamentais das regiões, cobrindo assim os
interesses globais com os interesses locais. Entre o local e o global existe um
conjunto de arranjos organizacionais que mediam a dinâmica espacial do capital,
integrando os indivíduos, grupos e regiões ao sistema mundial global (Harvey
(1990).

3. Capital social: um novo caminho para o desenvolvimento regional

Apesar de se considerar verdadeiro que o movimento global do capital afeta,


influencia e modifica a vida econômica e social das regiões; também é verdadeiro
que as comunidades regionais reagem ativamente imprimindo nova dinâmica ao
desenvolvimento em benefício de sociedades locais. Porém como afirma Dallabrida
e Becker (capítulo 6) “nem todas as regiões conseguirão tal avanço, pois algumas
reagem passivamente não conseguindo desenvolver seu modelo próprio e
específico de desenvolvimento, enquanto outras agem ativamente e conseguem”. É
esse o sentido que apontam De Gregori; Dotto; Frey; Pohl e Becker (capítulo 8),
fazendo referência a Putnam que observou que algumas regiões com participação
cidadã são capazes de favorecer um governo eficaz e responsável, em contraste
com aquelas regiões caracterizadas por uma vida social fragmentada e uma cultura
dominada pela desconfiança. A participação cívica aumenta a possibilidade de
cooperação na busca do benefício comum das comunidades, e melhorando assim, o
desempenho institucional nessas comunidades. Esse ambiente participativo estimula
também a interatividade entre as empresas de uma determinada região constituindo
as redes empresariais que potencializam os recursos e fatores de desenvolvimento
(Wittmann, Dotto e Boff, capítulo 11). Essa interação entre as empresas e a
constituição das redes empresariais deverá ter como base a produção e a
disseminação do conhecimento (Borba e Siedenberg, capítulo 12).

Complementando o anterior podemos afirmar que “as diferentes trajetórias de


desenvolvimento derivam da forma como as sociedades moldam as suas instituições
na busca de tornar os mercados mais perfeitos, reduzindo os custos de transação e
aumentando a eficácia no emprego dos seus escassos recursos produtivos” (Begnis
e Zerbielli, capítulo 3). O fortalecimento das suas instituições é uma das condições
para que as comunidades possam interferir nos rumos do desenvolvimento; para
“organizar, dirigir e controlar o desenvolvimento” (Siedenberg, capítulo 4) através de
um sistema integrado de gestão que seja “capaz de mobilizar pessoas e otimizar
recursos” para melhorar os indicadores econômicos e sociais (Oliveira e Wittmann,
capítulo 13). A busca de novas vias e modelos de desenvolvimento exige um novo
tipo de empresas comprometidas com o ambiente social em que estão inseridas
(Frey e Frey, capítulo 14).

A correlação entre capital social e desenvolvimento regional é objeto de


reflexão de De Gregori; Dotto; Frey; Pohl e Becker (capítulo 8); Valentim (capítulo
9) e Moraes (capítulo 10). Como afirma Moraes (capítulo 10), a “noção de capital
social configura um promissor e emergente modelo teórico, que pode transformar-se
em um importante instrumento para o estudo da formação do processo de
desenvolvimento local-regional”.

Longe de ser um modismo da academia, o conceito de capital social


personifica a preocupação de intelectuais (das mais variadas formações),
instituições públicas e privadas (empresas, universidades) e organizações
comunitárias (sindicatos, ONGs) por encontrar novos caminhos para alcançar um
tipo de desenvolvimento que possibilite a redução das enormes desigualdades
econômicas e sociais. Em certa medida o conceito de capital social recupera e
expressa a antiga preocupação vital da humanidade pelo bem-estar social de
segmentos significativos da população mundial. O conceito de capital social, mesmo
que seja objeto de discussões e formulações teóricas, tem um forte sentido prático,
isto é, de operacionalização e avaliação de determinadas estratégias e políticas de
desenvolvimento.

Para definir o conceito de capital social, primeiro temos que explicitar o


significado do conceito de capital. Como lembra D´araujo (2003) o conceito de
capital é muito controverso e repleto de significados e complementado por vários
adjetivos: capital variável, capital constante, capital aberto, capital fechado, capital
financeiro, capital internacional, capital simbólico, capital político, e ultimamente
(capital natural e capital humano). O certo é que a palavra capital está associada a
um sistema econômico historicamente determinado: o capitalismo.

O conceito de capital social não é tão novo assim como pode aparecer.
D´araujo (2003) sistematiza muito bem a evolução do conceito de capital social
desde suas origens. Segundo ela, Lyda Judson Hanifan foi o primeiro a utilizar o
conceito de capital social em 1912 para mostrar a existência de uma estreita
vinculação entre o aumento da pobreza e o declínio das relações de solidariedade
entre os indivíduos de uma determinada comunidade. Nos anos 50, John Seeley
definiu capital social como as possibilidades de acesso a diversos bens facilitado
pelo fato dos indivíduos de uma comunidade pertencerem a alguma associação. Na
década de 60 Jane Jacobs, no seu livro A morte e a vida das grandes cidades
americanas, mostrou que a presença de redes urbanas de solidariedade constituía
um importante capital social para o bem-estar da população. Nos anos 70, Glenn
Loury e Ivan Light, salientaram que a ausência de relações baseadas na confiança
nas comunidades afro-americanas impedia o desenvolvimento dos negócios nessas
comunidades. Porém, Loury e Light observaram que acontecia o contrário nas
comunidades asiático-americanas, onde a presença das relações de confiança
estimulava o surgimento dos negócios. Nos anos 80, Pierre Bourdieu definiu capital
social como a possibilidade de pertencer a determinados grupos e instituições a
partir da existência de uma dotação de recursos. No fim da década de 80, Ekkehart
Schlicht ressaltou que a organização social influencia o funcionamento da economia.
Nesse mesmo período, James Coleman destacou a importância das normas sociais
como referência para a ação dos indivíduos, estabelecendo-se uma espécie de
código para determinar se essa ação está certa ou errada. As ações que se situam
fora das normas, são condenadas pela comunidade. Recentemente Robert Putnam
buscou explicar as desigualdades regionais da Itália a partir da existência de capital
social e participação cívica nas comunidades. Por último, Francis Fukuyama
analisou as relações entre prosperidade econômica, cultura e capital social, para
atingir tal objetivo, o autor estudou os processos históricos de desenvolvimento
industrial nos Estados Unidos e alguns países da Europa e a Ásia.

Existe um certo consenso em definir capital social como a capacidade que


tem uma comunidade de construir redes de cooperação social baseadas na
confiança interpessoal com o objetivo central de produzir bens coletivos que
signifiquem prosperidade econômica e desenvolvimento sustentado. Como já foi
visto nos capítulos 8, 9 e 10 deste livro o conceito de capital social teve uma difusão
internacional com o livro de Robert Putnam Comunidade e democracia: a
experiência da Itália moderna (2000). Putnam aponta que os governos altamente
centralizados são incapazes de resolver as disparidades regionais entre o norte e o
sul da Itália. Em princípio, uma maior descentralização e participação das
comunidades locais promoveriam o desenvolvimento. Como devemos imaginar essa
discussão acerca da descentralização dos governos e comunidades regionais se
deu no âmbito da globalização e da necessidade de avaliar seu impacto nas
localidades. Não é mera coincidência que a contradição entre o global e o local seja
um dois eixos das análises contidas no nosso livro. Porém a chave para explicar as
diferenças regionais do desenvolvimento, segundo Putnam, está na cultura cívica, o
civismo, a cultura política e as tradições republicanas, em outras palavras, a
diferença está no capital social. Mesmo as instituições por si só não podem explicar
as diferenças regionais.

Segundo Putnam (2000, p., 132) nem as tensões sociais (falta de estabilidade
social), nem a presença de bons índices de educação, nem a urbanização podem
explicar o desempenho dos governos e instituições, “nenhuma dessas explicações
ajuda a compreender melhor por que certos governos funcionam e outros não (...) o
contexto cívico é importante para o funcionamento das instituições. O principal fator
que explica o bom desempenho de um governo é até que ponto a vida social e
política de uma região se aproximam do ideal de comunidade cívica”. A análise de
Putnam se propõe como alternativa às análises tradicionais que consideram a
democracia como resultado das instituições. Então as diferenças entre o norte e o
sul da Itália se explicam pela presença ou a ausência de cultura cívica. Assim, o
maior desenvolvimento do norte italiano se explica pela maior intensidade da cultura
cívica, por uma maior presença da cooperação e, portanto, de uma maior
participação da população para conseguir o bem público, enfim, devido à presença
de um maior capital social. Em contraste, o norte se caracterizou historicamente pelo
individualismo, a desconfiança pessoal e a forte presença paternalista da igreja
católica.

4. Conclusão

Podemos concluir que a natureza complexa da dinâmica do desenvolvimento


capitalista nos exige realizar uma abordagem de análise pluralista, interdisciplinar e
dialética. Verificou-se que o esforço coletivo realizado nesta obra não teve resposta
única e nem definitiva no sentido de explicar por que os processos regionais não são
iguais dinamicamente e por que se diferenciam entre si a partir de diversos enfoques
e temáticas. Antes disso, chegou-se a um conjunto de hipóteses para serem
testadas empiricamente, tendo como objeto os processos regionais diferenciados no
Rio Grande do Sul. Constata-se que há enormes desafios e dificuldades, entre elas
a dificuldade de mensurar o capital social. Por último, caberia explorar
analiticamente as inter-relações entre capital social e democracia; assim como
identificar as múltiplas formas em que aparece o capital social no Rio Grande do Sul.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Paulo : HUCITEC, ; 1996...
BOBBIO, Norberto. Direita e esquerda – razões e significados de uma distinção
política. São Paulo: UNESP, 1995
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HARDT, Michael e NEGRI, Antonio. Império. Rio de Janeiro: Record, 2001.
HARVEY. David. Los límites del capitalismo y la teoría marxista. Fondo de Cultura
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KOSIK, Karel. Dialética do concreto. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1986).
MORIN, Edgar. O método I: a natureza da natureza. Portugal, Publicações Europa-
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PUTNAM, Robert. Comunidade e democracia – a experiência da Itália moderna. Rio
de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas Editora, 2000.