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Para facilitar seus estudos:

 Leia atentamente os módulos e se achar necessário responda


NO CADERNO as atividades propostas. Elas não são
obrigatórias.

 Consulte o dicionário sempre que não souber o significado das


palavras. Se necessário, utilize o volume da biblioteca.

 Se você tiver dúvidas com a matéria, consulte uma das


professoras na sala de História.

IMPORTANTE:

NÃO ESCREVA NA APOSTILA, POIS ELA SERÁ


TROCADA POR OUTRA.

A TROCA SÓ SERÁ FEITA SE A APOSTILA ESTIVER EM


PERFEITO ESTADO.
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Seus avós, provavelmente, devem


ter visto história parecida com essa
que você verá a seguir!

No módulo anterior, você estudou os acontecimentos que se


destacaram durante o período que vai da crise do império até a
Proclamação da República, certo?

Vamos nessa?

Após a Proclamação da República, bem pouca coisa mudou. O direito de


votar foi um pouco ampliado, mas, mesmo assim o voto da população continuou
sendo manipulado.

É importante saber que naquela Oligarquia - governo de poucas


época, quem mandava no Brasil eram os pessoas pertencentes ao mesmo
ricos, os poderosos, os latifundiários, ou partido, classe ou família.
seja: as oligarquias estaduais.
Em cada Estado, uma família ou um grupo de famílias muito ricas,
ligadas ao latifúndio, controlavam a política.
O governador, os prefeitos, os deputados, só eram eleitos se tivessem o
apoio desses grupos de famílias poderosas.

As oligarquias mais importantes eram as de São Paulo e Minas


Gerais.

Era a chamada política do café-com-leite. Somente os Estados de


São Paulo e Minas Gerais ocupavam o cargo de PRESIDENTE DA
REPÚBLICA. Após 4 anos, um presidente paulista indicava um mineiro, que
após 4 anos indicaria um paulista e assim, alternavam-se no poder e os demais
estados não disputavam o cargo. SÃO PAULO produzia o café - era o Estado
mais rico e MINAS GERAIS era o segundo - possuía importante produção
pecuária – o gado leiteiro: leite.
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

No Brasil rural das primeiras décadas republicanas, ser coronel significava


ser poderoso, dono de riquezas agrícola, de prestígio político e com poder de
influenciar pessoas.

Voto de Cabresto
Sob a proteção do governo, os
coronéis eram latifundiários que
mandavam em toda a região ou em um
município. Era um chefe político rico e
poderoso cheio de jagunços (homens
armados).

Nas cidadezinhas todos tinham


medo dos coronéis que existiam; a força
deles era principalmente política
Na época das eleições, os coronéis
mais poderosos eram os que mais
eleitores conseguiam controlar – isso era
feito através do voto de cabresto.

O voto de cabresto não era resultado apenas da violência, de jagunços


vigiando se a pessoa realmente votava no candidato do coronel, mas também, de
outras estratégias que utilizavam para conquistar o maior número de eleitores
possíveis.
Somente com o
Código Eleitoral de
Quando vinham as eleições, os coronéis 1932, surgiu no Brasil o
distribuíam presentes para os eleitores: enxadas, voto secreto para
sapatos, churrasco, emprego na prefeitura, festa na homens e mulheres
cidade. maiores de 18 anos.

Em troca, votavam no candidato indicado pelo coronel.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Hoje em dia, o sistema eleitoral brasileiro adota o voto secreto, ou seja, o


eleitor não revela publicamente seu candidato. Isso permite uma escolha
livre na hora da votação. Apesar disso, o coronelismo e as pressões
eleitorais NÃO desapareceram no país.

Nas regiões mais carentes, ainda hoje, o eleitor pobre e sem


informação ainda vota com medo. É comum vender seu voto por uma sacola
de comida, uma dentadura, um uniforme novo para o time de futebol, ou
mesmo uma vaga garantida para o filho na escola pública.

Agora responda em seu caderno:


1. O que você entendeu sobre o voto de cabresto? E hoje no Brasil, essas
práticas ainda existem? Justifique a sua resposta.

Você estudou que o regime republicano


não provocou grandes mudanças na
vida do povo brasileiro. No plano econômico, também não mudou, ou
seja, a economia continuou baseada na produção de matérias-primas e
gêneros tropicais destinados à exportação, porém o CAFÉ
continuava sendo o principal produto, pois, não havia grandes concorrentes
no mercado internacional.

Nem só de
Além do café, em
café vivia a que mais eu
República... poderia investir?

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

No final do século, a grande moda européia era a bicicleta. O avanço da


Segunda Revolução Industrial tornou o aço um produto relativamente barato,
permitindo que até as classes populares se deliciassem com o veículo de duas
rodas. No começo do século XX, outro meio de transporte, para os ricos, fazia
muito sucesso: o automóvel.
Os pneus eram todos feitos de borracha. De repente, a indústria mundial
precisava muito dela. E sabe de onde vinha? Do Brasil.
Entre 1890 e 1913, o Brasil tornou-se o maior exportador de borracha do
mundo. Época de um grande esplendor que não duraria muito...
Os miseráveis nordestinos iam para a Amazônia tentar nova vida,
trabalhando como seringueiros. Vida infernal, no calor úmido, entre doenças,
mosquitos e cobras.
Compravam fiado no barracão dos latifundiários (comida, ferramentas,
roupas), e no final do mês sempre deviam mais do que recebiam.
Estavam presos a esses laços de servidão, que levariam milhares de
migrantes nordestinos a morrer esgotados no coração da selva.

Nas primeiras décadas do século XX, o cacau plantado no sul da Bahia


chegou a representar quase 4% das nossas exportações.

Os coronéis baianos e os grandes comerciantes da cidade de Ilhéus se


enriqueceram à custa do suor do trabalhador rural. Na colheita do cacau, as
mulheres trabalhavam tão duramente quanto os homens.

Os problemas do preço do cacau vieram quando as plantações nas


colônias da Inglaterra na África começaram a dar resultados. Mais uma vez a
concorrência internacional abalou a agricultura de exportação brasileira.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Fiação Matarazzo – São Paulo

O algodão era exportado


em grande quantidade.

Mas o crescimento
industrial do Brasil começou a
absorver quantidades cada vez
maiores dessa matéria-prima.

Por isso, nos anos 20, São Paulo se tornou o maior produtor e muitas
vezes era plantado entre as fileiras de café.

Entre 1821 e 1830, o algodão ocupou o 2º lugar na pauta das exportações


brasileiras. Nas décadas seguintes entrou em decadência devido à concorrência
dos Estados Unidos no mercado internacional.

Entre 1861-1865, o algodão brasileiro ficou em alta novamente, pois os


Estados Unidos estava em guerra e o algodão brasileiro abastecia os mercados da
Europa. Terminado esse período de glória, o algodão entrou novamente em
declínio no mercado externo.

Até 1830, o açúcar era nosso principal produto de exportação, foi


perdendo sua posição para outros países.

Diante da concorrência internacional, nosso açúcar passou a ser vendido,


cada vez mais no mercado interno brasileiro.

A maior parte dos produtos que se destacaram na Velha República, por


concorrência internacional, acabaram perdendo mercado. Diante desse problema,
muitas das decisões tomadas por governantes para proteger a elite (os ricos)
acabaram tendo conseqüências negativas para todo o povo.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Não é difícil imaginar que esse período foi marcado por muitos problemas
financeiros gerando uma enorme inflação.

Cerca de 3,8 milhões de estrangeiros entraram no Brasil entre 1887 e 1930.

"Êpa!", mas em 1888 não havia sido assinada a Lei Áurea para
libertar os escravos? Então qual é o motivo da vinda de tanta gente para
trabalhar aqui, se existia a mão-de-obra do negro liberto? E o que será que
aconteceu com os negros?
Será que os negros que até então trabalhavam sob o regime de
escravidão tiveram as mesmas oportunidades de trabalho que os imigrantes
aqui no Brasil? A resposta é não.
São Paulo recebeu a maioria dos estrangeiros, esse fato se explica pelas
facilidades concedidas pelo Governo Brasileiro (passagens, alojamentos etc.) e
pelas oportunidades de trabalho abertas por uma economia em expansão.
E o negro, depois da abolição, teve algum amparo por parte do
Estado? A resposta novamente é não.
E se perguntar a você se hoje as oportunidades de trabalho são as mesmas
para todos, independente da cor, etnia e sexo, o que você responderia?

É importante saber que para justificar a substituição do trabalho


do negro pelo trabalho do imigrante, surgiram na época muitas
teorias de inferioridade racial, fato esse que contribuiu muito
para reforçar o preconceito racial que por ignorância dos
fatos ainda existe nos dias de hoje em nosso país.

O povo não participou da PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA.

A maioria da população brasileira vivia na marginalidade.

A República não melhorou em nada a vida dessas pessoas.

Assim, com a economia ruim e a insatisfação do pobre,


que se sentia desprezado e explorado
vão ocorrer muitas revoltas populares nessa época.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Conheça três revoltas populares que aconteceram na


Velha República:

Vista de Canudos

Imagine a
situação dos
camponeses, trabalhando
debaixo do sol quente do
sertão, dando um duro
miserável, sem nunca ter
visto um médico ou uma
escola para os filhos,
passando fome, enquanto
o coronel tomava
refrescos na varanda de sua casa grande.
Todas essas condições, mais a crise econômica (entre 1850-1890), ocorreu
uma das maiores revoltas camponesas da história do continente - Canudos.
Foi no sertão da Bahia, numa área abandonada, perto do rio Vaza-Barris.
Primeiro surgiu uma rocinha aqui, um barraco lá, uma cerca com criação de
bodes; outro barraco, mais uma família que chegava para plantar feijão e
abóbora, e criar galinhas e cabritos. Em pouco tempo, milhares de famílias
estavam morando na comunidade chamada Canudos.
O povo oprimido era religioso. E nas vilas da região, nas praças e nas
feiras, um homem barbudo e de olhar profundo dizia palavras que tocavam
fundo no coração daquela gente sofrida.
CANUDOS - era uma espécie de comunidade alternativa, como se os
camponeses de lá dissessem a todos os outros do país: "Gente, se a terra for
repartida, todos viveremos melhor". Portanto, tratava-se claramente de uma
revolta social contra o latifúndio e a República Velha dominada pelos
coronéis.
No entanto, a maneira de ver as coisas não era política, era religiosa.
Antônio Conselheiro, líder de Canudos, dizia que suas metas eram guiadas pelo
retorno do Messias, Jesus.
Então, movimentos de protesto social dos pobres, que assumem uma
linguagem e uma visão religiosa, recebem o nome de messiânico. Canudos:
foi um exemplo típico de messianismo.
Não é difícil imaginar o final de toda essa história, expedições policiais
foram enviadas à região. Venceram várias expedições, até que o exército enviou
8 mil homens, acompanhados por canhões especialmente importados da
Alemanha e comandados por um general. Foi um massacre. Nem as crianças
escaparam. Milhares de pessoas foram massacradas pelo exército.
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

A ferro e fogo, os latifundiários nordestinos continuaram impondo seu


domínio.

A situação de miséria, as injustiças dos


coronéis, a fome e as secas, produziram no
Nordeste um cenário favorável à formação de
bandos populares, bem armados, conhecidos
como cangaceiros. Esses bandos andavam
pelos sertões assaltando fazendas e matando
pessoas. Espalhavam o medo, numa terra sem
lei.
O cangaço, é um movimento polêmico.
Muitos consideram uma forma pura e simples
de banditismo e criminalidade. Para outros
é uma forma de banditismo social, isto é, uma
forma de revolta contra a opressão e a miséria da vida nordestina.
O mais conhecido foi o bando de Virgulino Ferreira, o Lampião (1920).
Depois que a polícia massacrou o bando de Lampião, em 1939, o cangaço
praticamente desapareceu no Nordeste.

Na Revolta da Vacina em 1904, no Rio de Janeiro, o povo foi chamado de


"ignorante". Como se o povo nunca tivesse um bom motivo nacional para se
revoltar...
Tudo começou quando o prefeito iniciava uma grande reforma na capital
da República – Rio de Janeiro. O problema é que para alargar as avenidas,
várias casas populares foram derrubadas, sem que o governo se preocupasse em
arrumar um lugar para os desabrigados; os funcionários do governo não tinham
dó, subiam o Morro Favela (onde moravam os mais pobres) e derrubavam tudo.
Mais tarde, a cidade do Rio sofria com uma série de doenças como a febre
amarela, a malária e a varíola e como eliminá-las?
Foi convocado o médico sanitarista Oswaldo Cruz, que recomendou o
extermínio de ratos e mosquitos da cidade.
O ódio popular foi crescendo e explodiu quando o governo anunciou
que todo mundo teria de TOMAR VACINA CONTRA VARÍOLA.
Naquela época, nem os intelectuais sabiam direito o que era uma vacina e
o governo não se importou em esclarecer, deu a ordem e pronto!

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Estourou a rebelião popular. Trilhos de bondes foram arrancados e as
ruas do Rio de Janeiro foram ocupadas pelo povo, protegido por barricadas.
O exército matou gente do mesmo jeito que se mata ratos e mosquitos.

Ser marinheiro era muito duro. O trabalho pesado, num ambiente sem
higiene. Para piorar, o Brasil, em pleno século XX, ainda punia os marujos
com chicotadas.
Os oficiais eram filhos da aristocracia, ex-senhores de escravos, daí dá
para entender o porquê de espancarem os marinheiros: gente pobre e filhos de
negros e mulatos. Era como se a escravidão do Brasil ainda existisse num único
lugar: na Marinha de Guerra. Vergonhoso não!?

Aí o governo resolveu modernizar a marinha comprando navios da


Inglaterra, mas, manteria no Brasil os castigos corporais. Quando os navios
chegaram no porto, os marinheiros não estavam mais dispostos a receber
chibatadas como punição – a aceitar humilhações.
A rebelião estourou - tomaram os navios e para o espanto dos oficiais e
da elite, os marinheiros liderados por um Cabo semi-analfabeto, chamado de
João Cândido, o "Almirante Negro", manobravam espetacularmente os navios
e ameaçaram bombardear os bairros elegantes do Rio de Janeiro, caso não
fossem atendidos – banir as chibatadas.
Na parede, o governo cedeu. Os marinheiros tiveram a promessa de não
serem punidos, o trabalho duro foi aliviado e acabou-se o castigo com chicote.
Os oficiais se vingaram! Na calada da noite, esperaram tudo voltar ao
normal e pegaram os marinheiros desprevenidos e desarmados. Centenas de deles
foram despedidos da marinha ou enviados para trabalhos forçados e vários,
fuzilados. APESAR DE TUDO, A CHIBATA TINHA ACABADO.

...que o negro, que com o suor do seu trabalho contribuiu para o


desenvolvimento do Brasil durante todo o período da escravidão, foi
substituído pelo trabalho assalariado do imigrante?

Muitas são as tentativas de justificação.

Até mesmo a superioridade do europeu, era defendida por


teóricos da época: o que é uma visão distorcida e preconceituosa que
na verdade tenta legitimar uma situação que não tem explicação
lógica.
Apesar de tudo, o negro superou o total abandono e criou
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espaços numa sociedade que o "sugou", até não poder mais,
deixando-o entregue a sua própria sorte.
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Nessa época na Europa e nos Estados Unidos, estavam acontecendo


muitas manifestações operárias que acabaram por se refletirem no Brasil.

Principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro, a camada proletária, isto é


de trabalhadores de baixa renda, havia crescido muito.

Os trabalhadores urbanos viviam em péssimas condições de vida, não


existiam leis que os protegessem e garantissem seus direitos trabalhistas.

O empresário é que determinava a jornada de trabalho, o descanso


semanal que era raro, os salários etc.

Os trabalhadores se defendiam das injustiças praticadas pelos patrões


organizando associações, passeatas, greves que sempre eram reprimidas com a
força policial que prendiam os líderes grevistas e intimidavam os participantes.

Nessa época era comum imigrantes vindos de diversos países da Europa


como Espanha, Portugal, França e Itália trabalharem nas fábricas brasileiras
influenciando os trabalhadores do Brasil com idéias que vinham da Europa,
como por exemplo as idéias anarquistas.

 O ANARQUISMO
No século XIX havia outra
Anarquismo – Termo que significa “ausência de
corrente política anti - capitalista autoridade”. É uma corrente política que nega
forte: o anarquismo. o poder do Estado.
Os anarquistas eram O anarquismo rejeita a autoridade porque nela
vê a origem exclusiva da infelicidade do
contrários ao sistema capitalista, ao homem. Essa autoridade é representada pelo
Estado e a Igreja: para eles tratava- Estado, órgão repressor por excelência.
se da escravidão econômica
política e mental.
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Assim como os socialistas marxistas, os anarquistas achavam que a
sociedade só seria livre numa sociedade comunista.
E o que seria uma sociedade comunista? Seria aquela em que não há
propriedade privada. Tudo pertence a todos, coletivamente.
Você já percebeu que tanto os comunistas como os anarquistas defendiam
a idéia de uma sociedade sem Estado, patrões, chefes supremos, polícia etc., a
própria sociedade se auto-governaria.

 O PARTIDO COMUNISTA NO BRASIL


Nem é preciso dizer que a vitória
Conforme você já viu no módulo 8, o
socialista na Rússia em 1917 influenciou socialismo (século XIX), passou a
pessoas no mundo inteiro. indicar um conjunto de doutrinas e
teorias políticas e econômicas que tinha
por objetivo transformar a sociedade.
No Brasil, alguns militantes
sindicais aos poucos vão abandonando O comunismo seria o estágio final do
socialismo, aconteceria quando a
as idéias anarquistas e passam a defender sociedade tivesse alcançado a
os ideais comunista fundando o Partido maturidade social.
Comunista Brasileiro, em março de
1922.

Bem, você já estudou que o comunismo e o anarquismo eram parecidos


em alguns pontos, mas haviam as diferenças também, você verá a seguir
algumas:

 Os anarquistas, ao contrário dos comunistas, não aceitavam que os


sindicatos tivessem uma organização centralizada, com muitos poderes nas mãos
dos que tinham sido eleitos dirigentes. Achavam que qualquer decisão do
sindicato deveria ser aprovada em assembléia com todos os seus membros.

 Os anarquistas desprezavam o Estado. Por isso não propunham a criação de


leis a favor do proletariado. Os comunistas ao contrário, diziam que a conquista
de novas leis e reformas sociais eram um avanço dos trabalhadores. Na época
da sua fundação (1922), o PCB contava com 73 membros e já em 1928 tinha
aproximadamente 500 membros.

Não era um número tão expressivo se comparado ao total de trabalhadores


no país na época, mas foi o suficiente para alarmar as camadas dominantes.
Empresários, grandes proprietários, homens do governo, comerciantes etc.
tinham verdadeiro pavor desse partido que organizava e centralizava a luta
operária. Por causa disso, o PCB teve vida legal bastante curta.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

 GREVE

A partir da década de 20, o Primeiro de Maio (dia do Trabalhador) era


comemorado com um sentido político cada vez mais acentuado.

Sob a influência dos anarquistas, comunistas, os trabalhadores no Brasil


da época protestavam contra a exploração através de movimentos como
“operação tartaruga” (diminuição do ritmo de trabalho) e as greves que é a forma
de luta mais usada pelos trabalhadores.

A primeira greve que se


tem notícia no Brasil, foi a dos
tipógrafos do Rio de Janeiro
ainda durante o Império (1858).
Mas foi no Período
Republicano, quando o número
de trabalhadores fabris
aumentou, que as greves se
multiplicaram.
Para você ter uma idéia,
no dia 9 de junho de 1917, uma
seção do Cotonifício Crespi
(fábrica têxtil localizada no O número de operários em São Paulo já era
bairro da Mooca, em São Paulo) expressivo na segunda década do século.
paralisou suas atividades
pedindo aumento salarial, a greve se estendeu por toda a fábrica com seus 2.000
funcionários.
Outras empresas também aderiram ao movimento como: Estamparia
Ipiranga de Nani Jafet & Cia., Fábrica de bebidas Antártica, Fábrica têxtil
Mariângela do grupo de Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, ao todo,
foram 15.000 operários parados e 35 empresas envolvidas.

É foto de
uma
creche?

Não! É uma
fábrica.

Naquele tempo,
as crianças
trabalhavam.
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Em tempo...
Os trabalhadores cada vez mais conscientes dos seus problemas passam a
reivindicar também:
Abolição da multas, regulamentação do trabalho das mulheres e dos menores,
supressão da contribuição “Pró-Pátria” (tratava-se de uma arrecadação em dinheiro,
descontada do salário dos trabalhadores para auxiliar a Itália envolvida na Primeira
Guerra Mundial. Esse tipo de desconto obrigatório era comum na época. Em 1901, os
operários de uma fábrica de chapéu foram forçados a contribuir para os funerais do
rei Humberto I, da Itália).

 A ARTE MODERNA Obra de Di Cavalcanti

Já no final do século XIX, a


Europa vinha passando por profundas
transformações, o progresso
industrial e científico deu um novo
rumo às artes.

A arte retrata os valores,


anseios e o que a sociedade pensa de
si mesma e portanto a influência da
cultura européia na nossa cultura fez
com que toda expressão artística
mostrasse apenas o modo como
nossas elites enxergavam o Brasil.

Durante muito tempo, a


Europa servia de exemplo cultural a
ser seguido. Muitos artistas
brasileiros desse período, procura
aproximar o povo brasileiro do
europeu.
O Brasil sempre foi um exemplo de miscigenação étnico racial, mas essa
mistura étnica não era bem vista pelos europeus, segundo a concepção deles isso
representaria um atraso para o Brasil.
Portanto o Europeu significava o alcance maior da civilização ocidental, o
símbolo de um progresso e refinamento jamais experimentado pela humanidade,
um exemplo a ser copiado. Bom, mas nem tudo é para sempre, após a Primeira
Guerra Mundial, a Europa estava destruída, portanto seus valores não eram mais
exemplo a ser seguido.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
O mundo mudou, e o progresso, (eletricidade, a velocidade, navios,
automóveis, aviões), vão dar contornos aos novos tempos. Tudo isso influenciará
os poetas, escritores, músicos e artistas plásticos a romper com antigos valores.

Segundo eles, a arte brasileira não deveria mais idealizar a cultura


européia. De certa forma, a arte modernista fez uma inversão de valores a mistura
racial tão depreciada no período anterior, passa a ser valorizada agora. O
momento marcante dessa ruptura pode ser adotado em fevereiro de 1922.

Foi quando aconteceu a Semana da Arte Moderna, no Teatro Municipal


de São Paulo, evento que reuniu os maiores expoentes do modernismo brasileiro.
Nesse evento houve exposição de quadros de Anita Malfatti e de Di Cavalcanti,
além das esculturas de Brecheret, Manoel Bandeira, Graça Aranha, Menotti del
Picchia, Mário de Andrade levariam suas obras ou proferiam conferências. Para
fechar a semana, haveria um concerto regido por Villa – Lobos.
A maioria foi impedida pelo público de
terminar suas apresentações. O público, com
vaias, jogando batatas e tomates, obrigou os
modernistas brasileiros a se esconderem atrás das
cortinas do Teatro Municipal. Isso nos mostra o
quanto o público valorizava as manifestações
artísticas em sua forma tradicional, como também
o incômodo com aquilo que os modernistas
tinham a dizer sobre o Brasil.
A conseqüência mais importante desse
evento foi a ruptura decisiva dos padrões estéticos ANTROPOFAGIA
tradicionais e a introdução definitiva do Tarcila do Amaral
modernismo nas artes do Brasil.

Responda em seu caderno:


2- Segundo o texto acima, a cultura européia era muito valorizada
naquela época no Brasil. E nos dias de hoje, quando você assiste TV,
ouve música etc, você acha que a nossa cultura é valorizada? Justifique
a sua opinião.
3- Dê um exemplo de arte (estilo de música, ou livro, programa de TV,
peça de teatro, filme etc.), que retrate a nossa sociedade atual.

 O TENENTISMO

A década de 20 foi também marcada por sérias dificuldades financeiras no


Brasil. A Primeira Guerra Mundial, revelou muitas coisas aos oficiais brasileiros.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Eles notaram que a vitória na guerra cabia aos países mais desenvolvidos e
industrializados, os atrasados, haviam sido derrotados na guerra.
Surgiu assim entre parte da oficialidade, a idéia de que um país só estaria
efetivamente defendido caso tivesse indústria desenvolvida, povo saudável, capaz
de fornecer um bom material humano para forças armadas.
Como nessa época predominava no Brasil um tradicional sistema
oligárquico que dominava a política brasileira, muitos oficiais do Exército
passaram a aceitar a idéia de que o Brasil só conseguiria progredir quando os
fazendeiros perdessem o poder político.
Na década de 1920, a baixa oficialidade do Exército se envolveu em
vários movimentos políticos. Por causa da grande participação dos tenentes,
eles ficaram conhecidos como movimentos tenentistas.
Esses movimentos possuíam algumas características comuns: queriam
moralizar a vida política, acabando com a fraude eleitoral, desenvolver o país e
diminuir a miséria no campo. Acreditavam que cabia a eles a tarefa de salvar o
país.

 A REVOLTA DO FORTE DE COPACABANA (Julho de 1922)

Desde 1918, as relações entre o Exército e as oligarquias dominantes eram


tensas. Vamos aos fatos que antecederam a revolta:

 Epitácio Pessoa foi eleito para governar entre 1918 a 1922. Durante seu
governo, nomeou um civil para o Ministério da Guerra e descontentou muito o
exército.
 Em 1921 as campanhas para eleição estavam nas ruas. As oligarquias estavam
tranqüilas pois certamente imporiam o seu candidato.
 Porém um episódio vai abalar a tranqüila eleição: O candidato do governo (das
oligarquias), Artur Bernardes, fez duras críticas a Hermes da Fonseca (seu
opositor nas eleições) chamando-o de “sargentão sem compostura”. O exército
tomou a agressão para si e colocou-se ao lado do presidente Hermes da Fonseca.
 Artur Bernardes vence as eleições como era esperada pela oligarquia.
 No Rio de Janeiro uma parte da oficialidade se revoltou e decidiu pegar em
armas para derrubar o governo.
 Em 5 de julho, o levante começou, tendo como centro do conflito o Forte de
Copacabana, dotado de pesados canhões. Os revoltosos começaram a disparar
contra outros quartéis. O governo mandou navios bombardear o forte. A maioria
dos revoltosos se rendeu. Dezoito deles decidiram, num gesto tão heróico quanto
suicida, sair do forte e enfrentar de peito aberto as tropas do governo.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

 1924: LEVANTES TENENTISTAS AGITAM O PAÍS


A repressão ao movimento tenentista de 1922 criou muitos
ressentimentos. Temendo novas revoltas, o governo mandou oficiais tenentistas
para quartéis bem longe da capital.
Em 1923, a justiça condenou à prisão 50 militares envolvidos nos
acontecimentos de 1922. Uma parte do Exército se sentiu ofendida com tais
medidas e começou a preparar uma nova revolta.
O Levante de 1924 estouraria primeiro em São Paulo, pois já contava com
o apoio de Miguel Costa, comandante da Polícia Militar. No dia 5 de julho,
iniciou a revolta. Beneficiados pela surpresa, os revoltosos controlaram a capital
paulista. Entretanto, a resposta do governo veio rápida e sob forma de pesados
bombardeios. Vários bairros da capital foram quase totalmente destruídos, 500
paulistanos morreram e quase 5.000 ficaram feridos.
Outros levantes também aconteceram em vários estados do Brasil. Em
Mato Grosso, Sergipe, no Amazonas. No início conseguiram algumas vitórias,
entretanto as tropas governamentais derrotaram os tenentistas.

COLUNA PRESTES: LONGA MARCHA DOS TENENTES


Em 1925, dois grupos tenentistas se encontraram e resolveram fazer uma
grande marcha pelo interior do Brasil. O objetivo
dessa marcha era levar a revolução aos mais
distantes lugares do país e desgastar o governo até
que saísse do poder.
Eram mais ou menos 1.500 homens,
divididos em duas colunas, uma chefiada por Luís
Carlos Prestes e a outra, por Juarez Távora. O
comando central pertencia a Miguel Costa. Unidas,
seguiram rumo ao norte. Tomaram várias cidades,
mas logo as abandonaram, pois, caso
permanecessem, seriam presas fáceis das tropas do
governo.
Chegaram ao Maranhão, Piauí e depois
retornaram na direção leste. A marcha da Coluna
Prestes encontrou muitas dificuldades, a maioria da Cartaz comemorativo da Coluna
população rural, dominada pelos “coronéis” do Prestes. O retrato é de Luís
sertão e influenciadas pela propaganda negativa Carlos Prestes.
do governo federal, temia os revolucionários.
Andaram muito, foram 25.000 quilômetros de marcha. Participaram de
mais de 100 combates, não apenas contra as tropas do governo, mas também
contra jagunços e cangaceiros, pagos por grandes fazendeiros.
Em março de 1927, a coluna, reduzida a 620 homens, refugiou-se na
Bolívia, no Paraguai e na Argentina.
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Bem, a Coluna Prestes foi o ponto final nos levantes tenentistas
da década de 20.

Não se esqueça de que a dominação dos grandes


coronéis ainda continuava forte, entretanto, o desejo de
derrubá-los ia ganhando uma força crescente.

 O FIM DA POLÍTICA DO CAFÉ-COM-LEITE

Bem, você já estudou que na


década de 20, o Brasil foi agitado por
vários movimentos militares,
conhecidos como “tenentismo”.
Nesses movimentos, membros
do Exército, pegaram em armas para
derrubar o governo. Achavam que o
país necessitava profundas reformas e
para realizá-las, deviam acabar com a
dominação política dos grandes
fazendeiros.
Os movimentos tenentistas de
1922, 1924 e a Coluna Prestes foram
derrotadas pelas forças militares leais
ao governo. Os principais envolvidos
acabaram mortos, presos ou exilados.
Isso não significava que o
governo tenha conseguido erradicar
os focos de insatisfação dentro do Com a crise de 1929, as filas de
desempregados se multiplicavam nos grandes
Exército. centros urbanos. Pelos campos, a miséria
Secretamente alguns oficiais também se espalhava. Na fotografia, um
continuaram a alimentar um homem segura cartaz que oferece refeições
gratuitas aos que têm fome.
sentimento oposicionista.
Em 1926, já no governo Washington Luís (1926-1930), o Partido
Comunista voltou a atuar intensamente.
Impôs-se a tarefa de organizar a classe operária levantando antigas
bandeiras do movimento como a jornada de oito horas, a adoção do salário
mínimo da proteção legal das mulheres e às crianças trabalhadoras e a instituição
de assistência social ao trabalhador. Empenhou-se também na doação do voto
secreto. Você já viu que a década de 20 não foi um período muito calmo para o
Brasil.

18
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
O proletariado (assalariado) em crescimento e a classe média em
formação, excluídos da participação na política, reclamavam agora seus direitos,
a dominação oligárquica não era vista com bons olhos...
A questão econômica foi um dos fatores de agravamento da crise política.
Nossa economia ficou muito abalada com a CRISE DE 29, que levou a falência
o mercado mundial e gerou seus primeiros efeitos no Brasil já no final daquele
ano. O café, nosso principal produto, teve uma acentuada queda do preço no
mercado internacional e os cafeicultores passaram a depender da ajuda
financeira do governo e essa ajuda não veio.
Isso desgastou a imagem do Presidente da República, Washington Luís,
que tinha como proposta de governo ESTABILIZAR e MORALIZAR a
economia brasileira.
Os Estados Unidos mantiveram-se neutros até 1917 na Primeira Guerra
Mundial. Durante o conflito, forneciam armas, alimentos e empréstimos a diversas
nações européias.
Nesse período a indústria norte-americana cresceu de tal maneira que dois
anos após o fim da guerra já era responsável por cerca de metade de toda a produção
industrial do mundo. Entretanto, por falta de consumidores internos e externos,
começaram a sobrar grandes quantidades de produtos no mercado, configurando-se,
assim, uma crise de superprodução.
Até que chegou o momento em que a crise atingiu a Bolsa de Valores de Nova
Iorque, um dos mais importantes centros do capitalismo mundial. O resultado foi que
os preços das ações despencaram, ocorrendo o crash (quebra) da Bolsa de Valores de
Nova Iorque.
Abalados pela crise, os Estados Unidos reduziram drasticamente a compra de
produtos estrangeiros e suspenderam os empréstimos a outros países. Assim a crise
propagou-se rapidamente por todo o mundo capitalista.

Responda em seu caderno:


4. Como a crise de 1929 nos Estados Unidos, afetou a economia do mundo
todo na época, inclusive o Brasil? Explique.

 A REVOLUÇÃO DE 30
É fato que apesar do descontentamento de grande parte da nossa sociedade
com o poder centralizado nas mãos das oligarquias, e do domínio dos estados
mais poderosos: São Paulo e Minas Gerais (Política do café-com-leite que você
já estudou), na vida política do Brasil, esse sistema, através de fraudes eleitorais,
pelo poder econômico e pelas forças das armas, permaneceriam no comando do
poder até 1929, quando dois fatos abalaram a dominação das oligarquias:

 O primeiro deles, foi o rompimento entre os grupos que dominavam o poder,


por um motivo bem simples. Você está lembrado que pela política do café-
com-leite, era indicado um político de São Paulo e Minas apoiava, na eleição
seguinte, Minas indicava e São Paulo apoiava e assim sucessivamente.

19
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Bem, para encurtar essa história, basta saber que seria a vez de Minas indicar seu
candidato, entretanto, com o rompimento do acordo foi indicado o paulista Júlio
Prestes.

 Minas sabia que seria impossível enfrentar sozinha a força do governo. Por
isso, aproximou-se do Rio Grande do Sul. Dessa aproximação, surgiu a
Aliança Liberal, que apresentou a candidatura do gaúcho Getúlio Vargas à
presidência da República. Vieram as eleições e, como era de se esperar,
aconteceram as fraudes eleitorais e ao controle dos coronéis sobre a
população camponesa, o governo venceu. Venceu, mas não convenceu. A
enorme diminuição da renda no setor cafeeiro foi responsável pela recessão e
pelo desemprego nos demais setores. O comércio ressentiu-se da falta de
compradores. O mesmo ocorreu com as indústrias. A solução foi a demissão.

Em pouco tempo, havia, nos grandes centros urbanos brasileiros, uma


massa de desempregados, o que agravou ainda mais a crise econômica.
Dessa maneira, no início do ano de 1930, a situação política do país era de
crescimento das forças oposicionistas, dispostas agora, a derrubar o governo.
Desde o início de 1930, a conspiração contra o governo vinha sendo
tramada. As lideranças políticas de vários estados encontravam-se
freqüentemente para traçar os planos. Líderes tenentistas e dos “partidos
democráticos” mantinham constantes contatos, e o tema era um só: derrubada do
governo.

Bom, para complicar mais um pouco a situação, aconteceu o assassinato


de João Pessoa, candidato oposicionista da Aliança Liberal à vice-presidência.
Foi morto por João Dantas que era ligado ao presidente Washington Luís.
Morto, João Pessoa foi transformado num mártir da luta contra as
oligarquias. Estimulados pelo clima emocional que tomou conta do país, os
líderes oposicionistas marcaram para 3 de outubro a data da revolta. Nesse dia, as
guarnições militares que aderiam ao movimento atacaram as tropas leais ao
governo em vários pontos do país.
Os combates sucederam-se no Rio Grande do Sul, em Minas e nos
estados do Nordeste. Em pouco tempo, as tropas revoltosas assumiram o controle
da situação na maioria dos estados.
Ficava faltando apenas dominar São Paulo e o Rio de Janeiro. Nesses
estados, concentrava-se o grosso das forças governistas. Tudo indicava que a luta
ia ser sangrenta e demorada.

Isso acabou não ocorrendo. A alta oficialidade das Forças Armadas, até
então governistas, exigiu a renúncia do presidente.
Sem apoio militar, o governo caiu. Em 3 de novembro, Getúlio Vargas, o
candidato derrotado nas eleições, assumiu o comando do país.

20
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Vários grupos fizeram a Revolução de 30. Havia os tenentistas, a classe
operária, as classes médias, uma parcela do empresariado e até mesmo, o que é
importante ressaltar, numerosos representantes das oligarquias rurais, fazendeiros
que durante décadas, participaram do poder nos seus estados e que não quiseram
afundar junto com o governo Washington Luís.

Tamanha diversidade social fazia com que os laços que uniam tais grupos
fossem bem frágeis. Os anos seguintes foram marcados pela luta desses grupos
entre si, cada qual tentando impor os seus interesses aos demais.

A participação popular durante o movimento, apesar de desordenada e


inconsciente da sua própria força, deixou claro que era impossível ignorar o povo
e alguma coisa tinha que mudar... Vargas representou um rompimento com
velhos costumes políticos, só resta agora saber se Vargas governou para o
povo...é o que você logo irá descobrir...

Em 1930, Vargas assume o poder com a


seguinte fala: “Assumo provisoriamente o governo
da República como delegado da Revolução, em
nome do Exército, da Marinha e do povo.
Porém, permaneceu no poder por quinze
anos...
Lembre-se que na Revolução de 30, o
presidente Washington Luís, entrega o governo à
Vargas.
Desde que assumiu o governo, Getúlio quis
convencer a todos de que era um “revolucionário”.
Assim criou novos Ministérios, novas
Interventores: administradores;
leis e tratou de tirar todos os antigos
autoridades nomeadas pelo
governadores dos estados (menos o de Minas governo em casos anormais.
que era aliado de seu governo) para colocar
interventores nomeados por ele.
Decreto-Lei: Decreto do
Veja só, o Governo Getulista não era chefe do Governo,
democrático, afinal não tinha sido eleito pelo povo. A instituindo uma lei que,
em regime normal, só
Constituição não era respeitada e o Congresso estava poderia ser emanada ou
fechado. As leis eram todas feitas por Getúlio, por aprovada pelo Parlamento.
meio de decretos-lei.
Bem, como você estudou, o modo de Getúlio governar foi chamado de
populismo por sociólogos e historiadores. Portanto, o Estado Novo era um típico
Estado Populista. O populismo de Vargas tinha o nome de trabalhismo.
21
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

A neutralidade do Estado populista, o papel mediador (intermediário,


negociador, pacificador) entre as classes sociais era só na aparência. Porque o
Estado populista nada mais foi do que uma nova forma que a classe dominante
encontrou para manter submetidos e obedientes o povo trabalhador. Getúlio
sempre governou para os latifundiários, para a burguesia.

 A POLÍTICA TRABALHISTA

No plano social, destacou-se inicialmente a criação do Ministério do


Trabalho, Indústria e Comércio (26/11/1930).
Foi decretada a Lei dos Terços, chamada de “Lei da Nacionalização do
Trabalho”: diante do desemprego crônico, as firmas de origem estrangeira eram
obrigadas a ter em seus quadros pelo menos dois terços de brasileiros natos.

Em 19 de março de 1931, decretou-se a Lei de Sindicalização , que


regulava os direitos das classes patronais e operárias. Os estatutos dos sindicatos
deveriam a partir de então, ser aprovados pelo Ministério do Trabalho.
Delineava-se o sentido da política trabalhista de Vargas, rumo ao controle
do movimento operário e à criação de Mussolini, chefe do governo italiano
condições para o desenvolvimento da que implantou a ditadura fascista na
indústria. Itália em 1922, transformou os
Na verdade, a Lei de Sindicalização sindicatos na principal organização
de massas, por meio dos sindicatos,
era uma adaptação da Carta del Lavoro, os trabalhadores eram subordinados
de Mussolini, que limitava a participação diretamente ao Estado, que os
política dos sindicatos. controlava e manobrava.
A jornada de trabalho foi fixada em
8 horas de serviço diário, com obrigatoriedade do descanso semanal remunerado.
Reafirmou-se o direito às férias anuais, já estabelecido em 1926, mas não
cumprido: quinze dias úteis, se prejuízo dos vencimentos.
Em 1931, foi apresentado o anteprojeto da Lei do Salário Mínimo, só
sancionada durante o Estado Novo, em 1943.

Bem, é importante entender que não dava mais para o Brasil


continuar apenas com a agroexportação. Era preciso industrializar. De que
forma? Com a intervenção do Estado na economia, por meio de obras
públicas, empresas estatais (pertencentes ao Estado), nacionalismo para
proteger as fábricas brasileiras, incentivos à burguesia industrial.

Crescendo a indústria, aumentaria o número de trabalhadores, portanto


seria preciso criar leis para o trabalhador, ora, as leis trabalhistas não valiam para
todos os trabalhadores.

22
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
A maioria dos brasileiros viviam no campo, eram todos trabalhadores
rurais. Para eles a CLT não valia.

É importante lembrar também, que algumas leis trabalhistas já tinham sido


conquistadas nas greves de 1917, 1918 e 1919 na República Velha.

O Estado populista, através da


propaganda oficial: DIP –
Departamento de Imprensa e
Propaganda, mostrava Getúlio
como o “Pai dos Pobres”.
Ao contrário da República
Velha que governavam lá do alto
dos palácios, sem dar muita bola
para o povo, o governo populista
sempre leva em conta as “massas”,
Vargas gostava de fazer discurso
para as multidões que por sua vez,
marchavam com cartazes Desfile de comemoração do 1º de maio na era Vargas.
do presidente, cantavam
em louvor ao “Pai dos Pobres”.
Com total apoio do Departamento de Imprensa e Propaganda, é claro.

 A REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA DE 1932


Uma das conseqüências do confronto político entre
tenentes e oligarcas foi a Revolução Constitucionalista
de São Paulo, em 1932.
Aos poucos, Vargas foi revelando o seu modo
ditador de governar: a falta de uma Constituição e a perda
das liberdades individuais, a centralização do poder.
Tudo isso assustava a oposição política de São
Paulo, que na verdade queria a volta da República
Velha.
O movimento de contestação foi organizado pelo
Partido Democrático (PD), que era composto por
industriais, elementos das classes médias urbanas de São
Paulo e alguns aristocratas.
Esse partido havia apoiado os revolucionários de 1930, esperando com
isso obter a liderança política do Estado. Porém, estavam descontentes com a
nomeação do interventor pernambucano João Alberto Lins e Barros para
governar São Paulo.
23
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
A oposição política de São Paulo exigia a nomeação de um interventor
civil e paulista. Cedendo às pressões, Getúlio nomeou o interventor Pedro de
Toledo. Essa medida, entretanto, não foi suficiente para desfazer a oposição
paulista, que também exigia novas eleições e a convocação de uma Assembléia
Constituinte para elaborar uma nova Constituição no país.
Em maio de 1932, durante uma
manifestação pública contra o governo
federal, quatro estudantes paulistas –
Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo –
morreram em um conflito de rua.
A morte dos estudantes exaltou ainda
mais os ânimos. Com as iniciais de seus
nomes formou-se a sigla MMDC, que se
tornou símbolo do movimento
Selo Comemorativo do MMDC constitucionalista.

No dia 9 de julho de 1932, explodiu a Revolução Constitucionalista:


São Paulo reuniu armas e 30 mil homens para lutar contra o governo federal. As
tropas paulistas, formadas por soldados da polícia do Estado, recebiam a
colaboração de muitas indústrias de São Paulo, que ajudavam na fabricação de
material de guerra, como granadas, máscaras contra gases, lança-chamas,
capacetes. Mas São Paulo ficou isolado do resto do país.
Mato Grosso foi o único estado a acompanhar os paulistas. As demais
oligarquias não aderiram à Revolução Constitucionalista.
Após três meses de combate, os paulistas foram derrotados pela tropas
federais. Embora derrotados militarmente, os paulistas se consideram vitoriosos
politicamente, pois, terminada a revolta, Getúlio Vargas garantiu a realização de
eleições para a Assembléia Nacional Constituinte, que se encarregaria de
elaborar a nova Constituição.
O populismo foi uma característica na América Latina nos anos 30.
Assim aconteceu no Brasil com o presidente Getúlio Vargas, na Venezuela
com Lópes Contreras, Equador com Isidoro Ayora, Guatemala Jorge Ubico,
Cuba Geraldo Machado, República Dominicana Rafael Trujillo, El Salvador
Maximiniano Martínes, México Lázaro Cárdenas.
Eram chefes autoritários, carismáticos e populares, assunto que
traremos mais adiante.

Atenção!
Agora, você dará outra voltinha pelo
mundo para conferir o que acontecia...

24
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Bem, agora você vai saber o que acontecia em alguns lugares do mundo,
naquela época. Na Europa, os anos 30 foram vividos em meio aos nacionalismos
totalitários (nazismo e fascismo).
A ditadura nazi-fascista implantou-se nos países onde os efeitos da crise
mundial de 1929 foram mais sentidos e onde a burguesia estava mais assustada
com o avanço do movimento socialista.
Nos Estados Unidos, os anos 30 foram marcados pela reconstrução
econômica do país, através da política, posta em prática a partir de 1933, do
presidente Franklin Roosevelt.
O “New Deal” (novo dia), como foi chamada essa política econômica
intervencionista, permitiu a solução do problema do desemprego e valorização da
moeda norte-americana. Aos poucos, os Estados Unidos reconquistaram a
supremacia mundial.
A partir do final dos anos 30, estava consolidado o caminho para o
imperialismo norte-americano.
A eclosão da Segunda Guerra Mundial e os efeitos desse conflito só
vieram afirmar e aprofundar a política imperialista dos Estados Unidos.

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918), foi um


Imperialismo –
conflito imperialista para ver quem iria se apoderar da
Política de expansão
maior parte do mundo. e domínio de uma
A Alemanha e a Áustria foram derrotadas e nação sobre outras.
humilhadas no final da Primeira Guerra Mundial. Mas
ainda estavam “vivas”.
A ascensão da extrema direita (nazismo e fascismo) na Alemanha e Itália,
já davam pistas do que iria acontecer num futuro próximo: a guerra.
De certo modo, a Segunda Guerra Mundial (1939–1945) foi uma
continuação da Primeira Guerra Mundial, muitas questões ficaram
pendentes, e os países perdedores da Primeira Guerra Mundial, agora
queriam “revanche”.
Pois bem, a Inglaterra e a França, fizeram “vista grossa” no rearmamento
da Alemanha (proibidas pelos tratados de paz, impostos pelos países vencedores
na Primeira Guerra Mundial), acreditavam que Hitler levaria a Alemanha à uma
guerra contra a União Soviética (não se esqueça que a União Soviética era
socialista e representava uma ameaça para os interesses capitalistas).
O mundo estava pequeno para o enorme desenvolvimento industrial, e as
grandes potências competiam para obter mão-de-obra e matéria-prima mais
baratas, bem como mercados para escoar sua produção e investir em capital. O
isolamento imposto à União Soviética pelas potências capitalistas também abriu
espaço para a ação nazista.
25
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
A história irá complicar-se ainda mais quando na Espanha em 1936, teve
início uma guerra civil entre as forças republicanas de esquerda apoiada pelos
comunistas e as tropas do general Franco auxiliado pelos governos da Itália e
Alemanha ou seja, pelos fascistas e nazistas.
O motivo da guerra civil Espanhola, era a vitória nas eleições da Frente
Popular (forças republicanas de esquerda), que adotaram um amplo programa de
reforma agrária.
Como essa era uma época de intensa polarização ideológica, entre o nazi-
fascismo e o comunismo, o conflito espanhol ganhou rapidamente proporções
internacionais. As forças do general Franco receberam ajuda maciça da
Alemanha e da Itália, em homens, armas e munições.
Os alemães chegaram a bombardear cidades espanholas, como o que
ocorreu na cidade de Guernica em 1937.
As forças republicanas em contrapartida, foram apoiadas pela URSS e
pelas Brigadas Internacionais, compostas de voluntários do mundo todo.
A Inglaterra, a França e os EUA, porém, preferiram declarar neutralidade
e não se envolveram no conflito.
Diante da passividade dos governos da Inglaterra, França e Estados
Unidos, os alemães interpretaram como uma espécie de sinal verde para
continuar seus avanços em outros países.
Foram vários os acordos entre os países durante esse período de
“preparação” para a guerra e como não podia ser diferente, teve início a Segunda
Guerra Mundial, que reunia grande parte das nações do mundo dividido em dois
blocos.
De um lado, os países do Eixo, liderados pela Alemanha, Itália e Japão, e
de outro lado, os Aliados, comandados principalmente pelos Estados Unidos,
pela União da República Socialista Soviética e pela Inglaterra.

Poxa! É, acho
Quando é melhor a
que vai gente ver o
acabar essa fim dessa
guerra!!! história...

E a guerra chega ao fim...


Em 1942, o avanço dos países do Eixo começou a ser detido pelo esforço
conjunto dos Aliados.
Em junho os japoneses foram derrotados pelos norte-americanos. No final
daquele ano, forças inglesas e norte-americanas expulsaram o exército alemão do
Norte da África. A essas derrotas acrescentaram-se o desastre alemão em
Stalingrado.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

O dia D
No famoso dia D, em junho de 1944, uma gigante operação dos exércitos
aliados (EUA,URSS, Inglaterra e França) avançavam com o objetivo de derrotar
os alemães, mas Hitler alimentou ilusões até o fim.
Mandou garotos de 13 anos de idade para a frente de batalha e não deixou
de dar as ordens mais criminosas: o grupo Werwolf (lobisomem), assassinava os
que não mostrassem fé em Hitler.
Finalmente o ditador reconheceu que
estava derrotado e suicidou-se, e a bandeira
vermelha com a foice e o martelo (URSS),
tremulou vitoriosa.
Logo depois da rendição Alemã
chegaria a vez do Japão, apesar do país já
estar totalmente derrotado pela poderosa
máquina de guerra norte-americana, os
Estados Unidos não hesitaram em lançar
suas bombas atômicas. Elas arrasaram as Explosão da bomba atômica
cidades de Hiroxima e Nagasáqui.

Os judeus
Os judeus são um povo
muito antigo do Oriente. Eles
adotaram uma religião especial, o
judaísmo. Também são chamados
de hebreus e de israelitas. Eles
viviam na Palestina, mas
começaram a migrar, e já na Idade
Média na Europa, foram
discriminados porque não eram
cristãos.
Portanto o anti-semitismo
(movimento contra os judeus) não
Prisioneiros do campo de
se desenvolveu só na Alemanha. Depois concentração de Auschwitz
que Hitler chegou ao poder, muitos judeus se
recusaram a deixar a Alemanha, porque não conseguiam viver longe de sua
pátria. Pagaram um preço alto por esse patriotismo.
No livro que Hitler escreveu Mein Kampf (Minha Luta), pregava a
eliminação física do povo judeu. O Estado nazista levou adiante o plano de
erradicar o povo judeu. Milhões de judeus foram enviados para campos de
concentração. Os trabalhadores qualificados faziam serviço escravo nas fábricas
alemãs. Os outros eram executados em câmaras de gás. Os nazistas lhes
arrancavam os dentes sem anestesia para aproveitar o ouro da obturação. Os
cabelos usavam para forrar colchões e a gordura humana fazia sabão.

27
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

O terrível Dr. Mengele


utilizava seres humanos como
cobaias, quebrava os bracinhos de
um bebê dezenas de vezes para
saber quantas ele resistiria,
arrancava o olho de uma pessoa e
tentava transplantar em outra... e
muitos outros horrores!
Cova coletiva de judeus.

O Brasil na Segunda Guerra Mundial


Até 1942, o Brasil manteve uma posição de neutralidade em relação à
guerra, que já envolvia a maior parte do mundo. Essa neutralidade tinha aspectos
contraditórios: enquanto torcia claramente a favor das forças aliadas, o governo
ditatorial de Getúlio Vargas – ESTADO NOVO, era simpatizante do
nazifascismo.
A situação começou a mudar quando os Estados Unidos entraram na
guerra. Os alemães passaram a atacar todos os navios NÃO comprometidos com
as potências do Eixo, poderiam ser alvos de ataques. Getúlio Vargas só tomou
uma decisão quando navios brasileiros foram atacados em nosso litoral. Nunca
ficou totalmente esclarecida a autoria desses ataques, mas considerou-se que a
culpa era dos alemães. Com isso, e mais a forte pressão da opinião pública,
expressa em manifestações realizadas nas principais cidades brasileiras, o
governo acabou declarando guerra ao Eixo, em agosto de 1942, colocando-se ao
lado dos Aliados.
Inicialmente, nossa participação limitou-se à cessão de espaço para os
americanos construírem bases navais, pois aviões daquela época não conseguiam
ir dos Estados Unidos até a África e voltar sem reabastecer;
saindo do Brasil, essa viagem de ida e volta ficaria mais fácil.
Em 1944, o Brasil enviou para a Europa a Força
Expedicionária Brasileira (ao lado distintivo da FEB), que
lutou junto com o 2º Exército dos Estados Unidos. Os
pracinhas da FEB participaram de muitas batalhas
importantes, como a de Monte Castelo, na Itália.

Como você já sabe, VARGAS era simpatizante do nazismo e fascismo.

Pois bem: ao declarar guerra à Alemanha e a Itália, Vargas criou para si um grave
problema. Afinal, havia uma incoerência! Como apoiar os Aliados em defesa da
democracia e manter um regime autoritário no Brasil?
Por toda parte começaram as manifestações pelo fim do regime do Estado Novo.
Olga Benario Prestes
28
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Olga Benario Prestes

Olga Benario e Luís Carlos


Prestes conheceram-se em Moscou,
União Soviética, em novembro de
1934: ela, exilada alemã; ele, exilado
brasileiro. Ambos caçados pela polícia
de seus países; ambos, a partir
daquele momento, unidos pelo
mesmo objetivo: lutar pela revolução
comunista no Brasil.

Quatro meses depois já


estavam no Rio de Janeiro, organizando
o movimento revolucionário. A
revolução fracassou em novembro
de 1935.

Olga e Prestes foram presos


em março do ano seguinte. Sendo
alemã, judia e comunista, Olga foi
expulsa pelo governo brasileiro (Getúlio
Vargas) e entregue ao governo nazista da Alemanha, que a procurava
desde 1928.
Com medo que fosse libertada pelos estivadores europeus, a
polícia brasileira embarcou Olga grávida de sete meses, num navio de
carga que fez a viagem à Alemanha sem escalas.

Foi na cela em que confinaram Olga em Berlim – um cubículo de


dois metros quadrados, com chão de cimento áspero, um colchão
colocado sobre o concreto – que nasceu sua filha Anita Leocádia: Anita,
em memória de Anita Garibaldi, heroína brasileira da Guerra dos Farrapos;
Leocádia em homenagem à sogra, que Olga nunca vira pessoalmente.
Foi no dia 27 de novembro de 1936, um ano após a revolta comunista no
Brasil.

Em vários países europeus, especialmente na França, fizeram


campanhas pela libertação de Olga e Prestes. Depois de muitas viagens e
tentativas, Dona Leocádia conseguiu libertar a neta, então com 14 meses,
da prisão de Berlim.

Depois de passar por vários campos de concentração, em fevereiro


de 1942 poucos dias antes de completar 34 anos, Olga foi executada na
câmara de gás. Prestes só saberia da morte da companheira mais de três
anos depois, quando saiu da prisão anistiado por Getúlio Vargas, no fim
do Estado Novo.
Só muitos anos mais tarde é que ele poderia ler a carta que Olga
escreveu para ele e Anita, momentos antes de morrer, e que termina com
essas palavras: “Até o último momento manter-me-ei firme e com vontade
de viver. Agora vou dormir para ser mais forte amanhã. Olga”.
29
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Bem, retomando o assunto sobre a Segunda Guerra...

Arrasados, os países europeus receberam ajuda dos capitais norte-


americanos por meio do Plano Marshall – plano de reconstrução da economia
capitalista européia mediante o envio de matérias-primas, produtos e capitais.
O plano, criado em 1947, foi elaborado pelo secretário do Estado George
C. Marshall e, por isso, era orientado diretamente pelos Estados Unidos.

Nos países socialistas, por meio do Comecon (Conselho de Ajuda


Econômica Mútua), criado em 1949, elaborou-se um programa de reconstrução.

Politicamente, a União Soviética tornou-se hegemônica na Europa


Oriental. Em 1955, os laços entre a URSS e os países integrados na órbita
socialista foram fortalecidos com a criação do Pacto de Varsóvia, que estabelecia
um sistema de alianças no plano militar. Esse poderio da potência socialista
perturbou o mundo capitalista.

A Segunda Guerra, foi um bom


negócio para os Estados Unidos. As
encomendas da indústria bélica (de armas), e o
esforço patriótico dos operários tinham
contribuído para superar a crise de 29
conforme você já estudou neste módulo.
O mundo foi praticamente dividido em
dois blocos: o capitalista, sob liderança dos
Estados Unidos e de potências menores como
Alemanha Ocidental, Grã-Bretanha, Canadá e
Japão; e do bloco socialista liderado pela
União Soviética.
Nas escolas, nos jornais, nas histórias
em quadrinhos e nos filmes, os Estados
Unidos apareciam como defensores do mundo livre contra o império do mal.

Os russos eram mostrados como sujeitos cruéis e sem escrúpulos,


dispostos a tudo para dominar o mundo.
Ficaram famosas as declarações e acusações do senador norte-amenricano
Joseph McCarthy (1946 a 1958), que criou campanhas de caça aos comunistas.
O macartismo (idéias de MacCarthy), desencadeou uma histeria coletiva
anticomunista com perseguições, interrogatórios, prisões.
30
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Exemplos de anticomunismo, foi o exílio do ator Charles Chaplin,
apontado como simpatizante do comunismo.
Em 1949, os Estados Unidos criaram a Organização do Tratado do
Atlântico Norte (OTAN), uma aliança militar entre os Estados Unidos, Canadá e
os países europeus ocidentais.
O auxílio mútuo entre esses países garantiu o apoio necessário aos norte-
americanos em sua política intervencionista.

A América Latina na Guerra Fria


A produção na América Latina foi bastante estimulada pela guerra de
1939 a 1945. A diminuição das importações e o aumento das exportações durante
o conflito mundial, explicam esse crescimento econômico.

Terminada a guerra, a Europa logo recuperou sua produção industrial e


agrícola e, portanto diminuiu sensivelmente suas compras de produtos latino-
americanos.
Paralelamente à queda das exportações, a América Latina viu aumentar
suas importações de bens de consumo norte-americanos e europeus. Assim, em
1950, as dívidas externas voltaram a crescer.

Da guerra, porém, restou seu efeito mais importante: a industrialização


dos países latino-americanos. Porém, todo esse processo de industrialização
estava comprometido por uma infra-estrutura inadequada.

Não foi prevista a ampliação da rede de comunicação (ferrovias e


rodovias) nem a das redes de esgotos, água e energia para suprir as necessidades
das cidades em crescimento.

Nas cidades, os cortiços e as favelas proliferaram rapidamente. Como as


áreas agrícolas não foram
modernizadas, surgiram
profundas diferenças e
desequilíbrios regionais e
sociais.
Cidades como Rio de
Janeiro, México, Santiago,
Caracas, Lima e Buenos Aires
apresentavam sinais de
progresso e modernidade que
contrastavam com a miséria e
a marginalidade.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Politicamente, entre os anos de 1945 e 1960, também se registraram
mudanças na vida latino-americana. Cresceu a influência das camadas médias
urbanas nas decisões do poder.
Nesse período, as ditaduras – muitas nascidas ainda na década de 30 –
assumiram uma dimensão mais ampla e se caracterizaram por reformas sociais
profundas. Mas estas reformas não podiam ferir os interesses do capitalismo
monopolista norte-americano.

Os chefes políticos latino-americanos que não aceitaram as regras do jogo


da Guerra Fria, ou ousaram lutar contra o imperialismo ianque, foram derrubados
do poder.

A política norte-americana na América Latina, nos anos 40 e 50, consistiu


em desestabilizar e derrubar os governos nacionalistas, muitas vezes sob
acusação de serem comunistas.

Por outro lado, os Estados Unidos apoiaram e mantiveram no poder


governos fiéis que aceitavam e garantiam a infiltração do capital internacional e
sua efetiva ampliação na economia latino-americana.

O Capitalismo Monopolista

A união entre os grandes banqueiros e industriais, com o objetivo de


monopolizar os mercados, caracterizou uma nova fase do capitalismo
monopolista.

Após a Segunda Guerra Mundial, o capitalismo monopolista expandiu-se


pelos países do Terceiro Mundo.

Grandes empresas fundaram filiais nos países subdesenvolvidos, com o


objetivo de desenvolver o mercado consumidor e dominá-lo.

A Nestlé, por exemplo, ao se instalar em qualquer país do Terceiro


Mundo, repetia invariavelmente a mesma técnica: adquiria todo leite disponível
da região transformava-o em diversos produtos e vendia-os às classes de maior
poder aquisitivo do país.

Assim, após 1945, as grandes empresas passam a controlar os cinco


setores básicos da vida de um país: finanças, energia, tecnologia, alimentos e
comunicações.

Grandes empresas norte-americanas como a General Motors, Ford , Du


Pont, etc. vem dando “as cartas” em quase todos os países subdesenvolvidos.
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Cansei dessa história de


Pare aí !
exploração, “tô”
Onde você
voltando para o Brasil!!!
vai?

Bem, agora você voltará ao Brasil na ERA VARGAS...

Eleito presidente em 1934, para um mandato de quatro anos, Getúlio


Vargas foi criando condições para dar um golpe e permanecer no poder.

A oportunidade para o golpe surgiu durante a campanha eleitoral para


presidente, em 1937, quando alguns jornais publicaram o Plano Cohen. De
acordo com o governo e seus aliados, esse era um plano comunista para
assassinar centenas de políticos brasileiros e derrubar o governo.

Plano Cohen
De acordo com a polícia, era um plano de tomada do poder pelos
comunistas, incluindo o assassinato de autoridades, invasão de residências e
outras barbaridades.

É óbvio que o plano era falso. Por dois motivos bastante simples: os
comunistas condenavam o terrorismo e o segundo motivo é que quase todos os
dirigentes comunistas estavam na cadeia é bom lembrar ,que naquela época não
havia celulares para dar o “comando” de dentro da prisão!

Na verdade, o plano tinha sido forjado por um capitão do exército Olímpio


Mourão Filho.
Getúlio sabia de tudo, mas aproveitou o episódio para anunciar nas rádios o
“complô vermelho”, usando assim esse pretexto, e ordenou que a polícia militar
fechasse o Congresso e através desse golpe, implantou a Ditadura do Estado Novo.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Bem, como
você pode ver na
caixa de texto
acima, Getúlio deu
um golpe, para
continuar no poder e
implantar uma
ditadura (regime
autoritário) no país,
que ficou conhecido
como Estado Novo.

No dia 10 de novembro de 1937, foi dado o golpe: Getúlio ordenou o


fechamento do Congresso Nacional, e no mesmo dia anunciou uma nova
Constituição.
Essa nova Constituição outorgada em 10 de novembro de 1937, trazia em
seu conteúdo, várias características fascistas. Tirava a autonomia dos estados e
dava a Getúlio o poder de dissolver o Congresso Nacional, de nomear
interventores para governar os estados e concentrar em suas mãos os três
poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário.

Você sabe qual é a diferença entre uma Constituição outorgada e uma


Constituição Promulgada? É que a primeira é imposta sem discussão pelo
governante do país e a segunda é feita e aprovada pelo Congresso Nacional.

Já deu para perceber que as “coisas” seriam bem diferentes no Estado


Novo, as liberdades individuais e as garantias constitucionais, desapareceram.
Muitos intelectuais, artistas, estudantes, políticos de oposição e
sindicalistas viviam sufocados e aterrorizados com as perseguições e as agressões
aplicadas pela polícia política de Vargas, chefiadas por Filinto Muller,
responsável pelas centenas de prisões arbitrárias, torturas e mortes.
3

Implantando a ditadura, Getúlio extinguiu as organizações operárias,


proibiu as greves, acabou com a liberdade de reivindicações dos trabalhadores e
transformou os sindicatos em instrumentos do Estado para controlar e “amaciar”
a classe operária.
Com a transformação dos sindicatos em instrumentos do Estado surge o
peleguismo no Brasil, pois pessoas ligadas aos empresários e ao governo, eram,
infiltradas nos sindicatos a fim de deixa-los informados das decisões tomadas
pela classe trabalhadora.
Apesar disso, muitos trabalhadores estavam convencidos de que a classe
operária tinha lugar de destaque no Estado Novo.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
A violência da ditadura tornou-se insuportável. Vários setores das
camadas sociais brasileiras desde o operariado até a burguesia, estudantes,
militares, fazendeiros, começaram a reagir contra o extremismo do governo.
Era fundamental que o Brasil se tornasse uma democracia. Que a
sociedade passasse a ter o direito de escolher seus governantes através de
eleições e que houvesse liberdade política, econômica e social no país.
Realmente, não fazia mais sentindo a existência de uma ditadura fascista
no Brasil, quando lá fora as tropas brasileiras lutavam exatamente contra as
ditaduras fascistas.
Em janeiro de 1945, pressionado pela sociedade, Getúlio Vargas decretou
o Ato Adicional que marcava eleições diretas e livres em todo o país. Pouco
depois, concedeu anistia (permitia a volta dos exilados) e libertou centenas de
presos políticos, entre eles Luís Carlos Prestes, e foi permitido a organização
de novos partidos.
Foi legalizado o Partido Comunista do Brasil (PCB), que havia sido
criado em 1922 e que durante muitos anos ficara na clandestinidade.

Os novos principais partidos eram:

 UDN ( União Democrática Nacional), formado por pessoas que eram contra o
governo de Getúlio;
 PSD (Partido Social Democrático), partido de natureza conservadora, criado
por Getúlio Vargas;
 PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), também criado por Getúlio Vargas.

Sobre esses partidos você verá mais adiante...

Bom, para encurtar a história, em meio a agitada campanha eleitoral


surgiu um movimento popular favorável à continuação de Getúlio Vargas no
poder, e que foi estimulada por ele.
Esse movimento foi chamado queremismo porque populares, com apoio
dos comunistas (“ruim com ele, pior sem
ele”), percorriam as ruas gritando:
“Queremos Getúlio, queremos Getúlio”.
A aproximação de Vargas com os
comunistas levou muitos políticos e
militares a acreditarem que ele pretendia dar
um novo golpe e permanecer no poder,
como fizera em 1937.
Se essa era a sua intenção, Getúlio
não conseguiu concretizá-la, pois foi
deposto em outubro de 1945.

Era o fim do Estado Novo.


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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Em outubro de 1945, um golpe de


Estado afastou Getúlio Vargas da
Presidência. Era o fim do Estado Novo e
o início de um período democrático na
história brasileira, que duraria quase
vinte anos. Ao longo dessas duas
décadas, os brasileiros elegeram quatro
presidentes: dois concluíram seus
mandatos, um se matou e o outro
renunciou logo após a posse. O período
encerrou em 1964, com um golpe militar
que trouxe de volta ao país as
arbitrariedades de uma ditadura.
A democracia fez bem. Nesse
meio tempo, o Brasil passou por
profundas transformações. Consolidou,
por exemplo, seu processo industrial e
tornou-se, definitivamente, um país com
fortes características urbanas.

A TRANSIÇÃO...
TRANSIÇÃO...
Como vimos, no Brasil, o ano de 1945 foi marcado por grandes
manifestações pelo retorno da democracia. Cedendo às pressões, Getúlio Vargas
convocou eleições presidenciais e uma Assembléia Constituinte.
No entanto, em outubro, antes da data marcada para o pleito, Getúlio teve
de abandonar o poder. Um golpe de Estado liderado por militares o destituiu da
presidência. Os golpistas temiam que o ditador articulasse alguma artimanha para
permanecer no cargo. Mas isso não aconteceu.
O governo passou a ser exercido pelo presidente do Supremo Tribunal
Federal, José Linhares, que promoveu as eleições previstas para dezembro de
1945. Eurico Gaspar Dutra, o novo presidente, obteve uma vitória esmagadora
nas urnas: 55,39% dos votos. Dois partidos saíram fortalecidos da votação ao
eleger maior número de parlamentares para Congresso Nacional, que elaboraria
a nova Constituição: o Partido Social Democrático (PSD), com 177 eleitos, e a
União Democrática Nacional (UDN), com 87. O Partido Trabalhista Brasileiro
(PTB) conseguiu eleger somente 24 representantes e o Partido Comunista
Brasileiro (PCB), quinze. Os resultados evidenciaram a indiscutível vitória das
forças conservadoras do país.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Partido Social Democrático


Seu controle estava nas mãos de industriais,
banqueiros e latifundiários que tinham enriquecido com os
favores de Getúlio no Estado Novo. Muitos políticos do
PSD tinham ocupado cargos de destaque no governo
durante o Estado Novo: interventores estaduais,
ministros, assessores diretos. Agora, com eleições
periódicas, usavam esses cargos como máquinas de conquistar votos. Tratava-se
do famoso clientelismo eleitoral. Por exemplo, Fulano do PSD, secretário do
governo, é o responsável por obras de instalação de água encanada no estado.
Quando chegam as eleições, ele propõe para os moradores: "Se votarem em mim
para deputado, terão a água. Caso contrário, fica difícil." Em troca do voto, ele
até podia fazer uma obrazinha. Assim, a máquina administrativa do governo era
também uma máquina eleitoral. Se juntarmos isso com o fato de que muitos
latifundiários também apoiavam o PSD, e de que eles influenciavam milhares de
eleitores do interior dos seus "currais eleitorais", entenderemos o porquê de o
PSD ter sido o maior partido do Brasil.

União Democrática Nacional

Era a inimiga dos getulistas. Mas, atenção, uma adversária politicamente à


direita. Quando foi fundada, até que incluía alguns socialistas
democráticos. Pouco depois, esse grupo sairia para fundar o PSB
(Partido Socialista Brasileiro).
Em princípio, a UDN adotava o liberalismo, ou seja, direitos
individuais e vale tudo capitalista. Era contra o trabalhismo porque
não aceitava o nacionalismo, a intervenção do Estado na economia,
nem as leis trabalhistas, consideradas "exageradas".
Para a UDN, quanto mais os Estados Unidos deitassem e
rolassem por aqui, mais livres nós seríamos. Por isso
mesmo, com motivos diferentes, ela era odiada pelos
getulistas e pelos comunistas.
A UDN tinha políticos com idéias bem autoritárias por trás da fantasia de
liberal. Era a favor do liberalismo, mas não era contra a ditadura.
Viam comunistas por todos os lados e detestavam as greves e
mobilizações sindicais, que acusavam ser subversivas e antipatrióticas.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Para eles, o grande problema do país era basicamente a corrupção e não a
falta de reformas sociais profundas. Isso fascinava a classe média, que adorava os
políticos bem vestidos da UDN, fazendo discursos repletos de idéias anti-
comunistas e que não se misturavam ao povão. Por causa desse elitismo, a UDN
jamais conseguiria chegar à presidência. No fundo, o povão rejeitava o ar
burguês dela. Decepcionada com "as massas manipuladas pelos demagogos", a
UDN apoiaria o golpe militar de 1964.
A figura mais destacada da UDN era o empresário e jornalista Carlos
Lacerda. Através de seu jornal Tribuna da Imprensa, atacava todo mundo, fazia
denúncias sem mostrar as provas, insuflava a classe média contra os trabalhistas
e os comunistas. Outras figuras importantes da UDN eram os banqueiros,
políticos e magnatas da grande imprensa como Assis Chateaubriand, dono dos
Diários Associados, Júlio de Mesquita (O Estado de São Paulo) e a família
Marinho (O Globo).
O maranhense José Sarney e o baiano Antonio Carlos Magalhães
começaram suas carreiras políticas na velha UDN. E para que você não tenha
dúvidas: quem pediu e apoiou o golpe militar de 1964 foi a UDN.

Partido Trabalhista Brasileiro

Para começar, o PTB de hoje nada tem a ver com


o PTB do período de 45 a 65. O antigo PTB, foi criado
pelo próprio Vargas. O primeiro objetivo era bem
simples: ganhar o voto dos operários e da classe média
baixa, de todos que acreditavam no mito do "Pai dos
Pobres". Voto urbano, porque no campo os votos eram
dados para o PSD, tradicional aliado dos getulistas. O
PTB fincava suas bases de apoio nos sindicatos pelegos
ligados ao Ministério do Trabalho.
Votando no PTB, as massas urbanas deixavam de votar nos comunistas.
Em número de deputados e senadores, era o terceiro maior partido, atrás do PSD
e da UDN.
O PTB tinha fortes relações com o governo. Os funcionários que
ocupavam o Ministério do Trabalho e controlavam a Previdência Social eram, em
geral, ligados ao PTB. Nesse esquema estavam os sindicatos pelegos, que
trocavam pequenos favores do governo em troca de apoio político. A UDN não
deixava de ter uma certa dose de razão quando acusava os políticos petebistas
(especialmente os presidentes Vargas e João Goulart) de usarem a máquina
sindical para apoiar seus propósitos políticos.
Depois da morte de Vargas (1954), uma parte do PTB deu uma guinada à
esquerda. Cada vez mais defendia o nacionalismo e as leis trabalhistas. No
começo dos anos 60, essa ala esquerdista passou a defender uma coisa
considerada ultra-radical para a época: a reforma agrária. Dessa ala reformista do
PTB faziam parte figuras importantes como João Goulart e Leonel Brizola.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Partido Comunista Brasileiro

Não é possível entender o período de 45 a 64 sem estudarmos a atuação do


PCB. Em 1945, seus membros tinham saído da cadeia e a lei autorizava a
existência do partido.
Depois da Revolução Russa, com a vitória da União Soviética contra os
invasores nazistas, os partidos comunistas do mundo inteiro receberam adesões
de intelectuais brilhantes da época. No Brasil também. Graciliano Ramos, Jorge
Amado, Candido Portinari se filiaram ao partido.
Ser comunistas era sinal de sofisticação intelectual, sentimentos
humanistas, revolta contra tudo de errado no país.
Depois da Segunda Guerra, em poucos meses o PCB conseguiu dezenas
de milhares de adeptos entusiasmados. Muita gente bem jovem, estudantes
entusiasmados e cheios de idealismo querendo mudar o país
e o planeta.
Para o PCB, o Brasil não tinha condições de realizar
uma revolução socialista. Primeiro era preciso apoiar um
vigoroso desenvolvimento do capitalismo nacional, com
empresas estatais, leis trabalhistas e a reforma agrária.

Com a deposição de Getúlio Vargas, em outubro de 1945, não havia


legalmente quem assumisse o poder: quando criou o Estado Novo, o ditador
fechou o Congresso. Assim, o presidente do Supremo Tribunal Federal assumiu a
presidência da República para governar o Brasil entre Outubro de 1945 e 31 de
Janeiro de 1946, data marcada para a posse do presidente a ser eleito.

Houve três candidatos à presidência: o brigadeiro Eduardo Gomes, da


UDN, o general Dutra, apoiado pelo PTB, PSD e por Vargas, e Yedo Fiúza,
candidato pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB). Fundando em 1922, o PCB
existiu clandestinamente durante todo o Estado Novo; com a anistia e liberdade
partidária, voltou a ter existência legal.

Em 2 de dezembro de 1945, os brasileiros elegeram os deputados para a


Assembléia Constituinte e escolheram o general Dutra para presidente. Teve
início no Brasil a República Democrática, que durou de 1946 a 1964. Faz parte
deste período o populismo, política de controle das camadas populares em que o
governo adota medidas para agradá-las em troca de seu apoio. Por meio dessas
medidas, o governo concede benefícios a essas camadas populares, sem
prejudicar os setores privilegiados da sociedade e da economia; algumas vezes,
ao contrário do que deixa transparecer, os beneficia.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

O general Eurico
Gaspar Dutra governo
de janeiro de 1946 a
janeiro de 1951. Em
18 de setembro de 1946,
a Assembléia
Constituinte promulgou
a nova Constituição,
garantindo o direito de
voto a homens e
mulheres brasileiros
natos ou naturalizados,
maiores de 18 anos e
alfabetizados.

A nova Constituição estabeleceu a separação dos três poderes e os estados


e municípios ganharam certa autonomia em relação ao poder central.

O governo ficou obrigado a reservar 7% de seus gastos anuais com obras


para desenvolver a Amazônia e o Nordeste. Idéia legal, que fazia os estados do
Sul ajudarem seus irmãos nortistas. Na prática, deu errado: as oligarquias usavam
a grana para si mesmas. Por exemplo, quase todos os açudes (reservatórios de
água) que o governo construiu alimentavam os latifúndios, enquanto que os
pequenos proprietários e colonos ficavam abandonados na seca.

As leis trabalhistas, que estavam previstas na Constituição de 34, foram


mantidas.

As coisas iam mais ou menos até que se tocasse na questão trabalhista. Por
exemplo, os sindicatos continuavam subordinados ao Ministério do Trabalho. A
qualquer momento podiam ser invadidos pela polícia. As greves eram permitidas,
mas a Constituição indicava a criação de leis que as limitassem.

Os comunistas tiveram uma participação importante na Assembléia


Constituinte, liderados pelo senador Luís Carlos Prestes. Seus deputados não
faltavam às sessões, participavam ativamente dos debates e defendiam pontos de
vista que consideravam a favor da população. Quando tentaram incluir a reforma
agrária na Constituição, foram impedidos por políticos do PSD, da UDN e de
outros partidos.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

"Reforma Agrária? Será que não


percebem que aqui no Congresso
quase todo mundo é grande
proprietário de terras ou foi eleito
com o dinheiro deles?"

Pois a reforma agrária não passou. E nos anos que se seguiram a questão
da terra quase incendiaria o país.

Do ponto de vista econômico, o governo Dutra foi marcado por um


enfraquecimento da indústria nacional: o presidente aceitou receber em
mercadorias supérfluas o pagamento de dívidas que os americanos e europeus
tinham para com nosso país em função da guerra. A industrialização brasileira,
que nesse momento poderia ter sido beneficiada por pagamentos em forma de
equipamentos, acabou sendo prejudicada. Dutra também estimulou a vinda de
empresas americanas, que se instalaram aqui para produzir mercadorias antes
importadas.

Era a época da Guerra Fria, que


você já estudou. No governo do
presidente Dutra, o Brasil ficou no bloco liderado pelos Estados
Unidos, contra o bloco da União Soviética.
Assim, mesmo com o país vivendo sob um regime aparentemente
democrático, o governo passou a perseguir as forças de esquerda (comunistas,
socialistas e seus simpatizantes). Em 1948, o general Dutra colocou o Partido
Comunista na ilegalidade, anulando os direitos políticos de todos os seus
parlamentares. Pelo mesmo motivo, fechou alguns sindicatos de trabalhadores.
Como nos posicionamos ao lado dos Estados Unidos, sua influência se fez
sentir na ajuda para a criação de ESG (Escola Superior de Guerra), que difundia
os ideais norte-americanos se posicionando contra os comunistas.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Dentro da linha de fazer o Brasil capacho dos Estados Unidos, Dutra


proibiu o PCB (Partido Comunista Brasileiro) de funcionar, em 1947. Seus
deputados foram cassados, vários dirigentes presos. Os comunistas só tiveram o
remédio de cair de novo na clandestinidade. Além disso, o Brasil rompeu
relações diplomáticas com a URSS.
No final de seu governo, houve uma forte disputa para eleger o sucessor.
O vitorioso foi o PTB, cujo candidato era o ex-ditador Getúlio Vargas.

A GUERRA FRIA

Mal terminou a Segunda Guerra Mundial (em 1945), e o mundo


já se via ameaçado por uma terceira. De um lado, os Estados
Unidos, chefe do bloco capitalista, do outro a União Soviética, líder
do bloco socialista.
Nunca chegou a acontecer uma guerra entre as superpotências.
Mas essa disputa neurótica entre os dois gigantes inimigos deixava
todo o planeta em frangalhos. Na rivalidade, valia tudo para mostrar
qual era o melhor sistema: desde o desenvolvimento econômico aos
resultados esportivos, da conquista do espaço aos conflitos
envolvendo países menores, da guerra de palavras à corrida
armamentista. As armas nucleares ameaçavam a espécie humana de
extinção. Pois essa disputa louca e o clima paranóico de que a
qualquer momento estouraria a Terceira Guerra duraram de 1945
até 1991, quando acabou a União Soviética. Foi o período da Guerra
Fria.

Havia prometido voltar ao Palácio do Catete nos braços do povo. E lá


estava ele.
Vargas tomou posse em 31 de janeiro de 1951. Era seu segundo mandato
como presidente eleito, mas o primeiro obtido com o voto popular direto. Getúlio
foi eleito principalmente graças à sua defesa da indústria nacional e à propaganda
que fez de sua responsabilidade na criação de leis trabalhistas.
Seu governo foi marcado por grande agitação política. Apoiado por forças
populares e por alguns políticos tradicionais, Vargas sofreu forte oposição de
alguns militares e da UDN, que tinha muitos dos seus membros ligados ao
comércio importador e aos capitais estrangeiros. Bem, Getúlio talvez ainda fosse
o mesmo, mas os tempos certamente eram outros. Talvez não soubesse governar
numa democracia. Gostava mesmo é de decretar e de ser obedecido.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
A economia já se enrolava com um problema que ainda iria nos atazanar
por muito tempo: a Inflação. De um lado ela se ligava às boas exportações de
café, que tinham trazido dinheiro para o Brasil. Mais dinheiro circulando, preços
maiores. Inflação. Lógica malvada do dinheiro.
Para controlar a inflação, Getúlio ficava entre dois fogos: o arrocho
salarial e o fim dos créditos empresariais iriam irritar ricos e pobres. Como fazer?
Enquanto Getúlio não sabia direito o que fazer com a inflação, os
trabalhadores sabiam. O movimento operário, aos poucos, ia conquistando
autonomia. Em 1953, houve a famosa greve dos 300 mil, em São Paulo, vitoriosa
apesar da repressão policial. A burguesia, irritada, cobrava:

"Como é, seu Getúlio, não vai


parar essa onda de greves?"

Vargas bem que tentou! Para obter o


apoio da massa trabalhadora, Getúlio anunciou
o aumento de 100% do salário
mínimo.
Não era um grande aumento, porque
desde 1940, quando começou a ser pago, que o
salário mínimo ainda era o mesmo.
Os empresários não aceitavam. Mesmo
assim, Vargas achou sensato ser fiel a seu
trabalhismo. Concedeu o aumento do salário
mínimo. Imagine as nuvens negras que
pousaram sobre o Palácio do Catete.
Outra questão que dividiu o Brasil
daquela época foi a respeito do papel que o
capital estrangeiro poderia exercer na nossa
economia. Ficavam as perguntas para respondermos:
O capital estrangeiro ajuda ou prejudica nossa economia? Será que elas
não estariam tomando o lugar de empresas nacionais que poderiam muito bem
estar cumprindo essas tarefas? E será que o Brasil seria capaz de se
desenvolver sem contar com a tecnologia e os investimentos estrangeiros?
Será mesmo que o capital tem pátria?
Perguntas muito difíceis de serem respondidas naquela época. (E hoje,
será que são fáceis de responder?)
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
As posições estavam divididas. A UDN, que defendia o liberalismo
econômico, naturalmente era favorável ao capital estrangeiro. Quanto mais
facilidades, melhor.
Os comunistas eram absolutamente contra a presença do capital
estrangeiro. Partiram para o ataque e xingaram os udenistas de entreguismo:
"A UDN quer entregar o Brasil ao imperialismo ianque!"
Havia muitos nacionalistas também no PTB e, alguns, no PSD. A maioria
até aceitava empresas estrangeiras, mas sob forte controle do Estado.
Getúlio Vargas não era tão nacionalista assim como dizem os
historiadores tradicionais. Mas percebeu que ganharia apoio popular se
levantasse bandeiras nacionalistas.
Seria fácil se tudo isso ficasse só nos debates de idéias. Mas havia
interesses poderosíssimos em jogo. Se a empresa
nacional era boa ou não para o Brasil era uma
discussão. Agora, o fato de que poderia dar muito
lucro para os seus donos era uma unanimidade.
Essas empresas eram gigantescas. Por exemplo,
na época, a General Motors tinha um patrimônio
mais valioso do que todo o Produto Nacional
Brasileiro!

Ora, elas certamente não queriam ser atrapalhadas por nenhum político
nacionalista de Terceiro Mundo. Dólares para subornar autoridades, para apoiar
candidatos favoráveis e, claro, a velha pressão sobre o governo brasileiro e sobre
os generais. Nessa aí é que Getúlio dançou. Foi quando explodiu a questão do
petróleo.

Militares nacionalistas apoiaram Vargas em sua luta pela criação de uma


empresa estatal para extrair e refinar petróleo em nosso país. O lema dessa
campanha era "O petróleo é nosso" e assumiu grandes proporções, mobilizando
vários setores da sociedade brasileira.
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Essa campanha teve o apoio de trabalhadores, estudantes e intelectuais,
além de muitos políticos, mas foi duramente combatida pelos setores ligados à
importação de petróleo. Em 1953, Vargas conseguiu a aprovação da lei que
criava a Petrobrás. A política nacionalista de Getúlio Vargas desagradou o capital
estrangeiro, que, aliado a empresários e políticos brasileiros, aumentou as
pressões contra o governo.
Em 1954, o Manifesto dos Coronéis, redigido por Golbery do Couto e
Silva (mais tarde um dos idealizadores do golpe de 64), advertia seriamente o
presidente da República. Temiam a "infiltração comunista na sociedade e nas
Forças Armadas" e repudiavam o fato de os aumentos salariais botarem um
operário especializado ganhando quase como um tenente.
Vargas cada vez mais perdia o comando do país: não controlava as greves
operárias nem a corrupção (precisando do apoio do PSD, Getúlio foi obrigado a
engolir alguns sapos bem ladrõezinhos).

"O Sr. Getúlio Vargas não deve ser candidato


à presidência. Candidato não deve ser eleito.
Eleito, não deve tomar posse. Empossado,
devemos recorrer à revolução para impedi-lo
de governar."

A oposição aproveitou-se de denúncias de corrupção envolvendo


familiares e pessoas ligadas a Vargas para atingi-lo. Nessa época, o pior inimigo
de Vargas era o jornalista Carlos Lacerda. Em agosto de 1954, houve um
atentado contra o jornalista, mas quem morreu foi um militar da Aeronáutica.
Desconfiados de que as investigações sobre o crime sofreriam a interferência do
chefe de polícia, que era irmão do presidente, os militares da Aeronáutica fizeram
uma investigação por conta própria.
Descobriram o envolvimento do chefe da guarda pessoal do presidente e
passaram a afirmar que Getúlio era o mandante do crime. A campanha contra o
presidente se intensificou e, em 24 de agosto, Getúlio Vargas suicidou-se no
Palácio do Catete, sede do governo. Atualmente esse palácio é o Museu da
República, na cidade do Rio de Janeiro, capital do Brasil na época do suicídio de
Getúlio.

O enterro de Getúlio foi uma verdadeira loucura. Muita gente, choro e


histeria. As ruas e avenidas foram tomadas por uma multidão inumerável, um
oceano de carne humana. Sentimental, o povo brasileiro se identificava com
Vargas: ele era a vítima dos poderosos, tal como o povo. Lacerda, alvo da fúria
do povo, teve que deixar o país.
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
A sede de seu jornal, Tribuna da Imprensa, fortemente protegida pela
polícia, foi atacada e ocorreu uma verdadeira batalha na rua, todos os meios de
comunicação que fizeram a campanha antigetulista tiveram suas instalações
apedrejadas e até incendiadas.

Agora responda em seu caderno:

5- Identifique um fator responsável pela oposição a Vargas.

Na verdade, Getúlio foi uma figura muito contraditória. De um lado, o simpatizante do


nazismo, o carrasco da classe operária, o ditador, o manipulador, a raposa política; do
outro, o autor de leis trabalhistas, o nacionalista, o sujeito que enfrentou os interesses
norte-americanos.

É engano pensar que ele era um grande personagem a fazer sozinho a História. Seu
talento fez com que ele e não outro, fosse capaz de atender aos interesses da classe
dominante em determinado momento. Mas a gente não entende a história do Brasil se
acreditarmos que as coisas se explicam por suas idéias e vontades pessoais.

Claro que ele e seu grupo político tinham convicções e ambições pessoais. Queriam
se manter no poder. Para isso não hesitaram em buscar apoio nos setores populares e
progressistas. Aí é que moravam as contradições, por que não se pode acender uma
vela para Deus e outra para o diabo.

Em outras palavras, não era mais possível governar para a burguesia e ao mesmo
tempo fazer concessões para as camadas populares. Isso deu certo durante um
tempo. Agora não dava mais. Seu nacionalismo também estava ultrapassado. Já fora
o tempo em que tinha protegido a burguesia nacional. Agora, os empresários queriam
mesmo é fazer negócios, se associar diretamente aos investidores estrangeiros. Afinal,
o capital é internacional.

No jornal getulista Última Hora foi publicada a célebre Carta-Testamento de


Getúlio Vargas.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se


novamente e se desencadeiam sobre mim. Precisam sufocar a minha voz e
impedir a minha ação, para que eu não continue a defender como sempre
defendi, o povo e principalmente os humildes. (...) Depois de decênios de
domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me
chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho social. Tive de renunciar.
Voltei ao governo nos braços do povo. (...) Assumi o governo dentro da espiral
inflacionária que destruía os valores do trabalho (...) Veio a crise do café (...)
tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a
nossa economia(...) Tenho lutado mês a mês, dia-a-dia, hora a hora, resistindo a
uma pressão constante, (...) renunciando a mim mesmo, para defender o povo
que agora se queda desamparado. Nada mais posso oferecer a não ser o meu
sangue. (...) Lutei contra a espoliação do povo (...). Nada receio. Serenamente
dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na
história.

O período seguinte foi cheio de dificuldades. Observe a seqüência dos


acontecimentos em 1955:
 25 de agosto: tomou posse o vice-presidente eleito, Café Filho;
 3 de outubro: realizadas eleições para presidente, em que foi eleito o médico
mineiro Juscelino Kubitschek de Oliveira, do PSD, com o apoio de forças
liberais, inclusive comunistas (ele tomaria posse em janeiro de 1956);
 9 de novembro: Café Filho, doente, foi substituído pelo presidente da Câmara
dos Deputados, Carlos Luz;
 11 de novembro: o Congresso depôs Carlos Luz, após comprovar sua
participação no planejamento de um golpe de estado para impedir a posse do
presidente eleito, Juscelino Kubitschek, do PSD, e do vice, João Goulart, do
PTB. Esse golpe foi tramado por militares conservadores e políticos da UDN,
ligados ao capital estrangeiro, que afirmavam que os eleitos eram ligados às
forças de esquerda; o senador Nereu Ramos tornou-se o presidente provisório
do Brasil, com o apoio do ministro da Guerra, general Teixeira Lott, cuja
atuação foi decisiva para manter a lei e a ordem até 31 de janeiro de 1956,
quando JK (como era conhecido Juscelino Kubitschek) assumiu a presidência.
Assim, apesar de todas essas dificuldades, a posse de JK e de seu vice
aconteceu de acordo com a lei e as tentativas de golpe fracassaram.

47
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

O governo de Juscelino Kubitschek foi marcado por grande e rápido


desenvolvimento econômico, principalmente no setor industrial, para substituir
importações. Para promover
esse desenvolvimento, JK
criou o Plano de Metas, cujo
lema era "Cinqüenta anos em
cinco". Entre outras medidas, o
plano dava facilidades para as
multinacionais montadoras de
automóveis se estabelecerem
no Brasil. Essas multinacionais
montavam os carros usando autopeças, inicialmente importadas, que passaram
aos poucos a ser fornecidas pela indústria nacional, que foi se desenvolvendo.
A indústria automobilística concentrou-se no ABC paulista, formado pelas
cidades de Santo André, São Bernardo e São Caetano, próximo à cidade de São
Paulo. Investiu-se capital estrangeiro também em outros setores da indústria,
graças à política econômica de JK, que facilitava a importação de equipamento e
a remessa de lucros para o exterior. Dessa forma, a indústria no Brasil cresceu
80% no período.
As fábricas precisavam de energia, que foi garantida pelo Estado: o
governo conseguiu dinheiro emprestado no exterior e com ele construiu muitas
hidrelétricas, fornecendo energia farta e barata para as indústrias que aqui se
instalaram. Essas indústrias geraram empregos. Muitos trabalhadores do campo
foram para as cidades, que cresceram muito sem que houvesse estrutura para
isso. Assim, problemas como falta de moradia se agravaram, o que provocou, por
exemplo, o aumento do número de favelas.

48
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Até essa época, a parte desenvolvida do Brasil era apenas a região
próxima do litoral. JK propôs a interiorização do desenvolvimento, isto é, a
participação do interior do país no progresso. Assim, criou um programa de
construção de rodovias, que além de interligar diferentes regiões do país serviram
para o uso da crescente frota de automóveis e caminhões. Também iniciou a
construção de uma nova capital, Brasília. A cidade foi planejada por Lúcio Costa,
e muitos de seus edifícios foram projetados por Oscar Niemeyer, dois grandes
nomes da arquitetura brasileira. Operários de diferentes partes do país
construíram a nova capital, que foi inaugurada em 21 de abril de 1960.

A Teoria Econômica Desenvolvimentista de J.K. dizia que existem dois


tipos de países no mundo: os desenvolvidos e os subdesenvolvidos. O
desenvolvimento seria uma espécie de corrida econômica: os países
desenvolvidos estão adiantados, enquanto os subdesenvolvidos estão
atrasados. Os "atrasados", subdesenvolvidos, seriam aqueles cuja economia é
baseada na agroexportação. Os desenvolvidos são os países de economia
industrializada. Como desenvolver? Industrializando o Brasil a qualquer
custo. Hoje sabemos que ser industrializado não é o mesmo que ser
desenvolvido. O Brasil hoje tem um parque industrial, em termos absolutos,
maior do que muito país desenvolvido. Atualmente somos mais industriais e
urbanos do que rurais e agroexportadores. Mas continuamos pertencendo ao
Terceiro Mundo. Qual o motivo? Naquela época quem comprava estes
novos artigos era somente os ricos e a classe média. A situação dos pobres
piorou. Além disso, ficávamos cada vez mais dependentes do capital
estrangeiro.

49
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

O governo JK ficou gravado na memória dos brasileiros como um período


bom. Foi um tempo de liberdade e grande atividade cultural. O salário mínimo
atingiu seu maior valor e havia pouco desemprego, devido ao surto
desenvolvimentista. A inflação nesta época tornou-se um problema: de cerca de
20% ao ano, aumentou o custo de vida e levou os trabalhadores a organizarem
greves exigindo aumento de salário. Aliás, JK a criou propositadamente. Por isso
mesmo, rompeu com o FMI.
O FMI queria que o governo cortasse os gastos públicos. Se fizesse isso,
haveria muito menos incentivo para a industrialização. Pois é, e onde arrumaria
dinheiro para sustentar o desenvolvimentismo? Parte veio de bancos
internacionais, a juros altíssimos. A dívida externa brasileira simplesmente
dobrou de tamanho. Outro recurso foi a emissão de papel moeda, ou seja fabricou
mais notas de cruzeiros. Causando mais inflação. Inflação que engolia o salário
dos pobres.

50
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

O FMI (Fundo Monetário Internacional) é uma agência da ONU, fundado em 1945. Trata-se
de um superbanco internacional com vários sócios. Não existem donos privados: os sócios
são os países membros. A cota de cada país é relativa ao seu poder econômico. Assim,
mais da metade dos votos está nas mãos de países capitalistas desenvolvidos como os
Estados Unidos, Japão, Alemanha, Inglaterra, etc.)
O FMI empresta dinheiro para projetos de desenvolvimento ou simplesmente para salvar
países de economia com a corda no pescoço. O problema é que o FMI só empresta
dinheiro sob certas condições. O país assina uma carta de intenções na qual se
compromete a fazer reformas na economia. QUAIS REFORMAS?
Em primeiro lugar, estabilizar a economia. Na língua do FMI isso significa cortar
drasticamente os gastos do governo. Para evitar que gastos excessivos tenham de ser
pagos com emissão de papel-moeda, que gera inflação. Para conseguir isso, o FMI
recomenda a contenção salarial. Salário menores, menos compras, preços abaixando.
Além disso, menos patrões aumentando preços para poder pagar salários. Finalmente,
claro, facilidades para a instalação de empresas estrangeiras, liberalismo econômico.
Receitas econômicas, mas será que o remédio não é pior que a doença? Corte nos gastos
públicos resulta em menos dinheiro para saúde, educação, previdência e menos créditos
para a indústria. O que sempre leva à diminuição do crescimento econômico e às
falências. Ou seja, à recessão. Recessão, desemprego, menores salários, péssimos serviços
públicos. A população mais pobre é muito castigada. Os técnicos do FMI dizem que isso é
um "mal necessário. Depois as coisas melhoram." Depois de morto de fome, melhora para
quem?

Em 1960 houve eleições para a escolha do sucessor de Juscelino, na qual


concorreram vários candidatos. Você já deve ter observado que a lei eleitoral
daquele tempo permitia que os eleitores votassem em candidatos de partidos
diferentes para presidente e vice-presidente. Foi o que aconteceu: Jânio Quadros
foi eleito presidente com 48% dos votos, apoiado por um conjunto de partidos
liderados pela UDN. O vice presidente eleito foi o candidato do PTB, João
Goulart, conhecido por Jango e considerado uma espécie de afilhado político do
falecido presidente Getúlio Vargas.

− Agora responda em seu caderno:


6- Identifique as conseqüências negativas do governo J.K.

51
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

“Varre, varre,vassourinha.
Varre toda essa sujeira.
Que o povo já está cansado
De viver dessa maneira.”
(Campanha eleitoral de Jânio Quadros)

O mato-grossense Jânio da Silva


Quadros assumiu a presidência da República
em 31 de janeiro de 1961. Durante sua
campanha, tinha prometido varrer a corrupção
e a imoralidade. Por esse motivo, o símbolo de
sua campanha foi uma vassoura. Tomou medidas polêmicas, como proibir as
mulheres de usar biquínis nas praias e impedir as brigas de galos. Condecorou o
guerrilheiro Che Guevara e prometeu reatar relações diplomáticas com a União
Soviética, para indicar que pretendia manter uma política externa independente,
não alinhada com o bloco liderado pelos Estados Unidos, naqueles tempos de
Guerra Fria.

Jânio Quadros era mesmo uma figura!


Truques para ganhar a eleição, Jânio Quadros tinha muitos. Para chegar a vereador,
deputado estadual, prefeito, governador de São Paulo e presidente, não hesitava em
espalhar casca de queijo ralado na cabeça e nos ombros, fingindo que era caspa, e
nem tinha vergonha de interromper seus comícios, simulando fraqueza e quase
desmaiando. Era a hora de um auxiliar chegar perto com um sanduíche de
mortadela, que ele comia avidamente na frente do povo. Tudo isso aproximava Jânio
do povo. Tornava-o igual a qualquer um da platéia. Falava ao povão e logo depois ia
para um almoço com representantes das classes produtoras, hora de recolher
recursos para a campanha. Nova mutação. Era agora um capitalista de carteirinha.
Só admitia a livre concorrência e se apresentava como a única opção para evitar o
comunismo no país.
Foi assim que Jânio se elegeu. Com os truques de conteúdo, que o faziam dizer a
cada platéia ou auditório aquilo que este auditório ou platéia queria ouvir.
Deu certo para ganhar a eleição, mas, é claro, deu errado quando ele quis governar
desse jeito. Ao tentar agradar a um, desagradou a todos. Apelou para o derradeiro
truque, da renúncia, para voltar como ditador. Não deu certo. Mais cedo ou mais
tarde, os truques mandam a conta.

Carlos Chagas - jornalista

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Para resolver o problema da inflação, Jânio adotou uma política


econômica que diminuiu investimentos e provocou desemprego. Com essas
atitudes que preocuparam empresários e políticos brasileiros ligados ao capital
norte-americano, sem o apoio das camadas populares e do Congresso, Jânio agiu
de forma impulsiva e, em agosto de 1961, após apenas sete meses do início de
seu governo, renunciou. Esse episódio até hoje não está esclarecido.

"Fui vencido pela reação, e assim deixo o governo. Nestes sete meses cumpri o meu
dever.
Desejei um Brasil para os brasileiros, afrontando, neste sonho, a corrupção, a mentira e
a covardia, que subordinam os interesses gerais aos apetites e às ambições de grupos
ou indivíduos, inclusive do exterior.
Sinto-me, porém esmagado. Forças terríveis levantam-se contra mim e me intrigam ou
infamam, até com a desculpa da colaboração.
Creio, mesmo, que não manteria a própria paz pública. Encerro, assim, com o
pensamento voltado para a nossa gente, para os estudantes e para os operários, para
a grande família do País, esta página de minha vida, e da vida nacional. A mim não falta
a coragem da renúncia"...

Por ocasião da renúncia de Jânio Quadros, o vice-presidente João Goulart


estava em viagem à China, e a presidência foi ocupada provisoriamente pelo
presidente da Câmara dos Deputados. Jango era visto com reserva pelos
conservadores, civis e militares, que o consideravam um político de esquerda e o
acusavam de ser aliado dos comunistas. Por essa razão, setores da direita
resolveram se organizar para impedir sua posse.
Alguns setores da sociedade não queriam mais um golpe. O governador do
Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, cunhado de Jango e do mesmo partido que
ele, o PTB, formou a chamada Rede da Legalidade, um grupo de emissoras de
rádio. Por meio dela, liderou uma campanha para garantir a posse de Goulart,
apoiado por uma parte do Exército. Pressionado pelo apoio popular ao vice-
presidente, o Congresso decidiu a questão, alterando as regras do jogo: votou
uma emenda à Constituição, estabelecendo o regime parlamentarista. Assim,
em setembro de 1961, Jango assumiu a presidência, mas com poderes
diminuídos.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

No regime parlamentarista, o presidente da República é uma figura meramente


decorativa. É o chefe do Estado mas não o chefe do governo. Como chefe do
Estado, suas atribuições são simplesmente protocolares, como comparecer a
recepções oficiais, receber outros chefes de Estado, etc. Cabe-lhe também indicar o
primeiro-ministro, que será o chefe de governo. Mas essa indicação deve ser
aprovada pelo Legislativo, que será quem vai governar, e o primeiro-ministro só se
mantém no poder enquanto contar com a confiança e o apoio do Parlamento.

O ato que estabeleceu o parlamentarismo também previa a realização de


uma consulta popular (plebiscito) em 1965 para confirmar ou não o sistema.
Jango conseguiu antecipar essa consulta e, em janeiro de 1963, realizou-se um
plebiscito. Nele, o presidencialismo saiu vitorioso, e Jango teve seu poder
fortalecido.
Assumindo plenos poderes presidenciais, Jango apresentou seu projeto
econômico, o Plano Trienal. Criado pelo economista Celso Furtado, queria em
primeiro lugar, acabar com a inflação (que havia pulado de 33% em 1961, para
55% em 1962). Para isso propôs cortar os gastos do governo, diminuindo
subsídios sobre importação, e aumentando os impostos sobre as grandes
fortunas.(Eis aí uma casa de marimbondo!) Renegociando a dívida externa,
esperava que o país pudesse continuar importando bens para a indústria e assim
aumentar o crescimento econômico.

− Agora responda em seu caderno:


7- Explique as razões da adoção do regime parlamentarista, no governo de
João Goulart.

O governo de Goulart foi muito agitado. Havia na época dois grupos com
idéias políticas opostas: o dos conservadores - grandes proprietários rurais,
empresários nacionais e estrangeiros, parte da classe média, intelectuais,
estudantes e militares -, que queriam transformar alguns aspectos da vida
brasileira. Apoiado pelos progressistas, Jango tentou fazer as chamadas
Reformas de Base: reforma agrária, educacional e bancária e a nacionalização
de alguns setores da economia dominados por capitais estrangeiros.
O problema é que elas mexeriam com os privilégios de muita gente
poderosa no Brasil.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
A primeira das reformas de base era a sonhada reforma agrária. Não era
possível que o Brasil, com extensões de terras gigantescas nas mãos de
proprietários que nada plantavam, permitisse que milhões de famílias moradoras
do campo passassem fome porque não possuíam nenhum pedacinho de terra para
cultivar. Japão, França, Alemanha, e até México e China, já tinham realizado
reforma agrária.

Para executar uma reforma agrária, o governo confisca (toma) uma parte
das terras do latifundiário, ou seja, o desapropria. O problema era que a
Constituição só admitia a desapropriação de terras em caso de utilidade pública,
se o governo indenizasse os proprietários em dinheiro. Ora, simplesmente o
Estado não tinha grana para indenizar tantos latifundiários.
Um projeto de expropriação sem indenização em dinheiro foi vetado em
1963. Talvez aí estivesse um dos erros de Jango: ele avaliou que poderia deixar
rolar os protestos populares que o Congresso, acuado, faria as leis. Porém
aconteceria o contrário: a classe dominante, apavorada com os
protestos, veria em Jango apenas um fraco incapaz de
controlá-los. Pediria a cabeça do presidente.
Outra das reformas de base era a reforma urbana,
que controlaria o valor dos aluguéis de imóveis e ajudaria os
inquilinos a comprar a casa própria. A classe média alta, dona
de mais de um imóvel, ficaria apavorada com a “ameaça
comunista de tomar o que é dos outros”.
As reformas de base também eram reformas políticas:
direito de voto para analfabetos e de sargentos e patentes inferiores nas Forças
Armadas.Os comandantes militares torceram o nariz para a idéia de sargentos,
cabos e soldados votarem. Achavam que isso traria indisciplina para as tropas.
As elites e a classe média também repudiavam o voto dos analfabetos, a quem
consideravam “despreparados”. Só estavam preparados para trabalhar, pagar
impostos, passar fome e morrer pela pátria.
As reformas de base eram bem nacionalistas.Incluíam a proibição de
empresas estrangeiras operarem em setores como os de energia elétrica,
frigoríficos, indústrias de remédios, refinarias de petróleo, telefones. Os
nacionalistas achavam que as empresas estrangeiras atuavam nesses setores
pensando unicamente em seus lucros, pouco se importando com os interesses da
nação; já que uma empresa nacional poderia fazer o mesmo serviço e usar os
lucros para reinvestir no crescimento da própria economia brasileira.

55
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

A reforma da educação era outro ponto importante, e


tinha apoio da UNE (União Nacional dos Estudantes). Havia
necessidade de mais escolas e universidades públicas de bom
ensino. No ensino, como em tudo, era preciso parar de copiar
modelos estrangeiros e passar a pensar de forma brasileira os
problemas nacionais.
João Goulart esperava que o Estado fosse o intermediário
de um acordo nacional entre os militares, os intelectuais nacionalistas, a
burguesia industrial nacionalista e os sindicatos.
Todo o plano furou. A tal burguesia industrial não se empenhou nem um
pouquinho a favor da reforma agrária. Os militares se apavoraram com a agitação
sindical. Para eles Jango era incapaz de conter o avanço comunista.

− Agora responda em seu caderno:


8- Dentre as reformas propostas por Jango, identifique a que, em sua
opinião, se mostra mais necessária para o Brasil atual.

Até os anos 60 não existia nenhum sindicato rural no Brasil. As leis


trabalhistas não valiam no campo. Era um Brasil esquecido, abandonado,
desprezado. Mas as coisas começaram a mudar.
Formavam-se as Ligas Camponesas. Elas organizaram milhões de
camponeses nordestinos, gente que era dona de uma terra tão pequena
(minifúndio) que não dava para sobreviver, trabalhadores que viviam num
pedacinho cedido pelo fazendeiro (eram moradores) e que arrendavam (pagavam
aluguel pela terra) a preços cada vez mais cruéis, que tinham de trabalhar certos
dias de graça para o senhor da terra.
As Ligas Camponesas, lideradas por um advogado pernambucano de
idéias socialistas, Francisco Julião, organizavam esses homens na luta pelos seus
direitos. Faziam greves, recusavam-se a sair das terras e, principalmente, exigiam
do governo a reforma agrária.

56
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

vamos pensar
um pouco...

Caro aluno,

Para um latifundiário, a existência de ligas camponesas e de


greves de trabalhadores rurais era sinônimo de organização ou
de baderna?
E para os camponeses, ter uma associação para
defender seus interesses, era organização ou baderna?

Em 1963, Jango sancionou a lei do Estatuto do Trabalhador Rural.


Finalmente as leis trabalhistas começavam a chegar ao camponês! Agora
a legislação obrigava o fazendeiro a pagar salário mínimo, assinar
carteira de trabalho, garantir o repouso semanal e remunerar as férias.
Ou seja, nada de radical, nada de incendiário. Só um pouco de justiça.
Você acha que os latifundiários concordaram? Claro que não! Para eles,
Jango era um terrível agitador.
E para uma boa parte da classe trabalhadora, intelectuais, políticos de
esquerda e estudantes, o Brasil não era uma baderna, estava é ficando organizado
como nunca esteve antes. As pessoas estavam descobrindo a importância de se
associar para lutar por seus direitos. Em vez de lamentar suas misérias, erguiam-
se e lutavam para acabar com elas.
A UNE (União Nacional dos Estudantes) vivia uma virada sensacional. Os
estudantes naquela época, levavam muito a sério a luta política. A geração dos
anos 60 e começo dos anos 70 acreditava que a luta política realmente mudaria o
mundo inteiro. Por isso a UNE era tão importante e tão perigosa para os
poderosos.
Dentro desses ideais, a rapaziada da UNE criou os CPC
(Centros Populares de Cultura), nos quais se faziam representações
de peças de teatro na rua, shows de música e poesia, sessões de
cinema com filmes politizados, debates em praça pública e
auditórios. Tudo com objetivo educativo: de modo divertido e
fácil de entender, mostravam às pessoas nas ruas a
necessidade de combater o “imperialismo norte-
americano” e de defender as reformas de base.

57
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Quem era contra o governo de João Goulart?


É claro que os latifundiários. Quando ouviam falar em reforma agrária
tinham vontade de passar com o trator em cima de Jango. Os empresários
também estavam irritados com as greves e com medo de serem obrigados a
aumentar demais os salários dos empregados. A classe média, geralmente
udenista, tinha horror a um presidente que se aproximava dos trabalhadores.
Uma pesquisa do IBOPE, feita na véspera do golpe de 64, mostrou que a
maioria dos brasileiros considerava bom o governo de Jango.

O grande fantasma dessa época foi a Revolução Cubana, liderada por


Fidel Castro.
A Revolução Cubana

Após libertar-se da Espanha, em 1898, Cuba mergulhou na dominação dos Estados


Unidos, detentores do direito de intervir no país para garantir os interesses norte-
americanos.
Assim, Cuba manteve, após a independência, a mesma estrutura econômica herdada
dos tempos coloniais, baseada na exportação do açúcar.
De 1934 a 1959, Fulgêncio Batista tornou-se o homem forte de Cuba, inescrupuloso,
levou ao máximo a subordinação com relação aos Estados Unidos e, internamente,
comandou a brutal exploração do povo cubano.
O país assemelhava-se a um organismo em decomposição, onde se misturavam a
corrupção do governo, os jogos nos grandes cassinos, o uso indiscriminado de drogas
e o incentivo à prostituição sexual.
Reagindo a essa situação de decadência e opressão, um grupo de guerrilheiros
comandados por Fidel Castro começou a lutar contra o governo cubano, em 1959,
conseguiu derrubar a ditadura de Fulgêncio Batista.
Após a tomada do poder, a revolução liderada por Fidel Castro caminhou rumo ao
socialismo. Cresceram, então, os conflitos entre o novo governo de Fidel e os
interesses do capitalismo norte-americano.
Os graves conflitos entre Cuba e Estados Unidos forçaram a aproximação do governo
de Fidel Castro com a União Soviética.
A Revolução Cubana foi um importante capítulo da história latino-americana, pois
rompeu com a tradicional influência dos Estados Unidos da América Central e do Sul.
Além disso, construiu o primeiro Estado socialista do continente, calcado no modelo
soviético.

Nos anos 60 e 70, no Brasil e em quase todos os nossos vizinhos latino-


americanos foram dados golpes militares. Por trás estava o pavor da repetição de
Cuba.

58
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
O presidente pretendia ampliar o mercado consumidor, melhorando as
condições de vida da população, e reforçar o capitalismo brasileiro. Mas não foi
o que os conservadores entenderam: acharam que essas reformas eram "coisa de
comunista" e passaram a fazer forte oposição ao governo para defender seus
interesses, que consideravam ameaçados. Ao mesmo tempo, aconteceram atos de
insubordinação nas Forças Armadas, como o movimento dos sargentos, que
queriam o direito de se candidatar às eleições. Havia também o temor de que o
governo perdesse o controle da situação, pois as camadas populares
pressionavam, exigindo melhores salários, já que a alta inflação do período
diminuía muito seu poder de compra.
A Igreja Católica, proprietários rurais e empresários organizaram
manifestações como a "Marcha com Deus pela família", com apoio de oficiais
das Forças Armadas e da classe média. Criou-se, dessa forma, um ambiente de
desconfiança com relação ao governo, o que facilitou um golpe.
No plano internacional, era a época da Guerra Fria e o mundo estava
dividido em duas forças opostas. Você já viu também que no início da década de
1960 o bloco comunista passou a contar com a participação de Cuba, o primeiro
país socialista das Américas. Para evitar que o Brasil se inclinasse para esse lado,
forças norte-americanas se prepararam para intervir em apoio aos golpistas.

Na década de 50, o Brasil entregou-se a uma política industrializante,


"progressista" e de internacionalização da economia. Isso se refletiu nos hábitos,
nas preferências, no modo de pensar e no dia-a-dia das pessoas.
Ganhamos a Copa do Mundo de 58, na Suécia, e o povo
gritava confiante que com brasileiro não há quem possa. A baiana
Marta Rocha quase venceu um concurso de beleza internacional, e a
mulher brasileira se tornava a mais bela do planeta. Por fim a
inauguração de Brasília ampliou a projeção do nome do país no exterior,
consolidando a auto-estima nacional.
Eram os "anos dourados", a "era do rádio". A TV ainda
engatinhava, e todos acompanhavam os programas radiofônicos:
novelas, concursos, noticiários, boleros, músicas cantadas pelas
"rainhas do rádio". Veio a bossa-nova e não demorou muito para que a
juventude transviada ganhasse espaço com os acordes iniciais do rock
and roll.

59
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Por que os militares deram o golpe?


Para começar, por causa da
própria formação deles. Nas academias,
tinham aprendido que as greves, os
protestos sociais, as manifestações
populares eram uma “baderna”
intolerável. Para eles o que faltava ao
país era a “disciplina”, a “ordem”. O
drama vivido pelos trabalhadores pouco
importava, já que em sua maioria os
militares vinham da classe média e
tendo simpatia pela UDN rejeitava a
aproximação populista de Jango com os
sindicatos.

Os militares, como tantos brasileiros decentes, se enojavam com a


existência de políticos corruptos.
Para muitos militares e civis, o país só teria governos honestos quando o
Estado estivesse nas mãos dos generais. Um triste engano, porque nas ditaduras é
que a corrupção rola solta, já que a sociedade não consegue fiscalizar mais nada.
Nas escolas militares, havia uma doutrinação anticomunista fortíssima.
Qualquer greve era vista como "armação dos comunistas contra o Brasil.
O mais difícil de aceitar era a influência dos Estados Unidos sobre a
capacitação de nossos militares. Alguns dos melhores oficiais do Brasil fizeram
cursos de aprimoramento com os americanos, inclusive na Escola do Panamá,
fundada em 1951. Voltavam de lá com a lição de que "o que é bom para os
Estados Unidos é bom para o Brasil; o que é ruim para os Estados Unidos é ruim
para o Brasil".
Como você pode ver, caro aluno, uma greve operária, uma sessão de
cinema seguida de um debate com a platéia, a publicação de um livro, tudo isso
era visto como resultado da infiltração de agentes soviéticos, cubanos ou
chineses. Alguém precisava salvar o Brasil! Esse alguém, óbvio, eram os
militares sempre alerta.

As lutas de classes chegaram ao ponto mais agudo. Valia tudo, até mesmo
calúnias e baixíssimo nível. Madames subiam às favelas para alertar que "com
Jango, em breve o comunismo vai mandar no Brasil. Aí, o Estado vai tomar tudo
dos pobres, inclusive os filhos, que serão enviados para Moscou e nunca
mais voltarão".

60
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Panfletos espalhavam que Jango baixaria um decreto ordenando que os
moradores dividissem seus apartamentos com os favelados. Os famintos
desceriam o morro aos gritos de "isso aqui é nosso!" para ocupar as casas das
pessoas de bem.
Jango resolveu apresentar sua última
Cortando a Verdade carta: as reformas de base teriam de passar
Valia tudo contra Jango. Em "por bem ou por mal", como se dizia. No dia
alguns jornais, noticiou-se que 13 de março de 1964, apesar do feriado
o cabeleireiro e o costureiro de decretado de surpresa pelo governador
sua esposa, especialistas em Lacerda, um oceano de centenas de milhares
usar a tesoura, seriam de pessoas compareceram ao célebre
nomeados tesoureiros da Comício da Central do Brasil.
Caixa Econômica Federal.
No Comício João Goulart anunciou
Muita gente riu, mas houve
quem acreditasse.
que estava enviando ao Congresso as
primeiras reformas de base: expropriação de
latifúndios improdutivos, nacionalização das refinarias de petróleo. A galera foi
ao delírio de felicidade, sem ter noção de que em duas semanas Jango seria
derrubado.
Meia dúzia de dias depois foi a vez da classe média paulista dar o troco.
Associações de donas de casa, esposas de maridos com altos vencimentos
mensais, damas da sociedade, pastores evangélicos, comerciantes, policiais,
bicheiros, e demais organizações representativas mobilizaram milhares de
fanáticos nas Marchas da Família com Deus pela Liberdade. Rezavam para que
Deus preservasse os nossos valores: o latifúndio, as contas bancárias, etc.
O toque final foi provocar as Forças Armadas. Os marujos da Marinha de
Guerra criaram uma associação para defender seus interesses, quase um
sindicato. Coisa absolutamente proibida pelos comandantes. Pois o ministro da
Marinha proibiu que os marinheiros comemorassem o segundo aniversário de sua
associação. Mesmo assim, eles fizeram a festa, lá na sede do sindicato dos
metalúrgicos do Rio de Janeiro. Para puni-los, deslocaram-se fuzileiros navais
para a área. Mas em vez de prender os marinheiros, confraternizaram-se. Por fim
os marinheiros se renderam porque tiveram a promessa de anistia (perdão) de
Jango, que foi cumprida. As Forças Armadas jamais perdoariam o presidente por
ter permitido o desrespeito à hierarquia militar.
Em 31 de março de 1964, o general Olímpio Mourão Filho precipitou o
golpe. Tinha o apoio do governador mineiro Magalhães Pinto. Na Guanabara,
Lacerda entrincheirou-se no Palácio da Guanabara, aguardando o ataque dos
fuzileiros navais liderados pelo comandante Aragão. Não houve ataque nenhum.
Jango voou de Brasília para Porto Alegre. De lá, percebeu que a
resistência faria correr o sangue dos brasileiros. Preferiu se exilar no Uruguai.
Mas antes mesmo de renunciar, o senador Auro de Moura Andrade já anunciava
o novo presidente: Ranieri Mazzili, da Câmara dos Deputados.

61
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Agora, amigo aluno, veja que curiosa coincidência. No momento em que
os militares deram o golpe, havia um força tarefa da Marinha de Guerra norte-
americana rumo à costa brasileira, incluindo porta-aviões, fragatas com
mísseis,
fuzileiros, etc. Se o golpe não fosse vitorioso, nossos amiguinhos ianques daria
uma força para os generais patrióticos verde-amarelos.
Os militares tinham o projeto de mudar o Brasil profundamente. Por isso,
chamaram o golpe de "Revolução de 1964". Mas uma verdadeira revolução só
acontece quando se muda radicalmente a estrutura econômica e política da
sociedade.
No Brasil, a estrutura econômica continuou a mesma: capitalismo,
latifúndios, forte presença do capital estrangeiro. Na estrutura política, o
principal foi preservado: a burguesia continuava no poder. Apenas não o exercia
diretamente, mas sob a proteção dos militares.
Os militares foram os executores. Fizeram o serviço pesado. Mas os
principais beneficiados com o regime militar foram os grandes empresários. Eles
eram ministros, assessores, secretários. Viviam nos gabinetes em Brasília,
pedindo favores, aconselhando, pressionando militares.
Na verdade, o regime militar foi uma ditadura militar e civil. Porque os
civis foram a maioria dos governadores e prefeitos de capitais, havia um partido
político que apoiava o regime (a Arena) e os ministros da área econômica eram
todos civis.
Esse golpe pôs fim a um período democrático da história brasileira,
marcado pela tentativa de um desenvolvimento econômico mais autônomo.

− Agora responda em seu caderno:


9- O golpe de 64 foi necessário? Dê sua opinião.

62
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Em 1964, os militares
tomaram o poder e
implantaram uma ditadura no
Brasil. Muitos dos direitos
constitucionais foram suspensos e
substituídos por uma série de
medidas de exceção. Os golpistas
procuraram definir esse assalto à
democracia como uma revolução.
Na verdade, porém tratava-se
apenas de uma estratégia para
legitimar o golpe e a ditadura que
naquele momento foram impostos
a toda a nação.
Muitos historiadores afirmam atualmente que o golpe foi dado para acabar
com o modelo de desenvolvimento econômico autônomo (“independente”), que
contrariava os interesses da maioria das elites econômicas nacionais e dos
investidores estrangeiros, integrando mais o Brasil ao bloco capitalista.
No clima de
radicalização dos
anos 1960, a direita e
as elites
conservadoras
acabaram triunfando
e, nos 25 anos
seguintes, impuseram
seu projeto ao país.
Nesse período, nosso
país assistiu, com
perplexidade, ao
ferrenho combate às
liberdades civis e aos
movimentos sociais
organizados, no qual não faltaram requintes de crueldade, como tortura,
assassinatos e perseguições.

63
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

A SITUAÇÃO MUNDIAL: Protestos e violências no mundo


A década de 60 encerrou-se com agitações e protestos em diversos países.
A juventude emergia no cenário político insuflada por intelectuais que
contestavam valores e modos de vida tradicionais e reivindicavam a liberdade
individual. A participação da classe operária coincidiu com a atuação de um
Partido Comunista mais influente, como aconteceu na França e na Itália.
As novas correntes
sociopolíticas discutiam uma
nova relação entre os homens ou
dos homens com a natureza:
movimentos feministas pela
liberação da
mulher, dos ecologistas e dos
pacifistas pelo fim das guerras e
dos experimentos nucleares.
Os movimentos de protes-
to entrelaçavam-se até com as
novas tendências musicais representadas pelo “rock and roll”, “pop music”,
“country music” e “iê-iê-iê”. Grupos de “hippies” agitando o símbolo “Paz e
Amor”, “beatniks” e “punks” reuniram-se no festival de Woodstock em 1969,
Estados Unidos. Escandalizaram a sociedade conservadora com sua nudez,
“amor livre”, vida comunitária, cabelos longos e consumo de drogas.
Alguns movimentos, de caráter mais político, desdobraram-se em
confrontos diretos com as autoridades governamentais. Estudantes franceses,
contrários à estrutura do ensino universitário, organizaram uma passeata que
acabou em violência: bombas caseiras contra gás lacrimogêneo, pedras contra
cassetetes. O episódio estimulou movimentos semelhantes em outros países.
Na América Latina, os movimentos de protesto foram contra as ditaduras
militares, procurando mobilizar ou conscientizar a população por meio de
passeatas, letras de músicas, textos teatrais ou até mesmo da guerrilha
camponesa. Líderes latino-americanos, como Fidel Castro e Ernesto “Che”
Guevara, inspiravam a luta e o engajamento político.
A “rebeldia” jovem foi aproveitada pelas indústrias. Os movimentos de
protestos criaram novos comportamentos e deram origem a artigos de consumo:
camisetas com o rosto de “Che” Guevara; colares com o símbolo de
“Paz e Amor”; “jeans” com aparência de usado; pôsteres com imagens ou
mensagens de impacto.
Vários acontecimentos agitavam o mundo nessa época, em especial no ano
de 1968. Na Europa, movimentos de jovens estudantes protestaram contra a
guerra do Vietnã e a voracidade do capitalismo; no mundo socialista, os protestos
foram contra a falta de liberdade. Nos Estados Unidos, o movimento negro exigia
a igualdade de direitos civis para negros e brancos, e tinha como principal líder o
pastor negro Martin Luther King.

64
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Agora responda em seu caderno:


1) A década de 60 foi um período de protestos e agitações. Contra o que os
jovens protestavam?

• GOVERNO DO GENERAL CASTELLO BRANCO (1964-1967)

Com o golpe, o presidente João Goulart saiu do país, e muitas outras


pessoas foram presas ou se exilaram. A presidência foi assumida provisoriamente
pelo presidente da Câmara dos Deputados em 1º de Abril de 1964, mas quem
passou a governar de fato foram os militares que comandaram o golpe.
A classe média se confraternizava com a burguesia. Chuva de papel
picado, toalhas nas janelas, buzinaço, banda e chope. Abraços, choro de alegria,
alívio pelo fim da desordem. O Brasil estava salvo do
comunismo!
Os novos donos do poder ignoraram a existência do Poder Legislativo e da
Constituição. Os soldados armados de fuzis prendiam milhares de pessoas:
dirigentes populares, intelectuais, políticos democratas. A UNE foi proibida e seu
prédio, incendiado. A CGT, fechada. Sindicatos invadidos à bala. Nas escolas e
universidades, professores e alunos progressistas expulsos. Os jornais foram
ocupados por censores e muitos jornalistas postos na cadeia. A ordem era calar a
boca de qualquer oposição.
Os políticos que não concordaram com o golpe, geralmente do PTB,
tiveram seus mandatos cassados. Ou seja, perderam seus direitos políticos por
dez anos. O primeiro inimigo número um do regime cassado foi Luís Carlos
Prestes. O segundo foi o ex-presidente João Goulart. Depois veio uma lista de
milhares de pessoas que foram demitidas de empregos públicos, presas,
perseguidas, arruinadas em sua vida particular.
Juscelino e Jânio também perderam seus direitos, para que não tentassem
nenhuma aventura engraçadinha na política. Só a UDN não teve punidos:
coincidência, não?
Os comunistas, claro, eram perseguidos como ratos. Muitos foram
presos e espancados com brutalidade. O pior é que o xingamento de comunista
servia para qualquer um que não concordasse com o regime. Seria o suficiente
para ser instalado numa cela.

65
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

O Ato Institucional (AI) foi um instrumento Para espionar a


utilizado em vários momentos pelos militares para vida de todos os cidadãos,
dar forma de lei a seus atos políticos, que não eram foi criado em 1964 o SNI
previstos ou permitidos pela Constituição.
Com ele, o general-presidente poderia, sem dar (Serviço Nacional de
satisfações a ninguém, fechar o Congresso Nacional, Informações). Havia
cassar mandatos de parlamentares (isto é, excluir o agentes secretos do SNI
político do cargo que ocupava, fosse senador,
governador, deputado, etc.), demitir juizes, em quase todos os cantos:
suspender garantias do Poder Judiciário, legislar por escolas, redações de
decretos, decretar estado de sítio, enfim, ter poderes jornais, sindicatos,
tão grandes como os dos tiranos.
Assim continuavam existindo o Congresso e
universidades, estações de
uma Constituição, dando ao Brasil uma aparência de televisão. Microfones,
democracia, enquanto existia um governo cada vez filmes, ouvidos aguçados.
menos legítimo e com características ditatoriais.

Bastava o agente do
SNI apontar um suspeito para ele ser preso. Imagine o clima na sala de aula, por
exemplo. O professor correndo o risco de ser detido caso fizesse uma crítica ao
governo. Os alunos, falando baixinho, desconfiando de cada pessoa nova,
apavorados com os dedos-duros. A ditadura comprometia até as novas amizades!
O pior é que o SNI cresceu tanto que quase acabou tendo vida própria,
independente do general-presidente, a quem estava ligado. Seu criador, o general
Goldery do Couto e Silva, no final da vida, diria amargurado:
“Criei um monstro”.
O novo governo passou a governar por decreto, o chamado A.I. (Ato
Institucional). O presidente baixava o AI sem consultar ninguém e todos tinham
de obedecer. O primeiro Ato Institucional (AI-1) determinava que a eleição para
presidente da República seria indireta. Ou seja, com o Congresso Nacional já
sem os deputados e senadores incômodos, devidamente cassados, e um único
candidato. Adivinha quem ganhou? Pois é, em 15 de abril de 1964 era anunciado
o general-presidente que iria nos governar nos próximos anos: Castello Branco.
Tranqüilos com a vitória, os generais nem se importaram com as eleições
diretas para governador em 1965. Esperavam que o povo brasileiro em massa
votasse nos 6 candidatos do regime. Estavam errados. Na Guanabara e em Minas
Gerais venceram políticos ligados ao ex-presidente Juscelino Kubitschek. (Em
São Paulo não houve eleições. Seriam depois.) Mostra clara de que alguns meses
depois do golpe ainda tinha muita gente que não apoiava o regime.
Pois bem, os militares reagiram. Vinte e poucos dias depois das eleições
desastrosas, foi baixado o AI-2, que acabava em definitivo com as eleições
diretas para presidente da República.

Agora, o presidente seria “eleito” indiretamente, ou seja, só votariam os


deputados e senadores. Voto nominal e declarado, ou seja, o deputado era
chamado lá na frente para dizer, no microfone, se votava ou não no candidato do
regime. Quantos teriam coragem de dizer, na cara dos ditadores, que não
aprovavam aquela palhaçada? Muito poucos, inclusive porque os mais
abusadinhos tinham sido cassados.
66
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

O AI-2 também acabou com os partidos políticos tradicionais. Agora, só


poderiam existir dois partidos políticos (bipartidarismo); a Arena e o MDB.

A ARENA (Aliança Renovadora Nacional) era o partido do governo.


Estavam ali todos os políticos de direita que apoiavam descaradamente a
ditadura. De onde vinham? Basicamente, da UDN. Mas também um bando de
gente do PSD, e, incrível, muitos da velha guarda integralista, apoiavam o regime
militar em tudo que ele fazia.

O MDB (Movimento Democrático Brasileiro) era o partido da oposição


consentida. A ditadura, querendo uma imagem democrática, permitia a existência
de um partido levemente contrário. Contanto que ninguém fizesse uma oposição
muito forte. (Quem fez, se deu mal, como veremos mais à frente.) O MDB era
formado pelos que sobraram das cassações, um pessoal do PTB, alguns do PSD.
No começo, a oposição era muito tímida. Nos anos 70, porém o MDB conseguia
votações cada vez maiores para deputados e senadores. Então seus políticos —
muitos eram novos valores surgidos na década — começaram a fazer uma
oposição importante ao regime, capitaneados pela figura do deputado paulista
Ulisses Guimarães (1916-1992).

Agora responda em seu caderno:


2) Explique o que foi o Ato Institucional (A.I.).

A CONSTITUIÇÃO DE 1967
No Brasil, os homens da ditadura faziam questão de criar uma imagem de
que o país era um regime "democrático". Alegavam que existia partido de
oposição e as eleições para deputado e senador. Está bom, mas acontece que os
políticos mais críticos estavam cassados e o MDB, sob vigilância. Além disso, o
Congresso Nacional ficou com os poderes muito limitados. No fundo, quem
mandava mesmo era o general-presidente e pronto. Decretou-se também o AI-4,
que dava ao governo poderes para elaborar uma nova Constituição.
Dentro dessa preocupação de manter a aparência de democrático, o regime
promulgou a Constituição de 1967. ATENÇÃO: Ela vigorou de 1967
até 1988, quando foi aprovada a nossa Constituição atual.
Promulgar não é bem a palavra. Por que nem sequer existiu uma
Assembléia Constituinte. Os militares fizeram um rascunho do texto
constitucional e enviaram para o Congresso aprovar. O trabalho era pouco mais
que aplaudir. Deputados obedientes como soldados em marcha.
Para começar, eleições indiretas para presidente da República e
governadores de Estado. Os prefeitos de capital e cidades consideradas de
67
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
"segurança nacional" (como Santos, em São Paulo, o maior porto do país, ou
Volta Redonda, no Rio de Janeiro, por causa da Companhia Siderúrgica
Nacional) seriam nomeados pelo governador. Em outras palavras, a ARENA
governaria o país pela força da lei (e das armas, claro!).
A Constituição de 1967 aumentava as atribuições do Executivo e a
centralização do poder. Pela Constituição, os deputados e senadores não podiam
fazer quase nada, a não ser discursos. Veja bem: a lei não permitia nem mesmo
que o Congresso pudesse controlar as despesas do Executivo.
Os governadores perderam a autonomia para gastar. Para qualquer obra
importante, tinham de pedir dinheiro ao governo federal, ou seja, ao general-
presidente. O mesmo valia para os prefeitos. Por exemplo, vamos imaginar que
na cidade de Itaijuca, o prefeito fosse do MDB. A maioria dos impostos fica com
o governo federal, em Brasília. Esse prefeito quer construir uma escola em
Itaijuca. Não tem dinheiro. Tem de pedir para o governador que é da ARENA, e,
certamente recebe ordens de Brasília para não dar nada. Agora se o prefeito fosse
da ARENA, as coisas mudariam de figura.
Esqueminha montado e quase sem furos. Dá para entender por que o
regime militar não teve medo de manter eleições para o Congresso e permitir a
existência do MDB, não é mesmo? Jogo fácil de ganhar, por que o juiz roubava
escancarado para um lado.
O pior de tudo é que o regime iria fechar ainda mais. O último ato do
governo de Castello foi a LSN (Lei de Segurança Nacional). Reprimir
passava a ser sinônimo de "defender a pátria".

E a economia, General Castello?

A primeira atitude do novo governo foi anular as reformas de base.


Criaram um Estatuto da Terra, que previa uma tímida reforma agrária. Claro
que jamais sairia do papel. O latifúndio estava livre para engolir os camponeses.
Foi criado o PAEG (Plano de Ação Econômica do Governo), e para
diminuir a inflação, trataram de tirar o dinheiro de circulação. Para começar,
cortaram os gastos públicos, ou seja, o governo investiria menos em hospitais e
escolas.
Em 1964, tinha sido fundado o Banco Central para controlar todas as
operações financeiras do país. Também foi criada uma nova moeda, o cruzeiro
novo.
Os salários foram considerados os grandes responsáveis pela situação do
país. Claro os operários deviam estar ganhando fortunas! Assim, os aumentos
salariais passaram a ser menores do que a inflação. A idéia era fazer com que o
aumento de preços, por causa do crescimento dos salários, fosse cada vez menor.
68
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Na verdade, o regime militar reduziu a inflação arrochando os salários dos


trabalhadores.
Um dos recursos para diminuir salários foi à extinção da estabilidade. Pela
lei antiga, depois de dez anos numa empresa, era quase impossível despedir um
empregado. Isso acabou. No lugar, foi criado o FGTS (Fundo de Garantia por
Tempo de Serviço), em 1966, que existe até hoje. A cada mês, o patrão deposita
nos bancos uma parte do salário do empregado, formando uma caderneta de
poupança. Acontece que o FGTS só pode ser sacado em momentos especiais,
como na compra da casa própria ou, caso mais comum, quando o empregado é
despedido. Essa lei facilitou a vida dos empresários. Agora, despedir era
tranqüilo. Os empregados, sabendo que podiam perder o emprego a qualquer
momento, eram obrigados a aceitar salários mixurucas. A rotatividade da mão-
de-obra (o operário rodando de emprego em emprego) seria um excelente
mecanismo para abaixar salários. Será que isso mudou muito de lá
para cá?
Não devemos esquecer que as greves estavam totalmente proibidas. O
peão tinha de engolir quieto a pancada salarial, senão haveria outra paulada mais
dolorosa ainda.
Para que os empréstimos do governo federal e os impostos devidos a ele
fossem pagos decentemente, criou-se a correção monetária. Antes, o sujeito
podia esperar um ano para pagar impostos porque então ele pagaria uma quantia
desvalorizada pela inflação. Agora, a correção monetária simplesmente
aumentava o valor da dívida no mesmo percentual da inflação.
Como o governo não queria emitir papel-moeda (estava combatendo a
inflação), obviamente os empresários sofreram restrições ao crédito. Juros altos,
dificuldade de obter empréstimos, poucos investimentos. A economia crescia
pouco. Os ministros sabiam que estavam provocando esta recessão. Achavam
que era um dos remédios para baixar a inflação. Realmente, as compras
diminuíram. Reduzida a demanda (procura), caíram os preços.

Por que a economia voltou a se recuperar? Há várias


explicações. Para começar, os investidores estrangeiros ficaram mais tranqüilos:
não havia mais ameaça de nacionalismo, nem de greves e muito menos de
socialismo. Além disso, o novo governo tinha eliminado as restrições ao capital
estrangeiro. Assim, as multinacionais começaram a investir em peso na
construção de novas fábricas.
O FMI, feliz com o Brasil militar, também emprestou dinheiro. E nós
vimos que ajuda do FMI era uma espécie de garantia para que outros banqueiros
confiassem no país.
Obviamente, a ditadura não resolveu as coisas por consenso, promovendo
um plano com que toda a sociedade concordasse. As coisas foram impostas na
marra. Na marra principalmente sobre os trabalhadores. Ou seja, o consenso foi
obtido na base do “Ou você concorda comigo ou entra na paulada!” De
qualquer modo a estabilidade foi conseguida.

69
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Quer dizer então que uma ditadura consegue estabilidade? Essa pergunta
necessita de outra: que tipo de estabilidade estamos falando? Quando
examinamos as estatísticas econômicas percebemos que a estabilidade teve um
preço: o aumento da exploração da força de trabalho.

• GOVERNO DO GENERAL COSTA E SILVA (1967-1969)

Os militares tinham indicado e o Congresso balançou a cabeça: o novo


general-presidente era Arthur da Costa e Silva. Só a Arena tinha votado na
eleição indireta. Em vez de levantar o braço, batia continência. O MDB, em
protesto (era minoria), havia se retirado do plenário. Com mãos ao alto.
Costa e Silva era tido como um homem de hábitos simples. Em vez da
companhia dos livros, preferia acompanhar as corridas de cavalos. Pessoalmente,
diziam que era uma “gente boa”. Mas se Costa e Silva queria tranqüilidade, tinha
escolhido mal o emprego. Melhor seria dar palpites no jockey!
Economicamente, apesar do PAEG de Castello diminuir a inflação e
retomar o crescimento, a situação da classe operária vinha piorando. Em 1965, os
operários paulistas ganhavam em média, apenas 89% do que recebiam em 1960,
em 1969, apenas 68%. Estava ficando feia a coisa! Durante seu governo, a
oposição ao regime se intensificou em função da falta de liberdade e dos
resultados limitados da política econômica adotada logo após o golpe de 1964.
Para superar o impasse, o governo implantou um modelo econômico que
provocou a queda da inflação. Ao mesmo tempo, a economia voltou a crescer,
tendo como carros-chefes o setor industrial e a construção civil.
Essa fase, que se estendeu de 1968 a 1973, foi denominada milagre
brasileiro, e serviu para aplacara ira da classe média, a principal beneficiária
dessas medidas, e diminuir os ímpetos da oposição.
Como já vimos, “os anos 60” foi a grande década revolucionária.
Especialmente, 1968. Trabalhadores e estudantes se levantaram no mundo
inteiro. Em Paris, nos Estados Unidos, na China Popular, na Tchecoslováquia e
em Cuba. No Brasil, a luta era contra uma ditadura militar e um capitalismo
selvagem.
Época gloriosa do movimento estudantil. Coragem, sonhos libertários,
utopia na alma. A juventude queria o poder no mundo!
Os estudantes iam para a rua contra um governo que esculhambava a
universidade pública, contra um regime militar.
Apesar de proibidas, suas passeatas nas ruas atraíram cada vez mais
participantes, de operários e boys a donas de casa e profissionais liberais. A
grande imprensa chamava-os de “infantis”, “toxicômanos”, “desequilibrados”.
A polícia atacava. Cassetetes, gás lacrimogêneo, caminhões brucutu. Eles
respondiam com pedras, bolas de gude (contra a cavalaria da PM), bombas
caseiras e idealismo. Os principais líderes estudantis estavam no Rio de Janeiro:
Vladimir Palmeira e Luís Travassos.

70
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

A esquerda
voltava a crescer no
Brasil. Nas ruas, as
passeatas contra o
regime militar
começavam a reunir
milhares de pessoas
em quase todas as
capitais. Diante
disso, a direita mais
selvagem partiu
para suas habituais
covardias. Aliás,
covardia era a
especialidade da
organização de
direita CCC
(Comando de Caça aos Comunistas). O nome já diz tudo. Consideravam que a
esquerda era feita por mamíferos a serem abatidos. Os trogloditas, então
atacaram os atores da peça Roda Viva, de Chico Buarque, em São Paulo.
Surraram todo mundo, inclusive a atriz Marília Pera. Depois metralharam a casa
do arcebispo D. Helder Câmara, em Recife (alguns membros da Igreja católica
estavam deixando de bajular o regime).
A greve operária de Contagem terminou com acordo salarial entre patrões
e empregados. Mas em Osasco a coisa foi diferente. Ela tinha sido bem melhor
preparada, inclusive com participação de estudantes esquerdistas na organização
do movimento.
O governo então falou grosso. O sindicato dos metalúrgicos foi invadido e
o presidente, José Ibraim, teve de se esconder da polícia. O exército preparou
uma operação de guerra e ocupou as instalações industriais. A partir daí, quem
fizesse gracinha de greve teria de enfrentar os blindados e fuzis automáticos. Ou
seja, as greves acabaram.

71
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Contra os meninos e meninas do movimento estudantil, foram lançados


homens armados até os dentes. Agora passeata começava a ser dissolvida a bala.
No Calabouço, um restaurante carioca freqüentado por estudantes, a polícia
assassinou um rapaz, Édson Luís. Nem a missa de sétimo dia, na catedral da
Candelária, foi respeitada pela polícia, que baixou o sarrafo nas pessoas que
saíam do templo. Em resposta, a maior passeata já vista na avenida Rio Branco: a
célebre Passeata dos Cem Mil (26/06/1968).Era a multidão, bonita, vigorosa,
olhando para a vida, exigindo a mudança.
Os militares estavam apavorados. Até onde aquilo tudo iria levar?
Concluíram que precisavam endurecer ainda mais o regime. E endureceram. As
passeatas de estudantes passaram a ser reprimidas pelas próprias Forças Armadas
e muitos estudantes foram baleados. Agora, em vez do cassetete, vinha o fuzil
automático. O congresso secreto da UNE, em Ibiúna (SP) foi dissolvido, com
1240 estudantes presos.
O pior estava por vir. Faltava só o pretexto.
No Congresso Nacional, o jovem deputado Márcio Moreira Alves, do
MDB, fez um discurso em que recomendava que as mulheres não namorassem os
militares envolvidos com as violências do regime, e conclamou a população a
boicotar os desfiles de 7 de Setembro. Esse discurso foi considerado ofensivo
pelos militares, que exigiram sua punição, mas o Congresso não permitiu.
Foi, então, que Costa e Silva decretou o Ato Institucional n.º 5, (A.I. 5),
no dia 13 de Dezembro de 1968. Claro que o caso do deputado era só desculpa.
Tratava-se, na verdade, de aumentar a repressão e silenciar os opositores.
Se a ditadura já era brava, agora ela piorava.
72
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

É exagerado achar que toda hora tem tanque na rua, soldados desfilando
dentro das faculdades. Aparentemente não muda muita coisa, porque você vai às
compras, ao dentista, à praia e ao cinema, namora e casa, vê televisão. A não ser
o fato de que seu vizinho é oficial do Exército e você sabe que por isso ele manda
na rua e no bairro, o resto parece bem normal. Mas, se você tiver um pingo de
consciência, desconfia que as coisas não vão bem. Existe um cheirinho de
esquisitice: as pessoas falam baixo, há uma nuvem de mistério cobrindo o país, o
estômago fica pesado demais.
Depois de 1964
ainda dava para fazer
umas passeatazinhas e
desafiar o regime.
Depois do AI-5
(dezembro de 1968) o
regime tinha fechado
de vez.
Passeata era
dissolvida a tiros de
fuzil. Em cada
redação de jornal
havia um sujeito da
polícia federal para
fazer a CENSURA.
Não poderia sair
nenhuma notícia que
desagradasse ao
governo.
Uma simples reportagem esportiva sobre o time do Internacional de Porto
Alegre, com sua camisa vermelha, poderia ser encarada como “propaganda da
Internacional Comunista”. Além de tudo, o jornal não podia dizer que tinha
sofrido a censura (isso, claro, também era censurado). O jeito foi botar receitas
de bolo nos vazios deixados pelas partes retiradas pela polícia. As pessoas
estavam lendo uma página sobre política nacional e, de repente, vinha aquela
absurda receita para fazer uma torta de abacaxi. Os espertos sacavam logo que
era uma forma de protestar, de mostrar a censura. Claro que existem também os
ingênuos, que ainda hoje declaram que “naquele tempo o governo era muito
melhor do que hoje. Bastava abrir os jornais, eles só tinham elogios para o
governo. Aliás, também tinham receitas de bolo muito boas”.
Ninguém podia falar mal do governo. Reclamação na fila do ônibus era
uma linha até a cadeia. Estudantes e professores que conversassem sobre política
poderiam ser expulsos da escola ou da faculdade, devido ao decreto-lei n. º 477
(1969).
73
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Imagine o clima dentro da sala de aula. Se o professor contasse aos alunos
o que você está lendo neste livro, corria o sério risco de não poder voltar mais à
sala de aula. Qualquer aluno novo que tentasse se enturmar era logo suspeito de
pertencer ao SNI. Veja que coisa, a ditadura tolheu até as novas amizades!

O político que fizesse oposição aguda seria logo cassado pelo A.I.5. Foi o
caso, por exemplo, do deputado federal Francisco Pinto (MDB), punido em 1974
porque fez no Congresso um discurso chamando de “ditador” o ditador chileno
Pinochet em visita ao Brasil. O deputado Lysâneas Maciel (MDB) solicitou a
criação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para apurar denúncias
de corrupção no regime. Não teve CPI nenhuma e ele ainda foi cassado. É isso aí:
numa ditadura, a sociedade não pode fiscalizar o governo. Os cidadãos
estão enjaulados, mas a corrupção está livre.

Agora responda em seu caderno:


3) Explique o que foi a censura durante o Regime Militar.

Com tantas dificuldades, como continuar fazendo oposição ao regime?


Para muitos jovens, só havia um caminho a seguir: a luta armada.

Falar em guerrilha nos anos


60 arrepiava muita gente. Ela
parecia ser a grande arma de
libertação dos povos.
Exemplos não faltavam: em
Cuba, Fidel Castro e Che Guevara
abriram o caminho. No Vietnã, os
guerrilheiros de Ho Chi Minh
derrotavam os Estados Unidos.
No Brasil não poderia ser
diferente: muitos estudantes, velhos
militantes da esquerda e
intelectuais começaram a organizar
grupos guerrilheiros. Para eles,
depois do AI-5 só a luta armada
libertaria o Brasil.
A juventude queria a
mudança logo, a todo preço. E
foram esses jovens, garotões e Guerrilheiros do PC do B mortos no
meninas, adolescentes ainda, Araguaia. Nas fotos, pessoas iguais a nós:
sorrisos, sonhos, juventude, indignação,
estudantes e sonhadoras, que esperança. Deram a vida pela pátria.
embarcaram na aventura da luta O que fariam hoje se fossem vivos?
armada.
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Desde 1968 já existiam ações guerrilheiras. Mas o grosso mesmo foi entre
1969 e 1973. Havia muitos grupos de luta armada.
Quem eram esses revolucionários?
Eram algumas centenas. Apesar de sonharem com a revolução proletária,
havia poucos operários ou camponeses. Os líderes eram geralmente, antigos
comunistas, rompidos com o Partidão por que o PCB estava contra a luta armada.
Ainda tinha um grupo importante de militares desertores do Exército. A maioria
dos guerrilheiros foi presa antes de começar a luta armada na área rural. Na
verdade, a guerrilha ficou sendo urbana mesmo, sem repercussão maior.
A repressão do governo agia com muita eficácia e rapidamente os grupos
foram desmantelados. No final, tinham de assaltar bancos para levantar fundos
para a luta e seqüestrar embaixadores em troca da libertação de presos políticos.
Desde o início a guerrilha já tinha muitos erros. Ninguém tinha feito uma
análise profunda da sociedade brasileira para ter certeza de que aquela era a
melhor estratégia a ser seguida.
Por exemplo, sonhavam com uma guerrilha camponesa num país
enorme que já era urbano e industrial.
Queriam buscar seus próprios caminhos políticos, mas no fundo imitavam
modelos de outros países, como Cuba e China. Falavam em nome dos
trabalhadores, mas jamais tiveram um contato maior com a população. O povo,
dominado pela propaganda oficial e pela imprensa censurada, os ignorava ou
os tratava como bandidos, seqüestradores, assaltantes de banco, “terroristas”.
Viviam tão fora da realidade, que só faltaram dizer que as vitórias do
governo eram “a mostra do desespero da burguesia em sua crise final”. Coitados,
eram rapazes e moças que nunca tinham visto um revólver na vida enfrentando
um Exército profissional bem equipado e com assessoria dos EUA. Nem dava
para começar.
A única tentativa que teve
alguma consistência foi a
Guerrilha do Araguaia.
Ela se desenvolveu mais ou
menos entre 1972 e 1974,
organizada pelo PC do B.
Pois bem, no começo dos
anos 70, grandes empresas do
Sudeste e multinacionais investiram
em pecuária extensiva na região do
Tocantins-Araguaia.
Quando chegaram lá, já
havia pequenas roças na mão de
camponeses posseiros (não tinham
documentos legais da propriedade
da terra, apesar de trabalharem
nelas havia muitos anos).

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Nem quiseram saber, passaram a fazer grilagem das terras (tomar
ilegalmente). Quando o camponês não queria abandonar a terra, os capangas da
empresa iam lá, ateavam fogo no barraco, destruíam a plantação, espancavam os
moradores.
Como você pode perceber, as lutas de classes entre os grileiros e os
posseiros eram muito fortes. O PC do B quis aproveitar esse potencial de revolta
e chegou na região para montar uma base de treinamento. Foram descobertos
pelo Exército, que deslocou para a região milhares de soldados. Contra uns 60
guerrilheiros. Numa região isolada do país, imprensa censurada, as pessoas só
sabiam alguma coisa através de boatos.
Mas na região do Araguaia até hoje as pessoas humildes se recordam do
que aconteceu. Muitos militares abusaram do poder e espancaram brutalmente
a população para que revelasse os esconderijos dos guerrilheiros. Os
prisioneiros eram torturados de forma bárbara e muitos foram mortos. Os
guerrilheiros mortos foram enterrados em cemitérios clandestinos e até hoje as
famílias procuram seus corpos. Em 1974, a guerrilha do Araguaia estava
destruída.
O QUE DIZER SOBRE ESSA LOUCURA TODA?
Foram rapazes e moças, muitos ainda adolescentes, que tiveram a
coragem de abandonar o conforto do lar, a segurança de uma vida encaminhada,
a tranqüilidade da vida de jovem de classe média, para combater um regime
opressor com armas na mão.
Pessoas que dão a vida pelo ideal de libertação de seu povo não podem ser
consideradas criminosas.
Mesmo que a gente não concorde com os caminhos trilhados. Eles
mataram? Certamente. Mas nunca torturaram. Nem enterraram suas vítimas em
cemitérios clandestinos. E se o tivessem feito, nada disso justificaria a tortura e o
assassinato executados pelo governo.
Além disso, você acha mesmo inadmissível pegar em armas contra um
regime antidemocrático que esmagava o povo brasileiro?

Que moral uma ditadura tem para definir como deve ser combatida?

Agora responda em seu caderno:


4) Indique duas formas de reação popular contra o Regime Militar durante
os anos de 1967 e 1968.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Como é que a ditadura conseguiu acabar com a guerrilha?

Prepare-se, caro aluno, para as cenas de terror a seguir!


Porque a repressão foi selvagem!
Imagine que você fosse um guerrilheiro naquela época. Documento falso,
revólver escondido na cintura, distante da família, dos amigos, de qualquer
conhecido. Clandestino. Codinome, ou seja,
nome inventado, nem os companheiros sabiam
sua identidade. Se fossem presos, não poderiam
te revelar. Vocês se escondem num apartamento
discreto no subúrbio. E mudam de residência
quase todo mês. Esse esconderijo é chamado de
aparelho. Um dia você tem um ponto, ou seja,
um encontro marcado com outro guerrilheiro.
Ele não aparece. Provavelmente, caiu (foi
preso). Em algumas horas, debaixo de paulada,
pode ser que ele abra. Os meganhas logo vão
chegar. É preciso desativar o aparelho rápido.
De repente, chega a polícia. Tiroteio. Mortes. Se
você escapar com vida, vai direito para o porão.
Agora sim, você vai sentir na pele a face mais
negra do regime. A tortura.
Não houve guerrilheiro preso que não
fosse barbaramente torturado. Ficar pendurado
no pau-de-arara (um cavalete em que o sujeito
fica preso pela barra que passa na dobra do
joelho, com pés e mãos amarrados juntos) é um
dos piores suplícios. Além disso, pontapés, queimaduras de cigarros, choques
elétricos, alicates arrancando os mamilos, banhos de ácido, testículos amassados
com alicate, arame em brasa introduzido pela uretra, dente arrancado a pontapés,
olhos vazados com socos. Mulheres estupradas na frente dos filhos, homens
castrados. A lista de atrocidades é infindável.
Os torturadores são animais sádicos. Mas além da maldade pura e simples,
havia a necessidade estratégica: a tortura extraía confissões em pouco tempo,
dando oportunidade de prender outras pessoas, que também seriam torturadas,
revelando mais coisas e assim por diante. Infelizmente, a tortura revelou-se bem
eficaz.
Houve muita gente, entretanto, que nada falou. Veja bem, caro aluno,
bastava contar tudo que a tortura acabaria. Essa era a diabólica proposta.
Imagine-se no lugar do preso, apanhando feito um cão, nu, sangrando, com a
cabeça enfiada num balde cheio de fezes e vômito dos outros.
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Algumas frases e você seria mandado para um hospital. No entanto muitos
não falaram. Bravamente, recusaram-se a colaborar com a repressão.
Morto sob tortura tinha o caixão lacrado para ninguém ver o cadáver
arrebentado. O laudo oficial do IML dizia que a morte tinha ocorrido “em tiroteio
com a polícia”.
Uma geração que pagou um alto preço por seus sonhos: pagou com o
próprio sangue. Por isso, caro aluno, se hoje podemos escrever estas linhas, se
hoje você pode dizer o que pensa, saiba que entre os responsáveis por nossa
liberdade estão aqueles que deram sua vida para que um dia o país não
estivesse mais sob o jugo das botinas da tirania.
Mas, afinal, quem eram os
torturadores? Onde as pessoas eram
torturadas?
Ao contrário do que se possa pensar, a tortura não era feita em
algum lugar escondido, uma casa de subúrbio ou uma fazenda afastada de tudo.
Não, infelizmente as pessoas eram torturadas em lugares públicos, na frente de
muitas testemunhas. Como Mário Alves, dirigente do PCBR, torturado até a
morte nas dependências do Primeiro Batalhão de Polícia do Exército, na Rua
Barão de Mesquita, Tijuca, Rio de Janeiro. Reparou no local? Um quartel do
Exército! Como também aconteceu em delegacias, em bases da Marinha. Através
da Operação Bandeirantes (OBAN), do DOI-CODI (Departamento de Operações
e Informações – Centro de Operações e Defesa Interna), dos Serviços de
Informação das Forças Armadas (CENIMAR, CISA, CIEX), do DOPS e do SNI,
o governo exterminou a guerrilha
com brutalidade.
Claro que a maioria dos
militares não teve nenhum
envolvimento com a tortura. Muitos
sequer sabiam que ela estava
acontecendo. Mas é inegável que os
torturadores ocupavam importantes
posições no aparelho repressivo do
Estado: eram policiais civis, PMs,
agentes da polícia federal,
delegados, oficiais e sargentos da
Marinha, do Exército, da
Aeronáutica, médicos que avaliavam
a saúde da vítima e autorizavam a
continuação da tortura.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Muito triste é saber que alguns desses monstros permanecem na polícia,
nas Forças Armadas e que foram anistiados pelo general Figueiredo em 1979.
Neste país, jamais um torturador sentou no banco dos réus.
A ditadura não se manteve só com violência
física. Ela soube se valer de uma
propaganda ideológica massacrante. Numa
época em que todas as críticas ao governo
eram censuradas, os jornais, a tevê, os rádios
e revistas transmitiam a idéia de que o Brasil
tinha encontrado um caminho maravilhoso
de desenvolvimento e progresso.
Reportagens sobre grandes obras do governo
e o crescimento econômico do país
convenciam a população de que vivíamos
numa época incrível. Nas ruas as pessoas
cantavam: “Ninguém segura esse país”
Os guerrilheiros eram apresentados como
“terroristas”, “inimigos da pátria”, “agentes
subversivos”. Qualquer crítica era vista
como “coisa de comunista”, de
“baderneiro”. Houve até quem chegasse ao cúmulo de acusar os comunistas de
responsáveis pela difusão das drogas e da pornografia!
O futebol, como não poderia deixar de ser, foi utilizado como arma de
propaganda ideológica. Na época, a esquerda se perguntava: “O futebol aliena os
trabalhadores, é o ópio do povo?” E houve até quem torcesse para que o Brasil
perdesse a Copa: como se o trabalhador brasileiro precisasse de uma derrota no
jogo de futebol para realmente se sentir oprimido! Ou seja, quem estava
supervalorizando o futebol: o povão ou a esquerda? De qualquer modo, meu
amigo, aquela seleção de 1970 foi simplesmente o maior time de futebol que já
existiu. Pelé, Tostão, Jairzinho, Gérson, Rivelino, Clodoaldo, Carlos Alberto
Torres, seus craques são inesquecíveis. O tricampeonato conquistado na Copa do
México encheu o país de euforia. Nas casas (pela primeira vez a Copa foi
transmitida ao vivo pela televisão) e ruas o povo explodia de alegria e cantava:
“Todos juntos, vamos/ Pra frente Brasil...” Os homens do governo, claro,
trataram logo de aparecer em centenas de fotos ao lado dos craques. Queriam que
o país tivesse a impressão de que só tínhamos ganhado a Copa graças à ditadura
militar (embora as vitórias de 1958 e 1962 tivessem sido no tempo da
democracia, com JK e Jango).
Além do futebol, os brasileiros conheceram uma nova paixão, o
automobilismo. Até hoje, o mundo só teve um único piloto capaz de vencer na
sua estréia na Fórmula 1: o nosso Émerson Fittipaldi, campeão mundial em 1972
e 1974.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Nas escolas vivia-se um tempo de
ufanismo (exaltação da pátria). Todo mundo
tinha que acreditar que o Brasil estava se
tornando um país maravilhoso. Nos vidros dos
carros, os adesivos diziam: Brasil – Ame-o ou
deixe-o. É como se os perseguidos políticos
foragidos tivessem se exilado por
antipatriotismo. Um pontapé na verdade.
Claro que essa euforia toda no começo
dos anos 70 não vinha só das vitórias
esportivas e da máquina de propaganda do
governo. Em realidade, o país vivia a excitação
de um crescimento econômico espetacular. Era
o tempo do “milagre econômico”.

Agora responda:
5) Como você percebeu, no Regime Militar as liberdades foram limitadas e
os direitos humanos desrespeitados. Pesquise em jornais e revistas,
recorte e cole numa folha sulfite ou cartolina, um artigo que mostre
situações em que prevalece o clima de liberdade no Brasil de hoje e outro
artigo com notícias relatando ações que na sua opinião limitam essa
liberdade.

• GOVERNO DO GENERAL MÉDICI (1969-1974)

Costa e Silva não teve muito tempo para se alegrar com os efeitos do A.I. -
5: um derrame o matou, em agosto de 1969. O povo não teve tempo de se
alegrar: uma Junta Militar, comandada pelo general Lyra Tavares, assumiu o
governo até se nomear o novo general-presidente. O vice de Costa e Silva, o civil
Pedro Aleixo (ex-UDN), não tinha apoiado totalmente o AI-5 e por isso fora
jogado para escanteio.
No mesmo ano, ocorreu a Emenda Constitucional nº1, que alguns
juristas consideram quase como uma nova Constituição. Ela legalizou o arbítrio e
os poderes totalitários da ditadura. Todas aquelas medidas arbitrárias tipo o AI-5
e o decreto-lei 477 foram incorporadas à Constituição. Além disso, ela
estabeleceu que o presidente podia baixar medidas (decretos-lei) que valeriam
imediatamente.
O Congresso disporia de 60 dias para votar a aprovação. Se depois desse
prazo não tivesse havido votação (o Congresso poderia por exemplo, estar
fechado pelo AI-5, ou com número insuficiente de membros comparecendo às
sessões), ele seria automaticamente aprovado por decurso de prazo.

80
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Dias depois, era indicado o novo chefe supremo do país. O novo
presidente era o general Emílio Garrastazu Médici. Seu governo teve dois
pontos de destaque: o extermínio da guerrilha e o crescimento econômico
espetacular ( o “milagre”).
Nenhuma época do regime militar foi tão repressora e brutal. Nunca se
torturou e assassinou tanto. Nos porões do regime, as pessoas tinham suas vidas
postas na marca do pênalti. E assim os órgãos de repressão marcaram gols,
liquidando guerrilheiros como Marighella e Lamarca.
Na economia, o ministro Delfim Netto comandou o milagre
econômico. A produção crescia e se modernizava num ritmo espetacular. A
inflação, dentro dos padrões brasileiros, até que era moderada, lá na casa dos
vinte e tantos por cento. Construía-se com euforia. Obras, como a ponte Rio-
Niterói, a rodovia Transamazônica, a refinaria de Paulínia e a instalação da tevê
em cores (1972), pareciam mostrar que a prosperidade seria eterna. A classe
média comprava ações na Bolsa de Valores e imaginava se tornar grande
capitalista.

81
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Para acelerar o crescimento, ampliaram-se as empresas estatais ou
criaram-se novas, principalmente na produção de aço, petróleo, eletricidade,
estradas, mineração e telecomunicações. Os nomes delas você já ouviu falar:
Petrobrás, Eletrobrás, Telebrás, Correios, Vale do Rio Doce Companhia
Siderúrgica Nacional e tantas outras.
Crescimento e modernização que não beneficiavam as classes
trabalhadoras. Pelo contrário, quanto mais o país crescia, tanto mais piorava a
vida do povo. Em 1969, por exemplo, o salário mínimo só valia 42% do que
representava em 1959. Em 1974, isso
desceu para 36%.
Os ricos foram ficando cada vez
mais ricos e os pobres, cada vez mais
pobres. A ditadura foi uma espécie de
Robin Hood ao contrário, tirava dos
pobres para dar aos ricos!
Essa distribuição de renda ao
contrário era facilitada pelo fato de que
não havia nenhuma greve, nem sindicato
independente, nem a oposição no
Congresso tinha margem de manobra. Era
uma ditadura que fazia uma coisa incrível:
o país crescia como poucos no mundo e
quanto mais riquezas eram produzidas,
mais difícil ficava a vida dos
trabalhadores.
Até nos países mais pobres da África, a mortalidade infantil diminuía. Nas
grandes cidades brasileiras ela crescia. Quanto mais a renda per capita do Brasil
aumentava, mais as crianças pobres morriam por que comiam pouco, não eram
vacinadas, não tinham médico. De repente, houve uma epidemia de meningite.
Doença que pode matar. É preciso que os pais estejam alerta. O que fez a
ditadura? Proibiu que os jornais divulgassem qualquer notícia a respeito. O povo
tinha que ser enganado pela imagem de que no Brasil a saúde pública estava sob
controle. O que veio em seguida era previsível: os pais, sem saber do surto da
doença, não davam muita importância para aquela febrezinha do filho. Achavam
que era só uma gripe. Não levavam para o posto de saúde. Até que a criança
morria. A meningite mataria milhares de meninos e meninas no Brasil, numa das
mais terríveis epidemias do século.

Só esse caso já mostra como a ditadura era absurda,


não é mesmo?

82
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

O ministro Delfim Netto


dizia que era para o povo ter
paciência: “temos que esperar
o bolo crescer para depois
distribuir os pedaços”. E até
hoje o povão está esperando
sua fatia. Pois é, na cara de
pau, o general-presidente
Médici dizia: “A economia vai
bem, só o povo é que vai mal”.
Que consideração com o povo!
Grande parte da classe
média até que gostava daquilo
tudo. Afinal, a ditadura, além
de modernizar a indústria de
base, estimulou a de bens de
consumo duráveis. Maravilha
das maravilhas: a família de
classe média se realizava
existencialmente comprando tevê em cores (desde 1972), aparelhagens de som,
automóveis, eletrodomésticos. E até a classe operária foi arrastada nesse processo
de crença na ascensão social baseada na aquisição do radinho de pilha ou do tênis
maneiro.
Assim como os cabelos eram compridos e as barras das calças eram “boca
de sino”, as obras eram gigantescas. O governo fazia estádios de futebol
enquanto as escolas caíam aos pedaços. A rodovia Transamazônica, importante
para iniciar a colonização da Amazônia, não incluiu nenhum projeto de proteção
ao meio-ambiente, aos índios, aos camponeses e aos garimpeiros. A ponte Rio-
Niterói (1974) foi realmente importante para ligar a economia do Nordeste do
país ao Sudeste industrial (RJ e SP), mas ela custou uma fortuna. Certamente
teria sido mais barata se as contas tivessem sido controladas democraticamente.
Muita empresa construtora se deu bem fazendo essa obra encomendada pelo
governo.
Aliás, em quase todas as obras faraônicas (ou seja, enormes, caras e quase
inúteis) houve esquemas para homens do governo e firmas de engenharia civil
ganharem uma boa grana por fora. Velha história: sem democracia a roubalheira
rola solta porque não há imprensa livre e Congresso independente.
Um tratamento especial foi dado às empresas multinacionais
(estrangeiras). Elas tinham mais favores do governo do que as empresas
nacionais! O que não é de se espantar, pois grande parte dos homens do poder
eram profundamente ligados aos grupos estrangeiros e não hesitaram em usar sua
influência. Certos ministros, nesta época eram chamados de “entreguistas”, ou
seja, responsáveis conscientes pelo favorecimento escancarado do governo aos
monopólios estrangeiros.

83
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
É claro que hoje em dia não se pode ter aquela visão de ódio total às
multinacionais. Afinal, com a internacionalização da economia, ou seja, a ligação
econômica direta entre quase todos os países e continentes, elas se tornaram
peças fundamentais da economia mundial. Inclusive, por que parecem realmente
ser úteis parceiras em alguns setores, já que nenhum país pode ter sozinho
tecnologia e capital para produzir tudo. Todavia, é sensato esclarecer alguns
pontos: por que elas são as responsáveis por grande parte da dívida externa
brasileira? Será benéfico o governo pedir dinheiro emprestado aos banqueiros
internacionais para fazer obras gigantescas a favor das multinacionais? Ou
simplesmente para financiá-las? Será correto que elas mandem para fora lucros
de bilhões de dólares em vez de aqui reinvestir? Será interessante o seu poder de
levar à falência as empresas nacionais, através de uma concorrência desleal? Será
que elas realmente nos transferem tecnologia ou só mandam pacotes prontos
feitos nos seus laboratórios? Será que elas não mandam dinheiro escondido “por
debaixo do pano” Será que não interferem na nossa vida interna, combatendo
governos que não lhes interessam, mesmo se estes forem a favor do povo? Será
saudável que produzam aqui remédios e produtos químicos proibidos em seus
países de origem? Por que será que um operário da Volkswagen ou da Ford no
Brasil faz o mesmo serviço, nos mesmos ritmos e níveis de tecnologia, que
operários dessas empresas na Alemanha ou nos Estados Unidos e, no entanto,
ganha tão menos? Quantas perguntas...

Bem, aí estava o “milagre econômico”: modernização, crescimento


acelerado, inflação moderada, facilidades para o investimento estrangeiro, e
também ricos mais ricos e pobres mais pobres e aumento da dívida externa. Você
reparou que era um esquema parecido com o que já havia no tempo de Juscelino
Kubitschek? O desenvolvimento espetacular das telecomunicações e da indústria
de bens de consumo duráveis (automóveis, eletrodomésticos, prédios de luxo e
mansões financiados pelo BNH) eram voltados principalmente para a classe
média e superior. Milhões de brasileiros estavam meio por fora desse mercado.
Claro, portanto, que essa festa não iria durar muito. O modelo se esgotava
e a crise chegava mais rápido do que o Émerson Fittipaldi.

Agora responda em seu caderno:


6) Retire do próprio texto uma frase que justifique a afirmação: “Dentro do
Regime Militar havia muita corrupção”.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

• GOVERNO DO GENERAL ERNESTO GEISEL (1974-1979)

O novo general-presidente, Ernesto Geisel, assumiu o governo num


momento difícil da economia do Brasil e do mundo. Para alimentar o
crescimento, ele pediu emprestado aos banqueiros estrangeiros e tratou de emitir
papel-moeda. A inflação começou a aumentar e a engolir salários. Era o fim do
“milagre econômico”. Agora, a insatisfação crescia. Isso ficava claro com o
aumento de votos do MDB. Geisel percebeu que a ditadura estava chegando ao
fim de sua vida útil. O jeito era acabar com o regime mas manter as coisas sob
controle. Com ele, começaria a “distensão lenta e gradual”. Vamos ver como foi
isso.

O ano de 1973 assinalou o início de um choque na economia capitalista


mundial. Parecida com a de 1929, mas com efeitos bem menores para os países
capitalistas desenvolvidos, que empurraram a crise para cima do Terceiro
Mundo. De certa forma, os apertos econômicos dos países subdesenvolvidos, nos
anos 90, foram continuação do processo de 1973.

Tentaram botar a culpa nos árabes, porque eles aumentaram os preços do


petróleo. Conversa fiada. O aumento foi apenas a recuperação de preços, que
vinham caindo muito, desde os anos 50. Para você ter uma idéia, antes do
aumento imposto pela OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo)
em 1973, o preço do barril de petróleo no mercado mundial era inferior ao do
barril de água mineral! Claro que o aumento dos preços pegou todo mundo de
surpresa, aumentou os custos, cortou os lucros, provocando inflação e
desemprego. A crise do petróleo reforçou a crise geral do capitalismo em 1973.
Mas com certeza a crise não foi só energética. Afinal, países exportadores de
petróleo também entraram em crise!
O que aconteceu foi uma crise clássica de superprodução de mercadorias,
tal como ocorrera em 1929. Depois da Segunda Guerra, os EUA representavam
metade da produção econômica mundial. Mas nos anos seguintes a Europa
Ocidental recuperou plenamente sua economia. Surgiu também um grande
competidor, o Japão. De repente, o mercado mundial ficou apertado, não havia
como continuar investindo capital nos mesmos ritmos. As mercadorias
começaram a ficar encalhadas e logo vieram as falências, as inflações, a recessão.
Aqui no Brasil, o governo botava a culpa nos outros. Dizia que a crise era
mundial. Certo. Mas por que aqui ela era tão devastadora? Porque a política
econômica da ditadura nos tornava indefesos. O petróleo não representava nem
25% das nossas importações em 1975. Além disso, não só aumentou nossa
produção interna, como seus preços internacionais cairiam nos anos 80. No
entanto, a crise foi aumentando ano após ano. Uma coisa tão brava que o nosso
jovem aluno com certeza viveu a maior parte de sua vida sob o signo da crise
econômica brasileira.
85
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

O que acontece é que o modelo econômico da ditadura era baseado no


pequeno mercado interno, representando pelos ricos e pela classe média. Tinha-
se alcançado um estágio em que não dava para aumentar a produção, por falta de
consumidores aqui dentro.
Como produzir mais automóveis se a maioria dos brasileiros não
tinha dinheiro para comprá-los?
Ficava claro que só havia um jeito de ampliar o mercado consumidor:
distribuindo renda. Para isso, seria preciso tocar em privilégios, mexer em
interesses poderosos. Então, o regime militar não faria nada disso.
O governo preferiu outro caminho. Para a economia não entrar em
recessão, isto é, para a economia não regredir, o Estado começou a tomar
empréstimos externos para financiar a produção. Supunham que a economia
cresceria, que as exportações se tornariam espetaculares e que tudo isso daria
condições de pagar a dívida externa. Só que os banqueiros internacionais não são
trouxas. Emprestaram dinheiro porque sabiam que o Brasil teria de devolver
muito mais em forma de juros. Se fizermos as contas direitinho no papel, vamos
concluir que nos anos 70 e 80, o Brasil pagou, só de juros, muito mais do que
pediu emprestado! Ou seja, já pagamos tudo, continuamos
pagando e ficamos devendo mais ainda!
A dívida externa funciona como uma bomba de sucção que suga os
recursos da economia do Brasil. Aliás, o problema da dívida externa é comum
em todo o Terceiro Mundo. Segundo os dados insuspeitos do Banco Mundial, na
década de 80 foram drenados bilhões de dólares do Terceiro Mundo para o
Primeiro. Ou seja, a parte pobre, esfarrapada e faminta do planeta é que mandou
dinheiro para a parte milionária! Atualmente, é óbvio, esse esquema continua.
O mais triste é quando a gente consta que grande parte da dívida externa
brasileira foi contraída financiando a vinda de multinacionais, construindo obras
gigantescas só para favorecer empresas estrangeiras (estradas, hidrelétricas), sem
falar construções que o governo nunca terminou, deixando as máquinas e o
material serem destruídos pelo tempo.
Pois é, apertado, o governo precisava de mais dinheiro ainda. Para ele, é
fácil. É só fabricar, emitir papel-moeda. Aí, vem a inflação.
A crise se manifestava com a queda da proporção dos lucros. Os
empresários não tinham conversa: buscaram lucrar na marra, botando os preços
lá em cima. Ora, é impossível que os empresários como um todo, possam lucrar
na base do simples aumento de preços. Quando alguém aumenta os preços, o
outro aumenta também para compensar. Os trabalhadores querem salário maior
só para compensar a perda com os aumentos gerais de preços. Os empresários
aumentam os salários e, em seguida, sobem mais ainda os preços para reparar as
perdas com a alta de preços e salários. Portanto, quem mais perde com a inflação
são os trabalhadores. Pois a inflação veio a jato, mas os salários andam como
uma lesma.

O general Geisel governou dentro desse quadro de crise econômica.

86
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

No meio da crise de energia, o Brasil teve a sorte de descobrir petróleo na


Bacia de Campos (RJ), em frente à cidade de Macaé. A Petrobrás pôde aumentar
sua produção espetacularmente. Mas Geisel tinha também outros planos para
resolver o problema energético: como não havia dinheiro no Brasil, a solução foi
gastar mais dinheiro ainda. O acordo nuclear Brasil-Alemanha custou uma
fortuna de bilhões de dólares. Para fazer usinas perigosíssimas num país onde
80% do potencial hidrelétrico ainda não foi aproveitado. Incrível, não? A Usina
de Angra dos Reis (RJ) fica exatamente entre os dois maiores centros industriais
do país: São Paulo e Rio de Janeiro. Imagine se houvesse um acidente nuclear!
Na verdade, a velha Doutrina de Segurança Nacional continuava ativa.
Geisel montou um acordo nuclear com a Alemanha porque acreditava que o
Brasil precisava aprender a dominar a tecnologia capaz de produzir, num futuro
próximo, a bomba atômica. Na mesma época, a Argentina, que vivia uma
ditadura militar desde 1976, também sonhava com cogumelos nucleares.

No mesmo ano (1975), teve início o Projeto Pró-álcool. A idéia era


substituir a gasolina pelo álcool combustível. Os usineiros se alegraram. As
plantações de cana-de-açúcar foram ocupando tudo quanto é lugar, expulsando os
camponeses moradores, acabando com as plantações de alimentos (tornando a
comida mais cara) e despejando o poluente vinhoto nos rios. Nos anos 80, com a
queda do preço mundial de petróleo, o Brasil ficou com uma enorme frota de
carros movidos a um combustível caríssimo. Já em 1990, querendo melhores
preços, os usineiros “sumiriam” com o álcool. Na verdade, o álcool se revelou
um combustível muito mais caro do que a gasolina (no posto, o álcool é mais
barato porque é subsidiado, ou seja, o governo paga uma parte da conta. Mas
onde arruma dinheiro para fazer esta caridade? Cobrando mais alto pela gasolina.
Trocando em miúdos: quem tem carro a gasolina está ajudando a encher o tanque
de quem tem carro a álcool). O que se viu nesses anos todos foi o governo
emprestando milhões de dólares aos usineiros do Nordeste, do Rio de Janeiro e
de São Paulo e depois perdoando as dívidas porque não suporta mais a choradeira
dos produtores de álcool e açúcar. Enquanto isso, os cortadores de cana
continuam passando fome.
Ora, por que não estimularam o transporte ferroviário e o fluvial, bem
mais baratos, podendo, em alguns casos, usar energia elétrica? Não foi
incompetência. Na verdade, desde Juscelino que uma das espinhas dorsais de
nossa indústria é a fabricação de automóveis e caminhões. As pressões das
multinacionais desse setor forçaram o governo a abandonar outras opções de
transporte. As estradas de ferro, tão importantes nos países desenvolvidos, foram
relegadas a segundo plano pelo governo e as estatais deste setor tiveram seus
recursos cortados.
O II PND ( Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento) – o I PND foi
no governo Médici, sob a batuta do ministro Delfim Netto -, comandado pelo
Ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen, e pelo do Planejamento, Reis
Velloso, tinha como objetivo começar a substituir as importações de bens de
capital (indústria de base).

87
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Para isso, o BNDE concedeu créditos generosos a empresas privadas do


setor, mas principalmente as empresas estatais tiveram grande crescimento,
especialmente a Eletrobrás (que comprou a multinacional Ligth and Power e
levou adiante a construção da maior usina hidrelétrica do mundo, Itaipu, na
fronteira com o Paraguai), a Embratel (telefones, satélites de comunicações,
televisão etc.), a Petrobrás e as estatais de aço. Tudo isso alimentado por uma
dívida externa que aumentava sem parar. Em breve, os banqueiros viriam cobrar
a dívida e os juros. Aí, a economia sentiria a força de sucção dos interesses
internacionais.
Os resultados dos problemas econômicos foram que nas eleições para
deputado federal e estadual e para o Senado, em 1974 e 1978, o MDB teve ótima
votação. Um aviso claro para o pessoal da ditadura se mancar. O povo estava
dizendo NÃO ao regime.
No Alto Comando Militar, as divisões políticas se acentuaram. Uns
achavam que a ditadura deveria ir afrouxando, acabando de modo lento e
controlado. Talvez, para os ditadores saírem discretamente pelos fundos, sem
ninguém correr atrás deles. Esses generais moderados e favoráveis ao gradual
retorno à normalidade democrática eram chamados de castelistas, porque se
sentiam continuadores de Castello Branco. Era o caso do próprio Geisel e do
presidente seguinte, Figueiredo. Outros militares defendiam a “linha dura”,
alguns deles eram civis e queriam apertar ainda mais. Costa e Silva e Médici, por
exemplo, tinham sido de linha dura. Começou então um combate nos bastidores,
entre os militares castelistas e os linha dura. E os linha dura bem que pegaram
pesado!!!

Em outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog, diretor de


telejornalismo da TV Cultura de São Paulo, foi chamado para um interrogatório
num quartel do Exército, sede do DOI-CODI. Lá ficou, preso e incomunicável.
Dias depois, a família recebeu a notícia de que ele havia “se suicidado”. Com um
detalhe: teria de ser enterrado em um caixão lacrado, para que ninguém pudesse
ver o estado do cadáver. Suicídio mesmo ou o corpo estava arrebentado pela
tortura? No ano seguinte, o operário Manoel Fiel Filho sofreu o mesmo destino.
A farsa era evidente: é óbvio que ambos tinham sido mortos por espancamento.
Em homenagem a Herzog, o cardeal de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns, junto
ao pastor James Wright e o rabino Henri Sobel, dirigiu um culto ecumênico
(reunindo as religiões) em frente à catedral da Sé. Havia milhares de pessoas
nesta que foi a primeira manifestação de massa desde 1968. Mostra clara de que
a sociedade civil estava voltando para as ruas para protestar contra o arbítrio.

Indiretamente, Geisel reconheceu o crime. Não prendeu ninguém, mas


exonerou o comandante do II Exército, responsável pelos acontecimentos.
Deixava claro que não admitiria os atos violentos da linha dura. Em 1978, o
Poder Judiciário daria ganho de causa à família de Herzog, botando a culpa na
União. Sinal dos tempos.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Claro que a esquerda não podia dar bobeira. A ditadura ainda existia. Um
trágico exemplo disso foi o massacre da Lapa, quando agentes do Exército
invadiram uma casa neste bairro da capital paulista, em 1976, onde se realizava
uma reunião secreta de dirigentes do PC do B. As pessoas nem puderam esboçar
reação: foram exterminadas ali mesmo, covardemente.

No governo Geisel, a dureza do regime começou a diminuir bem devagar.


Para isso, teve de usar a habilidade para derrubar seus opositores de linha dura. A
balança pendeu para o seu lado quando ele, nem gesto fulminante exonerou o
general Sílvio Frota (1977), ministro do Exército, tido como de extrema direita e
ligado à tortura.

Alguns militares eram favoráveis à distensão política porque realmente


estavam imbuídos de convicções democráticas. Outros, não tão liberais,
avaliavam que as Forças Armadas estavam começando a se desgastar ao se
manter num governo que enfrentava uma crise econômica violenta. Geisel,
portanto, tinha um plano claro: distensão lenta e gradual. Ou seja, abrir o regime
bem devagarzinho e sem perder o comando sobre ele.

Dentro deste espírito de distensão controlada, Geisel buscou evitar as


vitórias eleitorais do
MDB. Para isso, mudou
as regras das eleições.
Seu ministro da Justiça,
Armando Falcão,
inventou a tal Lei Falcão
(1976), que dizia que a
propaganda política na
tevê só podia exibir uma
foto 3X4 do candidato e
seu currículo, lido por um
locutor. Nada de um candidato do MDB aparecer na telinha ou no rádio para
criticar o governo e fazer propostas novas.

O natal de 1977 foi antecipado: Geisel fechou o Congresso e deu um


presentinho para os brasileiros, o Pacotão de Abril. Lindas surpresas. Para
começar, a cada eleição a Arena perdia mais deputados para o MDB. Em breve, o
partido do governo não teria os 2/3 do Congresso necessários para mudar alguma
coisa da Constituição. Então, o Pacotão determinava que a Constituição agora
poderia ser modificada com apenas 50% dos votos dos Congressistas mais um.
Assim, a Arena (ainda maioria) garantia seu poder constitucional. No senado, o
MDB também ameaçava. Resultado: o Pacotão determinou que um terço dos
senadores passariam a ser biônicos, ou seja, escolhidos indiretamente pelas
Assembléias Legislativas de cada Estado. Em outras palavras, a Arena já tinha
garantido quase um terço do senado, os outros 2/3 seriam disputados com o
MDB nas eleições normais.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
O Pacotão também alterou o quociente eleitoral, de modo que os Estados
do Nordeste, onde a população rural ainda era dominada pelos currais eleitorais,
assegurado o direito de eleger um número maior de deputados para o Congresso.
No sertão nordestino, chuva mesmo, só de deputados da Arena. O pacotão fazia
das eleições um jogo de futebol em que o dono da bola joga de um lado e, ao
mesmo tempo, é juiz.
Em 1978 foi decretado o fim do AI-5, o que mostrava alguma boa
vontade de Geisel com a abertura política. Mas antes de ele acabar com o ato
arbitrário, usou o AI-5 para cassar diversos opositores. Mais ou menos como o
pistoleiro que mata todo mundo e que, depois de acabarem as balas, resolve se
arrepender do que fez. A garantia disso tudo era a Lei de Segurança Nacional
(LSN) que continuava sendo mantida.

O Brasil baseou-se no chamado pragmatismo responsável: restabeleceu


relações com países comunistas como a China, porque isso trazia vantagem
comercial e diplomática. Em 1975, na África, Angola, Moçambique, Guiné-
Bissau e Cabo Verde deixaram de ser colônias de Portugal.

No poder, partidos de orientação marxista, apoiados por Cuba e URSS.


Acontecia que o governo militar ainda seguia a visão da Doutrina de Segurança
Nacional que sonhava em transformar o Brasil na grande potência que dominaria
a América do Sul e o Sul da África.
Por isso, o Brasil não teve conversa e apoiou os governos de esquerda em
Angola e Moçambique, inclusive contrariando a vontade do governo racista da
África do Sul e dos EUA. Na verdade, os EUA, dos presidente Carter, andaram
pressionando o governo militar brasileiro por causa da violação de direitos
humanos (incluindo tortura e execução de presos políticos). Coisa de americanos:
apoiaram o golpe de 64, depois mudaram de governo e passaram a criticar.

Diante disso, e de olho no acordo nuclear Brasil-Alemanha. Geisel acabou


rompendo um acordo militar Brasil-EUA. Isso mostra uma coisa muito
importante, caro aluno: apesar de o regime militar brasileiro ter sido apoiado
pelos EUA, isso não quer dizer que o Brasil sempre tivesse seguido os
americanos. Não foram eles que impuseram o regime aqui. A explicação básica
do que acontece no Brasil tem de ser buscada aqui mesmo, nas nossas
contradições internas. Culpar o imperialismo por tudo é cômodo e superficial.

No final do seu governo, Geisel passou o bastão para o general


Figueiredo. A crise continuava e as pressões populares pelas mudanças, também.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

No final da década de 70, na passagem do governo Geisel para o de


Figueiredo, estava ficando claro que a ditadura estava acabando. A palavra da
moda era abertura, especialmente abertura política. Vimos que os generais
castelistas, como Geisel e Figueiredo, eram favoráveis à abertura política. Mas
seria um grave erro atribuir o fim do regime à boa vontade democrática dos
militares.
Na verdade, a ditadura estava afundando. Para começar, a crise
econômica: inflação, diminuição do crescimento econômico, aumento da
pobreza. Foi só Geisel abrandar a censura para que os escândalos de corrupção
no governo começassem a pipocar. Tudo isso tirava a confiança da população no
governo. Bastava ter eleição e pimba, o MDB ganhava mais votos do que a
Arena. No começo do regime, castrado pelas cassações, o MDB era uma
presença tímida. Praticamente só havia Arena no Brasil. Aos poucos, entretanto,
o MDB foi ampliando sua capacidade de fustigar a ditadura. Nele havia desde
liberais até comunistas, todos unidos com um propósito básico: acabar com o
regime militar, restaurar a democracia no Brasil.
Portanto, ao contrário do que disse a propaganda oficial, a tal abertura
política não foi resultado simplesmente da boa vontade do governo. Foi o recuo
de um regime acossado pela crise e atacado por um povo que se organizava.
Em nenhum momento do regime a oposição democrática se calou.
Todavia, a partir de 1975, essa oposição atuava de outro jeito. Não eram mais
estudantes jogando pedra para enfrentar a polícia, como nas memoráveis
passeatas de 1968, nem eram meia dúzia de guerrilheiros cutucando a onça
blindada com vara curta. Agora a luta contra o regime ainda tinha o mesmo
ardor, o mesmo idealismo, só que com maturidade, com substância. O segredo
era a mobilização da sociedade civil.

A sociedade civil se opõe ao Estado. Quem faz parte do Estado?


Os políticos, os juizes e tribunais, a administração pública, a polícia, o Exército
etc. As instituições da sociedade civil são organizações como sindicatos,
associações de moradores, grupos feministas, igrejas, comitês de defesa de
direitos humanos, sociedades ecológicas e culturais etc.
Para começar, a Igreja Católica passava por um processo de grandes
mudanças. Agora, crescia a consciência de que ser cristão era também ser contra
o pecado da opressão social, contra o pecado de nada fazer diante da injustiça
social; ser solidário com os pobres; lutar por um mundo mais justo. Era a
Teologia da Libertação. Grandes figuras como Dom Hélder Câmara, Dom
Evaristo Arns e Dom Pedro Casaldáliga, frei Betto e frei Leonardo Boff,
defenderam os direitos humanos, denunciaram as injustiças sociais, exigiram que
o governo mudasse suas atitudes.

91
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Organizada nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), a população
católica ia se conscientizando. Descobria-se que o Evangelho não era uma
mensagem para manter escravos, mas justamente o contrário, uma boa-nova de
libertação, libertação de toda a opressão, incluindo a opressão social. Nos anos
80, surgiram diversos movimentos de operários e de camponeses, que ergueram
sua voz para exigir direitos. Muitos deles se originaram das CPT (Comissões
Pastorais da Terra) e das CEBs católicas.
O movimento estudantil universitário renascia. Nas principais
universidades do Brasil, o pessoal reorganizava as entidades representativas
(Centros Acadêmicos, Diretórios Acadêmicos, Diretórios Centrais dos
Estudantes). Esta geração do final dos anos 70 e começo dos anos 80 mostraria
que a política ainda corria no sangue dos estudantes. Mas as coisas não eram
fáceis. As faculdades ainda estavam cheias de agentes secretos do SNI infiltrados
e em algumas tentativas de refazerem a UNE, foram desfeitas com brutalidade
pela polícia. Mesmo assim, em 1979, num congresso em Salvador, a UNE estava
recriada.
Entidades como a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da
Ciência) a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e intelectuais de prestígio se
manifestavam contra o regime. A imprensa alternativa, representada pelos jornais
O Pasquim, Movimento e Opinião, não descansava. A censura tinha sido
abrandada no final do governo Geisel e, portanto, já havia um espaço para falar
de coisas novas na política.
Em 1975, foi criado o MFA (Movimento Feminino pela Anistia), para que
os presos políticos fossem soltos, os exilados pudessem voltar à pátria e os
cassados recebessem justiça. Em 1978, foi criado o CBA (Comitê Brasileiro pela
Anistia). O Brasil repudiava a tortura e a arbitrariedade.
Como você vê, a oposição estava articulada: jornalistas, MDB, estudantes,
Igreja Católica, intelectuais, movimento pela anistia. Mas as coisas não seriam
tão fáceis assim.
A extrema direita respondeu com fogo. D. Adriano Hipólito, bispo de
Nova Iguaçu (Rio de Janeiro), foi seqüestrado e espancado. Bombas explodiram
na ABI (Associação Brasileira de Imprensa), e na Editora Civilização Brasileira.
A situação ficou tensa. As forças democráticas avançavam, mas a direita
replicava. O governo, irritado, se confundia, reprimia, vacilava. Era o impasse.
Para onde iria o Brasil?
Apesar de toda a articulação da sociedade, o regime autoritário dava a
impressão de ser capaz de resistir por muito tempo. Seria uma muralha
indestrutível?
Haveria algum movimento social capaz de provocar a virada decisiva? As
pessoas se entreolhavam angustiadas: e agora?

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Saab-Scania, multinacional sueca de salários brasileiros localizada em São


Bernardo do Campo (São Paulo). São 7 horas da manhã. É 13 de maio de 1978,
sexta-feira. Os diretores e executivos observam e não acreditam no que vêem: os
operários estão ali, bateram cartão de ponto, mas nada funciona. Braços
cruzados, máquinas paradas. E sem o peão, nada existe.

A greve. Apesar da rígida proibição da ditadura, os trabalhadores


pararam. E dali se espalharam e paralisaram o cinturão industrial do ABC
Paulista.
Foi uma loucura.
Todo mundo ficou
perplexo. Desde o
governo até a esquerda
tradicional, incapazes de
aceitar que a classe
trabalhadora pudesse, por
conta própria, resolver
seus problemas.
Na liderança, uma
nova cabeça no país, que
não estava ligada a
nenhum partido, a
nenhum grupo de
esquerda: Luís Inácio
Lula da Silva, o Lula,
presidente do Sindicato
dos Metalúrgicos de São
Bernardo do Campo.
Filho de camponeses nordestinos que emigraram para São Paulo, Lula
trabalhava desde criança. Bom operário, torneiro-mecânico, perdeu o dedo num
acidente de trabalho tão comum no Brasil.
Na adolescência, não ligava muito para política nem para sindicato.
Amadureceu, começou a tomar consciência das coisas e entrou para o sindicato.
Assim iria se tornar o mais influente líder sindical operário de toda a
história do Brasil. E quem diria, até se tornou Presidente da República!

Nesta época, o Brasil inteiro explodiu em greves. Todo mundo queria de


volta o que a inflação tinha levado para os patrões. Categorias que antes de 1964
jamais teriam organizado um movimento (afinal, eram de “classe média”), como
professores, médicos e engenheiros, descobriram a necessidade de também
participar do sindicalismo combativo.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
A ditadura reprimia sem dó. O operário Santo Dias, ativista sindical, foi
assassinado pela PM na rua. Era preciso deixar claro que novas rebeldias não
seriam toleradas.
Pois não se intimidaram. Contra os abusos dos patrões, novas greves no
ABC, em 1980.
Uma operação de guerra foi montada. Guerra contra trabalhadores
desarmados. O comandante do II Exército planejou as ações bélicas.
Mobilizaram-se homens, armas, recursos. A polícia federal chefiada pelo Dr.
Romeu Tuma, o DOPS e o DOI-CODI prenderam Lula e mais 15 dirigentes
sindicais. Ficaram incomunicáveis.
Esperavam que, prendendo a liderança, acabariam as greves. Engano. Esse
era um novo sindicalismo. Organizado pela base, sem chefes supremos a decidir
tudo.
A greve continuava. Proibida pelo governo, decretada ilegal pelo Tribunal
do Trabalho. Mais prisões de políticos, advogados e sindicalistas. A televisão só
entrevistava ministro, patrão, policial e pelego, para dar a impressão de que o
Brasil era contra. Mas o povo colhia donativos nas ruas para ajudar as famílias
dos operários. Provocadores da polícia destruíram lojas, para criar a fama de que
greve é baderna. Jornalistas os fotografaram e desmascararam a armação.
O Exército deu, então, o ultimato. As ruas de São Bernardo do Campo
foram ocupadas por blindados, soldados de fuzis automáticos, ninhos de
metralhadoras. Helicópteros equipados com bombas patrulhavam a cidade.
Estava terminantemente proibido fazer assembléia operária.
Pois uma multidão de 120 mil pessoas desafiou o poder. Cabeças erguidas,
força da verdade no coração. Massacrá-los seria dar início a uma guerra civil.
No dia seguinte, não havia mais soldados em São Bernardo. A luta da
classe operária havia derrotado a ditadura.

• GOVERNO DO GENERAL FIGUEIREDO (1979-1985)

Em março de 1979, tomou posse na presidência o general João Baptista


Figueiredo. O novo presidente deu continuidade ao processo de abertura política
iniciado por Geisel e prometeu fazer do país uma democracia.

Neste momento crescia no país a crítica política às decisões autoritárias e


centralizadoras do governo militar. Diversos setores da sociedade brasileira
(sindicatos de trabalhadores, grupos de empresários, Igrejas, associações
artísticas, universidades, imprensa) passaram a reivindicar a redemocratização do
país.

Diante das pressões de toda a sociedade, o presidente Figueiredo assumiu


o compromisso de realizar a “abertura política” e devolver a democracia ao
Brasil.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Figueiredo gostava de dizer que “jurou fazer deste país uma democracia”.
Mas sua abertura foi uma mistura de oportunismo com recuo. É bem verdade que
a censura abrandou, embora fosse mais fácil publicar revistas pornôs do que
jornaizinhos de esquerda. Realmente, Figueiredo era tolerante com as
manifestações democráticas.
Não foi à toa que os generais linha-dura nunca o perdoaram e até hoje o
xingam de “traidor do regime”. Ponto favorável para ele no julgamento da
história. Mas não se deve esquecer o lado repressor do governo Figueiredo:
reprimiu greves; prendeu militantes do PCB e do PC do B; expulsou padres
estrangeiros que colaboravam com a luta camponesa pela reforma agrária; impôs
novidades nas regras eleitorais, para favorecer o governo; fez com que mudanças
na Constituição só ocorressem com aprovação de dois terços do Congresso;
enquadrou estudantes na LSN (Lei de Segurança Nacional).
A extrema direita, que nunca foi reprimida, continuou fazendo das suas:
um atentado terrorista à secretária da OAB (1980). No ano seguinte, durante um
show de MPB comemorando o dia 1º de maio, várias bombas foram instaladas
no Rio-centro (Rio de Janeiro). A operação falhou e a bomba explodiu no colo
dos próprios militares, matando um sargento e ferindo gravemente um capitão do
Exército.
O objetivo dos setores militares que promoviam essas ações era atribuir os
atentados à esquerda e, assim, ganhar argumentos para combater a abertura
política.
A campanha da sociedade pela redemocratização do país obteve os
primeiros resultados positivos: anistia, fim do bipartidarismo...

ANISTIA – perdão a todos os que haviam sido punidos pela ditadura


militar. Ela veio em 1979. Mas não foi “ampla, geral e irrestrita”. O pior é que os
torturadores também foram anistiados, sem jamais terem sentado no banco dos
réus.
De qualquer modo, ela permitiu o retorno dos exilados e a libertação dos
presos políticos.
Os reencontros
no aeroporto e
na saída da
cadeia
emocionaram
uma geração que
havia sacrificado
sua juventude
por seu pa-
triotismo.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

FIM DO BIPARTIDARISMO - Figueiredo baixou a Nova Lei


Orgânica dos Partidos (1979) que acabava com a divisão Arena e MDB. Foi
assim que nasceram cinco novos partidos políticos:

O PDS (Partido Democrático Social) era o novo nome da Arena.


Representava os políticos que apoiaram a ditadura. Portanto, tinha bem pouco de
democrático e quase nada de social. O líder era o senador José Sarney, do
Maranhão.
O PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro) herdava o
antigo MDB. Continuou sendo o grande partido da oposição, reunindo diversas
correntes políticas, incluindo conservadores moderados liberais e até os
comunistas (os Partidos Comunistas ainda estavam proibidos de funcionar). O
líder era o deputado Ulisses Guimarães, figura importante na luta contra o regime
militar.
O PDT (Partido Democrático Trabalhista) era chefiado por Leonel
Brizola, que tinha voltado do exílio. Naquela época, Brizola gozava de enorme
prestígio como o homem contrário a tudo de ruim do regime militar. Propunha
ser herdeiro do trabalhismo de Vargas e Jango, misturado à social-democracia,
(uma espécie de capitalismo reformado com medidas inspiradas no socialismo).
O PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) não tinha nada a ver com o antigo
PTB. Pelo contrário, chegou a abrigar antigos udenistas e até algumas figuras da
antiga Arena. Ficou nas mãos da deputada Ivete Vargas e foi visto como uma
criação ardilosa do regime, uma espécie de filial camuflada do PDS.
O PT (Partido dos Trabalhadores) aparecia como o grande partido de
esquerda do Brasil. Na sua origem, o movimento operário organizado no ABC
paulista, liderado por Lula, mas também dirigentes sindicais de outras categorias
operárias e até de setores como o bancário, o de professores e de funcionários
públicos. O PT também recebeu apoio de setores da Igreja Católica (ligados à
Teologia da Libertação), estudantes universitários e intelectuais, reunindo desde
marxistas a social-democratas.

Ainda houve um partido de existência efêmera (passageira), o PP (Partido


Popular), que tinha pouco de popular, já que sua liderança estava nas mãos de
grandes banqueiros e políticos tradicionais como Tancredo Neves. Mas como a
lei eleitoral de 1982 obrigava a votação de todos os candidatos (de vereador a
governador) do mesmo partido o PP acabou se fundindo ao PMDB.
Em 1982, com as eleições diretas para governador restabelecidas, a
oposição obteve vitórias espetaculares: Franco Montoro (PMDB-SP), Leonel
Brizola (PDT-RJ) e Tancredo Neves (PMDB-MG), embora tenha perdido no Rio
Grande do Sul.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Você lembra, que o ministro Delfim Netto,


achava que “primeiro o bolo deveria crescer, para
depois ser dividido”. Pois aí está a grande enganação da
ditadura: o Brasil teve um grande crescimento econômico e sua renda
per capita ficou bem maior. Mas o bolo foi comido pelos ricos.
Segundo o IBGE, em 1980 aos 5% mais ricos cabiam 37,9% do total da
renda do país, e aos 50% mais pobres sobravam 12,6%. Percebeu, aluno amigo?
A fatia para ser partilhada pelos 5% mais ricos era três vezes maior do que a
fatiazinha que ainda tinha de ser rachada entre a multidão dos 50% mais
famintos! Eta festazinha de aniversário safada: isso tinha de dar bolo!
Através da inflação, os salários eram comidos pelos patrões. Não
satisfeito, o governo Figueiredo inventou várias leis que deveriam proibir
aumentos salariais para compensar a inflação. Mas os tempos eram outros e o
Congresso Nacional barrou as medidas.

A dívida externa alcançou cifras absurdas: quase 100 bilhões de


dólares. Ora, ela fez com que o Brasil tivesse de pagar, todos os anos, vários
bilhões de dólares aos banqueiros internacionais que tinham financiado o país. O
resultado é que pagamos os tais 100 bilhões, mas continuamos devendo a mesma
quantia! E continuamos tendo de pagar!

A partir de 1982, o país começou a negociar com o FMI (Fundo


Monetário Internacional), para ajudar no pagamento da dívida externa. O FMI,
como sempre fez exigências cruéis: o Brasil deveria reduzir os salários, cortar os
gastos públicos (menos dinheiro para as escolas e universidades, para os
hospitais, para investir na economia) aceitar que a economia parasse de crescer,
tudo isso em nome da estabilização econômica. Para a oposição, recorrer ao FMI
era botar a economia do Brasil nas mãos do capitalismo internacional.

Já conhecemos esta história, não é mesmo?

Na verdade, o regime militar tinha simplesmente desgraçado nossa


economia. O crescimento dos tempos do milagre era ilusório: um país não pode
crescer por muito tempo mantendo tanta injustiça social. Daí que em 1981
aconteceu, pela primeira vez desde os anos da crise de 1929, o crescimento
negativo da economia do país. O Brasil tinha ficado mais pobre ainda.
Era a terrível estagflação, mistura de estagnação econômica (tudo
parando) com inflação.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

O acontecimento final do governo do


general Figueiredo foi a campanha pelas
Diretas-Já, em 1984. Uma coisa maravilhosa,
na qual praticamente o país inteiro tomou
parte, lutando pelo direito de votar para
presidente. Nos últimos comícios, no Rio de
Janeiro e em São Paulo, reuniram-se milhões
de pessoas.
Foram as maiores manifestações de
massa da história do Brasil.
No dia em que a Emenda Dante de
Oliveira, restabelecendo as diretas, foi votada
pela Câmara dos Deputados, Brasília ficou
em estado de emergência.
O general Newton Cruz, a cavalo como
um Napoleão desvairado, queria prender todo
mundo vestido de amarelo (símbolo da
campanha) e chicoteava os carros que buzinavam a favor da emenda. O pior
aconteceu: apesar de os “sim” ganharem de 298 a 65, inclusive com alguns votos
do PDS, faltaram 22 votos para a vitória.
Vários canalhas tinham votado contra ou simplesmente não
compareceram.
Na verdade, uma batalha tinha sido
perdida, mas não a guerra.
Ainda dava para botar o povo de novo
na rua para protestar e exigir uma nova
votação.
Mas a cúpula do PMDB já estava
armando um acordo com políticos des-
contentes do PDS.
Praticamente só o PT, ainda pequeno,
protestou contra a armação.
Pelas regras antigas que foram
mantidas, o presidente seria eleito
indiretamente pelo Colégio Eleitoral.
O Colégio Eleitoral, formado pelo
Congresso e por deputados estaduais (seis por
cada Assembléia Estadual, do partido
majoritário no respectivo estado), era uma
armação que sempre dava vitória ao governo.

98
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Acontece que o candidato oficial do PDS, Sr. Paulo Maluf, estava muito
queimado. Sua ligação com a podridão do regime atraía o ódio popular. Se ele
fosse presidente seria uma decepção muito grande para o Brasil.

Muitos políticos do PDS perceberam que não dava para Maluf. Liderados
pelo senador José Sarney, eles formaram a Frente Liberal que, no Colégio
Eleitoral, elegeu Tancredo Neves presidente do Brasil (o vice era Sarney).

Pouco depois, esse pessoal, que saiu do


PDS, mas que mantinha as velhas idéias
conservadoras, fundou o PFL (Partido da Frente
Liberal).
Tancredo Neves fez carreira no PDS junto
das oligarquias mineiras. Foi ministro da Justiça
de Getúlio e esteve no MDB.

Moderadíssimo, nunca tivera atritos gra-


ves com o regime militar. Pois é, um político
hábil, mas que nunca se ligou a nenhuma luta
popular, virou salvador da pátria. Talvez, porque
tenha falecido antes de tomar posse. Assim, por
ironia da história, o presidente que poria fim ao
regime militar seria o ex-líder do regime no
Senado: José Sarney, vice de Tancredo.

Agora responda em seu caderno:


7) A ditadura acabou, mas a classe dominante continua poderosa. Quais seriam
os mecanismos de domínio que tornam dispensável o uso de repressão pela
força bruta?

99
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

DA NOVA REPÚBLICA AO
GOVERNO ATUAL
Bem, até aqui você aprendeu que, no final de 1983 e início de 1984, teve
início um dos maiores movimentos populares do século XX no Brasil. Era a
campanha pelas “Diretas Já” – eleições diretas para presidente da República, que
culminou com a eleição de Tancredo Neves. Ele não chegou a tomar posse, vindo
a falecer no dia 21 de abril de 1985.
José Sarney, vice-presidente, assumiu a Presidência da República, dando
inicio a uma fase denominada de Nova República.

Bem, antes de você continuar estudando esta fase da História do Brasil, é


importante ficar por dentro dos acontecimentos mundiais.

Vamos lá?!

A SITUAÇÃO MUNDIAL

Um dos traços marcantes da história das


últimas décadas do século XX é a caminhada
acelerada, rumo ao mundo globalizado.
De forma ampla, a palavra globalização
indica aceleramento do tempo histórico, resultante
da expansão da economia de mercado e da
intensificação do comércio.
Na base desse processo está o aumento da
velocidade das comunicações e dos transportes,
devido ao extraordinário desenvolvimento da
informática.

O desenvolvimento tecnológico invadiu o cotidiano das pessoas por meio


dos microcomputadores, internet, telefones celulares, televisões a cabo etc.
Acontecimentos locais puderam ser rapidamente divulgados por todo o mundo.
As mudanças que conduzem as sociedades para a globalização produzem a
sensação de um mundo menor.

100
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Afinal, imagens,
notícias, bens culturais de
qualquer parte do planeta
estão ao alcance de todos
aqueles que podem pagar
por eles!
No século XXI, quem
não puder estudar
ficará para trás. Cada
vez mais o mundo
precisa de pessoas
qualificadas. O Brasil
estará pronto para
responder a esse
desafio?

Na economia, aumentou a diferença entre países ricos e pobres e o


enfraquecimento das economias dos países, cada vez mais subordinados ao
poderio das corporações mundiais. Uma das características da nova época é a
integração dos mercados e a formação de blocos econômicos regionais.

A revolução tecnológica propiciada pelos computadores permite o fluxo


instantâneo de capital financeiro pelos mais variados mercados do mundo.
Em todos os países aplicaram-se técnicas de produtividade altamente
especializadas, e novos padrões de Guerra Fria
organização do trabalho, que elevaram a taxa Conflito diplomático entre EUA e
de desemprego, incluindo trabalhadores União Soviética.
qualificados e técnicos especializados. Após a 2ª Guerra Mundial o mundo
Politicamente, houve um crescimento ficou dividido em 2 grandes blocos
de países.
da democracia cujos maiores reflexos foram
Os capitalistas, liderados pelos
o fim da Guerra Fria e o fim da União Estados Unidos e os socialistas,
Soviética. liderados pela União Soviética.
Um a um, os conflitos regionais, Como os EUA e a União Soviética
sustentados pelas duas superpotências, foram tinham armas atômicas, ambos
sendo resolvidos. poderiam destruir o mundo. Assim,
o conflito entre esses países ficou
Movimentos radicais e xenófobos limitado ao campo diplomático, sem
(aquele que não gosta de pessoas e nem de confronto direto. Durante esses
“coisas” estrangeiras) cresceram na Europa, anos (de 1945 - final da 2ª Guerra
Mundial, até 1991 (fim da União
particularmente na Alemanha. Soviética), ambos passaram a
Os jovens "skinheads" (grupo que na aumentar a sua influência sobre
atualidade segue a doutrina de Hitler) outros países do mundo.
jogaram bombas em asilos para estrangeiros
e a cruz suástica (a cruz nazista) apareceu pintada nos muros das cidades. Nem o
Brasil escapou à onda: nordestinos e judeus foram ameaçados por grupos
radicais.

101
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

No Oriente Médio, países islâmicos viram Fundamentalistas islâmicos


crescer a intolerância e a violência promovida Crença em que o renascimento do
pelos fundamentalistas islâmicos. mundo islâmico virá apenas
Um neonacionalismo de fundo ético e através da volta aos costumes
tradicionais e à prática religiosa do
religioso agitou a Europa: minorias étnicas antigo Islã, estabelecida por
fizeram exigências separatistas com a idéia de Maomé para a conservação da
identidade cultural e como reação
preservação da identidade nacional. Mas tais à ocidentalização do povo
movimentos confundiram-se, também, com islâmico.
interesses econômicos precisos: obter a soberania
sobre regiões industrializadas ou com ricos recursos naturais.
Paralelamente, questões humanitárias e ecológicas mobilizam milhões de
pessoas em todo o mundo. Solidariedade é a palavra de ordem desses
movimentos. Campanhas estimuladas por músicos, artistas de cinema e de
televisão procuraram sensibilizar e captar recursos na luta contra a miséria, a
fome e a AIDS. Organizações ecológicas apoiaram o "desenvolvimento
sustentado" (sistema de exploração mais racional dos recursos naturais que visa à
preservação da natureza).
Partidos ecológicos, denominados "verdes", organizaram-se em todo o
mundo.
Assim, se de um lado o mundo pareceu dividir-se em diversos movimentos
separatistas ou grupos radicais, por outro lado cresceu a tendência pela
integração, que se manifestou por meio de acordos comerciais regionais,
campanhas humanitárias internacionais e solução de conflitos políticos.

A riqueza gerada pela exploração do comércio colonial, é que permitiu ao


capitalismo comercial atingir seu ponto máximo e propiciou a passagem para a
era industrial em fins do século XVIII. E para nós, brasileiros, tem uma
importância especial, pois foi sob o Sistema Colonial que o Brasil passou os três
primeiros séculos de sua História.
Agora já se pode perceber que a globalização, da qual tanto se fala
atualmente, não é um fenômeno que surgiu da noite para o dia. Suas bases foram
lançadas há séculos, com a mundialização do comércio, a formação dos
impérios coloniais e, principalmente, com a divisão do mundo em dois blocos: o
dos que trabalhavam mais e ganhavam pouco; e o dos que, trabalhando menos,
ganhavam muito.

102
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Durante 300 anos, o primeiro bloco recebia o nome genérico de colônias,
e o segundo de metrópoles. Mas as coisas evoluíram e, no século XIX, as antigas
colônias proclamaram sua independência. Passaram então a ser chamadas de
países pobres, enquanto as ex-metrópoles ficaram conhecidas como países ricos.
Mais um pouco de evolução e nova mudança: em meados do século XX os
pobres passaram a ser chamados de subdesenvolvidos; e os ricos, de
desenvolvidos.
Finalmente, às vésperas do século XXI fomos informados de que o mundo
era um só, “globalizado”, e que todos os países – ricos, pobres, desenvolvidos,
subdesenvolvidos, emergentes, ou seja lá como se queira chamar – pertenciam a
UM ÚNICO BLOCO. Não teria sentido, portanto, haver qualquer barreira
econômica entre eles, pois afinal de contas, estavam todos no mesmo barco.
Se D. João III de Portugal – sob cujas ordens se criou no Brasil a
primeira colônia mercantilista do mundo – pudesse ver os acontecimentos
atuais, provavelmente teria um ataque de riso. Ele entendia tanto de colônia
como de barcos. E no seu tempo havia naus, caravelas e também galés movidas
a remo. Nestas, quando os comandantes precisavam incentivar os remadores a
fazer mais força, tratavam de lembrá-los de que todos estavam no mesmo
barco...
VICENTINO, Cláudio. E MOURA, José Carlos Pires de. História (apostila Anglo). 2000.

−Atividade: responda no seu caderno.


8) Reflita sobre o que você já estudou e cite duas conseqüências da
globalização sobre o mercado de trabalho.

Agora você estudará em linhas gerais, a situação de algumas partes do mundo.

• ÁSIA
O processo urgente de industrialização foi à tônica dos anos 80-90 na
Ásia, assim, uma intensa atividade econômica envolveu essa região.
A modernização da CHINA teve início em 1984 com a adoção de
medidas liberais na área econômica. Contudo, o país permanecia fechado às
liberdades democráticas. Em maio de 1989, a onda de manifestações,
denominada Primavera de Pequim, acabava em repressão total. O governo agiu
com violência diante das manifestações populares contra a corrupção política.
Tanques de guerra massacraram centenas de manifestantes na Praça da Paz
Celestial, em Pequim.

103
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Na última década do século XX, A China aparecia como um dos mais
fortes pólos da economia mundial. Tornou-se grande exportadora de produtos
industrializados: tecidos, calçados, roupas, brinquedos, etc.
O JAPÃO manteve seu crescimento econômico e a estabilidade política,
apesar das denúncias de corrupção envolvendo importantes autoridades do
governo. Os países chamados “TIGRES ASIÁTICOS” (Taiwan, Coréia do Sul,
Cingapura e Hong Kong), beneficiados com os altos investimentos vindos do
Japão e dos Estados Unidos, reforçaram seu setor industrial eletrônico. Voltada
para a exportação, à produção industrial desses países entrou no mercado externo
com preços muito competitivos.
APARTHEID!?

• ÁFRICA Em 1948, a África do Sul, país de população


predominantemente negra, institucionalizou a separação
Na África do Sul, a entre negros e brancos. Esta foi a forma que a minoria
branca (de origem inglesa e holandesa) encontrou para
resistência negra contra o manter o seu domínio.
“apartheid” cresceu e O poder permaneceu nas mãos dessa minoria e não foi
fortaleceu-se com o apoio concedido aos negros o direito de escolher os dirigentes do
internacional. Leia o quadro país. Era a política de segregação racial do “apartheid” que
significa separação.
ao lado.
O “apartheid” impedia o acesso dos negros à propriedade
Em 1989, o da terra e à participação política e os obrigava a viver em
zonas residenciais segregadas. Casamentos e relações
presidente Frederick de sexuais entre pessoas de raças diferentes tornaram-se
Klerk adotou medidas ilegais.
democratizantes, como a Na década de 1950, no entanto, surgiu o Congresso
liberação de presos Nacional Africano (CNA), uma organização negra que
defendia a oposição pacífica ao regime de segregação. Em
políticos, entre eles Nelson abril de 1960, a organização decidiu realizar uma grande
Mandela, o principal líder manifestação contra a Lei do Passe (que limitava a
negro contra a dominação circulação dos negros no seu próprio país), mas a polícia
reprimiu o movimento com violência. O líder do movimento,
branca. O plebiscito de 1992 Nelson Mandela, foi preso em 1962 e condenado à prisão
(só votaram cidadãos perpétua.
brancos) apoiou o governo
nesta abertura e as reformas constitucionais tiveram início.
Em 1994, ocorreram as primeiras
eleições multirraciais no país, com a
vitória de Nelson Mandela. Foi aprovada
a Lei de Direitos sobre a Terra,
restituindo propriedades às famílias
negras atingidas pela lei anterior, que
destinara 87% do território sul-africano à
minoria branca.
O desafio dos governos atuais é o
de garantir a continuidade do regime
democrático, reduzir as diferenças sociais Nelson Mandela no dia de sua libertação,
entre brancos e negros e combater a Aids, em 11 de fevereiro de 1990.
que atinge uma grande porcentagem da
força de trabalho sul-africana.
104
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Mas as disparidades culturais e econômicas, agravadas pelas rivalidades
políticas, continuam levando muitos países africanos à guerra civil. Agravaram-
se ainda os problemas com terrorismo e as questões étnico-religiosas e tribais.

No começo do século XXI, o Brasil vive uma crise marcada por profundas
desigualdades.
Democrática na aparência, a sociedade brasileira ainda é essencialmente
elitista e autoritária. Nossa democracia é extremamente limitada ao plano formal;
expressando-se em frases pomposas como: todos são iguais perante a lei ou todo
cidadão tem direito ao voto.
Na verdade, sabemos que a democracia autêntica não chegou ao cotidiano do
povo. Não democratizamos o acesso à escola, à saúde, às condições materiais
mínimas para uma vida digna. Vivemos, na prática, um enorme apartheid social. De
um lado, uma elite ostentando um padrão de vida de País Desenvolvido. Do outro,
uma imensa população de subcidadãos, subnutridos. Esses grupos vivem no Brasil
como se habitassem países completamente diferentes.
Dados do IBGE, mostraram que o Brasil possui por volta de 30 milhões de
indigentes, o que representa algo equivalente à população da Argentina. Eles formam
a imensa legião dos sem-terras, sem tetos, meninos de rua, famintos urbanos.
Pessoas que convivem diariamente com o sofrimento, a humilhação, a fome, a
violência, a doença. São evitados, temidos, odiados pelo Brasil rico, como se fossem
os únicos culpados da sua própria desgraça.
É a pobreza gerando mais pobreza. O preconceito gerando mais preconceito.

−Atividade: responda no seu caderno.


9) Na sua opinião, que problemas precisam ser resolvidos para que o
Brasil se torne um país mais justo e democrático?

• O FIM DA URSS

Em 1985, Mikhail Gorbatchev assumiu o poder na União Soviética -


URSS e deu início a reforma nas forças armadas, na economia e na política. Em
1986, lançou a "glasnost", uma campanha contra a corrupção e a burocratização
do Estado e em favor da transparência política e da mudança de mentalidade.
Paralelamente, sua política de reestruturação da economia, chamada
"Perestroika", retomou a propriedade privada, incentivou a descentralização dos
setores industriais e pôs fim ao monopólio estatal.
Essa política visava à retomada do crescimento econômico, até então,
totalmente estagnado, abrindo caminho para a entrada de investimentos
estrangeiros.

105
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Com a abertura política e econômica, ocorreu a liberalização cultural, a
diminuição da intervenção estatal nos meios de comunicação e a volta da
liberdade de imprensa.
A crise econômica, o caos político e a abertura para a descentralização
culminaram na desagregação lenta e contínua do Bloco Soviético.
A queda do muro de Berlim (1989) foi o marco dessa desestruturação. A
partir de então, ocorreram pressões de movimentos a favor do fim da ditadura do
Partido Comunista (PCUS) da União Soviética.
Em 1991, após uma tentativa de golpe (feita por civis e militares
conservadores), Gorbatchev renunciou. Era o fim da URSS, e os países que
faziam parte tornaram-se independentes, um depois do outro.
A União Soviética voltou a ser Rússia. A
partir desse momento, nascia a CEI (Comunidade O fim da União
dos Estados Independentes), aglomerando os países Soviética significou
também o fim da
liderados pela Rússia. Guerra Fria e uma
Em março de 2000 foi eleito um novo grave crise no
presidente para a Rússia, Vladimir Valdimirovitch movimento comunista
em todo o mundo.
Putin. Este procura combater a corrupção e a
criminalidade. Ele defende um Estado Forte, aberto à economia de mercado. Nas
relações internacionais, demonstra interesse em entrar para a União Européia.
Na política externa de Putin, um aspecto interessante é sua aproximação
com a Alemanha, maior financiadora da Rússia nos anos de 1990, com
expressivas representações empresariais e que possuem muitas ações de
empresas no País.
A Alemanha é vista como um aliado tradicional, especialmente nos
esforços de se evitar a supremacia norte-americana.

A ex-URSS, desmembrada em vários Estados, e os países da antiga órbita soviética na


Europa oriental enfrentam sérios problemas econômicos e sociais com a transição ao
capitalismo.
No caso da Federação Russa, a economia é dominada por máfias que controlam
negócios ilícitos como o contrabando de drogas e armas.

• A UNIFICAÇÃO EUROPÉIA
A atual União Européia teve seu início efetivo em 1957-1958. Mais
conhecido como Mercado Comum Europeu (MCE), esse organismo foi criado
com o objetivo de garantir a livre circulação de mercadorias, serviços e
pessoas entre os países membros, isto é, formar um mercado único e moeda
única – o euro. Assim, sua finalidade era eliminar os obstáculos, alfandegários
ou não, que impediam o livre comércio.
Ao longo de década de 1990, o MCE, que está sediado em Bruxelas
evoluiu para se tornar uma união monetária, o que confirmou seu forte caráter
político. Por isso, em 1994, o antigo MCE cedeu lugar à União Européia (UE),
que pretende construir uma unidade política, econômica, monetária e militar na
Europa.
106
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
O enorme êxito do MCE muito contribuiu para ampliar a importância
econômica da Europa ocidental e reduzir a interferência norte-americana nessa
região, colocando-a em condições de voltar a concorrer com os Estados Unidos,
com nítida vantagem em alguns setores, principalmente por parte da Alemanha,
que possui a economia mais forte do continente europeu. A atual União Européia
colhe os frutos desse projeto arrojado, pois a Europa Ocidental voltou a ocupar a
tradicional posição de centro mundial de poder.
O objetivo de ampliar a integração européia se deve tanto ao seu próprio
sucesso como também ao desafio representado pelo crescimento japonês e pelo
enorme poderio norte-americano, os dois outros pólos ou centros mundiais de
poder. Unidos, os países da Europa constituem a maior economia do planeta, o
maior mercado consumidor do mundo.
Mas a unificação é, sobretudo, uma maneira de a Europa voltar a exercer
uma liderança política de primeiro plano no mundo no início do século XXI.

• RECONSTRUÇÃO DA AMÉRICA LATINA


Na década de 1990, a América Latina passou por um processo de retorno à
normalidade política, em que a maioria dos Estados (países) passaram a ser
dirigidos por presidentes eleitos pelo voto direto.
Em termos econômicos os países latino-americanos continuam muito
frágeis, oprimidos por uma dívida externa e interna cada dia mais volumosa.
A opção pela política econômica neoliberal foi responsável pela
liquidação de quase todo o patrimônio estatal, com a privatização até mesmo de
empresas responsáveis pelos setores considerados essenciais como os de
transporte, telecomunicações e energia elétrica.
A forte presença do capital estrangeiro nos leilões de privatizações
transferiu boa parcela das empresas que antes estavam nas mãos do Estado
brasileiro para grupos econômicos estrangeiros.
A crise econômica, que atinge a população trabalhadora com o
desemprego e os baixos salários, agrava-se com a desconfiança da população nos
políticos tradicionais.
Esse quadro de descontentamento, mostrou nas últimas eleições, o
crescimento dos partidos políticos de esquerda no Uruguai, na Argentina, no
Chile. No Brasil, vimos a ascensão do PT – Partido dos Trabalhadores.
Nesse contexto surge o MERCOSUL – fortalecer a economia regional e
integrar as comunidades latino-americanas do CONE SUL é o objetivo do
MERCOSUL.
Criado em 1991, ele reúne Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai – (Chile
e Bolívia são países associados) e está implantando desde 1995, um mercado
único, sem barreiras alfandegárias e com a livre circulação de bens e serviços.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

• ESTADOS UNIDOS: SENHORES DO MUNDO


Durante décadas, o governo dos Estados Unidos teve de se preocupar com
a presença soviética.
A Guerra Fria pautava a política externa e também grande parte das
ações internas. Com o final do conflito, na década de 1990, os EUA assumiu uma
condição privilegiada: transformou-se na única potência mundial – os
historiadores denominaram esse novo momento da história de Nova Ordem
Mundial.
Nova Ordem Mundial
Expressão que designa a situação global após o fim da Guerra Fria.
A nova ordem corresponde ao fenômeno da globalização, em que se intensifica a
integração entre os países.
Uma de suas características principais é a liberalização econômica. Os países deixam
de lado as políticas de defesa de seus produtos, as barreiras comerciais e as limitações
ao livre fluxo de capitais.
Ao mesmo tempo, há uma tendência ao regionalismo, ou seja, a formação de blocos
econômicos, como a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), União Européia (UE) e
Mercado Comum do Sul (Mercosul).

Nas eleições de 1992, Bill


Os EUA firmam-se como a grande potência mundial,
Clinton foi eleito presidente dos com grande força militar e econômica. Com base em
Estados Unidos. Seu governo seu peso político nos principais organismos
(1992-2000), o primeiro após a internacionais, como a ONU, FMI e Banco Mundial,
Guerra Fria, foi marcado influenciam políticas de intervenções em diversos
países no mundo.
internamente pela prosperidade Com a cobertura de decisões da ONU e da
econômica e externamente, pelo Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan),
forte intervencionismo em conflitos são realizadas incursões militares contra Estados
cujas políticas são consideradas uma ameaça à paz
internacionais, com o propósito de e à segurança internacional.
consolidar a hegemonia mundial O poderio norte-americano não elimina a intensa
dos EUA. guerra comercial travada com os demais países
desenvolvidos, em particular o Japão e os da Europa
A prosperidade interna, com ocidental. Interesses ligados aos países avançados
altos índices de crescimento estão muitas vezes por trás de conflitos ocorridos em
econômico e baixa taxa de vários lugares. A nova ordem, que elimina as
desemprego, garantiu a Bill Clinton diferenciações ideológicas presentes na Guerra Fria,
vê ressurgir ou se aprofundar ódio entre os povos.
um segundo mandato, a partir de
Os Estados Unidos intervieram, por exemplo:
1996.
 Na questão palestina (negociando acordos de paz
Mas nem tudo foi sucesso na entre Israel e palestinos).
sua administração. Surgiram vários  Nos problemas do Oriente Médio, participando da
escândalos de assédio sexual (1997) Guerra do Golfo em 1990 , quando tropas
americanas no Golfo Pérsico bombardearam o
e envolvimento antiético com uma Iraque. Apesar de ter expulsado as tropas
estagiária da Casa Branca (1998). iraquianas que invadiram o Kuwait, a guerra
chegou ao final em 1991, sem que o Saddan
George W. Bush sucedeu Hussein perdesse o poder.
Bill Clinton. Sua eleição teve  Nos conflitos dos Bálcãs (conflito em Kosovo).
apuração tumultuada por sucessivas  Invasão ao Afeganistão procurando Bin Laden em
recontagens de votos. 2002.
 Invasão do Iraque em 2003.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
No plano externo, Bush adotou medidas que, segundo historiadores,
poderão incentivar nova corrida armamentista.
Retomou, por exemplo, o projeto do governo Reagan que propunha a
criação de um polêmico sistema de defesa antimíssil (Guerra nas Estrelas),
para proteger os EUA e seus aliados de um eventual ataque por parte de países
inimigos. Leia o quadro ao lado.
A postura que os EUA pareciam decididos
a adotar – de potência hegemônica auto-
suficiente – sofreu sério abalo na manhã do dia
11 de setembro de 2001, quando aviões
seqüestrados por terroristas suicidas foram
atirados contra dois dos principais símbolos do
poderio econômico e militar norte-americano: o
World Trade Center, em Nova York, e o
Pentágono, em Washington. Um outro avião caiu
nos arredores de Pittsburgh (nordeste dos EUA),
antes de atingir seu alvo.
Em 200 anos de história recente, foi a
primeira vez que os EUA tiveram seu próprio território atacado por forças
estrangeiras. As torres do World Trade Center foram atingidas por dois aviões.
O impacto do segundo
avião foi acompanhado por
milhões de pessoas em todo o
mundo, que assistiram pela
TV às imagens da primeira
torre atacada. Menos de 2
horas depois dos choques,
enquanto os bombeiros
tentavam resgatar as vítimas,
as duas imensas torres
desabaram, causando pânico
e cobrindo Nova York com
uma espessa nuvem de poeira.
Estima-se que debaixo dos destroços tenham ficado cerca de 5 mil
pessoas. O edifício do Pentágono (sede do comando militar norte-americano) foi
atingido por um Boeing-747. Cerca de 260 pessoas morreram no ataque.
No mesmo dia do ataque o presidente dos Estados Unidos classificou a
ação como “ato de guerra” e prometeu “caçar e punir” os grupos envolvidos e
“aqueles que os abrigam”.
As investigações iniciais revelaram o nome de 19 suspeitos de serem os
seqüestradores, todos de origem árabe. Alguns viviam havia algum tempo nos
EUA, onde inclusive aprenderam a pilotar aviões.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
O árabe Osama Bin Laden foi apontado como
idealizador do ataque. Escondido no Afeganistão,
vivia sob a proteção do TALEBAN, uma
organização guerrilheira formada por islâmicos
radicais e que controlava, na época do atentado, 95%
daquele país.
Após o ataque, os EUA articularam uma
aliança internacional contra o terrorismo. Os Estados
Unidos da América conseguiram atrair para sua
causa várias nações do mundo: Inglaterra, França,
Itália, Japão, Alemanha, Canadá e Rússia, além do
Paquistão, vizinho e ex-aliado do Taleban.
O objetivo principal era capturar Osama Bin Laden. Para isso, tornou-se
necessária à invasão do Afeganistão (capital é Cabul), já que o Taleban se
recusou a entregá-lo para julgamento.

O terror de Osama BIn Laden


O Taleban (que quer dizer “estudante”) já recebeu apoio – em armas e dinheiro – dos
EUA quando a então URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) invadiu o país, em
1979, para colocar no poder um regime socialista.
Dez anos depois, derrotados, os soviéticos deixaram o Afeganistão e o Taleban
conquistou o poder.
Alojado no Afeganistão desde 1996, Osama Bin Laden usa sua fortuna para financiar
uma rede de terroristas islâmicos chamada AL Qaeda (que quer dizer “a base”, em árabe), com
ramificações em mais de 30 países.
O milionário Osama e seus seguidores combinam a tecnologia ocidental e a crença
religiosa com grande habilidade. Acredita-se que no atentado aos EUA, a internet tenha sido
amplamente utilizada.
Osama Bin Laden já era acusado de ser o responsável por outros ataques a alvos
norte-americanos, causando dezenas de mortos e milhares de feridos.

A ofensiva começou em 7 de outubro de 2001, quando forças norte-


americanas e inglesas deram início a Bioterrorismo: Uso indevido de substância
uma série de ataques, com mísseis e química e tóxica, com a finalidade de
bombas às principais cidades do provocar contaminação e morte em massa.
Afeganistão. Após dez dias de Em várias cidades do país, começava a
ofensiva, com grande parte de suas surgir casos de contaminação pela bactéria
instalações destruídas, o Taleban antraz, que inalada, causa a morte em 99%
começou a dar sinais de dos casos não tratados precocemente.
enfraquecimento. Em todo o século XX, apenas 18 casos
de contaminação por antraz tinham sido
O terror, porém, mostrava relatados nos EUA. Em pouco mais de uma
semana, o número de infectados
novas armas. Enquanto os caças ultrapassava uma dúzia.
norte-americanos agiam no
A bactéria foi espalhada por meio de
Afeganistão, a população dos EUA cartas endereçadas, primeiro, a empresas
via-se tomada pelo pânico do de comunicação, depois, para escritórios
bioterrorismo. Leia o quadro ao lado. de multinacionais e, até mesmo, para o
Senado americano.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Sem poder prever os rumos desses conflitos e suas conseqüências para o
mundo, a opinião pública internacional se dividiu entre aqueles que apoiavam a
guerra liderada pelos EUA e os que clamavam pela paz mundial e uma ação
contra o terror coordenada pela ONU.

Nos EUA, muitos intelectuais pediam ao governo


que revisse sua política externa.
Para eles, o intervencionismo norte-americano provoca ódio nas populações
subjugadas ao seu poder, o que motiva a mobilização de grupos radicais
contra o país.

 O GOVERNO SARNEY (1985-1990)

Caracterizou-se como um governo de transição democrática. As


primeiras medidas do governo Sarney no campo político foram:

 Restabelecer eleição direta para presidente da República.


 Convocação da Assembléia Nacional Constituinte.
 Eleições diretas para os demais níveis.
 A legalização de partidos políticos de qualquer tendência (inclusive
comunistas e socialistas).
 A promulgação da Nova Constituição.
Em decorrência disso, o país renovou seus governadores, senadores,
deputados, prefeitos e vereadores e pôde participar, depois de quase 30 anos, de
uma nova campanha presidencial.

111
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Na tentativa de equilibrar a economia interna, foram postos em prática
alguns planos, cuja principal característica era o combate a inflação,
implantando o congelamento de preços e salários.

A partir de abril de 1985, trabalhadores dos mais variados setores promoveram greves por
melhorias salariais. Entre as categorias que paralisaram suas atividades estavam os
metalúrgicos, metroviários, ferroviários, aeronautas, motoristas de ônibus, médicos,
funcionários dos correios, professores e trabalhadores rurais.

Entre os planos econômicos do governo Sarney, o de maior repercussão


foi o Plano Cruzado – lançado em fevereiro de 1986, sob a orientação do
ministro da Fazenda, Dílson Funaro, com o objetivo de conter a inflação e
reorganizar a economia. Dentre as medidas desse plano, a mais conhecida foi o
congelamento de preços por 1 ano.
Muitos estabelecimentos comerciais iniciaram um processo de remarcação
clandestina de preços, provocando a reação dos consumidores, incentivados pela
própria propaganda governamental.
A população exigia a intervenção policial e, em várias ocasiões,
interditava a empresa fraudadora por sua própria iniciativa.
Os resultados do plano foram positivos nos primeiros meses. Alguns
meses depois, muitos produtos só eram oferecidos com pagamento de “ágio”
(valor cobrado acima da tabela).
O governo não conseguiu controlar essa prática, e o congelamento
rapidamente deixou de ser respeitado pelos produtores e comerciantes. A euforia
da população dos primeiros dias, também sucumbiu.
Antes do final de 1986, porém, o plano já demonstrava ter fracassado e a
inflação voltou a subir.
Para equilibrar a situação financeira do país, o governo tentou, com outros
ministros, novos planos econômicos.
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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

 No Plano Bresser, do ministro Luís Carlos Bresser Pereira, foi efetuada uma
desvalorização da moeda e o congelamento dos preços por 90 dias. Como não
houve resultados positivos, o ministro pediu demissão.
 Com o Plano Verão, do ministro Maílson da Nóbrega, que entrou em vigor
em janeiro de 1989, a moeda passou a se chamar Cruzado Novo, valendo mil
Cruzados, e houve congelamento de preços e salários. Este plano também não
funcionou e a inflação voltou a subir.
Com o crescimento da dívida externa e interna, o país ficou
desacreditado no exterior, diminuindo os investimentos estrangeiros.
Os altos índices de inflação, as denúncias de
corrupção no governo, as constantes greves, o
assassinato de trabalhadores rurais e o aumento da
criminalidade enfraqueceram o governo,
fortalecendo a oposição.
Ao lado: Chico Mendes, líder seringueiro
e sindicalista do Acre. Mundialmente conhecido
pelas denúncias de destruição da Floresta
Amazônica, foi assassinado em dezembro de 1988,
depois de ter sofrido várias ameaças

A Constituição de 1988
Sarney convocou uma Assembléia Nacional Constituinte e coube ao
Congresso Nacional, que fora
eleito em 15 de novembro de
1986, elaborar a nova
Constituição para o país.
A Constituição
promulgada em 5 de outubro
de 1988 devolveu ao país a
democracia.
Houve a participação
popular em sua elaboração,
por meio de abaixo-assinados,
orientados por sindicatos de Na Constituição de 1988, nossa atual constituição
classe, entidades religiosas, e está escrito:
vários outros segmentos da so- “Um dos direitos fundamentais do cidadão é o de
ciedade. não sofrer discriminação racial ou social.
Do ponto de vista dos Será que esse direito é plenamente
chamados direitos sociais nela respeitado em nosso pais?
inscritos, é a mais ampla de
nossa história.

113
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Assim, em 5 de outubro de 1988, o presidente da Assembléia Nacional
Constituinte, Ulysses Guimarães, declarou promulgada a nova Constituição,
qualificando-a de “Constituição Cidadã”.

À esquerda a capa
da revista Veja, de 18
de janeiro de 1989,
retrata o lançamento
de mais um plano
econômico, o Plano
Verão.
A outra foto é de
Ulysses Guimarães,
ao promulgar a
Constituição
brasileira de 1988,
que ele denominou
de “Constituição
Cidadã”.

Não se esqueça!!
A constituição Federal do Brasil, promulgada em 5 de
outubro de 1988 é a nossa ATUAL CONSTITUIÇÃO.
É A LEI MAIOR DO NOSSO PAÍS.

−Atividade: leia o texto abaixo, observe as imagens acima e


responda no caderno.
A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 5º estabelece que “todos
são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza (...)”.
10) Diante destas imagens, como colocar em prática o princípio
constitucional de que todos são iguais perante a lei? Comente com suas
palavras.

114
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

No final do mandato, Sarney convocou eleições


presidenciais. Entre vários candidatos que concorreram ao
cargo, saíram vitoriosos no primeiro turno Fernando Collor
de Mello, do Partido da Reconstrução Nacional (PRN), e
Luís Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores
(PT).
A campanha política de Collor voltou-se para a
“caça aos marajás”, moralização da vida pública, melhoria
das condições de vida da população pobre - os
“descamisados”, o apelo da modernização tecnológica e a
abertura ao capital internacional mais intensa.
Ao contrário de Lula (PT), Collor fez uma campanha milionária,
sustentada por grandes empresários, políticos tradicionais e pela poderosa
Rede Globo.
No Jornal Nacional, noticiário noturno, a TV Globo manipulou as
imagens do último debate: só aparecia Collor dizendo coisas inteligentes e
Lula dizendo “bobagens”. Como se fosse o confronto entre o gênio-santo
com o jumento-encapetado.
Resultado: Collor venceu as eleições. Vitória apertada, mas que
aliviou as classes dominantes. As elites podiam comemorar, com
champanhe e caviar, e o povo mais humilde, com pão e água.

 O GOVERNO DE FERNANDO COLLOR DE MELLO (1990-


1992)

Ao assumir a presidência, Collor prometeu uma política de austeridade,


com o corte de gastos do governo pela redução do número de funcionários
fantasmas, o fim dos privilégios desmedidos (mordomias) de funcionários
públicos e membros do governo e privatização das empresas estatais.
No dia de sua posse, o presidente anunciou um plano econômico de
combate à inflação, elaborado por sua equipe econômica, liderada pela ministra
Zélia Cardoso de Melo – o Plano de Reconstrução Nacional ou Plano Collor,
como ficou conhecido – que previa, entre outras medidas, o bloqueio por 18
meses de praticamente todos os depósitos bancários feitos no país.
Além disso, estabeleceu o congelamento de preços e salários e a extinção
de diversas empresas estatais.
As medidas adotadas pelo governo Collor, embora drásticas, não
solucionaram o grave problema da inflação, além de terem contribuído para
piorar ainda mais a crise social, com o acentuado rebaixamento do padrão de vida
da população brasileira.

115
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

A campanha
de
COLLOR
contou com
o apoio
financeiro
dos grupos
mais
poderosos
do país.

O objetivo desse apoio era EVITAR a eleição de LULA, que mantinha vínculos com
movimentos populares. Desde o início de seu governo, Collor promoveu intensamente
sua imagem, como a de um presidente jovem e saudável que andava de jet-ski,
pilotava aviões e fazia corridas dominicais vestindo camisetas com frases de efeito.

A instabilidade econômica trouxe consigo a instabilidade política,


determinando a substituição de vários ministros e a queda da popularidade do
presidente.
Com seu estilo arrogante e personalista e afeito a exibições públicas,
Collor deu continuidade à sua política econômica, favorecendo as importações e
privatizando muitas empresas estatais. Com isso acentuaram-se a recessão e
oposição ao seu governo.
Além disso, Collor não conseguiu estabelecer uma base de apoio
parlamentar, o que o enfraqueceu politicamente.
Houve denúncias de corrupção de pessoas (como ministros e a própria
primeira-dama, Roseane Collor que na época estava à frente da Legião Brasileira
de Assistência – LBA, sendo acusada de desvio de verbas públicas) ligadas ao
governo, principalmente, Paulo César Farias, ex-tesoureiro da campanha
presidencial e que ainda mantinha vínculos com o governo.

Essas denúncias afetaram a popularidade de Collor. A situação se tornou


mais grave quando seu irmão, Pedro Collor, acusou Paulo César de manter um
esquema de corrupção, no qual também estava envolvido o presidente.
Foi organizado o Movimento pela Ética na Política, que forçou os
políticos a instaurarem uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) para
apurar os fatos contra o presidente.

No dia 9 de setembro de 1992, a Câmara autorizou a abertura de um


processo contra Collor. Ele foi afastado do cargo e assumiu o vice-presidente,
Itamar Franco.

116
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

As denúncias de corrupção e de tráfico de influência desencadearam um vasto


movimento de reação popular que desgastou e isolou o governo, culminando com o
impeachment do presidente Fernando Collor. Nas fotos, capas de revistas sobre
escândalos do governo Collor e depoimento de Eriberto França, motorista particular do
presidente.

Pelos resultados da CPI, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) entrou


com um pedido de impeachment, isto é, impedimento contra o presidente, e em
todo o país, houve manifestações populares exigindo o afastamento de Collor.
Collor recorreu a manobras judiciais, assim como à política de trocas de
favores e compra de votos para tentar bloquear o processo, mas foi inútil.
A população saiu às ruas,
em diversas cidades do Brasil,
exigindo seu afastamento.
Ao som de “Alegria,
alegria”, de Caetano Veloso, os
“cara-pintadas” (estudantes do
ensino médio e universitários que
saíam às ruas com o rosto pintado
de verde e amarelo) deram um
tom alegre às manifestações
populares pró-impeachment.

Pressionado pela opinião pública às vésperas das eleições municipais, o


Congresso Nacional, em 29 de setembro de 1992, numa sessão histórica, decidiu
pelo afastamento de Collor do cargo presidencial, enquanto se apuravam os fatos
e viam os envolvidos.

117
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Isolado politicamente e sem conseguir provar sua inocência, Collor,


diante da inevitável cassação, renunciou à presidência.
Mesmo assim, o processo de impeachment continuou e teve seus
direitos políticos cassados por 8 anos.
No ano de 2000 tentou concorrer à prefeitura de São Paulo, mas o
Tribunal Superior Eleitoral o considerou inelegível.

O chefe do Executivo de um país ser afastado


do poder pelas vias democráticas.

A repercussão externa do impeachment do presidente Collor foi


bastante positiva e ganhou especial importância para um país
que esteve sob uma ditadura militar de quase 30 anos
e que tinha recentemente voltado à condição de democracia.

Queima de
arquivo?
Em junho
de 1996, PC
Farias apareceu
morto com um
tiro. Houve
quem dissesse
que foi a
namorada
desprezada que
o teria matado e
depois se
suicidado.

Mas a coisa foi muito confusa. PC durante todo o tempo esteve de bico calado, indo para
a cadeia sem comprometer nenhum cúmplice.
E agora? Levou para o túmulo os segredos da corrupção no Brasil? Teria sido uma
queima de arquivo?

 O GOVERNO DE ITAMAR FRANCO (1992-1994)


O novo presidente, Itamar Franco, herdou os graves problemas
econômicos e sociais, principalmente o aumento descontrolado da inflação.

118
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Ao assumir, Itamar Franco tentou medidas para reduzir a inflação, mas os


resultados não foram significativos.
Em maio de 1993, Itamar Franco convidou o sociólogo Fernando
Henrique Cardoso, que já ocupava o Ministério das Relações Exteriores, para
ocupar o Ministério da Fazenda. Com um grupo de economistas, elaborou o
Plano Real, que foi introduzido em etapas, passando a vigorar plenamente em 1º
de julho de 1994.
As pessoas de baixa renda tiveram um aumento do poder aquisitivo, pois
os seus salários não estavam sendo corroídos pela inflação e puderam comprar
mais alimentos e produtos como roupas, eletrodomésticos, etc.
Em abril de 1994, Fernando Henrique (PSDB - Partido da Social-
Democracia Brasileiro) deixou o Ministério da Fazenda para candidatar-se à
Presidência da República nas eleições de 3 de outubro do mesmo ano. Conseguiu
apoio de grandes empresários, de multinacionais e dos principais meios de
comunicação (jornais, rádios, revistas, televisão).
Dos candidatos, dois se destacaram: o próprio Fernando Henrique -
PSDB e Luís Inácio Lula da Silva -PT.
A situação de estabilidade proporcionada pelo Plano Real e as promessas
de dar continuidade às reformas econômicas, fez a maioria dos eleitores votar em
Fernando Henrique, que venceu as eleições ainda no primeiro turno e tomou
posse em 1º de janeiro de 1995.

Em 1993 e 1994 foram apanhados vários


deputados do Congresso envolvidos com a
corrupção na Comissão do Orçamento da União.
Eles favoreciam políticos e empresas em troca
de grandes propinas. Esses Anões do Congresso,
criaturas de baixíssima estatura moral, enojaram
o país. A maioria começou a carreira na Arena,
durante o Regime Militar – alguma dúvida de
como as ditaduras geram corruptos?
Felizmente, houve justiça: as provas foram
apresentadas e vários deles foram cassados pelo
Congresso, ou seja, deixaram de ser deputados. Só a
democracia pode defender o país da corrupção.
Sabe como o deputado João Alves (foto) justificava ter ganho tanto
dinheiro? Dizia ele: “não me lembro quantas vezes ganhei na loteria, mas foram
muitas. Deus me ajudou.”

−Atividade: responda no seu caderno.


11) Você acha que a mídia (os meios de comunicação) tem o poder de
manipular o voto do eleitor? Comente.
119
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

 O GOVERNO DE FERNANDO H. CARDOSO (1995-1998)

Ao assumir o governo, Fernando Henrique Cardoso, seguindo o seu


programa de governo, pretendia garantir a estabilidade econômica, isto é,
segurar a inflação próxima de zero e modernizar a economia brasileira.
Esse programa seguia as orientações do Fundo Monetário Internacional
– FMI, órgão da ONU que coordena programas de ajuda econômica a países do
mundo inteiro. Ao seguir essas orientações, o governo brasileiro pretendia inserir
a economia brasileira no processo de globalização.
Assim, a principal medida desse plano consistia em manter o real com um
valor constante em relação ao dólar, com pequenas variações. Assim, o governo
controlava a quantidade de dólares em circulação no país.
Quando essa quantidade diminuía, o valor do dólar tendia a subir; então o
governo colocava mais dólares em circulação, vendendo-os a quem precisava, o
que fazia com que o seu valor voltasse a cair e o real se mantivesse estável em
relação a essa moeda.
A estabilidade do Real, nos primeiros anos de governo, garantiu melhores
condições de vida para as camadas sociais mais baixas da população, mas com o
tempo os efeitos negativos da política econômica começaram a aparecer.
Fazia parte também do programa de governo a reforma de diversos
artigos da Constituição, a fim de modernizar a administração pública, reduzir os
gastos do governo e melhorar o desempenho das empresas.

As mudanças aprovadas na Constituição acabaram com o monopólio do


governo nas áreas de telecomunicações, energia elétrica e extração e refino de
petróleo.
Isso permitiu que o governo colocasse à venda empresas estatais de
telefonia e de energia elétrica, além de siderúrgicas, estradas de ferro,
companhias hidrelétricas e distribuidoras de eletricidade, entre outras.
Na área do petróleo, o governo assinou concessões com empresas
estrangeiras para a pesquisa e a extração de petróleo no Brasil. Antes, somente a
estatal Petrobras podia fazê-lo.
Essas privatizações foram realizadas num clima de muita polêmica com
os partidos políticos de oposição, os sindicatos, os funcionários das empresas es-
tatais e o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST). Consideravam lesivo
ao país a venda de seu patrimônio, afirmando que havia empresas altamente
lucrativas e que o mais importante era reformar sua administração.
Bem, o governo justificou as privatizações alegando a necessidade de
aumentar a eficiência de sua administração, diminuir os custos dos investimentos
do Estado, eliminar as interferências políticas, suprir a falta de capital do Estado
e melhorar os serviços prestados ao consumidor.

120
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
Assim, bilhões de dólares foi arrecadado com a venda dessas empresas,
realizadas sob a forma de leilão, na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. O
dinheiro foi em grande parte utilizado para pagar a dívida pública do governo. Os
governos estaduais e municipais também venderam empresas públicas.
Saiba que a maioria das empresas foi vendida para multinacionais
estrangeiras.
Outro ponto importante do programa de governo referia-se à Reforma da
Previdência. Nesse setor, a reforma não ocorreu como o governo desejava, mas
foi abolida a aposentadoria por tempo de serviço e as aposentadorias especiais,
instituindo a aposentadoria por idade e tempo de contribuição. O estatuto do
funcionário público também sofreu alterações, como a quebra da estabilidade.
Em 1997, o presidente Fernando Henrique conseguiu que o Congresso
aprovasse uma emenda constitucional permitindo a reeleição dos executivos, em
todos os níveis: municipal, estadual e federal.

FHC e a saúde

Em 1996 foi criada a


Contribuição Provisória sobre
Movimentação Financeira -
CPMF, para gerar recursos a
serem aplicados na saúde, que
teve seu valor elevado em 1997.
Dos recursos, o governo propôs o
tratamento e prevenção da
AIDS, a vacinação em massa dos
idosos contra a gripe etc.
No que diz respeito à
saúde houve uma fiscalização
efetiva sobre os medicamentos,
e os responsáveis por remédios
adulterados foram punidos e o
governo promoveu a produção de
medicamentos genéricos, em
cujas embalagens só são divulgados os seus princípios ativos.

121
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

A concorrência dos produtos importados e os altos impostos atingiram a


indústria nacional, que teve sua produção reduzida.
Além disso, muitas das pequenas e médias empresas faliram.
As falta de subsídio
para a agricultura, e a
redução dos créditos,
levaram à falência
muitos agricultores e
deixaram na miséria os
camponeses.
Com tudo isso, o
desemprego foi
crescendo.
O desenvolvimento
tecnológico e a
exigência de trabalha-
dores mais qualificados Catadores de lixo procurando a refeição do dia. Enquanto
também se somaram à isso, tem gente que se diverte torrando dinheiro em compras
luxuosas. Até quando aceitaremos essas aberrações?
causa do desemprego.

No final de 1998, ocorreram eleições no Brasil para a deputados estaduais,


deputados federais, governadores e presidente da República.
Nessas eleições, a população reelegeu Fernando Henrique Cardoso para o
mandato de 1999 a 2002.

 O SEGUNDO MANDATO DE FHC (1999-2002)

Em 1999, Fernando Henrique reassume o cargo presidencial em meio a


uma nova crise internacional, que afetou a economia de todos os países.
Por conta de uma grave crise financeira que atingiu a Rússia que ficou
sem dólares para pagar sua dívida externa, os investidores que haviam aplicado
dinheiro no Brasil ficaram com receio de que o mesmo pudesse acontecer aqui, e
passaram a retirar os dólares que haviam aplicado.
As reservas do Banco Central foram caindo continuamente. No dia 13 de
janeiro de 1999, o governo brasileiro não dispunha de quantidades suficiente de
dólares para controlar o valor do real.

E deixou que a moeda norte-americana fosse negociada livremente, sem o


controle do governo.
Com isso, o real perdeu valor frente ao dólar, ou seja, sofreu uma
desvalorização.

122
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série
As consequências foram muito graves para a economia brasileira – o Real
foi desvalorizado, o custo de vida subiu, a dívida aumentou e os investimentos
foram reduzidos.

Muitas empresas foram prejudicadas, pois tinham dívidas em dólar. O


governo foi obrigado a manter os juros altos, a fim de tentar atrair dólares de
fora. Com isso, as empresas diminuíram a produção e dispensaram empregados,
aumentando o desemprego.

Outra conseqüência da desvalorização do real foi a volta da inflação. O


governo recebeu socorro do FMI, que, em contrapartida, exigiu a aceleração das
reformas previdenciária e tributária.

Os Estados e municípios também tiveram de se enquadrar nesse objetivo


por força da Lei de Responsabilidade Fiscal, aprovada em maio de 2000 pelo
Congresso Nacional.

Lei de Responsabilidade Fiscal

Estabelece normas de conduta para os administradores públicos (prefeitos,


governadores e presidente).
Por força dessa lei, devem obedecer as normas e limites para administrar o
dinheiro público, prestando contas sobre quanto e como gastam os recursos da
sociedade.
Representa um importante instrumento de cidadania para o povo brasileiro,
pois todos os cidadãos terão acesso às contas públicas, podendo manifestar
abertamente sua opinião, com o objetivo de ajudar a garantir sua boa gestão.

Os problemas sociais do país agravaram-se ao longo dos sete anos do


governo FHC, mesmo com ligeira queda da mortalidade infantil e do
analfabetismo.

O desemprego e a violência urbana cresceram, sobretudo nas grandes


cidades, e o salário mínimo continuou absolutamente insuficiente para o sustento
de uma família.

−Atividade: responda no seu caderno.


12) Na sua opinião, a Lei de Responsabilidade Fiscal significa um avanço
na democracia? Explique.

123
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Além da política de privatizações, a população brasileira teve que enfrentar os


efeitos da globalização. O Brasil sofreu com as crises mundiais devido à fragilidade e
à vulnerabilidade de sua economia. Assim como a Rússia, vários países enfrentaram
graves crises durante a década de 1990, que refletiram no Brasil, deixando marcas
negativas nos indicativos econômicos.
Em 2001, os problemas externos ficaram por conta da crise na Argentina e dos
ataques terroristas aos EUA. Nesses dois casos, o Brasil foi diretamente afetado, ao
ter o fluxo de investimento estrangeiro interrompido, pois os índices da bolsa de
valores caiu e o dólar disparou.
A Argentina é um dos nossos mais importantes parceiros e os EUA a maior
economia mundial. Para contornar a situação, o governo brasileiro tomou medidas
recessivas, como a elevação da taxa de juros e novo acordo com o FMI.

Na maioria das vezes, os brasileiros votam com intenção de melhorar a


situação política, econômica e social do país. Em geral, eles são influenciados pelas
promessas feitas pelos candidatos durante a campanha eleitoral. Para ganhar votos,
muitos políticos prometem habitação, saúde, trabalho, emprego, educação, etc. para
toda a população. Mas, depois das eleições, quase sempre se esquecem do que
prometeram.

Além disso, dificilmente alguém que não disponha de muito dinheiro para
despender com sua campanha eleitoral poderá se candidatar a algum cargo.
O resultado é que poucos são os candidatos que, na defesa de interesses mais
populares, conseguem concorrer com aqueles que detém maior poder econômico.

Assim, as mudanças ocorrem muitas vezes de maneira proveitosa. Por isso,


não basta que a população vote. É preciso, sim, que vote naqueles que defendem os
interesses populares e que trabalham em busca de melhorias sociais. Isso ainda não é
tudo: é preciso que, além de votar, a população se organize, reclame e exija dos
governantes a melhoria de suas condições de vida para que todos possam usufruir de
seus direitos inalienáveis – alimentação, habitação, saúde, saneamento básico, escola
e salário.
Além do exercício do voto, há outras maneiras importantes de atuar
politicamente. Fazer política é participar da vida da comunidade, do bairro, da cidade.
Fazer política é interessar-se pelos problemas do Brasil e também pelos problemas da
escola e da rua. Fazer política é preocupar-se com os problemas do grupo e da
sociedade.

124
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

O primeiro sindicato rural surgiu em 1930. Com o Estado Novo (1937-1945), os


sindicatos rurais pouco se desenvolveram. Foi nas décadas de 1950 e 1960 que eles
tomaram grande impulso. Em 1961 foi fundada a Confederação Nacional dos
Trabalhadores na Agricultura (Contag), só reconhecida pelo governo em janeiro de
1964.
O MST (Movimento dos Sem-Terra), é
Na década de 1980 desenvolveu- um movimento organizado que reivindica a
se uma nova organização, que passou a reforma agrária, defende o uso da terra na
participar ativamente da luta pela terra: o sua função social, econômica e ecológica.
Movimento dos Trabalhadores Rurais Esse movimento teve grande avanço
Sem Terra (MST). nas últimas décadas do século XX e
atualmente exerce grande pressão sobre o
Com ocupações de fazendas governo para acelerar a reforma agrária,
improdutivas e de terras públicas, realizando ocupações de terra.
acampamentos à beira de estradas, A causa dos trabalhadores sem-terra é
caminhadas de centenas de quilômetros, apoiada por sindicatos, Organizações Não-
manifestações nas cidades por onde Governamentais (ONGs), partidos políticos
passavam, pressão junto às autoridades, e suas manifestações são bem recebidas
o movimento dos sem-terra ganhou pelo povo.
grande expressão política no país.
Nos últimos anos, foram numerosos os enfrentamentos entre manifestantes e
forças policiais. Um episódio marcante ocorreu em abril e 1996, quando 19 sem-terra
foram assassinados após uma ocupação em Eldorado de Carajás, no Pará.

Segundo lideranças dos sem-terra, Em 1988, o seringueiro e líder


o ritmo dos assentamentos no governo sindical Chico Mendes, que se destacava
Fernando Henrique foi muito lento, frente na luta pelos direitos dos seringueiros e
ao acelerado ritmo de falência de pe- em defesa do meio ambiente, foi
quenos agricultores e a miséria dos assassinado em Xapuri, estado do Acre. O
camponeses. caso teve repercussão internacional. Os
assassinos foram presos, mas pouco
tempo depois fugiram de um presídio de
O governo, por sua vez, criticou o
segurança máxima no Acre.
MST, afirmando que o movimento Posteriormente foram recapturados.
dificultou acordos.

Enquanto isso...
...continua a violência no campo entre os
sem-terra e os ricos fazendeiros
que usam da força para abafar o movimento.

Em abril de 1997, o MST realizou uma marcha até Brasília. Servidores


públicos, estudantes, professores, artistas, sem-tetos, políticos, aposentados,
religiosos e desempregados aderiram à marcha, que segundo a polícia militar reuniu
30 mil pessoas.
A marcha foi pacífica elogiada pelas imprensas nacional e internacional. Em
maio de 2000, ocorreu a ocupação de prédios públicos em vários estados do Brasil
pelos sem-terra, que reivindicavam investimentos na questão agrária.

125
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

O Mercado Comum do Sul (Mercosul) é a estratégia de integração


econômica dos países platinos da América do Sul, cujas raízes encontramos na
década de 80, momento em que ocorreram acontecimentos que propiciaram uma
mudança significativa nas relações internacionais.
No mês de março de 1991, os presidentes do Brasil, da Argentina, do Uruguai
e do Paraguai assinaram o Tratado de Assunção, a fim de consolidar uma união
aduaneira e uma área de Livre Mercado que abrangesse os quatro países membros,
dando origem ao Mercado Comum do Sul (Mercosul). Gradativamente foram
eliminadas as barreiras aduaneiras de todos os bens comercializados entre esses
países.
Entre 1995 e 1996, a Venezuela, a Bolívia e o Chile negociaram formas de
cooperação com o Mercosul, provando assim que a integração regional ampliada é
uma alternativa conjunta para esses países não ficarem expostos às pressões
internacionais.
O objetivo primordial do Mercosul é possibilitar o desenvolvimento econômico
aos países-membros, inserindo-os de forma mais competitiva num mundo globalizado.
O Mercosul é a estratégia econômica para os países em desenvolvimento, já que a
integração deve possibilitar a ampliação geoeconômica dos mesmos.
Outro objetivo do Mercosul é favorecer economias de escala, reforçando as
possibilidades de produção de cada pais membro. Também é objetivo do Mercosul o
estímulo ao fluxo comercial com as demais
nações, procurando cada vez mais inserir as
economias dos países-membros no processo de
No final de 1997, o presidente dos
Globalização. EUA, visitou o Brasil. Incomodados
No conjunto, os países-membros com o MERCOSUL, que pode dar
enfrentam deterioração nas relações comerciais aos brasileiros a liderança nesta
internacionais, enquanto estão comercializando parte da América, os americanos
muito mais entre si, num comércio intra-regional. preferem a criação da ALCA (Área
de Livre Comércio das Américas),
Na verdade, o espaço sul-americano está cada
que pretende estabelecer o livre
vez mais adquirindo unidade. mercado em todo o continente.
Para o Paraguai e o Uruguai, o Mercosul Mas será que com essa integração
representa um importante parceiro de comércio, as empresas dos EUA não
em contrapartida, o Brasil e a Argentina vão nos engolir?
comercializam muito mais com os países
É claro que sim!
industrializados.
A ALCA é contra o nosso
Nesse sentido, fica evidente que uma das desenvolvimento e soberania.
características do Mercosul é a livre circulação de
bens e serviços entre os países-membros. Será que o Brasil conseguirá
resistir as pressões americanas?
O Mercosul propiciou aos países-
membros novas possibilidades e alternativas para o desenvolvimento econômico,
localizando-os no centro de um novo e amplo espaço geoeconômico, redefinindo a
geopolítica da América do Sul.
Frente aos novos desafios do mundo globalizado e à internacionalização da
economia, o Mercosul está efetivando a integração econômica dos países-membros
nesse novo mundo.

126
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

−Atividade: leia a frase abaixo e responda no caderno:


13) “O homem que não se interessa pelos acontecimentos políticos de seu
município, do seu estado e do seu país, compreende mal o mundo em que vive
e é facilmente manobrado por aqueles que detém o poder.”
Você concorda com a frase acima? Comente.

Em 2002, no final do mandato de FHC, ocorreram eleições para


deputados estaduais, federais, senadores, governadores e Presidente da
República. Nessas eleições, os cidadãos brasileiros elegeram para o
mandato de 2003 a 2006, Luis Inácio Lula da Silva - Partido dos
Trabalhadores, para Presidente do Brasil.

 ELEIÇÃO PRESIDENCIAL & COPA DO MUNDO

Por coincidência ou não, todo ano de


eleição presidencial é também de Copa do
Mundo. Inevitavelmente, de quatro em quatro
anos, esses dois temas concentram a atenção
dos brasileiros.
O ano de 2002 foi marcado pelo
ineditismo de duas conquistas: a de Luiz
Inácio Lula da Silva, que começou 2002 em
alta e terminou o ano eleito Presidente da
República e a da Seleção brasileira no Mundial
da Coréia do Sul e do Japão.
A primeira conquista para o PT, que em
22 anos nunca havia chegado ao Palácio do
Planalto, apesar de três eleições muito
disputadas.
A segunda conquista colocou o Brasil no Na capa: Ciro Gomes, José Serra,
topo do futebol mundial, inalcançável por Antonio Garotinho e Lula.
qualquer Seleção do planeta até 2010.
Ao longo da campanha presidencial de 2002, Lula teve ameaçada sua
liderança nas pesquisas, por adversários como por exemplo, o ex-ministro da
Fazenda Ciro Gomes (PPS).
Mas, nenhum candidato, nem mesmo José Serra (PSDB) no segundo
turno, conseguiu desfazer a vantagem do petista.

127
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Nem tudo em 2002 foi futebol e política.


O ano começou com uma epidemia de dengue e com muita violência, como
o assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel, e o
seqüestro de Washington Olivetto.
O assassinato brutal do jornalista Tim Lopes, no Rio de Janeiro,
e do casal Richthofen, em São Paulo,
também escandalizou os brasileiros.

Passados aproximadamente 20 meses dos ataques de 11 de


setembro a Nova Iorque, o presidente americano não cumpriu a
promessa de capturar Osama Bin Laden vivo ou morto e acabar com a
AL-Qaeda. É que ninguém na Casa Branca sabe se Osama Bin Laden
está vivo ou morto.
No início de 2003, mais uma vez, o Brasil e o mundo viveu
momentos de tensão e expectativa. A perspectiva da iminente guerra no
Iraque mobilizou a opinião pública mundial contra as intenções de guerra
do presidente norte-americano George W. Bush.
Embora não tivesse reunido provas consistentes de que o Iraque
mantivesse armas químicas e biológicas, usou esse pretexto para a
declaração da guerra.
Nesse cenário, o governo norte-americano intensificou as pressões
para implementação da ALCA, apresentando uma proposta limitada e
discriminatória no que diz respeito à maioria dos temas de interesse do
Brasil.
As ofertas de diminuição de tarifas foram diferenciadas: as
melhores foram feitas para os países da América Central e as piores, para
o Mercosul.

E o Oriente Médio? Pois é, essa é a região mais explosiva do


planeta. A fonte dessa combustão e, ao mesmo tempo, físico-econômica
– o petróleo que gera capital, e humano – etnias intransigentes com
religiões extremistas. Infelizmente, parece distante o ponto de equilíbrio
entre as desigualdades e a solidariedade. Isso quer dizer que por muito
tempo ainda acompanharemos, pelos jornais, revistas e outros meios de
comunicação, o desenrolar dos conflitos no Oriente Médio.

Esse cenário de crise internacional, além da situação herdada de FHC,

limitou a ação do governo Lula nos primeiros meses de gestão.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Durante sua campanha e ao assumir, o presidente Lula, sempre declarou


que não se poderia esperar grandes mudanças de imediato.
A necessidade de tomar
medidas para evitar uma escalada
da inflação e a fuga de capitais,
provocou entre analistas políticos,
lideranças e setores da opinião
pública, a sensação de que a “fase
de transição” anunciada pelo
ministro Pallocci em seu discurso
de posse poderá ser bem mais
longa do que se imaginava.
Economistas declararam que
alguns meses de governo é pouco
tempo para uma avaliação
consistente.
No essencial, porém, temos
assistido à continuidade da política econômica de FHC.
Se é verdade que a orientação política do atual governo é oposta à do
anterior, duas altas seguidas na taxa de juros fazem com que a sensação de que as
prometidas mudanças não virão tão cedo confirmar o otimismo inicial da
população.
Isso não significa, entretanto, como querem alguns, que o povo venha
retirar o apoio a Lula.
As dificuldades iniciais do governo e a realização de uma transição difícil
para um novo modelo de desenvolvimento sustentável foram bastante
esclarecidas desde o final da campanha eleitoral.
É certo, por outro lado, que essa tolerância da população não durará para
sempre. Ou o governo Lula começa a sinalizar – e a realizar – desde logo as
pretendidas mudanças, ou haverá um lento, porém constante desgaste do amplo
apoio que conquistou.
Resta saber se o novo governo, no combate à inflação, justificará uma
política econômica que continua a penalizar os trabalhadores e os mais pobres e
que, ao mesmo tempo, estabelece novos obstáculos para seu rompimento.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

...e as reformas...

Além do programa Fome Zero, que tem


despertado simpatia e apoio dos mais diversos
setores sociais pelo seu mérito – combater uma
das mais inaceitáveis calamidades que passa
enorme parcela da população brasileira.

A outra frente visível da ação do governo federal nesse momento são


as reformas – previdenciária, tributária, trabalhista e, em grau menor, a
reforma política.
Nesse campo, o governo emite fortes sinais de que está disposto a
realizar todas as reformas, colocadas como condição para que se assentem
bases para um processo de recuperação da capacidade de investimento do
país, de incluir a soberania do Brasil no cenário internacional (reduzindo-
se a atual dependência em relação aos capitais estrangeiros) e, em
conseqüência, o desenvolvimento sustentável de nossa economia, com
emprego e distribuição de renda.
Esse processo de reformas, por outro lado, não deverá ser resultado
da vontade unilateral do governo Lula, mas segundo a diretriz adotada,
resultará de um processo de debates, discussões e negociações entre os
diversos setores sociais envolvidos, tanto no âmbito do Conselho de
Desenvolvimento Econômico e Social, como através de mecanismos
bilaterais, fóruns e no interior do Congresso Nacional.

...um outro Brasil é possível...

Com o novo governo, abre-se um novo cenário político para os


trabalhadores, cujas entidades representativas são chamadas para opinar e
participar da viabilização de um programa que tem como parâmetros
fundamentais a retomada do crescimento com soberania, a ampliação da
democracia e a inclusão social.
Compreendemos que esse governo não foi eleito para realizar uma ruptura
revolucionária e nem ser o “salvador da pátria”!
Mas, é um governo eleito pela maioria da população com base em um
programa que responde às principais necessidades do povo brasileiro nesse
momento histórico, demonstrando de forma prática que um outro Brasil é
possível.

130
HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

Todos os acontecimentos narrados nos módulos que você estudou,


mais as complicações sociais, agravadas pelos desacertos na economia
brasileira abordados nos módulos de História, representam uma pesada
carga de problemas herdados de muito tempo atrás, e que o nosso país tem
enfrentado e terá que enfrentar nos próximos anos.
Que caminhos podemos percorrer para conseguir uma sociedade em
que não existam as grandes desigualdades sociais, que colocam a maioria da
população na pobreza e o poder de conduzir o país nas mãos de uma minoria
rica e privilegiada?

Cada um de nós participa da construção dessa história e tem que


tomar decisões que podem manter ou alterar as condições do nosso país no
futuro.

Mas essas decisões dependem do conhecimento do que já aconteceu e


da capacidade de projetar uma sociedade melhor no futuro.

Esperamos que este aprendizado tenha lhe proporcionado esse


conhecimento, para que você possa também tomar decisões, com a certeza
de que está fazendo a sua parte na construção da sua história e na
HISTÓRIA DO BRASIL.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

BIBLIOGRAFIA

♦ Proposta Curricular para o Ensino de História - Ensino Médio – Secretaria


de Estado da Educação – Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas –
São Paulo – 2ª Ed. – 1992.

♦ Parâmetros Curriculares Nacionais – Ensino Médio. Apresentação dos


Temas Transversais – Ministério da Educação e do Desporto – Secretaria da
Educação – Brasília – 1997.

. SCHMIDT, Mário. Nova História Crítica da América. São Paulo, Editora Nova
Geração, 1998.
. SCHMIDT, Mário. Nova História Crítica: Moderna e Contemporânea. Ensino
Médio. São Paulo, Editora Nova Geração, 1998.

. SCHMIDT, Mário. Nova História Crítica do Brasil. Ensino Médio. São Paulo,
Editora Nova Geração, 1998.
. COTRIM, Gilberto. História Global – Brasil e Geral – vol. Único. São Paulo,
Editora Saraiva, 1999.
. BOULOS JÚNIOR, Alfredo. História Geral: Antiga e Medieval – vol. 1.
São Paulo, FTD, 1997.
. ARRUDA, José Jobson e PILLETTI, Nelson. Toda a História, Ensino Médio.
São Paulo, Editora Ática, 1999.
. VESENTINI, J. William. Sociedade e Espaço - Geografia Geral e do
Brasil, Ensino Médio. São Paulo, Editora Ática, 1997.
. PILETTI, Nelson. História do Brasil. Ensino Médio. São Paulo, Editora Ática,
2001.
. PEDRO, Antonio e LIMA, Lizânias de S. História Geral – Compacto para o
Vestibular. Editora FTD, 1999.

. CD-Rom ALMANAQUE ABRIL 2001 – BRASIL e MUNDO, Editora Abril,


multimídia.
. ORDOÑEZ, Marlene e QUEVEDO, Júlio. História, Editora IBEP, 1998.
. CD-ROM CLIPART, Brasil 500 anos, Editora Ondas, 2000.
. JOBSON, José Arruda. História Total. Vol.3 e 4. São Paulo, Editora Ática, 2001.
. DIVALTE, Garcia Figueira. Novo Ensino Médio, volume único – com questões
do ENEM. Editora Ática, 2002.

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HISTÓRIA - ENSINO MÉDIO - 3ª série

ESTA APOSTILA FOI ELABORADA PELA


EQUIPE DE HISTÓRIA DO CEESVO
CENTRO ESTADUAL DE EDUCAÇÃO SUPLETIVA
DE VOTORANTIM

PROFESSORAS: DENICE NUNES DE SOUZA


MEIRE DA SILVA OMENA DE SOUZA
ZILPA LAURIANO DE CAMPOS

COORDENAÇÃO: NEIVA APARECIDA FERRAZ NUNES

DIREÇÃO:

ELISABETE MARINONI GOMES


MARIA ISABEL R. DE C. KUPPER

VOTORANTIM, 2003.
(Revisão 2007)

OBSERVAÇÃO

MATERIAL ELABORADO PARA USO


EXCLUSIVO DO CEESVO,
SENDO PROIBIDA A SUA COMERCIALIZAÇÃO.

APOIO

PREFEITURA MUNICIPAL DE VOTORANTIM

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