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Thiago Leucz Astrizi

Desenvolvimento e Contradições das


Tecnologias Computacionais

Brasil
2018
Thiago Leucz Astrizi

Desenvolvimento e Contradições das Tecnologias


Computacionais

Trabalho de Conclusão submetido ao Curso


de Especialização em Educação e Realidade
Brasileira do Departamento de Educação do
Campo, Centro de Ciências da Educação –
CED – da Universidade Federal de Santa Ca-
tarina – UFSC, para obtenção do título de
especialista.

Universidade Federal de Santa Catarina


Centro de Ciências da Educação
Departamento de Educação do Campo
Curso de Especialização em Educação e Realidade Brasileira

Orientadora: Profa. Dra. Thelmely Torres Rego

Brasil
2018
Thiago Leucz Astrizi

Desenvolvimento e Contradições das Tecnologias


Computacionais

Trabalho de Conclusão submetido ao Curso


de Especialização em Educação e Realidade
Brasileira do Departamento de Educação do
Campo, Centro de Ciências da Educação –
CED – da Universidade Federal de Santa Ca-
tarina – UFSC, para obtenção do título de
especialista.

Trabalho aprovado. Brasil, XX de Maio de 2018:

Profa. Dra. Thelmely Torres Rego


Orientadora

Professor Edson Marcos de Anhaia


Banca Examinadora

Brasil
2018
Resumo
Este trabalho tem por objetivo fazer uma análise sobre questões relacionadas à tecnologia
computacional e o desenvolvimento de software utilizando como base o materialismo
dialético e a obra de filósofos que se debruçam sob a questão tecnológica, principalmente
Álvaro Vieira Pinto, com algumas contribuições e complementos de Feenberg. O trabalho
começa analisando o uso do materialismo dialético, dando um enfoque nas áreas de ciências
naturais e observando como a ciência e tecnologia é tratada por diferentes concepções
filosóficas conforme são classificadas por Feenberg. Em seguida, estudam-se como tais
questões se aplicam no desenvolvimento de computadores e nas tecnologias relacionadas
como o desenvolvimento de software. Tenta-se observar diferentes contradições que se
desenvolvem no uso e desenvolvimento deste tipo de tecnologia. Concluímos o trabalho
afirmando que a concepção filosófica da associação sócio-técnica se encaixa e explica
melhor a presença de diferentes conflitos dentro do desenvolvimento e uso das tecnologias
computacionais.

Palavras-chave: ciência. tecnologias computacionais. materialismo dialético. Álvaro Vieira


Pinto.
Sumário

Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7

1 BASES FILOSÓFICAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
1.1 Materialismo Dialético e a Ciência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
1.2 Desenvolvimento da Espécie Humana . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
1.3 Ciência e Tecnologia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17
1.4 Concepções sobre Tecnologia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19

2 TECNOLOGIAS COMPUTACIONAIS . . . . . . . . . . . . . . . . . 23
2.1 Histórico da Tecnologia de Computadores e Softwares . . . . . . . . 23
2.1.1 As Primeiras Máquinas de Calcular Mecânicas . . . . . . . . . . . . . . . . 23
2.1.2 Os Primeiros Computadores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
2.1.3 Redes de Computadores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26
2.1.4 A Transformação do Software em Mercadoria . . . . . . . . . . . . . . . . 28
2.1.5 Software Livre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30
2.1.6 Software e Soberania . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33
2.1.7 Espionagem e Tecnologias Computacionais . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
2.2 Produção Capitalista do Software . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37
2.3 Potenciais e Limites das Tecnologias Alternativas . . . . . . . . . . . 41
2.3.1 Computação de Economias Planejadas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41
2.3.2 Software Livre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45
3.1 Questões Futuras . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46

Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49
7

Introdução

Memorial
Sou formado em Ciência da Computação pela Universidade Federal do Paraná e
estudante de Bacharelado em Física pela Universidade Federal de Santa Catarina. Trabalho
como programador e militei junto ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
(MST) no Paraná auxiliando na instalação de computadores em escolas do movimento,
na administração de redes de computadores e na criação de páginas de Internet para
eventos como a Jornada de Agroecologia e o sistema de votação da do Plebiscito Popular
pela Constituinte em 2014. Também milito junto ao Levante Popular da Juventude. Meu
principal interesse acadêmico na área da computação é o campo da criptografia, embora
tenha também interesse em acompanhar o desenvolvimento de software livre e tenha
participado de vários encontros e eventos tais como o Fórum Internacional de Software
Livre. Meu interesse pela temática deste trabalho está em buscar uma compreensão mais
crítica da tecnologia com a qual trabalho e compreender melhor seu desenvolvimento, suas
contradições e impactos, acreditando que isso ajuda na compreensão do papel que um
cientista ou tecnólogo deve ter quando escolhe atuar em prol da emancipação humana, e
não do capital.
A história de minha militância começou no movimento estudantil da UFPR onde
fiz parte de duas gestões do Diretório Central dos Estudantes além da participação em
Centro Acadêmico. Enquanto atuava em tal ambiente, passei um tempo me questionando
sobre qual seria a melhor forma de seguir com a militância política fora da universidade,
já que o movimento estudantil era algo temporário. Além disso, no curso de computação
eu tinha algumas dúvidas que não eram satisfeitas. Qual seria a melhor forma de usar o
conhecimento obtido ali para beneficiar mais as pessoas, e não apenas colocá-lo à serviço
do lucro de alguma empresa? Que caminho eu deveria seguir para contribuir mais neste
sentido? Tais questionamentos me levaram a participar de um Estágio Interdisciplinar
de Vivência (EIV) onde passei alguns dias por um processo de formação e em outros
tive a experiência de viver por um tempo dentro de um assentamento do MST. Tal
contato acabou me aproximando de tal movimento e algumas semanas depois, acabei me
voluntariando para participar por uns dias de uma ocupação recente de terras na cidade
de Ponta-Grossa (PR). Uma vez lá, fui convidado para participar de forma permanente da
secretaria estadual do MST do Paraná dando assistência técnica e auxílio tecnológico para
o movimento.
Atuando por anos como militante do MST acabei também me juntando ao Levante
Popular da Juventude, que surgiu dentro da Via Campesina como uma forma de aproximar
8 Introdução

a juventude do campo e da cidade para lutar em prol do projeto popular defendido por tal
campo político. Aproximar-me deste novo movimento que estava surgindo permitiu que eu
continuasse trabalhando e militando ao lado do MST, mas fazendo parte de grupos de
jovens urbanos que pensavam e realizavam ações políticas para além da luta camponesa.
Minha militância nestes dois grupos continuou mesmo após eu ter saído da Secretaria
Estadual do MST do Paraná para vir fazer uma segunda graduação em Santa Catarina e
segue até os dias de hoje.

Problemática
O que determina o desenvolvimento tecnológico computacional em nossa sociedade,
e o quanto os rumos deste desenvolvimento podem ser disputados por agentes que tenham
interesses distintos daqueles dos do capital?
Essa é uma questão importante, pois respondê-la nos leva a compreender melhor
os impactos de tais tecnologias, que mudanças trazem para a dinâmica do capital e o qual
o espaço que existe para tentar influenciar seus rumos e desenvolvimento considerando
que nossos interesses por tais tecnologias são conflitantes com aqueles que são usados para
conduzirem seu desenvolvimento. Por fim, tal compreensão também permite nos proteger
de argumentos ideológicos que por meio de mistificações e confusões podem usar mudanças
tecnológicas recentes para disfarçar a dinâmica do capitalismo e sua exploração.

Objetivos
O objetivo geral do trabalho é perceber as forças responsáveis pelo surgimento da
tecnologia computacional e a sua evolução, prestando particular atenção nos casos em
que houve uma disputa quanto à que rumos ela deveria tomar. Desta forma, podemos
compreender as contradições existentes dentro do próprio desenvolvimento tecnológico e
assim estaremos mais capacitados para responder à problemática.
Como objetivos específicos:

• Compreender diferentes visões filosóficas que tentam descrever os avanços científicos


e tecnológicos, dando destaque para a visão de Álvaro Vieira Pinto em seu livro
“O Conceito de Tecnologia”, mas também passando pela forma de categorizar as
diferentes concepções filosóficas sobre o rumo da ciência e tecnologia propostas por
Feenberg.

• Compreender, de maneira geral, o surgimento do próprio materialismo dialético no


século XIX e o que significa a sua visão também para a compreensão das ciências
naturais.
9

• Analisar os pontos centrais da obra de Álvaro Vieira Pinto quando se debruça sobre
o conceito de tecnologia e usá-lo como principal referência para compreender a
tecnologia.

• Observar um histórico das tecnologias computacionais, não se atendo somente à uma


mera listagem de datas e eventos e nem tratando a evolução da tecnologia como
o mero efeito de vários gênios criativos, tal como faz a maioria de tais históricos.
Devemos situar a história da tecnologia às características da época e contradições
que permitiram seu surgimento.

• Compreender eventuais características novas que tais tecnologias tragam para a


produção capitalista.

• Listar casos nos quais uma contradição na sociedade levou ao surgimento de uma
vertente tecnológica orientada ao capital e outra que se opôs à ele. Observar em tais
casos os potenciais e limitações das correntes de desenvolvimento alternativo. Os casos
aos quais será dedicada maior atenção são nas alternativas de desenvolvimento de
tecnologias computacionais realizadas em países socialistas e surgimento do software
livre.

Procedimento Metodológico
O trabalho será desenvolvido usando como base de análise o materialismo histórico
e dialético como método de compreensão do mundo e da sociedade. Por isso o trabalho se
propõe a usar como ponto de partida uma análise da própria importância deste método
como um avanço qualitativo da compreensão humana do mundo e em seguida passa a usar
como referência principal para suas análises a obra de filósofos e historiadores marxistas.
O principal autor que auxiliará em nossa compreensão sobre a ciência e tecnologia
é Álvaro Vieira Pinto, filósofo brasileiro que se propôs a estudar o conceito de tecnologia
sob uma ótica marxista. Contudo, nos pontos em que a análise dele não tiver elementos
para descrever alguns fenômenos, recorreremos a alguns conceitos mais recentes de outros
filósofos como Feenberg, ainda que façamos isso sem abandonar as bases deixadas por
Vieira Pinto.
11

1 Bases Filosóficas

1.1 Materialismo Dialético e a Ciência


O desenvolvimento do conhecimento humano passou por vários estágios e várias
tentativas de aperfeiçoamento na busca de criar concepções e modelos mais adequados para
representar e explicar o mundo ao seu redor. Cada vez que um novo modelo é elaborado,
acaba entrando em conflito com o anterior e somente depois de várias disputas é possível
vencer a resistência para sua aceitação. O conflito mais lembrado desta natureza foi a
longa disputa para emancipar o que se tornaria a ciência ocidental da teologia. Uma série
de transformações sociais tiveram foram necessárias para que isso ocorresse, ao longo das
quais vários dissidentes seriam sentenciados à morte na fogueira.
Menos lembrado, talvez por envolver menos mortes notáveis, talvez por ainda
não ter sido totalmente superado, é um conflito posterior entre uma visão a-histórica e
mecanicista de ciência e uma concepção histórica da mesma. A ciência desde o século
XVII, época de Isaac Newton, até o século XIX se baseava no princípio de que o universo
estudado era estático. A Terra sempre teria tido a mesma forma, o Sistema Solar sempre
teria existido com os mesmos planetas, as espécies biológicas não se transformariam.
Evidentemente, reconheciam-se coisas como forças, velocidade e movimento. Contudo, o
cenário no qual tais conceitos se aplicavam eram sempre imutáveis. Ou por serem sempre
cíclicos, ou porque qualquer transformação que ocorresse estaria fadada a fazer apenas
pequenas mudanças locais sem um impacto global.
Essa concepção começou a ser colocada em dúvida somente no século XIX. Hobs-
bawm descreve essa mudança e o desconforto que ela trazia em “A Era do Capital” (HOBS-
BAWM, 1975):

A teoria da evolução pela seleção natural ia bem mais longe dos limites da
biologia, e nisso reside sua importância. Ela ratificava o triunfo da história
sobre todas as ciências, embora “história” nesse sentido fosse normalmente
confundida pelos da época como “progresso”. (. . . ) Portanto,todo o cosmos,ou
pelo menos todo o sistema solar precisavam ser concebidos como um processo
de mudança histórica constante. (. . . ) A dificuldade para a ciência de meados
do século XIX não residia na admissão de tal historicização do universo—
nada era mais fácil de conceber em uma época de mudanças históricas tão
esmagadoramente óbvias e maciças—mas de combiná-las com as operações
uniformes, contínuas e não-revolucionárias das leis naturais permanentes. Um
descrédito em relação a revoluções sociais não estava ausente (. . . ).
12 Capítulo 1. Bases Filosóficas

Mesmo quando uma evolução histórica passava a ser reconhecida na compreensão


da natureza e na sociedade humana, muitos ainda tentavam encaixá-la como uma série
de mudanças quantitativas, sem grandes rupturas. Por não acreditar em mudanças revo-
lucionárias, seja na natureza, na sociedade humana ou na sua própria compreensão, era
natural que muitos pensadores acreditassem que não haviam mais grandes descobertas
científicas a serem feitas. Em 1984, o físico Albert A. Michelson teria escrito em seu livro
“Light, Wavesan teir Uses” (MICHELSON, 1903):

Os fatos e leis mais fundamentais da física já foram descobertos, e eles já estão


tão firmemente estabelecidos que a possibilidade de que eles sejam suplantados
por novas descobertas é extremamente remota. (. . . ) [As futuras descobertas
da ciência] deverão ser procuradas apenas para a sexta casa decimal.

Michelson não acreditava em qualquer mudança radical na compreensão física


o universo, prevendo erroneamente que tudo o que restaria aos cientistas do futuro
seria refinar as previsões para cada vez mais casas decimais. Sua previsão mostrou-se
completamente falha, uma vez que não muitos anos depois as leis mais fundamentais
da física, que vinham sendo usadas por séculos, foram de fato suplantadas por novas
descobertas. A crença de que pouco mais havia para ser descoberto era comum não só
na física, mas em outras áreas do conhecimento no século XIX. Mencionado pelo próprio
Hobsbawm no livro citado anteriormente, o linguista Schleicher, tinha plena certeza de
que ele e seus contemporâneos já haviam descoberto o que havia de mais importante na
evolução linguística e que com isso haviam reconstituído com sucesso o idioma falado pelos
arianos na antiguidade. Nas palavras de Hobsbawm:

Ciência “positiva”, operando com fatos objetivos e precisos, ligados rigidamente


por causa e efeito, e produzindo leis “uniformes” e invariantes além de qualquer
possível modificação, era a chave-mestra do universo, e o século XIX a possuía.

Contudo, mais e mais descobertas iriam entrar em contradição com tais expec-
tativas. As camadas geológicas que seriam descobertas apontavam que a Terra passava
por ocasionais mudanças drásticas e repentinas. A evolução biológica, segundo os fósseis,
prossegue de maneira gradual durante a maior parte do tempo, mas ocasionalmente passa
por alguns saltos no qual ela ocorre em ritmo mais acelerado. O próprio Sistema Solar
estaria mudando e ainda passaria por mudanças futuras, nas quais o Sol viraria primeiro
uma gigante vermelha e depois uma anã branca. Além de adotar uma visão histórica,
muitas áreas do conhecimento precisavam também reconhecer que as mudanças podiam
ocorrer por meio de mudanças qualitativas, não só quantitativas.
A visão mais polêmica em muitas áreas do conhecimento era de que tais mudanças
além de ocorrerem no passado, continuariam a ocorrer no futuro. Era reconhecido que
1.1. Materialismo Dialético e a Ciência 13

sociedades humanas se transformavam, e isso já vinha sendo usado no século XIX como
justificativa imperialista para potências capitalistas conquistarem outros povos sob a
justificativa de fazer suas sociedades “evoluírem”. No entanto, isso também levaria à
conclusões de que o próprio capitalismo não era o fim da evolução e que ele poderia ser
superado por outro tipo de sociedade.
Esse pensamento leva à conclusões que são desconfortáveis para as classes dominan-
tes de uma sociedade. Justamente por isso este é um conflito ainda não superado, mesmo
muitos anos depois. A teoria da evolução de Darwin, apesar de ser praticamente consenso
no meio científico, enfrenta resistência em épocas e regiões mais conservadoras. À beira do
século XXI, o economista e filósofo conservador Francis Fukuyama adquire grande fama e
fortuna publicando o livro “O Fim da História e o Último Homem”, no qual defende que a
evolução das sociedades humanas teria chegado ao fim com a vitória triunfal do capitalismo,
sem que mudanças muito profundas pudessem voltar a acontecer. E nas mais diversas
áreas do conhecimento, tratam-se os critérios de escolha e objetivos que orientam a própria
evolução do conhecimento como sendo coisas absolutas, atemporais e independentes da
sociedade em que estão inseridos. Quando muito, reconhece-se a mudança, mas trata dela
como sendo algo do passado.
A resistência à tal conceito é compreensível, visto que ele traz um grande risco para
a ordem social. É o mesmo motivo pelo qual havia resistência quando tentou-se alienar a
igreja e concepções teológicas do controle do conhecimento humano. Rejeitar que a história
possa ter um fim fatalmente desagradará aqueles que estão confortáveis com o estado atual
e não desejam que ele mude drasticamente, o que torna improvável que tal posição atraia
grande fama e fortuna. Se uma ideia desagrada aqueles que estão no poder, que fazem
com que grande esforço e energia acabem sendo gerados para combatê-la, a única chance
que ela tem de persistir e triunfar em situação tão adversa, é ser verdadeira.
Assumir a existência de um desenvolvimento histórico contínuo onde ocorrem não
apenas mudanças quantitativas, mas também qualitativas é uma das premissas e requisitos
para a aplicação do materialismo dialético desenvolvida por Marx e Engels, o qual foi
concebido para ser uma filosofia da análise geral de fenômenos. Engels corrobora a existência
dessa premissa como fundamental ao criticar em “A Dialética da Natureza” a hipótese da
morte térmica do universo, na qual a história de todo universo terminaria quando não
houvesse mais energia livre para sustentar qualquer trabalho, no sentido físico do termo.
Engels considera inconcebível o fim da possibilidade de ocorrer transformações (ENGELS,
1954):

Afirmar que a matéria, durante toda a sua existência ilimitada no tempo, apenas
uma vez se encontra diante da possibilidade de diferenciar seu movimento
(. . . ) acontecendo isso em um espaço de tempo desprezível em relação à sua
14 Capítulo 1. Bases Filosóficas

eternidade; dizer que antes e depois ela fica reduzida apenas à mudança de
lugar, isso equivale a afirmar que a matéria é mortal e o movimento é coisa
transitória. A indestrutibilidade do movimento não pode ser concebido apenas
no sentido quantitativo, mas também no qualitativo.

O materialismo dialético por si só diz pouco quanto aos mecanismos particulares


pelos quais tais movimentos e transformações ocorrem. Tais detalhes precisam ser desco-
bertos por meio de investigação. Mas ele traz a postura filosófica de que tais mecanismos
existem e podem ser encontrados dentro do que estudamos. Podemos compreender a
evolução histórica de algo observando o conflito, expresso pela contradição entre as forças
que mantém o estado vigente e as forças contrárias à ela que levam para o estado futuro,
para a próxima mudança qualitativa. Todas as coisas teriam em si os germes de sua própria
destruição (ou transformação). A contradição é a expressão da existência de uma história
e da sua evolução qualitativa. Ao longo dela, a ordem presente e a futura apresentam
conflitos e sobreposições como parte da própria transição para o futuro.
O conceito não é estranho às diferentes formas do conhecimento e é aplicado
de maneira pontual em várias disciplinas. Reconhece-se que um líquido aquecido passa
a desenvolver mudanças quantitativas à medida que esquenta, até por fim entrar em
ebulição e mudar seu estado, passando assim por uma mudança qualitativa. As ciências
naturais concordam com a importância de se estudar transformações e mudanças, sendo
esta a motivação principal para o surgimento e estudo do cálculo diferencial e integral.
Marx e Engels, dedicaram grande interesse no estudo desta área da matemática, por
sua importância em compreender mudanças quantitativas e pelo fato de na época o
Cálculo não ter sido completamente formalizado, sendo amplamente usado mesmo tendo
contradições internas. Em seus manuscritos matemáticos, Marx abraçou as contradições
internas em sua interpretação do cálculo ao invés de as rejeitar, e Engels escreveria no
Anti-Düring (ENGELS, 1964):

As matemáticas elementares, que operam com grandezas constantes, se mo-


vem, pelo menos em termos gerais, dentro das fronteiras da lógica formal; as
matemáticas das grandezas variáveis, cujo setor mais importante é o cálculo
infinitesimal, não são, em essência, nada mais que a aplicação da dialética aos
problemas matemáticos. (. . . ) Mas, a rigor, quase todas as demonstrações das
matemáticas superiores, a começar pelas introdutórias ao cálculo diferencial,
são falsas do ponto de vista das matemáticas elementares.

Contudo, matemáticos contemporâneos de Engels acabariam estabelecendo bases


lógicas formais para o cálculo após 150 anos de sua concepção. Mesmo assim, a visão
dialética de que as contradições eram necessárias para compreender o mundo ganharia
1.2. Desenvolvimento da Espécie Humana 15

novo argumento em 1931 quando Kurt Gödel demonstraria seu teorema de que sistemas
formais teriam limitações inerentes, e que seria impossível para eles, exceto pelos mais
triviais, que ao mesmo tempo fossem completos e livres de contradição. Isso colocaria um
fim à uma longa tentativa de encaixar o mundo e unificar toda a matemática em uma base
formal universal e livre de contradições.
Assim como o conceito da historicidade que lhe dá base, princípios da dialética são
usados e reconhecidos em várias áreas do conhecimento de maneira pontual. O materialismo
também é empregado pontualmente. Entre as ciências naturais, ele é quase um consenso
como base de conhecimento e metodologia. Mesmo assim, isso não impede que estudiosos
destas ciências tenham visões idealistas com relação à outras áreas do conhecimento, ou
com relação à própria epistemologia. A enorme especialização e compartimentalização
das diversas áreas do conhecimento impede que mutos conceitos sejam usados de maneira
ampla, propositalmente limitando sua atuação e os seus riscos para a ordem atual. Uma das
virtudes do materialismo dialético é fornecer uma base filosófica à partir da qual podemos
reconhecer elementos e regras comuns entre várias áreas do conhecimento diferentes e nos
permite também estabelecer uma ponte na compreensão entre elas.

1.2 Desenvolvimento da Espécie Humana


A espécie humana é uma dentre várias outas espécies biológicas. Portanto, para
compreender as origens de suas características, deve-se compreender o seu surgimento
biológico. Na natureza, todas as espécies estão em contante transformação por meio da
evolução e seleção natural. Várias mudanças quantitativas estão sempre ocorrendo, com
as espécies acompanhando as mudanças do ambiente e se adaptando à elas. Na longa
história da vida na Terra, mudanças qualitativas mais drásticas também ocorreram e
passaram a mudar radicalmente o modo como a vida pode se desenvolver. Assim foi, por
exemplo, o surgimento dos primeiros organismos eucariontes, dos primeiros multicelulares,
da reprodução sexuada, o surgimento e um sistema nervoso central e muitas outras
transformações. O surgimento da razão humana é uma destas mudanças qualitativas, que
tornam o mundo um lugar bem diferente depois de ocorrer.
Álvaro Vieira Pinto sintetiza a diferença fundamental entre a espécie humana e as
demais espécies apontando a diferença em como ambas lidam com o conceito de consumo
e produção. Todos os seres vivos precisam consumir elementos do meio para sobreviverem
obtendo energia e matéria-prima para seu crescimento e reprodução. Da mesma forma,
como o meio-ambiente não produz diretamente os elementos e substâncias dos quais os
seres vivos precisam, estes precisam usar suas enzimas e digestão para assim produzir as
substâncias das quais precisam. Nas outras espécies, o processo de produção é algo interno,
e ocorre somente depois do consumo. Mas a espécie humana consegue produzir as próprias
16 Capítulo 1. Bases Filosóficas

coisas que irá consumir, sendo a ferramenta usada para isso a razão (PINTO, 2005):

Em particular, todo ser vivo consome e produz porque só assim se incorpora


ao ciclo de organização da matéria, em contínuo movimento, na forma pela
qual é definido cada grau da escala biológica. Porém, há um caráter distintivo
que traça a linha divisória entre a fase de constituição biológica pré-humana e
a do homem plenamente realizado: todos os seres do mundo vivo, vegetais e
animais, anteriores ao homem não consomem o que produzem. Distinguem-se
precisamente por consumirem o que não produziram. Consumir o que produz,
só o homem fará.

A capacidade de produzir o que consome requer uma capacidade de projetar a


produção. De pensar, criar modelos mentais que expliquem o funcionamento do mundo e
assim aplicar tais conhecimentos na produção. É importante mencionar que a capacidade
de produção humana não se aplica somente à capacidade de criar ferramentas para caçar ou
desenvolver a agricultura. Esta capacidade foi a responsável por produzir o próprio mundo
no qual as pessoas vivem. Este não mais um mundo natural, mas um novo ambiente com
diferentes regras, diferentes necessidades de consumo e diferentes formas de produzi-las.
A própria sociedade humana e suas diferentes culturas, leis e meios de produção são o
resultado de tal capacidade. De fato, o mundo social é sua mais importante e essencial
produção. Nele, as contradições principais não são mais contradições da natureza, mas
aquelas engendradas pela própria espécie em sua sociedade.
A capacidade de projetar e produzir faz também com que a nossa espécie vivencie
contradições diferentes das de outras espécies. Todas as espécies vivas experimentam
contradições com o meio em que estão. Os seres vivos, para continuarem vivos, precisam
satisfazer uma série de condições não encontradas no ambiente. Sua temperatura pode
variar apenas dentro de um intervalo restrito, sua integridade física não pode ser ameaçada,
sua composição não pode mudar. O meio-ambiente e a natureza em que estão atua contra
a manutenção de sua vida e eles devem lidar com tal contradição para conseguirem ficar
vivos. Mas não são indivíduos de cada uma destas espécies que resolvem tais contradições.
É a própria espécie que precisa se adaptar às diferentes mudanças do ambiente, ou ela
irá se extinguir. Para os seres humanos, graças à capacidade de planejamento e produção,
são os próprios indivíduos e a sociedade em que eles estão que lida diretamente com
tais contradições. E o resultado disso, não é uma transformação biológica, mas uma
transformação cultural e uma evolução nas técnicas desenvolvidas pelos seres humanos.
Isso permite resolver o conflito adaptando a própria natureza à nossa espécie.
Para Engels, a origem da racionalidade humana está no trabalho, que é justamente o
ato de produzir ao qual se refere Vieira Pinto. Ele acreditava com isso que o desenvolvimento
cognitivo e cerebral da espécie humana ocorreu evolutivamente junto ao desenvolvimento
1.3. Ciência e Tecnologia 17

de sua capacidade manual. O cérebro passaria a ser dotado de uma maior capacidade
justamente para poder lidar com uma maior capacidade de manipular o ambiente ao
redor com mãos que não eram mais usadas para se locomover, e com isso estavam livres
para serem usadas em diversos tipos de manuseio. Descobertas fósseis posteriores iriam
confirmar tal correspondência. Isso leva à conclusão de que a razão e a capacidade humana
não são coisas independentes, mas estão vinculadas à forma pela qual produzimos nossa
existência.

1.3 Ciência e Tecnologia


Uma proposição que é consequência da simetria das leis da física é a de que por
mais que construa-se uma máquina complexa, o funcionamento dela não será afetado
caso ela seja movida, rotacionada ou se ela estiver se movendo sob a mesma aceleração,
mas em velocidade diferente. A afirmação pode ser vista com alguma desconfiança, pois
alguém poderia alegar que uma ampulheta, mesmo sendo um mecanismo simples, não
se comporta da mesma forma caso esteja deitada ao invés de estar em pé. O paradoxo é
resolvido lembrando que neste caso, a máquina que observamos não é só o vidro e a areia
da ampulheta. Faz parte do funcionamento do mecanismo a própria gravidade, portanto
só faz sentido considerar a máquina não como sendo só a parte de vidro e areia, mas
como sendo composta por isso e pelo planeta em que ela está. Levando isso em conta, a
afirmação passa a ser verdadeira para uma ampulheta.
O pensamento de Álvaro Vieira Pinto segue um raciocínio semelhante para apontar
que para compreender o que é uma ampulheta, não basta olhar para a sua forma e sua
composição de vidro e areia. Existe um contexto maior para ser observado, ou aquele objeto
não fará sentido. Um contexto tão onipresente que é fácil esquecer de sua existência: ele é a
própria sociedade em que tal artefato existe. Assim como ela não funcionaria em um local
sem gravidade, dizer que ela funciona também não teria sentido fora de uma sociedade
que tivesse a necessidade de marcar o tempo com uma granularidade próxima de uma
hora. Se ela fosse transportada para uma sociedade sem tal necessidade, ela simplesmente
seria vista como um objeto inútil. A tecnologia da ampulheta, tal como a de qualquer
outro artefato, foi criada como forma de lidar com uma contradição presente em uma
dada sociedade. Sem observar isso, nada pode ser compreendido à respeito de qualquer
invenção.
É dentro da sociedade humana que surgem diferentes contradições que precisam
ser resolvidas, e são elas que definem os rumos que a tecnologia e ciência desta sociedade
irão tomar. Em sociedades com menos domínio das forças produtivas, as pessoas lidam
com as contradições gerando conhecimentos e tradições bastante rígidos, pois uma perda
da produção tem consequências muito grandes. Como não há muito excedente produzido,
18 Capítulo 1. Bases Filosóficas

colocar à perder uma parte da produção leva à perda das vidas de muitas pessoas. Tais
sociedades passam também por um processo de refinamento e evolução do conhecimento,
mas isso ocorre em um ritmo menor que em nossa sociedade. Estímulos maiores para inovar
e questionar os conhecimentos tradicionais ocorrem em sociedades capazes de produzir
maiores excedentes, pois isso permite à elas realizar experimentos mais arriscados para
tentar refinar seu conhecimento.
Todas as sociedades tem a sua tecnologia, técnica e uma base de conhecimento que
tenta explicá-la. Ao contrário do que diz o senso comum, o que caracteriza nossa época
não é a grande presença tecnológica, pois esta existe em todas as sociedades. O fato da
nossa tecnologia ser mais sofisticada que no passado tampouco é um diferencial relevante,
pois o mesmo poderá ser dito da sociedade no futuro e o mesmo pode ser dito de várias
outras sociedades do passado.
Desenvolver técnica e tecnologia faz parte da nossa própria capacidade de produzir,
ou trabalhar. Pelo mesmo motivo, também não existe uma ciência ou uma tecnologia
universal, elas dependem fundamentalmente da sociedade em que estão e como se organiza
a produção em tal sociedade. Um computador, por exemplo, só vai ser algo desejável e sua
criação só será estimulada em uma sociedade que tenha desenvolvido uma complexidade
produtiva que exija uma necessidade de realizar cálculos cada vez mais rápidos.
A ciência e a tecnologia não é a obra de gênios individuais que as criam, elas são obras
da própria sociedade, cujos membros sentem seus estímulos para resolver as contradições
com as quais estão em contato. Pode-se explicar assim as várias polêmicas que geralmente
estão envolvidas quando tenta-se descobrir quem foi o primeiro inventor de uma tecnologia.
Raramente a pessoa apontada era a única que estava tentando desenvolver aquela tecnologia.
Muitas vezes há muitos outros inventores que também estavam seguindo passos semelhantes
e estavam prestes à inventar a mesma tecnologia. Newton e Leibniz desenvolveram o
Cálculo Diferencial e Integral de maneira independente e quase simultaneamente. Muitas
tecnologias como rádio ou avião tem suas polêmicas quanto à qual dentre vários inventores
foi o primeiro a desenvolvê-la.
Isso ocorre porque o gênio individual não vive isolado. Ele está imerso em uma
sociedade e vivencia seus problemas e contradições que precisam ser resolvidos. Além
disso, ele é a pessoa que, geralmente pela sua classe, tem a oportunidade de ter acesso ao
conjunto de conhecimento acumulado da sociedade, o recebendo em escolas, universidades
e livros. E por fim, ele é sensível aos estímulos dados pela própria sociedade em que está,
que direciona quais áreas do conhecimento e quais problemas são mais prioritários para
serem resolvidos.
O avanço da ciência está profundamente ligado à tecnologia. Uma vez que o telefone
seja inventado, por exemplo, a sociedade passa a ter a necessidade de comportar esta
nova tecnologia. Pode-se argumentar que o telefone diminui o trabalho que as pessoas
1.4. Concepções sobre Tecnologia 19

precisam fazer, pois menos pessoas precisarão trabalhar no serviço de transportar cartas e
levar mensagens. Por outro lado, a sociedade passará então a necessitar de infra-estrutura
para fabricar os telefones e técnicos para compreendê-los e saber consertá-los. Além disso,
será necessário passar a manter um corpo de pessoas que detenha o conhecimento mais
avançado sobre eletricidade e acústica dos quais o telefone depende. A presença dessas
pessoas e de suas pesquisas na área garante a manutenção, adaptação e aperfeiçoamento da
tecnologia diante das mudanças que virão a ocorrer na sociedade. Por isso, é ingênuo pensar
que em algum futuro a tecnologia irá dispensar o trabalho humano. Tal possibilidade não
faz sentido, pois o trabalho é necessário para produzir, algo que caracteriza a própria
essência da humanidade. O que ocorre é que a natureza do trabalho vai se modificando
com o desenvolver da tecnologia.

1.4 Concepções sobre Tecnologia


Segundo Feenberg (FEENBERG, 2012), pode-se classificar as diferentes concepções
sobre tecnologia em como elas respondem à duas perguntas. A primeira, se elas consideram
a tecnologia neutra. E, a segunda, se o efeito da tecnologia pode ser humanamente
controlado, ou se ela apenas operaria segundo uma lógica própria. Dependendo de como
responde-se à estas questões, existem quatro principais visões sobre a tecnologia.
A visão derivada do instrumentalismo é a mais próxima do senso comum e
considera a tecnologia neutra, mas controlável. Para ela, a ciência é um instrumento útil
para prever acontecimentos futuros e a tecnologia gerada por ela é criada em uma busca pela
eficiência e satisfação das necessidades da sociedade. Ela seria um conhecimento universal,
assim como a tecnologia se desenvolveria seguindo caminhos semelhantes independente de
fatores humanos e sociais. Esta visão não nega que possam existir consequências negativas
da tecnologia, ou que ela pode ser usada incorretamente. Mas trata isso como algo a ser
regulado externamente, sem relação com o desenvolvimento científico em si.
Ela é encontrada em filósofos com um otimismo positivista ou liberal (como Popper
e Dewey) com relação à ciência. Em suas obras eles buscam primariamente compreender a
relação entre as teorias científicas e a realidade externa em si, ou focam-se na compreensão
e impacto e suas metodologias, sempre ignorando a possibilidade de qualquer viés derivado
da cultura e da sociedade nos rumos do desenvolvimento e não reconhecendo a possibilidade
de que diferentes tipos de ciência e tecnologia possam surgir.
A visão determinista acredita na neutralidade, mas enxergam a tecnologia se-
guindo um caminho próprio. Faz parte desta visão uma teoria marxista ortodoxa, ou mesmo
vulgar, onde a ciência e tecnologia são puramente forças produtivas que iriam avançar cada
vez mais. Na sociedade capitalista tais forças seriam usadas de forma distorcida em virtude
das próprias contradições do capitalismo. Futuramente, em uma sociedade socialista,
20 Capítulo 1. Bases Filosóficas

estas mesmas forças produtivas estariam à serviço não do capital, mas do bem-estar da
população e isso acabaria com muitos problemas atuais relacionados à tecnologia.
Pode-se interpretar várias passagens de “O Conceito de Tecnologia” de Álvaro
Vieira Pinto como embasadoras de uma visão assim:

Inicialmente, ao ser inventada, toda técnica original é concebida para satisfazer


uma necessidade julgada tal pelo homem em razão do regime de produção a
que está submetido. (. . . ) Com isso contribuem, neste aspecto particular, para
consolidar o modo existente de produção porquanto removem uma dificuldade,
uma causa de insuficiência ou uma limitação à expansão das forças produtivas.
Mas, ao contribuir para consolidar o regime de produção, contribuem necessa-
riamente para que ele avance, ou seja, obrigam-no a desenvolver-se, o que vem
a ser aproximá-lo do esgotamento de suas possibilidades históricas com relação
às exigências humanas.

Se levarmos em conta somente este trecho, e ignorarmos que existem outros fatores
que nos permitem julgar o impacto de uma tecnologia, podemos acabar concluindo que
todas as obras científicas e tecnológicas são equivalentes e igualmente caminham na mesma
direção de desenvolver o capitalismo e assim levá-lo à sua superação. Não haveria diferença
outra além de questões de eficiência quando temos que escolher entre duas tecnologias
diferentes que competem entre si. Sendo este o único fator, não há realmente uma escolha.
É importante notar que Álvaro Vieira Pinto reconhece e reitera diversas vezes que a
ciência e tecnologia mudam de acordo com a sociedade e o meio de produção em que estão.
Reconhece que existem tecnologias existentes hoje que deveriam ser descartadas em uma
futura sociedade socialista onde o conflito com o capitalismo já houvesse sido superado (ele
cita as armas, tecnologias bélicas e o desenvolvimento de produtos de luxo que só poderiam
ser fabricados para pouquíssimas pessoas). Admite que diferentes classes sociais podem
se utilizar de diferentes saberes e técnicas (embora se limite a apontar uma diferença
de status social entre técnicas e saberes populares que tendem a ser mais práticos e o
saber erudito reservado para a burguesia). E sugere também que países subdesenvolvidos
não necessariamente devem seguir os mesmos passos de países centrais do capitalismo
para avançar sua tecnologia (ele julga necessário que os passos não sejam os mesmos, mas
enxerga eles alcançando resultados finais equivalentes).
Mais pessimistas seriam os filósofos substantivistas. Estes não enxergam a tecno-
logia como neutra, mas como portadora de valores vindos da sociedade que a criou. Nossa
relação com a tecnologia seria uma força que moldaria a nossa própria forma de pensar e
de realizar as coisas. A tecnologia que temos hoje seria essencialmente algo prejudicial e
estaria controlando as pessoas, sem que possa ser controlada pelas pessoas. Entre filósofos
1.4. Concepções sobre Tecnologia 21

que seguem esta linha estaria Martin Heidegger, criticado por Álvaro Vieira Pinto em seu
livro.
Também passaram a seguir esta linha filósofos marxistas da Escola de Frankfurt
que adotariam a visão pessimista por atribuírem à ciência e tecnologia uma forte carga
ideológica capitalista. Mas ao invés de adotar um irracionalismo como Heidegger, estes
propõe a criação de uma nova ciência e tecnologia que seria necessária para a construção
de uma sociedade melhor.
Por fim, a quarta visão seria a associada à associação sócio-técnica, que não
acha a ciência e tecnologia neutras, mas acha que existe um grau de controle que se
pode ter sobre elas. Esta visão assume então a tarefa de tentar identificar até que ponto
a tecnologia convencional gerada dentro dos valores do capital pode ser redesenhada e
adaptada para que se adeque à diferentes valores, e identificar até que ponto vai o controle
que pode ser feito sobre a tecnologia. A disputa entre diferentes tecnologias pode então
ser uma disputa política sobre que tipo de sociedade desejamos construir. Este trabalho
defende que esta visão é a mais adequada e procurará apresentar elementos que justifiquem
isso em seu decorrer.
Um dos méritos desta quarta visão é reconhecer diversas disputas sobre diferentes
modelos de tecnologia existentes (agroecologia e agricultura convencional, software livre e
proprietário, diferentes concepções urbanísticas) como uma disputa de diferentes modelos
de sociedade. E também desmistifica o discurso baseado na eficiência usado para justificar
escolhas tecnológicas. Pois eficiência não é algo absoluto, mas algo relativo a um critério
de medida específico. Quando muda-se o critério de medida de acordo com outra visão
política, pode-se chegar à conclusões diferentes sobre ela. Sendo assim, não existiriam
decisões puramente técnicas sem influência de decisão política. Se uma decisão técnica se
refere a encontrar a melhor forma de ir de um ponto para outro, a decisão política deverá
antes especificar em qual ponto queremos chegar de acordo com nossos valores.
Pode-se então pensar como seria uma tecnologia de acordo com valores socialistas
e desenvolvê-las desde já, adaptando o conhecimento já existente de acordo com objetivos
diferentes. Para Victor Wallis, uma tecnologia socialista seria toda tecnologia que seja
compatível com o socialismo, ou que o ajude a promovê-lo. Segundo ele, as duas caracte-
rísticas que uma tecnologia assim precisaria ter é o compromisso com a igualdade social
e com a saúde ecológica. Wallis aponta algumas tecnologias já existentes neste sentido
como aquelas que ajudam na oferta de meios de transporte alternativos aos carros nas
grandes cidades e aquelas que buscam aumentar a participação democrática das pessoas
na sociedade.
Não existe uma resposta clara para o quanto realmente pode-se desenvolver uma
tecnologia que não é guiada pelos objetivos hegemônicos da sociedade em que está inserida.
A mera existência delas não deixa de ser um reflexo da contradição interna da sociedade,
22 Capítulo 1. Bases Filosóficas

onde muitos desejam que hajam outros fatores acima do lucro e do mercado para definir
as tecnologias que devem ser adotadas. E mesmo que elas tenham limites para avançar,
tais tecnologias e o conhecimento derivado delas certamente será relevante no advento de
uma sociedade socialista.
23

2 Tecnologias Computacionais

2.1 Histórico da Tecnologia de Computadores e Softwares

2.1.1 As Primeiras Máquinas de Calcular Mecânicas

A história do desenvolvimento de computadores ilustra os conceitos apresentados no


capítulo anterior. A criação das primeiras calculadoras mecânicas ocorre simultaneamente
à enorme expansão mercantil durante o Renascimento, quando havia começado uma
transição do feudalismo para o capitalismo. A sociedade europeia desenvolveu então uma
demanda por ter que realizar contas de maneira rápida para lidar com sua contabilidade e
dessa demanda nasceram tais inventos. Isso foi o que levou tais inventos a aparecerem na
Europa apesar dos árabes e chineses dominarem a mais tempo a tecnologia de construir
mecanismos sofisticados como relógios mecânicos e instrumentos de cálculo astronômico.
Em termos de velocidade de cálculo e flexibilidade, os novos instrumentos europeus
não eram muito impressionantes. Uma pessoa muito bem treinada no uso de um ábaco
podia fazer cálculos muito mais rápido que aquelas calculadoras mecânicas. O ábaco
poderia também ser mais versátil podendo fornecer um número maior de dígitos graças à
sua fabricação simples. Entretanto, o tempo de treino necessário para operar bem uma
calculadora é muito menor que o necessário para treinar o operador de um ábaco. As
calculadoras tornam-se mais atrativas somente em uma sociedade na qual o volume de
cálculo a ser feito torna-se suficientemente grande, com uma quantidade de dígitos bem
definida e quando as pessoas que tem a demanda de realizar as contas precisam também
realizar outras atividades além desta. É quando deixa de ser vantajoso gastar muito tempo
de treino em troca de mais velocidade ou flexibilidade.
A revolução industrial marcou a consolidação do capitalismo como sistema mundial
e com ela as forças produtivas da sociedade deram um salto qualitativo. A sociedade que
se beneficia de tal avanço de produção passa a poder investir muito mais da riqueza que
tem à disposição para financiar e estimular o avanço científico e tecnológico. O próprio
modo de produção capitalista demanda tais inovações para continuar funcionando. Uma
quantidade muito grande de novas máquinas e invenções passam a surgir neste contexto.
Para a história da tecnologia analisada neste capítulo, um marco é a máquina de tear
de Jacquard. Esta máquina fabricava tecidos, mas tinha a peculiaridade de poder ter
os detalhes de seu funcionamento modificados inserindo nela diferentes tipos de cartões
perfurados. A invenção era mais uma dentre as várias da época que beneficiava a indústria
permitindo um aumento de produção ao garantir que uma mesma máquina pudesse ter o
seu comportamento adaptado de maneira rápida, sem precisar modificar seus mecanismos
24 Capítulo 2. Tecnologias Computacionais

internos. Tal tecnologia foi a precursora dos softwares que posteriormente computadores
poderiam usar.
A necessidade que a nova sociedade capitalista tinha de realizar cálculos levou
ao aumento de pessoas que trabalhavam como computadores humanos. Até meados do
século XX, o termo “computador” se referia à profissão daqueles cujo trabalho era sentar
em uma mesa e realizar uma imensa quantidade de contas. Desde o século XIX, pessoas
vinham sendo empregadas como computadoras para realizar cálculos astronômicos, área do
conhecimento que tornava-se muito importante em uma sociedade que precisava realizar
comércio, guerras e invasões globalmente. No século XIX o estabelecimento da estatística
também gerou uma grande demanda por pessoas que pudessem realizar contas. O avanço
científico realizado criava mais e mais necessidade deste tipo de trabalho. Em 1922, o
meteorologista Lewis Fry Richardson propôs novos modelos numéricos para prever o clima e
estima no capítulo final de seu texto que seria necessário manter 64.000 pessoas empregadas
para realizar todos os cálculos de seu modelo para que assim fôsse possível realizar uma
previsão do tempo global. Richardson defendia que apesar da grande quantidade de
trabalho necessário para realizar periodicamente os cálculos de seu modelo, haveriam
benefícios claros para várias áreas da economia, focando sua argumentação nos benefícios
para a produção agrícola (HUNT, 1998).
A demanda pelo trabalho de calcular faz com que passe a existir o interesse de
automatizá-lo por meio de máquinas, industrializando-o da mesma forma como ocorreu
com outros tipos de produção. O inventor e cientista Charles Babbage, que havia já
publicado estudos sobre vantagens econômicas do emprego de máquinas em indústrias,
foi uma das primeiras pessoas a realizar a tentativa de criar um computador mecânico.
Após várias tentativas e protótipos, ele chega ao projeto da máquina que ele chama de
“Máquina Analítica”, que une princípios de calculadoras mecânicas que ele havia projetado
com o uso de cartões perfurados como dos teares de Jacquard. A máquina nunca chega a
ser construída pelo financiamento de seu projeto ter sido interrompido. Somente em 1991,
o Museu de Ciência de Londres construiu com sucesso a máquina de Babbage usando
somente tecnologias existentes na época, conseguindo demonstrar que o projeto estava
correto e que seria teoricamente possível construir um computador no século XIX (SWADE,
2016).
Entretanto, a falha de se finalizar o projeto de Babbage não deve ser vista somente
como o resultado de azar. O surgimento de uma tecnologia tem sempre um custo para
a sociedade na qual ela é gerada. Para que a tecnologia surja é preciso que as forças
produtivas de uma sociedade estejam suficientemente avançadas e que o interesse da classe
dominante por tal tecnologia faça com que uma fração suficiente da produção seja investida
na sua pesquisa e desenvolvimento. Isso fez com que os computadores não estivessem ao
alcance do século XIX, e só viessem a surgir no século XX. Ainda que Babbage conseguisse
2.1. Histórico da Tecnologia de Computadores e Softwares 25

a improvável tarefa de obter financiamento suficiente para o projeto, levando em conta


que os primeiros computadores do século XX eram tão caros que só estavam acessíveis
às maiores empresas e governos de países centrais do capitalismo, no século XIX eles
acabariam sendo ainda mais caros, limitando ainda mais ou mesmo inviabilizando seu uso.
Como a Máquina Analítica de Babbage era muito mais lenta que os primeiros computadores
construídos, fazendo multiplicações trinta vezes mais devagar, isso também ajudaria a
limitar a sua aplicação.
Há uma boa razão na frase de Álvaro Vieira Pinto de que nenhuma tecnologia
antecipa-se à sua época, ou a ultrapassa, mas nasce e declina com ela, sendo reflexo de sua
determinada fase de existência. A mera existência do gênio criativo, mesmo neste caso em
que ele gerou um trabalho visionário e que caminhava na direção certa não era o bastante
para antecipar em quase um século a chegada dos computadores. O filósofo brasileiro chega
a mencionar em seu livro que pessoas no século XIX não veriam a mesma utilidade de um
computador como nós a vemos, já que é uma tecnologia feita para resolver os problemas de
nossa época. De fato, apesar de várias pessoas terem se interessado pela obra de Babbage,
as grandes dificuldades para terminá-la e seus possíveis benefícios não sendo tão grandes
fez com que após a sua morte todo o seu projeto fosse relegado ao esquecimento, apesar
dos esforços de seu filho para divulgá-los. No século seguinte, as pessoas que inventariam
os computadores tiveram que redescobrir por conta própria vários princípios anteriormente
descobertos por Babbage, cujo legado só seria reencontrado anos depois.

2.1.2 Os Primeiros Computadores


Se máquinas adaptáveis capazes de calcular qualquer coisa estavam fora do alcance,
os inventores do começo do século XX passaram a criar máquinas capazes de calcular apenas
problemas específicos que eram tidos como mais importantes. Vários países desenvolveram
assim máquinas capazes de realizar os cálculos necessários para criptografar e enviar
mensagens secretas durante a guerra, e isso também levou à construção de máquinas
capazes de calcular a quebra de tais criptografias para decifrar mensagens inimigas. A
introdução de novos veículos e tecnologias de bombardeio trouxe a demanda de realizar de
forma rápida o cálculo da trajetória de projéteis e máquinas especializadas neste tipo de
cálculo também foram feitas. Assim como problemas típicos de áreas da engenharia levou
inventores como Konrad Zuse a criar máquinas especializadas em tais tipos de cálculos.
Ainda que tais máquinas pudessem ter flexibilidade em seu funcionamento e nos
tipos de contas que podiam fazer, elas não eram capazes de resolver todos os tipos de
cálculos que poderiam ser necessários em diferentes tipos de atividades humanas. Nos
problemas para os quais elas eram aplicáveis, tais máquinas podiam representar um grande
ganho de produtividade, pois a pessoa que a operava podia assim realizar uma quantidade
de cálculos equivalente a de muitas outras pessoas trabalhando juntas usando calculadoras
26 Capítulo 2. Tecnologias Computacionais

e papel. Mas enquanto uma máquina de cálculo universal não era construída, a profissão
de computadores humanos continuaria existindo e empregaria pessoas para realizar contas
de maneira manual onde fosse inviável construir ou adquirir máquinas para automatizar
seu trabalho. Agências como a NASA ainda empregavam pessoas como computadores até
os anos 60, mesmo depois de já ter máquinas calculadoras automáticas. Na época, muitos
achavam mais seguro que pessoas conferissem manualmente os resultados obtidos com o
uso das máquinas para garantir sua confiabilidade.
A demanda por aumentar a produtividade do trabalho intelectual de fazer contas
levou ao surgimento de um novo ramo da matemática, área do conhecimento que muitas
vezes é erroneamente tida como sendo independente das questões políticas e econômicas
de seu tempo. Matemáticos como Alan Turing e Alonzo Church passaram a se debruçar
sobre o problema de compreender matematicamente o próprio ato de calcular e quais
as operações mais simples que seriam necessárias para que todos os diferentes tipos de
cálculos matemáticos pudessem ser feitos. Ambos chegaram a resultados diferentes que
depois se mostraram equivalentes e forneceram a base necessária para a construção das
primeiras máquinas de calcular universais.
Com a construção dos primeiros computadores universais reconhecidos como tais,
eles passaram a ser usados inicialmente em ambiciosos projetos de pesquisa. O seu custo
de produção era tão alto que somente departamentos de pesquisa ligados à países centrais
do capitalismo passaram a empregá-los. Projetos bastante ambiciosos como o de realizar
previsões meteorológicas globais de Lewis Fry Richardson agora tornariam-se possíveis
sem que fosse necessário contratar dezenas de milhares de pessoas para fazer contas. Mas
ao invés de fazer a previsão do tempo, o emprego dos primeiros computadores mostrava
que a prioridade maior estava em realizar cálculos balísticos e os cálculos que ajudariam
a desenvolver a bomba de hidrogênio. Fora da área militar, os primeiros computadores
dos anos 50 foram também usados para auxiliar em cálculos do Departamento do Censo
dos Estados Unidos e algumas dezenas de empresas privadas adquiriram tais máquinas e
dentre elas haviam empresas ligadas à construção de aeronaves e companhias de seguro.

2.1.3 Redes de Computadores


A capacidade de calcular rápido por auxílio de máquinas elétricas acabou revo-
lucionando outras áreas que até então pareciam ter pouca relação. A comunicação por
meio de telefones e telégrafos também utilizava sinais elétricos. Sendo assim, seria possível
passar o resultado de cálculos de um computador pelos cabos de comunicação. E além
disso, tendo máquinas elétricas capazes de fazer cálculos suficientemente rápidos mediando
a comunicação ou a gerenciando no meio do caminho para definir seu destino, poderia-se
ter um sistema de comunicação mais rápido e complexo, sem a limitação do telefone de
manter uma linha inteira ocupada ao realizar a troca de mensagens. Para que isso se
2.1. Histórico da Tecnologia de Computadores e Softwares 27

tornasse viável, bastou que os computadores se tornassem menores e mais baratos de modo
a não serem construídos em números tão reduzidos e para tão poucos casos.
A primeira rede de comunicação que se utilizou desta forma dos computadores
foi uma rede de detecção de mísseis aéreos nos Estados Unidos. Poucos anos depois uma
segunda rede de computadores seria criada para armazenar informações e gerenciar reservas
aéreas e informações sobre o vôo de várias companhias de aviação. O sistema mostrou-se
tão útil que continua existindo até os dias de hoje, após passar por várias atualizações
tecnológicas. Anos depois, uma outra rede de computadores criada para trocar informações
entre departamentos de pesquisa norte-americanos seria a precursora da Internet.
A capacidade de rápida troca de informações e gerenciamento da nova tecnologia
de redes de computadores iria chamar a atenção também de países socialistas. Países
como a União Soviética já vinham usando computadores exatamente como em países
capitalistas: primariamente no auxílio de pesquisas bélicas e aeroespaciais. Em 1959,
Anatolii Ivanovich Kitov, um famoso e reconhecido militar e cientista soviético propôs um
projeto de construção de uma rede de computadores que seria usada tanto para acompanhar
e fiscalizar ameaças militares como para auxiliar na gestão econômica do país (NITUSOV,
2010). Tal projeto se destaca por ser o primeiro de uma tecnologia que claramente se
distanciava de uma tecnologia capitalista. Somente um país socialista onde a economia era
planificada e não conduzida pelo mercado poderia desenvolver uma rede de computadores
focada na gestão da economia de um país. Infelizmente, conflitos de interesses políticos
fizeram com que a proposta não fosse aceita e tal rede nunca foi construída na União
Soviética. Novas propostas e tentativas de implementar algo assim seriam feitas, como
o projeto OGAS, ou Sistema de Automação de Todo o Estado (Общегосударственная
автоматизированная система учёта и обработки информации). Um projeto dos anos
60, o qual avançou mais, mas acabou tendo o seu financiamento negado.
Uma proposta de criação de uma rede de computadores para auxiliar na gestão
de uma economia socialista reapareceria novamente e começaria a ser implementada no
começo dos anos 70, durante o governo de Salvador Allende no Chile. O projeto, nomeado
de Synco (de “Sistema de Automação e Controle”, também conhecido pelo nome em
inglês de Cybersyn), consistia em um simulador econômico com técnicas de inteligência
artificial da época, softwares que monitorariam a produtividade de fábricas, uma sala de
operações e uma rede de terminais telex que serviriam para alimentar a rede com dados.
O projeto se desenvolveu bastante rápido, estando funcional em apenas dois anos. Em
1972 ele já estava funcionando na forma de um protótipo avançado e foi efetivamente
usado como uma ferramenta para contra-atacar a sabotagem econômica causada por uma
greve de caminhoneiros que bloquearam o fornecimento de comida para a capital. Em
maio de 1973, 26,7% das fábricas nacionalizadas do Chile já haviam sido incorporadas de
alguma forma ao projeto. A tecnologia desenvolvida no Chile foi assim o primeiro caso de
28 Capítulo 2. Tecnologias Computacionais

desenvolvimento de uma tecnologia computacional socialista. Ela era algo que só podia vir
a surgir em uma sociedade socialista, pois lidava com um problema que só se abria para
este tipo de sociedade. Após o golpe de Pinochet os militares fizeram algumas tentativas
de compreender os aspectos teóricos e tecnológicos do sistema para tentar aproveitá-lo de
alguma forma. Após falharem, o projeto foi inteiramente destruído (MEDINA, 2006).

2.1.4 A Transformação do Software em Mercadoria


Em fins dos anos 70 e começo dos anos 80, os computadores já haviam se barateado
e miniaturizado o suficiente para tornarem-se aparelhos disponíveis para o uso pessoal,
ao invés do uso exclusivo dentro de empresas e agências do governo. Com o acesso à este
novo mercado, empresas começaram a desenvolver máquinas para este fim.
O que tais empresas comercializavam eram as próprias máquinas em si. Comer-
cializar programas de computador era algo impensável inicialmente. Uma máquina era
complexa e levava tempo para ser produzida. Um software, uma vez que já tivesse sido
feito, poderia ser copiado muitas e muitas vezes por alguém que tivesse um computador
por um custo irrisório. Pareceria absurdo naquela época que a Microsoft, que estava se
dedicando à venda de softwares, se tornaria uma empresa maior que a IBM que começava
a produzir os primeiros computadores para uso pessoal.
Para que isso ocorresse, uma mudança cultural e jurídica precisaria ocorrer. Pro-
gramas de computador eram os herdeiros dos cartões perfurados usados para controlar e
modificar o funcionamento da antiga máquina de tear de Jacquard, mesmo que agora eles
já não fossem mais cartões e estivessem dentro de disquetes ou outros tipos de tecnologia.
Para as máquinas de calcular que eram os computadores, eles eram uma dentre muitas
formas de se representar operações matemáticas e manipulação de símbolos. Representar
tais tipos de operações não era algo novo, o matemático grego Euclides já havia feito
representações tão rigorosas como as de um programa de computador para definir um
método para obter o máximo divisor comum entre dois números. A diferença apenas é que
agora haviam máquinas que poderiam fazer esse tipo de operação de maneira automática.
Se softwares eram uma representação de como realizar operações matemáticas e
simbólicas, restringir a sua propagação seria tão absurdo como tentar restringir a propaga-
ção de um novo método que alguém viesse a descobrir para dividir ou multiplicar números
de maneira mais eficiente. Os usuários de computadores que haviam em universidades,
sempre haviam compartilhado todos os softwares em um espírito de colaboração acadêmica.
Agora, os usuários iniciais dos computadores pessoais também compartilhavam todos os
softwares que existiam, seja aqueles que eles mesmos escreviam, sejam softwares produzidos
por empresas como a Microsoft que tentavam vendê-los.
Mas isso criava um conflito com a tendência do capitalismo de transformar novas
2.1. Histórico da Tecnologia de Computadores e Softwares 29

coisas em mercadoria e assim abrir novos mercados. Uma ofensiva passou a ser realizada
para impedir o compartilhamento de informações em formato digital, em uma aliança entre
as recentes empresas de programas de computador com empresas que vendiam músicas
e filmes. A disputa é ilustrada por uma carta escrita por Bill Gates para os entusiastas
iniciais dos comutadores pessoais, conhecida como “Carta Aberta aos Hobbystas” (GATES,
1976):

(. . . ) Como a maioria de vocês deve estar ciente, muitos de vocês roubam


nossos softwares. Hardware deve ser pago, mas software deve ser compartilhado.
Quem se importa se as pessoas que trabalharam nele são pagas? Isso é justo?
(. . . ) O que isso faz é impedir que softwares bons sejam escritos. Quem afinal
pode se dedicar a realizar trabalho profissional sem receber nada em troca?

A carta representava os argumentos dos donos das empresas desenvolvedoras de


software pela transformação de programas de computador em propriedade privada. Um
novo arcabouço jurídico vinha sendo escrito e passou a permitir que empresas pudessem ser
consideradas as proprietárias de seus programas de computador. Se uma pessoa comprava
de alguma forma o seu software, ela não era considerada sua proprietária, ela adquiria
apenas uma permissão de uso da empresa. Tal permissão dava à ela somente o poder de
usar o programa tal como ele era fornecido. Era expressamente proibido fazer mais cópias
do programa de computador ou modificá-lo de alguma maneira.
Muitos dos usuários de computadores reagiram à isso ignorando as novas leis e
continuando a copiar os programas de computador. Os que tinham mais conhecimento
técnico iam descumprindo os termos de licença dos softwares e os modificavam para
passar por cima de toda restrição artificial colocada em tais programas para impedir que
eles funcionassem após serem copiados. Tais restrições artificiais embutidas no software
representavam o desenvolvimento de uma ciência e de técnicas que, ao contrário das
anteriores, visavam limitar e restringir o poder da tecnologia ao invés de ampliá-lo.
Mesmo assim, a nova indústria de software foi vitoriosa. Mesmo que a pirataria
nunca tenha sido completamente impedida, a legislação que tratava seus produtos como
propriedade privada permitia a elas forçar outras empresas e órgãos governamentais, que
eram seus maiores consumidores potenciais, a ter que sempre adquirir legalmente seus
produtos. Muitas vezes era vantajoso fazer vista grossa para a cópia ilegal de softwares,
pois se todos usassem os programas de uma empresa em casa, elas aprenderiam a usá-los
mais facilmente e isso gerava um atrativo para que empresas usassem os mesmos softwares
em ambientes de trabalho tendo que gastar menos em treinamento.
30 Capítulo 2. Tecnologias Computacionais

2.1.5 Software Livre


No meio acadêmico surgiu uma resposta diferente à nova mudança que ocorria.
Pois mais importante que apenas poder usar um programa de computador sem pagar, era
poder também saber os detalhes de seu funcionamento e as técnicas utilizadas. Havia uma
cultura de compartilhamento de código de programas de computador que também fazia
parte de uma cultura de colaboração científica. Uma reação vinda deste meio surgiu nos
anos 80 quando uma organização sem fins lucrativos, a Fundação do Software Livre, foi
criada por Richard Stallman, um ex-estudante e assistente de pesquisa do MIT (Instituto
de Tecnologia de Massashussets) e que contava com a ajuda de alguns outros membros e ex-
membros da comunidade acadêmica. O objetivo de sua organização seria reagir à mudança
que estava ocorrendo e garantir que os programas de computador sempre pudessem ter o
seu funcionamento estudado e modificado pelas pessoas que os adquiriam. Contrastando
com a reação dos usuários de computadores pessoais que recorriam à desobediência por
meio da pirataria, para eles a gratuidade dos programas de computador não era o principal,
mas acabava se tornando uma consequência, já que tendo acesso ao código que gera o
programa de computador e não impondo restrições artificiais na tecnologia, tornaria-se
trivial gerar muitas cópias de um software que podiam ser compartilhadas.
Stallman descreveria a sua motivação por ter comaçado a Fundação do Software
Livre:

Eu considero que se eu gosto de um programa eu devo compartilhá-lo com


outras pessoas que gostariam dele. Os vendedores de software querem dividir os
usuários e conquistá-los, fazendo com que cada um deles não compartilhe com
os outros. Eu me recuso a romper a solidariedade entre usuários desta forma.
Eu não posso manter a consciência assinando um compromisso de manter
segredo comercial quanto a um software ou concordar com uma destas licenças.
Por anos eu trabalhei dentro do Laboratório de Inteligência Artificial para
resistir a estas tendências e outras inospitalidades, mas chegou um momento
em que tudo foi longe demais: eu não poderia permanecer em uma instituição
onde tais coisas começaram a ser feitas comigo e contra a minha vontade.
Então para poder continuar a usar computadores sem desonra, decidi criar um
corpo suficiente de softwares livres tais que eu possa fazer todas as coisas que
preciso sem ter que usar qualquer um destes softwares que não são livres. Eu
me demiti do Laboratório de Inteligência Artificial para negar ao Instituto de
Tecnologia de Massachusetts qualquer desculpa legal que me impeça de poder
distribuir para os outros o que for desenvolvido.

Assim, segundo Stallman, um programa de computador precisaria poder ser exe-


cutado para qualquer propósito, poderia ter o seu funcionamento estudado e modificado,
2.1. Histórico da Tecnologia de Computadores e Softwares 31

precisaria ser redistribuído sem ter restrições artificiais, e qualquer versão modificada dele
deveria ser redistribuída. Isso contrastava com o caráter secreto e com restrições legais
características dos softwares proprietários que começaram a ser desenvolvidos.
Tratar programas de computador como propriedade privada era algo que trazia
problemas. Assim como um conhecimento científico ou matemático podia ser usado para
deduzir ou servir de base para outros, os cálculos e manipulações simbólicas codificadas
em um programa de computador também podiam servir de base para diferentes tipos
de programas derivados após serem copiados e adaptados. Isso levou ao surgimento de
monopólios a uma velocidade muito grande no mercado de softwares. Cada vez que uma
empresa acumulava em seu software mais funções e mais conhecimento na forma de
instruções para o computador, mais e mais difícil ficava para cada pretenso competidor
começar do zero e desenvolver um produto concorrente. A tendência do mercado gerar
monopólios expressava-se de maneira ainda mais rápida entre empresas de software que
em outros mercados, graças à sua velocidade de desenvolvimento.
O maior sucesso da Fundação do Software Livre foi reconhecer esta característica
do software e explorar a contradição decorrente dessa comoditização. Sua obra mais
importante não foi um programa de computador, mas sim uma licença legal que aproveitava
tal contradição. A sua licença, ao ser usada por alguém que escreveu um novo programa de
computador, dava permissão explícita para qualquer pessoa fazer cópias do programa, além
de exigir que o código que gerou o programa de computador sempre fosse mantido público
para que pessoas pudessem estudar como ele funcionava e pudessem modificá-lo. Mais
importante ainda, a licença usava a autoridade garantida pelas novas leis para exigir que
qualquer um que usasse o código do programa para modificá-lo ou desenvolver algo novo a
partir dele, precisava obrigatoriamente distribuir qualquer obra derivada exatamente nos
mesmos termos legais. Desta forma, seria possível competir com o acúmulo de técnicas que
eram embutidas em softwares proprietários formando um acúmulo de técnicas na forma
de código que não apenas era público, mas também só poderia ser usado para gerar novas
técnicas igualmente públicas. Era o conceito que seria batizado de “copyleft” em reação ao
“copyright” que as novas empresas desenvolvedoras de software geravam (LIVRE, 2007).
Usando doações, trabalho voluntário de entusiastas iniciais, as novas facilidades de
trocar informações pela Internet e a sua licença de “copyleft”, a Fundação do Software
Livre levou adiante o trabalho de coordenar a construção de um sistema operacional
completo para computadores que funcionasse inteiramente com Software Livre. O trabalho
levaria oito anos e sua primeira versão ficaria pronta em 1991. O Sistema Operacional foi
nomeado de GNU/Linux devido a ser formado pela junção do Projeto GNU da Fundação
do Software Livre e um núcleo chamado Linux criado por um estudante finlandês. O
desenvolvimento colaborativo deste sistema se manteve desde então. O seu modo de
desenvolvimento alternativo gerou uma variedade muito grande de programas.
32 Capítulo 2. Tecnologias Computacionais

Um estudo em 2012 analisou todo o código presente em uma versão de sistema


operacional baseado em GNU/Linux chamada Debian e conclui que se todo o volume
de código mantido público e desenvolvido colaborativamente tivesse sido desenvolvido
de maneira tradicional, o custo total de desenvolvimento seria cerca de oito bilhões de
dólares (JUAN et al., 2018). Algo que seria muito difícil de ser construído por uma empresa
de maneira tradicional acabou sendo feito de maneira colaborativa por muitas pessoas.
Em certas áreas, os objetivos da Fundação do Software Livre foram vitoriosos. Em
meios acadêmicos e departamentos de tecnologia em universidades, o uso de Software Livre
teve uma boa popularização, sendo atrativa a noção de poder estudar o funcionamento
de cada detalhe de tais programas. A sua variedade e a ausência de gastos com licença
também o levaram a estar presente em mais da metade dos computadores responsáveis
por fornecer conteúdo pela Internet.
Em computadores pessoais, o software livre demonstrou características únicas
conseguindo gerar um sistema livre de vírus e outras falhas de segurança. Tanto por
que um desenvolvimento colaborativo e público permitia que mais pessoas detectassem
possíveis falhas como por que a grande variedade de sistemas baseados em software livre
fazia com que um vírus desenvolvido para uma máquina rodando sistema Linux não
necessariamente conseguisse se transmitir para uma segunda máquina com Linux. Tal
como era muito mais difícil alastrar uma praga em uma plantação heterogênea do que
em uma onde as plantas eram geneticamente idênticas. Contudo, a Microsoft já havia
solidificado um monopólio entre os computadores pessoais e era muito difícil romper
com isso. A maioria dos usuários já havia aprendido a usar Windows e isso moldava as
suas expectativas sobre como deveria ser o uso de um computador. Usar algo diferente
significava reaprender a usar computadores, o que muitas vezes era um processo com mais
dificuldades do que apenas aprender pela primeira vez.
Um outro fator que favorecia a Microsoft e seu sistema proprietário era que ela
podia usar seu monopólio para que seus softwares gerassem documentos e arquivos que
deliberadamente não podiam ser compreendidos por outros softwares que não fossem os
dela. Isso dificultaria tentativas de migração. Diante de tudo isso, e como a possibilidade
de construir um software colaborativamente soava como distante demais para muitos dos
usuários que não tinham conhecimentos de programação, a pirataria muitas vezes acabou
sendo a forma mais atrativa de lidar com os altos preços dos programas de computador.
Assim, o uso de sistemas baseados em Software Livre em computadores pessoais nunca se
manteve mais alto que valores da ordem de 1% mundialmente e no Brasil.
Mesmo que nunca tenha sido possível para o software livre derrotar um monopólio,
algumas fatias dele puderam ser tomadas. E mesmo usando Windows, muitas pessoas
passaram a adotar programas de computador em software livre, como o navegador de
Internet Firefox, com um uso estimado de 5% em 2017. Mais bem sucedido foi o software
2.1. Histórico da Tecnologia de Computadores e Softwares 33

gerenciador de conteúdos e blogs Wordpress, onde ele próprio tornou-se a tecnologia


mais usada em amostragens de dez milhões de sites. Dentre todos os sites que utilizam
um gerenciador de conteúdo, ele está presente em 59,9% deles. O software em segundo
lugar, que também é um software livre, é usado em 6,1% dos sites com gerenciador de
conteúdo (REPORT, 2018).
Uma mudança drástica começa a ocorrer somente quando a Internet e celulares
se popularizam o suficiente. Continuando a gerar novos mercados transformando em
mercadoria coisas que antes não eram tratadas assim, agora as próprias informações e
dados pessoais passaram a ser comercializados, podendo ser usados para fins de avaliar
impactos de tentativas de influência social e propagandas. Para obter vantagem na aquisição
desta nova mercadoria, empresas como o Google buscaram fornecer softwares para estes
novos computadores. A existência do software livre deu à empresa a vantagem de não
precisar desenvolver do zero todos os softwares para celulares e atualmente o uso de
Linux e de software livre dentro dos seus sistemas Android. Graças à isso, o software livre
se espalhou entre celulares tanto como o acesso do Google aos dados pessoais de seus
consumidores. Em muitos países da África, Ásia, bem como Paraguai e Bolívia, o grande
acesso à celulares faz com que sistemas Android com Linux se tornassem mais populares
e mais usados que o Windows da Microsoft (WORLDWIDE, 2017). O diferencial que
proporcionou tamanho crescimento foi que neste caso específico, o software livre foi usado
perfeitamente integrado ao capitalismo sem representar uma resistência ao modelo de
lucro das empresas, em tal cenário não mais focado na venda de licenças.

2.1.6 Software e Soberania


Toda a resistência à transformação de software em mercadoria que culminou no
surgimento do software livre foi em um primeiro momento algo característico de países
capitalistas. Apesar da União Soviética ter feito um acordo internacional que levou ao
reconhecimento de direitos autorais e restrições de cópias de diversas obras criativas à
partir dos anos 70, tais restrições nunca valeram para softwares (IOFFE; JANIS, 1987).
Desta forma os programas de computador podiam ser copiados e se fossem adquiridos com
uma restrição artificial que dificultasse sua cópia, tais restrições poderiam ser removidas
sem problemas legais.
Também nos anos 70, a União Soviética abandonou o desenvolvimento de uma
tecnologia própria e independente de computadores, passando a replicar os modelos
desenvolvidos no ocidente. A decisão era defensável por um lado, já que isso fazia com
que não houvesse a necessidade de investir tantos recursos para fazer experimentos e
redescobrir princípios que já eram usados nos computadores ocidentais. Além disso,
criando computadores que visassem ser réplicas dos modelos ocidentais, seria possível
fazer rodar nos computadores de lá os mesmos programas de computador já existentes no
34 Capítulo 2. Tecnologias Computacionais

ocidente.
Por outro lado, apenas replicar a tecnologia já existente poderia impedir uma
análise crítica de como desenvolvê-la de modo a atender demandas específicas do país.
Além disso, poderia ocultar quando uma tecnologia era hostil ao país, não apenas de
maneira indireta, mas mesmo quando era criada deliberadamente como uma arma da
guerra fria. O uso de softwares estrangeiros importados e copiados para serem usados
em muitas máquinas era algo comum em 1982 quando um destes softwares usado para
controlar válvulas de um gasoduto começou a se comportar de maneira anômala causando
uma explosão em um gasoduto trans-siberiano. O caráter não acidental desta explosão só
seria documentado em 2004 com um livro auto-biográfico de um militar norte-americano
que alegou que a explosão foi obra de sabotagem da CIA.(REED, 2004) Apesar disso,
existem dúvidas quanto à veracidade das informações presentes no livro, já que técnicos e
ex-oficiais da KGB contestam informações presentes no relato, confirmando a existência de
explosão na época, mas em um local diferente do indicado e em tubulações que não usavam
sistemas de controle digitais (Zakhmatov VD, Glushkova VV, Kryazhich OA, 2011).
Independente deste caso específico ter acontecido ou não, sabotagens documentadas
usando vírus de computador e softwares defeituosos passariam a ser efetivamente usadas
contra países no ano de 2010. O Irã seria vítima de um vírus que visava especificamente
atacar o seu programa nuclear e que conseguiu causar prejuízos à ele. O mesmo vírus
seria usado simultaneamente contra instalações na Coréia do Norte, embora, desta vez,
sem obter sucesso. Tal ataque tornou-se público pelo fato do vírus ter se espalhado para
além dos laboratórios iranianos e assim ter sido encontrado em outros computadores, onde
ele não fazia nada. Em 2012, os Estados Unidos assumiriam publicamente a autoria dos
ataques (NAKASHIMA, 2012). O ataque foi possível em grande parte devido a falhas,
sejam elas intencionais ou não, presentes na versão do Windows que era utilizada pelos
computadores iranianos.
Preocupações com a soberania e com a possibilidade de ataques vindos de softwares
de funcionamento desconhecido levou países não-alinhados aos Estados Unidos a investir
no desenvolvimento próprio de software ou adotar o software livre como alternativa. Cuba
já vinha desenvolvendo seus sistemas próprios de software desde os anos 90, quando o
embargo e isolamento comercial forçaram o país a desenvolver seu próprio software por
meio da Universidade de Ciências Informáticas. Posteriormente, a exportação de softwares
daria um auxílio econômico para o país e ele desenvolveria em 2009 uma versão própria de
um sistema Linux chamado de “Nova” como forma de evitar a dependência de softwares
proprietários (Abel Fírvida Donéstevez, 2011). Em diferentes intensidades, na mesma
época diferentes governos da América Latina adotaram políticas de incentivo ao Software
Livre, como o Brasil, Uruguai, Venezuela e Bolívia.
2.1. Histórico da Tecnologia de Computadores e Softwares 35

2.1.7 Espionagem e Tecnologias Computacionais

O uso de computadores para espionagens é antigo e remonta à segunda guerra


mundial, quando diferentes países construíam máquinas tanto para criptografar suas
mensagens como para descriptografar mensagens inimigas. A disseminação de computadores
modernos fez com que tais técnicas antes restritas pudessem ser realizadas com facilidade
em computadores cada vez menores, baratos e mais rápidos que os usados durante a
guerra.
As diversas redes de computadores que se integraram e formaram a Internet
transformaram-se em um importante alvo de espionagem e controle, sobretudo no período
da Guerra Fria. A velocidade com que computadores podem analisar dados também os
tornou úteis para auxiliar no monitoramento de outras formas de comunicação, como
telefones.
Uma das mais antigas redes de monitoramento criadas pelos Estados Unidos,
caracterizada por espionar comunicações tanto países externos como seus próprios cidadãos,
era a do Projeto Echelon. O foco do projeto era espionar países do bloco soviético e procurar
traços de dissidência interna. O projeto foi tornado público em 1972 quando um ex-oficial
da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos, chamado Perry Fellwock,
revelou para a imprensa a existência de uma rede de espionagem de telefones e telegramas
altamente computadorizada. As suas revelações tornaram públicas a existência da NSA e
do projeto, além de ter levado à aprovação de leis internas que limitavam os poderes de
espionagem do governo dos Estados Unidos. Tudo isso teve pouco impacto, pois a história
viria a se repetir de forma semelhante em 2013, quando novamente um ex-agente da NSA,
Edward Snowden, traria revelações de que projetos de espionagem global continuavam
sendo feitos, agora com o auxílio de maior tecnologia, colaboração de várias empresas norte-
americanas e com monitoramento de emails, telefones e diversos programas de computador.
Com o fim da Guerra Fria, a espionagem internacional se intensificou, passando para
muitos outros países. O próprio Brasil foi vítima da espionagem focando-se em descobrir
informações internas da Petrobrás por meio de tais projetos (WATTS, 2013). Entre outros
alvos comprovados de espionagem estão a França, México, Inglaterra, China, Alemanha e
Espanha, bem como 35 líderes mundiais.
Relacionada à grande capacidade de extração e monitoramento de dados permitida
por computadores, os próprios dados e informações pessoais de usuários de computador
acaba se tornando mais um tipo de conhecimento que se transforma em mercadoria. Muitas
empresas como Google e Facebook fornecem acesso aos seus softwares por meio do uso
de computadores ligados à Internet cobrando em troca o acesso a vários tipos de dados e
informações pessoais que podem ser vendidos, além de exibir propagandas como fazem
emissoras de televisão. Além deles, há outras empresas que também conseguem extrair
dados fornecendo imagens e vídeos de anúncios que ao serem exibidos também tentam
36 Capítulo 2. Tecnologias Computacionais

identificar a pessoa que os está observando, em qual página de Internet ela está e que
outras páginas ela já acessou. Tipicamente compradores de tais informações são empresas
de marketing, investidores e agentes políticos, embora restrições legais de proteção à
privacidade teoricamente limitem a forma como tal venda de dados pode ocorrer.
Este tipo de uso de tecnologia também vem causando desconfortos e contradições
que levam as pessoas a buscar desenvolver alternativas ou reações à ela. Entretanto, as
tentativas de se defender de espionagens de dados acabam esbarrando em um obstáculo
considerável. Por mais que a natureza elétrica e moldável da representação de softwares
faça com que isso seja esquecido, ainda estamos falando de uma tecnologia completamente
ancorada no mundo material e sujeita às suas imposições. Por mais que seja fácil esquecer
disso, a comunicação rápida e prática por meio de softwares e aparelhos de comunicação
precisa de fios, equipamento e de cabeamento, muitos dos quais estão sob controle do
capitalismo e do imperialismo. A América Latina é extremamente vulnerável à interceptação
de comunicações, pois toda vez que dois computadores que estão em dois de seus países se
comunicam, precisam usar cabos que na maioria das vezes, passam nos Estados Unidos antes
de chegar ao seu destino (ASSANGE, 2013). Além disso, grande parte das comunicações que
ocorrem na Internet passa por meio dos computadores de grandes empresas que fornecem
tais serviços pela Internet. Assim, os dados necessariamente precisam ser transmitidos
geograficamente até elas.
O controle que o capital e o imperialismo tem da infraestrutura da Internet faz
com que seja difícil escapar de suas consequências e, como o acesso a tais serviços vai
se tornando cada vez mais necessário na sociedade, tentativas de boicote acabam sendo
ingênuas. O modo mais efetivo de proteção são as tecnologia de criptografia, que mesmo
de acordo com os documentos vazados aparenta ser segura e à prova de quebras quando
corretamente usada. O próprio capital depende dessa tecnologia para poder realizar
comércio e transações financeiras por meio das redes de computadores. Em tais casos a
tecnologia foi perfeitamente integrada e está facilmente disponível para muitas pessoas que
fazem compras pela Internet e nem percebem que dependem dela. Entretanto, atualmente
é contra o interesse do capital que as pessoas e seus dados pessoais sejam protegidos com
o mesmo nível de rigor. Embora ao usar serviços do Facebook e Google os dados sejam
protegidos e criptografados até chegar na empresa, à partir do momento em que estão lá,
eles podem ser analisados. Para se proteger disso, somente usando programas e tecnologias
externos, mas a falta de integração faz com que usar isso não seja automático e requer um
conhecimento e disciplina que dificulta a sua popularização.
Tentativas menores também já foram feitas para tentar contaminar os dados
coletados por empresas com informações falsas. Em 1999, grupos de usuários de Internet
tentaram popularizar sem sucesso a prática de colocar na assinatura de emails palavras
tidas como polêmicas ou subversivas, o que tentaria causar uma sobrecarga nos sistemas
2.2. Produção Capitalista do Software 37

de espionagem. Mas a tentativa no fundo sempre teve mais o objetivo de divulgar e


conscientizar pessoas do que efetivamente causar um impacto. A tentativa nesse sentido
que causou mais impacto, embora também seja algo pequeno, foi um complemento para
navegadores de Internet que além de bloquear propagandas, gera cliques falsos para elas,
contaminando com falsas informações as empresas que tentarem monitorar o interesse e
comportamento do usuário. O Google reagiu banindo o complemento da lista de compatíveis
com seu navegador Google Chrome.
Por fim, uma terceira forma de defesa tem sido estimular a denúncia de pessoas
que possam ter informações de interesse público sobre tais sistemas de monitoramento.
Uma das mais antigas tentativas de fazer isso foi o site Cryptome que em 1996 propôs
ser um local para concentrar informações e documentos que eventualmente vazassem
sobre sistemas de monitoramento e espionagem. O mais famoso e recente Wikileaks foi
lançado com o mesmo propósito e foi responsável por denunciar crimes de guerra, influência
indevida e detalhes técnicos da espionagem dos Estados Unidos em outros países e contra
seus próprios cidadãos.

2.2 Produção Capitalista do Software


As características aparentemente únicas do Software faz com que alguns o enxerguem
como uma mudança na forma de produção capitalista ou como um tipo de mercadoria
única sem um análogo prévio. Há aqueles que chegam a enxergar na era de produtos digitais
um rompimento tão grande que tornaria obsoletas análises anteriores do capitalismo.
Contudo, muitos dos raciocínios presentes em tais visões caem vítima da ideologia
denunciada por Álvaro Vieira Pinto de enxergar o momento presente como algo completa-
mente único devido à sua tecnologia, como se o mesmo não fosse verdade para todos os
momentos históricos prévios. Embora computadores e software sejam inventos humanos
que tenham as suas características próprias e únicas (tais como todos os outros), o modo
como o capital os usa e explora sua produção não é qualitativamente diferente de outras
formas que já existiam previamente. Não são justificadas as alegações de que a era digital
traz uma mudança qualitativa no modo de assimilação capitalista da produção.
Um software em si é uma forma de representar conhecimento técnico sobre como
realizar um cálculo ou manipulação simbólica. Exatamente como também poderia ser
representado de outras formas, escrevendo instruções no papel. A sua representação na
forma elétrica é uma representação formal usada por este ser o meio pelo qual máquinas
(os computadores) podem executar automaticamente as instruções neles contidas. Ele
não funciona como uma máquina, pois embora possa ser demorado criar e fabricar um
primeiro exemplar dele, uma vez que isso é feito, muitas outras cópias podem ser feitas
com muita facilidade e com uma velocidade enorme. Isso faz com que o seu desgaste não
38 Capítulo 2. Tecnologias Computacionais

seja observado. Como ele também não é consumido após ser usado, ele também não é
como um insumo tal como a eletricidade. Um software se comporta, e de fato é uma
forma de representar conhecimento exatamente como um livro. Um novo conhecimento
pode demorar para ser obtido inicialmente, mas uma vez que o obtenhamos, ele pode ser
compartilhado com toda a sociedade. Desenvolver um novo software que pode ser usado
para realizar um trabalho produtivo de maneira mais eficiente é então criar um avanço
das forças produtivas.
A cópia de um software é feito em um tempo muito curto. Portanto, o valor de
troca de um software é muito baixo, chegando a ser quase nulo em muitos casos. O valor
de troca deles é menor que o de um livro que precisou ser impresso. Se não fossem por
restrições legais artificiais, um software não poderia ter se transformado em mercadoria.
A restrição do acesso ao conhecimento contido dentro do software é uma restrição
ao acesso do conhecimento técnico e científico que ele contém. Embora Álvaro Vieira Pinto
tenha escrito seu manuscrito sobre a tecnologia antes do software ter se popularizado
e se convertido em mercadoria desta forma, a dominação que essa restrição provoca é
definida perfeitamente quando este descreve como países ricos não permitem que os pobres
desenvolvam sua tecnologia, mas ao invés disso apenas os estimulam a comprar tecnologia
estrangeira convencendo-os de que fazendo isso eles estão tendo acesso ao “progresso”.
Mas, na verdade, eles acabam apenas tornando-se dependentes de tal fornecimento, sem
desenvolver o conhecimento próprio e sem nunca poder receber uma tecnologia que
realmente os permita emancipar. Empresas como a Microsoft ganham lucros fornecendo
seus softwares como mercadoria e estimula que países pobres os consumam. Mas ela nunca
revelaria o código que contém o conhecimento de como seus softwares funcionam e irá
tentar proteger seu monopólio fazendo lobby para que os governos desistam da ideia de
investir nos seus próprios softwares ou usem software livre.
O mercado de softwares comerciais se tornou tão grande que a pessoa considerada
mais rica do mundo fez fortuna ajudando a criar e explorando tal mercado. E fez isso
vendendo cópias de programas de computador, os quais tem um valor de troca praticamente
nulo. Os lucros de seu negócio não estão relacionados à produção de valor. À partir do
momento em que a legislação permite tratar o conhecimento contido no software como
propriedade privada, ele mantém tal conhecimento para si e vende para as pessoas o direito
de usar tal conhecimento embutido na forma de uma cópia de software. As restrições legais
artificiais impedem as pessoas que pagam pelo software de copiá-lo ou estudá-lo e assim se
apropriar também do conhecimento e da técnica embutida nele, um conhecimento e uma
técnica que tal como todas as outras são geradas socialmente, pois sempre dependem da
existência de conhecimentos prévios presentes nesta sociedade.
Isso não é tão diferente de alguém que usa a propriedade da terra, a qual pertence
à natureza e nunca foi fabricada por alguém, para extrair renda baseado em aluguel, por
2.2. Produção Capitalista do Software 39

exemplo. A terra, sem trabalho humano envolvido, não gera valor, mas pode gerar renda,
graças à restrições artificiais e construções sociais que vem do conceito de propriedade.
Assim, um rentista do conhecimento extrai seus lucros de maneira não muito diferente
de um rentista de terras, que não era nenhum desconhecido já no século XIX. Além dos
capitalistas que controlam tais softwares, também se encaixam nesta categoria de rentistas
do conhecimento aqueles que se apropriam de invenções por meio de patentes. Pagar os
royalties de uso de uma patente não é algo fundamentalmente diferente de pagar pela
licença de um software. E como em alguns países patentes de software são permitidas,
pode-se ter até mesmo um rentismo que parasita outro rentismo, como quando uma
empresa de software precisa pagar royalties para usar um conceito patenteado em um
programa de computador proprietário que está sendo desenvolvido.
Todo esse mercado se fundamenta em uma grande ficção: a ilusão de que um
programa de computador é análogo à uma máquina em si. Uma máquina que não tem
como ser facilmente copiada por quem tem acesso à ela. Uma máquina que somente o dono
de uma empresa pode produzir e que supostamente levaria trabalho para ser produzida e
por isso precisaria pagar caro para obter uma cópia dela. Uma ilusão bastante útil, pois
rentistas sempre tiveram a dificuldade de justificar a racionalidade de sua existência. No
caso de uma fábrica, ideólogos sempre puderam argumentar e tentar justificar o lucro
alegando que o capitalista fazia algo organizando e gerenciando a produção ou assumindo
riscos. Rentistas de terra que viviam do aluguel, por exemplo, nunca puderam usar as
mesmas justificativas. Mas o rentismo do conhecimento permite o uso delas além de
fornecer a possibilidade de alugar um conhecimento simultaneamente para um número
potencialmente ilimitado de pessoas, algo que nunca foi possível fazer com a terra. Mas
assim como todo o rentismo, ele ainda é parasitário, pois por não gerar valor, a sua riqueza
depende da apropriação do valor gerado por atividades produtivas.
Mas este rentismo também depende de trabalho humano. As empresas de software
precisam de programadores para criar os softwares. À partir do momento em que a sociedade
demanda um fluxo constante de novos softwares, o seu trabalho, seja ele envolvido na
geração de novo conhecimento, ou de sua adaptação de conhecimento já existente em um
novo código, é um trabalho produtivo. Mas está havendo geração de valor no momento
em que o código do software é criado. Esse valor se dilui entre todas as cópias socialmente
necessárias desse código, que às vezes pode ir parar em mais de um software diferente.
Assim, um trabalhador que produz software para empresas de softwares comerciais também
pode ter mais-valia extraída. Mas a empresa tem uma organização e estrutura para que o
seu lucro venha fundamentalmente da renda, embora ela também aproveite a mais-valia.
Além do software comercial que é vendido na forma de licenças, funciona de
maneira muito parecida o software que é fornecido como um serviço por meio de redes de
computador como a Internet. Neste modelo, a empresa que desenvolve o software não vende
40 Capítulo 2. Tecnologias Computacionais

a sua licença de uso e o software que ela produz nunca sai de seus próprios computadores.
Ao invés disso, seus computadores são conectados à Internet e outras pessoas podem pagar
para usar o software e o computador em que ele está se comunicando com ele pela rede de
computadores. Nem sempre esse aluguel é cobrado em dinheiro. Muitas vezes a empresa
apenas cobra na forma de acesso aos dados pessoais dos usuários, os quais podem ser
comercializados quando acumulados em grandes quantidades ou usa a presença das pessoas
para cobrar pela inserção de propagandas direcionadas à tais pessoas. Independente de
quem paga pelo serviço ou da forma que é feita a cobrança, cobrar pelo aluguel do uso de
um programa de computador funciona exatamente da mesma forma que cobrar pela licença
de uso. Do ponto de vista da geração de valor em uma produção, não faz diferença por
si só se uma máquina funciona por meio de mecanismos que estão todos contidos dentro
dela ou se ela depende de mecanismos que estão do outro lado do mundo com os quais
ela se comunica muito rapidamente. A mesma privatização do conhecimento ocorre aqui,
mas com novos mecanismos que tornam muito mais difícil burlá-la por meio da pirataria.
Contudo, existe uma pequena diferença pelo fato de que esse modelo requer um trabalho
mais contínuo de manutenção de computadores e acompanhamento do software para que
ele continue funcionando e sendo alugado pela Internet. Esse trabalho de manutenção
contínuo é necessário para que o software siga funcionando diariamente, e nisso há um
trabalho do qual a empresa também pode extrair mais-valia.
É verdade que este tipo de empresa tem uma organização e lógica diferente tanto
comparado à uma fábrica clássica como aos clássicos rentistas da terra. Mas ainda assim, as
mudanças não chegam a ser coisas completamente inauditas e capazes de tornar obsoletas
as categorias de análises já existentes. Essa concepção de que o lucro de empresas de
software se fundamenta no rentismo tem concordância com a análise de Slavoj Žižek em
seu texto “The Revolt of the Salaried Bourgeoisie” (ŽIžEK, 2012), embora eu não defenda
da mesma forma que no texto citado que isso em si represente mudanças tão profundas
assim na análise do capitalismo e para a luta de classes e discorde de afirmações de que
a privatização do conhecimento seja algo não previsto por Marx. É certo que sempre
há mudanças, e que não é impossível que mudanças históricas qualitativas venham a
ocorrer no modo como a luta de classes se desenvolve. Mas muito mais comuns do que
mudanças deste tipo é o surgimento inovador e criativo de cada vez mais mistificações que
tentam apenas disfarçar as velhas estruturas de antes fazendo permutações e criando mais
camadas de complexidade. As classes dominantes tem a demanda de ocultar a exploração
e dificultar a sua denúncia. Isso é uma das coisas que direciona a evolução da organização
da nossa sociedade.
Além disso, nem só de rentismo vive o desenvolvimento de software. Embora
softwares comerciais (como Windows e Office) ou softwares usáveis pela rede (Google,
Facebook) sejam os programas de computador com os quais consumidores típicos tem
mais acesso, muito do desenvolvimento de software ocorre na forma de softwares internos.
2.3. Potenciais e Limites das Tecnologias Alternativas 41

Para tais softwares, a afirmação de que o valor de uso deles se conserva quando eles são
copiados várias vezes deixa de ser verdade. São programas de computador desenvolvidos
sob demanda para realizar tarefas que são muito específicas de um lugar e não teriam
a mesma utilidade em outros. A construção de tais softwares pode se basear no uso de
componentes mais genéricos, sejam eles códigos reaproveitáveis ou técnicas de programação,
mas a maior parte do trabalho é feito gerando algo sob demanda para necessidades únicas.
Em tais casos, o trabalho de construção de tais programas de computador deixa de
ser algo diferente do desenvolvimento de uma máquina física. O programa será usado em
somente um computador e a possibilidade de fazer cópias dele não é algo que tenha uma
grande utilidade, exceto pelo mérito de poder preservá-lo caso um acidente ocorra com a
maquina onde ele normalmente funciona. A única diferença de um programa de computador
para uma máquina física, neste caso, é que o desgaste do software não ocorre devido
à um desgaste físico de seus componentes, mas devido às transformações do ambiente
e das necessidades do local em que ele funciona, o que um dia o tornará obsoleto. De
qualquer forma, isso faz com que empresas que forneçam este tipo de software funcionem
como qualquer empresa que fabrica e vende máquinas físicas. O seu lucro é extraído da
mais-valia, não do rentismo.

2.3 Potenciais e Limites das Tecnologias Alternativas


Após analisarmos um histórico dos computadores e das características particulares
do desenvolvimento de software no capitalismo, o objetivo é concluir com uma análise de
tecnologias alternativas às obtidas seguindo princípios capitalistas. Cito como exemplo as
tecnologias baseadas na aplicação de computadores e da cibernética para gerir economias
socialistas planejadas e o software livre.

2.3.1 Computação de Economias Planejadas


O exemplo desta tecnologia é o Projeto Synco implementado no governo de Salvador
Allende no Chile. Esse é um exemplo claro de um tipo de tecnologia que simplesmente não
tem como ser efetivamente implementada no capitalismo e cujo desenvolvimento pleno
precisaria do desenvolvimento de uma sociedade socialista suficientemente industrializada.
Embora essa tecnologia não tenha como ser desenvolvida e usada no capitalismo,
desde os anos 60 foram desenvolvidas tecnologias que poderiam facilitar o seu desenvol-
vimento em uma sociedade diferente. Uma infra-estrutura enorme de comunicação foi
desenvolvida na forma da Internet e novas técnicas de obtenção e filtro de informações
também foram criadas.
Contudo, o seu desenvolvimento e uso requer um país socialista suficientemente
industrializado e com um controle democrático amadurecido de suas políticas. Com o
42 Capítulo 2. Tecnologias Computacionais

capitalismo sendo hegemônico no mundo, seu desenvolvimento não tem como ocorrer.
No Chile o golpe militar com apoio imperialista impediu a experiência de se desenvolver
completamente.
Tudo o que consegue se desenvolver no capitalismo que envolva um acompanhamento
global da economia são versões bastante limitadas e cujo objetivo não é garantir a satisfação
de necessidades da população, mas beneficiar especuladores em seus investimentos. Existem
softwares que acompanham de forma mais rudimentar as mudanças de produção e demanda
se baseando na filtragem de notícias de jornal, em informações lidas em páginas de Internet
e em estatísticas de institutos de pesquisa ou coletadas em redes sociais. Geralmente,
tais programas são usados para automatizar e acelerar a compra e venda de ações na
bolsa de valores e acabam atuando como um dos fatores que aceleram as crises cíclicas do
capitalismo.

2.3.2 Software Livre


A tecnologia surge como uma reação específica aos impactos negativos da trans-
formação do software em mercadoria. É importante notar que ele sempre foi uma reação
somente à tais tipos de contradições decorrentes da privatização do conhecimento e os
seus limites fundamentais estão ali.
Richard Stallman, criador do conceito de software livre, nunca teve o objetivo
de romper com o capitalismo. Mesmo sendo progressista, ele sempre se identificou como
um liberal no sentido mais clássico. Isso o levou fatalmente a entrar em conflito com o
software proprietário, nutrindo por ele um desgosto que em essência também sentiam
alguns liberais clássicos em relação ao parasitismo do rentismo da terra que permite ganhar
sem produzir. Mas, mesmo enxergando problemas no capitalismo moderno, seu objetivo
nunca foi romper com ele, mas tentar corrigi-lo e para isso sua defesa do software livre
sempre foi fundamentada em uma ética nesse sentido.
Dentre a comunidade de desenvolvedores e entusiastas de software livre, os motivos
que levam as pessoas a se aproximar desta tecnologia são bastante diversos. Alguns o
fazem por realmente acreditar que o conhecimento deve ser livre e não deve ser privatizado.
Outros defendem ser uma forma mais eficiente de desenvolvimento, e que por isso precisa
ser adotado por empresas e integrado ao capitalismo, sendo essa a opinião do famoso
desenvolvedor e republicano conservador Eric Raymond. E há aqueles onde o interesse é
apenas aprender como funcionam os programas sem querer entrar em discussões políticas.
Já as visões mais anti-capitalistas são mais encontradas entre entusiastas de esquerda fora
dos Estados Unidos. Essas diferenças fazem com que o movimento gerado em torno do
software livre não tenha uma unidade ideológica.
A falta de unidade ideológica não impediu que muita coisa fosse construída colabo-
2.3. Potenciais e Limites das Tecnologias Alternativas 43

rativamente em conjunto, mas levou um pouco à perda da efetividade do movimento em


combater efetivamente a privatização do conhecimento. Um discurso que acaba ganhando
muita força é a condenação do copyleft que proíbe empresas e pessoas de usar código de
software livre para construir software proprietário. Segundo alguns discursos de ideólogos
do capital, a verdadeira liberdade seria que as empresas também fossem livres para derivar
conhecimento privatizado à partir da base de software livre existente, pois ambas as
formas deveriam poder coexistir. Existem grandes empresas que estimulam e patrocinam
o desenvolvimento de software livre, mas sabotando ou rejeitando qualquer projeto que
use copyleft.
Com relação à sua efetividade em combater os monopólios e conseguir ser usado
no lugar de softwares proprietários, os resultados foram notáveis em muitas áreas. É
verdade que o software livre nunca conseguiu quebrar um monopólio já estabelecido de um
software proprietário. Mas da mesma forma, quando ele se estabeleceu antes e passou a
ser mais usado em um nicho de mercado, um software proprietário também não conseguiu
romper o seu domínio, sendo que quem chegou mais perto disso foi o Microsoft IIS que
já dominou 33% de uso em servidores de páginas de Internet contra os 38% do software
livre Apache (February 2014 Web Server Survey, 2014). Em outros nichos, onde ambos
os modelos chegaram sem que um pudesse se estabelecer, o mercado acabava tendendo a
uma divisão.
Apesar das limitações e contradições mencionadas, segundo a definição de Victor
Wallis mencionada no começo do trabalho, pode-se considerar o software livre como uma
tecnologia socialista, pois ela auxilia na construção de uma sociedade socialista. Ela é uma
forma de desenvolver software baseada no compartilhamento e que rejeita a privatização
do conhecimento. E até mesmo no nível de nações, a existência de uma base de técnica e
conhecimento representada na forma de códigos de programas de computador públicos é
importante para ajudar países a se libertarem da dependência tecnológica e desenvolverem
sua própria tecnologia. Isso também faz com que o software livre seja um argumento
em prol da associação sócio-técnica como visão de tecnologia, sendo um caso em que a
tecnologia não é neutra e envereda por caminhos diferentes com resultados únicos por ter
critérios de julgamento diferentes. Ao mesmo tempo em que consegue se desenvolver mesmo
dentro do capitalismo, de uma forma reativa, ainda que não tenha como ser completamente
vitoriosa.
45

3 Considerações Finais

Após a análise feita nos capítulos anteriores, pode-se constatar que a principal força
que determina os rumos e o desenvolvimento da tecnologia em uma sociedade capitalista é
a necessidade de reprodução do capital. Ao contrário do que alegam as vertentes filosóficas
que defendem uma tecnologia neutra e independente das relações sociais, o que determina
o seu desenvolvimento não é algo tão amplo como aumentar as capacidades humanas ou
aperfeiçoar o processo de satisfazer as necessidades humanas, como se tais necessidades
realmente existissem de maneira ampla e independente das classes sociais. Tecnologias
como as que tentam impedir ou dificultar cópias não-autorizadas de softwares e de arquivos
de computador são exemplos de tecnologia que fazem exatamente o oposto: elas tentam
retirar vantagens e potenciais que foram trazidas por meio de avanços tecnológicos, mas
que passaram a entrar em contradição com os lucros do capital.
Não há nada de acidental, natural ou universal na forma pela qual a tecnologia
se desenvolve. O surgimento dos computadores, tal como o de qualquer outra tecnologia,
visou dar respostas às necessidades que eram sentidas na sociedade. Não necessidades
universais, sentidas por todos os seus integrantes, mas principalmente as necessidades
de suas classes dominantes. Estas exercem sua influência por meio do financiamento de
pesquisas que lhes interessam e por meio da própria força da sua ideologia que interfere
na avaliação de quais coisas são possíveis e desejáveis. Tal caráter não-acidental pode
ser observado em tentativas próprias que só poderiam ocorrer em países socialistas no
sentido de gerar novas tecnologias integrando redes de computadores e a cibernética para
assim aperfeiçoar o gerenciamento de uma economia planificada onde a produção não era
baseada na competição de empresas em um mercado. Da mesma forma não há nenhum
acidente e nenhuma justificativa puramente técnica que justifique de forma satisfatória
o fato de praticamente toda a comunicação entre diferentes países da América Latina
precisar passar por cabos que primeiro passam pelos Estados Unidos para só então chegar
ao destino. A própria transformação do software em mercadoria não foi algo natural e
isolado, mas um processo que ocorreu em meio à uma sociedade em que o capital começava
a se financeirizar cada vez mais, devido à essa transformação na organização da sociedade,
cada vez mais riqueza gerada por atividades produtivas era direcionada para atividades
ligadas ao rentismo.
Contudo, a visão determinista e paralisante de que nada pode ser feito para disputar
a tecnologia enquanto se está em um sistema capitalista demonstra suas limitações ao não
prever que tecnologias alternativas podem ser construídas ou elaboradas como parte de
disputas internas dentro de uma sociedade capitalista. É bem verdade que é extremamente
difícil que tais disputas ocorram de modo a gerar tecnologias diferentes. Isso porque uma
46 Capítulo 3. Considerações Finais

disputa na qual um lado está fortemente armado, conta com uma grande quantidade de
capital privado, controle da comunicação e hegemonia na disputa ideológica enquanto o
outro lado não tem nada disso, raramente será uma disputa prolongada. Ela tende a se
resolver à favor do lado mais forte e o lado derrotado tende a ter menos tempo para obter
algum acúmulo. Mas o fato de terem se desenvolvido tecnologias alternativas, sendo o
software livre o exemplo observado neste trabalho, é algo digno de atenção. Este é um
caso que evidencia um ponto fraco existente no lado mais forte da disputa, pois somente
isso pode explicar como ele não foi completamente vitorioso mesmo tendo recursos tão
superiores. No caso do software livre, o que ocorre é que como um programa de computador
é uma forma de conhecimento codificado, ele pode se desenvolver muito mais rapidamente
sendo construído colaborativamente. Mas para o capital, o software deveria se tornar um
novo tipo de propriedade comercializável e para isso precisaria ser desenvolvido de maneira
secreta e privada, sem compartilhamento de informações. Essa foi a falha que impediu a
vitória absoluta do lado mais forte e permitiu que uma tecnologia alternativa conseguisse
se desenvolver.

3.1 Questões Futuras


Uma questão apresentada no trabalho, mas que não pôde ser tratada aqui são as
novas direções que o desenvolvimento das tecnologias computacionais estão tendo. As
maiores empresas da área estão baseando seus lucros cada vez menos na venda de licenças
de uso de programas de computador. Ao invés disso, elas oferecem acesso a seus programas
de computador por meio da Internet e seus lucros vem da venda de informações pessoais
e publicidade. Novos monopólios estão se formando baseado neste modelo e a Internet
vem se tornando cada vez mais centralizada, e para o imperialismo torna-se cada vez
mais fácil ter acesso à dados e informações pessoais. O software livre não traz respostas
satisfatórias para isso, e como não entra em conflito com esta nova lógica capitalista, está
sendo cada vez mais usado e apoiado por tais empresas. Isso explica o fato dele ter se
popularizado tanto em celulares e o fato da própria Microsoft, no passado abertamente
hostil ao conceito de software livre, hoje hospedar uma das maiores páginas da Internet de
compartilhamento de código.
Seria possível nesse cenário o desenvolvimento de novas tecnologias que vão contra
essa nova tendência do capitalismo? A criptografia talvez possa ser usada como arma neste
novo cenário, mas como tornar o seu uso mais fácil e difundido diante da dificuldade de
que as páginas que as pessoas usam para se comunicar na Internet não teriam interesse de
ceder o controle dos dados que as pessoas passam para elas? Existem outras formas de se
lidar com o problema sob um viés tecnológico?
E por fim, para além das tecnologias computacionais, em quais outras áreas do
3.1. Questões Futuras 47

conhecimento há contradições suficientemente profundas para avançar na geração de outras


formas de conhecimento e tecnologia orientados não para a reprodução de uma lógica do
capitalismo, mas que seja útil justamente para a sua superação?
49

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