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Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL Nº 1.129.277 - RS (2009/0141978-8)

RELATOR : MINISTRO HERMAN BENJAMIN


RECORRENTE : MUNICÍPIO DE ESTEIO
PROCURADOR : LUIZ BERNARDO DE SOUZA FRONER
RECORRIDO : GETÚLIO LEMES FONTOURA
ADVOGADO : MILTON PINHEIRO DOS SANTOS E OUTRO(S)
RELATÓRIO

O EXMO. SR. MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Relator):


Trata-se de Recurso Especial interposto, com fundamento no art. 105, III, "a", da
Constituição da República, contra acórdão assim ementado (fl. 280):

AÇÃO DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA.


PERMISSÃO DE USO DE BEM PÚBLICO. ABRIGO PARA CRIANÇAS.
INTERESSE PÚBLICO. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS.
1. Nem todo at administrativo ilegal configura ato de
improbidade administrativa.
2. Não configura ato de improbidade administrativa outorgar a
servidor público, sem a observância das formalidades legais, permissão de uso
de bem imóvel público (Casa da Criança e Posto de Saúde), destinado a abrigar
crianças sujeitas a situação de risco, com a finalidade de cuidar das crianças à
noite e nos finais de semana.
3. Em se tratando de causa em que restou vencida a Fazenda
Pública, os honorários advocatícios são fixados de acordo com a apreciação
eqüitativa do juiz.
Recurso desprovido.

Em suas razões recursais, o Município de Esteio alega violação dos arts.


10, II, e 11, I, da Lei 8.429/1992. Sustenta estar configurada improbidade
administrativa porque "o recorrido enquanto gestor público permitiu o uso de um bem
público a uma determinada pessoa sem nenhuma justificativa de interesse público e
sem lei autorizada para tanto, frize-se (sic) o imóvel não se destinava apenas ao abrigo
das crianças, mas à moradia da servidora" (fl. 310).
Sem contra-razões.
Parecer do MPF pelo desprovimento do apelo (fls. 274-282).
É o relatório.

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RECURSO ESPECIAL Nº 1.129.277 - RS (2009/0141978-8)

VOTO

O EXMO. SR. MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Relator): Os


autos foram recebidos neste Gabinete em 12.2.2010.
Cuidam os autos de Ação de Improbidade Administrativa movida pelo
Município de Esteio contra Getúlio Lemes Fontoura, ex-prefeito, por ter permitido o
uso, a título precário, de imóvel público por Núbia Maria Machado Pfeifer, servidora
municipal, durante o período de março/1994 a dezembro/1996. Defendeu que tal ato se
deu sem lei autorizadora, em ofensa ao art. 151, § 2º, da Lei Orgânica do Município.
O Juízo de 1º Grau julgou improcedente o pedido, por constatar que o
uso do imóvel foi permitido para realização de serviço voluntário da servidora, de
cuidar de algumas crianças de rua durante a noite e nos finais de semana, ante a
inexistência, à época, de Conselho Tutelar devidamente estruturado.
O Tribunal de Justiça manteve a sentença, asseverando que ainda que
tenha havido irregularidade formal na permissão de uso, não está configurada
improbidade administrativa, ante a finalidade buscada.
Cito o seguinte excerto (fls. 284-286):

Pelo que se lê dos depoimentos de fls. 155/175 e do parecer de


fls. 186/190, realizou-se uma reunião, da qual participaram o Apelado,
representantes do Conselho Tutelar do Município de Esteio, do Juizado da
Infância e da Juventude e do Ministério Público para obter um local apto a
servir de albergue para crianças de zero a seis anos em situação de risco, o que,
até então, inexistia. Diante da incipiente estrutura do Conselho Tutelar à época
dos fatos (entre 01 março de 1994 e 31 de dezembro de 1996), o Apelado, na
condição de Prefeito, ofereceu parte da área da "Casa da Criança e posto de
Saúde" para acolher as referidas crianças, permitindo à funcionária pública
municipal Núbia Maria Machado Pfeifer usar o imóvel desde que cuidasse das
crianças abrigadas no período da noite e nos finais de semana.
Ora, ainda que se admitisse tenha havido eventual irregularidade
na formalização da permissão de uso de bem público, é inequívoco que tal não
configurou ato de improbidade, já que se destinada a abrigar, no imóvel,
crianças sujeitas a maus tratos e abusos. Tem-se como certo que nem todo ato
ilegal constitui ato de improbidade administrativa. No caso, sobressai dos

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autos a preocupação do Apelado em acolher crianças em situação de risco
apontada pelo Conselho Tutelar, pelo Ministério Público e pelo Juizado da
Infância e da Juventude.
Igualmente, não há falar em prejuízo ao erário, porquanto a
permissão estava fundada no interesse público, qual seja, o abrigo de crianças
reconhecidamente submetidas a situações incompatíveis com os ditames do art.
227 da Constituição da República, fato não impugnado pelo Apelante.
Por fim, registre-se que a permissão de uso de imóvel por
funcionária municipal para realizar verdadeiro trabalho voluntário, possibilitou
o amparo das crianças, não obstante a parca estrutura à época dos fatos. (...)

Da leitura do acórdão recorrido não se infere violação dos arts. 10 e 11


da Lei 8.429/1992. Com efeito, de acordo com a premissa fática nele contida, a
servidora pública utilizou o imóvel com a finalidade abrigar crianças sujeitas a abusos
e maus tratos, inexistindo dano ao Erário ou atentado aos princípios administrativos.
Ainda que a permissão tenha se ressentido da lei autorizadora prevista na
Lei Orgânica do Município, o ato destinou-se a assegurar o direito absoluto e
prioritário das crianças e dos adolescentes de obterem proteção especial, conforme
assegurado pelo art. 227 da Constituição da República, in verbis :

Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar


à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à
alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade,
ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de
colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração,
violência, crueldade e opressão.
(...)

Eventual ilegalidade na formalização do ato questionado não é


suficiente a configurar improbidade administrativa, porquanto a situação delineada no
acórdão recorrido afasta a existência de imoralidade, desvio ético e desonestidade na
conduta.
Convém destacar o esclarecimento de Wallace Paiva Martins Júnior, de
que "a probidade atente, portanto, a honestidade de meios e fins empregados pela
Administração Pública e seus agentes, sublinhando valores convergentes à idéia de
boa administração, de cumprimento das regras da ética interna da Administração
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Pública" (in Probidade Administrativa, 3ª ed., São Paulo: Saraiva, 2006, pp. 112-112).
Diante do exposto, nego provimento ao Recurso Especial.
É como voto.

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