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O AUTISMO NA PSICANÁLISE E A QUESTÃO DA ESTRUTURA

Germano Quintanilha Costa1

I – Introdução
O objetivo deste trabalho é pensar a questão do autismo pelo viés da noção de
estrutura, tal como compreendida e trabalhada na teoria e na clínica psicanalítica. A
partir disso pretende-se discutir uma diferenciação bastante complexa e polêmica,
dentro do referencial psicanalítico da teoria lacaniana, que é justamente a proximidade
ou distanciamento entre o “autismo” e a “psicose infantil”. Pretende-se abordar
trabalhos de importantes autores que discutem essa questão de modo a refletirmos sobre
essa importante questão que se dá num plano teórico, mas que se reveste de inteiro e
profundo impacto para a elaboração de estratégias clínicas de intervenção.

II – Autismo e psicose: a questão da estrutura


No campo da psicopatologia a questão do autismo sempre se mostrou um desafio.
Tanto não existe um consenso absoluto quanto as suas origens orgânicas ou
psicogênicas, quanto sua classificação e diagnóstico geram também muitos
desencontros. Essa questão que, diz respeito a uma problemática histórica, chega
também ao contexto da psicanálise lacaniana, uma vez que existe uma enorme discussão
quanto ao diagnóstico diferencial entre o autismo e a psicose infantil, no que tange às
suas dimensões estruturais.
Trabalhando dentro da própria teoria lacaniana, variados autores chegam a
conclusões diferentes quando pensam o autismo pelo viés do conceito de estrutura
subjetiva. De modo geral, podemos identificar três perspectivas diferentes: existem
aqueles que defendem uma semelhança estrutural entre autismo e psicose; outros que
apontam o autismo como uma estrutura subjetiva diferente, e, aqueles que o definem
como uma não-estrutura (Rocha, 2002).
Mas do que trata quando falamos de estrutura. Trabalhando na mesma perspectiva
de Freud, Lacan também considera que qualquer tipo de estruturação subjetiva é uma
estruturação de defesa. Pensando pela via da constituição do sujeito podemos nos

1
Germano Quintanilha Costa: Professor Assistente do Curso de Psicologia da
Universidade Federal Fluminense (Pólo de Campos dos Goytacazes). Doutorando do
Programa de Psicanálise da UERJ. Mestre em Cognição e Linguagem pela UENF.
Psicólogo e Psicanalista Membro do Corpo Freudiano Escola de Psicanálise Seção
Campos dos Goytacazes.
perguntar: contra o que o bebê tem que se defender para que possa advir como sujeito?
O infans precisa lutar contra a ameaça de ser reduzido ao real do seu corpo e com isso
ter que encarnar a condição de objeto de demanda imaginário do Outro. Trata-se de uma
estruturação de defesa porque tornar-se sujeito é adquirir um estatuto simbólico. Através
da entrada no campo da significação o sujeito passa a ter a possibilidade de tornar-se
algo a mais, alguma Outra coisa que não seja apenas alguns quilos de carne (Calligaris,
1989).

III – Diferenças entre autismo e psicose infantil


Tomando por base o trabalho de Marie-Cristine Laznik, neste trabalho
pretendemos investigar o autismo enquanto um quadro clínico que se difere, às vezes
sutilmente, da psicose infantil.
No entanto, precisamos destacar a necessidade de caminharmos como uma
bastante prudência. Precisamos considerar que Lacan não nos falou sobre a psicose, no
singular, mas nas psicoses, no plural. Isso constitui uma questão aberta para nós
psicanalistas. Por isso, não pretendemos afirmar de modo taxativo que o autismo é
absolutamente diferente das psicoses, mas pretendemos indagar sobre sua diferença com
relação a certas modalidades psicóticas.
A questão que iremos percorrer é a seguinte: o que se apresenta como situação
crítica no autismo é o processo subjetivo da alienação ou da separação? Se tomarmos os
casos de psicose infantil veremos que a aproximação entre autismo e psicose infantil
não é tão simples. Winnicott analisou uma menina psicótica de três anos, caso
conhecido como a “Pequena Piggle”. Nesse relato de análise, vemos que a criança
psicótica traz um endereçamento de um sofrimento, um discurso fragmentado e uma
transferência com o analista. Esses elementos não são tão facilmente encontrados nos
casos das crianças autistas. É possível enxergar a “Pequena Piggle” como um sujeito
que é constantemente invadida por seus conteúdos inconscientes, ou seja, pelo Gozo do
Outro. Trata-se de um impasse no complexo de Édipo, o que faz com que ela não
consiga enxergar o Outro com possuidor de uma falta, uma falta que possa funcionar
como uma barra a esse Gozo do Outro. Desse modo não há aqui uma castração, não há
Nome-do-Pai, portanto, não há separação.
Dentre desse contexto, nosso trabalho pretende se posicionar do lado daqueles que
pensam o autismo como uma falha grave no processo da alienação e não exatamente no
processo de separação. Fazer um furo no Outro Materno, fazer uma barra ao desejo da
mãe pressupõe que antes disso o sujeito tenha se instaurado nessa posição de objeto de
gozo do Outro. Então, propomos pensar que quando falamos de autismo, estamos
falando de um impasse que é fruto de uma falta de alienação ou de uma alienação
capenga.
Para que possamos então compreender o que explica o autismo dentro de seu
próprio campo e o que o diferencia da psicose, precisamos reconhecer a alienação como
um processo que perpassa as três dimensões: o real, o simbólico e o imaginário.
Para desenvolvermos essa questão, vamos nos utilizar dos apontamentos que
Laznik (2004) tece sobre essas três modalidades de alienação. Consideramos bastante
plausível a sua hipótese de que o autismo revela uma grave falha na alienação real e
imaginária. Isso nos permite compreender porque alguns autistas conseguem fazer um
uso da linguagem, sem que esse uso possa demonstrar a presença de um sujeito do
inconsciente. Isso por exemplo, faz com que a psicopatologia fenomenológica acabe por
criar uma série de classificações e variações dentro do campo autismo dependendo
exatamente das presenças e ausências de certas funções psíquicas e comportamentais.
Vejamos, portanto, essa fundamentação trazida por Laznik (2004).

IV – Quando falta a alienação


Primeiro, consideremos por alienação imaginária o processo que constrói a
imagem do corpo da criança. Estamos falando aqui da fase do espelho como o momento
em que a criança reconhece-se como um “eu”.
Através de experiência dos espelhos côncavos, Lacan nos demonstra que é
possível um sujeito ter a percepção visual de estar diante de um vaso contendo flores,
quando na verdade, o vaso e as flores não se encontram juntos fisicamente. Trata-se de
uma ilusão de ótica. Desse modo, podemos pensar a alienação imaginária a partir da
loucura necessária das mães. Através dessa loucura ela cria e antecipa uma imagem,
uma representação sobre o corpo do bebê, que ele de fato ainda não possui por si
próprio. Alienando-se ao olhar do adulto, a criança busca uma confirmação da imagem
de si própria. Num ato de precipitação, a criança se lança nessa identificação alienante
baseado na imagem do seu corpo e no tecido simbólico dirigido pelo Outro.
Isso constitui um ponto importante para distinguirmos o autismo de algumas
psicoses, pois na paranóia, por exemplo, o sujeito não consegue se defender
psiquicamente do gozo imaginário que esse outro realiza sobre ele. Já no autismo
existiria uma ausência do estágio do espelho, seja porque falta um Outro que realize
essa antecipação da imagem do corpo do bebê, seja porque o bebê não se vincula ao
olhar do adulto.
A alienação imaginária é tão importante que ela constitui um dos diagnósticos
precoces do autismo, pois é muito frequente que o bebê autista não olhe para o rosto de
sua mãe, o que muitas vezes é acompanhado pelo fato dessa mãe não se aperceber disso.
Porém, esse não é a única explicação. É preciso considerar um outro aspecto
diagnóstico e para isso precisamos compreender o que Laznik (2004) chama de
alienação real. Para compreendê-la precisamos recorrer à teoria pulsional de Freud e de
Lacan, na qual a pulsão, na busca de sua satisfação, realiza um movimento em forma de
circuito, ou seja, ela parte de um ponto, avança e retorna. Podemos identificar então três
tempos desse circuito pulsional.
Num primeiro tempo, a criança vai em direção a um objeto do mundo exterior e
incorpora-o como se fosse seu, por exemplo, o seio materno. Num segundo tempo, a
criança busca uma parte do próprio corpo, por exemplo, ela suga o próprio dedo. Num
terceiro tempo, a criança busca fisgar o gozo pulsional do outro que está diante dela,
desse modo a criança se doa, se oferece, como objeto pulsional a ser tomado pelo Outro.
Exemplo: quando o bebê estende suas mãos e seus pés em direção à boca do adulto que
finge lhe comer os pezinhos.
Baseando-se em Lacan, Laznik (2004) defende que só podemos falar de um
sujeito pulsional depois que esse circuito é completado. Desse modo, o surgimento do
sujeito depende de uma alienação redobrada, isto é, uma alienação ao Outro simbólico e
ao Outro real.
A partir desse ponto precisamos destacar o caráter fundamental da relação erótica
travada entre a criança e seus pais. Os pais acabam por encarnar estas duas dimensões,
pois eles representam o Outro, como aquele que traz os significantes, ao mesmo tempo
em que encarnam um outro semelhante, um outro de carne e osso, um outro para quem a
criança se oferece como objeto, fazendo uma alienação real, ou melhor pulsional.
Esse esclarecimento nos permite visualizar que o enodamento entre a alienação
real e imaginária é o que permite a criança ter acesso à alienação simbólica. O erotismo
pulsional e o estágio do espelho possibilitam a criança se ver encarnada em um corpo
erótico, capaz de ser reconhecido por uma unidade egóica diferenciada do Outro. Essa
junção conduz a criança a perceber que em suas experiências de satisfação existem algo
de insatisfação. Sentindo que existe uma falta nesse corpo que é pulsional e imaginário,
a criança vai buscar as palavras do Outro, para que através delas esse corpo possa não
ser apenas imagem, mas que possa se fazer representar através de um discurso.
Desse modo, caminhamos para nossa conclusão visando reconhecer o autismo a
partir de certas incidências que tornam bastante precárias a instauração do estágio do
espelho e também o fechamento do circuito pulsional.
Sobre esse respeito, a psicanálise tem nos demonstrado que o autista é alguém que
teme ser afetado pulsionalmente por algo que venha do Outro, ao mesmo tempo em que
o vemos como um corpo que parece ser desabitado por uma representação de um eu,
capaz de encarnar uma ficção, um personagem.
Para encerrar, queremos dizer que tudo isso se apresenta como uma teoria
complexa, mas que nos é necessária para que possamos sustentar nossa posição de
psicanalistas. Ficaremos satisfeitos se, ao menos nós psicanalistas, pudermos olhar para
as causas do autismo não como uma doença ou como um distúrbio, mas como uma
incidência, um episódio mal sucedido na história da constituição dessas crianças
enquanto sujeitos.

V - Bibliografia
Rocha, Fulvio Holanda. Autismo: controvérsias na psicanálise. ROCHA, Fulvio
Holanda. Autismo: controvérsias na psicanálise. In: COLOQUIO DO LEPSI IP/FE-
USP, 4., 2002, São Paulo.
Laznik, Marie-Christine. A voz da sereia: o autismo e os impasses na constituição
sujeito. Salvador, Ágalma: 2004.