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HISTÓRIA E OS

CONCEITOS HISTÓRICOS
RACHEL DUARTE ABDALA

HISTÓRIA E OS CONCEITOS
HISTÓRICOS

1ª Edição

Taubaté
Universidade de Taubaté
2014
Copyright©2014.Universidade de Taubaté.
Todos os direitos dessa edição reservados à Universidade de Taubaté. Nenhuma parte desta publicação pode ser
reproduzida por qualquer meio, sem a prévia autorização desta Universidade.
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Ficha catalográfica elaborada pelo SIBi


Sistema Integrado de Bibliotecas / UNITAU

A135h Abdala, Rachel Duarte


História e os conceitos históricos / Rachel Duarte Abdala. Taubaté:
UNITAU, 2012.
46p. : il.
ISBN: 978-85-65687-99-7

Bibliografia
1. História. 2. Conceitos históricos. 3. Pensamento histórico. 4. Análise
histórica. I. Universidade de Taubaté. II. Título.
PALAVRA DO REITOR

Palavra do Reitor

Toda forma de estudo, para que possa dar


certo, carece de relações saudáveis, tanto de
ordem afetiva quanto produtiva. Também, de
estímulos e valorização. Por essa razão,
devemos tirar o máximo proveito das práticas
educativas, visto se apresentarem como
máxima referência frente às mais
diversificadas atividades humanas. Afinal, a
obtenção de conhecimentos é o nosso
diferencial de conquista frente a universo tão
competitivo.

Pensando nisso, idealizamos o presente livro-


texto, que aborda conteúdo significativo e
coerente à sua formação acadêmica e ao seu
desenvolvimento social. Cuidadosamente
redigido e ilustrado, sob a supervisão de
doutores e mestres, o resultado aqui
apresentado visa, essencialmente, às
orientações de ordem prático-formativa.

Cientes de que pretendemos construir


conhecimentos que se intercalem na tríade
Graduação, Pesquisa e Extensão, sempre de
forma responsável, porque planejados com
seriedade e pautados no respeito, temos a
certeza de que o presente estudo lhe será de
grande valia.

Portanto, desejamos a você, aluno, proveitosa


leitura.

Bons estudos!

Prof. Dr. José Rui Camargo


Reitor

v
vi
Apresentação
Este livro-texto aborda os Conceitos Históricos que são a base de todo o trabalho dos
historiadores. Os conceitos são efetivamente as ferramentas a partir das quais os
historiadores pensam e escrevem sobre os fatos e sobre a própria História. Desse modo,
é fundamental refletir e conhecer os conceitos e a problemática que envolve a sua
definição e a sua aplicação nas análises desenvolvidas na área de História.

Além de serem aplicados nas análises historiográficas impreterivelmente, os conceitos


também são, eles mesmos, alvo de intensa discussão no campo.

Inicialmente, esse livro-texto apresenta a complexidade que envolve os conceitos, bem


como as dimensões que ela abrange e que vão desde a língua, a linguagem e a
linguagem científica até a própria definição do conceito.

Basicamente, antes de aplicar uma ferramenta devemos conhecer o que ela faz, qual a
sua capacidade. Assim também acontece com relação aos conceitos. Embora seja
imprescindível para a análise em História, ou mesmo exatamente por esse motivo,
precisa antes de ser aplicado, estudado.

Em seguida vamos estudar os tipos e as funções dos conceitos históricos. Depois, o


conceito de História. Sim, História também é um conceito.

Por fim, foram escolhidos três conceitos para serem analisados de um modo mais
aprofundado dada a sua importância na área de História.

Com isso esperamos oferecer as ferramentas necessárias aos futuros historiadores e


professores de História, pois como todos sabemos essas esferas são indissociáveis, para
desenvolverem seus trabalhos e suas análises.

vii
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Sobre a autora

RACHEL DUARTE ABDALA: bacharel e licenciada em História pela Universidade


de São Paulo - USP. Mestre em História da Educação pela Faculdade de Educação da
Universidade de São Paulo - FEUSP. Doutoranda pela mesma Instituição. Docente e
coordenadora do curso de História da Universidade de Taubaté - UNITAU.
Pesquisadora no Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas em História da
Educação - NIEPHE da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo -FEUSP.
Pesquisadora do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas de Práxis Contemporâneas -
NIPPC da Universidade de Taubaté - UNITAU. Pesquisadora do Núcleo de Pesquisas
em História - NPH da Universidade de Taubaté - UNITAU.

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Caros(as) alunos(as),
Caros( as) alunos( as)

O Programa de Educação a Distância (EAD) da Universidade de Taubaté apresenta-se


como espaço acadêmico de encontros virtuais e presenciais direcionados aos mais
diversos saberes. Além de avançada tecnologia de informação e comunicação, conta
com profissionais capacitados e se apoia em base sólida, que advém da grande
experiência adquirida no campo acadêmico, tanto na graduação como na pós-graduação,
por mais de 35 anos de História e Tradição.

Nossa proposta se pauta na fusão do ensino a distância e do contato humano-presencial.


Para tanto, apresenta-se em três momentos de formação: presenciais, livros-texto e Web
interativa. Conduzem esta proposta professores/orientadores qualificados em educação a
distância, apoiados por livros-texto produzidos por uma equipe de profissionais
preparada especificamente para este fim, e por conteúdo presente em salas virtuais.

A estrutura interna dos livros-texto é formada por unidades que desenvolvem os temas e
subtemas definidos nas ementas disciplinares aprovadas para os diversos cursos. Como
subsídio ao aluno, durante todo o processo ensino-aprendizagem, além de textos e
atividades aplicadas, cada livro-texto apresenta sínteses das unidades, dicas de leituras e
indicação de filmes, programas televisivos e sites, todos complementares ao conteúdo
estudado.

Os momentos virtuais ocorrem sob a orientação de professores específicos da Web. Para


a resolução dos exercícios, como para as comunicações diversas, os alunos dispõem de
blog, fórum, diários e outras ferramentas tecnológicas. Em curso, poderão ser criados
ainda outros recursos que facilitem a comunicação e a aprendizagem.

Esperamos, caros alunos, que o presente material e outros recursos colocados à sua
disposição possam conduzi-los a novos conhecimentos, porque vocês são os principais
atores desta formação.

Para todos, os nossos desejos de sucesso!

Equipe EAD-UNITAU

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xii
Sumário
Palavra do Reitor .............................................................................................................. v

Apresentação .................................................................................................................. vii

Sobre a autora .................................................................................................................. ix

Caros(as) alunos(as) ........................................................................................................ xi

Objetivos........................................................................................................................... 2

Introdução ......................................................................................................................... 3

Unidade 1. A problemática e a função dos conceitos em História ............................. 5

1.1 O conceito de conceito: o termo e a ideia ................................................................... 5

1.2 A linguagem científica................................................................................................ 6

1.3 Nomenclatura e classificação ..................................................................................... 8

1.4 A virada Linguística na História ............................................................................... 12

1.5 Síntese da Unidade ................................................................................................... 14

1.6 Para saber mais ......................................................................................................... 15

1.7 Atividades ................................................................................................................. 16

Unidade 2. Tipos e funções dos conceitos históricos .................................................. 17

2.1 Jogo Aberto: você sabe ler e escrever? ..................................................................... 17

2.2 Conceitos históricos.................................................................................................. 18

2.3 Categorias de análise ................................................................................................ 21

2.4 Conceitos ferramenta ................................................................................................ 24

2.5 Síntese da Unidade ................................................................................................... 25

2.6 Para saber mais ......................................................................................................... 26

2.7 Atividades ................................................................................................................. 28

Unidade 3. O conceito de História............................................................................... 29

xiii
3.1 O termo História ....................................................................................................... 29

3.2 Definições de História .............................................................................................. 31

3.3 Síntese da Unidade ................................................................................................... 32

3.4 Para saber mais ......................................................................................................... 33

3.5 Atividades ................................................................................................................. 33

Unidade 4. O conceito de História............................................................................... 35

4.1 Tempo: o conceito fundamental ............................................................................... 35

4.2 Memória: o conceito desdobrado ............................................................................. 38

4.3 Cultura: um conceito atual ........................................................................................ 39

4.4 Síntese da Unidade ................................................................................................... 42

4.5 Para saber mais ......................................................................................................... 42

4.6 Atividades ................................................................................................................. 43

Referências ..................................................................................................................... 45

xiv
História e os Conceitos
Históricos ORGANIZE-SE!!!
Você deverá usar de 3
a 4 horas para realizar
cada Unidade.

EMENTA

A História é uma ciência que se fundamenta em cinco pilares


epistemológicos. O estudo desses pilares e de sua epistemologia auxilia a
compreensão desta ciência. Apresenta e promove discussões
epistemológicas sobre o conhecimento histórico. Este livro-texto discute o
processo de definição do campo do conhecimento histórico e da
historiografia. Incita a reflexão acerca dos diversos sentidos das formas de
escrita da História e de seus conceitos fundamentais.

1
Objetivo Geral

Compreender, estudar e problematizar os conceitos fundamentais e as


especificidades da História.
os

Obj eti vos

Objetivos Específicos

 Iniciar os alunos no estudo e na reflexão dos conceitos da História e do


pensamento histórico;

 Indicar formas de aplicação dos conceitos históricos nas análises dos


historiadores;

 Estimular a reflexão e a percepção sobre a análise histórica.

2
Introdução
Neste livro-texto, veremos a complexidade dos conceitos históricos e de sua aplicação
nas análises desenvolvidas pelos historiadores. Veremos os diferentes tipos de
conceitos.

Na primeira Unidade, intitulada “A problemática e a função dos conceitos em História”,


estudaremos a complexidade e as discussões que envolvem os conceitos.

A segunda Unidade, intitulada “Tipos e funções dos conceitos Históricos”,


examinaremos os três tipos de conceitos do campo da História e suas diferenças e
especificidades.

Na terceira Unidade, cujo título é “O conceito de História”, analisaremos as discussões


em torno da definição de História e os motivos pelos quais o termo que denomina a
ciência e o conjunto dos fatos realizados pelo homem é ele próprio também um
conceito. É preciso antes de estudar outros conceitos começar pelo início estudando e
compreendendo o conceito de História.

Na quarta e última Unidade, intitulada “Aplicação dos conceitos”, estudaremos três


conceitos que são essenciais para a História: tempo, memória e cultura. Chamamos o
tempo de o conceito fundamental, porque além de ser visto dessa forma pelo senso
comum e pelos próprios historiadores, o tempo é de fato um dos pilares epistemológicos
da História. Memória denominamos de conceito desdobrado, pois é considerado como
o complemento da História e, por fim, cultura é um dos mais debatidos conceitos no
âmbito da História e foi, por esse motivo, escolhido para compor esse conjunto.

3
4
Unidade 1

Unidade 1 . A problemática e a função dos


conceitos em História

Nesta Unidade, vamos estudar a complexidade da conceituação em História que envolve


a linguagem e a própria historicidade da História.

1.1 O conceito de conceito: o termo e a ideia


Conceituar é tarefa difícil, senão impossível, pois, toda conceituação é incompleta,
imperfeita. Condensar em poucas palavras todo o conteúdo de ideias de um objeto ou de
coisa torna-se tarefa quase impossível. Por esse motivo, todo conceito sofre limitações
na essência e/ou na forma. Além disso, tanto para conceituar quanto para utilizar os
conceitos é preciso considerar que os conceitos são dinâmicos, têm historicidade, ou
seja, mudam ao longo do tempo.

O historiador francês Paul Veyne asseverou que “o único verdadeiro problema é o dos
conceitos em História” (1987, p. 150).
Paul Veyne (1930-) historiador e arqueólogo
francês. Foi filiado ao Partido Comunista
Francês. Em 1955 tornou-se membro da
Escola Francesa de Roma. Após 1955, voltou
para Aux-en-Provence como professor da
Universidade de Provença. Em 1970 lançou
seu livro de maior projeção: Como se
escreve a História. Ensaio de
epistemologia. Em 1975, tornou-se titular na
cátedra de História Romana no College de Figura 1.1 – Paul Veyne.
France. Em 1978, acrescentou à obra Como Fonte:http://www.babelio.com/users/AVT2_V
se escreve a história, o ensaio Foucault eyne_6535.jpeg
revoluciona a história. Acesso em: 19 jun. 2011
5
Mas o que é um conceito?

As definições do dicionário e as mais correntes definem conceito como: representação


de um objeto pelo pensamento, nas suas características gerais. Ação de formular uma
ideia por meio das palavras, definição. Noção, ideia por meio de palavras, definição.
Noção, ideia, concepção. Apreciação, julgamento, avaliação. Avaliação escolar.

Como podemos ver o termo é utilizado com muitos sentidos e muitas aplicações,
inclusive a de nomear as notas auferidas aos alunos nas avaliações escolares.

Aqui, nos interessa perceber em primeiro lugar que um conceito é formado por duas
partes distintas: o termo, a palavra e o sentido. Damos a essas duas dimensões os nomes
de: denotação e conotação.

A denotação é o termo, a palavra, o nome, formado pela língua e estudado pela


etimologia. Esse é o sentido primeiro dado a partir da raiz etimológica à qual e do qual o
termo se originou. Por exemplo, a palavra cronologia vem do grego como derivação de
Cronos que é o Deus mitológico do tempo. Significa originalmente a ordem da datas e
dos fatos.

A conotação são os sentidos, os significados que foram sendo atribuídos ao termo


original ao longo do tempo. Esses sentidos vão sendo acumulados ou substituídos de
acordo com a dinâmica histórica e o uso que vai sendo feito dos termos e conceitos e
pode mudar de acordo com o contexto.

Como afirma Jacques Le Goff (1990), os conceitos do historiador são metafóricos,


articulam o concreto da palavra e o abstrato dos sentidos.

1.2 A linguagem científica


O filósofo austríaco naturalizado britânico, Ludwig Wittgenstein (1889-1951),
sintetizou a importância da linguagem na frase: “Os limites da minha linguagem
denotam os limites do meu mundo”.

6
A linguagem é uma atividade humana que promove a comunicação e a integração entre
os homens e, devido às várias dimensões que envolve, tem sido alvo de grandes
discussões filosóficas. Considerando que as linguagens são criadas pelos homens, a
relação entre linguagem e cultura é muito estreita.

Os tipos de linguagem são muito mais abrangentes que exclusivamente o verbal (oral ou
escrito) baseado nas palavras, que é o que nos interessa aqui, pois os conceitos são
representados fundamentalmente em palavras. Existem muitos outros tipos de
linguagem criados pelo homem, como por exemplo a linguagem dos sinais e gestos, as
linguagens matemáticas, as artísticas, etc.

Os tipos de linguagem que se relacionam com a discussão deste livro-texto são a


linguagem verbal, a linguagem científica e a conceitual.

Com relação à linguagem científica, cada ciência constitui a sua própria linguagem,
composta por termos específicos especialmente criados para nomear as descobertas
científicas. Esses termos especialmente criados compõem o que chamamos de jargão.
As chamadas “ciências duras”, que são as ciências exatas, se baseiam também na
linguagem matemática, além da verbal.

Para Gildo Magalhães (2005, p. 192), “se a linguagem do conhecimento quando se


dirige para a ciência deveria ser a mais simples possível, é comum que se torne
hermética, ao mesmo tempo que pretende ser objetiva e sem ambiguidades”.

Para a filósofa brasileira Marilena Chaui (1997), a linguagem conceitual procura


evitar, diferentemente da linguagem simbólica, a analogia e a metáfora, procurando
atribuir às palavras um sentido direto e não figurado ou figurativo. Isso não significa
que a linguagem conceitural seja exclusivamente denotativa. Pelo contrário, nela a
conotação é essencial. “A linguagem conceitual procura diminuir a polissemia das
palavras, buscando fazer com que cada palavra tenha um sentido próprio e que seus
diferentes sentidos dependam do contexto no qual é empregada.” (CHAUI, 1997, p.
150).

7
De acordo com Jacques Le Goff, a obra do historiador é uma forma de atividade
intelectual simultaneamente poética, científica e filosófica. Desse modo, ao assumir-se
como arte e como “filha” da Filosofia, a História consegue se tornar mais específica,
técnica e científica e menos literária e filosófica. Nos seus primórdios, no período da
cultura grega helenística, nada distinguia a História da Literatura. O Filósofo Aristóteles
chegou a afirmar o caráter artístico da História. Atualmente alguns historiadores
reivindicam para a história o estatuto de arte. Georges Duby afirma que: “A história só
existe pelo discurso”. Paul Veyne defendeu durante muito tempo que a História seria
uma narrativa, e, portanto, se aproximaria das características da Literatura. As
concepções de Hayden White afirmam a lógica do trabalho histórico fundamentada em
uma linearidade narrativa sem perder o caráter científico, a partir da articulação e
aplicação de estratégias que resultam no “efeito explicativo” ou “estilo” Historiográfico.

Hayden White conclui, sobre a ciência histórica no século XIX, que: 1. não há diferença
entre História e Filosofia da História; 2. escolha das estratégias de explicação histórica é
mais moral ou estética do que epistemológica; 3. a reivindicação de uma cientificidade
da história não é mais que o disfarce de uma preferência por esta ou aquela modalidade
de conceituação histórica.

Voltamos à problemática do conceito em História sem ter saído dela. A História se vale
de uma linguagem científica para afirmar o seu caráter como ciência. E, essa linguagem
tem a sua especificidade, como já vimos. No caso da História, além da especificidade
inerente ao discurso científico assentado na linguagem conceitual, precisa lidar com
problemas relativos à definição dos conceitos. E, como Ciência Humana não só aplica
os conceitos, mas também os questiona e reflete sobre a sua aplicação.

1.3 Nomenclatura e classificação


Para Marc Bloch (2001), o problema da classificação é inseparável do problema da
nomenclatura.

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De acordo com Bloch (2001, p. 135), “toda análise requer primeiro, como instrumento,
uma linguagem apropriada”. E é justamente aí que se localiza o maior problema dos
historiadores, pois, diferentemente do que vimos com relação às ciências que produzem
jargões, a História não tem um jargão, o vocabulário do historiador é, em sua maior
parte, proveniente do seu objeto de estudo, “não resulta do esforço severamente
combinado dos técnicos”. Os documentos tendem a impor uma nomenclatura para o
historiador. No entanto, como nos alerta Bloch, esse “decalque” da terminologia do
passado carece que o historiador enfrente alguns desafios. Assim, o vocabulário dos
documentos é um testemunho – como todo testemunho, imperfeito e sujeito à crítica. A
nomenclatura empregada pelo historiador não é uma linguagem propriamente inventada,
mas remanejada. Pode parecer um procedimento seguro, mas não se pode deixar de lado
o contexto e as atualizações necessárias para a compreensão. Deve-se, portanto,
considerar o contexto em que os termos foram empregados para que não se perca o seu
sentido. Quando usamos só o termo, descontextualizado, pode-se incorrer em
equívocos. Por exemplo, o termo carro já era usado na antiguidade para denominar os
carros de guerra, mas contextualizando não podemos achar que os romanos quando
utilizavam o termo carro falavam sobre os automóveis movidos à gasolina ou a álcool
chamados hoje de carros.

Há, de acordo com Bloch, um apego ao nome. Para ele, o homem não sente necessidade
de mudar o “rótulo” só porque o seu sentido mudou. O próprio termo História, como
veremos adiante na Unidade 3, experimentou essa situação. Mudou o seu sentido, mas o
termo foi mantido.

Além do dinamismo histórico, o outro alerta que Bloch faz diz respeito ao dinamismo
da própria linguagem. Ao longo do tempo algumas palavras deixam de ser utilizadas e
desaparecem, outras mudam de sentido e de grafia. Há uma espécie de evolução da
linguagem que nem sempre o historiador consegue acompanhar. Nesse sentido há o
problema do uso pelo historiador do termo no original. Dependendo do termo e do uso,
o historiador deve manter o original e em outros casos deve atualizá-lo. Mas como
distinguir?

Assim, apresenta-se um outro problema: É possível a exatidão na História?


9
Para Paul Veyne (1987, p. 162), “o conceito é um obstáculo ao conhecimento histórico
porque esse conhecimento é descritivo; a história não tem necessidade de princípios
explicativos, mas de palavras para dizer como eram as coisas”.

O historiador fala unicamente com palavras. E fala com palavras de seu país, ou seja, na
sua língua materna que traz consigo referências culturais das quais o historiador não
consegue se desvencilhar, ainda que o seu objeto de estudo seja algum fato ou
fenômeno histórico de outro lugar que não o seu.

Outra questão apontada por Marc Bloch diz respeito ao bilinguismo hierárquico
praticado por muitas sociedades. Esse bilinguismo se refere à distinção entre a língua
culta e a língua popular. Precisamos de suportes materiais para conhecer uma sociedade
e sua cultura, e recorremos para isso fundamentalmente à escrita. O problema é que a
escrita, na maioria das vezes, registra quase que exclusivamente a língua culta,
excluindo assim termos e ideias da língua popular, bem como aspectos importantes da
sua cultura.

E, em última instância, para finalizar a gama de problemas e obstáculos enfrentados


pelo historiador no uso dos conceitos, nada mais difícil para um homem do que se
exprimir a si mesmo. Não podemos nos esquecer
de que o historiador é, ele próprio, um homem
que fala, ao falar dos outros homens, sobre si
mesmo.

Reprodução Proibida (Retrato de Edward


James), 1937, Roterdan, Museu Boymans-van
Beuningen

Desse modo, muitas vezes o historiador recorre


ao uso de metáforas e de aproximações. Os
termos mais usados são aproximações, pois o
Figura 1.2 - Retrato de Edward
sentimento não pode ser nomeado porque ainda
James.
Fonte:http://www.culturabrasil.org/magri não tinha nome. Alguns exemplos desse
tte.htm
Acesso em 23 jun. 2012
10
processo são os termos empregados para denominar os conceitos de Renascimento e de
Antigo Regime. Outro exemplo mais próximo da nossa realidade é o da denominação
da América como Novo Mundo, o que passou, por oposição, a denominar a Europa
como Velho Mundo. Isso só foi possível com a descoberta da América, pois, enquanto
ainda não havia um outro mundo, um novo mundo, a Europa era considerada o “único”,
portanto não poderia receber uma adjetivação.

“O advento do nome é sempre um grande fato, mesmo se a coisa o havia precedido;


pois marca a etapa decisiva da tomada de consciência”. (BLOCH, 2001, p. 142). Assim,
como já vimos, o conceito está assentado em um termo. Não existe sem uma palavra
que o denomine. Por esse motivo o nome é tão importante para a História, ou pelo
menos deveria ser. Uma palavra vale menos por sua etimologia do que pelo uso que
dela é feito. Ou seja, a etimologia é o ponto de partida, portanto não deve ser
desconsiderada, mas os sentidos atribuídos a ela são talvez mais importantes do que ela
própria.

Retomando a questão acerca da precisão na História, devemos considerar que muitas


palavras empregadas como conceitos pelo historiador são carregadas de sentimentos e
suscitam emoções, inclusive no próprio historiador que é, como sabemos, um homem
também. Os poderes do sentimento raramente favorecem a precisão da linguagem
(BLOCH, 2001, p. 143).

Essa é a latente questão da subjetividade na História. Subjetividade não significa juízo


de valor, mas que o historiador ao escrever a História funciona como uma espécie de
filtro cultural. Essa é uma das maiores questões das Ciências Humanas. Assim, no caso
do emprego dos conceitos, cada historiador compreende o nome de um modo diferente
de acordo com seus referenciais culturais.

Por fim, ao tratar da nomenclatura é preciso reconhecer o seu caráter de didatização da


História. Por exemplo, “a Idade média, na verdade, vive apenas de uma humilde
vidazinha pedagógica: contestável comodidade de programas, rótulo, sobretudo de
técnicas eruditas, cujo campo, a propósito, é bastante delimitado pelas datas
tradicionais” (BLOCH, 2001, p. 149).

11
Para finalizar, Marc Bloch (2002. 1150-153) assevera que: “A verdadeira exatidão
consiste em se adequar, cada vez, à natureza do fenômeno estudado. [...] Cabe à prática
introduzir em suas distinções uma exatidão e um discernimento crescentes.”

1.4 A virada Linguística na História


Caro aluno, como você pode acompanhar nesta Unidade, a dificuldade que envolve a
Virada Linguística na História.

A nova abordagem da História acontece a partir do momento que dois historiadores,


Marc Bloch e Lucien Febvre, demonstram suas insatisfações sobre a história política e a
superficialidade com que são analisadas. Para eles, os homens são muito mais
complexos do que simples relações entre países e homens de poder. A História
necessitava ser mais abrangente, ter em vista a nação, o todo, como disse Lucien
Febvre, fazer uma outra história.

Essa outra História consiste em não só fundamentar-se em aspectos políticos e


econômicos, mas também em questões culturais e sociais. Analisar o mesmo fato,
acontecimento, de diferentes aspectos, trazer uma problemática à História, da qual ela
seja sempre um processo contínuo e passível de mutação, assim como o seu objeto de
estudo, os homens.

Agora a História era auxiliada pela “aliança”, como chamou Lucien Febvre, com a
Geografia, Sociologia, Psicologia, Economia, Literatura, Antropologia e outras áreas do
conhecimento, como fez Braudel ao utilizar a Geografia para escrever O Mediterrâneo.
Ao realizar essa revolução no estudo historiográfico os Annales criaram e incorporaram
tantos outros conceitos à História, como o de longa duração.

Ao transformarem a história tradicional, regrada pelos positivistas, em uma história


problema, a linguística na história é totalmente reformulada. Para os historiadores
vinculados aos Annales, os acontecimentos não se baseiam somente em dados e
documentos, resumindo-se somente a eles, a história agora retorna à sua vocação

12
narrativa. A linguagem utilizada no fazer historiográfico tinha a função de um agente
estruturador, sendo os acontecimentos do passado traduzidos e não escritos exatamente
como ocorreram.

Um fator responsável para essa mudança narrativa da História é a chamada Virada


Linguística ocorrida em meados do século XX, também chamada de linguistic turn.
Sua principal característica aparece na relação entre linguagem e Filosofia no âmbito da
própria Filosofia e das humanidades. A questão de que a linguagem não seria um meio
de pensamento transparente foi ressaltada em trabalhos feitos por Johann Georg
Hamann e Wilhelm von Humboldt.

Ludwig Wittgenstein é também considerado um dos idealizadores da virada linguística,


já que em seus trabalhos coloca em questão uma falta de compreensão da lógica da
linguagem e seus jogos na Filosofia.

A questão em voga na virada linguística surge através do ponto de vista de que a


linguagem faz parte da realidade é contrária à intuição. A visão tradicional sobre a
linguagem era de que as palavras funcionavam como rótulos anexados ao conceitos.
Porém, segundo o fundador do Estruturalismo, Ferdinand de Saussure, a definição dos
conceitos não podem ser independentes da diferenciação das palavras, pois são essas
diferenças que estruturam a nossa percepção. Portanto, o que nós pensamos como
realidade nada mais é do que uma convenção de palavras e características que são
apreendidas e articuladas pela linguagem.

Em 1970, as Ciências Humanas como a História reconheceram que a linguagem tem um


papel fundamental de agente estruturador do discursos científico. Dentre um dos
teóricos que adotaram o movimento destaca-se Michel Foucault.

A proposta da virada linguística trazida à História é de que o passado não existe fora das
representações que são feitas pelos estudos dos historiadores, e que elas não podem ser
separadas da “bagagem” ideológica que os historiadores trazem para eles.

Marc Bloch escreveu em seu livro Apologia da História ou o ofício do historiador: “o


historiador, por definição, está na impossibilidade de ele próprio constatar os fatos que
13
estuda... Das eras que nos precederam, só poderíamos [portanto] falar segundo
testemunhas... Em suma, em contraste com o conhecimento do presente, o do passado
seria necessariamente “indireto (p.69).

Peter Burke, ao analisar a história dos Annales em seu livro sobre esse movimento
historiográfico, fez um breve estudo sobre a influência da narrativa para os historiadores
franceses da época. Segundo Burke, houve um renascimento da narrativa entre os
historiadores, que sofriam uma desilusão com o modelo determinista da explicação
marxista para a história política. Dentre os que faziam essa “rejeição desdenhosa” estão
Lucien Febvre, Fernand Braudel e Marc Bloch. Burke jamais censurou a história dos
eventos, porém nunca escreveu algo que fosse baseado nela. O autor refere-se a Braudel
da seguinte forma para definir o pensamento dos Annales quanto à narrativa histórica:
“tanto denunciou quanto dela se utilizou. Mais precisamente, como já vimos, afirmava
que a história dos acontecimentos é a superfície da história...Contudo, seu interesse
residia no que podia revelar de “realidades mais profundas”(p.104).

A História é uma ciência subjetiva, pois é escrita por alguém que a analisa, ou seja, sob
o olhar do historiador sobre acontecimentos que por ele são interpretados e vinculados.
O historiador é filho de seu tempo, portanto é inevitável que, por mais imparcial e
preciso que deva ser, considerando também seu compromisso com a verdade, ele faça
considerações atuais sobre algum fato do passado. Por isso, podemos dizer que os textos
e pesquisas que lemos hoje em dia escritos pelos historiadores predecessores têm o
reflexo de seus pensamentos de acordo com o seu tempo. A partir dessas conclusões
chegamos à historiografia, que é um campo que nos permite estudar a História das
ideias; é a reflexão e a produção da escrita da História, para a qual já não mais basta a
história dos eventos e sim a narrativa da História.

1.5 Síntese da Unidade


Caro aluno, você pôde acompanhar nesta Unidade a dificuldade que envolve definir um
conceito. Não é simples, mas é necessário. Por esse motivo devemos nos preocupar com

14 a precisão dos termos que utilizamos na escrita da História, pois fazer História não é só
descobrir documentos e fatos, mas é também e talvez até, principalmente, escrever e
discutir, e o historiador faz isso por meio de termos e conceitos.

1.6 Para saber mais


Livro

Língua e realidade, de Vilém Flusser. Adepto da fenomenologia, esse influente


filósofo, que viveu no Brasil e deu cursos na USP, se propôs demonstrar nesse livro que
a língua se identifica com a estrutura do mundo, e o conhecimento da linguagem se dá
por meio da filosofia, ciência, religião e arte.

A língua absolvida, de Elias Canetti.

Nessa obra autobiográfica o autor narra sua infância e


adolescência em diversos países da Europa e descreve suas
descobertas sobre a linguagem e a literatura, demonstrando a
dimensão cultural da linguagem de modo muito claro. Engloba
o período entre 1905 e 1921 e as consequências dos conflitos
europeus, principalmente da primeira Guerra Mundial.

Sites

http://www.museulinguaportuguesa.org.br

Este é o endereço do Museu da língua Portuguesa inaugurado em 2006 em São Paulo;


constitui-se como um museu interativo sobre a língua portuguesa, localizado na cidade
com o maior número de falantes do idioma no mundo.

15
1.7 Atividades

1. Como vimos os conceitos são palavras que recebem sentidos ao longo do tempo.
Pesquise e explique a historicidade do conceito de Renascimento. Quando ele
passou a designar o período de três séculos de grande efervescência cultural
principalmente na Itália? Para responder essa questão podemos indicar a obra
Renascimento do historiador Nicolau Sevcenko.

2. Depois do que estudamos nesta Unidade, explique a relação entre o conceito e a


linguagem e por que os conceitos são tão importantes na área de História.

16
Unidade 2
Unidade 2 . Tipos e funções dos conceitos
históricos

Aqui nesta Unidade, vamos estudar os três diferentes tipos de conceitos históricos e as
especificidades de cada um deles, recorrendo a exemplos pontuais.

2.1 Jogo Aberto: você sabe ler e escrever?


Como os conceitos são fundamentais na área de História são, portanto, muitos. Desse
modo, para melhor estudá-los e compreendê-los é possível distinguir tipos.

Na obra Dicionário de Conceitos Históricos os autores Kalina Vanderlei Silva e


Maciel Henrique Silva propõem uma classificação dos conceitos históricos em três tipos
fundamentais. Para esse estudo consideraremos essa classificação.

1. Conceitos históricos stricto sensu – noções que só podem ser utilizadas para
períodos e sociedades particulares. Ex. Absolutismo, Candomblé,
Comunismo.

2. Categorias de análise – conceitos mais abrangentes, que podem ser


empregados para diferentes períodos históricos. Ex. Escravidão, Cultura,
Gênero, Imaginário.

3. Conceitos ferramentas – operacionais para o trabalho e para a escrita do


historiador. Ex. Historiografia, Teoria, Interdisciplinaridade.

A seguir examinaremos cada um desses três tipos a partir de aspectos teóricos e de


exemplos.

17
2.2 Conceitos históricos
A principal característica dos conceitos históricos stricto sensu é que eles são datados,
ou seja, se referem a fatos e fenômenos singulares, como denomina Jacques Le Goff
(1990), pois eles só acontecem uma vez. Para ele, a contradição mais flagrante da
História é que a singularidade de seu objeto (acontecimentos e personagens únicos) se
contrapõe ao seu o objetivo, que é, como ciência, atingir o universal, o geral, o regular.

Assim, esses conceitos só podem ser aplicados para períodos e sociedades particulares.
Como exemplo, podemos citar o caso da Revolução Francesa. Sim, essa expressão
mais do que identificar um fato ocorrido na França passou a ser considerada como um
conceito dada a abrangência das suas consequências e desdobramentos, inclusive na
área teórica da História. Como afirma sobre isso e, especificamente sobre a Revolução
Francesa, François Furet, um dos principais estudiosos da Revolução Francesa: “E a
história que se escreve é também história dentro da história”. Assim, a seguir
acompanharemos algumas dessas discussões cerca desse conceito.

A Revolução Francesa foi


o processo político de
maior importância para
toda uma época, que marca
o nascimento da
democracia moderna e
transição da Idade Moderna
para a Idade
Contemporânea, como se
convencionou. Enquanto a
sociedade do Antigo
Figura 2.1 – A liberdade guiando o povo, de Eugene Delacroix. Regime fundamentava-se
Fonte:http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/revolucao-
francesa/revolucao-francesa-4.php na desigualdade, a
Acesso em 23 jun. 2012
revolução trazia o ideal de

18
liberdade, igualdade e fraternidade, ou seja, a soberania do povo e os Direitos do
Homem. O discurso da revolução na França teve uma repercussão mundial, já que seus
ideais foram seguidos por muitos outros países, entre eles os da América Latina.

As definições do conceito de Revolução Francesa são variadas por diferentes visões


historiográficas. Segundo a definição marxista, a revolução foi política e burguesa, pois
teria assumido o poder e construído a partir dela uma sociedade com ideologia liberal,
inaugurando a ordem capitalista, considerando que, no Antigo Regime, a burguesia era
uma classe excluída da política. O historiador Albert Soboul, também de formação
marxista, passou a caracterizar a revolução como campônio-burguesa. Para ele, a
revolução jamais teria acontecido sem a forte participação das massas e que sem a sua
participação jamais o Feudalismo teria sido abolido, podendo ser instalado o
Capitalismo.

Para o historiador Eric Hobsbawm, a Revolução Francesa está além de um abalo nas
estruturas do Antigo Regime, ela foi uma revolução social de massa, pois a Nação é que
deu uma linguagem política às transformações sociais e econômicas com a democracia e
liberalismo. Isso não significa que a burguesia não tivesse seus interesses particulares,
afinal, ela foi a maior beneficiária da revolução, porém para Eric Hobsbawm a
Revolução Francesa é puramente uma revolução.

Contra as interpretações clássicas da revolução, surgiram os revisionistas. Esses


especialistas acreditavam que a transformação no século XVIII não gerou uma luta de
classes entre nobreza e burguesia, mas sim uma fusão entre os seus superiores.
Entendem que na verdade o Antigo Regime ruiu devido à crise financeira da monarquia
e à crise econômica das más colheitas, concluindo que, na verdade, a crise tornou-se
revolução.

Outro ponto de diferentes interpretações entre revolucionistas e classicistas é a ideologia


iluminista na revolução. Para os marxistas, o iluminismo é uma ideologia burguesa
historicamente importante no desenvolvimento do pensamento burguês. Já os
revisionistas afirmam que existia uma hostilidade ao ideário iluminista que partia de

19
parcelas da burguesia e muitos nobres assumiam as ideias liberais. Portanto, não
poderiam se fazer generalizações, como eram feitas por alguns pensadores marxistas.

A Revolução Francesa não seguia uma única filosofia, não tinha um líder específico e
não foi planejada e organizada. Assim, como podemos perceber e como os historiadores
Furet e Ozouf afirmam, ela é aberta para um futuro ilimitado.

O conceito de Absolutismo refere-se a uma forma de governo em que o poder é


centralizado nas mãos de uma única pessoa, o monarca. Esse sistema aconteceu na
Europa entre os séculos XVI e XVII. Desse modo, podemos perceber como esse
conceito assim como o de Revolução Francesa também é datado e, portanto, um
conceito histórico strictu sensu.

O seu surgimento ocorreu devido à unificação dos Estados Nacionais na Europa, com a
centralização do poder nas mãos dos soberanos e criação de burocracias. Essa
centralização está ligada com os conflitos entre nobreza e burguesia, além de disputas
políticas entre a Igreja, que teve uma forte influência, e os príncipes.

A política e a religião estão interligadas no sistema absolutista, pois o rei era uma figura
sacralizada, um enviado de Deus para governar. Esse aspecto é enfatizado na França,
com o Rei Luis XIV, o Rei Sol. Vigorava a ideia de que o poder absoluto do rei e a
centralização dos Estados deviam-se a vontade de Deus, pois o próprio rei e sua
linhagem eram por Ele escolhidas.

O Absolutismo adquiriu diferentes características em outros Estados, como na Espanha,


Rússia e Inglaterra. Na Espanha, o absolutismo foi legitimado através de contratos,
como podemos encontrar em Maquiavel, em seu livro O Príncipe, em que apresenta a
ideia de que o defensor do Estado nascia do contrato entre o povo e o príncipe, e na obra
O Leviatã, em que Thomas Hobbes afirma que o Estado nasce do contrato entre os
homens. Apesar das diferenças, as justificativas, tanto jurídicas como teológicas, tinham
por objetivo explicar a centralização do poder na mão do rei. Apesar do caráter de
centralização do poder, ela ainda era limitada pela tradição e costumes e, quando existia,
ocorria pelos parlamentos e ministros com o poder de decisão.

20
O historiador Perry Anderson defende que o Estado Absolutista era uma continuidade
do Estado Feudal, pois o poder do soberano vem do poder da nobreza. Já para o
historiador Fernand Braudel, o poder absoluto derivava da ascensão política da
burguesia, apoiada pelo rei que diminuiria o poder da nobreza.

A decadência do Estado Absolutista aconteceu no século XVIII, com as políticas


burguesas e o processo da Revolução Francesa, através do liberalismo, que defendia um
governo institucional, sem a interferência do Estado na economia. A queda do
Absolutismo francês gerou movimentações liberais na Espanha e Portugal, que
impuseram constituições a seus reis.

Por fim, para compreendermos esse tipo de conceito é importante perceber que o
principal método de explicação em história é dedutivo, o que implica que o significado
da História é contextual. As explicações da História são baseadas nos contextos e na
singularidade dos fatos históricos que, mesmo que tenham relação entre si ou que
possam ser considerados como semelhantes, como no caso da ideia de Revolução, há
essa singularidade que explica e que produz conceitos, como vimos.

2.3 Categorias de análise


Em contraposição aos conceitos históricos, as categorias de análise são conceitos mais
abrangentes, que não se restringem a um único período histórico.

Esse tipo de conceito da História se baseia na historicidade, ou seja, muda de acordo


com o período histórico e sociedade em que é empregado.

Como exemplo, vamos estudar o conceito de Revolução. Existe uma problemática no


conceito de revolução, pois muitas vezes é utilizado para se referir a golpes e reformas.
Antes de chegarmos a essa problemática do conceito, precisamos ter definido o conceito
de revolução.

A palavra revolução surgiu no Renascimento, porém só com a Revolução Industrial


adquiriu um significado político. Com a Revolução Francesa foi acrescentado ao
21
conceito uma mudança estrutural. Entende-se por revolução na historiografia como um
processo radical de mudanças nas estruturas sociais. Após a Revolução Francesa, ela
também é definida como um fenômeno político-social radical de mudança na estrutura
sociedade pela rapidez com que essas mudanças são processadas. Assim, podemos
concluir que a revolução significa toda e qualquer mudança radical que transforma num
curto espaço de tempo as estruturas de uma sociedade.

A historiografia caracteriza revolução em diferentes aspectos: revolução política,


cultural, tecnológica, e política, da qual é caracterizada em revoluções burguesas e
proletárias. Para os historiadores Florenzano e Bruit, a revolução é um movimento de
classes, ou seja, para haver uma revolução é necessário que exista um conflito de
classes. Pela revolução burguesa podemos definir qualquer fenômeno no qual a
burguesia é o principal agente ou beneficiada, contextualizando essas características ao
nascimento do capitalismo entre 1770 e 1850.

A definição mais usada de revolução é a de Karl Marx e Friedrich Engels, que é baseada
na revolução do proletariado, que inevitavelmente aconteceria na sociedade capitalista,
desencadeada pela dominação burguesa, ou seja, a revolução socialista só poderia
acontecer se a revolução burguesa acontecesse. A tese de Marx e Engels influenciou
desde o revolucionário Lenin até o sociólogo brasileiro Florestan Fernandes.

Vejamos agora o conceito de revolução empregado na América Latina. O


desenvolvimento capitalista deu-se diferentemente da Europa; nele é difícil o emprego
de revolução burguesa e proletária, já que nessa região houve o predomínio imperialista.
Para Hector Buite, o imperialismo gerou revoluções anti-imperialistas, não burguesas
ou proletárias.

Para Florestan Fernandes, revolução é um fenômeno social e político de mudanças


drásticas e rápidas na estrutura social, da qual a ordem vigente é alterada e nesse aspecto
podemos notar a diferença entre golpe e revolução, no qual muitas vezes o primeiro é
substituído de forma controvérsa pelo segundo. Um golpe de Estado acontece quando o
poder vigente é alterado, sem afetar radicalmente a estrutura da sociedade. É necessário
também que seja feita a diferenciação entre revolta e revolução. A revolta é

22
caracterizada por manifestações de insatisfação popular, não chegando a alterar a
estrutura social. A partir dessas análises podemos concluir que na América Latina
aconteceram contrarrevoluções, reformas e golpes, e não revolução.

Desse modo, o emprego do conceito de revolução só pode ser usado quando as


estruturas sociais foram de fato alteradas por uma transformação radical, pois se
empregado substituindo outro conceito, como o de golpe, podemos considerar como
uma forma de ocultação e alteração da realidade histórica.

Outro conceito que se constitui como uma categoria é o de Escravidão. Ao longo da


história, por mais que a escravidão tenha assumido traços universais, ela precisa ser
caracterizada em suas especificidades em um contexto temporal, ou seja, sua própria
historicidade. Assim, podemos perceber que mesmo os conceitos categorias têm
historicidade, ou seja, as concepções mudam ao longo do tempo. A proposta de Claude
Meillassoux é de que a escravidão, quanto ao seu modo de exploração, toma forma
quando uma classe distinta de indivíduos se perpetua pela continuidade da exploração
em um sistema social reintroduzido seja pelo comércio ou reprodução natural e que para
que ela exista é necessária uma diferença de relações entre classes. Essa definição de
Meillassoux nos leva a constatar que a escravidão mobiliza um todo econômico social e
geograficamente extenso.

A escravidão é definida através de um status jurídico. A diferença entre escravo, servo e


trabalho compulsório está no aspecto jurídico de o escravo ser uma propriedade, sendo
definido como coisa. Para David Brion Davis, o fato de o escravo ser definido como
objeto não o faz deixar de ser um homem. Aristóteles dizia que não se podia falar em
interesses partindo do escravo, pois ele não tinha faculdade deliberativa, portanto o seu
interesse é o mesmo de seu senhor, sendo isso justificado pelo aspecto de posse,
eliminando qualquer vestígio de sua humanidade.

O objetivo das sociedades nas quais a escravidão era a base das suas relações sociais era
o aspecto traçado por Aristóteles, ou seja, o ideal era aquele mais desumanizado
possível, tornado o escravo uma não pessoa. Porém, se o ideal era escravo-coisa a partir
de Meillassoux, na prática os escravos não eram utilizados como objeto, afinal eles

23
realizavam tarefas nas quais era preciso empregar a inteligência, um traço humano. A
escravidão e a identidade do escravo são aspectos diferentes em relação ao fato jurídico.
Com a expansão da fé cristã, a escravidão foi interligada ao pecado. Embora o
Cristianismo tenha pregado um tratamento mais humano aos escravos, não se
prontificou a defender ideais abolicionistas até o século XIX. Para a Igreja medieval, o
escravo era uma peça da ordenação do mundo e fazia parte da salvação divina dos
homens. Porém, apesar de a escravidão ter o caráter de pecado para a Igreja, ela
proporcionava a ele o ato do perdão divino e da salvação, igualando o escravo aos seus
senhores.

A escravidão perdeu o seu caráter de pecado a partir da Idade Moderna, dando lugar aos
interesses escravistas dos Estados europeus, onde a escravidão era considerada um
aspecto natural nas colônias. Porém, a partir do século XVII, nasceu o discurso
antiescravocrata. Pensadores como Montesquieu, considerado conservador, criticava a
escravidão julgando-a contrária às leis naturais. Com o iluminismo, o abolicionismo foi
inevitável, porém a escravidão somente deixou de existir quanto ao seu aspecto de
propriedade com o advento do capitalismo iniciado na Revolução Industrial.

2.4 Conceitos ferramenta


Embora, como já vimos, todos os conceitos sejam fundamentais para o trabalho e a
escrita do historiador para operacionalizar sua análise, há conceitos que são comuns a
todos os historiadores, independentemente de seu objeto de estudo. Esses conceitos são
como ferramentas, das quais nenhum historiador pode se furtar sem que haja prejuízo,
ou, ainda, inviabilização de seu trabalho.

Na próxima Unidade, estudaremos um deles, que é o próprio conceito de História.


Aqui, para fundamentar a análise, tomaremos como exemplo o conceito de Teoria.

A Teoria da História é um dos campos de estudo mais importantes da área. Para


compreender a sua dimensão é necessário, no entanto, recorrer ao conceito de Teoria.

24
“A mais simples definição de Teoria diz que ela é um conjunto organizado de princípios
e regras para explicar uma série de fatos, na verdade, para explicar o mundo” (SILVA, e
SILVA, 2006, p. 394). O estudo do conceito de teoria envolve a Filosofia, a Política e a
História, pois, como vimos, todos os conceitos, inclusive os operacionais como este,
têm historicidade.

No campo da Filosofia, a Teoria do Conhecimento tornou-se uma disciplina específica


da Filosofia somente com os filósofos modernos, no século XVII. John Locke foi o
iniciador da teoria do conhecimento propriamente dita porque se propôs a analisar cada
uma das formas de conhecimento que possuímos, a origem de nossas ideias e nossos
discursos, a finalidade das teorias e as capacidades do sujeito cognoscente relacionadas
com os objetos que ele pode conhecer. A Teoria do Conhecimento abrange: 1) a
verdade, 2) a percepção, 3) a memória, 4) a imaginação, 5) a linguagem, 6) o
pensamento 7) a consciência. Hoje, a Teoria do conhecimento é definida como a
disciplina filosófica que investiga as condições e problemas decorrentes da relação entre
sujeito e objeto do conhecimento.

A Teoria da História engloba a Filosofia da História e tem por premissa compreender


e estudar os conceitos fundamentais da História, o processo de definição do campo do
conhecimento histórico e as tendências da historiografia.

2.5 Síntese da Unidade


Como vimos, há diferentes tipos de conceitos históricos, embora haja também estreita
relação entre eles. Perceber as diferenças e as semelhanças e, mais do que isso,
compreender as especificidades dos conceitos, ou das ferramentas, auxilia o historiador
na aplicação dos conceitos e, consequentemente, na análise dos fatos e processos
históricos.

25
2.6 Para saber mais
Filmes

Danton, o Processo da Revolução. 1982. Direção: Andrzej Wajda.

Esse filme foca a situação da França quatro anos após a Revolução Francesa. A
economia está totalmente abalada e cada cidadão é um suspeito em potencial, podendo
ser sumariamente guilhotinado. Instala-se um cenário de medo e de tensão, agravado
pela fome. Os mesmos revolucionários, que tinham proclamado a Declaração dos
Direitos do Homem, implantam o Reino do Terror. Há uma espécie de radicalização da
Revolução liderada por Robespierre que inicia um processo político baseado em
manipulação de julgamentos, finalizados com a guilhotina. Danton, um dos líderes
revolucionários, critica os rumos do movimento e acaba por tornar-se uma vítima da
Revolução. Enquanto Danton tem o apoio do povo, Robespierre tem o poder. Os seus
ideais contraditórios dão inicio a um complexo processo político retratado neste filme.

Vatel – Um Banquete para o Rei (Vatel) (2000) Direção: Roland Joffe

O filme retrata o período em o rei Luís XIV, o Rei Sol, um dos ícones do Absolutismo
francês, governava Versailles. Em 1671, no oeste da França, uma província está a beira
da ruína. O Príncipe da província convida o rei para seu castelo no campo e um fim de
semana de festas. O sucesso dos planos de reconquista da simpatia de Luís XIV
depende do talento de Vatel, o homem que pode oferecer uma gastronomia suntuosa e o
entretenimento para o rei.

Amistad, 1997. Direção: Steven Spielberg

Em 1839, dezenas de africanos a bordo do navio negreiro espanhol La Amistad matam a


maior parte da tripulação e obrigam os sobreviventes a levá-los de volta à África.
Porém, desembarcam na costa leste dos Estados Unidos, sendo acusados de assassinos e
presos, iniciando um longo e polêmico processo. O período no qual se passa o filme é
marcado pelas divergências entre o abolicionismo e a escravidão, caracterizando o
início da Guerra de Secessão.

26
Quilombo, 1984. Direção: Carlos Diegues

No século XVII, numa região de difícil acesso denominada Palmares, em Pernambuco,


escravos fugidos das plantações canavieiras constroem o Quilombo de Palmares. Este,
liderado por Zumbi, torna-se a maior forma de resistência negra perante a escravidão na
região.Por Palmares simbolizar a liberdade, tornou-se, na época, uma atração constante
para novas fugas de escravos. Por sua organização social e política constituiu-se em
uma sociedade onde prevalecia o negro, em um país de brancos. Palmares sobreviveu
por 70 anos.

Livros

Pensando a Revolução Francesa. 1989, de François Furet

A obra é composta de duas partes: a primeira é uma síntese sobre como pensar um
evento como a Revolução Francesa e a segunda uma apresentação das etapas da
pesquisa realizada pelo autor focada no estudo das obras de dois historiadores franceses:
Aléxis de Tocqueville e Augustin Cochin. Furet é um crítico contumaz da historiografia
clássica da Revolução Francesa, principalmente as fundamentadas na perspectiva
marxista. Refuta nesta obra ideias cristalizadas em relação à Revolução Francesa, como
por exemplo a que a classifica como uma revolução burguesa, apresentando uma
apurada análise crítica dessas ideias. Após desconstruir explicações clássicas, propõe
nesta obra um outro modelo explicativo para o estudo deste fenômeno revolucionário
francês.

Linhagens do Estado Absolutista. 1965, de Perry Anderson

Nesta obra, que se tornou uma referência sobre o assunto, o autor defende a tese de que
para compreender a passagem do feudalismo para o capitalismo na Europa é necessário
compreender a natureza social do absolutismo. Além disso, para ele, o Absolutismo é o
cerne da discussão acerca dos regimes políticos e da diferenciação entre eles. A partir de
uma perspectiva de comparação entre o Estado Absolutista da Europa Ocidental e da
Oriental, Anderson demonstra que durante os séculos XIV e XV, que foi um período de
crise no modo de produção feudal, houve a ruptura com a soberania piramidal que viria

27
a viabilizar o surgimento do Estado absolutista no Ocidente. As monarquias absolutas
introduziram os exércitos regulares, uma burocracia permanente, o sistema tributário
nacional, a codificação do direito e os primórdios de um mercado unificado. O autor
discute também o caráter político do absolutismo e a situação da nobreza nesse regime
político.

2.7 Atividades
1. Você compreendeu a diferença entre os tipos de conceitos? Para consolidar a
compreensão estude o conceito histórico de Feudalismo, nos moldes em que
estudamos o de Revolução Francesa, e o conceito categoria de Imaginário. Você
poderá perceber que cada sociedade projetou um imaginário diferente (Eldorado,
por exemplo), mas que havia traços em comum.

28
Unidade 3
Unidade 3 . O conceito de História

Nesta Unidade, vamos estudar particularmente o conceito de História, pois História


também é um conceito, além de designar uma disciplina e uma área do conhecimento.

3.1 O termo História


Como vimos nas Unidades anteriores, o conceito é formado, em primeiro lugar, por um
termo. Como nos lembra Marc Bloch (2001, p. 85), “A palavra História é uma palavra
velhíssima.” A palavra surgiu há mais de dois mil anos. Registra-se que surgiu na
Grécia, pois é um termo grego. O historiador Jean Glenisson se dedicou a analisar o que
chamou de “o conteúdo do termo História”, ou seja, as mudanças e sentidos que o termo
foi ganhando ao longo do tempo. Como vimos na Unidade 1, apesar dessas mudanças
manteve-se o termo.

Originalmente, em grego o termo História significa aquele que sabe, testemunho, com o
sentido de busca, de pesquisa.

O grego Heródoto, considerado como “o pai da História” descreveu, em sua obra


intitulada Histórias, as Guerras Médicas, entre gregos e persas. A obra foi reconhecida
como uma forma de literatura, devido ao seu teor narrativo.

É verdade que antes dele outros gregos haviam se dedicado a escrever para registrar
aspectos do presente e do passado, mas parece ter sido Heródoto o primeiro a considerar
a História como um problema filosófico ou uma ação que poderia revelar conhecimento
sobre o comportamento humano. Desse modo, o termo que utilizou para intitular sua
obra, Historie, que significava, como vimos, "pesquisa", tomou a conotação atual de
"História".

29
Heródoto (484 a.C.-420 a.C.). Historiador grego
considerado precursor dos historiadores, pois foi o
autor da primeira grande narrativa histórica do
mundo ocidental antigo. Cícero talvez tenha sido o
primeiro a chamá-lo de pai da história. Nasceu,
provavelmente, em Halicarnasso, cidade grega da
Ásia Menor, hoje Bodrum, na Turquia. Viajou
muito, conheceu o Egito, a Líbia, a Síria, a
Babilônia, a Lídia e a Frígia. Foi exilado de
Halicarnasso e não se sabe ao certo onde morreu.

Como outros aspectos culturais, Roma toma da


Grécia o termo História. Entretanto há já nesse
momento uma mudança do seu sentido, pois os
Figura 3.1- Heródoto romanos, como afirma Jean Glenisson, procuram
Fonte:http://www.flickr.com/phot
os. distinguir a História da lenda e, assim, o sentido da
Acesso em 13 jun. 2011 palavra tende a se restringir.

Do termo História, com o sentido que conhecemos hoje, derivaram outros termos:
histórico, historicidade, historiador.

É necessário ainda estudar a ambivalência do termo História. Ele designa ao mesmo


tempo duas coisas distintas: “A história como realidade na qual o homem está inserido e
o conhecimento e registro das situações e sucessos que assinalam e manifestam essa
inserção” (AROSTEGUI, 2006, p.28). Em outras palavras, o termo História designa a
realidade, os fatos, o vivido, que recebe a designação em latim de res gestae; e a
ciência, a área do conhecimento, a rerum gestarum. Durante algum tempo,
influenciados pela tradição pragmatista dos Estados Unidos, utilizou-se o termo Estória
para designar as narrativas dos fatos e a ficção. Hoje, abandonou-se essa distinção por
considerar-se que não há efetivamente uma distinção, pois a Literatura narra fatos que
aconteceram ou que realmente poderiam acontecer e a História, por sua vez, tem um
caráter inegavelmente narrativo, reconhecido por grande parte dos historiadores.

O problema terminológico vem assim, de muito tempo: a palavra História


designa, para dizê-lo de alguma forma, um conjunto ordenado de fatos
históricos, mas designa também o processo das operações científicas que
revelam e estudam tais fatos. Que a mesma palavra designa objeto e ciência

30 pode parecer uma questão menor, mas na realidade acaba por ser embaraçosa
e abre espaço a dificuldades reais de ordem epistemológica. Daí o fato de que
se tenha também ensaiado prontamente a adoção de um termo específico que
designasse a pesquisa da História (AROSTEGUI, 2006, p. 29).

Dessa citação de Júlio Arostegui podemos analisar dois aspectos: o primeiro é que a
terminologia não é uma questão menor e, portanto, que possa ser desconsiderada, pois,
como já vimos, tem consequências. Esse termo específico ao qual ele faz alusão é o
termo Historiografia. Esse é outro termo e conceito da História bastante específico e
complexo, mas que guarda estreitas relações com a problemática do termo História.

Mas afinal, o que é História? Essa é uma questão quase tão antiga quanto o próprio
homem. Desde que o homem começou a registrar seus feitos e começou a se perceber
como sujeito histórico, ou seja, como um ser que promove ações e que é envolvido
numa sequência de ações ao longo do tempo, começou a fazer questões sobre os
motivos de sua existência.

3.2 Definições de História


Para o historiador Jean Glenisson, as definições de História mudam de acordo com o
contexto histórico, com as referências e preocupações dos historiadores. Portanto, não
há uma definição absoluta de História, apesar de designar uma ciência e, assim, haver a
necessidade de uma certa estabilidade.

O historiador francês Lucien Febvre afirma que “Não há história, há historiadores”.


Devemos resignar-nos às incertezas da História, ou seja, de uma disciplina em plena
evolução sempre em busca de seu caminho, empenhada nesta busca, enquanto houver
historiadores na terra.

Hoje há pelo menos um consenso: o de que a História é uma ciência. Essa é uma
definição que parece hoje inquestionável, no entanto não é completa. Ciência do quê?
Para Marc Bloch (1886-1944), “A História é a ciência dos homens no tempo”. Bloch
chegou a essa definição na década de 1940, após o empenho realizado pelos
historiadores positivistas em conquistar para a História o status de ciência, mas para
eles era uma ciência do passado, como afirma o historiador alemão Leopold Von Ranke
31
(1795-1886): “A história atribuiu a si mesma a função de julgar o passado e de instruir
as narrativas em benefício das gerações futuras”.

Mesmo sendo contemporâneo a Marc Bloch e compartilhar com ele muitas ideias e
posicionamentos com relação à História, para Lucien Febvre o foco seria o homem:
“História, ciência do Homem, ciência do passado humano. E não, de modo algum,
ciência das coisas, ou dos conceitos. As ideias, fora dos homens que as professam? As
ideias, simples elementos entre muitos outros dessa bagagem mental feita de
influências, de lembranças, de leituras e de conversas, que cada um de nós transporta
consigo? As instituições, separadas dos que as fazem e que, embora respeitando-as, as
modificam sem cessar? Não. No sentido mais lato, não há História a não ser a do
Homem”.

Para R. G. Collingwood (1889-1943), é “uma ciência cuja ocupação é estudar eventos


não alcançáveis por nossa observação, e estudá-los conclusivamente, fundamentando-os
com alguma coisa a mais que nossa observação possa alcançar, ao que o historiador
refere-se como “evidência” para os eventos nos quais ele está interessado” (2006).

3.3 Síntese da Unidade


Nessa Unidade, estudamos especificamente o conceito de História e vimos que não há
uma única definição porque, além do fato de que os conceitos mudam de acordo com o
tempo e com o contexto, nesse caso há o papel dos historiadores e a própria vocação da
História em refletir sobre a definição dos conceitos, inclusive o seu próprio.

32
3.4 Para saber mais
Livros

Que é História. Edwaer Hallet Carr.

A obra composta por ensaios e conferências, do historiador e historiógrafo inglês E.


Carr, provocou grande polêmica ao tentar responder a questão primordial do campo. O
autor propõe uma resposta acusada de ser relativista por seus críticos.

Sites

www.s2.anpuh.org

No site da Associação Nacional de História-ANPUH é possível encontrar discussões


teóricas acerca da definição de História, da função do historiador e da profissionalização
do historiador no Brasil.

3.5 Atividades

1. O que é História? De acordo com Jean Glenisson, a História não é, ela se faz ao
longo do tempo. Com base nessa proposição, discorra sobre a discussão acerca da
definição de História.

33
34
Unidade 4
Unidade 4 . O conceito de História

Nesta Unidade, optamos por selecionar alguns dos conceitos fundamentais da História
para realizar um estudo verticalizado, na impossibilidade de trabalhar todos os conceitos
mobilizados pelos historiadores.

4.1 Tempo: o conceito fundamental


Tempo é provavelmente o conceito mais fundamental da História. Durante alguns
séculos, a História foi identificada como o estudo do passado, uma dimensão do tempo.
O tempo, junto com o espaço, o homem, os fatos e a Filosofia, constituem os cinco
pilares que criam as condições de existência da História, considerados, portanto, os
pilares epistemológicos da História. Hoje, de acordo com Marc Bloch, deve-se ampliar
essa definição, como vimos, para “ciência dos homens no tempo”, pois a História não
diz respeito somente ao passado; ela é escrita no presente e será legada ao futuro. Como
afirmou Fernand Braudel, numa frase que ficou muito conhecida entre os historiadores:
“O passado e o presente elucidam-se reciprocamente. Portanto, a história diz respeito ao
presente tanto quanto diz respeito ao passado”.

Além de o Tempo ser um dos pilares epistemológicos da História, há outras dimensões


da relação entre Tempo e História: o Tempo na História, o Tempo da História, a
História do Tempo, a História no Tempo.

A primeira delas se refere à percepção de que a própria noção de tempo também tem
uma historicidade, ou seja, como já vimos, os conceitos mudam; o de Tempo não é
diferente. A Historicidade do pensamento antigo: o Tempo Mítico (sagrado profano). A
concepção Judaico-Cristã do tempo e da História se estrutura a partir do
estabelecimento do cristianismo como a religião histórica, pois o advento do
35
cristianismo marca um ponto zero a partir do qual a História teria um novo início.
Promove a historicização do tempo profético e a explicitação do devir histórico sob o
paradigma dos pressupostos dogmáticos do cristianismo, como a Santíssima Trindade.

O tempo na História pode ser percebido como ritmo de organização da vida coletiva,
ordenando e sequenciando, cotidianamente, as ações individuais e sociais. Por exemplo,
os camponeses organizam suas ações a partir do "tempo de natureza", ou seja, o tempo
que dura uma estação, o tempo que demora para que possa ser feita uma colheita, o
tempo de gestação dos animais, etc. Já os operários se organizam pelo "tempo da
fábrica": o tempo entre uma refeição e outra, o tempo padronizado, o tempo ordenado
por apitos. Desse modo, o tempo é um elemento cultural, pois estabelece ritmos para as
atividades humanas, de acordo com convenções coletivas.

A memória, conceito que veremos a seguir, representa a dimensão psicológica do


tempo, pois promove a recordação de um tempo revivido por meio de seleção. Pierre
Nora afirma que os meios de comunicação promovem a aceleração do tempo; a perda de
identidade e necessidade de criação de "santuários de memória”.

Já o historiador inglês Eric Hobsbawm afirma que o século XX foi breve. Isso não
significa que o século teve efetivamente, cronologicamente falando, menos que cem
anos, mas que as mudanças operadas foram tão intensas e os fatos tantos, as máquinas
causaram tanto impacto no seu início, que psicologicamente parece que o século passou
muito rápido.

No estudo da História, o tempo engloba uma complexidade que se fundamenta nas


abrangências no campo da realidade natural e física e nas criações culturais humanas,
concepções e produtos múltiplos sobre a concepção de tempo. Para o estudo da História,
a noção de tempo é fundamental, mas a própria noção de tempo tem uma complexidade
filosófica que se estende ao campo da História. O que é o tempo? Não podemos ver o
tempo, só podemos ver a sua passagem pelos vestígios e marcas nas pessoas e nos
objetos. O tempo tem uma caracterização abstrata difícil de ser compreendida.

O tempo da História, ou o tempo histórico, é diferente do tempo cronológico, medido

36 pelo relógio e pelos calendários. O tempo histórico opera como uma condição para a
existência dos fatos. O calendário é o resultado de um compartilhamento coletivo de
uma mesma referência, promove uma ordenação e construção cultural do tempo que
varia de acordo com a cultura. Por exemplo, na cultura ocidental cristã, o calendário
adotado é o gregoriano. Assim, o calendário representa uma possibilidade de referência
para localização dos acontecimentos em relação uns aos outros e a sua ordem. Então, a
História usa o calendário para estabelecer a cronologia dos fatos.

Mas, além do calendário, o tempo histórico opera também com a noção de duração.
Duração pode ser definida como a dimensão do tempo a partir da identificação de
mudanças e de permanências no modo de vida das sociedades. Há três diferentes
dimensões de tempo com relação à sua duração: curta, média ou longa.

O tempo da História é o tempo dos seres humanos organizados em sociedade, tempo da


realidade social. Assim, o tempo dos historiadores alcança três dimensões: o tempo
organizado como sequência (cronologia); o tempo organizado como lugar onde se
desenrola (espaço); e o tempo organizado pelas transformações ou jogo de combinações
(intensidade). Para Braudel: "o historiador não sai jamais do tempo da história: esse
tempo agarra-se ao seu pensamento, como a terra à enxada”.

A Ecole des Annales, movimento historiográfico, sobre o qual já falamos, postula tipos
de temporalidade que se definem pela cronologia e pela forma como a análise histórica

Fernand Braudel (1902-1985) é realizada: a longa duração das estruturas, a média


historiador francês e um dos mais duração da conjuntura e a curta duração dos
importantes representantes da
chamada “Escola dos Annales". acontecimentos.
Formado em História na
Universidade de Sorbonne, começou
sua carreira profissional na Argélia, O conceito de longa duração, diretamente
onde permaneceu entre 1923 e 1932. relacionado ao de tempo, foi estruturado pelo
Entre 1935 e 1937 esteve no Brasil,
junto com um grupo de intelectuais historiador francês Fernand Braudel. Esse conceito
franceses, para colaborar na
contribuiu para a disseminação da percepção da
organização da Universidade de São
Paulo. Durante a Segunda Guerra História como um processo. A noção de longa
Mundial foi prisioneiro dos nazistas.
Em 1947 finalizou a obra O duração se baseia nas estruturas mentais e
Mediterrâneo, publicada em 1949. representações coletivas. Evoca a percepção do
Nesse mesmo ano se tornou professor
do “Collège de France” tempo do modo subjetivo, classificado como

37
cultural, ou seja, a diversidade de formas como em distintas épocas as sociedades
conceberam a própria temporalidade.

Por fim, a periodização, ou o recorte temporal, ou ainda a baliza cronológica, é a


condição essencial e primordial do trabalho do historiador. “Todo o trabalho histórico
decompõe o tempo passado e escolhe suas realidades cronológicas. Segundo
preferências e exclusões mais ou menos conscientes.” (BRAUDEL, p. 9). Essa
operação se constitui em determinar o início e o fim do período e/ou fato a ser
analisado. Mesmo se afastando da concepção linear do tempo, o historiador deve
organizar e delimitar seu trabalho por marcos que contém no seu cerne a ideia de
temporalidade.

4.2 Memória: o conceito desdobrado


Só a partir da década de 70 é que a memória começou a ser estudada pelos historiadores
da Nova História, ou seja, a terceira geração da École des Annales, responsáveis por
uma revolução na História. Para os Annales, o fato deve estudado sob diferentes
ângulos, e um dos recursos utilizados para a percepção dos acontecimentos é a
memória.

O conceito de tempo está intrinsecamente ligado ao de memória, e a História existe,


também, para registrá-la, tornando-se assim a memória um dos alicerces da História.
Apesar de serem distintas, estão correlacionadas. Segundo Antonio Montenegro, apesar
de haver uma distinção entre memória e História, são também totalmente ligadas, pois
se a História é a construção que busca o passado de uma abordagem social é também
um processo que encontra paralelos por meio da memória.

A memória é o que os homens guardam de seu passado, evitando que o tempo passado
caia no esquecimento. A memória constitui o que é remetido na maior parte das vezes à
lembrança, construindo ao mesmo tempo sua identidade; é o que faz o passado diferente
do presente. Já a História é o registro da memória coletiva, é uma atualização do

38
passado trazido pela memória que é registrado e integrado. A história traz o passado
para o presente.

Para o historiador Pierre Nora, a memória e a História têm pontos fundamentais de


diferença. Para ele, a memória só existe enquanto um grupo ainda existe e traz com ele
as lembranças e tradições; a partir do momento em que esse grupo já não existe mais ou
não pratica a tradição7, a memória deixa de existir e torna-se História, como registro.

A memória tornou-se um objeto de estudo para a História, sendo uma fonte capaz de
preencher fatos, completando o quebra-cabeça; e o campo principal utilizado pelos
historiadores para trabalhá-la é a História Oral.

Os estudos nesse campo não se dão apenas através da memória individual, mas também
sobre a memória coletiva. A memória coletiva nada mais é do que as lembranças
vividas ou repassadas, que podem ser consideradas como tradição de um grupo, tendo
características específicas, entre elas o cotidiano, idealizando o passado. É também
baseada na identidade de um grupo, dos quais fazem uma simplificação do tempo em
“hoje em dia”, “antigamente”, sendo resgatada em fotos, monumentos, datas e
comemorações. O esquecimento também faz parte dos estudos em memória, pois é
considerado um aspecto para compreensão da identidade de um grupo, mostrando a
vontade de ocultação de determinados fatos, o que muitas vezes é um ato voluntário.

Para Jacques Le Goff, a memória coletiva não é apenas uma conquista, mas também um
instrumento e objeto de poder; afinal, saímos apenas de uma história da memória
coletiva seleta, que consta na historiografia, e entramos em uma história que se junta a
uma nação.

4.3 Cultura: um conceito atual


Classificamos cultura como um conceito atual porque hoje o debate sobre sua definição
e suas aplicações tem sido polemizado, e não porque seja realmente um conceito novo.

39
É necessário, em primeiro lugar, desconstruir o conceito de cultura, percebendo a sua
historicidade. O tema da cultura é amplamente abordado; pode-se mesmo dizer que não
há nenhum ramo das ciências do homem que o dispense. A Antropologia Cultural, a
Sociologia, a História, a Geografia, a Linguística, a Crítica Literária, etc, colocam-no
como central em suas atividades e pretensões.

Podemos apontar que uma das dificuldades de conceituação é justamente devido à sua
abrangência e à sua interface com outros componentes da vida social. Além disso, a sua
aparente banalidade também obstaculiza a sua conceituação.

Somam-se, também, às dificuldades conceituais, uma variação enorme de adjetivações


que, por certo, se dão no sentido de solidificar a referenciação aos objetos que
designam. Expressões como “cultura primitiva”, “cultura erudita”, “cultura popular”,
“cultura de massas”, “cultura original”, “cultura brega”, “cultura da violência”, “cultura
religiosa”, “cultura da resistência”, “cultura do conformismo” etc., são adjetivações que
podem ser percebidas com um sentido autoritário, pois separam, fragmentam,
classificam e outorgam valores e significados diferenciados aos entes sociais, às vezes
separando os “cultos” dos “incultos”.

Com relação à historicidade do conceito de Cultura, precisamos examinar alguns


sentidos cristalizados ao longo do tempo e que hoje fazem parte do senso comum.

Cultura é um termo amplamente empregado para designar padrão ideal de manifestação


humana. Dizemos “Fulano é culto”, com reverência ante à cultura que fulano tem. Tem,
no sentido de posse, como se a cultura fosse algo passível de ser adquirido. Sabemos
que, se simplesmente comprarmos um livro e o colocarmos na prateleira da estante, não
estaremos adquirindo cultura, é preciso ler o livro para entrar em contato com
referenciais culturais ampliando as nossas referências.

Roberto Damatta (1999) aponta para uma dualidade no conceito de cultura. Sobre a
Cultura com “c” maiúsculo:

na visão corrente - a dos suplementos literários e das revistas semanais


- a "Cultura" com "c" maiúsculo engloba a "cultura" como estilo de vida.
Dessa perspectiva, haveria um padrão ideal de manifestação artística, literária

40
e dramática dentro do qual caberiam todos os outros costumes e
manifestações humanas. Os grandes artistas do Ocidente seriam o ponto para
onde tenderiam todas as outras expressões intelectuais e emocionais. Essa é
uma maneira linear e englobante de falar de "cultura". Um jeito que
obviamente limita a problemática da diversidade e da equivalência de outros
valores e formas simbólicas. Nesse sentido preciso, a "Cultura" canibaliza as
"culturas", fechando espaços para manifestações locais e singulares, quase
sempre lidas como "atrasadas", "ingênuas", "primitivas" e, naturalmente,
"desinformadas", "elementares" e "subdesenvolvidas.

Em contraposição, a cultura com "c" minúsculo:

é a palavra central do vocabulário romântico, um vocabulário centrado não


nos contratualistas ingleses, mas nos holistas alemães e, em seguida, na
tradição antropológica contemporânea. Uma tradição que tem insistido em
compreender o distante e respeitar o diferente, estando interessada no
desvendamento de instituições exóticas e "primitivas” [...]

Assim, para Roberto Damatta, a grande descoberta antropológica é que todo mundo tem
"cultura”.

A partir dessa discussão podemos pensar sobre um ramo da História chamado de


História Cultural.

A História Cultural surgiu de modo sistematizado na terceira geração da École des


Annales. Nas décadas de 60 e 70 do século XX, um grupo de historiadores começou a
se interessar por outros objetos da História. A mudança da base econômica para a
“superestrutura” cultural foi definida por Michel Vovelle, como um movimento “do
porão ao sótão”. Na verdade, a História cultural não propõe novos objetos, mas novas
formas de olhar os objetos.

Para Roger Chartier, cultura promove a articulação entre o sujeito, o “eu”, e a coisa
analisada. Rompe com o par de oposição entre dominante e dominado, pois todos
partilham de referenciais comuns, visto que a representação é socialmente construída.

Enfim, esse é um conceito que ainda renderá muita discussão no campo da História.

41
4.4 Síntese da Unidade
Nesta Unidade, estudamos três conceitos. O primeiro deles, o tempo, é um conceito
fundamental para a História, pois constitui um de seus pilares epistemológicos. O
segundo, a memória, é também fundamental, pois a História vincula-se a ele de modo
intrínseco. Por fim, examinamos o conceito de cultura que vem sendo hoje em dia muito
debatido no campo.

4.5 Para saber mais


Filmes

Amnésia (Memento) (2000), Christopher Nolan. O filme baseia-se na sobrevivência e


vingança de um homem que possui uma doença que não lhe permite gravar na memória
fatos recentes, o que faz com que ele esqueça por completo o que aconteceu poucos
instantes antes. Para que se lembre dos últimos acontecimentos que o guiam na
execução da sua vingança, o personagem principal cria meios que registrem os fatos
ocorridos para que não caiam no esquecimento e o impeçam de dar continuidade aos
seus planos.

Livros

Dialética da colonização (1992) de Alfredo Bosi. Nesta obra há dois capítulos


especificamente sobre cultura: o primeiro e o último. Bosi apresenta uma análise da
cultura brasileira e do conceito concernente à forma de gestação e de desenvolvimento
da sociedade brasileira. Para Bosi, é inconcebível pensar a cultura brasileira fora do
processo de colonização sofrido pelo país. Para o autor, a formação cultural se dá pela
via dialética entre cultura hegemônica e cultura popular. Com relação à caracterização
da cultura brasileira, Bosi propõe ressaltar alguns polos culturais nitidamente afastados,
tais como Academia e Folclore, Cultura criadora e Cultura de massas – dualismos:
Academia e Folclore; Cultura criadora (intelectuais fora das Academias) e Cultura de
massas (chamada de indústria cultural ou cultura de consumo).

42
4.6 Atividades

1. Sobre o conceito de Memória, identifique o tipo de conceito que é e explique por


que se diz que “a História é o registro da Memória coletiva” e por que “A
memória é o que confere sentido ao passado como diferente do presente”.

2. Reflita sobre a dualidade do conceito de cultura e sobre suas implicações teóricas


e sociais.

43
44
Referências

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