Você está na página 1de 21

ABORDAGENS PEDAGÓGICAS

NO ENSINO DA EDUCAÇÃO
FÍSICA PÓS DÉCADA DE 1970

Caderno Temático

TAPEJARA
2008
Estrutura Organizacional
GOVERNO DO ESTADO DO PARANÁ
SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO DO PARANÁ
NÚCLEO REGIONAL DA EDUCAÇÃO DE CIANORTE
PROGRAMA DE DESENVOLVIMENTO EDUCACIONAL

Autoria
MARIA CRISTINA DE FREITAS
(AUTORA E ORGANIZADORA)
IEDA PARRA BARBOSA RINALDI
(ORIENTADORA)

Área de Atuação
EDUCAÇÃO FÍSICA

TAPEJARA
2008

1
Sumário

APRESENTAÇÃO ............................................................................................. 3

INTRODUÇÃO .................................................................................................. 4

TEXTO 1 – ABORDAGEM DESENVOLVIMENTISTA ..................................... 4

TEXTO 2 – ABORDAGEM CONSTRUTIVISTA ............................................... 5

TEXTO 3 – ABORDAGEM DE ENSINO ABERTO ........................................... 7

TEXTO 4 – ABORDAGEM SISTÊMICA ........................................................... 8

TEXTO 5 – ABORDAGEM CRÍTICO-EMANCIPATÓRIA ................................ 9

TEXTO 6 – ABORDAGEM PLURAL ................................................................ 13

TEXTO 7 – ABORDAGEM CRÍTICO-SUPERADORA ..................................... 13

CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................................. 18

REFERÊNCIAS ................................................................................................. 19

2
Apresentação

Este caderno temático é resultado de um trabalho realizado no Programa de


Desenvolvimento Educacional – PDE, uma iniciativa inovadora de formação
continuada e valorização de professores, que possibilitou diálogos entre docentes da
Educação Superior e da Educação Básica, que resultaram em ações. Dentre essas
ações, apresentamos um trabalho que não deve ser interpretado como um manual,
mas como um passo inicial de aprofundamento teórico do tema abordado. Por isso,
ao produzir esse caderno temático esperamos colaborar para uma Educação Física
que privilegie a cultura corporal de modo a contribuir para a formação de alunos,
sujeitos sociais capazes de reconhecer o próprio corpo, autônomos e com uma
expressividade consciente.

* MARIA CRISTINA DE FREITAS

* Graduada em Educação Física e Pedagogia. Especialista em Educação a Distância.


Professora da Rede Estadual de Educação. Experiência profissional nas áreas de Educação
Física e orientação acadêmica na modalidade de Educação a Distância.

3
I N T R OD U Ç Ã O A abordagem desenvolvimentista
tem em Tani seu principal defensor em
A partir da década de 1970, seus trabalhos de 1987 e 1988 com
segundo Brasil (1998) surgiram colaboradores.
novos movimentos na Educação A obra mais representativa dessa
Física escolar, em oposição aos abordagem é “Educação Física
modelos tecnicista, esportivista e escolar: fundamentos de uma
biologista, inspirados no momento abordagem desenvolvimentista”. Como
histórico social pelo qual passou o destaca
país, nas novas tendências da Daolio
educação de maneira geral, além de (2007) essa
questões específicas da própria obra, foi
Educação Física. publicada
Atualmente coexistem na área em 1988
várias abordagens do ensino de por um
Educação Física, todas elas tendo coletivo
em comum a tentativa de romper de
com o modelo anterior, fruto do autores
esforço de estudiosos pós década composto
de 1980. Essas abordagens resultam pelo próprio Go Tani,
da articulação de diferentes teorias Edison de Jesus Manuel, Eduardo
psicológicas, sociológicas e Kokubun e José Elias de Proença.
concepções filosóficas. Todas essas A abordagem desenvolvimentista
correntes têm ampliado os campos para Tani et al. (1988) é uma proposta
de ação e reflexão para a área, o dirigida especificamente para crianças
que a aproxima das ciências de quatro a quatorze anos que busca
humanas. Embora contenham nos processos de aprendizagem e
enfoques diferenciados entre si, com desenvolvimento uma fundamentação
pontos por vezes divergentes, para a Educação Física escolar. É
muitas têm em comum a busca de uma tentativa de caracterizar a
uma Educação Física que articule as progressão normal do crescimento
múltiplas dimensões do ser humano físico, do desenvolvimento fisiológico,
(BRASIL, 1998), cuja idéia motor, cognitivo e afetivo-social, na
ultrapasse a visão de que o corpo se aprendizagem motora e, em função
restringe ao biológico, ao destas características, sugerir
mensurável. aspectos ou elementos relevantes
Mesmo contando com várias para a estruturação da Educação
abordagens para o ensino da Física escolar.
Educação Física esse caderno As principais bases para os
temático limitou-se às seguintes estudos dessa abordagem provêm dos
abordagens pedagógicas: trabalhos de Gallahue e Connoly, que
desenvolvimentista, construtivista, apresentam um vasto estudo sobre os
ensino aberto, sistêmica, crítico- aspectos de desenvolvimento e
emancipatória, plural e crítico- aprendizagem motora da criança.
superadora. A abordagem desenvolvimentista
tem a psicologia do desenvolvimento e
Texto 1 da aprendizagem como base teórica.
O principal objetivo é o oferecimento
de experiências de movimentos
ABORDAGEM
DESENVOLVIMENTISTA
4
adequadas ao nível de desenvolvimento motor, uma vez que
crescimento e desenvolvimento. todas as crianças passam pelas
mesmas fases de desenvolvimento,
[...] a sua idéia central é podendo haver variações na
oferecer a criança [...] velocidade do processo.
oportunidade de experiências Nesse sentido, Tani et al. (1988)
de movimento de modo a diz que se existe uma seqüência
garantir o seu desenvolvimento normal nos processo de crescimento,
normal, portanto, de modo a
de desenvolvimento e de
atender essa criança em suas
necessidades de movimento aprendizagem motora, isto significa
[...] (BRACHT, 1999, p. 78). que as crianças necessitam ser
orientadas de acordo com estas
Nessa abordagem é defendida a características, visto que, só assim, as
idéia de que o movimento é o principal suas reais necessidades e
meio e fim da Educação Física. Além expectativas serão alcançadas. A não
disso, três aspectos relacionados ao observância destas características
conhecimento do crescimento, conduz, freqüentemente, ao
desenvolvimento e aprendizagem da estabelecimento de objetivos, métodos
criança são de suma importância. e conteúdos de ensino inapropriados.
Em conseqüência, queda de
[...] em primeiro lugar, o motivação e perda de interesse pela
estabelecimento de objetivos, Educação Física.
conteúdos e métodos de Com isso, percebe-se que a
ensino coerentes com as Educação Física, como destaca Daolio
características de cada criança; (2007) trataria do estudo e da
em segundo lugar, a aplicação do movimento; as aulas de
observação e a avaliação mais Educação Física deveriam propiciar
apropriada dos
condições para a aprendizagem de
comportamentos de cada
indivíduo, permitindo um movimentos dentro de padrões
melhor acompanhamento das sugeridos pelas fases determinadas
mudanças que ocorrem e, biologicamente; os conteúdos de
finalmente, a interpretação do ensino seriam definidos com base nos
real significado do movimento conhecimentos sobre processos de
dentro do ciclo de vida do ser crescimento, desenvolvimento e
humano (TANI et al., 1988, p. aprendizagem motora; haveria relação
2). direta entre as fases normais do
desenvolvimento infantil e as tarefas
Daolio (2007) corrabora propostas às crianças.
destacando que nessa abordagem, a A avaliação, nessa abordagem,
Educação Física escolar propicia à dá-se por meio de observações, do
criança a aquisição de habilidades processo de aprendizagem motora e
motoras básicas, a fim de que seja estabelecimentos de padrões
facilitada a ela a aprendizagem fundamentais do movimento.
posterior das habilidades consideradas
complexas. A definição dos conteúdos Texto 2
a serem desenvolvidos e das
estratégias de ensino a serem ABORDAGEM CONSTRUTIVISTA
utilizadas vai depender justamente dos
indicativos oriundos dos processos A abordagem construtivista,
biológicos de crescimento e segundo Bracht (1999) exerceu grande

5
influência na Educação Física criatividade [...] (DAOLIO,
brasileira nos anos 1970 e 1980. 2007, p. 23).
Seu principal representante no
Brasil é Freire com a obra Nessa abordagem o jogo como
“Educação de conteúdo/estratégia tem papel
corpo inteiro: privilegiado. É considerado o principal
teoria e modo de ensinar, é um instrumento
prática da pedagógico, um meio de ensino, pois
Educação enquanto joga ou brinca a criança
Física”, aprende (DARIDO, 2001).
publicada
em 1989. [...] é preciso entender que as
No habilidades motoras,
entanto, desenvolvidas num contexto de
jogo, de brinquedo, no universo
Freire da cultura infantil, de acordo
não considera seu com o conhecimento que a
trabalho totalmente criança já possui, poderão se
construtivista (PALAFOX; NAZARI, desenvolver sem a monotonia
2008). Quem iniciou essa tendência no dos exercícios prescritos por
Brasil foi Emília Ferreiro, alguns autores. Talvez não se
posteriormente Ana Teberosky, ambas tenha atentado para o fato de
seguidoras de Jean Piaget. que jogos, como amarelinha,
Essa abordagem recebe pegador, cantigas de roda, têm
influências da área da psicologia, exercido, ao longo da história,
tendo Piaget como referencial teórico, importante papel no
desenvolvimento das crianças
especialmente com as obras “O [...]. Aprender a trabalhar com
nascimento da inteligência na criança” esses brinquedos poderia
e “O possível e o necessário, fazer e garantir um bom
compreender”. desenvolvimento das
Na abordagem construtivista habilidades motoras sem
Freire dá ênfase ao desenvolvimento precisar impor às crianças uma
cognitivo e considera a cultural infantil linguagem corporal que lhes é
como essencial, repleta de jogos e estranha [...] (FREIRE, 1989, p.
brincadeiras, dando prioridade ao 24).
lúdico e ao simbolismo (LAVOURA;
BOTURA; DARIDO, 2006). Com isso, é possível perceber
Por isso, faz críticas à forma que Freire (1989) propõe como tarefa
como a escola trabalha com o corpo e da Educação Física o desenvolvimento
o movimento das crianças. Para de habilidades motoras, porém num
Freire, contexto de brinquedo e de jogo,
desenvolvidos a partir de um universo
[...] a escola tradicionalmente da cultura infantil que a criança possui.
tem desconsiderado a cultura Os conteúdos, na abordagem
infantil, rica em movimentos, construtivista, devem ser
jogos, brinquedos e fantasia e desenvolvidos numa progressão
tem optado por deixar a criança pedagógica, numa ordem de
imóvel, na expectativa de que habilidades, mais simples (habilidades
ela aprenda conceitos teóricos básicas) para as mais complexas
de forma disciplinada, (específicas).
castrando sua liberdade e

6
Ao propor uma educação de libertadora2 (Paulo Freire).
corpo inteiro, Freire, segundo Daolio Essa abordagem tem como
(2007) propõe uma Educação Física objeto de estudo o movimento e suas
que preserve a condição natural relações sociais. No entanto,
humana das crianças, estimulando Hildebrandt, enfatiza a importância do
suas habilidades motoras e seu movimento livre em detrimento ao
desenvolvimento corporal e libertando- movimento técnico.
a do jugo do contrato social
representada pela escola tradicional. [...] As possibilidades de
Freire (1989) critica as vivência de movimento dos
avaliações realizadas considerando seres humanos no seu mundo
apenas o aspecto motor, sugere são complexas e têm vários
níveis. Contudo, o sistema do
avaliações que englobem outros
esporte reduz essas complexas
aspectos, como por exemplo, o
possibilidades de movimento
comportamento social, por meio de (HILDEBRANDT-STRAMANN,
uma análise qualitativa, observando as 2003, p. 67).
relações entre as crianças e nas
verbalizações entre elas e com o Hildebrandt-Stramann (2003)
professor. classifica uma aula de Educação
Física, como fechada quando às
Texto 3 definições de situação e as colocações
de significados partem de uma forma
ABORDAGEM DE ENSINO ABERTO unilateral do professor e quando
nenhuma ou poucas possibilidades
O ensino são oferecidas aos alunos de trazer
aberto tornou-se suas próprias definições de situações.
conhecido no O ensino aberto visa possibilitar
Brasil por ao aluno co-participar das
influência do 2
decisões sobre objetivos, conteúdos
professor e métodos de ensino das aulas e,
alemão portanto, do planejamento do ensino,
Hildebrandt. visando recolocar a subjetividade
Esta proposta é do aluno no centro da reflexão
tratada na obra didática.
“Concepções
abertas no ensino da Educação Física” Deve ter ficado claro que o
de Hildebrandt e Laging, publicada em processo de ensino dos alunos
1986. será subjetivado quando os
De acordo com Oliveira (1990) o conteúdos do ensino da
ensino aberto baseia-se na teoria Educação Física forem
sociológica do interacionismo modificados para se tornarem
1
simbólico (Mead/Blumer) e na teoria 1
adequados aos alunos, isto é,
preparados de modo a ocupar
1 os alunos produtivamente de
O interacionismo simbólico tem suas origens
no trabalho de George Herbert Mead, porém acordo com seus interesses e
esse termo (interacionismo simbólico) foi necessidades [...]
cunhado por Herbert Blumer, seguidor de (HILDEBRANDT; LAGING,
Mead e sublinha o aspecto subjetivo do 1986, p. 29-30).
comportamento humano presente no grupo
social e tem como princípio fundamental que 2
A teoria libertadora encontra-se detalhada
pessoas, individual ou grupalmente, existem na obra de Freire (1987).
em ação (VERGARA; CALDAS, 2005).

7
Para Bracht (1999) essa organizadas de forma a conduzir a um
abordagem trabalha com a perspectiva aumento no nível de complexidade dos
de que a aula de Educação Física temas tratados e realiza-se em uma
pode ser analisada em termos de um ação participativa, na qual professor e
continuum que vai de uma concepção alunos interagem na resolução de
fechada a uma concepção aberta de problemas e no estabelecimento de
ensino, e considerando que a temas geradores; o ensino aberto
concepção fechada inibe a formação exprime-se pela subjetividade dos
de um sujeito autônomo e crítico, essa participantes. Aqui entram as
proposta indica a abertura das aulas intenções do professor e os objetivos
no sentido de se conseguir a co- de ação dos alunos.
participação dos alunos nas decisões O ensino aberto, segundo
didáticas que configuram as aulas. Oliveira (1990) privilegia a avaliação
do processo ensino-aprendizagem.
Uma concepção de ensino
aberta baseia-se na idéia de Texto 4
propiciar ao aluno
possibilidades de decidir junto, ABORDAGEM SISTÊMICA
importando a proporção das
possibilidades de co-decisão
no “grau de abertura” do ensino A
de Educação Física [...] abordagem
(HILDEBRANDT; LAGING, sistêmica tem
1986, p. 11). em Mauro
Betti seu
Numa concepção de ensino maior
aberto, os alunos devem participar das expoente.
decisões, a relação professor-aluno Na obra
estabelece-se dentro de uma ação co- “Educação
participativa que se amplia de acordo Física e
com o amadurecimento e a sociedade”,
responsabilidade assumida pelos publicada em 1991.
integrantes do grupo. Nessa obra, Betti levanta as
primeiras considerações sobre a
As concepções de ensino são Educação Física dentro dessa
abertos quando os alunos abordagem, que prefere o termo
participam das decisões em abordagem sociológica sistêmica.
relação aos objetivos, De acordo com Darido (1999) a
conteúdos e âmbitos de abordagem sistêmica, tem grande
transmissão ou dentro deste influência de áreas, como a sociologia,
complexo de decisão. O grau
a filosofia, bem como contribuição da
de abertura depende do grau
de possibilidade de co-decisão psicologia.
(HILDEBRANDT; LAGING, Essa abordagem, segundo Betti
1986, p. 15). (1992) não se constitui como uma
metodologia de ensino, mas traz
Esta abordagem, como sintetiza implicações para as múltiplas
Oliveira (1990) desenvolve-se por dimensões sócio-políticas, sócio-
meio de ações problematizadoras, psicológicas e didático-pedagógicas da
enfatizando o conhecimento sobre as Educação Física e também para o
diversas possibilidades de movimento; ensino da Educação Física na escola.
as ações metodológicas são Betti (1992) entende que a partir

8
do conceito de cultura física é possível Na abordagem sistêmica,
para a Educação Física superar a existem dois princípios fundamentais.
antiga dicotomia entre a educação do O princípio da não-exclusão que,
e pelo movimento, pois para ele, é segundo Daolio (2007) prega que os
preciso que haja uma discussão conteúdos e métodos da Educação
destes assuntos de uma forma mais Física devem incluir a totalidade dos
global. No qual, não seria apenas uma alunos e o princípio da diversidade que
educação buscando uma melhora ou defende que os conteúdos de
aquisição de mais habilidades motoras Educação Física devem oferecer
ou a busca de algum aprimoramento variedade de atividades, com o intuito
por meio do movimento e sim uma de permitir ao aluno escolher
discussão mais ampla. criticamente, de forma valorativa, seus
Nessa abordagem, Betti (1991) motivos-fins em relação às atividades
considera a teoria de sistemas como da cultura corporal de movimento.
um instrumento conceitual e um modo Dentro dessa abordagem, o
de pensar a questão do currículo de profissional de Educação Física em
Educação Física. Como na teoria de sua atuação pedagógica precisa
sistemas proposta por Bertalanffy, o saber, de certa forma, ler, aceitar e
autor trabalha com os conceitos de compreender os significados originais
hierarquia, tendências auto-afirmativas do grupo alvo de seu trabalho, a fim de
e auto-integrativas. A Educação Física, conseguir empreender sua ação
nessa abordagem, é entendida como pedagógica intencional, considerando
um sistema hierárquico aberto, pois também os seus significados e
recebe influências da sociedade ao aqueles atribuídos ao longo da
mesmo tempo em que a influencia. tradição da cultura corporal de
Procura na definição de vivência movimento (DAOLIO, 2007).
corporal o movimento de introduzir o A avaliação nessa abordagem
aluno nos conteúdos oferecidos na dá-se por meio da observação
escola, oportunizando a experiência da sistematizada.
cultura de movimentos.
Assim, o papel da Educação Texto 5
Física é,
ABORDAGEM
[...] integrar e introduzir o aluno CRÍTICO-EMANCIPATÓRIA
de 1º e 2º graus no mundo da
cultura física, formando o
cidadão que vai usufruir,
partilhar, produzir, reproduzir e
transformar as formas culturais
da atividade física [...] (BETTI,
1992, p. 285).

Por isso, os conteúdos devem


ser tratados de forma a oportunizar
aos alunos a explorarem suas
vivências e experiências das
manifestações e da cultura corporal
como o jogo, dança, esportes, lutas e
ginásticas não deixando de lado as
questões cognitivas e afetivas de suas
práticas (DARIDO, 1999).

9
A abordagem crítico- pode ser reconhecido e esclarecido de
emancipatória tem como principal forma simples e objetiva, independente
idealizador Elenor Kunz, com as obras do próprio ser humano que o realiza.
“Educação Física: ensino & Kunz coloca que esta abordagem
mudanças”, publicada em 1991 e na prática, precisa estar acompanhada
“Transformação didático-pedagógica de uma didática comunicativa, que se
do esporte”, publicada em 1994. orienta pelo desenvolvimento de uma
Essa abordagem tem como base capacidade questionadora e
a teoria sociológica da ação argumentativa consciente do aluno
comunicativa, idealizada por Jürgen sobre os assuntos abordados em aula.
Habermas, e a tendência educacional Pois, essa abordagem pretende o
progressista crítica (LARA et al., resgate da linguagem do movimento
2007). humano, que é o objeto central do
A abordagem crítico- trabalho pedagógico da Educação
emancipatória pretende o resgate da Física escolar, como forma de
linguagem do movimento humano expressão de entendimento do mundo
como forma de expressão do mundo social.
social. Para tanto, busca articular uma Além disso, Kunz (1994) destaca
prática do esporte condicionada a sua que o fenômeno social do esporte
transformação didático-pedagógica, de deve ter a capacidade de colocar o
tal modo que a educação contribua praticante na situação dos outros
para a reflexão crítica e emancipatória participantes no esporte; ser capaz de
das crianças e jovens. Pois, segundo propiciar a visualização dos
Kunz é pelo questionamento crítico componentes sociais que influenciam
que se chega a compreender a todas as ações sócio-culturais no
estrutura autoritária dos processos campo esportivo; além de poder
institucionalizados da sociedade que desenvolver as competências da
formam as convicções, interesses e autonomia, interação social, bem como
desejos. da competência objetiva.
Com isso, em vez de ensinar os
Fica evidente que para essa esportes na Educação Física pelo
compreensão do esporte os simples desenvolvimento de
alunos devem ser habilidades e técnicas do esporte,
instrumentalizados além de deverão ser incluídos conteúdos de
capacidades e conhecimentos caráter teórico-prático que tornam o
que lhes possibilitam apenas
fenômeno esportivo transparente,
praticar o esporte. Nesse
sentido, é de mais alta permitindo aos alunos a melhor
importância, sem dúvida, a organização da realidade do esporte,
competência comunicativa que dos movimentos e dos jogos de acordo
lhes possibilita a comunicação, com as suas possibilidades e
não apenas sobre o mundo dos necessidades; a interação solidária e
esportes, mas para todo o seu social em princípios de co e
com o mundo social, político, autodeterminação; e se expressar
econômico e cultural (KUNZ, como ser corporal no diálogo com o
1994, p. 29-30). mundo.
Para Kunz, o movimento deve
Com isso, percebe-se que Kunz, ser interpretado como um diálogo
como enfatiza Daolio (2007) faz uma entre o ser humano e o mundo, uma
discussão sobre o movimento humano, vez que é pelo seu “se-movimentar”
criticando a visão que o concebe que ele percebe, interage com os
apenas como fenômeno físico que
10
outros, atua na sociedade. Uma concepção de ensino que
se orienta nos pressupostos desta
O “se-movimentar” é, assim, perspectiva estabelecida e que se
interpretado como uma explica na prática pela didática
conduta humana, onde a comunicativa, privilegia para esta
Pessoa do “se-movimentar” interação e para a linguagem: o saber-
não pode simplesmente ser fazer, o saber-pensar e o saber-sentir
vista de forma isolada e
abstrata, mas inserida numa
(KUNZ, 1994).
rede complexa de relações e Outro princípio importante nessa
significados para com o abordagem é a noção de sujeito, que
Mundo, que configura aquele segundo Bracht (1999) é tomada numa
“acontecimento relacional”, perspectiva iluminista de sujeito capaz
onde se dá o diálogo entre o de crítica e de atuação autônomas,
Homem e o Mundo [...] (KUNZ, perspectiva esta influenciada pelos
1991, p. 174). estudiosos da Escola de Frankfurt. A
proposta aponta para a tematização
O conteúdo para o ensino dos dos elementos da cultura do
esportes na Educação Física não pode movimento, de forma a desenvolver
ser apenas prático, deve ser também nos alunos a capacidade de analisar e
problematizado. Além das análises agir criticamente nessa esfera.
críticas do esporte, deve ser oferecida Nesse sentido, Daolio (2007, p.
a oportunidade de tematizar o esporte 37) salienta que a abordagem crítico-
de diferentes formas e perspectivas, emancipátória pressupõe,
através de programas ou cursos
específicos. “[...] o envolvimento do ser
Para tanto, conforme Darido humano como sujeito da ação
(2001) o papel do professor na sempre na sua
abordagem crítico-emancipatória intencionalidade, constituindo o
confronta, num primeiro momento, o sentido/significado do seu “se-
aluno com a realidade do ensino, o movimentar” [...]”.
que denominou de transcendência de
limites. Concretamente a forma de Em suma, Kunz defende o
ensinar pela transparência de limites ensino crítico e com sentido da
pressupõe três fases. Na primeira os emancipação do sujeito, sendo este
alunos descobrem, pela própria um ser-no-mundo, e o movimento
experiência manipulativa as formas e humano é o diálogo deste com o
meios para uma participação bem mundo, dando um sentido e um
sucedida em atividades de significado no seu “movimentar-se”
movimentos e jogos. Devem também, (LAVOURA; BOTURA; DARIDO,
manifestar pela linguagem ou 2006).
representação cênica, o que A avaliação nessa abordagem é
experimentaram e o que aprenderam vista como não punitiva, privilegiando-
numa forma de exposição, e por se a auto-avaliação.
último, os alunos devem aprender a
perguntar e questionar sobre suas Texto 6
aprendizagens e descobertas, com a
finalidade de entender o significado ABORDAGEM PLURAL
cultural da aprendizagem.
A abordagem plural é tratada na

11
obra “Da cultura objetivo não será a aptidão física dos
do corpo”, alunos, nem a busca de um melhor
publicada em rendimento esportivo. Os elementos
1995, que tem da cultura corporal serão tratados
em Jocimar como conhecimentos a serem
Daolio seu sistematizados e reconstruídos pelos
maior alunos (DAOLIO, 1996).
representante. Nessa abordagem não há uma
Essa proposta definida para a avaliação.
tendência
tem como Texto 7
base a antropologia
e os autores Marcel Mauss e ABORDAGEM
Clifford Geertz. CRÍTICO-SUPERADORA
A abordagem plural discute a
Educação Física escolar numa A abordagem crítico-superadora
perspectiva cultural, na qual considera é retratada na obra “Metodologia do
a Educação Física como parte da ensino de Educação Física”, publicada
cultura humana. Ela se constitui numa em 1992, por um grupo de
área de conhecimento que estuda e pesquisadores tradicionalmente
atua sobre um conjunto de práticas denominados por coletivo de autores
ligadas ao corpo e ao movimento composto por Carmem
criadas pelo homem ao longo de sua Lúcia
história. É nesse sentido que se tem Soares, Celi
falado atualmente de uma cultura Nelza Zülke
corporal, ou cultura física, ou, ainda, Taffarel,
cultura de movimento (DAOLIO, 1996). Elizabeth
Daolio entende que a Educação Varjal,
Física escolar é uma prática cultural, Lino
com uma tradição respaldada em Castellani
certos valores. Por isso, ele propõe Filho,
uma Educação Física plural, cuja Micheli
condição mínima e primeira é que as Ortega
aulas atinjam todos os alunos, sem Escobar e Valter
discriminação dos menos hábeis, ou Bracht.
das meninas, ou dos gordinhos, dos A abordagem crítico-superadora
baixinhos, dos mais lentos. Esta baseia-se nos pressupostos da
Educação Física plural parte do pedagogia histórico-crítica3 de
pressuposto que os alunos são Dermeval Saviani. É uma concepção
diferentes, recusando o binômio propositiva, pois estabelece
igualdade/desigualdade para compará- critérios para a
los. Sendo eles diferentes e tendo a sistematização dessa disciplina no
aula que alcançar todos os alunos, âmbito da escola.
3

alguns padrões de aula terão que,


necessariamente, ser reavaliados. 3
De modo geral, a Educação A pedagogia histórico-crítica encontra-se
detalhada nas obras de Saviani (2001) e
Física plural deve abarcar todas as
Gasparin (2002). Essa pedagogia será
formas da chamada cultura corporal e, abordada no próximo item desse texto, haja
ao mesmo tempo, deve abranger vista que a metodologia crítico-superadora
todos os alunos. Obviamente, que seu embasa-se nessa pedagogia.

12
Soares et al. (1992) defende que que busca responder determinados
uma proposta crítica de Educação interesses de classe, neste caso, da
Física, deve partir de uma análise das classe trabalhadora.
estruturas de poder e dominação A abordagem crítico-superadora
constituídas em nossa sociedade. tem inspiração no materialismo
Sociedade essa que pode ser histórico-dialético4 de Karl Marx e
entendida como sociedade de classes, compreende a Educação Física
4

onde o movimento social caracteriza- escolar como uma disciplina que trata
se pela luta entre as classes sociais a pedagogicamente, de um tipo de
fim de afirmarem seus interesses. conhecimento denominado cultura
corporal, onde visa a aprendizagem da
[...] os interesses imediatos da expressão corporal como linguagem.
classe trabalhadora, na qual se
incluem as camadas populares, [...] A expressão corporal é tomada
correspondem à sua como linguagem, conhecimento
necessidade de sobrevivência, universal, um patrimônio cultural
à luta no cotidiano pelo direito humano que deve ser transmitido
ao emprego, enfim, às aos alunos e por eles assimilado a
condições dignas de fim de que possam compreender a
existência. realidade dentro de uma visão de
Os interesses imediatos da totalidade, como algo dinâmico e
classe proprietária carente de transformações
correspondem às suas (DAOLIO, 2007, p. 29).
necessidades de acumular
riquezas, gerar mais renda,
Para Souza (1987 apud
ampliar o consumo, o
patrimônio etc. ainda com
SOARES et al., 1992) na abordagem
relação a essa classe, seus crítico-superadora a reflexão
interesses históricos pedagógica deve ser diagnóstica,
correspondem à sua porque remete a constatação e leitura
necessidade de garantir o dos dados da realidade; judicativa,
poder para manter a posição porque explicita valores a partir de
privilegiada que ocupa na uma ética voltada para os interesses
sociedade e a qualidade de de uma classe social; e teleológica,
vida construída e conquistada porque aponta para uma direção clara
a partir desse privilégio de transformação da realidade.
(SOARES et al., 1992, p. 24).
Além disso, essa abordagem,
segundo Daolio (2007) coloca-se em
Percebe-se então que os
oposição à perspectiva tradicional de
interesses das classes são diferentes
e antagônicos. Com isso, há
momentos em que se acirra o conflito,
o que vem a provocar uma crise. E é 4
O materialismo dialético não só tem como
dessa crise que emergem as base de seus princípios a matéria, a dialética e
pedagogias. Soares et al. (1992) a prática social, mas também aspira ser a
teoria orientadora da revolução do
destaca que uma pedagogia entra em
proletariado. O materialismo histórico ressalta
crise quando suas explicações sobre a a força das idéias, capaz de introduzir
prática social já não mais convencem mudanças nas bases econômicas que as
aos sujeitos das diferentes classes e originou, por isso, destaca a ação dos partidos
não correspondem aos seus políticos e dos agrupamentos humanos, cuja
prática social pode produzir transformações
interesses. Diante disso, pode-se dizer
importantes nos fundamentos materiais dos
que, a abordagem crítico-superadora grupos sociais (MARX, 1988).
trata-se se uma pedagogia emergente
13
Educação Física que tem como objeto decorrer da história,
de estudo o desenvolvimento da exteriorizadas pela expressão
aptidão física do ser humano, pois, de corporal: jogos, danças, lutas,
acordo com Soares et al. (1992) esta exercícios ginásticos, esporte,
visão contribuiu e tem contribuído para malabarismo, contorcionismo,
mímica e outros, que podem
a manutenção da estrutura da
ser identificados como formas
sociedade capitalista, defendendo os de representação simbólica de
interesses da classe dominante no realidades vividas pelo homem,
poder. historicamente criadas e
culturalmente desenvolvidas
Apóia-se nos fundamentos (SOARES et al., 1992, p. 38).
sociológicos, filosóficos,
antropológicos, psicológicos e, Com isso, percebe-se que essa
enfaticamente, nos biológicos abordagem propõe olhar para as
para educar o homem forte, práticas constitutivas da cultura
ágil, apto, empreendedor, que
disputa uma situação social
corporal como “práticas sociais”, ou
privilegiada na sociedade seja, produzidas pela ação (trabalho)
competitiva de livre humana com vistas a atender
concorrência: a capitalista. determinadas necessidades sociais.
Procura, através da educação, Assim, as atividades corporais,
adaptar o homem à sociedade, esportivas ou não, componentes da
alienando-a da sua condição nossa cultura corporal, são
de sujeito histórico, capaz de vivenciadas – tanto naquilo que
interferir na transformação da possuem de “fazer” corporal, quanto
mesma. Recorre à filosofia na necessidade de se refletir sobre o
liberal para a formação do significado/sentido desse mesmo
caráter do indivíduo,
“fazer” (OLIVEIRA, 1990).
valorizando a obediência, o
respeito às normas e à Para Daolio (2007) o mérito da
hierarquia. Apóia-se na abordagem crítico-superadora está no
pedagogia tradicional estabelecimento da cultura corporal
influenciada pela tendência como objeto de estudo da Educação
biologista para adestrá-lo. Física. Com isso, às várias
Essas concepções e manifestações corporais humanas, em
fundamentos informam um vez de serem tomadas como
dado tratamento do conteúdos tradicionais devem ser
conhecimento (SOARES et al., vistos como construções históricas da
1992, p. 36). humanidade.
A abordagem crítico-superadora
É fundamental para essa
busca desenvolver uma reflexão perspectiva da prática
pedagógica sobre o acervo de formas pedagógica da Educação
de representação do mundo em que o Física o desenvolvimento da
homem tem produzido no decorrer da noção de historicidade da
história, exteriorizadas pela expressão cultura corporal. É preciso que
corporal. Assim, essa abordagem, o aluno entenda que o homem
não nasceu pulando, saltando,
[...] Busca desenvolver uma arremessando, balançando,
reflexão pedagógica sobre o jogando etc. Todas essas
acervo de formas de atividades corporais foram
representação do mundo que o construídas em determinadas
homem tem produzido no épocas históricas, como

14
respostas a determinados estudo por parte do professor e novo
estímulos, desafios ou método de trabalho docente-discente,
necessidades humanas que tem como base o processo
(SOARES et al., 1992, p. 39). prática-teoria-prática.
Para tanto, essa pedagogia
A reflexão sobre a cultura adota a teoria dialética do
corporal, segundo Soares et al. (1992) conhecimento e a teoria histórico-
contribui para a afirmação dos cultural como suporte epistemológico,
interesses das camadas populares, na e representa um esforço e uma
medida em que desenvolve-se uma tentativa de traduzir, para a prática
reflexão pedagógica sobre calores pedagógica e discente a pedagogia
como solidariedade substituindo histórico-crítica (GASPARIN, 2002).
individualismo, cooperação A pedagogia histórico-crítica é
confrontando a disputa, distribuição articulada em cinco momentos: a)
em confronto com apropriação, prática social inicial;
sobretudo enfatizando a liberdade de b) problematização; c)
expressão dos movimentos, negando instrumentalização; d) síntese;
a dominação e submissão do homem e) prática social final. Os respectivos
pelo homem. momentos articulados serão
A avaliação, nessa abordagem, é separados a seguir, de forma didática,
entendida como algo além da apenas para fins de estudos, mas com
aplicação de testes, levantamento de certeza constituem-se como um todo
medidas, seleção e classificação de em constante movimento, integração e
alunos. Pois, esta forma reducionista superação.
das possibilidades pedagógicas da A prática social inicial é o primeiro
Educação Física, limita as finalidades momento da pedagogia histórico-
– à medida que é entendida e tratada crítica e caracteriza-se como uma
como um procedimento para atender preparação, uma mobilização do aluno
exigências burocráticas da escola ou a para a construção do conhecimento
legislação vigente; as formas – testes escolar. Nesse primeiro momento,
esportivos-motores, a fim de segundo Saviani (2001) o ponto de
selecionar alunos para competições; e partida que é comum a professor e
os conteúdos da avaliação – advindos aluno.
do esporte. Por isso, segundo Soares No entanto, conforme Gasparin
et al. (1992) a avaliação é criticada, (2002) cada agente se posiciona
por estimular a prática discriminatória, diferentemente em relação a prática
enfatizando o esforço individual e social inicial como um todo. Assim,
desestimular os alunos menos aptos professor e alunos, na relação
ou que não tem interesse pelo pedagógica, também possuem níveis
rendimento esportivo. diferenciados de compreensão da
mesma prática social.
Pedagogia Histórico-Crítica
[...] Em princípio, o docente
A abordagem crítico-superadora situa-se em relação à realidade
tem como ponto de partida a de maneira mais clara e mais
pedagogia histórico-crítica. Essa sintética que os alunos. Quanto
pedagogia é uma metodologia de a estes, pode-se afirmar que,
ensino-aprendizagem que apresenta de maneira geral, possuem
características como: uma nova uma visão sincrética, caótica.
maneira de planejar as atividades Freqüentemente é uma
percepção de senso comum,
docentes-discentes, novo processo de
15
empírica, um tanto confusa, em contextualização do conteúdo. Além
que tudo, de certa forma, disso, é um momento de
aparece como natural. Todavia, conscientização do que ocorre na
essa prática do educando é sociedade em relação aquele tópico a
sempre uma totalidade que ser trabalhado.
representa sua visão de
mundo, sua concepção da
Esse momento é importante
realidade, ainda que, muitas porque a partir de sua explicitação, o
vezes, neutralizada professor pode tomar conhecimento do
(GASPARIN, 2002, p. 18). ponto onde deve iniciar sua ação e o
que falta ao aluno para chegar ao nível
Com isso, percebe-se que, a superior. Para tanto, Gasparin (2002)
prática social inicial, para o aluno, coloca que, nessa pedagogia, podem
consiste no primeiro contato que ser utilizadas duas formas de
mantém com o conteúdo sistematizado encaminhamento da atividade, ou seja,
que será trabalhado pelo professor. o anúncio dos conteúdos e a vivência
De acordo com Gasparin (2002) cotidiana dos conteúdos.
antes de iniciar o trabalho O anúncio dos conteúdos realiza-
propriamente dito, os alunos devem se quando o professor informa aos
ser informados de que o conteúdo será alunos quais tópicos e subtópicos
abordado numa determinada linha serão abordados e a vivência cotidiana
política, através do processo teórico- dos conteúdos consiste no
metodológico que tem o materialismo levantamento que o professor fará em
histórico5, com a finalidade de relação aos conteúdos a serem
transformação social. Depois, o trabalhados, onde é possibilitado ao
professor deve comunicar o conteúdo aluno demonstrar o que já sabe do
a ser trabalhado. Dialoga com os 5
conteúdo e que gostariam de saber a
alunos sobre o conteúdo, pois, com mais.
isso, busca evidenciar qual é o A problematização consiste no
domínio que o aluno já possui e que segundo momento da pedagogia
uso faz dele na prática social histórico-crítica e é a junção da prática
cotidiana. inicial com o conhecimento científico
elaborado.
[...] É a manifestação do estado Para Gasparin (2002) a
de desenvolvimento dos problematização, representa o
educandos, ocasião em que momento do processo em que a
são expressas as concepções, prática social é posta em questão,
as vivências, as percepções, analisada, interrogada, levando em
os conceitos, as formas consideração o conteúdo a ser
próximas e remotas de trabalhado e as exigências sociais de
existência do conteúdo em
aplicação desse conhecimento, ou
questão [...] (GASPARIN, 2002,
p. 23). seja, é o momento em que começa a
análise da prática e da teoria.
A prática social inicial, conforme As principais interrogações
Gasparin (2002) é sempre uma levantadas no primeiro momento são
nesse momento selecionadas. Tanto
5
que na problematização,
O materialismo histórico é compreendido por
Saviani (2005) como a compreensão a partir
do desenvolvimento material, da determinação [...] Trata-se de detectar que
das condições materiais da existência questões precisam ser
humana. resolvidas no âmbito da prática
social e, em conseqüência, que
16
conhecimento é necessário professor consiste em trabalhar com
dominar (SAVIANI, 2001, p. este conteúdo e contrastá-lo com o
71). cotidiano. Mas, os alunos devem ser
incentivados e desafiados a elaborar
Com isso, é possível constatar uma definição própria do conceito
que a problematização tem como científico proposto.
finalidade selecionar as principais Em suma, na instrumentalização,
questões levantadas na prática social. o trabalho do professor desenvolve-se
Essas questões em consonância com através de ações intencionais que
os objetivos de ensino, orientam todo o conduzem os alunos à reflexão sobre
trabalho a ser desenvolvido pelo os conceitos que estão sendo
professor e pelos alunos (GASPARIN, propostos. A fim de que o trabalho de
2002). todo o processo ensino-aprendizagem
No entanto, as questões apresente-se como um grande
levantadas na prática social inicial não instrumento na transformação de um
são respondidas nesse momento. aluno-cidadão em um cidadão mais
Pois, a problematização, apenas autônomo (GASPARIN, 2002).
prepara o aluno para analisar e A catarse é o quarto momento da
apreender, o conteúdo em suas pedagogia histórico-crítica. Nesse
múltiplas dimensões. momento, a operação fundamental
De modo geral, a para a construção do conhecimento é
problematização é o fio condutor do a síntese.
processo ensino-aprendizagem, pois
nesse momento do processo, o A Catarse é a síntese do
professor ativamente estará cotidiano e do científico, do
reestruturando e refletindo sobre sua teórico e da prática que o
mediação. educando chegou, marcando
sua nova posição em relação
A instrumentalização é o terceiro ao conteúdo e à forma de sua
momento da pedagogia histórico- construção social e sua
crítica e realiza-se nos atos docentes e reconstrução na escola [...]
discentes necessários para a (GASPARIN, 2002, p. 128).
construção do conhecimento científico.
Para Saviani (2001, p. 71) a A catarse, como destaca
instrumentalização, Wachowicz (1989 apud GASPARIN,
2002) é a verdadeira apropriação do
[...] Trata-se de se apropriar saber por parte dos alunos, ou seja, é
dos instrumentos teóricos e a nova postura mental do aluno, que
práticos necessários ao deve ser capaz de reunir
equacionamento dos intelectualmente o cotidiano e o
problemas detectados na científico, o teórico e o prático
prática social [...].
demonstrando através da avaliação, o
quanto se aproximou da solução das
A instrumentalização, segundo
questões levantadas e trabalhadas nas
Gasparin (2002) é o caminho através
fases anteriores do processo
do qual o conteúdo sistematizado é
pedagógico.
posto à disposição dos alunos para
Por ser o momento da efetiva
que o assimilem e o recriem, ao
aprendizagem, a catarse é a
incorporá-lo, transformem-no em
demonstração teórica do ponto de
instrumento de construção pessoal e
chegada, do nível superior que o aluno
profissional. Além disso, a tarefa do
atingiu (GASPARIN, 2002).

17
Esse também é o momento em posicionar-se nela, ou seja, é a
que devem ser retomados os objetivos manifestação da nova postura prática,
propostos na prática social inicial e da nova atitude, da nova visão do
trabalhados nas fases subseqüentes, conteúdo no cotidiano. Além disso, de
verificando se foram atingidos pelos acordo com Gasparin (2002) é o
alunos. Pode ser traduzida em: momento em que professor e aluno,
elaboração teórica da nova síntese e havendo se aproximado na
expressão prática da nova síntese. compreensão do novo conteúdo, dos
Ao chegar na elaboração teórica novos conceitos, mantêm um diálogo.
da nova síntese, o educando deve Assim sendo, a realização dessa fase
elaborar mentalmente a sua com os alunos, em aula, envolve
apreensão sintética do conteúdo, basicamente: uma nova atitude prática
reunindo as muitas faces, as e uma proposta de ação.
plurideterminações sob as quais o
assunto foi tratado.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A catarse é o momento em que o
aluno manifesta para si mesmo e
As discussões sobre as
quanto aprendeu. É sua nova visão a
abordagens pedagógicas são muito
respeito do tema estudado.
pertinentes à Educação Física, uma
A prática social final é o quinto
vez que, por meio dessas discussões
momento da pedagogia histórico-
é possível repensar a área e contribuir
crítica. Este momento do método é o
para que avanços aconteçam na
ponto de chegada.
Educação Física escolar.
Diante disso, apresentamos esse
[...] Esta fase representa a
transposição do teórico para o
caderno temático algumas abordagens
prático dos objetivos da pedagógicas da Educação Física pós
unidade de estudo, das década de 1970, dando ênfase na
dimensões do conteúdo e dos abordagem crítico-superadora que
conceitos adquiridos propõe uma prática progressista
(GASPARIN, 2002, p. 143). comprometida com paradigmas que se
diferem dos médico-biológicos, e que
Nesse momento, professor e tem suporte teórico nas ciências
alunos modificam-se intelectual e humanas e sociais.
quantitativamente. Assim, ambos se No entanto, para que a
posicionam de maneira diferente abordagem crítico-superadora seja
perante prática social do conteúdo que efetivada como proposta pedagógica
foi adquirido. no âmbito escolar é necessário que
A prática social final, segundo transformações ocorram na Educação
Gasparin (2002) explicita em que Física. Para isso, é necessário mudar
consiste o novo agir do educando, seu as referências sobre as quais a
retorno à prática inicial, prática esta Educação Física historicamente se
vista agora sob uma nova perspectiva. estabeleceu. Isso, segundo Mello
Nesse momento, também são (2003) é uma necessidade premente
mostradas ainda as intenções e os para atingir tal objetivo.
compromissos sociais do aluno por ter Enfim, ao refletir sobre as
aprendido o novo conteúdo. abordagens pedagógicas espera-se
A catarse possibilita ao aluno que a prática pedagógica nas aulas de
agir de forma autônoma. Pois, a Educação Física seja repensada e/ou
prática social final é a nova maneira de transformada.
compreender a realidade e de

18
REFERÊNCIAS FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido.
17.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
BETTI, M. Educação física e 1987.
sociedade. São Paulo: Movimento,
1991. GASPARIN, J. L. Uma didática para a
pedagogia histórico-crítica.
______. Ensino de primeiro e segundo Campinas, SP: Autores Associados,
graus: educação física para quê? 2002.
Revista Brasileira de Ciências do
Esporte, Maringá, v. 13, n. 2, 1992, p. HILDEBRANDT-STRAMANN, R.
282-287. Textos pedagógicos sobre o ensino
da educação física. 2.ed. Ijuí: Unijuí,
BRACHT, V. A constituição das teorias 2003.
pedagógicas da educação física.
Cadernos CEDES, Campinas, ano HILDEBRANDT, R. D.; LAGING, R.
XIX, v. 19. n. 48, ago., 1999, p. 69-88. Concepções abertas no ensino da
educação física. Rio de Janeiro: Ao
BRASIL. Secretaria de educação Livro Técnico, 1986.
Fundamental. Parâmetros
curriculares nacionais: educação KUNZ, E. Educação física: ensino &
física. Secretaria de Educação mudanças. Ijuí: Unijuí, 1991.
Fundamental. Brasília: MEC/SEF,
1998. ______. Transformação didático-
pedagógica do esporte. Ijuí: Unijuí,
DAOLIO, J. Da cultura do corpo. 1994.
7.ed. Campinas: Papirus, 1995.
LARA, L. M.; RINALDI, I. P. B.;
______. Educação física e o MONTENEGRO, J.; SERON. T. D. A
conceito de cultura. 2.ed. São Paulo: dança e ginástica nas abordagens
Autores Associados, 2007. metodológicas da educação física
escolar. Rev. Bras. Cienc. Esporte,
______. Educação física escolar: em Campinas, v. 28, n. 2, jan., 2007, p.
busca da pluralidade. Rev. Paul. 155-170.
Educ. Fís., São Paulo, supl. 2, 1996,
p. 40-42. LAVOURA, T. N.; BOTURA, H. M. L.;
DARIDO, S. C. Educação física
DARIDO, S. C. Educação física na escolar: conhecimentos necessários
escola: questões e reflexões. Rio de para a prática pedagógica. Revista de
Janeiro: Lazer & Sport, 1999. Educação Física/UEM, v. 17, n. 2,
2006, p. 203-209.
DARIDO, S. C. Os conteúdos da
educação física escolar: influências, MARX, K. O capital: crítica da
tendências, dificuldades e economia política. São Paulo: Record,
possibilidades. Perspectivas em 1988.
Educação Física Escolar, Niterói, v.
2, n. 1 (suplemento), 2001. MELLO, A. da S. Cultura corporal:
pressupostos, representações sociais
FREIRE, J. B. Educação de corpo e reflexões acerca desta proposta
inteiro. São Paulo: Scipione, 1989. pedagógica. In: XIII Congresso

19
Brasileiro de Ciências do Esporte,
2003.

OLIVEIRA, A. A. B. de. Metodologias


emergentes no ensino da educação
física. Revista de Educação
Física/UEM, v. 8, n. 1, 1990, p. 21-27.

PALAFOX, G. H.; NAZARI, J.


Abordagens metodológicas do ensino
da educação física escolar. Revista
Digital, Buenos Aires, ano 12, n. 112,
set., 2007. Disponível em:
<http://www.efdeportes.com/efd112/ab
ordagens-metodologicas-do-ensino-
da-educacao-fisica-escolar.htm>.
Acesso em: 10 maio 2008.

SAVIANI, D. Escola e democracia:


teorias da educação, curvatura da
vara, onze teses sobre a educação
política. 34.ed. Campinas, SP: Autores
Associados, 2001.

______. Pedagogia histórico-crítica:


primeiras aproximações. 9.ed.
Campinas, SP: Autores Associados,
2005.

SOARES, C. L.; TAFFAREL, C. N. Z.;


VARGAL, E.; FILHO, L. C.;
ESCOBAR, M. O.; BRACHT, V.
Metodologia do ensino de educação
física. São Paulo: Cortez, 1992.

TANI, G.; MANOEL, E. de J.;


KOKUBUN, E.; PROENÇA, J. E. de.
Educação física escolar:
fundamentação de uma abordagem
desenvolvimentista. São Paulo,
EPU/EDUSP, 1988.

VERGARA, S. C.; CALDAS, M. P.


Paradigma interpretacionista: a busca
da superação do objetivismo
funcionalista dos anos 1980 e 1990.
RAE, v. 45, n. 4, out./dez., 2005, p. 66-
72.

20