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O delírio capitalista e a deriva climática - 21

Sumário:

1 - Katowice rima com aldrabice


2 - O consumo energético no planeta (2007/17)
3 – As capitações de consumo energético
4 - Os futuros Katowices
Anexo 1 – As várias fontes do consumo energético
Anexo 2 – A distribuição espacial dos vários tipos de consumo energético

+++++ ///\\\ +++++

1 - Katowice rima com aldrabice

Segundo a Comissão Europeia, no período 1990/2016, no espaço comunitário, a


redução de gases com efeito de estufa foi de 22%; mas, o aumento do PIB foi de 54%,
ligeiramente acima dos 2% anuais, um ritmo que constitui a meta que se pretende
manter até… 2050! A disparidade entre a evolução das emissões e a do PIB é grande
e resulta da redução da atividade industrial, na Europa e nos EUA, em paralelo com o
fundamental contributo do impacto dos negócios financeiros no PIB, que não estarão,
entre as entidades mais agressivas no capítulo ambiental2. O gráfico seguinte
evidencia, por consequência, que o PIB mundial retomou o seu crescimento
acelerado, depois da crise financeira, numa evolução muito mais dinâmica do que o
observado para as emissões de CO2 que se mantiveram numa mesma evolução,
ascendente e regular, que vem do passado; e que resulta, essencialmente, das áreas
não europeias ou norte-americanas, como observaremos com maior detalhe, mais à
frente.

1
A primeira parte está disponível em: https://grazia-tanta.blogspot.com/2019/01/o-delirio-capitalista-e-deriva.html
2
Os grandes bancos dos EUA, os tais “too big to fail” distribuem 80% dos seus créditos para “investidores” em
especulação e atividades financeiras. As cascatas de títulos emitidos que na base têm produções agrícolas,
combustíveis minerais, créditos imobiliários que enformaram desde os anos 90 os chamados produtos derivados
que constituem o grande destino desses créditos. Segundo o BIS – Bank of International Settlements.

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Fonte: BP Statistical Review of World Energy 2018

De modo mais preciso e para o caso da UE (v. figura abaixo), depois da passagem
das emissões de gás de efeito de estufa de 5716.4 M t equivalentes de CO2 em 1990
para 4451.8 M t em 2017 (menos 468 M ton/ano) pretendem-se reduções de … 1935
M ton/ano até 2050 até se atingir o patamar das zero emissões!

 Acharão que toda a indústria sairá da Europa?


 Que os transportes coletivos vão expulsar o automóvel privado? Ou que estes
serão todos elétricos, com toda a energia motriz produzida a partir de fontes
renováveis ou importada de fora da Europa? Ou, que a limitação da circulação
automóvel, prevista para o centro De várias cidades europeias, será suficiente
para tal?

 Que o intenso trânsito de camiões nas estradas europeias ou de navios nos


portos vai abrandar substancialmente?
 Que o espaço aéreo vai ficar menos saturado com um afundamento da
indústria turística? E que será massificada a produção de aviões baseados em
energia solar?
 Será plausível que as atividades emissoras deslocalizadas mantenham o CO2
produzido concentrado em seu redor, sem se espalhar pelo planeta de modo
mais ou menos uniforme, não distinguindo os espaços territoriais dos países
deslocalizantes dos que receberam as atividades nocivas?

Planear irresponsavelmente nunca foi difícil, sobretudo para quem provavelmente


não assistirá à chegada do calendário a 2050. Quem lá chegar que cuide da
questão… pensarão os burocratas de Bruxelas.

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Porém, as coisas são mais complicadas do que o acima referido desempenho,
previsto pela UE, enunciado, para brilhar recentemente na cimeira de Katowice. Há um
paralelismo histórico entre a produção de energia e as emissões de CO2 (v. figura
abaixo); e a substituição de uma forma de apresentação da energia fóssil por outra,
deixa sempre na base uma produção de CO2. Pode começar-se a cozinhar numa
fogueira, passar daí a um fogareiro a petróleo, depois um outro a gás ou elétrico que
sempre haverá uma fatia de combustível libertadora de CO2; a não ser que a energia
tenha origem numa fonte renovável ou numa central… nuclear.

Fonte: BP Statistical Review of World Energy 2018

Entretanto massificou-se o uso irracional do automóvel pessoal, o uso do avião, as


longas viagens nas cadeias logísticas e na distribuição, em prejuízo, por exemplo, do
comboio; como se massificou a utilização de tomadas elétricas, pilhas e baterias numa
infinidade de objetos e aparelhos, na indústria, nos serviços, nos lares, nos bolsos ou
nas orelhas. No fundo, só uma parcela pequena provém de energia hídrica, solar ou
eólica… como se observará, neste texto, nos Anexos 1 e 2.

O problema da reciclagem dessas pilhas e baterias e a raridade dos metais usados em


telemóveis e afins, cruza-se com a selvajaria e a economia do crime que rodeia muita
da sua extração, em África, o continente mais rico naqueles metais. O combustível das

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centrais nucleares, sem emanarem CO2, obriga a soluções para os resíduos
radioativos, que são caras quando minimamente decentes; ou, mais baratas, se
aqueles são despejados em alguns países, contra um despejo de moeda forte num
offshore, às ordens dos oligarcas locais. Para além do encaminhamento dos resíduos,
há a considerar os casos devastadores, ainda que atípicos, de Chernobyl ou
Fukushima; e isso, a despeito de cientistas conceituados como Lovelock entenderem
que o nuclear seria uma solução excelente para a produção de energia, uma vez que
não produz efeitos de estufa.

As distintas fases de desenvolvimento capitalista que coexistem no mundo


correspondem a diferentes patamares de consumo energético. Nos países mais ricos,
a acumulação de capital e as disponibilidades de tecnologias permitem, por um lado,
investir em formas menos poluentes de produção energética; e, ao mesmo tempo,
exportar as indústrias mais “sujas” ou, deslocalizar apenas segmentos - ou mesmo
toda uma fileira - que enforme um dado produto final, para os locais onde o trabalho
seja mais barato e as normas salariais ou ambientais menos exigentes.

Nos países pobres, as pessoas não gostam de viver com carências, alimentares, na
saúde, na educação, com menor longevidade ou, no meio de lixo e poluição; mas
gostariam de ter os bens e serviços que existem nos países mais desenvolvidos. E,
por isso, aceitam ser um misto de beneficiários e vítimas da enviesada distribuição da
produção capitalista que tem como principais determinantes e beneficiárias as grandes
multinacionais sedentas de lucros e que delegam em oligarcas e corruptos nacionais o
papel de manageiros dos seus próprios povos, tratados como gado.

No seguimento dessa “exportação” de lixo ou poluição, os países mais ricos podem


apresentar-se como ambientalmente mais avançados, com um alto nível de apuro
ambiental e mostrar-se muito ecológicos; e centrar-se nas áreas de negócio onde a
rotação dos capitais é mais rápida e o investimento material menor – a área financeira
e os serviços exigentes de maiores qualificações – consultadoria, publicidade,
conteúdos, gestão da informação… O seu azar é que o planeta é só um, que as suas
diversas parcelas estão integradas através de crescentes e mais densas interligações;
com a deslocalização, as emissões apenas mudam de local do planeta onde se
produzem, não alterando nada, em termos planetários.

2 - O consumo energético no planeta (2007/17)

A evolução do consumo energético global mostra que em dez anos o seu volume
aumentou 16.6%; o que situando-se aquém do crescimento da economia global, não
deixa de ser preocupantemente elevado.

Evidencia, porém, duas realidades bem distintas que segmentam o mundo em dois
blocos distintos. Um, composto por três conjuntos – Europa, América do Norte e ex-
CEI3 - onde o consumo se reduz; e, uma outra realidade onde o consumo aumenta,
constituída pelos países do Médio Oriente, da América Central e do Sul, de África e da
3
CEI – Comunidade de Estados Independentes, uma estrutura efémera constituída por antigas repúblicas soviéticas

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Ásia-Pacífico, de acordo com a classificação dos países utilizada pela BP – British
Petroleum. Como é evidente, no seio de cada conjunto, há situações distintas quanto à
evolução e quanto à dimensão do consumo (ver Quadro I). Outra abordagem
interessante seria observar a correlação entre as variações do consumo energético e
as variações do rendimento; sobretudo tendo em conta os impactos da crise
financeira, a qual se manifestou de modos distintos, em várias latitudes.
Quadro I
Consumo mundial de energia primária (Milhões TEP – ton. equivalentes de petróleo)

2007 2017 var % 2007 2017 var %


Mundo 11588,4 13511,2 16,59 América Norte 2809,5 2772,9 -1,30
Europa 2041,7 1969,5 -3,54 EUA 2320,8 2234,9 -3,70
Alemanha 331,9 335,1 0,96 Amér. Cent./ Sul 587,0 700,6 19,35
Espanha 158,6 138,8 -12,48 Brasil 229,6 294,4 28,22
França 260,2 237,9 -8,57 Medio Oriente 618,2 897,2 45,13
GB 223,1 191,3 -14,25 Irão 202,6 275,4 35,93
Itália 183,4 156,0 -14,94 Arabia Saudita 169,0 268,3 58,76
Noruega 45,9 47,5 3,49 África 346,9 449,5 29,58
Polónia 95,7 102,1 6,69 Africa do Sul 116,9 120,6 3,17
Portugal 25,4 26,4 3,94 Asia-Pacífico 4195,2 5743,6 36,91
Rep Checa 45,4 41,6 -8,37 China 2150,3 3132,2 45,66
Suécia 54 54,4 0,74 India 450,4 753,7 67,34
Turquia 100,4 157,7 57,07 Japão 524,4 456,4 -12,97
Antiga CEI* 989,8 978,0 -1,19 Coreia do Sul 236,7 295,9 25,01
Russia 673,1 698,3 3,74 * Comunidade de Estados Independentes
Fonte: BP Statistical Review of World Energy 2018

Entre os países europeus selecionados, observam-se quebras significativas na Grã-


Bretanha, na Itália e em Espanha mas um forte incremento na Turquia que mostra
uma evolução com um perfil mais próximo dos seus vizinhos a sul, no Médio Oriente.
Na América do Norte a quebra do consumo é marcada pela relevância regional dos
EUA. Na ex-CEI observa-se uma quebra que constitui o saldo do aumento do
consumo russo comparado com a grande redução registada na Ucrânia (cerca de
40%).

Em termos de aumentos de consumo sublinham-se os casos da América Central e do


Sul, do Médio Oriente e da Ásia-Pacífico. No primeiro caso destaca-se o Brasil e
quanto ao Médio Oriente, as grandes potências produtoras de petróleo e gás são
também enormes consumidores, sobretudo a Arábia Saudita, cujo consumo global é
próximo do iraniano ainda que com uma população três vezes inferior. Finalmente, na
Ásia-Pacífico apresentam-se fortes crescimentos de consumo inerentes à caminhada
da região como principal polo de dinamismo da economia global; nessa região, duas
das economias mais capitalizadas – Japão e Coreia do Sul – mostram direções
antagónicas no capítulo da evolução do consumo energético. Ainda no que respeita ao
Japão é interessante notar-se o decrescimento de 90 % na energia nuclear (para além
do petróleo), como efeito do desastre de Fukushima, compensados parcialmente com
um maior uso de gás e do recurso a energias renováveis. A Índia, no quadro acima, é

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o país com maior crescimento do consumo; no entanto, o seu consumo global situa-se
próximo da quarta parte do consumo chinês, embora as suas respetivas populações
tenham quantitativos próximos.

Note-se ainda que a China é o maior consumidor mundial de energia e responsável


por cerca de metade do aumento do consumo mundial verificado entre 2007 e 2017.
Enfim, o mundo é a cores mas, do ponto de vista do consumo energético global e do
subsequente impacto ambiental, as tonalidades apresentam-se escurecidas.

Assim, como os valores globais demonstram, através do crescimento de 16.6% do


consumo energético no período 2007/17, esse aumento é uma síntese de vários
elementos, atuando em sentidos distintos e com causas diversas:

 Um desses elementos aplica-se aos países com um padrão de desenvolvimento


capitalista que podemos designar por maduro. Trata-se ali de uma
desindustrialização cujo início se pode colocar na segunda metade dos anos 70,
após o grande aumento do preço do petróleo; daí resultou uma concentração da
atividade económica nas áreas dos serviços e das finanças, em regra menos
energívoras. Porém, a densidade das trocas e a vulgarização da mobilidade
pessoal em veículo próprio joga em sentido contrário;

 Essas alterações na estrutura industrial – quantitativa e qualitativa – nos países


ricos corresponderam à deslocalização de setores de atividade na sua totalidade,
como a siderurgia ou, de componentes industriais, por razões de ecológicas mas,
sobretudo, para onde os danos ambientais são menos valorizados, os preços do
trabalho mais baixos, as normas laborais menos exigentes e os regimes políticos
mais intratáveis face a reivindicações dos trabalhadores;

 Em termos globais, essa deslocalização não tem grandes impactos no consumo


energético ao nível da produção mas, como aumenta em muito a distância entre a
produção e a utilização final, promove um substancial aumento da utilização das
redes logísticas e de transporte, com o consequente acréscimo de emanações
nocivas. Assim, no quadro acima, as reduções observadas nos países ricos terão
de ser desvalorizadas tendo em conta que correspondem a parcela dos aumentos
registados nas periferias; pouco se alterando a situação global;

 Os países com rendimentos elevados ou médios atravessaram uma década de


baixo desempenho das suas economias, na sequência da crise financeira
simbolicamente iniciada com a derrocada do Lehman Brothers. E isso, teve um
natural impacto negativo no consumo energético;

 A preocupação pelos impactos da atividade económica e doméstica no meio


ambiente desenvolveu-se muito nas últimas décadas, com medidas que focaram a
poluição industrial, os lixos, a contaminação de águas e solos, o perigo do
nuclear, as emanações dos veículos, com a produção de equipamentos industriais

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e domésticos com menores consumos. A massificação dos veículos elétricos
durará algumas décadas porque os rendimentos familiares estão condicionados
pela compressão salarial e pela punção fiscal e, continuando os veículos a
consumir energia, qualquer que ela seja, terá de ser produzida algures;

 Tendo em conta que o ambiente é global e não reconhece fronteiras estatais, as


transferências de atividades económicas mais consumidoras de energia por
unidade de produto, dos países ricos para as periferias, não admitem que
mandarins e ecologistas de pacotilha se apresentam como campeões na defesa
do ambiente, visando um menor impacto ambiental; este, globalmente é apenas
transferido de lugar, é falso em substância ou mesmo, aumentado;

 Muitos dos novos países “industrializados”, além da herança de desestruturação


económica e social oriunda da colonização ocidental incorporam, muitos deles,
um conjunto de retalhos industriais, não integrados entre si mas antes, nas
cadeias logísticas das multinacionais; e como os rendimentos não são elevados
ou melhor, são claramente abaixo dos vigentes nos países ricos, faltam recursos
para evitar a pobreza, para uma utilização mais racional do consumo de energia
ou para produzirem custos ambientais aceitáveis;

 Por seu turno, as classes políticas dos países periféricos, tornando-se


mandatários das transnacionais e propagandistas dos modelos consumistas das
sociedades ocidentais, pretendem conciliar o aumento das suas rendas e a
manutenção no poder, com a elevação dos níveis de vida das suas (crescentes)
populações; um equilíbrio difícil no âmbito do qual a eficiência do consumo
energético e a qualidade do ambiente ficam prejudicados;

3 – As capitações de consumo energético

O consumo bruto de energia em cada país ou conjunto de países apresentado no


quadro anterior ganha maior significado se se conhecer o valor médio desse consumo
por habitante, medido em TEP. Nesse contexto, é possível avaliar a pegada
energética e as diferenças na sua dimensão para vários países. (ver Quadro 2)

TEP/hab Quadro 2
2007 2017 2007 2017
Mundo 1,7 1,8 Turquia 1,4 2,0
Europa 3,4 3,3 Rússia 4,7 4,8
Alemanha 4,1 4,1 EUA 7,4 6,9
Espanha 3,4 3,0 Brasil 1,2 1,4
França 4,0 3,6 Irão 2,7 3,4
GB 3,5 2,9 Arábia Saud. 6,2 8,3
Itália 3,1 2,6 África 0,3 0,4
Noruega 9,4 9,0 Africa do Sul 2,2 2,2
Polonia 2,5 2,7 China 1,6 2,2

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Portugal 2,4 2,5 India 0,4 0,6
Rep. Checa 4,3 3,9 Japão 4,1 3,6
Suécia 5,7 5,6 Coreia do Sul 4,7 5,8
Fonte: BP Statistical Review of World Energy 2018

O indicador do consumo global por habitante pouco se alterou entre os dois anos
considerados mas, esconde notáveis diferenças:

 Entre os países considerados e com maior desenvolvimento capitalista os


indicadores mostram-se mais elevados do que a média mundial e, na sua maioria,
com um pendor decrescente;

 Entre os países da UE considerados apenas se registam aumentos do consumo


por habitante na Polónia e em Portugal;

 O caso de maior consumo por habitante observa-se na Noruega e nos EUA em


2007 enquanto este último país, em 2017, é ultrapassado pela Arábia Saudita que
apresenta um notável crescimento, tal como acontece com a Coreia do Sul;

 A China em 2017 tornou-se o maior consumidor de energia, ultrapassando os


EUA que ocupavam essa posição dez anos antes. No entanto, a capitação do
consumo energético no país, apesar de ter crescido na década, não passa de
constituir apenas 1/3 da capitação norte-americana, em 2017;

 São particularmente baixas as capitações de consumo energético registadas em


África e na Índia que, em conjunto, representam cerca de 1/3 da Humanidade;

 Em suma, o desenvolvimento capitalista tem promovido evidentes efeitos no


crescimento do consumo energético. As altas capitações dos países ditos
desenvolvidos (ou da petromonarquia saudita) tendem a constituir o exemplo a
seguir pelos países que pretendem seguir o seu modelo de desenvolvimento
capitalista. A entrada acelerada de vastas regiões, mormente da Ásia, naquele
processo, conduz ali a aumentos na capitação de consumo energético, em
contrapartida das reduções observadas nos países com estruturas capitalistas
mais antigas que tendem a reduzir os seus índices de consumo energético;

 Essas duas tendências, de sinal contrário, poderão, a médio prazo, cruzar-se num
intervalo mais estreito, à medida que as novas tecnologias permitam custos
suficientemente baixos, acessíveis às vastas camadas sociais de baixos
rendimentos dos países ricos e às crescentes camadas médias dos países ditos
em desenvolvimento. Qual será a resultante?

4 - Os futuros Katowices

Podem inventar mais frequentes conclaves do tipo Katowice, onde se cruzam


membros ilustres das classes políticas nacionais, portadores de ordens emanadas das

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multinacionais, para não apresentarem mais que soluções-placebo ou rematados
embustes, como a proposta da UE atrás mencionada.

Por outro lado, nem tudo se pode resolver no âmbito de atitudes e práticas individuais
conducentes a um contributo mínimo para as alterações climáticas; sobretudo,
sabendo-se que as práticas individuais estão muito marcadas pela ideologia
consumista que se apresenta como o instrumento para atingir a felicidade. Até porque,
como se viu na primeira parte deste artigo, as principais responsabilidades do desvario
ambiental cabem à indústria energética que explora os combustíveis fósseis e à sua
preocupação na contenção de investimentos que prejudiquem a distribuição de lucros
aos acionistas; uma indústria que está bem inserida nas torres de controlo das
decisões estatais.

Se a causa dos sofrimentos da Humanidade e dos danos provocados no ambiente


global é o capitalismo, em geral - e os seus promotores e beneficiários, em particular -
focar o combate nos seus nefastos efeitos pouco ou nada resolve. É como tentar
enxugar a água que inundou uma casa, sem fechar a torneira de onde ela jorra.

É necessária uma atuação global, concertada e solidária dos povos, sabendo-se que
os capitalistas e as classes políticas tudo farão para dividir os humanos e suprimir
todos os esforços que afetam a produção de lucros ou os seus privilégios. Pensar o
contrário, é semelhante a esperar encontrar o pai natal sentado na chaminé a
descarregar o saco dos presentes.

Coloca-se a questão de uma alteração no modo de organização, de convivência e de


inter-relação entre os humanos; resultados credíveis ou visíveis dificilmente surgirão
com a presença do capitalismo numa velocidade de cruzeiro. É da convivência
humana, da reformulação dos seus objetivos de vida que surgirão as grandes
alterações nos paradigmas de construção social. O decrescimento ou as práticas
responsáveis de consumo, de per si são apenas formas de medir a pegada da marcha
do capitalismo; podem-no fazer reduzir o ritmo da marcha mas não provocar o seu
tombo no chão.

Neste contexto, é todo o edifício em que assenta o capitalismo que deve ser posto em
causa; é preciso passar da denúncia e não afunilar a ação em soluções empacotadas
em abaixo-assinados junto dos grandes poderes económicos e políticos, na presunção
de que, arrependidos, irão mudar de rumo; ações que, na verdade, não mobilizam
ninguém, para além de uma distraída assinatura. Uma vez mais surge a vã esperança
do arrependimento (inserida no ideário cristão) por parte dos arquitetos da constante
adaptação do sistema capitalista visando a sua perenidade. No mais sagrado da sua
lógica está a da acumulação de capital e não podem ter outra, porque qualquer
alternativa, seria a sua morte; e por isso, de motu próprio, jamais mudarão algo de
essencial.

Essas piedosas iniciativas podem servir de entretenimento para muitos dos que acham
poder civilizar a selvajaria capitalista, sensibilizando os mandarins das classes
políticas, procurando apoios entre aquelas. Isso não acontece, nomeadamente com

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poderes tão estruturados e repletos de meios ideológicos, materiais e financeiros para
enganar, conduzir e reprimir a plebe; sem a já referida rede rizomática que enquadra
milhões de pessoas, não se vai a lado algum.

O capitalismo pode encarar, num cenário apocalíptico, encetar uma redução da


população global para 600 M de pessoas; mas, não pode admitir condições globais tão
extremas como um caos social, com levantamentos populares em que o próprio
capitalismo se esvai junto com a água do banho. Para a Humanidade evitar esse
cenário apocalíptico, só lhe resta extinguir o actual paradigma económico –
capitalismo – e o presente modelo político de representação, que designamos por
democracia de mercado. Tudo o mais são placebos.

Anexo 1 – As várias fontes do consumo energético

O quadro que se segue contempla o consumo mundial de energia primária (medido


em milhões de TEP – ton. equivalentes de petróleo), repartido para cada uma das
principais fontes de energia, para os anos 2007 e 2017.

 A nível global e na década finda em 2017, todos os tipos de energia


consumidos aumentaram o seu volume global excepto a energia nuclear, com
fortes reduções na Alemanha, na Itália em França e na Ásia-Pacífico; aqui, na
sequência do encerramento forçado de Fukushima;
 Na Europa em geral, observa-se um decréscimo do consumo de energias
fósseis, sobretudo no caso do carvão, com uma particular excepção na
Turquia;
 Os casos de reduções no consumo quase se restringem à Europa e à América
do Norte, não se podendo medir com rigor o que resultou de medidas com
objetivos de redução de emissões e o que derivou das sequelas da crise
financeira;
 Na América Central e do Sul, como em África ou na Ásia, o consumo de
energias fósseis apresentou, em geral, um crescimento significativo;

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 Quanto às energias hidroelétrica e outras renováveis sublinha-se a sua grande
progressão na Ásia-Pacifico, região que se apresenta como a principal
produtora de ambas; sobretudo porque o petróleo e o gás natural não são ali
muito abundantes.

PETRÓLEO GÁS NATURAL CARVÃO


var
2007 2017 var % 2007 2017 var % 2007 2017 %
Mundo 3939,4 4621,9 17,3 2652,2 3156 19,0 3194,5 3731,5 16,8
Europa 731,2 457,2 296,4
947,5 -1,4 1024,5 -7,14 528,9 -14,27
Antiga CEI* 203,4 494,1 157,0
Alemanha 112,5 119,8 6,5 74,6 77,5 3,9 85,7 71,3 -16,8
França 91,3 79,7 -12,7 38,3 38,5 0,5 12,3 9,1 -26,0
Itália 84,0 60,6 -27,9 70,0 62 -11,4 17,2 9,8 -43,0
Espanha 78,8 64,8 -17,8 31,6 27,5 -13,0 20,2 13,4 -33,7
Grã-Bretanha 79,2 76,3 -3,7 81,8 67,7 -17,2 38,2 9,0 -76,4
Rússia 126,2 153 21,2 383,1 365,2 -4,7 93,5 92,3 -1,3
Turquia 30,5 48,8 60,0 31,6 44,4 40,5 31,0 44,6 43,9
América Norte 1134,5 1108,6 -2,3 739,3 810,7 9,7 614,6 363,8 -40,8
América C /Sul 260,0 318,8 22,6 124,1 149,1 20,1 22,5 32,7 45,3
Médio Oriente 290,1 420,0 44,8 273 461,3 69,0 9,3 8,5 -8,6
África 129,9 196,3 51,1 80,3 121,9 51,8 105,7 93,1 -11,9
Asia-Pacífico 1177,4 1643,4 39,6 411,2 661,8 60,9 1913,5 2780,0 45,3

NUCLEAR HIDROELÉTRICA RENOVÁVEIS


2007 2017 var % 2007 2017 var % 2017
Mundo 622,5 596,4 -4,2 695,8 918,6 32,0 486,8
Europa 192,5 130,4 161,8
276,4 -6,5 179,6 4,2
Antiga CEI* 65,9 56,7 0,9
Alemanha 31,8 17,2 -45,9 4,7 4,5 -4,3 44,8
França 99,6 90,1 -9,5 13,3 11,1 -16,5 9,4
Itália 33,7 -100,0 7,3 8,2 12,3 15,5
Espanha 12,5 13,1 4,8 6,0 4,2 -30,0 15,7
UK 11,9 15,9 33,6 0,0 1,3 - 21,0
Rússia 36,9 46 24,7 40,4 41,5 2,7 0,3
Turquia 0 0 0,0 8,0 13,2 65,0 6,6
America Norte 215,4 216,1 0,3 145,6 164,1 12,7 109,5
America C /Sul 4,4 5 13,6 152,6 162,3 6,4 32,6
Medio Oriente 0 1,6 - 5,2 4,5 -13,5 1,4
África 3 3,6 20,0 22,1 29,1 31,7 5,5
Asia-Pacífico 123,3 111,7 -9,4 190,7 371,6 94,9 175,1
Fonte: BP Statistical Review of World Energy 2018

Anexo 2 – A distribuição espacial dos vários tipos de consumo energético

Repartição das principais fontes do consumo de energia


Milhóes TEP PETRÓLEO(%) GÁS NAT. (%) CARVÃO (%)

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2007 2017 2007 2017 2007 2017 2007 2017
Mundo 11104,4 13511,2 35,5 34,2 23,9 23,4 28,8 27,6
Europa 2956,9 1969,5 32,0 37,1 34,6 23,2 17,9 15,0
Antiga CEI* nd 978,0 nd 20,8 nd 50,5 nd 16,1
Alemanha 309,3 335,1 36,4 35,8 24,1 23,1 27,7 21,3
França 254,8 237,9 35,8 33,5 15,0 16,2 4,8 3,8
Itália 212,2 156,1 39,6 38,8 33,0 39,7 8,1 6,3
Espanha 149,1 138,7 52,9 46,7 21,2 19,8 13,5 9,7
Grã-Bretanha 211,1 191,2 37,5 39,9 38,7 35,4 18,1 4,7
Rússia 680,1 698,3 18,6 21,9 56,3 52,3 13,7 13,2
Turquia 101,1 157,6 30,2 31,0 31,3 28,2 30,7 28,3
America Norte 2849,4 2772,8 39,8 40,0 25,9 29,2 21,6 13,1
America C /Sul 563,6 700,5 46,1 45,5 22,0 21,3 4,0 4,7
Medio Oriente 577,6 897,3 50,2 46,8 47,3 51,4 1,6 0,9
África 341,0 449,5 38,1 43,7 23,5 27,1 31,0 20,7
Asia-Pacífico 3816,1 5743,6 30,9 28,6 10,8 11,5 50,1 48,4

NUCLEAR (%) HIDROELÉT. (%) RENOVÁV. (%)


2007 2017 2007 2017 2007 2017
Mundo 5,6 4,4 6,3 6,8 nd 3,6
Europa 9,3 9,8 6,1 6,6 nd 8,2
Antiga CEI* nd 6,7 nd 5,8 nd 0,1
Alemanha 10,3 5,1 1,5 1,3 nd 13,4
França 39,1 37,9 5,2 4,7 nd 4,0
Itália 15,9 0,0 3,4 5,3 nd 9,9
Espanha 8,4 9,4 4,0 3,0 nd 11,3
Grã-Bretanha 5,6 8,3 0,0 0,7 nd 11,0
Rússia 5,4 6,6 5,9 5,9 nd 0,0
Turquia 0,0 0,0 7,9 8,4 nd 4,2
America Norte 7,6 7,8 5,1 5,9 nd 3,9
America C /Sul 0,8 0,7 27,1 23,2 nd 4,7
Medio Oriente 0,0 0,2 0,9 0,5 nd 0,2
África 0,9 0,8 6,5 6,5 nd 1,2
Asia-Pacífico 3,2 1,9 5,0 6,5 nd 3,0
Fonte: BP Statistical Review of World Energy 2018

 A utilização de combustíveis fósseis corresponde a mais de 85% do


consumo energético em 2017, sendo pouco significativa qualquer
evolução positiva que se tenha verificado desde 2007;
 No que se refere ao petróleo, num contexto de ligeiras alterações da sua
relevância relativa global no período 2007/17, há a destacar o aumento
do seu consumo na Europa e em África, com reduções do seu papel no
Médio Oriente e na Ásia-Pacífico;

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 Quanto ao gaz natural verifica-se uma forte quebra da sua utilização na
Europa, com aumentos significativos da sua quota na América do Norte,
no Médio Oriente e em África;
 A energia nuclear só tem relevância em alguns países da Europa e da
América do Norte;
 O carvão, sendo o mais poluente dos combustíveis fósseis, manteve a
sua quota no consumo global. Sublinham-se as quebras do seu uso na
América do Norte e em África e que o seu principal consumo se observa
na Ásia-Pacífico;

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