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Acont @CCL Especial 15

CEDI – Centro Ecumênico de Documentação e Informa ção

|GENAS
NO BRASIL/1984
*
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POVOS INDÍGENAS NO BRASIL/CEDI

PUBLICAÇÕES DA SÉRIE
POVOS INDIGENAS NO BRASIL

Aconteceu -
POVOS INDIGENAS
NO BRASIL
3AMapa nonre no PARA POVOS
INDÍGENAS
N{
BRASIL/83

| | | | | | | | | | | | |

18 VOLUMES, POR ÁREA ACONTECEU ESPECIAL:


ATUALIZAÇÃO PERMANENTE

Plano da Obra: Povos Indígenas no Brasil é uma obra com Além dos livros, que vão saindo aos poucos, anualmente se
posta de 18 volumes que sistematiza os resultados de uma publica um número do ACONTECEU ESPECIAL, com
ampla pesquisa-movimento, envolvendo antropólogos, mis informações sobre os povos indígenas de todo o país. Desde
sionários, indigenistas, índios, fotógrafos, lingüistas, jorna o nº 14 (1983), o ACONTECEU está organizado interna
listas, médicos e outros, sobre os povos indígenas que exis mente segundo as mesmas "Áreas” da série de livros, fun
tem hoje no Brasil. Cada um desses volumes contém texto, cionando assim como uma espécie de “livro do ano”, um
fotos, iconografias, mapas, documentos, depoimentos e espaço para atualizações permanentes.
fontes sobre os povos indígenas existentes em cada Área

1. Noroeste da Amazônia Todas essas publicações


2.1. Roraima – lavrado podem ser conseguidas
2.II, Roraima-mata no CEDI

@ Amapá/Norte do Pará
4 Solimões Av. Higienópolis, 983
5 Javari 01238 São Paulo, SP
Brasil
6. Juruá/Jutaí
10 tel.: (011). 66.7273
7 Tapajós/Madeira
8 Sudeste do Pará Rua Cosme Velho, 98 – fundos
Maranhão 22241 Rio de Janeiro, RJ
9 Brasil
Nordeste tel.: (021) 205.5197
11. ACre
Rondônia
Oeste do MT
Parque Indígena do Xingú
Goiás / Leste do MT
16. Leste
17. Mato Grosso do Sul vols. Já
PUBLICADOS
18. Sul
sL7-Acervo
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Aconteceu

[…]
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2

Raoni, chefe Mentuktire (Txukarramãe) ao Ministro Andreazza: “Aceito ser seu


amigo, mas você tem que ouvir o índio” (Brasília, maio/84).
sL7-Acervo
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CEDI • •

Centro Ecumênico de Documentação e Informação


R. Cosme Velho, 98 fundos Cosme Velho :
22241 Rio de Janeiro RJ Brasil •

tel. (021) 205.5197


Av. Higienópolis, 983
Q1238 São Paulo SP Brasil
tel. (011) 66,7273

Conselho editorial •

Aloizio Mercadante Oliva, Jether Pereira Ramalho,


José Oscar Beozzo, Rubem Alves e Zwinglio Mota Dias.
Equipe de edição deste Aconteceu
Carlos Alberto Ricardo •

Dominique Gallois •

Fany P. Ricardo
Vincent Carelli

Editor de texto
Carlos A. Ricardo

Editor de foto
Vincent Carelli

Pesquisa e edição de notíci


Fany Ricardo '.

Montagem dos quadros


Fany P. Ricardo

Projeto gráfico
Delfim Fujiwara .

Revisão
Dominique Gallois
Fany P. Ricardo
Regina Müller

Mapas .
Mauricio Piza

Arte final
Marco Antonio Teixeira de Godoy

Foto da capa:
Beth Cruz/AGIL

Composição •

Forma Composições Gráficas Ltda.


R. Caramuru, 1196
São Paulo, SP

Fotolito.
Fototraço Ltda.
Impressão. - *: .:: .. *-*

GRÁFICA E EDITORA FCA


Av. Humberto de Alencar CasteloBranco, 3972
São Bernardo dó Campo, SP, Brasil

Colaboraram: • •

Agência F4, Agil Fotojornalismo, Ângela Cristina Fernandes,


CIMI Norte I, CIMI AC, CIMIRO, Edna Maria Souza, Kátia Aguiar,
Loretta Emiri, Maria do Rosário Carvalho, Marco Antonio Lazarin,
Marta Azevedo, Robin Wright, Sérgio Alli, Sonali Bertuol,
Terri Vale de Aquino, Virgilio Lorencetti.

Sagarana Editora Ltda.


Caixa Postal58071
01397 São Paulo SP
Brasil
Aconteceu Especial 15

Povos NDÍGENAs
No BRASIL/84

CEDI Centro Ecumênico de Documentação e Informação |


*Ov3S fNDiGENAS NO BRASIL/CEDi

Fontes
A Crítica (Manaus, AM)
A Notícia (Manaus, AM)
A Tribuna(Santos, SP)
Cidade de Santos (SP)
Correio Braziliense
Correio do Estado (Campo Grande, MS
- Diário do Acre -

Diário do Comércio (MG)


Diário do Comércio e Indústria (SP)
Diário
Diário do Congresso
de Cuiabá Nacional(BSB)…
(MT) .… •
...
Diário do Grande ABC (SP) •

Diário da Manhã (Goiânia, GO) -


Diário de Minas
Diário Oficial da União (BSB)
Diário de Pernambuco
Diário do Povo (Campinas, SP)
Diário Popular (SP)
Estado de Minas
Folha do Acre
Folha de Boa Vista (RR)
Folha de São Paulo (FSP)
Fôlha da Tarde (SP)
Gazeta de Alagoas
Cazeta Mercantil(SP)
Gazeta de Notícias (RJ)
Jornal da Bahia
Jornal do Brasil (JB)
Jornal de Brasília
Jornal do Comércio (Manaus, AM}
Jornal do Commércio (Recife, PE)
Jornal de Minas
Jornal de Sata Catarina
Jornal da Tarde (SP)
Notícias Populares (SP)
O Acre
O Dia (RJ)
O Estado (Florianópolis. SC)
O Estado do Paraná
D Estado de São Paulo (ESP)
O Estadão (RO)
O Fluminense
O Globo (RJ)
O Guaporé (RO)
O Liberal (Belém, PA)
O Popular (Goiânia, GO)
O Povo (Fortaleza, CE)
O Rio Branco (AC)
O Roraima
Popular da Tarde (SP).
Porantim (BSB)
Revista Brasil Mineral (SP)
Revista Minérios Extração e Processamento (SP)
Tribuna da Imprensa (RJ)
Tribuna da Ribeira (SP)
Última Hora (BSB)
Zero Hora(RS) .
*
(*)

Indice

Apresentação...................... ……… . 11

A UNI e o Movimento Indigena (Ailton


Krenak)..................................... 13

IIº Encontro dos Povos Indígenas ................. 16


Simpósio “Indios e Estado”............... - - - - - - - 18
CMPI .................. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 18
Comissão do Indio............................ ... 19
FUNAI ........... ………… . . . . . . . . . . . . . . . . 20 . .
Juruna . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
Itamaraí Nambiquara........... - - - - - - - - - - - - - - - - 27

Mineração em Areas Indígenas............... 29

FUNAI ........... . . . . . . . . . . . - - - - - - - - - - - - - - - - . 30
Entidades de Apoio ...... : : : : : : ::::::::::::::::: 31
Estatais ......... ** • • • • • • • • • * * * * * * • • • • = = = = = = = • • . 34
Geólogos ............* • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • 34
No Congresso ................... - - - - - - • • • • • • • • . 36
CIMI/CNBB .......................... • • • • • • • • 37
MME/DNPM , , , , , , . . ., - - - - - - - - - …… - - - - - - 37
| Decreto Suspenso ............. • • • • • • • • • • • • • • • • • 38
Empresas Estaduais ............................ 38
Empresas Privadas ........... *• • • • • • • • • * * * * * = + • • 39
Pecuaristas ............... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41

As Populações Indígenas e a Constituinte


( BrunaFranchetto e Claudia Menezes)...... 42

Constituinte ..... ………………………… 45

Demarcações: uma Avaliação do GT-Inter


ministerial (Alfredo Wagner B. de Almeida
e João Pacheco de Oliveira Fº)............... 48

As Áreas Indígenas e o Mercado de Terras


(Alfredo Wagner B. de Almeida)............. 53
Os empresários e as demarcações ..... • • • + + + + + + + + ... 60
Polêmica: o Convênio SIL/FUNAI............... . 61
*
=/ #
Ecºs NoiceNAs No enasl/cED
Noroeste Amazônico ........................ 65
Mapa - . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . - - - - - - - . . . . . . . . . . . . 66
Quadro .. . . . . . . . . . . . - - - - - - - - - - - - * # # $ $ * # 4 + · · · · = 67
Febre do Ouro no Alto Rio Negro (Gabriel dos Santos
Gentil e Álvaro F. Sampaio) ..................... . 68
I Demarcação Urgente (Renato Athias) ............. 70
| Escola ....... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . * # & = = ** * * "... 72
Território Federal Indígena .................. .... 72
Mineração . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73
Ipadú ................ . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 74

Roraima I............... * * * * = = = = = + + + + + + + + + + + 75

Mapa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . * # + + + + + + + H = = = 76
Quadro ........." + s = º * ,
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 77
: Assembléia de Tuxáuas do Lavrado (Alcida Rita Ra
• mos e Marco A. Lazarin) ........................ 78
: Gerais ................................. .* * * * * * * 83

Roraima II...... • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • . 85

Mapa ................. • • • • • • • • - - - - - - - - - - - - - - - 86
Quadro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87
Garimpeiros e Mineradoras disputam Surucucus
(Cláudia Andujar) ........ ….... . . . ....
* * # à # # % ~ + 88
| • • Geral ..................... . . . . . . . . . . . . . . . . . . ... 93
; Yanomami .......... - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 93
Waimiri-Atroari .......... - - - - - - - - - - - - * * * * ** * * * * 98

| Amapá/Norte do Pará ..... - - - - - - - - - - - - - - - - - 99

Mapa - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - . . . . . . . . . . . . - - - - . 100
Quadro ............... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . -- 101
Notícias de Oiapoque (Frederico de Oliveira) ........ 102
Gerais ...........--- . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 104
Os Waiãpi e os Garimpos (Dominique Gallois)...... 106
Waiãpi …....... - - - - - - - - - - - - - - ................. 109
GT-FUNAI Identifica AI-Paru de Leste (Lúcia Hussak
van Valthem) ................................ ... 110
Parque Indígena Tumucumaque .................. 111
Wayana-Aparai ..... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 111
Arredios do Cuminapanema ..................... 112

Solimões .................................... 113

Mapa ........ * - - - - - - - - - • • • • • • • • • • • • • •
* 114
# # # # # 4 &

Quadro ........................... - - - - - - - - - - - . . 115


Invasões, Conflitos e Mais Promessas de Demarcação
para os Ticuna (João Pacheco de Oliveira Fº e Vera
Paoliello) .....................................
117
Ticuna ....................................... 124

Javari ........... ………………………… "


Mapa - - - - - - - - - - - . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . * * * * * * * 128
Quadro ..….......…...................- * * * * * * . 129
A Petrobrás e os Arredios do Itacoaí e Jandiatuba
(Araci Maria Labiak e Lino João O. Neves) ......... 130
Parque do Javari .......... * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 133
A Petrobrás e o Gás do Juruá ...................... #33
“Korúbo” ........ . . . . . . .. ... .. . . . ----------. .. 134
Juruá/Jutaí/Purus ...................... .... 135
Mapa ............... · · · · · · · · · · · · - - - - - - - - - - - - - 136.
Quadro .............. • • • • • • • • • • • • + + + + + + + + + + 137 + + -=

Gerais ....... • • • • • • • • • * - - - - - - - - - - - - - - - - - - ... . . 139


Deni ..................... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 139
Katukina/R. Biá ....... *• • •= = 139= + + + + * * * * * * * * * * * * * .s =

Kanamari/R. Itucumã ................ 140 ** + • • • • • • + =

Kanamari/R. Jutaí ............................. 140. .


Kulina ......... • • • • • • • • • • • • • • - - - - - - - - - - - - - - - - - 141
Zuruahá ..... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..... 142

Tapajós-Madeira ............................ 143

Mapa ............ . . . . . . . . . . . .. * * .* * * * * * * * 144 * * • • • •

Quadro .............. • • + + + + + + + + + + + - - - - - …… 145


GT-FUNAI Identifica AI-Tenharim (Miguel Menedez) 146
Tenharim ..................................... 148
Mura-Pirahã ......... • + + ā + * * * * * • • • • = s = + • • • • • + + 148
O Caso Elf (Epílogo) ............................ 148

Sudeste do Pará ............................. 151

Mapa ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 152


. = s = + + + +

Quadro ........... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 153


Indenizações e jogo de flechas: a Guerra dos Gavião
(Iara Ferraz) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . - - - - . . . . . . . . . 155
Gavião .............. • • • • • • • • • • • • - - - - - - - - - - - - - 158
Juruna . . . . . . . . . . . . . . . • • • • • • • • • • • • • - - - - - - - - - - - - 160
Gorotire/Cumarú ............... + + + + ā ã å * • 163
• • • • • ' =

Mekragnoti .............. . . . . . . * * * # à = # * ..... 165


* *

Xikrin do Cateté .......... " + * * * * * • • • • = * * * . . . . . . . 165


Parakanã . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . - - - - - * * * * * * ..... 165

Maranhão ............. * * * * - - - - - - - - • • • • • ..... 169

Mapa .............. * * * * * * * * * * . .. . . . . .. ..----- 170


Quadro ............... • • • • • • • • • • • • • - - - - - - - - - - - 171
Guajajara ............. * * * * # + + 4 * * * * * * = = = = • • • • • + 172

Nordeste ............ • • + s = * * * * * - - - - - - - - - - - - - - 175

Mapa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . - - - - - - - - - - 176
Quadro ............... . . . . . . . . . . . . . . . - - - - - . . . . 177
Os Xokó e a Luta pela Terra (José Apolônio) ....... 179
Gerais ........... … . . . . . . . . . . . . . . . . . - - - - - - - - - - - 180
Atikum ..... 4* * * * * * * * * * * * * * 181 |
* * * * * * * * * * * * * • • • • • • •

Fulni-ô ................................. ...... 181


Kiriri . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . - - - • • • • • • • • 182
Pankararé............................ - - - - - - - - - 183
Pankararú ............... * - - - - - - - - - - - - - ........ 184
Tapeba . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . - 184
Tingui-Botó ....................... . . . . . . . . . . . . 185
Tuxá ...... - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 185
Wassu ............... - +- + • • * * * * * * * * * * * * * * • • • • • • • 186
*# •

—/^ | Ecºs INDIGENAs No BRASIL/CED


Acre........................................ . 187.

Mapa . . . . . . - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 188
Quadro . . . . . . . - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 189 * * * * * * * # + + + +

Auto-Demarcação Kulina e Kaxinauá (Rosa Monteiro,


Walter Sass, Lori Altmann e Roberto Zwetsch) ..... 191
“Fogo nos arraiais do Indigenismo” ............... 195
Ajacre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . - - - - - - - - - - - - - * * * * * * * 207
Demarcação ............ + + + + + + -4 + g = = = = = = & ........ 210
Educação ............. . * # : ; . i + # : ; # # : ; # = #, &, s = . … . . . . 210
Alto Purus/Transacreana ......................... 212
BR-364 ...... * * * * * * * - - - - - - - - - - - - • • • • • • • • • • • • • • 214
Apurinã do 45 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
214
Apurinã de Pauini .................... * * * * * * * * * * 215
Kaxinawá ....... - - - - - - - - - - … * * * * * * * * * * * * * * * * * * 216
Katukina/Kaxinawá .................. .......... 216
Grupos arredios ......................... ....... 216

Rondônia ................................. . . 217

Mapa .................. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 218 |


Quadro ....................................... 219
Avaliação do Polonoroeste: uma Proposta (Bety Min
dlin) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . - - - - - - - ….… ........
221
Gerais ....... + + + + + + + + + + + 225
+ + + + + + + + = * * * * * * * * * * = = =

Arara/Gavião ........................... * * * = = = = 226


Cinta-Larga ................................... 228
Mequém ..................* * * * * * * * * * * * * *- - - - - - - 229
Uru-Eu-Wau-Wau ................. . = = = = * * * * * * * * 229 |

Oeste do Mato Grosso ....... * # 4 = # = * * * * * * * * * = 231

Mapa ...... * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * - - ........ 232


Quadro .................... * :s s + ,$ * * * * * * * * i = i + i + 233
A História de Jacutinga (Silbene de Almeida) ....... 234
Kayabi e Apiaká ................ ... * a = * * * * * * * * * * 238
Geral .......................…....... * * * * * * * * * * 239.
Nambiquara ............ • • • • • • • • • • • - - - - = * * * * * * * 239
Pareci . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . # 4 # # # # # # E = E = + + + 240
Pareci/Iranxe ..... • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • 241
Rikbaktsá ............... * * * * * * * * *. . . . . . . . . . . . . 241
Enauenê-Nauê ................... * # = = = = = . 241
= = = +' + =

Parque Indígena do Xingú .................. 243

Mapa - - - - - - - - - - . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 244
Quadro - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 245
“A Guerra no Xingú”: Cronologia (Vanessa Lea e Ma
riana K. L. Ferreira) ..................... . . . . . . . 246

Goiás/Leste do Mato Grosso ................ 259

Mapa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .* * * * * * * * , 260
Quadro ........... .* * * * * * * * * * * * * * + + + + + + + + + + + + + + 261
Mutirão Guerreiro Conquista Demarcação Apinayé
(Vincent Carelli) ............................... 262
Ajarina ....... - - - - - - - * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *** * 267
Apinayé ........
Avá-Canoeiros: os *Indios
* * * * * *na
* * *Clandestinidade
* * * * * * * * * * * * * * (André
** * * * * 268 •

A. Toral) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 274
Avá-Canoeiro ................................ . . 276
Karajá e Javaé ............... * *276 * * # * * * # # % d & é # # # à

5º DR .................. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 279
Xavante . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 279
Leste …...............…................... 281

Mapa ........ ……….…….……………. 282


Quadro ...................... * * * * * * * * * * * * * * * • • • 283
Promessas Oficiais (José Carlos de A. Libânio e Már
cio Metzker) ................................... 284 -
Geral . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 286
Guarani/Bracuí .............................. , , 287
Krenak ......... * * * * * * * - - - 288
* * * * * * • • • • • • + * * * * * * +

Maxakali ....... + + + + + a = • • • • • • • * * * ** * * * + + + + 4 * * * * 289


Pataxó/Barra Velha ........... ………….…… 290
Pataxó Hã-Hã-Hãe ...... . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..... 291
Xakriabá ..................................... 295

Mato Grosso do Sul ......................... 297

Mapa - . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ............... 298


Quadro .................. 299 • 4 • * * * + + + 4 * * * * = s = • • • •

Guarani/Geral ................................. 301


Guarani/Guaimbé ............... . . . . . . . . . . . . . . 302
Guarani/Paraguasu ....... 303
+ + + + + + + + + + • • • • s s • • • • •

Guarani/Rancho Jakaré ................... ------ 303


Guarani/Te'yi Kue ...... ..................... .. 303
Terena .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ... 303
PIDourados ............…………………… 304
Kadiweu ........... - - - - - - - - - - - - - …………… 305
Ofaié-Xavante ................................. 308

Sul .......................................... 309

Mapa ......... - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - . . . . . . . . . 310


Quadro .......... * * * * * * * * * * * * * * - - - - - - - - - - - - - - - 311
Toldo Chimbangue: Centro da Luta Kaingang (Jura
cilda Veiga) ................................... 313
Kaingang/Chimbangue ....... * * * * + + + + + + + + = a = = = • • 316
O Caso da 12° DR (Bauru) ........... • • • * * * * * * * * 321
Geral ................... * - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 325
Kaingang/Inhacorá ............................ 325
Kaingang/Mangueirinha ........................ 326
Kaingang/Nonoai . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 327
Kaingang/Guarani ............................. 327
Xokleng . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
327
Kaingang/Guarapuava ................ - - - - - - - - - - 328
Kaingang/Guarita .................. 328 • • • + + + + + 4 * *

Guarani/SP ......... . . . . . . . . * * * * * * * 330 * + + + + + + * * * *

Guarani/Itariri ................................ 330


Guarani/Peruíbe .................. - - - - - - - - - - - - - 331
Guarani/Pró-Mirim ............. - - - - - - - - - - - - - - - 332
Guarani/Rio Branco ........ * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 332
Guarani/Silveiras .............................. 332
APRESENTAÇÃO

Essa publicação apresenta um resumo do que ocorreu nas áreas indígenas


do país, no âmbito da política indígena, a nível local, regional e nacional
e da política indigenista oficial, durante o ano de 1984.
Esse quadro foi montado pela equipe de edição de POVOS INDÍGENAS
NO BRASIL/CEDI, com base no acompanhamento das notícias
veiculadas por 54 jornais diários de todo o país, um jornal mensal
e duas revistas, além da colaboração de dezenas de pessoas (missionários,
antropólogos, indigenistas, fotógrafos, jornalistas, índios, etc.), que conhecem
de perto a situação e compõem uma rede alternativa (à visão oficial)
de informações.
Pretende ser um subsídio, com informações fidedignas, atualizadas
e abrangentes, para todos aqueles que estão empenhados no apoio
às lutas dos povos indígenas por direitos permanentes, no Brasil.
Na versão integral (parte geral -- 19 capítulos por Area), conforme
aparece no “Índice”, a publicação contém 23 comentários assinados,
a maior parte escrita especialmente para este número,
21 mapas, 26 quadros e 90 fotos.
A partir deste ano, as notícias deixaram de ser, em vários capítulos,
apenas aquilo que “Aconteceu na imprensa” e se passou a incorporar
informações de primeira mão, assinadas pelos seus remetentes.
Em seu conjunto, as notícias aparecem classificadas cronologicamente
em 125 títulos (povos ou temas), ocupando 332 páginas. Há informações
sobre 165 povos, além do registro de 23 evidências de grupos
considerados “arredios”.
O primeiro bloco de comentários e notícias, impresso em papel
de cor amarela, inclui matérias de interesse geral para o público
a que se destina a publicação.
A crise crônica da FUNAI, política e administrativa, tornou-se aguda em 84,
com a troca de três presidente e o acúmulo de demandas indígenas
não atendidas. No início de 1985, um grupo de lideranças indígenas
coordenadas pela UNI, se reuniu em Brasília e expressou essa insatisfação
quando apresentou um documento (publicado a seguir, com uma introdução
de Ailton Krenak) de análise e reivindicações, entre elas pela criação
r • de um novo órgão indigenista.
O emperramento político e administrativo no processo de demarcação
das terras indígenas, já visível em 83, aprofundou-se, como demonstra

11
INDÍGENAS NO BRASIL/CED

a análise feita pelos antropólogos João Pacheco de Oliveira Fº


e Alfredo Wagner B. de Almeida. •

Mas a questão certamente mais debatida publicamente em 84, foi a


da entrada (e em que condições) de empresas de mineração
em área indígena. As posições e retóricas dos vários setores
que se pronunciaram a respeito, aparecem extensamente mapeadas,
num capítulo especial, além das inúmeras informações contidas
nos capítulos por Área.
Os interesses indígenas e a Constituinte, no horizonte de 1986,
sobretudo a possibilidade de uma participação direta de índios na Assembléia
e as razões do interesse de empresários e instituições financeiras
internacionais na demarcação de terras indígenas, completam os assuntos
tratados através de comentários assinados, nas páginas amarelas.
Seguem-se 19 capítulos por Area, numa divisão geográfica que permitisse
agrupar as informações sobre todos os povos indígenas e, ao mesmo tempo,
viabilizasse tecnicamente a montagem de versões parciais (separatas)
da publicação. Especialmente dedicadas aos “leitores locais”
(índios e pessoas ligadas às agências de contato direto), as separatas incluem
parte das “páginas amarelas”, isto é, as notícias e comentários gerais
sobre o movimento indígena e a FUNAI, e o caderno referente a uma
(ou duas) das áreas, com a intenção
e estimular de facilitar a consulta
a leitura. •

Nessa edição não se repetiu, nos quadros de dados básicos por povo
e por Area, a coluna de informações sobre a situação jurídica
das terras indígenas. Pretende-se fazer uma versão atualizada
e mais completa dessas informações na edição do próximo ano.
S. Paulo, junho de 1985

12
A UNI E O
MOVIMENTO INDIGENA

Ailton Krenak

coordenador de publicações, UNI-SUL, SP.

Foram em número de cinco os eventos com participação do movimento


indígena organizado na UNI — União das Nações Indígenas — no período
de maio/84 a maio de 1895. Este ano político, que teve início no II? Encontro
Nacional de Lideranças Indígenas, em maio/84, passando pelo “Iº Congresso
Indígena Mineiro” (julho/84) e pela “I? Assembléia Indígena do Acre e Sul
do Amazonas, que reuniu representantes de 22 áreas desta região,
em trabalhos que duraram mais de 10 dias, neste período pela instalação
de uma Regional da UNI em Rio Branco.
Em setembro, tivemos a participação de uma delegação da UNI
no IVº Congresso Mundial dos Povos Indígenas — Panamá, onde,
pela primeira vez, o Movimento Indígena do Brasil pôde ter
uma representação formal junto ao Conselho Mundial dos Povos Indígenas
— CMPI. Em 85 houve a Assembléia Geral dos Tuxáuas, realizada
em Surumú—Território de Roraima, marcando uma nova relação
das comunidades Makuxi, Wapixana e Yanomami com os povos que já
vinham integrando o Movimento Indígena (vejam no capítulo “Roraima I”).
Sem falar na importante reunião Guarani realizada em março último,
na área de Ocoi, com representantes de comunidades de vários estados.
Deste período de intensa articulação indígena, nas regiões mais diversas
do país, de uma comunicação permanente com os vários grupos
que acorreram, seja a Brasília ou qualquer outro centro de decisão política,
permitiram a Coordenação do Movimento Indígena definir um programa
de reestruturação da política indigenista do estado. Este programa passa
obrigatoriamente por uma intervenção na FUNAI, na sua ocupação e controle
por parte dos que têm realmente interesse na sua transformação.
O texto que segue foi resultado de reunião de 2 dias, realizada em Brasília,
dias 5 e 6 de maio, por representantes da UNI além da presença de todos
os Coordenadores Regionais. Este texto é um basta na situação de abuso
e corrupção a que chegou a política indigenista oficial, e sobretudo a exigência
de mudanças urgentes!

13
S INDÍGENAS NO BRASIL/CEDI

o momento atual em que se discute a indicação de A maioria de nossas nações indígenas não foram beneficia
um novo presidente da Funai, o movimento indí das com os recursos financeiros que foram administrados
gena aqui representado pelas lideranças dos povos pelas sucessivas presidência da Funai, inclusive a atual.
Tukano, Apurinã, Kaxinauá, Tuxá, Kiriri, Pataxó, Bo Tais recursos foram mal distribuídos e desviados pela Fu
roro, Cayabi, Apiacá, Nambiquara, Xavante e Kaingang, nai, não sobrando nem migalhas para as nossas comuni
reunidos em assembléia com todos os representantes e coor dades indígenas da Amazônia, Nordeste, Centro-Oeste e do
denadores da União das Nações Indígenas (UNI) fazemos Sul do país. Não houve apoio efetivo da Funai, outras só
as seguintes denúncias e reivindicações: receberam esmolas e assim mesmo porque alguns de nossos
representantes e lideranças vieram de longe para pressionar
em sua sede em Brasília. As delegacias regionais da Funai
Mudanças profundas não têm autonomia e competência para resolver os proble
e um novo órgão mas de nossas comunidades, ocasionando uma grande con
centração de índios na sede de Brasília com gastos enormes.
I — Exigimos uma mudança profunda na Funai, que até e desnecessários. O atual presidente da Funai não tem com
agora não tem resolvido os nossos problemas mais premen petência para solucionar os nossos problemas e o órgão se
tes. As sucessivas administrações da Funai desde a sua cria desgasta politicamente, mais parece um órgão da Máfia de
ção têm privilegiado apenas os seus funcionários em detri vido à corrupção e à mordomia de seus dirigentes e funcio
mento das demarcações de nossas terras e de programas de nários nestes últimos anos dos governos militares.
saúde e educação em nossas comunidades indígenas. A
maior parte dos recursos da Funai é para pagar os seus Além de mudanças profundas, reivindicamos a criação de
3.200 funcionários e agora mesmo estão gastando milhões um novo órgão indigenista em lugar dessa Funai para resol
de cruzeiros para realizar concursos e treinamentos de 200 ver as nossas dificuldades, ou uma secretaria ou um Minis
novos empregados brancos para serem os intermediadores tério do Índio ligado diretamente à Presidência da Repú
de nossas nações indígenas. blica e que haja uma participação crescente de nossos repre
sentantes e lideranças em todo que diz respeito aos nossos
A Funai não cumpriu o seu papel de tutor, não demarcou as próprios destinos. E para dirigi-lo sejam escolhidas pessoas
nossas terras, segundo as leis vigentes neste país, e ainda competentes, comprometidas com as nossas lutas e reivindi
permitiu que companhias mineradoras, garimpeiros, fazen cações e que sejam indicadas pelo consenso de nosso mo
deiros, seringalistas e grandes projetos de barragens e estra vimento indígena. Queremos que esse novo órgão indige
das invadissem as nossas terras ou áreas indígenas. A gran nista seja sério, representativo e democrático."
de maioria de seus funcionários atuais não tem sensibili
dade e capacidade para tratar de nossos problemas. Estão
mais preocupados com seus altos salários e mordomias. Direitos específicos
A Funai está desmoralizada, enfraquecida, sem dinheiro e 2 — “Apesar de todo genocídio e etnocídio praticado con
pouca democracia. Seus funcionários estão atualmente mais tra nossos povos indígenas neste país, de vivermos atual
preocupados em disputas pelo poder dentro do órgão indi mente sem as nossas terras demarcadas, sem programas de
genista oficial do que com as nossas verdadeiras reivindica saúde e de educação bilíngüe decente e de projetos econô
ções. Eles dividem e querem mandar em nossas áreas indí micos que beneficiem as nossas comunidades, sem assistên
genas como se elas fossem verdadeiras capitanias hereditá cia por parte do governo brasileiro para as nossas 180 na
rias. Alguns se agridem fisicamente na sede de Brasília e os ções indígenas, de assistirmos os crimes e assassinatos co
delegados-regionais e chefes de postos disputam o poder metidos contra as lideranças de nosso movimento indígena,
entre si e não se entendem e não respeitam as nossas lide de vermos as nossas áreas serem saqueadas por minerado
ranças indígenas. O atual presidente interino da Funai está res, fazendeiros, seringalistas e construções de estradas e hi
confundindo a cabeça com dinheiro público e quer a cons droelétricas em nossas áreas, apesar de tudo isso estamos
ciência de muitos de nossos irmãos índios, manipulando ainda vivos e querendo viver com mais dignidade humana.
vergonhosamente e dividindo o movimento indígena para O preço que já pagamos não pode mais ser cobrado por um
permanecer no poder, assinando portarias que permitem Estado que seja verdadeiramente democrático e que de
garimpeiros e companhias mineradoras invadirem e sa fenda a instalação de uma nova República neste país. O go
quearem as riquezas existentes dentro de nossas áreas indí verno deve assumir de vez essa responsabilidade, asseguran
genas. do o direito de nossos diferentes povos resguardar as nossas
identidades de nação indígenas, para não sermos tratados
A nova República para os índios deve ser uma nova Funai, como estrangeiros dentro do nosso país. Somos povos dis
administrada por pessoas competentes e responsáveis, e tintos, cidadões brasileiros e com direitos específicos.
com a participação crescente de nossas lideranças e repre
sentantes indígenas. Por isso, reivindicamos que o Governo Lembramos aqui os últimos crimes e assassinatos cometidos
brasileiro faça uma intervenção na Funai para avaliar os impunemente contra as lideranças de nosso movimento in
gastos, o desmando e a falta de uma política indigenista dígena como: Angelo Kretan, Alcides Maxacali, Angelo
voltada para a resolução de nossos problemas fundamen Pancararé, Marçal de Souza Guarani e José Carvalho Ki
tais. Queremos que as novas autoridades deste país abra riri, que perderam as suas vidas porque lutavam pelos di
um inquérito dentro da Funai para que nos explique os gas reitos e reivindicações."
tos do órgão que foram gastos pelo órgão oficial. Queremos
que os funcionários corruptos sejam demitidos imediata
mente da Funai.

14
sL7-Acervo
_/\ | <> A

Revogação do 88.118/83 de nossas nações indígenas. Exigimos médicos e enfermei


ras competentes que organize vacinas preventivas em nossas
3 — "Exigimos as demarcações de nossas terras e que elas áreas e que se preparem os próprios índios para sermos os
não sejam invadidas, porque isto é de fundamental impor agentes de saúde de nossas comunidades porque temos mais
tância para a vida de nossos povos indígenas. A Funai tem compromisso com elas do que os funcionários da Funai, que
gastos muitos recursos com as delimitações de nossas terras, raramente conseguem se adaptar nas nossas áreas.
baseadas em estudos de eleições de áreas indígenas quase
sempre desonestos e incompetentes, porque não partem das Queremos também que programas de educação sejam reali
legítimas aspirações de nossas nações indígenas. Apesar de zados pelos próprios índios e com materiais didáticos que
tudo isso pouco ou quase nada tem sido feito no sentido de falem sobre as nossas próprias realidades, não esquecendo
demarcá-las efetivamente. Exigimos as demarcações ime de ser uma educação bilíngüe e que dê maior autonomia
diatas de nossas áreas indígenas e que elas não sejam intru para as nossas populações indígenas. Reivindicamos que o
zadas por nenhum tipo de invasores. Coverno brasileiro nos dê condições para freqüentarmos as
universidades independentes das normas exigidas pelo ves
Queremos a revogação do decreto 88.118/83, que veio com tibular.”
plicar ainda mais a regularização fundiária de nossas terras
indígenas e a anulação do decreto 88.985/83, que provocou
uma corrida desenfreada de garimpeiros e companhias mi Reconhecimento oficial da UNI
neradoras para dentro de nossas áreas, saqueando as rique
zas minerais existentes em muitas de nossas terras. Reivin 4 — “Reivindicamos ainda que o Governo brasileiro reco
dicamos que todas as riquezas existentes no solo e sub-solo nheça oficialmente a UNI como autêntica representante dos
de nossas terras sejam de posse efetiva de nossas nações
indígenas. •
nossos povos indígenas. Somente a UNI será capaz de re
presentar democraticamente a vontade política de nossas
diversas nações indígenas. Somente pelo fortalecimento da
Enfim, reivindicamos que a Nova República e um Estado UNI seremos capazes de absorver democraticamente as nos
que se diga democrático não protele mais as demarcações sas divergências, buscando um consenso dentro de nosso
de nossas áreas indígenas. E que nossos representantes e movimento indígena. Queremos negociar diretamente com
lideranças possam participar com direito a voz e a voto nas o Governo brasileiro, sem os nossos antigos intermediários
de nossas terras sejam de posse efetiva de nossas nações da Funai. Nós, representantes e lideranças das 180 nações
indígenas. indígenas hoje existentes no país, queremos ficar indepen
dentes e libertos desses intermediários e interlocutores que
Ao lado das demarcações imediatas de nossas áreas reivin atualmente desempenham tais papéis dentro da Funai.
dicamos ainda projetos econômicos discutidos previamente
e administrado diretamente pelas nossas comunidades para A UNI representada pelos seus diferentes coordenadores re
que possam ocupá-las produtivamente por conta própria e gionais e pelas lideranças e representantes de nosso movi
segundo os nossos costumes e tradições. Sofremos atual mento indígena exigimos que sejam expulsas de nossas áreas
mente muita exploração econômica em nossas terras. E o Instituto Lingüístico de Verão, as missões Novas Tribos e
preciso que o Governo brasileiro ajude com recursos as outras entidades religiosas que não querem se comprometer
nossas nações indígenas para que essa exploração econô com as nossas reivindicações e problemas. Estas missões es
mica que sofremos não seja tão prejudicial às nossas vidas. tão mais interessadas em realizar uma expropriação espiri
Precisamos deles para que possamos organizar por conta tual de nossos
caminhada povos
pela dolibertação.
nossa que nos ajudar
” concretamente nessa •

própria as nossas áreas indígenas, sem a intermediação dos


funcionários da Funai.

Queremos participar das decisões sobre as nossas terras di Participação indígena


retamente com o novo Ministério da Reforma Agrária. Exi na Constituinte
gimos que as mineradoras, os fazendeiros, as hidroelétricas
e estradas fiquem fora de nossas terras. Queremos fazer 5 — "Finalmente para terminarmos este nosso documento,
uma paz duradoura e permanente com os brasileiros sem conclamamos ao país para que o nosso movimento indígena
terras, que não tendo mais para onde correr começam a possa participar dos grandes debates e simpósios públicos
invadir as nossas áreas indígenas. Para isso é preciso haver sobre a constituinte, porque nós também queremos mudar
uma verdadeira reforma agrária que beneficie efetivamente as leis relativas aos nossos povos indígenas. Pelas atuais leis
milhões de brasileiros Sem Terras, mas que isso não seja vigentes somos considerados relativamente incapazes e tute
feito em detrimento de nossas áreas indígenas, lados pela Funai que tem história, vergonhosa. Durante este
período de Constituinte exigimos que nossos representantes
As precárias condições de saúde são alarmantes em nossas indígenas participem diretamente nas formulações de leis
4reas indígenas. Todos os anos epidemias de sarampo, co que nos dizem respeito. Queremos que nas novas leis não
queluche, malária, tuberculose e outras tantas têm ceifado haja mais lugar para os falsos intermediadores que hoje
muitas vidas humanas em nossas comunidades, principal usam a Funai apenas para defender os seus próprios inte
mente na Amazônia aonde estão concentradas as maiorias resses, em vez de defender os nossos direitos. A Funai, que
surgiu durante estes anos de ditadura militar, que herdou
todos os defeitos e desmandos do antigo SPI, está com os
seus dias contados a partir da Nova Constituição.

15
s! Z> Acervo
_/\ | S A INDÍGENAS NO BRASIL/CEDI

Solicitamos o apoio concreto do Governo Federal, do Se Assinam: Paulo Nonda Xavante


nado e Congresso Nacional, especialmente a Comissão do Domingos Veríssimo Marcos Terena
Indio, para executar reestruturação total da FUNAI, e que Gabriel Gentil Tukano (UNI-AM)
º novo responsável por esse órgão indigenista não pague pe Paulo Meriecureu Bororo (UNI-Centro-Oeste)
los abusos de corrupção e de incompetência dos adminis Antonio da Veiga Kaxinawa
tradores da Velha República. Samado dos Santos Pataxó
Osaias Sales Kaxinawá
Na certeza de sermos compreendidos no Senado e no Con Biraci Brasil Yanawá
gresso Nacional, a UNI exige para os representantes do povo Lázaro Kiriri
brasileiro, independente departidos, analisem a nossa ques Francisco dos Santos Tuxá
tão com delicadeza e carinho para edificação da NOVA RE Modesto Pereira Terena
PUBLICA.”
José Augusto Xucurú-Kariri
Brasília, 06 de maio de 1985.

Polícia para proteger de oito xavantes, entre eles o cacique


a FUNAI Aniceto Tsudzaveré e do deputado Na
dir Rossetti (PDR-RJ). Juruna foi soli
As cenas lembravam um campus uni citar a retirada da polícia.
versitário na década de 60, em dia de O presidente da Funai não recebeu Ju
assembléia estudantil: tropas de cho runa. Mandou dizer que estava em reu
Pedida a demissão
que, policiais armados de cassetete e nião. O deputado conversou apenas com
de Otávio
revólveres, agentes federais circulando um dos diretores do órgão, Carlos Gros
Pintados de vermelho, cocar na cabeça com walkie-talkies, cães pastores pron si, que lhe disse não ter competência
e borduna nas mãos, num traje exclu tos para avançar. Foi assim que os fun para retirar os policiais.
sivo para os dias de festas, os represen cionários da Funai encontraram o pré Há mais de uma semana o presidente da
tantes das tribos pataxós, xerentes e ba dio onde funciona o órgão tutor dos ín Funaivinha se prevenindo contra a inva
kairis, que sentaram na primeira fila da dios, no Setor de Indústria, às oito e são do prédio. Determinou a instalação
sala de comissões da Câmara dos Depu meia da manhã de ontem. -

de interfones em todo o prédio, mandou


tados, conseguiram transmitir sem pa Do outro lado da cidade, na Esplanada colocar mais uma porta para proteger
lavras o significado maior do II Encon dos Ministérios, as mesmas cenas. O seu gabinete e na última sexta-feira, vi
tro Nacional dos Povos Indígenas: paz bloco do ministério do Interior, ao lado sitou uma a uma todas as salas do órgão,
para negociar as reivindicações, mas da Catedral, estava cercado pelos poli dizendo aos funcionários que não have
união para fazê-las valer. ciais. Tanto o ministro Mário Andreaz ria risco, pois as medidas de defesa esta
Esse foi o clima predominante nas za, como o presidente da Funai, Octávio vam sendo implantadas. (Cidade de
abertura do II Encontro dos Povos Indí Ferreira Lima, temendo uma invasão Santos, 04/04/84).
genas, do qual participaram cerca de dos 450 líderes indígenas que estão reu
300 índios representando 170 povos e nidos em Brasília, solicitaram à Secreta
250 mil pessoas. Eles vieram trazendo ria de Segurança Pública precauções Incidente no Congresso
várias reivindicações. Mas o ponto cen contra os índios.
tral de suas discussões se refere à mu Enquanto isso, os líderes indígenas, reu O II Encontro de Líderes Indígenas ter
dança do presidente da Funai. “Assim nidos na sala da Comissão de relações da minou, ontem, em Brasília com um inci
como o povo brasileiro quer eleger o Câmara dos Deputados, concluíam o dente entre os índios e o deputado malu
presidente da República, os povos indí documento que foi encaminhado ao pro fista Diogo Nomura (PDS-SP), que no
genas querem escolher o presidente da curador-geral da República, Inocêncio início dos debates, à tarde, exigiu a pa
Funai”, explicou o deputado Mário Ju Mártires Coelho.Em ordem, sem qual ralisação da reunião que estava sendo
runa, que durante a sua exposição foi quer intenção de invadir a Funai ou o realizada na Comissão de Relações Ex
muito aplaudido. Ministério do Interior, eles escolhiam a teriores da Câmara. O deputado, que é
Ontem de manhã, os índios decidiram comissão de representantes que levaria o presidente da Comissão, disse que a reu
realizar uma eleição simulada para le documento. nião ficaria suspensa até a chegada do
vantar nomes capazes de assumir a pre Só às dez da manhã o xavante Mário deputado Mário Juruna, afirmando que
sidência da Funai. Esses nomes, prof. Juruna (PDT-RJ), que coordena o en o índio Marcos Terena, que falava no
Dalmo Dallari, Carlos Moreira Neto contro das lideranças, soube que a Fu momento, estava incitando os índios
(antropólogo) e Pedro Paulo Fatorelli nai estava cercada. Indignado com a contra os brancos. Logo após o inci
(ex-superintendente da Funai) serão “Falta de respeito”, o deputado dirigiu dente, Juruna chegou ao local e, depois
apresentados ao presidente Figueiredo se ao Setor de Indústria em companhia de determinar o reinício dos debates,
em audiência a ser marcada, mas caso afirmou que não podia admitir que um
ela não seja concedida, o documento se deputado japonês expulsasse os índios
rá entregue por outras vias. (Diário Po
pular, 03/04/84).
16
No II? Encontro Nacional
dos Povos Indígenas no Brasil,
# os índios armaram um acampamento
nas proximidades do Congresso Nacional,
em Brasília.

Durante os dias do Encontro,


o prédio da FUNAI foi “protegido”
pela tropa de choque da PM.

No final, uma delegação foi à PGR


reivindicar a revogação
do dec. 88.118/83.

17
Acervo
| @A INDÍGENAS NO BRASIL/CEDI

da comissão. O deputado Amaury Mul de terras indígenas — determinando atual sistema de deliberação para de
ler (PMDB-SP) pediu desculpas aos ín que seja feito por um grupo de trabalho marcação de áreas indígenas, com a vol
dios. “Vocês índios — afirmou — são interministerial e não mais apenas pela ta desta prerrogativa à Funai. (Correio
mais civilizados do que a gente”. Funai como prevê o Estatuto do Índio. Brasiliense, 27/11/84).
“Aqui não é casa de japonês, de ameri Inocêncio entendeu que esses atos nor
cano ou de alemão” — disse Juruna. mativos não contrariam a Constituição
“Aqui é casa de brasileiro. Os índios es Federal, nem extravasam os limites fi Entregue documento
tão aqui a convite da Comissão do Indio xados na Lei nº 6.001, de 19 de dezem a Tancredo
e quem manda hoje aqui é Juruna, re bro de 1973 (Estatuto do Índio).
presentante de todas as nações indíge Em abril passado, quando do II Encon A reformulação de toda a política indí
nas”. Ainda indignado com a atitude de tro dos Povos Indígenas Brasileiros, 400 gena no país, com base em contatos per
Nomura, Juruna perguntou aos presen líderes assinaram um documento solici manentes com as diversas comunidades
tes: “Vocês sabem quem é o presidente tando a argüição de constitucionalidade indígenas, foi a promessa feita, ontem
do Incra?” Ele mesmo respondeu: “É daqueles documentos governamentais, e pelo candidato Tancredo Neves, ao rece
um japonês”. E prosseguindo: “Vocês o entregaram ao Procurador-Geral da ber em seu escritório eleitoral 15 índios,
sabem quem é o presidente da Petro República, porque estavam certos de de várias nações. Os índios entregaram
brás? Também é japonês”. Concluindo, que o objetivo do decreto e da portaria é ao ex-governador mineiro documento
Juruna afirmou: “Depois das eleições o de esvaziar a autoridade do órgão tute contendo as conclusões de seminário
diretas muita gente vai cair”. lar, o que prejudica seus direitos. (Jornal realizado nos dias 26 e 27, na Câmara
No final do encontro os índios divulga de Brasília, 12/06/84). dos Deputados, promovido pela Funda
ram um documento de repúdio à exposi ção Pedroso Horta, do Distrito federal.
ção de motivos 055, de agosto de 83, as O candidato da Aliança Democrática
sinada pelos ministros da Justiça, Abi defendeu a manutenção das populações
Ackel e de assuntos fundiários, Danilo indígenas no seu território de origem e
Venturini, que entre outras coisas esta comprometeu-se em realizar, no seu go
belece que, em casos de perturbações da verno, a demarcação das terras indíge
ordem, ou necessidade de assegurar o nas. A promessa de Tancredo foi feita a
exercício dos poderes constituídos, as “Nova política indigenista” 15 representantes da comunidade indí
Forças Armadas poderão intervir nas gena, antropólogos e membros de enti
áreas indígenas. Os índios criticam par Mudança total nas relações entre o Es dades pró-índio.
ticularmente a exposição quando ela es tado e os índios, abrindo canais para que Em nome das tribos indígenas, Jano
tabelece que a intervenção nas áreas in as comunidades participem das deci cula, do Parque do Xingu, fez a entrega
dígenas por forças policiais ou milita sões, e criação de um novo órgão tutor, do documento e pediu a Tancredo uma
respoderá ser desencadeada a pedido da que seja “órgão de representação” dos mudança na política indigenista no país.
Funai ou por particulares interessados índios junto ao poder executivo. Estas O candidato das Oposições foi ainda
(Diário do Grande ABC, 05/04/84). são as diretrizes-mestras de uma nova saudado pelo presidente das Uniões In
política indigenista brasileira, que está dígena, Ailton Krenak, e pelo Pataxó,
sendo elaborada por entidades de apoio Nailton Muniz. (Jornal de Brasília, 29/
Dallari assumiria ao índio de todo o País, no simpósio “In 11/84).
FUNAI “desatrelada” dios e Estado”, promovido pela Funda
ção Pedroso Horta, do PMDB, a pedido
O jurista Dalmo Dallari, integrante da do candidato da Aliança Democrática,
Comissão Justiça e Paz de São Paulo, Tancredo Neves.
afirmou ontem que teria o máximo pra O simpósio com encerramento previsto
zer em assumir a presidência da Funai, para hoje, conta, também, com a parti IV Assembléia Geral
“desde que o órgão estivesse desatrelado cipação de lideranças indígenas e do de
do ministério do Interior, conseqüente putado Mário Juruna. O antropólogo Os milhares e milhares de metros qua
mente da política econômica do gover Olímpio Serra, que presidiu ontem os drados de carpetes com desenho exclu
no, e pudesse desenvolver uma verda trabalhos, disse que o “mote principal sivo, no suntuoso Centro de Convenções
deira política indigenista, inexistente no de uma nova política indigenista deve Atlapa, na capital do Panamá, foram
País”. (FSP, 5/4/84). ser a mudança de postura do Estado, diligentemente pisados, durante a úl
que até hoje tem seguido uma tradição tima semana de setembro, por mais de
colonialista, considerando os índios sob 200 lideranças indígenas, procedentes
Negada uma perspectiva de “futuros não-ín de 23 países, que ali se encontravam
inconstitucionalidade dios”. para a IV Assembléia Geral do CMPI —
O presidente do PMDB, deputado Ulis Conselho Mundial de Povos Indígenas.
O Procurador-Geral da República, Ino ses Guimarães, encerrará o seminário O tema central — autodeterminação —
cêncio Mártires Coelho, indeferiu o pe hoje, à noite, recebendo os subsídios foi discutido com entusiasmo pelos re
dido de arguição de inconstitucionali para a elaboração da política indigenis presentantes das cinco regiões (de três
dade do Decreto nº 88.118, de 23 de fe ta de Tancredo Neves. Entre os partici continentes) que compõem o CMPI: Re
vereiro de 1983, e da Portaria do MIN pantes — representantes de todas as en gião do Pacífico (Austrália, Nova Zelân
TER e do MEAF, nº 002, de 17 de mar tidades de apoio ao índio do País —,
ço do mesmo ano, que dispõem sobre o duas posiçõesjá são consenso: a reestru
processo administrativo de demarcação turação total da Funai, com sua retirada
do âmbito do Ministério do Interior (al
guns sugerem sua vinculação direta à
Previdência da República) e o fim do

18
PALAVRAS DE
TANCREDO NEVES:

| “O grande problema indígena no


Brasil é a demarcação. E a
demarcação, que é realmente muito
pequena, em face da extensão dos
territórios ocupados pelos índios e dos
territórios a que eles têm direito, tem
de ser realmente incentivada.”

(JT, 12.02.85, trecho de uma resposta dada durante


entrevista coletiva à imprensa nacional e internacional,
no Congresso, em Brasília, no dia 11).

Delegação indígena
entrega ao candidato Tancredo Neves
o documento final
do seminário “Índios e Estado”
(Brasília, 28.11.84).

dia e várias ilhas sob dominação colo A questão havia sido levada à Comissão
nial); Conselho Nórdico Sâmi(Noruega, de Constituição e Justiça pelo próprio
Finlândia e Suécia); Região da América Juruna, (O Globo, 12/04/84).
do Norte (Canadá e Estados Unidos); ÍNDIO
Corpi – Coordenadoria Regional de Po
vos Índios (América Central e México); e Parecer da Comissão é contra Juruna continua
Cisa — Conselho Indio da América do
Sul (o qual inclui, entre seus organis Por 12 votos a nove, a Comissão de Cons Graças ao presidente da Câmara, Flávio
mos-base, a UNI — União das Nações tituição e Justiça da Câmara decidiu on Marcílio, o deputado-cacique Mário Ju
Indígenas, que enviou para a Assem tem que o Deputado Mário Juruna runa vai poder continuar a exercer o seu
bléia três representantes: Ailton Lacer (PDT-RJ) não será reconduzido à Presi mandato de presidente da Comissão do
da, Krenak, de São Paulo; José Apolô dência da Comissão do Indio, cargo Indio, pelo menos até que o plenário de
nio dos Santos, Xokó, de Sergipe; e Bi para o qual foi eleito em setembro de libere sobre a decisão da Comissão de
raci Brasil, Yawanawá, do Acre. (Po 1983 e no qual permaneceu menos de Justiça. (JB, 16/04/84).
rantim, nov. 84). três meses.
O entendimento dominante — dos De
putados do PDS — foi o de que deveria
ser observado dispositivo do Regimento
Interno, segundo o qual, no início de ca
da sessão legislativa, deve ser realizada
eleição para a renovação dos mandatos
dos dirigentes.
19
Acervo
| S A IDÍGENAS NO BRASIL/CED]

Juruna criticou a assinatura dos convê que estão reunidos em Brasília, solici
nios, que, segundo afirmou, “não pas taram à Secretaria de Segurança Públi
O ex-presidente da Funai, Jurandy Mar sam de mais um artifício do Ministro caprecauções contra os índios. Enquan
cos da Fonseca, afirmou, ontem, na Co Andreazza para a campanha sucessó to isso, os líderes indígenas, reunidos na
missão do Indio da Câmara, que dos 296 ria”. (O Globo, 01/02/84). sala da Comissão de Relações da Câma
pedidos de ingressos em áreas indígenas ra dos Deputados, concluíam a docu
feitos por mineradoras, 97 pertencem a mento que foi encaminhado ao procura
empresas estrangeiras. Ele reafirmou Verba para demarcações dor-geral da República. Em ordem, sem
para os deputados que a sua demissão qualquer intenção de invadir a Funai ou
da Funai foi causada pela não assina O FINSOCIAL destinará um bilhão e o Ministério do Interior, eles escolhiam
tura da portaria que iria regulamentar o quinhentos milhões para a FUNAI; que a comissão de representantes que levaria
decreto 88.985, de 1983, que permite a serão aplicados na identificação, demar o documento. O cacique Aniceto, chefe
exploração de minérios nas áreas da Fu cação e regularização fundiária de terras da reserva Xavante de São Marcos, em
naipor empresas particulares. indígenas localizadas em 16 estados e Mato Grosso, manifestou sua tristeza.
Jurandy foi criticado por dois parlamen nos territórios do Amapá e Roraima, be “É assim que nos recebem. Nós nunca
tares: O deputado Mário Juruna, que foi neficiando mais de onze mil índios. Os recebemos chefe da Funai com guerrei
recursos serão liberados sob a forma não ros armados. Isso está acabando. Funai
atacado por Jurandy, quando afirmou
no mês passado que os Pataxós da Bahia reembolsável, pelo BNDES, órgão vin está acabando. Não é mais tutor, agora
não eram índios e, por isso, deveriam ser culado à SEPLAN e responsável pela ad vem agredir com desrespeito. Nós não
assistidos pelo Incra e não pela Funai, e ministração do FINSOCIAL. (Diário somos inimigos. Queremos apenas segu
deputado João Batista Fagundes, do Popular, 13/03/84). rança para nossas terras”. (FSP, 4/4/
PDS de Roraima, defensor da portaria 84).
condenada pelo ex-presidente da Funai.
Jurandy apresentou, ao final, o que cha FUNAI define
mou de resultados dos seus três meses de política de atração Andreazza demite
administração: o levantamento de 37 presidente da FUNAI
áreas indígenas para efeito de demarca A Funai divulgou portaria definindo,
ção. (Jornal de Brasília, 20/03/84), pela primeira vez desde sua criação, O Ministro do Interior, Andreazza, de
uma política para atração de índios ar mitiu ontem o Presidente da Funai, Otá
redios. Segundo a orientação, as frentes vio Ferreira Lima, em troca da liberta
Pela extinção de atração para contato com índios iso ção dos funcionários da Fundação, re
lados — hoje cerca de 15 mil — só serão féns do Txukahamãe, rebelados no Xin
O deputado Mozarildo Cavalcanti (PDS constituídas no exclusivo interesse das gu. As negociações entre o Governo e os
RR), membro da Comissão do Indio, comunidades indígenas, quando estiver índios prosseguirão hoje, quando será
deu entrada na Câmara dos Deputados comprovado algum perigo que coloque debatida a questão da faixa de 40 qui
a um Projeto de Resolução (nº 214, de em risco a integridade do grupo. A Fu lômetros reivindicada pelos Txukaha
1984), propondo a extinção da Comissão naitem hoje seis frentes de atração para mãe. (O Globo, 1/5/84).
do Indio e a criação da Comissão de De contato com os grupos isolados na Ama
fesa dos Direitos Humanos. Na justifica zônia legal. As frentes de atração serão
tiva do projeto, o Deputado alega que é chefiadas somente por sertanistas e sua Fonseca assume a FUNAI
um privilégio o índio ter uma Comissão transformação em posto indígena será e nomeia índios
específica em relação a outras minorias sempre precedida de parecer do chefe da
como os negros e as mulheres, que deve frente. (O Globo, 22/3/84). O novo presidente da Funai, Jurandy
rão estar contemplados na nova Comis Marcos Fonseca, advogado, 44 anos, foi
são proposta (setembro de 1984). nomeado ontem e já escolheu dois índios
Tropa de choque para cargos de chefia: Marcos Terena,
contra presença chefe de gabinete, e Megaron, diretor do
de líderes indígenas Parque Indígena do Xingu. Esta é a pri
meira vez que os índios assumem postos
As cenas lembravam um campus univer importantes dentro do órgão tutor e
Convênio interministerial sitário da década de 60, em dia de as Fonseca justificou sua escolha dizendo:
sembléia estudantil: tropas de choque, “Hoje a realidade é outra e por entender
O Ministro do Interior, Mário Andreaz policiais armados de cassetete e revólve essa nova realidade, convidei índios pa
za, assinou ontem convênios com o Mi res, agentes federais, cães pastores ra minha administração. Eu teria o
nistro da Agricultura, AmauryStabile, e prontos para avançar. Foi assim que os maior orgulho da minha vida se no final
com a Ministra da Educação, Esther de funcionários da Funai encontraram o da minha gestão passasse o cargo de pre
Figueiredo Ferraz, estabelecendo uma prédio onde funciona o órgão tutor dos sidente para um índio. Não posso pro
ação conjunta entre os três Ministérios índios, na manhã de ontem. Do outro meter nada, mas quem sabe...”
para o atendimento das comunidades lado da cidade, as mesmas cenas: o Mi Jurandy Marcos Fonseca não é leigo na
indígenas do Brasil nos campos da agri nistério do Interior estava cercado pelos questão indígena. Foi chefe de gabinete
cultura e da educação. A solenidade foi policiais. Tanto o ministro Andreazza de dois ex-presidentes (generais Bandei
assistida por cerca de 20 índios — dos como o presidente da Funai, temendo ra de Melo e Ismarth Araújo de Olivei
grupos Bororó, Bakairi, Terena, Txu uma invasão dos 450 líderes indígenas ra). Nasceu na aldeia indígena de Tau
carramãe, Xerente e Carajá — que rei nay, município de Aquidauana (MS),
vindicaram maior participação das co onde vivem os Terena. Seu pai partici
munidades indígenas nas decisões que pou da comissão Rondon e trabalhou no
lhes digam respeito. O Deputado Mário
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extinto SPI. Seu nome recebeu incondi Segundo ele, enquanto o CIMI entende “Tudo não passa de um grande engo
cional apoio do deputado Mário Juruna os povos indígenas com todos direitos de do”, declarou, acrescentando que os lí
e ontem mesmo os dois se reuniram para ocupar suas terras, viver com seus pa deres indígenas e ex-contestadores da
discutir os problemas mais urgentes da drões culturais, enfim luta pela preser Funai “acalmaram-se nas mordomias
Funai: demarcação e falta de recursos. vação da identidade do índio, a Funai e a do poder em Brasília”. E eles só voltarão
(FSP, 9/5/84), política desenvolvimentista do Governo a criticar a fundação quando “voltar a
se voltam contra os povos indígenas, isso política de se atender qualquer índio”.
porque faz uma política de assimilação e “Essa é a verdadeira história da abertu
Substituições integração gradativa, que virá transfor ra da Funai”, afirmou, “uma farsa da
mar o índio num brasileiro comum, ou qual me recuso a participar”. O serta
Na Funai, em Brasília, informou-se que seja, o desrespeito total de sua identi nista denunciou que “estão corrompen
o novo Superintendente Executivo do ór dade. (O Popular, 02/06/84). do o índio com podere cargos” e isso, em
gão será o funcionário da Sudeco Eraldo sua opinião, vai resultar na anulação de
Pereira dos Santos, que substituirá La verdadeiros líderes indígenas, que po
martine Ribeiro de Oliveira, um dos re Mais verbas deriam estar nas aldeias cuidando de
féns dos txucarramãe. A Diretoria de do FINSOCIAL suas comunidades.
Assistência aos Indios, antes ocupada Segundo Apoena Meirelles, o deputado
por Carlos Grossi (outro dos reféns) fi O Finsocial liberou ontem Cr$ 2,09 biMário Juruna — “que sempre se mos
cará com Gerson da Silva Alves, ex-Di lhões para financiar o Programa de De trou um crítico permanente da Funai”
retor do órgão e ex-Delegado em Mato senvolvimento e Assistência às Comuni — está apoiando a atual administração
Grosso. (O Globo, 15/05/84). dades Indígenas, que inclui 140 projetos porque sua mulher foi contratada como
de sustentação alimentar, geração de ex secretária da fundação, em Brasília, e
cedentes comercializáveis e melhor ocutem um filho e mais quatro sobrinhos
Posse no Amazonas pação das terras. As comunidades indí exercendo funções na delegacia de Barra
genas de 14 Estados deverão usar o di do Garça. Para esconder “desmandos”
O presidente da Funai, Jurandir Matos nheiro para o plantio de amendoim, al como estes — “feitos para atender e si
Fonseca participou ontem, em Manaus, godão, arroz, batata, feijão, milho e lenciar seus ex-críticos" —, os boletins
da posse do novo delegado da Funai, Al soja. da Funaihoje são restritos aos diretores,
do Gomes da Costa, ex-secretário de Os índios pataxós e quiriris, da Bahia, quando desde o início sempre circula
Educação, substituto de Kazuto Kawa foram ainda beneficiados com um con ram entre todos os funcionários, denun
moto, que durante mais de oito anos vênio que a Funai firmou ontem com a ciou ainda o sertanista.
presidiu a delegacia do órgão no Ama Cobal, no valor de Cr$ 39 milhões; eles “Lamento profundamente, sem má
zonas. Jurandir Fonseca disse que a vão receber gêneros alimentícios sem in goas, mas com imensa tristeza, que a
“Amazônia receberá uma prioridade es termediação e ainda terão o direito de oportunidade dada a esses críticos da
pecial, porque existem áreas calmas ho escolher o tipo de alimento desejado. Funai tenha sido aproveitada de forma
je, mas que podem gerar tensões. Por Antes de serem entregues, os alimentos. tão desonesta, uma verdadeira traição à
isso, vamos dar prioridade à demarca vão receber laudo técnico da Secretaria causa do índio”. Para Apoena, em fun
ção da Amazônia”. (Folha da Tarde, da Saúde, atestando sua qualidade. Os ção desta situação, não existe uma lide
23/05/84). supermercados da Cobal em Alagoinha rança indígena a nível nacional: “Todos
e Ilhéus estão encarregados da distribui representam grupos e facções e convi
ção. (ESP, 07/06/84) vem com contradições internas tribais
Novo delegado do NE muito grandes”. O episódio em Bauru,
segundo ele, deixou isso bem claro. “O
O presidente da FUNAI, esteve na posse Apoena: abertura na FUNAI futuro próximo mostrará o quanto esta
de Leonardo Reis como novo delegado é “ºblefe?? irresponsabilidade na condução da polí
do NE, em Recife, substituindo a Di tica indigenista será de difícil solução”.
narte Nobre de Madeiro. (Correio do Es Diante dos últimos acontecimentos em Referindo-se à declaração do presidente
tado, 28/05/84). Bauru, o sertanista e delegado da Funai da Funai, Jurandy Fonseca, de que o
em Porto Velho, Apoena Meirelles, fez movimento em Bauru é “subversivo”,
ontem duras críticas ao órgão, acusando Apoena afirmou que quem está “subver
FUNAI com índios só, de ser um “grande blefe” a sua “propa tendo a ordem” é ele, “de uma forma
é pouco lada” abertura. Para Apoena, a funda irresponsável, vendendo uma falsa ima
ção visa, na verdade, a “iludir as verda gem da Funai e conseguindo a adesão e o
O presidente do CIMI e bispo do Xingu, deiras lideranças indígenas e a opinião silêncio dos índios e ex-funcionários,
dom Erwin Krautler, afirmou ontem, pública com objetivos político-demagó que anteriormente criticavam o órgão,
em Goiânia, não acreditar que somente gicos”. O sertanista ainda acusou o de colocando-os em funções gratificadas e
a presença de índios na direção da Funai putado Mário Juruna de estar apoiando em Brasília”. E mandou um recado di
possa provocar mudanças na política in a atual administração da Funai, porque reto a Jurandy Fonseca: “Ele não deve
digenista oficial. Considerou o fato seus “interesses pessoais foram aten ria esquecer que muitos de seus atuais
como uma perspectiva animadora pois didos”. Segundo Apoema, Juruna conse assessores, como Cláudio Romero, fo
foi uma vitória dos povos indígenas, mas guiu emprego para parentes seus na fun ram acusados de ter criado o episódio do
ressaltou a existência de uma diferença dação. Xingu” (quando os índios mantiveram
fundamental entre a política indigenista funcionários da fundação como reféns).
defendida pelo CIMI e a colocada em “Eles não foram punidos, mas promovi
prática pelo Governo em atenção aos dos”, disse Apoena, acrescentando:
grupos empresariais nacionais e multi
nacionais.

21
; INDÍGENAS NO BRASIL/CED]

“Jamais pensei que pessoas que se di outro, Porfírio Carvalho, Odenir Pinto Além dessa briga do novo contra o velho,
ziam defensoras dos interesses indígenas de Oliveira, mais jovens, com idade mé a crise de Bauru revela ainda um fato
pudessem ceder tão facilmente às delí dia de 30 anos, a geração que conheceu a
triste: é fácil arregimentar índios. De
cias do poder”. (ESP, 14/07/84). pois de tantos anos, séculos de sofrimen
agressiva redução dos territórios indíge
nas e se preocupa com a conscientização
to e espoliação, eles se apegam ao pri
política dos caciques. meiro que lhes proporciona uma forma,
Marcos Terena reage A primeira geração, integrada pelos
qualquer forma de protesto, mesmo que
mais velhos, sente saudades do “índio esse protesto seja para defender um re
A participação do índio na Fundação bom”, do índio que ainda não havia des presentante.
Nacional do Indio (Funai) não é desor coberto seus direitos, não conhecia as
denada, mas com responsabilidade, dis leis e que, principalmente, ainda não Riscos
se ontem ao Estado, em Brasília, o chefe aprendera a manejar a língua do invasor O movimento continua. Bauru não é um
de gabinete do órgão, Marcos Terena, branco. A nova geração — menos céleb caso encerrado e pode se transformar em
após ler as declarações do chefe da dele bre porque se embrenhar nas matas per uma luta de índios contra índios. Da
gacia de Porto Velho, Apoena Meireles. deu o sabor da aventura a partir das es mesma forma que meia dúzia de funcio
“É entristecedora essa história de que o tradas — está diante de uma realidade nários reuniram um numeroso grupo de
índio está sendo corrompido com cargos inegável: os índios são tão bons ou maus caingangues e guaranis, outros índios,
e salários. Isso não passou na cabeça do quanto os brancos, ou seja, são pessoas temendo o retorno, poderão reunir um
índio”. e, por isso, com necessidades não apenas número igual ou superior aos rebeldes
Terena manifestou grande admiração de comer, mas também de participar de de Bauru.
pelo chefe da delegacia de Porto Velho. sua própria história. Os índios do Xingu, entre eles o cacique
“Além de ser um grande piloto, um Em meio a tudo isso, o problema da au Raoni, que há muito tempo deixaram de
companheiro de profissão, Apoena Mei todeterminação. Os mais velhos não ser “índios bons”, chegam hoje a Brasí
reles, como o presidente da Funai, nas conseguem assimilar a idéia de que as lia. Eles não querem perder os direitos
ceu em comunidade indígena.” Lem nações indígenas brasileiras estão em mínimos que adquiriram na guerra, en
brou, no entanto, que setores conserva plena caminhada que fatalmente de tre eles, o direito de terem como admi
dores começaram a se sentir afetados a sembocará na autodeterminação. Essa nistrador do parque um índio, Mega
partir do novo movimento dentro da Fu palavra não consta do dicionário dos ser ron. Outros grupos também pretendem
nai, de participação do índio, “Infeliz tanistas mais velhos. E por não aceitar a vir à capital para defender não o presi
mente, estes setores sempre olharam tomada de consciência dos líderes e me dente da Funai, Jurandy Fonseca, mas a
para o índio como objeto de preservação
nos ainda sua participação na política manutenção de um novo tempo no qual
de empregos e interesses pessoais. Sem indigenista, eles não admitem a existên eles têm esperança de que suas vidas me
pre avaliaram o índio como incapaz de cia de um xavante na Câmara dos Depu lhorem.
exercer qualquer atividade.” tados, um terena na chefia de gabinete Os rebeldes também querem vir a Brasí
Apesar de muitos funcionários do órgão da Funai e um caiapó dirigindo um ter lia e o chefe de gabinete da Funai, o ín
terem-se afastado — toda a antiga dire ritório indígena. Essas funções, na men dio Marcos Terena, vai precisar de toda
toria, por exemplo —, o chefe de gabi talidade antiga, são próprias do branco, sua habilidade para evitar o maior risco
nete da Funai acredita que muitos ainda ocidental, superior. Não perceberam a dessa crise: enfrentamento de índio.”
não conseguiram assimilar a nova polí mudança dos tempos e tentam recupe (artigo de Memélia Moreira, repórter da
tica e “continuam tentando sorrateira rar a imagem que eles mesmos fabrica sueursal de Brasília, FSP, 15/07/84).
mente fechar a possibilidade de partici ram dos índios: pintados, dançando,
pação do índio dentro da Funai”. Mas obedecendo os gritos do “pai branco”. A
ele garante que não haverá um retro imagem do “paraíso”. -

cesso. “Estamos vivendo uma nova pá Irreversível Juruna e indigenistas


gina da história do indigenismo brasilei contam tudo a Ackel
ro. O governo, quando resolveu mudar Mas a politização dos índios é irreversí
sua atitude para com a questão indíge vel, como irreversível também o fato de
Acompanhado dos indigenistas Porfírio
na, não cedeu. Muito pelo contrário: re que, aos poucos, cabe a eles o controle
Carvalho e Odenir Pinto de Oliveira (as
conheceu o direito do índio e sua capaci do órgão governamental destinado a sessores do presidente da FUNAI) e de
dade de participação nas negociações protegê-los. O atual presidente da Fu Marcos Terena (chefe de gabinete), o
que envolvem seus interesses legítimos”, nai, Jurandy Marcos da Fonseca, não é a deputado Mário Juruna (PDT-RJ) foi
justificou. (ESP, 15/07/84). “salvação da pátria”, mas percebeu que recebido em audiência pelo Ministro da
não poderia dirigir sem o apoio dos líde Justiça, Ibraim Abi-Ackel e advertiu on
res e teve a coragem de assumir os novos tem para o perigo de novas crises entre
tempos, chamando os índios para admi os índios e a FUNAI, como a desenca
“Caso Bauru revela nistrar o órgão. deada pelo sertanista Álvaro Villas Boas
conflito de gerações A reação não tardou. Álvaro Villas-Boas em Bauru.
indigenistas” •

fez seu protesto, acusou índios, antropó Segundo Juruna, muitos funcionários
logos e todos aqueles que vivem a nova da Funai“estão botando minhoca na ca
“A crise na delegacia da Funai em Bau - época. Apenas traduziu a mentalidade beça” de lideranças indígenas, visando
ru, que ainda não está encerrada, é um de sua geração, criando um problema desestabilizar o atual presidente da Fu
conflito entre duas gerações de sertanis difícil para embaraçar o novo presiden nai, Jurandy Marcos da Fonseca, que
tas. De um lado, a geração Villas-Boas, te, que pretende introduzir algumas mu está interessado em impor uma “política
esses valorosos homens que criaram o danças inadmissíveis para os mais ve indigenista séria ao órgão”.
Parque Indígena do Xingu, imprimindo lhos. Juruna pediu ao ministro a mesma cola
sua marca no indigenismo brasileiro, e boração do ano passado, quando Ackel
todos com idade mínima de 60 anos. Do solicitou providências junto à antiga di
reção da Funai, após denúncia, da de
22
putado, “de maus tratos praticados con “Sem recursos” trarem nas áreas indígenas, os índios
tra os índios por funcionários do órgão morrerão e o governo brasileiro será res
tutor em São Paulo. Segundo declarou o chefe de gabinete da ponsável por esta mortandade”. O mi
Segundo Juruna, o incidente ocorrido FUNAI, Marcos Terena, durante sua nistro disse desconhecer que o ex-supe
em Bauru não será o único, pois as mu estada em Campo Grande, na semana rintendente do DPF em São Paulo ga
danças na política da Funai “ainda en passada, a Fundação está com suas ati nhou repercussão nacional ao prender,
contram sérias resistências por parte da vidades reduzidas em 50% por falta de em 1981, o argentino Adolfo Perez Es
queles que não aceitam que os índios se recursos. Caso o Ministério do Planeja quível, Prêmio Nobel da Paz. Andreazza
jam ouvidos ou que participem da admi mento não libere os Cr$4 bilhões prome assegurou que será mantida a participa
nistração do órgão”. tidos para o final do primeiro semestre, ção de lideranças indígenas em cargos
Juruna citou outro indigenista da Funai, o órgão poderá ser desativado ou permi importantes da Funai — iniciativa de
Apoena Meirelles, que já demonstrou, tir o surgimento de uma nova crise entre
Jurandy adotada há cinco meses. (ESP,
segundo o deputado, sua discordância os índios e a direção da FUNAI. (Correio 20/9/84).
da ação do atual presidente, Jurandy do Estado, 04/09/84).
Marcos da Fonseca e que, a exemplo de
Álvaro Villas Boas, “habita revistas e Jurandy denuncia
jornais, pousando como herói da selva, Marabuto admite mineradoras
que consegue amansar índios bravios e a mineração
perigosos”. Dos 296 pedidos de autorização para
O deputado explicou a situação ao mi O novo presidente da Funai garantiu on pesquisa mineral e lavra em território
nistro através de uma carta e anexou a tem que a assinatura da Portaria nº indígena, 97 foram apresentados por
cópia de um telegrama, enviado por 88.984/83 não lhe foi colocada pelo mi empresas de capital multinacional. A
Apoena Meirelles na época do movimen nistro do Interior, como condição para a denúncia foi feita ontem pelo ex-presi
to dos índios do Xingú, onde ele de sua nomeação para o cargo, mas defen dente da Funai, Jurandy Marcos da
monstra “claramente sua posição anti deu que as riquezas minerais das áreas Fonseca, na Comissão do Indio da Câ
índio e reacionária”. Nesse telegrama — indígenas podem ser exploradas, desde mara dos Deputados. Desses pedidos,
contou Juruna — o indigenista aconse que haja uma legislação que realmente 33 são de capital não identificado, 136
lhava o então presidente da Funai a não proteja essas comunidades, o que não de empresas estatais e o restante de mi
ceder às pressões dos índios com relação acontecia com a portaria preterida pelo neradores de capital nacional. Fonseca
a mudança da presidência e nem condi ex-presidente do órgão, Jurandy Fonse foi explicar à Comissão do Índio as ra
cionar a política indigenista à vontade ca. “A portaria era muito genérica, atin zões de seu afastamento da Funai e de
dos índios. (FSP, 19/07/84). gindo indiscriminadamente as comuni nunciou a empresa Paranapanema por
dades indígenas. Na minha opinião, o ter criado uma subsidiária, a Acaraí,
trabalho das mineradoras poderia ser para minerar na terra dos Waimiri
“Demissão, eu não peço” permitido apenas nas áreas onde vivem Atroari, em Roraima. Disse que “a Pa
tribos mais aculturadas”, disse Mara ranapanema criou mais uma subisidiá
“Se o problema é demissão, então, que buto. (FSP, 19/9/84). ria para explorar minérios dentro da
ele cumpra o seu dever, fazendo-o ago área indígena. Elas funcionam ilegal
ra. Não retiro nada do que eu disse, mente e até alteram os mapas para se
mantenho minha posição.” As declara “Fui derrubado instalarem. A presença dessas empresas
ções foram feitas pelo sertanista Apoena porque não assinei” acarretará o extermínio dos índios”, in
Meireles, delegado da FUNAI em Ron formou Fonseca. (FSP, 28/9/84).
dônia, a propósito da entrevista dada O quinto presidente da Funai no gover
pelo presidente do órgão, em Cuiabá, no Figueiredo, Jurandy Marcos da Fon
quando anunciou que iria demiti-lo. seca, foi demitido ontem e substituído Marabuto demite
(Jornal de Brasília, 21/07/84). pelo chefe da assessoria de segurança e 11 funcionários
informação da Fundação, Nelson Mara
buto, ex-superintendente da Polícia Fe O presidente da Funai afastou ontem #1
“Fim do caciquismo” deral em São Paulo. Revelando que o de funcionários que ocupavam cargos de
putado e ex-cacique Mário Juruna parti confiança na fundação, Na lista inicial
A crise de Bauru, gerada pela demissão cipou da indicação de Marabuto, o mi constavam os nomes dos sertanistas Or
do sertanista Álvaro Villas Boas e a ex nistro Andreazza afirmou que Fonseca lando e Cláudio Villas-Boas, assessores
tinção da delegacia da Funai naquela ci foi demitido por ter tratado “inadequa da presidência. O afastamento dos dois
dade, em meados deste mês, marcou so damente um problema de natureza ad irmãos foi proposto pela auditoria do
bretudo o princípio do fim do caciquis ministrativa”. Jurandy Fonseca deu a Ministério do Interior, mas Marabuto,
mo no indigenismo brasileiro. Quem seguinte explicação: “Fui demitido por “em homenagem ao passado dos dois”,
pensa assim é nada mais nada menos do que não assinei a portaria que regula decidiu convocá-los a discutir sua situa
que um dos últimos auxiliares diretos do menta o Decreto nº 88.985 (referente à ção funcional. Cláudio e Orlando estão
marechal Rondon, o sertanista José Ma mineração em áreas indígenas). Contu aposentados da Funai desde 1976. Em
ria da Gama Malcher, hoje com 78 anos do, continuo mantendo a minha posi bora a notícia tenha causado impacto
e aposentado. Ele manifestou essa posi ção, e acho que, no momento em que as entre os funcionários, Marabuto man
ção a um seu amigo íntimo, que mora empresas mineradoras particulares en tém nos cargos de confiança os sertanis
em Brasília, e foi mais além ao conside tas e antropólogos da chamada “linha
rar absolutamente “correta” a forma de frente”. Permanecem também nos
como o presidente da Funai, Jurandy cargos de direção os índios convidados
Fonseca, encerrou a crise. (Jornal de pelo ex-presidente, entre eles, Marcos
Brasília, 28/07/84).

23
S INDjGENAS NO BRASIL/CFD!

Terena, chefe de gabinete, Megaron, no Liberados os 4 bi sediada em Belém, tem 304 funcionários
Parque do Xingu e Coxini, no Araguaia. para atender 7.491índios.
A medida, até agora, não provocou pro A Seplan liberou verba de Cr$ 4 bilhões O CIMI também manifestou apreensão
testos de antropólogos ou entidades de para a Funai, com recursos do Finsocial. “pela lenta tomada da FUNAI pela Polí
defesa dos índios, porque Marabuto está A grana é para saldar uma dívida de cia Federal”, citando os mesmos exem
tentando limpar a imagem da Funai, Cr$ 2 bi, com a compra de gasolina de plos do presidente da UNI, acrescentou
sempre acusada de “cabide de empre avião e medicamentos. Parte dos recur ainda que também a Divisão de Educa
gos”. (FSP, 3/10/84). sos será empregada na demarcação de ção está sendo chefiada por um ex-agen
áreas indígenas. (Notícias Populares, te policial. “O espaço que deveria ser
10/10/84), ocupado — salienta — por antropólo
Andreazza ordena readmissão gos e indigenistas competentes que inte
de Villas Boas gram os quadros da FUNAI, está sendo
Afastada coordenadora invadido por agentes federais”. (Diário
Um telegrama do ministro do Interior, dos Projetos Especiais de Pernambuco, 03.11.84).
Mário Andreazza, ao presidente da Fu
mai, Nelson Marabuto, às 19h20 de ter A presidência da Funai decidiu afastar a
ça-feira, tornou sem efeito a demissão economista Anadyr Alverca, responsá Marabuto acusa Jurandy
dos sertanistas Cláudio e Orlando Villas vel pela Coordenação dos Projetos Espe de “ladrão”
Boas. O ministro, segundo afirmaram ciais, que envolvem as áreas do Polono
assessores do presidente da Funai, mos roeste e Carajás. A medida foi tomada “Não pretendo ser mais um presidente
trou-se preocupado com a repercussão depois de reunião entre representantes da Funai mentiroso e ladrão.” A acusa
da demissão anunciada no começo da da Funai, Polonoroeste e Banco Mun ção foi feita ontem, em Belém, pelo
tarde e pediu que os dois permaneces dial, que financia a implantação de me atual presidente do órgão, o delegado da
sem no cargo de assessor 3 da presidên lhorias nas áreas dos índios afetados Polícia Federal Neison Marabuto, numa
cia, ganhando Cr$ 2.460.000. (Diário do pelo Polonoroeste. O afastamento da nova investida contra o seu antecessor,
Grande ABC, 04/10/84), funcionária deve-se à apresentação de Jurandy Fonseca. Segundo Marabuto,
um relatório ao órgão tutor dos índios, ele foi afastado porque “não tinha ido
segundo o qual houve má distribuição de neidade moral nem honestidade para
recursos liberados pelo Banco Mundial. defender o índio”. Marabuto afirmou
“Grupão” não se reúne
(FSP, 12/10/84). que não existe portaria alguma regula
O processo de homologação de áreas in mentando as atividades minerais em
dígenas já demarcadas, para registro área indígena, “e isso foi um engodo do
obrigatório no SPU, está sendo retar A FUNAI e a PF ex-presidente da Funai; enquanto dizia
dado pelo grupo de trabalho responsá que não assinava tal portaria, o que es
vel, em Brasília, pela aprovação das de “Todo mundo agora é Polícia Federal tava fazendo era lesar o patrimônio indí
marcações de reservas indígenas. Co dentro da FUNAI”, reagiu Álvaro Tu gena”. (ESP, 29/11/84).
nhecido como “grupão”, ele é integrado kano ao saber da indicação do agente da
pelo Conselho de Segurança Nacional, . PF, Luis Flávio Costa, para chefiar a de
através do Ministério de Assuntos Fun legacia do órgão em Manaus. Os números do DPI
diário, Incra, Ministério do Interior e Álvaro esteve em Brasília, reunido com o
Funai. Mesmo reservas como a de Pi- . presidente da FUNAI, Nelson Mara Segundo relatório oficial, a Diretoria do
mentel Barbosa e Parabubure, dos Xa buto para tratar da questão da 1? DR, Patrimônio Indígena da FUNAI reali
vantes, criadas por decreto do presiden há mais de um mês sem responsável e zou, em 1984, a identificação de 65 áreas
te Figueiredo, em dezembro de 1979, também para pedir o afastamento do ex indígenas, abrangendo uma superfície
ainda não foram homologadas. agente da PF, Kazuto Kavamoto, da as de 12.233.690 ha. Enviou ao GT-Inter
O “grupão” foi instalado em fevereiro sessoria da presidência — e que durante ministerial MINTER/MEAF, para de
8 anos esteve à frente da Delegacia em cisão final, 48 áreas, das quais 9 foram
do ano passado, a partir do decreto pre Manaus. •

sidencial, mas seu poder é retroativo e, aprovadas.


nesse caso, as áreas demarcadas antes “Exigimos — salientou Álvaro — a saí Foram demarcadas 19 áreas, num total
da existência do grupo sofrem uma nova da imediata deste assessor, que tem um aproximado de 2.145.003 ha. Deu-se
análise para confirmação ou redefinição vasto currículo conhecido entre todos os andamento aos processos de regulariza
dos limites. Os mais prejudicados com índios. Ele permitiu o ingresso da em ção fundiária, visando o registro imobi
essa medida são os índios cujas terras presa mineradora Paranapanema nas liário, de 17 áreas,
são disputadas por grandes grupos eco terras dos Waimiri-Atroari. Permitiu, Foram expedidas 105 certidões negati
nômicos, principalmente os Kaiapó do igualmente, a entrada da empresa pe vas e, além destas, sete foram indeferi
Pará. trolífera francesa, Elf-Aquitaine, no ter das definitivamente e dezesseis, tempo
rariamente. •

Há três semanas o “grupão” não se reú ritório Sateré-Maue. Em sua adminis


ne. Normalmente, as reuniões deveriam tração, a Delegacia sempre foi desassis 64 pedidos de concessão de Alvarás de
ocorrer toda quarta-feira. Mas a simples tida, embora seja a que tenha a maior Pesquisa Mineral foram indeferidos (to
viagem de qualquer um de seus inte população indígena do País. dos incidentes em áreas indígenas locali
Com uma população de 39.771 índios, zadas no Amapá, Maranhão e Pará) e
grantes adia os estudos de aprovação das
áreas. Na pauta do grupo encontra-se, a Delegacia conta apenas com 211 servi nove foram deferidos (8 no AP e um no
agora, a proposta de criação do Parque dores”. Por outro lado, a 2º Delegacia, PA). Estas informações foram retiradas
Ianomami, mas a reunião de amanhã foi do relatório intitulado Visão Geral dos
transferida. (Folha da Tarde, 09/10/ Trabalhos Realizados, DPI/FUNAI/
84). BSB, 1984.

24
sL7-Acervo
—/\{ 1 SA

JURUNA Acusações a — Exemplifiquei estes casos para que


*********** Alvaro Villas-Boas os companheiros tenham noção da si
tuação dos índios no Brasil. Embora sa
Omissão da FUNAI Pendurado no falso mito Villas-Boas, bendo que cada nação indígena enfrenta
no PIX você conseguiu enganar por muito tem- problemas particularizados, há, entre
po a opinião pública, entretanto, os ín tanto, um inimigo comum, o avanço
Na nota que divulgou ontem, o depu dios Guaranis de São Paulo são os prin acelerado da sociedade brasileira rumo
tado Mário Juruna acusa a Funai de cipais testemunhos de que você é um aos territórios dos índios — disse Juru
omissão na crise do Xingu, afirmando péssimo administrador, inimigo dos ín na. (O Globo, 01/08/84).
que, quando os índios apreenderam a dios, mau caráter e incompetente — este
balsa, o diretor do Parque, através de é um dos trechos da carta enviada, on
radiogramas, tentou alertar o presiden tem, pelo deputado Mário Juruna ao ex Demissão da esposa
delegado da Funaiem São Paulo, Álvaro
te, no sentido de que sua simples presen
ça poderia evitar o desencadeamento de Villas-Boas, demitido anteontem pelo O presidente da Funai demitiu ontem a
conflitos maiores. Mário Juruna chama presidente da Fundação. secretária nível três Doralice de Carva
atenção, ainda, para a necessidade de Juruna refere-se às declarações de Vil lho Silveira, mulher do deputado Mário
uma solução para o caso, lembrando las-Boas, publicadas em jornais paulis Juruna, que havia sido contratada no
que também está em risco a integridade tas e que atingem sua pessoa e vida par mês passado para o cargo. O afasta
física dos reféns. (ESP, 01/04/84). ticular. Por isso revida, assinalando na mento de Doralice foi pedido pelo pró
carta: “Sr. Álvaro, chegou o seu fim. prio deputado, que enviou carta ao pre
Acabou a era dos falsos indigenistas e gi sidente da Funai afirmando que com o
PL proíbe arrendamentos golôs de índios”. (Última Hora, 07/07/ gesto procurava “resguardar o bom no
84). me da atual administração do órgão e de
De agora em diante, qualquer funcioná sua independência como líder indíge
rio da FUNAI que permitir o arrenda Os “agentes na”. A atitude de Juruna foi tomada de
mento das terras habitadas por indíge desestabilizadores” pois que algunsjornais publicaram a no
nas poderá ser demitido sumariamente tícia da contratação de Doralice a pe
do serviço público, além de punido com O Deputado Mário Juruna, temeroso de dido do parlamentar, informando que
a pena de três anos de prisão. As mes que novos movimentos contestatórios à seu salário seria de Cr$ 1.300.000,00. A
mas punições se aplicam aos que permi Funai acabem desestabilizando a atual Funai, ontem, esclareceu que como se
tirem a exploração de riquezas minerais administração, resolveu cortar “o mal cretária nível três ela estava recebendo
por pessoas ou empresas nas terras habi pela raiz”: ontem ele entregou ao Minis Cr$ 680.000,00. (ESP, 2/8/84).
tadas por índios. tro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel, um
Essas normas proibitivas, entre outras, relatório, no qual aponta o sertanista
constam do projeto de lei aprovado on Apoena Meirelles como um provável Juruna defende fazendeiros
tem pela Comissão do Indio, por unani “agente desestabilizador” da adminis e é expulso
midade, de autoria do deputado Mário tração de Jurandy Marcos da Fonseca à
Juruna, presidente da comissão. O mes frente da Funai, podendo repetir o mes O deputado xavante Mário Juruna
mo projeto exige ainda que sejam puni mo que fez Álvaro Villas-Boas na Dele (PDT-RJ), ex-cacique da aldeia de No
dos todos aqueles servidores que não to gacia de Bauru. (O Fluminense, 19/07/ mukura (MT), defendeu ontem a reivin
marem providências até 30 dias após o 84). dicação dos cacaueiros que disputam
conhecimento da invasão das terras ha terras com os índios pataxós hã-hã-hães
bitadas pelos índios. em Pau Brasil, sul da Bahia. Ao desem
Essas providências determinadas pelo Na ONU barcar em Brasília, procedente do muni
projeto vão desde a expulsão dos inva cípio baiano, num jatinho alugado pelos
sores, ou declaração de nulidade de ex Queixando-se de tudo e de todo mundo, fazendeiros, Juruna declarou: “Não
tinção dos efeitos de atos jurídicos de o Deputado Mário Juruna discursou on quero saber daqueles lá da Bahia. Não
qualquer natureza que tenham por ob tem pela primeira vez num foro ligado às são índios, são caboclos. Nélson (Sara
jeto o domínio, a posse ou a ocupação de Nações Unidas, ao participar da reu cura, cacique pataxó) só quer confu
terras habitadas pelos silvícolas confor nião de um grupo de trabalho sobre po são”. No hangar de uma empresa de táxi
me pede a Constituição. pulações indígenas da Subcomissão de aéreo, Juruna era esperado por Jenner
O projeto, que agora será apreciado pe Minorias do Comitê dos Direitos Hu Pereira Rocha, ex-proprietário da fa
las Comissões de Constituição e Justiça e manos. O texto de sete páginas sobre as zenda São Lucas, onde vivem hoje os pa
do Interior, procura, segundo Juruna, atrocidades atribuídas às empresas mul taxós.
responsabilizar a Funai que comprova tinacionais em terras das tribos Satare Juruna seguiu na tarde de anteontem
damente não cumpre as obrigações fi Maioe, Munduruku, Waimiri-Atroari e para Pau Brasil na companhia de três
xadas por lei, segundo a Constituição. Yanomami foi distribuído aos partici deputados federais da Bahia, levando
(Correio Braziliense, 15/06/84). pantes da reunião sem que Juruna o les uma proposta dos fazendeiros para os
se no plenário. Em vez de ler o discurso, índios: transferência da tribo para a re
o Deputado denunciou longamente a serva florestal de Una, onde vivem os
inércia do Governo brasileiro em procu mico-leão. A alternativa para os índios,
rar solução para o problema do índio no
País e os métodos usados pela Funai,
“inadequados e contrários aos interesses
das populações indígenas”.

25
sL7-Acervo
__/ >A DÍGENAS NO BRASIL/CEDI

também proposta dos fazendeiros, era Pau Brasil, Durval Santana, fora agre Atitude estranha
indenização individual para que os pa dido a pedrada pelos índios, o deputado
taxós pudessem comprar terra onde qui França Teixeira informava que as pe Representantes de 14 comunidades indí
sessem. Até o final da tarde de ontem os dradas atingiram dois fazendeiros. In
genas ligadas à União das Nações Indí
fazendeiros já haviam mobilizado 3 bi dagados sobre a presença de cacaueiros genas divulgaram nota ontem acusando
lhões de cruzeiros para indenizar os ín na área, disseram que não viram que os
o deputado Mário Juruna de ter adotado
dios. fazendeiros “estavam nos acompanhan atitude “estranha” no episódio dos ín
Antes da chegada do deputado xavante do com seus carros, chovia muito”. (ar dios pataxós ha-ha-hae da Bahia. “Sen
à área pataxó, o gado de Jenner Pereira tigo de Memélia Moreira, FSP, 31/08/ timos a dor em nossas peles — afirmam
Rocha invadiu a terra ocupada pelos ín 84). — e perguntamos ao deputado quanto
dios, mas não houve reação. Os pataxós foi que custou para ele declarar que não
se limitaram aprender apenas um boi. E existe mais índios no posto indígena Ca
ontem de manhã, acompanhado pelos “Brancos inescrupulosos”, ramuru e em todo o Nordeste”. (ESP,
fazendeiros e parlamentares, Juruna foi segundo M. Terena 04/09/84).
apresentar a proposta aos pataxós que
há três anos insistem em permanecer na “Elamentável que brancos inescrupulo
área da fazenda São Lucas, parte da re sos estejam envolvendo o deputado Má Explicações
serva indígena Caramuru-Paraguassu, rio Juruna num jogo de interesses visan
demarcada para os índios em 1937 e ar do a tirar os índios Pataxó da Bahia de O deputado Mário Juruna negou ontem,
rendada para os cacaueiros a partir da suas terras, na Fazenda São Lucas. Ju em entrevista coletiva, as acusações de
década de 40. runa foi uma pessoa fundamental nos haver cedido às ofertas de fazendeiros e
Na manhã de ontem, quando a comitiva últimos anos na luta dos índios e, inclu seus representantes para deixar de de
de Juruna chegou à fazenda, os pataxós
sive, quase perdeu o seu mandato na Câ fender os interesses dos índios em troca
exigiram uma conversa com o cacique mara dos Deputados, quando no ano de presentes, favores e dinheiro. Confir
xavante separado de seus acompanhan passado chamou os ministros do Gover mou, contudo, haver recebido três mil
tes. No curral da fazenda, Juruna apre
no Figueiredo de “ladrões”, ao fazer um dólares do “comandante Carvalho”, pi
sentou a proposta que foi recusada pelos
discurso denunciando o problema dos loto e amigo do presidente da Funai,
índios. Além disso, os pataxós apreenPataxó."A afirmação foi feita pelo chefe para participar da reunião da ONU, na
deram os carros que transportavam os de gabinete da Funai, o índio Marcos Suíça, sobre direitos das minorias. “Fa
deputados e fazendeiros. Terena, que também acusou a comissão lei com Carvalho para quebrar o galho; e
Os parlamentares retornaram ontem a de deputados que esteve na área indíge eu não tinha dinheiro, mas não é dinhei
Brasília. Enquanto o deputado Jorge na de ter agido de forma irresponsável. ro de fazendeiro”, afirmou, em tom in
Viana informava que o ex-prefeito de (Útima Hora, 03/09/84). dignado, acusando a imprensa de fazer

O deputado Juruna, em tempo, “desmalufou”: depositou 30 milhões na conta de Calim Eid.

26
Acervo

"X | S A
intrigas e de dizer mentiras. Juruna dis Saracura quer encontro Ele também denunciou Jurandy Fonse
se ter visitado a área dos índios Pataxó, ca de ter permitido a exploração de ma
na condição de parlamentar, “acompa O cacique Nélson Saracura, da tribo Pa deira em área de reserva indígena no
nhado de dois deputados, e não de fa taxó, reconheceu ontem que houve um Pará.
zendeiros”. “Eu não sabia que o pessoal mal-entendido entre ele e o deputado A pedido do ministro, Juruna prometeu
vinha atrás; só vi quando chegamos à - Mário Juruna, durante a visita que uma apresentar um relatório, que também
reserva”, assinalou, negando que sua comissão de parlamentares da Câmara será entregue ao ministro do Interior,
viagem a Pau Brasil resultasse de algu Federal fez, recentemente, à reserva in Mário Andreazza, com a descrição de
ma articulação com os proprietários de dígena da Fazenda São Lucas. Saracura outros fatos. (Última Hora, 05/10/84).
fazendas na área em disputa e de que pediu um novo encontro com Juruna
houvesse sido pago. Mesmo assim, reco para que tudo fique esclarecido, “por
nheceu ter realizado a viagem à Bahia que índio não deve jamais ficar contra O dinheiro de volta
em avião fretado pelo sindicato patronal índio”. (Notícias Populares, 12/09/84).
de Pau Brasil. Também reafirmou ser a O deputado Mário Juruna devolveu ao
reserva Caramuru-Paraguassu ocupada Careca (apelido que escolheu para Ca
por uma maioria de caboclos e apenas Sem tutelas, lim Eid, “preposto de Paulo Maluf") os
meia dúzia de índios, e admitiu ter de com muita grana Cr$ 30 milhões “indecentes” que havia
fendido os Pataxó (enfrentando inclu recebido como primeira parte do paga
sive o risco de cassação do mandato) sem O deputado-cacique Mário Juruna quer mento para votar no candidato do PDS
conhecê-los, só percebendo agora que os ver os índios brasileiros ricos, prósperos, — ou deixar de votar no colégio eleito
índios puros são poucos. (FSP, 04/09/ donos das riquezas minerais extraídas ral. O dinheiro foi depositado na agên
84). das suas terras, inclusive recebendo os cia do Banco do Brasil da Câmara, em
dólares das empresas estrangeiras. Em Brasília. E continuaram ontem as de
entrevista exclusiva ao JBr, o parlamen núncias de tentativas de suborno por
Tentativa em vão tar xavante disse que “seu sonho” é ver parte do candidato do PDS. (ESP, 27/
os índios “independentes da tutela do 10/84).
Os principais líderes indígenas do País Estado e do paternalismo dos Cimis”.
estiveram ontem em Brasília para tentar Ele acha que a portaria da Funai regu
afastar o Deputado Mário Juruna de lamentando a exploração mineral em
suas recentes posições contra os índios território indígena deve ser discutida
Pataxó, que lutam com fazendeiros pela com os chefes tribais, para que toda a
ITAMARAÍ
garantia de posse de suas reservas. Após riqeuza dessas terras fique para as co HAMBIQUARA
uma reunião de duas horas, na sede da munidades e apenas 10% vá para a Fu
Funai, os caciques Raoni (Txucahamãe) nai. “Sou muito mais socialista do que A morte do cacique
e Cipriano (Xavante) e o chefe do Parque os picaretas que falam em nome dos ín ambulante
do Xingu, Megaron, não conseguiram dios”, disse. (Correio Braziliense, 21/
persuadir Juruna a mudar de opinião, 09/84). Atacado a golpes de faca e espeto de fer
mas saíram menos desconfiados. Mega ro, na noite de 15 de julho na rua XV de
ron desmentiu que exista um conflito Novembro, no centro de São Paulo, Ita
com o Deputado. E disse: “Nós vamos Doralice readmitida maraí Nhambiquara morreu na tarde do
continuar apoiando Juruna quando ele dia 21 de julho no Hospital Municipal do
estiver falando coisas certas”. (O Globo, A esposa do Deputado Mário Juruna Vergueiro.
7/9/84). (PDT-RJ), Doralice Silveira, que foi ad O assassinato foi esclarecido algumas
mitida e exonerada do cargo de funcio semanas depois, com a prisão do pisto
nária da Funai durante a administração leiro Manoel Gomes de Sá, o Bigode,
Brizola defende de Jurandy Fonseca, foi novamente con que recebeu 2 milhões de cruzeiros para
tratada pelo órgão na quarta-feira, atra executar o serviço a mando de José
O governador Brizola disse ontem que o vés da Portaria 771, assinada pelo novo Araújo Irmão, vulgo Mãozinha, chefe
deputado federal Mário Juruna foi víti Presidente, Nelson Marabuto. Doralice, da máfia dos vendedores ambulantes no
ma de um envolvimento, com o propó que durante o mês em que foi funcioná centro de São Paulo. Manoel disse à po
sito de desacreditá-lo, no episódio com ria da Funai, em junho, não compareceu lícia que Itamaraí foi morto porque era o
os índios Pataxós da fazenda São Lucas, ao trabalho, voltará para o mesmo car único que enfrentava Mãozinha e não se
na localidade de Pau Brasil, na Bahia. go: secretária, com salário superior a deixava “enquadrar”. Três esposas, 21
Ao desembarcar no Aeroporto Interna Cr$900 mil, de acordo com informações filhos, seis netos, Itamaraí tinha 59 anos
cional do Rio procedente de Brasília, o do órgão. (O Globo, 29/9/84). e sua história era incomum.
governador afirmou que a questão foi o Nasceu em Taruacamã (AM) e quando
tema predominante da reunião da ban menino, acompanhava os índios mais
cada do PDT, em Brasília, anteontem à Jurandy denunciado velhos nos ataques aos homens que cons
noite. (Diário Popular, 12/09/84). truíam a estrada de ferro Madeira-Ma
O deputado Mário Juruna transmitiu, moré. Roubavam tudo que podiam, des
ontem, ao ministro da Justiça, Ibrahim de madeira usada para calçar os trilhos
Abi-Ackel, a denúncia dos índios Kadi até os dormentes, que jogavam no rio.
weu conta o ex-presidente da Funai, Ju
randy Fonseca, que teria prorrogado
contratos de arrendamentos a fazendei
ros para utilização de terras indígenas.

27
s! Z> Acervo
_/\ | S.A S INDÍGENAS NO BRASIL/CED
Foi capturado num destes ataques, leva Depois de trabalhar na lavoura, Itama É
do para Sangradouro e entregue aos pa raí Nhambiquara decidiu vender ervas #-

dres salesianos, em Mato Grosso. Tinha que curam dores de estômago, mal-estar E
C
oito anos e ficou na missão até os 18 <r
e dores de cabeça, e também vendia pe *>
Ex}
anos, trabalhando na lavoura. Seguiu ças de artesanato: arcos, flechas e cola ·
8
para o Exército sendo encaminhado ao res. Já estava na reserva de Peruíbe e, E
E
Marechal Rondon, no 2º Batalhão da depois de andar com um grupo índio pe C
<r
Fronteira, em São Luís de Cáceres, em los bairros da Capital e cidades do Inte Q
*C
Mato Grosso. Foi mandado depois para rior do Estado, decidiu morar na reserva * E
# Ex}

o forte Príncipe, na margem do rio Ma de Parelheiros, próximo a Santo Amaro. E


Cl)
L
deira, e aprendeu a ser telegrafista. Em De seu primeiro casamento com a Índia S
1943 sua mãe casou-se com um cacique Dahari, teve apenas um filho, hoje com S
da tribo tupi-guarani, deixou o Ama 32 anos, motorista de ônibus em Brasí
zonas e foi morar na reserva de Caça lia. A segunda mulher de Itamaraí foi
pava, no Vale do Paraíba. E ele, autori uma loura, filha de italianos e com ela
zado pelo Marechal Rondon, acompa teve 12 filhos. Sua terceira mulher, Us
nhou a mãe e se engajou no Batalhão do la, teve dez filhos, e ultimamente vinha
Exército da cidade, onde aprendeu a morando com Urzala de Castro, de 24
guiar caminhões. 311108.

Nhambiquara tornou-se amigo de mui As discussões de Itamaraí ficaram famo


tos oficiais e quase foi para a Itália, le sas como a que teve com policiais mili
vado pelo general Gentil Falcão. Era tares num hotel perto da antiga estação
pracinha da FEB, mas se envolveu com rodoviária. Estava embriagado e se en
outros soldados, numa bebedeira, tom volvera em uma briga. Os policiais ati
bou um caminhão e por isso foi conde raram bombas de gás para que saísse do
nado a dois meses de detenção, desli quarto e ele se vingou atirando nos po
gado do Batalhão e mandado para a re liciais uma cobra Salamandra de Vare
}
serva indígena onde estava a mãe. da, idêntica à jibóia, sem veneno, que
comprara no Butantã. Os PMs mataram Itamaraí, na Praçada Sé (SP),
a cobra com duas rajadas de metralha
dora. Em setembro de 1979 pretendia
autorização para vender arcos e flechas e
como não conseguia invadiu o Senado
para falar com o então líder do governo
Jarbas Passarinho. Teve que brigar com
os seguranças e saiu com a promessa de
que seria atendido. Denunciou também
a morte do filho que teve desidratação,
em maio de 1980, entrando com a crian
ça doente no Ministério do Interior.
(ESP, 02/09/84).

28
- MINERAÇÃO
EM AREAS INDIGENAS

A entrada de empresas de mineração em áreas indígenas, sobretudo


as empresas estatais federais, mas também as empresas nacionais em
“casos excepcionais” e reservando-se aos índios a atividade de garimpagem,
está autorizada desde a promulgação do decreto nº 88.985 de novembro
de 1983 (acompanhado pela E.M. Interministerial MINTER/MME
nº 88, de 21.10.83).
Na ocasião, organizações civis de apoio aos índios protestaram veementemente
contra a medida, mas o assunto saiu momentaneamente de pauta, uma vez
que o decreto exigia uma regulamentação
a entrada que viabilizasse, na prática,
das empresas. •

Em agosto de 84, o então presidente da FUNAI Jurandy da Fonseca convocou


índios e organizações de apoio para discutirem uma minuta de portaria
para regulamentar o 88.985. Apesar das reuniões em Brasília,
na sede da FUNAI, índios e organizações de apoio mantiveram suas posições
pela inconstitucionalidade do 88.985 e não se dispuseram a entrar
no mérito da portaria.
Desde então, a questão não saiu mais de pauta, até as repercussões
de um novo decreto, assinado pelo presidente
e suspenso Figueiredo no início de 1985
um dia depois. •

Mas, de fato, o que está ocorrendo com a exploração de riquezas


minerais em áreas indígenas? Que setores estariam interessados
na regulamentação dessa atividade, a curto ou médio prazos?
Como desvendar a lógica desse jogo de interesses e pressões?
A equipe de ACONTECEU/CEDI montou em extenso quadro das posições
dos diferentes setores envolvidos na disputa, que merece leitura e reflexão
atentas. De fato, garimpeiros, articulados ou não com redes locais
de pequenos e médios empresários, têm invadido e explorado minerais
em várias áreas indígenas, ganhando no chão, aquilo que as grandes
empresas tentam ganhar primeiramente no papel: a legalização das áreas
de pesquisa e lavra como uma condição para grandes investimentos
de capital. •

Entre as empresas, as estaduais e as privadas parecem as interessadas


a mais curto prazo. As estatais federais procuram, no momento, se antecipar
nas requisições.
A FUNAI tem indeferido, ao longo dos últimos anos, a maior parte
dos processos enviados pelo DNPM, mas também aceitou alguns convênios
bi-laterais com empresas estatais, com conhecidos efeitos danosos
às populações indígenas afetadas (como, por exemplo,
o convênio 018/82 com a PETROBRÁS).
23
=LAcervo
_… #AbiGENAs No BRASIL/CED

Aconteceu
Decreto nº 88.985, § 2º. As empresas com autorizações de
novembro de 1983 pesquisa ou concessionárias de lavra,
na forma do parágrafo anterior, deve
Regulamenta os artigos 44 e 45 da Lei rão ter seus setores de produção e Jurandy consulta entidades
nº 6001, de 19 de dezembro de 1973, e. comercialização dirigidos por brasilei
dá outras providências. ros, tendo em vista o disposto no artigo O presidente da FUNAI, Jurandy Mar
O Presidente da República, no uso das 45, § 2º, da Lei nº 6.001, de 19 de de cos da Fonseca, convidou para uma reu
atribuições que lhe confere o artigo 81, zembro de 1973, combinado com o nião hoje, em seu gabinete, representan
itens III e V, da Constituição, e tendo artigo 1º, item VII, da Lei nº 5.371, de tes de entidades de apoio à luta indí
em vista o disposto pelos artigos 44 e 5 de dezembro de 1967. gena, quando apresentará a minuta de
45, da Lei nº 6.001, de 19 de dezembro Art. 5º. A exploração das riquezas do portaria regulamentando o decreto pre
de 1973, subsolo das áreas de que trata este De sidencial que permite a exploração de
Decreta: creto, somente será efetivada mediante minérios por empresas particulares nas
Art. 1º. A exploração de riquezas mi lavra mecanizada e atendidas as exi áreas indígenas.
nerais, em terras indígenas, observará gências que a Fundação Nacional do O presidente disse que essa reunião faz
as normas estatuídas pela Lei nº 6.001, Indio – FUNAI estabelecer na salva parte do seu projeto de participação e
de 19 de dezembro de 1973, a legislação guarda dos interesses do patrimônio abertura da FUNAI e que espera receber
sobre atividades minerárias e as dispo indígena e do bem-estar dos silvícolas. das entidades propostas para melhor
sições deste Decreto. Art. 6º. A FUNAI representará os inte resguardar os interesses das comunida
Parágrafo único. Entende-se por terras resses da União, na forma do § 1º do des indígenas. (Diário Popular, 27/08/
indígenas, para os efeitos deste De artigo 45, da Lei nº 6.001, de 19 de 84).
creto, as áreas descritas pelo artigo 17 e dezembro de 1973, fazendo reverter,
seguintes da Lei número 6.001, de 19 de em benefício dos índios e comunidades
dezembro de 1973. indígenas, os resultados econômicos A minuta de Portaria
Art. 2º. As riquezas e as utilidades decorrentes da exploração minerária,
existentes no solo das terras indígenas indenizações e rendas devidas pela ocu A minuta de Portaria da FUNAI, que
somente serão exploradas pelos silví pação do solo. fixa normas relativas à mineração em
colas, cabendo-lhes, com exclusividade, Art. 7º. E assegurado à FUNAI, o áreas indígenas, regulamentando o de
o exercício das atividades de garimpa direito de exigir a adoção, por parte das creto 88.985, foi distribuída pelo presi
gem, faiscação e cata. empresas beneficiárias da autorização à dente Jurandy Fonseca à imprensa e às
Art. 3º. A Fundação Nacional do Indio pesquisa e lavra, de medidas acaute entidades de apoio ao índio.
(FUNAI) adotará as providências ne ladoras, objetivando a preservação da O documento (com 25 artigos) prevê a
cessárias para garantir aos indígenas o cultura, costumes e tradições indí concessão de autorizações de pesquisa e
exercício das atividades referidas pelo genas. lavra de “minérios considerados estraté
artigo anterior, cabendo-lhe orientar a § 1º. À FUNAI, como órgão tutelar é gicos, necessários à segurança e ao de
comercialização do resultado da explo reservado o direito de, na forma do senvolvimento nacional” (definidos em
ração. Estatuto do Índio, suspender os traba Portaria do Diretor-Geral do DNPM)
Art. 4º. As autorizações de pesquisa e lhos de pesquisa e lavra, quando veri preferencialmente às “empresas estatais
de concessões de lavra em terras indí ficados prejuízos à cultura, costumes e integrantes da administração federal, e,
genas, ou presumivelmente habitadas tradições indígenas. somente em casos excepcionais, a crité
por silvícolas, serão outorgadas a em § 2º. A empresa autorizada à pesquisa rio da FUNAI, poderão ser conferidas a
presas estatais integrantes da adminis e lavra, em área indígena, assinará empresas privadas nacionais.”
tração federal e somente serão conce termo de compromisso explicitando que As atividades mineradoras a serem im
didas quando se tratar de minerais não terá direito a indenização contra a plantadas em áreas indígenas deverão
estratégicos necessários à segurança e União, o órgão de assistência ao índio ser precedidas de um contrato assinado
ao desenvolvimento nacional. ou aos silvícolas, quando determinada a entre a empresa e a FUNAI, de acordo
§ 1º. Em casos excepcionais, conside suspensão dos trabalhos, pela FUNAI, com uma série de obrigações, tais como
rado, cada caso, pela Fundação Na na defesa dos direitos e interesses dos a utilização exclusiva de lavra mecani
cional do Índio e pelo Departamento seus tutelados, nos termos da Lei nº zada, o pagamento de renda e indeniza
Nacional de Produção Mineral 6.001, de 1973. ção por destruição de benfeitorias. Fica
DNPM, poderão ser concedidas autori Art. 8º. Sempre que possível e com a vedada a concessão de qualquer autori
zações de pesquisa e concessões de lavra necessária autorização da FUNAI, as zação nas áreas de índios em processo de
a empresas privadas nacionais, habili empresas beneficiárias de autorização atração ou recém-contatados. Em com
tadas a funcionar como empresas de de pesquisa ou concessão de lavra, em pensação, “sempre que possível e com a
mineração. área indígena, utilizarão a mão-de-obra necessária autorização da FUNAI, as
indígena, levando em conta a capaci empresas de mineração poderão utilizar
dade de trabalho e o grau de acultu mão-de-obra indígena...”.
ração do silvícola.

30
s! Z_Acervo
_A @A

A garimpagem, faiscação e cata só po obtido com a exploração mineral pode índios e indigenistas são alijados do pro
derão ser exercidas pelos “silvícolas”. ria ser revertida para outras comunida cesso de redemocratização do País, por
No caso da requisição de autorização des, sob o controle da Funai”, afirmou um instrumento, que até mesmo extin
por “empresas privadas de mineração Marabuto. gue a eficácia de objetivos fundamentais
nacional”, as interessadas deverão aten No entanto, o novo Presidente da Funai da existência do órgão tutelar que se
der a requisitos, tais como: terem direto garantiu ontem que ao ser escolhido quer foi consultado”. (ESP, 10/01/85).
res brasileiros nos setores de produção e para o cargo não recebeu qualquer ori
comercialização, 51% de capital sob entação do Ministro do Interior, Mário
controle nacional, 2/3 de trabalhadores
Andreazza, no sentido de regulamentar “Proibida a entrada”
brasileiros e outros. o decreto presidencial que permite a ex
Os pagamentos das rendas, por parte ploração mineral nas reservas indíge O presidente da FUNAI, Nelson Mara
das empresas, deverão ser efetuados na nas. (O Globo, 21/09/84). buto, enviou um radiograma a todas as
conta da Renda do Patrimônio Indí
delegacias regionais do órgão, na manhã
gena/FUNAI, Agência do Banco do de ontem, proibindo o ingresso de com
Brasil. As alegações de Jurandy panhias de mineração e garimpeiros em
na Câmara áreas indígenas, o que, segundo ele, fa
talmente colocaria “em risco seus bens e
Entidades criticam, Dos 296 pedidos de autorização para a integridade física, pela inevitável e na
Jurandy defende pesquisa mineral e lavra em territórios tural reação dos índios em defesa do seu
indígenas, 97 foram apresentados por patrimônio e de suas vidas”. (JT, 11/
Asentidades de apoio ao índio presentes empresas de capital multinacional. A 01/85).
à reunião com o presidente da FUNAI, denúncia foi feita ontem pelo ex-presi
em Brasília, manifestaram-se contrárias dente da Funai, Jurandy Marcos da
à regulamentação da presença de em Fonseca, na Comissão do Indio da Câ Indigenistas vão manter
presas privadas de mineração nas áreas mara dos Deputados. Desses pedidos, mobilização indígena
indígenas e levantaram a inconstitucio 33 são de capital não identificado, 136
malidade do decreto 88.895. de empresas estatais e o restante de mi Os assessores do presidente da FUNAI,
O presidente Jurandy Fonseca é favorá neradores de capital nacional. Nelson Mafrabuto, decidiram que não
vel à regulamentação e afirmou que na Fonseca foi explicar à Comissão do In irão desmobilizar os índios que se con
realidade “as áreas indígenas estão sen dio as razões de seu afastamento da Fu centraram em Brasília, através das dele
do exploradas clandestinamente e com naie denunciou a empresa Paranapane gacias regionais do órgão, para protes
esta portaria a FUNAI passaria a fiscali ma por ter criado uma subsidiária, a tar contra o decreto autorizando a mine
zar a entrada de estranhos, aprovando Acaraí, para minerar na terra dos wai ração nas áreas indígenas.
apenas aqueles projetos de exploração miri-atroari, em Roraima. Disse que “a Os indigenistas pretendem manter os ín
de minérios que não fossem nocivos aos Paranapanema criou mais uma subsi dios a par de tudo, “de prontidão para
índios”. diária para explorar minérios dentro da agirem rapidamente”. Tal medida é ne
E acrescentou: “eu poderia assinar a área indígena. Elas funcionam ilegal cessária, porque, segundo a avaliação
portaria sem consultar as entidades de mente e até alteram os mapas para se feita pelos auxiliares mais diretos do
apoio ao índio ou líderes indígenas. Mas instalarem. A presença dessas empresas presidente da FUNAI, o governo recuou
quando assumi a presidência da FU acarretará o extermínio dos índios”, in apenas taticamente, diante da mobili
NAI, prometi sempre discutir as ques formou Fonseca. zação dos índios, antropólogos, serta
tões mais sérias com os interessados. O Após ter reafirmado que sua exoneração nistas e entidades de defesa da causa in
ideal seria que a própria FUNAI pudes ocorreu porque se recusou a assinar a dígena contra o documento. Além do
se explorar as riquezas minerais que portaria regulamentando as minerado mais há um enorme contingente de jor
existem nas terras indígenas, cujo lucro rasparticulares em áreas indígenas, Ju nalistas de todo o país e do exterior em
poderia ser revertido em benefício das randy Fonseca foi criticado pelo depu Brasília, para cobrir a reunião do Colé
comunidades. No entanto, estudos de tado João Baptista Fagundes (PDS-RR, gio Eleitoral no dia 15 de janeiro, sensí
senvolvidos pela minha assessoria indi malufista), favorável à exploração de vel à questão indígena. (Jornal de Bra
caram que ainda não temos know-how minérios nas áreas indígenas por parte sília, 11/01/85).
para este trabalho”. (ESP, 28/08/84). de empresas. (FSP, 28/09/84).

Marabuto apóia mineração FUNAI protesta


em área indígena
O presidente da FUNAI, Nelson Mara
“Não sou contra a exploração em si, mas buto e seus assessores, divulgaram nota
contra o aspecto generalizado da regula de repúdio ao decreto presidencial auto
mentação, que iguala índios que jamais rizando a exploração de minérios em “Minérios, índios
tiveram contato com os brancos e índios áreas indígenas. Depois de assinalar que e (in)dependência”
aculturados. Isso poderia ser corrigido o decreto burla a Constituição Federal, o
com a elaboração de um outro docu Estatuto do Indio e a própria Declara A existência de riquezas minerais em
mento normativo, que assegurasse a ele ção Universal dos Direitos Humanos e terras indígenas é, neste momento, a ra
vação do nível de vida das comunidades de apontar as conseqüências nefastas da zão de uma série de ameaças que, se fo
aculturadas, propiciando mais trabalho: ação das mineradoras para os índios, a rem concretizadas, significarão a degra
e riqueza para os índios. Parte do lucro nota conclui: “no momento em que a dação e a morte de mais da metade dos
sociedade brasileira se volta para assu índios brasileiros.
mira gerência de seu próprio destino, os
31
s! Z> Acervo
_{ | @A. INDÍGENAS NO BRASIL/CEDI

As ameaças partem do governo brasi o Brasil celebrou um acordo secreto com esquecendo que sua obrigação é pedir
leiro, que precisa de dólares para entre a República Federal Alemã, envolvendo mais recursos e não colaborar com a ile
gar aos felizes banqueiros internacio reservas de urânio, necessário para a galidade.
mais, especialmente estadunidenses, que produção de energia atômica. Por esse A par disso tudo, através de uma enxur
hoje governam de fato o Brasil. Vão-se acordo o Brasil receberá oito usinas nu rada de projetos de lei, decretos e porta
os minérios, mudam-se em dólares, os cleares, a começar pela de Angra dos rias, vem-se tentanto criar uma legali
cofres dos bancos ficam mais recheados Reis, já em construção. Em troca a Ale dade especial, à margem da Constitui
e o Brasil fica dono de um buraco. E manha receberá urânio, que se encontra ção, para estimular e proteger a corrida
amanhã a história dirá que num grande em Roraima, na Serra do Surucucu, aos minérios. Na verdade, essa operação
país da América Latina houve tempo em área notoriamente ocupada pelos índios mata-índio é inconstitucional, pois o ar
que existiam riquezas minerais e índios. da triboyanomami. A abertura da estra tigo #98 da Constituição assegura aos in
Existem outros estrangeiros interessa da Manaus-Boa Bista, que passa por dígenas a posse permanente das terras
dos naquelas riquezas. São empresas de essa região e não tem objetivo definido, que ocupam e o usufruto exclusivo de
mineração que, há vários anos, favoreci bem como a obstinada recusa do gover todas as riquezas nelas existentes. E o
das pelo complexo militar-tecnocrático no brasileiro em criar o Parque Indígena Estatuto do Indio, que é lei federal, em
que decide em lugar do povo brasileiro, Yanomami, levam à conclusão de que o seu artigo 18 reafirma o dispositivo cons
vêm obtendo todas as informações e to “New York Times” não andava longe da titucional e proíbe qualquer negócio ou
das as facilidades para conhecer o sub verdade. atividade “que restrinja o pleno exercí
solo brasileiro e tirar dele o que lhes in Ma os minérios existentes em áreas indí cio da posse direta pela comunidade in
tereSSar. •
genas já despertaram também a cobiça dígena ou pelos silvícolas”. E no pará
No ano de 1977 foi publicado nos Esta de alguns brasileiros, que conseguiram grafo 1º desse mesmo artigo veda a qual
dos Unidos um livro muito importante aliados no Departamento Nacional de quer pessoa estranha aos grupos tribais
para os brasileiros, de autoria do antro Produção Mineral, do Ministério das ou comunidades indígenas a prática de
pólogo Shelton Davis, da Universidade Minas e Energia, e no próprio Congresso "atividade extrativa,
de Cambridge. Nesse livro, que já tem Nacional. Ignorando totalmente a Cons As empresas de mineração que preten
edição brasileira com o título As vítimas tuição e, pior do que isso, desprezando o dam extrair riquezas em áreas indígenas.
do milagre, o autor demonstra que um fato de que os índios são seres humanos deverão, antes, atentar para a garantia
dos aspectos subterrâneos da grande com direito à vida, um verdadeiro “co constitucional da posse indígena, para
farsa que foi o “milagre brasileiro” era amando antiíndio” entrou em ação nos não sofrerem grandes prejuízos. Ainda
entrega de riquezas minerais às empress últimos anos. recentemente a empresa estatal francesa
sas multinacionais. Nesse livro Shelton Na última campanha eleitoral foram de petróleo Elf Aquitaine foi obrigada a
Davis enumera noventa projetos de mi amplamente distribuídos em Roraima, pagar uma indenização de trezentos mi
neração em terras indígenas, benefi no Amazonas, no Acre e em outros lu lhões de cruzeiros aos índios sateré
ciando empresas multinacionais, espe gares onde há índios e minérios, panfle maué e mundurucu, por haver penetra
cialmente a U.S. Steel Corporation, a tos de propaganda eleitoral através dos do em suas terras com autorização, sem
Alcan Aluminum Company e a Bethle quais alguns candidatos, do PDS e do valor legal, da Petrobrás, para efetuar
hem Steel Corporation. PMDB, prometiam aos eleitores que prospecções.
Os interesses estrangeiros não param aí, trabalhariam pela abertura dos garim É necessário que a consciência brasileira
pois graças à generosidade dos militares pos e pela entrada de empresas minera reaja a essas investidas, que levarão à
e tecnocratas as portas estão abertas, es doras em áreas indígenas. Os próprios morte e à degradação física e moral mui
cancaradas, para quem quiser vir ao governadores dos Estados e territórios tos índios, além de trazer prejuízos e não
Brasil abastecer-se em condições muito em que isso ocorreu apoiaram essa cri benefícios ao povo brasileiro. Os miné
vantajosas. A Petrobrás, especialmente minosa abertura, ocultando ao povo que rios irão embora, os bolsos de um peque
através do setor de contratos de risco, o lugar de onde se tira o minério não fica no grupo de ambiciosos ou aventureiros
passa tranqüilamente por cima da Cons com a riqueza nem com alguma parte ficarão mais cheios e o Brasil ficará mais
tituição, usurpa atribuições que são ex substancial dela, mas apenas com os bu pobre em riqueza mineral e em prestígio
clusivas do presidente da República e racos, como aconteceu em Minas Ge perante a história. (artigo de Dalmo de
autoriza empresas estrangeiras a pene rais. Abreu Dallari, FSP, 14.09.84).
trarem em terras indígenas. Uma das O “comando antiíndio” vem atacando
conseqüências é o desmatamento de no Congresso Nacional, onde o deputa
áreas consideráveis, com a derrubada de do Mozarildo Cavalcanti já se revelou o Parecer das entidades
grande número de árvores de madeira de mais obstinado protetor das minerado de apoio
lei, que nunca poderão ser repostas. Ou ras, apresentando inúmeros projetos de
tra conseqüência é a matança direta ou lei, evidentemente inconstitucionais, vi Reiteradamente as empresas minerado
indireta dos índios brasileiros. sando a legalizar a invasão de áreas indí ras e as empresas econômicas ligadas à
Mas a invasão estrangeira não termina genas. Um dos argumentos apresenta mineração têm tentado explorar as ri
aí. O jornal “New York Times” publi dos pelos deputados, especialmente Mo quezas do subsolo dos territórios indíge
cou, em 1975, uma denúncia gravíssi zarildo Cavalcanti (PDS de Roraima), nas e reiteradamente os povos indígenas
ma, que nunca foi desmentida pelo go é o que chamam “aspecto fático”, que é e as sociedade nacional tem respondido
verno brasileiro. Segundo aquelejornal, a existência de muitos garimpos clan a tempo.
que implicitamente revelou a existência destinos, sem que a Funai, que é a prote
de uma disputa entre poderosos grupos tora oficial dos índios, tenha meios para
estrangeiros, pelas riquezas brasileiras, impedi-los. E o próprio representante da
Polícia Federal na Funai repete esse ar
gumento, como se fosse coisa natural,
sL7-Acervo
_/\ | <> A

Uma vez mais se dá essa tentativa. O Ao entrar no regime industrial de traba


Uma resposta
Exmo. Sr, Presidente da República assi lho, como propõe o Decreto, os índios ao sr. Roberto Marinho
nou o Decreto nº 88.985 de 10 de novem além do abandono das suas atividades
bro de 1983 que abre essa possibilidade, de subsistência tradicionais, serão le Rio de Janeiro, 24 de setembro de 1984.
mas que necessita de uma portaria regu vados a abandonar as práticas sociais e Prezado Senhor,
lamentadora. Quase um ano depois, a cerimoniais indispensáveis à reprodução
discussão é colocada em pauta, 170 em do seu modo de ser e de pensar. Diante Os argumentos apresentados pelo recém
presas já pediram oficialmente autori disso a preocupação do Decreto com os exonerado Presidente da FUNAI, ao se
zação para entrar em áreas indígenas. A prejuízos à Cultura Indígena é mera re negar a assinar a Portaria que regula
assinatura da Portaria resultou em uma tórica. menta a exploração de minérios em ter
crise administrativa na Fundação Na E no mínimo suspeita a pressa com que, ras indígenas, são mais complexos que
cional do Indio; seu Presidente, Jurandy às vésperas da sucessão presidencial, os supostos pelo Sr. Roberto Marinho no
Marcos da Fonseca, acabou sendo exo tais medidas pretendam ser tomadas. seu Editorial “A Verdadeira Segurança
nerado por terentendido que sua assina Argumenta-se que é premente a explo Nacional”, publicado no Jornal O Glo
tura significaria anuência com o genocí ração mineral em área indígena para bo, 13/9/84. O perigo de moléstias ori
dio. pagar a dívida externa. Ao contrário, undas dos brancos é apenas uma entre
No jogo de pressões que alcançou rele manter intactas reservas minerais é o as muitas razões apresentadas no Pare
vância pública no Editorial “A Verda mais racional. O esgotamento de tais cer Jurídico, Antropológico e Político
deira Segurança Nacional” do jornal O reservas como resposta à pressão para o elaborado pelas lideranças indígenas e
Globo, assinado pessoalmente pelo Sr. pagamento de juros aos credores inter as Entidades de apoio ao índio, e dirigi
Roberto Marinho, os argumentos utili nacionais não lesa apenas os povos indí do à FUNAI. A inconstitucionalidade
zados não são novos: O Brasil necessita genas, mas empobrece a Nação brasilei do Decreto 88.985, que abre as áreas in
extrair e exportar minérios para salvar ra como um todo. dígenas
dente. à exploração de minérios, é evi

sua economia e não pode ficar a mercê A regulamentação desse lamentável De


de um pequeno contingente indígena creto é não só anti-índio, como também Previsível e fatal é o impacto das ativi
que exige a conservação ecologicamente contrária aos interesses populares. Sem dades de lavra, sobretudo a mecânica,
harmônica do seu território para sua consultar a Nação Brasileira, os repre sobre o equilíbrio ecológico e as organi
sobrevivência. sentantes legisladores, ainda que de le zações sócio-econômicas indígenas.
Por outro lado, menos divulgados mas gitimidade contestável, encaminharam O Sr. Roberto Marinho faz-se porta-voz
verdadeiros e antigos são os argumentos o Decreto e a Portaria. dos interesses das mineradoras, compa
dos Povos Indígenas e sua luta por so A Constituição Brasileira em seu artigo rando falaciosamente o processo de de
breviver. Se agrega a isso, agora, o fato 198 diz taxativa e peremptoriamente que senvolvimento do Brasil com os Estados
de que, além de verdadeira, justa e ur é dos índios o usufruto exclusivo das ri Unidos e Japão. Não há equivalência. É
gente, a preservação das áreas indígenas quezas naturais e de todas as utilidades sabido que a economia norte-ameri
é exigência legal. existentes nas terras indígenas, não po cana, predatória em outros Países, é
Os argumentos são verdadeiros porque dendo, portanto, lei, decreto ou portaria mais cuidadosa em casa: prefere com
os fatos têm demonstrado que o impacto disporem contrário. A alegação de que o prar barato de seus “aliados” a esgotar
da extração mineral sobre os territórios Subsolo se diferencia da terra não en os seus próprios recursos. O Brasil e fon
índios, afeta a integridade e o equilíbrio contra, tampouco, respaldo na Consti te perene de matéria-prima a preços irri
das relações estabelecidas pelas socie tuição, já que o fundamento desse argu sórios e, com isso, alimenta não o bem
dades indígenas com o meio ambiente, mento é o artigo 168 que se refere ao solo estar de sua população mas a riqueza
causando danos irreversíveis. e não à terra. Para os índios a Constitui norte-americana. Por fim, o Editorial
O contato direto e indireto das popula ção usou Terra, que quer dizer solo e sugere que se importe o modelo norte
ções índias com a população branca subsolo. americano de genocídio para encher os
acarretará necessariamente surtos epi Diante dessa ameaça cumpre a socie cofres nacionais com covas cheias de ín
dêmicos dificilmente controláveis, con dade civil assumir como sua a luta dos dios. E isso que nós queremos?
tra as quais, é sabido, os índios não têm Povos Indígenas. (Súmula do parecer O Sr. Roberto Marinho afirma que se
resistência imunológica, razão pela qual Jurídico, antropológico e político) pretende frear o progresso do Brasil por
povos inteiros foram levados à extinção. Rio de Janeiro, 24/set/1984. “critérios ideológicos e antropológicos”.
Os efeitos ambientais da lavra, sobre União das Nações Indígenas Não é insanidade muito maior conceber
tudo a mecânica, desencadeiam proces Associação Brasileira de Antropologia um sistema econômico todo voltado para
sos variados de disrupção ecológica; rios Associação Nacional de Apoio ao Índio bens de mercado ignorando o bem-estar
poluídos, a cobertura vegetal afetada, do Rio Grande do Sul da população, da qual fazem parte os ín
assim como, os hábitos alimentares, a Associação Nacional de Apoio ao Índio dios, poucos graças a séculos de depre
reprodução e a distribuição da fauna. As da Bahia dação e condenados agora por viver em
alterações no nível demográfico se refle Conselho Indigenista Missionário cima de substâncias inorgânicas cobi
tirão sobre o nível social. A organização Comissão Pela Criação do Parque Yano çadas pelos interesses multinacionais?
de cada sociedade terá de se ajustar a mami Será que o Sr. Roberto Marinho não está
mudanças profundas causadas pela in utilizando critérios ideológicos incon
trodução de novas técnicas, pela mone fundíveis defendendo o modelo norte
tarização da economia, pela transfor americano e propondo que se pague os
mação de cadá indivíduo em trabalha juros da dívida externa com as riquezas
dor assalariado. naturais indígenas transformadas depa
trimônio inalienável em mercadoria?

33
-

* # Nogenas no BRasil/cro
=A_E^s
O que queremos enfatizar é que o mais FUNAI como empresa Segundo as entidades a regulamentação
importante é garantir às populações in de mineração da exploração de riquezas minerais em
dígenas os direitos mínimos de sobrevi terras indígenas, através do Decreto nº
vência. Já repetimos ad nauseam que a Um termo de convênio que a Fundação 88.985, de 10.11.83, “tem trazido preo
Constituição Federal garante esses di Nacional do Índio (Funai) pretende cele cupações à opinião pública ante a possi
reitos: aos índios é assegurado “o usu brar com a Companhia de Pesquisa de bilidade de extinção das últimas comu
fruto exclusivo das riquezas naturais e Recursos Minerais (CPRM), visando à nidades indígenas existentes no Brasil,
de todas as utilidades existentes nas ter pesquisa e exploração de minérios em mormente na Amazônia, região que
rasindígenas”. terras indígenas, foi denunciado ontem, possui grande potencial de riquezas mi
Gratos pela atenção que o Seu Jornal nos pelo presidente da Coordenação Nacio nerais e sofre no momento presente o
dedica, aproveitamos a ocasião para nal dos Geólogos (Conage), Gerôncio assédio constante por parte dos grupos
apresentar os votos da mais elevada es Rocha. Ele o considera “nocivo aos inte econômicos atuantes no setor mineral.
tima e consideração. resses das comunidades indígenas e do Considerando não ser essencial, para o
Atenciosamente setor mineral”. Cópia do documento foi conhecimento do potencial de riquezas
Dra. Alcida Rita Ramos apresentada à Agência Folhas durante o minerais do País, o desenvolvimento de
Comissão de Assuntos Indígenas 33º Congresso de Geologia, que se rea trabalhos técnicos nos domínios das co
Associação Brasileira de Antropologia liza no campus da Universidade Federal munidades indígenas e que as riquezas"
do Rio de Janeiro. minerais existentes nessas áreas não
A minuta do convênio Funai/CPRM constituem reservas consideráveis ou in
(ainda não assinada), com seis páginas e dispensáveis à atividade mineraldo País,
treze cláusulas baseadas no decreto e só o imediatismo da política de explo
88.985, de 10 de novembro do ano pas ração de ouro e cassiterita explica o afã
CVRD nega interesse imediato sado, propõe que a Funai se torne uma com que esse Decreto coloca as áreas in
empresa de mineração associada à dígenas à disposição das empresas de
Nem a CVRD, nem as suas subsidiárias CPRM e coloca a pesquisa dos bens mi mineração.
têm qualquer interesse em que seja assi nerais em áreas indígenas “como uma Considerando que os trabalhos de pes
nada a portaria regulamentar do decreto espécie de monopólio destes organis quisa e lavra, em territórios indígenas,
que permite a mineração em áreas indí mos”, segundo o presidente da Conage. constituem fator de desagregação inter
genas, segundo declarações do sr. Breno (Folha da Tarde, 31/10/84). na na estrutura destas comunidades,
Augusto dos Santos, chefe da Província com conseqüente risco de extinção das
Mineral Norte da DOCEGEO, em Be mesmas, processojá bastante conhecido
lém. Ainda segundo o sr. Santos, a em CPRM desmente através de nossa história, exacerbado,
presa mantém inalterada a sua filosofia hoje, pela desenfreada e perniciosa ati
de que as reservas indígenas devem ser Procurado por estejornal, o general Sal vidade de garimpagem nestas áreas, in
excluídas de todas as pesquisas e proje vador Mandim, presidente da CPRM, clusive com beneplácito de órgãos que
tos de mineração, pelo menos até que se negou que a empresa já se tenha asso deveriam coibi-la, conforme legislação
criem condições para uma aproximação ciado à Funai. vigente;
não traumatizante entre brancos e ín Mandim explicou que, há tempos, a em Considerando que, em se tratando de
dios. presa estatal foi procurada por represen “minerais estratégicos necessários à se
Como exemplo prático dessa filosofia, o tantes da Funai para examinar o Decre gurança e ao desenvolvimento nacio
representante da CVRD lembrou o en to nº 88.985/83, que estimula a mine nal”, como previsto pelo Decreto e “ou
caminhamento dado pela empresa sob ração na área indígena, mas disse que a torgadas a empresas estatais integrantes
controle estatal, após concluir as pesqui proposta, até agora, não foi aprovada da administração federal”, as autoriza
sas que constataram a riquíssima jazida por nenhum dos lados. O presidente da ções de pesquisa e as concessões de lavra
de cassiterita dentro do território Yano CPRM ressaltou que “a CPRM sempre em terras indígenas, ou “presumivel
mami, em Roraima (ver, a respeito, a saberá respeitar a comunidade indígena mente habitadas por silvícolas” repre
justificativa do projeto de lei apresen e assegurar respeito às leis de proteção a sentam um atentado à sobrevivência das
tado pelo deputado Márcio Santilli, estas áreas”. (Gazeta Mercantil, 01/11/ comunidades tribais brasileiras, tendo
adiante). Ele admitiu, todavia, que, se 84). em vista o choque resultante do contato
no futuro, houver condições de trabalho entre dois sistemas sócio-econômicos di
em áreas indígenas, estabelecendo-se ferentes, fato já observado no dia-a-dia
um consenso entre a FUNAI e os pró vivido em várias regiões;
prios antropólogos, de que esse trabalho EÓLOGOS Considerando que o bem mineral locali
zado nestas áreas deve ser avaliado em
não será danoso às populações indíge
nas, então a empresa poderá repensar a Nota da CONAGE e SBG consonância com os interesses das co
postura que adota hoje. munidades indígenas, respeitando-se
Breno confirmou que a DOCEGEO, A Coordenação Nacional dos Geólogos e sua opinião quanto à oportunidade e às
como subsidiária da CVRD, tem efetiva a Sociedade Brasileira de Geologia, di condições de mineração em seus territó
mente vários pedidos de pesquisa, mui vulgaram nota conjunta sobre a minera rios específicos;
tos deles envolvendo áreas de ocupação ção em áreas indígenas, um dos temas Julga-se que não se deve admitir que esta
indígena. “Mas mesmo nessas áreas não debatidos durante o XXIII Congresso atividade de mineração coloque em risco
trabalharemos desde que haja a menor Brasileiro de Geologia, realizado entre o bem-estar destas populações e a garan
possibilidade de prejudicar o índio. E de 28/10 e 04/11, no Rio de Janeiro e que tia das condições essenciais de sua so
certa forma estaremos preservando es reuniu mais de 3 mil técnicos e empre brevivência; ao contrário, é necessário
sas áreas de outros concorrentes que sários do setor mineral. que a atividade esteja em sintonia com o
possam não ter os mesmos cuidados e os processo efetivo de auto-determinação
mesmos escrúpulos que nós temos”, fi destes povos.
nalizou. (O Liberal, 23/09/84).
34
O Decreto 88.985/83, além de não con
siderar estes pontos, permite que surjam
proposições de empresas que ferem fron
talmente as normas legais do setor mi Processos de pesquisa mineral/DNPM
neral, conforme atestamos no termo de INDEFERIDOS/FUNAI, por área indígena
convênio proposto pela CPRM à FU e tipos de empresa. Período: 13/01 a 15/10/1982
NAI. Tal documento propõe que a FU
NAI se torne uma Empresa de Minera
ção associada à CPRM, que a pesquisa empresa - emp, privada emp, privada não

de bens minerais em áreas indígenas seja Área indígena estatal nacional linternacional ident. total

monopólio destes organismos e que os


direitos minerais sobre estas áreas sejam PIAripuanã (RO/MT) *** -. 32 4 36
negociados com outras empresas de mi A Roosevelt (RO/MT) - …-- } 1 2
neração, abrindo totalmente as áreas AI 7 Setembro (RO/MT) «… - 4 1 5
indígenas à exploração, Karitiana (RO) y= - 2 - 2

A CONAGE e a SBG, através deste do Yanomami (RR/AM) *-+- 5 3 - 8

cumento, vêm denunciar à opinião pú Waimiri-Atroari 4 1 - - 5

blica este termo de convênio proposto (RR/AM)


pela CPRM à FUNAI, cuja efetivação é AITenharim (AM) …… - - 1 1

viabilizada pelo Decreto 88.985/83, de Cateté (PA) 3 2 - - 5

monstrando sua total inadequação fren RI Kayapó (PA) … - - 2 2


te aos interesses das comunidades indí Bau-Mekranotire (PA) •- - 13 - 13

genaS. AI Turiaçu (MA) - - - 5 fy

Pela demarcação das Terras Indígenas. Áreas não identificadas (*) 3 19 40 15 77

Pela transformação das Terras Indíge


nas em Reservas Nacionais. TOTAL 10 27 05 30 162

Pela aprovação do Projeto Lei nº 4.558/


84, de Márcio Santilli, o qual transfor Fonte: “Relação de Processos indeferidos referentes a Pesquisa Mineral — Exercício de 1982”,
ma em Reserva Nacional de Minerais as DGPI/FUNAI/DF: #5/10/82.

terras Yanomamis.
Pela revogação do Decreto 88.985/83 Nota: (*) processos indeferidos com base no item 3 da Portaria Interministerial006/3.1.
que abre as terras indígenas às empresas
de mineração.”
Levantamento parcial de processos de pesquisa
mineral/DNPMINDEFERIDOS
Não há mais garimpo e EM TRAMITAÇAO/FUNAI,
como antigamente por área indígena e tipo de empresa, 1984.
Para o geólogo Elmer Prata Salomão, o
garimpo que atualmente existe na região empresa Hemp, privada emp. privada F1ão
de fronteira da Amazônia está comple Area indígena estatal (*) nacional I internacional ident. total
tamente descaracterizado, não manten
do mais qualquer semelhança com o ga indef. em tr.indef. em tr, indef. em tr. indef. em tr.: indef. em tr.
rimpo tradicional, onde o trabalho de
extração era essencialmente manual. Alto R. Guamá (PA) 1 2 - — - - … …"- 1 2
Hoje, segundo Helmer, a mecanização Cateté (PA) 9 28 - - - - - -- 28
atingiu todas as frentes garimpeiras e Turiaçu (MA) - 4 *_*_*_* - - •- - |- — º 4

está em completo desacordo com aquilo RI Kaiapó (PA) - 20 - 3 - - - 1 - 24


que prevê o Código de Mineração. Aliás, Waiãpi (AP) 46 1 4 5 - - 1 - 51 7
para ele o Código está desatualizado ou Sararé (MT) - - += =y · .… 1 #… 1 -

pelo menos inadequado a esse novo tipo Yanomárni (RR/AM) 1 .… .…… += => ---- *= * 1 -

de garimpo e sugere que se introduza Jacamin (RR) 1 •- ---- …Sº …-mam- - … … 1 -

uma nova figura, a da Lavra de Risco. Zorós (MT) - ---- –*-*- ---- 2 - - - 2 -

Embora considere o garimpo socialmen Igarapé Lourdes


te importante, já que é absorvedor de e Alto Urupá (RO) 1 - - - - - -_- … 1 *=-

mão-de-obra tangida pelo desemprego, Parakanã (PA) } - - - - - - - 1 -

o geólogo defende que a atividade pre Koatinemo/Paquiçamba/


cisa ser contida, em função do quadro Bacajá (PA) ] •- --… <m- •- … … - 1 *-*

social de desigualdade que gera e dos


conflitos que acarreta. Mas não vê, a Subtotal 61 55 4 9 2 - 2 1 69 (35
curto prazo, uma solução viável para o
problema. (Brasil Mineral, nº 12, nov. TOTAL 116 13 2 3 134
84, SP, pg.30).
Fonte: Processos DNPM.

| (*) A quase totalidade dos processos de pesquisa mineral estatais são da Companhia Vale do Rio
Doce (CVRD), sobretudo de suas subsidiárias.

35
s! Z_ Acervo -

_A EVAs indiceNAs no BRASIL/cED


“A política de exploração de minérios (Às Comissões de Constituição e Justiça,
não pode ser determinada somente pelo de Minas e Energia e de Finanças.)
interesse imediatista das empresas de O Congresso Nacional decreta:
Indianidade e mineração exploração que hoje querem saquear as Art. 1º Constitui reserva nacional de
terras que a República assegurou aos in ouro, cassiterita e associados, à área in
Em artigo assinado pelo deputado João dígenas. Nem pode ser definida pelos dígena Yanomami, situada no Estado
Batista Fagundes (PDS-RR), publicado interesses predatórios dos credores in do Amazonas e no Território Federal de
na seção “Ponto de Vista” da Revista ternacionais, que não se importam com Roraima.
Veja (03.10.84) com o título “Somos to a dilapidação de nossos recursos natu § 1º Os limites da reserva ficam estabe
dos caboclos”, pode-se ler sete longos rais, contanto que seus saldos se refa lecidos, ao norte, pela linha divisória en
parágrafos de preconceitos contra os po çam. tre o Brasil e a Venezuela, até o meri
vos indígenas, a pretexto de esclarecer A localização das reservas minerais em diano de 66º 2000 W, ao sul, pelo tra
quem, afinal, é índio de verdade. terras indígenas é uma bendita proteção çado da Rodovia BR-210 e, a leste pelo
Mas o essencial mesmo está no final: “A de bens que pertencem à nacionalidade. meridiano de 62º 00'00W.
questão ganha especial relevo no presen O sacrifício dessas comunidades clama § 2º A reserva constituída neste artigo
te momento, quando interesses diversos por uma reflexão sobre o que as gerações não suspende o direito exclusivo de ga
pretendem impedir que se abra o Terri presentes devem ao legado material do rimpagem, fasicação e cata, previsto no
tório de Roraima à mineração, utilizan passado.” art. 44 da Lei nº 6.001/73.
do a “proteção do índio” como pretexto. (...) Art. 2º A área constituída como reserva
Em Roraima, há índios que falam inglês “Todas as Constituições brasileiras en nacional, segundo esta lei, permanecerá
e pagam táxi em dólar quando vêm a tenderam, como afirmou Pontes de Mi interditada até o término da sua demar
Boa Vista. Ao mesmo tempo, uma co randa, que a República assegurou às co cação e o cumprimento de todas as pro
missão pretende criar o Parque Yano munidades indígenas o usufruto pleno vidências previstas na Portaria GM nº
mami, como primeiro passo para a cria do solo, estendido aos minerais, vegetais 025/82, do Ministério do Interior, fi
ção de uma nação dentro da nação bra e animais. A exploração por terceiros cando proibidas as atividades de pesqui
sileira. Essa medida, totalmente atenta dos minérios contidos nas terras indíge sa mineral, lavra, licenciamento, garim
tória à integridade e à integração nacio nas irá implicar, comojá se demonstrou, pagem, faíscação e cata, por pessoas fí
nal, merece veemente repulsa dos verda restrição incontornável ao pleno exercí sicas ou jurídicas, públicas ou privadas.
deiros patriotas”. cio da posse direta pela comunidade in Art. 3º Esta lei entrará em vigor na data
dígena, representando flagrante incons da sua publicação, revogadas as disposi
titucionalidade. ções em contrário.
Haroldo Lima propõe Se juridicamente o decreto e a portaria Os índios Yanomamiconstituem o maior
reservas minerais são uma afronta à consciência constitu grupo ainda, em parte, isolado do con
cional brasileira em sua tradição de pro tato com a sociedade dita civilizada.
O deputado federal Haroldo Lima teção das comunidades indígenas, cul Dessa forma, torna-se necessário criar
(PMDB-BA), apresentou no dia 11.09. turalmente é vergonhoso que, nas véspe condições para que o contato com a po
84, na Câmara, projeto de lei nº 4285/ ras do terceiro Milênio, não tenhamos pulação branca seja conduzido dentro
84 dispondo sobre as reservas minerais mais condições de fazer respeitar o le de certos princípios e regras, de forma
em áreas indígenas. Pelo decreto, as ri gado de Rondon. Enquanto no final do que se complete sem traumas culturais
quezas do subsolo das terras indígenas século 19 e início do século 20 o exército ou contágios que comprometam a saúde
“constituem reservas minerais pelo pra norte-americano trucidava os índios, o e a sobrevivência das comunidades indí
zo de 20 anos, sem que atividade extra exército argentino fazia a campanha do genas.
tiva nelas seja realizada”. Idem para as deserto, dizimando suas comunidades Esse tipo de problema, aliás, além de ser
atividades de aproveitamento hidráuli indígenas, no Brasil o marechal-candi uma constante em todo e qualquer pro
co. O projeto prevê ainda o cancelamen dato Rondon defendia o direito dos ín cesso de aculturação, já deixou suas
to das pesquisas e lavras ainda não ini dios à sobrevivência. Onde está a digni marcas no povo Yanomami. Face à exis
ciadas. O projeto recebeu parecer do re dade republicana que não se levanta tência comprovada de minérios nessa re
lator da Comissão de Constituição e Jus para pôr cobro a essa ameaça que enxo gião, têm sido freqüentes as invasões de
tiça, deputado Jorge Arbage (publicado valha a obra e o legado do grande mi garimpeiros que deixam atrás de si a vio
no DCN, dia 06/12/84), foi aprovado litar? lência, a prostituição, os vícios, as epi
pela CCJ, com emenda e, no início de Apelamos ao presidente da República demias e as mortes. Além disso, é evi
março de 85 estava na Comissão de Mi para que não perpetre essa agressão ao dente, a espoliação das riquezas legal
nas e Energia, devendo seguir posterior interesse nacional e à cultura indígena.” mente atribuídas com exclusividade às
mente para a Comissão do Indio. (FSP, 04/10/84). populações índias.
Não é sem razão, pois, que entidades
internacionais, ligadas ao indigenismo e
aos direitos humanos vêem com muita
“Entre Custer e Rondon” PL de Santilli propõe
reserva mineral preocupação a sobrevivência dos Yano
É o título do artigo do senador Severo mami. Afinal, segundo os últimos cálcu
Gomes (PMDB-SP) criticando a regula Projeto de Lei, nº 4.558, de 1984, do los, são aproximadamente 20.000 cria
mentação do decreto que autoriza em deputado federal Márcio Santilli turas, distribuídas em mais de trezentas
presas a minerar em reservas indígenas, (PMDB-SP):
conforme alguns trechos reproduzidos a Cria reserva nacional de ouro, cassite
seguir: rita e associados, em área do Estado do
Amazonas e no Território Federal de
Roraima.

36
s! Z> Acervo
_/\ | <> /\
aldeias, que correm todos os riscos sem cassiterita do Território de Roraima em CNBB pede revogação
que, de fato, as autoridades competen Reserva Nacional, conforme previsto no
testomem quaisquer providências. art. 54 do Código de Mineração.” Em artigo intitulado “Em defesa dos
Do lado brasileiro, além do descaso com Infelizmente, o DNPM não aceitou, na Povos Indígenas”, o secretário-geral da
o qual a questão sempre foi enfrentada, quele instante, a valiosa sugestão da CNBB, D. Luciano Mendes de Almeida,
ocorre, atualmente, uma grande inves CVRD. Hoje, porém, continuam pre faz uma extensa consideração a respeito
tida em busca da liberação da área para sentes as mesmas razões e, além do da questão da exploração mineral em re
o garimpo. Estão aí, com certeza, pelo mais, cumpre afirmar que o processo de servas indígenas e termina por apelar ao
menos 4.000índios que, como tem ocor Roraima não pode ser pensado desvin Presidente da República para que revo
rido em outros lugares, ficarão expostos culadamente do progresso da sua gente. gue o decreto assinado no dia 9 passado.
a todos os malefícios já citados e, o que é E, no caso, por tratar-se da única uni (FSP, 12/01/85).
pior, transformados em agentes da des dade federal habitada majoritariamente
truição de todo o seu próprio povo. por índios e seus descendentes, este
Assim, para aquelas consciências lúci princípio adquire foros de prioridade
das, que ainda se preocupam com a pre quanto à questão indígena. Não pode,
servação dos valores humanísticos e cul portanto, haver um preço lógico a se pa
MME/DNPM_
turais dos povos indígenas, surge a ne gar pelo desenvolvimento de Roraima, Garimpos X Empresas
cessidade de fazer alguma coisa no sen que implique no esfacelamento da nação
tido de se resguardar o direito imemorial Yanomami. O Diretor de Fomento à Produção Mi
desse povo ao território que habita, se A constituição da Reserva Nacional pre neral do DNPM, Manoel da Redenção,
gundo a tradição oral e os relatos dos ex vista neste projeto de lei, portanto, vem disse que o garimpo é hoje o principal
ploradores e de membros de expedições de encontro às concretas e inadiáveis responsável pela produção de ouro no
científicas, desde a Comissão de Limi necessidades de assegurar à comuni País, e que a política do governo tem
tes Portugueses, em 1787. dade nacional a sobrevivência da popu sido a de incentivar e controlar essa pro
Foi nesse sentido, aliás, que a Compa lação Yanomami e da sua incalculável dução. Em 1983, por exemplo, das 47,5
nhia Vale do Rio Doce, em fevereiro de cultura, riqueza, sem dúvida, bem mais toneladas de ouro produzidas no Brasil,
1980, enviou um documento ao Depar valiosa do que a eventualmente obtida apenas 6 vieram de minas mecanizadas,
tamento Nacional de Produção Mineral com a mineração. É uma medida ditada sendo o restante oriundo dos garimpos.
onde afirma: pela emergência e de natureza temporá Para este ano, a previsão do DNPM é de
“Realmente, se não bastasse a integri ria, que, em nada, prejudicará o desen que os garimpos produzam 50 tonela
dade física, cultural e social da Tribo volvimento do nosso País. (Brasília, 18 das, contra 10 toneladas obtidas pelas
Yanomami que constitui interesse a ser de outubro de 1984. — Márcio Santilli). empresas. Outro dado importante men
resguardado e, por si só, supera qual cionado pelo técnico, é que 90% da pro
quer exploração industrial, as circuns dução dos garimpos não sofre qualquer
tâncias para a comercialização da cassi tipo de tributação e que, para compra de
terita daquela região esvaziam os resul ouro naqueles locais, a Caixa Econômi
tados econômicos por dois fatores pre ca Federal, além de postos de compra
ponderantes: CIMI considera crime próprios, mantém 340 firmas autoriza
a) o país possui outras áreas produtoras das a atuarem na comercialização do
e em desenvolvimento ao Sul da Amazô D. Erwin Krautler, bispo da Prelazia do OLITO,
nia e na Região Centro-Oeste, com ca Xingú e presidente do CIMI, considera Quanto ao problema das invasões de
pacidade de atendimento, suficiente a “um crime a presença de mineradoras áreas de empresas pelos garimpeiros,
longo prazo, das necessidades internas em áreas indígenas” e apontou “o capi Redenção afirmou que a atuação do
de cassiterita, inclusive grandes exce tal internacional como principal ele DNPM inicialmente ia no sentido de dar
dentes exportáveis; mento intensificador do crime”. Tais apoio aos empresários, solicitando a in
b) as condições de acesso àquela região, declarações foram feitas no encerramen tervenção da Polícia Federal. Posterior
possível apenas por via aérea encarece to do “Seminário sobre os Grandes Pro mente, o órgão passou a realizar traba
rão demais os custos de pesquisa, extra jetos na Amazônia”, promovido pelo lhos com seu geólogos nas frentes de ga
ção e comercialização do minério, colo CIMI, em Manaus. rimpo e, atualmente, apenas recomenda
cando a produção em desvantagem de Como exemplo, Egídio Schwade, da que as empresas cujas áreas foram inva
concorrências com a produção das ou equipe indigenista da Prelazia de Ita didas recorram ao Judiciário procuran
tras partes em atividade ou em vias de coatiara, apresentou o caso do extermí do, elas mesmas, criar meios para defen
ativação. nio dos Waimiri-Atroari, que eram 3 mil derem seu patrimônio. Para isso, a reco
Considerando os fatos apontados, o em 1968 e hoje não passam de 500. Eles mendação do órgão é a de criar seguran
Conselho de Administração da CVRD “assistem passivamente a atuação da ça particular nas empresas, o que já vem
acolheu a proposta da Diretoria da em empresa Paranapanema” em seu terri sendo feito por várias delas.
presa, no sentido de que fosse apresen tório, onde ela mantém inclusive policia O diretor do DNPM também defendeu a
tado ao Departamento Nacional de Pro mento próprio. política de criação de reservas garimpei
dução Mineral a sugestão de que esse Segundo Schwade, o Governo passou ras, concentrando os garimpeiros em
departamento promovesse estudos com por cima das leis de proteção aos índios, certas áreas e dando prioridade para as
o objetivo de transformar os depósitos de aplicando à terra dos Waimiri Atroari empresas em outras. (Brasil Mineral, nº
uma “interdição temporária” (reduzin 12, nov. 84, pp. 30-31).
do e retroagindo na proteção legal da re
serva) e permitindo, assim, que a Para
napanema explorasse livremente as ri
quezas “fora” da reserva. (A Notícia,
17/09/84).

37
<LAcervo •

__/ Erºs NDIGENAs no BRASIL/ceo


Os cálculos do sr. Belfort Decreto na contra-mão
DECRETo
“As reservas indígenas e florestais atual. O Porta-voz da Presidência da Repúbli
mente se comportam como territórios
negados ao Brasil e aos brasileiros. Tra
SUSPENSO ca, Carlos Átila, confirmou ontem que o
Presidente João Figueiredo assinou o
tam-se de nichos de vazios demográficos Decreto-lei autoriza Decreto-Lei que autoriza a pesquisa e a
mantidos sob o regime de independência a pesquisa e a lavra lavra mineral nas reservas indígenas,
vigiada, onde é proibida a entrada de mas condicionando a publicação do tex
brasileiros, sob a alegação, no caso das O Presidente Figueiredo assinou ontem, to legal (para que este entre em vigor), a
reservas indígenas, de que estaríamos em seu leito na Casa de Saúde São José, uma análise posterior da Secretaria do
influindo na cultura e nos costumes dos decreto-lei autorizando a pesquisa e la Conselho de Segurança Nacional e do
índios que habitam ou perambulam em vra de minérios nas reservas indígenas. Gabinete Civil.
extensas áreas do Território Nacional. O texto do decreto foi apresentado ao Com a confirmação, Átila mostrou que a
Com o Decreto 88.985 de 10.11.83 ficou Presidente pelo Ministro das Minas e elaboração, pelos Ministérios das Minas
estabelecido de que seriam fornecidos tí Energia, Cesar Cals. e Energia e do Interior, do Decreto-Lei
tulos mineiros às empresas de capital Segundo Cals, a nova legislação, a ser (e sua imediata assinatura pelo Presi
nacional, desde que, ouvida a Funai. Na regulamentada pelo Gabinete Civil, dá dente da República), obedeceu a uma
prática, deverá haver ainda a regula exclusividade aos índios para o garimpo, seqüência inversa à de praxe. Neste ca
mentação da Lei pela Funai, de forma ou seja, para cata artesanal de minérios, so, as áreas interessadas do Poder Exe
que as minerações possam satisfazer exi reservando a mineração industrial às cutivo analisam o problema, preparam
gências quanto ao relacionamento com empresas estatais ou empresas privadas uma minuta e submetem o assunto, já
os índios, inclusive garantindo um ren de capital nacional que tenham na dire estudado, à apreciação do Presidente.
dimento a título de indenização pela ção de produção e comercialização ape O Ministro do Interior, Mário Andreaz
ocupação do solo e de royalties. As reser nas brasileiros. za — que veio tratar do problema da sus
vas indígenas, só na Amazônia Ociden Segundo o Ministro o decreto prevê que tação da publicação do Decreto-Lei com
tal, ocupam mais de 40 milhões de hec os resultados das indenizações e paga o Ministro-Chefe do Gabinete Civil, Lei
tares, sendo que algumas delas, como a mentos de royalties serão empregados tão de Abreu, e com o Secretário do Con
dos Ianomamis, detêm 50% do Territó nas próprias terras indígenas. (O Globo, selho de Segurança Nacional, Ministro
rio de Roraima e se estende por grande 10/01/85). Danilo Venturini — não soube explicar
área do norte do Amazonas, abrangen O decreto-lei passa a vigir a partir da por que o Decreto-Lei tramitou na con
do inclusive o Pico da Neblina. A reserva data da publicação e apenas depois é tramão e foi sancionado antes de ter sido
Waimiri-Atroaris, com uma população apreciado pelo Congresso Nacional. O analisado por aquelas duas áreas do Po
de 500índios, ocupa 1.850.000hectares, Legislativo apenas tem o poder de apro der Executivo. (O Globo, 12/01/85).
perfazendo a densidade 0,000027 habi vá-lo ou rejeitá-lo, num prazo de 60 dias
tante/ha. a partir do seu recebimento. Se não hou
As minerações quando são de grande ver deliberação dentro do prazo, será Tancredo recebe índios
porte ocupam, na Amazônia, com infra considerado automaticamente apro
estrutura, frentes de lavra, etc., área vado. O candidato da Aliança Democrática à
não superior a 10.000 hectares. No Pi Segundo o Ministro Cals, o decreto pre presidência da República, Tancredo Ne
tinga, essa área não atingiu ainda 2.000 vê a mediação da FUNAI nos casos em ves, prometeu, ontem, que em seu go
hectares e detém uma população resi que não houver acordo entre índios e verno terá o cuidado de respeitar os di
dente de 2.300 pessoas. Assim, é possí empresas de mineração. O Ministro jus reitos adquiridos e a integridade física
velvisualizar que as minerações são pon tificou o documento afirmando que das comunidades indígenas e que estu
tuais e dificilmente poderão causar im “existe uma enorme quantidade de ter dará seriamente a revogação do decreto
pacto danoso à ecologia e à cultura dos ras indígenas com minerais estratégicos assinado pelo presidente Figueiredo.
índios. Este é um assunto que necessita ou relevantes ao desenvolvimento nacio Tancredo Neves fez essa promessa ao re
ser melhor pensado e solucionado, tendo nal e a legislação da FUNAI impedia ceber no início da noite de ontem, em
em mente que a nação precisa reduzir que eles fossem retirados”. (FSP, 10/ seu escritório, extra-agenda, 25 repre
sua vulnerabilidade mineral, garantir a 01/85). sentantes de várias tribos indígenas
segurança nacional e criar riquezas para O texto do decreto foi proposto pelos mi (Kaiapó, Xerente, Xavante, Karajá, Te
todos os brasileiros.” nistros do Interior e das Minas e Ener rena, Kariri, Tuxa e outros), cujo porta
Esta é a opinião do sr. José Belfort dos gia. (ESP, 10/01/85). voz foi Marcos Terena, chefe de gabi
Santos Bastos, expressa no artigo “O su nete da FUNAI. (Jornal do Commercio,
cesso atual é fruto do mapeamento bá 10/01/85).
sico”, publicado na Minérios, Extração Figueiredo susta a publicação
& Processamento (dezembro de 1984,
SP, pp.24-26). O decreto que permite a pesquisa e lavra
de minerais em terras indígenas, assi
Na época em que o artigo foi publicado o nado no dia 9, teve sua publicação no
EMPRESAS
autor era diretor do 8º Distrito do Diário Oficial da União adiada, pelo ESTADUAIS
DNPM em Manaus e manteve acirrada próprio presidente Figueiredo, que reco
polêmica com o CIMI sobre os efeitos mendou à Secretaria do Conselho de Se ABREMIN quer regulamentação
das mineradoras em áreas indígenas da gurança Nacional e ao Gabinete Civil da
Amazônia, veiculada pelo jornal A Crí Presidência da República. A informa “Regulamentar a exploração das rique
tica, na segunda quinzena de setembro. ção foi prestada pelo Ministro Leitão de zas minerais em terras indígenas, com
Atualmente, é o diretor-geraldo DNPM, Abreu. (O Liberal, 11/01/85). patibilizando o desenvolvimento econô
em Brasília. mico com o propósito de integrar as co

38
munidades indígenas, progressiva e haroriundas do branco civilizado, fazem o O Brasil pretende, nesta altura da histó
moniosamente, à comunhão nacional”. País retornar às primeiras manifesta ria, atribuir as suas dificuldades à malí
Esta é uma das seis recomendações que ções “nacionalistas”, contrárias à extra cia dos banqueiros internacionais, e à
constam do documento divulgado pela ção das reservas de ferro de Nova Lima e cobiça das multinacionais, propondo,
Associação Brasileira de Entidades de do Vale do Rio Doce." (...) como medida de salvação, barreiras ao
Mineração, como contribuição à elabo “Com isso está se pretendendo nova programa da tecnologia e deixar os re
ração de uma nova política mineral no mente impedir o progresso, restabelecer cursos naturais como reserva para as fu
país. (Brasil Mineral, nº 13, dez. 84, o clima que imobilizou o Brasil durante turas gerações no sentido de assegurar o
p.24). séculos, deixando adormecidas no ven seu lema de “país do futuro”...
Atualmente existem 21 empresas asso tre da terra as riquezas que poderão sal Tudo isso poderia servir de subsídio
ciadas à ABREMIN, formando o Sis var o País das tremendas dificuldades para um programa humorístico de tele
tema Estadual de Mineração: CRM que nos assoberbam. A mineração e a visão ou para uma comédia teatral se
(RS), CODISC (SC), MINEROPAR agricultura constituem segmentos da não estivesse em jogo o destino do País
(PR), PROMINÉRIOS (SP), CODE atividade econômica capazes de respon numa das mais dramáticas encruzilha
SUL (MS), DRM (RJ), METAMIG der de modo mais imediato aos investi das da nossa história.”
(MG), CBPM (BA), METAGO (GO), mentos de capital e tecnologia na expan Os excertos reproduzidos acima foram
CODISE (SE), EDRN (AL), MINÉ são da renda nacional.” (...) retirados do editorial assinado pelo sr.
RIOS (PE), CDRM (PB), CDM (RN), “Antes de enfrentar a incompreensão da Roberto Marinho, presidente das Em
CEMINAS (CE), CONDEPI (PI), CO burocracia do Fundo Monetário Inter presas Globo de Jornalismo. (publicado
PENAT(MA), COMIPA (PA), META nacional impõe-se lutar contra a insani na capa de O Globo, 13/09/84).
MAT (MT), CMR (RO) e CODESAI dade da burocracia de setores adminis
MA (RR). trativos nacionais que pretendem resol
É importante lembrar que a criação das ver questões econômicas com critérios “A demagogia contra
primeiras entidades estaduais de mine ideológicos ou antropológicos.
ração, deu-se no início da década de ses
a mineração”
O Brasil e os Estados Unidos têm prati
senta, no bojo de uma luta nacionalista camente a mesma idade como nação in Com o título acima, o jornal O Estado de
que se vivia àquela época. Entretanto, dependente. Todavia, enquanto os pio S. Paulo dedicou um dos seus editoriais
foi a partir da década seguinte e em de neiros americanos conquistaram, suces do dia 7 de outubro para criticar dura
corrência da promulgação do Decreto sivamente, as diversas fronteiras do seu mente os setores da sociedade contrários
Lei nº 1.038, de 21.10.69, estabelecendo território levando a tecnologia mais à regulamentação da extração mineral
normas relativas ao Imposto Único so avançada de cada época, nós nos con em áreas indígenas, como apareçe no
bre Minerais (IUM), que os Estados, tentamos em louvar e cantar as riquezas trecho reproduzido a seguir:
tendo assegurado o recebimento de 70% do nosso solo. Com isso, a América do “Há zelosos padres estrangeiros, antro
da arrecadação daquele tributo, cria Norte chegou ao final do século XX como pólogos escravos de ideologias totalitá
ram seus órgãos de fomento à minera o maior credor do mundo. E o Brasil rias e líderes do grupo quanto pior,
ção, objetivando o ordenamento da polí como o maior devedor. melhor, vivamente empenhados em im
tica mineral e institucionalizando o A circunstância de que os bens econô pedir a exploração mineral em áreas
apoio à mineração como ação política de
Governo. •
micos de que dispomos, largados ao ocupadas por índios que vestem calças
abandono no Interior do País, represen jeans, ouvem rádio de pilha e se encon
tam um valor talvez superior ao meio cir tram em marcha batida para integrar-se
culante mundial constitui um escândalo plenamente na civilização. O assunto
*Mestrinho apóia o decreto que surpreende a qualquer observador está na ordem do dia neste país de fábu
desapaixonado. la. onde o cidadão que trabalha e paga
O governador do Amazonas, Gilberto Somos mais de cem milhões de pessoas impostos se dispõe a tirar do subsolo re
Mestrinho, disse ontem, no Rio, que a sofrendo os mais graves problemas eco cursos naturais que cumpre transformar
iniciativa (referindo-se ao decreto assi nômicos caminhando sobre riquezas em riqueza para redimir o Brasil dos
nado por Figueiredo) “foi uma atitude que constituem um dos maiores patri males gravíssimos que o acometem, mas
correta... pois irá beneficiar, principal mônios nacionais do nosso tempo. O Ja se vê a braços com dificuldades que se
mente, as próprias tribos indígenas”. pão que dispõe de uma população quase riam cômicas, se não fosse de causar
(ESP, 10/01/85). do tamanho da nossa, podendo utilizar tristeza e desânimo. Uma portaria que
apenas quinze por centro do seu terri regulamentaria o Decreto nº 88.985,
tório — que não se iguala a qualquer um permitindo o ingresso de empresas de
dos maiores Estados do Brasil — conse mineração em áreas em que os índios
guiu através do trabalho e do uso inten mencionados estão sentados em cima de
sivo da tecnologia transformar-se no trilhões de cruzeiros (sem nada fazer
maior rival econômico dos Estados Uni para aproveitá-los em benefício dos 125
dos. milhões de brasileiros), ensejou a demis
“A verdadeira são do diretor da Funai. Patrioticamen
te, ele decidiu que deixaria o cargo que
Segurança Nacional”
ocupava, mas não se acumpliciaria com
“Os argumentos apresentados pela dire a execução da portaria em questão —
ção da FUNAI e referendados pelo Mi com o que acatava a posição defendida
nistro Mário Andreazza, ao recusar o por indigenistas e líderes dos índios.”
pedido de demissão do Diretor desse ór (ESP, 07/10/84).
gão, para coibir a exploração de rique
zas minerais nas áreas indígenas alegan
do o perigo da contaminação de doenças

39
| ,_Acervo
_%"| Eyºs INDIGENAs No BRASIL/cFD
O IBRAM e o “clima Segundo declaração do próprio Ministro O produto final resultante destes acon
César Cals, na Comissão de Minas e tecimentos é a deterioração progressiva
para o investimento” Energia da Câmara, havia em 1983 cer do “clima de investimentos” mencio
O Instituto Brasileiro de Mineração, en ca de 300 mil garimpeiros em atividade nado, daí advindo não só dificuldades
tidade privada, sem fins lucrativos, que no País. Alguns dos seus assessores esti crescentes para o aporte de novos capi
congrega e representa as empresas de mam que este número deva crescer para tais privados ao setor, como também a
mineração do País, oferece aos candida 1 milhão de pessoas até 1985, a persistir intranqüilidade hoje largamente disse
tos à Presidência da República, através o quadro atual de desemprego generali minada entre os empresários tradicio
do presente documento, um programa zado nas grandes cidades brasileiras. nais da mineração brasileira.
mineral mínimo para o governo que se E o que tem sido feito, a nível governa Uma tarefa que se impõe, portanto,
irá instalar a partir de 15 de março de mental, para a regulamentação deste como absolutamente prioritária no cam
1985. tipo de trabalho que envolve hoje enor po mineral para o governo que irá se ins
No entendimento do IBRAM, os cinco mes contingentes humanos, responsá talar em 1985, é o restabelecimento ime
pontos enfocados: veis por grande parte da produção bra diato da segurança jurídica quanto aos
º restauração do clima para investi sileira de ouro? Em termos práticos, direitos adquiridos, sem o que não po
mentos no setor; nada. Enquanto se sucedem, principal derá haver desenvolvimento ordenado
º incentivos às empresas de mineração; mente na região amazônica, grandes da mineração no País. A garantia de
º ativação do Conselho Superior de Mi conflitos entre garimpeiros e empresas manutenção das regras do jogo é essen
Il3S, de mineração, a Comissão do Ministério cial a qualquer atividade que envolva
º mapeamento básico/recursos finan das Minas e Energia encarregada de ela planejamento, e particularmente crítica
ceiros para o DNPM; borar o anteprojeto de reforma do Có para o caso da indústria mineral, dadas
º prospecção mineral/sustentação do digo de Mineração não se reúne desde as suas carcterísticas de maturação dos
sistema estadual de mineração; outubro de 1982, há precisamente dois investimentos a longo prazo.”(trechos
constituem a moldura de suporte para 211108. extraídos da versão integral do docu
que a indústria de mineração receba im Diante deste quadro, instala-se rapida mento “Programa mínimo para o setor
pulso compatível com as necessidades mente a “lei da selva”. Áreas objeto de mineral”, publicado na Revista Brasil
do Brasil neste final de século, em que a direitos minerários são invadidas com Mineral, nº 13, dez. 84, pp. 19-23).
retomada da atividade econômica virá freqüência cada vez maior, e por trás do
certamente determinar um crescimento biombo de um pretenso romantismo da
correspondente na demanda de produ garimpagem, pratica-se uma verdadeira IBRAM condena
tos minerais indispensáveis ao nosso de depredação das resevas minerais do suspensão de decreto
senvolvimento industrial. País.
Quanto ao chamado “clima para o in A figura do “dono” ou “patrão” de ga A decisão do Presidente Figueiredo de
vestimento”, o documento do IBRAM rimpo se consolida como a do titular de sustar o Decreto-lei que permitia a pes
lembra que em abril de 1980, a Revista empresas de mineração operando fora quisa mineral em reservas indígenas foi
World Mining Equipment divulgou o da lei, que só não chamamos de clan duramente criticada ontem pelo Presi
resultado da pesquisa feita, a nível mun destinas porque esta palavrase aplica ao dente do Instituto Brasileiro de Minera
dial, a respeito do assunto. “A tabela que é feito às ocultas, quando a ativida ção, Sérgio Jaques de Moraes. Segundo
publicada, com notas variando de zero a de em questão é desenvolvida às escân ele, “uma atitude como essa intranqüi
dez, mostra o Brasil com grau 5, situado caras e seus personagens são conhecidos liza os empresários, pois a área mineral,
no “ranking geral abaixo da República de todos. em que os investimentos são de retorno a
dos Camarões, do Chile, de El Salvador, No outro extremo do espectro estão os longo prazo, exige segurança jurídica
da Etiópia, da Bolívia, da Tanzânia, do operários do garimpo, verdadeiros bóias com projeções para o futuro”.
Paquistão, da Síria, da Mauritânia, e de frias da mineração marginal, com direi O presidente do Ibram se referiu, ainda,
muitos outros países que imaginávamos to a uma diária ao nível da estrita sobre como exemplos de indecisões do Gover
menos atrativos. Como, de 1980 para cá, vivência e a todas as malárias e demais no no cumprimento da política mineral,
a "atmosfera mineral brasileira veio a se doenças endêmicas da região onde à liberação do garimpo de Serra Pelada
tornar consideravelmente mais carrega atuam. Estes homens, que constituem a após a rebelião dos garimpeiros lidera
da, uma atualização daqueles dados nos quase totalidade da chamada população dos pelo Deputado Sebastião Curió
deixaria agora, com certeza, em posição garimpeira do País, vêm de se transfor (PDS-PA) e às recentes invasões de áreas
bem pior. mar, por falta de alternativa de trabalho de pesquisa de cassiterita no Estado de
Com efeito, nos últimos anos, assistimos regular de onde possam obter o seu sus Rondônia.
no Brasil ao progressivo esvaziamento tento, na grande massa de manobra dos Sérgio Jaques de Moraes afirmou que a
das garantias jurídicas necessárias à ati interesses em jogo na manutenção de si proibição da pesquisa mineral nas reser
vidade empresarial no campo da mine tuações tipo Serra Pelada. vas indígenas representa enorme prejuí
ração, resultante, em grande parte, do Nos últimos tempos, a invasão de áreas zo para a atividade, pois justamente nes
que poderíamos chamar de “síndrome legalmente concedidas a empresas de sas reservas há indicações de grandes de
de Serra Pelada”. mineração por mineradores fora da lei pósitos minerais, que precisam ser pes
travestidos de garimpeiros — de modo quisados e explorados. (O Globo, 12/
geral equipados com moto-bombas, tra 01/85).
tores, dragas, moinhos, compressores,
explosivos, etc. — deixou de constituir
um episódio amazônico, passando a
ocorrer, também com freqüência em
Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e,
mais recentemente, no Rio Grande do
Sul.

AO
Lacombe quer regulamentação A seu ver, as áreas nas quais o governo “O recente pedido de demissão do pre
deverá regulamentar a mineração são sidente da Funai que se recusou a con
por decreto
aquelas onde existe a expectativa em re cordar com o decreto sobre a criação de
As empresas de mineração ainda espe lação a vários tipos de minérios, locali parques indígenas em regiões não habi
ram que o Presidente Figueiredo regu zadas nos limites das estruturas geoló tadas por índios com o único objetivo de
lamente, por decreto, a pesquisa, pros gicas já pesquisadas. (O Estado, SC, 15/ favorecer as mineradoras multinacio
pecção e lavra de minérios nas reservas 01/85). nais é a prova cabal dessas manobras.
indígenas, afirmou o empresário Octá As terras indígenas já criadas, com 13
vio Lacombe, presidente do Conselho da Km por índio, já são suficientes para a
Paranapanema Mineração e também comunidade indígena e devem ser pre
presidente da Associação Brasileira dos servadas, mas criar novas reservas indí
Mineradores de Ouro (ABRAMO). Ele genas em regiões com grande produção
acredita que o presidente Figueiredo Criadores X Mineradoras agropastoril, onde não existem índios,
sustou a publicação do decreto a respei mas são levados por missões religiosas
to, para que se realizem novos estudos. Esta é a íntegra do telegrama enviado ao para fixá-los, não passa de interesses das
Confirmou que sua empresa tem inte presidente João Figueiredo, pelo sr. José mineradoras multinacionais, camufla
resse em “algumas áreas, além de já es Mário Junqueira de Azevedo, presidente das de defensoras de princípios cristãos.
tar trabalhando nas regiões do Pitinga e da Associação de Criadores de Nelore do Apelamos a V. Exa. para que rejeite o
do Xingú, onde contribui com a assis Brasil: projeto concedendo o subsolo das terras
tência das populações indígenas locais. indígenas para as mineradoras”. (Tri
Ele fez uma distinção entre as áreas ocu buna da Imprensa, 14/9/84).
padas por índios arredios (nas quais é
contra a entrada das empresas) e aque
las habitadas por índios aculturados ou
em processo de aculturação.

41
#INDIGENAS NO BRASIL/CEDI

AS POPULAÇÕES INDÍGENAS
E A CONSTITUINTE
Em discussão
a representação indígena em caráter especial
e outras propostas

Bruna Franchetto
• Claudia Menezes (*)

m dezembro de 1983, o antropólogo João Pacheco Os textos constitucionais de 1934 (art. 129), de 1937 (art.
de Oliveira, comemorando o primeiro decenário da 154), de 1946 (art. 216), de 1967 (art. 186) e de 1969 (art.
promulgação do Estatuto do Índio, apresentou um 198) fundamentalmente se repetem. Com exceção da Cons
balanço crítico desse diploma legal em artigo publicado tituição de 1967, que não cogitou da inalienabilidade, todos
pelo JB (18/12/83): Até então, segundo observou Pacheco os demais textos estabelecem três normas fundamentais que
de Oliveira, indigenistas e antropologos tinham apontado definem a relação jurídica do Estado e das populações indí
“como politicamente inoportuna discutir sobre o Estatuto genas com as terras que estas ocupam, sendo evidentemente
do Indio, ponderando que qualquer modificação seria em foco de atenção a questão do tipo de propriedade a ser defi
detrimento dos interesses indígenas. De algum modo, ali nida: (I) O Estado detém a propriedade propriamente dita,
mentou-se a crença de que a salvação dos índios dependia conservando-se as terras indígenas como bens da União,
de uma ação paternalista do Estado...”. Considerando o bens públicos com um caráter especial; (2) aos índios é reco
momento nacional e as sucessivas regulamentações da lei nhecido o direito inalienável à posse, embora seu trata
por parte de decretos presidenciais que caracterizaram o mento seja de posseiros especiais; (3) aos índios é reservado
ano de 1983, concluia o autor “A hora é de não atrelar as o direito ao usufruto das “riquezas naturais”.
estratégias de ação e as ideologias étnico-políticas dos índios
as soluções do passado, procurando, ao contrário, apro Esses dispositivos não fazem outra coisa senão consagrar o
fundar a busca de uma nova consciência da problemática indigenato, figura jurídica herdada da época colonial. A
indígena. A defesa dos direitos dos índios não terá muita configuração do indigenato está consubstanciada ideologi
eficácia se for conduzida em uma perspectiva isolacionista camente na teoria da tutela, concebida como versão da an
ou como um apelo à consciência da nação. Passa, sim por tiga custódia. As populações indígenas não são encaradas
impor uma crítica as bases coloniais e autoritárias do Es como Povos soberanos ou — se preferirmos o termo — Na
tado brasileiro, supondo alianças com outros grupos sociais, ções soberanas e, como tal, sujeitos de direitos plenos, mas
dentro de um projeto mais amplo de Nação, no qual o indí sim como povos conquistados e submetidos ao regime colo
gena: seja respeitado como índio e não visto como em evo nial, tutelados orfanologicamente. O conceito de tutela tem
lução "para o não-índio”. sido modernizado até os dias de hoje, mas subsiste como um
legado colonial. Assim, se as terras indígenas não podem
O mesmo problema se coloca agora, às vésperas da convo ser consideradas terra nullius à luz do discurso jurídico ho
cação de uma Assembléia Nacional Constituinte. Devemos dierno e se os povos indígenas não são liberados da tutela, a
manter os direitos garantidos pela Constituição, encarados alternativa desse discurso foi atribuir o direito de proprie
como o melhor dentro de uma determinada conjuntura de dade ao Estado, criando complementarmente uma figura
relações coloniais? Ou precisamos iniciar uma avaliação sé de posse especial. Esse quadro permanece inalterado, mes
ria da legislação vigente frente a uma nova vontade política? mo quando, modernamente, a tutela passa a ser concebida
de maneira um pouco distinta, em termos da lei ordinária e
não da Constituição.
O que existe
A este propósito, veja-se a justificativa do projeto de Lei
A concessão indigenista do discurso jurídico brasileiro re 6001/73, elaborado pelo Ministro Themistocles Cavalcanti,
vela um continuísmo exacerbado. Restringimo-nos tão so em que a tutela foi objeto de particular atenção. A idéia era
mente às Constituições deste século. dar um sentido adequado à verdadeira natureza da suposta
incapacidade de que decorre a tutela, sendo que tanto os
indivíduos índios com os índios em geral são caracterizados
pelo Código Civil, desde 1916, como relativamente incapa
(*) antropólogas, fazem parte do GT/Populações Indígenas do Depto. de zes, equiparados no exercício de seus direitos aos menores
Pesquisa e Documentação da OAB-RJ.

12
entre 16 e 21 anos, Themistocles Cavalcanti, inspirado no 2) Quanto à inalienabilidade, trata-se de norma de sentido
direito americano, visto como paradigma da modernidade proibitivo, de eficácia plena e de aplicabilidade imediata. O
jurídica, insinua ter aperfeiçoado o conceito privatista de texto de 1967 é mais preciso do que os anteriores, pois vin
custódia — concebido o tutor como educador e administra cula tanto os índios como a União. Diante disso todas as
dor de bens — adicionando-lhe o sentido de assistência e disposições que prevêm deslocamento de grupos indígenas
proteção. E o Estado que deve garantir a sobrevivência dos de seus territórios são inconstitucionais, incluindo o art. 12
índios e seus direitos políticos. Um Estado napoleônico, so da Convenção 107 de Genebra, ratificada pelo Decreto Lei
berano, abstrato. nº 58.824 de 14/7/66, e o art. nº 20 da Lei 6001/73 (Esta
tuto do Indio).
Considerando esse contexto ideológico e histórico, podemos
dizer que, se a Carta Magna de 1934 foi o primeiro texto 3) O usufruto das riquezas naturais — vegetais, animais e
constitucional a reconhecer esses direitos, a de 1969, uma minerais — é exclusivo, “com exclusão até mesmo do titular
vez incorporada a Emenda nº 1 que modificou a redação da propriedade que é a União” e é intransferível, como o
anterior de 1967, parece apresentar avanços quanto à ques próprio Pontes de Miranda salientou em seu Comentário à
tão das terras, conservando os mesmos pressupostos. A Constituição de 1967, T. VI. — Podemos acrescentar que,
aprovação da Emenda nº I se deu em situação bastante por extensão, são também inconstituciónais as disposições
dramática, segundo o testemunho do indigenista Nilo Vel que pretendem regulamentar a exploração de minérios em
áreas indígenas. •

lozo, porquanto o texto de 1967 tinha simplesmente elimi


nado a garantia à inalienabilidade e a sustentação da Emen
da só foi possível graças a uma vigília de alguns poucos in A interpretação que corresponde ao espírito da lei constitu
teressados, passando desapercebida aos grupos de interes cional, no que concerne aos direitos fundamentais das po
ses anti-indígenas representados no parlamento. Tudo isso pulações indígenas, explicitada em Pontes de Miranda, não
ocorreu num clima autoritário que informou à elaboração, tem contudo informado a jurisprudência, inclusive a fir
os estudos e, enfim, a redação e discussões constitucionais. mada pelo Supremo Tribunal Federal. Ações e decisões es
pecíficas têm levado a perdas territoriais em função de deci
Por que o artigo 198 da Constituição vigente é considerado sões que desconsideram a correta informação histórica so
um “avanço”, por ser “mais abrangente e preciso"? Em bre a localização e permanência de grupos tribais, freqüen
primeiro lugar, houve o deslocamento da qualificação de temente por falta de definições e terminologia técnico-an
“permanente” do termo “localização" para o termo “pos tropológicas adequadas, tais como habitat, áreas de peram
se", configurando, assim, uma proteção à posse das terras bulação, exploração de recursos, marcos simbólicos, etc.
mais ampla do que teria no direito privado qualquer possui
dor segundo o sistema jurídico brasileiro. Em segundo lu Lembremos, também, que por outra via, a do Poder Execu
gar, definiu a exclusividade do usufruto. Em terceiro lugar, tivo, a edição de decretos-leis propiciou a implementação de
acrescentou dois parágrafos que estabelecem a nulidade e medidas lesivas aos interesses e direitos indígenas. Embora
extinção dos efeitos jurídicos de qualquer natureza que te contrários ao preceito constitucional de inalienabilidade das
nham por objeto o domínio, a posse e a ocupação de terras terras tais decretos se valeram das possibilidades deixadas
habitadas pelos índios (§ 1) e tal nulidade e extinção não em aberto pela Lei 6001/73. Sem dúvida, cabe à nova or
dão aos eventuais ocupantes direitos a qualquerindenização dem jurídica revogá-los.
ou ação contra a União e a FUNAI($2).

Num artigo publicado pelo Boletim Jurídico da Comissão Propostas para um novo
Pró-Indio de São Paulo (ano I, nº 3, abril de 1984), o Prof. texto constitucional
José Affonso da Silva demonstra cabalmente o caráter de
auto-aplicabilidade do art. 198, estabelecendo uma inter Caso a alternativa seja a de manter o tipo de relação até
pretação do texto legal que nos parece a mais favorável aos agora existente entre Estado e povos indígenas, numa pers
interesses indígenas. Resumamos sua argumentação quanto pectiva que confirma a tutela como assistência e proteção e
aos três direitos fundamentais à terra: admite uma concepção de Estado soberano e homogêneo, é
evidente que a atual constelação de direitos à terra deve ser
1) Cabe aos índios a posse permanente, entendida não mantida por ser "a melhor”.
como figura do direito civil comparável ao direito de ocupa
ção — direito adquirido — mas como direito congênito, pri Se, ao inverso, essa relação e visão histórica se tornam ob
mário e legítimo por si, não precisando de título ou outro Jeto de reexame crítico, reformuladas num novo texto cons
registro de legitimação. As terras indígenas não são devo titucional, os conceitos de posse e de tutela, bem como de
lutas. Posse, além disso, se refere ao território permanente incapacidade relativa e de cidadania, necessitarão ser revis
mente ocupado pelos índios, no sentido de habitat necessá tos. A idéia é criar novos institutos legais que garantam de
rio a sua vida econômica, social e cultural, respeitados os finitivamente as terras indígenas e, ao mesmo tempo, res
moldes de sua reprodução tradicional. E posse imediata de pondam às reivindicações de autonomia e auto-determina
usufrutuário. (Por sua vez o advogado Carlos F. Marés — ção expressas pelos movimentos indígenas. Os últimos anos
“A Cidadania e os Índios”, em O Indio e a Cidadania, Bra têm revelado o avanço da mobilização dos Povos índios em
siliense, São Paulo, 1983 — já tinha afirmado que a posse defesa de seus direitos mínimos e testemunharam a crescen
indígena é altamente qualificada: “Ela pode mais do que a te e positiva intromissão de suas lideranças nos affairs
propriedade, é mais do que a propriedade". Este instituto, d'Etat. Essa experiência inédita com relação ao silêncio an
contudo, tem sido pouco entendido pelos responsáveis pela terior, precisa encontrar ressonância no debate constitucio
política indigenista brasileira, acarretando prejuízos inco nal.
mensuráveis aos territórios indígenas".)
</I_Acervo
__/ #INDIGENAs No BRASIL/cED

Reflexão nesse sentido pode ser inferida de propostas jurí No que toca à Constituinte de 1946, sua composição política
dicas apresentadas por diferentes categorias — índios, ad oferecia um traço distinto das anteriores, conseqüência da
vogados, antropólogos, missionários. Entre outros pontos, estruturação partidária e da formação de uma opinião pú
as propostas salientam consensualmente o reconhecimento blica nacional. Não há dúvida, porém, sobre o predomínio
do Estado brasileiro como pluri-étnico e politicamente hete das forças oligárquico-burguesas representadas nos parti
rogêneo. dos conservadores. O ímpeto liberal foi contido por disposi
ções restritivas: a tutela sobre a organização sindical, a ne
Eembremos, a esse propósito, o que o advogado Carlos F. gação do voto ao analfabeto e aos praças e a propriedade da
Marés observou por ocasião da mesa-redonda organizada terra intocada. Uma vez mais a participação indígena não
em 1982 pela Associação Brasileira de Antropologia sobre o foi sequer cogitada.
tema “Os Índios e a Cidadania”.
A Constituição de 1967, formulada no curso de militariza
O texto constitucional vigente não trata da cidadania dos ção do País, consagrou o conservadorismo, modernizado
índios e a cidadania ou seja a ligação política e jurídica das pela ideologia desenvolvimentista e instituiu formas que re
pessoas dos indígenas com o Estado, no que tange a um duziram ao mínimo a participação popular.
elenco de direitos e deveres que obrigam indivíduos e Es
tado. Os índios, pelo simples fato de terem nascido no Bra Espera-se que a Constituição resultante da Assembléia de
sil são brasileiros perante a lei. Há, no entanto, um conflito 1986 reflita, diferentemente das anteriores, uma ruptura
de nacionalidades, não admitido juridicamente, uma vez com o pacto das elites. Em decorrência, diferentes estraté
que o Estado e a lei brasileira e a comunidade internacional gias podem e devem ser acionadas concomitantemente pelos
não reconhecem as populações indígenas como Nações, em índios para assegurarem sua participação na reforma cons
virtude da sobreposição territorial e do fato de não apresen titucional:
tarem sua organização política sob a forma de Estado, As
sim na lei ordinária o índio é considerado cidadão brasileiro 1) Na hipótese de a discussão do problema restringir-se a
como os demais nacionais, o que leva ao não reconheci articulação partidária, cabe um trabalho de informação e
mento da autodeterminação das Nações Indígenas e dos de pressão sobre os parlamentares dos diferentes partidos
seus territórios; esta condição os tornaria, entretanto, capapara que a questão indígena passe de ítem das plataformas
zes de atribuirem cidadania a seus próprios nacionais. políticas a programas de ação. Nesse trabalho, o envolvi
mento do Dep. Mário Juruna é fundamental e a participa
O acatamento desse novo pressuposto implica na discussão ção das entidades de apoio ainda útil e eficaz. No que con
de várias outras categorias que estruturam o texto legal. Se cerne à Constituinte, o que se deveria reivindicar é uma par
gundo Marés deveria ser estudada uma “norma que ao ticipação indígena paritária e efetiva na Assembléia, com
mesmo tempo proteja o território indígena de possível rapi um número adequado de componentes. Cabe lembrar que
na internacional e garanta aos índios a sua autonomia total, um dos desdobramentos possíveis do movimento indígena,
o que significa a validade da lei e querer dos índios, trans em suas diversas formas de expressão e de organização, é a
formando a tutela em instituição de proteção cultural e a postulação de índios para novos cargos eletivos. Se se che
posse em propriedade coletiva indisponível, intransferível e gar a uma Assembléia livremente eleita, sem dúvida outro
imprescritível. Uma nova Constituição deverá igualmente trabalho necessita ser feito de modo a garantir a expressão e
dispor que o povo brasileiro e suas leis respeitem as concep participação das diferentes correntes que existem no movi
ções e modus vivendi indígenas dentro dos seus territórios. mento indígena.

Há, ainda que se efetuar, a revisão da terminologia atual 2) Há também propostas que prevêem candidaturas indí
mente utilizada no discurso jurídico, ou seja índio, silvícola, genas desvinculadas de compromissos partidários. O pró
integração, graus de integração, assimilação etc. em virtude prio Ministro da Justiça colocou em pauta os chamados
do comprometimento ideológico de tais figuras. “candidatos avulsos”, hipótese criticada por alguns setores,
posto que permite um acesso direito de lobbies econômicos.

A participação dos índios Deve-se convir que a possibilidade e probabilidade de elei


ção de deputados indígenas para uma Assembléia Nacional
Foi eleito como ponto programático da chamada Nova Re Constituinte em 86 são por demais reduzidas. O “eleito
pública a participação ampla de todos os segmentos sociais. rado” indígena está fora da máquina eleitoral. Isso não
Para que haja coerência nessa proposta e que se passe da quer dizer que cada povo indígena não tenha meios e meca
retórica à realidade histórica, deverão ser adotados meios nismos para escolher e indicar seus representantes a partir
que assegurem a representatividade indígena no debate de cada região ou território. A discussão e prática com rela
constitucional, o que significará fato inédito no processo po ção a esse processo político têm acontecido em inúmeras
lítico brasileiro. ocasiões nos últimos anos (reuniões, assembléias, etc.).

A Assembléia Constituinte de 1933 foi marcada pela repre O que se propõe é que se admita uma representação em
sentação classista, através das associações profissionais e caráter especial no sentido de:
sindicais de patrões e empregados. A idéia de representação
classista visava reduzir o peso da máquina política da oli
garquia, entretanto a influência de setores populares e da
classe operária foi praticamente nula. Os povos indígenas
foram, como era de se esperar, decididamente excluídos.

44
1) Calcular um número adequado de representantes, consi Os direitos à cidadania, à terra, aos recursos de exploração
derando a população indígena em termos numéricos e de das riquezas existentes nos territórios indígenas, e outros
correlação com a sua composição pluri-étnica. mais, que serão abordados inevitavelmente no debate cons
titucional, só serão discutidos e definidos democraticamente
2) Esses representantes seriam eleitos, aí sim por sufrágio se garantirmos à voz indígena um lugar ao lado de todos os
direto, pelos próprios índios, segundo seus próprios proces outros segmentos sociais.
sos políticos.
Há que se superar o alijamento que tem marcado historica
Parece-nos que esta seria a melhor maneira de garantir a mente as relações entre o Estado e os Povos Indígenas, aos
presença indígena na Assembléia, a partir do princípio, rei quais tem sido vedado, mais do que a qualquer outro seg
teradamente afirmado pelo próprio Governo, de que cada mento marginalizado, o acesso a canais jurídicos e parla
}77877 fdreS.
segmento social mencionado no texto constitucional possa
ser representado de fato na elaboração de uma nova Carta.
Como primeira iniciativa, poderia haver indicações de re A formulação de um novo diploma constitucional é um en
presentante(s) indígena(s) na Comissão Constituinte a ser tre tantos problemas nacionais que intervêm no destino dos
implementada até 15 de maio e incumbida de elaborar um índios brasileiros e atingem o “to be or not to be” da FU
anteprojeto de Constituição, sugerimos seja criado um gru NAI, passando pelos ajustes financeiros internacionais que
po de trabalho integrado por representantes indígenas e es influenciam o futuro dos Programas de Desenvolvimento.
pecialistas familiarizados com a realidade indígena e em Vive-se um momento catalizador no jogo de forças sociais
contato com entidades e indigenistas, cujo papel seria de de um governo que se inicia e que se diz democrático e plu
assessoramento da comissão governamental. ralista.

Até 86 a população indígena, com certeza, não estará inte No entanto, as conquistas não virão facilmente. Para que a
grada de modo a tornar-se um eleitorado standard, e nem questão indígena venha a ser matéria divulgada fora do âm
desejamos que tal integração aconteça. Se seu contingente é bito de discussão das classes dominantes, orientadas pelos
numericamente pouco significativo, seu peso político e sua seus imperativos econômicos é preciso que as forças que
importância social são indiscutíveis. -
atuam conjuntamente ao movimento indígena estejam uni
ficadas e alertas, sob pena de amargarem um processo de
retrocesso jurídico-institucional.

a essa transitoriedade, segundo observa


o índio, acrescentando: “Porque a Cons
tituição, a lei maior da Nação, estaria
Participação direta, garantindo o direito desses povos, ga
rantindo suas áreas como territórios. É o
direitos permanentes que eu chamaria de relativa autonomia
“Nossa preocupação com a Constituinte desses territórios, onde os índios podiam
é fazer com que os direitos transitórios
se organizar e se relacionar com a socie
sejam transformados em direitos permadade nacional, a partir de suas necessi
nentes”, afirmou Ailton Krenak, coor dades e expectativas e, não, para ser
denador de publicações da UNI, regio usado, invadido, metralhado, loteado
nal Sul. pelo Incra”.
Krenaklembra que, ao invés de prever Diz Ailton Krenak: “Basicamente, as
seus direitos na Constituição, preferiu pessoas perguntam — por que esses ín
se criar o Serviço de Proteção ao Indio, dios falam tanto em terra? Só falam em
em 1911, numa forma de manter o cará terra, terra, terra... Mas eles só falam
ter provisório desses direitos. O coorde em terra, porque a única condição dos
nador de Publicação da União das Na povos indígenas continuarem existindo,
ções Indígenas qualifica o SPI (cujo su não só fisicamente, mas também cultu
cedâneo é a atual Funai) de “muleta”, ralmente, é garantindo seus territórios.
observando que “enquanto Rondon vi Ailton Krenak insiste na questão da ter
veu, existiu o SPI. Quando ele morreu, o ra, explicando que “se entendemos que
SPI acabou”. Se tais direitos estivessem esses territórios são indígenas, ali dentro
na Constituição, eles não seriam sujeitos tem que se desenvolver uma economia e
uma forma de organização que atendam
os interesses das comunidades indígenas
e, não, aos interesses econômicos dos Ailton Krenak.

grupos que estão em torno dessas áreas”.

45
<LAcervo -

__/ Svºs INDIGENAs No BRASIL/CED

A inclusão dos direitos indígenas na Os índios contam, hoje, com o apoio dos discutidas, para não se transformarem
Constituição, na sua interpretação, eli membros da Comissão do Índio da Câ em iniciativas individuais, sem compro
minaria a discussão da relativa incapaci mara dos Deputados e destacam a figura missos com seus principais interesses:
dade do índio no Código Civil: “A partir de Domingos . Leonelli (PMDB-BA), “Nossa preocupação, agora, é ver como
do momento que temos oportunidade de Márcio Santilli(PMDB-SP), Aldo Aran essas candidaturas não sejam iniciativas
participar dessa Constituinte, temos tes (PMDB-GO), Haroldo Lima pessoais. A candidatura do Mário (Ju
também a oportunidade de alterar essa (PMDB-BA) e de Eduardo Suplicy (PT runa), por exemplo, foi uma candida
condição. Se os povos indígenas têm di SP). Além desses, é claro, contam tam tura pessoal. Ele não submeteu essa can
reitos permanentes em relação à socie bém com o deputado xavante Mário Ju didatura à discussão e a um compromis
dade brasileira, acho que essa relativa runa que “pode, de alguma forma, via so anterior com os vários parentes das
incapacidade deixa de ter sentido. bilizar a introdução de nossas reivindi comunidades indígenas. Queremos fa
Quando você admite que o outro é dife cações na Constituinte”. Na avaliação zer uma discussão séria, para ver a que
rente, você não pode avaliar se o outro éde Krenak, o deputado Mário Juruna, nível essas candidaturas estão compro
capaz ou incapaz. Ele apenas é diferen em sua experiência no Congresso Nacio metidas com os interesses e os destinos
.te. Se você tem uma cultura diferente da nal, “tem feito o que as condições polí de nossas populações. Se for uma pers
minha, como posso dizer que você é “in ticas e o que a realidade do País têm pectiva individual, então ele milita, se
capaz” de entender a minha? Você é permitido, onde a prática política é sub candidata, vence ou perde. Se for uma
apenas diferente. Na verdade, seria o fim metida a uma série de pressões, de con candidatura submetida às populações
do império da estupidez”. veniências de perseguições. Espero que indígenas, aí ela vai ter toda a população
Krenak explica que os índios não pre eu esteja entrando num outro tempo (fa indígena articulada apoiando. Se for
tendem formar territórios independen zendo alusão à Nova República), onde a uma candidatura individual, não discu
tes: “Não seriam territórios independen pessoa que assumaum compromisso pú timos. É uma opção dele, seja índio, seja
tes, não seriam territórios autônomos. blico com seus eleitores, possa realmen branco”. (extraído da reportagem “Os
Seria buscar uma forma de colocar na te cumpri-lo”. índios e a Constituinte”, de Edson Baú,
Constituinte, na Constituição, a garam O coordenador de Publicações da União Última Hora, Brasília, 29/04/85).
tia desses territórios às comunidades in das Nações Indígenas vai tentar garantir
dígenas, o seu direito permanente de a participação do índio na Constituinte
uso, de se organizarem social e econo de 86 sem qualquer vinculação parla
Sugestão
micamente e, a partir daí, estabelece mentar. Isto é, Krenak defende o direito
rem as suas formas de relação com a so de qualquer grupo social, incluindo-se o para a Constituinte
ciedade envolvente”. indígena, fazer-se representar na Cons “A mineração em reservas indígenas
tituinte e defender seus interesses. O ín também deve ser considerada na nova
Representatividade dio usa uma referência história para jus Constituição. O aproveitamento dos re
tificar sua proposta: “Há 150 anos atrás, cursos minerais existentes em áreas indí
Não apenas antigamente, mas, até hoje, um sujeito chamado José Bonifácio pro genas deve ser decidido pelos próprios
a maioria dos índios nunca ouviu falar pôs que povos diferenciados cultural índios, assinando contratos com as pró
em Funai, Estatuto do Índio, Constitui mente tivessem formas diferenciadas de prias empresas de mineração que teriam
ção, como afirma Ailton Krenak. Como, se representarem dentro das leis de uma que ser referendados pelo Congresso Na
então, representar os 180 povos indíge Nação. Continuo defendendo a mesma cional. As nações indígenas não devem
nas na Constituinte? Ele sabe que isso é tese. Na prática, funciona assim: cada ficar sob a tutela do Poder Executivo,
impossível, mas explica o seguinte: “O grupo que desejar participar indica seus mas, tão somente, do Poder Legislativo,
que podemos fazer agora é que as popu representantes para as discussões, sem a naqueles casos de relevante importância
lações indígenas, que já têm compreen necessidade de concorrer às eleições de para as tribos.” Esta é uma das suges
são do que é a sociedade brasileira, o que 86”. tões apresentadas pelo geólogo Wander
significam as leis, vão, de alguma for Ao ser indagado se essa proposta seria o lino Teixeira de Carvalho (ex-diretor da
ma, poder influenciar na criação das ponto-chave da articulação indígena em Metais de Goiás S.A. e atual mestrando
leis, em favor dos grupos que não acom relação à Constituinte, ele respondeu: em Administração e Política de Recur
panharão esse processo. Historicamen “Não só seria o ponto-chave da nossa sos Minerais da UNICAMP), no artigo
te, eles só vão entrar em contacto com proposta, mas do próprio País. Seria fi intitulado “O setor mineral quer deba
essa realidade daqui a cinco ou dez anos. nalmente a Nação admitindo aquilo que ter as mudanças na Constituição”. (FSP,
Mas não podemos esperar que as 180 po José Bonifácio queria, pois somos uma 17/02/85).
pulações indígenas do País saibam ple Nação pluralista. Ela acolhe, dentro de
namente o significado das leis para po si, 180 nações menores, que são as na
der influenciar, porque corremos o risco ções indígenas, que têm línguas diferen
de, daqui a pouco, esses povos não exis tes, religiões diferentes e formas de ana
tirem mais. Essas leis são, na verdade, lisar diferentes”.
uma garantia da continuidade da sobre
vivência desses povos e de que possam Candidaturas
participar, no futuro, de um aperfeiçoa
mento maior desse processo de represen O índio Krenak disse que seus irmãos já
tação”. •

têm vários candidatos às próximas elei


ções, entre eles Marcos Terena, hoje tra
balhando com o ministro José Apare
cido, da Cultura. Mas ele acha necessá
rio que as candidaturas sejam submeti
das às comunidades indígenas, por elas

46
CNBB escolhe comissão Apontamentos para o Neste momento pré-Constituinte, antes
de se entrar em discussões exaustivas so
debate pré-Constituinte
A 23º Assembléia da CNBB (Conferên bre reformas e vinculação de uma nova
cia Nacional dos Bispos do Brasil) apro Atualmente, o índio é tutelado por ter agência indigenista estatal, convém re
vou ontem de manhã, em Itaici, muni ainda um conhecimento razoável da lín ver as figuras jurídicas da integração e
cípio de Indaiatuba (SP), os nomes de gua portuguesa, dos usos e costumes da da tutela como tais. Se reformamos o
quatro bispos para integrarem a comis sociedade nacional e por não exercer órgão tutor antes de remover o “entulho
são de acompanhamento da nova Cons uma atividade útil, nesta sociedade (art. autoritário” da legislação indigenista e
tituição brasileira. Foram eleitos os bis 9, da Lei 6.001). A filosofia integracio antes de discutir os parâmetros de con
pos de Bauru (SP), dom Cândido Padin, nista o coloca numa linha de montagem, vivência da sociedade nacional para com
70; de Duque de Caxias (RJ), dom Mau onde ele percorre as etapas de “iso os povos indígenas, colocamos o carro
ro Morelli, 50; de Rubiataba (GO), dom lado”, em vias de integração”, até ser na frente dos bois. Questões como a ga
José Carlos de Oliveira, 54; e de Afoga “integrado” (art. 4, da Lei 6.001). A tu rantia do território indígena e do seu
dos da Ingazeira (PE), dom Francisco tela não é a proteção da alteridade étni subsolo, a participação dos índios nas
Austregésilo de Mesquita Filho, 61. Na ca, mas a assistência ao desconhecimen questões que lhes dizem respeito, a pre
próxima semana, os 270 bispos reunidos to e não-produtividade do índio que se servação da sua identidade étnica, a li
em Itaici deverão aprovar a estratégia pressupõem passageiros. berdade de organização — todas essas
de atuação da igreja diante da Consti Ocorre que o projeto de vida das comu questões devem ser objeto de ampla dis
tuinte. nidades indígenas — em termos gerais cussão. Não temos a ilusão de que uma
Na entrevista coletiva de ontem de ma — não caminha para esta integração Constituinte possa esgotar todas as ques
nhã, os bispos de Nova Hamburgo (RS), prevista nos dispositivos legais. Em con tões levantadas. Mas, ela pode abrir o
dom Aloísio Sinésio Bohn, 51, Tocanti seqüência disso, geram-se inúmeros caminho para o seu equacionamento.
nópolis(GO), dom Aloísio Hilário do Pi conflitos que provêm, em parte, do não Haveria ainda que levantar a questão da
nho, 51, e de Vitória da Conquista (BA), cumprimento da Lei (demarcação das representação, numa Assembléia Nacio
dom Celso Pinto, 52, adiantaram alguns terras), em parte, do não-reconheci nal Constituinte, dos índios e de outros
elementos desta discussão preliminar na mento de que o Brasil é um País pluriét setores marginalizados. Os representan
assembléia. Segundo dom Celso, a igre nico, composto por micronações indíge tes indígenas devem ter acesso a essa As
ja defenderá uma ampla participação na nas, com sistemas de organização sócio sembléia, sem vinculação partidária.
Constituinte, publicará cartilhas popu próprias.e econômica e com cosmovisões Não convém simplesmente transformar
político •

lares sobre o tema, sugerirá que a nova o Congresso Nacional, onde, historica
carta inclua tópicos sobre a autonomia mente, se encontram as elites políticas e
dos três poderes, a reforma agrária e os os interesses antiíndios, em Assembléia
direitos ao trabalho, moradia e educa Nacional Constituinte. Se os defensores
ção, entre outros. “O fundamental é que da causa indígena conseguem substituir
não tenhamos uma Constituição saída a filosofia (e depois a prática) integra
dos gabinetes, mas expressiva da von cionista pelo reconhecimento da pluri
tade popular, incluindo não só os princí nacionalidade do País, não só os índios,
pios da democracia liberal, mas também mas todos os setores populares podem
da democracia social, como a hipoteca comemorar uma vitória. Hojê já não
que pesa sobre a propriedade privada e a basta mais cumprir a Constituição muti
primazia do trabalho sobre o capital”, lada. É preciso mudá-la. (excerto do ar
afirmou o bispo, (FSP, 14/04/85). tigo do Pe. Paulo Suess, “Alteridade X
Integração”, publicado no jornal PO
RANTIM, do CIMI, abril de 1985).

47
*
—A #%
lºves INDIGENAs No BRASIL/cED

DEMARCAÇÕES:
UMA AVALIAÇAO DO
GT-INTERMINISTERIAL Nos últimos dois anos, •

o chamado “Grupão” emperrou as demarcações


das áreas indígenas. Mas o novo
quadro institucional abre outras perspectivas

João Pacheco de Oliveira Fº


E

Alfredo Wagner Berno de Almeida (*)

decreto 88.118, de 23.02.1983, instituiu uma siste Dos processos de delimitação com tramitação regular ape
O mática nova para a demarcação das áreas indígenas,
substituindo dispositivo anterior, o decreto 76.999,
nas 14 foram efetivamente concluídos, a resolução de 3
outros sendo imposta por outros canais e decorrente de seu
de 08.01.1976. Este situava tal processo inteiramente no cárater emergencial (a crise do Xingu, com a interdição da
âmbito das atividades da FUNAI, sendo ao final submetido BR-080, e o aprisionamento de um avião, em maio de 84; o
à homologação do Presidente da República. confronto iminente entre índios Apinayé e moradores de
Tocantinópolis, com o início da demarcação pelos próprios
A intenção explícita e formal dessa mudança, já manifes índios e a interrupção do tráfego na rodovia Transamazô
tada na Exposição de Motivos Interministerial nº 003, de nica. Quanto aos processos de homologação da demarca
07.02.1983, era promover um ajustamento e compatibili ção, apenas um caso, relativo a uma área indígena muito
zação entre as diretrizes Gerais da Política Agrária, con reduzida (736 ha) e bastante conflituada, foi de fato
con
substanciadas então pelos decretos nºs 87.457/82 e 87.700/ cluído.
82 (que criaram, respectivamente, o Programa Nacional de
Política Fundiária, e as atribuições de Ministro Extraordi O quadro abaixo destaca algumas variáveis, permitindo
nário para Assuntos Fundiários), e a atuação da FUNAI. uma apreciação sintética dos resultados da atuação do GT
Isto com o intuito de reguardar os direitos dos índios à posse Interministerial. Face as finalidades com que foi constituí
e usufruto permanente das terras que ocupam ou que lhes do, de aprimorar as normas para demarcação das terras
são atribuídas (em conformidade com a Constituição Fe indígenas, o “Grupão” apresentou resultados assustadora
deral, art. 198 e a Lei nº 6.001), mente baixos. As 12 áreas onde a delimitação foi concluída
seguindo os procedimentos regulares totalizam uma ex
Completou-se recentemente dois anos de vigência e funcio tensão de 1,2 milhões de ha, correspondendo a tão somente
namento do GT-Interministerial, o chamado "Grupão", 8% a da extensão total das áreas encaminhadas pela FU
criado por esse Decreto, tornando bastante oportuna e pos NAI ao GT-Interministerial. Em termos de homologação da
À * T = . ** * * + *

sível uma análise da eficácia dos procedimentos aí estabele demarcação, a única área concluída corresponde a 0,032%
cidos. Impõe-se como uma necessidade urgente localizar. da extensão total do conjunto de áreas já demarcadas enca
onde se situam os pontos de inércia e estrangulamento desse minhadas para homologação pela FUNAI.
processo, tendo em vista a perspectiva de instituir uma Tais cifras deixam meridianamente clara a inoperância da
outra sistemática, ajustada ao novo arcabouço político sistemática instituída pelo Decreto 88.118/83, indicando a
legal. Tal necessidade se acentua com a redefinição, ora em necessidade de sua revogação. Para a elaboração de novas
curso, das diretivas, atribuições e modos de ação dos órgãos normas para demarcação das terras indígenas é, no en
fundiários (criação de Ministério da Reforma e Desenvolvi tanto, imprescindível diagnosticar com precisão os pontos
mento Agrário, em substituição a estrutura anterior do críticos de estrangulamento existente na sistemática ante
MEAF; a definição institucional do INCRA no conjunto de rior, bem como estimar a eficácia do processo demarcatório
órgãos fundiários; a elaboração do Plano Nacional de Re face as necessidades sociais existentes, de assegurar os di
forma Agrária, prevendo ampla discussão social), reitos indígenaseàsobrevivência
de subsistência terra onde habitam
étnica. ou exploram com fins •

Inoperância
(*) antropólogos, participaram do “Grupo de Terras Indígenas” (INCRA)
que elaborou subsídios para o Plano Nacional de Reforma Agrária
Durante esse período foram encaminhados pela FUNAI ao (MIRAD).
GT-Interministerial 50 processos. Objetivaram a criação de
áreas indígenas mediante a delimitação por decreto presi
dencial, e 15 destinavam-se a homologar, igualmente por
ato do Presidente da República, demarcações já realizadas.

48
Intensificação de conflitos Pareceres conclusivos bloqueados
Ao avaliar a atuação do GT-Interministerial nesses dois Esquematicamente, é essa a dinâmica do processo de de
últimos anos sobressai com nitidez uma estagnação pro marcação segundo o decreto 88.118/83. A FUNAI procede
gressiva do ritmo das delimitações e homologações. Em ao reconhecimento da área, com levantamentos chamados
uma comparação inicial, a extensão total das áreas delimi antropológicos e fundiários (para esse último, requisitando
tadas por Decreto em 1983 atinge a cifra de 655.556 ha, a colaboração de funcionários locais do INCRA). Uma vez
enquanto no ano seguinte fica em torno de 598.663 ha. identificada, a área é remetida pela FUNAI ao GT-Inter
ocorre porém, que uma parte dessas delimitações corres ministerial para delimitação. Inicialmente o caso é estudado
ponde a processos cuja entrada no GT se deu no ano an em separado pelos representantes do MINTER e do MEAF.
terior, estando portanto apenas concluindo sua trajetória Quando esses consideram concluída sua análise, tendo for
institucional. Apenas 5 das 28 áreas remetidas ao GT para mado opiniões sobre a matéria, notificam à FUNAI para
delimitação no ano de 84 receberam decretos presidenciais, que essa marque uma reunião para discussão daquele caso.
somando 367.850 ha. Excluindo crises de grande porte que
atrairam a atenção da opinião pública e das autoridades, Ao chegar a um acordo sobre os limites da área (algumas
tendo uma solução negociada em particular, ficam apenas vezes isso exigindo retificações da proposta original, inclu
três pequenas áreas totalizando tão somente 42.850 ha para sive com novos levantamentos de campo), os componentes
atestar da continuidade da sistemática do Decreto 88.118/ do GT firmam um parecer-conclusivo. Em seguida a pro
83 nesse último ano. Ainda que isso aponte que não houve posta de delimitação é levada à aprovação dos Ministérios.
uma completa paralização das delimitações, fica claro que a Por fim é remetida à Presidência da República, juntamente
tramitação regular conseguiu delimitar uma proporção pra com uma Exposição de Motivos Conjunta MINTER/MEAF
ticamente desprezível (0,31%) da extensão total das pro e uma minuta de decreto, o qual uma vez assinado e publi
postas encaminhadas pela FUNAI ao GT. cado no D.O.U., encerra o processo de delimitação, após
haver sido concluída a demarcação física daquela área de
Nesse contexto, a ausência de respostas institucionais, fun acordo com os limites fixados no decreto presidencial, o
cionou como um fator definitivo de insatisfação e um ver caso retorna à consideração do GT, devendo seguir a trami
dadeiro gerador de crises. Em tais casos eram aplicadas So tação anterior, com a emissão de parecer conclusivo, com a
luções casuísticas, mas que do ponto de vista dos interessa aprovação dos Ministros e por último o decreto presidencial
de homologação da demarcação. * •

dos revelavam-se como melhores do que a sistemática esta


belecida. As duas áreas obtidas no correr da crise institu
cional do Xingu (abril/maio de 84) somam juntas 325.000 Ao decompor com intuitos analíticos uma tal sistemática de
ha, o que corresponde a mais de 7,5 vezes a extensão das demarcação em suas fases constitutivas, (vide quadro abai
àreas delimitadas segundo a rotina introduzida pelo De xo), o observador pode perceber que a grande maioria das
creto 88.118. É importante ter presente que a falta de res áreas encaminhadas ao GT-Interministerial não se encon
postas institucionais é um estímulo ao agravamento das tram paralisadas em um ponto inicial de tramitação, com o
relações interétnicas nas regiões onde existem casos pen caso ainda em consideração pelos membros do GT. Das 50
dentes e um incentivo a adoção de formas mais radicais de áreas encaminhadas para delimitação, apenas 22 ficam
luta por parte dos índios. E como se todos os canais de aten nessa situação, não sendo esse o caso de qualquer um dos
dimento as suas demandas quanto a terra estivessem pratiº processos para homologação da demarcação. Na leitura
camente fechados, só podendo haver resposta com a inten desses dados é preciso ter presente que a inclusão, com
sificação do conflito. 9.149.108 ha, da área indígena Yanomami nessa fase, a
inflaciona fortemente. As demais 21 áreas em estado inicial
Comparada não somente com as propostas encaminhadas de delimitação totalizam somente 4.361.380 ha."
pela FUNAI, mais com as necessidades reais dos grupos O ponto de inércia desse processo reside, indiscutivelmente,
indígenas, quanto à regulamentação de sua posse, a insol no que sucede a fase intermediária. Em 11 casos (em um
vência da sistemática instituída pelo Decreto 88. I18/83, total de 50) os processos de delimitação receberam um pa
torna-se ainda mais manifesta. Segundo indicações da FU recer-conclusivo de GT, esbarrando em obstáculos poste
NAI, as áreas indígenas identificadas no Brasil montam a riores para completar o seu percurso institucional. Assim o
67,3 milhões de ha, a parte que já foi demarcada montando GT posicionou-se favoravelmente quanto a áreas que tota
a 12,6 milhões. Os 51,9 milhões de ha, distribuídos em 159 lizam 3.492.207 ha, a que correspondem a mais de 3 vezes a
áreas indígenas, representam com mais fidedignidade as extensão total das áreas que receberam decreto presiden
demandas reais existentes (muito embora caiba ressalvar cial.
que existem áreas indígenas ainda não identificadas pela
FUNAI, cuja mensuração não é possível por enquanto). Esses dados revelam como são improcedentes as críticas ao
confrontado com isso, a extensão total das áreas delimi GT que atribuem sua ineficácia a diversidade de órgãos e
tadas pelo GT do Decreto 88.118/83, em dois anos de ativi interesses que reúne, preconizando que a solução recomen
dade, é irrelevante, chegando a aproximadamente 2,4% da dada seria fazer cumprir todo (ou quase todo) o processo
extensão total das terras identificadas pela FUNAI (isso dentro de única instituição. A idéia de que o controle de
incluindo até aqueles casos resolvidos através de crises). todo o processo, recaindo sobre um mesmo órgão signifi
Tais cifras mostram a dramaticidade da situação dos grupos caria uma simplificação, corresponde de fato a um raciocí
indígenas, imprensados em seus territórios pelas frentes de nio falacioso. O ponto de estrangulamento é, inicialmente,
expansão, sem dispor de alternativas legais efetivas para a na aprovação individual dos Ministros (e em especial o do
defesa das terras que habitam ou utilizam. MEAF) e, mais adiante, na própria assinatura do decreto.
Resultava isso claramente de um veto de natureza política,
derivado de orientação e prioridades estabelecidas pelo C.
S.N. e em grande parte compartilhadas pela Presidência da

49
*
–/* #
#vºnDiGENAs No BRASIL/cED
República. A rigor o embargo não procedia da MEAF na A inobservância do dado de atualização levou os grupos
sua condição de organismo fundiário, mas da sua natureza indígenas a reivindicarem a ampliações de áreas cuja deli
Singular naquela conjuntura institucional, onde o Ministro mitação foi homologada. Um exemplo seria o dos Kaxinawa
era o Secretário-Geral e a estrutura (inexistente) do Mi do Rio Jordão.
nistério tendia a identificar-se com a do C. S. N.

Recomendações
Entraves na FUNAI
O novo quadro institucional, dando uma estrutura inteira
Acrescente-se a estes pontos de estrangulamento aqueles mente diversa aos órgãos do sistema fundiário, com a cria
que podem ser detectados internamente ao âmbito de atua ção do Ministério da Reforma e Desenvolvimento Agrário
ção da FUNAI. O fluxo de documentos interno à burocracia (MIRAD), coloca novas perspectivas para a demarcação
do órgão apresenta inúmeros entraves que refletem uma das terras indígenas.
descontinuidade de ação que pode conduzir a novos con Um ponto em que o MIRAD pode contribuir positivamente
flitos. Nos casos das áreas indígenas Raimundão e Boquei a questão indígena e auxiliar no controle das invasões reali
rão localizadas no território de Roraima, tem-se que os pa zadas sobre territórios indígenas, promovendo um levanta
receres do DPI ao Presidente da FUNAI datam respectiva Fr2entO. *

mente de 10 de junho de 1983 a 17 de novembro de 1983, a) das glebas pertencentes a projetos fundiários da INCRA
enquanto que as propostas ao GT-88.118/83 datam ambas que incidem em áreas indígenas;
de 12 de junho de 1984. b) dos imóveis rurais que, para o pagamento do Imposto
Nota-se também que há em que a data do levantamento Territorial Rural, se auto-declaram como situados den
fundiário dista por demais daquela da elaboração da pro tro das terras indígenas. Outras modalidades de defesa
posta. No caso da Area Indígena Truaru esta separação das áreas indígenas podem ser estudadas inclusive com
data de dois anos. •

a redefinição do sistema de cadastramento e com a ado


Em decorrência, verifica-se casos de propostas aprovadas ção de outros critérios para o seu preenchimento. E ur
que acabam resultando em homologação de delimitações gente promover um inventário completo de todos esses
baseadas em dados gerais e levantamentos fundiários intei casos, tendo em vista o cancelamento dessas glebas e dos
ramente defasados. Registra-se que as informações que registros em cadastro, nesse último caso sendo estudada
constam do memorando remetido pela FUNAI, concer a possibilidade de acionamento de instrumentos pena
nentes ao tópico intitulado “situação atual" (tal como pre lizadores.
visto no artigo do decreto 88.118) datam de três ou mais Um último e importante ponto é a revogação do Decreto
anos anteriores, não contemplando portanto, com a exa 88.118/83, com a elaboração de uma minuta de decreto
tidão necessária, certas informações relativas aos seguintes onde seja delineada uma nova sistemática para a demarca
aspectos: •

ção das terras indígenas. A revisão das normas para delimi


— deslocamentos geográficos do grupo indígena em ques tação e demarcação das áreas indígenas é algo que implica
tão; em definições político-institucionais maiores, bem como no
- aumento significativo de casos de invasões, notadamente reestudo das articulações INCRA/MIRAD e FUNAI/MIN
em áreas de frente de expansão; TER e em uma nova reestruturação interna do próprio
- alterações relevantes na densidade demográfica da área INCRA/MIRAD para atender às atribuições constantes em
indígena a partir da incorporação de famílias de índios tal proposta. *

que anteriormente se achavam dispersas.


PROCESSOS PARA DELIMITAÇÃO, REMETIDOS AO GT-DEC. 88.118 NO ANO DE 1983
NOME DA ÁREA INDÍGENA UF SUPERFÍCIE (HA) | PARECER DECRETO
POTIGUARA PB 20 . 820 002/83 89.256/83
RIO GREGÓRIO AC 92.000 003/83 89.257/83
RANCHO JACARÉ MS 736 001/83 89.258/83
UTIARITI MT 4l2.304 O05/83 | 89.259/83
TIRECATTINGA MHT L30 - 575 004/83 | 89.260/83
FUNIL GO 10 - 620 = *>##

BOM JESUS RR l.313 004/84 89.594/84


SERRA DA MOÇA RR 12.500 005/84 89.593/84
TUBARÃO/IATUNDÊ RO 118.000 *= +=

ESTIVADINHO MT L.970 = *#

FIGUEIRAS MT 10.000 *=== =

FORMOSO MT L2.000 *= *PP=

KAXINAWA DO RIO JORDÃO AC 92.000 030/84 90.645/84


KAXINAWA RIO HUMATTÃ AC 125.000 031/84 90.644/84
sL7-Acervo
_A ISA
PROCESSOS PARA DELIMITAÇÃO, REMETIDOS AO GT-DEC. 88.118 NO ANO DE 1984

NOME DA ÁREA INDÍGENA UF | SUPERFÍCIE (HA) | PARECER DECRETO.


KATURINA - KAXINAWA DO FEIJÓ AM/AC }_7. 750 002/84 || 89.488/84
PAQUIÇAMBA PA 6.000 001/84 | 89.489/84
RIO DAS COBRAS ER 19.100 008/84 | 90.744/84
CAPOTO MT 186.000 006/84 || 89.643/84
APINAJÉ GO 1.43.000 = 90.960/85
KOATINEMO PA 288.600 = w$

BOQUEIRÃO RR 13.950 Ol8/84 =

ANTA RR 2.550 017/84 | massa

RAIMUNDÃO RR 4.300 020/84 *#

TRUARU RR 6.640 016/84 *

TABA-LASCADA RR 7. Q00 019/84 *=

BOCA DO ACRE AC 26 - L67 025/84 *=

COATA-LARANUAL AM 805.000 024/84 =

NHAMUNDÃ-MAPUERA AM/PA | 1.022.400 021/84 =

RIO BIÃ AM l. 180.200 022/84 = .

JACAMIN RR L07.000 023/84 =

JARINA/TXUCARRAMÃE MT l39.000 005-A/84 || 89.618/84


Faixa de 15 km/MD. Xingú
APURINÃ AM 8.650 *= *$#

PARAKANÃ PA 317.000 035/85 | 91.028/85


STçº ANTONIO (TIKUNA) AM 1.450 #= +==

PIUM RR 3.810 = ----

YANOMAMI AM/RR | 9.149.108 *= ==

SÃO DOMINGOS MT 5.474 ---- *=

KULINA DO RIO EIRO AM 356.000 +== =

POYANANÃ AC L9 - 98,7 = *=

CAMPINAS/KATUKTNA AC 28.862 E= =>ã

TOLDO CHIMEANGUE SC 1 - 817 * *=

WAT-WAT RR 330.000 #= sº=

51
*
-+- © O

=/\ = ºs noiceNAs no BRasil/cºb

PROCESSOS PARA DELIMITAÇÃO, FEMETIDOS AO GR-DEC. 88.118 NO ANO DE 1985


NOME DA ÁREA INDÍGENA UF SUPERFÍCIE (HA) | PARECER DECRETO

ZOR5 MT 4 31.700 ----- *=+

URU-EU-WAU-NAU RO ] - 888.000 = *=+

WAIÃPI AP 543.000 == *=

NUKINTE AL 30.900 == +=

KAXARART AL L27.540 + #

PROCESSOS PARA HOMOLOGAÇÃO DE DEMARCAÇÃO - GT. DEC. 88.118


NOME DA ÁREA INDÍGENA UF SUPERFÍCIE (HA) | PARECER DECRETO
RANCHO JACARÉ MS 736 ---- 89 - 422
ERIKEATSA MT 79,943 10/84 *=>

ROOSEVEIT (MT/RO) 233. O 55 9/84 *=

PIMENTEL BARBOSA MT 320.900 12/84 =

PIRAJUÍ MS 2.121 26/84 *>

SARARE MT 67. 149 28/84 +=

ARARTBOTA MA 413.587 27/84 =

PACAAS NOVA RO 279.906 29/84 "=

KARITIANA RO 89 - 682 38/84 #=

TIRECATTINGA MT L30 - 575 32/84 =

UTILARITIL MT 412.304 33/84


VALE DO GUAPORÉ MT 242.593 34/84 #=

PROCESSOS ENCAMINHADOS AO GT-DEC. 38. L18

EM CONSIDERAÇÃO C/PARECER CONCLUSIVOS C/DECRETO


PROCESSOS | ANO NÇ| EXTENSÃO *** Fºgº • *-*

NQ | EXTENSÃO || ? | NQ | EXTENSÃO $ | NQ | EXTENSÃO| $

1983 ||14| 1. 139. 838 | 5 152.590 |l4,6% — += = 9 | 887.248||85,4%

1984||28||14.200.815||12|10.336.758 72,78||11 | 3.492.207||24,5ê || 5 || 371.850||12,3ê


DELIMITAÇÃO - 7

1985 || 5 | 3.021. 140 | 5 | 3.021.140| 100% || — == EPs *=> *=> =

TOTAL|50||18.261.893||22|13.510.488/79,33||11| 3.492.207|24,53 | 14|1.259.098 6,8%


HOMOLOGAÇÃO] - [12# 2.272.551 | — = — | 11 | 2.271.815 | 99% || 1 736 0,03%
DEMARCAÇÃO

52
AS ÁREAS INDÍGENAS
E O MERCADO DE TERRAS
Por que empresário e organizações financeira
internacionais estão defendendo
a imediata demarcação das áreas indígenas?

Alfredo Wagner Berno de Almeida (*)

E# de representação, que congregam grandes


empresários rurais, e organizações financeiras interna
apenas destas extensões ocupadas, mas também, e sobre
tudo, daquelas áreas de pretensão. Sublinhe-se que, não
cionais estão se perfilando de forma ostensiva face a obstante os sucessivos conflitos, os dados sobre a elevação do
cada evento que, atualmente, se insurge no problema maior preço das terras na Amazônia assinalam uma curva ascen
dos conflitos relativos às terras indígenas. Embora os mate dente (I), que não passa despercebida aos cálculos de “ava
riais disponíveis à análise sejam precários e insuficientes, liação de patrimônio” das empresas cujos projetos estão sen
compostos em geral de extratos de documentos veiculados do implantados.
pela imprensa periódica, não permitindo generalizações
mais amplas, pode-se adiantar que, a cada novo aconteci A titulação liberaria, pois, recursos básicos juridicamente
mento, tais organizações têm se manifestado e, não raro, se imobilizados e cuja valorização crescente apresenta-se como
constituído em aliados inesperados das entidades de apoio ao uma constante. Ela pressupõe, entretanto, a inexistência de
movimento indígena. conflitos e a absoluta redução dos litígios sobre limites. Neste
ponto é que, da ótica empresarial, o problema da titulação
pode ser aproximado daquele da demarcação das áreas indí
A demarcação como uma etapa para a genas. Em primeiro lugar porque também elas encontram-se
imobilizadas, já que são considerados nulos de pleno direito
regularização dos imóveis e sem qualquer eficácia os atos, fatos e negócios jurídicos que
Numa orientação preliminar para o entendimento e a apre envolvem posse ou ocupação de terras classificadas como de
ensão dos fundamentos desta recente postura dos empresá "posse imemorial dos silvícolas". Uma possível anulação e a
rios, pode-se destacar que a manifestação será tanto mais certeza do cancelamento de semelhantes operações mercan
contundente, quanto mais sejam retardados ou prorroga tis condicionam o chamado risco empresarial desaconse
dos, junto aos órgãos públicos competentes, os processos de lhando uma aplicação de recursos, que não possui nenhuma
titulação dos extensos domínios que pretendem. O quadro de garantia jurídica. Em segundo lugar porque a definição legal
indefinição do reconhecimento das posses não tem agradado dos limites destas áreas indígenas constitui um passo decisivo
aos responsáveis pelos projetos agropecuários e de explora para a regularizaçãofundiária dos imóveis confinantes, quer
ção mineral e madeireira nem às empresas colonizadoras que dizer, de parcela significativa daqueles domínios pretendi
operam na região amazônica. No Norte de Mato Grosso, no dos por inúmeros empresários rurais que integram entidades
Sul do Pará, no Acre e no Maranhão os conflitos de terra e as como: a Associação dos Criadores de Nelore, a Sociedade
ações de contestação mantêm extensas áreas sub-judice. Isto Nacional de Agricultura, a Associação dos Empresários da
impede, de acordo com os dispositivos legais, que sejam ob Amazônia e o Conselho Nacional de Pecuária de Corte.
jeto de transações comerciais e de captação de recursos no
sistema financeiro. Mediante esta imposição jurídica as ter Segundo esta concepção empresarial as terras indígenas se
ras neste contexto, não se realizariam enquanto mercadoria, riam classificadas como parte do conjunto de áreas conside
no seu sentido pleno não podendo ser objeto de atos de com radas de preservação permanente. J. C. de Souza Meirelles,
pra e venda registrados em cartório, nem servir de hipoteca Presidente do Conselho Nacional de Pecuária de Corte, acre
ou depenhora para empréstimos bancários. dita que, definindo-se legalmente, o estoque de terras a se
rem utilizadas estaria automaticamente disposto a uma rá
Do ponto de vista de empresários, que possuem nestas áreas pida titulação. Ele assevera o seguinte:
além de benfeitorias elementares, grandes rebanhos, lavou
ras comerciais e unidades de beneficiamento e transforma
ção (serrarias, usinas de álcool, garimpos semi-mecaniza
dos) torna-se fundamental obter a titulação definitiva e não (*) antropólogo, faz pesquisas sobre estrutura fundiária, sobretudo na
Amazônia e é autor de vários trabalhos publicados sobre o assunto,
INDiGENAS NO BRASIL/CED]

“... o que urge fazer é a definição das áreas ecologi os empresários das áreas onde serão demarcadas
camente viáveis para o uso social e econômico, resul áreas indígenas passariam a colaborar com parte da
tantes da prévia identificação e a exclusão das áreas verba necessária. (3)
de preservação permanente.
(...) Dispomos de informações e tecnologia que per Propondo concorrer com recursos materiais para a demar
mitem definir as áreas de preservação permanente: cação das áreas indígenas os empresários evidenciam mais
reservas indígenas, ecológicas, biológicas e parques uma vez que a indefinição da propriedade não se coaduna
nacionais, especialmente na Amazônia...” (Meirel com seus interesses mais imediatos quais sejam: habilitar as
les; 1984)(2). terras às transações comerciais considerados legítimas. Ma
nifestam seu desacordo com a chamada "morosidade" da
As áreas indígenas (as quais, de acordo com dados divulga FUNAI e do INCRA e defendem uma posição que aparente
dos pela FUNAI correspondem aproximadamente a 7,8% do mente não é distinta daquela das entidades de apoio ao movi
território nacional) são classificadas no mundo natural não mento indígena: agilizar as demarcações. --

sendo reconhecidas como integrando o processo produtivo.


A definição legal seria iniciada, portanto, pelas áreas que A regularização fundiária torna-se vital para empresários
não teriam ingresso no mercado nacional de terras. Uma vez rurais que desejam dispor suas extensões, deforma plena, no
demarcadas legalmente, torna-se imediato o reconhecimen mercado nacional de terras. Admitem inclusive de maneira
to da legitimidade da ocupação dos confrontantes. Começar explícita que "ocupam indevidamente terras de índios ou
pelo que não é apresenta-se como uma solução ideal para os próximas às reservas” (ibid.) atribuindo isto a órgãos fede
empresários definirem domínios cujas extensões não se rais que forneceram certidões negativas atestando a inexis
acham rigorosamente delimitadas e nem juridicamente reco tência de índios nas áreas pretendidas. Procuram se distin
nhecidas, guir do Estado e suas ramificações e reivindicam uma parti
cipação direta nas instâncias decisórias de demarcação.
Nos meandros desta lógica, de maneira concomitante, se lo
graria o fim dos conflitos com os grupos indígenas e daquelas Ainda que sabedores de que o fato de uma intervenção go
situações nomeadas de "tensão social”: vernamental teria que forçosamente efetuar desapropriações
de parte de seus domínios pretendidos os empresários advo
“Os conflitos que resultam na falta desse planeja gam tal demarcação. Acreditam que as possíveis perdas de
mentol essencial quer os de natureza social, como as algumas extensões que pretendem, face à declaração oficial
invasões de áreas indígenas, quer os de natureza eco de "posse permanente dos grupos indígenas", poderão ser
lógica, como a ocupação de áreas inadequadas ao uso minimizadas pelo ingresso formal das demais partes no mer
agropecuário não mais se justificam.” (Meirelles; cado. Semelhante crença seria tanto mais verdadeira para as
ibid.) empresas de colonização particular, que passariam a operar
com domínios juridicamente configurados beneficiando-se
Embora nada se tenha mencionado com respeito aos movi de um impacto positivo sobre seu valor de mercado.
mentos camponeses, suas regras peculiares de cultivo e seu
peso relativo nos conflitos de terra, a versão empresarial in Intentam, pois, uma operação conclusiva que do ponto de
siste em representar como idealmente superados os impasses vista jurídico-formal transforma as terras da região em mer
d definição legal e exata de seus domínios. Sendo bastante cadoria, no seu significado mais completo. Com isto abrem,
escassas as razões de tal omissão esta versão pode, com toda inclusive, novas perspectivas para uma concentração de ter
certeza, ser considerada como parcial e não-compreensiva. ras através de atos, devidamente registrados, de compra e
venda. Afinal, a grilagem, enquanto operação fraudulenta
II nos cartórios não interessa mais a empresários que já se bene
ficiaram direta ou indiretamente de apossamentos ilegítimos
“Esta semana a questão empresários X índios come e das muitas concessões (terras, estradas, incentivos fiscais)
çou a ser discutida em Brasília entre a FUNAI e a AS que o Estado lhes poderia propiciar.
sociação dos Empresário da Amazônia. A iniciativa
partiu do Presidente da A.E.A., Jeremias Lunardelli Do prisma empresarial os quesitos elementares à organiza
Neto que também tem terras no Sul do Pará. Ele afir ção e estrutura do mercado de terras na Amazônia estariam,
ma que os empresários estão cansados do papel de vi deste modo, começando a serpreenchidos banindo as transa
lões que desempenham sempre que eclodem conflitos ções paralelas e marginais, os litígios e demais conflitos que
em áreas indígenas. concorrem para desacreditá-lo (4).
Dos entendimentos entre a FUNAI e a A.E.A., sairá
um documento, que está sendo elaborado pelos em }T
presários. Ele vai sugerir uma maior colaboração
dos empresários em troca da participação da A.E.A. Mostra-se consoante com esta perspectiva o alinhamento da
no chamado “GRUPÃO”, grupo de trabalho criado quelas entidades empresariais nas manifestações de crítica,
pelo Decreto 88.118/83, integrado por representam recusa e protesto contra o decreto que autoriza a exploração
tes do Ministério Extraordinário para Assuntos Fun mineral em área indígena. O Presidente da Sociedade Nacio
diários, Ministério do Interior, FUNAI e INCRA, nal de Agricultura, Otávio Melo Alvarenga, recém-empos
além de órgãos estaduais. Este GT tirou da FUNAI sado Presidente do Comitê Permanente do Qilinqüênio de
a autonomia de deliberar sobre a criação de áreas Conservação da Natureza (PRONATURA) considerou-o um
indígenas. Em contrapartida, a A.E.A. vai sugerir a “decreto nocivo” e previu “uma corrida de empresas mine
criação de fundos especiais para arrecadar dinheiro radoras e de garimpeiros às terras indígenas" (5) ameaçan
destinado à demarcação de áreas indígenas. Em fun do-as.

ção da crônica falta de recursos vivida pela FUNAI,

54
Em carta enviada ao Presidente da República a Associação mobilização, quase permanente, num quadro em que os mo
dos Criadores de Nelore solicitou que ele rejeitasse o decreto vimentos de reapropriação de terras indígenas têm logrado
concedendo o subsolo de terras indígenas para empresas mi certo êxito, com toda certeza agrava os impasses que os em
neradoras (6), assinalando que as multinacionais cobiçam presários visam contornar. Mencione-se os conflitos de maio
ardilosamente tais terras: de 1984, ao norte do Parque do Xingu, de julho dos Kre
naque (Resplendor, MG) e ainda os dos Pataxó (BA) e Api
nayé (GO). •

“O Presidente da entidade, José Mário Junqueira de


Azevedo, diz na carta, que o recente pedido de de
missão do Presidente da FUNAI, que se recusou a Tais mobilizações indígenas, ainda que defensivas no
concordar com o decreto autorizando as minerado contexto dos conflitos de terras, têm conseguido reverter os
ras multinacionais a explorarem o subsolo das terras confinantes que as transações paralelas ao mercado formal
indígenas, é a prova cabal dessas manobras.” (ibid.) de terras e a grilagem cartorial ilegitimamente estabele
ceram. Inclua-se aí as próprias concessões governamentais
As entidades empresariais, num nacionalismo de retórica, que tem sido representadas hoje pelos empresários como "a
participaram das pressões que levaram o Presidente da Re origem da usurpação das terras indígenas” (10), isto é,
pública a sustar o andamento do decreto que autoriza a ex casos em que os empresários chegaram a receber certidões
ploração mineral em áreas indígenas. O Presidente ordenou negativas da FUNAI atestando “inexistência de índios" em
que o assunto fosse reestudado pela Secretaria do Conselho áreas que de fato constituem-se em territórios indígenas. O
de Segurança Nacional e pelo Gabinete Civil da Presidência significado disto é que as atuais delimitações e pretensões
da República (7). Neste contexto colidiram os interesses mais podem ser redefinidas levando, por vezes, os empresários à
imediatos daquelas entidades com o das empresas minera condição legal de “invasores” e “intrusos", ou seja, uma
doras e suas respectivas associações. Enquanto para as pri posição incômoda e que agrava o chamado sentimento de
meiras interessa definir prioritariamente a titulação dos do insegurança da propriedade. Daí a iniciativa dos empresá
mínios para as outras interessa resolver também, simul rios e a persistência na imediata definição legal dos domí
taneamente, a questão do subsolo das terras indígenas e sua nios de posse permanente dos grupos indígenas precavendo
exploração. Assim, a Associação Brasileira dos Mineradores se de possíveis atos de reapropriações.
de Ouro (ABRAMO) (8), cujo Presidente Octavio Lacombe
dirige também o Conselho da Paranapanema Mineração, e o “As terras indígenas — diz a carta da Associação
Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM)se posicionaram dos Criadores de Nelore — já criada com 13 quilô
favoráveis ao decreto, Sérgio Jacques de Moraes, Presidente metros quadrados por índio, já não são suficientes
do IBRAM, para a comunidade indígena e devem ser preser
“afirmou que a proibição da pesquisa mineral em re vadas. Mas criar novas reservas indígenas em regiões
servas indígenas representa enormes prejuízos para a com grande produção agropastoril, onde não exis
atividade, pois justamente nessas reservas há indica tem índios, mas são levados por missões religiosas
ções de grandes depósitos minerais, que precisam ser para fixá-los, não passam de interesses de minera
pesquisados e explorados”. (Moraes; 1984) (9). dores multinacionais, camuflados de defensores do
princípios cristãos.” (estado de Minas, ibid.).
Segundo ele a decisão de sustar o decreto “intranqüiliza os Ao se perfilarem contra as pretensões das mineradoras e
empresários, pois, a área mineral, em que os inves pela imediata demarcação das terras indígenas, inclusive,
timentos são de retorno a longo prazo, exige segu reconhecendo, de maneira surpreendente, que tais exten
rança jurídica com projeções para o futuro.” (Mo sões podem até ser insuficientes, os empresários estão se an
raes; ibid.). tecipando ao que imaginam como um possível golpe de su
cessivas ações de reapropriação e ocupação de territórios
A despeito de pretenderem de maneira unânime a formali indígenas de posse imemorial. A imediata demarcação além
zação jurídica de seus pretensos domínios as empresas mine de possibilitar o pronto reconhecimento formal dos imóveis
radoras e as agropecuárias mostram divergências, quanto à confinantes, os defenderia também destas possíveis amplia
posição tática face aos territórios indígenas. ções de áreas indígenas, tal como agora delimitadas, e evi
taria o que representam como uma tendência ao agrava
dosprocessos
mento dos conflitos
litígios e de com o conseqüente retarda
titulação. •

IV

As empresas agropecuárias e aquelas de colonização parti


cular parecem avaliar com maior precaução os efeitos das As organizações financeiras internacionais
mobilizações do movimento indígena, contrárias ao decreto e os sistemas de direito consuetudinário
de autorização de exploração mineral em seus territórios,
entendendo que este fato mantém um clima permanente de As organizações financeiras internacionais, que ar
conflito e tensão social. Isto contraria seus objetivos mais cam com parte dos recursos disponíveis aos projetos de de
imediatos de pôr fim a eles e lograr tão logo a titulação senvolvimento rural integrado (PDRR) do Polonordeste, do
definitiva. Polonoroeste e do Projeto Ferro Carajás, tem exigido do
governo brasileiro, como integrante a sua contrapartida, a
Nesta tomada de posição parecem levar em conta que a mo demarcação das áreas indígenas. Tanto para o Banco In
bilização dos diferentes grupos indígenas se renova com teramericano de Desenvolvimento (BID) quanto para o
maior intensidade a cada vez que esta pretensão governa Banco Mundial a demarcação coloca-se, atualmente, den
mental de permitir a exploração mineral vem à baila. Tal
S INDÍGENAS NO BRASIL/CED!

tre as medidas necessárias à “regularização fundiária" que A ação dos organismos financeiros internacionais reforçaria,
preconizam para o país. Desde 1960, o primeiro, e 1975, o deste modo, a perspectiva daquele segmento de empresários,
segundo, atuam nas áreas rurais dos chamados "países em anteriormente mencionado, que procura exercer sua domi
desenvolvimento” facilitando a incorporação de novas ex nação através de uma formalização jurídica da propriedade.
tensões a um “mercado formal de terras", através da su Representam como natural o código e os aparatos legais da
pressão dos mercados ditos paralelos e informais, que não sociedade nacional e consideram uma burla o que possa vir a
estariam, de acordo com estes organismos internacionais, transgredir suas disposições. Exaltam o contrato de compra
com seus recursos adequadamente integrados ao que desig e venda como a justiça de um mundo afinal ordenado e re
nam de “processo produtivo”. O BID vem financiando pro gular. Esta representação distingue-se, pois, daquela de uma
jetos de titulação diversos, assim como alguns de irrigação e vertente autoritária (13) que viola seguidamente as regras de
drenagem, que se encontram localizados, dentre outros, nos mercado, caracterizando sua ação por apossamentos ilegíti
seguintes países e regiões: Norte do Peru (Desenvolvimento mos e grilagens, além de propugnar, à revelia dos disposi
Regional de Jaen San Ignacio-Bagua), Caribe (criação de tivos legais, uma submissão dos camponeses e dos grupos
registro de terras e de cadastros gráficos), Nicarágua (regu indígenas pelo aparato repressivo. Semelhante concepção
larização fundiária com aproveitamento de fazendas esta marcou etapas iniciais do desdobramento das frentes de ex
tais), Chile (regularização fundiária no período democrata pansão e caracterizou, por outro lado, a ação colonial, no
cristão de Frei), El Salvador, (Programa “Terra para o La tadamente, em contextos das chamadas guerras coloniais e
vrador") e Equador ) Desapropriação dos Huasipungos) delibertação (14).
(! f).
A expansão capitalista, nesta etapa, inibe os métodos de vio
A partir de 1975 com as sucessivas inversões e o auxílio téc lência que foram a essência da política colonial e da ocupa
nico do Banco Mundial, que redefiniu sua política em rela ção das fronteiras agrícolas, e procura implementar regras
ção à terra (12), tal ação foi intensificada abrangendo uma de mercado, que legitimem a reprodução dos processos de
série de projetos cadastrais (Tunísia, Camarões...), de pro concentração da terra e a centralização do capital, facilitan
jetos de desenvolvimento rural (Marrocos...), de programas do ao máximo, em termos operacionais, as transações imo
de titulação (Tailândia, Colômbia) e de projetos de coloni biliárias. A titulação é vista como exaltando a segurança da
zação (Filipinas). O citado organismo passou a dispor de propriedade e permitindo maior incentivo para os investi
um elenco de quadros especializados, muitos deles tomados mentos. O resultado destas inversões mais elevadas tanto
à experiência colonial inglesa, e a ter um importante know poderá ser maior produção por área, quanto aumentar as
how acumulado na Ásia, África e na América Latina princi transações de valores mais expressivos. Daí porque aquelas
palmente no trato com sistemas de direito consuetudinário organizações bancárias mobilizarem vultosos recursos para
de diferentes grupos étnicos. organizar um mercado de terras, inclusive demarcando áreas
indígenas, sem qualquer perspectiva de retorno imediato. O
O objetivo geral desta ação é dirigido contra os fatores con capitalismo financeiro (capital bancário e capital industrial
siderados imobilizantes, que não autorizam conferir à terra simultaneamente) que a atualiza, supõe certo nível de forças
um sentido pleno de bem passível de mercantilização. Si produtivas e, sobretudo, requer formas organizadas de vida
tuam-se dentre estes fatores as determinações jurídicas — econômica. Elas podem ser traduzidas, num plano de reali
como no caso das terras mantidas sub-judice — as infrações dades empiricamente observáveis, como os elementos tidos
das disposições legais, como a grilagem cartorial e as ope como organizadores de um mercado de terras — pelas enti
rações clandestinas de transferência, e o desconhecimento do dades financeiras internacionais, pelo segmento de empresá
código jurídico da sociedade nacional por grupos étnicos que rios aludido e pelas agências governamentais — quais sejam:
acatam um sistema de direito consuetudinário, em que são cadastramento, titulação, administração fundiária e o con
outras as regras de ocupação, de sucessão e outros os signi trole da transferência dos direitos sobre a terra. Em seu con
ficados das próprias categorias terra e mercado. São conside junto objetivam homogeneizar o sistema de transmissão,
rados em seu conjunto como não permitindo uma ampla pelo registro do imóvel e pelo controle de sua transferência,
comercialização de terras e impedindo que imensos domínios montando mecanismos “eficientes" de registro e cadastra
sejam transacionados nos mercados imobiliários capitalis mento. Isto acarreta um aumento da base tributária e, por
tas. Seriam, pois, segundo o ponto de vista daqueles organis tanto, interessa de perto ao Estado; e dá apoio ao processo de
mos internacionais, elementos de imobilização que precisa transferência estimulando os mercados imobiliários, o que
riam ser desativados para que os referidos mercados e suas interessa sobremaneira às organizações financeiras e aos em
agências respectivas pudessem absorver livremente novas presários.
extensões, com valores monetários fixados. Representados
como formas ideológicas de imobilização que favorecem a Tais transações imobiliárias e o respectivo registro legal des
família, a comunidade ou a uma etnia determinada em de tas ocorrências pela escrituração constituem mecanismos
trimento de sua significação mercantil, tais sistemas de di fundamentais ao desenvolvimento capitalista em detrimento
reito consuetudinário passam a ter ameaçada sua existência. das práticas de mercado de sistemas econômicos subordina
dos. Os mercados informais, que abarcam as transações de
As iniciativas de “regularização fundiária” visam destruir terras entre camponeses, que não são escrituradas e apóiam
tais formas convertendo as terras à possibilidade permanente se em contratos verbais, como as licenças de capoeira ou as
de comércio, resgatando-as ao mercado pela desmobilização transações que envolvem as denominadas “posses itineran
daqueles fatores que são vistos como subvertendo o caráter tes"; que compreendem regras de sucessão e transferência
legal que pretendem imprimir. que não conhecem formal de partilha e inventários; carac
terizam, antes de uma relação mercantil, uma situação de re
ciprocidade positiva entre grupos familiares de pequenos
produtores diretos. Isto tanto em frentes de expansão, quan
to em regiões de colonização antiga. Nestas últimas seriam
exemplos mais flagrantes as denominadas terras de preto,

55
sL7-Acervo
_/\ | <> A

terras de Santo, terras de igreja e demais situações que po Jeremy Lawrance, consultor do Banco Mundial para Assun
dem ser cobertas pelo significado genérico de terra comum. tos Fundiários, apresentou no referido Simpósio uma comu
Segundo se observa, esta noção vigente comporta uma arti nicação asseverando que, desde os anos 1950-60, tem havido
culação entre domínios de usufruto comunal (poços, cami notável interesse pela modernização dos registros de terra.
nhos, reservas de mata, cocais, campos naturais, babaçuais, Destaque-se que o consultor é inglês e beneficiário de toda a
áreas de caça, pesca e coleta) e domínios permanentemente situação histórica de dominação colonial, que perdurou, no
privados (casas, giraus, roças) ou apenas temporariamente caso africano, até fins dos anos 1950-60.
privados (local onde se erguem as roças). Da articulação
entre eles é que se tem o equilíbrio econômico que sustém Lawrancesublinha uma “reconciliação":
unidades familiares camponesas e de inúmeros grupos étni
C{}$,
“O surgimento de técnicas bem-sucedidas para re
conciliar os aspectos tradicionais da posse da terra,
especialmente na África, com um sistema de registro
A intervenção governamental: de terra, por exemplo, terras de famílias na Nigéria,
as pastagens comunais de clãs do Quenia.”(Lawran
assentamentos sem demarcação ce; 1984) (16).
Quanto à viabilidade técnica desta proposição de entidades Nada mais adianta, todavia, sobre o resultado destas expe
financeiras internacionais e empresários observe-se que, no riências e sobre o que considera ser uma “reconciliação”. Ao
decurso do Simpósio Internacional de Experiência Fundiá contrário, David Stanfield, do Land Tenure Center e da
ria, realizado na Bahia, entre 20 e 24 de agosto de 1984, sob o Univ. of Wisconsin, foi mais explícito acerca dos resultados
patrocínio do MEAF, do INCRA, do BIRD e do BID ficou obtidos pela intervenção fundiária na América Latina. Após
evidente que há um descompasso na utilização dos instru proportim esquema para o entendimento da diversidade dos
mentos de ação fundiária ao alcance dos devidos órgãos. A projetos afirma:
modernização de seus componentes (controle aerofotogra
métrico, desenhos assistidos por computadores, processos de “O terceiro tipo de programa de titulação é o resul
ortofoto) permite fornecer limites precisos, de maneira rá tante de levantamentos cadastrais e registro das ter
pida, em qualquer litígio. Entretanto, não têm sido utiliza ras. (...) Esses programas normalmente extinguem
dos em áreas de conflito ou mesmo para a demarcação de direitos tradicionais sobre a terra, caso daqueles
territórios indígenas. Com aqueles recursos tecnológicos a oriundos da propriedade comunal ou intrafamiliar
definição dos limites das áreas indígenas torna-se perfeita que são formas de posse que ocorrem em grande nú
mente factível a curtíssimo prazo, sem maiores problemas mero no Caribe e nos Andes.” (Stanfield; 1984) (17)
operacionais relativos às medições e demais trabalhos de
agrimensura. A modernização aludida parece, no entanto, Observa-se que tais programas resultam necessariamente em
estar sendo acionada tão só para efeitos de registro e aper titulação da propriedade individual. Individualiza-se os di
feiçoamento da máquina arrecadadora ou seja de recolhi reitos desorganizando as unidades sustentadas em relações
mento do imposto territorial rural. interfamiliares e no próprio grupo étnico.

A tentação de remeter a "modelos africanos e asiáticos", que A demarcação de áreas indígenas, no caso brasileiro, en
estão sendo igualmente objeto destes instrumentos de ação quanto proposta das agências financeiras internacionais ex
fundiária, está plenamente justificada na ideologia dos ór pressa, entretanto, uma especificidade, dado o acirramento
gãos oficiais e dos organismos financeiros. No que tange ao dos conflitos de terra e indica, pelo menos no que tange aos
controle da venda agrária, com técnicas aperfeiçoadas na grupos indígenas, uma via de "reconciliação" (Lawrance;
Europa Ocidental e que também foram desenvolvidas pelos 1984). Esta significa o reconhecimento formal dos direitos de
colonizadores ingleses na Índia e no Paquistão — que pos posse imemorial dos indígenas. Ainda que o mesmo não pos
suem cadastros dos mais “completos do mundo" (Law sa ser afirmado com respeito aos camponeses pode-se dizer
rance: 1984) — a inspiração parece explícita. que, no momento atual, a proposta é manter as áreas indí
genas precisamente configuradas e apregoar que as formas
Já os recursos de aerofotogrametria foram apresentados pe tradicionais de ocupação "se coadunam com a modernização
los professores da Univ. ofNew South Wales, Austrália, com em curso. As demais experiências aventadas no Simpósio
abundantes referências sobre as experiências no Quênia, na funcionam como elemento contrastante e deixam indagações
Indonésia e nas Filipinas relativas à fotogrametria adequada sobre os possíveis desdobramentos da “regularização fundiá
para o mapeamento cadastral (15). ria" que está sendo implementada, já que os órgãos que
atuam junto aos grupos indígenas não possuem uma unidade
Quanto aos sistemas de direito consuetudinário também de ação (18).
denominados de “formas tradicionais de ocupação", tanto
indígenas, quanto camponesas e que se fundam em regras de Nutrindo o MEAFe, por conseguinte, o INCRA, o GETAT e
usufruto comunal e não necessariamente na privatização do o GEBAM com recursos materiais e técnicas refinadas e com
meio de produção básico; observou-se pelo menos duas posi os resultados de experiências africanas, asiáticas e latino
ções. Quadros especializados daqueles organismos interna americanas com grupos étnicos e camponeses, o Banco Mun
cionais enfatizaram tanto o reconhecimento destas formas dial está favorecendo a formação de quadros com vistas à
em determinadas conjunturas, quanto à sua possível supres estruturação do mercado de terras, emoldurada numa con
&#{}, juntura de repetidos conflitos,

57
s! Z> Acervo
_/\ | @ A INDÍGENAS NO BRASIL/CEDI
IP Percebendo, em certa medida, a fragilidade da garantia da
manutenção de seus territórios certos grupos indígenas tem
Com a demarcação das áreas indígenas e com o ingresso dos se mobilizado encetando movimentos de reapropriação de
imóveis rurais confinantes no mercado nacional de terras partes essenciais de seus domínios que têm sido ilegitima
nada desdiz que as terras indígenas não continuem a ser alvo mente ocupados. Reivindicam a ampliação de áreas já deli
de pressões inassimiláveis. Há uma regularidade histórica mitadas e começam a executar uma autodemarcação (Poty
assinalando que, a despeito das determinações jurídicas, as guara, Kaxinauá, Kulina, Apinayé...). Esta decisão ocorre,
áreas indígenas vêm sendo gradativamente reduzidas. A entretanto, meio a imensas dificuldades, numa correlação de
omissão deliberada, nos argumentos empresariais, de con forças que lhes é inteiramente desfavorável permitindo êxi
.flitos que envolvem a expansão camponesa conduz este exer tos relativos. Com esta mobilização de caráter autodefensivo
cício a uma reflexão sobre medidas que podem levar àquela o chamado “clima de conflito e tensão social” se agrava,
confirmação. Destaca-se as iniciativas de assentamento de assim como aqueles impasses, que segundo a concepção em
colonos adotadas pelos projetos de colonização oficial. Os presarial deveriam ser removidos imediatamente para propi
órgãos governamentais encarregados da regularização fun ciar a definição legal dos domínios que pretendem. O acirra
diária (INCRA, GETAT) parecem propiciar uma expansão mento fica condicionado a decisões que emanem do campo
camponesa para os territórios indígenas. Isto de maneira político,
indireta e segundo os procedimentos seguintes:

a) assentar colonos em áreas limítrofes às reservas indígenas As práticas que desdizem formulações
através de atos sumários de arrecadação (19);
Estas observações são bastante parciais, porquanto traba
b) e não coibir as chamadas “limpezas de área" que os gran lhadas segundo fragmentos de formulações de um segmento
des empresários têm perpetrado ao expulsarem dos imensos específico de empresários e de alguns documentos de organi
domínios que pretendem para seus projetos centenas de mi zações financeiras internacionais, e procuram chamar a
lhares de pequenos produtores agrícolas, usualmente deno atenção para o fato de que nem sempre os apossamentos
minados posseiros. ilegítimos e os atos ilegais é que orientam as ações dos grupos
empresariais interessados na concentração da terra. Deli
Estas famílias camponesas expulsas findam por se deslocar neia-se esboços dê um capítulo da expansão vertical do capi
para outras áreas nas quais se incluem os territórios indí talismo financeiro no campo pela incorporação de novas ex
genas. Ergue-se assim uma espécie de cerca viva, que além de tensões a um mercado de terras formalizado e pela supressão
conter os grupos indígenas em limites determinados, pode das situações de mercado ditas paralelas, informais e de “mi
resultar em estímulo à invasão de seus territórios. Estes são norias étnicas" que não estariam integradas adequadamente
freqüentemente considerados de um lado como possível área aos mercados imobiliários. A partir desta reflexão o artigo
de expansão camponesa e, de outro, como área de pretensão insinua-se como uma crítica a um tipo usual de reformismo
de grandes empresários. teórico que tanto constata, quanto favorece pela aplicação
direta, todos os elementos de adaptação requeridos por tal
Por intermédio deste tipo de intervenção a ação colonizadora expansão. O endosso acrítico da atuação das agências finan
oficial poderia ser aproximada daquela dos empresários, cu ciadoras transnacionais e daquele segmento de empresários,
jos imóveis localizam-se nos confrontantes de áreas indíge sem sequer voltar-se para discernir as contradições internas e
nas. Ambas as situações representam formas acabadas de as subjacentes supressões de “formas tradicionais de ocu
uma estratégia de intrusamento. pação", com a destruição de princípios essenciais acatados
por diferentes etnias encontra-se eivado de funcionalidade,
E mais factível para a frente camponesa e os colonos assen porquanto coextensivo à atuação daqueles.
tados penetrarem em terras indígenas, transformando-as em
suas áreas de expansão do que permanecerem ou penetrarem Sublinhe-se, por outro lado, que apressão destes organismos
em terras pretendidas pelas agropecuárias, mineradoras, transnacionais em composição com entidades empresariais
madeireiras e empresas de colonização particular. Estas pode tornar-se bem-sucedida numa conjuntura de transição
mantêm uma vigilância constante e milícias privadas, con político-institucional, dado que são políticos os obstáculos
tratadas especialmente para assegurar a inviolabilidade dos atualmente erigidos à consecução dos processos de demar
domínios que pretendem. cação. Todavia, frise-se também, que tal posição não pode
ser generalizada para todos os grandes empresários, cujos
Tanto os empresários, quanto os camponeses sabem também imóveis são confinantes ou invadem áreas indígenas. Certa
que a manutenção dos picadões divisores e dos marcos das mente aqueles das regiões de colonização antiga, como os do
reservas indígenas é precária e que é quase impossível à FU município de Pau-Brasil, Bahia, pensam numa outra solu
NAI conservá-los. São sabedores igualmente que não há um ção para os Pataxó; assim como aqueles de Tocantinópolis,
controle rigoroso das invasões dos ocupantes não-índios em Goiás, perpetram uma ação de força contra os Apinayé. A
terras indígenas. Aliás, o único levantamento realizado (20) composição social das forças que propugnam soluções ema
é bastante incompleto e pouco criterioso não autorizando nadas de uma vertente autoritária parece não ser sempre a
aproximações estatísticas ou se avançar no valor sociológico mesma, devendo ser investigada a cada situação particular
das listagens elaboradas. Tudo isto faz com que as terras de conflito que dispõe de maneira distinta as organizações
indígenas sejam percebidas, a despeito da definição legal, financeiras internacionais, empresas mineradoras e agrope
como aquelas mais factíveis de serem invadidas e ocupadas cuaristas versus os denominados "fazendeiros tradicionais",
ilegitimamente. os chamados “posseiros" e os “colonos". A imposição de
uma representação unívoca da terra provoca inúmeros im
passes correlatos que afetam a linearidade dos alinhamen
fOS.

58
Percebe-se, no esforço deste discernimento, que estão sendo ( 8). Cf. Sobre a posição da ABRAMO vide: "Andreazza afirma que nada
lançadas as bases para uma provável redefinição da política há definido sobre os índios. "Jornal do Brasil, Rio da Janeiro, 12/01/
oficial relativa às terras indígenas na qual as normas de in 85, p. 9.
tervenção são repensadas face ao desenvolvimento das regras ( 9) Cf. "IBRAM condena suspensão de decreto sobre lavra nas reservas in
de mercado. Visando sua consecução agências financiadoras dígenas". O Globo. Rio de Janeiro, 12 de janeiro de 1985, p. 17.
internacionais e o segmento empresarial citado parecem es
tar concorrendo com recursos técnicos e materiais para via (10) Cf. José. Brasília, DF, Ano IX, nº420, agosto de 1984.
bilizar as medidas governamentais necessárias. (II) A partir de 1983 o BID concedeu 376 financiamentos para o setor de
Agricultura e Pesca com um montante de US$ 5.548 milhões. Os pro
Mesmo com a ressalva de que elas não são consensuais e jetos beneficiados têm um custo total de US$ 13.820 milhões conside
revelam visões divergentes, entre diferentes segmentos de rando-se as contribuições de outras entidades cofinanciadoras e recur
empresários, cabe enfatizar que, quando se recorre à obser sos dos próprios países-membros. Previram a incorporação de 1,1 mi
vação direta, acompanhando de perto o desenrolar dos con lhões de ha. ao que chamam de “processo produtivo" e melhorias em
14,7 milhões de ha, cf. Informe Anual, 1983. Banco Interamericano
flitos, diluem-se certas distinções. Os diferentes segmentos de Desarrolo. Washington, Febrero, 1984. Apud Villamizar, Fernan
apresentariam práticas similares, que dificilmente podem do — "Financiamento Interamericano dos Programas de Titulação de
ser separáveis ou distinguíveis. Somente em situações limi Terras Rurais”.
Fundiária, agosto Salvador,
de 1984. Simpósio Internacional de Experiência

tes, como talvez no caso Apinayé, os alinhamentos apresen


tam-se menos obscuros. Não deixam, entretanto, entrever
(2) Vide Falloux, François — "Financiamento Internacional para Progra
elementos que assegurem que serão mantidos os resultados mas de Titulação de Terras Rurais". Salvador, Simpósio Internacional
das demarcações propostas evidenciando que, a despeito das de Experiência Fundiária, agosto de 1984. Não se conseguiu obter
prováveis alterações na política oficial, a questão dos confli dados quantitativos relativos à ação do BIRD na área rural no último
&###-
tos em áreas indígenas permanece desenganadamente agra
vada.
(I3) Cf. Barrington Moore Jr. — As origens sociais da ditadura e da demo
cracia — senhores e cãmponeses na construção do mundo moderno.
(1) A elevação dos preços de terras nas regiões de fronteira está associada, Lisboa, Ed. Cosmos, 1975, pp 499-520.
segundo empresários, ao incremento da pecuária de corte, com as co
tações do boi de engorda se elevando acima de 400% no ano; ao plan (14) Apropósito consulte-se Bourdieu, P. e Sayad, A. — Le Déracinement
tio de arroz e soja em áreas antes consideradas próprias tão só para a — La crise de l'agriculture traditionnelle em Algérie. Paris, Minuit,
f964. •

pastagem; ao reaproveitamento dos cerrados; à intensificação da ex


ploração mineral, em particular, no Sudeste do Pará e à "infra-estru (15) Cf. Angus-Leppan, P. V. e Lynn Holstein — “Aerofotogrametria na
tura” que foi sendo montada com rodovias, ferrovias, portos, etc. demarcação e medição de terras rurais e o tuso do processamento de
Para maiores esclarecimentos relativos a esta formulação, consulte-se: dados na titulação”. Salvador, Simp. Inter. de Exp. Fundiária, 22 de
Carvalho, Luiz — “maior procura para colonização, diz Meirelles", agosto, 1984,
in Correio Agropecuário, 12 a 25 de março de 1984, pg. II, seção Mer
cados e Estatísticas; e Carvalho, Murilo — "Valorização causa eufo (16) Cf. Lawrance, Jeremy — “Cadastramento de Terras". Salvador,
ria em Goiás”, in Folha de S. Paulo, SP, 13/08/1984. Simp, Intern. de Exp. Fund., agosto de 1984.

(2) Cf. J. C. de Souza Meirelles — "Ecologia e Desenvolvimento". Folha (17) Cf. Stanfield, David — "Programa de titulação de terras rurais na
de S. Paulo, São Paulo, íºde outubro de 1984. América
A 984. Latina”, Salvador, Simp. Intern, de Exp. Fund., agosto de

(3) Cf. Eliane Lucena — “A origem da usurpação das terras indígenas".


José. Brasília, DF. Ano IX, nº420, agosto de 1984, (I8) Para um aprofundamento leia-se: João Pacheco de Oliveira Filho —
Terras Indígenas no Brasil: uma tentativa de abordagem sociológica.
( 4.) Para um maior aprofundamento leia-se: Almeida, Alfredo Wagner B. Boletim do Museu Nacional, nº 44, Rio de Janeiro, 30 de outubro
de — “Estrutura fundiária e expansão camponesa” — Um estudo so" de # 983.
bre a ação fundiária do GETAT e o desenvolvimento espontâneo do
campesinato na região amazônica sob a influência do Projeto Grande (19) Vídeasseguintes portarias do GETAT:
Carajás. Setembro, 1984, — arrecadação da Gleba Araguaxim, que limita com o Parque Indí
gena Kayapó. Port, nº 04 de 10.66.1980, DOU, Seção I, Brasí
(5) Cf. “Figueiredo reexamina mineração em reservas". Jornal do Brasil. lia, 15.07.80, p. 14171,
Rio deJaneiro, II de janeiro de 1985, p. 9.
— arrecadação da Gleba Mãe Maria, que limita com a AI Gavião,
( 6) “Criador de Nelore acusa multinacional de enganar índios". Estado de Port. nº 119, de 26.01.1981. DOU, Seção I, Brasília, 10.07.81,
Minas. Belo Horizonte, 14 de setembro de 1984. p. 12921,
— arrecadação da Gleba Seringa A, que limita com a Reserva Indí
(7) Cf. "Figueiredo suspende ato que libera área indígena. "O Estado de gena Cateté. Port. nº 55, de 15.04.1982. DOU, Seção I, Brasília,
S. Paulo. São Paulo, 11 dejaneiro de 1985, p. 10. 10.05.1982, p. 8284.

(20) Trata-se das listagens resultado do Convênio nº 069/79 que entre sifi
zeram a FUNAI e a Fundação Projeto Rondon, visando a realização
de levantamento sócio-econônico junto às populações civilizadas, resi
dentes em áreas indígenas. O convênio foi firmado em 16.07.1979 e o
levantamento realizado no decurso de 1981. •
Acervo
| S. A INDIGENAS NO BRASIL/CEDI

Aconteceu na imprensa
antes da chegada do branco, do empre Empresários propõem fundo
OS EMPRESÁRIOS sário, para evitar que o Governo venha a
vender terras em áreas indígenas. Desta O Presidente da AEA, Jeremias Lunar
E AS DEMARCAÇÕES forma seriam evitados também proble delli, disse ontem, após um encontro
mas semelhantes ao que ocorreu no Par com o Presidente da FUNAI, Jurandy
AEA quer dar recursos que Indígena do Xingu, onde toda a área Marcos da Fonseca, que está negocian
para demarcação foi negociada, no final da década de 50, do com a Funai a criação de um fundo de
pelo governo do Estado. Hoje, em conse contribuição de empresários para de
A criação de um fundo financeiro patro qüência da vitória dos Txucarramãe, o marcação das terras indígenas, desde
cinado por empresários, cujas terras fa Governo Federal terá de dispender uma que possam participar do grupo intermi
zem limites com áreas reconhecidamen soma elevada de recursos para indenizar nisterial que determina as demarcações.
te indígenas, para a definição das reser os empresários ali estabelecidos. Lunardelli e Jurandy estão estudando
vas, foi a proposta levada ontem ao diri A proposta do empresário, apresentada propostas para conciliar os interesses
gente da FUNAI, Jurandy Marcos da às administrações anteriores da Funai, dos índios e dos empresários e evitar
Fonseca, pelo presidente da Associação foi muito bem recebida pelo atual pre conflito pela posse da terra. As normas
dos Empresários da Amazônia, Jere sidente: “Se ela realmente beneficiar as que forem aprovadas serão consolidadas
mias Lunardelli. Conforme o empresá comunidades indígenas é muito boa”, em um documento que será divulgado
rio, a classe tem interesse na definiçãodisse Jurandy Fonseca, que pretende ini em dez a 15 dias, segundo o empresário.
das áreas indígenas para que sejam evi ciar um trabalho de pesquisa junto aos No caso das áreas indígenas tituladas,
tados os conflitos. indigenistas para saber como as comuni Lunardelli propõe uma permuta o Go
Em sua proposta, Lunardelli sugeriu dades indígenas reagirão diante desta verno daria ao empresário terras em ou
ainda ao presidente da Funai que, na proposta. (Correio Braziliense, 07/06/ tra região em troca da devolução aos ín
região da Amazônia, a demarcação das 84). dios da área titulada. Os empresários
reservas indígenas obedeça os acidentes sugerem também que o limite das reser
geográficos naturais. Comisso, ficam vi vas indígenas sejam marcados por aci
sualmente determinados o início e tér dentes geográficas, para facilitar a iden
mino da área, dispensando grandes des tificação.
pesas que envolvam, normalmente, os Para Lunardelli, a Funai está “disposta
trabalhos demarcatórios. ao diálogo”, porque, embora este ponto
O empresário salientou que existem ainda não esteja acertado, já vem convi
muitos territórios indígenas para serem dando empresários para as reuniões do
definidos. Esta definição deve ocorrer grupo interministerial que examinam
casos de terras tituladas. (O Globo, 07/
08/84).
< > Ace –

_/ EA

Aconteceu

CONVÊNIO. Nº 28/83, QUE ENTRE SI CELEBRAM A FUNDAÇÃO NACIONAL


DO INDIO – FUNAI E O SUMMER INSTITUTE OF LINGUISTICS – INSTITUTO
LINGUÍSTICO DE VERÃO, NA FORMA ABAIXO:
POLÊMICA:
Aos 21 dias do mês de Dezembro de 1983, a FUNDAÇÃO NACIONAL DO INDIO – FU
O CONVÊNIO
NAI, instituída de conformidade com a Lei nº 5.373, de 05 de dezembro de 1967, com sede e foro
em Brasília-DF, nesse ato representada pelo seu Presidente, Dr. OCTAVIO FERREIRA LIMA e o
SIL/FUNAI
SUMMER INSTITUTE OF LINGUISTICS (Instituto Lingüístico de Verão). SIL (ILV), Sociedade
civil de caráter assistencial e filantrópico, com Estatutos próprios registrados no Cartório de 1º Ofí Parecer da UNICAMP
cio de Registro de Títulos e Documentos de Pessoa Jurídica, sob o nº 672 Livro A/4 em 26.02.70,
com sede e foro em Brasília-DF, neste ato representado pelo seu Diretor Presidente, STEVEN NEIL O Conselho do Departamento de Lin
SHELDON, doravante denominados simplesmente, FUNAI e SIL (ILV), respectivamente, celebram güística do Instituto de Estudos da Lin
o presente convênio mediante as cláusulas e condições seguintes:
guagem da Universidade Estadual de
Campinas apreciou, na sua reunião de
CLÁUSULA PRIMEIRA – Do Objeto 27 de setembro de 1984, o convênio FU
|
NAI/SIL de 21.12.83 (dado ao conheci
O presente convênio tem por objetivo, autorizar ao “SIL" a manter atividades assistenciais
de lingüística; educação, saúde e desenvolvimento comunitário junto aos grupos indígenas abaixo mento dos membros do Departamento
discriminados sob a jurisdição das Delegacias Regionais da FUNAI, nas suas respectivas áreas: somente naquela ocasião) e divulgaram
um parecer, contendo 4 pontos:
13 DELEGACIA REGIONAL:
1º) ao se apresentar, no convênio em
— Grupo Makú-Nadeb, do Rio Uneiuxi
questão, como uma sociedade civil de
— Grupo Sateré, do Rio Andirá
caráter assistencial e filantrópico, “para
23 DELEGACIA REGIONAL manter atividades de lingüística, educa
— Grupo Apalaí, do P.I. Tumucumaque ção, saúde e desenvolvimento comunitá
- Grupo Arara — Frente de Atração Arara rio”, o SIL estaria eludindo suas finali
— Grupo Karipúma, do Rio Curipi
— Grupo Kayabí, do Rio Teles Pires dades evangelizadoras, além de garantir
— Grupo Kayapó, dos PIs Menkranontire, Baú e Kuben Kran Keen uma área de atuação praticamente ilimi
- Grupo Oiampí, do Rio Amapari tada;
— Grupo Palikur, do P.I. Palikúr 2º) A mesma “indefinição” dos termos
- Grupo Yanomami — Parque Yanomami
de outros artigos do convênio, faculta ao
4° DELEGACIA REGIONAL SIL um acesso quase ilimitado a todos os
— Grupo Guaraní, do P.I. Rio das Cobras grupos indígenas em território brasilei
— Grupo Xokléng, do P.I. Ibirama ro, além daqueles discriminados nomi
5° DELEGACIA REGIONAL
nalmente na “Cláusula primeira”;
— Grupo Bakairi, do P.I. Bakairi
3°) Ao facultar ao SIL uma série “ou
— Grupo Kayabi, do P.I. Tatuí tras atividades” de colaboração com a
— Grupo Nambikúara, da Reserva (área indígena) Nambikúara FUNAI (como aparecem discriminadas
— Grupo Parecis, da Reserva (área indígena) Parecis na “Cláusula terceira”), o convênio
— Grupo Rikbaktsa, do Rio Juruena
“desloca para o âmbito de uma institui
6* DELEGACIA REGIONAL ção estrangeira, de caráter "assistencial
— Grupo Canela, do P.I. Canela e filantrópico", atividades cuja realiza
- Grupo Guajajára, do P.I. Angico Torto ção estão caracteristicamente no domí
— Grupo Urubu, do P.I. Canindé nio dos nossos quadros acadêmicos”; e
7? DELEGADA REGIONAL
|49) ao conferir ao SIL poder de arbitrar
— Grupo Xavante, do P.I. Marechal Rondon º sobre o ingresso de determinadas pes
soas nas áreas indígenas (conforme o
8° DELEGACIA REGIONAL
item ida “Cláusula terceira”), estariam
— Grupo Apurinã, do Rio Purus abertos os caminhos para o SIL “inter
— Grupo Jamamadí, do Igarapé Curiá
— Grupo Karitiana, do P.I. Karitiana ferir na metodologia e natureza do tra
— Grupo Múra-Pirahã, do Rio Maici •
balho científico de outros pesquisado
— Grupo Paumarí, do Lago Marranã, Rio Purus res..., assim como a desenvolver con
— Grupo Suruí, do P.I. Sete de Setembro frontos de ordens religiosas”. Como a
— Grupo Tenharim, na Estrada Transamazônica (AM-21), perto do Rio dos Marmelos - FUNAI não dispõe de quadros técnicos
9* DELEGACIA REGIONAL para julgar projetos, o SIL poderia ter
— Grupo Kadiwéu, do P.I. Bodoquena -> # controle sobre a aprovação dos projetos
— Grupo Kaiwá, do P.I., Dourados que envolvam questões indígenas.
— Grupo Terena, do P.I. Cachoeirinha e Taunay A análise resumida acima, levou o Con
11° DELEGACIA REGIONAL selho do Depto. de Lingüística às se
— Grupo Maxacali, do P.I. Maxacali e Pradinho guintes decisões: 1. Manifestar estra
nheza diante deste acordo tanto pelo seu
conteúdo, quanto pelo fato de ter sido
61
Acervo
| <> Povos INDIGENAs No BRASIL/CED
PARQUE INDIGENADO ARAGUAIA – POARA celebrado sem que entidades pesquisa
— Grupo Karajá, da Ilha do Bananal doras brasileiras que trabalham na área
Parágrafo Primeiro — Para fins de confronto do trabalho técnico de lingüística realizado indígena tenham sequer sido consulta
junto aos índios das aldeias citadas, os lingüistas que realizam os estudos poderão visitar outras dos ou informados. A este propósito se
aldeias da mesma área indígena, ria bom lembrar que quando, há poucos
Parágrafo Segundo — Os grupos indígenas não mencionados neste artigo e aonde o SIL já anos atrás, houve rompimento da FU
realizou trabalhos lingüísticos, poderão ser assistidos em conformidade com este Convênio através
de termo aditivo a ser celebrado na ocasião oportuna.
NAI com o SIL também a questão não
Estes Grupos são os seguintes: foi adequada e publicamente discutida,
o que permitiu que agora se tenham
1* DELEGACIA REGIONAL criado situações tão pouco convenientes
— Grupo Atroari, do P.I. Abonari para o desenvolvimento da pesquisa so
— Grupo Hixkaryná, do P.I. Cassaná
— Grupo Makú-Hupda, da Serra dos Porcos bre os índios e para a solução dos pro
— Grupo Makú-Yahup, do Rio Tiquié blemas envolvidos na causa indígena.
— Grupo Mundurukú, do Rio Tapajós Lembre-se, aqui, que outros países
como México e Equador vêm rompendo
23 DELEGACIA REGIONAL
seus convênios com este grupo de mis
— Grupo Asuriní, do P.I. Trocará
sionários. 2. Solicitar das entidades que
3° DELEGACIA REGIONAL trabalham na área das questões indíge
— Grupo Fulniô, do P.I. Águas Belas nas posicionarem-se diante desse convê
4* DELEGACIA REGIONAL
nio, depois de uma discussão clara e pú
— Grupo Kaingáng, do P.I. Rio das Cobras blica sobre o mesmo e sobre a ação do
SIL no Brasil. Seria inclusive o caso de
5° DELEGACIA REGIONAL solicitar que o SIL, que faz este ano 28
— Grupo Borôro, do P.I., Gomes Carneiro anos de ação no Brasil, preste contas de
— Grupo Mamaindê, da Área Indígena Nambikuára
modo público de suas atividades aqui.
6° DELEGACIA REGIONAL ass.: Prof. Dr. Eduardo R. J. Guima
— Grupo Cinta Larga, do P.I. Roosevelt rães, Chefe Adjunto do Departamento
— Grupo Dení, da Cabeceira do Rio Tapauá de Lingüística. (Parecer sobre o Convê
13* DELEGACIA REGIONAL
nio FUNAI/SIL, Campinas, 27/09/84).
— Grupo Kaingang, do P.I. Guarita

PARQUE NACIONALDOXINGÚ Carta da UFBA pede


— Grupo Kamayurá
— Grupo Kuikúro
pronunciamento da ABRALIN
— Grupo Txukarramãe Uma vez informados dos termos do con
— Grupo Waurá
vênio FUNAI/SIL de 21.12.83, profes
— Grupo Kayabí
sores do Instituto de Letras da UFBA
AJUDANCIA DE ARAGUAINA elaboraram um parecer que recebeu a
adesão de 33 colegas e foi encaminhado
— Grupo Apinayé, do P.I. Apinayé ao professor Ataliba Teixeira de Casti
— Grupo Krahô, do P.I. Kraholândia
lho, presidente da Associação Brasileira
Parágrafo Terceiro — Á FUNAI ficará reservada a escolha seletiva de grupos não nomina de Lingüística, solicitando um posicio
dos na presente cláusula, desde que haja condições técnicas e viabilidade operacional para o estudo namento da entidade.
do(s) grupos(s) escolhido(s), Em síntese, o documento critica os ter
mos do convênio por: 1) delegar o dever
CLÁUSULA SEGUNDA – Do Prazo de tutela, que é atribuição legal do Es
tado Brasileiro, a uma instituição es
O presente Convênio terá prazo de duração fixado em 02(dois) anos, a contar da data de sua geira; 2) permitir que uma instituição
assinatura ou publicação em Diário Oficial da União, podendo ser prorrogado conforme interesse confessional assuma o direcionamento
das partes convenientes.
da educação indígena, o que implica
CLÁUSULA TERCEIRA – Do Compromisso da Entidade uma interferência nos padrões culturais
dos diversos grupos indígenas; 3) conce
Compromete-se o SIL, por força deste instrumento a: der ao SIL poderes policialescos que
a) — Prestar aos índios dos grupos mencionados, assistência lingüística e educacional, de
saúde e comunitária; propiciem o arbítrio indiscriminado e a
a 1. — apresentar previamente à FUNAI os planos de trabalho específico, a serem proibição da presença em campo de pes
desenvolvidos em cada aldeia. quisadores que, ao seu critério, possam
b) — Colaborar com a FUNAI nos estudos e pesquisas de outras línguas ou dialetos indí ser taxados de “provocadores de animo
genas falados no território nacional, quando solicitado, e de acordo com a disponibi
lidade de seus técnicos. -
sidade no seio indígena, prejudicial à
c) — Assessorar suas equipes no que se refere a estudos e andamento de projetos de alfa ação da FUNAI” (cf. Cláusula Terceira,
betização bilíngüe, mediante visitas periódicas de consultores e realização de seminá itemi); 4) conceder virtual monopólio da
rios específicos. pesquisa lingüística a instituição estran
d) - Colaborar com a FUNAI, de acordo com a disponibilidade de seus técnicos, nas diver geira sobre cerca de 50% dos grupos in
sas programações que envolvam: dígenas remanescentes (sic) no Brasil;
1) — palestras sobre assuntos lingüísticos;
2) — cursos de indigenismo, e/ou de capacitação lingüística promovidos pela FU 5) dar prioridade a estrangeiros na as
NAI, com a participação de professores solicitados com seis meses de antece sessoria da FUNAI para a programação
dência.

62
e) — Colaborar com a FUNAI em desenvolver juntos, estudos no campo para a alfabetiza da chamada Educação Indígena; e 6)
ção dos grupos indígenas, sempre sob a iniciativa e com a participação dos próprios permitir que estrangeiros com precário
#"#" estudos: domínio do português preparem carti
2) — estimular os grupos a prepararem, eles próprios, livros de leitura, tais como lhas e traduções de textos necessários ao
lendas, mitos e histórias sobre a vivência indígena, nos idiomas específicos processo de literatização das populações
acompanhados da respectiva tradução em português, para serem utilizados indígenas brasileiras. (Salvador, 28/09/
como textos de leitura; 84)
3) — traduzir, para a língua dos grupos, material sobre assuntos considerados de in- +

teresse dos mesmos, como por exemplo, trechos da história do Brasil.


f) – Respeitar a cultura e costumes do índio, evitando a implementação de quaisquer prá
ticas que possam confundir ou desestruturar ou, ainda, despertar conflitos na Comu
nidade Indígena. • +

g) – Evitar qualquer interferência nos assuntos estritamente comunitários e religiosos da O Corpo Deliberativo do Departamento
vida indígena. de Antropologia do Museu Nacional
h) – Prestigiar a ação da FUNAI, junto aos índios, através das autoridades que lhe cum- (RJ), examinou o Convênio FUNAI/
prempermitir
i) – Não as determinações.
o ingresso ou permanência de pessoas, mesmo que membros de entida- SIL, em reunião de 17 de setembro de
* +

des religiosas, que pela exteriorização de suas atitudes possam vir trazer situações que 1984. Na carta enviada dia 18 ao presi
provoquem animosidade no meio indígena e prejudiquem a ação da FUNAI. dente da Funai, assinada por Geralda
j) — Remeter, semestralmente, relatórios das atividades e experiências vivenciadas, de- Seyferth, os antropólogos apontam as
vendo constar de tais relatórios toda a atividade desenvolvida na área, bem como, as sérias implicações negativas dos termos
realizações e beneficiamentos mantidos, . A * +

do convênio, tanto para o desenvolvi


CLÁUSULA QUARTA – Do Compromisso da FUNAI mento de pesquisas e projetos por mem
+ bros de instituições nacionais quanto
Compromete-se a FUNAI, por força deste instrumento, para o correto atendimento às popula
a) – Prestigiar a ação do SIL, no cumprimento de suas obrigações decorrentes da vigência
deste # #
*

ções indígenas.
* + º

b) — Auxiliar o sil no deslocamento de seus técnicos, quando a serviço da missão conjunta. Além de apontar o virtual monopólio
FUNAI/SIL; por parte dos missionários-lingüistas do
c) — """* # " e procedimentos que se façam necessários ao cumprimento SIL em 53 áreas indígenas e outros pri
O prese OrlVEI110;
d) – Autorizar os integrantes relacionados pelo SIL a entrar em áreas indígenas, tendo em vilégios, OS pesquisadores do Museu Na
* 1 * * +

vista a continuidade de atividades lingüísticas interrompidas; cional consideram inaceitável a atribui


e) — Autorizar o deslocamento de índios oportunamente indicados aos centros do SIL, por ção dada ao SIL, pelo Convênio, de pres
períodos curtos, para poderem participar de "###""" # li###ll ". # tar assistência lingüística, educacional,
## #" em realização, sem ônus para a º sºº º Pºººººººººººº" de saúde e comunitária aos índios, clas
f) – Reunir sistematicamente com o SIL com o objetivo de discutir e buscar soluções para sificada como um "subestabelecimento
problemas porventura existentes decorrentes dos estudos e pesquisas realizadas ou em dos deveres de tutela” pela FUNAI.
realização;
g) – Custear despesas decorrentes de tarefas específicas realizadas por aquela entidade por
solicitação do órgão tutor; + P+

h) — Fornecer o SIL as informações que solicitar, desde que não envolvam assuntos consi- FUNAI estuda desativação
derados sigilosos pelo órgão tutor; do convênio
i) – Supervisionar o SIL, tomando conhecimento de suas dificuldades êxitos ou de qual- + * + A - s

quer infração ou inadimplemento ao presente Convênio: A Funai poderá desativar o convênio que
j) Levar o índio a entender o SIL como instituição amiga e que tem por objetivo ajudá-lo vem mantendo desde dezembro do ano
enquanto tal condição for evidente; e finalmente passado com os missionários norte-ame
k) – Cobrar os relatórios semestrais, quando não houver recebido em tempo, a partir do
ricanos do Summer Institute of Linguis
vigésimo dia do semestre subseqüente, e avaliar por escrito os relatórios mandados.
• tics, seguindo orientação de antropólo
CLÁUSULA QUINTA – Da Modificação ou Rescisão gos e indigenistas do órgão que conside
+ ram a presença dos lingüistas protestan
O presente Convênio pºderá SCT alterado a qualquer tempº, de comum acordo cºm as P*** tes nas áreas indígenas uma ameaça aos
convenentes, com vistas à melhoria do cumprimento de seu objeto ou mesmo rescindido, mediante • • •

aviso prévio de qualquer das partes, por inadimplência de qualquer de suas cláusulas, ou ainda, por padrões culturais religiosos dos grupos C

interesse comum dos convenentes poderá, inclusive, ser alterado por Termo Aditivo ao presente. tribais. A informação foi dada pelo pre
sidente da Funai, Nelson Marabuto que
CLÁUSULA SEXTA – Do Foro está analisando os pareceres dos antro
Fica eleito o foro de Brasília-DF, com renúncia de qualquer outro, para dirimir toda e qual- pólogos sobre o Summer, que está atu
quer questão oriunda da execução deste convênio ou dúvida suscitada que não seja passível de so- ando em 18 áreas na Amazônia Legal.
lução entre as partes convenentes, A polêmica em torno da presença do
E, por estarem assim ajustados, firmam o presente Convênio em 06(seis) vias de igual teºrº Summer é antiga, não só no Brasil mas
forma, para um só efeito, na presença das testemunhas abaixo nomeadas e assinada. também em outros países, como o Mé
Brasília-DF, 21 de dezembro de 1983 xico, onde a entidade não mais atua por
determinação do governo. O próprio
assinam: OCTAVIO FERREIRA LIMA presidente do Instituto Interamericano
– Presidente da FUNAI – de Indigenismo, Oscar Orze Quintallina
que esta semana participou, em Brasí
STEVEN NEIL SHELDON lia, do encontro da OEA encara com res
Diretor Presidente SUMMER INSTITUTE trições o trabalho do Summer, afir
OF LINGUISTICS mando que os missionários, embora de
TESTEMUNHAS:
senvolvam um trabalho de lingüística
importante, têm como objetivo final ca
tequizar os índios, traduzindo a Bíblia
para as diversas línguas indígenas.

63
* #%
=A_E^noiceNAs No enas"/ceb
A Funai, até 1977, manteve um convê SIL contesta Marabuto sai material didático com ideologias ex
nio com o Summer, que dispõe, inclu pressas. O material de leitura é elabo
sive, de uma amplainfra-estrutura mon O vice-presidente do Summer Institute rado a partir das lendas e mitos contados
tada em Brasília. Esta cooperação foi of Linguistics, James Wilson, esclareceu pelos povos, e tem como finalidade in
suspensa pelo então presidente da Fu ontem que a entidade não foi expulsa em centivar a leitura”.
nai, general Ismarth de Araújo de Oli 1977 do país, como disse o presidente da Por outro lado, ele disse que o Instituto
veira. O Summer, no entanto, conti Fundanção Nacional do Índio, Nélson tem uma clara motivação cristã, e que se
nuou fazendo gestões junto ao órgão e Marabuto Domingues, ao anunciar a reflete no desejo de traduzir trechos da
conseguiu reativar a colaboração, em sua intenção de denunciar o convênio Bíblia para a língua do grupo tribal. As
dezembro de 1983, durante a adminis firmado com a entidade no ano passado: sim, ele ressalva que “a Bíblia realmente
tração de Otávio Ferreira Lima. O atual “Por falta de um convênio, nossos técni não é um livro da nossa cultura, nem dos
cos não podiam
presidente da Funai, Nelson Marabuto, indígenas”, mais residir nas áreas povos indígenas, mas do meio Oriente,
explicou. •

criticou os termos do convênio, afirman que pertence a todos os povos. O nosso


do que ele dá amplos poderes ao Sum A decisão do então ministro do Interior, objetivo é deixar essas traduções no meio
mer, transferindo, para a entidade, in Rangel Reis, segundo James Wilson, foi dos índios, para que tenham mais uma
clusive, o poder de polícia da Funai nas severamente criticada por antropólogos. opção quanto ao desejo de entenderem a
áreas indígenas. Isto porque o ministro pretendia eman cultura envolvente”,
“O ideal — afirmou Marabuto — é que cipar os povos indígenas de forma muito James Wilson assegurou, contudo, que o
a Funai assuma o trabalho de educação rápida. “Ele não concordava com o nos trabalho do Summer não é eclesiástico.
e assistência nas áreas indígenas, e para so trabalho, com o nosso interesse pela “Não organizamos igrejas e os nossos
tanto precisamos reforçar o nosso depar língua e pela cultura indígena. Os que técnicos não fazem pregações. Este fator
tamento de educação. Aos poucos a Fu querem a integração ou a emancipação nos separa das outras missões, como as
nai quer substituir, o trabalho não só do rapidamente não podem concordar com católicas, que convidam os índios a par
Summer, mas de outras missões religio o nosso trabalho, que é muito lento, Pri ticipar dos seus eventos. Além disso, não
sas de vários credos que atuam junto aos meiro alfabetizamos o índio na sua lín se pode obrigar o índio a fazer nada”.
índios.” Mas em alguns casos, Marabu gua e depois lhe ensinamos o portu Segundo ele, o SIL tem um trabalho pu
to reconhece que o órgão não tem condi guês, como uma segunda língua”, pon ramente técnico, que não visa a implan
ções ainda de substituir o trabalho das derou o vice-presidente do Summer. tação de qualquer igreja ou seita, o que
missões, como é o caso dos índios Xa: Ele disse que o trabalho das missões é lhe permite atuar ao lado de qualquer
vante de São Marcos e Sangradouro e os um esforço positivo na preservação da missão. Ele queixou que desde sua posse
Bororó, de Merure, no Mato Grosso, cultura indígena. Dentre vários objeti Nélson Marabuto não recebeu os repre
que, segundo ele, estão melhor assisti vos, as missões buscam dinamizar o uso sentantes do SIL, embora haja um pe
dos pelas missões do que pela Funai. (O da língua pela própria tribo. “Para nós, dido de audiência, com vistas a conhecer
Liberal, 18/11/84). que somos lingüistas — salientou James mais de perto as atividades desenvolvi
Wilson —, a língua é a alma de um povo. das. (Correio Braziliense, 22/11/84).
Quando o índio é impedido de falar sua
língua, ele começa a perder a sua identi
dade. Por isso, achamos importante a
preservação da identidade tribal, com o
índio lendo e escrevendo na sua língua e
registrando seu pensamento”.
A intenção do presidente da Funai, na
sua opinião, reflete as pressõesfeitas por
antropólogos que sempre criticam a pre
sença de qualquer missão entre os gru
pos tribais. “O problema não vem do
relacionamento entre os índios e as mis
sões”, acrescentou.
Quanto à elaboração de cartilhas, con
tendo trechos da Bíblia como forma de
evangelização dos povos indígenas, con
testada por Nélson Marabuto, James
Wilson disse que o material didático é
sempre revisado pelo órgão tutor. “Da
nossa instituição — garantiu — nunca

64
NOROESTE AMAZONICO
S INDÍGENAS NO BRASIL/CED;

Povos INDiGENAs No BRASIL / C E Di


*-

“X «ariu-º sãº
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.…" S .……/
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GÁRIMPO SERRA
B05 PGREGs

Missão
# *Asi cactiogIRA Bus

º Negro

TERRITÓRIO FEDERAL INDj GENA


ALTO RIO NEGRO (Proposta de re
presentações das, comunidades da
região — Taracud,) Jan. 1985
e 1- NoRoESTE AMAzônico :
NOROESTE AMAZÔNIco 3

QUADRO GERAL DAS POPULAÇÕES INDÍGENAS DA ÁREA NOROESTE AMAZÔNICO


NÇ NÇ DE ALDEIAS OU
POVÃO MAPANO NOME DA ÁREA | MUNICÍPIO NOME DAS ALDEIAS POPULAÇÃO FONTE E DATA

TARIANOS, TUKANOS (L),


PIRATAPUIAS, KUBEOS, #

WANANOS, DESANOS, AI Yauaretê | Yauareté Missão


TUYUKAS, HUP"DE * IAI Taracuá Iyavareté 3.915 |Salesiana: 83
(MAKCS), ARAPAÇO,
CARAPANÃ } 72
TUKANOS, DESANOS,
TÍTI • 1
TUYUKAS, HUP "DE AI Pari té
(MAKUS), BARASANAS, º lcachoeira Yallºtrº= 2.596 | Sucam: 82
*#

BARAS, KARAPANAS,
MTRITEI-TAPUTAS

BANINAS, KURIPAKOS, AI Içana/ S. Gabriel da


NANANOS, KUBEOS 3 Aiari Cachoeira
• 4.737 Sucam: 82
BANINAS, WAREQUENAS 4 AI Içana/Xié |idem 122

AS, D S, AI Cubat 200 84


&#LE idem FUNAI:
TUKANOS 5

KANA-MAKU . 6 dispersos idem 56 Athias: 85

BARÉ 7 dispersos idem 50 Athias: 85

(l) Os nomes Tukanos, Baniwas, Kuripakos e Makus são nomes da língua geral Nheengatu. Se referem a nu
merosos subgrupos que, na realidade, são conhecidos pelos seus próprios nomes.
(*) Estima-se que a população atual da região é de 10 a 15 mil índios, dos quais uns 1.000 moram na
área urbana (São Gabriel e Manaus) e em povoados ao longo do Rio Negro, fora da área indígena.

S?
DiGENAS NO BRASIL/CEDl

FEBRE DO OURO
NO ALTO RIO NEGRO
Garimpeiros invadem a região,
também cobiçada por empresas de mineração.
Os índios estão garimpando e pretendem
“fechar” a área, em benefício próprio.

Gabriel dos Santos Gentil


e

Álvaro Fernandes Sampaio (*)

N> é a primeira vez que as nações indígenas vêm sen


do roubadas, pois nesses dias, com a crise econômica e
2) Em novembro do ano passado os garimpeiros invadiram o
rio Uaupés e descobriram ouro e evidentemente incentiva
política que o ESTADO passa, os mesmos crimes são ram os índios a seguirem o mesmo caminho, o que por outro
bem premeditados. E, graças ao trabalho desenvolvido por desequilibrou a estrutura política de nosso costume. Um dos
nós, da União das Nações Indígenas — UNI e pelas entida grandes problemas que as nossas nações sofreram foi por
des de apoio à nossa luta, e pelo trabalho de organizações falta de preparo para receber esse tipo de civilização, por
internacionais, estamos vendo que muitos líderes indígenas que como já foi dito ali é uma área exclusivamente indígena.
estão aceitando o desafio para sobreviverem como NAÇOES. O que mais nos tem dado preocupações é uma grande inva
são de brancos garimpeiros nos últimos dias e o fluxo tende
Esse desafio é quando as nossas lideranças promovem gran aumentar para violência, ou seja, estamos muito próximos
des reuniões nas comunidades. No caso do Amazonas — os de uma luta armada para defender a nossa terra.
líderes da UNI tomaram posições opostas diante das inten
ções do Governador Gilberto Mestrinho que é totalmente a 3) Nos dias 15, 16, 17, 18, 19 e 20 do corrente ano as lide
favor
genas.
das invasões de empresas mineradoras em áreas indí

ranças do rio Uaupés fizeram uma reunião extraordinária
para analisar sobre todos esses fatos. Convocaram também
com os responsáveis da FUNAI e da Polícia Federal para
Nos dias 04 e 05 de fevereiro do corrente ano, os governadores outra reunião para expulsar um pouco de 200 garimpeiros.
de toda Amazônia e mais os parlamentares formalizaram o 16 deles foram presos e outros foram se retirando gradatiº
documento para o futuro presidente — Dr. Tancredo Neves. vamente e ocorrendo o mesmo no rio Içana. No momento,
Esse documentofoi chamado A Carta da Amazônia, o que no em meio a tanta vigilância dos índios, ainda existem na área
fundo nos significa uma falsidade dos governadores, porque aproximadamente
didos. uns 100 garimpeiros que vivem escon

eles não estão a par de nossa realidade triste quando chegam


em nossas áreas os milhares de garimpeiros. Assim, a dita
carta não traz nenhuma esperança de Paz para as nações 4) Depois de algumas reuniões, sendo a última que foi rea
Indígenas e, isso já é conhecido por nós no Alto Rio Negro: lizada nos dias 02 e 03 de fevereiro do corrente ano, na mis
1) No começo de outubro do ano passado os índios do rio são de Taracuá — no rio Uaupés onde é o centro de nosso
Içana prenderam duas balsas do governador Gilberto Mes território indígena. Alí estiveram presentes os representan
trinho, ambas bem carregadas de instrumentos de garimpo. tes de Pari Cachoeira, Iauareté e Içana e juntos assim deci
Todos os garimpeiros foram barrados e, obviamente assim diram: defender a integridade territorial indígena que é Alto
começou a nossa briga com os brancos depois de um século Rio Negro; acabar a divisão entre as paróquias dos missio
que ficamos calados. Hoje, pelo jeito que o Gilberto Mestri nários salesianos que sempre nos causaram prejuízos na de
nho é sustentado pelas empresas estatais e multinacionais fesa de nossas terras e, enfim, explorar as riquezas tão cobi
conseguiu levar muito dinheiro para recuperar suas balsas. çadas pelos brancos.
Também os índios do rio Uaupés ou Caiari prenderam uma
balsa do mesmo indivíduo no mesmo período e pelo mesmo 5) Depois de 100 anos ou mais de contato com o mundo dos
motivo. Enfim, todas as três balsas se encontram na cidade brancos, isto é, sem contar outros 50 anos de conflitos nas
de São Gabriel da Cachoeira, porque eles pensam que o épocas de expansões espanholas e portuguesas em nossas
Tancredo lhes favorecerá a entrada novamente, o que para derras, foi preciso reiniciar novas negociações de estilos tra
nós é pelo contrário — eles não entrarão. dicionais. Nos últimos dias, segundo as necessidades de di
nheiro, os parentes que estavam longe de suas famílias —

(*) Gabriel é vice-presidente da Associação da União das Comunidades


Indígenas do Rio Tiquié (AUCIRT) e Álvaro faz parte da coordenação
Regional Sul da UNI. Ambos são Tukano.

68
s! Z_Acervo
–/\{ 1 SA NOROESTE AMAZÔNICO 5

Baniwa, garimpando
no Rio Içana.

|$

* … " * *

de Bogotá e Manaus — começaram regressar para seus seios


familiares. Eles voltaram com princípios de defender e ex
plorar a terra. Os garimpos existentes na área são: Tunui,
São Joaquim, Serra dos Porcos e a Serra de Traira.

6) No momento o maior garimpo está na Serra do Traira,


no rio Uaupés onde estão 2000 homens e, calcula-se dentro
de poucos meses teremos uns seis mil homens. Essa situação
é muito triste, porque as nossas famílias ficam cada vez
mais dependentes dos brancos. Nas aldeias ficam somente
as mulheres e crianças. Garimpo a vida é dura, não tem
comida e longe de qualquer segurança. A necessidade de
ganhar dinheiro é uma coisa tão difícil de ser controlada,
porque, na verdade como já dissemos não existe lucro. Hoje
entra no rio Uaupés a corrida muito grande de barcos dos
brancos, por exemplo, três ou quatro, entre 20 voadeiras
com motores de popa, e sem contar com as canoas dos ín
dios que se destinam para Serra de Traira. Fica meio difícil
a gente dizer como andam as coisas no rio Içana, porque a
região é tão grande e difícil de ser controlada.

7) Os índios do rio Uaupés, não sabendo como se defender


diante de tanta agressão capitalista resolveram abrir crédito
no Banco do Brasil, porém existe uma diferença muito gran
de se comparando com os grandes comerciantes. A cota de
34 milhões de cruzeiros não cabe a tantas famílias. Os ín
dios não dispõem de força suficiente para combater os inva
sores, por isso, tiveram que recrutar nova turma de mili 8) Quem engorda com a produção dos índios são os bran
tares índios para guarnecer a entrada dos brancos. Os nove cos, porque têm as facilidades de negociar junto ao governo
guardas não têm mínima segurança diante dos garimpeiros estadual que os incentiva criar tensões nas comunidades in
que portam armas em grandes quantidades por serem mui dígenas. E bom a gente frizar que, o governador Gilberto
tos. Os índios, na verdade, estão de guerra e se encontram Mestrinho quando vê tanta riqueza nas terras indígenas até
no povoado que chama Itapenima. Por sua vez os barcos se auto-denomina como “filho de índio” Parintintin. Por
dos brancos levam as bebidas alcoólicas, bolacha, redes, e isso, esse governador não quer aceitar a nossa proposta,
todos os gêneros de primeira necessidade para uma família. porque ele quer tomar as Serras de Traíra e Tunui, e sem
O pior não é isso, é que esses barcos levam os garimpeiros contar com outras áreas, como por exemplo, nas terras dos
brancos que não tem mínimo de educação e são atrevidos e Yanomami onde nos dias de carnaval um dos com …dantes
se demonstram muita selvageria quando se discutem com os da Polícia Militar desse governador e juntamente com ou
indios. Por isso, a vida de guardas é muito arriscada. Por tros, todos para-militares, invadiram e cortaram os meios
outro lado, existem outros querendo ser militares, isto é, os de comunicação no posto da FUNAI.
índios para defender a nossa terra. Também, para quem é
dirigente indígena se torna cada vez a gente se arriscar per
der a vida. Não há dúvida de que a guarnição pode aumen
tar mais, porque é o que exige o movimento naquela região.
sL7-Acervo
_/\ Evº MDICENAs No BRasil/cED

DEMARCAÇÃO URGENTE
* #=

Enquanto a região contínua


sendo invadida por garimpeiros,
a demarcação pretendida pelos índios
só recebe promessas da FUNAI

Renato Athias (*)

ào Gabriel da Cachoeira está prestes a viver o clima E praticamente impossível saber exatamente quantas pes
S? euforia e confusão dos anos 74/75, quando a popu
lação da então pacata cidade do Alto Rio Negro tripli
soas se encontravam no garimpo da Serra do Traíra, ao
longo de 1984. Em S. Gabriel, fala-se em milhares, incluin
cou num piscar de olhos. do os próprios Tukano que estão se dedicando à garimpa
gern.
Desta vez não se trata da construção de uma estrada, mas
de ouro. São milhares, talvez um pouco menos ou mais, não No garimpo do Panãpanã, segundo fontes de São Gabriel,
se sabe ao certo, os garimpeiros que estão chegando em há menos ouro do que no Traíra. Os garimpeiros vêm de
busca da Serra do Traira (nas cabeceiras do Rio Curicu outras partes do país e já se encontra, na boca do Rio Içana,
riari) e do Panāpanã (no Alto Içana), locais que estão den uma grande balsa (Canutama) da Mineradora Gold Ama
tro de áreas indígenas. Eles vêm de outras partes do país, zon, de propriedade do governo do Estado do Amazonas
mas também moradores de S. Gabriel estão partindo atrás (Gilberto Mestrinho, PMDB), aguardando autorização para
de riqueza. Até mesmo os trabalhadores do BEC (Batalhão entrar em operação, mobilizando a mão-de-obra barata dos
de Engenharia e Construção), encarregados da construção Baniwa e outros grupos indígenas da região. Será o mais
da estrada que liga S. Gabriel a Cucuí, estão abandonando novo “patrão”, no velho esquema de exploração extrativa
seus postos e partindo para os garimpos. implantado no Rio Negro, há pelo menos dois séculos.

Essa corrida, deixa de lado um outro debate político: a mu


dança de prefeito. São Gabriel, como outros tantos municí A demarcação em primeiro plano
pios brasileiros, deixou de ser "área de segurança nacio
nal". O poder local está em disputa eleitoral e, enquanto Os povos indígenas da bacia do Uaupés também vivem seus
muitos vão garimpar ouro, alguns ficaram garimpando o momentos de crise e divisão interna. A FUNAI, como ou
poder. Mas nenhuma das facções em disputa deixará de tras instituições que atuam na área, sabem se aproveitar
lado os benefícios do ouro que os garimpeiros do Traíra po desta divisão em detrimento dos próprios índios, como pode
derão trazer ao município, ser demonstrado pelas sucessivas protelações da demarca
ção das terras. Delimitadas desde 1979, a demarcação das
A descoberta de ouro no Traíra remonta ao ano de 1983, éreas indígenas da região têm sido cobradas da FUNAI so
pelos índios Tukano. O grito foi dado. A notícia se espa bretudo pelos Tukano de Pari-Cachoeira.
lhou. O garimpo do Traíra, diferentemente do de Panã
panã (Rio Içana), tem muitas vias de acesso. A Serra do Já os povos indígenas da área de Yauareté estiveram mais
Traíra, tem mais de 70 km" de extensão e, ao seu redor, mobilizados em 84 pela implantação de um novo município,
existem nascentes de vários rios e igarapés, os quais, em desligado de S. Gabriel, acreditando que isso traria novos
determinadas épocas do ano, são completamente navegá empregos e ajuda econômica da União.
veis, facilitando a entrada de embarcações, mesmo sem o
consentimento dos Tukano e Makú, ou mesmo da inope
rante Ajudância do Rio Negro/FUNAI. Refiro-me aos iga (*) antropólogo, está elaborando tese de doutoramento sobre os Maku e
rapés Castanho, Samaúma e Ira (afluentes do Rio Tiquie); e é bolsista do CNPq,
aos rios Curicuriari, Marié (afluentes do Negro) e o Traíra
(afluente do Japurá).

70
NOROESTE AMAZÔNICO 7

Mas uma decisão do STF (novembro/34) anulou a criação Quanto ao garimpo, os próprios índios passaram a incre
de 27 novos municípios do estado do Amazonas e os índios mentar sua presença diretamente nas atividades de produ
habitantes de Yauareté passaram a buscar no ouro da Serra ção e outras formas de controle para barrar a crescente en
do Traíra uma fonte de recursos. trada dos não-índios (ver na seção de notícias, adiante).

A grande discussão no final de 84, entre os vários povos Mas o ouro e outros minerais que existem na região são co
indígenas da região, era para saber a quem pertencia o ga biçados também por uma série de empresas de mineração,
rimpo. que se mobilizam nos corredores das repartições em Brasília
para garantir o acesso legalizado das atividades de pesquisa
Pela regra vigente localmente há muito tempo, é conside e lavra (ver relação dessas empresas na seção de notícias,
rado "dono da terra” o grupo que ali chegou primeiro. No adiante).
caso da Serra do Traíra, desde a migração Tukano/Desana
do Rio Papuri ao Tiquié ela “pertencia” aos Tukano de Ta
F{}{'{if}.
Colonização
Ainda segundo regras tradicionais, as terras vão sendo divi O governo estadual tem outro plano que afetará o território
didas pelos pioneiros com os grupos que ali vão chegando. dos povos indígenas do Noroeste Amazônico: trata-se da
Asso está sendo feito agora na Serra do Traíra, entre os Tu colonização que se pretende fazer ao longo da estrada S.
Itano da bacia do Uaupés. Gabriel-Cucuí,

Mas em relação aos "brancos”, como fazer? Tanto as lide Diante de tantas pressões que dificultam o controle do ter
renças indígenas de Pari-Cachoeira, como as de Taracuá, ritório pelos próprios povos indígenas, uma centelha de es
comunicaram à ajudância da FUNAI em S. Gabriel da in perança desponta nas reuniões locais que os índios estão
vasão de não-índios na região do garimpo. Mas o chefe da realizando para equacionar uma estratégia de enfrenta
ajudância alegou nada poderfazer sem a ajuda da PF. En }#1e/2#O.
quanto isso, passaram-se meses e a Serra do Traíra sendo
invadida por um fluxo de garimpeiros não índios incontro
lável pelos índios. Numa tentativa de solucionar o proble
ma, as lideranças indígenas das três áreas da bacia do Uau
pés se reuniram em Taracuá, nos dias 1 e 2 de janeiro de 85.

A luta pela demarcação das terras, de acordo com um mapa


elaborado na ocasião (ver o mapa no início desta separata),
foi colocada em primeiro plano. Representantes deste en
contro foram a Brasília falar com o presidente da FUNAI.

71
S INDÍGENAS NO BRASIL/CEDI

No dia 24 de dezembro de 1984, o povo solicitamos que os senhores faça força e


do Rio Tiquié se reuniu no salão da Co insista perante o Ministério do Interior,
munidade, em Pari Cachoeira e sob a porque precisamos dessa demarcação de
Censo Escolar (1984) coordenação de Luis Gomes Lana, ele nossa terra o que significa a nossa ga
geu a nova diretoria da Associação da rantia e nossa preservação. Queremos
Segundo relatório da Diocese de São Ga União da Comunidade Indígena do Rio ser livres de qualquer empecilho ex
briel da Cachoeira, as escolas salesianas Tiquié: Afonso Machado, presidente; terno. Por que é que outras reservas fo
registraram, em 1984: Gabriel dos Santos Gentil, vice-presi ram demarcadas e nossa ainda não? So
501 alunos internos dente; Conrado Brandão Serra, secretá mos povos que quer garantia e liberdade
120 cursaram o 2º Grau (Magistério) rio e Henrique Vaz, tesoureiro. para o nosso desenvolvimento intelec
1.125 de 5° a 8º série do 1º Grau tual, social e comercial, acompanhado
1.571 de 13 a 4° série do 1º Grau de nossa estrutura e tempo.”
3.002 de 1° a 4° série nas Escolas Dis Pedimos e solicitamos aos Senhores que
tritais publique esta mensagem e divulge na
183 alunos cursaram o Curso de Inte vossa edição “ACONTECEU”.
gração Não havendo mais a tratar, aproveita
366 o de Alfabetização mos o ensejo a dar os nossos protestos de
399 o Pré-Escolar estima e consideração.
113 o Projeto Casulo Pari-Cachoeira, 12 de dezembro de 1984
6.879 total Atenciosamente:
Estão funcionando 128 Escolas Distri Da: Comunidade de Pari-Cachoeira (Lo
tais, 288 salas estão ocupadas e 330 pro cal Pari-Cachoeira) Henrique Castro
fessores lecionando. Ao: Centro Ecumênico de Documenta Capitão da Vila de Pari-Cachoeira.
Para pagar os ordenados dos professores ção e Informação.
dos Centros de Barcelos, Santa Isabel,
São Gabriel, Taracuá, Pari-Cachoeira e Estamos enviando aos Senhores Agentes Taracuá, 02 de janeiro de 1985.
Marauiá, existe um Convênio com o Go da Editora ACONTECEU algumas
verno Estadual. Os pagamentos são re mensagens a serem publicadas. Das: Comunidades Indígenas do Alto
gulares e as carteiras de trabalho assi Desde o ano de 1970 pelejamos enviar Rio Negro.
nadas. documentos à FUNAI e o MI Ministério
Nas Escolas Distritais, cujos professores do Interior mas fomos negados. Aos: Exmo. Sr. Presidente da República
são quase todos do mesmo grupo lin Sobre isso temos algum ponto a citar Ilmo. Sr. Ministro do Interior.
güístico da tribo, o pagamento, que não veja a seguir: Ilmo. Sr. Presidente da FUNAI.
chega ao salário mínimo, custa a sair e “Quanto a nossa negada e renegada
as carteiras de trabalho não são assina questão de demarcação de terras que Exmos. Srs.:
das. anda a menos que os passos de lesma da
Ainda segundo o relatório da Diocese, as indecisão das autoridades responsáveis; No dia 1º de Janeiro de 1985, no Distrito
Escolas Distritais foram abertas para di Ministério do Interior, Fundação Na de Taracuá — Alto Rio Negro reuniram
minuir o número de alunos internos, o cional do Índio, órgãos diretamente li se as várias nações indígenas que se se
que não pode ser feito totalmente por gados ao assunto. guem: Tucanos, Deçanos, Piratapuias,
que nelas, os índios só podem cursar até "Por isso voltamos a insistir com veemên Banyuas, Macus, Arapaços, Miriti-Ta
a 4.° série. “Os melhores alunos, termi cia e vexame. Pois já decorreu tempo de puias, Tarlanos, Baraçanos, Wananas,
nada a 4° série, poderão continuar seus mais após o nosso pedido e a apresen Cubéus, Tuiucas, Carapanãs e Juritis,
estudos no internato ou externatos em tação da demarcação. para discutirem assuntos referentes aos
seis centros.” (Cf. Relatório da Diocese Pois com a descoberta de ouro da Serra interesses das Comunidades daquela re
de S. Gabriel da Cachoeira, 14/08/84). do Traira a qual faz parte da nossa terra g1a0.
conforme consta no nosso mapa! Esta
região está ameaçada de invasores bran
cos e proliferação de gente de todas as
espécies, sem escrúpulos e sem senti
mentos de coração, gente cheia de ga
nância e de cobiça, pelos quais são dis
postos a qualquer barbaridade. Por isso

72
s! Z_ Acervo
_/\ | <> A NOROESTE AMAZÔNICO 9

Como resultado desta reunião, dentre Esperamos que V. Excias. acatem nos
outros assuntos, decidimos englobar as sas idéias, dêem oportunidade de mos
áreas das Nações acima citadas em uma trar o que somos capazes de fazer, reco
só, formando assim um único Território nhecendo as necessidades básicas dos Garimpeiros serão retirados
Indígena que seria composto pelas se nossos povos, para que venham a colher
guintes áreas atuais: Iauareté, Pari-Ca aqui em nossas terras, os frutos do tra O delegado regional da Funai, Kazuto
choeira, Taracuá Uaupés, Içana Aiari, balho de um povo que nunca teve uma Kawamoto, estará seguindo hoje em
Içana-Chié, Rio Cubate, no intuito de voz ao encontro dos nossos interesses. companhia de agentes da PF, para o alto
unidos encontrarmos mais facilmente 1 — Fundar a Capital do Território In rio Negro. A missão é retirar os invasores
soluções para nossos problemas. Por dígena do Alto Rio Negro. das áreas indígenas, ou mais precisa
tanto, vimos através deste, solicitar à V. 2 — Criar no Território Indígena uma mente, os garimpeiros, que retornaram.
Excia., a criação do Território Federal Superintendência da Receita Federal, Kazuto explicou que recebeu novas de
Indígena do Alto Rio Negro — Amazo uma Agência do Banco do Brasil e Caixa núncias de que os garimpeiros voltaram
nas, conforme nossa explanação acima e Econômica Federal, estimulando em a invadir o rio Içana, no rio Negro, área
Planta em anexo, baseados nos Artigos préstimos e venda direta do produtor ao pertencente aos indígenas. Desde que
26— Parágrafo Único e Artigo 30 da Lei consumidor sem intermediários. foi anunciada a descoberta de ouro, no
6.001 de 19 de Abril de 1973, visto que, 3 — Criar fiscalização do Conselho Na rio Negro, são constantes as invasões das
somos mais de 15.816 (Quinze Mil Oito cional de Marinha Mercante através de áreas dos índios residentes na região.
centos e Dezesseis) habitantes indígenas indígenas trabalhadores. (Notícias Populares, 14/04/84).
formando mais de 99% da população 4 — O Governo Federal, junto com a
daquela localidade e ali habitando há Petrobrás, autorizar a compra de petró
mais de 6.000 anos. leo na fronteira, localidade Cucuí à Ve Uma das maiores
Para tal criação citaremos algumas su nezuela. reservas-de nióbio
gestões: 5 — Abrir os garimpos no Território
Artigo 65 do Decreto do Presidente Gar Indígena somente para os indígenas. Foi descoberta uma nova reserva de mi
rastazu Médici em 1973. Em vez de criar 6 — Instalar energia elétrica ou hidro nério de nióbio na Amazônia, amplian
os Territórios Indígenas, permitiram elétrica. do as reservas brasileiras de 4,576 bi
criar um novo Município em IAUARE 7 — Maior proteção ao acervo cultural lhões de toneladas (equivalentes a 95,4%
TE, para onde poderão colocar os seus indígena. das reservas mundiais) para 7,473 bi
protegidos para ganhar dinheiro na no 8 — Autorizar o ensinobilíngüe ou seja lhões de t de minério bruto. Essa nova
va Prefeitura. Além disso o Governo ao o ensino através da Língua Indígena, reserva, situada no município de São
criar o novo Município nas Terras Indí além da Língua Nacional. Gabriel da Cachoeira, foi avaliada em
genas, nem indenizou e nem vai indeni 9 — Criar mais escolas de 19 e 2° Grau 2,897 bilhões de toneladas, com um teor
zar os antigos moradores e donos de ter com ensino profissionalizante e assistên médio de 2,81% de pirocloro. O projeto,
ra, os indígenas. Isso é um novo tipo de cia direta aos alunos de remédios, mate denominado Uapes, aguarda novos in
invasão para tomar a nossa terra, orga rial escolar, fardamento e merenda esco vestimentos da CPRM, tendo recebido
nizada pelo Governo do Estado do Ama lar sendo entregue diretamente ao índio. no ano passado recursos da ordem de
zonas através do ITERAM (Instituto de 10 — Criar uma Universidade Federal Cr$ 146,9 milhões para a continuidade
Terras do Amazonas) instituído pelo no Território. da pesquisa — 7,1% do orçamento
Decreto Lei Nº 1335, aos 13 de Julho de 11 — Funcionamento de uma repre anual da empresa, avaliado em Cr$2,071
1979. Sentimos, o governo não tem di sentação da COBAL para abastecer as bilhões. (Rev. Minérios-Extração e Pro
nheiro? O governo é quem manda rou áreas. cessamento, junho 84).
bar e invadir nossas terras. Se criar o 12 — O Governo, antes de abrir estra
novo Município Iauareté, o Prefeito vai das como a BR-210, Perimetral Norte,
fazer loteamento da terra, vai exigir os deve consultar os indígenas ou dirigen Empresas de mineração
impostos caros e se os indígenas não pa tes do Território Federal. interessadas no Rio Negro
garem, corta-os e perdem a terra. Se in Somos a população indígena que forma
dígenas invadirem sem permissão do a fronteira do Brasil com a Colômbia, e Segundo relação fornecida pelo DNPM,
branco, o indígena vai ser preso, com já faz muito tempo que estamos espe as seguintes empresas de mineração têm
isso, os indígenas não poderão ir caçar rando a demarcação das nossas terras interesses em andamento na região do
no mato e nem pescar no seu rio com que teria que ser realizada pelo Minis Rio Negro:
tranqüilidade. Aí os indígenas perdem tério do Interior, ao qual pertence a FU CRPM, com onze alvarás e um requeri
de verdade a sua autonomia e quem vai NAI, conforme mento de pesquisa, na Serra do Padre,
ser dono é o Prefeito e os brancos ricos. Sem mais para o momento, apresenta Serra do Aracá e no Alto Rio Iá;
Mas vai tornar-se piada: Nós os indíge mos-lhes protestos de alta estima e con Edgar Rohnelt Mineração Ltda., com
nas os donos da terra, irmos comprando sideração. treze requerimentos e um alvará de pes
a terra da Prefeitura! Isto é injustiça quisa, para a Serra Tunuí e Rio Içana;
diante dos direitos humanos. Cordialmente. Ernesto Medeiros de Moraes, três alva
Outra reivindicação a ser feita é que nos (assinam vários representantes indíge rás de pesquisa e um requerimento, to
concedam eleição direta para os cargos nas da região de Taracuá, Pari-Cachoei dos na bacia do Rio Cauaburi;
representativos da FUNAI ou seja desde ra e Iauarete.) Francisco Plinio Valério Tomaz, com
Presidentes até Delegados e que sejam cinco requerimentos de pesquisa para a
lideranças indígenas preferencialmente, Serra do Curicuriari;
e também que seja a FUNAI, alienada
do Ministério do Interior e ligada direta
mente à Presidência da República.
*
—/\ #
| #NDIGENAs no enas ucro
Guido Magalhães Arantes, cinco reque A operação, que começou no último dia Guerra biológica
rimentos de pesquisa para o Rio Içana; 20 de setembro e que se estende até de contra o epadu
Mineração Itacua Ltda., com 22 autori zembro próximo, foi desempenhada, até
zações de pesquisa para as Cabeceiras agora com recursos da ordem de Cr$ 300 O Brasil será o primeiro país do mundo a
do Rio Demini e Serra do Curicuriari; e milhões provenientes do fundo contra fazer uma guerra biológica contra as
N. J. Scalabrin Firma Individual, com entorpecentes do governo norte-ameri plantações de ipadu (coca) e maconha,
20 requerimentos de pesquisa para o Rio cano. O secretário do Ministério da Jus segundo informou o presidente do Con
Içana, Serra do Caparro e Serra do Tu tiça, Arthur Pereira de Castilho, está fen, Arthur Pereira de Castilho, que ini
fllll. tentando obter mais recursos da União ciou ontem com a Embrapa os primeiros
As áreas pretendidas por esse conjunto para esta finalidade e caso o governo acertos para a construção de um centro
de empresas somam 673.889 ha. brasileiro não reparasse a verba em cur onde especialistas em engenharia gené
to espaço de tempo, a operação será in tica desenvolverão fungos e bactérias
terrompida. destruidores de folhas de coca e canna
Nesta primeira fase da operação Frede bis-sativa (maconha).
rico, a PF indiciou cerca de 3 mil e 500 A iniciativa, de acordo com o Confen,
donos de plantações de coca ou epadu, justifica-se: o Brasil detém hoje uma
Operação contra o epadu na sua grande maioria, caboclos. Mui área plantada de ipadu capaz de superar
tas tribos indígenas, entre as quais, Tu a produção da Bolívia e Peru juntos. O
O Confen está estudando a realização de cano e Macu, que antes colhiam a planta trabalho de erradicação, entretanto, é
mais uma gigantesca investida, nos mol nativa no meio da mata para os seus ri lento e caro: os agentes federais são obri
des da Operação Pantanal, para erradi tuais religiosos, estão cultivando em gados a se embrenhar em plena selva,
car da região fronteiriça da Amazônia grande escala para vender aos trafican contraindo, muitas vezes, malária e ou
com a Colômbia as plantações do epadu tes e donos de laboratório de processa tras doenças contagiosas da região. To
— utilizando no processamento da pasta mento de cocaína. da a operação, que inclui a queimada de
base da cocaína. Como os índios não podem ser indicia ipadu de até sete metros de altura, de
O Secretário da Justiça e Presidente do dos, a operação Frederico leva em todas mora dias, permitindo o deslocamento
Confen, Artur Castilho Neto, explicou as suas buscas, dois funcionários da Fu dos traficantes em aeroportos clandesti
que a Operação Epadu, que provavel naipara conversarem com os líderes das nos no meio da mata.
mente começará em março próximo será aldeias. O quilo da folha do epadu ou A guerra biológica consistiria na cria
o ponto principal dos trabalhos que o (eritroxylum coca nova granatense) é ção, em laboratório, de fungo, vírus e
Brasil exibirá no Plenário da VIII Reu vendida pelo caboclo ou índio ao trafi bactérias que ao longo do tempo dizima
nião do Comitê de Entorpecentes da cante, por Cr$ 500, segundo informação riam todas as espécies de coca e maco
ONU, de 6 a 10 de fevereiro, em Viena, da divisão de entorpecentes. nha sem, no entanto, atingir outras
Áustria. O diretor da divisão, que coordena a plantas nativas e a agricultura. Um mé
Nesta semana, o Presidente do Confen operação, Hugo Povoa, informou que todo, conforme Castilho, “eficaz e não
pretende encaminhar ao Ministro da durante as buscas e destruição das plan poluente”, ao contrário de outros países
Justiça, Ibrahim Abi-Ackel, uma expo tações, foram descobertos quatro cam — como México e Colômbia — que pul
sição de motivos demonstrando a neces pos de pouso clandestinos e houve con verizam plantações com o herbicida
sidade de erradicação da vasta planta fronto da polícia com plantadores, em “paraquat”, cujos efeitos são malignos
ção de epadu, na região amazônica. Se bora sem mortes ou ferimentos graves. para o homem e acabam prejudicando
gundo ele, se isso não acontecer, em bre Ele disse, porém, que os agentes estão plantações de alimentos. (ESP, 20/12/
ve o Brasil poderá ostentar o infeliz tí contando com a colaboração de vários 84).
tulo de o maior produtor de cocaína do moradores das localidades dessas plan
mundo. (O Globo, 15/01/84). tações e de tribos indígenas que hoje cul
tivam a coca em grande escala.
Muitas informações são obtidas pelos
Mais plantações de coca moradores e até plantadores que não fa
destruídas zem idéia dos malefícios e implicações
do cultivo da coca e por tribos indígenas
Nos últimos vinte dias, a operação Fre que hoje plantam por que são obrigados
derico (composta por agentes da PF) e até escravizados pelos traficantes. De
destruiu 82 grandes plantações de coca acordo com informações da divisão de
na região amazônica, perfazendo um to entorpecentes, muitos índios se queixam
tal de 6 milhões 171 mil 807 pés dessa dos maltratos dos traficantes.
planta, da qual se extrai a cocaína. A in A equipe da operação também conta
formação foi prestada ontem pela Divi com médicos e enfermeiros. Eles consul
são de Repressão a Entorpecentes do tam, levam remédios e a população
Dep. da PF. agradecida, muitas vezes aponta pes
soas envolvidas. Como alguns tribos e
pequenas comunidades vivem hoje na
região amazônica da plantação de epa
du e mandioca, a Funai está preparando
um projeto para incentivar outras cultu
ras que substituiriam a de coca.
(O Liberal, 11/10/84).

74
|

-
|-

Taurepang

RORAIMA |

75
sL7-Acervo
__/ E ºs INDÍGENAs No BRASIL/cED
POVOS INDIGENAS NO BRASIL/CED

RMANDIA

Sºs
RAR COER # BONFIM

URARA COER

RAIMUNDÃO
(O

76
RORAIMA || 3

QUADRO GERAL Dos Povos INDÍGENAS DA ÁREA RORAIMA (I)


POVO "…" NOME DA ÁREA MNICÍPIO * #|POPULAÇÃO FONTE E DATA
INGARIKÓ l sem providência 13 459 -k

TAUREPANG (1) 2 cºlºnia Agrícola


Indigena Sao Marcos
Boa Vista …
em aldeias mistas
#
80

3 AT Ananas Boa Vista 90

4 AI Aningal Alto Alegre L15


5 AI Cajueiro Boa Vista 108

6 AH Ouro |Boa Vista {35

7 AI Sta. Inês Boa Vista 100

8 AT Sucuba Boa Vista 130


MAKUXI (2) 22 AI Mangueira Alto Alegre 433

24 AI Araçã/Amajari Boa Vista 222

23 AI Ponta da Serra BCà Vista 165

81 kºk 9 - 636

em aldeias mistas 1.433

cidades e fazendas 2.000


L4.497 (T)
9 AI Manoá-Pium Bonfim 230

/WAPIXANA 23. AL Boqueirão Alto Alegre 413


#E AI Bom JeSUS Bonfim 3}.

|3 789
10 À I Truaru Boa Vista 122

ll AI Arita Boa Vista |102

12 AI Serra da Moça Boa Vista 380


13 AI Taba Lascada Bonfim L70

l4 AI Malacacheta EÇnfim 280

15 Al Canauanim Bonfim 230

16 AI Barata/Livramento Boa Vista 367

17 AT. Piura/Uraricoera Boa Vista 158


WAPIXANA 18 AI Jacarnin Bonfim 2O5

19 AI Moscou (Recanto da Bonfim 130

Saudade)
20 AI Jaboti BOrlfim 76

8 (3) 865

em aldeias mistas 695


cidades e fazendas 700
4.480 (T)
MAKUXI/NAPIXANA/
TAUREPANG (aldeia l 155
mista)
(*) levantamento realizado em 1983 por Amodio (coordenador) , Pira, Miranda, Winters, Cardoso, Secchi, Dal

Ben, membros da Equipe de Pastoral Indigenista da Diocese de Roraima.


(**) Dessas 81 áreas, foram identificadas em 82: AI Raimundão, no Município de Alto Alegre; em 84: AI Raposa,
Município Normandia; AI Surumu, Município Boa Vista e AT Xununuetamu, Município Normandia.
(1) 8.000 na Venezuela (Vilda: 78) e -100 na Guiana (Butt: 65)
(2) 6.000 na Guiana (Pe. Connors: 82)
(3) algumas dessas aldeias estão localizadas nos municípios de Bonfim e Alto Alegre. Todas as demais aldei
as do quadro estão localizadas no Município de Boa Vista.

77
–/ #
* <\/A, INDÍGENAS NO BRASIL/CEDI

ASSEMBLÉIA DE TUXÃUAS
DO LAVRADO
Mais de cem Hideranças
Makuxi, Wapixana, Taurepang e outras
se reunem para avaliar suas
lutas e encaminham reivindicações

Alcida Rita Ramos e


Marco Antonio Lazarin (*)

H á dez anos vêm sendo realizadas reuniões anuais de


lideranças indígenas na região do lavrado em Rorai
A dinâmica da reunião

ma. Elas têm lugar na Missão de Surumu mantida Os trabalhos foram iniciados no dia 7 de manhã, tendo como
pela Ordem da Consolata sob a égide da Diocese de Rorai membros da mesa Clovis Wápixana, Jaci Macuxi e o cate
ma. Segundo o bispo da Diocese, D. Aldo Moggiani, desde quista Anísio, também Macuxi. Começaram com uma ora
1977 o caráter desses encontros têm mudado, passando de ção e leitura da Bíblia, seguidas de um discurso em Macuxi,
simples reuniões grupais promovidas pela Igreja, a eventos depois em Wapixana; a seguir houve a apresentação dos pre
de cunho cada vez mais político e reivindicatório. Também sentes por região e afiliação grupal, na seguinte ordem: re
a última, realizada de 7 a 9 de janeiro de 1985, destacou-se gião da Serra, com cerca de 50 tuxáuas e secretários; região
por uma postura e linguagem próprias do movimento indí do Taiano, com sete, de Normandia com seis, de Surumu
gena atual, ainda que abordando problemas específicos à com aproximadamente 25; do Amajari com seis; Yanomami
região do lavrado e, secundariamente, à situação dos Yano (três), Mundurucu (dois), Apurinã (um), Krenak (um), Tu
mami da floresta. Enquanto anteriormente famílias inteiras kano (um) e todos os representantes de entidades não índias.
compareciam à reunião, por insistência dos religiosos, mu Foram formados sete grupos de trabalho: Surumu, Taiano,
lheres e crianças ficam agora excluídas do encontro. região da Serra, Raposa, Amajari, Serra da Lua, e um grupo
de observadores formado por índios não pertencentes à re
Participaram da reunião cerca de 150 pessoas, principal gião do lavrado.
mente representantes de seis nações: Macuxi, Wapixana,
Taurepang, Yanomami, Mundurucu e Apurinã, além dos Todos os grupos de trabalho seguiram a pauta previamente
representantes da UNI, Ailton Krenak e Alvaro Tukano, preparada, constando dos seguintes itens:
Dentre os observadores não índios estiveram presentes,
além do bispo de Roraima, vários padres e seminaristas da Dia 7 — Apresentação — por Regiões
Consolata, representantes da FUNAI, do CIMI/Porantim — Em seguida grupos para discutir sobre as conclu
de Brasília, do CIMI Norte I, do GTME (Grupo de Traba sões da última reunião; 8Pontos;
lho Missionário Evangélico), da CCPY, da ABA e da IWGIA Iº — Os conselhos devem visitar e orientar todas as co
(International Work Group for Indigenous Affairs), da Di munidades, favorecendo o trabalho juntos e resol
namarca, nas pessoas de Tereza Aparício e René Fuerst, vendo unidos todos os problemas, que aparecerem,
convidados especiais da UNI. inclusive indo na FUNAI quando é necessário.
2° — Proibir a entrada de bebida alcoólica e nunca to
Os recursos para a sua realização, traduzidos em alimen mar para ser o primeiro a dar o exemplo.
tação e transporte, foram supridos pela missão: um cami 3º — Lutar para que saia a demarcação das terras, insis
nhão da Consolata transportou a maioria dos participantes tindo junto às autoridades: não abrir mão disso.
vindos de Boa Vista e ao longo da estrada para Surumu, e as — Explicar para que todos saibam os limites certos
refeições foram preparadas porfreiras e alunos indígenas de das terras indígenas.
ambos os sexos, destacados de suas férias do internato para — Ocupar as terras com retiros, roças, plantações e
essa tarefa. Algumas lideranças indígenas também contri não deixar construir novas casas, cercas ou currais.
buíram com pequena parte da alimentação. — Aceitar só as terras que nós pedimos e não aquelas
que as autoridades querem demarcar.

(*) Alcida Ramos é antropóloga e professora na UNB, Marco Lazarin tam


bém é antropólogo, fazendo doutoramento na UNB. Ambos estiveram
presentes à Assembléia de tuxáuas, em Surumu e escreveram este texto
por solicitação da equipe de edição de Aconteceu.

78
RORAIMA | 5

Terêncio Makuxi,
na Assembléia de Surumú.

4º — Cuidar dos projetos de gado para que aumente o milhões de hectares, incluindo a região de Raposa. A maioria
rebanho. dos Macuxi que aí vivem é favorável a essa proposta. Entre
— Aumentar o número dos projetos de gado. tanto, o grupo liderado pelo tuxaua Odilon não aderiu a ela,
— Organizarroças comunitárias e individuais. defendendo, ao invés, a demarcação de sua área específica.
— Os tuxáuas da Serra não aceitam roças mecaniza A proposta de área contínua foi encaminhada à 10º DR, em
das. Boa Vista, porém, dado o impasse entre os índios, o processo
— Roças mecanizadas devem ser cuidadas só depois não foi adiante. Esta informação vem da representante da
de terroças particulares e depende da comunidade FUNAI, Maria Guiomar de Melo. Segundo depoimentos de
se está em condições de aceitar o projeto. índios, de padres e da representante da FUNAI, Odilon teria
5º — Participar todos os domingos ao culto e apoiar os tido a promessa do ex-governador Otomar..., de demarcar as
catequistas. terras de Raposa, se for novamente governador, ou por no
6º — O professor da maloca deve ser índio e possivel meação, ou por eleições diretas, caso Roraima seja trans
mente da mesma maloca. Ele deve ensinar a língua formado em estado. Nas eleições municipais de 16 de dezem
e a cultura indígena. - bro, Odilon foi eleito vereador pelo PDS.
— O Tuxáua controla o andamento da escola.
7º — Planejar os trabalhos nos garimpos; enviar quatro Na área do Taiano foi demarcada em dezembro a área da
pessoas de cada comunidade. Com este produto Serra da Moça e em breve o será também a de Boqueirão. São
comprar gado e fazendas de propriedade das co pequenas e descontínuas. Por outro lado, a maloca do Barata
munidades e coordenadas pelos Conselhos. continua sofrendo atos de agressão praticados pelo fazen
8º — A política foi boa ou ruim — uniu ou atrapalhou deiro Epitácio Andrade Lucena, desde 1981. Em junho de
a comunidade? 1983, este fazendeiro mandou dois homens à maloca do Ba
Dia 8 — Continuação do dia anterior. rata para intimidar os índios (só havia mulheres em casa na
Dia 9 — INTERNATO SURUMU, Casa de hospedagem ocasião) a desocupar duas casas, pois Epitácio voltaria para
em Boa Vista, Centro de formação de Líderes. Ex derrubá-las. Os índios, cientes da notícia, colocaram pedras
posição pelo Pe. Sérgio S. Weber. na estrada como sinal ao fazendeiro para não avançar. Uma
semana depois, dois agentes da polícia civil e nove soldados
da PM, de posse de uma ordem do juiz prenderam o tuxáua
A luta pela demarcação Alcides Teixeira, seu pai e um tio, depois de aquele haver
dado conhecimento dos fatos à FUNAI. Ficaram detidos
e outras dificuldades
onze dias, até que um advogado da FUNAI chegou de Bra
Os resultados de cada grupo foram apresentados em plenária sília para soltá-los. Este relato é do próprio Alcides. Segundo
na tarde do segundo dia. Destacam-se aí os seguintes pontos: um funcionário da 10° DR, o juiz justificou a ordem de pri
são, alegando que, preso, estaria melhor protegido do fa
1) A preocupação com a demarcação das terras, numa re zendeiro e seus capangas!
gião onde é endêmica a invasão de fazendeiros. Os tuxáuas
presentes concordaram em que as demarcações devem ser
feitas em áreas contínuas, sem deixar corredores abertos à
penetração de fazendeiros. As regiões mais problemáticas no
momento são as de Normandia e do Taiano. A primeira,
compreendendo várias malocas, no meio das quais está a
fazenda melhor organizada do Território de Roraima, é ob
jeto de proposta para demarcação de área contínua de dois

79
da Assembléia,
organiza o
garimpo indígena
em Maturuca.

Um dos grupos
de trabalho,
durante a
Assembléia
|- - : de Surumú.

Em novembro, com uns poucos homens presentes na malo problemas das suas malocas através de 17 conselhos comuni
ca, um agente da justiça e seis PM voltaram para queimar as tários. O marcante em sua recente trajetória tem sido, sem
duas casas, desabrigando onze pessoas. Essas casas estavam dúvida, o trabalho garimpeiro. Se, para muitos grupos indí
na rota de expansão de Epitácio, que pretende alargar sua genas, ocorrências minerais são uma ameaça real de perda
fazenda em direção leste. Já ocupa dez mil hectares da área de território, epidemias e outros males — o caso dos Yano
indígena, segundo Alcides. Para isso, ele e os PM voltaram mami do Apiaú hoje é dos mais gritantes —, o mesmo não se
no dia seguinte à queima das casas para instalar uma cerca. dá com os Macuxi da Serra. Até 1977 os Macuxi daquela
A ação conjunta dos índios, maciçamente presentes, exi região submetiam-se ao controle de quatro intermediários
gindo ver uma ordem do juiz que permitisse a instalação da que sobre-exploravam seu trabalho em garimpos localizados
cerca, conseguiu sustar o fazendeiro. no próprio território Macuxi. Essa situação inverteu-se
quando os conselhos comunitários Macuxi, em especial o da
A FUNAI entrou com processojudiciário contra o fazendeiro maloca de Maturuca, criaram cantinas para fornecimento de
em Brasília (nem Alcides nem os funcionários da 10° DR mercadorias e comercialização do ouro e diamante. Simul
souberam dizer em que instância se encontra o processo) e taneamente, impediram a entrada de garimpeiros brancos e
indenizou os índios em dois milhões de cruzeiros. Como me a venda de cachaça em algumas cantinas. As cantinas, que
dida de segurança, recomendou-lhes depositar o dinheiro em funcionam nos moldes de uma cooperativa, têm sido, sob a
caderneta depoupança, já que não poderia garantir proteção liderança dos tuxauas, as principais responsáveis pelo suces
aos índios contra novos atos de violência do fazendeiro, caso so da exploração de garimpos do alto Maú, do alto Cotingo e
as barracas fossem reconstruídas. Por sua vez, Epitácio, cujo do alto Kinu, três regiões das serras próximas à fronteira com
filho é promotor em Roraima, entrou com outra ação para a Venezuela. Para os regionais os missionários da Consolata
proibir a demarcação da área. (em especial o Pe. Jorge Dal Ben, trabalhando com os Ma
cuxi desde 1969)seriam os “culpados "pelos bons resultados
Além de Epitácio, existem na área dez posseiros, beneficia das cantinas e dos garimpos dos Macuxi da Serra. Todavia, é
dos com lotes do INCRA, os quais, no entanto, concordaram ao crescente senso comunitário que se deve debitar tal su
em assinar um termo de compromisso aceitando indeniza cesso. Nos garimpos usam bateias, caixas de lavagem de mi
ção, quando a área indígena for demarcada. A maloca do nério e até mesmo um escafandro para a busca de diamantes.
Barata foi delimitada em 1981-82. Quando há necessidade de os homens se ausentarem por
algum tempo de suas malocas, os que permanecem se res
Enquanto isso, na região do Amajari, cujas terras estão de ponsabilizam por suas famílias. O saldo do minério garim
marcadas, as invasões de fazendeiros continuam, proibindo pado, após a comercialização direta com comerciantes de
os índios de pescar, fazer roças ou construir malocas. confiança em Boa Vista, é revertido para os interesses da
comunidade. Em oito meses de trabalho em 1984, os Macuxi
2) O desenrolar da reunião dos tuxauas demonstrou clara compraram 40 reses, e hoje o trabalho com gado intercala-se
mente a necessidade de as comunidades se articularem em com as atividades de roça. Quanto a estas, os Macuxi man
busca da autonomia econômica. Exemplo maior foi apresen têm a posição generalizada entre os índios de que roças me
tado pelos Macuxi da Serra que têm procurado resolver os canizadas só criam problemas, seja pela desestruturação na
divisão de trabalho comunitário, seja pelo endividamento
que a mecanização fatalmente acarreta.
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|- } ………

3) A atuação dos conselhos de comunidades deixou a desejar pretendem induzir o bispo de Roraima a transformar a Mis
em praticamente todas asseis regiões, com exceção da Serra. são de Surumu em “centro de formação de líderes indíge
A principal razão apontada para isso foi a falta de apoio dos nas". Esta concepção de liderança parece, pois, estar ligada
tuxauas, cujo papel de articuladores não foi desempenhado à noção de especialização e/ou profissionalização, talvez re
satisfatoriamente. velando uma tendência à elitização no processo político in
terno das comunidades.
4) Foi dada muita ênfase ao problema do alcoolismo. Todas
ao regiões insistiram na necessidade de se banir o uso de be 6) Quanto à participação dos índios na política regional,
bidas alcoólicas nas comunidades. Os discursos mais infla vários representantes declararam-se contrários a ela, por não
mados giraram em torno desse tema. Porém, uma observa entenderem, nem quererem entender de política partidária.
ção mais detida da questão indica: a) que a atitude ostensi Outros afirmaram que a campanha política para as eleições
vamente antibebida alcoólica harmoniza-se muito bem com municipais de dezembro causou transtornos às comunida
o contexto eclesiástico em que têm lugar as reuniões anuais, e des, provocando divisões, bebedeiras e desunião.
b) que o álcool é uma espécie de bode expiatório conveniente
para os fracassos que as comunidades experimentam em seus Mesmo assim, houve sete candidatos indígenas a vereador
projetos econômicos, tais como a manutenção de cantinas. (pelo PMDB, PDS e PTB), dos quais dois foram eleitos: o
Macuxi Odilon (PDS) da maloca de Raposa, e o Wapixana
5) Os representantes das seis regiões foram unânimes em Alcides (PTB) da maloca do Barata.
afirmar a insuficiência do sistema educacional a que estão
sujeitos. Reclamam que a maioria dos professores não fala a Não faltaram manobras políticas envolvendo líderes indíge
língua indígena, nem tem interesse em manter a cultura tra nas. Na maloca do Barata, o governo confiscou o caminhão
dicional, mesmo sendo eles próprios Macuxi ou Wapixana. da comunidade em represália à candidatura de Alcides pelo
Os tuxauas declararam não querer professores brancos, e PTB. Para recuperar o caminhão o segundo tuxáua candi
vários afirmaram que os professores devem ser filhos das co datou-se pelo PDS. Perdeu, mas foi convidado a administrar
munidades onde lecionam. a Colônia do Taiano, núcleo composto também de regionais
não índios. Alegando compromissos com a própria comuni
Foi levantado o problema da evasão de jovens que, educados dade, recusou.
até o fim do 2º grau, preferem ir para a cidade, abando
nando seus parentes. Foifortemente questionada a validade Por sua vez, o Macuxi Odilon teve sua campanha apoiada
de uma educação mais prolongada que, muitas vezes, resulta pelo ex-governador Otomar..., que, como já vimos, prome
na perda de membros para as comunidades. Segundo a re teu-lhe demarcar as terras da Raposa.
presentante (aliás, uma índia Xerente) de Amajari, o sistema
de internato da Missão de Surumu, que educa jovens até a 8° O envolvimento de índios na política eleitoral do Território é
série, “não tem trazido benefícios; ao contrário, sempre per visto com desconfiança por parte dos próprios índios e com
demos um filho”. Os índios presentes na reunião declara franco desagrado pela maioria dos padres da Consolata. Es
ram-se favoráveis a um sistema de capacitação de adultos, tes, gradativamente perdendo terreno na gestão dos destinos
com treinamento em marcenaria, enfermagem, catecismo,
veterinária, etc., vendo nesse treinamento uma maneira de
operacionalizar o conhecimento adquirido em escolas, em
benefício direto e imediato das comunidades. Para tanto,

81
*_ /> Acervo
–/ | S.A INDÍGENAS NO BRASIL/CED]

dos índios, têm, por outro lado, sofrido o crescente antago fundos necessários para manter os dois hospitais em funcio
nismo dos fazendeiros. Suas relações com o Estado (Secre namento. Contra essa proposta, outros tuxauas como Alci
taria de Saúde, de Educação, FUNAI) vêm esfriando na des e Clovis, ambos Wapixana, argumentaram que não ca
medida em que recebem desses órgãos cada vez menos recur bia aos índios financiar a cura de doenças causadas pelos
sos para manter suas escolas e hospitais. Manifestação con brancos. Foi proposta de Alcides, corroborada enfaticamen
creta disso tem sido o fechamento de vários prédios, como o te por Ailton Krenak, que os tuxauas se organizassem e, em
hospital N. S. de Fátima em Boa Vista, o próprio prédio grupo, fossem pressionar o governo do Território e a FUNAI
sede da Prelazia, atualmente alugado à Secretaria de Edu para liberar as verbas devidas e necessárias à manutenção
cação e o iminente fechamento dos hospitais de Taiano e Su dos hospitais.
}"######.

Na última seção planetária, por volta das 22 horas do dia 9.


.Sobre estes dois hospitais, houve longo debate na reunião de foi aprovada e coletivamente assinada uma carta ao Presi
tuxauas. Jaci, o tuxaua Macuxi de Maturuca, chegou a su dente Tancredo Neves contendo as principais reivindicações
gerir que as próprias comunidades indígenas fornecessem os dos povos indígenas do lavrado representados nessa reunião
em Surumu.

CARTA DOS TUXÃUAS AO PRESIDENTE


Surumu, 9 de janeiro de 1985 5. Exigimos a criação do Parque Ya Assinam os tuxáuas: Arnaldo Silva de
nomami com a retirada dos garimpei Souza, Hilário Lima, Rafael Candido
ros que lá se encontram. da Silva, Dermano Silva dos Santos,
Exmo. Sr. Antonio Farias, Evaristo das Chagas
Tancredo Neves Questão de Saúde: Barbosa, Cristóvão da Silva, Braz
Presidente da República Gomes Pereira, Manoel Guilherme
O abandono a que fomos lançados de Souza, Inocencio Laureano, Nar
tem nos custado a vida de centenas de ciso Boaventura, João Batista de Oli
Senhor Presidente, membros de nossas comunidades, veira, Manoel Paulo Lopes, Manuel
sendo que agora temos a ameaça de Silva dos Santos, José Lima de Agui
fechamento dos hospitais da Missão ar, Bento Adelino Peres, Salomão
Nós Tuxáuas e lideranças das comu Consolata que até esta época nos têm Batista Marques, Altair Dias Ferrei
nidades indígenas do Território Fe assistido. ra, Agrícola Pacheco, Gregório Her
deral de Roraima, reunidos em nossa nandes, Silvério Isidoro Messias,
Assembléia Geral e Anual, debate Questão de Educação: Aderaldo Demétrio da Costa, Bento
mos juntos os assuntos que passamos Laredo da Silva, Joaquim da Silva,
a seu conhecimento. A garantia de escolas e formação a Carlos Antonio Sevino, Liberalino
que temos direito e sabemos ser obri dos Santos Ribeiro, Terêncio Luis Sil
Questão da Terra: gação da Fundação Nacional do In va, Melquíades Peres Neto, Alcides
dio, FUNAI, e da Secretaria da Edu Constantino, Constâncio Constanti
1. Representamos aprçximadamen cação, não nos é dada. no, Floriano da Silva, Bento Alfredo
te aproximadamente 40% da popu Necessitamos de atendimento e de re da Silva, João de Souza, Luiz Ro
lação deste Território e queremos que cursos para que nossos filhos tenham mualdo da Silva, Antonio Trajano,
isso seja levado em consideração por garantido este direito. Pedro Alcides Pereira, Albertino Ra
seu governo, quando for definido al São os seguintes os povos indígenas mos, Juscelino Joaquim Marques,
gum projeto para este Território, que habitam o Território de Roraima: Bento Padrinho, Orlando Pereira,
2. Temos contra nós a ação continua João Batista, Afonso José Anfriso,
dos parlamentares Mozarildo Caval Waiwai Jonsso Clementino, Raimundo Alves,
canti e João Batista Fagundes que Yanomami Armando José de Souza, Domingo
vêm insistindo na entrada de minera Wapixana Batista, Clovis Ambrosio, Geraldo
doras em nossas áreas. Macuxi Delfonso Silva, Eurico Inácio, Luis
3. Exigimos a demarcação das nos Taurepang Henrique, Damaceno Augustinho,
sas áreas indígenas deste Território Maiongong Luciano Batista, Célio Joaquim Mar
com a retirada dos invasores como Ingaricó ques, Anselmo A. Silva, Ansélio A.
condição indispensável para a sobre Ixcariana Silva, Damasceno Alves, Lucas Ro
vivência de nosso povo. Katuena drigues, Aquilino Rodrigues Mes
4. Exigimos a criação e demarcação Mauyayana quita, Anísio Militão, Alcides Tei
de uma área contínua que atenda às Karatayana xeira, Davi Xiriamá Yanomami, Julio
condições de sobrevivência das comu José de Souza, Cícero Benício Lino
nidades Macuxi que habitam a região Souza, Neusa Urbieta S. Sakamãe,
entre os rios Surumu, Tacutu e Maú, Esperando contar com toda a sua Lino da Silva, Hilário Lima, Jorge
com limites ao norte na fronteira com atenção, subscrevemo-nos, Afonso de Souza, Valdemar Militão
a Venezuela. Muito respeitosamente, Fidelis e Gabriel Joaquim Guariba.

82
RORAIMA | 9

Liderados pelo pecuarista Jair Alves dos Tuxauas denunciam invasão


Reis, um dos maiores criadores de gado
da região do Cotingo, onde possui diver Reunidos na maloca Perdiz, os Tuxauas,
Padre ameaçado de morte sas fazendas, os pecuaristas se mostra conselheiros das comunidades indígenas
vam revoltados com a atitude da FUNAI do território federal de Roraima, redigi
O secretário do CIMI e a CNBB Regio e do INCRA, informaram que esta se ram documentos denunciando invasão
nal Norte I estão denunciando políticos, mana uma equipe composta por funcio de suas terras e reservas por fazendeiros.
fazendeiros e garimpeiros do Território nários da FUNAI e do INCRA esteve na Revelam ainda que os fazendeiros estão
de Roraima de ameaçarem de morte o região fazendo “um levantamento com utilizando a polícia para prender os indí
padre Lírio Girardi, da Paróquia de pleto das propriedades, sem o consenti genas, ao mesmo tempo em que amea
Normandia. A informação chegou aos mento dos proprietários”, deixando re çam exterminar um rebanho bovino que
veículos de comunicações locais através voltados os criadores e causando um cli foi doado pela diocese daquele territó
de “nota de solidariedade” distribuídas ma tenso em toda a região. Disseram rio.
pelo CIMI e CNBB protestando contra a eles que não foram consultados e que As constantes invasões estão sendo con
atitude dos agressores e pedindo provi não sabiam dos objetivos do levanta cretizadas porque as reservas indígenas
dências das autoridades de segurança do mento. Além disso, informaram que do território ainda não foram demarca
país. esses órgãos, que deveriam primar pela das. Isso não leva somente à penetração
A nota afirma que o padre Lírio Girardi obediência às leis, respeitando a pro de fazendeiros, mas, também, de em
vem sofrendo as mais duras persegui priedade alheia, fazem exatamente o presas de mineração, como é o caso de
ções nos últimos dias, a mando de fa contrário, estando, por isso, enquadra Codesaima, CRPM e garimpeiros, que
zendeiros, garimpeiros e políticos regio dos no crime de “turbação de posse”. Os em troca do minério que retiram do solo
nalistas, “que buscam por todos os fazendeiros denunciaram, ainda, as deixam doenças e bebidas alcoólicas
meios obstaculizar a ação da Igreja jun ameaças feitas pelos funcionários da “com o único objetivo de matar os ín
to às nações indígenas daquele Territó FUNAI, de que os proprietários pode dios” diz mais o documento. (Notícias
rio. “E o caso do deputado João Batista riam ter suas terras confiscadas e distri Populares, 09/10/84).
Fagundes, do PDS, que vem articulando buídas aos indígenas que vivem nas ma
uma campanha difamatória contra os locas das redondezas.
padres e o bispo daquela Diocese em Segundo o delegado regional da FUNAI Nota dos Tuxauas
benefício de grupos mineradores”, afir Ubiratã Tupinambá da Costa, através
ma a nota. de uma Portaria da Presidência da FU Na maloca do Perdiz, de 19 a 4 de ou
Em resposta às agressões, segundo a no NAI, a 10° DR deverá realizar um com tubro, 25tuxauas e mais 13 membros do
ta, a Igreja de Roraima reunida em As pleto e minucioso levantamento antro “Conselho Regional Indígena” da re
sembléia Geral aprovou uma Nota de pológico e fundiário de todas as proprie gião das Serras, além de outros líderes,
Protesto, esclarecendo a opinião pública dades existentes na região compreendi se reuniram para debater as principais
sobre os acontecimentos; também foi ce da entre a Maloca da Raposa e a Serra dificuldades. Ao final do encontro, le
lebrada uma missa presidida por D. Al do Sol, no Município de Normandia e vantaram os seguintes problemas gra
do Mongeano, com a participação de parte do Município de Boa Vista, con Ves, em uma nota.
centenas de pessoas. (Comércio, 27/07/ tando com o apoio do INCRA, na parte “19 — A nossa área indígena ainda não
84). fundiária. foi demarcada. Através de não serem de
Sobre a denúncia de invasão das pro marcadas vêm os invasores. Os fazen
priedades dos fazendeiros pela equipe deiros não deixam fazer suas roças, não
Pecuaristas acusam a FUNAI da FUNAI, o titular da 10° DR afirmou deixam fazer seus retiros, queimando
que “o que acontece é que a equipe che seus barracos que estão fazendo para os
Um grupo de pecuaristas da região do ga nas fazendas e não encontra o pro retiros, prendendo os tuxáuas, tentando
Cotingo deslocou-se para Boa Vista, na prietário, então estabelece o contato comprar malocas, levando a polícia para
última quinta-feira, para denunciar a com o vaqueiro, que não impede a en as malocas ou querendo expulsar o gado
invasão de suas propriedades por parte trada, e inicia o trabalho”. Disse, ainda que foi recebido do projeto da Diocese
da FUNAI e do INCRA à Cooperativa que esse serviço de levantamento antro que o índio recebeu. Através desse pro
Mista dos Pecuaristas de Boa Vista, com pológico, por parte da FUNAI, e fundiá jeto os fazendeiros estão ameaçando os
a finalidade de solicitar providências ur rio, pelo INCRA, deverá ser feito em to padres, como aconteceu com o Pe. Lírio
gentes junto às autoridades locais. da a região, pois somente assim se pode e o Pe. Jorge.
rá dar subsídios ao Departamento do
Patrimônio Indígena da FUNAI, no es
tudo da área a ser demarcada, porém, a
decisão final caberá ao MEAF. (O Ro
raima, 04/08/84).
s! Z_Acervo
_/\ >> A NDÍGENAS NO BRASIL/CEDI

Um dia que os fazendeiros chegar a Para isso não temos uma lei nº 6.001/ desse nível não protege os direitos con
expular o nosso gado recebido do projeto 12/73, o Estatuto do Índio, para não in sagrados dos índios, informou fonte da
da Diocese, nós vamos fazer o mesmo ventar mais outra lei, a nossa leitem que FUNAI.
serviço com o gado deles. ser respeitada em todo Brasil”, (Poran Antônio Anunciação rejeitou o recurso
29 — Assunto: invasão dos garimpei tim, Dezembro/84). do advogado da FUNAI, que alegou ter
ros como firmas Codesaima, CPRM, e tomado conhecimento da decisão so
outros maquinários acabando a nossa mente no dia 25 de outubro, embora a
mineração, através de nossas áreas não Ordem do Juiz sentença tenha sido publicada no Diário
está demarcada, cada vez mais entrando derrubar as casas Oficial local dia 22 daquele mês. O de
muitos garimpeiros, trazendo muita be fensor do órgão tutelar solicitou que o
bida alcoólica só para destruir a comuni Colocar abaixo as casas dos índios Ma cumprimento da sentença fosse adiado
dade. O preço da compra de mineração cuxi, na Aldeia da Barata, região de até a próxima segunda-feira para que o
é muito explorado. Taiano — Roraima — foi a ordem dada caso fosse acompanhado pelo Procura
Então nós muito preocupados em estas. pelo Juiz de Direito, Antônio Anuncia dor-Geral da FUNAI, Irineu de Olivei
coisas nocivas para as nossas comunida-: ção Ferreira Neto, ao acatar o pedido de ra, o que foi negado.
des, esperando uma ajuda das autorida manutenção de posse impetrado em Na fase de instrução processual o juiz já
des como: governadores, deputados, 1981 pelo posseiro Epitácio Andrade havia tomado essa decisão. Como os ín
mas pelo contrário, os deputados de Ro Lucena e outros contra os silvícolas. Es dios se negaram eles próprios a derruba
raima vem fazendo projeto de lei como: ta é a primeira vez na história do indi rem suas casas, ontem ele mandou um
lei nº 4.147 de 1984, feito pelo deputado genismo brasileiro que uma autoridade destacamento da PM acompanhado de
Mozarildo Cavalcanti, na Câmara dos um Oficial de Justiça para executarem a
Deputados. sentença. A PF, apesar de solicitada,
Com isso, nós índios de Roraima, fica negou-se a participar do ato. (Jornal de
mos muito sentido e por isso nós não Brasília, 10/11/84).
aceitamos esse projeto de lei.
sL7-Acervo
–/ { | <> A

Yanomami

RORAIMA ||

85
INDÍGENAS NO BRASIL/CED!

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86
RORAIMA || 3

QUADRO GERAL DOS POVOS INDÍGENAS DA ÁREA RORAIMA II

NOME DA NQ DE ALDEIAS OU
POVO
ÁREA MUNICÍPIO POPULAÇÃO FONTE E DATA
NOME DAS ALDEIAS

WATWAI (1) AT Waiwai |Boa Vista l 172 MeVa: 83

Novo Airão,
WAIMIRI-TI Waimiri, Itapiranga, Pres:
ATROART |Atroari Figueiredo, 7 400 FUNAI: 84
Moura (AM),
Caracarai (RR)
S. Gabriel da
Cachoeira, Santa
Izabel do Rio

Parque Negro,
#" inais…
YANOMANI *P* Barcelos (AM
(AM), 150 = 9.000 copy: 84
Yanomami Caracaraí, ?>

Boa Vista,
Alto Alegre e

Mucajaí (RR)
YEKUANA dentro da
(MAION- área do PI 3 125 CCPY: 84
GONG) Yanomami

(*) Este total aproximado inclui os Yanomami arredios (aproximadamente 2.000) e só


foi possível pela compilação de recenseamentos feitos. Pºr várias entidades (ME
V,MNTB,Missão Salesiana, Diocese de RR e CCPY) entre 1981 e 1984.
(l) 80 na Guiana ( MEVA: 83);ver também na Área Amapá/Norte do Pará:
(2) 8.500, aproximadamente ,na Venezuela (CCPY:84) .

87
|_Acervo
| EA !NDÍGENAS NO BRASIL/CEDI

GARIMPEIROS E
MINERADORAS
DISPUTAM SURUCUCUS
Recrudesce a violência
na disputa pelo
acesso ao território Yanomami.
E o Parque?

Cláudia Andujar (*)

P~ primeira vez, os Yanomami no Brasil levantam a


voz e reivindicam seus direitos à criação do Parque Ya
Em Roraima, a Diocese Católica denunciou a gravidade da
situação do garimpo do Apiaú, onde existiriam cerca de 250
nomami em área contínua e solicitam a expulsão dos garimpeiros e exigiram dos órgãos competentes a retirada
garimpeiros. Numa carta dirigida ao Deputado Mário Ju imediata dos mesmos. A CODESAHMA, interessada em en
runa, nopontos:
guintes final de 1984, alguns Yanomami colocaram os se

fatizar “a ocupação” e criar um fato consumado, calcula a
presença de garimpeiros em 3.000 homens. Na opinião da
FUNAI, o número de invasores está diminuindo, em conse
“Nós índios Yanomami queremos que você nos ajuda a re qüência do alto índice de mortalidade e se comenta que a
tirar os garimpeiros de nossas terras indígenas. Os garim região está cheia de sepulturas em pleno mato, de vítimas
peiros estão invadindo as terras dos Yanomami, tirando da malária e hepatite.
nosso ouro, trazendo doenças, querendo e tirando nossas
mulheres, roubando nossas roças há dois anos. No último O vale do rio Uraricaá, invadido por cerca de 200 garim
ano centenas de garimpeiros estão trabalhando no rio Apiaú, peiros na altura do igarapé Paca-Sibi (divisa da área indí
no rio Uraricaá em Roraima e perto do rio Ia e Cauaburi no gena com o garimpo Santa Rosa), também continua funcio
Amazonas. nando impunemente. A exploração da grota do Xicuti é um
dos sítios mais importantes daquele garimpo em plena ex
Nossas terras não são demarcadas e nós índios Yanomami pansão, invadindo a área indígena e é o lugar de comercia
queremos a demarcação logo porque daqui dois anos todas lização do ouro, com pista particular de pouso, bebida e mu
as terras vão ser invadidas por garimpeiros e fazendeiros. lheres.

Nós estamos vendo os fazendeiros tomando as terras dos Como se tudo isso não bastasse, em dezembro, a CODE
Macuxi e queremos que não aconteça isso com nossas terras SAIMA informou à FUNAI que 5.000 homens aliciados por
porque nós queremos viver com nossas mulheres e filhos em um sujeito chamado Alcenha Pavão, vindos de um garimpo
paz. Se os garimpeiros não saiem das nossas terras vamos desativado em Peixoto Alencar (MS), pretendiam ocupar as
avisar mais uma vez e se não saiem mesmo vamos brigar”. áreas periféricas Yanomami. No mesmo momento, correu a
notícia de que a CODESAIMA perdeu a concessão de lavra
Há mais de dois anos, várias entidades civis de apoio, na de extração de cassiterita na região de Surucucus, junto ao
cionais e internacionais, solicitam a retirada dos garimpei DNPM. A Companhia informou à FUNAI que uma subsi
ros, sem sucesso. Em conseqüência, está havendo uma pro diária do poderoso grupo econômico Brumadinho, de São
gressiva ocupação dos vales dos rios Apiaú e Uraricaá, em Paulo, a Mineração São Lourenço pretendia entrar na re
Roraima e do vale do rio Ia, no Amazonas. A malária está gião. Outra ameaça pairando sobre as terras Kanomami
aumentando com o contato desordenado e garimpeiros e vem do grupo econômico ligado ao Governador do Amazo
índios estão morrendo. nas, Gilberto Mestrinho, interessado na Serra de Couto de
Magalhães (RR) e Cauaburi (AM), locais ricos em ouro.
(*) coordenadora da Comissão Pela Criação do Parque Yanomami (CCPY). No Congresso Nacional, em 1984, houve uma verdadeira
ofensiva para abrir Surucucus à mineração, encabeçada pe
los Deputados Federais Mozarildo Cavalcanti e João Batista

88
s_> Acervo
_/\ | @A RORAIMA || 5

Fagundes, ambos membros da Comissão do Índio. Em com Conforme as recomendações da Portaria GM 025 de 1982, a
pensação, atendendo às pressões contínuas feitas pela CCPY FUNAI ainda criou, por portaria, 5 postos indígenas para a
e outras organizações civis de apoio, no fim do ano, o De área, 4 já existentes de fato e um para ser implementado.
putado Federal Márcio Santilli (PMDB-SP) apresentou o
Projeto de Lei n° 4.558 visando criar uma reserva nacional Em 8 de janeiro de 1985, a FUNAI baixou a Portaria Nº
de ouro, cassiterita e associados na área Yanomami interdi 1817/E determinando para efeitos de controle administrati
tada em 1982, nos seguintes termos: vo a área definida como espaço vital pela FUNAI e membros
da CCPY em 1984, doravante denominado Parque Indígena
“A constituição da Reserva Nacional prevista..., vem de en Kanomami, conforme os processos administrativos FUNAI/
contro às concretas e inadiáveis necessidades de assegurar à BSB/2152/79 e 2192/84. Para todos os efeitos essa Portaria
comunidade nacional a sobrevivência da população Yano encaminha a proposta do Parque Yanomami para aprecia
mami e da sua incalculável cultura, riqueza, sem dúvida, ção do Grupo Interministerial, definindo que a FUNAI re
bem mais valiosa do que a eventualmente obtida com a mi conhece a área como Parque Indígena.
neração. E uma medida ditada pela emergência e de natu
reza temporária, que em nada prejudicará o desenvolvi
mento do nosso País. "
Invasão truculenta em Surucucus
Concomitantemente às ações de entidades de apoio e parla Conforme relatório da Associação dos Faiscadores e Garim
mentares, 1984 assistiu ao surgimento de intervenções dos peiros de Roraima, de maio de 1985, José Altino Machado,
próprios Yanomami em defesa de seus interesses, como se “dono de táxi aéreo e de garimpos” foi um dos líderes da
expressa, por exemplo, nas declarações de Davi Yanomami, invasão da serra de Surucucus.
feitas durante uma Assembléia indígena realizada recente
mente, em Surumá: Ainda segundo o relatório da Associação, "no fim de 1984,
tendo tomado conhecimento de que se preparava um artifício
“Primeiro o Yanomami não sabia que os garimpeiros inva para entregar o garimpo do Surucucus a três empresas de
diram suas terras. Agora nós estamos sabendo; àqueles que mineração, uma das quais com forte participação estrangei
moram perto dos rios Catrimani, Demini, Couto de Maga ra, Altino iniciou seus contatos com a classe garimpeira do
lhães e do Erico. Têm Yanomami que sabe que é ruim para Território Federal de Roraima, e juntos, começaram a ideali
eles e ficam tristes porque pegam doenças. Têm outros que zar a ocupação pacífica do Surucucus, como meio de chamar
acham bom porque recebem terçados, machados, panelas e a atenção das autoridades, e pleitear, em nome da classe,
fósforos. uma solução legal e definitiva para a exploração da área
pelos garimpeiros. Implementando o planejamento feito, de
Estou contando isso para vocês porque estou preocupado e cidiu a criação da ASSOCIAÇAO DOS FAISCADORES E
zangado. Quero vocês conhecer nossa situação, saber nossa GARIMPEIROS DO TERRITÓRIO FEDERAL DE RO
preocupação e quero vocês lutar com nós”. RAIMA, e José Altino passou a visitar autoridades, auscul
tando de todos sua posição e sua reação face a uma ocupação
pacífica do garimpo do Surucucus".
Proposta do Parque no “Grupão”
No dia 1º de fevereiro de 1985, foi realizada uma Assem
Na segunda metade de 1984, por iniciativa da FUNAI, a bléia Geral, e nela foi fundada a Associação, com 824 mem
área do Parque Indígena Yanomami foi redefinida. A nova bros.
proposta compreende todas as aldeias conhecidas atual
mente, ou seja, 149 malocas Kanomami e 3 Yekuana, abran Realizada nova Assembléia no dia 12.02.1985, foi eleita a
gendo o espaço vital ao seu redor (área de caça, pesca, roça Diretoria, ficando José Altino como Vice-Presidente da As
e perambulação), que consiste a área necessária para a so sociação. “Nessa data, em reuniões paralelas de pequenos"
brevivência das duas etnias. comitês, decidiu-se pela ocupação pacífica e imediata do
garimpo do Surucucus". (Cf. Relatório da Associação dos
Esse estudo foi realizado por um grupo de trabalho com Faiscadores e Garimpeiros).
posto de técnicos da FUNAI e membros da CCPY. A área
está contida em um quadro que tem como limites: ao sul A operação começou no dia 14, com a chegada de 5 aviões
00° 20'S, ao norte o paralelo 5° N, a oeste o meridiano no período de duas horas, com 67 dos 3.000 garimpeiros
66°30' W e a leste o meridiano 61° 15', numa extensão con previstos para tomar posse da serra, área de maior concen
tínua de 9.419, 108 ha. e com um perímetro de 3.071 km, tração de índios Yanomami que ainda vivem isolados do
em grande parte com limites naturais. Em anexo há um contato com a sociedade “branca”.
relatório de 1981 elaborado a partir de uma visita à área
feita por uma equipe mista do Conselho de Segurança Na Um contingente de para-militares, armados e em roupa do
cional, SNI, FUNAI e o Serviço de Informação do MIN exército, desembarcou na pista de pouso da FUNAI, to
TER. O pronunciamento deles é favorável a criação do Par mando conta da mesma e conseguindo temporariamente
que, recomendando a criação “de um único organismo de dominar s 4 policiais destacados para Surucucus, desde a
dicado, exclusivamente, a planejar, administrar, coordenar
e executar as ações visando àquele grupo indígena (Kano
mami)".
</I_Acervo
#ês INDIGENAs No BRASIL/cED

véspera dos acontecimentos. Os invasores, em tempo recor Esse mito está sendo alimentado pelos políticos, que fomen
de, conseguiram limpar uma segunda pista de pouso exis tam o boato de que Surucucus, há várias décadas, está sen
tente na serra, a três horas de marcha do Posto da FUNAI, do clandestinamente explorada pelos americanos, que tra
a chamada antiga pista da DOCEGEO, aberta em 1980 e balham na região como falsos missionários com a permissão
atualmente desativada. da FUNAI. Como se isso não fosse o bastante, o mito ne
cessita apoiar-se na crença de que Surucucus não é área
O ponto de partida da operação Surucucus era uma pista indígena. Segundo essa versão os Yanomami teriam sido le
particular de fazenda, pertencente à vereadora de Boa Vista vados do rio Mucajaí pelos “americanos" (missionários) e
Maria de Lourdes Pinheiro, personagem ligada ao empresá pela FUNAI para a "área pretendida” pela FUNAI, que é a
rio amazonense José Altino Machado, líder da operação. serra "da Cobra”, ou seja, Surucucus. Assim, o governo
passado não conseguiu controlar o avanço sobre terras bra
Por ordem do Governador, todas as pistas de pouso do Ter sileiras, não conseguiu governar e manter a ordem no Bra
ritório foram interditadas e proibido qualquer vôo sem sua sil. Atualmente, dizem os garimpeiros, com a Nova Repú
ordem expressa para qualquer parte do Território. Assim, a blica, a ordem vai se fazer e as terras ricas em minérios,
situação ficou contornada, como Surucucus, serão devolvidas ao povo sofredor do Bra
sil.
Quarta-feira de cinzas, dia 19 de fevereiro, a FUNAI, com a
ajuda de dois aviões bimotores e com reforço da Polícia Mi Assim, os “americanos", a FUNAI e o Governo (que está
litar, evacuou os garimpeiros de Surucucus. Sessenta e sete saindo) são os vilões, enquanto a esperança está no novo
invasores foram trazidos de volta para Boa Vista. José Al governo, e especificamente na figura de Aureliano Chaves,
tino Machado foi colocado em prisão preventiva, os “garim novo ministro de Minas e Energia, agora tendo o poder de
peiros "ficaram presos, assim como as armas utilizadas du colocar à disposição do povo o tão esperado Eldorado. De
rante a invasão. O governador, "para não criar um pro fato, quer o mito que Aureliano Chaves seja parente de Al
blema social”, ofereceu aos demais garimpeiros, aliciados tino Machado, que é encarado como embaixador dos garim
de fora por Altino, pagar a volta a seus lugares de origem. peiros, lutando em seu nome. Os políticos de Roraima se
Nesse meio tempo, o deputado João Batista Fagundes man utilizam do discurso populista, e em nome da democracia
dou um telegrama e fez várias comunicações por rádio, en pregam uma nova ordem social, ou seja, a reconquista para
corajando a tomada de Surucucus. os brasileiros das terras “pretendidas pela FUNAR” e dos
minérios entregues aos "americanos".
A CCPY, muito preocupada com a situação, despachou um
telegrama ao Presidente eleito Tancredo Neves, solicitando O atentado a Surucucus é um alerta para todos nós. No caso
seu apoio. Desta vez a invasão da Serra de Surucucus foi da invasão de fevereiro, a última grande nação indígena re
debelada, mas a ameaça continua e nossa preocupação lativamente isolada foi ameaçada de extinção, mas, além
diante desse crime inédito de vandalismo é imensa. A inva dessa gravíssima constatação, ficamos surpreendidos com o
são só não teve êxito em virtude de um fato casual: um fato de que existam poderosos grupos econômicos e políticos
"furo" da imprensa na véspera do carnaval, alertando a organizados e dispostos a alcançar pela violência suas ambi
FUNAI sobre a situação (“Garimpeiros vão invadir o terri ções, desobedecendo a lei e dispostos a criar desordem So
tório Ianomami”, A Crítica, Manaus, 13.02. 85). cial dentro do país, que se prepara para o retorno à demo
cracia. Os inimigos dos povos indígenas desconsideram os
Com o apoio do General Arídio Martins de Magalhães, go direitos mais elementares dos seres humanos e estão cínica e
vernador de Roraima, e da PM, a FUNAI conseguiu, du friamente preparados para invadir, saquear e matar.
rante os quatro dias de carnaval, o mínimo de apoio para
sustar a operação. Mesmo assim, nossa apreensão continua, A invasão do Parque Indígena Yanomami parece demons
diante das pressões existentes para que se abra Surucucus trar a existência de um plano de vandalismo em preparação
para a mineração de "qualquer modo”. para que nos próximos dois anos Surucucus seja explorada
de qualquer jeito e a qualquer custo.
O comando da invasão parece ter tido apoio de Brasília e
fala-se em nomes como João Fagundes, Cesar Cals e Gil De fato, para o dia 30 de março estava convocada uma reu
berto Mestrinho, além de outros notórios interessados nas nião em nome da Associação dos Garimpeiros e da Classe
riquezas de Surucucus dentro do governo estadual do Ama Trabalhadora, em Roraima, organizada pelo empresário
zonas e no próprio Território Federal de Roraima. José Altino Machado, que nesse meio tempo conseguiu ne
gociar sua liberdade, aguardando seu julgamento em Boa
Vista. Nesse encontro, chamando Iº Enclat de Roraima,
O mito de Sururucus estava prevista a participação de mil garimpeiros do Ama
zonas e Pará, aliciados por Altino e levados para Roraima
A grande maioria da população de Boa Vista e com certeza em 50 a 80 aviões. O evento não se concretizou, graças ao
todos os garimpeiros do Território e de fora, assim como alerta que foi dado por altos funcionários do Governo de
muitos donos de táxis aéreos da Amazônia, acreditam fir Roraima reforçado pela CCPY e à intervenção de certos se
memente que Surucucus será a salvação do Brasil, por con tores do Governo em Brasília, termerosos do resultado da
ter minérios que podem pagar a dívida externa, e a salvação reunião.
do Território que, através da exploração, terá os meios para
se colocar financeiramente independente para transformar
se em Estado individualmente, os garimpeiros e donos de
táxis aéreos acham que vão fazer fortuna através da explo
ração de Surucucus, onde existe MUITO ouro.

30'
_
<r
#
•=
->
= Davi Yanomami, na Assembléia de Surumú,
>
Q explicando a Ailton Krenak, da UNI,
* #3
C
+-
as invasões de garimpeiros
C
+-+-+ na região do Apiaú.
-

Yanomami garimpeiro
em Santa Rosa.

Os garimpos da região Apiaú e na bacia do rio Catrimani ultimamente está se tor


nando virulenta e há muitos casos resistentes à cloroquina.
do Apiaú e Ericó Na bacia do rio Anaualina a malária apareceu somente de
Não é só Surucucus que está ameaçada, dentro da área Ya pois de 1983, entre populações totalmente desprevenidas,
nornami. em conseqüência da expansão das atividades garimpeiras
na região do Apiaú, transmitida pelo contato desordenado
No último ano, morreram vários Yanomami e muitos ga com índios isolados. Entretanto, parece que os garimpeiros
rimpeiros na região da bacia do rio Apiaú, área tradicional não se incomodam com esses fatos, ou pelo menos não o
mente indígena e interditada pelo MINTER em 1982. Tanto bastante para desativar seus sítios de trabalho.
uns como outros foram vitimados por surtos de malária e
sua conseqüência, a hepatite. A malária na região do rio

91
*
–/ #
| #A INDÍGENAS NO BRASIL/CED]

Os índios, porém, revoltados com as mortes e doenças de Em 1984, pelo menos três Yanomami da comunidade dos
seus parentes, estão se organizando. Mesmo aqueles que no Apiauprautheri morreram em conseqüência da malária, en
passado próximo viam vantagens na presença garimpeira quanto dezenas de outros sofreram as nefastas conseqüên
por oferecer facilidades na troca de bens, em janeiro último cias das invasões. Uma das vítimas era mulher do Tuxaua
se rebelaram contra os invasores e tomaram a iniciativa, Vital, que ainda mantém dolorosas lembranças das nefastas
junto com outras comunidades Yanomami, de exigir a ime conseqüências da construção da Perimetral Norte. Seu gru
diata retirada dos invasores. Os quase 50 guerreiros, pin po local, em 1977, perdeu a metade da população em conse
tados de preto, armados com arcos e flechas, e umas espin qüência de um surto de sarampo.
gardas adquiridas dos próprios garimpeiros, invadiram os
sítios de trabalho de dois garimpos localizados entre os rios Vale a pena ainda mencionar que todos os índios da região
Catrimani e Apiaú. Os guerreiros vieram dos rios Catri do alto rio Catrimani, Jundiá, Lobo d'Almada e Apiaú são
mani, Pacu, Anaualina e Mucajaí, liderados pelo índio Davi índios isolados e que entre eles se encontram pequenos gru
Xiriana, um dos Yanomami que mais compreende as trági pos arredios.
cas conseqüências que a penetração desordenada está tra
zendo para seus parentes. Atualmente a FUNAI está instalando um posto de vigilân
cia no rio Apiaú, nas imediações dos limites do Parque In
Durante esta primeira incursão, os guerreiros queimaram dígena, para melhor controlar a entrada de não-índios na
barracas e roças de um garimpo, quebraram as ferramentas área indígena daquela região.
dos invasores e depois enfrentaram uns 40 homens arma
dos, em plena atividade de garimpagem, num segundo lo *y}
Pequenos grupos de Yanomami que habitavam a região do
cal, onde havia “muitas casas iguais à da vila de Mucajaí.", Apiaú e que nos últimos anos se refugiaram na área do mé
roças plantadas com produtos de curto e longo ciclo, duas dio Mucajaí, freqüentemente se empregam entre os colonos
cantinas e bastante cachaça. da região de Alto Alegre, encontrando-se em situação pre
caríssima de saúde, muitos atingidos por tuberculose e
Depois das primeiras horas de tensão, com alguns índios prontos para retornar ao seu habitat tradicional, o Apiaú,
cobrando a morte de seus parentes, os Yanomami decidi perto do posto, tão logo seja instalado.
ram não entrar em briga aberta com seus adversários, mas
simplesmente explicar-lhes que estavam agindo contra a Lei Outra área sob grande ameaça é a região dos rios Ericó,
garimpando dentro dos limites do Parque Indígena Yano Uraricaá e Surubai, no noroeste do Parque Indígena. Até
mami, exigindo sua retirada imediata. Estes, por sua vez, pouco tempo atrás, os garimpeiros da região de Santa Rosa
alegaram que não sabiam que estavam garimpando em área restringiram suas atividades até o limite da área indígena,
indígena. isto é, até o igarapé Pacasibi. Atualmente, todavia, esse li
mite foi superado e inúmeras grotas e barrancos estão sendo
Os índios, no dia seguinte, se retiraram da área prometendo explorados rio Ericó acima, aproximando-se perigosamente
voltar com mais homens, caso os garimpeiros não saíssem de malocas indígenas e do próprio Posto de Vigilância da
de suas terras. FUNAI em Ericó. O grande movimento de garimpeiros,
mercadorias e máquinas, através das duas pistas de pouso
No dia 26 de fevereiro, um novo grupo de homens, acima de — ambas dentro da área indígena — leva a crer que as
vinte, acrescido das Polícias Militar e Federal, armados, di pretensões dos garimpeiros não se resumem à exploração da
rigiu-se para a área do Apiaú para expulsar os garimpeiros. área já invadida, mas também à ocupação de outros trechos
do território Yanomami, onde há indícios de minérios.
Entre os rios Apiaú e o alto Catrimani funcionam vários
garimpos clandestinos de ouro há pelo menos três anos e
meio, com centenas de garimpeiros brancos espalhados em Hidroelétrica Paredão
pequenos grupos recebendo lançamentos de gêneros básicos
através de aviões, em clareiras abertas na mata. Em certos Há ainda o empenho da parte da Secretaria de Planeja
sítios de trabalho conseguiram, inclusive com a ajuda de mento do Territorio de se construir uma hidroelétrica no
certos índios Kanomami, cultivar milho, feijão, banana e médio rio Mucajaí, utilizando a Cachoeira do Paredão. A
macaxeira. concorrência para a realização da obra está composta por 4
firmas, a Mendes Júnior, Enge-Rio, CONTRAN, COEMSA
Seus pontos de partida para os garimpos do Apiaú são as e a Sociedade Brasileira de Eletricidade S/A.
vilas de Mucajaí e Caracaraí, lugares de onde penetram na
área indígena por via fluvial e/ou a pé. Tudo indica que o projeto prevê a inundação de pelo menos
uma maloca Yanomami e da comunidade de Concha Velha.
Em 1983 a FUNAI, junto com a PF, tentou a evacuação dos (O projeto substituirá um outro, abandonado, ao longo do
garimpeiros, sem sucesso. No mesmo ano, a FUNAI foi in Rio Cotingo, que se tivesse sido construído, teria inundado
formada do falecimento de um dos garimpeiros brancos no boa parte da área dos índios Macuxi). Espera-se, portanto,
Apiaú, cuja morte não foi possível apurar mas que, segundo que o projeto seja amplamente discutido com todos os en
os índios Yanomami, resultou de conflitos entre os invaso volvidos, sobretudo com as comunidades atingidas, para
res e um grupo Yanomami ainda arredio, os Moxihatete. não ocorrerem injustiças irreversíveis.

92
s! Z> Acervo
_/\ | S A RORAIMA || 9

| Aconteceu
Projeto para criação com emenda. Em 10/04/85 foi apro
_GERAL de Reserva Mineral vado na Comissão do Interior o parecer
favorável do relator, Dep. Inocência Oli
Explicação da FUNAI Em outubro de 84 o deputado Marcio veira, com emenda e adoção da emenda
Santilli (PMDB-SP) apresentou um pro da CCJ. (PRODASEN).
O delegado da Funai em Roraima, Ubi jeto de lei (nº 04558) na Câmara dos De
ratan Tupinambá, recebeu com surpre putados propondo constituir a área indí
Sa, Ontem, as acusações do deputado gena Yanomami em reserva nacional de
João Fagundes, de que há negligência ouro, cassiterita e associados. Segundo a
por parte do órgão ao permitir a presen lei proposta a área constituída como re
YANOMAMI
ça de estrangeiros e de aviões nas reser serva nacional permaneceria interditada Apelo a Figueiredo
vas indígenas. Segundo o delegado, o até o término de sua demarcação e o
que existe na região “é a Meva, formada cumprimento de todas as providências Um apelo para que os índios yanomami
por religiosos brasileiros e americanos, previstas na portaria GM nº 025/82 do do Brasil sejam salvos do extermínio, e
mas autorizada pelo governo de Brasí Ministério do Interior, ficando proibi para que possam manter intactas suas
lia”. (ESP, 22/05/84). das as atividades de pesquisa mineral, características culturais tradicionais,
lavra, licenciamento, garimpagem, fais está contido numa carta que em breve
cação e cata, por pessoas físicas ou jurí chegará ao presidente João Figueiredo,
Convênio FUNAI/Secretaria dicas, públicas ou privadas. Com des Segundo comunicou ontem em Milão,
da Educação pacho inicial para as Comissões de na Itália, a “Survival Internacional”.
Constituição e Justiça, de Minas e Ener Além da carta a organização também
Para assinatura de um convênio desti gia e Finanças, no dia 27/11/84 a Co imprimiu um grande número de cartões
nado à educação indígena, esteve terça missão de Constituição e Justiça apro postais que serão entregues ao presiden
feira em Boa Vista o presidente da Fu vou o parecer do relator Jorge Arbage te da Itália, Sandro Pertini, solicitando
nai, Jurandy Marcos da Fonseca. Se pela constitucionalidade, juridicidade e que ele seja o portador de um apelo em
gundo Jurandy, por esse convênio o go técnica legislativa, com emenda. No dia favor dos yanomami perante as autori
verno de Roraima, através da Secretaria 11/03/85 o projeto entrou em tramita dades de Brasília.
de Educação, vai dar todo o apoio ao en ção na Comissão de Minas e Energia A carta foi redigida anteontem à noite
sino nas áreas indígenas. Outro convê avocado pelo Deputado João Batista Fa em Milão, depois de uma conferência
nio, na área de saúde, também está em gundes. (PRODASEN). organizada pela “Survival”, em colabo
estudos e dentro em breve será apresen ração com o Fundo Mundial para a Na
tada uma minuta que prevê o atendi tureza (WWF), durante a qual o padre
mento às comunidades indígenas por Projeto para definição italiano Carlos Zaquini (que há 15 anos
meio de um trabalho desenvolvido con vive entre os Yanomami) lançou um gri
de áreas indígenas
juntamente entre a Secretaria de Saúde to de alarma pelo destino deste povo da
e a Funai. Jurandy participou também Em setembro de 1984 o deputado Moza Amazônia brasileira. O padre Zaquini
de uma reunião convocada pelo gover rildo Cavalcanti (PDS-RR) apresentou disse que a chegada dos brancos àquela
nador Arídio Magalhães para a discus na Câmara dos Deputados o Projeto de região levou doenças, como a gripe e o
são sobre a Surucucus. O presidente da lei (Nº 04147) com despacho inicial para sarampo, devido às quais centenas de
Funai disse ainda que a convite do depu as Comissões de Constituição e Justiça, yanomamis morrem, já que não contam
tado Mozarildo Cavalcanti foi feita uma do Interior e do Indio. O projeto propõe com anticorpos específicos. (Correio
reunião com a Cooperativa dos Pecua a sustação de todos os trabalhos de iden Braziliense, 23/02/84).
ristas, onde foi abordado o problema re tificação, delimitação e demarcação de
cente ocorrido entre um fazendeiro e in todas as áreas pretendidas pela Funai no
dígenas da maloca da Raposa. Território de Roraima como terras indí Acordo para saúde
Revelou que se reuniu ainda na terça genas. Em contrapartida ele propõe a
feira com as comunidades indígenas e, constituição de uma Comissão para defi A Funai fez ontem acordo com entida
também a convite do deputado Mozaril nição destas áreas composta pelo Min des européias para promoção de um pro
do Cavalcanti, iria encontrar-se com as ter, Funai, CSN, INCRA, Governo do jeto de saúde na área dos índios yano
comunidades não índias interessadas, Território e prefeituras municipais, e mami, a se iniciar em março, com re
no caso os fazendeiros, com o que pre deputados federais do Território mem cursos de US$ 20 mil mensais, financia
tende evitar os conflitos. (Folha de Boa bros da Comissão do Indio. Em 27/11/ dos pelo Mercado Comum Europeu, du
Vista, 17/08/84). 84 foi aprovado na Comissão de Consti rante um ano, em medicamentos e equi
tuição e Justiça o parecer do relator, pamentos hospitalares.
Dep. Osvaldo Melo, pela constituciona
lidade, juridicidade e técnica legislativa,

93
=LAcervo
_A Eyes INDIGENAs No BRASIL/CED

Participam do projeto de saúde para os Segundo Alcida Ramos, “toda vez que risco de desaparecer, caso não seja de
índiosyanomamia CCPY e as entidades há uma campanha para maior proteção clarada “parque indígena” a zona que
estrangeiras “Medicins de Monde” e dos Yanomami, o deputado Mozarildo habitam. O religioso está efetivando um
“Aescolapius International”, além de procura difamá-la, com o objetivo de levantamento da situação dos Ianoma
antropólogos brasileiros e europeus. O que seu projeto, que propõe a reaber mi, e com ele apresentará um docu
projeto deverá realizar um trabalho de tura do garimpo de Surucucus com uti mento para ser assinado por autoridades
medicina preventiva, incluindo a vaci lização da mão-de-obra indígena, ofere internacionais, inclusive pelo presidente
nação dos índios e formação de pessoal cendo 20 por cento da produção à FU italiano. (ESP, 17/4/84).
paramédico. A Funai deverá enviar dois nai, seja aprovado pelo Congresso. Por
funcionários para acompanhar os traba trás dessa sua campanha, aparentemen
lhos da equipe de médicos brasileiros e te em favor dos índios, desconfiamos Santilli tenta barrar
europeus. (O Globo, 24/02/84). que existem outros interesses”. Alcida “o genocida”
destacou que esta não é a primeira vez
que o parlamentar critica o projeto, cujo O deputado Mozarildo Cavalcanti (PDS
Mozarildo ataca o Acordo convênio não tem nenhuma cláusula que RR) requereu ontem vistas do parecer
fale em experimento de novas medica que o relator da Comissão do Indio, de
A Funai foi acusada de celebrar convê ções nos índios Yanomami. putado Márcio Santilli (PMDB-SP),
nio com uma organização médica da A única inovação, segundo a professora, deu a respeito do projeto de lei nº 1.179/
França, permitindo que ela realize pes é a instalação de geladeiras que funcio 83 de autoria daquele parlamentar e que
quisas médicas entre os índios Yanoma nam à base de energia solar em alguns dá poderes ao Poder Executivo de auto
mi, e esta entidade estaria procedendo a pontos do Parque, destinadas à conser rizar a abertura e a exploração do ga
testes de drogas contra a malária nos sil vação de vacinas. Afirma, ainda, que rimpo de cassiterita na Serra das Suru
vícolas. A denúncia é do deputado Mo não existe vacina contra malária sendo cucus, em Roraima, em área dos índios
zarildo Cavalcanti (PDS-RR). testada entre a comunidade Yanomami. Yanomami. Márcio Santilli propõe o re
Na última reunião da comissão do índio, (Correio Braziliense, 10/04/84). torno do Projeto à Comissão de Consti
o deputado já alertara para o fato de que tuição e Justiça, considerando que ele foi
recebera denúncia da existência dessa aprovado por seus membros por desco
autorização sem que a mesma fosse sub FUNAI também nhecerem que se baseia em fato inverí
metida, como é norma, ao Congresso dico, ou seja, diz que garimpos se locali
Nacional. A Fundação Nacional do Indio também zam em áreas pretendidas pela Funda
Segundo o deputado, a droga que está contestou as denúncias do parlamentar. ção Nacional do Indio. Na verdade, os
sendo testada nos índios brasileiros é Em nota oficial divulgada ontem o órgão minérios estão, em região imemorial, re
uma vacina contra a malária. Como dro desmente as declarações de Mozarildo conhecidamente dos Yanomami. Se esse
ga nova, ela exige testes para conseguir Cavalcanti de que os Yanomami esta projeto chegar a ser aprovado em plená
sua homologação e lançamento no mer riam sendo usados para testes de medi rio “será o fim daqueles índios”, garante
cado, e os índios estão sendo utilizados camentos e de vacinas contra malária. O ,a indigenista Cláudia Andujar, coorde
criminosamente para isso. acordo firmado entre a Funai, a Medi nadora da Comissão Pela Criação do
Denúncias do deputado Mozarildo Ca cens du Monde, que é filiada à Aesco Parque Yanomami.
valcanti, foram contestadas pelo serta lapius International Medicins e a Co Mozarildo surpreendido com o parecer
nista Ubiratan Tupinambá da Costa, missão pela Criação do Parque Yano de Santilli pediu vistas antes que o seu
chefe da 10? Delegacia Regional da Fu mami, com respaldo financeiro do Mer projeto, conhecido como “genocida”
nai, em Roraima, afirmando que tanto o cado Comum Europeu, visa prestar as chegasse a ser votado pelos 19 membros
irmão do parlamentar, dentista Nilo Ca sistência médica e odontológica àquela dos 23 que compõem a Comissão do In
valcanti, como seu primo, o médico José comunidade, que inclui vacinação e trei dio, e que ontem compareceram àquela
Pereira de Melo, ambos da Funai, po namento de pessoal médico e paramé sessão. Eles se reunirão, novamente, na
dem atestar que tudo não passa de boa dico com o acompanhamento de técni próxima quarta-feira para deliberar a
tos. (Jornal de Santa Catarina, 07/04/ cos do órgão. (Correio Braziliense, 10/ respeito. •

84). 04/84). Santilli acredita que a Comissão de


Constituição e Justiça vai rever sua deci
são, apesar do Regimento Interno rezar
Antropóloga nega Missionário denuncia que não cabe a qualquer comissão ma
nifestar-se sobre a constitucionalidade
denúncia de Mozarildo genocídio
da proposição, contrariamente ao pare
A denúncia do deputado Mozarildo Ca O missionário italiano Carlo Zacquini, cer que ela der, por concluir que há um
valcanti de que os índios Yanomami es que vive com os Ianomami desde 1965, fato novo, que é a informação de que as
tão servindo de cobaias para a organiza denunciou ontem — em entrevista à re terras são dos Yanomami. (Jornal de
ção internacional Medicins du Monde vista Panorama — que está sendo come Brasília, 15/06/84).
foi contestada ontem pela professora de tido um genocício contra aquela tribo,
antropologia da UNB, Alcida Ramos, em conseqüência de decretos governa
pertencente também à CCPY, que con mentais que permitem a invasão de suas O nacionalismo
siderou “mais uma calúnia do deputado terras. Zacquini acrescentou que os de Fagundes
contra um projeto sério de saúde que se 8.500 Ianomami que vivem em Roraima
vem fazendo na área indígena”. “O de formam o mais importante grupo indí O Deputado do PDS de Roraima, João
putado”, advertiu a antropóloga, “a gena brasileiro, conservando as tradi Batista Fagundes, apresentou projetos
continuar com estas calúnias terá de ções de seus ancestrais. Mas correm o de-lei na Câmara dos Deputados, em
provar suas acusaçõesjudicialmente”. Brasília, tornando obrigatória a nacio
nalidade brasileira para quem pretenda

94.
RORAIMA Il 11

exercer qualquer atividade no meio das com 9 milhões 419 mil hectares, num território seja concretizada, através da
comunidades indígenas. Segundo o de perímetro de 3.071 quilômetros, distri criação de um parque indígena amplo e
putado, o Artigo 47 do Estatuto do in buídos pelos municípios de Boa Vista, contínuo”. A criação do parque mere
dio, em consonância com o novo Esta Alto Alegre, Macajaí e Caracaraí, em ceu parecer favorável de uma missão es
tuto dos Estrangeiros, prevê essa obriga Roraima e Santa Isabel do Rio Negro, pecial que visitou aquela área indígena.
toriedade, e João Fagundes quer que São Gabriel da Cachoeira e Barcelos, no A comissão foi integrada por represen
seja disciplinado o abuso que hoje se ve Amazonas. O parque terá 11 postos da tantes do Conselho de Segurança Nacio
rifica em Roraima, onde os estrangeiros Funai e 8 missões. O parque abrigará as nal, Serviço Nacional de Informações e
(missionários e aventureiros), arvo nações Ianomami e Iecuana (Màion Departamento de Segurança e Informa
rando-se no direito de fiscalizar, impe gong). A população Ianomami é esti ção do Ministério do Interior e Funai.
dem o livre trânsito de brasileiros nas mada em 9.000 índios e a Iecuana em (FSP, 7/10/84),
áreas indígenas, contrariando o direito 250 pessoas. A área Ianomami é rica em
de locomoção assegurado pela Consti ouro, cassiterita e minérios radioativos
tuição para os brasileiros, dentro do ter e, por esta razão, são contínuas as inva Semana Yanomami
ritório nacional. sões de garimpeiros. (FSP, 15/9/84). em Turim
O Deputado João Fagundes, que se vem
caracterizando por constantes denún Uma semana de Solidariedade aos índios
cias contra a ação da Igreja nas comuni Nota da SBG ianomamis está marcada para a segun
dades indígenas, também denunciou a da semana de dezembro, em Turim, Htá
tentativa de criação de uma Nação Indí A Sociedade Brasileira de Geologia en lia, segundo informa o jornal “La Stam
gena dentro da própria Nação Brasilei viou a todos os membros da Comissão do pa”, daquela cidade. O encontro reuni
ra, o que considera um verdadeiro aten Indio no Congresso Nacional um tele rá estudiosos e especialistas ligados à
tado à integridade e à integração nacio grama com o seguinte texto: “Tomando sobrevivência física e cultural dos ín
nal. (O Dia, 28/06/84). conhecimento da próxima votação do dios.
projeto de lei nº 1.179, relativo à aber O interesse por estudiosos de Turim pela
tura dos garimpos de cassiterita em Su Amazônia intensificou-se na década de
Bispo denuncia invasão rucucus, Roraima, esta sociedade e a co sessenta, com a realização de expedi
munidade que ela representa vêm mani ções, que reuniram uma farta documen
O bispo de Roraima, dom Aldo Mon festar sua oposição a tal medida. A aber tação sobre a luta dos indígenas pela so
giano, denunciou que 400 garimpeiros tura dos garimpos, além de desnecessá brevivência. Fotos, filmes, livros e re
invadiram a área dos índios Ianomami ria e inoportuna, significa o comprome portagens foram realizados sobre a rea
através do rio Apiaú, colocando em risco timento cívico e cultural da nação Yano lidade dos indígenas em confronto com a
a vida dos indígenas, muitos ainda sem mami. Desse modo, a posição dessa so abertura de estradas e outras atividades
nenhum contato com brancos, ameaça ciedade é no sentido de que os referidos que modificam o meio ambiente.
dos por epidemias e conflitos. Ontem, o depósitos minerais devam constituir re Durante a semana de solidariedade aos
problema foi levado ao presidente da serva nacional associada à área indígena Ianomamis, que tem o apoio da prefei
Funai pelos dirigentes da comissão para Yanomami e deverá permanecer interdi tura de Turim, será realizada uma expo
a criação do Parque Ianomami. Ficou tada até o final de sua demarcação, sição de milhares de fotografias e peças
decidido que a Funai implantará um quando, então, poderá ser explorada, de de artesanato indígena. A exposição está
posto de vigilância no rio Apiaú, para acordo com o artigo nº 44 do Estatuto do sendo preparada pelo padre Silvano Sa
controlar a entrada de novos garimpei “Índio”. (Correio Braziliense, 17/09/ batini. (FSP, 06/11/84),
ros, e a Polícia Federal retirará os que já 84).
estão no local. Na carta que enviou à
Funai, o bispo afirma que já se registra “Parque é manobra
ram mortes entre brancos e índios Mo
estrangeira”
xilhateteme (grupo Ianomami ainda não Lévi-Strauss pede
contatado). Segundo a denúncia, no dia criação de Parque A criação do Parque Yanomami, com
11 de julho, um garimpeiro roubou o uma área de nove milhões de hectares,
ouro e atirou nos índios que o acompa Uma petição assinada pelos antropólo visa apenas atender a uma misteriosa co
nhavam como caçadores. O bispo afir gos Claude Lévi-Strauss e Jacques Sous missão presidida por uma senhora es
ma que os índios estão revoltados e or telle, da Academia Francesa, e mais 44 trangeira, numa ação alienígena que de
ganizando vingança. (ESP, 14/8/84). membros da comunidade científica in seja, através de uma falsa defesa da cau
ternacional, foi encaminhada ao presi sa indígena, ludibriar a consciência na
dente Figueiredo, pedindo a criação do cional para obter a posse de riquezas na
FUNAI encaminha Parque Indígena Ianomami. No docu turais, principalmente minério da Ama
mento, os cientistas afirmam: “É com zônia.
ao “grupão” extrema preocupação que vimos acom A denúncia foi feita esta semana pelo
O presidente da Funai anunciou ontem panhando nos últimos anos a situação deputado Mozarildo Cavalcanti (PDS
sua decisão de encaminhar ao “grupão” dos Ianomami vítimas de graves epide RR), que também denunciou a existên
(Conselho de Segurança Nacional, Mi mias e repetidas invasões de seus terri cia de pressões internacionais para levar
nistério do Interior e Funai), a proposta tórios... Considerando os perigos do in O governo venezuelano a adotar seme
de criação do Parque Indígena Iano definido prolongamento de uma situa lhante medida na sua área de fronteira
mami. Em 1981, o Conselho de Segu ção legal tão precária, apelamos no sen com Roraima, o que resultaria na cria
rança deu parecer favorável à criação do tido de que a demarcação definitiva do ção de um grande país Yanomami, des
parque. A nova proposta da área Iano caracterizando-se as fronteiras brasi
mami sugere um território contínuo, leira e venezuelana.

95
s! Z_ Acervo
_/\ | @ ºs INDÍGENAs NO BRASIL/CED
“Criando-se o parque, futuramente a denúncias vão mais além, e incluem o conhecida. Segundo Marabuto, o dele
nação Yanomami pela voz dos que se caso de uma índia de catorze anos, que gado, além de tirar férias em meio a um
autoproclamam seus defensores, estabe foi “comprada” por um rádio e um reló problema grave, o fez sem comunicar os
lecerá convênios com os países desenvol giovelho para ser prostituta no garimpo. ébitos. (JB, 03/01/85).
vidos para a exploração de suas riquezas O bispo e o padre pedem que seja criado
minerais com o objetivo de promover o um posto de fiscalização da Funai no rio
seu “desenvolvimento”. (A Crítica, 30/ Apiaú. (FSP, 6/12/84). Readmitido
11/84),
Sebastião Amâncio da Costa, depois de
Doença já matou dez 4 ou 5 dias foi reconduzido ao cargo de
Fagundes quer delegado da FUNAI em Boa Vista, de
liberar o Apiaú Uma epidemia ainda não identificada, pois que o presidente Nelson Marabuto
que mata em 72 horas, depois de febre, avaliou melhor as circunstâncias da sua
“Em Roraima pretendo diminuir essa dores no corpo e na cabeça, está atin exoneração, com informações colhidas
imensidão de terras que estão bloquea gindo os índios yanomami, de Roraima, em Roraima. (Folha de Boa Vista, 18/
das a qualquer atividade econômica. nas áreas invadidas por garimpeiros de 01/85).
Acho de inteira justiça, por exemplo, Mato Grosso do Sul. Até agora dez pes
deixar de fora da reserva o garimpo soas já morreram, inclusive duas crian
Apiaú, onde existem 3 mil garimpeiros e ças, e trezentos índios do subgrupo tisi FUNAI formaliza
nenhum índio num raio de 150 km”. poratheri pediram socorro ao posto de proposta do Parque
Quem falou isso foi, nada mais nada me atendimento da Funai, na serra das Su
Através da Portaria nº 1817/E de 08/
nos, que o deputado malufista João Ba rucucus. Os índios doentes, sem exce
tista Fagundes (PDS-RR) — porta-voz ção, haviam entrado em contato com ga 01/85, o Presidente da Funai reconhe
dos setores antiindígenas do Território rimpeiros de Mato Grosso do Sul que ceu “para efeito de apreciação” do cha
de Roraima — em entrevista ao jornal invadiram as áreas dos rios Uraricaá e mado “grupão” (Grupo Interministe
Folha de Boa Vista, em 2 de novembro. Apiaú. A denúncia foi feita ontem por rial) os limites do Parque Yanomami
Criado somente no papel pela Funai, o Cláudia Andujar, coordenadora da com superfície aproximada de 9.419.108
posto de vigilância de Apiaú tem a fun CCPY. Um grupo yanomami, conheci ha.
ção de fiscalizar e impedir o acesso de do por opketeri, “fugiu para a mata com
garimpeiros à área dos Yanomami. En medo da doença, mas alguns deles da
tidades de apoio à luta dos índios tentam vam mostras de ter contraído a infec Invasão de Surucucus
concretizar, na prática, o real funciona ção”.
mento deste posto. Muitos problemas já No último dia 22, a Funai deslocou uma No aeroporto internacional Eduardo
começam a aparecer com o garimpo de equipe médica para a região de Surucu Gomes, Marabuto voltou a mostrar-se
Apiaú. Exemplo: na cidade de Mucajaí, cus, local de maior concentração popu surpreso com o ineditismo da operação
há um surto de malária, levado ao Apiaú lacional dos yanomami, para tentar militar na invasão da serra de Surucucu,
por garimpeiros que ali se abastecem. identificar a doença. Informa ainda onde encontram-se 60 homens forte
Alguns Yanomami que tiveram contato Cláudia Andujar que a Funai não conta mente armados, e disse que atos como
com esses garimpeiros também contraí com recursos financeiros suficientes pa este devem preocupar não somente a
ram malária: os da área da Missão Ca ra o atendimento dos índios e despejo FUNAI como o próprio sistema de segu
trimâni foram os mais atingidos pela dos garimpeiros invasores. rança pública, o Conselho de Segurança
doença. Em vista disso, a Missão Catri A invasão dos garimpeiros, denuncia Nacionale as Forças Armadas.
mâni pediu ajuda à Funai para poder Andujar, começou há um mês, quando Ele revelou que os invasores não foram
enfrentar melhor a situação. Outro pro “cinco mil pessoas aliciadas por um in inteligentes ao ponto de neutralizarem a
blema: dia 11 de julho pp. o garimpeiro divíduo conhecido por “Pavão”, de Mato estação de rádio SSB do posto da FU
conhecido como Negão roubou o ouro do Grosso do Sul, começaram a chegar a NAI em Surucucu, o que permitiu con
índio Yanomami Adriano Hewenahlipi Santa Rosa, no rio Uraricaá e na região tatos sistemáticos com a área.
theri, atirando ainda em suas costas. Confirmou a prisão do fazendeiro Altino
do rio Apiaú, onde outros quatrocentos
(Porantim, dez. 84). Magalhães que prestou depoimento em
garimpeiros já haviam invadido a área”.
Eles procediam de um garimpo desati inquérito instaurado na Divisão da Polí
vado por ordem do governo, e a invasão cia Federal em Boa Vista, à tarde, de
Bispo faz nova denúncia da área Yanomami conta com o apoio de quinta-feira, e assegurou existir “um
deputados federais de Roraima. (FSP, apoio político-empresarial evidente, e o
D. Aldo Mongiano, bispo da Diocese de 01/01/85). envolvimento de gente com vínculos po
Roraima, e o padre Guilherme Damioli, líticos em Manaus e Boa Vista”, citando
responsável pela missão Catrimani, dis entre outros a vereadora Maria de Lour
tribuíram nota em que denunciam a in Marabuto demite Amâncio des Pinheiro em cuja fazenda a Polícia
vasão de garimpeiros na área indígena Federal conseguiu reter cinco aviões que
Yanomami, na região do Rio Apiaú. Có O presidente da FUNAI, Nelson Mara deveriam levar mais 30 seringueiros para
pia do documento foi enviada ao minis buto, demitiu ontem o chefe da 10° DR, Surucucu, e o ex-governador de Rorai
tro do Interior, Mário Andreazza, que sediada em Boa Vista, por ele não ter ma, Brigadeiro Ottomar de Souza Pin
interditou a área Yanomami, e às diver comunicado à direção do órgão a morte to, interessado segundo denúncia do de
sas entidades. Eles denunciam proble dos yanomami vítimas da epidemia des putado federal Mozarildo Cavalcante
mas causados aos índios pela presença (PDS-RO) em voltar ao Poder através de
dos garimpeiros, inclusive o atentado ampla mobilização iniciada com o pro
contra o índio Adriano Hewenahipi cesso de invasão. (A Crítica, 16/02/85).
theri, baleado por um garimpeiro. As

8E
*_ --Acervo
_/\ _> A
RORAIMA || 13

“Invasão para Uma comissão de garimpeiros, eleita na médico e um enfermeiro da CCPYacom


desestabilizar o governo” reunião realizada em praça pública, ten panhados por três assessores da CCPY
tou uma audiência com o governador do atuaram na área.
A tentativa de ocupação de parte do ter Território de Roraima, Arídio Martins, Dando prosseguimento à atuação na
ritório da nação Yanomami, no Territô para pedirem o seu apoio na invasão de área, uma parte da equipe foi deslocada
rio de Roraima, por cerca de mil garim Surucucu, mas não foram atendidos. O para o Posto do Paapiú (região da Serra
peiros comandados por Altino Macha governador não recebeu a comissão e ne Couto de Magalhães), para debelar um
do, tem um fundamento político com a gou-se a dialogar com os garimpeiros. surto de gripe (conforme comunicação
finalidade de desestabilizar o futuro go O contingente de soldados da Polícia via rádio, do chefe de Posto) e foi cons
verno local, conforme admitiu ontem, Militar do Território que está em Suru tatada uma epidemia de gripe associa
em Manaus, o deputado federal Moza cucu, com o Delegado da FUNAI Ma da, em alguns casos, à malária e alguns
rildo Cavalcanti, para quem “o clima de noel Amâncio, tenta negociar a retirada casos de suspeita de blenorragia. Na
insegurança que está sendo criado vai dos 60 garimpeiros que ficaram retidos e ocasião, foram diagnosticados e trata
inviabilizar o encaminhamento político sem alimentos. Eles estão fortemente ar dos 37 casos de gripe, 65 casos de gripe
para um governo civil em Roraima”. mados e não querem se retirar pacifica com superinfecção brônquica, 20 casos
Para Mozarildo Cavalcanti, Otomar de mente. O Delegado da FUNAI espera a de suspeita de blenorragia, 10 casos de
Souza Pinto, é o mentor intelectual da chegada do presidente de seu órgão, malária, 13 casos de impertigo/ferimen
tentativa de ocupação da área indígena, Nelson Marabuto, para tentar resolver o tos cutâneos, 30 casos de problemas gas
com o objetivo de desestabilizar os en impasse. (A Crítica, 18/02/85). trintestinais.
tendimentos entre o PMDB e a Frente Em Surucucus, desenvolveu-se um tra
, Liberal para a indicação do novo gover balho médico propriamente dito (con
mador do Território que seria um civil. Garimpeiros prometem sulta/tratamento), e iniciou-se uma en
Como o ex-governador não tem condi nova invasão quete epidemiológica sobre sarampo, té
ções de retornar ao governo e nem de in tano, poliomielite (grau de imunização,
dicar um candidato — disse o deputado Depois de 67 deles terem sido mandados porcentagens da população, faixas etá
— tenta criar um impasse para trazer à de volta da Serra de Surucucus, cerca de rias, etc.), com a finalidade de avaliar
baila a questão da área de segurança na300 garimpeiros, vindos de diversos pon o estado atual de imunização da popu
tos do País, reuniram-se em frente ao
cional, inviabilizando a indicação de um lação da área e facilitar a programação
governador civil pela Aliança Democrá Palácio 31 de Março, numa manifesta das futuras campanhas de vacinação.
tica, para substituir o atual governador ção pacífica que visava a abertura do ga Também foi efetuada uma enquete epi
Arídio Martins. rimpo, na reserva indígena Yanomami, demiológica sobre oncocercose, consta
Ontem em Manaus, de passagem para e a solidariedade a José Altino Macha tando-se uma alta prevalência da mes
Boa Vista, Mozarildo Cavalcanti voltou do, preso na Penitenciária Agrícola de II13.
a defender a exploração dos minérios da Boa Vista desde a noite de sábado, 16, No final do ano, a FUNAI incumbiu a
serra dos Surucucus de maneira orde acusado de perturbar a ordem pública, CCPY/MDM de atender os Yanomami
nada, de formas a beneficiar o Território “como principal responsável pela inva — Tisiporatheri, durante um surto de
de Roraima e garantir também a inte são coletiva na reserva Yanomami”. En uma doença virótica de origem desco
gridade dos índios Yanomami. Ele disse quanto isso, um representante dos ga nhecida que os vitimou na região de Su
que, inclusive, já apresentou projeto à rimpeiros discutia com o governador rucucus. Em dezembro, durante uma
Câmara dos Deputados, que já foi apro Arídio Martins de Magalhães a situação reunião de saúde em Boa Vista, entre a
vado em três comissões. (A Crítica, 16/ destes em Roraima. Como as conversa FUNAI e a CCPY, discutiu-se a forma
02/85). ções não tiveram o resultado esperado º ção de uma subcoordenação para aten
pelos garimpeiros, ficou decidido por der os Yanomami, composta de dois re
estes que o garimpo deve ser invadido presentantes da FUNAI (um da 1° DR
Retirada dos garimpeiros novamente. (Folha de Boa Vista, 15 e e outros da 10° DR) e um da CCPY,
22/02/85). cobrindo as áreas Yanomami de Rorai
Notícias chegadas de Roraima dão conta ma e do Estado do Amazonas.
de que a situação está sobre controle. O Ainda em 1984, concomitante com o
governador do Território, a pedido da Convênio de saúde trabalho médico, foi efetuado um rela
FUNAI, colocou a Polícia Militar na tório de saúde de 80 páginas, produto do
Serra das Surucucus, com auxílio de um Durante o mês de fevereiro, reuniram
Projeto Piloto de 1983, juntando dados
Búfalo da Força Aérea Brasileira. se em Boa Vista, a Comissão pela Cria de saúde e da situação da terra nas seis
Os garimpeiros que ficaram em Boa Vis ção do Parque Yanomami, Médicine e a áreas visitadas(Boas Novas/Ericó, Cou
ta, depois que a invasão foi abortada Fundação Nacional do Indio. CCPY/ to de Magalhães, Surucucus, Mucajái e
com a denúncia de “A Crítica”, inicia MDM/AIM juntamente, elaboraram Agarani (em RR) e Aracá (no AM). Há
ram um movimento em frente ao monu um projeto interdisciplinar de saúde a também um trabalho sobre a interpre
mento em homenagem ao garimpeiro, partir de recomendações que haviam fei tação tradicional das doenças entre os
exigindo a abertura do garimpo de Su to à FUNAI em 1983, no término do Pro Yanomamielaborado por Bruce Albert,
rucucu. Faixas, cartazes, com palavras jeto Piloto de Saúde. antropólogo que fazia parte das equipes.
de ordem do tipo, “Estamos com Fome, O novo Projeto, aceito pela FUNAI com (Cláudia Andujar, da CCPY, especial
a Solução é Surucucu”, estão espalha duração inicial de 2 anos, visa dar conti para o Aconteceu).
das por quase toda a cidade. nuidade à vacinação, elaboração de fi
chas individuais e de manuais de saúde e
ao levantamento de dados em relação a
questão da terra Yanomami. Em 1984,
3 médicos e uma dentista da MDM, um

97
nhado à FUNAI, referente “aos proces 5. Efetivamente, coroando toda essa
sos de declaração de nulidade dos Alva trama contra esses povos indefesos, ja
rás nºs 459, 460, 461, 462 de 31.01.79, mais consultados para qualquer ativi
Balbina ameaça Reserva instaurados por este Departamento por dade e penetração no seu território ime
interferência na reserva indígena.—Ter morial, a 23.11.81, o Presidente da Re
A hidrelétrica de Balbina, cujo funcio ritório dos índios Waimiri/Atroari.” pública, João Figueiredo, assina o De
namento está previsto para 1988, inun Essa atitude correta do Sr. Diretor Geral creto 86.630. Esse Decreto, contrarian
dará todo o território tradicional da con
do DNPM, pretendia corrigir um erro e do toda a tradição da Legislação Indi
federação indígena Waimiri-Atroari, no restituir a justiça para os índios. Mas genista brasileira, muda o “status” jurí
norte do Amazonas e sul de Roraima. A teve encaminhamento favorável ao Gru dico da Reserva Waimiri/Atroari,
denúncia foi feita esta semana pelo mis po Paranapanema, porque a própria di transformando-a em “área temporaria
sionário Egidio Schwade, através de do reção da FUNAI na época, como tutora mente interditada”, um instrumento le
cumento enviado às entidades interna infiel do patrimônio dos índios, advogou gal, fantasma, ou nem sequer existente
cionais de defesa aos índios. a causa da Empresa, contra a opinião do na legislação do país. E para atender ex
No documento, o missionário afirma DNPM. plicitamente os interesses da Paranapa
que a simples presença de trabalhadores Temos a certeza que essa documentação nema, desmembrou da Reserva Waimi
da Eletronorte (empresa encarregada da está em mãos do DNPM, a menos que ri/Atroari, toda a região a que se refe
construção da hidrelétrica) “empurrou alguma ação ou fogueira criminosa a te rem os alvarás acima citados, onde a
os índios para fora de seu habitat e ne nha destruído. Além desse, muitos ou Empresa já estava atuando ilegalmente.
nhum levantamento antropológico ou tros documentos da FUNAI, DNPM e da Numerosos documentos podem ser exi
etnológico sério foi feito para determi própria Paranapanema evidenciam a bidos pela FUNAI DNPM, CIMI, Equi
nar se há índios e quais os lugares que sua ação em terra indígena. Relaciona pe de Pastoral Indigenista da Prelazia de
eles mais freqüentam para caçar e pes mos alguns que o DNPM sempre precisa Itacoatiara, e outras entidades, que
car, enfim, qual a sua dependência da ter presente na sua atividade na região comprovam a política desonesta que foi
área a ser inundada”. (FSP, 30/09/84). do Rio Pitinga: destruindo o patrimônio, as condições
1. O Decreto nº 68.907 de 13/07/71 de vida e a própria vida dos índios Wai
que cria a reserva Waimiri/Atroari. O miri/Atroari, visando o favorecimento
DNPM rebate CIMI memorial descritivo e os mapas que o de Mineradoras, especialmente da Para
acompanham incluem na reserva Wai panema. Só para quem considera as re
O diretor do 8º Distrito do Departa miri/Atroari, a área onde atua hoje a servas indígenas “nichos de vazios de
mento Nacional de Produção Mineral, Mineração Taboca S/A (Paranapa mográficos negados ao Brasil”, e não a
DNPM, José Belfort Bastos, refutou nema). terra-mãe de povos com direitos iguais a
acusações feitas pelo Cimi e a equipe de 2. Os Alvarás de 31/01/79 — supra ci nós mesmos, tem a audácia de ainda de
indigenistas da prelazia de Itacoatiara tados —, do DNPM concedem à Timbó fender uma política colonialista, viola
sobre as ameaças que pesam sobre a re — Indústria de Mineração Ltda. — hoje dora das leis do País e da mais elementar
serva dos waimiri-atroari, em vista da Mineração Taboca S/A, autorização justiça. Gostaríamos que o Sr. José Bel
invasão das terras por empresas para a para “pesquisar cassiterita em terrenos forte todos quantos pensam como ele,
exploração mineral. Ele afirma “desco devolutos” do Município de Novo Airão. tivessem também a “audácia” de pedir
nhecer as entidades, sem qualquer auto Acontece que esses terrenos não eram para as suas famílias as desgraças que
ridade para chamar a si o direito de opi devolutos, mas pertencentes à Reserva semelhante mentalidade trouxe para as
nar sobre legislação mineral”. Cita o de Waimiri/Atroari. famílias Waimiri/Atroari nos últimos
creto 86.630, do presidente da Repúbli 3. Por isso, em 02/04/80 o DNPM atra quinze anos.
ca, criando a reserva waimiri-atroari, no vés do Diário Oficial da União, intima a Se as reservas indígenas são “nichos de
qual o DNPM se apóia, segundo Belfort Paranapanema S/A a apresentar sua vazios demográficos negados ao Brasil”,
Bastos, para impedir a invasão da re defesa em processo de nulidade dos Al o que dizer do império da Paranapa
serva. (FSP, 02/10/84). varás que concedera, “face à informa nema, que se estende por diversos esta
ção da FUNAI, de que as pesquisas es dos brasileiros (inclusive por outras
tariam sendo desenvolvidas, em 80% em áreas indígenas como a dos Tenharim,
Paranapanema lavra mineração terras indígenas.” no Igarapé Preto), todo mantido sem
dentro da Reserva 4. E em 03/10/79, a FUNAI deu conhe que o povo brasileiro tenha livre acesso
Waimiri-Atroari cimento ao DNPM pelo “Of. nº 042/ às áreas onde atua, para saber como se
GAB das medidas tomadas no sentido originou, para onde transporta a nata de
Em entrevista publicada num jornal lo da paralisação das atividades da Mine nossa matéria-prima, a que preços e
cal, o Sr. José Belfort, Diretor Regional radora na área indígena” e que estava quem são os reais favorecidos.
do DNPM — Departamento Nacional promovendo a anulação dos supra-cita
de Produção Mineral — contestando o dos alvarás. Mas, em seguida, a FUNAI Itacoatiara, 21 de setembro de 1984
CIMI declarou que a “Paranapanema e o Ministério do Interior iniciaram uma Movimento de Apoio à Resistência Wai
lavra a mineração fora de qualquer área trama contra a reserva Waimiri/Atroa miri/Atroari
indígena”. ri, que incluem instruções técnicas forja Equipe indigenista da Prelazia de Ita
Para auxiliar a memória do Sr. José Bel das, exposições de motivos, e minutas de coatiara e
fort, lembramos o Ofício nº 01750 de decreto visando extingüir a reserva Wai CIMI de Itacoatiara.
15/09/81, do Diretor Geral do DNPM, miri/Atroari. Assim, por exemplo, duas
Sr. Ivan Barretto de Carvalho, encami instruções técnicas cujo autor é o Coro
nel Claudio Pagano, Diretor do Depar
tamento Geral do Patrimônio Indígena,
com o mesmo número de ordem e a mes
ma data tem conteúdo diferente.

98
|

Waiãpi

AMAPÁ/NORTE
DO PARA

99
–/ #%
* | S. A INDÍGENAS NO BRASIL/CEDI

3 + AMAPÁnoRTE Do PARÁ

\, GUIANA
SURINAME A FRANCESA

ALENQUER MONTE
ALEGR

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>> s<> |-

100
AMAPÁ/NORTE DO PARÁ 3

QUADRO GERAL DOS POVOS INDÍGENAS DA ÁREA AMAPÁ/NORTE DO PARA


Nçº NO N@ DE AT_DETAS OU
NOME DAS ALDEIAS POPULAÇAO FONTE E DATA
---- **i

POVO MAPA NOME DA ÁREA MUNICÍPIO

AP) Oliveira/
PALf KUR
}
RI do Uaça
-

Oiapoque (AP)

6 56° AJATO: 84

GALIBI DO UAÇÃ 2 idem idem } 878 |idem

KARIPUNA 3 idem idem 5 300 idem


GALIBI/ &l minã idem •

UNA • AI do JUmina 2 75 idem

GALIBI 5 AI Galibi idem 1 {36 idem

Vila Nova • i ^>


KAREPUNA 6 do Taparabu idem 1 32 LC#IT!

AI Amapari Macapá/Mazagão 6 255 Gallois: 85


WAIÃPI 3 PI Tumucumague Almeirim (PA) ll idem

9 isolados idem 40 Oliveira: 83

10 PI TuTucumaque idem 213 ||Van Velthem: 84


WAYANA-APARAÍ
ll AT Rio Paru de Leste lidem 68 idem

TIRTYÓ/ Óbidos, VEur)


|KAXUYANA 12 |PT TUTITUCUmaque Almeirim 1 (} ººº velthem:35

WALWAI L3 AI Nhamundá Oriximiná } 705 MICEB: 82

HiXKARYANA 14 idem Fal_C l 308 Almeida: 81

KAXUYANA 15 idem idem l 24 idem

Arredios 15 Rio Cuminapanema doidos,


Oriximina
•+ 3 ? MNTB: 84

+ • Alto Rio Trombetas e ==

Arredios 17 UruCara 3 ? Baines: 83


afluentes

101
S INDÍGENAS NO BRASIL/CED

NOTÍCIAS
DE OLAPOQUE
o andamento das pendências das demarcações
e uma avaliação do papel da AJAIO

Frederico M. de Oliveira (*)

D (nº 3, da série POVOS INDÍGENAS NO BRASIL/


esde a publicação do volume Amapá/Norte do Pará Para agilizar a homologação, os índios querem que sejam
redemarcados os dois pontos que foram erradamente ex
CEDI), ocorreram algumas novidades no que diz res cluídos na demarcação de 1979: amarrar o marco situado
peito à definição e complementação da tramitação jurídica dentro da área do aeroporto de Oiapoque, ao limite noroes
das terras indígenas da região de Oiapoque, relatadas a se te da Reserva e, sobretudo, incluir o Lago Lençol, situado
gtulr. próximo ao Igarapé Taparabu. A inclusão desses trechos é
reivindicada pelas comunidades há seis anos,
Redemarcação da Em 1984, 40 Karipuna participaram da aviventação de li
Reserva Indígena do Uaçá mites da Reserva, colocando 51 placas indicativas do MHN
TER/FUNAI, de dois em dois km, ao longo do trecho da
Em agosto e setembro de 1983, os Karipuna iniciaram a re Reserva cortado pela BR-156 e no interior das picadas do
demarcação dos limites sul e oeste da Reserva do Uaçá, Km 64 e 112. O apoio logístico para esse trabalho foi for
abrindo duas picadas para atingir as cabeceiras dos rios Cu necido pela AJAIO e pela Prefeitura de Oiapoque. Essa me
ripi e Uaçá. Delimitaram assim uma área que inclui as nas dida fazia parte do “Termo de Compromisso GTFA/Comu
centes dos três rios que formam a reserva, com cerca de nidades Indígenas" assinado em 1980. A AJAPO tentou re
14.000 ha, passando a se denominar Uaçá II. Desta primeira solver, no decorrer de 1984, algumas pendências relativas
fase dos trabalhos participaram também agrimensores da 2° ao compromisso, por parte do Governo do Território, de in
DR/FUNAI e do INCRA e funcionários da AJAIO, unidade denizar 592 km de madeira extraídos da reserva para a
da FUNAI que forneceu apoio logístico para a demarcação. construção de pontes, no valor de cerca de 23 milhões dê
Faltou abrir uma picada que ligue as duas linhas abertas cruzeiros. Falta ainda indenizar os índios pela faixa de terra
pelos índios, fechando assim a demarcação do Uaçá II. Para da rodovia, no valor de 307.000 cruzeiros. Até agora, o
isso, os índios estão aguardando a designação de um topó GTFA não demonstrou interesse em saldar essa dívida, cu
grafo. Terminados os trabalhos de demarcação física, a área jas negociações pela passam pela AJAXOe 2º DR/FUNAI.
do Uaçá II poderá ser anexada à área do Uaçá I. Uma alter
nativa para a anexação dessa área seria, conforme sugestão Do termo de compromisso de 1980 consta também a im
da AJAIO aprovada pelos índios, a sua “aquisição a preço plantação de Postos de Fiscalização ao longo da BR-156. O
simbólico "junto ao INCRA (Oliveira: 1984 e Paulo Orlando primeiro, no km 70, funciona há três anos e se transformou
Fº: 1984). numa aldeia Karipuna. O segundo, está sendo implantado
à altura das cabeceiras do Rio Uaçá, no local denominado
A área denominada Uaçá I corresponde à Reserva parcial Tuka-y pelos Galibi que ali se transferiram, Com o incre
mente demarcada em 1979 que os índios querem ver homo mento da garimpagem no Rio Cassiporé, cujas águas já es
logada, uma vez que a demarcação física não foi acompa tão poluídas, os índios têm intensificado incursões nos limi
nhada de decreto. Em resposta a uma carta das lideranças tes da Reserva, para fiscalizar a entrada de invasores.
do Oiapoque reunidas em Kurmenê, o presidente da FU
NAI, Jurandy M. da Fonseca, informou que a Reserva do Por outro lado, como ocorre em todas as áreas indígenas da
Uaçá não fora ainda homologada porque falta finalizar sua região Amapá/norte do Pará, os índios do Uaçá — sobre
demarcação e que o acréscimo do Lago Lençol deveria ser tudo Karipuna — estão explorando o ouro nos igarapés e
submetido ao “Grupão", instituído pelo dec, nº 88.118/83, nas cabeceiras do Rio Curipi. Trabalham manualmente, em
regime de mutirão, repartindo o ouro no final do trabalho.
Têm mantido certo sigilo sobre esta atividade, a fim de não
(*) chefe da AJATO/FUNAI, em Oiapoque (AP).
atrair garimpeiros que transitam pela BR-156. A atividade

102
s! Z> Acervo
_/\ _> A AMAPA/NORTE DO PARÁ 5

#::: Aldeia Galibi/Karipuna


do Juminá (AP).

===-- *#

é desenvolvida sobretudo pelos jovens, supervisionados pelo O GT verificou que não há incidências de posses na área
Seu Henrique, chefe da aldeia Km-70. Ninguém assume a requerida pelos índios. Os direitos alegados pela fazendeira
garimpagem como atividade permanente, mas é vista como já haviam sido desmentidos anteriormente, por ocasião de
uma fonte de recursos complementar, alternativa às saídas uma entrevista entre a representante dos Galibi, Luíza Nu
periódicas para a Guiana Francesa (ver abaixo: "Aumenta nes e o ex-prefeito de Oiapoque que informou que a posse
trânsito de índios na fronteira"). da fazendeira não está cadastrada.

Identificação da Área Indígena Juminá Área indígena Galibi registrada no SPU


Em julho de 1984, um GT criado pela Port. nº 1651/E da As terras dos Galibi do Oiapoque, cuja demarcação foi ho
FUNAI procedeu à identificação da Area Indígena Juminá, mologada pelo decreto nº 87.845/82, foram registradas no
no município de Oiapoque. Esta área, situada ao norte da Cartório de Registro de Imóveis da Comarca de Oiapoque,
Reserva Indígena do Uaçá e da Area Indígena Galibi, já no em 14.10.83 e no SPU-PARA, conforme a certidão nº 71/
estuário do Rio Oiapoque, é ocupada por 65 índios Kari 83 de 12.12.83. Com isso, esse território indígena constitui
puna e Galibi, formando duas aldeias: a Ilha do Laranjal, se como a única área de terras registradas no municípoio de
ocupada por 40 Galibi e Cunanã, com 25 Karipuna. Oiapoque, conforme declaração do representante do IN
CRA local, numa reunião na cidade de Oiapoque, em se
Informações preliminares sobre esta área foram registradas tembro de 1984.
no volume Amapá/Norte do Pará (CEDI, 1983), onde se
mencionava o conflito com a fazendeira Maria do Carmo
Viana, “proprietária" do Retiro São Francisco, situado na O papel da AJAIO
margem esquerda do Igarapé Juminá. Há alguns anos, esta
fazendeira procura expulsar os Galibi da Ilha do Laranjal, Criada em 1982 pelo presidente da FUNAI, Paulo Moreira
que ela pretende usar para ampliar sua criação de gado. Leal, através da Port. nº 764/N, a "Ajudância da Area do
Inicialmente, Maria do Carmo foi apoiada pela comuni Oiapoque" (AJAIO), representava, para os povos da re
dade Karipuna, que não seria desalojada e pelo missioná gião, a esperança de passarem a dispor de uma assistência
rio da MNTB que reside no Cunanã. A partir de 1982-83, os bem mais constante e eficaz da parte da FUNAI, principal
Galibi foram procurar ajudar na cidade de Oiapoque e na mente nos campos de saúde e educação. Galibi, Karipuna e
AJAIO. Suas reivindicações passaram a ser apoaidas pelas Palikur reclamavam de que a FUNAI não lhes dava a aten
demais comunidades indígenas da região do Oiapoque. ção merecida e que ela tentava transferir gradativamente
seus encargos assistenciais à responsabilidade do GTFA
A área identificada pelo GT engloba a duas aldeias, e uma que, por sua vez, não demonstrava interesse em assumi-los
área de 24.000 ha de extensão. A maior parte desta área é (ver “A Reserva do Uaçá", no vol. 3 da série Povos Indí
formada por campos alagados e as únicas áreas propícias genas no Brasil, CEDI, 1983).
para atividades agrícolas são as ilhas e as encostas das mon
tanhas. A criação da AJAIO, no entanto, foi seguida de alguns
equívocos: criou-se uma Ajudância sem a realização de um
levantamento prévio de suas necessidades quanto à
organização física e funcional. Após sua criação, a AJAIO

103
s! Z> Acervo
_/\ | S A S INDÍGENAS NO BRASIL/CEDI
passou a funcionar com um único funcionário, Rodolfo Va No final de 1984, quando a FUNAI/BSB suspendeu as ver
lentim Junior que residia a maior parte do tempo longe das bas destinadas à AJAIO — alegando o surgimento de situa
áreas indígenas, em Macapá e que desconhecia por com ções de conflitos em outras áreas indígenas no país, para
pleto os problemas da região. Nessas condições, a AJAIO onde foram canalizadas os recursos disponíveis — o chefe
tornou-se praticamente inoperante e, no primeiro semestre da Ajudância procurou a colaboração de agências locais,
de 1983, encontrava-se sob absoluto descrédito diante das ligadas ao GTFA, para dar continuidade aos trabalhos de
comunidades indígenas e outros órgãos de assistência local, assistência na área (Prefeitura de Oiapoque, ASTER/
a ponto da Câmara de Vereadores de Oiapoque — da qual SEAG, SEAS/UMSO/CEF, SEC).
participam vários índios — enviar documento à FUNAI so
licitando a substituição do chefe da AJAIO. Nesse período, os esforços da AJAIO se voltaram principal
mente para resolução de pendências na questão da demar
A chefia da Ajudância foi então assumida pelo indigenista cação da Reserva do Uaçá e, apoiando as com unidades in
Frederico de Miranda Oliveira que enfrentou os mesmos dígenas, retomou entendimentos com o Governo do Terri
problemas da fase anterior: verba insuficiente, falta de veí tório para uma melhor fiscalização dos limites da Reserva e,
culo e de pessoal. com a FUNAI, para a homologação da demarcação desta
Reserva.
No final de 1983, a AJAIO pôde iniciar uma série de traba
lhos de infra-estrutura (com a construção da nova sede e A criação do Posto de Vigilância do Encruzo, na confluên
melhorias nas sedes dos Postos) e a contratação de pessoal cia do Rio Oiapoque e do Rio Curipi — por onde entram inv
para a área (foi dada preferência aos índios: 8 foram con vasores da Reserva — permitiu melhor fiscalização da área.
tratados, entre atendentes de enfermagem, professor, chefe No local, agora dotado de infra-estrutura mínima e cujo tra
de posto e auxiliares). Foram implantados programas de piche foi reconstruído, permanece um chefe de Posto, índio
apoio (ver “Mais escolas na região do Oiapoque") amplian Fulni-ô casado com uma Karipuna.
do-se o atendimento às aldeias antes não assistidas: Flecha
e Tawari na área Palikur, Açaizal e Km-70 na área Kari Com essas atividades, a AJAIO procurou atender as reivin
puna e Juminá, aldeia situada fora da Reserva do Uaçá. dicações dos índios apresentadas nas assembléias e reuniões
locais. Houve de fato maior aproximação entre a adminis
tração e as comunidades; por diversas ocasiões, em 1984,
estas apoiaram a AJAIO e se mostraram totalmente contrá
rias à transferência da AJAIO para a cidade de Macapá.

uma olhada maior pra nossa região”, so Também a escola bilíngüe “Lekol Kheu
licitando em particular a homologação ol”, com programa de educação na lín
da Reserva Uaçá I e a demarcação da gua creoulo, foi estendida a outras al
Reunião das lideranças Reserva Uaçá II (ver acima, no texto). deias. O programa foi inicialmente im
em Kumenê (Carta de 28/05/84, assinada por 14 tu plantado pelo CIMI na aldeia Karipuna
xáuas do Oiapoque). do Espírito Santo, hoje com 4 monito
Os líderes de todas as aldeias da Reserva res. Em 1984 foi implantado na aldeia
do Uaçá, da Reserva Galibi e do Juminá, Galibi de Kuramumã, com 4 monitores
assim como representantes dos Palikur Mais escolas na região locais e 130 alunos, na aldeia Palikur do
da Guiana Francesa participaram da do Oiapoque Tawari com um monitor Karipuna e na
reunião, promovida pelos Palikur da al aldeia Karipuna do Manga onde o pro
deia Kumené, em maio. Estavam pre Nos dois últimos anos, a contratação de grama sofreu modificações. Nessa al
sentes também, a convite dos índios, novos professores, a construção de esco deia, poucas crianças falam o creoulo e
funcionários da AJAIO e o delegado da las e a reativação de outras deu um im um novo método está sendo experimen
2º DR/FUNAI. Na reunião, discutiram pulso importante à educação escolar na tado.
problemas internos, relacionamento região do Oiapoque. Na aldeia Kumarumã foi realizada uma
com órgãos de apoio e com missões reli Atualmente todas as aldeias da área têm experiência de funcionamento do ensino
giosas. À FUNAI, pediram “mais di pelo menos uma escola, passando de 5 de 1º Grau; a experiência não deu certo
nheiro e pessoal prá mais coisas ser fei em 1983 para 11 em 1984. Novas escolas devido às dificuldades criadas pela su *

ta”. Num documento enviado ao presi foram abertas nas aldeias Karipuna do pervisão da SEC/AP que não reconhe
dente da FUNAI, pediram “prá dar Km-70 e Açaizal e na aldeia Palikur do ceu a 5° série implantada na aldeia.
Flecha.
No início de 1985, essas escolas reinicia
ram suas atividades com 15 professores,
sendo 8 da FUNAI (7 novos professores
foram contratados em 1984), 2 da
MNTB e S do CIMINORTE II.

104
* #Z_Acervo
_/\ | <> A AMAPÁ/NORTE DO PARÁ 7

Os professores das diversas entidades A entrada de índios da Guiana no Uaçá Quanto à religião, nós somos católicos e
que atuam na região se reuniram num — alguns deles passando longos perío outra religião aqui não ajudaria em
curso preparatório, organizado com a dos, inclusive para pescar no Rio Uru nada e sim serviria apenas para dividir a
colaboração do CIMI, SEC, DEC e FU cauá, com a autorização dos Palikur de comunidade, como está acontecendo
NAI, em março de 1984, quando partici Ukumenê — tem criado atritos com ín com os índios Palikur do Kumenê, in
param de um “Seminário de estudo, dis dios de outras aldeias e moradores não fluenciados por missionários dessa Mis
cussão e elaboração do currículo da área índios da região. Estes estão interessa são que pede permissão prá entrar. Esse
indígena” e do curso “Noções de antro dos em garimpar na área indígena mas é nosso pensamento”. (21/05/84).
pologia para trabalho em áreas indíge foram impedidos pelos índios, que os AMNTB mantém atualmente duas mis
mas”. (Frederico Oliveira e Rebeca Spi ameaçaram com a tradicional punição sionárias no PI Palikur, que atuam em
res, 1985, ip.). reservada aos invasores, chamada “fa serviços de saúde, no MOBRAL e no es
xina” (Declaração de A. Gomes, 14/06/ tudo da Bíblia, a pedido da comuni
84). dade. Na aldeia do Juminá, trabalham
Aumenta trânsito Fora os Palikur, que mais freqüente quatro missionários desta organização,
dos índios na fronteira mente visitam o Uaçá, outras famílias prestando serviços nas áreas de saúde e
indígenas da Guiana estiveram naquela educação. (F. Oliveira, 1985, ip).
Em 1983 e 1984 prosseguiram os deslo área em 1984. Os Galibi do Oiapoque
camentos de índios da região do Oiapo receberam também visitas dos índios
que para a Guiana Francesa, e vice Galibi do Maná e, segundo o líder Ge Aumenta a população
versa, pelos motivosjá conhecidos: visita raldo Lod, é bem possível que algumas indígena no Taparabu
a parentes, procura de empregos tempo famílias do Maná se mudem para a Re
rários e transações comerciais. São so serva Galibino verão de 1985. Ainda em A área ora identificada como AIJuminá
bretudo rapazes solteiros, das aldeias do 1984, os Emerillon estiveram na aldeia tem seu limite sudeste contíguo à área da
Manga e Kumarumã e famílias Palikur do Manga e convidaram os Karipuna Reserva Indígena do Uaçá. Ao sul faz li
que saem para a Guiana, onde permane para conhecer sua aldeia no Rio Camo mite com a Vila Nova do Taparabu, pe
cem por tempos variáveis, entre 3 e 15 pi. Dessa área, situada no alto Oiapo quena povoação situada à margem di
Ii1CSES. que, lado francês, vieram também dois reita do Igarapé de mesmo nome que,
Inversamente, muitos Palikur — das al Waiãpi que, após uma primeira visita à por sua vez, se constitui como limite da
deias próximas de Saint Georges de AJAIO em 1984, foram encaminhados Área Indígena Galibi. A Vila do Tapa
l'Oyapock — visitaram parentes na Re por esta Ajudância para visitar parentes rabu está portanto encravada entre 3
serva do Uaçá. O Capitão Auguste la no Amapari, em março de 1985. (Fre áreas indígenas e, em função disto, é ha
Bonté, da aldeia Perséverence, partici derico Oliveira, 1985, ip). bitada por um número cada vez maior
pou da reunião de lideranças em Kume de famílias indígenas.
nê, em maio de 1984. Naquela ocasião, a Na Vila propriamente dita vivem 3 famí
afirmou que “se a reserva indígena (do Indios do Oiapoque lias formadas por mulheres Karipuna
Uaçá) continuar melhorando, muitos recusam MNTB casadas com regionais, num total de 20
índios que estão do outro lado voltarão pessoas (1982). Ali perto, na margem do
pro lado brasileiro”. Segundo Auguste, Em 1984, a MNTB solicitou permissão à Igarapé Taparabu, já dentro da Área In
“a política do governo francês é de dar FUNAI para trabalhar em todas as al dígena Galibi, vivem mais 30 Karipuna
bens aos índios, mas não o principal que deias da região do Oiapoque. À exceção (Souza, 1983). A ocupação indígena
é a terra” (Paulo Orlando Fº, 18/06/ dos Palikur da aldeia Kumenê, onde nesse local aumentou em 1984, com a
84). missionários evangélicos atuam há mais chegada de mais algumas famílias Kari
de dez anos, todas as outras aldeias re puna originárias do PI Uaçá. Formam
cusaram a entrada dos missionários em hoje um grupo de 38 pessoas, no local
suas áreas, mandando cartas à AJAIO que passou a ser chamado “aldeia Kari
como esta: puna do Taparabu”. (Oliveira, 1985,
“Nós tuxáuas dos índios Galibi Marwor ip).
no, Manoel Floriano Macial e Manoel
Felizardo dos Santos, a respeito da con
sulta faz a nossa comunidade se aceitava
a vinda de missionários protestantes da
Novas Tribos do Brasil, prá ficar traba
lhando com a gente, nós consultamos a
comunidade e a comunidade não acei
tou. A FUNAI está nos ajudando, te
mos atendentes de enfermagem índios,
temos professores bastante então não es
tamos precisando de ajuda no momento.

105
* #7_- Acervo
_/\ Egyº
# INDÍGENAS NO BRASIL/CED]

OS WAIÃPI
E OS GARIMPOS

Os índios extraem pequenas quantidades


de ouro, e ritmo próprio
e querem carteira de garimpeiro para
vender a produção diretamente

s Waiãpi começaram a trabalhar na garimpagem de No decorrer de 1984, novos “negócios" voltaram a ser pro
O ouro em 1982, quando o chefe do grupo local do Ma
riry — Capitão Waiwai — resolveu prender um dos
postos aos índios, por intermédio do chefe de Posto. Este,
de fato, tem feito planos para incentivar o “garimpo dos
garimpeiros invasores do Igarapé Aimã, obrigando-o a ensi índios", incluindo a pesquisa de novos filões em áreas mais
nar técnicas de garimpagem a um pequeno grupo de rapa próximas das aldeias onde poderiam trabalhar os membros
zes. Trabalharam um mês e, após a fuga do garimpeiro — de outros grupos locais, distantes do Mariry. Entrou em
que saiu como todo o ouro recolhido — os índios ficaram contato com garimpeiros moradores da estrada e propôs aos
com algumas ferramentas e batéias. Desde então voltaram índios a compra de uma chupadeira que seria paga, em
várias vezes ao garimpo. No início, só iam jovens, em gru ouro, pelos próprios Waiãpi. Isso implica no trabalho de
pos de 4 ou 5, trabalhando poucos dias, para recolher al uma turma de pelo menos 10 pessoas, durante dois a três
gumas gramas de ouro (duas ou três por pessoa), à custa de meses. Os Waiãpi, aparentemente, aceitaram o “negócio”
muito esforço, desperdício e malária. mas não demonstraram suficiente interesse, segundo o che
fe do Posto, para que a compra seja concretizada. Eviden
Em 1982, o Capitão Waiwai aceitou a presença de um ga temente, como todos esses planos são feitos pelo funcioná
rimpeiro que havia se apresentado com credenciais da FU rio, sem a real participação dos Waiãpi, que são vistos, nes
NAI — o então delegado Paulo Cesar de Abreu, da 2° DR, ta história, como os "braçais" que pagarão a máquina; e
o havia de fato autorizado — para trabalhar no garimpo do como não têm acesso nem condições de acompanhar o cál
Aimã. Propôs um “negócio” aos índios: ele traria equipa culo do “pagamento", os Waiãpi não tomaram a frente na
mentos e tiraria uma certa quantidade de ouro, como "pa realização do plano. Por outro lado, já foram “enrolados"
gamento". Retirou de fato “um vidro de Nescafé cheio”, muitas vezes nessas propostas de mecanização do garimpo e
segundo os índios, e saiu, sem ter trazido a “máquina "pro por isto se mostram bastante céticos e desconfiados.
metida. Os índios ficaram apenas com a balança, apreen
dida na saída do garimpeiro, já no Posto da Perimetral. O Finalmente, nos últimos meses, toda a questão da garimpa
ouro, que eles haviam também apreendido, foi devolvido ao gem esbarrou na comercialização, feita somente através da
invasor, por pressões do então chefe de Posto, João de Car FUNAI, o que os índios resolveram não aceitar mais.
valho, alegando a autorização da FUNAI.

Em 1983, outro garimpeiro, morador da estrada e vizinho O garimpo Yjy Piriri


da área indígena, voltou a propor o “negócio". Para faci
litá-lo, trouxe presentes para o Capitão Waiwai e para al Enquanto não se resolvia a compra da chupadeira, em 1984
guns membros do grupo Mariry, que iriam acompanhá-lo os Waiãpi da aldeia Mariry estiveram duas vezes no garim
até o garimpo. Esteve duas vezes na área, mas não trouxe a po — o antigo “Três Pedaços”, rebatizado por eles Yjy Pi
"máquina". Na segunda estadia, acabou sendo expulso pe riri — tirando cerca de 150 gramas de ouro. Na primeira
los índios, a pauladas. Havia insultado um deles, que aca estadia, de 15 dias, foram acompanhados pelo chefe de Pos
bara de perder um filho, e desrespeitado um importante to. Enquanto uma parte do grupo trabalhava no garimpo, a
proibição de caça dos Waiãpi, matando uma cobra sucu
riju. Na fuga, deixou mais algumas ferramentas e um motor
de luz que os Waiãpi utilizam agora nas suas estadias do
garimpo.

106
AMAPÁ/NORTE DO PARÁ 9

Um funcionário da FUNAI pesou o ouro


dos Waiãpi, na aldeia Mariry,
mas os índios não concordaram em vender.

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outra derrubava uma grande roça, nas proximidades do ga — quem trabalhou no buraco — mercadorias a serem com
rimpo. Na segunda estadia, de dois meses, foram também pradas após a venda do ouro. O ouro, entretanto, não foi
mulheres e crianças. Trabalharam cerca de 20 dias nos "bu vendido. Os índios não querem entregá-lo ao chefe de Posto
racos", inclusive as mulheres. Segundo os índios, foi um e este, por sua vez, se recusa a levar os Waiãpi para Macapá
trabalho penoso e a alimentação era deficiente. Voltaram onde eles querem “ver e vender nós mesmos "seu ouro. Mas
todos com gripe. A situação teria sido bem pior se não esti isto não está nos planos do chefe de Posto que, desde que
vessem acompanhados de um funcionário do PIA que tra assumiu o PIA no final de 1983, tem reduzido drastica
tou dos doentes. Parte das famílias se dedicaram à planta mente que ele chama de "passeios" dos índios, recusando
ção da roça nova, e construíram novas habitações. Essa se a levá-los para a cidade a não ser para tratamentos de
roça, com muita mandioca, vai permitir aos Waiãpi perma saúde que não possam ser feitos no Posto.
necer mais tempo no garimpo, sem depender da farinha que
conseguiam trazer da aldeia, a três dias de viagem. Por ou “Ouro tá guardado, não estraga", respondeu o Capitão
tro lado, com essa roça, as atividades desenvolvidas no Yjy Waiwai. Como as famílias da aldeia Mariry receberam este
Piriri vão se inscrever no ciclo tradicional do grupo, consti ano o dinheiro da venda de artesanato — vendido em São
tuindo-se como mais uma aldeia secundária onde várias fa Paulo — puderam comprar uma certa quantidade de muni
mílias podem permanecer meses a fio, recebendo visitas de ção, pano e outras mercadorias que lhes permitem dispen
outros grupos locais por ocasião das festas de caxiri. sar, por algum tempo, a venda do ouro.

Consideram também que com esta nova aldeia será muito Essa questão da comercialização cria tensão nas suas rela
mais fácil reativar a aldeia e a roça do Inipuku, situada a ções com os chefes de posto que se sucederam na área desde
dois dias de caminhada e que foi abandonada em 1981 por 1982, quando os Waiãpi perceberam terem sido enganados
pressões dos funcionários da FUNAI. na primeira venda de ouro que fizeram. Embora confiem no
atual chefe de Posto e apóiem sua atuação em outras ques
E são sobretudo esses fatos, muito mais que a mecanização tões, insistem em vender o ouro, eles mesmos. Exigem in
do garimpo, que importam para os Waiãpi. clusive que a FUNAI obtenha para um deles uma “carteira
de garimpeiro" — documento sem o qual a CEF não aceita
comprar ouro. “Por que garimpeiro tem carteira e nós, na
“Ouro fica guardado” minha terra, não tem?".

As 150 gramas de ouro extraídas em 1984 foram distribuí


das, em partes desiguais, entre 5 pessoas, embora muito Em projeto, um novo garimpo no Kumakary
mais tenham trabalhado no garimpo. O ouro vai para quem
abriu um “buraco" e este deverá fornecer a seus ajudantes Por razões de distância e sobretudo sociais, os membros de
outras aldeias Waiãpi têm tido dificuldades em trabalhar
no garimpo Yjy Piriri, associado territorialmente ao grupo
do Capitão Waiwai. Ocasionalmente, um ou outro rapaz
solteiro, esteve garimpando no Aimã, "ajudando" parentes
da aldeia Mariry.

107
s! Z> Acervo
_/\ @A INDÍGENAS NO BRASIL/CED]

Os membros das aldeias Capoeira, Taitetua e Araçá não A maior parte dos colonos instalados, à beira da Rodovia
demonstraram até agora, muito interesse para o garimpo. Perimetral Norte, entre Serra do Navio e o Posto Aramirã,
O mesmo não ocorre com os Waiãpi das aldeias Ytu-Açu e têm tido, em algum momento, participação nas invasões da
Aramirã — esta última, a aldeia do Posto — que apoiaram 4rea Waiãpi. Todos conhecem relativamente bem a área e
o projeto do chefe de Posto de “compra” de uma chupa suas possibilidades em termos de garimpo: encontra-se ali,
deira. Querem que esta máquina seja instalada no Igarapé segundo eles, o melhor ouro do Amapá. Afirmam que exis
Kumakary (Agua Preta) no limite leste da área indígena. tem vários filões não explorados e que a maior parte dos
Obteriam assim recursos para comprar os bens industriali outros foram “estragados”. Reconhecem de fato que como
zados que, sobretudo nessas aldeias assistidas diretamente deviam entrar na área “meio escondidos" e muitas vezes
pela FUNAI e pela MNTB, têm se tornado de uso diário trabalhar passar
deveriam à noitepor
para nãosegunda
uma serem vistos, os buracos abertos
lavagem. •

(pilhas, panelas, munição, pano, roupas, etc.). A idéia é


abrir um novo garimpo no Kumakary, a certa distância do
filão já aberto por invasores nos últimos anos. O Kumakary Consideram também que agora, com os índios trabalhnado
constitui uma antiga área de ocupação Waiãpi, desativada no ouro, esses filões estão sendo “estragados de vez”. Todos
por muitos anos, após a morte da maior parte dos membros aguardam a abertura das áreas indígenas para mineração,
daquele grupo local por doenças contraídas no contato com conforme notícias que circulavam na região em meados de
as primeiras frentes de garimpeiros na região do Rio Ama 1984... Enquanto isso, evitam entrar no território Waiãpi,
pari (1969-70). Por outro lado, essa área era o caminho uti pelo menos na parte central da reserva, isto é, no Aimã.
lizado pelos garimpeiros que por ali se dirigiam ao garimpo Temem tanto os índios como o chefe de Posto, conhecido na
“Três Pedaços”, no Aimã, e os Waiãpi preferiam evitar região por não mais facilitar a entrada de garimpeiros e ca
contatos com esses invasores. çadores na área, como ocorria no passado. Por isso, procu
ram através dos “negócios” e da venda de maquinário, res
A situação mudou nos últimos dois anos e os Waiãpi têm gatar parte do “ouro dos Waiãpi".
expulsado os invasores que encontram nas suas terras. Ao
mesmo tempo, reativaram a região do Kumakary para ca Por outro lado, continuam envolvidos com a invasão de ou
çadas e foi assim que um grupo de caçadores percebeu que tra parte do território indígena, próximo à aldeia Pupuindy,
a área continuava sendo trilhada por garimpeiros que ha no limite sul da área proposta, onde garimpeiros passam es
viam destruído os pupunhais do antigo grupo Waiãpi, ali tadias intermitentes de 3 em 3 meses, saindo da Perimetral
residente. Esses garimpeiros teriam, segundo os índios, no seu cruzamento com o Riozinho, (D.G.)
“acabado” com o ouro da margem direita do Kumakary, ou
seja, um filão localizado dentro da área proposta. Por isso,
os Waiãpi querem agora instalar seu novo garimpo “na ter
ra de carai-ko”, na margem esquerda do Kumakary, onde
existiriam outros filões, segundo informações dos regionais,

108
AMAPÁ/NORTE DO PARÁ 11

moradores do “Riozinho”, na Rodovia Casos de lepra


Perimetral Norte, em junho, 15 homens entre os Waiãpi
estavam trabalhando no Karawowo. Em
Nova eleição fevereiro de 1985, a invasão prosseguia, Um levantamento iniciado em 1984 e
da Área Indígena Waiãpi com mais de 30 pessoas. Esse garimpo é realizado em várias etapas, pela Dra.
financiado pelo comerciante João Oli Amiris Fusco da Silva, chefe do Pro
A Port. nº 1.651/E da presidência da veira Souza, ou João Pacola, da locali grama de Hanseníase do TFA, detectou
FUNAI constituiu um GT que, em ju dade de Pedra Branca. Não existe pista quatro casos de hanseníase entre os
nho de 1984, esteve na área Waiãpi para de pouso no local, e as mercadorias são Waiãpi do Amapari. Dois casos foram
efetivar a nova eleição desta área indí jogadas por avião. O acesso é feito bei diagnosticados ainda em 1984 e outros
gena. Uma “Proposta de demarcação da rando a área indígena, pelo Riozinho dois casos novos, confirmados em março
reserva indígena Waiãpi” havia sido en que constitui seu limite; segue-se então de 1985, através de biópses analisadas
caminhada à FUNAI/BSB, pela antro por um caminho, durante 5 dias. em Bauru.
póloga Dominique Gallois, em janeiro. Os funcionários da FUNAI fizeram en Os indivíduos atingidos pela doença —
Indicava a área pleiteada pelo grupo, tão uma rápida visita no garimpo da Mi dois deles apresentam deformações nas
conforme consultas realizadas na área neração Monte Negro Ltda., situada nas mãos e insensibilidade nas pernas até
em 1983 (reproduzida no vol.3 da série cabeceiras do Igarapé Etonéwaka, for então tratados como “reumatismos” —
Povos Indígenas no Brasil, CEDI, 1983). mador do Rio Inipuku. Esse garimpo são homens, entre 13 e 60 anos, residen
O trabalho do GT consistiu em confir funciona desde 1979, ilegalmente, con tes em várias aldeia (Ytu-açu, Taitetua e
mar, junto aos Waiãpi e na presença de siderando que João Batista de Oliveira Aramirã). Pertencem a famílias que,
funcionários da FUNAI, aquela propos Costa, sócio fundador da Mineração, nos últimos anos, residiram por vários
ta. Houve apenas uma pequena modifi teve seus pedidos de alvará indeferidos meses junto à antiga sede do Posto Ama
cação no limite sul da área, que passa pela FUNAI e pelo DNPM em 1984. pari, na aldeia Mitiko.
agora pelo Rio Mucuru, afluente do Rio Enquanto não se definiam os limites da O sertanista João Evangelista de Carva
Jari. A área eleita tem cerca de 680.000 área Waiãpi, outras mineradoras inte lho, que trabalhou entre os Waiãpi de
ha, englobando todas as áreas efetiva ressadas nessa áreativeram seus pedidos 1978 até 1983, quando foi transferido
mente ocupadas pelos 5 grupos locais indeferidos, em março-abril de 1984. para a Frente de Atração Parakanã,
Waiãpi, cada um com mais de uma al Dos 50 processos indeferidos pelo então também apresentou hanseníase, do tipo
deia, separadas por 1 a 4 dias de viagem. presidente da FUNAI Octavio Ferreira “MHbordeline reacional”, tipo de lepra
Uma das atribuições do GT foi o levan Lima, 32 eram pedidos de subsidiárias contagiante. A doença do sertanista foi
tamento de invasores, a cargo do repre da CVRD, 13 da CPRM e 5 de J. B. Oli constatada em 1984 pelo Dr. J. P. Bote
sentante do INCRA. Este constatou “a veira Costa, invasor da área do Inipuku. lho Vieira Fº, da Escola Paulista de Me
não existência de colonos” dentro da A proposta do GT foi apresentada ao dicina, que levou o caso ao conhecimen
área indígena. Ali, de fato, só existem grupo interministerial na reunião de 03/ to da FUNAI. Em função disto, João de
garimpos e uma mineradora. Nos últi 05/1985 e obteve parecer favorável. Carvalho foi afastado temporariamente
mos anos, cessaram as invasões na re Quando o GT chegou à área Waiãpi, em do trabalho em áreas indígenas, tendo
gião do Aimã, onde a garimpagem é julho de 84, estes achavam que desta vez sido reintegrado, recentemente, pelo
agora feita pelos próprios Waiãpi (ver a equipe vinha para efetivamente “de chefe da Ajudância de Marabá.
“Os Waiãpi e os garimpos”). Ao sul marcar” e retirar os invasores. No se Fora os quatro casos confirmados entre
da área, no local conhecido como Ka gundo semestre de 84, procuraram solu os Waiãpi, há outros em suspeita. Como
rawowo, um garimpo funciona inter ções para demarcarem, eles mesmos, o o tempo de incubação da doença é longo
mitentemente há 10 anos. Segundo os seu território. Foram apoiados pelo che (de 5 anos, podendo chegar até 10 anos),
fe do PIA, que requereu à FUNAI uma novos casos possivelmente vão surgir nos
verba para iniciar os trabalhos durante próximos meses. (Dominique Gallois,
os primeiros meses de 1985. Como a ver 1985, ip).
ba prometida pelo DPI não veio, os
Waiãpi resolveram aguardar, até a pró
xima estação de chuvas. (Dominique
Gallois, 1985, ip).

109
s! Z_ Acervo
_/\ º A. INDÍGENAS NO BRASIL/CED!

GT-FUNAI IDENTIFICA
AI PARU DE LESTE

Uma área anexa e contínua,


ao sul do Parque Indígena de Tumucumaque,
para abrigar aldeias Wayana-Aparai

Lúcia Hussak Van Velthem"

m setembro de 1984, a Port. nº H.768 da FUNAI Essa área, assim como toda a região do PIT é uma região
E criou um GTpara definir os limites da ocupação indí
gena ao sul do Parque Indígena do Tumucumaque. A
“esquecida", dado seu isolamento geográfico e o difícil aces
so. Este isolamento se aprofunda, estruturalmente, em re
necessidade de um reestudo desse limite, que não respeita a lação ao resto da Amazônia, toda retalhada pelas frentes de
efetiva ocupação da área pelos Wayana-Aparai, nem suas penetração. Mas o PIT é sobretudo “esquecido” politica
relações simbólicas e ecológicas com este território, já vinha mente. E um Parque mas não detém esta prerrogativa: desde
sendo apontado há vários anos, pela antropóloga Lúcia Hus sua criação sempre se viu em penúria ou ainda sem chefe de
sak van Velthem. Posto. O isolamento político, neste caso, assume contornos
peculiares em relação à atuação do órgão tutelar. Engloba
Em 1982, após dois anos de emperramento burocrático em falta de empenho e descaso, unido à incompreensão dos pro
que a documentação se sucedia nos diversos departamentos blemas da área. “Me preocupar com o Tumucumaque, mas
da FUNAI/BSB, as reivindicações lograram chegar à presi por quê? Aqueles índios não me dão problemas..." resumia
dência do órgão para esbarrarem em argumento desfavorá antigo delegado da 2° DR, em Belém (ver adiante "Antonio
vel do então presidente, Cel. Paulo Moreira Leal. Demons Tiriyó denuncia omissão da FUNAI” no Aconteceu na Im
trava este que o Parque seria suficientemente grande para prensa).
abrigar a todos os Wayana-Aparai. Apoiando-se unicamente
em dados físicos, reproduzia mecanicamente o pensamento Cansados da tutela, fatigados da intromissão em seus assun
no qual "qualquer terra serve para os índios”. No caso do tos internos, os Wayana-Aparai retomaram antigas formas
Tumucumaque, rejeitou-se este argumento com base na efe de troca assim como práticas sociais e de ocupação espacial.
tiva ocupação da área e nos critérios de ocupação espacial e A partir de 1976, iniciou-se um movimento de dispersão, ao
de aproveitamento ambiental desenvolvido pelos Wayana contrário do que ocorria antes, com a concentração da maio
Aparai. A contraproposta, provinda deste mesmo presi ria dos Wayana-Aparai na aldeia do Posto, denominada hoje
dente, previa o cancelamento do decreto de instituição do Aldeia Apalai. O resultado foi o despovoamento dessa aldeia
PIT e a delimitação de duas áreas — duas estreitas faixas ao que, em 1984, contava com apenas 84 habitantes, muitos em
longo dos rios Paru de Oeste e Paru de Leste, para os Tiriyó/ caráter temporário.
Raxuyana e Wayana-Aparai, respectivamente — permane
cendo amplo corredor entre as mesmas. Esta proposta era Este processo, aparentemente, não foi compreendido - ou
inadmissível porque aniquilaria a única garantia jurídica da não deseja ser compreendido — pelo órgão tutelar, pois im
área — o decreto presidencial nº 62.998/68—. Foi recusada plicaria na dinamização da assistência sanitária e na criação
e os trabalhos retornaram à estaca zero até a criação do GT de pelo menos um sub-posto para atender — junto com o
em 1984. -
atual Posto — as 19 aldeias deste povo e especialmente as 5
aldeias situadas ao sul do Parque, na área ora identificada
A proposta do GT será encaminhada em breve à FUNAI/ como “Area Indígena Rio Paru de Leste".
BSB, constituindo-se na identificação de uma área de apro
ximadamente 1.000.000 ha, denominada “Área Indígena Embora tenha sido realizados esforços no sentido de melho
Rio Paru de Leste” e contínua ao PIT. rar o atendimento médico na região, o mesmo continua pre
cário, uma vez que, efetivamente só abrange a Aldeia Apalai
e as aldeias circunvizinhas. As situadas no médio curso do
(*) antropóloga, trabalha no MPEG (Belém) e realiza pesquisas entre os Rio Paru não recebem qualquer atendimento e vários índios
Wayana-Aparaí há vários anos. Recentemente integrou o GT/FUNAI para têm morrido em busca de socorro.
a identificação da AF Paru de Leste,

110
s! Z_Acervo
_A SA AMAPA/NORTE DO PARÁ 13

Aconteceu
_

Em área mais vasta, compreendendo Além do peixe, permutam remos, fari


PARQUE INDÍGENA uma faixa que vai do Paru de Leste ao
Rio Jari (incluindo o Rio Mopecu e aflu
nha, canoas, breu, recebendo o paga
mento em ouro, com o qual compram
TUMUCUMAQUE entes, assim como o Rio Ipitinga e seus mercadorias a preços exorbitantes. Mui
afluentes, Igarapés dos Patos e do Infer tas vezes, entretanto, não recebem ne
Antonio Tiriyó denuncia no), a CPRM realiza pesquisa mineral nhum pagamento, mas seu saldo posi
omissão da FUNAI no PIT com base em alvarás concedidos pelo tivo é anotado para futuro e dificultoso
DNPM. Este trabalho é sazonal, ocor recebimento.
A invasão da área do Parque indígena rendo nos meses de estiagem, de junho a É contra esses pagamentos muitas vezes
Tumucumaque por garimpeiros e o des novembro. No Mopecu, a CPRM tem não realizados que três homens da al
caso da Funai para com o problema fo um acampamento permanente. Esta deia Kumarkapan decidiram garimpar.
ram denunciados, ontem, pelo represen Companhia e os garimpeiros do 13 de Encontraram um veio no local denomi
tante daquela comunidade, Antônio Ti Maio atuam na área independentemen nado Mérietopo, à montante de sua al
rios. Ele queixou-se de não ter sido rece te, em relações definidas como de “coe deia e aí dedicam-se a esta atividade,
bido pelo presidente da Funai, Nélson xistência pacífica”. vendendo o ouro conseguido em Ana
Marabuto, a quem pretendia entregar Esta expressão não pode ser aplicada tum. Seguindo este exemplo, vários ho
um documento da situação naquela aos contatos entre os Wayana-Aparai e mens da Aldeia Apalai pretendem, no
área. Ali — de acordo com o seu relato os garimpeiros. Para estes últimos, “a verão de 1985, iniciar-se nesta atividade,
— cerca de 50 garimpeiros procedentes terra dos índios é no alto Paru e a área como opção para a obtenção de recursos
de Santarem se dedicam à exploração do dos “amazonas" (regionais) é até o Cita financeiros e alternativa à tradicional —
ouro, com a conivência do titular da 2? ré”. É com base nesta afirmativa que mas mal remunerada — venda de “arte
Delegacia Regional da Funai, Salomão penetram rio acima, infiltrando-se nos sanato”. (Lúcia Hussak Van Velthem,
Santos. Tirios pede que Marabuto colo afluentes do Paru de Leste: Itapecurú 1985, ip).
que a equipe da Funai encarregada da Apopó, Axiki, onde procuram ouro e no
demarcação da área em contato com os Igarapé Castanheira, onde garimpam
próprios índios, “para esclarecimento cassiterita.
detalhado do trabalho”. Pede, ainda, “Vai entrar muita gente, garimpeiro fa WAYANA-APARAI
estabelecimento de novos postos da Fu zendo muita sujeira, trazendo muita ca
nai dentro do parque, para uma melhor chaça e doença”, se queixam permanen Nova missão
assistência às comunidades ali estabele temente os índios. Em dezembro de
cidas, “que, hoje, se encontram total 1984, quando os índios advertiram os in A Aliança Batista Missionária da Ama
mente carentes de assistência”, e mu vasores de que estavam em “terra de zônia/ALBAMA iniciou suas atividades
danças na administração do parque, Aparai”, estes afirmaram que “não po entre os Wayana-Aparai em julho de
“para uma melhor fiscalização de seus dia provar nada pois nem tinha placa de 1983. Essa organização, cuja sede está
limites”. (Correio Braziliense, 10/10/ demarcação”... em Brasília, tem como objetivo a forma
84). Os garimpeiros penetram impunemente ção de Igrejas dentro da linha de ação da
no médio Paru porque não existe qual Convenção Batista Nacional, da qual faz
quer forma de fiscalização e interdição parte. Atua notadamente na área educa
CPRM e garimpos de suas atividades: a ausência da FU cional e, inicialmente, dedicava-se ex
no Tumucumaque NAI permite-lhes trânsito livre, como clusivamente às populações ribeirinhas
eles mesmo argumentam. da Amazônia. Os Wayana-Aparai re
No interflúvio Jari/Paru de Leste, mais Muito embora temam os garimpeiros presentam portanto a primeira experi
precisamente no Igarapé Gavião, aflu pelas doenças trazidas (principalmente ência dessa missão com povos indígenas.
ente do Rio Mopecu, localizam-se diver gripe e moléstias venéreas) como tam As duas missionárias que se instalaram
sas frentes de garimpo, “barrancos”, no bém pelo clima de desordem e as rixas na aldeia Apalai — sede do Posto —
falar regional. São indistintamente de constantes nos garimpos, várias famílias chegaram a convite do SIL, que também
nominados de Garimpo 13 de Maio, no Wayana-Aparai vêem na permuta com retomou suas atividades nesta área a
me derivado da pista de pouso. Trata-se aqueles uma forma alternativa de aqui partir de 1983. O trabalho da ALBAMA
de garimpos de ouro, administrados por sição de bens industrializados. Assim, se atrela ao do SIL, visando dar-lhe con
Reimar Uchoa, de Santarém. Em 1984 em suas pescarias estivais, esforçam-se tinuidade. Fundamenta-se na tradução
operavam na área mais de 100 garimpei por uma captura suplementar de pesca da Bíblia em língua Aparai: “nossos ob
ros, sem licença de lavra. do que salgam ou moqueiam. Apenas os jetivos são a educação e a palavra de
homens, em dias de semana — porque,
segundo os índios, estes são os dias em
que não há brigas no garimpo — vão ao
entreposto de Adonias Xavier, situado
em Anatum, à beira do Paru de Leste.

111
s! Z> Acervo
_/\ | <> A S INDÍGENAS NO BRASIL/CEDI
Deus, porque este povo já está acostu com o avião da missão. Viajaram vinte Contudo, não ficou claro qual o grupo
mado, então tudo gira em torno da pala dias para chegar ao local onde realiza lingüístico a que pertencem os índios
vra de Deus”, explica uma das missio ram o contato e somente encontraram contactados pela MNTB, uma vez que o
nárias. colonos no curso baixo do rio. A área intérprete Aparai (língua Caribe) que
SIL e ALBAMA dividem hoje as ativida habitada pelo grupo arredio é de difícil acompanhava a expedição não teria con
des religiosas entre os Wayana-Aparai: acesso, devido às cachoeiras. Foi somen seguido entendimento verbal com eles.
várias reuniões por semana, durante as te após novas tentativas de contato, sem E o pequeno vocabulário, de algumas
quais são comentados trechos da Bíblia. êxito, que a MNTB notificou o contato palavras, levantado por ocasião desse
Por outro lado, as missionárias da AL realizado à AESP/FUNAI, em junho de rápido encontro foi interpretado como
BAMA ministram aulas em língua Apa 1983. Na ocasião, a 2° DR/FUNAI se mais próximo de uma língua Tupi, con
rai, da alfabetização até a 3° série, va pronunciou sobre a impossibilidade de forme um missionário desta organiza
lendo-se de cartilhas preparadas pelo mandar uma Frente de Atração, por fal ção que trabalha atualmente entre os
SIL. Ao terminarem os quatro cartilhas, ta de recursos financeiros e humanos. O Waiãpi.
os alunos fazem a transição para a escola atual delegado mantém esta posição. O grupo arredio habita uma área conhe
da FUNAI, onde serão alfabetizados em Não há, portanto, previsão para o con cida como “Cuminapanema”, nome de
português, e, paralelamente, ingressam tato com o grupo arredio. A MNTB, por um afluente do Amazonas, que corre pa
na leitura do único livro disponível: sua vez, mantém a equipe na base do ralelo ao Paru de Oeste ou Cumina.
“Gênesis abreviado na língua Aparai”. Cuminapanema, mas aguarda uma po Conforme mapas recentes da FUNAI, a
(Lúcia H. van Velthem, 1985, ip.). sição para retomar as atividades de atra área delimitada para atração do grupo
ção. Conforme um missionário desta or tem cerca de 200.000 ha, em torno do
ganização, possivelmente a equipe de PIA criado pela COAMA, em 1976.
verá desistir, devido à indefinição por Nunca houve, porém, alocação de ver
ARREDIOS DO parte da FUNAI. bas para este Posto que não foi ativado
As informações disponíveis sobre este até hoje.
CUMINAPANEMA povo são escassas. No relatório sucinto Desconhece-se a situação da área, em
enviado pela MNTB à AESP, os missio termos de invasões. Ao norte, coincidin
Interrompido contato nários se referem à “atitude pacífica” do do com o limite sul do PIT, a invasão de
pequeno grupo (cerca de 20 homens) garimpeiros foi denunciada em 1984 por
Ainda não foram efetivados contatos de com o qual entraram em contato. Men Antonio tiriyó. (Dominique Gallois,
finitivos com os índios arredios no médio cionam ainda o uso de tembetás, cabelos ip).
Cuminapanema, ao sul do PIT (muni amarrados tipo “rabo de cavalo”, pele
cípio de Oriximiná). Os primeiros con clara e estatura média. Características
tatos foram realizados por missionários essas bastante comuns entre vários po
da MNTB, em setembro de 1982. Os vos Caribe que habitam, tradicional
missionários, cuja sede situa-se em San mente, aquela região do norte do Pará.
tarém abriram uma picada e construí Os atuais Tiriyó e Kaxuyana do PIT,
ram uma base a certa distância das qua justamente, mencionam a existência de
tro aldeias, localizadas num sobrevôo um pequeno grupo Ingarune (subgrupo
Kaxuyana) na região do Igarapé Água
Fria ou Ponekru, afluente do Paru de
Oete (ou Cumina, ou Erepecuru). Esse
grupo foi contactado em 1970-71 por
uma expedição da FUNAI; mas os ín
dios encontrados não quiseram aproxi
mação (ver no vol.3 da série POVOS
INDIGENAS NO BRASIL, capítulo
Kaxuyana).

112
|-

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E
(…)
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–1
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2
º

Ticuna

SOLIMÕES

113
EVARE E SÃO LEOPOLDO

CONSTANT

4º3O
ÁREASPROPosTAs PELO GE.
ALDEIAS EXCLUIDAS DOS LIMITES
MALCCAS SOLADAS

: ALDEIAS
POSTO INDÍGENA

*=>

# 4- SOLIMÕES (MAPA 1) { POVOS INDIGENAS NO BRAS11_ / CEDI #

114
sL7-Acervo
_/\ | <> A
SOLIMÕES 3

Al AUATI-PARANÃ

“tBJUTA!
A ! ESTRELA
DA PAZ

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4 _---- #

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_> } |-

ATAi. AlA DO
NORTE

PROPOSTA DO GRUPO DE ESTUDO


— LEVANTAMENTO FUNDIARIO
- - - REESTUDO
# ___* |

O mapa acima se refere às áreas Ticuna consideradas pelo GE/FUNAI-Port


1.692/84. Não aparecem plotadas as áreas Ticuna de Tonantins, Jutaí, Lago
Beruri, Japurá e Maraã, nem as áreas correspondentes aos outros povos da
Área Solimões.

175
sL7-Acervo
=/… E º INDIGENAs No BRASIL/cED
QUADRO GERAL DOS POVOS INDÍGENAS DA ÁREA SOLDOES
POVO NOME DA ÁREA MUNICÍPIO ##### POPULAÇÃO FONTE E DATA
AI Évare Tabatinga, S. 30 8.909 3.

Paulo de Olivença
AI Tikuna S. Leopoldo|Benjamim Constant 3 340
AI Betânia Sto. Antônio do Içá 2 } . 438
AI Auati-Paranã Fonte BC3 3 209

AI Estrela da Paz Jutaí l. 80

AI Macarrão Jutaí l 400

AI Tikuna Sto. Antônio B. Constant 4 698

AI Tikuna Umariaçú Tabatinga l 2.810


TICUNA (1) AI Tikuna Lauro Sodrél B. Constant 3 323

AI Tikuna Porto B. ConStart } 146


Espiritual •

AI Tikuna Wui-Uata-In|S.Paulo de Olivença 6 1.310


Tonantins Tonantins 1 50

AI Jutaí Jutaí 5 250

AI Lago Beruri Beruri 2 370

Japurá Japurá l 10

Maraã Maraã 1 L85


• L7.528 (T)
AT Lago Uarini Uarini l. 280 BarbCSa: 82

MIRANHA Alvarães 77 |Barbosa: 82


(2) Japurá * * * #a >
457 (T)
CAMBEBA AL Lago Jaquiri Alvarães l 59 Barbosa: 82

MAIORUNA AI Boca do Japurá Alvarães l 199 |Barbosa: 82

#… Maraã/Japurá 3 65 Prel.Tefé: 83

CCCAMA AI Nova Esperança Jutaí 5 176 | Prel.Tefé: 83

MACU (4) Japurá 3 …, |x-josé


Antonio: 81

Arredios Japurá/Jandiatuba ?

(*) Levantamento da População Ticuna realizado pela Equipe de Pesquisa do Museu Nacional (RJ) coorde
nada por João Pacheco de Oliveira Filho, em 1984, com a colaboração de Silvio Cavuscens da Equi
pe de P. Indigenista da Prelazia do Alto Solimões. A população Ticuna dos municípios de Japurá e
Marãa foi avaliada pelo Ir. João Antonio, entre 1976 e 1981.
(1) 5.000 no Peru e 2.000 na Colômbia (Baldinger: 81).
(2) 200 na Colômbia (81).
(3) ver também nas Áreas Javari e Jutaí/Juruá/Purus.
(4) ver também na Área Noroeste Amazônico.

116
* #Z_Acervo
_/\ | @A
SOLIMOES 5

INVASOES, CONFLITOS
E MAIS PROMESSAS
DE DEMARCAÇAO
PARA OS TICUNA
João Pacheco de Oliveira Fº
G

Vera Paoliello

O ano de 1984 foi marcado pela existência de muitos conflitos entre


os regionais brancos e os índios Ticuna em função da invasão
e arrombamento de lagos, por constantes investidas no território indígena
para extração de madeira. Quando esses invasores eram descobertos
e expulsos pelos índios das localidades próximas, reagiam com raiva,
desacatando os capitães e líderes Ticuna, afirmando que “a FUNAI
não mandava nada no Alto Solimões”. Faziam também ameaças de voltar
para vingar-se e ainda de preparar represálias para os índios quando
esses fossem à cidade para comercializar seus produtos.

Com a conivência e até mesmo a participação das autoridades (Delegados


e contingente local da Polícia Militar), aconteceram diversos casos
de violência e arbitrariedades praticadas contra os índios nas cidades
de São Paulo de Olivença, Benjamim Contant e Tabatinga. Um Ticuna
de Campo Alegre foi esfaqueado em São Paulo de Olivença, o capitão geral
Pedro Inácio foi ameaçado pelo Delegado e por moradores dessa cidade,
índios foram presos em Tabatinga, houve diversos atritos com elementos
da PM e índios de Urique. O fato mais grave ocorreu no domingo
de Carnaval, onde oito índios de diversas localidades foram feridos pela PM
de Benjamim Constant (seis desses à bala). A situação de hostilidade
da população branca da região contra os Ticuna vem crescendo
sucessivamente pela não apuração desses casos e total impunidades
dos culpados, além da demora por parte da FUNAI na definição
e demarcação da áreas indígenas.

Alguns líderes estiveram em Brasília pressionando os diferentes


ocupantes (3) da Presidência da FUNAI no ano de 1984, no sentido
de acelerar a demarcação de suas terras. Disso resultou o término da fase
de identificação das áreas indígenas destinadas aos Ticuna
no Alto Solimões. O último Presidente da FUNAI, Dr. Nelson Marabuto,
em uma reunião realizada em Umáriaçu, no dia 18.02.85, assumiu perante
os Ticuna e perante aquelas
as autoridades brancas o compromisso de demarcar
brevemente áreas (ver o mapa do Alto Solimões, •

com as áreas indicadas).

117
INDÍGENAS NO BRASIL/CED)

As invasões seus pertences e em seus motores abandonaram o local. O


mesmo ocorreu com alguns moradores da margem direita
s problemas com os “civilizados" que exploram ma do rio Solimões, na altura entre o Cajari e o Vendaval, dei
O deira e pesca no Paraná Ribeiro, no Maitê e alto do
Camatiã já começaram com as ameaças que o Sr.
xando aquela parte da área indígena livre de invasões. A
madeira retirada foi confiscada e transportada para Ven
Santinho Castelo Branco fez ao capitão-geral dos Ticuna, daval.
em São Paulo de Olivença, em 29-12-83. Ele afirmou que
iria continuar a extrair madeira dos lagos Maitê e Maguari, Em conseqüência desse fato diversos capitães e líderes Ti
dos quais se diz dono, embora essas terras estejam dentro cuna passaram a ser ameaçados de morte por madeireiros e
da área incluída em propostas anteriores da FUNAI. (Ma pesqueiros. Em abril de 84, no Rio de Janeiro, Pedro Inácio
güta nº 8). e Adércio fizeram uma denúncia ao Dr. Mario Sérgio Duar
te Garcia, então Presidente do Conselho Federal da Ordem
No início de janeiro de 84 os Ticuna que moram em Santa dos Advogados do Brasil — OAB, das ameaças de morte
Clara, como forma de advertênia a D. Delicia Mafra, pre que vinham sofrendo, bem como das violências que vinham
tensa proprietária do lugar, e que ali mantém inúmeras ca ocorrendo contra índios no Alto Solimões devido à hostili
beças de gado, mataram um dos bois que comumente in dade das autoridades policiais e a falta de recursos (ou de
vadem as suas roças. No dia seguinte a interessada, acom sinteresse) da FUNAI. Mensagens foram enviadas ao Go
panhada de seu marido, sr. Altair Ramos, e de policiais de vernador do Amazonas, Dr. Gilberto Mestrinho, e ao Mi
SPO, estiveram no local, ameaçando de prisão e morte a nistro da Justiça, advertindo para a gravidade do caso.
diversos Ticunas e matando a tiros, como forma de intimi
dação, um cachorro pertencente ao vice-capitão (depoimen Depois desses fatos, os problemas diminuíram um pouco
to de Armando Guedes, em reunião realizada no IAB - RJ). nessa parte do território Ticuna. Em uma reunião de 26
capitães, realizada na aldeia de Vendaval, em 15 de julho
Pouco mais de duas semanas depois, trabalhadores do sr. de 1984, foi elaborada uma lista com os nomes de 11 pes
Epitácio Mafra, que estavam invadindo trechos do Paraná soas que costumam invadir as terras indígenas e criar con
Ribeira para retirar madeira, foram expulsos sem qualquer fusão com os Ticunas (ver no quadro). No final do ano, em
violência por um grupo de Ticunas que por ali passavam. dezembro, um grupo de famílias que haviam se deslocado
Como represália, poucos dias depois, em 24 de janeiro, o de Vendaval para as proximidades do Lago Preto, foi amea
cantineiro de Campo Alegre, Jorge Manoel Avelino, foi çado por indivíduos que estariam usando terras dos índios
agredido brutalmente por um desses elementos, acompa para acobertar contravenções. Posteriormente a Polícia Fe
nhado de outros moradores da cidade. Apanhou muito, le deral esteve por várias vezes na área, realizando sindicân
vou uma facada na parte traseira e só não foi morto por cias e destruindo plantações clandestinas,
que outros brancos interferiram (depoimento de Adércio
Custódio, capitão de Campo Alegre, ao Conselho Federal
da Ordem dos Advogados do Brasil — Rio de Janeiro, 11 de
abril). Quando o capitão-geral foi pedir providências ao De LISTA DE INVASORES
legado de Polícia, foi logo admoestado por esse: “Você não DA ÁREATICUNA
pode se alterar aqui na delegacia porque você não tem di
reito. Você não manda nada aqui. Se você se alterar eu 1. Ditimar, morador de São Paulo de Olivença,
meto dentro do xadrez" (carta de Pedro Inácio, em 05-02 2. Calistinho Calitro, morador de Santa Rita
34) repetida em depoimento prestado na Ordem dos Advo 3. Quintino Mafra, morador de São Paulo de Olivença
gados do Brasil, em 11 de abril). Nessa hora o Delegado 4. Lastimar Castelo Branco, morador de São Paulo de
questionou o próprio capitão-geral, dizendo que ele não ti Olivença
nha mais direito porque não era índio. "Aqui no Amazonas . Duquito Mafra, morador de São Paulo de Olivença
não tem mais índio, porque índio é aquele que mata gente,
come gente, anda nú” (idem).
?. Boaventura Mafra (Mico), morador de São Paulo de
Olivença
7. Epitácio Mafra, morador de São Paulo de Olivença
No dia 3 de fevereiro correu a notícia de que os trabalha 8, Ricardo Henrique, morador de Campo Alegre
dores do sr. Epitácio Mafra estavam retirando madeira no 9. João Pongó, aldeia Feijoal.
Supão e que o seu patrão havia jurado de morte o capitão 10. Delícia Mafra, moradora de São Paulo de Olivença.
geral e outros Ticunas de Vendaval. Um grupo de 150 Ti 11. Magalhães (Vitor), morador de Benjamin Constant.
cunas de Vendaval estiveram procurando-o no barracão do (extraída do documento da Assembléia do Conselho Geral
seu parente, sr. Boaventura Mafra Filho, conhecido como da Tribo Ticuna — CGTC, de 15/07/84).
Mico, que nos últimos anos tem levado diversas famílias de
brancos a estabelecer-se à sua volta, como fregueses, em
pleno território indígena. A casa foi arrombada e todos os
seus bens destruídos, arrastados para fora e jogados no rio. Em outras partes do território Ticuna, porém, continua
Não houve roubo, nem qualquer pessoa saiu machucada, ram os conflitos gerados por invasões principalmente de
os índios não levando nada para si. No dia seguinte todas as pescadores. Em uma reunião ocorrida em 15-07 em Venda
famílias que estavam invadindo a área indígena reuniram val, foram feitas reclamações contra os funcionários Fortu
nato e Euzébio, da SUDEPE, que tomavam peixe dos Ti
cuna, e contra pescadores que entravam armados na área
indígena, desrespeitando os capitães e os representantes ofi
ciais da FUNAI. Um desses fiscais era acusado de ter man
dado a PM de Tabatinga prender os índios Osvaldo Mendes
e Bernaldo Pinto, que apanharam muito na Delegacia.
(nota do Conselho Geral da Tribo Ticuna — CGTT).

118
SOLIMÕES 7

passa para a dir. Arminar…Tºm"…rs…………………………………"TerriedaoAB/RJ. "

Para resolver esse problema, foi realizada uma reunião em


21 de agosto, em Tabatinga, com a presença de 9 capitães e CARTA DE PEDRO R. GABRIEL
mais uma dezena de outros índios, juntamente com repre
sentantes do CF-SOL, da Polícia Federal, da Prefeitura de Uriqui, 25 de janeiro de 1985.
Tabatinga e da FUNAI, além de outros civilizados interes
sados em continuar com a pescaria nas áreas indígenas. 12 Tikunas reunirão-se para fazer a fiscalização dos limi
Dessa reunião resultou: 1) que estava proibida a “batida" de tes da sua área que dividi o Tawarú dos civilizado, com
peixes ou atravessar malhadeiras nos igarapés ou lagos, po Uriquido Tikuna.
dendo os próprios Ticuna apreenderessas malhadeiras e en Este grupo de 12 pessoas fizeram isto porque si encon
tregá-las à FUNAI, CF-SOL ou Prefeitura; 2) o pescador trava um elemento do serviço militar, chamado C. B. Ro
que entrar sem consentimento da SUDEPE, não obedecer drigues, que entrou sem permissão, do capitão da área,
aos Ticuna ou carregar consigo malhadeira, não será aceito; para pescar, num dos lagos, que fica dentro da área da
3) o fiscal Fortunato não vai mais entrar em área indígena; reserva indígena de Uriqui, para ir pescar com seus uten
4) os índios podem vender peixe na feira do Marco, mesmo cilios de pesca. O tal falou que ninguem importava a en
sem estarem vinculados à Associação de Pescadores (jornal trada deli neste lago e disse que todo o ticuna que apa
Magüta, nº II). recesse, para corrigir, ele metia bala.
Na ocasião que os 12 Tikuna chegaram na margem do
Apesar dessa iniciativa, o problema não foi inteiramente lago chamado lago da Menina, não encontraram o tal ele
resolvido porque muitos civilizados ainda questionam que mento. E foram seguindo até o fim do piqui do limite, e ao
essas áreas de pesca sejam parte das terras indígenas, des chegar numa certa parte encontraram uma canoua feita
respeitando a proibição de pesca predatória e tentando às pelos civilizados dentro da área, de uma madeira cha
escondidas continuar com a extração de madeira (ver carta mada jacareuba com 12 metros de comprimento, e esta
de Pedro Ramos Gabriel, de 25-01-85). Ainda recentemente
canoua foi levada para a comunidade do Sacambu e la
os Ticuna de Urique apreenderam 250 toras de madeira e ficou.
60 kg de pescado de um só desses elementos; posterior Mais no dia seguinte que foi no dia 13 os civilizados foram
mente uma patrulha da PM esteve no local pretendendo a buscar a canoua, ameaçando os ticunas, com balas e por
liberação da madeira, ocorrendo uma briga com os Ticuna radas; aonde no momento falou um dos civilizados di
zendo que os Ticunas são uma raça de comunista, tomam
as coisas na base do comunismo.
E a Funai com a Policia Federal dão apoio, porque a Fu
nai com a P.F. só vivem a custa de roubo e são os mais
ladrões que tem e porisso que eles fazem isto. E esta nota
foi tomada no dia 12.1.85 na hora que acontecia o caso,
por: Pedro Ramos Gabriel.

119
Acervo
| @ A INDÍGENAS NO BRASIL/CEDI

Encontro dos capitães Ticuna,


na aldeia de Vendaval,
abril de 1984.

##|

Capitão
Basílio João Rosindo
(à esquerda).
Capitão
Mauricio Laureano Bento

moradores dali. Não foram utilizadas armas, mas alguns Foi estabelecido que no mês de outubro seria realizado um
soldados voltaram muito irritados, querendo uma desforra levantamento dos ocupantes não-índios por uma equipe da
dos índios. Esse estado de espírito da força policial vai ter FUNAI, sob a orientação de André Villas-Bôas, comple
repercussão nos excessos praticados pela PM de Benjamin mentando algumas informações sobre parte da A.I. Evare
Constant contra os índios (vide, a seguir, notícia do confli não incluídas em propostas anteriores (trechos da margem
to, através de relatório à ABA). direita e de terra-firme no Camatiã), no Auati-Paraná, Ma
carrão e Estrela da Paz. Esse planejamento foi cumprido
com sucesso, sendo possível ainda chegar a um acordo com
A definição das áreas as comunidades de Nova Itália e Umariaçu quanto aos li
mites desejados de suas respectivas áreas).
Em setembro de 1984 a FUNAI criou um Grupo de Estudos
que teria como finalidade analisar as diferentes propostas O Grupo de Estudos fez ainda uma recomendação à FU
existentes e definir uma proposta de identificação e delimi NAI para a criação de uma Coordenadoria Especial para a
tação das áreas Ticuna. Havia duas propostas divergentes, Area Ticuna, centralizando assim todas as ações e decisões
elaboradas por duas equipes da FUNAI, uma apresentada do órgão quanto àquele grupo indígena, procedendo a um
no 1º semestre de 1982, a outra resultante de trabalho de levantamento cuidadoso das reais necessidades (destacan
campo realizada de janeiro a março de 1984. Outra tarefa do-se a questão da educação e da saúde) e elaborando um
também desse Grupo de Estudo era avaliar a atuação da programa de ação sistemática em conformidade com as li
FUNAI naquela área e fazer recomendações quanto a ações deranças Ticuna e apoiando-se em uma assessoria técnica
prioritárias. Para cumprir essas duas finalidades, a FUNAI fornecida pelos integrantes do citado Grupo de Estudos.
instituiu um Grupo de Estudo, a ser reunido em sua sede, (vide Boletim da Pastoral Indigenista do Alto Solimões,
de 10 a 16 de setembro, em Brasília, composto por funcio nº4).
nários do órgão (Maria Auxiliadora C. Leão, Silvia Tafuri e
André Villas-Bôas), por integrantes da Pastoral Indigenista
do Alto Solimões (Frei Arsenio Sanpalmieri e Silvio Cavus A visita do presidente da FUNAI
cens), pelo Dr. Roberto Cardoso de Oliveira e pela equipe
de pesquisa em antropologia do Museu Nacional (Maria Em atendimento a um convite feito pelo capitão-geral Pedro
Jussara C. Gruber, Vera M. N. Paoliello e João Pacheco de Inácio, o então Presidente da FUNAI, Nelson Marabuto,
Oliveira). (Portaria nº 1692 de 23/8/84). visitou o Alto Solimões entre os dias 16 e 19 de fevereiro de
1985. Em decorrência de seu não comparecimento no dia
Como resultado das discussões entre os membros desse marcado inicialmente para a reunião (dia 07/02, em Ven
Grupo de Estudo, foram consideradas desde já aprovadas daval), houve uma reação de raiva e descrédito no cumpri
as identificações de 7 áreas: Evare (incluindo ainda um ter mento dessa promessa, o que culminou no aprisionamento
ritório não contínuo na margem direita do Solimões, abran do indigenista André Villas-Bôas até que efetivamente se
gendo de um lado Feijoal, de outro o conjunto de lagos e concretizasse a viagem do Presidente da FUNAI àquela re
igarapés que vão do Assacaio até o Paraná do Ribeiro, e gião. (vide notícias de jornal em anexo).
pelo centro até o Camatiã), São Leopoldo, Betânia, Auatí
Paraná, Estrela da Paz, Macarrão e Santo Antônio (englo
bando ainda terras em torno de Bom Intento). Outras áreas
exigiriam ainda um maior estudo de alternativas e uma dis
cussão com a comunidade, para conhecer melhor seu posi
cionamento. E o caso de Nova Itália, Porto Espiritual, Lau
ro Sodré e Umariaçu.

120
SOLIMÕES 9

Capitão Armando Manuel.

Capitão Fidelis José


(à direita).

Contornado esse incidente e minizadas as suas repercussões O conflito com a PM


graças à atuação tranqüila e habilidosa daquele indigenista,
bem como de alguns líderes indígenas, a reunião com o Pre Um dos barcos em que retornavam às aldeias os índios saí
sidente da FUNAI realizou-se na manhã de domingo, dia dos da reunião, o Marubo, com cerca de 85 índios das al
17, na aldeia de Umariaçu, contando com a participação de deias de Urique, Cajari, Vendaval e Santa Clara, parou
capitães e professores índios de mais de 30 comunidades. para pernoitar na cidade de Benjamin Constant devido à
Foram assim detalhadamente apresentadas ao dirigente da falta de holofote, necessário para viagem noturna. Por volta
FUNAI as principais reivindicações quanto à demarcação de meia-noite dois índios, Paulo Mendes e Tertuliano, que
das terras e a uma assistência mais permanente e sistemá estavam cantando, dançando e bebendo, festejando carna
tica. Em resposta, a FUNAI prometeu criar imediatamente val em uma das principais esquinas da cidade, foram rispi
uma Ajudância do Solimões, a ser sediada em Tabatinga, damente abordados por três PMs que faziam a ronda. Os
exclusivamente para tratar de assuntos relativos aos Ticu policiais resolveram conduzir preso um deles (Paulo). Um
nas, ficando diretamente ligada à Presidência e não à Iº dos PMs porém logo o identificou como um dos dos seus
DR. Seriam organizadas programas especiais de saúde e agressores quando estivera em Urique para liberar a ma
educação, sendo constituída uma equipe médica de alto ní deira retida pelos índios (vide item 3 desse relatório). Se
vel (com médico, enfermeira, dentista e laboratorista) além gundo o depoimento dos índios, os policiais passaram então
de contar com um barco próprio para locomoção) e instituí a proceder com violência, acertando uma estocada com cas
da uma Coordenação das Atividades Educacionais (para su setete em seu fígado e derrubando-o com socos e pontapés.
pervisionar os convênios, coordenar a ação dos monitores O outro índio tentou interferir, mas foi igualmente derru
índios e organizar cursos de capacitação). Nas palavras do bado com um forte golpe de cassetete nas costas (do qual
presidente da FUNAI, essa nova equipe de ação da FUNAI lhe ficou um hematoma típico, exibido no dia seguinte ao
na área deveria atuar sob a orientação do indigenista André próprio Presidente da FUNAI, em reunião havida em Taba
Villas-Boas, contando com a assessoria do antropólogo João tinga). Outros índios que estavam nas proximidades inter
Pacheco de Oliveira e com a colaboração permanente do feriram e nesse momento foi espancado o índio Aristides,
Grupo de Estudo já anteriormente referido. A FUNAI com deixado inconsciente e com a cabeça aberta por golpes de
prometeu-se também a apressar o encaminhamento da pro cassetete. A confusão atraiu a atenção geral, aí intervindo
posta de criação das áreas Ticuna a esferas mais elevadas de outros índios que passeavam pela cidade. Em inferioridade
decisão, lutando pela aprovação mais rápida possível disso. numérica, os policiais sacaram de suas armas, alegando
A reunião encerrou-se em clima de grande harmonia, as contudo terem dado apenas tiros de advertência (segundo
lideranças voltando a suas aldeias muito satisfeitas com seu eles próprios, tiros para o chão, e não tiros para o alto,
contato direto com o dirigente máximo da FUNAI (nunca como é de praxe nessas circunstâncias). Um índio, Pedro
antes um Presidente desse órgão estivera em uma reunião Mendes, de Urique, foi ferido na perna por uma dessas ba
com os índios dela) e com os planos de atuação ali exibidos. las. Por fim os índios dominaram a situação, saindo os três
PMs bastante feridos, um na cabeça (provavelmente por
pau ou pedra), outro no rosto (com um talho superficial,
possivelmente produzido por canivete), e um terceiro no ab
dômen (com diversos cortes, certamente feitos pelo mesmo
objeto já referido). Findo o entrevero, os índios se retiraram

121
s! Z_Acervo
_A Kºvºs INDÍGENAs No BRASIL/CED

para o barco, carregando os seus companheiros feridos, lá ao tentar interferir, os funcionários da FUNAI foram amea
permanecendo cerca de uma hora aguardando a chegada de çados fisicamente e insultados, o primeiro conseguindo es
um funcionário da FUNAI, encarregado de dirigir aquela quivar-se de um golpe com o cabo do mosquetão, o segundo
embarcação. Durante esse tempo outros policiais mistura pulando pelo barranco para esconder-se na vegetação pró
dos a alguns regionais ocuparam-se em apedrejar o barco xima ao rio. O índio foi conduzido preso à Delegacia local.
Marubo, gritando insultos e zombarias, enquanto outros
barcos igualmente ancorados no porto fixavam no Marubo
os seus holofotes para favorecer a pontaria da turba ali reu
nida. Os índios permaneceram dentro do barco, não res MANCHETES DOS JORNAIS
pondendo às provocações. SOBRE O CONFLITO
Com a chegada do funcionário da FUNAI, sr. Marreta, o Polícia Militar embosca e fere a tiros índios ticuna
barco dirigiu-se para o porto do Hospital de Benjamin (O Liberal, Belém, Pará, 19/02/85).
Constant. Alertados para isso, os policiais deslocaram-se
PM embosca e atira em índios no Amazonas
por terra para o Hospital e ali puseram-se de tocaia. Quan
(O Estado de S. Paulo, SP, 19/02/85).
do os índios saíram do barranco e aproximaram-se da en
trada do Hospital carregando os parentes feridos, foram re Policiais abrem fogo contra 7 indígenas
cebidos à bala pelos 3 PMs escondidos nas imediações, dois (Jornal de Brasília, 20/02/85).
deles embaixo de um caminhão estacionado próximo, o ter Grave estado de Tikuna ferido domingo em choque com
ceiro atrás de um monte de tábuas empilhadas em uma brancos
construção próxima. Na frente seguiam três pessoas carre (O Globo, Rio de Janeiro, 20/02/85).
gando o índio Aristides, respectivamente o funcionário da
Policiais militares baleiam oito índios ticuna no Amazo
FUNAI e os índios Paulo Mendes e Juvenal (da aldeia do
11315
Cajari). Desse confronto resultaram cinco Ticunas feridos à
bala por disparos de revólver calibre 38, inclusive alguns (Folha de S. Paulo, 20/02/85).
rapazes menores (um dos índios alvejados tem apenas 14 Fuzilados índios ticuna em duas emboscadas da PM
anos e no cortejo havia também mulheres, velhos e crian (O Dia, Rio de Janeiro, 20/02/85).
ças). O caso mais grave é o do Ticuna Juvenal, que recebeu Estado de saúde do índio Juvenal Ticuna é bastante grave
três balaços na clavícula, no abdômen e um último acima (O Liberal, Belém, 20/02/85).
dos quadris (denotando portanto que ele, ferido, estava em
fuga, e que o autor do disparo não tinha intenção mera Indio baleado por PMs passa mal e deve ser removido
mente defensiva). Um dos disparos alojou-se no pulmão, para Manaus
inspirando sérios cuidados médicos. Os policiais continua (Folha de S. Paulo, 21/02/85).
ram a atirar até esgotar toda a sua munição, quando então Antropólogo desmente embriaguez de ticunas
debandaram perseguidos pelos índios enfurecidos, que nes (Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 22/02/85).
se instante agrediram a esposa e a filha do citado funcio
Antropólogo teme que ocorram novos conflitos com ti
nário (as quais, afirmam os índios, teriam instigado a PM a {'t1IR#13
abrir fogo contra eles). Em seguida os índios deixaram os
(O Globo, Rio de Janeiro, 22/02/85).
seus feridos no Hospital, ali permanecendo apenas Paulo
Mendes para fornecer os dados referentes a cada um, todos
os restantes retornando ao barco Marubo.
A FUNAF foi informada dos acontecimentos através do
Entre esses dois incidentes, o Delegado de Benjamin Cons Cap. Mauro, do Cornando Militar de Tabatinga, Devido a
tant, um subtenente licenciado da PM, solicitou reforços à uma pane no avião que o conduziria a Manaus, o Presidente
PM de Tabatinga, alegando que os Ticuna estavam amea da FUNAI e seus acompanhantes ainda permaneciam na
çando ocupar e destruir o Hospital. Oito policiais foram en região, hospedados em Tabatinga. Seguiram então para
tão enviados às pressas a Benjamin Constant, sendo trans Benjamin Constant, na lancha da Capitania dos Portos, três
portados em uma lancha de 115 HP pertencente e pilotada funcionários da FUNAI (Lucio Acosta, chefe da Hº DR,
pelo sr. Oséas Martins (que, de acordo com informações com sede em Manaus; André Villas-Bôas, indigenista que
procedentes da Polícia Federal da área, é elemento notoria coordena a atuação da FUNAI na área Ticuna; e João Sil
mente vinculado ao tráfico de cocaína). Ali chegando, ar verio Dias, chefe da AJUSOL, sediada em Atalaia do Nor
mados de revólveres e mosquetões, encontraram dois fun te), o antropólogo João Pacheco de Oliveira e quatro ele
cionários da FUNAI, srs. Washington e Helio, respectiva mentos da Polícia Federal. Chegando à cidade por volta de
mente chefes dos P.Is. Campo Alegre e Belém do Solimões, duas horas da madrugada, esse grupo pôde perceber o cli
que, acompanhados por Paulo Mendes (que haviam en ma de ódio criado contra os índios e os funcionários da FU
contrado anteriormente no Hospital) buscavam localizar se NAI. Diversos grupos de pessoas à paisana, ostensivamente
havia outros índiosferidos circulando pela cidade. Esses po armados com revólveres e espingardas, percorriam as ruas.
liciais iniciaram imediatamente nova agressão ao Ticuna e, .Segundo uma versão ouvida de moradores de Benjamin
Constant, no dia seguinte, tais pessoas teriam sido convo
cadas pelo próprio Delegado de Polícia, para atuar como
uma força paralela e auxiliar). Ao aproximar-se do Hospital
foi vista uma patrulha da PM, armada de mosquetão, revól
veres e cassetetes, escoltando, algemado, para a Delegacia

122
sL7-Acervo
_/\ 1 S-A SOLIMÕES 11

um jovem Ticuna encontrado nas imediações, isso após já A realização de um inquérito policial de rotina nessas cir
haver sido antes submetido a outras violências e humilha cunstâncias é inteiramente inócuo e deformadora da ver
ções. Ajudados pela Polícia Federal os funcionários da FU dade: para a PM local e o Delegado os fatos já estavam
NAI conseguiram libertar esse rapaz. Depois de providen bastante claros naquela noite, sendo fácil recolher inúmeros
ciar a remoção para o Hospital de Tabatinga dos doentes depoimentos de seu corpo de voluntários de modo a com
mais graves, esse grupo dirigiu-se à Delegacia onde encon provar sua versão oficial. Os Ticuna estariam embriagados,
trou o índio Paulo Mendes estirado em um cubículo imun promovendo desordens na cidade; ao serem abordados pelo
do, sem qualquer iluminação ou ventilação, com sintomas los policiais, os atacaram com armas brancas e tomaram o
evidentes de dor e bastante dificuldade para conseguir er revólver de um dos PMs; "dirigiram-se para o Hospital no
guer-se e caminhar. Apesar disso o Delegado negou ter sido intuito de matar os policiais que já lá estavam feridos; a in
cometida qualquer violência contra aquele Ticuna. A exal tervenção da PM no segundo choque teria visado apenas
tação dos ânimos era patente, em frente à Delegacia per proteger o Hospital e impedir que os índios fossem "lincha
manecendo um grupo de civis armados. Já às 5 horas da dos por populares justamente exaltados” com os aconteci
manhã, com todos os feridos (índios e soldados) tendo sido mentos. Esse desdobramento do caso foi confirmado pela
removidos para o Hospital de Tabatinga, que apresentava versão divulgada em Manaus, no dia 20, pelo Major Orlei
melhores condições de atendimento, alguns elementos da son, porta-voz do Comando da PM do Estado do Amazonas
PM mantinham-se em prontidão próximo ao Hospital. (vide JB, 21-02-85, p. 4). As suas afirmações são inteira
Quando o antropólogo e dois funcionários da FUNAI diri mente improcedentes: a) os índios não estavam "armados
giram-se ao barranco para saber se havia mais algum índio de terçados, facas e espingardas”, não trazendo consigo
ferido, o capitão-geral dos Ticuna, Pedro Inácio, subiu para qualquer espécie de arma (no máximo um canivete) pois
relatar àquelas pessoas os acontecimentos. Nessa ocasião vinham de uma reunião com o Presidente da FUNAI, b)
PMs postaram-se em linha de tiro, colocando bala na agu ainda que alguns deles houvessem bebido, os índios não es
lha de suas armas, afastando-se do local apenas devido à tavam embriagados, pois disso não se encontrou qualquer
cobertura dada pela Polícia Federal. sintoma quando com eles se conversou menos de duas horas
depois; c) a tentativa de culpabilizar um índio (dito “acul
No dia seguinte os oito índios feridos tiveram seu atendi turado”) como responsável por promover "verdadeira ba
mento médico completado no Hospital de Tabatinga e, com derna pública”, corresponde plenamente à tática adotada
exceção de Juvenal, tiveram alta para fazer sua recuperação pelas autoridades locais, caracterizando os índios e comuni
em casa, acompanhados por atendentes de enfermagem dades mais agressivas na defesa de seu território como
deslocados pela FUNAI para as aldeias de onde provinham. “não-índios” e “agitadores” (ver carta-denúncia do índio
No final da tarde Juvenal foi operado com bastante sucesso, Pedro Mendes, um dos feridos no confronto, colocada em
os médicos classificando como muito boa a sua recupera Anexo, pois indica claramente as acusações de que são ví
ção, pois se tratava de caso extremamente delicado. Apesar timas tais lideranças). O índio citado pela PM é um legítimo
disso permanecia com uma sonda no pulmão, para retirar o Ticuna, filho de um extenso ramo da família Mendes e do
sangue que lhe impedia respirar normalmente. clã do avaí, casado com uma índia Ticuna e morador da
aldeia de Urique. A acusação de ser “aculturado” procede
A situação de enfrentamento entre a PM e os Ticuna (em de interesses espúrios, que querem caracterizá-lo como não
especial algumas aldeias e suas lideranças) é extremamente índio devido às denúncias que vem realizando em jornais, e
grave e está a pedir providências urgentes de todas as auto às autoridades e à FUNAI sobre a invasão de áreas de pesca
ridades responsáveis. Os incidentes descritos envolveram a situadas em território indígena, bem como por sua função
totalidade (6) do contingente policial de Benjamin Cons de articulador no movimento de lideranças Ticuna pela de
tant, três deles saindo feridos no primeiro embate, os três marcação de suas terras.
restantes tendo alvejado diretamente e por vingança os ín
dios (pelos quais foram identificados). O próprio Delegado
procedeu de modo destemperado, no mínimo aceitando que
a população se armasse para agir sem qualquer obediência
à lei, tendo ademais infringido outros dispositivos legais ao QUEM É ÍNDIO TICUNA?
encarcerar um índio. A rivalidade parece se estender tam Outros pode
que não foi colocado, que a PM acha que os Acul
turado deixar de ser Índio. •

bém, ainda que em menor escala, ao contingente da PM


sediado em Tabatinga, dos quais alguns membros conti .Mais eu Paulo Mendes sou Indio puro da Nação de avaí e
nuaram a hostilizar os índios no cais da Portobrás, enquan tenho meu nome usado na tribo (Tsheverurü Memaücü) e
to um outro soldado postou-se do lado de fora do Hospital sou casado com Tikuna da nação de Maguari e ela tem o
de Tabatinga, proferindo ameaças contra os Ticuna que lá nome usado na Tribo (Pütü-ãna) e tenho filhos com ela,
SE EF2CO??frgPtFH72.
inclusive com o nome da nação.
E por isso não deixo de ser Indio Tikuna, quem disse que
Indio deixa de ser, é somente o indio mesmo mais não o
Branco.
Assina, do Conselho Geral da Tribo Tikuna, Paulo Men
des Honorato. (extraído do jornal MAGUTA, nº 14,
Umariaçú, 27/03/85).

123
s! Z> Acervo
_/\ | S.A. INDÍGENAS NO BRASIL/CEDI
A FUNAI solicitou à Superintendência da Polícia Federal,
sediada em Manaus, que abrisse inquérito para apurar res DEPOIS DA BRIGA
ponsabilidades no caso, para isso sendo enviado à Area um
Delegado da DPF, especialmente para proceder a essa in As coisas que aconteceram depois da briga de B. Cons
tant foi:
vestigação. As expectativas do órgão são de que esse inqué
rito, se conduzido com isenção e competência, possa enqua 1° vez PM chamou uma mulher Tikuna que estava ven
drar alguns elementos da PM na prática de delitos graves dendo banana na feira, que ela não podia vender caro.
(como a tentativa de homicídio, com o agravante de preme 2° vez houve uma briga entre brancos e os brancos dis
ditação), passíveis portanto de expulsão da corporação e de seram que tinha sido os Tikuna.
outras punições legais. A FUNAI acredita que o inquérito Mas na verdade foi o próprio que foi avisar a família que o
realizado pela Polícia Federal possa chegar assim a conclu matou, por causa de uma briga que eles tinham 3 anos
sões efetivas, punindo alguns culpados a título de exemplo e atrás. Isso teria que ter uma investigação. Quem me in
aconselhando as autoridades competentes o remanejamento formou esta briga foi um da própria comunidade de Taua
do contingente policial de modo a esfriar o clima de revan ru, o criminoso é o filho do senhor DOCA conhecido as
che já formado na PM de Benjamin Constant e mesmo de sim, culpar os outros é um crime também.
Tabatinga. (Extraído de Relatório apresentado pelo antro 3° vez a PM invadiu o barco MUNANE de Campo Alegre
pólogo João Pacheco e Oliveira Fº à ABA, em fevereiro de para prender seis (6) paneiros de farinha, porque uma
1985). mulher que trabalha na feira tinha encontrado um pedaço
de vidro na farinha, levou a questão para polícia, e por
isso a PM levou 3 tikuna para a Delegaciajunto 6 paneiros
de farinha, e isso já foi encaminhado para Funai e a
Funai não tomou providência.
Sobre o vidro que dizem que tem nas farinhas é só uma
mulher que encontra, e os outros não encontra nada na
farinha.
Tudo isso é problema contra os Tikuna.
(trecho da carta de Paulo Mendes — Memaiicii a João Pa
checo de Oliveira Fº, de Umariaçú, 14/04/85).

existentes na área dos Tikuna. Será feito A denúncia foi levada ontem ao presi
também um levantamento documental dente do Conselho Federal da OAB,
em cartório, referente a certidões de re Mário Sérgio Duarte Garcia, por quatro
GT para levantamento gistro e de cadeias sucessórias. O grupo caciques ticunas: Pedro, Armando,
tem um prazo de 30 dias para a execução Adércio e Manduquinha. Pela primeira
fundiário
dos trabalhos. (Correio Braziliense, 13/ vez eles falaram à imprensa sobre o as
O presidente da Funai, Otávio Ferreira 01/84). sunto e ainda esta semana, antes de re
Lima, designou ontem um grupo de tra tornarem às suas tribos, pretendem avis
balho para promover um levantamento tar-se com o presidente da Funai, em
fundiário e estudar a redefinição das Denúncia à OAB Brasília, onde estiveram a semana pas
áreas dos índios Tikuna, no alto Soli sada mas nada conseguiram, porque a
mões. A Funai deverá examinar as ben Os ticunas estão sendo ameaçados de sede da Fundação estava cercada de
feitorias feitas por não-índios dentro dos morte por uma família de posseiros, os “soldados e cachorros”.
limites de área de um milhão e 390 mil Mafra, que já ocuparam grande parte Duarte Garcia prometeu levar o assunto
hectares onde vivem hoje os Tikuna e das reservas demarcadas pela Funai e à Comissão de Direitos Humanos da
identificar os conflitos existentes. em 82 mataram cinco índios a tiros. OAB e já depois de amanhã vai apresen
O levantamento fundiário, com o estudo Além dos Mafra, também o delegado de tar um resumo do problema na reunião
da redefinição das áreas, deverá ser feito São Paulo de Olivença (município onde do Conselho de Defesa dos Direitos da
por um antropólogo, um engenheiro, estão os ticunas) já ameaçou matar um Pessoa Humana, no Ministério da Jus
dois técnicos de agricultura e pecuária e dos caciques que defendem os direitos tiça, em Brasília. Na denúncia que apre
um engenheiro do Incra. O trabalho vai do grupo. sentaram ontem na OAB, os ticunas
incluir consultas ao Incra e Iteram, além
da identificação de posses e domínios

124
sL7-Acervo
SOLIMÕES 13

contaram que desde 82 os Mafra vêm Paulo Mendes Tikuna, que acompanha de um milhão e 300 mil hectares de ter
“atacando a tribo”. Segundo Pedro, são o cacique, em 1983, havia apenas um ras para os 18 mil Tikuna, em diversos
quatro irmãos: Boaventura, Quintino, plantador na área. No momento, os ín pontos do Alto Solimões. João negou on
Epitácio e Delícia, além do marido des dios conhecem quatro, entre eles o co tem a versão da RM do conflito, Se
ta, Altair Ramos. O primeiro é conhe caineiro Oscar Castelo Branco, irmão do gundo o antropólogo, um dos barcos uti
cido como “Mico Mafra” e é o líder da prefeito do município de Benjamin lizados pelos Tikuna para voltarem a
família. Juntos, os Mafra exploram ma Constant, Alcindo Castelo Branco, que suas aldeias parou na cidade de Benja
deira, borracha e criam gado. ocupa três hectares de terra na área indí mim Constant porque não tinha farol
Os caciques disseram que em 82 Quim gena Ribeiro, Posto Indígena Vendaval. que permitisse continuar a viagem à noi
tino matou três índios ticunas, pouco Além de Oscar Castelo Branco, são co te. “Dos 80 Tikuna que estavam no bar
antes de Artiete Almeida, ligado aos nhecidos também os cocaineiros Calixto co, quase a metade saltou para dormir
Mafra, ter assassinado outros dois. No Mila, com plantação na área indígena na cidade. Eles foram ver blocos que
último dia 8 de fevereiro, Os irmãos Ma Camatiã; Emílio, que ocupa terra no passavam e a confusão começou quando
fra e mais de cem jagunços ameaçaram Ribeiro; e colombianos que possuem dois, que estavam sentados no chão, be
invadir uma das comunidades ticunas. plantações entre a Colômbia e a reserva bendo, foram agredidos por dois poli
“Ficamos esperando mas eles não apa tribal de tacana. Segundo Paulo Tiku ciais, com cassetete. Outros índios e
receram”, contou Pedro, que foi cha na há mais de dois anos os índios recla mais um policial entraram na briga e o
mado à delegacia de São Paulo de Oli mam providências da Funai e também Tikuna Pedro Mendes foi baleado na
vença no dia 28 de janeiro para depor da Polícia Federal para a retirada dos perna”, disse João. Segundo o relato que
sobre roubo de gado dos Mafra. “Che traficantes, sem que tenham recebido os índios fizeram ao antropólogo, eles
guei lá e o delegado começou a acusar qualquer atenção. Por outro lado, os recolheram seus feridos e foram para o
os ticunas de roubar e matar gados dos plantadores de tóxico vivem ameaçando hospital, onde mais três soldados (que
Mafra. Eu disse que era mentira, que de morte o cacique Pedro Inácio e têm a com os outros três, feridos na briga,
queria prova e ele disse só que queria pretensão de expulsar os mais de 1.500 compõem aguarnição da PM da cidade)
respeito, porque senão me prendia e ma Tikuna que vivem às margens do Rio So prepararam uma emboscada, escondem
tava. Ficamos discutindo três horas.” limões. do-se embaixo de um caminhão e rece
Para ocupar as terras dos índios, os Ma “Na nossa área — diz Paulo Tikuna — bendo-os à bala. Quando a munição
fra chegaram a arrancar três placas de não tem problema de invasão de colonos acabou, o caminho ficou livre e os índios
marcatórias de divisa, colocadas pela ou posseiros, mas os cocaineiros estão foram tratados no hospital pelo médico
Funai. Pedro e os três caciques anuncia impedindo nós índios de utilizar a terra.
que imediatamente despachou dois de
ram que no próximo dia 25 vão fazer O Governo deveria criar uma lei para les para Tabatinga. Os policiais feridos
uma grande reunião de todas as comuni retirar os cocaineiros da área indígena, na primeira briga só tinham talhos su
dades ticunas para decidir o que fazer. em vez de fazer decreto para beneficiar perficiais. De todos os feridos, apenas o
“Chamamos até nossos irmãos da Co mineradoras”. Tikuna Juvenal, que recebeu tiros no
lômbia e Peru para essa reunião — disse Segundo Tikuna a responsabilidade por pulmão, garganta e abdômen, perma
Pedro, — Se a Funai não tomar uma parte desta situação é dos próprios fun nece hospitalizado. (O Globo, 22/2/85).
providência, temos que nos defender.” cionários da Funai que não acreditam
Hoje, o presidente da OAB vai enviar nas denúncias dos índios. (Correio Bra
um telegrama ao ministro do Interior. ziliense, 12/01/85).
Mário Andreazza, e ao governador do Indios aprisionam sertanista
Amazonas, Gilberto Mestrinho, recla
mando contra o descaso para o pro Antropólogo teme que ocorram Os índios Tikuma estão mantendo como
blema dos índios do alto Solimões. novos conflitos refém o sertanista da Funai André Vil
(FSP, 12/04/84). las-Boas no posto indígena Feijoal, entre
Atalaia do Norte e Benjamin Constant,
Se a guarnição da Polícia Militar e o De
legado de Benjamin Constant (AM), na no Amazonas. Os Tikuna exigem a de
fronteira com a Colômbia e o Peru, con marcação imediata de suas terras e que
Plantadores e traficantes
denunciados tinuarem na cidade, novos incidentes rem a presença do presidente da Funai,
entre índios Tikuna e brancos podem Nelson Marabuto, como condição para
O cacique geral dos índios Tikuna, Pe voltar a acontecer. A advertência é do libertar o sertanista. Marabuto havia
dro Inácio, que habita o alto Solimões, antropólogo João Pacheco, que esteve prometido ir até a região na quinta-feira
Amazonas, chegou esta semana a Brasí em Benjamin Constant, no domingo de passada, mas não foi, devendo estar lá
lia para denunciar à presidência da FU carnaval, após uma briga entre índios e apenas no sábado. As promessas não
NAI a ocupação de suas terras por plan a guarnição da PM, quando oito Tikuna cumpridas do órgão, além da falta de
tadores de coca. Segundo outro índio, e três soldados ficaram feridos. João es assistência educacional e de saúde fo
tava em Tabatinga durante o incidente ram as principais causas da atitude dos
em Benjamin Constant, mas domingo índios de prender André Villas-Boas.
havia participado, junto a mais de 50 (ESP, 12/2/85).
representantes de 40 aldeias Tikuna, de
uma reunião em Umariaçu com o Presi
dente da Funai. No encontro, ficou acer
tado que a Funai pedirá a demarcação

125
–/ #
* #INDIGENAs No BRASIL/CEDI
*.

PM embosca e atira quando assistiam à comemorações do como refém da tribo durante quatro
carnaval. Posteriormente, os seis outros dias, na última semana. Durante visita à
O presidente da Funai, Nelson Mara foram baleados em uma emboscada pre tribo, Marabuto prometeu também en
buto, informou ontem que um grupo de parada pela Polícia Militar de Benjamin viar ao grupo interministerial que deli
policiais militares do Amazonas basea Constant, quando os índios removiam bera sobre a demarcação de áreas indí
dos na cidade de Benjamim Constant, seus companheirosferidos para a aldeia. genas a proposta de criação do território
perto da fronteira com a Colômbia e o (ESP, 19/02/85). Tikuna, englobando 600 mil hectares,
Peru, baleou oito índios ticunas. Um Villas-Boas disse que esse é o primeiro
deles, atingido mais gravemente, foi passo para a regularização da área Ti
operado no Hospital Militar de Tabatin Presidente da FUNAI visita kuna. (O Globo, 22/2/85).
ga e ainda inspira cuidados. De acordo e promete demarcação
com a versão de Marabuto, inicialmente
dois índios foram feridos por soldados O Presidente da Funai prometeu aos ín
dios Tikuna, criar uma ajudância autô
noma do órgão em Tabatinga, para as
sistência direta aos 18 mil Tikuna da re
gião, segundo informou ontem o serta
nista André Villas-Boas, que ficou preso

126
sL7-Acervo
–/ { | <> A

JAVARI

127
#Arruí
*>
Bºil{l

A}FIHASEAPE

.…º
“--,
“…,
C. Pç VD5 INDIGENA5 Nó BRASIL #"--> CED| J #*A RI = #

128
JAVAR$ 3

QUADRO GERAL DOS POVOS INDÍGENAS DA ÁREA JAVARI

NQ NO NOME DA N? DE ALDEIAS OU Jºaº

EOVÃO MAPA ÁREA MUNICÍPIO NOME DAS ALDEIAS POPULAÇÃO FONTE E DATA
AI do Val Estirão do J.C
{=} * *--* #

MARUEO * loo Javar Equador, 14 462 *

&Väiºl || Atalaia do Melatti: 78


NCrte

Estirão do -

MAYORUNA 2 Idem Equador 8 410


l CEVUSCellS : 83

Atalaia do
MATIS 3 Idem L 87 Cavuscens: 83
NCIrte

Índios da
Confluencia
* * Atalaia do de
E 200 3. *

do Ituí C/Eta- 4 Idem NCIrte 8 300 Cavuscens: 84

coaí (KORUBO)

Indios do
E, L
#º F ?
de 120 a
i:
}uixito --} dem Atalaia do 3 (?) D. Melatti: 80

NOIte L50

Estirão do
KULINA 6 Idem
Equador
E. do Equador dispersos 29 J.C. Melatti:78

e B. Constant 35 Cavuscens: 85

CANAMART 7 Idem
Jutaí 3 582

NeVeS e
Labiak: 83

Jutaí Arredios ?

Índios do Alto B. Constant, 27 500 CavusCens: 83


8 Idem S. Paulo
Jandiatuba de Olivença
e Jutaí Arredios ?

TXUNHUAN- Ide Jutaí e * NeVES e


DUAPÃ (TUKANO) 9 fil S.Paulo de dispersos º lLabiak: 84
• Olivença

123
sL7-Acervo
–/ * # INDÍGENAS NO BRASIL/CED?

A PETROBRÁS
E OS ARREDIOS
DO ITACOAI E JANDIATUBA
“Apocalypse now”,
em silêncio

Araci Maria Labiak


E

Lino João O. Neves (*)

! o mesmo tempo que aparentemente silenciava suas


pretensões de construção do gasoduto que levaria o
A partir deste incidente a questão foi abordada pela grande
imprensa sob dois ângulos, ambos deliberadamente distor
gás do Juruá para o Sul do País, a Petrobrás, igual cidos com o objetivo de modificar o verdadeiro quadro da
mente em silêncio, invadiu o território de índios arredios na situação.
região dos Rios Itacoaí e Jandiatuba, com centenas de ho
mens armados da mais alta tecnologia, no avanço de seus Através do tratamento sensacionalista e policialesco com
trabalhos de prospecção. que cobriu os acontecimentos, a imprensa, principalmente
a amazonense, criou um clima de tensão e hostilidade con
Assim como as bombas de dinamite, que além de serem tra os índios, procurando incitar a população envolvente e
usadas para as pesquisas sismológicas foram detonadas con justificar perante a opinião pública medidas de represália.
tra os índios, como admitiu em Dezembro de 1983 o então Ao mesmo tempo, qualificando Nobre e João Praia de im
Presidente da Petrobrás, os helicópteros utilizados para o prudência e falta de cautela, responsabilizava-os pelos acon
transporte de pessoal e equipamentos passaram a ser em tecimentos que os vitimaram, ocultando assim as verdadei
pregados para intimidar grupos arredios. Vôos rasantes, ras responsabilidades de uma atuação daquela natureza em
perseguindo índios amedrontados pelos terreiros das aldeias àrea de grande concentração de índios arredios, onde tais
e levantando a cobertura de palha das malocas, tornaram conflitos já eram previstos.
se a grande diversão dos pilotos, que, entre risos, narravam
suas proezas nas cidades próximas. Apesar de não ter sido feita nenhuma referência oficial so
bre a possível ocorrência de mortes entre os índios, infor
Depois dos incidentes de Novembro de 1983, quando um mações concretas dão conta de que no incidente do dia 04/
Erabalhador foi flechado no Rio Jandiatuba, fato idêntico 9/84, pelo menos um índio arredio teria sido morto por um
ocorreria no Igarapé São José, afluente do Rio Itacoaí, dos índios que compunham a equipe da FUNAI que acom
quando em Março de 1984 outro trabalhador foi ferido. panhava os trabalhos de prospecção. Oficialmente foi divul
gado apenas que algumas malocas foram queimadas e ou
Decidida a não atrasar seus planos de trabalhos e não con tras abandonadas, o que parece indicar tanto a ocorrência
siderando os avisos de insatisfação dos índios contra a sua de ataques contra os grupos quanto a morte de seus mem
presença, a Petrobrás prosseguiu suas atividades no Rio Ita bros.
coaí através da CBG (Companhia Brasileira de Geofísica),
subsidiária da ElfAquitaine, que anteriormente já causara A situação chegou a tal ponto de tensão que as equipes de
danos aos Munduruku e Sateré-Mawé no Baixo Amaxonas. prospecção recusaram-se a continuar os trabalhos, exigindo
serem retiradas imediatamente da área.
Acompanhados de reduzida equipe da FUNAI, que não
mais contava com os índios Canamari do P.I. Massapê, co
nhecedores da área, e que por desentendimentos abando
(*) membros da equipe de pastoral indigenista da Prelazia de Tefé (AM).
naram a equipe, os trabalhos de pesquisa da CBG conti
nuaram normalmente até o dia 4 de setembro de 1984,
quando novamente ocorreram choques: um sertanista da
FUNAI e um funcionário da CBG foram mortos pelos cha
mados Korubo (ver adiante, no resumo de notícias da im
prensa),

130
Maloca “Korubo",
nas cabeceiras do Ig. Marubo:
arredios na área de influência
da sonda da Petrobrás
JD-1, no Rio Jandiatuba.

Insistindo na posição de não alterar as programações pré Operação silêncio


estabelecidas, a Petrobrás chegou a afirmar que "serão to
madas medidas para que se evite qualquer incidente com os Se por um lado a área não foi desocupada, na sua segunda
índios, mas, caso ocorra, se minimize ao máximo seus efei parte o plano se encontra em plena execução. A partir do
tos de modo que as atividades de exploração da Petrobrás rígido esquema de sigilo que foi instalado, nenhum dado
possam ter prosseguimento" oficial é divulgado sobre os grupos indígenas ou sobre os
trabalhos atualmente desenvolvidos.
Uma das medidas tomadas foi a distribuição de grande
quantidade de armamento aos trabalhadores, onde, segun Acobertados pela proibição aos seus funcionários de forne
do informações obtidas na região, cada homem recebeu cer qualquer tipo de informação ou comentar qualquer fato
uma espingarda e vinte cartuchos de munição, que são rea ocorrido, e pelo silêncio em que se colocaram os meios de
bastecidos constantemente. comunicação, os trabalhos na região do Rio Jandiatuba fo
ram retomados em ritmo acelerado, embora não tenham
Sob esse estranho esquema de segurança, FUNAI e Petro sido criadas pela Petrobrás as condições de segurança reco
brás procuraram eximir-se de suas responsabilidades. Seis mendadas pela equipe da FUNAI que acompanhava as
dias após o incidente anunciaram a suspensão dos trabalhos prospecções.
de exploração e a retirada de pessoal e material de riscos
(combustível e explosivos) da área, declarando que "se tudo Todo este silêncio só foi quebrado pelo CIMI (Porantim,
correr bem com a retirada dos 400 funcionários da CGB Novembro/84) e pela Survival International, que, de Lon
(sic) do local e do material de alta periculosidade, é possível dres, endossando a comunicação da equipe de Pastoral In
que durante muito tempo não se ouça mais falar sobre os digenista da Prelazia do Alto Solimões sobre a situação dos
kurubu". (O Estado de São Paulo, 10/9/94). grupos isolados do Vale do Javari, utilizou o seu Boletim de
Ação Urgente (08/01/85) para divulgar a questão, enquan
Entretanto, tal retirada nunca chegou a ocorrer. to enviava à Presidência da FUNAI uma carta aberta exi
gindo o atendimento de reivindicações concretas, tais como:
Ao invés de abandonar completamente a área, as frentes de a demarcação da área como medida de segurança para os
trabalho foram deslocadas para a região do Rio Jandiatuba, grupos e a imediata retirada da Petrobrás da área.
no centro do território de grupos isolados, como os Tsuhum
Djapa e outros ainda desconhecidos. Além da ameaça física
e da destruição material da área, estas frentes representam
o estreitamento das relações entre estes grupos e a sociedade
envolvente, e o surgimento de dependências decorrentes de
contatos não criteriosos como estes.

131
NDÍGENAS NO BRASIL/CEDI

@
Acampamento da Petrobrás, el
@
às margens do Rio Jandiatuba. […]
* #

* < •

*2*
* *#}
+-
=>
P=
<
Lºi
C
Malocas de índios arredios, +--

C
abandonadas. ++=

|-

Além de centenas de clareiras que foram abertas para testes Toda esta infra-estrutura montada para funcionar como
de detonação sísmica, da base de apoio às operações (Apoio base de operação e consolidação da presença da Petrobrás
II) instalada no Alto Jutaí e da Sonda Jandiatuba I — Ama na área, acrescida dos planos de estender à região do Ita
zonas (SJ-1-AM), que entrou em operação no dia 03 de ja coaí/Jandiatuba o gasoduto que escoará a produção do Ju
neiro de 1985, com seus possantes motores ligados 24 horas ruá até a foz deste rio e, de onde, por via fluvial e marítima,
por dia no centro do território de índios arredios, está sendo será levada para São Paulo, desmentem as informações da
construída no local denominado Bom Futuro, no Rio Jutaí, Petrobrás de que a sua presença na área se dá para um
uma pista de pouso para aviões de médio porte. breve período de testes de avaliação de potencial, cujo tér
mino dos trabalhos e a retirada definitiva da área estariam
Outras 4 sondas estão previstas de serem instaladas, todas previstos para no máximo até julho de 1985.
em áreas indígenas: a Sonda Jandiatuba 2, cujos trabalhos
de desmatamento já estão sendo realizados a cerca de 8 km Com o término da construção da pista de pouso, previsto
de distância da SJ-1; a Sonda Itaquai 1, a ser instalada no para Maio de 1985, o transporte de pessoal e de equipamen
local onde em Março de 84 houve choques com os índios tos será feito diretamente de Manaus para a área onde se
arredios; uma terceira sonda a ser instalada em área Kulina desenvolvem os trabalhos, estabelecendo um controle ainda
na margem do Rio Jutaí, próximo à Bom Futuro; uma mais severo sobre a área.
quarta sonda a ser instalada próximo ao Igarapé Queima
do, em área dos Tsuhum Djapa e dos Canamari do Alto Ju Assim será fechado o único canal que se tem atualmente de
taí, e cujos sobrevôos para identificação e reconhecimento conhecimento da área, que são os comentários que circulam
de terreno já foram realizados por uma equipe da FUNAI. pelas cidades próximas, ao mesmo tempo que será dado o
passo definitivo para que não apenas “durante muito tem
po", mas que talvez para todo o sempre não se ouça mais
falar sobre os índios que ocupam esta região, muitos dos
quais nossa sociedade não teve tempo nem interesse de re
gistrar sua existência, quanto mais de respeitá-los como
Povos.

132
* #7_- Acervo
_/\ | <> A JAVAHI /

Aconteceu na imprensa
FUNAI agora é contra O poço descoberto — Juburí-I — está
PARQUE DO JAVARI localizado 50 quilômetros a sudoeste da
O presidente da FUNAI, Nelson Mara cidade de Carauari, sede das operações
FUNAI propõe interdição buto, enviou ontem telegrama ao presi da Petrobrás, na localidade de Taiatu
dente da PETROBRÁS; Thelmo Dutra ba. A vazão do poço foi de 195 mil me
Para evitar um conflito sangrento — e Resende, protestando contra a decisão tros cúbicos diários, inferior à média de
proteger os três mil índios arredios e da empresa de perfurar poços de petró 300 mil a 400 mil metros cúbicos regis
contatados que vivem no Vale do Javari leo a menos de 30 km de malocas de trada na região.
(AM) da expansão da frente de extrati índios ainda não identificados. A perfu Marinho Campos informou ainda que a
vismo de borracha e madeira, e da atua ração dos poços está sendo feita no Iga descoberta representa a comprovação
ção da Petrobrás, que faz pesquisas na rapé São José, nas proximidades do Rio da existência de diversos pontos de ocor
área, a Funai elaborou proposta de de Itacoaí. rência de gás ao longo do alinhamento
creto presidencial para a interdição de Segundo o sertanista Sidney Possuelo, de 250 quilômetros pesquisados pela Pe
seis milhões de hectares na região do Al da FUNAI, os recentes ataques dos Ko trobrás no Juruá; isso além dos traba
to Solimões. rubu aos acampamentos da PETRO lhos que visam a comprovar o seu pro
O processo de interdição da área, pri BRÁS “são conseqüência de um convê longamento por outros 250 quilômetros
meiro passo para sua demarcação defi nio mal elaborado...” em 1982, e o pre até o Estado do Acre, onde a empresa
nitiva e possível criação do Parque Indí sidente Marabuto já determinou a sua continua desenvolvendo trabalhos de
gena do Javari, foi acelerado pela Funai revisão. (Cidade de Santos, 15/12/84). prospecção e exploração. Extra-oficial
depois da morte de dois funcionários no mente, estimam os técnicos que as reser
acampamento central da Petrobrás, há vas de Juruá alcancem de 120 bilhões a
dois meses, num ataque dos índios arre 200 bilhões de metros cúbicos de gás na
dios Kurubo. A proposta, abrangendo
cinco municípios amazonenses localiza
A PETROBRÁs | tural. (ESP, 06/09/84).

dos na fronteira com o Peru, foi elabo E O GAS DO JURUÁ


rada por um grupo de antropólogos, téc “Epoca do gás”
nicos da Funai e missionários que atuam Mestrinho e o gasoduto
na região. O Ministro Cesar Cals, das Minas e
A exposição de motivos do decreto — O governador do Amazonas, Gilberto Energia, anunciou a antecipação da
que será enviada pelo Ministro do Inte Mestrinho, defendeu a construção do produção das reservas de gás natural
rior, Mário Andreazza, ao Presidente gasoduto ligando Carauari a São Paulo, descobertas pela Petrobrás na região do
João Figueiredo — pede a interdição do pois “serão criadas as condições para, Juruá, com o emprego de um equipa
Vale do Javari e das cabeceiras dos rios ao longo da estrada que será construída mento portátil em cada poço antes mes
Jandiatuba e Jutaí, área onde têm ocor para a conservação e manutenção do ga mo da instalação de gasodutos.
rido conflitos entre índios arredios e fun
soduto, se estabelecer processos de colo As estimativas das reservas de gás no
cionários da Petrobrás. O documento nização”. (A Crítica, 12.07.84). Alto Amazonas, segundo o Ministro,
afirma que a medida dará condições à chegam a 160 bilhões de metros cúbicos,
Funai de atuação incisiva na região, a praticamente o dobro das atuais reser
fim de não afetar os interesses das co vas nacionais. “O país vai entrar forte
Juburí-I, novo poço
munidades indígenas e dos segmentos mente na época do gás”, disse Cals.
nacionais, e “evitar conflitos sangren O diretor de Exploração da Petrobrás, (ESP, 9/10/84).
tos”. Carlos Walter Marinho Campos, anun
A Petrobrás tem convênio com a Funai ciou ontem que a empresa fez nova des
para pesquisa de gás natural e vem fa coberta de gás natural em Juruá, no Alto Os técnicos e “o perigo”
zendo levantamentos sísmicos, possuin amazonas, em área onde até agora não
do duas linhas com 450 km de extensão. se registrara ocorrência relevante. Para Técnicos da Petrobrás que trabalham na
Na área, rica em gás natural e borracha, Marinho Campos, o gás agora desco perfuração de gás na região do Juruá, no
já foi constatada a presença de, no mí berto contém percentagem significativa Amazonas, estão apreensivos com a pre
nimo, três grupos arredios: Mayorama, de gás sulfídrico (13%), apropriado sença de um grupo de índios Kulina na
Matis e os difíceis Kurubo, que têm para utilização na indústria petroquí região onde está operando a sonda SM
reagido a todas as tentativas de contato mica. 1. Eles temem uma reação do grupo in
feitas nos últimos 14 anos. Os grupos dígena, integrado por mais de 100 pes
Maya e Tshumdjapa são semi-arredios soas, aos trabalhos que estão sendo exe
e, já contatados, estão os Marubo, Ka cutados às proximidades de suas terras.
namarie parte dos Mayorama e dos Ma Até o momento nenhum problema ocor
tis. (O Globo, 11/11/84).

133
*
–/ #
| S.A DiGENAS NO BRASIL/CEDI

reu entre os índios e o pessoal da Petro tornou-se mais econômico abrir licita Os sertanistas da FUNAI Sebastião
brás, mas o presidente do Sindicato dos ção de risco, o que permitirá que dentro Amâncio e Sidney Possuelo foram des
Petroleiros, Raimundo Gomes Filho, de quatro anos e meio a Petrobrás pos locados para a região com o objetivo de
após tomar conhecimento da situação sua o levantamento e a interpretação de acompanhar a retirada dos funcionários
em viagem recente que fez ao local, deci toda a área do Médio Amazonas. da CBG, como também os milhares de
diu pedir à direção da empresa para fa Segundo Reis, nove das 38 áreas contra litros de combustível de aviação e cem
zer um contato com a Funai a fim deve tadas já foram objeto de contratos de ris mil cargas de dinamite que estão no de
rificar se há realmente algum perigo. co anteriores com a Pecten, Elf, Ess, BP, pósito do acampamento. A gasolina tem
Enquanto isso não ocorre, o pessoal da Anschutz e Idemitsu, quando foram le sido usada para abastecer os helicópte
perfuração, como medida preventiva, vantadas, processadas e interpretadas ros que fazem a ligação do acampamen
vai continuar a presentear os índios, es cerca de sete mil linhas sísmicas e mil to com a sede do município de Atalaia do
perando, assim, mantê-los pacíficos e quilômetros de linhas de aeromagneto norte e as cargas de dinamites, para a
amigos. metria, representando investimento de abertura de picadas. (JT, 10/09/84).
A bacia do Juruá possui a maior reserva cerca de US$ 110 milhões. (FSP, 15/12/
de gás natural do Brasil. (O Liberal, 23/ 84).
10/84). Novo ataque
Um homem de identidade ainda desco
Contratos para 38 áreas nhecida foi morto a bordunadas, dia 8,
na confluência dos rios Ituí e Coari, mui
A Petrobrás assinou com a Pecten (sub Dois mortos to acima de onde ocorreu o episódio do
sidiária da Shell), a British Petroleum dia 4, no acampamento da PETRO
O Sertanista da FUNAI, Lindolfo Nobre BRÁS. Segundo a FUNAI a vítima devia
(BP) e a Idemitsu o maior pacote da his
Filho, 52 anos, e o funcionário da Com ser um madeireiro, caçador ou pesca
tória de contratos de risco, envolvendo
38 blocos no Médio Amazonas, com área panhia Brasileira de Geofísica (CBG), dor, surpreendido pelos índios na mata.
de 380 mil quilômetros quadrados e in João Praia Costa, de 25, foram assassi (JT, 18/09/84).
vestimento mínimo de US$ 38 milhões, nados a golpes de borduna por um grupo
no prazo de seis anos e meio, podendo de 50 índios Korubo, dia 4 à tarde, no
ser aumentado em US$ 40 milhões se o acampamento da Petrobrás que fica na Convênio poderá
prazo for prorrogado por dois anos. Até região do Rio Itacoaí, no município de ser revisto
agora, o maior contrato tinha sido fir Atalaia do Norte.
mado com a Paulipetro, envolvendo 27 O chefe da equipe da CBG, conhecido Os trabalhos de prospecção petrolífera e
blocos e área de 270 mil quilômetros por Manoel, relatou os cinco minutos de gás natural que a PETROBRÁS rea
quadrados. que durou o massacre: “Pela primeira liza na região do Rio Juruá estão para
Segundo o superintendente de Contra vez eles se aproximaram. Eram cerca de lisados e poderão ser definitivamente ve
tos de Risco da Petrobrás, Luís Reis, a 50 homens, mas só Lindolfo e João aten tados pela FUNAI, se forem constata
estatal já perfurou na região do Médio deram seus sinais, transmitidos através das conseqüências para os Kurubo. Essa
Amazonas, mais de 100 poços, tendo en de gestos com as mãos e muita gritaria, e poderá ser a posição da FUNAI, depen
contrado um pouco de óleo e gás, “mas acabaram puxados para a mata”, onde dendo da avaliação que o sertanista Sid
nada significativo”. Como os custos de foram mortos a bordunadas. (ESP, 06/ ney Possuelo, assessor da presidência do
exploração na área são extremamente 09/84). órgão, fará no local, para onde viajou
elevados — “só o levantamento sísmico ontem. (Jornal de Brasília, 31/10/84).
custa US$ 10 mil por quilômetro, contra
US$ 1 mil no Rio Grande do Norte” —
Retirada, Novo cerco
inclusive da dinamite
Indios arredios cercaram ontem o acam
A presidência da FUNAI em Brasília de pamento da PETROBRÁS denominado
cidiu retirar seus funcionários da região Jandiatuba I, local de difícil acesso e de.
do Rio Itacoaí, depois do ataque dos Ko onde os funcionários só podem ser reti
rubo que vitimou um sertanista e um rados de helicóptero. (Folha da Tarde,
técnico da CBG, elevando para oito o 20/11/84).
número de funcionários mortos nas vá
rias tentativas de atração desses índios.
No dia seguinte ao massacre, 29 índios
voltaram ao local e ficaram a cem metros
do acampamento onde se encontram
400 homens da CBG a serviço da Petro
brás, que realiza trabalhos de prospec
ção de petróleo na área.

134
Canamari

JUTAÍ/JURUÁ/
PURUS

135
* #Z_Acervo
_/\ @ A S INDÍGENAS NO BRASIL/CEDI

! Povos INDIGENAs No BRASIL/CED 6-JURUA/JUTAI/PURus

@{IUTA!
[…]

136
JUTAI/JURUÁ/PURUS 3

QUADRO GERAL DOS POVOS INDÍGENAS DA ÁREA JUTAÍ/TURUA/PURUS

POVO *Nº NOME DA ÁREA Interio For oco EONTE E DATA

L EnVira R. Envira/2 8].

2 Envira IR.Tarauacá/4 214 *#

3 Envira IR. Acuaruá/l 42

4 Itamarati|R.Xeruã/l 39
5 Jutaí R. Jutaí/4 117

6 Pauini |R. Purus/l 40

|KULINA Ipixuna,
7 Eirunepé,
ItamaratilR.Juruá/9 466

8 AI Eiru/Penedo/Bau||Eirunepé 259

Eirunepé |R.Gregório/l 38
10 1.362 (T)
KATUKINA (1) ll AI Biá Jutaí 4 ## 253

12 Tapauá |R.Tapauâ/l 10

(2) l. 3 Eirunepé Ig.Mirim/R.Juruá ">


CANAMART *m Itamaratie R. Xeruã/12 +

DENT l4 Itamaratil 8 492

MURA 15 AI Lago Aiapoá " 100 HGunter: 84


- Anori
JL6 AI Caitetu Lábrea
L7 AI Marahã Lábrea

18 AI Apurinã do Ig.
Tauamirim Tapauá
APURINÃ L9 AI Apurinã do Ig.
S. João - Tapauá

Lábrea,
27 dispersos Tapauá,
Pauini L. 300 (T)

137
<! 2_ Acervo
__/ Kovºs INDÍGENAs No BRASIL/CEDI

NÇ NO --g NQ DE ALDEIAS OU ºmº ; TE"


POVO i#AEA. NOME DA ÁREA MUNICÍPIO Now"pºs"…éIAS POPULAÇÃO FONTE E DATA
17 AI Marahã Lábrea
PAUMARI 20 R.Tapauá e R.
Cuniuá Tapauá 250 (T)

MARIMÃ 2l Arredios Tapauá

ZURUAHÃ (3) 22 Tapauá 123 ||FUNAI: 84

JAMAMADI (4) 23 Lábrea 4 450

JUMA 24 Canutāma 9

CATAULXI 25 Lábrea L0

ÍNDIOS DO +

JACAREÕBA 26 Arredios Canutaña

(*) o recenseamento Kulina foi feito pela "Equipe Kulina, CIMI-OPAN", integrada por agentes de
pastoral das Prelazias de Tefé e Acre-Purus, em 1983. Os demais dados foram fornecidos pe
las equipes de pastoral indigenista das Prelazias de Tefé e Lábrea.
(l) esse grupo do Jutaí, da família lingüística Katukina, é diferente dos Katukina do Acre, da
família lingüística Pano.
(2) esse grupo do Jutaí, da família Lingüística Katukina não tem afinidade com outros grupos
Canamari do Acre, das famílias lingüísticas Aruak e Pano.
(3) nome do Povo que habita a região do Coxodoá
(4) junto com os Jamamadi, vivem também os Kanamati, Jarauara e Banaua-Yati.

138
JUTAI/JURUA/PURUS 5

Vieira disse que vivem no sudoeste ama Milhares de toras


zônico entre 2.500 e 3 mil índios, cuja para a BRUMASA
situação de posse ainda é indefinida, em
FUNAI na Polícia conseqüência de invasões e do atraso na
demarcação. (O Liberal, 31/01/84). Vem crescendo assustadoramente, nos
Após breve passagem de uma equipe de últimos anos, o esbulho das riquezas na
saúde pelo Rio Jutaí, a Funai se estabe turais existentes nas terras dos índios
leceu no Rio Juruá, instalando em Eiru Katukina do rio Biá, afluente do Jutaí,
nepé uma representação com o objetivo no Amazonas.
de funcionar como uma agência de rela Apesar da denúncia feita, o ano passa
ções públicas do órgão na região e para GT vai propor area do, pelo Sindicato dos Trabalhadores
atender aos índios localizados próximos Rurais do Jutaí, e de comunicação enca
à cidade. Apesar das sucessivas permanências em minhada à Funai, nenhuma providência
Surgida da mobilização da Prefeitura Manaus para tratamento, a tuberculose foi até agora tomada. Ao contrário, os
Municipal e da Delegacia de Polícia de (principalmente ganglionar) ainda atin madeireiros e comerciantes parecem ter
Eirunepé, a representação da Funai foi gegrande parte da população Demi loca se sentido ainda mais motivados para
assumida por Benvindo Gadenha Costa, lizada na região do Rio Xeruã, afluente intensificar o roubo de madeira da área
um auxiliar de enfermagem recém do Rio Juruá. indígena.
contratado e totalmente despreparado, Com a situação de suas terras também Só neste início de ano, já foram tiradas
que aliando a sua inexperiência em indi indefinidas, e com o aumento da depen aproximadamente seis mil toras de ma
genismo aos seus interesses pessoais, es dência e necessidades criadas face o con deira da área indígena. E segundo infor
teve sempre mais voltado para a defesa tato com a sociedade branca, cada vez mações colhidas pela Equipe de Pastoral
dos interesses da população branca, e mais os Deni têm se tornado vulneráveis Indigenista da Prelazia de Tefé (e docu
em especial de seringalistas, do que dos e fracos em relação à constante invasão mentadas fotograficamente), pelo me
interesses dos índios. de seu território, sendo utilizados como nos outras cinco mil toras já estão pron
Instalada em precaríssimas condições mão-de-obra para a extração da sorva, tas para serem retiradas proximamente
num cubículo da Delegacia de Polícia, a cuja alta de preço tem se constituído da Reserva Indígena Rio Biá.
presença da Funai se tornou, desde o num atrativo a mais para comerciantes e Este roubo de madeira está sendo feito
início, um novo instrumento de intimi ribeirinhos que em número crescente pelos seguintes madeireiros e comer
dação com o qual o Delegado de Polícia, vêm invadindo a área Deni. ciantes: Délio Mafra (de Tefé), Fernan
Sargento Augusto Cesar Alves da Cu No começo de 1985 um Grupo de Tra do Honorato Filho (da Foz do Jutaí),
nha, procurou legitimar seu autorita balho da Funai percorreu a área, levan Antônio Carlos (Foz do Jutaí), Abraão
rismo e arbitrariedade sobre os grupos tando os dados necessários para a for Soares (Tefé), Lucídio Martins (Foz do
indígenas da região. mulação de uma Proposta de Área que Jutaí), Pedro Brás (Copatana) e Eduar
Frente à mobilização de seringalistas e abranja os vários grupos Deni desta re do Ribeiro (Jutaí).
políticos, aliados à autoridade policial e gião. (Araci M. Labiak e Lino João O. Mais de 30 homens, trabalhando com
ao representante da Funai, tanto os Ca Neves, de Eirunepé, mar./85). motosserras e machados, foram levados
namari quanto os Kulina reagiram em por estes madeireiros para as matas do
defesa de seus territórios, como se verá rio Biá. Além disso, os próprios índios
adiante. (Araci M. Labiak e Lino João Katukina vêm sendo usados para esse
de O. Neves, de Eirunepé, mar./85). fim. A maior parte dessa madeira está
sendo tirada para a multinacional Bru
Devastação masa, com sede no Amapá, para onde é
Relatório FUNAI levada para beneficiamento e exporta
Madeireiros, utilizando-se inclusive da ção. (Jornal do Comércio, 31.05.84).
A Funai acaba de concluir um levanta mão-de-obra indígena, retiraram, no in Todos esses madeireiros sabem perfeita
mento das áreas indígenas do sudoeste verno de 1984, onze mil toras de madeira mente que ali é terra indígena e, portan
amazônico, a fim de demarcá-las ainda da Area Katukina do Rio Biá. (Jornal do to, é proibida a retirada de madeira. A
este ano, revelou ontem o delegado do Comércio, 31/05/84). Funai já fez a eleição da área, e tem o
órgão em Porto Velho, Amauri Vieira. mapa e o memorial descritivo. Não há,
Segundo ele, um grupo de trabalho portanto, nenhuma razão que justifique
constituído por antropólogos, agrimen o retardamento da demarcação da Re
sores e técnicos do projeto fundiário do serva do Rio Biá.
Incra em Humaitá-AM, manteve conta Praticamente inexistem, até o momen
tos com os índios Apurina, Paumari, Ja to, invasores que dificultem a demarca
mamadi e Juma, encaminhando à dire ção da reserva, que vai englobar as qua
toria de patrimônio indígena o relatório tro aldeias dos cerca de 220 Katukina.
sobre os seus respectivos territórios. Fora da área do rio Biá, existem apenas

139
s! Z> Acervo
_/\ | S.A. S INDÍGENAS NO BRASIL/CEDI
umas poucas famílias de Katukina, dis No final de agosto, Raimundo Marinho Atendendo a estes propósitos, Benvindo
persas pelo Alto Rio Tapauá. Apesar de da Silva (Raimundinho Cipriano), ar Costa, representante da Funai em Eiru
quase um século de contato com a frente rendatário daquele seringal, propôs aos nepé, acompanhado por Raimundinho
extrativista do caucho e da borracha, agentes de pastoral um acordo para con Cipriano, foi para a área com um roteiro
pode-se dizer que os Katukina mantêm tinuar explorando aquelas terras. Como de interrogatório e instruções fornecidas
bastante preservada a sua cultura. Plan verdadeiros donos da área, cabia aos
pelo Delegado. Em sua volta, elaborou,
tam grandes roçados (em anos passados, Kanamari tomarem qualquer decisão. juntamente com o sargento Augusto,
chegaram a vender muita farinha de Acompanhados pelos agentes de pasto um relatório que foi enviado à Funai,
mandioca) e também extraem sorva e ral, alguns Kanamari estiveram com onde se procurava incriminar o agente
borracha, que comerciam com os rega Raimundinho Cipriano, e se defende de pastoral Lino João de Oliveira Neves.
tões. (Porantim,jun./84). ram das acusações de que estariam rou Todas estas atitudes têm como objetivo
bando tigelas (usadas na coleta do lá evidente retirar os agentes de pastoral da
tex). Disseram que roubo realmente área e demover os índios da defesa de
Denunciada expulsão ocorria, mas praticado por brancos que, seus direitos, efetivando a espoliação de
além de roubartigelas dos índios, causa finitiva do território kanamari. (Poran
Famílias Katukina estão sendo expul vam a morte de seringueiras na área. tim, nov./84).
sas, na região do Lago Aiapuá, Ilha Aceitando a proposta feita pelo seringa
Grande, Jamari, Surara e Laranjal, em lista, os Kanamari estabeleceram as ba
bora a área já esteja delimitada pela ses do acordo: permitem que os brancos GT percorre a área
FUNAI. A pressão vem sendo feita por continuem cortando seringa em suas ter
uma família que se diz proprietária das ras até o final deste ano; não permitem A partir de uma proposta de Área enca
terras, embora não apresente nenhum que nos próximos anos estes continuem minhada pela Equipe de Pastoral Indi
documento comprovatório de tal condi na área, nem que sejam colocados novos genista da Prelazia de Tefé, em GT da
ção, conforme denúncia da missionária seringueiros; farão inspeção periódica FUNAI percorreu a região fazendo um
católica que atua na região, Irmã Cris nas estradas de seringa, e, ao constatar levantamento visando a delimitação da
tina Noskoski. (A Crítica, 02/08/84). que alguém está matando seringueiras, AI Canamari do Rio Juruá, incluindo os
proibirão que o devastador continue na afluentes deste rio, onde vivem vários
área; exigem que a renda para a explo grupos da etnia. (Araci M. Labiak e
ração da seringa seja paga à comuni Lino João de O.Neves, mar./85).
KANAMARI/ dade Kanamari, e não mais a Joaquim
Serafim.
R, ITUCUMA Reconhecendo os direitos dos índios,
Raimundinho Cipriano assumiu pagar RANAMARI/
420 kg de borracha como renda e legali
Seringalistas zar o acordo em cartório. Mas, apesar R. JUTAI
continuam invadindo do compromisso assumido, Raimundi
nho Cipriano e Joaquim Serafim dirigi Madeira para exportação
Usando a mesma tática de seu pai, Joa ram-se à Delegacia de Polícia de Eiru
quim Serafim Carneiro, que se diz dono nepé, onde acusaram os índios de “usur Embora já devastada de espécies que
do Seringal Flecheiras, localizado em pação de terra” e os agentes pastorais de apresentem algum valor comercial ele
área Kanamari, vale-se dos índios para “incitamento”. O delegado de Polícia, vado, madeireiras continuam retirando
abrir colocações e estradas de seringa. sargento Augusto C. Alves da Cunha, toros de vários tipos da área Canamari
Uma vez abertas estas colocações, “dei tomando a defesa dos seringalistas, ten do Jutaí, incluindo madeiras brancas e
xa” os índios trabalharem ali durante tou intimidar os Kanamari e os agentes até aquelas que são utilizadas para a fa
dois ou três anos; então os expulsa para pastorais, ameaçando abrir processos e bricação de canos e remos, pelos índios,
mais adiante, onde vão abrir novos lo utilizar força policial para retirar os Ka e outras cujos frutos alimentam os pei
cais. namarida área. xes nos igarapés e lagos. Em sua maio
O grupo Kanamari hoje localizado no Vale frisar que há uma representação da ria, esses toros foram levados à Manaus,
igarapé Mirim, afluente do rio Itucumã, Funai em Eirunepé, que, instalada na para serem transformados em lamina
vem sendo utilizado há anos, para abrir,Delegacia de Polícia, e tendo como seu dos destinados à exportação.
em seu próprio território, estradas pararepresentante um atendente de enfer Ciente dos fatos, a 1° DR da FUNAI em
os seringalistas do Estado. magem totalmente despreparado para o Manaus disse estar movendo uma ação
Em agosto último, quando em contato trato das questões que afetam os índios judicial contra as empresas madeireiras
com os Kanamari desse grupo, agentes na região, sofre todo tipo de interferên e os intermediários envolvidos. Porém,
da Pastoral Indigenista da Prelazia de cia e direcionamento do Delegado de Po a retirada de madeiras da área indígena,
Tefé testemunharam esta prática. Joa lícia. continua. (Lino João de O. Neves e Araci
quim Serafim apossou-e de três estradas Toda esta situação tem como pano de M. Labiak, de Eirunepé, mar./85).
de seringa dos Kanamari, colocando se fundo o interesse de seringalistas que se
ringueiros não-índios para ali trabalha pretendem donos desta e de outras áreas
rem a seu serviço. O momento era de kanamari e kulina na região, fato confir
grande tensão, pois os Kanamari se ne mado pelo delegado, que revelou existir
gavam a aceitar esta situação, não dei “muita gente grande por trás disso”.
xando sua área para os brancos e exigin Outro interessado na questão é o próprio
do que fossem respeitados seus direitos delegado, que tem demonstrado alto
de ocupação imemorial do território. grau de preconceito contra os povos in
dígenas, e que, como já afirmou, está ali
para “defender os proprietários”.

140
sL7-Acervo
–/ { | <> A

Em defesa do território

Logo nos primeiros meses do ano, quan


do da presença de madeireiros e da der
rubada de árvores por seringueiros inva
sores da área, os Canamari tomaram a
defesa de seu território realizando o con
trole e levantamento da quantidade e
qualidade da madeira que estava sendo
retirada. Estes dados foram encaminha
dos à Funai, como subsídios às medidas
judiciais que este órgão afirmava que to
maria.
Quando de sua estada no Alto Jutaí, em
abril de 84, a equipe de saúde da Funai
entregou aos Canamari várias Placas de
Interdição de Área, que foram fixadas
pelos próprios índios nos locais por eles
indicados como limites de sua área. Em
seguida, passaram os Canamaria exigir
dos comerciantes uma espécie e “im
posto”, que funcionaria como uma in Tuxáuas Manduca, Isaquiel
e Geraldo:
denização dos prejuízos causados pela os Canamari do Rio Jutaí,
retirada de produtos da área. sinalizando suas terras
As placas de interdição, os remédios e com placas da FUNAI.
mercadorias distribuídas, e as promes
sas de instalar um Posto Indígena na no grupo. Além disso, material para
área, criaram entre os Canamari uma exames laboratoriais foi enviado ao Ins
enorme expectativa. tituto Evandro Chagas, em Belém, e ao
O não cumprimento destas promes Instituto Pasteur, na França, sendo que Transferência indevida
sas, acentuado pela presença da Petro apenas este último, a partir do material
brás que, sobrepondo-se à autoridade que ainda continua em estudo, conse Fruto da atuação do representante da
da Funai, invadiu a área, fez com que guiu isolar micro-organismos. Embora Funai em Eirunepé e da autoridade po
índios e ribeirinhos desacreditassem na não tenha sido identificada a doença, a licial, que em seu todo foi muito mais
legalidade das Placas de Interdição e na hipótese de TB intestinal, levantada pe negativa do que positiva, tanto para os
própria força do grupo como agente de los primeiros exames, está definitiva índios em si, quanto para as relações
garantia do território. (Araci M. Labiak mente descartada. brancos e índios, a situação atingiu seu
e Lino João de O. Neves, de Eirunepé, A partir de exames parasitológicos reali ponto crítico no final de dezembro,
mar./85). zados pelo Inpa, onde 100% dos Cana quando um índio Kulina feriu à faca um
mari apresentaram um variado quadro comerciante, desencadeando daí um
de verminose em alto grau, a equipe do acirramento de ódio e preconceitos, e fa
A situação de saúde Projeto Canamari realizou um trata zendo vir à tona o estado de tensão la
mento geral na população. tente que já envolvia aquelas relações.
Um estranho quadro de sintomas que Se hoje a situação de saúde do grupo não Como forma de evitar novos conflitos, o
diagnosticado pela Unidade da Funda pode ser tida como totalmente normal, grupo rersponsabilizado por este inci
ção Sesp-Eirunepé como tuberculose in pelo menos já não se apresenta tão alar dente foi transferido para a área de ou
testinal, fez com que várias entidades se mante quanto no início de 1984, pois tro grupo Kulina, um pouco mais afas
mobilizassem no sentido de solucionar apesar de não terem desaparecido com tado da sede do Município. Sem que lhes
os problemas de saúde que atingiam pletamente, os sintomas que levaram ao tenha sido oferecido condições suficien
50% dos 107 Canamari do Rio Jutaí. diagnóstico de TB intestinal diminuí tes de se instalarem no novo local, os
(A Notícia-AM, 12/03/84). ram consideravelmente. Kulina, por questão de sobrevivência,
Após uma série de exames realizados na Ainda quanto à saúde, em dezembro de em breve tempo terão de retornar à an
área, da qual tomaram parte o Hospital 1984 a equipe do Projeto Canamari-Pre tiga área, a fim de se abastecerem dos
de Moléstias Tropicais, o Instituto de lazia de Tefé realizou a atualização da roçados ali deixados.
Pesquisas da Amazônia-Impa, Funai, vacina contra sarampo e a 1° dose das Esta transferência, precipitada e que
Secretaria de Saúde do Estado do Ama vacinas SAbin e Tríplice. (Araci M. La não foi suficientemente analisada em
zonas-Sesau, Fundação Sesp-Regional biak e Lino João de O. Neves, de Eiru suas implicações, longe de solucionar a
Manaus, e Conselho Indigenista Missio nepé, mar./95). questão com a população branca, traz
nário-Cimi, 3 Canamari estiveram em em si sérios riscos, uma vez que reapro
Manaus para exames mais detalhados e ximou grupos que haviam se separado
uma equipe de saúde da Funai esteve no recentemente devido questões de diver
Rio Jutaí para realizar exames clínicos gências internas, o que, devido as carac
terísticas do Povo Kulina, poderá origi
nar conflitos extremamente prejudiciais
a ambos os grupos.

141
Todos os fatos ocorridos em 1984, envol de outubro, resumindo informações his O Relatório também registra que as ma
vendo os Kulina e brancos, vieram re tóricas e atuais (sobretudo a partir dos locas Zuruahá atuais estão localizadas,
forçar a evidente necessidade de redefi trabalhos que os missionários católicos entre o Igarapé Pretão e o Riozinho, in
nir os limites da atual Proposta de Área vêm desenvolvendo desde a época dos dicando um isolamento autodefensivo,
a partir das reais necessidades dos gru primeiros contatos com os Zuruahá, em “longe o mais possível do Rio Cuniuá,
pos Kulina da região. (Araci M. Labiak 1980), realizando um sobrevôo e percor onde a presença civilizada é mais fre
e Lino João O. Neves, de Eirunepé, rendo o Rio Cuniuá, entre o Riozinho e qüente.”
mar./85). Marrecão e seus respectivos igarapés. O GT constatou que o território delimi
O relatório que inclui os resultados ofi tado está sendo invadido por uma frente
ciais do trabalho do GT e assinado por de expansão extrativista, formada prin
toda a equipe, foi apresentado a 10 de cipalmente por sorveiros e seringueiros.
janeiro de 1985, propondo uma área de Apesar das placas de interdição da área,
233.900 ha, com 500 km de perímetro, colocadas pela FUNAI, a frente extra
GT delimita no Coxodoá que está localizada no recém-criado mu tivista continua explorando a área indí
nicípio de Camaruã (a ser desdobrado gena: no alto Riozinho, os patrões Rai
O GT criado pelo presidente da FUNAI, de Tapauá), no Estado do Amazonas, mundo Batista, Moreira e Evilázio man
pela Portaria nº 1764/E de 14.09.1984, assim descrita: (a) da foz do Igarapé tinham 12 homens, alguns com família,
procedeu ao estudo de identificação — Matrinxã, no rio Cuniuá, pela margem trabalhando como sorveiros; no Coxo
incluindo um levantamento fundiário — direita do rio Cuniuá até a foz do Igara doá trabalham dez seringueiros de Ma
da área a ser destinada aos Zuruahá, até pé Munguba, pela margem esquerda noel Sena, freguês de Raimundo Ba
recentemente conhecido, como “Índios deste igarapé até sua nascente; (b) da tista.
do Coxodoá”. nascente do igarapé Munguba, por li No final de julho de 1984, os Zuruahá
A equipe do GT, incluindo dois indige nha seca, até a nascente do Igarapé Ari saíram à beira do Cuniuá, atraídos por
nista da FUNAI (Ezequias Heringer Fº gó (ou Ramiro), pela margem direita elementos da Missão JOCOM (Jovens
e Lévio Natal Lopes de Oliveira) e três deste igarapé até sua foz no Riozinho; com Missão), que se utilizaram de um
missionários católicos da Prelazia de Lá (c) pela margem esquerda do Riozinho, varadouro aberto em 1983, pela “expe
brea (Gunter Kroemer, Terezinha We em toda sua extensão, até a foz do Iga dição de atração” da FUNAI chefiada
bere Gunter Francisco Loubens), traba rapé Coxodoá; e (d) da foz do Coxodoá, por Sebastião Amâncio da Costa. (Rela
lhou conjuntamente entre os dias 2 e 23 pela sua margem esquerda até a foz do tório de Viagem aos Índios Zuruahá,
Igarapé Engilhado, desse ponto, por li Brasília, 10/01/1985).
nha seca, até a nascente do Igarapé Ma
trinxã, da nascente deste igarapé, por
sua margem direita, até sua foz no Rio
Cuniuá.

142
Sateré-Mawé

TAPAJOS/MADEIRA

143
sL7-Acervo
_/\ | S.A INDÍGENAS NO BRASIL/CEDI

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ORIXIMINA

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144
TAPAJÓS/MADEIRA 3

QUADRO GERAL DOS POVOS INDÍGENAS DA ÁREA TAPAJCS/MADEIRA


Nº NO Nº IE ALDEIAS OU
POVO ##\PA NOME DA ÁREA MUNICÍPIO NoME DAS"…ELES POPULAÇÃO FONTE E DATA
} Manicoré R. Manicoré 3L

2 Auxiliadora Lg. Capanã G. 22

#URA 3 Auxiliadora R. Madeira 36 #

4 Manicoré POnta Natal 219

5 Autazes R. Autazes L. 000


1. 308 (T)
# Humaitá, R. Maici/3 L7C)
PIRAHA (1) 6
Auxiliadora

TORÁ 7 Auxiliadora Fortaleza 17

AI Munduruku Itaituba 18 2.296

MUNDURUKU (2) AI Coatá- Anixim, Borba 14 (2) 1.460 | FUNAI: 83


Laranjal
3. 756 (T)
Humaitá,
PARINTINPIN 10 4 ll4
Auxiliadora
ll Res. Projetada Manicoré, Humaitá, Transamazônica, L76 Menendez: 85
Tenharim Auxiliadora km 124

TENHARIM (3) Auxiliadora R.Marmelos (Estirão 19

Grande)
l2 AI Ig. Preto Manicoré Ig. Preto 54

l3 AI Andirã-Marau 3l

SATARÉ-MAINÉ 14 Igs Miriti, Itaituba, Maués 3 FUNAI: 84

Manjauru, Urupadi 4.850 (T)

KAJABI (4) 15 AE Kajabi Itaituba 4 234 FUNAI: 84

DIAHOI, TIKUNA,
COCAMA, DJAPÁ , 16 Maués, dipersos na SEIl

APUPINÃ, APIAKÁ, Sucunduri transamazônica dados

e MUNIDURUKU

17 Apuí, Sucundurí, lR.Barati sem dados


}_8 Manicoré, Aripuana, - +

ARREDICS Maués, Axinim, R. Madeirinha sem dados


19 Itaituba R. Parauari sem dados

(*) Todos os dados de população não especificados, foram levantados por Heringer Fº e Lange: 83.
(1) Nessa área vivem também índios Diahói e Apurinã, integrados aos Pirahã.
(2) Nessa área há também uma aldeia Sateré-Mawé.
(3) Nessa área vivem também índios Diahói, integrados às famílias Tenharim.
(4) Ver também nas Áreas PIX e Oeste do MT.

145
Acervo
| S.AS INDÍGENAS NO BRASIL/CEDI

GT-FUNAI IDENTIFICA
AI-TENHARIM

Miguel Menedez(*)

m julho de 1984, a FUNAI enviou ao rio Marmelos Comunidade do Igarapé Preto


uma equipe encarregada de delimitar a “Reserva
Projetada Tenharim" e, posteriormente, a área Te Os Tenharim do Igarapé Preto reivindicam para si o terri
nharim do Igarapé Preto, afluente do rio Madeirinha e dis tório que se estende desde o curso do Igarapé Preto até o
tante a 150 km da “Reserva Projetada”. Isto entusiasmou curso médio do Rio Machadinho, reconhecendo como tal o
muito aos Tenharim que, desde o início dos anos 70, quan território de habitação e perambulação historicamente ocu
do a BR-230/Transamazônica chegou a seu território, pado por eles. Entretanto, um terço desse território encon
aguardam por uma demarcação efetiva de suas terras. A tra-se atualmente destinado a atividades de pesquisa e lavra
delimitação não ocorreu, pois os trabalhos da equipe foram da Mineradora Mibrel. Esta firma faz quatorze anos que
contestados pelos colonos assentados pelo INCRA ao longo atua na região (o primeiro alvará de pesquisa outorgado
da rodovia e pela Mineradora Taboca S.A., atual Mibrel, pelo DNPM é de 1970). Ao longo de todo este período, a
do grupo Paranapanema, instalada no Igarapé Preto. FUNAI não tomou nenhuma providência no sentido de pro
teger as terras nem mediar no processo de contato que os
A proposta levantada pela equipe da FUNAI foi a delimi Tenharim passaram a ter, de modo indiscriminado, com o
tação de uma área contínua desde o Rio Marmelos até o pessoal da Mineradora. A sede da mesma se encontra a 2 km
Igarapé Preto, o que levaria a área Tenharim dos atuais da aldeia do Igarapé Preto e a Empresa já desmatou e explo
372.000 ha delimitadas em 1979, para a “Reserva Proje rou a maior parte do terreno que se estende em torno da
tada” com uma superfície de 1.600.000 ha, aproximada aldeia. Assim, perante a atual reivindicação pela terra por
mente. Esta proposta foi rejeitada tanto pela Mineração Ta parte dos índios, a empresa alega que chegou primeiro ao
boca, como pelos colonos sediados no limite leste da “Re Igarapé Preto e que os Tenharim chegaram depois, atraídos
serva”, que passaram a repelir de modo agressivo os inte pelas benfeitorias que a Empresa introduziu na região.
grantes da equipe da FUNAI que retirou-se da área, para
não colocar em risco a vida dos seus membros. Tudo isto levou os Tenharim a uma situação esdrúxula, já
que sua presença nessa região vem de longa data e pode ser
Quanto aos Tenharim, preocupados com a demarcação da documentada através da tradição tribal. No entanto, passa
terra nada opuseram à proposta do pessoal da FUNAI, ram a ser virtuais “prisioneiros” da Mineradora. Ninguém
mesmo que boa parte dos 1.600.000 ha esteja ocupada por entra ou sai da área de mineração sem passar pelos fortes
vegetação de campo, que não apresenta nenhum interesse controles de segurança da Empresa. Sendo que a autoriza
para eles, ou que as dimensões da área sugerida, nada tem a ção para penetrar ou deixar o território é fornecida pela
ver com suas reais reivindicações pela terra. administração da empresa, mesmo para os funcionários da
FUNAI que querem se dirigir à aldeia Tenharim. Entretam
As duas comunidades Tenharim envolvidas pelo processo to, até julho do ano passado, as relações entre os índios e a
de demarcação ocupam áreas distantes uma da outra, 150 mineradora podem ser descritas como “pacíficas". Os Te
Km aproximadamente, e apresentam problemáticas especí nharim não colocaram nenhum empecilho aos trabalhos de
ficas quanto à delimitação de seus territórios. Vejamos isto lavra e, por sua parte, a Empresa “tratou muito bem "eles.
por parte.

(*) antropólogo, participou do GT/FUNAI — 1985 que esteve na área


Tenharim e é professor da UNESP.

145
sL7-Acervo
_/\ 1 S-A TAPAJÓS/MADEIRA 5

Os Tenharim sempre contaram com livre trânsito pela área Comunidade do Marmelos
de mineração, transporte gratuito nos veículos da empresa,
escola para as crianças e livre acesso ao refeitório da mine Desde o início da década de 1970, os Tenharim do Marme
radora. As relações estabelecidas com a Mibrel, além da los vêm sofrendo os efeitos da abertura da BR-230/Transa
descaracterização cultural inevitável, levou os Tenharim a mazônica, que passa pelo meio da aldeia. Em 1977, já era
reduzirem praticamente a zero suas atividades tradicionais, possível detectar a presença de colonos na região do Igarapé
particularmente as de caráter econômico: roças pratica Mafui, afluente do Marmelos e território tradicional dos
mente não existem mais, já que o pessoal passou a depender Tenharim. Posteriormente a essa data é instalada uma ser
mais da "marmitex" do restaurante do que suas próprias raria próxima à margem esquerda do Mafui, no lado sul da
condições para a subsistência; as atividades extrativas tam Transamazônica. Após as reiteradas reclamações dos Te
bém estão paralisadas após a derrubada pela mineradora de nharim na Delegacia da FUNAI em Porto Velho (RO), em
2.205 árvores entre seringueiras, castanheiras e plantas fru 1979 a reserva e os colonos foram retirados. Parte deles
tíferas. foram recolocados no sul da estrada, a partir do entronca
mento da Transamazônica com a estrada do estanho, que
A passagem da equipe da FUNAI, em julho de 1984, e a leva à Mineração Mibrel. Outra parte foi recolocada no lado
preleção do seu responsável no sentido de que as terras onde norte da Transamazônica, a 4 km da margem direita do
atua a mineradora são de propriedade indígena, não de Mafui. Foram, então, estabelecidos os limites da “Reserva
vendo deixar atuar a mesma impunemente, fez com que os Projetada Tenharim", porém essa delimitação obedeceu a
Tenharim passassem a exigir da Empresa um pagamento uma tramitação confusa entre a FUNAI e o INCRA e não foi
pelo usufruto da terra ao longo desses quatorze anos e como homologada, passo fundamental para a posterior demarca
condição para a continuação dos trabalhos. Desse modo, os ção, em virtude da não participação de um antropólogo na
Tenharim ganharam uma aldeia nova, projeto habitacional identificação da área, como prevê o Decreto nº 76.999776,
importado de São Paulo. São ao todo treze casas de madei Art. 2º, parágrafo 1º.
ra, de quatro cômodos cada uma, chão de cimento e teto de
telhas etermit: dispostas em forma de rua, com dois banhei Com essa delimitação, os Tenharim perderam, na região
ros situados no meio da rua. A nova aldeia está sendo Leste — onde a área limita com a Gleba M-2, do projeto
construída por uma empreiteira, a poucos metros da aldeia fundiário implantado pelo INCRA, local no qual foram re
velha. colocados os colonos — parte de um castanhal e um serin
gal, importantes para as atividades extrativas dos índios.
Os Tenharim também exigiriam o pagamento de uma inde O castanhal, denominado Arara, está situado sobre o eixo
nização mensal de Cr$ 6.000.000 a serem divididos propor da linha divisória da Reserva, no lado norte da BR-230 e o
cionalmente entre os oito grupos familiares que integram a seringal no lado sul da estrada, nas cabeceiras do Igarapé
comunidade. Dinheiro este que, evidentemente, retorna em do Inferno, a uns 12 km aproximadamente do limite da Re
sua maior parte à própria Empresa, já que é no supermer serva. Apesar dessa perda, da qual os Tenharim sempre es
cado mantido pela mesma onde os Tenharim gastam todo tiveram conscientes, de lá para cá nenhum outro conflito se
seu dinheiro. registrou entre índios e colonos, respeitando ambas as par
tes a linha divisória de 1979, continuando um dos grupos de
A descaracterização do grupo pelo contato inicial indiscri trabalho Tenharim a usufruir do castanhal e do seringal.
minado, vê-se agora agravada pelas medidas tomadas pela
mineradora que, embora venham a satisfazer as reivindica Assim, a equipe enviada pela FUNAI em 1984 tinha, em
ções exigidas pelos Tenharim foram tomadas arbitraria parte, como objetivo, delimitar o já delimitado. Entretanto,
mente, sem levar em consideração os padrões tradicionais os Tenharim colocaram aos enviados pela FUNAI sua rei
do grupo nem suas reais necessidades, visando mais “acal Vindicação sobre a posse do castanhal e do seringal, o que
mar os ânimos”, para a Empresa poder continuar seus tra deu margem à proposta de uma área indígena contínua do
balhos. O problema da terra não é colocado em pauta. Em Marmelos ao Igarapé Preto. Mas, o modo em que esta pro
fins de 1984, um funcionário da FUNAI chegou à área como posta foi colocada e o encaminhamento dado aos trabalhos
encarregado da aldeia, porém a sua função parece ser tam de delimitação, fizeram com que os colonos contestassem a
bém a de manter a calma, uma vez que se empenhou em proposta de forma violenta. A equipe teve que interromper
fiscalizar o andamento da ordem tribal, condizente com o suas atividades, retirando-se da área, criando-se assim um
bom andamento dos trabalhos de mineração. foco de tensão entre índios e colonos.

No começo de 1985, uma nova equipe enviada pela FUNAI A atuação da equipe enviada em fevereiro de 85 permitiu,
voltou ao Igarapé Preto, conseguindo, após uma série de após uma série de reuniões com os Tenharim e os represen
reuniões com a comunidade indígena, estabelecer os limites tantes dos colonos, superar o impasse. No lado norte da
para a AI Tenharim do Igarapé Preto. Esta nova proposta BR-230 será respeitada a linha divisória de 1979. Na área
também foi contestada pela empresa mineradora, já que ocupada pelos colonos, o castanhal Arara se encontra muito
uma vez finalizados os trabalhos de extração de minério, danificado, não tendo mais condições de ser explorado. Já o
num prazo de dois anos aproximadamente, pensa desenvol setor do castanhal que continuou a ser explorado pelos Te
ver na região um projeto agropecuário. nharim após 1979, será incorporado definitivamente à área
indígena, uma vez aberta a linha de demarcação. Este dado
não foi levado em consideração pela primeira equipe, sendo

"147
sL7-Acervo
_A = A INDÍGENAS NO BRASIL/CEDI
uns dos motivos de irritação para os colonos. Contudo, os permite incorporar o seringal do Igarapé do Inferno; ainda
Tenharim exigiram uma indenização pelo estrago do casta esta nova linha avança para o sul, além do limite estabele
nhal além da linha divisória e pelo fato de não mais reivin cido para a “Reserva Projetada" em 1979, integrando as
dicarem para si esse pedaço do território. Essa indenização cabeceiras do Rio Marmelos e seus afluentes à área indí
está sendo negociada junto ao Polonoroeste. Quanto ao lado gena Tenharim. Este último acréscimo é significativo, pois
sul da BR-230, foi estabelecida uma nova linha divisória permite aos Tenharim o controle efetivo do Marmelos desde
que, sem afetar aos colonos localizados no eixo da estrada, as nascentes até seu curso médio, mantendo-o livre de qual
quer outra ação que não seja a que eles realizam, garan
tindo assim a pureza de suas águas, a pesca, bem como
impedindo futuros desmatamentos de toda essa região.

A nota ainda afirma que, desde 1976, a


Braselfa cumpre diversos contratos de
risco com a Petrobrás. Três deles si
tuam-se na Amazônia e abrangem par
PI no garimpo cialmente terras indígenas. Em 1983,
realizaram-se trabalhos de levantamen
O delegado da FUNAI em Porto Velho, Deputados to sísmico e a nota explica que, nessa
Apoena Meireles, anunciou que o órgão pedem providências época, foi feito “um furo exploratório
deverá criar, em Humaitá, um posto in com cartuchos de dinamite, que incluiu
dígena para garantir a zona de garimpo Os deputados amazonenses decidiram participação de mão-de-obra indígena
existente no local e dentro da reserva in ontem, em Manaus, após ouvirem o de sem incidentes com a população”. Afir
dígena. São 50 índios tenharim que vi poimento de 12 índios Satere-Mawe, no ma ainda que “os cartuchos utilizados
vem na área (km 230 da Transamazô plenário da Assembléia Legislativa, en não explodem por acidente: só por mé
nica). O delegado pretende que os índios caminhar telex ao Presidente João Fi todos específicos”. (ESP, 25/05/84).
constituam uma cooperativa de explora gueiredo e aos Ministros das Minas e
ção do minério. (ESP, 30/03/84). Energia e Interior pedindo providências
imediatas para o que consideram um Relatório
crime grave: as bombas abandonadas Dreyfus-Gamelon
pela empresa francesa Elf Aquitaine no
território indígena, que causaram pelo Paris — O relatório endereçado pela an
menos quatro mortes, segundo as de tropóloga francesa Simone Dreyfus-Ga
núncias dos índios. (O Globo, 31/3/84). melon à direção da empresa Elf Aqui
Mortos por colonos? taine estima em Cr$ 320 milhões os pre
juízos e danos causados aos índios sate
Dois índios da tribo Mura-Pirahã teriam Confirmados explosivos ré-mavé, na região amazônica, onde a
morrido anteontem em um conflito com subsidiária dessa empresa, a Braselfa,
colonos na Transamazônica. A Funai, A Braselfa, subsidiária da empresa fran realizou trabalhos de prospecção de pe
no entanto, não teve condições de confir cesa Elf Aquitaine, afirmou ontem, em tróleo. Até agora, os índios sateré-mavé
mar a denúncia, feita em Porto Velho nota oficial publicada nos jornais de receberam apenas indenizações no valor
(RO), porque não tem posto na região e Manaus, ter constatado a existência de de Cr$ 13,8 milhões, menos de 5% da
depende de informações de viajantes. Os cartuchos de explosivos não detonados quele total.
conflitos entre os índios e colonos come nas reservas indígenas de coatá-laranjal, Simone Gamelon, diretora da Escola de
çaram há três anos, próximo à cidade de na zona do rio Canumã, e andirá-ma Altos Estudos em Ciências Sociais da
Humaitá, mas por “falta de recursos” a rau, na área do rio Andirá. Já em 1983, a Universidade de Paris, apresenta em seu
Funai alega que ainda não pode tratar tribo dos saterê-mauês e mundurucus, relatório algumas reivindicações dos ín
do assunto. As visitas feitas pelos serta proprietária das terras, denunciou que a dios, entre elas a retirada das minas de
nistas em nada ajudaram na resolução e empresa invadira duas vezes sua reser dinamite instaladas ao longo das cente
eles nem mesmo sabem o número de ín va, provocando a morte de alguns ín nas de quilômetros de picadas abertas e,
dios desta tribo. (ESP, 5/4/84). dios, em conseqüência do uso de explo posteriormente abandonadas (só agora
sivos para encontrar petróleo. A desco
berta dos cartuchos — alguns enterra
dos e não utilizados e outros desenterra
dos e em posse dos índios — provocou o
deslocamento de uma expedição ao lo
cal.

148
TAPAJÓS/MADEIRA 7

esse trabalho está sendo feito), além da


promessa de não retorno da empresa Elf
Aquitaine em seu território.
Ainda no relatório, a antropóloga sugere
que as próximas negociações com os ín
dios devem contar também com a parti
cipação de representantes da Funai e
personalidades independentes que se
jam da confiança da maioria dos indí
|
genas, citando o nome do advogado Dal
mo Dallari, essas negociações deverão
ter como objetivo a reavaliação das inde
nizações devidas, pois considera que
elas não foram “seriamente calcula
das”.
O estudo feito pela cientista francesa es
pecializada em populações indígenas da
região amazônica representa apenas os
valores dos produtos florestais in natu
ra, não sendo considerado o fato de os
mesmos, por terem sido destruídos, não
poderem mais ser beneficiados e comer
cializados. Se isso fosse feito, o total po
deria atingir cerca de Cr$ 900 milhões. Na foto acima,
tuxáua Dico Sateré,
O relatório revela também denúncias =
com seu advogado
feitas sobre o mau comportamento dos 2 Edson Oliveira,
empregados da Braselfa, que exibiam e assina o termo
semanalmente filmes pornográficos e É de indenização.
distribuíram indiscriminadamente be
bidas alcoólicas para os índios. A dire
ção da Braselfa inicialmente contestou
que cargas de dinamite haviam sido
abandonadas sem explodir, mas diver
sas cargas foram retiradas pelos índios e
enviadas à Funai, sendo exibidas para a
imprensa. Diante disso, a empresa reco
nheceu sua existência. Quanto à possibi
lidade de essas cargasterem provocado a
morte de quatro índios, a empresa afir
mou que a simples manipulado do pro
duto não apresentava nenhum perigo.
Mais: os sateré-maué dizem que jamais
foram informados dos projetos de inva
+ • • Didier Aubin,
são de seus territórios, mas sobre isso a diretor da Elf
Elf lançou a responsabilidade sobre a no Brasil.

Funai. Segundo a antropóloga, a culpa…


desse organismo é irrefutável, pois em %
diversos momentos faltou às suas res- = #
ponsabilidades. Mesmo assim Simone =
Gamelon lembra que uma empresa fran- #
cesa operando num país em desenvolvi->
mento não pode ignorar que algumas*
agências governamentais, no caso a Fu
nai, nem sempre estão à altura de seu
papel.
A antropóloga francesa contesta tam
bém a afirmação da Braselfa de que os
trabalhos de prospecção, abertura de
mais de 300 quilômetros de picadas e
clareiras se desenvolveram longe das al
deias. Ela própria pôde chegar de barco
a um desses locais em apenas cinco mi
nutos e num outro, a pé, em 20 minutos.
-*-
Francisco Cardoso,
assina pelos
Mundurukú.

149
s! Z> Acervo
_/\ | S.A. INDÍGENAS NO BRASIL/CEDI
Finalmente, Simone Dreyfus-Gamelom, Um pouco antes, Dalmo Dallari havia Volta atrás
constata no relatório que a tuberculose dito ter sido totalmente ilegal a presença
está destruindo ossateré-maué e que ne na área, pois a Constituição não permite Depois de gastar US$ 150 milhões em
nhuma campanha de luta sistemática que o território indígena seja ocupado pesquisas de sete contratos de risco e de
contra a doença se está desenvolvendo. por autorização, no caso dada pela Pe cidido desativar suas operações no Bra
Por tudo isso, considera que, “no míni trobrás, “Houve invasão”, alegou Dal sil, a Elf Aquitaine do Brasil (Braselfa)
mo”, a Elf Aquitaine deve apresentar lari, recordando que apenas um decreto está revendo essa posição graças às des
publicamente desculpas por seu com do presidente da República poderia per cobertas da Pectem-Shell na bacia de
portamento na região e por ter abando mitir que a Elf Aquitaine explorasse o Santos, informou o diretor geral da em
nado cargas de dinamite na área. Até local. presa, sr. Didier Aubin. (ESP, 30/06/
agora, segundo ela, a direção da Brasel Depois da última proposta do francês, o 84).
fa vinha apenas dificultando toda e advogado das tribos apresentou a oferta
qualquer negociação sem pretender re final dos prejudicados: Cr$ 270 milhões
conhecer “que os índios devem ser trata para cada uma das aideias. Diante da Nova proposta
dos de igual para igual”. (do correspon recusa, a reunião foi encerrada e o pre
dente Reale Júnior, ESP, 13/06/84). sidente da Funai anunciou a intenção de A companhia estatal francesa Elf Aqui
ir à Justiça para ressarcir o prejuízo cau taine, que realizou pesquisas petrolífe
sado aos indígenas. Participaram do en ras na região dos índios mundurucu e
Elf será denunciada contro o superintendente da Petrobrás sateré-maué, no Amazonas, apresentou
na ONU para a Amazônia Ocidental, Alfredo ontem uma nova proposta de indeniza
Gonçalves, cerca de 50 índios, além do ção à Funai, de Cr$ 300 milhões, para
Álvaro Fernandes Sampaio, índio tu deputado-cacique Mário Juruna. Gon cobrir os danos causados com os desma
cano e membro da coordenação da UNI, çalves, não admitiu o termo invasão e tamentos na área. Os sateré-maué estão
informou ontem em Belo Horizonte que disse que a empresa atuou na área indí exigindo Cr$ 270 milhões e os munduru
irá a uma reunião sobre povos indígenas gena dentro dos trâmites legais do com cu, Cr$ 770 milhões. Com esse dinheiro
que a ONU realizará em Genebra, a par vênio que deu origem ao contrato de ser eles pretendem, também, demarcarsuas
tir de 28 de julho, acompanhado do tu viço que a Aquitaine executava em nome terras. •

xáua Sateré-Mawé Raimundo Ferreira da Petrobrás. (ESP, 20/06/84). A proposta já foi encaminhada pelo pre
da Silva. Raimundo levará duas das sidente da Funai, Jurandy Marcos da
bombas deixadas na sua aldeia pela Fonseca, aos índios. Ele afirmou que, —
companhia francesa Elf-Aquitaine. (O Elf diz no caso não seja possível um acordo, a
Globo, 17/06/84). Funai, por intermédio do advogado Dal
que vai embora
mo Dallari, tentará ganhar as indeniza
Através de sua assessoria, a diretoria da ções pleiteadas pelas duas tribos na Jus
Elf será processada empresa francesa Elf Aquitaine comuni tiça. Jurandy da Fonseca esclareceu es
cou ontem sua decisão de deixar defini
tar a Elf Aquitaine interessada em fir
A FUNAI vai acionar juridicamente a tivamente seus trabalhos de pesquisa de mar um acordo antes da viagem do de
Elf Aquitaine pelos prejuízos causados petróleo no Amazonas, retirando-se do putado Mário Juruna à França. O depu
nos territórios dos índios Sateré-Mawé e País. A nota da empresa informa que a tado pretende discutir a questão da Elf
Munduruku. Uma tentativa de acordo tal decisão já foi comunicada à Petro com o presidente François Mitterrand, a
foi feita em reunião iniciada anteontem, brás. “Lamentamos não termos chega quem já pediu audiência. (ESP, 26/07/
em Manaüs, mas não se chegou ao que do a um acordo com as comunidades in 84).
os índios queriam. O representante da dígenas”, diz ainda a nota.
. Aquitaine ofereceu uma “doação” de Durante a reunião realizada com os re
Cr$ 60 milhões para cada uma das tri presentantes dos índios, o representante Indios dizem
bos, o que foi recusado. “Doação é es da empresa, Georges Aubin, afirmou
mola e os índios não precisam de esmo que a Petrobrás, com quem a Elf assinou
que aceitam
la. Isso é uma imoralidade” — reagiu o contrato de risco para pesquisas, não
advogado
Dallari. dos índios, Dalmo de Abreu

havia esclarecido que as áreas eram indí Os índios munduruku e sateré-maué re
genas. (Folha da Tarde, 21/06/84). solveram aceitar a proposta de indeniza
Depois que três antropólogos da Funai. ção da empresa francesa Elf Aquitaine,
foram chamados a participar, relatando que está realizando exploração petrolí
a extensão dos danos provocados nas fera, sob contrato de risco, devendo ca
terras indígenas, o representante da da nação indígena receber Cr$ 150 mi
Aquitaine, Dídier George Aubin, pediu Ihões, segundo informou ontem, em
desculpas pelo termo doação, trocou-o Manaus, o delegado regional da Funai,
por uma “contribuição financeira” de Aldo Gomes da Costa.
Cr$93 milhões para cada tribo e isentou No acordo, fica estipulado o compro
novamente a Aquitaine. “Portudo o que misso por parte da Funai de demarcar as
ouvi aqui, se realmente for assim, não terras dos munduruku, e ele deverá ser
havia como autorizar a entrada em terri assinado em Brasília em agosto na pre
tório índio. Fomos enganados. Não tí sença dos representantes das nações
nhamos possibilidade de trabalhar em munduruku e sateré-maué, do presiden
um mundo tão mágico.” te da Funai, Jurandy Fonseca, do repre
sentante da Elf Aquitaine e do represen
tante da Petrobrás, (ESP, 28/06/84).

150
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Parakanã

SUDESTE DO PARA

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SUDESTE DO PARA 3

9UADRO GERAL DOS POVOS INDÍGENAS DA ÁREA SUDESTE DO PARÁ


NÇ NO NQ DE ALDEIAS OU
POVO MAPA NOME DA ÁREA MUNICÍPIO
* NOME DAS ALDEIAS POPULAÇÃO FONTE E DATA
#

AMANAYÉ 1. AI Antanaye * São Domingos do


# 4famílias|SUCAM: 84
Capim

É * + l 32 •

ANAME 2 AI Anambê Moju FUNAI: 84


dispersos 23

3 Reserva Indígena Altamira, Prainha do sul 5l Carneiro, B.: 83


Arara e Porto de MOZ do norte 2l Carneiro, B.: 83

AI Arañeté *# ==

ARAWETÊ 4 * == " Sen. José Porfirio l 136 Trevisan: 83


Igarapé Ipixuna

ASSURINT 5 AI Trocará Tucuruí l 132 Andrade, L.:84

AS SURINI 6 AT KoatineraC Sen. José Porfirio


*= * * l 56 Irm. Jesus: 84
DO XINGÚ

JURUNA (1) 7 AI Paquiçamba Sen. José Porfírio l 44 FUNAI: 83

GAVIÃO 8 AI Mãe Maria Marabá 1 176 Ferraz: 85

3 Reserva Indígena|S. Felix do Xingú [Gorotire 593 Trevisan: 83


Kayapó KikretUTil 272 Trevisan: 83
Kubenkräkein 198 Trevisan: 83
Aukre 163 Trevisan: 83

Kokraimoro l{35 Trevisan: 83


10 Reserva Indígena! Altamira Mekranoti 395 Thompson: 84
Baur-Mekranoti Altamira Pukanu/Candoca 80 Thompson: 84
KAYAPÓ (2) Altami.}Tç} BEU1
* * 49 Trevisan: 83
Altamira Xixe 155 Thompson: 84
Altamira Iriri NOVO 160 Thompson: 84
ll AI Cateté Marabá Xikrin Cateté 304 Vidal: 85

12 AI Bacajá Sen. José Porfírio|Xikrin Bacajá }_80 Fisher: 84


l3 RI Kararaô Altamira Kararaô Íriri 26 Trevisarl: 83

23 Arredios (Kararaô,

e Mgra Mrari)

l4 AI Parakanã (4) | Itupiranga


Jacundá A.Paranatí L39
E A.Marudjevara 72 |Magalhães: 84
L5 Sen. José Porfirio|Ig. Bom Jardim L33

344 (T)

153
#S INDÍGENAS NO BRASIL/CED!

NÇ NO NÇ DE ALDEIAS OU *mº -

POVÃO MAPA NOME DA ÁREA MUNICÍPIO NOME DAS ALDEIAS POPULAÇÃO FONTE E DATA

SURUÍ 16 AI Sororó S.J. do Araguaia 2 109 Ferraz: 85

Ourém e 4 255

TEMBÉ (3) 17 Reserva


ibé Indígena Vizeu deadCE
desaldea 25 CIMI Norte
II: 83

280 (T)

TURIN rº * R

TEMBÉ i3 Tomé-Açu Aldeia Velha 30 Affonso: 84

XIPÃIA e 19 Altamira Altamira$ 52 FUNAI: 84


KURUÃIA Médio Rio Curuá 15 ,
famílias
+180
(1) Ver também na Área Parque Indígena do Xingú
(2) 346 (Txukarramãe) na Área Parque Indígena do Xingú
(3) ver também na Área Maranhão
(4) fora da área indígena Parakanã

154
SUDESTE DE PARÁ 5

INDENIZAÇÕES E
JOGO DE FLECHAS:_
A GUERRA DOS GAVIAO
Saiu a indenização pela
passagem da ferrovia de Carajás,
mas o enfrentamento com o kupé
“não acaba nunca”, segundo Krohokrenhum

Iara Ferraz (*)

trem passou, dia 28de fevereiro de 1985, pela pri


Das pressões ao acordo
meira vez, percorrendo rapidamente os 17 km da Es
O trada de Ferro Carajás que ficam dentro da Reserva
Indígena Mãe-Maria dos Gavião. Assim, será, diariamente,
Os Gavião passaram a exigir, a partir de meados de 84,
uma redefinição do “projeto de apoio” levado a efeito atra
a cada duas horas, até que se acabe “a maior jazida até hoje vés do convênio com a Funai. Ao lado da reivindicação de
descoberta no mundo": 18 bilhões de toneladas de minério uma forma autônoma para a gestão dos recursos oriundos
de ferro, 80 milhões de manganês, um bilhão de t de cobre, do convênio, livre dos trâmites burocráticos CVRD/FU
40 milhões de bauxita e ainda outros minerais, NAI (o que vinha sendo pleiteado pelos Gavião desde 1982),
a principal preocupação dizia respeito a sua continuidade,
Muito antes da viagem inaugural, os Gavião — o único, dos uma vez que o prazo de cinco anos fora estipulado de modo
14 grupos indígenas situados na “área de influência" do arbitrário, bem como os próprios “projetos de apoio". Como
Projeto Carajás que tiveram sua reserva cortada pela ferro afirma Cotia hoje em dia, “fizeram tudo nas costas da gen
via — haviam iniciado pressões junto à CVRD para obter te, ninguém perguntou nada primeiro, ninguém veio con
benefícios adicionais, além daqueles fixados no grande con versar aqui (na aldeia). Quando chegaram... pessoal do
vênio CVRD/FUNAI (1982). Participar, de alguma forma, Banco Mundial, da Vale, da Funai, eles já tinham acertado
dos benefícios oriundos dos 13 milhões de dólares estipu tudo!"
lados pelo convênio (total para os 14 grupos), não parecia
aos Gavião “satisfatório" em troca da passagem, pelos pró A ameaça da paralisação das obras da ferrovia de Carajás,
ximos 400 anos, dos comboios carregados de minérios, a pelos Gavião, levou ao início das negociações, em setembro
apenas 10 km da aldeia nova. de 84, com a Vale do Rio Doce. A comunidade Parkatêjê
(como os Gavião se autodenominam) exigia o pagamento de
Já em abril de 1982, a CVRD pagou 56 milhões de cruzeiros um "pedágio" mensal, de caráter perpétuo, para a passa
aos Gavião, a título de indenização pela destruição da co gem dos trens carregados de minérios de ferro pelo interior
bertura vegetal do trecho de 17 km por 100 metros de lar do território tribal. Três reuniões consecutivas foram reali
gura (corredor para o assentamento dos trilhos), porção do zadas na aldeia de Mãe Maria — duas em outubro e uma
território indígena rica em castanhais e caça. Ali seriam em novembro — com representantes da Comunidade Par
abertas também três grandes “caixas de empréstimo", . katéjê, da Funai e da Vale, além da imprensa e, na última,
como são chamadas, para a retirada de materiais como do advogado particular dos Gavião, Carlos Marés de Souza
barro e cascalho, destinados à construção do leito da ferro Fº, especialmente solicitado por eles.
}'{{},

A intervenção da 2° DR da Funai (Belém), foi no sentido de


A passagem da ferrovia pelo interior da área indígena pro sugerir aos Gavião, logo de início, um salário mínimo por
piciou a ocupação por posseiros no trecho ao longo do leito família, como critério para a fixação do montante desejado.
da estrada de ferro, com o incentivo dos colonos assentados No entanto, a impropriedade desse critério motivou inúme
pelo GETAT no Loteamento Flecheiras, incrustado a Su ras discussões por parte de antropólogos, advogados, juris
doeste do território Gavião desde 1981. A vigilância naquele tas e representantes da Vale. O Prof. Dalmo Dallari, con
trecho e a remoção do loteamento do GETAT passaram a sultado a respeito, sugeria uma indenização em terras, al
ser cobradas pelos Gavião à Vale do Rio Doce e às emprei ternativa logo rejeitada pelos Gavião, dada a dificuldade
teiras que haviam instalado seu canteiro de obras nas proxi
midades. Esta situação viria a ter desdobramentos inespe
rados. (*) antropóloga, presta assessoria aos Gavião do Pará desde 1976. E autora
da tese de mestrado “Os Parkatejê das Matas do Tocantins: a Epopéia
de um líder Timbira”, USP, 1983, e assessora da CVRD para as áreas
Gavião e Suruí do Pará.

155
Técnicos da CVRD
acertam com os Gavião,
na Aldeia Nova,
a passagem da ferrovia
de Carajás.

CVRD INDENIZA GAVIÃO PELA PASSAGEM DA RODOVIA

Proposta da Companhia Vale do Rio Doce à Co digo sobre a proibição de utilização da terra indígena,
munidade Indígena Parakatêjê, para ressarci especialmente quanto à caça, pesca, coleta de frutos,
mento dos danos causados à Reserva Indígena extração de madeira, ou qualquer outra atividade que
Mãe Maria, em decorrência da passagem da Es restrinja o usufruto dos índios sobre a reserva;
trada de Ferro Carajás pelo seu interior. 12. O pessoal da CVRD utilizará uniforme distintivo
no interior da Reserva;
1. Destinar a importância de 3.000.000.000,00 (três 13. A CVRD sinalizará adequadamente a Reserva no
mi, digo, bilhões de cruzeiros) à constituição de um trecho em que é atravessada pela ferrovia;
fundo de recursos para custear projetos de interesse da 14. A CVRD construirá guaritas nas extremidades do
Comunidade Indígena; trecho, exercendo vigilância sobre toda sua extensão e
2. A importância mencionada no ítem anterior será comunicando à FUNAI qualquer anormalidade, bem
aplicada em estabelecimento financeiro da rede oficial, como a presença de estranhos;
a partir do dia 12 do mês fluente, em conta vinculada 15. A CVRD recuperará as caixas de empréstimo com
da CVRD; cobertura vegetal, evitando a formação de lagos putre
3. Os juros mensais decorrentes desta aplicação serão fatos e não ampliando a área já utilizada;
liberados diretamente à Comunidade, pela CVRD; 16. O cumprimento do presente compromisso pela
4. A correção monetária mensal do valor aplicado será CVRD significa total reparação dos danos causados
agregada ao principal; pela ferrovia à Reserva indígena, nada mais podendo
5. Os projetos aludidos no item primeiro serão elabo ser-lhe exigido, em qualquer tempo, a esse título.
rados pela Comunidade com a assessoria de técnicos
por ela escolhidos, com a assistência da FUNAI e da Mãe Maria, 7 de novembro de 1984.
CVRD;
6. Os custos de elaboração, implantação e execução José Valderi Teixeira
dos projetos serão debitados ao fundo mencionado no Darci de Oliveira Freire
ítem primeiro; Amado Cândido Rodrigues Filho
7. Elaborados os projetos, estes serão submetidos à ass. pela Companhia Vale do Rio Doce
aprovação da CVRD que analisará sua viabilidade;
8. Uma vez aprovados os projetos, sua implantação e
execução serão objeto de um Convênio entre a CVRD e de acordo: Byrkre Jimokre Hirãre
a Comunidade, com a assistência da FUNAI; (Comunidade Indígena Parakatejê)
9. A gestão dos recursos destinados aos projetos com Salomão Santos
petirá à Comunidade, com a assistência da FUNAI; (Fundação Nacional do Índio)
10. Permanece em plena vigência o Convênio nº 59/82
celebrado entre a CVRD e a FUNAI; testemunhas: Carlos Frederico Marés
11. A CVRD instruirá seu pessoal sobre a utilização, Iara Ferraz

156
-SUDESTE DO PARÁ 7

Jogo de flechas. E
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Em primeiro plano, #
Krohokenhum. Q
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crescente na região sudeste do Pará de eles exercerem um Até 1980, ou seja, antes da atuação do GETAT e da Vale do
controle efetivo sobre a sua ocupação; não havia ali terras Rio Doce na região, os posseiros ali se defrontavam aberta
disponíveis, “sem problemas", como afirmava Krohôkre mente com os jagunços do proprietário vizinho aos Gavião.
nhum. Com a passagem da ferrovia, a redemarcação iniciada em
1982 corrigiu limites que, em 1966, haviam sido estabele
Na terceira reunião, em novembro de 1984, a Vale do Rio cidos pelos agentes do antigo SPI, e do governo estadual,
Doce apresentou aos Gavião uma proposta de pagamento juntamente com o proprietário vizinho, beneficiando-o com
de três bilhões de cruzeiros como indenização definitiva por a inclusão de inúmeros castanhais da parte sul do território
perdas e danos decorrentes da passagem da ferrovia no inte indígena.
rior da área indígena.
E a atuação do GETAT sobrepôs, exatamente naquela por
No acordo então firmado (ver a íntegra no box), ficou esta ção, um loteamento com 46 glebas de 50 hectares cada uma,
belecido que a aplicação desses recursos — cujos juros men que passaram a ser ocupadas a partir de abril de 1981. Inú
sais de uma caderneta de poupança passaram a ser, desde meras foram as solicitações dos Gavião à Funai e à Vale do
então, tornados disponíveis aos Gavião — vai depender da Rio Doce para a remoção dos “posseiros do GETAT".
elaboração de projetos específicos, pela própria comuni
dade, visando sua auto-sustentação. Mas, a aceitação defi Em nome da defesa do território indígena, desencadearam
nitiva do acordo pelos Gavião depende, por sua vez, do con se ações repressivas conjuntas da Funai e da Polícia Fede
trole e da gestão independente desses recursos, por ora alo ral, sob o patrocínio da Vale do Rio Doce (o convênio), diri
cados apenas em nome da Vale do Rio Doce, além de uma gidas contra os posseiros que passaram a se fixar junto ao
exigência de fiscalização perene do território pela CVRD, leito da ferrovia, incentivados por grileiros de terras e pelos
protegendo-o das invasões. ocupantes dos lotes do GETAT. Caso não se verificasse um
controle da crise esboçada pelos rumores de iminente inva
O depósito bancário, em caderneta de poupança agora con são do território indígena pelos posseiros, os Gavião amea
junta (Comunidade Parkatéjé/CVRD), a ser proximamente çavam com a interdição da ferrovia, da rodovia BR-322 (que
transferida para a agência da CEF, em Marabá, por exigên liga Marabá à Belém-Brasília) e da linha de transmissão de
cia dos Gavião. Por enquanto, só os juros mensais vêm sen alta tensão, subsidiária da Usina Hidrelétrica de Tucuruí
do dispendidos pelos Gavião e nenhum projeto específico foi que, anteriormente, já haviam cortado o território indígena.
elaborado, apesar das fortes pressões locais e da própria
Ajudância da FUNAI, voltadas para o “incentivo" ao cul
tivo de cacau e à implantação de pecuária extensiva, se Crise permanente e jogo de flechas
guindo o modelo regional.
Numa situação de crise deflagrada com a morte do traba
lhador da Comunidade, o modo de enfrentamento direto
As invasões e os conflitos operado pelos Gavião remete a um sistema de representa
ções ligado às atividades guerreiras, tradicionais. A forma
Uma emboscada ocorrida no início de janeiro de 1985 levou jocosa que marca, em geral, as suas relações com os "civi
a morte um dos trabalhadores contratados pelos Gavião, lizados "impõe, de certa maneira, as regras do jogo, onde os
por empreitada, para completar a demarcação, interrom Gavião vêem-se a si mesmos como “vencedores". Assim é.
pida em 1982, da porção sul do território, exatamente o tre na guerra: o mais importante é desafiar o outro. O jogo de
cho cortado pela ferrovia. Este fato fez ver aos Gavião um flechas e as corridas com as toras, praticados com freqüên
quadro ainda mais complexo. cia pelos Gavião e intensificados nos períodos de crise da
quela sociedade, são expressões peculiares desse modo de
enfrentamento.

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INDÍGENAS NO BRASIL/CEDI

O jogo de flechas encerra práticas de guerra, onde o ato de Esse enfrentamento da "gente civilizada", como diz Kroho
enfrentar o inimigo requer aptidão esmerada por parte dos krenhum, o chefe Gavião, “é luta, luta, luta... não acaba
jogadores que, aos pares, disputam o alcance das flechas nunca!... Okupê ("civilizado") não pensa nadinha... não é
atiradas em caminhos radiais abertos, em geral, a partir de assim como gente não! parece bicho, cachorro... não respei
um acampamento na mata, situado nas proximidades da ta os outros... Como agora, que eu tou imprensado...”
aldeia. São momentos voltados para o alívio das tensões ge (nov. 84). Ele se referia às fortes e crescentes pressões que
radas no cotidiano, assim como as corridas com as toras, vêm se verificando sobre o território, de tal modo que pare
onde o alvorecer de cada dia é marcado pela reiteração de cem caracterizar um estado de crise permanente em que vi
princípios norteadores da existência da sociedade Gavião. vem os Gavião do Pará.

Os índios têm motivos para voltar a pra tensão de energia da hidrelétrica de Tu


ticar suas festas típicas: ontem, todos os curuí. Dois anos depois, a Companhia
guerreiros estavam “jogando” flechas, Vale do Rio Doce teve de pagar Cr$ 56,5
Inaugurada aldeia moderna uma atividade lúdica própria da comu milhões de indenização para o desmata
nidade indígena. Durante horas eles ati mento de uma nova faixa, ao longo de
Hoje vaiser um dia inteiro de festas para ram suas flechas com o objetivo aparen 17,5 quilômetros no interior da reserva,
os 183 índios da reserva Mãe Maria, no te de testar força e perícia no arremesso pela qual, a cada duas horas, passará
pará: eles inaugurarão a mais moderna das ágeis flechas através de rijos arcos. um trem carregado de minério de ferro,
aldeia indígena do País, com 32 casas de Na