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MOCINHO,

ADEUS
Gilbert Daniel da Silva

[3]
[4]
Gilbert Daniel da Silva

MOCINHO,
ADEUS

Clube de Autores | Pau Brasil


Belo Horizonte
2017
[5]
SILVA, Gilbert Daniel da.
Mocinho, adeus. Belo Horizonte:
Edição do autor. 2017. 166p.

ISBN 978-85-922074-7-2

Revisão: Giselle Bruck

[6]
Se não for para me vingar, não escrevo.
MARCELO MIRISOLA

[7]
[8]
SUMÁRIO
Prefácio (lamentável e prejudicial)........13
Apresentação.....................................................35
Capítulo 1: O pôr do sol
extraordinariamente surreal......................46
Capítulo 2: Qual o tópico de hoje?..........69
Capítulo 3: Sim, eu estarei lá.....................86
Capítulo 4: Eu não serei o chão de
ninguém.............................................................102
Capítulo 5: Esse é o seu plano, me
transformar em nada?................................116
Posfácio a contragosto...............................150
Sobre o autor.............................................................163

[9]
Mocinho, Adeus

Para Joana Lyns,


sem maiores delongas...

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Mocinho, Adeus

[ 12 ]
Mocinho, Adeus

Prefácio (lamentável e
prejudicial)

O filho do estuprador com os


olhos do pai...
R-R de Andrade

Frases como “se um escritor se


apaixonar por você, você nunca
morrerá” deixam em qualquer
caso uma ternura... Só precisa
ser sensível para notar.
Joana Lyns

Em primeiro lugar, devo dizer que meu


objetivo com este prefácio se limita a traçar
algumas linhas que julgo úteis para alertar ao
leitor sobre a absoluta inutilidade dessa
publicação. Além de escrever esse prefácio,
[ 13 ]
Mocinho, Adeus

ocupei-me também em inserir notas críticas


ao longo do romance, de modo a ampliar
algumas informações e analisar as diversas
fragilidades da presente “obra” literária. Tento
ser o mais sincero e objetivo, já que não
estou interessado em bajular autores de
nenhuma ordem, ainda mais quando certas
pessoas que escrevem livros se aproveitam de
um dado contexto (por exemplo, o das
plataformas de autopublicação e suas facili-
dades) para lançar seus contos, poesias e
romances sem passar primeiro por algum tipo
de avaliação criteriosa por profissionais do
setor. Essa quebra de protocolo, que
pareceria bastante interessante há dez anos,
hoje já soa como um desperdício de tempo,
papel e tinta. Dito isso, passemos adiante na
análise do romance em questão.
O texto a seguir, que o leitor tem em
mãos, foi o registro acabrunhado de um
“casmurro-narrador” cujas pretensões
artísticas nunca estiveram à altura do talento

[ 14 ]
Mocinho, Adeus

exigido a autores verdadeiramente talentosos


e propositivos. Nem todos os livros merecem
o brilho das páginas impressas. Por outro
lado, há aqueles que têm certa função
pedagógica porque ilustram como não se deve
escrever uma história, ou mesmo quais
histórias não contam com os aspectos
necessários para o desenvolvimento de uma
narrativa potencialmente interessante. Sem
devires não há literatura, porque é por eles
que os autores se refazem e se multiplicam,
renovando desse modo nossas percepções
sobre as linhas de desejo que podem nos
movimentar.
Pode-se dizer que se trata de memórias de
um enforcado, para isso basta notar as várias
referências à cordas, a súbitos mal explicados
sobre cadeiras que escapam sob os sapatos,
ou ainda, descrições ligeiras de facas ou
outros objetos cortantes; antidepressivos,
ansiolíticos ou barbitúricos listados ao lado de
alusões a consumo de bebidas alcóolicas; uso

[ 15 ]
Mocinho, Adeus

de armas de fogo (algumas exclusivas das


Forças Armadas etc..) e, sobretudo, a
presença de citações machadianas retiradas
de um verdadeiro clássico, como o Memórias
Póstumas de Braz Cubas (do qual havia um
exemplar na casa do R-R, cheio de pequenas
anotações a caneta ou lápis, e desenhos
riscados como esboços de mapas mentais ou
estruturas conceituais, cujos significados são
exatamente os que construíram todo o livro
que o leitor tem agora em mãos). Não posso
deixar de esclarecer que os originais foram
encontrados ao lado do corpo de Ruber de
Andrade, no seu apartamento da rua R,
número 17, na periferia de nossa cidade, há
exatos dez anos. A polícia até hoje não
descobriu o autor do provável “homicídio”,
uma vez que a primeira tese por ela
apresentada sustentava-se na hipótese de
“autoextermínio induzido”. Isso devido a um
conjunto de evidências que apontavam para
arrombamento das fechaduras e pegadas com

[ 16 ]
Mocinho, Adeus

marca de sangue. Outras evidências se


resumem às digitais até agora não
identificadas na cena do crime, como
também, bilhetes com caligrafia diferente da
registrada pela vítima e testemunhos de
vizinhos que ouviram na noite anterior à
descoberta do corpo barulhos incomuns, como
móveis arrastados e janelas batendo, barulhos
esses vindos do apartamento 701, onde o
corpo da vítima foi encontrado sem vida, em
decúbito lateral, vestindo somente uma
camiseta branca e meias pretas.
Tecnicamente é isso.
Os fragmentos de Adeus, Mocinho:
Romance Em Cinco Atos Tétricos apresentam,
em linhas gerais, a história de um
desencontro amoroso (ou nem isso), como
tantos outros. Nesse ponto, não há nada
demais para realçar, visto que o pequeno
drama individual (se é que podemos assim
dizer) se constitui apenas uma pálida imagem
do que poderia vir a ser uma boa história. Os

[ 17 ]
Mocinho, Adeus

nossos dramas pessoais não podem, de modo


arbitrário, consolidar alguma literatura, visto
que sem o trabalho da forma e certo processo
de deslocamento das subjetividades (às vezes,
em uma expressão um tanto esquizo, como já
ficou notória em muitos exemplos literários,
de Franz Kafka a Borges, passando pelos
exemplares casos dos nacionais João Gilberto
Noll e Marcelo Mirisola) em um processo de
refazer as próprias vivências em nome de um
abandono deliberado das próprias emoções e
memórias. Isso nos parece bastante
característico, uma vez que tal deslocamento
provoca a reinvenção de nossas desprezíveis
mazelas para a criação de personagens
realmente vivos na página impressa. Isto é, o
narrador precisa se refazer em nome de algo
a ele exterior, uma vez que é do lado de fora
de certas convenções e comportamentos
pessoais que se torna produtivo fazer
literatura como quem assume múltiplas
maneiras de dizer algo em diferentes camadas

[ 18 ]
Mocinho, Adeus

de sentidos. Mas não é nada simples fazer


isso. Por outro lado, é o único modo de se
fazer literatura sem cair em certo
psicologismo estéril ou militância
descontextualizada. Encontrar a literatura em
sua plenitude exige um esvaziamento de tudo
o que é supérfluo.
Assim, o que faltou ao narrador dos Cinco
Atos Tétricos foi o trabalho com a forma, já
que não observamos nesse romance nenhuma
reinvenção da sintaxe1, muito menos, a
propensão a experimentar sobreposições de
narrativas em redes complexas de articulação.
Explico melhor: o jogo habilmente composto
de vozes e ambiguidades na construção
ficcional efetua transições e reencarnações na
palavra de um mesmo autor, renovando nos
leitores as multiplicidades de ações e

1
Vale aqui lembrar a bela e significativa frase de
Marcel Proust a respeito de como os escritores usam a
linguagem para inserir uma língua estrangeira na
própria língua.
[ 19 ]
Mocinho, Adeus

significados, bem como amplia as interações


textuais de todos que consomem as históricas
e suas retomadas. Tem-se, dessa forma, um
inventário de emoções circunscritas e
montadas, em um processo não muito
diferente do que visualizamos facilmente no
trabalho de produção e pós-produção no
cinema. Ora, o que o livro em questão não
possibilita é isso: rearranjos e fraturas de
significados nas configurações intensamente
arquitetadas, assim capazes de fazer do texto
literário um espaço formidável para as
memórias subjacentes e paralelas. Um tanto
esquizo aqui, um tanto esquizo ali. Memórias
em estado de vigília, em suspensão, as quais
tornam o mistério e seus meandros palco para
novas dissimulações e possibilidades. Isso não
é possível no pequeno drama individual,
porque esse trata de diário de confissões,
pequeno caderno onde a frivolidade do
cotidiano médio se perpetua até a hora
extrema.

[ 20 ]
Mocinho, Adeus

É nessa ordem de pequenos fragmentos


inúteis que refaço o pedido ao leitor para
abandonar este livro e encontrar ocupação
mais proveitosa. Ou caso insista nessa obra
tentando a ela dar algum valor, recomendo
somente uma leitura pouco cuidadosa, na
qual páginas sejam ignoradas por completo
em favor de um contato ligeiro, superficial;
pestanejando sem receios nos longos trechos
vazios de qualquer dimensão artística (vazios
que constituem integralmente o conteúdo dos
capítulos escritos precipitadamente e
inutilmente pelas duas mãos desaparecidas
desde logo). Desaparecimento do pretensioso
narrador, cujos originais por mim resgatados
se tornaram a promessa, mais tarde
desiludida, o meu fracasso antecipado.
Projeto sem futuro. Desaparecimento da
forma do Romance, para sempre esquecida,
uma vez que sequestrada, negada e por fim
diluída a poeira nas séries de livros e filmes
que a indústria cultural (notadamente, a

[ 21 ]
Mocinho, Adeus

editorial e a cinematográfica) inunda nossas


livrarias, compondo todo um lixo ancestral de
novidades refeitas no marketing deliberado
dos fascismos massificantes.

Fragilidades do romance Mocinho, Adeus

Primeiro: trata-se de uma escrita inspirada


em irrelevante drama pessoal, nada além de
um episódico “pé-na-bunda” boçal e previsível
ao qual o narrador se submeteu. Segundo: o
narrador não dispôs a narrativa de modo
convincente, preferindo, de modo preguiçoso
e desnecessário, ceder a um fluxo sem
estrutura e, por isso, incapaz de envolver o
leitor. Terceiro: a narrativa em primeira
pessoa não funciona visto que se trata de um
conjunto de lembranças fragmentadas,
dificultando uma intervenção mais, digamos,
ponderada, que poderia ser resolvida com o
uso de um narrador onisciente. Por último,
não há uma estratégia discursiva eficiente,

[ 22 ]
Mocinho, Adeus

uma vez que o fluxo narrativo não foi pensado


de modo a dar uma sequência coerente aos
fatos. Temos apenas as lembranças
desconexas e um inexpressivo conjunto de
sentenças soltas, às vezes até poéticas, mas
substancialmente vazias e descontextuali-
zadas. O mais lamentável é constatar que, ao
longo do romance, muitas possibilidades nos
ocorrem e nos parecem bastante eficazes,
dentro de um quadro crítico, o qual estimula-
nos a pensar alternativas interessantes se
comparadas com às escolhas pouco inspiradas
do narrador. A obra, no geral, parece ter sido
composta às pressas e sem planejamentos.
Um amontoado de expressões e descrições,
na maioria das vezes, destituídos de um
sentido mais autêntico capaz de justificar o
uso do romance nos dias atuais e com tais
configurações.
Anunciado pelo narrador como uma
espécie de Serafim do Século 21, Mocinho,
Adeus, não vai além de um pastiche mal

[ 23 ]
Mocinho, Adeus

arranjado, cheio de citações descabidas em


meio a pequenas frustrações de ordem
pessoal motivadoras do livro (como se a
escrita se reduzisse a terapia para pequenos
sofrimentos individuais) que soam patéticas e
pretenciosas. Principalmente, porque não se
justificam por si só, e nos cansam na medida
em que avançamos na leitura e nada nela
consegue nos convencer a prosseguir até o
fim.
Uma alternativa seria um livro sobre o não-
livro, isto é, superar o mito da mulher para
assim fazer da obra uma verdadeira
experiência com a realidade. Superar o
bloqueio através da própria criação
fracassada, como o personagem Guido do
filme Fellini Oito e Meio.
Os tempos verbais parecem se suceder
sem uma lógica pré-estabelecida, como se o
improviso sozinho pudesse justificar o estado
de coisas no interior da escrita. Trata-se,
exatamente disso: essa total ausência de uma

[ 24 ]
Mocinho, Adeus

criação mais orgânica e redonda afasta-nos do


livro, tornando-o um pequeno manuscrito
entediante e sofrível. O que observamos é a
dificuldade do narrador em encontrar um
estilo convincente, o que, por fim, condenou
sua criação a um nebuloso e insosso
adiamento ou suspensão das narrativas
paralelas sem qualquer propósito.
Mas qual parece ter sido o objetivo
principal do narrador ao escrever esse título?
O que podemos supor é que se trata de um
projeto fundado sem bases sólidas, pequeno
diário das paixões naufragadas e descabidas,
ou até mesmo, gesto irresponsável e infantil
para homenagear aquela que o desdenhou.
Em linguagem clara e indubitável é isso
mesmo: o narrador usa sua criação para
chamar até si os olhos e a mente daquela que
o rejeitou, como se esse gesto fosse suficiente
para tê-la e prendê-la. Manter por perto quem
se desgarrou, em uma tentativa desesperada
de reverter o desencontro, cartada final de

[ 25 ]
Mocinho, Adeus

uma mente doentia, obcecada no sol dos seus


próprios infortúnios.

***

Finalizando, o que posso dizer ao leitor é


que eu não gastaria minhas retinas com tais
páginas. Acredito que ninguém mais o deva
fazer. E com esse espírito de libertação sugiro
ao leitor reler algum livro lido na juventude,
aquele livro marco de tempos imemoráveis,
companheiro das horas passadas (ou ainda da
infância) quando a literatura não havia sido
sequestrada pelos péssimos autores e suas
eficientes plataformas de publicação em
tempo real. Anterior à essa morte da literatura
dos últimos anos, o fim do Romance como
tradição inaugurada há séculos e agora
moribundo, in extremis, às grandes criações
atemporais.

[ 26 ]
Mocinho, Adeus

Lamentável e prejudicial, desastre das


obras assassinadas antes de muitas
antiguidades. Que prossigamos, resolutos,
assumindo as difíceis condições dos
descaminhos que a vida ficcional mal digerida
poderá nos impingir. Ou nada disso, menos
que uma nulidade.

P. Calçudo
Belo Horizonte do Mato Dentro,
Março de 2017

[ 27 ]
Mocinho, Adeus

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Mocinho, Adeus

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Mocinho, Adeus

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Mocinho, Adeus

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Mocinho, Adeus

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Mocinho, Adeus

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Mocinho, Adeus

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Mocinho, Adeus

Apresentação

O amor-perfeito só existe
quando dá tudo errado.
Roseh Hannah

Joana é apenas uma fotografia


no Insta.
R-R de Andrade

Este romance, projeto fracassado de um


modesto Serafim do século 21, é o primeiro
livro de uma trilogia em três partes intitulada
On Line ou A memória de todos os tempos ,

[ 35 ]
Mocinho, Adeus

antigo projeto que somente agora, depois de


alguns anos de muito trabalho, pude finalizar.
A ideia principal do romance surgiu por
volta de 2003. A primeira versão finalizei no
inverno daquele ano. Os originais
datilografados ficaram guardados em um
antigo baú abarrotado de livros velhos, textos
fotocopiados, restos de comida e roupas
sujas. Devido uma sequência de contratempos
de ordem pessoal (que aqui são
absolutamente irrelevantes) não retomei o
projeto e tudo indicava seu mais completo
esquecimento. Isso até eu ser arrastado
subitamente na direção imprevista, com a
qual me deparei dez anos depois de
começado o registro inicial.
Naquele ano, 2013, retomei o que sobrara
dos originais visto que boa parte das páginas
estava ilegível, pela ação do tempo, dos
restos de frutas, sementes e até mesmo uma
boa porção de galinha apodrecida. Do
conjunto de 177 páginas datilografadas em

[ 36 ]
Mocinho, Adeus

espaço simples, devo ter perdido quase um


terço do trabalho. O que pude recuperar deu-
me um imenso trabalho de restauração das
sentenças e ideias. Tive que reescrever em
manuscritos obtusos todo o arsenal de
lembranças pré-históricas de um tempo que
nunca vivi. Ao final daquele ano, fui forçado a,
de novo, abandonar o projeto, mas o serviço
de reescrita já estava adiantado, em grande
parte. Soma-se a isso, a minha completa
incompetência em lidar com computadores,
de modo que o livro continuava apenas na
versão manuscrita. Eu contava com a
promessa de uma jovem amiga para um dia
digitalizar tudo aquilo. Mas no meu processo,
não dava para pular etapa: primeiro porque
eu mesmo teria que datilografar aquele
colosso de rancores no antiquado padrão de
minha velha Remington.
Retomei o projeto em 2014 e praticamente
dei por encerrado tudo o que me parecia
relevante dizer quanto aos fatos observados

[ 37 ]
Mocinho, Adeus

sob os ângulos mais imprevistos. A versão


final contava com 711 páginas, incluindo
fotografias, gravuras, mapas, desenhos,
colagens, cronogramas e um detalhado plano
que dividiu toda a obra em três partes. O
passo seguinte era investir em cada uma
dessas partes, já que a estrutura do trabalho
estava definida (a estrutura narrativa também
foi modificada para dar conta das novidades
tecnológicas, em especial o uso cada vez mais
acelerado de redes sociais em dispositivos
móveis e suas linguagens prodigiosas).
Somente no ano de 2015 foi possível
concluir todo o projeto. A trilogia se encontra
em sua versão definitiva, com todas as
páginas digitalizadas. Dessa forma, lanço
agora a primeira parte dessa trilogia com o
singelo nome de “Mocinho, adeus ou porque a
vida não existe: Parte 1”.
“O outro lado da memória” era o provável
nome da trilogia, mas confesso que não
lembro mais o porquê.

[ 38 ]
Mocinho, Adeus

Retomando e recapitulando algumas


versões do mesmo fato, enumero, a seguir, os
acontecimentos que me ocuparam
emocionalmente nos últimos tempos. Pude,
então, realizar o sonho de escrever meu
primeiro romance, a forma consagrada por
gerações de escritores ao longo dos séculos.
Retomando e recapitulando etc..
Boa parte do que está escrito nesse livro
foi produzido em quartos de hotéis uma vez
que eu estava (tecnicamente) exilado no
próprio país (aqui não tenho espaço para
maiores detalhes sobre isso... posso adiantar
apenas que esses episódios não farão falta ao
drama que segue), em função de pequenos
incidentes de ordem privada (mesmo porque,
neste romance apenas os fatos objetivos
interessam, relegando, assim, as desventuras
ou prazeres de ordem estritamente pessoais).
Alguns dos fragmentos se perderam entre
saídas e entradas de um hotel para outro,
visto que, quando o dinheiro encurtou tive

[ 39 ]
Mocinho, Adeus

que procurar acomodações mais em conta.


Acabei em um pequeno quarto, sem banheiro,
em uma instalação bastante precária, um local
que muito me deprimiu por noites e dias e
semanas, até que pude me restabelecer em
um apartamento alugado às pressas depois de
uma sequência desastrosa de tentativas em
conseguir um fiador. No conjunto, essas
partes somam algo em torno de 250 páginas
datilografadas que jamais recuperei. As partes
que ficaram para trás não farão grande falta.
O essencial está aí.
Aqueles tempos estiveram presentes
enquanto os fatos passados se acumulavam
na memória. O outro lado é o que busco aqui
dar forma e significado.
Essas idas e vindas com certeza
influenciaram a minha escrita. Isso deu o tom
do romance, que a mim lembra muito alguns
contos de capa e espada ou crônicas de
época. Ou mesmo a ficção científica à Robbe-

[ 40 ]
Mocinho, Adeus

Grillet e de outros autores do Novo Romance


francês.
Em certa medida, não tenho nada a dizer
em minha defesa, isto é: o romance não se
configura como narrativa de confissão ou algo
parecido. Trata-se, tão somente, de um
experimento com a linguagem, no trabalho
incansável com a matéria nebulosa da
memória. Convido o leitor a dedicar algumas
horas a esse pequeno livro, o qual me exigiu
anos de trabalho e causou intensas dores de
cabeça. De modo geral, julgo o resultado
razoável, ou melhor, ele chegou a essa
composição que agora posso apresentar ao
público (se é que haverá algum) e que de
algum modo atendeu as minhas exigências.
As curiosidades, se há alguma, não estão ex-
postas de modo expansivo. Pelo contrário, fui
bastante econômico nas adjetivações ou
expressões excessivamente grandiloquentes.
Não é esse o meu estilo.

[ 41 ]
Mocinho, Adeus

As sentenças foram, aos poucos, reduzidas


ou aglutinadas em poucas palavras ou
expressões. As metáforas e metonímias se
impuseram no processo de modo a concentrar
o máximo de expressão no mínimo de signos
verbais. Não foi um projeto audacioso, de
modo algum. Busquei uma forma concisa,
despretensiosa e objetiva, de modo a revelar
um panorama bastante sincero e convincente
sobre tudo o que vivi naqueles meses há
tantos anos perdidos na memória. A pureza
daquele sofrimento por J..
Alguns que já leram os originais antes de
finalizada a edição, perguntaram-me sobre os
fatos aqui narrados e sua hipotética
veracidade. Quanto a isso, não tenho quase
nada a dizer, mesmo porque não acredito na
memória como reelaboração ou coisa
parecida. Tenho comigo a certeza de que a
ficção é uma arte de mentir dizendo a

[ 42 ]
Mocinho, Adeus

verdade pelos caminhos tortos da invenção. 2


Sei que isso pode soar pretensioso, mas
preciso correr esse risco como forma de dizer
o que penso e o que acredito.
Em linhas gerais, este romance trata
exatamente de um desencontro afetivo ou
amoroso, ou simplesmente, uma banalidade
sentimental como outra qualquer. É esse o
cenário de fundo, em cujo primeiro plano a
linguagem e suas sutilezas perturbadoras
assumem protagonismo. Julgo que essa
minha experiência agora compartilhada na
forma de livro pode servir de passatempo
para quem possui o hábito de ler e está à
procura de alguma distração. Não ofereço
mensagens ou ensinamentos. Descrevo,
apenas descrevo... Pequenas recordações,
ainda que amargas, mas com algum lirismo
que valha à pena. Entretanto, o valor desse

2
Embuste! Ele finge dizer algo quando na verdade gira
em torno da questão sem esclarecer nada, somente
argumentações vazias.
[ 43 ]
Mocinho, Adeus

gesto de escrever e o resultado final só o


leitor poderá julgar.
Peço desculpas por, em muitos momentos,
deixar-me levar pelo fluxo da memória, como
pequenos voos aparentemente sem razão.
Acredito que o romance é uma forma literária
que permite esses voos, como experimentos
poéticos para além de uma narrativa. Tais
breves intervalos e suspensões foram
alcançados com muito trabalho, o que nunca,
por si só, garante um texto de fato merecedor
de elogios.
Sinto que fiz o que estava ao alcance nesse
momento (espero, com mais experiência,
tentar algo ousado no futuro, como uma
pequena história sobre formas tradicionais da
cultura popular em meio urbano ou a
oralidade e seus ritos ancestrais de
comunidades populares ou ainda uma série de
entrevistas com guardiães da cultura em suas
expressões singulares nas vilas e favelas,
etc.), mas se aqui o torno público é porque,

[ 44 ]
Mocinho, Adeus

sem dúvida, tenho algumas boas razões para


assim o fazer. Caberá ao leitor percebê-las ou
criar tantas outras caso julgue assim
necessário e pertinente.
Boa leitura!
R. R.
Inverno de 2015

[ 45 ]
Mocinho, Adeus

Capítulo 1: O pôr do sol


extraordinariamente surreal

- Eu te avisei, eu não vou me apaixonar...

Carai... A ambulância, em meio ao trânsito


caótico do fim da tarde, segue inutilmente
pela Avenida A. com as luzes e sirenes

[ 46 ]
Mocinho, Adeus

ligadas. As sirenes que agora soam como


assovios estridentes de passarinhos suicidas,
enforcados, dependurados nos galhos de uma
mangueira cujas folhas reviradas parecem
chapadas, em cores lisas e brilhantes como
colagens em um quadro cubista. Nem tempo
nem espaço, tudo, absolutamente, escorreu
para fora do plano. O narrador já estava
morto antes disso tudo começar e um verme
roeu o caroço inchado na nuca inflamada.
R.R. foi consumido desde a corcunda
monstruosa das folhetinescas pretensões e
expectativas desmedidas. Suas últimas
palavras, ouvidas por algum vizinho do
apartamento 701, suas últimas palavras foram
tão somente: “Rose bunda”.3

3
Evidente, esse relato em terceira pessoa inseri no texto
original para introduzir de modo convincente os fatos
que serão narrados. Afora isso, todos os demais são de
autoria do próprio autor, Ruber de Andrade. Como já
apontado, meus comentários se resumem as notas
críticas no fim das páginas.
[ 47 ]
Mocinho, Adeus

Carai... Começar esse relato não tem


propósito algum.
Desde já os deixo sobreavisados: não há
aqui promessa de nada além de pequenas
coisas inúteis, desmedidas e fragmentadas.
Este projeto de romance nasce fracassado
porque se apoia na amargura de outro “pé-
na-bunda” banalizado, bilhetinho rasgado das
ternuras renunciadas. Ternuras naufragadas
nas praias ensolaradas sem lirismo. Esgoto a
escorrer pela areia quase branca, escoamento
de lembranças refeitas na última hora,
urgente e definitiva. Ternura em flor murcha,
girassol sem sol, mandrágora do enforcado,
dama-da-noite sem noite. Eu estava sozinho
no meio disso tudo.4

4
Fica evidente nesses trechos iniciais que todas as
motivações do narrador não valem a pena. Mas ele
insiste nesse projeto moribundo, quando, ao invés disso,
deveria nos poupar dessas lamentações banais. Pior é
que se trata de alguém incapaz de assumir a autocrítica e
[ 48 ]
Mocinho, Adeus

Pior é saber que nada disto interessará a


algum interessado. Por que então fazê-lo?
Qual estrutura seguir? Como dar continuidade
e encaminhar os acontecimentos sem
sobressaltos na narrativa? E como não
esquecer dos encadeamentos lógicos tão
necessários e infalíveis?
Posso afirmar o quanto gostaria de investir
em outro projeto, o qual se refere à pesquisas
sobre bairros tradicionais fundados junto com
a capital e seus personagens característicos.
Ou mesmo uma reelaboração de tradições
populares orais de povos ribeirinhos, ou
ainda, algo sobre os relatos de moradores

desistir dessa criação absolutamente covarde. Nada


além de um pequeno desencontro com uma jovem, o
que não preenche de modo satisfatório as páginas de um
romance de qualidade. Ele mesmo se perde e não sabe
as razões que o levaram a escrever, fazendo do drama
irrelevante objeto de produção ficcional. Simplesmente
patético e vergonhoso. Essa “obra” é um grande
desserviço à literatura, e irei expor isso durante o
desenvolvimento da mesma.
[ 49 ]
Mocinho, Adeus

antigos em regiões habitadas por


trabalhadores de indústria etc.. Um pouco
disso e um pouco daquilo. Tudo isso ao
mesmo tempo ou nada disso. Esse projeto,
certamente, eu retomarei tão logo conclua
este aqui. Este que, no momento, tornou-se
um fardo, já que não encontro mais nele,
agora já no final do projeto, motivações
suficientes para prosseguir. Entretanto,
preciso acabar logo com isso para me sentir
livre, e dessa forma me dedicar ao que de
fato tem importância. As histórias de
subúrbios e periferias na voz de todas as
populações, nas suas lutas por
reconhecimento, nas suas lutas e resistências
contra as injustiças de várias ordens.
Mas isso terá que esperar mais um pouco...
A primeira coisa que me ocorre é dividir os
capítulos em temas, para dar uma visão geral
do trabalho. Segundo, distribuir alguns blocos
de pequenos episódios em desenvolvimento,
de modo a dar uma visão total dos

[ 50 ]
Mocinho, Adeus

acontecimentos. Terceiro, refazer as partes


em fragmentos, ampliando os detalhes e
retomando as evidências tão evidentes na
memória de quem viveu tudo isso. Assim,
reúno sobre a cama maços de papel ofício nos
quais começo o manuscrito, com caneta Bic
na cor preta, para depois datilografar na
minha velha Remington que herdei do filho da
puta do meu desgraçado pai odioso. Do
Carai...
E, por último, dar cabo disso tudo, fazendo
com que os fatos estejam sempre acima das
minhas pequenas pretensões despropositadas.
Mas a conversa começou no Messenger e
logo migrou para o Whatsapp. Posso dizer
que tudo aquilo me pareceu uma brincadeira
inofensiva (para mim) uma vez que se tratava
de uma ex-aluna, que me admirava (pelo
menos, era o que eu supunha) e, fatalmente,
seria uma vítima fácil demais de com ela fazer
o que me aprouvesse.

[ 51 ]
Mocinho, Adeus

Nem sempre os planos são tão planos


quanto nossa imaginação imagina. Adiantando
o fim disso tudo, Joana suspenderia as
aflições aflitas de um desejo para não realizar
suas fantasias comigo. Em um dado momento
ela decidiu por tudo a perder em nome de um
amor-próprio covarde e previsível. Eu me
tornei para J. uma ameaça, e fui descartado
junto com a grande probabilidade de fazer
dela o que me aprouvesse (meu pequeno
plano desde o início). Ela saltou antes e me
deixou para trás com a certeza renunciada de
quem partia na direção de um cadafalso sobre
trilhos. Joana conseguiu o que pretendia,
esquivou-se do amor e dele saiu sem contas
para pagar.
Entretanto, as conversas em ritmo
alucinado duraram uma semana até o
primeiro encontro com Joana. Passávamos
trocando mensagens o dia todo, ela estava
empolgada com algo e eu não acreditava
nisso, desconfiado por se tratar de alguém

[ 52 ]
Mocinho, Adeus

vinte anos mais novo que eu. Exato, o clichê


que sempre ouvimos por aí, mas Joana não
aceitava ser tão óbvia: “Não serei o seu
casinho de vinte e poucos”, ela protestava ou
me alertava, mas eu insistia em olhar para os
lados e fingir algo que não sabia nem
imaginava, ou melhor, iludia-me na certeza de
estar no controle dos próximos passos, afinal,
a situação me favorecia. Em tese, Joana seria
facilmente convencida por mim e atenderia a
meus caprichos antes de um segundo. Mal
sabia eu que estava me envolvendo com uma
jovem bem mais esperta do que podia supor,
e que em pouco tempo me converteria em
uma espécie de bibelô a enfeitar sua estante
imaginária de paixões extintas na aurora das
unhas afiadas.
Eu preciso escrever a história disso tudo
para encontrar de novo o ponto que desfaz
toda a trama, puxando fio a fio, até a última
linha cruzada na memória. Depois disso,

[ 53 ]
Mocinho, Adeus

retomar o projeto que de fato interessa: a


história dos subúrbios, etc..
Mas foi no sentido de um pequeno sol de
infortúnios que Joana surgiu entre flores e
borboletas.
Ela suspirava signos ambíguos enquanto eu
respondia sem saber direito em que pé
estávamos, já que teclando pequenas
confissões desinteressadas não era possível
prever os novos planos adolescentes no
horizonte de nuvens em ocasos astrais. Não
era nada disso: pra dizer a verdade, a cabeça
cheia de analgésicos fervilhava entre sestas
prolongadas e cafezinhos suicidas nos quartos
de hotéis pagos adiantados e serviços de
camareiras, todas as manhãs vaporosas.
Havia o desejo de Joana mal anunciado entre
teclas e sussurros, um pouco antevisto, mas
negado logo em seguida. Isso por minha
culpa e descuido de Joana, ou vice-versa. Não
faz diferença, porque a ordem dos ocasos não

[ 54 ]
Mocinho, Adeus

altera o tamanho do abismo... das almas.


Tergiversando...
Mas tudo isso foi uma brincadeira até o dia
em que Joana perdeu o fio da meada na
medida certa de quem anuncia um
afogamento, isto é, ela fugia de um problema
costurando um novo no cruzamento cego de
um ex-amor naufragado. Eu seria esse ponto,
mas Joana sacudiu as possibilidades e saiu
pela direita... “Depois de hoje, Mocinho, nada
mais será possível, sinto que está tudo
desfeito. Adeus!”. Ao que respondi
corroborando o desenlace prematuramente
planejado. “Sim. Você tem razão... Talvez seja
melhor isso”. Prontamente, respondeu Joana:
“Está preparado para me deixar?”. Reticências
de amor abortado antes de acontecer,
precocemente abortado sem haver nenhuma
história relevante para contar: “isso o que
você quer”, ao que ela respondeu com
súplicas nervosas e etílicas, sei lá: “Fala
você...”. Peguei a corda do enforcado e

[ 55 ]
Mocinho, Adeus

estendi um laço de estrela a estrela cortando


os suspiros nebulosos da noite sem grilos:
“Não sem antes tentarmos e sabermos a
verdade”;
- Mas qual é a verdade, mocinho?
Foi então que liguei para Joana e peguei-a
no contrapé dos sonhos abandonados. Ela se
recompôs rapidamente, mas não sem primeiro
deixar pequenos arranjos florais entre
estremecimentos estomacais fecundos, ou
seja, as popularmente conhecidas “borboletas
no estômago”. As vozes no telefone curto-
circuitaram as pequenas travessuras de
WhatsApp e impulsionaram umas trocas
auditivas-sensoriais, que afastaram
afogamentos & autosabotagens afins.
Foi nessa conversa de telefone que ganhei
uma parte do coração gélido de Joana, entre
imagens e canções difusas, no último anti-
tédio de todas as noites. Logo o sono de
Joana se manifestou na voz de uma doce
mensagem em áudio: “Um pequeno e rápido

[ 56 ]
Mocinho, Adeus

banho... Se quiser continuar a conversa estou


aqui”... suspirado de estremecimentos e
arrepios, na contramão das promessas
refeitas de improviso ou das pequenas
mentiras assim reeditadas como memes
replicados e nunca lidos. Resumindo:
encontrei um ponto fraco na muralha
ressentida dos ressentimentos de Joana.

Recapitulando:
Falar mal do Oscar ou de cantoras do pop
rock norte-americano não passava de mais
uma estratégia – minha e dela – de matar as
lembranças ruins. Daí o fato de estarmos
grudados no celular respondendo aquelas
mensagens e propondo novos pequenos
desafios. E confabulando o mal entendido
como ingrediente das horas perdidas.
“Tem mesmo toda uma teoria contra
Hollywood. Eu acho graça. O drama em excesso
faz querer vivê-lo. E o máximo que
conseguimos é.... A realidade...

[ 57 ]
Mocinho, Adeus

“O que faz pensar, se alguém se concentrar


em uma biografia, tentando reproduzi-la, talvez
consiga algo muito parecido com o que o artista
viveu na realidade. Isso é, se o filme for mesmo
bom, leal à alguma coisa.”
Sim, eu me apaixonaria pela forma como ela
conduzia as palavras e jogava com minha
combalida imaginação. Algo que os memes
ensinam como em suas frases feitas e de efeito,
algo que, bem manipulado, gera um resultado
bastante convincente, sobretudo, para alguém
desavisado como eu naqueles dias depois do
vendaval vento que soprou a minha miséria
desgraçada. Até parece que eu acredito nisso.
Com Joana a situação avançou de modo
previsível no começo, mas o jogo virou sem que
alguém se desse conta. Precisa dizer quem é
esse alguém? As mensagens trocadas prome-
tiam um segundo encontro (“Temos todo tempo
do mundo”), mas tanto eu quanto ela tínhamos
motivos para procrastinar isso. Mesmo assim,
anterior a esse estado de coisas e calculando o

[ 58 ]
Mocinho, Adeus

nosso primeiro momento depois de tudo


começar, marcamos de nos ver em frente as
escadarias da Matriz (essas escadarias agora
me lembram a cena arquetípica de Odessa no
Potenkim de Eiseinstein, não sei porquê...) sob
as luzes brilhantes de um fim de tarde ainda
quente e úmido.
Cheguei atrasado meia-hora, mas não entrei
na igreja sem primeiro observar o cenário em
volta. Eu estava receoso, afinal não conhecia
Joana, há tempos não a via e só pude com ela
conversar on line naqueles últimos dias e noites.
Fui até ela como o boi no caminho do
matadouro. Mas não havia motivo para isso
(pelo menos não como eu imaginava).
Subi a escadaria e me virei em direção
oposta a da fachada: era bonito ver as nuvens
caindo de um céu desdobrado em si mesmo, o
por do sol surreal como descrito por Joana...
Extraordinariamente surreal. Dentro da igreja vi
Joana sentada, em silêncio, segurando uma
sacola plástica. Ela havia me dito, pela manhã,

[ 59 ]
Mocinho, Adeus

que iria até a farmácia tomar uma injeção e que


me encontraria nesse intervalo. “As 7 a coisa
termina, é a hora para acabar”, ela me disse
entre teclas suspirando nos k-bites de memória
em 4G “tupy-or-not-tupy”. Essa não seria outra
história dos subúrbios, de modo algum. Cheguei
sem saber por onde começar, mas me sentei ao
lado de Joana mastigando palavras como quem
guardou cem anos de isolamento e concu-
piscências juvenis. Sei lá... Eu estava um boca-
do assustado, mas aos poucos percebi que
meus receios eram infundados. Joana estava
sozinha e assim comigo ficaria até o final da
noite, entre suores e pequenos amassos sob o
short e a blusa branca e cabelos por sobre os
olhos oblíquos mas nem tanto.
Conversamos muito, ela ouvia e falava com
desenvoltura. “Você tem medo dos silêncios?”,
perguntara ela mais cedo em mensagem pela
manhã. Disse algo sobre isso como que mais ou
menos “Não... isso não me assusta, o que im-
porta é com quem e como se está nesses

[ 60 ]
Mocinho, Adeus

silêncios”. Evidente, eu jogava com a lin-


guagem, mas era Joana quem sabia a hora
certa de misturar alhos com bugalhos e revirar
os olhos antes de um segundo. Isto é: ela não
tinha o que perder antes de provar algo para
algumas poucas pessoas que jamais se
esquecem de nós. É isso mesmo, exatamente
isso.
Eu posso descrever o momento com Joana
da seguinte forma, em estilo quase telegráfico-
surrealista ou mesmo aquele realismo fantástico
pretensiosamente enfurecido:

Esse céu estampado de azul atravessa as


fachadas e adentra a nave. O altar esculpido em
milagre miraculosamente acende às alturas em
colunas e pinturas douradas. O arco romano revira e
nos revira na direção de um Sagrado Coração, os
quatro evangelistas emolduram a paisagem. Nos
contrastes de azuis e vermelhos e rosas narrativas
sagradas se desenrolam. Surreal e decadente,
sussurramos debaixo do teto pintado e dos lustres
suspensos há séculos. As escadarias lá fora nos

[ 61 ]
Mocinho, Adeus

aguardam para a noite que se aproxima. Teremos


pouco tempo, apenas a doçura de um saquê
eventual e alguns sabores orientais. Joana já sabia
de tudo mas não tinha medo.

Ou também, poderia ser narrado nesse


outro, mais fragmentado e realista:

Quinta, 16 de fevereiro
Sob as escadarias monumentais do monumento,
a Matriz resplandecia no sol das tardes e
entardeceres surreais, nos retábulos e colunas
salomônicas retorcidas do altar, decadente e surreal
como descrito por Joana “Você precisa conhecê-la!”
dito em tom impositivo e maravilhado.
“Quando que você vai me beijar?” Eu não sabia
onde enfiar as mãos até Joana beijá-las com beijos
molhados repetidos e pequenas mordidas no meu
lábio inferior. Ela sugava os desejos como quem
recolhe sonhos entre lençóis úmidos nas
madrugadas azuis. Apertei seu corpo contra o meu
junto a porta do passageiro, as pernas abertas e o
short pelos quais deslizava mãos dedos suspiros. Os
vidros embaçados do carro sem fôlegos, estrelas

[ 62 ]
Mocinho, Adeus

piscavam em um céu noturno estremecido nas


constelações estremecidas. Câncer e Virgem quase
se cruzaram no céu de mentiras suspirantes,
ilusórias. Nos espelhos dentro do Renault preto (em
camadas de poeira) nenhum reflexo refletiu os olhos
oblíquos duplicados5 de Joana Lyns enquanto a noite
que ardia caminhava para o fim.

Quinta, 2 de março
Sim, eu sabia desde o começo, Joana não me
daria o que eu mais precisava. “É como me sentir
desamparado, e você apareceu”, ao que ela disse
sem cortes metafísicos: - “Preocupo-me de se
amparar em mim” - como quem rasga o verbo em
meias palavras por inteiro, seja lá o que isso
signifique.

Tanto faz, tanto faz...

Posso dizer que este romance foi escrito


deliberadamente para afogar as lembranças

5
Velho truque para simular o caráter da personagem,
velho e desgastado.
[ 63 ]
Mocinho, Adeus

azedadas na penúria dos amores naufragados.


Escrito de trás para frente, em formato de
diário de um náufrago ou memória do cárcere
ou ainda relato de viagem em tom rebelde e
sentimental. Pensando melhor, retomada e
recapitulação das horas perdidas em um
misterioso castelo ao redor do qual um
engenheiro em vão procura por um serviço
enquanto se envolve amorosamente com uma
jovem do vilarejo. Sobretudo, narrativa
fraturada entre visões alucinadas de um
espião que se finge de cego para, sob as
ordens de uma bela e misteriosa mulher,
investigar um grupo terrorista etc..
Algo que escorre pelos azulejos antes que
estoure a cabeça latejante das memórias
desditosas. Escorrer para fora enquanto sugo
pequenas gotas de suores imaginários e
gemidos convulsivos antes de um segundo,
para dentro.

[ 64 ]
Mocinho, Adeus

Versinhos

Joana Lys
Para vc
Eu escrevo
Estes versinhos

Versinhos
Que há muito
Não escrevo

[ 65 ]
Mocinho, Adeus

Versinhos
Em homenagem
Para
Joana Lys
Para vc

Joana
Para vc
Aqui comigo
Estar e ser

Versinhos
Delicados
Como as mãos
De Joana Lyz

Os olhos
Os lábios
Os pelos
Cabelos

Joana Lys
Nynfa
Das minhas
Noites insones
[ 66 ]
Mocinho, Adeus

Queria te dar
A lua
Ofuscada
Por teus olhos

Os olhos de
Joana Lys
Anil
Do céu profundo

Cravejado
De reluzentes
Estrelinhas
Pisca-pisca

No céu
Noturno
Da Joana
Que eu quero

Nynfa
Das noites
Insones

[ 67 ]
Mocinho, Adeus

Joana Lys
Teu nome
Reluzente
No céu
De minhas retinas

Para sempre
Joana Lys Gullar

R.R.
Março, 2015.

[ 68 ]
Mocinho, Adeus

Capítulo 2: Qual o tópico de


hoje?

– Baby, você é o tópico kkk


Só faltava eu babar até verter sangue pelos
olhos ou algo parecido. Na verdade, nunca
estive tão perto da autopiedade boçal dos
tolos e nerds de plantão como naquele mês
de fevereiro.

[ 69 ]
Mocinho, Adeus

Os tópicos foram estratégias discursivas


que movimentavam as mensagens no
Messenger e Whatsapp. As conversas seguiam
esse método, proposto por Joana, desde as
primeiras trocas de palavras On Line. A cada
dia um novo tópico era lançado por Joana ou
mesmo por mim. O primeiro deles foi sobre
gosto musical, com trocas de links de canções
em vídeos do You Tube. Na sequência,
algumas críticas e análises sobre o cinema de
Hollywood e seus discursos majoritários, bem
como as disseminações desse discurso em
outras formas narrativas cinematográficas.
Memórias não existem, a única coisa que
existe é o arrependimento. Nada é mais real
do quem esse sentimento que brota como
caroços coçando nas costas da pequena
história assombrada de cada um. Não se trata
de sentir medo, apenas a certeza de que, no
final, não teremos grandes motivos para
assumir taras e tesões redescobertos. Eu
sempre fui um apaixonado, como quem salta

[ 70 ]
Mocinho, Adeus

de paraquedas com a certeza de não puxar a


cordinha antes que seja tarde demais.
No momento, a minha proposta é
exatamente essa: verter pequenas doses de
desilusão misturadas com episódios patéticos
de um amor clandestino, brincadeira de
adolescente cansada de se esconder debaixo
das cobertas das recordações azedas. E
aquele cheiro de coisa guardada e esquecida,
como uma vagina que devora a si mesmo,
cada vez mais para dentro. Não encontro aqui
nenhum propósito além desse sentido de
desilusão, de estar em perfeito alinhamento
com meus pequenos princípios suicidas,
avarentos e mal-entendidos costumeiros. Me
desfaço na desfaçatez daqueles dias e noites,
madrugadas, de um fevereiro espesso e seco,
entre cortinas alugadas e cafés com Zero Cal.
Ou serviços de quarto renunciados em nome
da pureza de meias e cuecas fora do lugar.
Ou mesmo, menos que isso, certa propensão
a julgar tudo pelo lado errado e chegar a

[ 71 ]
Mocinho, Adeus

conclusões peripatéticas e insossas como


domingos sem metafísica. A palavra de Joana
me pegou, mais que os beijos deliciosos dela,
e olha que isso não é pouca coisa. Duvido
reencontrar esses beijos porque foi tudo uma
combinação mortal de arrependimento e anos
tentando se matar antes do por do sol. Não
adiantou ficar de costas para a Igreja da
Matriz, os azuis e escarlates brilhavam para
além dos reflexos que chegavam pelas
retinas, retumbando como aquarelas
lisérgicas, ou algo como isso. Sei lá. Digo
apenas que escolhi o pior caminho, fazendo
as escolhas erradas no momento certo. Ou
vice-versa. Já nem lembro mais…
Tive as noites e as tardes, as madrugadas
azuis... E soluços propensos a novos
desenlaces suspeitos antes de um segundo.
Ou nada disso, ou isso e aquilo juntos de
novo. Nada além de pequenos palpites fora de
contexto, mesmo que debaixo dos cocares
revirados das palmeiras. Eu não tenho

[ 72 ]
Mocinho, Adeus

paisagens ancestrais para despistar. Sigo


cortando o mal pela raiz ou fazendo um chá
de mentiras deliberadas que borbulham no
fundo da garganta. Um pouco disso e um
pouco daquilo. Ou nada disso depois de nada.
A linguagem me socorre e me afoga,
enforca os humores repentinos assaltados na
penumbra das cortinas estendidas sobre meus
pequenos cantos empoeirados. Um tango
atravessa esses cenários em panorâmicas e
travellings para frente e para trás. Eu não
entendo como pude fazer de Joana um
espécie de alento previsível e imprevisto antes
das últimas auroras boreais falsificadas. Meu
talento para cultivar ilusões ganhou
dimensões homéricas no calcanhar das formas
retumbantes: era tesão puro. E um fruto
proibido na lembrança, fantasia das horas
perdidas depois de tudo. Depois de tão pouco,
convertido na piada sem graça das
mensagens repetidas linha por linha. Um fã
clube às avessas em deformações

[ 73 ]
Mocinho, Adeus

gastronômicas ou estéticas. O que fazer com


isso?6
Parece impossível uma resposta razoável
para tais perguntas... Ainda me sinto
combalido, mesmo depois dessas últimas
semanas, mesmo depois de passar algumas
noites com Hannah. Acho que ainda precisarei
de mais algumas reviravoltas ancestrais de
6
A resposta para essa pergunta é óbvia: se o narrador
não sabe para que escrever tal “obra”, ela nem deveria
ter sido iniciada por ele. Parece-me que sob o pretexto
de assumir as próprias limitações há uma estratégia de
encontrar cumplicidade no leitor. Ora, um caso desses é
de envergonhar, tal amadorismo não resiste a um olhar
crítico, visto que se trata de um recurso covarde e
desgastado. Se o texto não tem a devida força, nada o
manterá de pé. O que temos aí é um exemplo
lamentável de uso da literatura para narrar pequenas e
irrelevantes experiências, como se as idiossincrasias
familiares ou amorosas pudessem render alguma
literatura. Está mais que comprovado que isso é uma
nulidade. Resumindo: esse narrador estava
completamente equivocado!

[ 74 ]
Mocinho, Adeus

tédio e cocaína para reverter a joça mental


em que me deixei cair.
Sabe, a letra “J” de cabeça para baixo tem
a mesma forma de um sinal de interrogação.
Na sequência dessas desmedidas
pretensões descabidas eu deveria escrever
uma carta mais ou menos assim, carta que
seria acompanhada por alguns chocolates
com calda de cereja comprados em 3 vezes
no cartão para um último apelo contra a
Joana dos contrariados e contraditórios
afasta-mentos. Ou nada disso, menos que
uma lembrancinha absolutamente irrelevante:

Para Joana,

Não é fácil encontrar alguém como você. Sinto


muita falta das nossas conversas. Dos seus planos
psicodélicos de ter dois filhos rinocerontes e uma
cachorra chamada Lulu.
Adorei dar pedacinhos de samosa na sua boca.
Foi um momento de pura ternura.

[ 75 ]
Mocinho, Adeus

Me divirto tanto contigo! Você é incrível! Não


tem ninguém igual a você para me fazer sentir
isso, sentir vontade de estar ao lado e saber tudo
o que vc pensa e conversar na sequência linear
das ideias inconsequentes. Pequenas coincidências
nos aproximaram e acredito que tivemos pouco
tempo para falar de verdade um com o outro.
O meu problema é que vivo intensamente
esses momentos. Mas estou disposto a pagar o
preço. Mesmo porque, como já te disse outras
vezes, a vida não existe, nada além de um
turbilhão absolutamente surdo e sem sentido
mergulhado no oceano de sensações irrelevantes
diante de um Universo tão incongruente quanto os
desenlaces medíocres (lembra do que
conversamos sobre o quarto da filha no patético
final de “Interestelar”? Você acabou me
convencendo do contrário e então compreendi que
eu estava errado, mais uma vez confundindo alhos
com bugalhos etc..)
Quero te ver de novo. Preciso te ver de novo.
Você não precisa me prometer nada. Sei viver com
pequenas doses de amor-próprio iguais a zero. Só
quero estar por perto, e participar, te ouvir, se

[ 76 ]
Mocinho, Adeus

possível te aconselhar e receber conselhos (como


sempre fizemos).
Sinto que há uma sintonia boa entre nós. Só
que tivemos poucos momentos juntos, lado a lado,
olho no olho. É isso que te peço. Mas sem
cobranças, sei que te cobrei demais. Isso não foi
justo contigo. Me desculpe. Entenda que eu estava
me estabilizando e justo no dia que montei meu
refúgio você decidiu se afastar (claro, você teve
seus motivos porque fui grosseiro contigo e estou
envergonhado por isso).
Sinto uma ternura imensa por você. É um
sentimento muito especial. Mas não quero que
isso te pese. Pense em mim como alguém que
você conheceu e que pode te ensinar lições
edificantes. Alguém que de fato te quer bem e
sabe como realizar seus desejos mais secretos,
exceto pelo motivo que já conhecemos: você teve
medo, eu entendo.
Se você me perdoa então volta a falar comigo,
por favor. Gosto demais de ter notícias suas, saber
qualquer coisa sobre você me interessa. Coisas
pequenas sobre você me alegram. Uma unha
encravada pode ter tanto sentimentalismo. Sinto
muita falta disso.
[ 77 ]
Mocinho, Adeus

Acredito que agora, neste momento, temos


uma chance de reencontrar. Eu estou reco-
meçando, você já superou muita coisa. Então, é
justo agora que podemos aproveitar melhor o que
temos em comum. Essa vai ser a melhor parte.

Que tenhamos doçura em nossos momentos!

R. R.
Março, 2014 7

Não sei se isto é a cabeça de um escritor


ou se, pelo contrário, sou apenas estúpido
demais para não ver o óbvio. Certa vez Ana R.
me falou o quanto eu era obcecadamente
obcecado, obsessivamente paranoico e
transtornado, algo além do “normal”, do

7
Uma carta dessas só confirma o quanto o sujeito é
louco ou absurdamente idiota. Mulheres não gostam de
coisas assim, menos ainda quando muito jovens. É
assustador que um sujeito com mais de trinta não saiba
disso. Tenho que dar razão a Joana em sua escolha de se
afastar desse babaca chorão e egoísta crônico.
[ 78 ]
Mocinho, Adeus

previsto e previsível, ainda que um tanto


metódico demais para qualquer reviravolta
ancestral. Sei que isso parece confuso, e é
isso mesmo. De qualquer modo, Ana R. tinha
mesmo um pouco de razão.
Afora isso, recomeço e recapitulo, as
últimas linhas de um novo projeto,
retroativamente em flashback daqui para
frente, futurista, cuja ficção em romance
romanesco eu chamaria mais ou menos
assim:

A MEMÓRIA RECALCITRANTE
DO TEMPO REVISITADO

Algo assim, ou nada disso, muito pelo


contrário, apenas algumas coisas embara-
lhadas enquanto não acabo logo com isso.

Conheci J. há dois anos e pude reencontrá-la


em um daqueles acasos premeditados. Ela foi meu
projeto fracassado, do qual escapou por pouco,
naquela época. Minha obra de arte, minha
[ 79 ]
Mocinho, Adeus

obsessão da qual não me livrarei, exatamente, por


que J. representou a oportunidade real de chegar
ao fim do que eu tanto queria.
Ao contrário de J., com N. minha sorte foi
diferente. Cheguei até ela por meio de um perfil
falso no Facebook. Eu estava procurando uma
garota em grupos de concursos públicos para
certames na região próxima a cidade de Y. Meu
plano consistiu em abordar garotas entre 17 de 20
anos, de pele clara, cabelos pretos, pesando no
máximo 55 quilos, por isso usei meu perfil
feminino para entrar em contato com elas e
surpreendê-las no dia da prova. Quero com isso
dizer que gosto de agir naquele momento decisivo
no qual acontece quando se está fragilizado e um
tanto perdido em uma cidade que não se conhece
bem, junto de pessoas desconhecidas e hostis.
Essa condição que as provas de concursos
demandam me parece a situação perfeita para me
aproximar de garotas desconhecidas e colocar meu
projeto em ação.
No grupo, puxei conversa com ela pelo
Messenger. Elogiei sua foto de perfil e iniciamos
uma troca de mensagens despretensiosa. Não foi
difícil depois de alguns dias avançar para assuntos
[ 80 ]
Mocinho, Adeus

mais pessoais, envolvendo as dúvidas e


inseguranças que surgem às vésperas de provas
para as quais essas pessoas se preparam e
inventam projeções ilusórias; afinal, quem é que
não desejaria ter um pouco de segurança e
estabilidade na vida profissional e poder vislumbrar
melhores oportunidades? Naquelas mensagens, dei
a entender o quanto queria ir bem ao certame
para ter direito a condição privilegiada de um
salário melhor e uma carreira despreocupada. N.
me acompanhou nessas fantasias e isso muito me
favoreceu para conhecê-la melhor. Pude, então,
saber como ela estava infeliz depois do fim de um
relacionamento de quase um ano com um ex-
namorado que a traiu, dos problemas com o pai
alcóolatra e a mãe transtornada. Sobretudo, o
sofrimento causado pela ausência do filho da puta
do pai dela. Esse perfil perturbado me pareceu
perfeito para continuar com meus planos, e fez de
N. a garota dos meus sonhos mais íntimos e
sórdidos. Estava tudo seguindo o encaminhamento
previsto.
Para deixar claro esse meu envolvimento com
N., preciso dizer o seguinte: usei o meu perfil no
Facebook para me aproximar dela, com o objetivo
[ 81 ]
Mocinho, Adeus

de, no dia da prova, observá-la, já que N. ficaria


curiosa, procurando por sua amiga que não
apareceria. É nessa hora que entro em ação:
sabendo o suficiente para abordá-la, eu estaria em
uma condição privilegiada para abordá-la e tentar
a aproximação. Sabendo como N. estaria solitária,
eu não teria dificuldades em fazer-lhe companhia e
tentar agir com cautela para fazê-la confiar em
mim como um colega momentaneamente
interessado em passar o tempo, amistosamente.
O passo seguinte foi combinar um encontro no
dia da prova para não ficarmos “sozinhas” e
termos uma condição mais humanizada quando
chegássemos em Y.. Apenas alguém para
conversar um pouco antes e depois da prova, e
com isso superar o estresse desconfortável
daquela situação. Nada demais, nada que pudesse
nos prometer ou exigir maiores vínculos. Só isso e
nada mais.
Faltando uma semana para seguir meu trajeto
para o encontro com N., concentrei-me em uma
lista de preparativos para que tudo saísse sem
atropelos. Deixei meu apartamento no bairro B,.
em direção ao sítio do meu avô (graças a Deus,
um inútil já falecido, morto na própria desgraça de
[ 82 ]
Mocinho, Adeus

vida) que herdei há alguns anos. Depois de quase


uma hora na estrada, lá cheguei e fui direto
guardar o carro e fechar o portão para não ser
visto. É uma região bastante deserta, com poucos
moradores. O sítio fica quase abandonado, exceto
quando preciso fazer algumas pequenas reformas,
apenas para que a situação da propriedade não se
torne hostil demais (por exemplo, quando tive
problemas no verão passado com a população de
escorpiões que infestaram a casa, o que, na
época, me trouxe muitas dores de cabeça).
Aproveitei para ver se o freezer estava
funcionando, porque ele seria muito útil naqueles
próximos dias. Deixei-o ligado por algumas horas
para conferir se estava gelando como deveria.
Depois de tomar um banho e preparar algo para
comer, pude comprovar que ele estava em perfeito
estado. Deixei-o assim, pois eu passaria a noite ali
mesmo, e o desligaria quando saísse na manhã
seguinte. Pelos meus cálculos, meu retorno ao sítio
aconteceria, no mais tardar, por volta das cinco da
manhã da segunda-feira, acompanhado de N.. Isso
porque, eu deveria sair de Y. antes das onze horas
da noite de domingo, o que me dava umas seis
horas de viagem de carro sem sobressaltos na
[ 83 ]
Mocinho, Adeus

direção. Era isso o que eu precisava, fazer cada


coisa no seu devido tempo. (continua)

[ 84 ]
Mocinho, Adeus

[ 85 ]
Mocinho, Adeus

Capítulo 3: Sim, eu estarei



Afinal, só uma coisa me deixava mal-
humorado: A Vida

Ruber-Ruber

Um romance escrito a partir de uma


sentença mais ou menos assim... Na primeira
vez em que Boris se matou etc..
Eu acreditava em todas aquelas
promessas... palavras de uma pequena e um
[ 86 ]
Mocinho, Adeus

tanto sádica criança. Mas ao mesmo tempo,


eu amava cada uma daquelas mentiras e me
refazia pela metade, tentando completar a
outra com as mentiras requentadas no fritar
das horas.
Há situações como essa nas quais
colocamos nosso pescoço a prêmio na certeza
de que, caso tudo dê errado, teremos em
breve muitas histórias para relembrar, ou
quase isso. No meu caso particular, cada
chamada no Whats era a promessa de um
novo capítulo, um novo conto ou até mesmo
algum romance capenga como este que
escrevo agora.
O bom de estar iludido é não saber o
quanto se arrisca e, desse modo, aproveita-
se, de forma totalmente inconsequente, a
paisagem sem grandes neuroses. A ética do
“foda-se” pode ser libertadora, por um lado. É
como se arriscar pela última vez, antes de
[ 87 ]
Mocinho, Adeus

rachar a cabeça no fundo de uma piscina sem


água ou rasa demais, tão rasa quanto a
capacidade crítica de uma pessoa dessas... Ou
nessa condição... Sei lá. Acho apenas é que
não saber o risco que se corre – ou fingir isso
– me parece algo aconselhável, mas não
compensador. Explico: não diria para ninguém
o que fazer; por outro lado, sentiria o caroço
inchado dos arrependimentos crescendo até
se tornar um corcunda sem direito a vitrais e
jovens alucinadas antes de um segundo.8
A promessa que ouvi de Joana foi aquela...
disse que estaria comigo, disse que se
importava, disse isso e aquilo. Eu, como um
elefante no Pólo-Norte ou algo assim, eu
acreditava em tudo e fazia um esforço
afetivamente arriscado para acompanhar as

8
Referência patética, recuso-me a comentar isso. Des-
necessário em todos os sentidos.
[ 88 ]
Mocinho, Adeus

gírias de verão em meio a pretensiosas


análises de coisas jamais vividas... (de novo a
sabedoria dos memes, não que ela se resuma
a isso, mas também isso). É por isso que,
casmurro que sou, não perco de vista o
ensimesmado das ideias e alegorias. Refaço
os planos e descaminhos, recolho pequenas
lembranças e cheiros obscuros de um
entardecer atrás da igreja com escarlates
brilhando além de alguns tropeços entre
pedras mal pavimentadas ou calçadas
estreitas. Um gosto de comida japonesa e a
dose de saquê persistente no fundo da
garganta, mesma garganta onde Joana,
alguns minutos depois, enfiaria alguns
centímetros de sua língua, em beijos
calorosos e mordidas labiais. Pena que a
sensação de inchaço do meu lábio inferior

[ 89 ]
Mocinho, Adeus

passaria para os caroços na nuca, poucas


semanas depois.9
Sei o quanto posso ser repetitivo, sei o
quanto me tornei absolutamente previsível
nesse papel ridículo do homem de meia-idade
em crise de meia-idade se envolvendo com
uma jovem com a metade da idade do ridículo
homem, que sou eu mesmo. Ou ainda: aquela
9
Essa metáfora do caroço que cresce na nuca, repetida
ao longo do romance, como alusão aos arrependimentos
encravados na alma, é uma péssima opção para a
narrativa. Ela comprova como o narrador em questão
demostra falta de imaginação. Equivalente ao nariz de
Pinóquio, tal prolongamento só visível às costas do
desiludido narrador nada inspira no leitor, porque
incapaz de produzir uma imagem convincente, ou ainda
de explorar com riqueza de detalhes as nuances de
significado que tal pobre imagem pode sugerir. Isso
porque a dor patética por ele anunciada não compõe
nenhuma corporificação de lembranças ou sentimentos
humanos relevantes, de fato. Têm-se, dessa forma, tão
somente, uma pretensiosa imagem, destituída de
qualquer expressão filosófica ou mesmo sentimental.
[ 90 ]
Mocinho, Adeus

figura patética tropeçando nos próprios


passos enquanto acompanha as meditações
de um par de coxas exuberantes a subir uma
ladeira à procura de um lugar aberto onde
comer algo, debaixo de umas bananeiras e
um pôr-do-sol como testemunha no sol que
nos castiga. Observados paranoicamente
pelas fachadas e janelas da Igreja da Matriz,
enquanto os pardais se aventuram nos fios
elétricos alinhados com as nuvens
geométricas como geometrias obtusas.
Metáforas mal arquitetadas e doses surreais
de saquê enquanto olhos olhares se
precipitam na noite que avança desde a
imensidão das montanhas sodomizadas. Das
montanhas alinhadas em desalinho, orbitando
fantasias obtusas. Não sei. Revirar as
memórias e dar o golpe final na última linha
de um desejo.

[ 91 ]
Mocinho, Adeus

Hannah Rose, antes de um segundo

Acontece que os contratempos da memória


não se refazem assim, sem que se pague
algum preço. Nessa linha de raciocínio,
sobram algumas fraturas na alma e unhas
encravadas sem metafísica. Sei lá... Talvez
seja apenas uma tentativa tola de dar
significados a pensamentos escapistas ou
coisas afins, etc.. Não digo nada em especial,

[ 92 ]
Mocinho, Adeus

exceto quando me provocam ou me obrigam


a reatar os fios desatados dos desencantos,
ou melhor, algo que somente a teimosia dos
transtornados explica.
Hannah Rose tinha o nome exato de um
brinquedo de infância traduzido em obsessões
recapituladas nas madrugadas azuis. Conheci
Hannah Rose Paoly em meio a trovões e
temporais, covardemente alheio aos meus
próprios alheamentos reelaborados. O mais
parecido que pude ter como um trenó neste
Brasil tropical: o carrinho de rolimã que
apelidei de Rose, metamorfoseado no delírio
dos fetiches industriosos em linhas de
produção dos desejos reeditados todas as
manhãs. A ponta da língua com a precisão
das palavras e dos gemidos em lembranças
encharcadas.

[ 93 ]
Mocinho, Adeus

- Baby, uma tarde de vinho não seria outra


coisa além de uma sequência inesperada de
sussurros e gemidos.
Ao que Rose me respondeu entre lábios e
olhares sem prestidigitações desafortunadas
(bem ao gosto precipitado de Joana), mais ou
menos assim: “Posso te pedir uma coisa?”.
Pedido feito no banquinho da praça onde nós
estávamos refazendo as últimas linhas de um
primeiro desejo.
Rose como um objeto de desejo cole-
cionado no grande salão dos esquecimentos,
refazia-se, então, anos depois da primeira
infância atrozmente revivida. Mas o que havia
para reviver era aquela esperança derrotada,
enclausurada. Pensando nela e em tudo que
poderia acontecer antes e depois, fiz uma
tentativa arriscada de registrar em pequenos
cortes alguns momentos com Rose. Ficou
mais ou menos assim:
[ 94 ]
Mocinho, Adeus

Cenizas, polla e chocolate:


una película en cortes analógicos

Cena 1

Cada qual com o seu rosebud que lhe convém,


não é mesmo?

Cena 2

O trenó e o carrinho de rolimã, o fetiche dos


brinquedos e dos objetos de desejo, conheci Rose
Hannah em uma palestra lunar en Montevidéo,
conheci Rose Hannah na intumescência dos
mamilos rejuvenescidos, conheci Rose Hannah
enquanto meus desplazamientos aceleravam as
horas precipitadas. Mas conheci mesmo, de
verdade, Hannah Rose, na antevéspera de um
afogamento ou no desencontro infernal das idades
retrospectivas, ainda, na luta com as palavras vãs,
também precipitadas como um naufrágio.

Cena 3

[ 95 ]
Mocinho, Adeus

O enigma de rosebud, uma narrativa em flash


back, com cortes cinematográficos. Quadro a
quadro, a suspensão dos meus afogamentos e
penumbras. Empanadas y bocadillos. Vinos Y
mamadas.

Cena 4

Rosinha trepava no carrinho de rolimã dos


meus oito anos. Eu, uma criança chorenta e
pessimista, que sofria crises existências antes da
novela das oito. As luzes do por do sol aceleravam
meus cataclismos sombrios, mergulhado na
noturna noite dos assombros desditosos, seja lá o
que isso signifique. Não pude esperar quase nada
da vida, exceto as desilusões passageiras e as
mentiras repetidas.

Cena 5

Rosebud sugando e sugada no ato revigorado


entre lençóis e desencontros. Amarrar as duas
pontas em laços. Vinhos e concupiscências.

[ 96 ]
Mocinho, Adeus

Calafrios e gemidos. As horas recuavam até os


últimos tempos futuros.

Cena 5

Dois filhos mongoloides com Rose, aqueles dois


meninos mongoloides inúteis como uma cadeira de
rodas sem rodas ou sem seu aleijado.
- Vai lá, Bentinho, comprar cigarro na padaria.
- Podexá, papai!

Cena 6

Eu daria minha alma ou o que dela sobrou em


troca de uma boa dose de conhaque antes do
último pôr do sol minguado. Ou nada disso, muito
antes pelo contrário. Apenas a ilusão de quem
vendeu barato o que tinha de mais precioso,
aquela inocência compulsiva dos quatorze anos
quando o sexo se resumia a pequenas ejaculações
mal planejadas na tela de Luciana Bambalalão ou o
infortúnio das gozadas precipitadas com o dedo no
cu, enfiado pela garota de programa do momento.
Bosta. Não sei, posso dizer somente que nunca
entendi ao certo o que significava a palavra
[ 97 ]
Mocinho, Adeus

“entronizado” nas legendas do livro de gravuras


bizantinas, na casa de Rose. Algo que me fazia
sentar a bunda na cadeira e refazer as poses dos
quadros reproduzidos em azuis e dourados. Sei lá.
Talvez tudo isso não passe de uma onda
passageira e logo retomarei os grandes projetos
da juventude, afinal, não canso de me flagelar com
os flagelos traumatizantes de uma pequena
retrospectiva em linha reta para o futuro, em
diacronia sincrônica, ou melhor, aquilo que me faz
perder as ilusões pouco antes do último capítulo
da novela das 8. Eu estive sempre alheio a
pequenas considerações reprimidas ou
desencantos improvisados. Meus recursos
linguísticos se repetem na proporção exata das
minhas alucinações reeditadas.

Cena 7

Hannah Rose não dividia o cigarro das ilusões


revisitadas, porque acreditava na mentira dos
hombres e se dizia uma reencarnação de suas
próprias hecatombes matinais. Ela traz e traga a
vida como cinzas que caem do céu; eu dizia pra
ela: “A vida só se apaga uma vez” ao que Hannah
[ 98 ]
Mocinho, Adeus

Rose respondia dando de ombros, na cozinha sem


metafísica.

Cena 8

Não encontrar a porta de saída é desde logo a


melhor opção para não sair do lugar. De que
adianta gastar vinte páginas descrevendo o meu
quarto infantil, alucinado pelo sabor azedo de uma
madeleine? Mesma madeleine que deu princípio e
precipício ao que desenrolo sob as luzes
esverdeadas de um naufrágio. Minha versão
psicodélica para as memórias em ejaculações
precoces. Sério? Sem a delicadeza e genialidade
de um Fellini, restou-me tão somente nutrir
desatinhos nas tardes de domingo ao som do
último funk modinha repetido nos carros de som.
Não ter filhos era uma opção estética, mas isso eu
nunca entendi porquê.

Cena 9

- Vamos jogar el juego de la verdad?


- Só se yo puder mentir.
- Usted me consideras previsible?
[ 99 ]
Mocinho, Adeus

- Só quando usted não dá as respuestas que


antes yo pensei.
- Yo costumbro percorrer longas distâncias en
espaços muy pequeños.
- Só mismo una mente vazia para hacer
tamanha originalidad.
Eram diálogos alternados em dias consecu-
tivos. Nós transávamos nos dias pares do mês, e
nos ímpares, idem.

Cena 10

O fim disso poderia ser somente o final e o


recomeço, aquilo que ela podia ter como um
flashback em perspectiva, ou melhor, o fim seria
um começo adiado. Ela podia, então, realizar suas
fantasias, mas, agora, lhe faltava coragem, com o
desejo suicida antes de um segundo no bilhetinho
urgentemente rabiscado, uma corda esticada até o
fim. Afora isso, tratava-se de uma relação
razoavelmente saudável, digamos assim.

Cena 11

[ 100 ]
Mocinho, Adeus

A coragem era uma porta ao pé de uma parede


sem parede, um animal selvagem domesticado, na
selva. Em outras palavras, nada adianta ejacular e
não gozar, etc..

Cena 12

Rose gozou sentada no meu pau, socando-o


por dentro no frenesi das cavalgadas sem
metafísica. Unhas cravadas nos braços e um
sonoro “AH” na sequência em semínimas antes de
um segundo.

Cena 13

- Tocou Maria Gadu no supermercado e me


lembrei de você.

[ 101 ]
Mocinho, Adeus

Capítulo 4: Eu não serei o


chão de ninguém

22 de março, 13:01
Ruber: Esse negócio de teste é sério? Não dá
para acreditar... por que não falou comigo...?

[ 102 ]
Mocinho, Adeus

22 de março, 18:08
Joana: Bem, quando eu decido ter amizade
com alguém, essa pessoa não deve me seguir
e nem me agarrar à força... Onde você estava
com a cabeça, moço? Não gostei. E suplico
que entenda...

22 de março, 18:16
Ruber: Me desculpe... Confundi as coisas... Eu
não te segui, você voltaria comigo e no meio
do caminho mudou o trajeto... E me deixou

22 de março, 18:19
Joana: Tá bom Ruber... Eu te perdôo. Mas se
vamos seguir pra esse lado, podemos parar
por aqui, entendeu?

22 de março, 18:20
Joana: Beijo moço

[ 103 ]
Mocinho, Adeus

22 de março, 18:20
Joana: Boa sorte com tudo.

22 de março, 18:20
Ruber: Ei espera... Você está terminando
comigo? Me dá uma chance...

22 de março, 18:21
Joana: Já dei. Não há o que terminar, lembra?
22 de março, 18:21

[ 104 ]
Mocinho, Adeus

Joana: Não me segue mais tá?

22 de março, 18:21
Ruber: Tá

22 de março, 18:23
Ruber: Joana????

22 de março, 18:23
Joana: Mocinho, adeus

22 de março, 18:23
Ruber: Para com isso, vai... Me dê outra
chance, prometo que será diferente... Quero
ser seu amigo, tudo bem... Eu vou conseguir

Joana, então, me bloqueou e algo no meu


caroço inchado recrudesceu como em algum
sonho mal digerido em má digestão dos
suores noturnos e memórias desencantadas.

22 de março, 21:37

[ 105 ]
Mocinho, Adeus

Ruber: Sinto muito te decepcionar. Você me


apoiou muito na hora em que eu mais
precisei. Você poupou o meu sofrimento,
saiba que você foi o meu amparo. Me diverti
muito com você. E estou envergonhado por
estragar tudo. Você não merecia isso. Você é
uma pessoa linda e torço para que encontre
alguém que te valorize. Saiba que guardarei
você com carinho na minha memória.
Infelizmente, te amo demais e ser seu amigo
seria difícil. Terei que te esquecer, mas a vida
é assim. Boa sorte.10
Os infortúnios da memória só não são
maiores porque o esquecimento refaz todas
as linhas desditosas. Não lembrar é um
bálsamo para quem já não sabe o que viveu
antes do último entardecer.

10
Que sujeitinho patético e vergonhoso... E teve a
desfaçatez de publicar essas memórias encarnadas no
melodrama mais pueril. De fato, não imagino o que
mais pode piorar, depois disso.
[ 106 ]
Mocinho, Adeus

- Mas eu te amo, pelo amor de Deus, não


me deixe... Eu farei qualquer coisa por você,
não me abandone agora, você sabe... depois
de tudo que te falei... Joana, você não pode
fazer isso comigo...
Deve ter sido engraçado ver a minha cara
no exato momento em que Joana Lyns me
descartou no Whats sem direito a réplicas.
Acontece que eu estava no trabalho, no meio
de uma sala, diante do computador,
aguardando algum sinal da pequena garota
de minhas noites insones. Eu implorei para
que Joana não se afastasse, depois que ela
me bloqueou no Whatsapp. Segui chamando
ininterruptamente, as obsessões doentias
fudendo o pouco de um psicológico bastante
afetado, naquela época (no caso, o meu
mesmo). Chegou a hora de recolher as
lembranças em uma espécie de almoxarifado
das memórias recalcitrantes e
descontextualizadas. Os medos e os suores
impregnados no corpo enquanto anoitecia a

[ 107 ]
Mocinho, Adeus

noite antes da chuva. Mas nem isso, para


dizer a verdade.
Surfando sobre as mágoas antes de uma
promessa de amor vagabundo no cenário
insólito das escadarias da Matriz no
holocausto de enxofre de um por do sol
catastrófico. Nunca é tarde para levar um
sopapo antes de um último entardecer. Eu me
refazia em pequenas mensagens confiadas a
quem não pude conhecer, exceto entre frases
de efeito retiradas de memes multiplicados e
repetidos nos displays de retina. A tecnologia
é mesmo fascinante… ou nada disso. Apenas
a mesma ferramenta de sempre, pedra
lascada refeita na mesma medida, e usada
pelas mesmas mãos desabilidosas. Refazemos
equívocos milenares, imaginando-nos peque-
nos deuses da natureza. Mais vale per-
manecer um bicho-preguiça ancestral ou um
invertebrado a luz de um fóssil perdido nas
camadas geológicas, pelos extratos de terra.

[ 108 ]
Mocinho, Adeus

E havia uma foto de perfil, não sei porquê,


mas algo me dizia que semelhanças
marcantes podiam ser listadas: uma Gioconda
à Da Vinci atrás de um pequeno vidro, dis-
putada por uma plateia entre empurros e
fotos e disparos de flash... Não sei como, mas
algo me dizia que aquela imagem – a da foto
do perfil alucinada – aquela garota naquele
retrato de meio-perfil não era para mim.
Houve, também, a frase que, para mim,
resumiu muito do que estava acontecendo, e
que escolhi para abrir este capítulo. Ao adulto
da relação caberia saber os riscos que corria,
uma vez que ele (ou melhor, eu mesmo...)
não poderia compensar o abandono nos
ombros da Joana, desditosa.
Ou melhor: ela não tinha que se explicar
sobre as razões que a levaram a fazer o que
fizera, a agir dessa ou daquela forma,
anunciando para mim causas e efeitos em
raros propósitos sem metafísica. Não havia
nenhum motivo que devesse ser apresentado,

[ 109 ]
Mocinho, Adeus

não havia nenhuma conexão rompida porque


nada havia ali entre mim e Joana. Apenas o
gosto azedo, do meu lado, e um dar de
ombros, do lado de Lyns.
Afastar-se de mim naquela hora era apenas
um efeito colateral de quem devia prever o
pior e não prevera por simples acomodação
ou preguiça. Sabe-se lá o que mais... O que
fica evidenciado nesse drama por mim vivido
é o quanto arriscamos nosso pescoço em
nome dos mesmos equívocos, um jogo de
azar renovado nos crepúsculos indefinidos
detrás das praças e fachadas de igrejas. O
chão se tornou areia movediça e fui engolido
antes de um segundo, nas tormentas
desiludidas dos olhares oblíquos.
De fato, foi patética minha intervenção
cirúrgica, atabalhoada e chinfrim. Não
merecíamos passar por aquilo, mas, por outro
lado, havia razões para impingir pequenas
doses melodramáticas ao final daquelas
fantasias abortadas urgentemente por ela.

[ 110 ]
Mocinho, Adeus

Joana não estava aflita e até sei o que ela


pensou naquele momento exato: se houve
alguma admiração anterior ou fantasia sobre
quem eu seria, tal admiração evaporou logo
no primeiro momento em que estivemos
juntos, naquela noite que caía atrás da igreja
do centro histórico de Santa Luzia do Mato
Dentro.
Até certo ponto, eu tive o que mereci.11

11
O que posso antecipar ao leitor é apenas o seguinte: a
página que vem na sequência reúne o total despropósito
por representar uma brutal ruptura estilística sem
qualquer razão. O narrador investe em descrições
absolutamente inadequadas, sem criar condições
mínimas para que tal alteração pudesse fazer algum
sentido. O leitor que chegou até aqui pode sem culpa
saltar as próximas páginas e ir direto ao posfácio
(exceto quanto as minhas notas críticas que, sozinhas,
dão conta de tudo o que o livro acumula inutilmente.
Digo isso correndo o risco de parecer tendencioso, mas
estou tão somente alertando ao leitor e poupando seu
tempo precioso. Entretanto, quem decide é ele mesmo, o
próprio leitor).
[ 111 ]
Mocinho, Adeus

[ 112 ]
Mocinho, Adeus

[ 113 ]
Mocinho, Adeus

A contribuição milionária de todos os erros

Iniciei a escrita de uma romance,


provisoriamente intitulado Na ternura dos
tempos extintos ou No tempo das ternuras
extintas, exatamente assim com essa
sentença lapidar:

Sob a égide sepulcral dos teus lábios e


abraços etc..

Creio que não é bem isso o que eu quero.


Talvez eu escreva um romance naturalista
com pequenos cortes cinematográficos
ambientado nos anos 1920, naquela São
Paulo que nunca existiu antes dos barões.
Meu alterego se chamará Amorim Pinto
Grande, ou apenas Amorim da Lalá, mais
conhecido como Amorim da Jeane (com som
de “djin)”, um pequeno burguês casado na
delegacia em crise conjugal com Gigi, sua
esposa e ex-miss Guaratinguetá. Mais ou

[ 114 ]
Mocinho, Adeus

menos isso. Seu fiel escudeiro, J.G Cascudo, o


acompanhará em pequenas aventuras além
mar marítimas entre bacanais & desenlaces
poético-carnavalescos. Etc..
Mas, voltando ao que interessa, a verdade
é que Joana teve, por mim, aquele lapso de
paixonite superficial e sonhadora, algo que
não causava grandes cócegas nas virilhas mas
podia provocar borboletas e flores antes de
um segundo. “Você é muito apaixonante”
contra a teimosia atravancando, Joana não
deixava a coisa ir para frente.

[ 115 ]
Mocinho, Adeus

Capítulo 5: Esse é o seu plano,


me transformar em nada?

[ 116 ]
Mocinho, Adeus

Ana R.12 entrou nesse romance desde logo


sabendo um pouco de tudo sobre o meu rolo
sentimentóide com Joana Lyns. Falei para Ana
que eu, digamos, ainda nutria uma lembrança
espermatozóica por Lyns, ainda nutria essa
doença dos corações estúpidos, resquícios do
século passado ou de quem nele nasceu ou
viveu. Pouco importa. Não tenho o que dizer a
esse respeito. Prossigamos.

12
Não posso deixar de me irritar com a absoluta falta
de critério desse narrador. Vocês perceberão como a
introdução dessa personagem, Ana R., não encontra
nenhuma explicação no conjunto da narrativa. Parece
que a falta do que falar levou-o a iniciar algo sem ao
menos terminar o que vinha sendo desenvolvido,
mesmo que de modo precário e sem estilo. É lamentável
imaginar que o leitor que até esse ponto chegou perdeu
horas preciosas de sua vida, e não chegará a nada se
insistir nessa tolice. De fato, só tenho um pedido a fazer:
abandone desde já esse livro e procure algo mais
produtivo ou interessante para fazer. Voltemos aos
clássicos... é meu apelo mais sincero.
[ 117 ]
Mocinho, Adeus

Ana R. propôs trocar um amor por outro.


Isso mesmo, a conversa estava nesse rumo e
eu apenas fingia que me esquecia de tudo o
que estava previsivelmente precipitado. Eu
não me importo em dar saltos mortais no
trapézio sem cama elástica debaixo da minha
cabeça, ou melhor: tenho uma tendência
bastante deliberada em me lançar em
pequenos enforcamentos desastrosos e noites
sem luzes artificiais, pois bastam meus
próprios artifícios e ilusões para abrir
caminhos pelas florestas bestas das paixões
cafonas e irrelevantes.
Ela tinha os planos já definidos, e eu a
acompanhei como um cão adestrado,
morrendo de medo de um novo... de-
sencontro, digamos assim, eufemisticamente.
De qualquer modo, ambos estávamos de
acordo quanto a não complicar demais as
coisas, tentando manter tudo no terreno do
sexo sem maiores compromissos, apesar de
certa intimidade ser inevitável, ainda mais

[ 118 ]
Mocinho, Adeus

porque nos encontrávamos no meu apar-


tamento de janelas sem cortinas. Então,
ficava meio que um clima entre "namorados"
ainda que evitado a todas as custas. No
primeiro momento, Ana R. ficou empolgada e
seus olhinhos verdes brilhavam como estrelas
piscando no céu (é claro, estrelas verdes,
nada demais...). Com o passar das semanas,
meu interesse por Ana R. caminhou para uma
ternura boba e um tanto sacana, apesar das
trepadas interrompidas pelos cigarrinhos na
janela... “Peraí... preciso fumar um!”
A bunda de Ana R. era esférica como duas
belas frutas maduras, firmes e suculentas.
Mas isso tinha prazo de validade. E quando
viu que eu estava me empolgando demais
com o caso, Ana R. deu logo um jeito de se
ver livre de maiores problemas para não ter
contratempos interferindo em seus planos já
planejados devidamente e previamente a mim
comunicados. Foi assim que, sem sair da onda
de cataclismos e pequenos dissabores, fui

[ 119 ]
Mocinho, Adeus

descartado na lixeira das memórias


arquetípicas. Sei lá...
É por isso que eu digo: porque a vida não
existe precisamos inventar ciúmes e dietas
antes que seja tarde demais... ou mesmo,
refazer nossos pequenos dramas em
melodramas espetaculosos como se algo
fizesse algum sentido nessa merda toda. Acho
que é por aí.
Desde o primeiro momento em que decidi
escrever este romance já sabia que nunca
daria conta de dizer algo, gaguejo o tempo
todo tropeçando nesse teclado coreano Made
in China o qual não me deixa mentir
(tampouco dizer a verdade, óbvio...). De
algum modo, minhas pequenas obsessões
ensolaradas ainda deixam algum espaço para
calibrar as retinas no foco obsoleto das
memórias encardidas. Nada mais.
Ana R. se divertiu às cultas do Tamagoshi
de Jô Lins, afinal depois de um tempo
ausente, essa ressurgiu curiosa, interessada

[ 120 ]
Mocinho, Adeus

em novos jogos entre palavras & imagens


ambíguas a fim de afastar o tédio das horas
insossas (e outros planos mais ambiciosos).

Ela entrou na minha vida como quem


encontrou o aconchego

Mais uma noite com Ana R. e a promessa


de muitos beijos madrugada a dentro. Café da
manhã na cama entre fronhas e edredons,
farelos e concupiscências desmedidas. As
doces ilusões reabastecidas a cada novo
encontro.
- A transa é a seguinte: sendo amigos
ficamos livres... de todas as cobranças. Quero
você fique sendo meu pau amigo – disse Ana
R. enquanto mordiscava pedaços de pão com
manteiga e bebia sua caneca de café, deitada
e despreocupada, com o lindo bumbum
recostado sobre almofadas. Os seios pontudos
se destacavam entre as luzes da manhã,
enquanto sorvia sua bebida quente.

[ 121 ]
Mocinho, Adeus

- Bem... na verdade eu te quero muito,


mas não posso me apaixonar. Muito menos
você. Não quero perder sua amizade. Do you
understand me?
Mas, afinal: será que Ana R. é apenas isso
que aparenta? Ou seja, uma bela jovem
apaixonante e despreocupada com seu novo
“amor”? Qual será o seu segredo? Quais serão
seus planos?
Ana foi chupada até a ponta dos dedos.
Deslizei a língua por entre os pequenos pelos
em volta do botãozinho em flor, entre soluços,
sussurros e gemidos afins. Ana R. contava
arrepios & colapsos enquanto se derretia
dentro de uma calcinha ensopada de
memórias refresquentes. Ela perdia o fio da
meada enquanto se esfregava em meio ao
caldeirão transbordante dos suores revividos.
Eu estava ali junto com ela, prevendo
convulsões de amores e desenlaces
insuspeitos. Mas tudo, absolutamente tudo,
valia a pena.

[ 122 ]
Mocinho, Adeus

Do outro lado da memória

Ana R. logo chegou como notícia


requentada através de um grupo no
Facebook, chegou aos olhos e ouvidos de
Joana. Ela me procurou depois de um mês,
me procurou apenas para reforçar mais um
capricho ou nem isso... sob o pretexto de se
sentir por mim transformada em nada, devido
alguns posts um tanto irreverentes ou
sórdidos a ela endereçados (claro, isso na
cabeça dela...). Na verdade, avalio que se
tratou da saudade de brincar com algum
brinquedo que não significasse grande coisa,
exceto o fato de poder ser um objeto
engraçado e fútil, a repetir palavras amorosas
sem ecos na alma do outro. Ou seja, eu
estava fazendo papel de palhaço apenas para
reforçar o ego juvenil e precoce de alguém
em crise com algumas poucas inseguranças,
reveses que logo nada significariam para

[ 123 ]
Mocinho, Adeus

quem sofria com tal crise. Resumindo:


tratava-se tão somente de um mal entendido
no qual me enrolei para servir de trampolim
para dias melhores (para Joana, é claro...).
Eu me fiz de otário, e confesso que tenho
um talento nato para isso. Algo que não se
aprende na escola, vem no sangue aguado
dos tesões refeitos em horas extremas. Ou
nada disso, ainda que pareça muito bem vir
ao caso. Ou melhor, trata-se exatamente de
um autoengano boçal e previsível. Pequenas
sabedorias irrelevantes no céu prematuro das
ondas tardias do verão.
Prematuramente.... eu estava assim mes-
mo. Os sentimentos abortados na linha de um
suicídio infantil. Seja lá o que isso signifique.
Não me peçam explicações, a única coisa que
tenho é um caroço peludo atrás da nuca, que
quando massageado se torna avermelhado e
cresce, inchando-se de modo exagerado como
prestes a explodir por dentro. Esse caroço é
todo o acúmulo de pequenas e breves

[ 124 ]
Mocinho, Adeus

neuroses histéricas que colecionei em doses


repetidas. O chá das mágoas sem açúcar... e
a certeza de que a noite estava só
começando.

Sim, as frescuras de Joana... O conta-gotas


das pequenas promessas irrealizáveis. Não
saber tampouco compreender as intenções
obscuras de dezessete primaveras repetidas
entre docinhos e surpresas previsíveis. Não
vejo mal algum em ser sórdido em doses

[ 125 ]
Mocinho, Adeus

homeopáticas, entretanto, o limite do amor-


próprio não destila acidez enquanto programa
os programinhas para o fim de semana. O rolê
como pretexto e protesto antes que seja
tarde.
Ainda houve aquele mal entendido, no qual
fui julgado em função de algumas mensagens
que recebi dela, mas que ela jura não ter me
enviado. E nisso uma amiga de Joana acabou
entrando na história. Mas isso não vêm ao
caso agora... Vem ao caso apenas a com-
provação do quanto fui exposto nas mãos de
Joana. Evidente que somente um idiota
acreditaria nas reservas extrospectivas de
uma jovem em estado febrilmente febril. Que
idiota acreditaria de verdade nisso?
Acontece que Joana demonstrou algum
incômodo com os continhos que publiquei no
grupo, dizendo por fim que o deixaria para eu
assim ficar livre e publicar “a droga que
quiser”.

[ 126 ]
Mocinho, Adeus

“Eu sei que é sobre nós”... Sim, havia algo


ali que foi, de certo modo, vivido com ela,
porém, não daquele jeito e muito menos
naquela configuração descrita nos continhos
pouco inspirados daqueles dias e noites
acabrunhados... É engraçado causar esses
desatinos, já que acontece de haver uma série
de mal-entendidos enquanto misturamos
alhos com bugalhos. E pode mesmo ser
muito, muito divertido ver como as pessoas
confundem isso, e se jogam nas pequenas
travessuras que criamos aqui e ali, entre
bravatas e lamentações previsíveis. Por outro
lado, voltando a frase de Joana: nunca houve
um “nós”, houve, sim, um bestalhão iludido
na própria certeza dos tropeços calculados.
Nos erros de concordância entre encadea-
mentos ilógicos e previsíveis. Ou melhor, difícil
seria prever articulações razoáveis entre duas
mentes desalinhadas apontando para lados
opostos enquanto descia a aurora de róseos
dedos ao algo que o valha. Os meus precários

[ 127 ]
Mocinho, Adeus

cálculos mentais não puderam antecipar o


desencontro iminente, ali debaixo do meu
nariz, bem debaixo daqueles lábios borra-
chudos como pequenos lábios suculentos
acrobáticos entre os vidros embaçados de um
Renault estacionado próximo a casa de Joana.
Bastava frear a linha ilusória das expectativas
e cortar os retrocessos mentais em choques
de eletricidade em alta voltagem. Resumindo:
deixar o combustível chegar ao fim antes que
fosse renovada qualquer esperança
moribunda. Sei lá. Eu estava afundando
enquanto algumas estrelas piscavam no céu,
o quadril de Joana pressionado contra o meu
na porta do passageiro, mordidas no meu
lábio inferior e pequenos puxões para frente
no meu cabelo, olhos e olhares grandes e
sorrindo o sorriso lunar das precipitações. “Eu
adoro o seu cabelo” ao que algum desavisado
boçal responderia: “Eles podem ser seus”...
Estava feita a entrega desastrosa de todos os
sentimentos prematuros. Olhares assim

[ 128 ]
Mocinho, Adeus

assustam qualquer um avesso a


sentimentalismos sensíveis ou pensamentos
sentimentais. A hora suicida não tardou.
Mesmo que deliberadamente, nunca pude
prever minhas novas articulações
adolescentes entre gírias da internet. Houve
um “nós”, ou seja: eu mesmo; em tolices
refeitas trinta e tantos anos depois de
pequenos martírios e provações todas as
manhãs, tardes e noites... retornando a um
quartinho escuro como quem segue em frente
rumo a hecatombe dos girassóis alucinados. E
nenhuma promessa entre dentes.13
13
O narrador consegue ser tão pouco inspirado quanto
autocomplacente. Afinal, qual o sentido de retomar
essas lembranças se, no final das contas, ele não
encontrou nenhum objetivo razoável para levar adiante
tal “projeto”? Nossas pequenas histórias não alimentam
boa literatura, porque, em primeiro lugar, é se
reinventando e fantasiando que algumas possibilidades
se consolidam. Teria sido mais útil abandonar as
pretensões literárias e investir esse tempo e disposição
em leituras densas e efetivas, algo capaz de revirar
[ 129 ]
Mocinho, Adeus

O que sobrou disso tudo mal visto, mal


percebido e mal calculado? Um pé-na-bunda
ancestral (na minha bunda) e irrelevante
(para Joana) enquanto alguns sufocamentos
meus eram agendados em um quarto sem
cortinas de um apartamento alugado com
vista para árvores assexuadas na paisagem
derretida de um verão pouco inspirador. As
fobias solares foram enfileiradas até a última
linha refeita na corda espessa do enforcado.
Nada que um pequeno bilhete de suicida não
possa precipitar e a todos instruir, nada que o
aperto do pescoço alivie enquanto uma
cadeira ou caixote escape sob os pés
apressados. Nada além de árvores estáticas
cujas folhas reviradas pela luz solar não
impeçam os passarinhos amarelos de
nossas certezas e modelar novas formas de expressão
ficcional. Esse parece ser um caminho muito mais
rigoroso e aberto às várias contribuições. Mas, ainda
assim, prossigamos. Da minha parte, não tenho mais
nada a dizer. Cabe ao leitor chegar a suas próprias
conclusões.
[ 130 ]
Mocinho, Adeus

cantarem pios mortais até estourarem as


penas e as vísceras debaixo do papo vazio.
Nada é apenas um recomeço, ainda que a ele
regressemos menos sábios do que
poderíamos prever antes de um segundo.

***

Eu poderia terminar assim, estaria em bom


tom, mas algo me impulsiona a refazer essa
última linha e recapitular os episódios, na
sequência insolúvel dos cafés requentados e
fumaças mal digeridas. Ainda estou mexendo
aqui e ali, de modo que me sinto à vontade
para não dar por concluído o que não acabou,
ou melhor, adio o ponto-final na esperança de
sangrar até o último verme, amparado sob as
raízes de uma zona indeterminada entre a
terra e o céu, nos afogamentos anunciados
prematuramente ou nas cordas solenes,
ajustadas solenemente debaixo dos lustres
enferrujados; ou ainda nos precipícios

[ 131 ]
Mocinho, Adeus

precipitados dos alcóolicos barbitúricos


ensandecidos. Mais ou menos isso ou aquilo,
ou nada disso. Tudo junto e descartado na
mesma medida desmedida do outro lado da
memória.
O adiamento é uma eternidade com data
de validade vencida na véspera. Se J. não
teve coragem de realizar suas fantasias só
posso chegar a uma conclusão: o que vivemos
não passou de uma boa experiência literária
(o que não posso julgar como algo
irrelevante, visto que é bastante raro isso
acontecer dessa forma). Tudo o que senti por
ela foi completamente irracional. O maior
pecado que cometi foi ter cedido aos apelos
infantis e, assim, ter me tornado um
brinquedo logo posto de lado. Um São João
Batista com a cabeça decepada entregue na
bandeja, servida por uma bela Salomé sob os
olhares e escândalos dos convidados. Carai...

[ 132 ]
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[ 149 ]
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Posfácio a contragosto

Não pretendo, de modo algum, responder


a algo ou a alguém... Muito menos me sinto
na obrigação de explicar certas coisas. Mesmo
porque não sou escritora, não publico livros,
apesar de ser apaixonada por eles e pela arte

[ 150 ]
Mocinho, Adeus

de modo geral. Sou mais leitora do que


escritora, vamos assim dizer... Com isso,
deixo claro que, a contragosto, uso este
espaço para dizer algumas verdades. Não que
isso seja muito significativo para mim, isto é,
usar esse espaço não é algo que de fato me
faça ter sentimentos nobres ou
megalomaníacos... Na verdade, serei um
tanto displicente aqui.
Dito isso, vou agora direto ao assunto:
Ele sabia muito bem desde o princípio,
deixei claro que não me apaixonaria. Afinal,
quem era o adulto da relação? Tentei de tudo
para fazer com que desse certo, ainda que
não fosse esse o meu propósito, afinal, eu
não tenho que saber de tudo, eu estava
descobrindo um monte de coisas. É muito
complexo isso... Quando ele me chamou eu
não imaginava que as coisas caminhariam
naquela direção... Afinal, só fiquei sabendo de
certos detalhes sobre a vida dele depois,
quando já havíamos passado do tópico

[ 151 ]
Mocinho, Adeus

“Casamento e Matrimônio”. Assim, a conversa


já havia completado mais de uma semana! Ele
não disse nada, e olha que fiz a pergunta bem
direta para ele sobre relacionamentos e
casamentos... Ele, nada... Foi então que eu
entendi a procura dele por algo fresco e novo,
que o fizesse esquecer... Olha, eu não vou
aqui, ao contrário de certas pessoas, expor a
vida privada de amigos (ou ex-amigos...) com
quem pude conviver. Então, não entrarei em
detalhes, de modo algum. Sabe, não me
parece correto fazer isso. Estou aqui apenas
para dar um breve relato com o objetivo de
pontuar algumas contradições e inverdades a
mim atribuídas, deliberadamente. Não que me
importe com isso, mas não me parece justo
ficar à mercê dos caprichos e mentiras de
uma pessoa que nem me conhece direito. E
me parece tão infantil, porque como que um
homem que viveu , casou, estudou... como
que uma pessoa dessas não consegue se
controlar e, depois de um encontro, assim,

[ 152 ]
Mocinho, Adeus

um encontro tão rápido e alguns beijos... A


pessoa vira para você e começa a falar que se
apaixonou, que te ama, e que tá cheio de
problemas etc... Não dá para acreditar nisso.
Sempre achei que ele tava me zoando, até ver
que a situação estava começando a azedar.
Não funcionava para mim, muito menos para
ele, grudado naquelas pequenas
lembrancinhas de uma noite, ou melhor, de
“quase” uma noite...
É mesmo muito complexo... No começo
achei muito fofo o jeito dele, eu tinha uma
ideia dele, de quando eu o conheci há muito
tempo... Há dois anos pude conhecê-lo – na
verdade, ele foi meu professor... – e é claro
que, às vezes, rolam umas fantasias, sabe?
Mas isso não é com todos os professores, ou
professoras kkkk, mas acontece que quando
ele me chamou, eu estava, vamos assim
dizer, meio delicada... Afinal, eu tive meus
próprios probleminhas... tipo , era uma crise
assim, eu tinha terminado um namoro e

[ 153 ]
Mocinho, Adeus

estava naquela situação complexa... De


repente, assim, do nada, te chamam para
conversar... Uma pessoa que você conheceu,
uma pessoa que, assim, que tinha uma
posição e certa importância sentimental...
Afinal não é novidade para ninguém o quanto
podemos, assim, ser influenciadas quando
diante de certas figuras, como a de alguns
professores... Acho até normal que aconteça
isso, não vejo mal em duas pessoas que estão
interessadas se envolverem, independente de
idade ou coisas semelhantes... Mas usar isso
para tentar manipular alguém e fazer aquele
jogo psicológico... jogando todo o drama de
um término doloroso para cima de outra
pessoa que não tem nada a ver com isso...
Jogar toda essa pressão não é correto. Claro,
não me deixei influenciar, não estava alí para
isso. Tentei prosseguir com a conversa, mas
não tinha jeito, ele simplesmente
enlouqueceu, fiquei até com medo, ainda
mais depois da última vez em que nos vimos.

[ 154 ]
Mocinho, Adeus

O propósito era sermos amigos, ele mesmo


topou isso... Mas não foi bem isso o que
aconteceu. Então, não tive escolha, me afastei
porque não tinha como continuar. Aquilo tudo
foi pesado demais e eu estava tentando
seguir com minhas coisas, descobrindo, e
finalmente, me reencontrando depois de um
mês meio delicada demais. Foi isso. Não tive
escolha, cansei daquilo, e vi que ele também
precisava que eu me afastasse. Foi melhor
terminar assim.

Recapitulando:

Após descobrir um documento escrito por


personagens imaginativos ao extremo, decidi
me retratar com o objetivo de provar pra todo
mundo que não preciso me retratar para com
ninguém.
Dos mil professores que tive, ele foi quem
conseguiu atingir os níveis mais altos de
singularidade.

[ 155 ]
Mocinho, Adeus

Mas como em todas as demais escolas em


que estudei, mantivemos uma relação quase
profissional. Tudo dentro dos conformes, até
então.
Algum tempo depois, ele me lança um
livro. Achei pomposo, então fui ver de qual é.
Para mim, assim como na primeira fase em
que o conheci, fim da escola, fim da relação.
Mas após o rolê do lançamento, ele me
chamou.
E bum...!
Foi aí que a parábola começou a crescer.
Começamos com as mensagens que eram,
pelos dois lados, nutridas por curiosidades
pessoais, assuntos aleatórios e confissões
tímidas.
O que, com o passar do tempo, perdeu
parte da compostura exigida entre aluno-
professor, e, enquanto as mensagens
ganhavam um atrevimento quase
adolescente, fui decifrando aquela confusa
relação.

[ 156 ]
Mocinho, Adeus

O momento parecia o mesmo para nós


dois: da parte dele, o fim de um matrimônio
de anos, e, de minha parte, um namoro
adolescente terminado pelo partir do coração
(ainda dá para sentir os pedacinhos).
Daí, com plena consciência que pra mim
era uma distração e pra ele seria aquele
tradicional “casinho de vinte e poucos pós
casamento” (mesmo eu não tendo vinte até
os dias atuais), cedi. Pensei: “Vai ser
engraçado, boa história pros meus netos”.
E assim foi, com a ajuda da magia da
igreja ricamente detalhada (cada detalhe, um
tópico de conversas), passando pela barca
com sabores orientais e os efeitos do
alcoolismo sem sabor conhecido pelos
amantes de saquê (o agente responsável por
desligar o que restava de inibição, esta
substituída por uma mistura obviamente
perigosa de tesão e audácia); e tendo fim no
carro dele, parado na porta da minha casa (as
despedidas trazem a lembrança do fim, e com

[ 157 ]
Mocinho, Adeus

ela, a vontade de fazer valer a pena, com o


álcool ainda no sistema deixei as faíscas
definirem o movimento dos nossos corpos,
governados pelas pequenas explosões nos
lábios) até que abri a porta e saí do carro,
calculadamente, sem pensar no fim, como no
gesto de puxar um band-aid.
O fim, o óbvio fim, veio numa noite depois
de um segundo rolê com os mesmos moldes
do primeiro. Só que, dessa vez, no centro de
Beagá, no famoso Edifício Maletta onde, por
alguma razão que eu não me lembro agora,
decidi ir embora sozinha. Ele, por sua vez, não
quis deixar e começou a me seguir. Alegou,
da sua parte, estar exercendo sua autoridade,
evocando o seu direito de andar nas ruas do
centro (coincidentemente, no percurso exato
que eu fazia e bem ao meu lado). Foi nesse
momento que pude ver que... ele não tava
ficando de boa.
E esse foi o fim, a parábola começou a
decair.

[ 158 ]
Mocinho, Adeus

Entretanto, todo estudante de Ensino


Médio sabe que a parábola nunca foca a
coordenada, a partícula nunca chega ao zero
absoluto e um romance, de livro, assim...
nunca tem um fim.

J.L.G14

14
O posfácio foi escrito a pedido
deste crítico, porém em data
anterior ao desaparecimento de
Ruber de Andrade, daí seu tom
pouco sensível a sentimentalismos
fúnebres.
[ 159 ]
Mocinho, Adeus

[ 160 ]
Mocinho, Adeus

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Mocinho, Adeus

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Mocinho, Adeus

Sobre o autor

Gilbert Daniel da Silva é escritor e artista


visual. Entre seus livros publicados destacam-
se: Amanhã à noite chegaremos lá; A vida pra
jogar fora; Piolho Nababo: uma etnografia da
antigaleria de arte (Não-ficção). Com
Mocinho, Adeus o autor faz sua estreia no
gênero Romance.

[ 163 ]
Mocinho, Adeus

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