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OPINIÃO

Não há raças humanas


Isabel do Este racismo implícito na linguagem na maior
Carmo
parte das vezes nem é consciente nem
intencional, mas traduz muitos séculos em que
uns dominaram e outros foram dominados.
9 de Fevereiro de 2019, 6:45

Não há raças humanas. Só há “raças”


humanas nas cabeças dos racistas, pois
permite-lhes fazer classificações e
distinções, uma longa história que
permanece na actualidade. Há racismo, há
desigualdade e há pobreza. Estas três
realidades são o caldo ideal para a opressão
e a exploração. A desigualdade coloca uns
acima e outros abaixo. Ser pobre é um
sofrimento permanente. Ser pobre e ter a
pele suficientemente pigmentada como
sinal distintivo é somar razões para o
sofrimento. E para a revolta também.
Como se dizia em um dos últimos planos
dum filme de Spielberg, “ser mulher, ser
pobre e ser negra é uma das piores
condições para um ser humano”.
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A verdade é que não há raças humanas.
Esse é um conceito do século XIX, que
percorreu todo o século XX e que ainda
hoje está aí. Havia livrinhos com esse
mesmo título, Raças Humanas, onde se
representavam pessoas com a sua
localização geográfica e uns trajos
entendidos como regionais, com penas,
palhas e umas lanças nas mãos. Este
mesmo conceito de raças inspirou as
exposições pela Europa fora a que se
chama os Zoos humanos, onde as pessoas
trazidas de África e da América do Sul
eram expostas em recintos cercados dentro
das cidades europeias, vestidas com os seus
“trajos regionais”, em parte despidas,
porque na terra delas faz mais calor,
colocadas num cenário apropriado. À volta
os europeus contemplavam e comentavam
estes seres, que para eles olhavam
espantados. E humilhados, com certeza.

Estamos a falar do século XX, muito depois


da abolição da escravatura. Portugal
representou esse papel com gáudio na
Exposição do Mundo Português e ficou
registada a indignação de senhoras
portuguesas por os respectivos maridos
irem ver repetidamente a africana Rosinha,
exibida tal como entendiam que vivia em
África. Felizmente que houve bastantes
fotografias, filmes e reportagens de jornais,
senão corria-se o risco de dizerem que se
estava a inventar. Se pensarmos que as
comunidades africanas não têm esta
memória colectiva, estamos enganados.
Foram protagonistasASSINE
os pais,
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avós, os bisavôs. À distância de uma a três
gerações. Como muitos brasileiros actuais
se lembram da avó índia que foi “pega-no-
laço” (isso mesmo, caçada a laço) ou do
bisavô que já foi “ventre livre”, ou seja, que
ainda estava no ventre da mãe, quando esta
foi libertada pela “Lei de Ouro”. Ora, raças
só existem de facto para animais que os
criadores obrigaram a cruzarem-se
selectivamente. Também houve tentativas
com os humanos, mas não resultou...

Quanto a nós, seres humanos, usando


palavras de taxonomia, somos do género
homo, da espécie homo sapiens e da
subespécie sapiens sapiens. Todos. E
depois disto não há mais subdivisão
nenhuma e o estudo do genoma humano
assim tem provado. Tem provado também
que ao longo de milhares de anos nos
fomos cruzando, de sul para norte, de norte
para sul, de leste para oeste, de oeste para
leste, porque as populações humanas não
assentavam arraiais, iam à descoberta. É
há pouco tempo que nos sedentarizámos.
Que todos viemos de África já sabemos. E a
pigmentação da pele foi-se perdendo por
selecção e adaptação à medida que as
pessoas saíam das zonas com maior
incidência do sol para caminharem
lentamente no sentido dos pólos. A maior
ou menor pigmentação da pele vai
seguindo a latitude. Em África, as
populações são mais pigmentadas quanto
mais próximas do Equador. E bem claros
no norte da Europa aqueles que só têm luz
solar durante poucasASSINE
horas JÁ do dia durante
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muitos meses. Mais pigmentados
defendidos do sol, mais despigmentados
maior síntese de vitamina D na pele. E
entre uns e outros fica uma escala de
pigmentação. Que nós reavivamos ao sol,
na praia, porque muitos e sobretudo
muitas gostamos mesmo do tom
bronzeado. Todavia, na longa história da
humanidade, sobretudo antes de nos
sedentarizarmos, misturámo-nos bastante
e ainda bem. Foi o que salvou a espécie.
Misturando-nos, embora não o
soubéssemos, evitámos a concentração de
genes “maus” que podia ter sido fatal. É o
caso de populações ainda existentes, que os
geneticistas classificam em “gargalo de
garrafa”, com pronunciado isolamento e
endogamia, que são mais vulneráveis e
mais propensas a certas doenças. Mas nós,
a generalidade dos humanos, somos todos
mestiços. Felizmente. Misturámo-nos ao
longo de milhares de anos.

Todavia, apesar das evidências crescentes


da ciência, a palavra e o conceito de “raça”
mantém-se nos comentadores da
comunicação social, escrita e falada, para
não falar dos comentários que circulam nas
redes digitais. E o mais grave é que se
mantém no meio científico. Não é raro que
médicos, alguns jovens colegas meus, ao
descreverem a história clínica, coloquem à
cabeça do texto as expressões “raça
caucasiana” (supostamente nós, os
europeus) ou “raça negra”, quando a pele é
mais pigmentada. Nós, caucasianos? A
classificação já é um ASSINE
pouco JÁ mais
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do que “arianos”, mas podemos perguntar-
nos se viemos mesmo directamente lá do
Cáucaso. O estudo do património genético
da população portuguesa mostra que
viemos de muito sítio e uma boa parte de
populações africanas sub-saharianas, não
no tempo longínquo do Out of Africa, mas
no tempo histórico bem mais próximo. E o
mais interessante é que a “raça negra” para
os jovens que inconscientemente o
escrevem e para a generalidade das pessoas
é assim descrita mesmo que a pessoa tenha
três quartos europeus e um quarto
africano. Algo nos lembra o “white” e “not-
white”, não é? Tal como a expressão
“pessoas de cor” usada mesmo por
cientistas sociais em tradução de color
people. Porque nós, os europeus, somos
transparentes, não é? Não temos cor? Este
racismo implícito na linguagem na maior
parte das vezes nem é consciente nem
intencional, mas traduz muitos séculos em
que uns dominaram e outros foram
dominados. E os dominados tinham uma
pigmentação da pele que os distinguia.
Alguém se lembra, ao falar de um
escandinavo, com características bem
diferentes das nossas, de dizer “indivíduo
de raça nórdica”? Pois é, há diferentes e
diferentes...

E também percebo que os denominados


“negros” assumam orgulho em o ser,
mesmo que no seu corpo estejam muitos
ascendentes “caucasianos”. Eu também o
faria. O domínio e a exploração de outros
povos são ainda muito recentes
ASSINE JÁ e fazem
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parte da nossa história contemporânea. Os
escritos do general Kaúlza de Arriaga sobre
as populações africanas têm apenas umas
dezenas de anos. Os filhos mestiços de
alguns militares das tropas coloniais que
por lá ficaram nas ex-colónias são agora
homens e mulheres maduros. Há
esquecimento colectivo? Não há.

A esta memória histórica, a maior parte das


vezes subjectiva, mas presente, soma-se a
desigualdade e a pobreza, que muitas vezes
coincidem com estas características da
pigmentação da pele. Os 20,7% de crianças
e jovens e os 18,3% do total da população
portuguesa que em 2016 viviam em
pobreza não são todos de pele mais escura.
É uma vergonha que percorre bairros de
várias cores. Mas se fizermos a análise a
fracções da população, ver-se-á que para
aqueles que são classificados de “negros” a
percentagem é incrivelmente maior. Tal
como a desigualdade.

Segundo os especialistas, nos últimos 30


anos e nos países da OCDE o rácio entre os
10% mais ricos e os 10% mais pobres subiu
de 7,1 para 9,5 vezes e há uma forte
associação entre a desigualdade e a
pobreza. Em Portugal, durante a troika
este último índice subiu para 10,6. Quem o
diz não são radicais de esquerda mas
estudiosos da pobreza publicados em
respeitáveis edições como a da Fundação
Francisco Manuel dos Santos (Carlos
Farinha Rodrigues e colaboradores). Mais
o estudo12que
ASSINE JÁ
uma vez, se aplicarmos semanas
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feito para toda a população portuguesa a
fracções de portugueses com pele mais
escura, este número sobe muito. Os bairros
“problemáticos” como o da
Jamaica acumulam tudo – serem olhados
com racismo, conterem pobreza e
sofrimento e sentirem gravemente
desigualdade. Isto gera revolta e a revolta é
desordenada, às vezes ela própria injusta.

Queríamos uma revolta “organizadinha”?


Não costuma haver. Organizada e pacífica
foi a manifestação convocada pelos jovens
para o Terreiro do Paço e sabemos como
acabou. Problemática é a nossa sociedade.
E o nome de Jamaica é bem lembrado. Foi
nessa ilha das Caraíbas que os ingleses
escravocratas, nem melhores nem piores
que os portugueses, desenvolveram a
cultura do açúcar à custa de remessas
sucessivas de escravos trazidos de África.
Até que estes se revoltaram, estabeleceram
comunidades livres nas montanhas e
deram que fazer aos ingleses. Mas gente
“caucasiana” é outra coisa...

Médica; professora da Faculdade de Medicina de


Lisboa; activista política

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