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MANA 15(2): 585-603, 2009

RESENHAS

ARRUTI, José Maurício. 2006. Mocambo: captura etc.) referem-se às próprias carac-
antropologia e história no processo de for- terísticas do objeto da pesquisa: longe de
mação quilombola. Bauru: Edusc. 370pp. naturalizar o contexto ou atribuir rigidez
à identidade no Mocambo, a etnografia
tem um “caráter nômade”, visando com-
preender o grupo “por meio dos fluxos
Marcelo Moura Mello que o atravessam e que o ligam a agentes
Doutorando do PPGAS/Museu Nacional/UFRJ e fenômenos distribuídos por diferentes
locais, escalas e tempos” (Arruti 2006:35).
Mocambo é um livro alheio a rótulos. Seguindo Michael Pollak, o autor afirma
Trata-se de um ponto de passagem obri- que não se trata de tomar os fatos sociais
gatório para pensar as chamadas comu- como coisas, mas sim de perguntar como
nidades remanescentes de quilombos. eles se tornam coisas. Nessa perspectiva,
A vigorosa reflexão do autor situa-se nas a alteridade é tomada como um “produto
fronteiras da antropologia e da história, social e histórico” constituído por meio de
entre saberes acadêmicos e aplicados, “linhas, cortes, nervuras, dobras, diferen-
percorrendo a etnologia indígena e os ça e identidade” (Arruti 2006:26).
estudos afro-brasileiros. A pesquisa que Em termos teóricos, Arruti toma a teo-
deu origem à obra transita entre espaços ria da etnicidade simultaneamente como
e tempos, cobrindo o período no qual foi matéria incorporada e como “formulação
elaborado o laudo de identificação do nativa” a ser “objetivada” (2006:38), visto
grupo estudado, as pesquisas de campo que ela ocupa papel central nas defini-
durante o doutorado e as reuniões relacio- ções e reflexões sobre os quilombolas.
nadas aos remanescentes de quilombos Segundo o autor, a ênfase de Barth na
acompanhadas pelo autor. auto-atribuição e na atribuição pelos ou-
Ao enfocar a trajetória do Mocambo, tros é fundamental em termos políticos,
povoado situado às margens do rio São mas deixa de avançar no plano teórico ao
Francisco, no Sergipe, José Maurício não dar conta do fenômeno de passagem
Arruti busca descrever o percurso si- entre a adstrição étnica e a adesão a uma
nuoso, marcado por continuidades e categoria genérica e englobante, como
descontinuidades, da identificação de remanescente de quilombo, por exemplo.
remanescentes de quilombos por parte O conceito de processo de territoriali-
de membros desse grupo. Aliás, os termos zação, proposto por João Pacheco de
empregados em todo o livro (processo, Oliveira, fornece, em parte, a solução
sinuoso, descontínuo, jogos de fuga e para o problema, mas pode resultar
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numa postura que concebe os grupos nacional, é analisada na segunda parte do


étnicos apenas da perspectiva do Estado. livro, que enfoca o movimento de passa-
Com o intuito de superar essas visões, gem do desconhecimento à constatação
as contribuições da teoria do reconheci- pública de uma situação de desrespeito
mento, notadamente aquelas formuladas que atinge essa coletividade. Esse “pro-
por Axel Honneth e Charles Taylor, são cesso de reconhecimento” deu-se por
apropriadas. Ambos investigam simul- meio da atuação de diversos mediadores,
taneamente a dimensão da formação do entre eles a Comissão Pastoral da Terra,
sujeito em luta por reconhecimento e as e da correlação, por parte dos mocam-
condições de apresentação e recepção beiros, com a experiência precedente
das demandas desse sujeito na esfera dos Xocós, grupo indígena vizinho ao
pública. Disso resulta que dois processos Mocambo em processo de etnogênese
devem ser diferenciados analiticamente: desde a década de 80. Nessa parte, e no
um relativo ao reconhecimento do grupo decorrer do livro, a imbricação de Xocós
na esfera pública e outro concernente à com mocambeiros, articulada à experiên-
auto-identificação de acordo com o novo cia de pesquisa de Arruti com populações
enquadramento territorial. Esse “mode- indígenas, permite-lhe transpor tradições
lo descritivo das etnogêneses” (Arruti disciplinares.
2006:45) refere-se a quatro processos in- O privilégio dado à descrição dos sig-
dissociáveis: nominação, identificação, nificados relativos à identificação quilom-
reconhecimento e territorialização. bola para os atuais moradores do local –
A primeira parte analisa o “processo bem como a influência dos mediadores
de nominação”, ou seja, o movimento de na instituição dos conflitos locais como
instituição de uma categoria jurídica e expressões de um desrespeito exemplar –
administrativa que institui uma população possibilita ao autor apontar a dimensão
heterogênea, com base em determinadas da formação do sujeito em luta por re-
características comuns, como sujeito de conhecimento a partir das condições de
direitos e deveres coletivos. Três capítulos apresentação e recepção dessas deman-
explicitam as disputas em torno da palavra das na esfera pública. Foi nesse jogo entre
autorizada sobre os remanescentes de qui- atores locais e extra-locais que o laudo
lombos, dando especial atenção à gênese de identificação do Mocambo, elaborado
dos conceitos antropológicos mobilizados por Arruti, foi definido. O argumento que
na compreensão – e nominação – desses fundamentou o reconhecimento oficial do
grupos. Longe de reconstruir a história pro- Mocambo não postulou uma comprova-
gressiva de refinamento de conceitos, Arruti ção objetiva e documentalmente susten-
enfoca as “conversões conceituais” como tada da identidade grupal. Baseou-se,
um estado das lutas sociais, reconhecendo ao contrário, na tentativa de explicitar os
os quilombos como fenômenos socialmen- agenciamentos contínuos e descontínuos
te construídos não apenas no plano das que marcaram a identidade dos sujeitos
relações étnicas, mas também no plano da pesquisa. A reconstituição da trajetória
dos discursos sobre essas relações. Deli- histórica do Mocambo estabeleceu um di-
mita-se, aqui, um plano teórico bourdivino álogo entre documentos escritos e relatos
de uma sociologia da sociologia, que visa orais que não tentou preencher as lacunas
reapropriar problematicamente um objeto de uma fonte com auxílio de outra, mas
construído com a ajuda de antropólogos. sim uma perspectiva a partir da qual é
A instituição do Mocambo como su- possível “destextualizar” os documentos
jeito público de direitos, em nível local e escritos (Arruti 2006:193).
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O processo de reconhecimento, ao preocupação excessiva em demonstrar o


instituir uma situação de desrespeito na caráter fluido da memória, deixando em
esfera pública, tem por correlato a cons- segundo plano as narrativas dos mocam-
tatação do caráter coletivo das situações beiros (não à toa, nenhuma narrativa é
de desrespeito que atingiram os sujeitos sequer transcrita). Eis aqui um solo fértil,
que lutam por reconhecimento, originan- não plenamente explorado por Arruti,
do o que Arruti denominou de processo para pensar a dimensão moral da luta por
de identificação, terceira parte do livro. reconhecimento. A atribuição de novos
No caso do Mocambo, essa constatação significados aos eventos passados é um
implicou um trabalho social de reinves- ato constitutivo da memória, mas caberia
timento de significados sobre a memória perguntar quais dimensões de justiça já
local no qual um “ethos do silêncio” (Ar- estão presentes nessas narrativas e como
ruti 2006:212) progressivamente cedeu os novos direitos advindos da identifi-
lugar a uma valorização do passado e cação quilombola são interpretados no
do ato de lembrar. A situação etnográ- quadro das experiências vividas.
fica do Mocambo conduziu a distintas A quarta e última parte do livro enfoca
formas de abordagem da memória e das os novos ordenamentos territoriais no
narrativas locais. As conversas e diálogos Mocambo decorrentes da identificação/
entretidos nos passeios realizados com reconhecimento quilombola. Valendo-se
os sujeitos da pesquisa fizeram com que do conceito de “processo de territorializa-
o autor progressivamente percebesse o ção”, Arruti busca analisar o conjunto de
caráter espacializado da memória, em profundas mudanças no funcionamento
que o território figura como “marcador das instituições e manifestações culturais
memorial” do passado (Arruti 2006:227). decorrentes da atribuição de uma base
Outro aspecto fundamental é a opção te- territorial fixa e juridicamente definida.
órica e metodológica de Arruti: memória As tramas e os impasses acerca da iden-
e cultura são tomadas não como textos, tificação quilombola são analisados em
mas como processos. No trabalho com minúcia pelo autor, atento às sutilezas,
a memória, os moradores do Mocam- especificidades e variabilidades dos dis-
bo não evocam um passado acabado; tintos posicionamentos dos integrantes
participam ativamente do “processo de do grupo, traduzidas em noções como
produção da memória”, motivados pelas “estar na luta” e “se assumir”, por exem-
“provocações” das perguntas dos agentes plo. Esses impasses e a gestão dos novos
externos (Arruti 2006:218), incluindo as ordenamentos territoriais passaram pela
indagações do etnógrafo. associação de moradores local. O fato
Arruti não teve a seu dispor uma de a associação ser uma obrigação legal
memória acabada e pronta, ou uma es- dos quilombolas e funcionar como “órgão
trutura de pensamento e relações sociais, regulador” dos conflitos e da gestão ter-
mas sim um “diálogo aberto” (Arruti ritorial leva Arruti a concluir que a asso-
2006:231) com a memória – daí, mais ciação “reproduziu os caracteres básicos”
uma vez, o caráter nômade da etnografia. do Estado e é o “nascimento de uma
O fato de a memória dos mocambeiros minúscula variante do Estado Nacional
ter sido reelaborada concomitantemente no Mocambo” (Arruti 2006:322). Essas
à presença do autor não implica a tese considerações contrariam, em parte, o
de que as lembranças são meramente preceito teórico arrogado pelo autor, pois
inventadas ou tributárias da imaginação evidenciam seu pendor para teorias cen-
etnográfica. Porém, parece haver uma tradas no papel do Estado nos processos
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de identificação étnica. Sem dúvida, a Hughes, Robert Park e William Thomas,


etnicidade é situacionalmente definida e entre outros grandes nomes da Escola
o Estado assume aí um papel incontorná- de Chicago.
vel, mas corre-se o risco de iniciar e findar O livro é um marco nos estudos sobre
a investigação no Estado, perdendo de desvio, efetuando importantes desloca-
vista nuanças das percepções dos grupos mentos de foco: da ideia essencializada
em busca de reconhecimento. de “crime” para o termo desvio, que
Apesar de as questões a respeito das supõe uma relação social; do foco no
comunidades remanescentes de quilom- indivíduo para o foco nas relações, que
bos serem relativamente recentes e sinuo- produzem regras e exigem seu cumpri-
sas – algo, aliás, demonstrado com muita mento; da naturalização das regras para a
propriedade pelo autor – Mocambo pode produção social das mesmas e os proces-
ser considerado um livro-síntese, pois sos de imposição de rótulos sobre os que
enfrenta vários dos problemas em pauta são designados como desviantes.
sobre o tema e procede a um balanço crí- Ao longo dos dez capítulos do livro,
tico do que foi produzido até o momento. Becker nos leva a conhecer usuários de
Arruti fornece interpretações originais maconha, músicos de casas noturnas,
para problemas permeados por ambiva- “quadrados” e empreendedores morais,
lências e contradições, redimensionando todos esses “tipos” sendo agentes em
– e até mesmo inaugurando – uma série processos que produzem carreiras, estilos
de questões, como a descrição das re- de vida e visões de mundo que não dei-
lações entre indígenas e quilombolas. xam de ser reais por serem socialmente
Trata-se de uma obra que transita entre construídos. O mundo social, ou melhor,
fronteiras e vai além delas, adentrando os mundos sociais concebidos por Becker
terrenos pantanosos repletos de questões são compostos por pessoas que, agindo
controversas frequentemente dimensio- juntas, com diferentes graus de compro-
nadas com base em lugares-comuns e/ou metimento, produzem realidades que
definições operacionais. também as definem. Assim, Becker cita
a máxima de W. Thomas de que “Se os
homens definem situações como reais,
elas são reais em suas consequências”
Becker, Howard S. 2008 [1963]. Outsiders. (:12), ao mesmo tempo em que invoca
Estudos de sociologia do desvio. Rio de George Herbert Mead e Herbert Blumer
Janeiro: Zahar. 232pp. ao insistir que as pessoas agem juntas
(:183).
O primeiro capítulo, que mantém o
Cristina Patriota de Moura título original Outsiders, começa por
UnB um exercício de relativização das regras
sociais que definem situações e compor-
Propor uma teoria interacionista do tamentos como “certos” ou “errados”.
desvio: é este o principal objetivo de Segundo Becker, regras, desvios e rótulos
Howard S. Becker no livro Outsiders. são sempre construídos em processos
Quarenta e cinco anos depois de sua políticos, nos quais alguns grupos con-
primeira edição em língua inglesa, surge seguem impor seus pontos de vista como
a primeira edição brasileira da já clássica mais legítimos que outros. O desvio, diz
obra do sociólogo norte-americano, que o autor, não é inerente aos atos ou aos
insiste em traçar sua genealogia a Everett indivíduos que os praticam; ele é definido

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