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EAD

Estudo do Livro da
Sabedoria

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1. OBJETIVOS
• Apresentar um estudo do livro da Sabedoria.
• Conhecer e analisar um material bíblico composto na di-
áspora.

2. CONTEÚDOS
• Questões introdutórias: canonicidade, título, data, auto-
ria e local de composição.
• Estrutura e conteúdo teológico.

3. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE


1) Fique atento a todo o conteúdo desta unidade, na qual
você encontrará conceitos importantes para sua apren-
dizagem.
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2) Volte às unidades anteriores para entender e recordar


os conceitos propostos. Consulte sempre o Glossário de
Conceitos quando surgirem ideias que ainda não foram
completamente assimiladas.

4. INTRODUÇÃO À UNIDADE
Na Unidade 3, tivemos a oportunidade de estudar os livros
de Jó e Qohélet, conhecendo: título, autor, livro, data, estrutura,
gêneros literários e, por fim, o conteúdo teológico presente em
cada um desses dois livros. Agora, destinamos esta quarta unidade
da nossa disciplina ao estudo do livro da Sabedoria.

5. SABEDORIA
Antes de começarmos nossos estudos acerca do livro da Sa-
bedoria, é necessário lembrar que ele não consta na Bíblia protes-
tante, uma vez que Lutero seguiu o cânon do judaísmo. Para en-
tendermos isso, temos de voltar ao primeiro século da era cristã.
No ano 70 d.C., Jerusalém foi invadida pelos romanos. Vinte
anos depois, os líderes religiosos judaicos reuniram-se na cidade
de Jâmnia para reconstruir o judaísmo. Naquela ocasião, eles de-
finiram que só seriam canônicos os livros escritos em hebraico ou
aramaico, que datassem de antes de Esdras (398 a.C.) e tivessem
sido escritos na terra de Israel.
O livro da Sabedoria foi escrito em grego, na cidade de Ale-
xandria, após o ano 50 a.C. Por isso, ficou fora do cânon judaico,
apesar de ser muito judaico. Além disso, o autor usa frequente-
mente a Septuaginta para citar o Antigo Testamento.

Título
Nos manuscritos da Septuaginta, o livro recebe o nome de
"Sophia Salomonos" (Sabedoria de Salomão). Na Vulgata, S. Jerô-

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nimo usou "Liber Sapientiae" (Livro da Sabedoria). Atualmente, o


livro é conhecido por esses dois títulos.

Data
Em termos históricos, o período mais adequado para datar o
livro da Sabedoria é entre os anos 30 a.C. e 14 d.C.
No ano 30 a.C., Augusto torna-se o único senhor dos roma-
nos, e, após longo período de batalhas, o Egito torna-se uma pro-
víncia romana. Para os judeus no Egito, essa conquista foi favorável
em todos os sentidos: Augusto garantiu-lhes o direito de formarem
uma comunidade autônoma, regida por suas leis religiosas.
Nesse período, a comunidade judaica de Alexandria foi flores-
cente e cultivou as artes e as letras, bem como lutou para conservar
a própria cultura e para se manter no mesmo nível sociocultural da
grande cidade de Alexandria (cf. VÍLCHEZ LÍNDEZ, 1995, p. 49).

Autor
Apesar do título da Septuaginta ("Sophia Salomonos") e de
alguns textos do livro (7,7-11; 9,7-8.12), sabemos, seguramente,
que o livro da Sabedoria não foi escrito por Salomão. As razões são
simples.
Em primeiro lugar, devemos levar em conta a chamada
"pseudonímia": por uma série de motivos, o verdadeiro autor
oculta seu nome e atribui sua obra a outra pessoa, normalmente
um personagem famoso. Trata-se de algo muito comum no perío-
do de composição dos escritos bíblicos.
Segundo, encontramos, no final do livro, um encorajamento
endereçado aos judeus que sofrem perseguições. No período de
Salomão, não houve nenhuma perseguição aos judeus.
Em terceiro lugar, se Salomão fosse o autor, o livro da Sabe-
doria provavelmente estaria no cânon judaico.
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Enfim, a quarta e última razão: o ambiente do livro supõe o mun-


do helenístico, isto é, algo muito posterior ao reinado de Salomão.
O que podemos dizer do autor, com certa segurança, é que
ele era um judeu "apaixonado pelas escrituras", que tinha uma fé
clara no Deus único, todo-poderoso e soberano.
O autor era evidentemente mestre num dos centros judaicos de
ensino de Alexandria, bem informado da cultura contemporânea
e comprometido em demonstrar a importância dos princípios do
judaísmo para os futuros líderes intelectuais do seu povo (VÍLCHEZ
LÍNDEZ, 1995, p. 44).

Local de composição
Tudo indica que o berço do livro da Sabedoria é o Egito, mais
precisamente em Alexandria, onde havia uma grande comunidade
de judeus na diáspora. A doutrina do livro da Sabedoria asseme-
lha-se à de outras obras de judeu-alexandrinos do mesmo período.
Além disso, também apontam para Alexandria: a comparação de
Israel com o Egito (Sb 11-19) e a adoração de animais (zoolatria),
algo muito comum no Egito (Sb 13-15).
Não sabemos com exatidão quando os judeus se estabele-
ceram em Alexandria. Segundo Flávio Josefo (Guerra Judaica II,
487), foi o próprio Alexandre Magno quem permitiu que eles ali
se estabelecessem com os mesmos direitos civis que os gregos,
isto é, eles poderiam viver segundo as leis e os costumes próprios
herdados dos antepassados.

Flávio Josefo nasceu em Jerusalém, em 37 ou 38 d.C. e morreu


em 102 ou 103 d.C., em Roma. Era filho de uma rica família da
aristocracia sacerdotal asmoneia.
Morando em Roma, Josefo escreveu extensa obra sobre os judeus
e sobre a guerra judaica contra Roma: A Guerra Judaica, em sete
livros, entre 79 e 81 d.C.; Antiguidades Judaicas, em vinte livros,
em 93 d.C.; Contra Apião, um livro, em 95 d.C., e sua última obra,
Autobiografia, após 95 d.C.
Sua obra está disponível no link: <http://www.airtonjo.com/flavio_
josefo03.htm>. Acesso em: 5 jan. 2011.

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Segundo o filósofo judeu Fílon de Alexandria (25 a.C. – 50


d.C.), a cidade de Alexandria estava dividida em cinco bairros, to-
dos designados pelos nomes das letras hebraicas. Dois deles eram
chamados de "bairros judaicos", graças ao grande número de ju-
deus que ali habitavam (WRIGHT in BROWN, 2007, p. 1005-1006).

Estrutura e mensagem
O autor do livro da Sabedoria escreve para dois públicos: os
judeus e os pagãos. Aos judeus, ele quer sustentar na fé e na fi-
delidade a Aliança; aos pagãos, ou seja, os não judeus, ele quer
demonstrar que a sabedoria de Israel é superior à filosofia grega.
Essa dupla finalidade do livro faz de Sabedoria um escrito "sapien-
cial-apocalíptico". Sapiencial porque quer instruir os pagãos; apo-
calíptico porque quer sustentar na fé os judeus.
O resultado é um excelente exemplo de livro em que há uma
articulada trama entre estrutura e mensagem, isto é, a maneira
de se dizer algo está perfeitamente adequada ao conteúdo que se
quer transmitir. O livro é composto de três partes que apresentam
três aspectos da Sabedoria:
Quadro 1 Três partes da sabedoria.
1) 1,1-6,21 A Sabedoria como norma de vida.
2) 6,22-9,18 A Sabedoria em si mesma.
3) 10-19 A Sabedoria na história da salvação.

Primeira parte: a Sabedoria como norma de vida


Nessa primeira parte, há uma clara formulação da doutrina
da imortalidade, que emerge após um lento processo de amadu-
recimento da fé judaica. Basicamente, o pressuposto é a certeza
de que o justo não pode ir para o mesmo lugar do ímpio. O autor
afirma: "As almas (vidas) dos justos estão nas mãos de Deus e ne-
nhum tormento as atingirá [...] A esperança deles está cheia de
imortalidade" (3,1-4).
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Quanto à formulação da doutrina da imortalidade, não se preocu-


pe, pois esse assunto será bordado mais adiante.

Seguindo esse raciocínio, os justos têm a imortalidade já


antecipada na história. Os ímpios, ao contrário, têm como des-
tino o hades, isto é, o lugar das tribulações e dos sofrimentos
eternos:
Logo se tornarão um cadáver sem honra, um objeto de ultraje entre
os mortos para sempre. Deus os precipitará mudos [...] serão com-
pletamente arruinados, ficarão no meio das dores e sua memória
perecerá (4,19).

Segunda parte: a Sabedoria em si mesma


O conceito de "sabedoria" passa a significar o relacionamen-
to entre homem e Deus. A Sabedoria não se identifica com a Torah
(Lei), como talvez preferisse Ben Sira. Ela também não se reduz à
atividade cósmica de Deus. Em outras palavras, ela é a mediação
entre Deus, o mundo e a história:
A Sabedoria é mais móvel do que qualquer movimento e, por sua
natureza, tudo atravessa e penetra. Ela é uma exalação do poder de
Deus, uma emanação puríssima da glória do Onipotente... Ela é a
irradiação da luz eterna (7,24-27).

A Sabedoria é descrita e definida com um riquíssimo voca-


bulário, e as imagens usadas são ligadas à luz: emanação, glória,
ofuscamento, irradiação, espelho, brilho, sol, astros etc. Esses con-
ceitos servirão aos autores do Novo Testamento para formularem
a Teologia do Verbo de Deus.
Essa segunda parte é concluída com uma longa oração coloca-
da da boca de Salomão para obter a Sabedoria (capítulo 9). Diante
de tanta luz e grandeza, ao homem só resta reconhecer a própria
pequenez: "Sou teu servo, filho de tua serva, homem frágil, de vida
efêmera, incapaz de compreender a justiça e as leis" (9,5).

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Terceira parte: a Sabedoria na história da salvação


Os capítulos 10-19 constituem um grande midrash sobre o Êxo-
do. Midrash é um gênero literário tipicamente judaico; trata-se de um
comentário livre da escritura para aplicá-la a novas circunstâncias.
Os capítulos 10-19 fazem uma releitura teológica e moral da
libertação do Egito. O capítulo 10 fala de sete figuras patriarcais,
desde as origens até o Egito: Adão, Noé, Abraão, Ló, Jacó, José e
Moisés, e faz uma releitura ética da história anterior ao êxodo, com
acento no termo "justo" (cf. 10,4.5.6.10.13). Cada minicena come-
ça com "ela", isto é, a Sabedoria (10,1.5.6.10.13.15), que conduz a
história e nela realiza a justiça divina.
Os capítulos seguintes (11-19) descrevem a manifestação do juí-
zo histórico de Deus, em sete acontecimentos ocorridos durante a saída
do Egito. A antítese é forte: o que é castigo para o Egito (símbolo dos ím-
pios) é salvação para o povo eleito (símbolo dos justos). Graficamente:
Tabela 1 Sete conhecimentos ocorridos durante a saída do Egito.
PARA O POVO DE DEUS PARA O EGITO
(SÍMBOLO DO JUSTO) (SÍMBOLO DO ÍMPIO)

1) 11,5-14 água pura da rocha águas ensanguentadas do Nilo

2) 16,1-4 codornizes rãs


3) 16,5-14 serpente de bronze gafanhotos e moscas
4) 16,15-29 maná granizo e furacão
5) 17,1-18,4 luz trevas
6) 18,5-25: anjo libertador anjo exterminador
7) 19,1-9: o mar abre-se o mar fecha-se
Fonte: (VÍLCHEZ LÍNDEZ, 1995, p. 16-17; RAVASI, 1988, p. 1444-1446).

6. CONTEÚDO TEOLÓGICO

Sabedoria e sabedoria
Quando usamos a palavra "sabedoria", devemos estar aten-
tos, pois pode tratar-se da sabedoria de Deus ou da sabedoria do
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ser humano. Graficamente, essa diferença pode ser assinalada com


o uso das consoantes: Sabedoria (com maiúscula) para a divina; sa-
bedoria (com minúscula) para a humana. A Sabedoria é um atributo
de Deus, que se reflete, ainda que muito imperfeitamente, na sabe-
doria humana. Muitas vezes, as duas sabedorias confundem-se.
Mas o livro da Sabedoria, graças à influência do ambiente
cultural em que foi escrito, reflete um processo de compreensão
teológica chamado de "personificação da Sabedoria". Em palavras
simples: a Sabedoria, esse atributo ou qualidade de Deus, vai ga-
nhando cada vez mais destaque, a ponto de se falar Dele como se
fosse uma pessoa. Entretanto, a Sabedoria não chega a ter uma
subsistência própria e independente de Deus.
Com o advento de Jesus Cristo, os autores do Novo Testa-
mento e os padres da Igreja vão continuar esse processo até afir-
marem que "Jesus é a encarnação da Sabedoria Divina". Entretan-
to, essa afirmação será realizada quase dois séculos após o autor
do livro da Sabedoria ter escrito sua obra.
Sabedoria divina
A personificação é um recurso estilístico utilizado com fre-
quência pelo autor para falar da criação e do universo (5,17.20;
16,17.24; 19,6) e da própria palavra de Deus (18,14-16). No livro,
porém, esse recurso estilístico atinge seu auge nos textos em que a
"coisa" personificada é a Sabedoria. Ela pertence ao âmbito divino;
ela é potência e espírito; ela e Deus são inseparáveis: "A Sabedoria
não entra [...] nem habita [...]" (1,4); "A Sabedoria é um espírito
amigo dos homens [...] não deixa impune o blasfemo [...]" (1,6).
Na opinião do autor, a Sabedoria é o único meio que os go-
vernantes têm para fazer o que é justo (6,1-10). Ela é como a noiva:
"Eu a quis e a busquei desde a minha juventude, procurei tomá-la
como esposa, enamorado de sua formosura" (8,2; cf.8,3-8.16).
Em 7,22-8,1, a Sabedoria é o "artífice do mundo", que pene-
tra tudo e todas as coisas: "[...] tudo podendo, tudo abrangendo,

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que penetra todos os espíritos [...]" (7,23). Ela participa da nature-


za de Deus: "é um eflúvio do poder de Deus" (7,25). Em 7,22-24,
o autor enumera 21 atributos da Sabedoria; essa quantidade de
atributos não é acidental, mas intencional, pois indica a perfeição
absoluta.

Na numerologia judaica, 7 e 3 são números que indicam perfeição:


21 = 7 x 3, ou seja, a perfeição multiplicada pela perfeição.

No capítulo 10, a Sabedoria é como a representante do pró-


prio Deus. Na tradição mais antiga, Deus ou seu anjo conduz e li-
berta Israel de inimigos e dificuldades; quem agora assume essa
tarefa é a Sabedoria, pois ela está presente na história.
A sabedoria humana
Devemos recordar que a sabedoria humana não é algo in-
dependente e oposto à Sabedoria de Deus. Antes, a sabedoria
humana faz parte da Sabedoria de Deus e, muitas vezes, ambas
confundem-se.
O homem pode adquirir a sabedoria por duas vias. Em pri-
meiro lugar, com esforço e firmeza. Mas a sabedoria é, também,
um dom de Deus, como é o sol, a luz e tudo de bom que alguém
faz ou consegue (cf. 7,8-11). Portanto, Deus é o único que pode
conceder a Sabedoria ao homem (8,21).
Nesse sentido, Salomão é apresentado como uma pes-
soa igual a todas as outras, isto é, alguém que não nasceu sábio
(cf.7,1-6). O capítulo 7 inspira-se em 1Rs 3,9-14: Salomão preferiu
a sabedoria no lugar de poder, riquezas etc. Na natureza, não há
nada mais belo do que a luz; contudo, a sabedoria supera-a: "Ela é
mais bela do que o sol" (7,29).
O sábio valoriza, pois, os dons terrenos, sabe que são bons e
os compara à Sabedoria. O sábio não despreza nenhum conheci-
mento (7,17-21), mas sabe que somente a sabedoria pode levá-lo a
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ser autêntico homem, imagem e semelhança de Deus. Por esse mo-


tivo, o sábio prefere a sabedoria a todos os bens e conhecimentos.
Espírito e espírito
No livro da Sabedoria, o vocabulário para se falar do espíri-
to (humano ou divino) é muito rico: sopro, vento suave, ar (leve),
alento, respiração. Novamente, é preciso estar atento para se sa-
ber se o texto fala do espírito humano ou do Espírito de Deus: 2,3;
5,3.11.23; 15,11.16 etc.
Quando, porém, se fala do Espírito de Deus, normalmente
usa-se o antropomorfismo (Deus é descrito com características hu-
manas): 1.5-7; 7,7.22; 9,17; 12,1 etc.
É de particular interesse a relação entre espírito e sabedoria.
Ambos equiparam-se na ação cósmica: um e outra preenchem a
terra, dão consistência ao universo e governam o cosmo e a histó-
ria (1,7; 8,1; 10,1-19,22).
Originalmente, porém, são duas noções separadas: espírito
(= vento, sopro) pertence à natureza; sabedoria é uma qualidade
humana. Todavia, como esses dois conceitos são aplicados tam-
bém a Deus, não é difícil aproximá-los a ponto de, muitas vezes,
tornarem-se intercambiáveis, como em 1,4-6: ambos constituem
princípios internos da vida moral dos justos.
A expressão "espírito de sabedoria" (7,7) conduz ao sentido
de interioridade que dá vigor e transforma tudo e todos que o re-
cebem.
A imortalidade
Segundo os autores Morla Asensio (1997) e Vílchez Líndez
(1995), "Deus criou o homem para a incorruptibilidade, e o fez ima-
gem de sua própria natureza" (2,23; cf. 1,15; 3,4b; 4,1b; 8,13a. 17c;
15,3b). Essa clara formulação da doutrina da imortalidade emerge
após lento processo de amadurecimento na fé israelita. Não é a
imortalidade da filosofia platônica, e, sim, uma imortalidade beatífi-

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ca; em outras palavras, a imortalidade do justo não é a consequên-


cia metafísica da imortalidade da alma, mas puro dom de Deus.
Essa imortalidade requer, pois, a comunhão plena com Deus,
que se concretiza na vida segundo a justiça (1,15). O autor da sabe-
doria está convencido de que o justo não vai para o mesmo lugar
do ímpio. Dessa forma, o justo alcança a imortalidade e permane-
ce vivo na história (4,1b; 8,13a). O ímpio, por sua vez, é abandona-
do no hades (inferno) (4,18-19).

7. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS
Realize, a seguir, as questões autoavaliativas desta unidade,
que têm por objetivo fazer que você perceba se o seu estudo des-
ta unidades está satisfatório. Caso ainda haja dúvidas, releia esta
unidade.
Nesta unidade, você conheceu um pouco mais do livro da Sabe-
doria. Leia com atenção Sb 6-9 e responda às seguintes questões:
1) Conforme Sb 6-9, como se relacionam Sabedoria e poder?

2) Para ajudar nesta tarefa: esteja atento ao que o texto bíblico diz sobre o que
é o poder, de onde ele vem, para que ele serve, a serviço de quem ele deve
estar e quais os perigos que deve evitar alguém investido de poder.

3) Todo ano de eleição, surgem "cartilhas políticas" elaboradas, principalmen-


te, pela Igreja Católica, discutindo aqueles mesmos problemas: o uso do
poder, a honestidade dos candidatos etc. Compare alguma dessas cartilhas
com o texto bíblico e veja como elas aplicam e atualizam Sb 6-9.

8. CONSIDERAÇÕES
Os judeus de Alexandria conviviam com a cultura grega: filó-
sofos, costumes e cultos religiosos. Sofriam a hostilidade dos pa-
gãos e, às vezes, perseguição aberta (Sb 2,12). Isso tudo constituía
uma ameaça à fé e à tradição cultural do judaísmo. Em resposta a
essa situação, o livro da Sabedoria propõe à comunidade judaica
que resista a isso.
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O autor do livro da Sabedoria, profundamente alimentado


pelas Escrituras e pela consciência histórica do seu povo, procura
afirmar a fé, sustentar a esperança e animar a comunidade para
que não se deixe seduzir pelas novidades de vida fácil, idolátrica e
injusta. Para alcançar esse objetivo, ele lança mão do patrimônio
histórico-religioso dos antepassados. Essa lembrança do passado
reforça a identidade do povo judeu, tornando-o capaz de resistir
no presente e caminhar com nova luz para o futuro.
Ao mesmo tempo, porém, o livro é endereçado aos pagãos
e com eles quer abrir um diálogo, a fim de instruí-los e guiá-los na
busca do verdadeiro Deus (o de Israel).
Enfim, cumpre notar que a doutrina da imortalidade beatífi-
ca do justo possibilita ao livro da Sabedoria dar um passo adiante
na questão acerca da validade da Teologia da retribuição. Provér-
bios e Sirácida (Eclesiástico) diziam que ela funciona; Jó e Qohelet
(Eclesiastes) diziam que não; Sabedoria pode afirmar: "funciona,
mas na outra vida".

9. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALONSO SCHÖKEL, L., VÍLCHEZ LÍNDEZ, J. Provérbios. Madrid: Cristiandad, 1984. (Nueva
Biblia Española - Sapienciales, 1).
BROWN, R. E.; FITZMYER, J. A.; MURPHY, R. E. (Eds.). Novo comentário bíblico: São
Jerônimo – Antigo Testamento. São Paulo: Academia Cristã/Paulus, 2007.
CRB. Sabedoria e poesia do povo de Deus. São Paulo: Loyola, 1993. (Tua Palavra é Vida, 4).
MORLA ASENSIO, Víctor. Livros sapienciais e outros escritos. São Paulo: Ave Maria, 1997.
(Introdução ao estudo da Bíblia, 5).
RAVASI, G. Sapienza (Libro della). In: ROSSANO, P.; RAVASI, G.; GIRLANDA, A. (Eds.). Nuovo
Dizionario di Teologia Biblica. Cinisello Balsamo: Paoline, 1988.
JOSEFO, F. Guerra Judaica II. 487.
VÍLCHEZ LÍNDEZ, J. Sabedoria e Sábios em Israel. São Paulo: Loyola, 1999. (Bíblica Loyola, 25).
______. Sabedoria. São Paulo: Paulus, 1995. (Grande Comentário Bíblico).

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