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O meio-tom como elemento de informação da imagem impressa: da retícula Em contraposição à retícula convencional analógica, a partir de meados da década de

convencional à retícula estocástica 1980, o desenvolvimento da informática e das tecnologias digitais trouxeram uma reformulação
do processamento da imagem impressa viabilizando comercialmente o projeto da retícula
Halftone as an information element of printed image: from conventional halftoning estocástica.
to stochastic screening.

Washington Dias Lessa, Helena de Barros. Retícula convencional analógica


O princípio de fragmentação da imagem para impressão teria sido anunciado nos experimentos
do inglês William Henry Fox Talbot, um dos precursores da fotografia. Em 1852, Talbot já
mencionara a introdução de uma malha trançada com linhas opacas finas, entre o negativo e
uma chapa fotográfica, no processo de exposição, a fim de obter chapas com pequenas
Palavras-chave
partículas formadoras do meio-tom para impressão. Vários experimentos subseqüentes nesse
Imagem impressa, tom-contínuo, meio-tom, retícula, tecnologia de visualização sentido, realizados em paralelo por diversos inventores são bem descritos por Eder (1978: 626-
636) destacando-se a invenção da Autotipia, gravação de chapas com meio-tom pelo alemão
Resumo Georg Maisenbach, patenteada em 1882.
Tão antiga quanto a impressão é a busca de soluções para a representação do tom contínuo nas imagens Na Autotipia, Maisenbach gerava um diapositivo fotográfico de meio-tom expondo um
impressas. O paradigma inicial desta aspiração é a pintura do Renascimento e sua técnica de negativo à luz de um ampliador fotográfico, numa seqüência de exposições, sobre material com
chiaroscuro. Porém no século XIX a invenção da fotografia coloca um novo patamar para a busca de
soluções. O desenvolvimento da tecnologia fotomecânica e da retícula convencional possibilita a
sensibilização de alto contraste (capaz de produzir apenas gravação de preto absoluto,
multiplicação industrial de imagens em tom contínuo. Hoje a tecnologia digital de impressão, onde se deixando as áreas com pouca exposição de luz não gravadas). Depois da primeira exposição,
destaca o desenvolvimento da retícula estocástica, vem recolocar a questão da qualidade na simulação se intercalava uma trama negra de linhas paralelas simples entre o negativo e o material
do tom contínuo. sensível, respeitando o registro entre ambos. Depois da segunda exposição a trama era girada
em determinado ângulo e se fazia uma terceira exposição. O diapositivo resultante em vez de
Keywords uma imagem de tom contínuo, se compunha de superfícies brancas, pontos, linhas e linhas
Printed image, continuos-tone, halftone, screening, visualization technology cruzadas. O processo possibilitava a gravação direta sobre a chapa de metal pré-sensibilizada,
da qual mediante a ação de ácidos, se obtinha um clichê em relevo para impressão em prensa
Abstract tipográfica (Riat, 2006: 48-49). A tipografia figurava como forma de impressão mais utilizada na
The search of solutions for the representation of continuous-tone in printed images is as old as press. época, seguida pela litografia em pedra, que, aprimorada, se consagraria posteriormente como
Renaissance painting and its chiaroscuro technique initially stands as a modell to be translated in printing o sistema off-set.
terms. But in 19th century photography points to the need of new solutions. Development of
photomechanical technology and conventional halftoning increases the industrial production of continuos- Apesar de revolucionário, o processo da Autotipia só se veria plenamente solucionado com
tone images. Digital technology of printing, including the development of stochastic scrreening, puts in new a introdução da retícula de linha cruzada pelo americano Frederick Eugene Ives em 1886.
terms the quest for quality in simulation of continuous-tone.
Ives empenhou-se em pesquisas desde 1881 no laboratório fotográfico da Universidade de
Cornell, Filadélfia, tentando encontrar meios fotográficos para produzir chapas de impressão
gravadas. Em vez de trabalhar com uma única trama (que no caso de Maisenbach eram
negativos fotográficos obtidos a partir de um desenho em papel), a retícula de linha cruzada se
Introdução utilizava da sobreposição de duas placas de vidro gravadas com linhas paralelas, cimentadas
uma contra a outra, de modo que pudessem se cruzar em ângulo reto. Colocadas numa
A imagem impressa sempre esteve associada à busca de soluções para a reprodução do tom- câmera especial, entre o negativo e a chapa sensibilizada, as telas se cruzavam 90º durante o
contínuo. Nenhum tipo de impresso é capaz de apresentar gradações tonais, sem se valer de processo de exposição do negativo, em duas únicas exposições, produzindo um reticulado de
artifícios que dividam a imagem em fragmentos de tom uniforme que, graças a uma ilusão de forma mais objetiva e eficaz.
ótica, são percebidos como superfícies de variação tonal contínua. A partir do século XV as
hachuras cruzadas da xilogravura e da gravura em metal emulavam o claro-escuro da pintura As telas de vidro concebidas por Ives seriam aprimoradas e produzidas pela empresa de
renascentista. Sucedem-se ao longo dos séculos os delicados padrões lineares, ponteados e Max Levy, também na Filadélfia. Famosas por sua alta qualidade, sem concorrentes por um
texturas, o recurso à granulação da pedra litográfica no século XIX, técnicas de pontilhado e da longo período, as placas de vidro produzidas por Levy eram tratadas com uma cobertura
transposição de padrões gráficos, como a técnica de sombreamento de Ben Day etc. protetora resistente à ácidos, linhas paralelas eram riscadas nessa superfície com uma
(Gascoigne, 2004: 1a-6e, 63). máquina e aprofundadas pela ação do ácido fluorídrico, a cobertura era removida com
solventes e as linhas eram preenchidas com resina preta, finalizando com o polimento da
Mas no marco da Revolução Industrial, o grande desafio para a reprodução de imagens superfície da chapa. O resultando garantia linhas perfeitamente definidas numa superfície
surge com a invenção da imagem técnica instantânea, a fotografia, e a demanda recorrente do rígida, durável e eficiente. Colocadas no mercado em 1888 as telas de cristal de Levy, com
padrão foto-realista. Embora o processo fotográfico, considerando custo e tempo de realização, algumas variações de trama e diversas espessuras de linha, alcançaram grande sucesso
representasse a uma democratização da pintura retratística em miniatura, a seriação que ele comercial e colocaram Ives como o fundador do processo de meio-tom moderno (Eder, 1978:
possibilitava ainda tinha um caráter artesanal, não compatível com as impressões em escalas 633).
progressivamente maiores, pedidas pelo crescimento industrial e pelo aumento do mercado
consumidor. A principal característica da retícula de linha cruzada é a variação de tamanho do ponto
dentro do módulo determinado pela trama, por isso a chamamos também de retícula de
A reprodução de imagens fotográficas em escala industrial se tornaria viável com a amplitude modular (AM). Os pontos de uma retícula AM se apresentam posicionados numa
adaptação da técnica artesanal fotoquímica para procedimentos fotomecânicos, no que se grade geométrica fixa eqüidistante. A densidade espacial dos pontos é dada pela lineatura,
convencionou chamar de processamento de meio-tom ou retícula: pequenos pontos, dispostos número de linhas por área, medida usualmente em linhas por polegada (LPI, lines per inch) ou
com regularidade geométrica, que formam a imagem impressa, simulando luz e sombra Linhas por centímetro (LPC, lines per centimeter), que indicam a distância entre as linhas da
através da variação de tamanhos relativos. tela utilizada e resultam conseqüentemente na distância entre os eixos dos pontos formados.
Quanto mais fina for a retícula, mais nítida e detalhada parecerá a imagem. Lineaturas altas O acesso à imagem e à referência fotográfica para o grande público, se veria então
são indicadas para papeis lisos, de pouca porosidade, que ofereçam ótima qualidade de irreversivelmente conectado à modulação mecânica geométrica, que, mesmo se não percebida
reprodução. Inversamente, lineaturas mais baixas são usadas no caso de papéis porosos, que aos olhos do observador comum, participa da gênese da imagem impressa.
absorvem muita tinta, e acabam borrando a imagem. Convencionalmente utiliza-se retícula de
Tal foi a difusão e banalização da imagem através da retícula fotomecânica, em revistas
75 LPI para impressão em papel jornal, de 133 a 150 LPI para papéis de boa qualidade e 175
ilustradas, quadrinhos, anúncios, livros e posters, que esta se tornou emblema da cultura de
linhas ou superior para a chamada impressão de arte.
massa. Na década de 1960 a Arte Pop americana, destacando-se o trabalho de Lichtenstein,
Esta tecnologia foi massivamente utilizada pela indústria gráfica nos 100 anos representa pontos de retícula na pintura.
subseqüentes à sua invenção. As adaptações feitas nesse período consideraram a otimização
de custos e produção, mas não alteraram o conceito tecnológico, comprovando sua eficiência.
A mudança mais significativa foi o desenvolvimento da retícula de contato em meados dos Processamento digital
anos 1940, que substituía o cristal por uma película de filme com uma trama de pontos de
densidade variável, os quais apresentam um núcleo opaco e um esfumaçado gradual para as A pesquisa industrial na área da eletrônica a partir do pós-guerra impulsionou o
bordas que varia do muito claro a escuro, quando perto do centro. desenvolvimento de computadores, monitores, softwares, scanners e lasers que seriam
amplamente empregados pela indústria gráfica posteriormente. Os primeiros scanners
A micro-estrutura de uma autotipia pode mostrar formas muito diferentes, dependendo do eletrônicos experimentais datam do final da década de 1930 e o primeiro método eletrônico
tipo de abertura do diafragma, no caso das retículas de cristal, ou de características da bem sucedido de separação de cor direct-to-plate (direto-para-chapa) foi realizado por Rudolf
estrutura da trama, de modo geral. As retículas de contato ofereciam pontos de várias formas Hell em 1957 (Field, 2004).
(quadrado, redondo, elíptico), tramas de linhas, de grão e até estruturas fantasia (Riat, 2006:
57-58). A eletrônica sai da esfera experimental e científica para alcançar a sociedade como um todo
no início dos anos 1980, com a entrada no mercado dos computadores pessoais, o IBM PC
Inicialmente concebida para impressão em preto e branco, a autotipia seria, em 1894, (Personal Computer) em 1981 e o Macintosh da Apple em 1984 (Riat, 2006: 200). É também
recomendada por Ives também para impressao em tricromia, com base na síntese aditiva nesse período, que a indústria gráfica passa a fazer uso corrente da tecnologia digital para
demonstrada pelo físico James Clerk Maxwell, em 1861. Acrescido posteriormente de uma gravação dos filmes, justificada por sua maior eficiência, rapidez e controle, substituindo
quarta cor preta, em função da otimização da impressão e economia de tinta, o padrão da gradativamente o processo de gravação analógica. O progressivo aumento no uso de
quadricromia em tintas transparentes e sobreimpressas nas cores primárias subtrativas cian, computadores e softwares gráficos, na impressão, pré-impressão, editoração e tratamento de
magenta, amarelo e preto (CMYK - Cian, Magenta, Yellow, BlacK) se estabeleceria até os dias imagens, modifica métodos de trabalho e processos projetuais.
de hoje para impressão colorida de modo geral. Para equacionar as retículas das quatro cores,
de forma a produzir todas as cores do espectro cromático, é gerada uma chapa para cada uma O contexto que se delineia como ‘revolução digital’, traria repercussões tecnológicas para a
delas, que deve se posicionar obrigatoriamente num eixo fixo dado. Convencionalmente utiliza- indústria gráfica quase tão profundas quanto a introdução da tecnologia fotomecânica.
se 15º no cian, 45º no preto, 75º para o magenta e 90º para o amarelo, formando um padrão Há que se considerar os pré-requisitos tecnológicos de transformação na cadeia produtiva
geométrico modular nomeado de roseta. Se alguma das cores não estiver na angulação do sistema gráfico digital. Este compreende não só os fatos citados, mas aspectos específicos,
precisa ou apresentar-se fora do registro com as outras, nota-se a configuração de padrões como a introdução de uma linguagem computacional unificada de descrição de páginas, capaz
geométricos distorcidos e indesejáveis, chamados de moiré (Field, 2004 e Riat, 2006: 176- de exibir uma representação bidimensional na tela de um monitor ou encaminhá-la para
178). impressão (a linguagem postscript foi desenvolvida pela Adobe em 1982); e os interpretadores
Vale dizer que dentre as transformações ocorridas na indústria gráfica, o processo de de linguagem postscript, capazes de converter a linguagem computacional numa imagem
gravação direta de chapas foi sendo substituído pela gravação de um filme positivo, que ficou rasterizada para impressão em papel ou filme fotográfico, conhecidos como RIP (Raster Image
conhecido como fotolito, e nada mais é do que a matriz reticulada de imagem e texto em Processor). RIPs são softwares embutidos nas impressoras digitais de alta qualidade, como as
película fotográfica de alto contraste, que se copia sobre a chapa por contato. imagesetters usadas para gravação de fotolitos (Taylor, 1998: 1-4).

A retícula é utilizada não apenas na reprodução de fotos de tom contínuo. Em diversas De maneira simplificada, quando se digitaliza uma imagem de tom contínuo, se faz uso de
lineaturas e em diversos padrões (pontos, linhas de diversos tipos, xadrezes etc), podiam ser dispositivos de entrada (scanners e atualmente também de câmeras fotográficas digitais) que
aplicadas em áreas localizadas da imagem ou da página. Este tipo de recurso foi capturam luz e cor em unidades matriciais quadriculadas (pixel, picture element). Nesse
particularmente usado na metade do século XX, e, assim como as mídias de sombreamento processo, a imagem passa por duas etapas simultâneas de modulação. A primeira, chamada
usadas na cromolitografia do século XIX, genericamente chamado de ‘Ben Day’. Consistia em de amostragem, determina de quantas unidades mínimas cada área será composta,
filmes transparentes, produzidos industrialmente, que eram aplicados sobre a arte-final a ser mensurado pela resolução espacial, normalmente indicada em pixels por polegada (ppi, pixels
fotografada (Gascoigne, 2004: 63-64). Segundo a mesma lógica, até hoje tonalidades per inch). A segunda etapa, chamada de quantização, determina o número de tons e cores
homogêneas são obtidas a partir de retículas planas no sistema quadricrômico. passível de ser assumido por cada pixel da imagem, mensurado pela ‘resolução tonal’ ou
‘profundidade de cor’, medida em bits por pixel (bpp, bits per pixel). No processamento para
A tecnologia empregada na retícula de amplitude modular foi responsável por uma grande saída da retícula digital, esses valores espaciais e cromáticos de intensidade contínua são
economia de custos e agilidade na gravação de matrizes, possibilitando a popularização da reinterpretados pixel a pixel pelo RIP da imagesetter, determinando a separação de cores em
imagem impressa. Segundo Frank Luthr Mott em Uma História das Revistas Americanas (apud filmes distintos e processando conversões de tom para um só bit (preto).
Phillips, 1996: 8), no final da década de 1880, a preparação de uma chapa em xilogravura para
página inteira, custava cerca de US$300,00. Alguns anos depois, com a introdução do O processo de filtragem que gera essas conversões é conhecido como dithering de
processamento de meio-tom, uma página de formato aproximado poderia ser preparada por quantização de dois níveis (1 bit) e é coordenado por equações matemáticas chamadas de
menos de US$20,00. Pela primeira vez imagens de todo tipo, inclusive fotográficas, se algoritmos. Cada algoritmo de dithering é capaz de gerar retículas com características visuais
tornavam freqüentes em dezenas ou centenas de milhares de impressos, como exemplificado diferentes, cada um com suas vantagens e limitações. (Gomes e Velho, 2002: 205-208)
pelas revistas ilustradas norte-americanas ao custo de apenas US$0,10 a unidade, que No dithering há uma troca de resolução de tonalidade por resolução espacial. A grid de
circulavam na década de 1890. “No final da década de 1880, noventa porcento da revista pixels existente na imagem digital original é subdividida numa grid correspondente de maior
Harper’s era ilustrada por xilogravuras. No final da década de 1890, a Haper’s havia resolução espacial, onde cada célula é formada por um número x de pixels, dependendo da
abandonado a tecnologia de xilogravura e era completamente ilustrada apenas por meios resolução do dispositivo. O padrão de pontos reticulado é criado pela marcação binária de
fotomecânicos” (ibid: 45).
alguns pixels na matriz de cada célula (1 = preto), deixando outros não marcados (0 = branco), Em abril de 1993, no seminário de Seybold em Boston duas tecnologias de retícula
baseado no limiar do percentual de luminância do pixel original. estocástica são oficialmente disponibilizadas para o mercado gráfico: a Linotype-Hell anuncia o
software Diamond Screening enquanto a Agfa anuncia a Crystal Raster (www.sells.com).
O algoritmo mais comum é o de dithering por aglomeração, que gera um resultado análogo
ao que se obtém no processo tradicional de meio-tom com tela reticulada, num padrão que se Este novo método de processamento de meio-tom prometia muitos avanços. A retícula de
repete periodicamente, ora aumentando, ora diminuindo a área do aglomerado de pixels (ibid: freqüência modular, além da reprodução superior de tonalidades e detalhes, torna possível a
214). eliminação do padrão modular da roseta e, conseqüentemente, do indesejável moiré. A
ausência de eixos fixos pré-determinados, viabilizou também o desenvolvimento de propostas
Com a tecnologia digital desenvolveram-se diversos dispositivos de impressão com
de cor de alta fidelidade (HiFi color), que acrescentaram outras cores à seleção convencional
sistemas distintos de gravação da retícula, controlados pela matriz rasterizada. Destacam-se
em quadricromia. Um exemplo dessa aplicação é o Hexacrome, de seis cores da Pantone, que
as impressoras de pequeno porte, como as de tecnologia laser e jato-de-tinta, utilizadas na pré-
utiliza além do CMYK, um verde e um laranja, para a produção de imagens coloridas mais
impressão ou para realização de pequenas tiragens. Enquanto nas imagesetters, o ponto é
luminosas e vibrantes.
gerado por um foco de luz laser, que expõe a emulsão fotográfica na película de filme, nas
impressoras laser o ponto é gerado por uma carga eletrostática, que atrai o tonner para o Também pela ausência de angulações, a estocástica proporciona mais tolerância a desvios
papel. Nas impressoras jato-de-tinta, o ponto é formado por uma gotícula de tinta, borrifada por de registro entre as cores. A estrutura de conversão dispersiva de pixels viabiliza que a
impulsos térmicos ou elétricos da cabeça de impressão. digitalização de imagens seja feita com resolução um pouco mais baixa, em arquivos mais
leves e compactos, sem comprometimento da qualidade de impressão.
Mas apesar da perspectiva promissora, assim como aconteceu com a experiência de Max
Retícula de freqüência modular (retícula estocástica) Perlmutter, a retícula FM não conseguiu se estabelecer no mercado na sua primeira investida
Ao contrário da retícula de amplitude modular (AM), que utiliza pontos de tamanho variável em função das rigorosas condições de controle de produção que esta exigia. Além do alto
posicionados num eixo fixo, a retícula de freqüência modular (FM), aplica pontos muito investimento financeiro na compra dos softwares e maquinário específico, é preciso equacionar
pequenos de um mesmo tamanho, distribuídos irregularmente com mais ou menos densidade uma série de fatores como estabilidade química no processamento das chapas, alta qualidade
de pontos, de acordo com a luminância da imagem. de insumos (tintas, chapas, blanquetas, papéis, etc.) e rigoroso controle de fluxo no processo
de impressão.
Desde a criação do método convencional de processamento de meio-tom com a interposição
de telas reticuladas, a idéia de se usar telas granuladas livres do gradeado geométrico também O maior problema estava relacionado com o diminuto tamanho de ponto usado na
veio à tona. Muitos desses experimentos, alguns bem sucedidos, foram feitos na virada para o estocástica de 20 ou 10 micra (equivalente à espessura de meio fio de cabelo). As provas de
Século XX. pré-impressão analógicas baseadas em filme (prelo, cromalim etc.) não se mostravam
compatíveis, seja pelo método manual de impressão ou por resíduos que produziam
Max Perlmuter, um foto-gravador de Viena, foi um dos precursores desta idéia e trabalhou irregularidades. Além disso, é comum que mesmo em se tratando de pontos de retícula
transferindo a granulação orgânica de uma pedra litográfica polida e entintada com tinta convencional, quando muito pequenos, em tonalidades abaixo de 5%, estes se percam na
gordurosa para uma placa de vidro, polvilhando-a a seguir com o mais fino pó de asfalto. Essa gravação do filme para a chapa. Com a estocástica, esse fenômeno se multiplica milhares de
placa, interposta à chapa durante o processo de exposição do negativo, produziu efeitos de vezes em todas as gradações tonais.
impressão bastante satisfatórios, exibidos na Exposição de Paris de 1900. Este e outros
métodos similares encontraram aplicações limitadas, pois eram bem mais difíceis de imprimir e Embora algumas gráficas no exterior tenham conseguido sucesso na sua implantação, a
não alcançavam resultados tão estáveis quanto a retícula de linha cruzada de Max Levy (Eder, maioria delas preferiu não apostar num sistema de alto investimento de recursos e treinamento
1978: 636-638). e retorno ainda discutível. A maior parte do público não era capaz de perceber suas vantagens
e durante a década de 1990, a estocástica esteve restrita a um seleto nicho mercadológico, em
Tempos depois, em 1965, o pesquisador e impressor Karl Scheuter da Universidade trabalhos que exigissem altíssima qualidade, como o comércio de jóias, produtos de beleza e
Técnica de Darmstadt, na então Alemanha ocidental, começa a estudar novas formas de artes plásticas (Dennis, 2000; Fenton, 2005; Hinderliter, 2006; Retícula, 2005).
reprodução de imagem. Afirmando que o nível de detalhamento e qualidade de uma imagem
impressa dependiam do número de pontos usados na sua reprodução, demonstra que a Mas mesmo sem garantia de sucesso comercial, a Agfa e a Linotype-Hell não foram as
prensa off-set poderia usar pontos menores que os tradicionalmente usados na prensa únicas a desenvolver a retícula estocástica. O diferencial da ausência de moiré e reprodução
tipográfica. Porém, nessa época ainda não se dispunha de computadores de alta performance com qualidade fotográfica, fez com que grandes fabricantes mundiais de imagesetters e RIPs
robustos o suficiente para o desenvolvimento prático da teoria (Dennis, 2000; www.sells.com). apostassem na tecnologia estocástica e desenvolvessem algoritmos com características
próprias. Entre eles pode-se citar a Harlequin, Optronics, Prepress Solutions, Scitex, Creo, Fuji,
Em 1978, dois alunos de Scheuter, Gerhard Fisher e Sibylle Golling, iniciam estudos de Heidelberg etc.
geração de algoritmos de processamento de imagem digital testando a idéia de freqüência
modular. Em vez do dithering por aglomeração, é usado um princípio oposto, de dispersão, que A fim de solucionar deficiências das primeiras versões de retícula FM, chamadas de
conceitua a retícula estocástica. Estocástico, do grego “stokhastikos” (habilidoso no objetivo), é primeira ordem, um novo padrão foi desenvolvido, denominado de segunda ordem. As
um termo matemático aplicado no dithering de difusão de erro, que significa “algo que depende estocásticas de primeira ordem estabelecem tonalidades com progressiva densidade na
ou resulta de uma variável aleatória”. freqüência de pontos, acompanhando valores tonais mais fechados. Entretanto, este tipo de
abordagem pode tornar as imagens com aparência excessivamente granulada nos tons médios
Em 1984 seria publicado por Scheuter e Fischer o artigo técnico “Imagem de freqüência e escuros. Estocásticas de segunda ordem utilizam algoritmos mais complexos que coordenam
modulada gravada por pixel de distribuição randômica” e o governo alemão concederia duas grupamentos de pontos em padrões orgânicos nas tonalidades médias, apresentando menos
patentes à Fisher e Golling. A primeira por um método autotípico de análise de valores tonais, e interferências visuais. A retícula Staccato da Creo é um exemplo de solução estocástica de
a segunda por produzir formas impressas com pontos distribuídos irregularmente. A segunda ordem.
universidade faz um acordo com a companhia alemã Hell Graphics, para pesquisa e
desenvolvimento das duas patentes. Posteriormente, Fisher e Golling continuariam pesquisas Outro artifício que passou a ser utilizado por alguns fabricantes tem a capacidade de
para algoritmos mais eficientes e velozes na empresa Bilda, da DuPont, que depois seria modificar o tamanho do ponto. Assim é possível controlar excessos de ruído ou obstruções e
vendida para a Agfa. impedir também que se formem pontos muito pequenos, concentrando três ou mais pixels ao
que se chama supercélula (supercell). A Brilliant Screens da Adobe é uma retícula estocástica
com pontos de tamanho controlado por supercélula. A Agfa oferece uma versão da Crystal
Raster de 80 micra, enquanto a Linotype-Hell oferece a Diamond Screening com pontos de 300 Os recursos disponíveis em cada marco técnico se manifestam nas concepções gráficas e
micra, para flexografia. estilos de cada época. Assim como a retícula fotomecânica caracteriza boa parte da estética
gráfica da primeira metade do Século XX, repertórios de cor e definição ampliados pelas novas
O tamanho do ponto pode ser determinado também de acordo com os valores de
tecnologias de retícula e computação gráfica acabam motivando uma vertente estética atual na
luminância, assim como na retícula de amplitude modular, mas não necessariamente
direção de um hiper-realismo supra-real. A tecnologia digital, seja com base na amplitude ou na
posicionado-os em ângulos fixos A conjugação de pontos com distribuição estocástica mas de
freqüência modular, aproxima a retícula de uma escala microscópica e da lógica atômica, no
tamanho variável é chamada de retícula híbrida. A Spekta da Fuji é uma retícula híbrida que
paradoxal objetivo de construir imagens tão ou mais reais que a realidade. Manifesta-se a
combina retícula FM com os pontos de tamanho variado criados por supercélula.
expressão máxima da visualidade pela invisibilidade da técnica.
A busca para aprimorar o desempenho da retícula também encontrou uma solução que tira
proveito do melhor de ambas tecnologias. A retícula AM, além de ser mais fácil de trabalhar,
apresenta passagens tonais mais suaves nos tons médios, enquanto a FM apresenta melhores
resultados e definição nos extremos de altas luzes e sombras. Assim, a retícula de modulação
cruzada (cross-modulated) conhecida também como XM, trabalha com pontos de amplitude Referências
modular em eixos fixos, apenas nas densidades medianas que se convertem gradativamente Livros
em pontos estocásticos dispersos e com o mesmo tamanho nas zonas tonais abaixo de 10% e
acima de 90%. São exemplos de retícula XM a Sublima da Agfa, a Samba, da Barco, a Eder, Josef Maria (1945). Republicado pela Dover Publications Inc., 1978). History of
Scripworks da Harlequin, ou a Prinect da Heidelberg. Photography. Nova York: Columbia University Press.

Paralelamente ao desenvolvimento de algoritmos de retícula, duas outras tecnologias Field, Gary G (2004). Color Essentials, Vol. 2: Color and Quality for the Graphic Arts and
começam a ser implantadas com sucesso no mercado gráfico mundial no final da década de Sciences. GATF.
1990. São elas o Computer-To-Plate (CTP, computador-para-chapa) e as impressoras jato-de- Gascoigne, Bamber (2004). How to Identfy Prints, Second Edition. New York: Thames &
tinta de alta qualidade. O CTP promove a eliminação do filme (fotolito), com a gravação digital Hudson.
direta de chapas de impressão a partir de arquivos digitais. As chapas geradas neste sistema,
apresentam nível de gravação de detalhes muito superior do que as gravadas a partir de Gomes, Jonas; Velho, Luiz (2002). Computação gráfica: imagem. Segunda Edição. Rio de
filmes, eliminando uma das restrições para os pequenos pontos da retícula FM. Janeiro: Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada – IMPA.

Por sua agilidade, economia e fidelidade cromática, as jato-de-tinta de alta qualidade, se Riat, M (2007). Técnicas Gráficas – Una introducción a las técnicas de impresión y su historia.
tornaram uma opção de provas digitais muito bem aceita, apresentando excelentes resultados Versión 3.00. Burriana: 2006. E-book disponível em: <http://www.riat-serra.org>. Acesso em
para pré-impressão conjugados ou não com o CTP. Como a tecnologia empregada na retícula 08 jan.
de toda jato-de-tinta é estocástica, esse tipo de prova funciona como estímulo para que o Sultan, Terrie (2003). Chuck Close Prints, Process and Collaboration. New Jersey: Princetown
impresso em off-set tenha as mesmas virtudes da prova. Tais acontecimentos propiciaram os University Press.
pré-requisitos necessários para a re-consideração da estocástica como alternativa viável no
começo do Século XXI.
A possibilidade de gravação de pontos muito pequenos, abre caminho também para novas Artigos e periódicos
retículas de amplitude modular com lineaturas muito altas, de 200 a 423 linhas, gerando Oliver, Garth R., Waite, Jerry J (2006). Demystifying the halftoning process: conventional,
rosetas imperceptíveis a olho nu, impensáveis antes do CTP. Assim, a possibilidade de manter stochastic, and hybrid halftone dot structures. The Tecnology Teacher. Virgínia: vol. 65, nº 8,
uma tecnologia com a qual os impressores já estão acostumados a lidar mas com qualidade de pp 22-26.
impressão fotográfica equivalente à estocástica se torna também uma possibilidade bastante
atrativa (Bartels, 2003; Dennis, 2000; Fenton, 2005; Hinderliter, 2006; Musselman, 2003; Taylor, Conrad (1998). A concise definition of Postscript. Conrad Taylor and Popular
Zebian, 2006). Communication Courses.

Conclusão Dissertações

Observando-se o desenvolvimento histórico de técnicas de elaboração de matrizes de Phillips, David Clayton (1996). Art for Industry’s Sake: Halftone Technology, Mass Photography
impressão – da incisão artesanal à fotomecânica e à tecnologia digital – voltadas para a and the Social Transformation of American Print Culture, 1880-1920. EUA: Yale University.
representação do tom contínuo, pode-se identificar duas tendências de comportamento em
termos de diretrizes de linguagem visual.
Artigos na Internet
Num primeiro momento, a xilografia e a gravura a buril consagram o cruzamento de
hachuras, que sugere volume a partir de padrões de natureza geometrizante. Segundo outra Bartels, Rudi (2003). Hybrid Screening, What It Will Do. TAGA Proceedings 2003. p. 647-663.
diretriz, outras técnicas de gravura e a litografia trabalham com ponteados e texturas mais Dennis, Anita (2000). CTP Breathes New life into FM Screening. Jan. Disponível em
orgânicas. Com a retícula de amplitude modular do final do século XIX consagra-se no contexto <http://www.seyboldreports.com>. Acesso em 21 mai. 2006.
industrial o padrão de estruturação geométrica de base plana. Mas contemporaneamente a
retícula estocástica coloca-se como uma nova busca de bases orgânicas de interpretação Fenton, Howie (2005). Printers reveal why adopting FM technology may not be worth it – or
visual. possible. Graphic Arts Monthly, ago. Disponível em <http://www.gammag.com>. Acesso em
20 mai. 2006.
Dois vetores balizam esta alternância: a) a busca por imagens que se façam onipresentes
através do maior número possível de reproduções, movimento que se torna imperativo a partir Hinderliter, Hal (2006). Head to Head Screens – Halftone: A Spotty Past And Checkered
da Revolução Industrial; b) a busca pela qualidade da reprodução. Present. Graphic Arts Monthly, nov. Disponível em <http://www.gammag.com>. Acesso em
08 jan. 2007.
Musselman, Steve (2003). AM, FM and New Alternatives - The Revolution and Evolution
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